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Conference Paper · October 2016

DOI: 10.13140/RG.2.2.26160.35841

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Gilbert Simondon para Engenheiros

(mesmo que os engenheiros não se interessem por ele)

José Antonio Aravena Reyes

não se interessem por ele) José Antonio Aravena Reyes Introdução Para muitos, a obra de Gilbert

Introdução

Para muitos, a obra de Gilbert Simondon nos obriga a pensar tudo de forma muito diferente daquilo que até hoje foi construído pelo pensamento dominante. A sua filosofia é uma verdadeira fonte de renovação e, como veremos, de muito valor para nós, da área técnica.

Há muito tempo que ando procurando uma inspiração filosófica que me permita elaborar um entendimento mais preciso sobre a engenharia e, embora conhecer as diferentes escolas filosóficas seja por si só um grande avanço nessa direção, Simondon se aproxima muito mais das intuições filosóficas que gente como nós, engenheiros, poderíamos desenvolver. Claro que não se trata de categorizar o entendimento que temos do mundo em função de sermos engenheiros ou filósofos, mas certamente os tecnólogos, e aí incluo os engenheiros, experimentam a técnica de uma forma existencialmente diferente dos demais seres. Isso não significa experimentar a técnica de forma superior ou inferior a outros seres, senão que simplesmente conota que nessa experiência, a percepção do técnico é realizada por um sujeito que lida diretamente com a produção daquilo que hoje entendemos por técnico. Por isso demonizar a técnica é tão difícil para nós, tecnólogos, pois a vivenciamos de forma direta, produzindo-a. Mas é também pela mesma razão que nos custa ver os nocivos efeitos que provoca na terra a forma da produção contemporânea dos objetos técnicos.

Bom, em suma, é importante tomar posição e o fato da filosofia ter bases frágeis entre os engenheiros não quer dizer que estes nunca tiveram (nem terão) nada a dizer sobre a técnica.

Gilbert Simondon para Engenheiros – José Aravena Reyes

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A virada empírica defendida pelo movimento de Delft, na Holanda, reivindica um espaço de

reflexão, alegando que é necessária uma filosofia da engenharia pensada desde dentro dela. Ou seja,

de certa forma, se reivindica que a leitura feita pelos filósofos da engenharia de tradição humanista

tem-se configurado de forma diferente daquilo que para os engenheiros poderia caracterizar o

estatuto do técnico.

Ora, se bem sabemos que grande parte das críticas dirigidas ao modo contemporâneo de produzir

os objetos técnicos mostra a fragilidade das bases epistemológicas nas quais se sustenta o

pensamento filosófico dos engenheiros, também sabemos que há na técnica um quadro epistemológico particularmente rico e extremamente útil para entender o homem e seus processos produtivos.

Assim, no domínio da reflexão humanista, poderíamos até coincidir com Heidegger em torno da veemente crítica que faz da técnica moderna, porém, seria injusto pensar que toda dimensão do processo técnico abre uma distância entre o homem e seu ser, pois de certa forma teríamos que aceitar como condição inicial que a técnica reside fora do homem dado que aí está o fundamento para sustentar o distanciamento denunciado pelo filósofo alemão.

Com efeito. Quando homem e técnica não são colocados em lados opostos, senão juntos, constituindo uma única e total experiência existencial, outra perspectiva se abre para a reflexão filosófica.

E nunca é tarde para refletir.

A filosofia foi expulsa do pensamento tradicional da engenharia por vários motivos e

aparentemente defender, em pleno século XXI, que não tem sentido sua retomada e incorporação dentro dos estudos da área mostra o primeiro erro do pensamento dominante, pois nunca antes foi

tão importante revisitar as bases que norteiam o modo contemporâneo de produzir os objetos

técnicos por parte dos engenheiros, dado que o impacto provocado pelo funcionamento de diversos objetos técnicos produzidos por eles tem se mostrado extremamente nocivo para a vida no

planeta.

Essa contínua degradação das condições de vida no planeta nos mostram que não está claro qual o sentido da evolução tecnológica que tanto nos enche de orgulho.

Hoje podemos pensar no Antropoceno 1 como um conceito que reflete todas as limitações que o modo contemporâneo de produzir objetos técnicos tem acarretado, em função dos seus, até agora, inquestionáveis princípios norteadores.

1 Termo inicialmente cunhado por Paul Krutzel (1985) para se referir às disrupções que o homem vem provocando no

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E digo até agora, pois essa talvez seja a maior contribuição de Gilbert Simondon para o

pensamento filosófico da engenharia: a de renovar as bases epistemológicas que o sustentam. Nessa direção, muitas afirmações que considerávamos inquestionáveis certamente aparecerão frágeis e até equivocadas. Acredito que nas bases filosóficas desenvolvidas por esse autor encontraremos uma

luz para muitas questões difíceis de serem respondidas sob as bases do paradigma dominante.

A Origem da Tecnicidade

O ponto de partida do pensamento de Simondon é o que ele chama de processo de individuação.

Vejam só.

A ontologia clássica fundamenta seus procedimentos sob a condição de que o ser ao qual se

debruça se encontra plenamente instituído como indivíduo, ou seja, já é um ser completo.

