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Religiosidade: mecanismos de sobrevivência na Penitenciária Feminina do Distrito Federal

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Laura Ordóñez-Vargas
1.33 · Universidad del Rosario

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5 Citations

Religiosidade:
mecanismos de sobrevivência
Laura Ordóñez Vargas
Mestre em Antropologia – UNB

30 na Penitenciária Feminina
do Distrito Federal
Comunicações do ISER

Este trabalho é fruto da minha dissertação de Deus. Os outros dois são católicos: a Pasto-
de mestrado, cujo trabalho de campo foi rea- ral Carcerária e a Oficina de Oração Católica.

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lizado na Penitenciária Feminina do Distrito Além desses, há um grupo não religioso, os


Federal (PFDF), tendo a religião como chave Narcótico s Anônimos (NA), que é conside-
de entrada neste universo social. A realidade rado pela instituição como “grupo religioso”
que se desvendou ao longo da pesquisa mos- porque também ajuda as internas.
trou-se rica e complexa em relação à imaginada
inicialmente. Assim, o “religioso” junto com Para a pesquisa entrevistei os agentes religio-
outros aspectos da vida prisional feminina sos da Igreja Batista Primeiro de Julho que
como as formas de sociabilidade e a homosse- trabalham com as mulheres presidiárias há 8
xualidade compõem o tripé analítico da minha anos; da Igreja Batista Filadélfia, presente há
interpretação. Tal análise supõe um recorte de 14 anos; da Igreja Batista Central de Brasília;
gênero, visto que a cultura carcerária feminina da Igreja Assembléia de Deus, que trabalha há
configura dinâmicas específicas e particulares, 4 anos na penitenciária; da Pastoral Carcerária,
quando comparadas às dinâmicas na cultura presente há 12 anos, e, finalmente, do Grupo
carcerária masculina. de Oração Católico que atua com as mulheres,
há 7 anos.
Neste trabalho, analiso o aspecto religioso
sem desconsiderar sua interdependência com Dentre os diferentes grupos evangélicos atu-
outros dois aspectos acima referidos. Para antes na penitenciária, cuja maioria é batista,
tanto, primeiro realizo uma breve etnografia existem diferenças de “usos e costumes”, mas
descritiva sobre a forma como opera a religião não de doutrina, pois a base é o Evangelho.
na PFDF: as diversas igrejas que assistem as Deste modo, todos os agentes religiosos dos
internas, o sistema de participação nos cultos, grupos batistas consideram suas igrejas “mais
as manifestações religiosas informais, entre liberais, mais avivadas e alegres, porque nos cul-
outros. Em seguida, apresento minha escolha tos batem palmas e cantam”. A agente religiosa
analítica para explicitar o papel que os grupos da Assembléia de Deus revela as diferenças de
religiosos e o discurso cristão desempenham atuação. Descreveu sua igreja como sendo mais
nesta instituição t otal, conforme a perspectiva ortodoxa nos usos e costumes dentro e fora
dos diferentes atores da comunidade prisional, dos cultos: “nós, assembleianos, não batemos
com ênfase na voz das presidiárias. Esclareço, palmas nos cultos, não assistimos televisão,
ainda, que meu propósito não é fazer uma con- escutamos só música religiosa, as mulheres não
tribuição ao campo dos estudos da religião. podem cortar o cabelo, entre outras coisas”.

Etnografia Dentre os grupos católicos, a Pastoral Car-


cerária constitui-se como uma divisão das
Na PFDF há onze grupos religiosos para assis- pastorais sociais que fazem parte da Igreja
tir as internas. Dentre esses, nove grupos são Católica. Por outro lado, o Grupo de Oração
evangélicos de diferentes denominações: seis católico é independente da Igreja, mas realiza
grupos Batistas; dois grupos da Assembléia de oficinas com as internas tendo como base do
Deus e um grupo da Igreja Universal do Reino seu trabalho, os preceitos católicos.

