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O uso dos conceitos de Hipoícones e de Legisignos da semiótica peirceana


para a análise de Marcas Gráficas

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Eduardo C. K. Ferreira
University of São Paulo
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Versão completa do poster apresentado no 11º P&D Design 2014 - Gramado, que será
publicado na forma de Resumo nos anais do evento. Apresentado dia 01/10/2014

Gramado – RS

De 30 de setembro a 2 de outubro de 2014

O USO DOS CONCEITOS DE HIPOÍCONES E DE LEGISIGNOS DA SEMIÓTICA


PEIRCEANA PARA A ANÁLISE DE MARCAS GRÁFICAS

Resumo: No ano de 2003, a professora doutora Priscila Lena Farias


apresentou ao 1º Congresso de Design da Informação o trabalho “Imagens,
diagramas e metáforas: uma contribuição da semiótica para o design da
informação”, onde introduz os conceitos de Imagem, Diagrama e Metáfora
da semiótica peirceana, e apresenta um exemplo de análise de
pictogramas utilizando-se dessas classificações. O presente trabalho visa
fornecer uma contribuição à essa proposta de análise, através de sua
aplicação em marcas gráficas de eventos esportivos. Primeiramente,
delineia-se um pequeno resumo da pesquisa de Farias e dos
aprofundamentos da autora. Segue-se de uma proposta de análise da
teoria aplicada a marcas gráficas, e ao final elencam-se sugestões de
possibilidades de uso dos três tipos de signos em projetos de design.

Palavras-chave: Semiótica Peirceana, Marcas Gráficas, Hipoícones,


Legisígnos

1. INTRODUÇÃO
A Semiótica Peirceana, conhecida pela sua profundidade e amplitude na análise
de signos e relações sígnicas, tem se mostrado bastante aceita no campo do design
como ferramenta de análise e até de suporte projetual (buscas pelo termo “semiótica”
ou “Peirce” nos sites e anais de eventos como P&D Design, CIDI e Ciped evidenciam tal
impressão). Em 2003, Priscila Lena Farias apresentou no 1º CIDI um trabalho com o
intuito de tornar conhecido ao campo um conceito ainda pouco explorado pelos
designers, denominado hipoícone. Entitulado “Imagens, diagramas e metáforas: uma
contribuição da semiótica para o design da informação”, o trabalho apresenta os três
conceitos como ferramenta de análise de signos visuais, como segue por um exemplo
de análise aplicada a pictogramas e seu caráter informativo (FARIAS, 2002).
No ano de 2006 em trabalho de título “Images, diagrams, and metaphors:
Hypoicons in the context of Peirce’s sixty-six fold classification of sign” de co-autoria de
João Queiroz, Farias e o autor aprofundam o estudo de tais classificações de signos
icônicos, localizando-os no contexto das 66 classes de sígnos de Peirce (FARIAS &
QUEIROS, 2006). Já em 2008, Farias aprofunda tais conceitos, dessa vez focando
especificamente no hipoícone Diagrama, e seu desmembramento em outros
momentos da obra de Peirce, como a ideia de “pensamento diagramático” (FARIAS,
2010)
2

Com esse constante desenvolvimento feito pelos autores, acreditamos que as


possibilidades de análise também tornaram-se maiores. Assim, o presente trabalho
visa trazer introdutoriamente os conceitos apresentados, retomar as definições e
interpretações dadas aos conceitos de Imagem, Diagrama e Metáfora, e apresentar
uma análise utilizando-se dos mesmos para o estudo de marcas gráficas de eventos
esportivos.
Ressaltamos que o trabalho não apresentará resumo ou introdução à semiótica
de Charles Sanders Peirce, e para esse fim outros escritos cumprem melhor papel
(Santaella, 2001; Farias, 2002; Santaella, 2003; Romanini, 2009; Santaella, 2012, entre
outros). Assim, alguns dados já são dados como conhecidos para o entendimento do
artigo.
Cabe ainda colocar que a análise aqui apresentada fez-se inicialmente por
ocasião de um trabalho de conclusão de curso para grau de bacharel em Design pela
FAU USP (Autor, 2012), com desenvolvimentos posteriores (Autores, 2012; Autores,
2013)1, e dentre eles, esse aprofundamento aqui descrito.