Simondon contesta esta premissa argumentando que todo ser possui um processo mediante o qual

se torna esse ser e exatamente é esse processo que se necessita conhecer para poder falar

plenamente do ser que se estuda. Portanto, a forma de conhecer os seres, para Simondon, se circunscreve em uma dinâmica na qual o ser se constitui no tempo, como devir, sinalizando que toda realidade individual possui uma condição pré-individual, que informa a constituição do individual como tal, enquanto este, por sua vez informa outra condição de existência chamada de trans-individual, quer dizer do indivíduo para além dele próprio. Nesse processo de transitar do pré-individual, passar pelo inter-individual e transcender no trans-individual, podemos encontrar o sentido do ser que a ontologia clássica não capta integralmente, uma vez que só se remete a analisar o indivíduo já constituído e não ao ser no seu devir.

Este ponto de partida está amplamente expresso na tese principal desenvolvida por esse autor no livro A Individuação à Luz das noções de Forma e Informação, publicado em 1958.

Mas, é em torno da tese secundária de Simondon que tentarei explicitar o fascinante e renovador que resulta ser seu pensamento filosófico para uma filosofia da engenharia. Essa tese se encontra

no livro O Modo de Existência dos Objetos Técnicos publicado também em 1958.

Como vocês podem observar, o tema da segunda tese de Simondon é a técnica, e a riqueza da sua análise é impressionante. Para começar pelo resgate que ele faz do papel do objeto técnico como objeto cultural, denunciando o primeiro grande recorte feito pela tradição moderna que, ao separar homens e natureza, dispôs, arbitrariamente, que a técnica não tinha lugar na cultura, destituindo-a

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de qualquer realidade humana e jogando-a no domínio do natural, na forma de um não-humano

que funciona dentro do particular modo de ser estudado pelas ciências da natureza. Hoje, esse pensamento parece ser uma questão superada por vários setores que desenvolveram uma ampla compreensão sobre a existência de um universo homens-coisas que não reproduz essa separação clássica entre o humano e o não-humano.

A defesa do objeto técnico como objeto cultural só mostra o fôlego que tinha Simondon ao

contextualizar o ressentimento gerado pelo humanismo de meados do século passado perante a técnica. Embora tal contextualização seja importante, a questão mais relevante do pensamento de Simondon não se encontra nessa afirmação, senão nas mais de duzentas páginas que explicam a condição técnica como algo que esta para além da instituição do artificial, quer dizer, de algo produzido pelo homem; a condição técnica descrita por Simondon posiciona o homem junto com a técnica e a partir disso é que ele analisa o conjunto de forças vivas que intervêm para constituí-lo, fornecendo um novo quadro de análise para tecnicidade, a natureza e evolução dos objetos técnicos e sua relação com os homens.

Para realizar tal tarefa Simondon se apoia na unidade do real, como lugar sem categorias; o mundo

tal e como se experimenta originalmente; sem formas nem ideias.

Este lugar originário é um mundo mágico como unidade primitiva; um mundo ainda sem nenhuma explicação, sem nenhuma interpretação guiada por nenhuma categoria da consciência. Se constitui numa única zona onde não há sujeito nem objeto, matéria e espírito, alma ou natureza. É como o universo da criança, onde tudo ainda esta longe de configurar em termos de categorias e onde a pura intuição é a que estabelece a relação com o mundo.

O que existe então?

Como podemos justificar o mundo tal e como o conhecemos hoje? Como podemos falar da árvore

ou da nação se na unidade mágica primitiva não há nenhuma categoria ainda?

A resposta de Simondon é que o único que existe são processos de individuação, quer dizer, os

processos que constituem as categorias; e são exatamente esses processos que permitem sair do universo mágico e entrar em outros modos existenciais.

Eu poderia dizer que se trata só disso; de explicar como se constituem para o homem as realidades que vivencia existencialmente. Neste ponto a ontologia clássica certamente é conflitiva, pois se o mundo mágico se encontra na unidade do real, na totalidade de todos os seres e se ele se constitui como fonte originária de todo sentido, se torna muito difícil congelar esse mundo para obter os seres estáveis das categorias absolutas da ontologia clássica.

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Como o mundo mágico se torna experiência originária para o homem no seu próprio devir, nem o

homem nem o mundo mágico podem ser congelados para obter as categorias puras. Por isso se fala

de processos, pois nessa perspectiva está implicada a dinâmica desse mundo e a dinâmica que o

homem experimenta dele: é nesse movimento de ambos que os seres se individualizam.

O que Simondon faz é lançar mão da unidade do real para dizer que os seres se individuam a partir

daí. O movimento de sair da unidade mágica primitiva, como totalidade da experiência existencial, para a constituição de realidades que passam a existir separadamente, se efetua mediante

desdobramentos ou defasagens da primeira.

O conceito de fase é usado por Simondon para mostrar que ao se desdobrar, uma realidade

separada não apresenta nenhuma condição de verdade ou realidade completa, senão que sempre é

ou está em relação com as outras, ou melhor, com o seu meio. De fato, o argumento de Simondon

é que toda realidade que se desdobra a partir da unidade mágica primitiva sempre será uma

realidade relativa que não existe separada do seu meio, pois o ser individuado (ao se individuar) não

esgota sua condição pré-individual. Em outras palavras, cada vez que um ser se individua, ele se estabelece sempre em relação com aquilo que não se individua.

Simondon faz questão de pensar em fases para usar uma representação que serve para mostrar que

a individualidade de uma fase não anula nem se sobrepõe ao resto das fases, pois todas elas formam

o conjunto de relações de um mesmo ser, quer dizer, elas são fases de um ser que não se esgota na fase e com o qual a fase estabelece as suas relações.