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O contato entre os agentes dos diversos grupos Em junho de 2003, a Fundação INTEGRA
religiosos acontece uma vez por ano, quando (Instituto de Integração Social e de Promoção
se reúnem na penitenciária para planejar e à Cidadania), cuja presidente é Weslian Roriz,
distribuir os dias e horários da assistência re- esposa do governador do DF, e a vice-preside
ligiosa. A distribuição dos horários, segundo te, Lucia Vittá, que lidera os grupos de oração
alguns agentes religiosos, é negociada entre a católicos, construiu no Bloco III de regime
administração e os grupos conforme a dispo- fechado uma Capela Católica e, ao lado, um
nibilidade de tempo dos mesmos. Deste modo, espaço ecumênico evangélico. Ambos os es-
cada grupo evangélico, dos nove, assiste às paços são destinados à realização dos cultos
internas um ou dois dias do mês; o grupo de com as internas desse bloco. No momento da
Oração Católica realiza duas oficinas ao ano, pesquisa alguns cultos eram realizados ainda
de quatro meses cada uma, e nesse período no pátio e outros nesses espaços. No Bloco I,
assiste às internas quatro dias por mês, ou de regime semi-aberto, os cultos evangélicos
seja, uma vez por semana; a Pastoral Carcerária são realizados no pátio e, nos dias de sábado
ingressa na penitenciária nos três primeiros que correspondem à Pastoral Carcerária,
sábados do mês e ministra a missa durante internas são levadas ao Bloco III para assistir
um destes sábados; e finalmente, o grupo de aos trabalhos de evangelização ou à missa.
Narcóticos Anônimos assiste às internas uma Segundo estatísticas de junho de 2004, ingres-
vez por mês, aos sábados. saram na penitenciária 44% de católicas, 27% d
evangélicas e 1% de espíritas, de um total de 300
Para entender o sistema de participação nos internas. Os 28% restantes não informaram ou
cultos é preciso descrever, a grosso modo, o não possuiam religião. Essas estatísticas reve-
complexo penitenciário da PFDF que se divide lam que 49% das internas assistem aos cultos
em quatro blocos. No Bloco I ficam as inter- evangélicos e 35% às missas católicas. Não qu
nas em regime semi-aberto e os homens de dizer que a adesão das internas seja exclusiva,
tratamento psiquiátrico. O Bloco II destina-se visto que, na realização da pesquisa, muitas
exclusivamente aos escritórios administrativos responderam participar de ambos os cultos.
dos agentes penitenciários e funcionários. O
Bloco III abrange a maior parte da população Por motivos de “segurança”, isto é, para contro-
carcerária, ou seja, as internas em regime fe- lar as brigas no pátio, a administração mudou
chado. Esse bloco, por sua vez, está dividido o sistema de participação das internas nos
nas alas A, B e C. Finalmente, há o Bloco IV cultos. O novo sistema começou a vigorar em
que não está em funcionamento. Janeiro de 2005. Deste modo, foram criadas
duas listagens únicas: a evangélica de qualquer
No momento da pesquisa, a participação das denominação e a católica fazendo com que as
internas nos cultos evangélicos dependia da internas tenham que escolher entre o evangelis-
coincidência entre o horário designado ao mo e o catolicismo. Também foi determinado,
grupo religioso e o horário do “banho de sol” de forma contrária ao sistema anterior, que as
no pátio. Assim, por exemplo, se aquelas que internas a participarem dos cultos ou missas

ocupam a ala C se encontrassem no pátio no devem ser aquelas que estão nas celas e não as
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ocupam a ala C se encontrassem no pátio no devem ser aquelas que estão nas celas e não as
horário da Igreja Primeiro de Julho assistiam que se encontram no pátio em “banho de sol”.
ao culto. No entanto, para participar dos dois Assim, por exemplo, se a ala C encontra-se no
grupos católicos, era preciso inscrever-se numa pátio, são as internas da ala A ou B as que as-
lista, dado que os sábados eram os dias agen- sistem aos cultos realizados obrigatoriamente
dados para a Pastoral Carcerária. Também, nos espaço religiosos.
se fazia necessário agendar a participação no
Grupo de Oração que realizava sua assistência Dentro da penitenciária observei dois cultos
em forma de oficinas. religiosos nas duas Igrejas Batistas: a Batista

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32 Central e a Batista Primeiro de Julho (IBPJ). sejável e forçada da instituição no reduto da


O primeiro foi realizado no pátio da ala do individualidade da presidiária. Resulta no con-
regime semi-aberto com a participação de 16 trole de todos os aspectos da sua vida e da sua
Comunicações do ISER

internas e o segundo no espaço de realização rotina e da invasão da sua reserva simbólica


