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Rev. do M useu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 4\ 203-206, 1994.

MUSEU E EDUCAÇÃO: REFLEXÕES ACERCA DE


UMA METODOLOGIA

Denise Cristina P. Catunda Marques*

MARQUES, D.C.P.C. Museu e Educação: reflexões acerca de uma metodologia. Rev. do Mu­
seu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 4: 203-206, 1994.

RESUMO: Este artigo apresenta algumas reflexões sobre a prática


educativa desenvolvida pela equipe da Seção Educação do Museu de Arqueo­
logia e Etnologia da Universidade de São Paulo, no período compreendido
entre 1989 e 1994. Primeiramente, procura-se destacar os aspectos principais
da metodologia aplicada em alguns dos projetos para, em seguida, relacioná-
los a uma proposta ampla de educação em museu.

UNITERMOS: Educação - Museu - Arqueologia - Objeto.

A Seção Educação do Museu de Arqueolo­ heranças culturais do Homem brasileiro. O acer­


gia e Etnologia da USP desenvolve, desde 1989, vo era composto por peças arqueológicas do Me­
uma série de atividades junto ao público de l 2,2 2, diterrâneo e Médio-Oriente, América Pré-Colom-
e 32 graus, professores e, mais recentemente, jun­ biana e Brasil, além de peças etnográficas africa­
to a outros grupos da comunidade. nas e afro-brasileiras. A sala Paulo Duarte, do
As experiências desenvolvidas são marcadas antigo IPH, compreendia uma mostra sobre o co­
por diferenciadas formas de ação, que refletem a tidiano na Pré-História, com ênfase no processo
gama variada de abordagens adotadas pela equipe. de hominização e pré-história brasileira e uma
Formada a partir da fusão dos extintos Insti­ mostra sobre o cotidiano na Arqueologia (Bruno;
tuto de Pré-História e Museu de Arquelogia e Mello Vasconcellos, 1989).
Etnologia,1 a equipe teve, ao longo destes cinco Este fato fez com que as equipes também con­
anos, diferentes referenciais teórico-metodológicos tinuassem desenvolvendo a maioria de seus pro­
norteando os seus projetos. jetos separadamente, a partir de suas linhas origi­
Estas instituições situavam-se, coincidente­ nais de atuação. Estas diferenciavam-se substan­
mente, no mesmo prédio, mas mantiveram as suas cialmente, tanto em virtude dos referenciais
duas salas de exposição abertas e funcionando adotados, quanto pelo tipo de abordagem mu-
separadam ente até agosto de 1992. A sala seográfica das salas às quais estavam ligadas.
Marianno Carneiro da Cunha, do antigo MAE, Mesmo após o fechamento das exposições para
possuía uma exposição que buscava tratar das reformulação, em 1992, a atuação continuou nes­
tes moldes.
A exposição será reaberta em breve, em um
(*) Museu de Arqueologia e Etnologia da Universidade de outro espaço e sob uma abordagem conceituai e
São Paulo. museográfica que busca contemplar os diferentes
(1) A fusão envolveu, além das instituições citadas, o Museu
acervos reunidos com a fusão. Este fato traz con­
Paulista e o acervo Plínio Ayrosa, do Depto. de Antropologia
da FFLCH. Entretanto, apenas o Museu de Arqueologia e sigo novas problemáticas e novas possibilidades
Etnologia e o Instituto de Pré-História possuíam atividades de abordagens pedagógicas, o que me levou, como
educacionais, sendo desenvolvidas, sistematicamente, por integrante de projetos educacionais desde 1985, a
técnicos especializados. fazer uma reflexão das atividades até então de-