Todo isto forma a base filosófica de uma ontogênese particular dos indivíduos que Simondon desenvolve e que usa para falar da técnica na sua tese secundária.

Agora sim estamos em condições de entrar no território da filosofia da técnica simondeana, pois a unidade entre técnica e cultura, entre humano e não-humano ou entre matéria e forma que o autor reivindica, é encontrada na unidade mágica primitiva e a explicação para a realidade técnica se encontra na explicação da defasagem dessa unidade originária.

Como a unidade mágica primitiva se desdobra em realidade técnica?

Bom, Simondon argumenta que a Teoria da Forma (Gestalt) nos pode dar uma ideia desse processo quese encontra inscrito no devir da relação entre o homem e o mundo.

Vejamos.

Para começar, se não houver nenhuma reticulação no mundo mágico, então não haveria sentido em pensar o homem em termos de tempos e lugares, uma vez que ele existiria em um contínuo sem distinções de qualquer natureza espacial ou temporal. Portanto, a configuração inicial do mundo

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mágico seria a de uma reticulação do tempo e do espaço, onde se colocariam em evidência lugares e momentos existencialmente privilegiados; pontos figurais que concentram e extraem a força do fundo que dominam. Figura e fundo, no mundo mágico, correspondem à organização básica do ser vivo num determinado modo de existir. A figura concentra um poder de realidade sobre o fundo que ela governa. É mediante esse lugar privilegiado que dotamos de realidade ao fundo de onde a figura emerge.

Esta relação entre figura e fundo representa então, um modo de existência humana; um modo de

existência que permite mediar a relação do homem com o mundo; assim ele penetra no mundo:

mediante a realidade que condensam os lugares privilegiados. Simondon utiliza a metáfora do vale para explicar este modo existencial: no vale, o cume mais alto permite dar conta da realidade da floresta mais inacessível, porém é nessa última que reside toda a sua realidade; dessa forma, o mundo mágico está feito de lugares privilegiados que possuem poder, mas que também dependem

de outras coisas (lugares, por exemplo) que têm poder.

A totalidade do homem e o mundo então é composta por uma rede de pontos privilegiados na qual

homem e meio se encontram para realizar seus intercâmbios existenciais. Aí, o estranhamento mútuo é dissipado e convertido em experiência existencial singular.

A experiência existencial singular de penetrar o mundo através dos lugares privilegiados ainda

contempla como condição sine qua non a existência da relação desses lugares com o fundo do qual são privilegiados. Ainda existe a figura e seu fundo como experiência existencial plena. Em nenhum

momento o lugar passou a ter realidade própria, se esquecendo ou se separando do mundo que ainda é o depositário da sua realidade.

Quando a unidade mágica primitiva se desdobra devido ao distanciamento que se produz entre os lugares privilegiados e seu fundo, ou seja, quando figura e fundo se desprendem da sua unidade mágica primitiva, se institui uma nova realidade: a realidade técnica.

Mas não é só isso. A filosofia de Simondon nos obriga a pensar na outra parte, aquela que não se individua como técnica. Esta outra realidade é a religião, não como profissão de fé, senão como realidade religiosa que tem como origem o desdobramento da unidade mágica primitiva em função

da

separação de figura e fundo.

O

primeiro desdobramento da unidade primitiva mágica em realidade técnica faz surgir, junto com

esta, a realidade religiosa. Por um lado, a técnica opera sobre os lugares privilegiados –as figuras–

enquanto a religião opera sobre o mundo –o fundo–.

Se por um lado temos os pontos-chave de acesso e por outro o mundo ao qual eles se relacionam,

seu distanciamento provoca uma defasagem onde ambos perdem poder de influência um sobre o

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outro, dando origem a essas duas realidades. Essa defasagem deve ser entendida como um adensamento das realidades particulares desprendidas. Por um lado, a realidade técnica (ou tecnicidade), como adensamento que acompanha as figuras que se desprendem da unidade mágica e por outro, a realidade religiosa (ou religiosidade), como adensamento que acompanha o fundo dessas figuras. De um lado, as figuras, agora na sua existência técnica, perdem a sua relação com o fundo do qual eram lugar privilegiado e se configuram transportáveis, de princípios aplicáveis em qualquer tempo e qualquer lugar: elas flutuam por cima do mundo; do outro lado, o desprendimento da figura da sua unidade mágica libera o mundo que se universaliza e se torna abstrato, pois não é mais mundo do lugar privilegiado específico que se desprendeu. Ele se constitui como fundo, quer dizer como um lugar homogêneo, contínuo, de natureza ubíqua e eterna. É uma zona de influência constituída de elementos indistintos, porém, com o poder suficiente de afetar tudo.

É assim que se explica a gênese do técnico.

Simondon nos apresenta o desdobramento da unidade mágica primitiva como sendo originária da tecnicidade ou realidade técnica (e da religiosa). A realidade técnica em si mesma, constituída mediante uma perspectiva figural, quer dizer, voltada para os indivíduos técnicos –porque doadora de processos de individuação nessa realidade–, começa a mediar a relação entre o homem e o mundo através dos objetos técnicos. Em outras palavras, mediante processos objetivantes pelos quais os indivíduos técnicos se constituem em objetos técnicos.

Desse ponto em diante, desde a sua particular (pré)ontologia dinâmica ou baseada no devir, Simondon se dedica a explicar como a tecnicidade se manifesta nos objetos técnicos.