dos cultos evangélicos, contando com a pre- individual (Foucault,1975). Em função desse
sença de 25 internas. Os cultos seguiram a processo que sofre a identidade da presidiária
mesma liturgia das igrejas evangélicas de fora: e do contexto de poder/submissão exacerbado
o momento de cantar e louvar e o momento da em que é colocada examinarei, a seguir, minha
palavra do pastor que inclui a leitura da Bíblia. escolha analítica.
Igual a todos os cultos dentro da penitenciária,
estes tiveram duração de uma hora e meia a Como já afirmei anteriormente, o papel
duas horas. que desempenham os grupos religiosos e o
discurso cristão, ou seja, o aspecto religioso,
Além dos grupos e dos cultos religiosos evan- constitui uma das partes de um tripé analíti-
gélicos e católicos, a prática religiosa se estende co – formado t ambém pela “sociabilidade” e
a manifestações informais entre a população pela “homossexualidade” – que atuam como
carcerária que – de forma individual ou grupal tecnologia e estratégia de poder e de controle
– durante as noites, nas celas ou em outros institucional e administrativo sobre a massa
espaços, se reune em campanhas, jejuns, gru- carcerária com a finalidade de tê-la mais dócil
pos de oração e leitura da Bíblia. Há também, e menos “revoltada”. Atuam ainda como meca-
segundo as internas, manifestações religiosas nismos de “adaptação-resistência” que adotam
informais individuais não cristãs como de as internas para driblar e mitigar as tensões e
espíritas, budistas, místicas e da Igreja Mes- as dores do dia a dia do aprisionamento e para
siânica. Cabe ressaltar ainda que, na PFDF, sobreviver ao extremo estado de repressão e
algumas internas não têm religião. Em relação contenção em que se encontram submetidas,
às práticas das religiões afro-brasileiras como segundo a máxima de Foucault (1976) que diz
o candomblé e a umbanda, não encontrei que “onde tem poder, tem mecanismos de re-
nenhum indício da sua presença na penitenci- sistência”. Tal relação entre poder e resistência
ária. Segundo o relatado por todas as internas apresenta-se, no contexto carcerário, de uma
que entrevistei e pelas agentes penitenciárias, forma veemente e gritante.
essas práticas religiosas não fazem parte do
cotidiano prisional. O conceito de mecanismos de adaptação-resis-
tência é híbrido. Nele comportamentos e dis-
Escolha Analítica cursos aparentemente adaptativos aparecem
simultaneamente como formas de resistência.
Em primeiro lugar destaco o fato de tratarmos, O discurso híbrido é aquele onde falam conco-
neste trabalho, com sujeitos multiplamente mitantemente e em tensão o sujeito reduzido
excluídos: são mulheres, pobres e não-brancas. a uma posição de subalternidade e o sujeito
A esses fatores soma-se o processo de aprisio- rebelado, insatisfeito (Segato, 2003:249). Es-

namento que produz outra exclusão: são “cri- ses mecanismos são espaços intermediários e
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namento que produz outra exclusão: são “cri- ses mecanismos são espaços intermediários e
minosas”. Dois ritos de passagem marcam o brechas do sistema prisional, onde a vida e a
processo de mudança identitária das internas, singularidade pedem passagem subordinadas
a saber, o momento de ingresso no sistema e o e limitadas ao poder e controle e, ao mesmo
de saída. Observamos que a antiga identidade tempo, em coexistência negociada com eles.
que a mulher dispunha quando em liberdade
fica suspensa e nasce a identidade de mulher Dessa forma, a religiosidade, a sociabilidade
encarcerada que é institucionalizada. Essa e a homossexualidade como mecanismos
nova identidade resulta da intromissão inde- de adaptação-resistência são cruciais para a

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sobrevivência da presidiária que depende de aos olhos do mundo, consegue se singularizar


um equilíbrio entre submissão, adaptação e aos olhos de Deus.
resistência.
Por meio da extrema individualidade em
As estratégias de poder e controle institucio- relação ao coletivo, dos envolvimentos ho-
nais incidem sobre as formas de sociabilidade e mossexuais como alternativa restante
as relações interpessoais fomentando um am- sociabilidade, solidariedade e afetividade,
biente de extremo individualismo, pois com a e através da religiosidade como refúgio
existência de união e de solidariedade coletiva alívio espiritual, as presidiárias resistem e se
é mais difícil controlar a massa carcerária. adaptam à realidade prisional, preenchem de
Deste modo, desenvolve-se o sistema prêmios sentido a nova identidade e a vida atrás das
e castigos que incentivam a lealdade para com grades, bem como criam caminhos de volta
as agentes penitenciárias. Como mecanismo de à singularidade expropriada pela instituição.
“adaptação-resistência” as internas produzem Singularidade vital que se realiza de diversos
um duplo isolamento, ou seja, “isolamento modos: a partir de si mesma, a partir de uma
dentro do isolamento“ que se configura de outra interna e a partir da divindade.
modo particular numa penitenciária feminina
se comparada a uma masculina. É uma forma Papel dos Grupos
de guardar para si um resto de identidade, a Religiosos: Como Poder e
constituição de uma reser va de subjetividade Controle
intocada em meio a um contexto que ‘institu-
cionalizou’ sua identidade. Na penitenciária masculina do DF comu-
mente conhecida como a ‘Papuda’, os grupos
Os envolvimentos homossexuais são percebi- religiosos, particularmente, os evangélicos,
dos como conseqüência da repressão e das difi- constituem uma segunda administração pe-
culdades impostas pela instituição às relações nitenciária e concentram o poder de decisão
sexuais e afetivas heterossexuais. As relações entre a massa carcerária. Os espaços físicos e
homossexuais atuam como mecanismo de simbólicos exclusivos dos crentes são espaços
adaptação-resistência para algumas internas, de resolução dos conflitos e de proteção contra
pois criam uma alternativa de solidariedade, de a violência e os juramentos de morte entre os
sociabilidade e de afetividade, em pares, dada grupos de internos (Segato, 2001). O mesmo
a dificuldade de organizar-se em grupos. Com não acontece na PFDF devido ao baixo índice
isso, desenvolve também uma singularidade e grau de violência física e devido à inexistência
um senso de identidade frente a um outro, no de mortes entre as internas. Deste modo,
caso, a parceira. organização política, econômica e espacial da
massa carcerária feminina não está vinculada
A presença dos grupos religiosos e a circulação aos grupos religiosos.
do discurso religioso atuam como uma estraté-
gia indireta da instituição para manter calma Na perspectiva de agentes penitenciários