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senvolvidas por esta Seção, no sentido de se transformou, posteriormente, noMini-Curso para


explicitar alguns dos referenciais que as estive­ Professores, onde as questões acima citadas eram
ram direcionando. tratadas e onde se incentivou a troca de experiên­
A metodologia utilizada em grande parte dos cias educacionais a partir do universo do museu.
projetos permitiu que todas as atividades não su­ Ressalte-se que, nesta atividade, o professor tam­
bordinadas diretamente à exposição continuassem bém manuseava objetos e discutia questões refe­
a existir, mesmo durante o período de fechamen­ rentes a eles, aproximando-se, assim, da realida­
to, e que novas atividades fossem criadas. de a ser vivenciada pelos seus alunos.
Alguns dos projetos mantiveram a sua for­ Pode-se afumar que neste tipo de experimen­
ma original e outros passaram por algumas adap­ tação proposta, o processo de interpretação da do­
tações, como é o caso das chamadas Visitas Lon­ cumentação material é similar àquele desenvolvi­
gas. Estas têm suas raízes em um projeto desen­ do pelo arqueólogo em seu cotidiano.
volvido em convênio com a CENP em 1981/82 Outro desdobramento desta metodologia pode
(Hirata, 1985) e foram retomadas e reelaboradas ser percebido no projeto Museu Vai à Escola à
pela equipe da Sala Marianno Carneiro da Cu­ Noite. A partir da confecção de um kit didático,
nha.2 os alunos do período noturno seriam aproximados
Neste tipo de atividade, o diálogo com o edu­ do universo material contido no museu. Este kit
cando dava-se a partir de questionamentos feitos era composto por objetos (réplicas, objetos
com relação ao objeto, que é visto enquanto parte descontextualizados e/ou resultantes de trabalhos
material da realidade cultural de um povo. Tido de arqueologia experiemental), complementados
como documento, o objeto se toma fonte de infor­ por cartazes sobre as técnicas de fabricação e re­
mações, tanto em uma perspectiva de curta, quanto presentação do uso de algum objeto, além de um
de longa duração (Segai, 1994). Tais questio­ texto contemporâneo a ele. Esta complementação
namentos partiam da própria materialidade do possibilitava que se relacionasse o estudo do do­
objeto: sua forma, sua matéria-prima, a técnica cumento material representado pelo artefato com
empregada na sua confecção, a sua possível fun­ outros tipos de docum entos: o escrito e o
ção, para se chegar às particularidades culturais iconográfico.
do povo que o produziu. Neste processo, o edu­ Esta atividade era inicialmente desempenha­
cando descobria, de forma dinâmica e partici­ da pelos técnicos da Seção, tendo sido estendida
pativa, através do manuseio cuidadosamente aos professores através de um treinamento inten­
direcionado de artefatos, a “linguagem do docu­ sivo para o uso do kit. Capacitados, então, a tra­
mento material”, podendo, assim, estabelecer um balhar junto aos seus alunos, tomaram-se, de cer­
novo diálogo com os objetos expostos nas vitrinas ta forma, agentes multiplicadores, atingindo um
do Museu (Raffaini, 1993), uma vez que apreen­ número muito maior de pessoas do que aquele que
dia um novo processo de coleta e interpretação de poderia ter sido pela equipe de técnicos da Seção
dados. Educação. Para atender a esta nova demanda, vá­
As diferentes experiências realizadas com os rios outros kits foram confeccionados.
alunos demonstraram que não era apenas o edu­ Em função dos princípios básicos que
cando que precisava ser sensiblizado para este norteiam esta metodologia e seus diferentes des­
universo, mas, também, o professor. Além disso, dobramentos, inúmeras formas de atuação junto a
era necessário despertá-lo para uma série de ques­ seus públicos tomaram-se possíveis. É o que se
tões, não só acerca da cultura material, mas da nota tanto no projeto Crianças no Museu, para
Arqueologia, da Etnologia e do espaço do Museu. crianças de três a sete anos, quanto no da Tercei­
Foi proposto, por este motivo, um Laboratório ra Idade. Evidentemente, tanto um quanto o ou­
Pedagógico de Orientação ao Professor, que se tro passaram por adequações relativas não só à
faixa etária, mas também às especificidades dos
objetivos propostos para cada caso.
Estes projetos possuem um núcleo comum
(2) A equipe era composta pelas técnicas: Célia Maria Cristina
centrado na sensibilização pelo objeto (Hirata,
Demartini, Denise Cristina Peixoto Catunda Marques e Judith
Mader Elazari, sob a coordenação da Profa. Dra. Elaine F. 1985). Este é tomado como ponto de partida para
Veloso Hirata. uma série de reflexões que se inicia pelo estudo