Com efeito. Dado que a tecnicidade possui uma dimensão dinâmica, a abordagem dos objetos técnicos não é feita considerando eles como objetos constituídos e completos, senão, como seres em movimento, que possuem gênese e evolução. A descrição de um objeto técnico como uma fotografia do ser no tempo é imediatamente descartada por Simondon, fato que o levará a elaborar uma complexa e consistente ideia do objeto técnico em seu devir.

Bom, neste momento acredito ser importante fazer um parêntesis em relação a certas premissas que são necessárias para continuar o estudo do objeto técnico no seu devir.

As premissas às quais me refiro aqui são consequências do princípio da individuação elaborado por Simondon para este estudo; não são premissas do seu pensamento. Em outras palavras, elas serão, neste estudo, um tipo de condição estruturante para compreender melhor a tecnicidade simondeana.

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Para começar, vamos considerar que o objeto técnico para nosso autor não é somente matéria organizada segundo uma certa estrutura que executa um conjunto de funções específicas. No contexto dinâmico estabelecido na filosofia simondeana, o objeto sempre se modifica, sendo difícil identificar a relação entre uma estrutura fixa e um comportamento funcional definido. Assim, a gênese e evolução do objeto técnico estabelecidas em relação ao seu uso ou às funcionalidades visíveis do seu uso se torna ilusória, porque o objeto técnico é transitório e sem uma forma estável nesse transitar.

Isso nos leva a outra questão; a evolução do objeto técnico segundo a narrativa dominante, aquela que evoca constantemente o termo inovação tecnológica e que estabelece uma forte correlação entre ciência e tecnologia, não encontra solo firme no pensamento simondeano. Por um lado, porque para nosso autor o avanço do conhecimento científico não implica numa evolução do objeto técnico, mas por outro lado, também porque que aquilo que chamamos desenvolvimento tecnológico para muitos já caracteriza um processo de retrocesso nas condições de vida humana no planeta.

Bom, vamos fechar temporariamente este parêntesis e retomar o pensamento de Simondon.

A Evolução dos Objetos cnicos.

Anteriormente, tinha relatado que o desdobramento da unidade mágica primitiva deu origem à realidade técnica (digamos à tecnicidade) e que o processo de individuação dessa realidade permite inventar os objetos técnicos pois trata-se sempre de figuras, de totalidades abstratas que se desprendem de um fundo, também abstrato. Por outro lado, também relatei que os indivíduos simondeanos são expressos em termos de devir: eles devêm; se constituem, constantemente, sobre

si mesmos; ou seja, possuem dinâmica.

Uma pergunta que talvez não tenha resposta direta no texto de Simondon é porque se fala em evolução dos objetos técnicos e não simplesmente em história? Se por um lado sabemos que os objetos devêm, há alguma lógica possível para explicar seu devir? Digamos, eles vão de onde para onde, em função de quais fatores?

A

abordagem de Simondon, neste ponto se distancia do pensamento tradicional ao considerar que,

se

bem que a evolução dos objetos técnicos pode ser informada por fatores externos, como por

exemplo, os interesses do homem em função do que ele considera progresso (mais felicidade, mais conforto, mais economia, mais consumo etc.), o que realmente expressa a sua evolução são seus fatores internos; a saber, a sua coerência interna. Aqui nosso autor nos coloca vários exemplos que descrevem o movimento de como os objetos técnicos ganham coerência interna. A direção

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evolutiva dos objetos técnicos então, seria o movimento que faz a um objeto passar de uma condição abstrata (digamos algo assim como a de um modelo ou um esquema) para outra concreta. Isso é chamado de processo de concretização e descreve a passagem de uma condição estrutural, esquemática, de relações entre elementos internos, para outra, mais coerente, de causalidades recíprocas, que no limite assintótico, transformaria o objeto técnico em um objeto natural; a evolução do objeto técnico deve ser entendida como a de uma superação da artificialidade (não da sua especialização), no sentido de que em algum momento, o objeto técnico evoluído, requereria menos intervenção humana para poder operar.

Parece que para Simondon a evolução do objeto técnico se caracteriza por uma crescente autonomia do objeto em relação à intervenção ou regulação humana.

Percebem, neste ponto, como soa estranha a ideia de desenvolvimento tecnológico segundo o pensamento dominante? Observem que na tese de Simondon, mais do uma evolução definida pela produção de objetos técnicos altamente especializados, realizando tarefas altamente complexas com operações de um alto nível de eficiência, o que se propõe é uma perspectiva evolutiva coerente com a própria ideia de tecnicidade; quer dizer de uma realidade que se desdobra da unidade mágica primitiva e procura por sua própria integridade; sua autonomia.

Mas vamos com calma. Ainda temos outros detalhes que será necessário explicar para desenhar o quadro completo da evolução técnica simondeana.

Até aqui temos feito um leve sobrevoo sobre a evolução do objeto técnico. Filosoficamente, parece termos definido o sentido da evolução, mas ainda precisamos explicar como esta evolução se manifesta como realidade existencial vivida pelo homem, na sua relação com os objetos técnicos.

Simondon explica que os objetos técnicos, mais do que ontogênese, possuem filogênese, pois um motor, por exemplo, sempre será um motor, com sua individualidade própria e com diferentes níveis de adequação a demandas de evolução externa que não mudam as suas características como membro de uma família técnica.