e dócil a massa carcerária. Para as internas, não penitenciários, a assistência religiosa, bem
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e dócil a massa carcerária. Para as internas, não penitenciários, a assistência religiosa, bem
assistir aos cultos e a presença dos grupos re- como a circulação do discurso religioso cristã
ligiosos são formas de passar o tempo de ócio, desempenha um papel positivo do ponto de
de escutar palavras de conforto, de ter canais vista individual e institucional. Com isso, para
de contato com pessoas de fora do presídio. A as agentes e a administração penitenciária, os
adoção do discurso religioso cristão por parte grupos religiosos constituem um mecanismo
das internas é uma forma de criar sentido, fi- indireto, mas efetivo, de controle sobre a mas
nalidade e transcendência à vida intramuros, carcerária, uma vez que sua presença no coti-
onde aquela que não consegue se singularizar diano prisional suaviza e ameniza as tensões

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34 diárias das internas tornando-as mais dóceis. “Nosso objetivo é transformar elas para
Assim, afirmaram: Cristo, levar a palavra de Deus, a Bíblia e a
palavra da verdade. Agora, tem dias que a
Comunicações do ISER

“É um culto de apoio par a as internas gente mostra o céu, e tem dias que a gente
válido e positivo. Também nos ajudam a mostra o inferno para elas” (Assembléia
ter as internas menos revoltadas” (Agente de Deus).
Penitenciária).
“Gosto de fazer trabalho ecumênico por-
“Os grupos são ótimos, ajudam as inter- que no final, o que é religião? É re-ligar o
nas e dão palavra de conforto, são grupos homem com Deus, então é isso que nos
religiosos e ao mesmo tempo terapêuticos. fazemos, não vamos discriminar religião.
Eles dão sossego às internas” (Agente Pe- Para nós o conhecimento bíblico é funda-
nitenciária). mental, por isto, nosso objetivo é e vange-
lizar, levar a palavra de Deus e ressocializar
A psicóloga da instituição reforça o papel dos as pessoas” (Pastoral Carcerária).
grupos religiosos como mecanismo de con-
trole indireto assim como o equipara ao papel Para os agentes religiosos o trabalho de assis-
do tabagismo e das drogas. Em sua opinião tência religiosa na penitenciária constitui-se
todos eles ajudam a tranqüilizar as internas em uma forma de realizar sua missão filan-
e a diminuir a ansiedade que, na situação de trópica e proselitista:
encerramento, é muito alta:
“Muitas falam para nós, que o que a gente
“Os grupos têm uma função de tr abalhar faz é um conforto espiritual. A gente faz um
a auto-estima, trabalhar a questão do per- trabalho de evangelização sem discrimina-
dão. Eles trabalham o momento presente, ção de religião, é um conf orto para elas e
não olham as causas, a origem. Essen- para nós. Eu falo para elas: a sociedade
cialmente, a função deles, é uma função pode falar que vocês são lixos, mas vocês
ansiol ítica. Eles dim inuem a ansiedad e, são lixos r ecicláveis, são super importan-
através da reza compulsiva, da leitura tes” (Pastoral Carcerária).
compulsiva da bíblia, dos cantos. É uma
forma de diminuir a ansiedade geral com “Eu não as vejo como pragas, as vejo como
todos os limites que a gente possa ver, mas pessoas que podem ser recuperadas pelo
é uma função. Tem que ter alguma forma. poder de Deus, como pessoas carentes, que
Do mesmo modo que o tabagismo, a ma- precisam ajuda, por isso eu vou lá, com o
conha, as drogas, como tem os remédios. propósito de levar algo de Deus para suas
Os grupos têm uma função sadia, pelo vidas ”(I. Batista Central de Brasília).
menos abaixa a ansiedade e não tem efeitos
colaterais químicos.” Os grupos religiosos promovem ajuda mate-
rial com a doação de cestas básicas às famílias
Para os grupos o papel e o objetivo principal das internas mais carentes e de objetos de uso

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do seu trabalho, dentro da penitenciária, são a pessoal e de asseio para as internas e seus be-
evangelização e a conversão religiosa como se bes como fraldas, absorventes, desodorantes,
evidencia nos seguintes depoimentos: cremes, sabonetes, entre outros. Eles também
são os maiores doadores para os eventos
“A nossa pretensão é a conver são usando festivos da instituição, mas na atual gestão,
a Bíblia como instrumento. Se você prega a contribuição material dos grupos é feita
para 100 mulher es e uma aceita, isso já é indiretamente às internas via administração
vitória” (Primeiro de Julho). penitenciária.