2. HIPOÍCONE, IMAGEM, DIAGRAMA E METÁFORA


Charles Sanders Peirce apresenta a ideia de Hipoícones pela primeira vez no
Syllabus de 1903 (CP. 2.276-277) atrelado à ideia de Ícone. Segundo Peirce:

“Um Ícone é um signo que se refere ao Objeto que denota apenas em virtude de seus
caracteres próprios, caracteres que ele igualmente possui quer um tal Objeto
realmente exista ou não (...). Qualquer coisa, seja uma qualidade, um existente ou
individual ou uma lei, é Ícone de qualquer coisa, na medida em que for semelhante a
essa coisa e utilizado como um seu signo” (CP 2.247)

Numa análise mais acurada da natureza de um ícone puro, Peirce o aponta


como apenas uma possibilidade lógica, não como algo singular e nem mesmo como
uma ideia, dado que um ícone puro representaria plenamente seu objeto, o que o
tornaria o próprio objeto. Farias (2002) detalha as razões para tal da seguinte forma:

“(...) podemos dizer que, em termos estritos, um ‘ícone puro’ é apenas uma
possibilidade lógica, e não algo existente. Mesmo por que, dentro das possibilidades
de relação do signo com seu objeto, relações de natureza existencial são descritas
como indexicais, e não icônicas. Por outro lado, um símbolo, para Peirce, é algo muito
mais geral, que não pode ser reduzido a um exemplo específico de sua categoria, e
muito menos a uma simples relação de semelhança.”

Romanini desenvolve a definição de um ícone da seguinte maneira:

“o ícone representa seu objeto graças a uma comunhão de qualidades que produz uma
semelhança entre ambos. Na verdade, um ícone puro não faz qualquer distinção entre o objeto
e si mesmo (CP 5.74), de forma que a essência de um se funde na do outro. Um ícone puro não
pode existir, já que a existência pressupõe segundidade. O ícone é um importante portador,
ainda que passivo, da forma do objeto – e, conseqüentemente, da informação que dessa forma
será derivada” (ROMANINI, 2009)

1 Nomes dos autores e títulos dos trabalhos não acrescentados à referência bibliográfica para não identificação de
autores deste trabalho.
3

E é justamente na impossibilidade de existência de um ícone puro que Peirce


apresenta a ideia de hipoícones:

“...em termos mais estritos ainda, memso uma ideia, exceto no sentido de uma
possibilidade, ou primeiridade, não pode ser um ícone(...) Mas um signo pode ser
icônico, isto é, pode representar seu objeto principalmente através de sua
similaridade, não importa qual seja seu modo de ser. Se o que se quer é um
substantivo, um representâmen icônico pode ser denominado de hipoícone.” (CP
2.276)

Assim, dado que o que define o Hipoícone é sua capacidade de representar seu
objeto por alguma similaridade, sem necessidade de um modo de ser específico,
interessa observar que esse detalhe do “modo de ser” deve ser remontado à
faneroscopia peirceana, quando o filósofo institui as três categorias lógicas universais,
a primeiridade (qualidade), secundidade (relação) e terceiridade (universal), sendo que
toda terceiridade constitui-se de secundidades e primeiridades, e toda secundidade se
primeiridades. A primeiridade é necessária à secundidade, assim como essa é
necessária à terceiridade. Cada signo, conforme sua respectiva categoria, possui um
modo especial de existência ou apresentação, como já apontado por Farias
anteriormente. Na primeiridade, o signo é de qualidade e possibilidade. Na
secundidade, de relação e existência. E na terceiridade de lei e generalidade.
Afirmando que os Hipoícones possuem características Icônicas sem
necessariamente terem o modo de ser de um ícone, Peirce afirma a existência de tal
classe também em outros níveis faneroscópicos que não apenas a primeiridade pura.
Prossegue, assim, na definição dos tipos de Hipoícones dentro de sua lógica
categorial:

“Os hipoícones, grosso modo, podem ser divididos de acordo com o modo de
Primeiridade de que participem. Os que participam das qualidades simples, ou
Primeira Primeiridade, são imagens; os que representam as relações, principalmente
diádicas, ou as que são assim consideradas, das partes de uma coisa através de
relações análogas em suas próprias partes, são diagramas; os que representam o
caráter representativo de um representâmen através da representação de um
paralelismo com alguma outra coisa, são metáforas” (CP. 2.277)

Detalhando, Farias e Queiroz (2006) nos apresentam (tradução livre nossa):

“Uma vez que uma Imagem é um sinsigno icônico cuja similaridade com seu objeto é
baseado em aspectos qualitativos, seus objetos dinâmico e imediato só podem ser da
natureza de materiais existentes, ou alguns de seus atributos mais relevantes como
reflectividade, tensão de superfície, tamanho relativo, silhueta e peso.
“Uma vez que um Diagrama (...) é um sinsigno icônico cuja similaridade com seu objeto
é baseado em aspectos de relação, podemos dizer que seu objeto dinâmico é um
padrão de relações (...). Nesse sentido, se o objeto dinâmico é um padrão regular de
relações, seu objeto imediato é um existente.
“Um vez que a Metáfora é um sinsigno icônico cuja similaridade com seu objeto é
baseado em aspectos de lei, o objeto do hipoícone só pode ser de natureza de
terceiridade, ou geral" (FARIAS e QUEIROZ, 2006)
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No entanto, tal grupo dos hipoícones carecem de localização no quadro das