Então como explicar o nascimento de diversas linhagens de objetos técnicos ou como explicar a passagem de um objeto desde uma linhagem para outra?

Simondon nos diz que a inventividade humana é a grande responsável pela gênese de um individuo técnico, porém devemos sempre levar em conta que todo indivíduo tem uma condição pré- individual e outra trans-individual, o indivíduo técnico sempre será constituído por elementos técnicos e transcenderá na forma de conjunto técnico; o homem opera só na invenção dos indivíduos técnicos.

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Ao processo dinâmico do objeto técnico, nosso autor chama de evolução da realidade técnica. Por realidade devemos entender a forma concreta da experiência existencial que se vive com os objetos técnicos; e a evolução é marcada pelas etapas de elemento, indivíduo e conjunto, que representam os estágios característicos nos quais tomam vida tais objetos.

Na primeira etapa, os elementos técnicos são puras funcionalidades sem objetivo maior a não ser o de realizar a operação técnica que é capaz de fazer. Como um órgão sem corpo, o elemento existe, sua funcionalidade está bem definida, mas não existe uma relação existencial com ele pois ele ainda existe numa condição abstrata, sem a presença das causalidades recíprocas próprias de ser parte integral de um organismo vivo.

Na segunda etapa, de indivíduo técnico, os elementos técnicos passam a estabelecer relações de causalidades reciprocas estáveis configurando uma unidade funcional produto da consistência interna das interações dos seus elementos. A interação entre este indivíduo e seu mundo (aquilo que não se individuou) é estável porque de certa forma o indivíduo é indivíduo para esse mundo, nas condições que esse mundo estabelece como fundo abstrato para o lugar privilegiado que passa a ter o indivíduo técnico que o associa.

É por isso que Simondon diz que a diferença entre elemento e indivíduo é que este último leva o meio associado que lhe fornece as condições de ser o indivíduo que é. Os elementos puros formam composições plurifuncionais, mas o indivíduo se ergue no conjunto de relações de causalidade recorrente que se estabelecem entre os elementos que o compõem. Assim, os elementos representam as figuras abstraídas do fundo, mas o indivíduo não. O indivíduo técnico inventa o seu próprio meio, pois ele estará sempre em relação com ele. O inventar aqui é sempre realizado por um agente humano, pois é ele (e não o objeto técnico) quem pode antecipar ou esquematizar as relações que existirão quando o objeto técnico esteja constituído e inserido no mundo. É o que nosso autor chama de um condicionamento do presente pelo porvir, por aquilo que ainda não é. Assim, se estabelecem as relações constantes entre figura e fundo que se desdobram no devir. Da virtualidade pura de todos os acontecimentos (ou das fases possíveis), o indivíduo técnico atualiza esse devir: opera nele de forma presente e continua, quer dizer, opera no devir e não em uma abstração figural (estática) da qual, a partir do mundo do qual se desprendeu, o elemento extrai sua funcionalidade, também abstrata.

Os conjuntos técnicos são compostos por vários indivíduos técnicos, mas à diferença destes, os conjuntos não possuem meio associado comum; é por isso que são conjuntos. Disto decorre que nos conjuntos coexistem vários indivíduos técnicos obedecendo a diferentes processos de individuação (com diferentes filogêneses). As relações interindividuais no conjunto, são relações de causalidades recíprocas, mas cada indivíduo carrega seu meio associado e as relações de conjunto não implicam no surgimento de um meio associado comum (às vezes acontece até o contrário: o

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meio associado de um indivíduo inviabiliza outros), senão que implicam em uma estabilidade dos seus comportamentos ou melhor, na organização das suas tecnicidades.

Para fechar o ciclo evolutivo, Simondon lança mão de um processo que vincula conjuntos técnicos com elementos técnicos, pois como parte do processo evolutivo do objeto técnico, existe um momento em que os conjuntos cristalizam uma realidade técnica, fato que os torna elementos que podem estabelecer relações com novos elementos, constituindo novos meios associados e por consequência, novos indivíduos técnicos.

Essa seria a perspectiva evolutiva dos objetos técnicos; os elementos do indivíduo técnico são os portadores da tecnicidade (Simondon chama isto de propriedade transdutiva 2 dos elementos técnicos); Todo o ciclo obedece a um processo de concretização constante, onde a inventividade humana produz o meio associado necessário a um indivíduo técnico, mas não mediante procedimentos ex nihilo 3 , senão através de certa sensibilidade particular perante a tecnicidade dos elementos, que permite achar o indivíduo que pode incorpora-los no seu devir.

O Homem e o Objeto Técnico

Bom, até aqui tínhamos estabelecido que o objeto técnico de Simondon obedece a seus próprios procedimentos evolutivos (o que envolve a invenção dos indivíduos técnicos) e que outras perspectivas para a evolução técnica parecem ter origem externa, portanto é possível que elas tenham sido fundadas em um solo epistemológico ilusório. Simondon alerta que o objeto técnico tem sido constantemente pensado desde o exterior a partir de demandas de especialização contínua que decretam a sua asfixia hipertélica 4 , e, nos insta a entender a relação do homem com o objeto técnico a partir de outro solo epistemológico: aquele aberto pelo princípio da individualização.