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Religião: Discurso dominan- A presença de grupos de religiosos além


te e mecanismo de adapta- de proporcionar às internas um suporte
ção-resistência emocional, são um parêntese no cotidiano
prisional que as anima e lhes dá força para
Do ponto de vista das internas, os grupos reli- suportar o cativeiro. Do mesmo modo,
giosos atuantes e o discurso cristão presente na discurso de “libertação”, principalmente dos
prisão desempenham um papel de profunda grupos evangélicos, ao dialogar por oposição
eficácia individual sobre o grupo de mulheres com a realidade do aprisionamento, coloca
que compõem: uma oferta alternativa de “liberdade” numa
situação onde o desejo de ser livre se torna
“Os grupos são um ‘refrigério’ para nossa muito presente.
alma, eles são divinamente maravilhosos.
Nós somos muito carentes da palavra Uma das entrevistadas e ex-presidiária relata
de Deus aqui dentro, a gente enfraquece sua experiência de “libertação” quando esteve
sem o grupo religioso, eu mesma est ava pela segunda vez dentro da penitenciária:
fraca. O aprender vem de ouvir, ouvir é
fundamental ” “O encontro com Deus foi à segunda vez
(Interna). que estive na cadeia. Da primeir a vez
não fui tocada, o que me mantinha era
“Os grupos são maravilhosos, ótimos, é saber que meu filho estava me esperando
muito bom. Dão uma paz de espírito muito Da segunda vez, eu sentia a necessidade
grande. São muito significativos, dão pa- de um encontro com o Senhor. Aí,
lavras de conforto e levantam o ânimo da estava caminhando no pátio e encontrei
gente. Deus para mim mudou tudo, é ele um folheto que me tocou profundamente
que me dá forças para superar e suportar e rapidamente. Falava que tinha dois deu-
tudo o que eu já vi e já vivi, se não fosse ses: deus e o diabo, ou eu escolhia a vida
por Ele acho que não agüentaria Para mim ou escolhia a morte. Nesse momento
a cadeia é um lugar que o diabo fez e nem fui tocada no coração, de um momento
ele suportou ficar, deixou para nós... ” para outro eu aceitei Jesus. Desde esse dia
(Interna). somos só eu e Deus. No outro dia falei com
os irmãos da Igreja Primeiro de Julho e me
“Adoro os grupos religiosos, a gente aqui converti. Sou outra pessoa, me libertei. A
dentro precisa orar, dá mais força para vida que estava levando ficou para trás,
a gente conversar e trocar palavr as com já não penso mais em traficar, agora
Deus” (Interna). quero ser uma pessoa honesta e trabalhar.
Foi uma mudança de vida, de hábitos, de
Como outra face da mesma moeda, para as in- desejos, de tudo. Muda-se do ódio para o
ternas, a presença dos grupos religiosos, bem amor (Ex-Interna).
como a adoção do seu discurso, são como um

Do mesmo modo, as internas reconhecem


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mecanismo de ‘adaptação-resistência’. Dada Do mesmo modo, as internas reconhecem


a necessidade e a possibilidade os grupos e o valor do aprendizado religioso que se realiza
discurso religioso preenchem de sentido e de na cadeia:
finalidade a vida atrás das grades para muitas
internas. Através deles, as internas se singu- “Por uma parte eu acho ruim ter vindo
larizam frente a Deus e frente aos agentes cadeia, mas por outra acho bom, porque
religiosos. Aliás, o discurso cristão é profes- eu aprendi, aprendi como realmente é re-
sado e está completamente internalizado na alidade, porque lá fora eu estava sendo in-
narrativa das internas. duzida pelo inimigo, estava fazendo obras