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de sua dimensão material, desdobra-se na análise Ao analisarmos a ação educativa em museu,


de seu contexto de produção/utilização e desem­ devemos considerar as particularidades deste tipo
boca na sua inserção no espaço do museu. de instituição cultural, sem que, entretanto, nos
A educação em museu baseia-se especialmen­ deixemos limitar por elas. A atuação educacional
te nos objetos (Alencar, 1987; Greenhill, 1983). deve ser encarada a partir de uma concepção am­
Estes, entendidos como suportes materiais de in­ pla de educação, como uma prática social
formações, ao serem corretamente inquiridos e possibilitadora de transformações e mudanças
contextualizados, oferecem informações sobre si (Brandão, 1981). Assim, se considerarmos o as­
mesmos e sobre quem os produziu e/ou os utili­ pecto multifacetado e a natureza interdisciplinar
zou. Através da obrigatória contextualização por de uma instituição de caráter museológico, esta­
que passam, os artefatos podem ser inseridos em remos ampliando as possibilidades de desdobra­
uma ampla perspectiva da realidade cultural hu­ mentos educacionais.
mana, embora pareçam representar aspectos mui­ Neste sentido, outra contribuição dada pelo
to fragmentados da cultura de onde foram retira­ museu, que pode ser ricamente explorada, é a de
dos (Bucaille; Peses, 1989). conscientizar o indivíduo de que ele é herdeiro de
Ao retraçarmos com o educando o processo um patrimônio e de poder capacitá-lo a utilizar,
de confecção de um dado artefato, estamos possi­ preservar e também criar novas referências
bilitando a ele que compreenda a relação existen­ patrimoniais.
te entre o Homem e a Natureza e reflita sobre as O museu, enquanto espaço de educação não
respostas humanas dadas aos problemas enfren­ formal, não pode estar limitado a bases curriculares
tados nesta relação; e que, ao mesmo tempo, seja pré-estabelecidas. Pode, e deve, propiciar vivências
despertado e estimulado a pensar na sua própria diferenciadas das da sala de aula, tanto no aspec­
relação com o mundo que o cerca. to cognitivo, quanto no afetivo, para os mais vari­
Neste processo, os educadores que trabalham ados públicos que o freqüentarem.
com o universo do museu devem procurar aproxi­ A metodologia criada e desenvolvida pela
mar os visitantes de suas exposições, de seu acer­ equipe da sala Marianno Carneiro da Cunha, vem
vo, agindo, ora como mediadores/facilitadores, ora contribuindo para que esta visão de educação em
como instigadores/fomentadores e ora como elemen­ museu se tome uma realidade .
tos de síntese das questões levantadas e tratadas.

MARQUES, D.C.P.C. Museum and Education: reflections on a methodology. Rev. do Mu­


seu de Arqueologia e Etnologia, São Paulo, 4\ 203-206, 1994.

ABSTRACT: This work presents some reflections on education praxis


developped by the education team of the Education Section of Museu de
Arqueologia e Etnologia of São Paulo University, between 1989 and 1994.
Primarily it aims at focusing the most relevant aspects of the methodology
applied to some projects and then to relate them to an ample museum
education proposal.

UNITERMS: Education - Museum - Archaeology - Object.

Referências bibliográficas

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MARQUES, D.C.RC. Museu e Educação: reflexões acerca de uma metodologia. Rev. do M useu de Arqueologia e Etnologia,
São Paulo, 4: 203-206, 19944.

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Recebido p ara publicação em 25 de outubro de 1994.