Para tal, nosso autor se baseia em dois modelos de apreensão da tecnicidade por parte do homem:

um, produto da relação intuitiva de uso do objeto técnico e outro, produto da inteligência enciclopédica. Estes dois aspectos –aos quais Simondon dá o nome de modos de minoria e maioria social das técnicas– são descritos como formas de relacionamento onde predomina o sentido de uso, para a primeira, e de reflexão para a segunda. Estes modos são tipicamente encontrados na relação da criança e do adulto perante o objeto técnico; o modo menor é voltado totalmente para a capacidade de perceber intuitivamente o mundo, enquanto o maior é mediado por uma demanda de compreensão profunda e universal do objeto técnico.

2 Processo onde um elemento transfere ou herda propriedades de outro.

3 A partir do nada.

4 Quando um objeto excede as finalidades para as quais foi pensado.

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A produção humana do objeto técnico se estabelece na vida social através do artesão (no modo

menor) e do engenheiro (no modo maior), sendo que ambos influenciam a incorporação dos objetos técnicos em uma dada cultura, quer dizer, ambos são importantes agentes sociais que contribuem para a constituição da cultura mediante seu obrar técnico.

Não há dúvidas de que em cada período da história aquilo que ganha valor cultural é produto das circunstâncias específicas de uma época, porém, sem prejuízo disso, se torna evidente que a produção técnica de cada época diz muito da cultura que predominou nela. Portanto, nosso autor está tentando nos alertar da importância que há em entender essas duas fontes de apreensão do técnico como formas produtoras da cultura. Se por um lado o que funda as relações entre homem e objeto técnico é o uso (modo menor) e por outro é a descrição exata e universal (modo maior), Simondon se pergunta o que levou a esta última ser mais valorizada que a primeira? Ele dirá que é o espírito enciclopédico, um movimento instaurado no fundo, de natureza abstrata, que visa universalizar o desdobramento técnico da unidade mágica primitiva; criando, digamos, uma condição universal para as figuras desprendidas do mundo. E dirá mais ainda: que para a inserção plena do objeto técnico na cultura será necessário que o homem encontre um equilíbrio entre o modo menor e maior, pois ambos nascem da mesma unidade do real na qual Simondon constrói a sua filosofia.

Nesta empreitada, nosso autor não parece estar inclinado a valorizar mais um ou outro modo. Ele reconhece o imenso valor do instinto, do hábito e do uso de representações sensoriais (aquelas que não se manifestam nem na consciência nem no discurso), mas também não despreza as habilidades que se expressam em símbolos intelectuais, regularidades ou esquemas de funcionamento e validação do chamado universo enciclopédico. O que Simondon propõe como estratégia de superação do pensamento moderno da técnica é o estabelecimento de uma relação do homem à mesma altura do objeto técnico.

O que isto quer dizer?

Bom, quer dizer que existe um termo médio entre a dominação adulta (modo maior) e o uso

infantil (modo menor) dos objetos técnicos; uma relação de causalidades recorrentes entre homens

e objetos técnicos, com influências simétricas; a manipulação de uma matéria que ao mesmo tempo

é domesticada e sagrada: em outras palavras, a existência de uma relação de respeito mútuo: uma relação social.

Neste momento, me permitirei fazer outro parêntesis.

Com efeito. Esta afirmação de Simondon é extremamente relevante, pois uma das críticas que levantam as comunidades indígenas –portadoras de um conhecimento menor em dois sentidos, primeiro porque são intuitivas e segundo porque são conhecimentos expulsos do pensamento

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dominante– é a falta de cuidado do homem com a Terra. Acontece que essa falta de cuidado, segundo Bruno Latour, é produto da separação entre conhecimento natural e conhecimento social. Essa cisão, artificial para Latour, faz que o homem pense os objetos técnicos como algo fora do humano. Para os Ianomâmis, por exemplo, é problemático saber que os homens não reconhecem a humanidade que existe nos objetos técnicos, porque isso os impossibilita de estabelecer relações sociais com tais objetos, fato que redunda em uma arrogância existencial com tudo que for não- humano, incluindo o devastado planeta Terra.

Ou seja, o que Simondon propõe exige que nos preocupemos com as nossas relações com o objeto técnico porque este não pode estar nem por cima nem por baixo do homem; nem determina absolutamente o homem, nem o homem o determina; o objeto técnico produz o social e é produzido por ele, afeta e é afetado.

Nessa direção, nosso autor não promove uma condição superior do modo enciclopédico, ao contrário. Aparentemente, há um problema na exacerbação dessa perspectiva adulta do homem se relacionar com o objeto técnico, pois acaba se consolidando no modo da produção da cultura contemporânea. O objeto técnico, que vai evoluindo desde o seu caráter libertador no Renascimento até a manipulação do homem pelo homem na era da informação, parece mostrar que toda invenção técnica se converte, com o tempo, em uma limitante para o desenvolvimento humano, o que contradiz a própria noção de evolução e progresso humano da modernidade.

Isto em grande parte mostra quais eram as preocupações que rodeavam a cabeça de Simondon, mas por outro lado, nos apresenta quais eram as estratégias que nosso autor desenvolvia para devolver à técnica seu estatuto de função reguladora da cultura.

Vejamos a situação anterior focando um pouco mais no principio da individuação.

Para Simondon o progresso enciclopedista não é fundado sobre os elementos técnicos, os quais como vimos antes, possuem capacidade transdutiva, e, portanto, fornecem condições de continuidade para a evolução dos objetos técnicos. O progresso enciclopedista se baseia nos conjuntos técnicos e nos seus resultados.