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36 malignas que não é a favor de Deus. Se eu ou de católica, “limpam” seu estigma de crimi-
não tivesse estado aqui dentro não teria nosas. Isto lhes ajuda a viabilizar alternativas
aprendido tudo o que aprendi” (Interna). de emprego por meio das pessoas da igreja,
Comunicações do ISER

pastores, padres ou “irmãos de fé“. Foi o caso


Antônia, uma das duas internas com quem tive de duas ex-presidiárias que entrevistei:
contato na minha primeira entrada no cárcere,
chegou a referir-se à cadeia como a melhor alter- “Eu cuido de uma velhinha que é mãe de
nativa de sobrevivência colocada por Deus: uma irmã da fé. Foi muito difícil arrumar
esse emprego porque se eu falava que era
“Cadeia foi a melhor coisa que me acon- ex-presidiária para as pessoas aí não ia
teceu, eu agradeço estar aqui, se eu não conseguir nada. Eu não vou f alar e não
tivesse sido recolhida estaria morta. Eu era vou mentir. Mas se não me perguntam
muito viciada, muito, eu já nem...eu estaria eu não vou falar, vou ficar calada. Se me
morta mesmo. Foi Deus quem me colocou perguntam eu falo” (Ex-Interna).
neste lugar, aqui eu conheci nosso Pai
Salvador. Desde que conheci a palavra do O universo prisional é um lugar pobre de
Senhor, a Antônia que entrou, morreu.” alternativas discursivas. Nesse contexto, o dis-
curso cristão ou de ‘superioridade moral’ se faz
Agna, que tem uma condenação de 50 anos, onipresente e concentra, monopoliza e regula
não comete suicídio porque o suicida, na “lei a palavra no cárcere e, com ela, as vias de acesso
de Deus”, é condenado: ao bem, à auto-reflexão, à auto-avaliação e à
redenção. A conversão religiosa passa a ser o
“Eu vou te falar a real aqui, porque não único caminho possível para transformação
é da lei de Deus, se não eu se mataria. Se individual. Ainda que existam outros discursos
não e xistisse Deus, se não estivesse na lei circulando no universo prisional, como o dis-
de Deus que o suicida é condenado, eu se curso psiquiátrico, psicológico e de narcóticos
suicidaria, porque eu preferiria eles terem anônimos, o discurso cristão preenche o leque
me dado uma sentença de morte, porque de alternativas discursivas que a instituição,
aos poucos eles estão me matando.” por meio dos grupos religiosos, privilegia e dis-
ponibiliza às internas. Deste modo, o discurso
Mesmo sem acreditar na doutrina proferida bíblico, na PFDF, torna-se o recurso discursivo
pelas igrejas, algumas internas assistem aos mais rico para as internas: “é ele e somente ele
cultos porque estes são espaços e momentos que, na maioria dos casos, preenche a lacuna
que preenchem o tempo de permanência no das figuras discursivas características do en-
ócio e permitem contato com o mundo de fora. cerro prisional” (Segato, 2001:138). Aliás, a
Isto porque os cultos são uma das escassas Bíblia, é o único livro que as internas podem
alternativas de sociabilidade, de conforto e de possuir nas celas e nos pátios sem nenhuma
transcendência na cadeia: restrição. É necessária a presença de outros
arcabouços discursivos através dos quais as

“Aqui nós temos sede da palavra de Deus, presas possam assumir seus crimes e suas vi-
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“Aqui nós temos sede da palavra de Deus, presas possam assumir seus crimes e suas vi-
de conversar com pessoas que não sejam das com uma atitude responsável e reflexiva:
daqui, senão a gente fica muito reprimida” “onde é responsável quem se torna capaz de
(Interna). responder pelo que fez frente aos outros e de
recuperar o senti do dos seus atos de forma
Os grupos religiosos, em algumas ocasiões, reflexiva e crítica” (Segato, 2003).
atuam como agentes de re-inserção ou de
“purificação social” para as ex-presidiárias que Questiona-se, com isso, a “contenção da pa-
adotando a identidade religiosa, de “crente” lavra” no universo prisional que impede as