Quando a evolução técnica descarta modos de vida individual ou coletiva, se produz uma angústia. Descartar significa aqui tirar dignidade humana a uma dimensão técnica que é realizada por humanos e transferi-las para a máquina, alheia e indigna, por sua vez. Com isso se evidencia que a produção dos objetos técnicos assume a forma de uma competição com o homem, destituindo este de sua condição técnica, mas também, ao lançar a técnica para fora da vida, o conjunto técnico toma distância do homem e este, se torna espectador dos resultados dos seus objetos técnicos.

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Assim, se institui o domínio da natureza como o vetor principal do progresso enciclopédico ao passo de que se deixa o homem de fora das relações íntimas que se estabelecem na evolução técnica. Agora são os resultados o que interessa; o engenheiro surge como operador da evolução do objeto técnico, mas sob a perspectiva de uma dissociação entre cultura e natureza; homens de um lado, coisas de outro.

É sobre as bases dessa descontinuidade entre o indivíduo humano, despojado da sua função técnica, e o indivíduo técnico e suas novas relações culturais, onde Simondon posiciona a alienação.

Ao ser pensado em termos de resultados, a intuição do elemento técnico é substituída pelo interesse no conjunto. Cria-se um distanciamento entre o homem e o interior do objeto técnico ao mesmo tempo em se dissolvem todas as relações sociais anteriores e uma nova condição cultural se estabelece através dos novos objetos técnicos, mas desta vez, vazia de humanidade.

Esse processo que gera a alienação do homem em relação ao resultado do conjunto técnico, deixa à deriva a concretização dos indivíduos técnicos e leva, em última instância, a uma perda do sentido humano na realidade técnica. Isto é muito importante, pois se os indivíduos técnicos atuam como reguladores da cultura, a despotencialização do processo inventivo que gera tais indivíduos provoca um tecnicismo autocrático, comandado não mais por técnicos, mas sim por empresários que não conhecem o interior da tecnicidade, senão que operam sobre seus resultados, fato que bem pode ser a fonte dos catastróficos efeitos culturais que visualizamos na sociedade contemporânea.

Devemos lembrar que uma das questões que mais preocupam a nosso autor é o fato de que a tecnicidade deve ser aprendida através das suas características internas e não mediante uma visão externa, instrumental, que inibe ao objeto técnico, portador de realidade humana, de se manifestar como tal.

Então, para Simondon, entre o homem e a máquina há uma condição característica que o coloca de igual para igual nas suas relações, digamos sociais. Para entrar nessa arena, ele se ampara em uma particular análise do conceito de informação.

Continuemos.

Não são poucos os autores que entendem que a era da informação possui características tão especiais que a tornam originária de novos processos sociais, políticos, econômicos, e porque não dizer, existenciais. O nosso autor também revela interesse nesse conceito à luz do surgimento da máquina como objeto técnico.

A primeira análise de nosso autor em relação à máquina se dá em torno do processo de regulação no uso de um conjunto técnico.

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Como o tecnólogo conhece os esquemas internos de funcionamento de um dado conjunto, também conhece antecipadamente seus resultados. Portanto, a relação entre o homem e a máquina extrapola a dimensão de uso desta última por parte do homem. No cerne dessa relação se instaura um processo de regulação, porque do conhecimento íntimo do conjunto, se sabe o devir da máquina. Sem esse conhecimento a leitura da máquina é externa; se realiza através do desempenho das suas funções. Se a máquina realiza suas funções é porque conserva um modo de operar, mas não as condições estruturais que permitem interpretar esse operar; não se inscreve nela a forma que leva à operação; a máquina é suporte; Se (re)conhece o resultado da operação.

O que sim existe é uma codificação-decodificação que traduz as formas da máquina nas formas

perceptivas do homem, que sim conserva as formas mediante a sua capacidade de memória e as manipula em função da sua capacidade de converter, como ser vivo, em a priori um a posteriori, ou seja, em função da sua capacidade de antecipação.

Assim, torna-se evidente que existe um processo de monitoramento entre homem e a máquina. A máquina, sem poder de autoregulação absoluta encontra seu mundo no homem, este sim com capacidade regulatória. O singular para Simondon é que a operação regulatória do homem com a máquina deve ser realizada no mesmo nível da máquina, assumindo-a como relação entre e com elas, pois de certa forma, ele vive entre elas. Estar no mesmo nível significa que o homem não deve nem ser submisso na sua relação com as máquinas nem deve fundar um poder sobre elas. Disso se depreende que o problema da tecnocracia está na sua vontade de conquista sem freio, pois a sua atenção é direcionada à empresa mais do que à máquina.

Se a operação regulatória nasce na termodinâmica sobre os canais energéticos, as grandes modificações sociais são produto de uma operação regulatória que opera em canais de informação.

Se antes a regulação se dava comparando níveis energéticos de entrada e saída, hoje interessam os

tempos; digamos, a eficiência do tempo que se gasta em saber com precisão da forma plena que origina a operação.

Para Simondon, não é a forma que é portadora da informação, ela simplesmente possui uma função

seletiva, doadora de regularidade, mas a informação é muito mais do que a forma: é a variabilidade

da forma. É por tal motivo que o homem deve se posicionar no mesmo nível que as máquinas; para

processar a informação da forma originária que fora depositada nas máquinas.

Ora, é o conhecimento íntimo da máquina e das suas relações entre máquinas que nosso autor sugere como estratégia para encontrar a informação das formas técnicas. De fato, para ele, inventar é fazer funcionar o pensamento como poderia funcionar uma máquina; ao inventar se produzem as formas que sustentam as operações funcionais das máquinas: dentro da sua indeterminação informativa, ao inventar se produz o arquétipo de uma forma.

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Para fechar o raciocínio, nosso autor considera que a inserção do objeto técnico na cultura vai acontecer quando se descubra que toda máquina não é uma unidade absoluta, senão uma realidade técnica individualizada, aberta em termos da evolução dos seus elementos técnicos e das suas relações entre os demais indivíduos técnicos.

Resumindo, temos tarefas a fazer.

Considerações Finais

Para finalizar este estudo consideremos a seguinte reflexão como parte dos desdobramentos do pensamento do nosso autor e da sua particular filosofia da técnica: o nosso conhecimento sobre a tecnicidade deveria ser procurado nas manifestações dos diversos modos existenciais do homem, a partir do entendimento que ela se desdobra ou é uma fase da unidade mágica primitiva.

Para nós, engenheiros, a síntese anterior nos coloca diante de grandes questões.

Pensemos em uma que reside, talvez, na camada mais profunda do nosso pensamento: qual a dimensão existencial que estamos desenvolvendo através da técnica?

Sem dúvidas esta questão é difícil de responder porque não estamos acostumados a usar essa perspectiva de análise na nossa própria produção técnica e a formação profissional não tem ajudado muito. Nossa formação profissional nos aproxima da tecnicidade ainda de maneira externa. Com efeito, é só considerar nossas sempre grandes preocupações com custos e tempos. A eficiência técnica, aquela que Simondon chamaria de processo de concretização, aparece vagamente nos nossos atos técnicos. Em seu lugar existem demandas externas próprias do modo de produção contemporâneo. Até o nosso linguajar é permeado por essas demandas. Hoje falamos em clientes, cadeia produtiva, melhoria contínua ou produção enxuta, tudo dentro da visão de mundo criada pelo modo de produção do capitalismo. Poucas vezes imaginamos os objetos técnicos livres dessa perspectiva dominante.

De fato, no processo formativo há poucas atividades direcionadas a desenvolver a nossa capacidade inventiva (aquela que provoca os saltos qualitativos nas linhagens dos objetos técnicos) e tudo isso nos limita; forçam-nos a um modo social maior que se distancia da alma do produzido, da sua humanidade, fazendo que pouco a pouco percamos a sensibilidade do interior do técnico. Nos custa atuar como organizadores das relações entre máquinas. Todas as relações são gerenciadas desde um prisma econômico, de dominação da natureza e de segregação do humano. Inadvertidamente propiciamos um modo técnico que consolida a dimensão cultural perversa do modo de produção capitalista. Se trata, sempre, de ganhos econômicos. Todos realizáveis através

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daquilo que nos convencem ser a única forma de viver a vida: o modelo de acúmulo material, baseado em uma liberdade travestida de consumo e da identificação com as figuras sociais do modelo de progresso enciclopédico.

A Terra é a mais afetada por nossa ação técnica pois até agora sempre se apresenta como um outro,

como um não-humano e nos induz a um distanciamento. Congelamos seu devir numa certa estabilidade do processo de produção técnica que a fez ficar muda, porque a nossa dominação, exacerbada pelas garantias do pensamento moderno, funciona por fotografias convenientes desse devir; escolhemos a imagem mais útil para o desenfreado modelo existencial dominante. Se propicia uma liberdade extrema baseada na ideia do homem expandir seu desejo de realizar tudo que possa, e se entende que a técnica é o grande motor para isso.

A técnica colocada para fora do homem exige dele um projeto feito sobre uma ideia do homem

desassociado do seu fundo e alheio às relações que nascem com ele ao se individuar no seu devir. Se congela o devir do homem, se lhe tira das suas relações fundamentais e é lançado nessa figura,

sem contexto que é o homem moderno na forma de uma fase dominante em desequilíbrio com seu mundo.

Daí que é necessário que a nossa procura pelo modo social menor se configure como estratégia de reequilíbrio de fases. O modo existencial da técnica exige de nós o pleno desenvolvimento de figuras e fundos de uma realidade que é acessível mediante procedimentos técnicos, que no seu equilíbrio, devem recuperar um vínculo originário, um sentido técnico originário. Em termos intuitivos, a aproximação à técnica se processa em uma existência que se reconhece como modo particular (e não absoluto) de ser, como acontece com qualquer outro modo que pode servir para construir a realidade das coisas e suas relações, num devir que coloca como requisito inicial a estabilidade ou recorrência de interações nele. Faltam-nos instrumentos cognitivos para operar nesse contexto porque de certa forma participamos de uma obediência epistemológica que nos inibe de criar novos mundos, novas relações e novas linhagens de objetos técnicos.

Bibliografia

LATOUR, B.; Esperando a Gaia. Componer el mundo común mediante las artes y la política, Trad. Sylvina Cucchi, Cuadernos de Otra parte. Revista de letras y artes, N° 26, 2012, Buenos Aires, Argentina, p.67-76.

SIMONDON, G.; La Individuación a la luz de las nociones de forma e información, Trad. Margarita Martinez e Pablo Rodriguez, Prometeu Libros, Buenos Aires, 2007.

SIMONDON, G.; El Modo de Existência de los Objetos Técnicos, Trad. Pablo Ires, Editorial Cactus e La Cebra Editores, Buenos Aires, 2009.