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internas de relatar suas autobiografias a partir aquilo que é errado. Conversão tem que
de múltiplas vias discursivas; e que não limitem ser diária. A cadeia é uma faculdade do c
nem polarizem a concepção de si mesmas sobre me. A pessoa entra com um crime simples
supostos dicotômicos, descontínuos e exclu- frente à sociedade e a pessoa sai realmente
dentes como os que estão contidos no discurso revoltada. Então tem que realmente muda
cristão que, ao focar e trabalhar o presente do senão nós vamos ter reincidências constan-
sujeito, ignora e apaga os contextos originários tes” (Pastoral Carcerária).
destas mulheres.
Entre católicos e evangélicos há variações fren-
Cabe ainda questionar a relação que se estabele- te à conversão. Entre o discurso da Pastoral
ce entre conversões e reincidências. É necessário Carcerária e o discurso dos grupos evangélicos,
ouvir as presidiárias que não aderem aos grupos grosso modo, podemos dizer que o católico
religiosos, assim como as internas que, ainda explicita uma preocupação social que é mais
que se filiem a esses grupos, mantêm compor- condizente com a realidade e com o contexto
tamentos e práticas que, para tais religiosos, são que envolve as internas, enquanto o evangélico
inaceitáveis. A homossexualidade, por exemplo, manifesta uma preocupação de tendência mais
claramente se distancia do modelo “do bom e individual, uma preocupação com a relação
do certo” que propõe o discurso cristão. Este pessoa com Deus.
discurso na PFDF cria uma equação que equi-
para conversão religiosa com re-socialização da Por trás das conversões religiosas evangélicas,
interna. Propõe um modelo de transformação segundo Rita Segato (2003:7), existe um vo-
individual que necessariamente passa pela cabulário de “morte” e “renascimento”, onde
conversão religiosa, onde, pela “intervenção e o sujeito nega absolutamente reconhecer-se
poder de Deus“, a interna “morre“, deixa para nesse outro, que perpetrou o crime. Essa es-
trás sua anterior vida de criminosa – associada tratégia de ter sido outro, já morto, faz com
à influência do demônio e do mal – e renasce que a pessoa se exima da sua responsabilidade
para uma nova vida, convertida numa nova e desconheça a razão dos seus atos passados,
pessoa de Deus e do bem: deslocados e não assumidos, pelo sujeito que
se diz atual. Assim, por exemplo, se uma in-
“Do mês de janeiro a agora (julho) já se terna assaltou, matou ou traficou, seu crime,
converteram 100. A gente oferece: quem avaliado em termos de pecado, fica sob a res-
quer aceitar a Jesus aí, quem quer levanta ponsabilidade da ação do diabo ou de algum
a mão. Isso é conversão. Na hora que ela encosto que decidiu no lugar dela.
fala eu quero, isso é conversão. A nossa
conversão é aceitar a Jesus como o senhor e Desse modo, na conversão religiosa dos
salvador da vida. Se alguém levanta a mão, evangélicos, a responsabilidade pelas ações
essa pessoa está mudando o modo de viver passadas do sujeito encarcerado é depositada
por outro modo, pelo nosso modo. Nós nas ações do “inimigo” e a responsabilidade
não fumamos, não fazemos coisa errada, das ações presentes e futuras ficam nas mãos

somos pessoa do bem, só orar...isso é uma de Deus. Para quem já está sob um regime
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somos pessoa do bem, só orar...isso é uma de Deus. Para quem já está sob um regime
conversão. A pessoa se libertou do pecado, tutelar, privado de toda singularidade e res-
não vai querer mais matar, mais assaltar, ponsabilidade, depositar o pouco que resta de
mais me xer com drogas, vai se converter. si no poder e na vontade divina não contribui
A vida de ontem fica para trás” (I. Batista de forma alguma, com o suposto de devolver
Filadélfia). sociedade um indivíduo preparado para viver
em liberdade. Segundo agentes penitenciários,
“A conversão é mudar de vida, mudar agentes religiosos e internas são comuns
de caminho, realmente abandonar tudo casos de ex-dententas que se converteram na

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38 prisão e ao alcançarem à liberdade reincidiram católico, é repressivo e radical frente a esta


no crime e voltaram para a cadeia: prática na PFDF:
Comunicações do ISER

“Tem realmente poucas internas que, “A homossexualidade é um negócio demo-


quando saem, continuam freqüentando a níaco, mulher com mulher, homem com
Igreja. Estas mulheres lutam como umas homem, nós somos contra. A gente então
leoas todos os dias para não roubar ou não tenta botar religião na cabeça delas. A
traficar, ainda vendo os filhos com f ome. palavra de Deus diz que vão para o inferno,
Outras aparecem na Igreja no começo, isso é coisa do demônio. Se as mulheres são
para pedir cestas básicas para suas famílias lésbicas e aceitam Jesus, elas têm que dei-
e depois, somem e voltam para o crime e xar. Geralmente quando são lésbicas elas
para cadeia” (I. Primeiro de Julho). ficam sem religião, porque elas sabem que
estão erradas.” (I. Batista. Filadélfia)
“ Tem muita gente que se escuda atrás da
Bíblia, tipo um falso profet a, que fala de “A gente mostra que mulher com mulher
Deus, mas a mente está virada para o cri- é pecado. A gente mostra como o diabo
me. Têm umas que se convertem somente tenta as pessoas a f azer coisas erradas,
aqui dentro. Quando saem começam a cair coisas que são abomináveis aos olhos de
na gandaia, esquecem de Igreja, esquecem Deus. Quando a bíblia fala do lesbianis-
de tudo, caem nas drogas e voltam para mo fala que é pecado. Elas vão receber a
cadeia. Isso acontece muito” (Interna). punição pelo seu erro, Deus castiga e ele
sabe direitinho como cobrar” (Assembléia
Os parâmetros do discurso cristão colocam, de Deus).
às vezes, metas e modelos tão inatingíveis que
impedem as internas de se pensar como “uma A homossexualidade é uma prática muito
boa pessoa”. Observamos tal situação nos de- freqüente no contexto prisional e a homofo-
poimentos de algumas internas que mudaram bia exacerbada dos grupos religiosos afasta as
sua forma de agir e de pensar, acreditam em mulheres deles, mas não necessariamente da
Deus, mas não conseguem se considerar con- religião, criando conflitos entre a sexualidade
vertidas, ou seja, suficientemente “boas”: e a religiosidade das internas:

“Eu não sou convertida, a pessoa converti- “A mulher da batista me ajudou muito
da é mais sábia e eu não tenho toda aquela durante todo o tempo que estive aqui, mas
sabedoria. Às vezes sou muito esquisit a, quando falaram para ela que eu estava com
pois como levo tanto tempo aqui, às vezes outra mulher, ela ficou doida e me disse
fico revoltada, não quero falar com nin- que não acreditava isso de mim, que não
guém, fico isolada, mal-humorada, por isso fosse decepcionar ela, que se eu estivesse
não me acho convertida” (Interna). com outr a mulher ela não ia a vir mais a
me visitar. Aí eu fiquei pensando, porque

“Aqui dentro não vou me converter, porque na bíblia diz que o homosse xualismo é
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“Aqui dentro não vou me converter, porque na bíblia diz que o homosse xualismo é
você vê pessoas que é só sair do culto e abominável aos olhos de Deus. Ai eu fico
já estão te bat endo com a mesma bíblia. pensando tam bém esse lado, de eu não
Seguir Jesus é difícil e aqui dentro mais” receber uma benção de Deus, de ele não
(Interna). olhar para mim porque sigo o caminho do
homossexualismo. Eu no começo fiquei
Do mesmo modo, neste modelo do “bem” muito confusa, mas o que eu estava sen-
cristão, a homossexualidade é “pecado”. tindo era mais for te, aí eu comecei a me
Assim, o discurso evangélico, diferente do afastar das religiões, de orar, voltei a fumar,

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pegava pouco a Bíblia. Eu sabia que o que Life: Religion and Personal Identity among Pentecostal Ex-Al-

eu estava fazendo era errado” (Interna). coholics in Sweden”. In Jan-Ake Alvarsson & Rita Laura Seg

(eds): Religions in Transitio: Mobility, Merging and Globalization

“Eu acho o lesbianismo mais afetivo e mais in the emergence of Contemporary Religious Adhesions. Swedem:

carinhoso, mas na lei de Deus está homem Uppsala University Library, 2003.

com mulher e vice-versa, se não fosse peca-


do seria ótimo. Eu acho que é pecado e que SEGATO, Rita Laura. “Religião, Vida Carcerária e Direitos

eu sou pecadora, porque não é da lei de Humanos”. In Novaes Regina (org.). Direitos Humanos, Te-

Deus, não é certo. Mesmo eu crendo e acre- mas y Perspectivas. Rio de Janeiro: ABA/ MAUAD/ Fundação

ditando em Deus eu continuo no pecado, é Ford, 2001.

isso. Mas eu prefiro ficar com mulher. Para


mim lidar com isso é muito difícil porque eu ---------------- “El Sistema Penal como Pedagogia de la Irrespon-

fico em dúvida e com raiva. Eu quero seguir sabilidad y el Proyecto Habla Preso: el derecho humano a la

a bíblia, mas é muito difícil para mim, eu palabra en la cárcel”. En: Serie Antropologica # 329. 2003.

não gosto de homem” (Interna).

Segundo as internas, existem mais “conversões


sexuais” do que religiosas na penitenciária:
um maior número de internas vira lésbica
do que “crente” ou católica. A penitenciária
disponibiliza às internas o acesso ao discurso
cristão que monopoliza as escassas alternati-
vas discursivas do universo prisional, como já
salientamos anteriormente.

Para muitas internas, o papel que desem-


penham os grupos religiosos e o discurso
cristão constitui, junto com a sociabilidade e
a homossexualidade, um dos mecanismos de
adaptação-resistência, ou seja, atuam como
caminhos de volta à singularidade dentro do
contexto prisional. Neste processo podem
singularizar-se diante de si mesmas, das par-
ceiras e do Deus cristão. Estes compõem o
tripé fundamental para preencher de sentido
e dar finalidade à vida e ao dia a dia atrás das
grades. Constituem-se em razões essenciais
para a sobrevivência ao aprisionamento.

Bibliografia

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RICHETTE, Christian. “I´ve Got The Promise of an Eternal

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Citations (5) References (0)

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Dec 2010
Joaquín Algranti

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The role of religion in the promotion of health, in the prevention of violence and in the
rehabilitation of individuals involved in criminal activity: Literature review
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Fernanda Mendes Lages Ribeiro · Maria Cecília de Souza Minayo

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