classes de signos peirceanas. Já que no quadro das 3 e 10 classes não restam espaços
vagos, os autores procuram localizá-los dentro das 66 classes de signos (FARIAS e
QUEIROZ, 2006). Conquanto tal ponto especificamente não caiba ser explicitado aqui
(principalmente pela profundidade de estudos que o assunto das 66 classes demanda),
uma interpretação dos autores merece destaque aqui, que é a classificação dos
hipoícones como sinsignos icônicos (ou espécies de um sinsigno icônico).
Hipoícones não podem ser identificados como Qualissigno puro, pois este trata-
se de pura qualidade (como o ícone puro), enquanto um Hipoícone possui caráter
icônico, mas não o é. Também não pode ser um legissigno pois este possui caráter de
lei e universalização, enquanto um Hipoícone é um signo instanciado, ou seja,
exemplos singulares de um fato. Característica que o define como sinsigno. Nas
palavras de Peirce:

“Um Sinsigno Icônico (e.g. um diagrama individual) é todo objeto de experiência na


medida em que alguma de suas qualidades faça-o determinar a ideia de um objeto.
Sendo um Ícone e, com isso, um signo puramente por semelhança de qualquer coisa
com que se assemelhe, só pode ser interpretado como um signo de essência, ou
Rema” (Peirce, CP 2.255).

Defendemos que tal classificação dos Hipoícones como Sinsigno de evidente


importância, pois permite que outros pontos emerjam da comparação de diversos
Sinsignos agrupados (como a hipótese de um Legisigno, ou seja, uma Lei regente de
todos Sinsignos agrupados). Em nosso estudo de caso, especificamente, isso tornar-se-
á bastante claro. Antes disso, os exemplos fornecidos por Farias (2002) será útil a
aproximar-se de uma situação de uso analítico dos Hipoícones.
Em seu primeiro trabalho sobre o assunto, Farias apresenta como exemplo da
aplicação desses conceitos ao design da informação a análise de três ícones, que
reproduzimos aqui.
Como primeiro exemplo de Hipoícone Imagético, Farias apresenta a seguinte
imagem (Figura 1). Nela justifica o caráter imagético pela semelhança formal entre a
figura pictogrâmica e uma figura de homem.
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Figura 1 – Ilustração de similaridade entre imagem de homem e um pictograma. Fonte:


Farias, 2002

Em seu segundo exemplo, localiza o pictograma realizando a ação de jogar ao


lixo algo. Tal contexto relacional de figura, objeto e lixo, assim como a direção vertical
de queda do objeto da mão ao lixo, formam o que Farias classifica como relação
diagramática.

Figura 2 – Ilustração diagramática das relações entre picograma, objeto e lixo. Fonte: Farias,
2002
E o terceiro exemplo apresentado pela autora para ilustrar um Hipoícone
metafórico, onde o pictograma joga ao lixo um símbolo do Nazismo, as relações
diagramáticas do segundo exemplo recebem o acréscimo ideológico em relação ao
nazismo, de “vamos acabar com o nazismo” (Figura 3).

Figura 3 – Ilustração do hipoícone metafórico, onde se joga uma ideologica no lixo, indicativo
de que não deve ser seguida, mas extinta. Fonte: Farias, 2002

3. MARCAS GRÁFICAS DE EVENTOS ESPORTIVOS: APLICAÇÃO DOS CONCEITOS DE


HIPOÍCONES
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Como uma nova aplicação de tais conceitos, e explicitação da importância do


reconhecimento do caráter sinsignico aos hipoícones, apresentamos aqui um trecho
de uma análise apresentada por ocasião de um trabalho de conclusão de curso em
2011, cujo tema procurou entender o que se chamou então de brasilidade no logotipo
das olimpíadas do Rio 2016, recém-lançado no início daquele ano. Os conceitos dos
hipoícones auxiliaram, na fase de análise da marca e de outras marcas gráficas de
outros diversos eventos esportivos internacionais que aconteceriam no Brasil, a
identificar os diversos níveis de profundidade ou superficialidade de relações das
imagens a conceitos.
A imagem (Figura 4) seguinte apresenta as marcas gráficas analisadas, e seus
respectivos eventos na legenda.

Figura 4 – Marcas gráficas dos eventos esportivos utilizados nas análises. No sentido de cima
para baixo, esquerda para direita: 1. Candidatura de Brasília para Olimpíadas 2000; 2. VII Jogos Sul-
Americanos 2002; 3. Candidatura do Rio para Olimpíadas de 2004; 4. Candidatura do Brazil para Copa
do Mundo FIFA 2006; 5. Jogos PanAmericanos Rio 2007; 6. Mundial de Futsal FIFA 2008; 7.
Candidatura do Brasil para Olimpíadas 2012; 8. Candidatura do Brasil para Mundial da FIFA 2014; 9.
Logotipo Oficial Mundial da FIFA 2014; 10. Candidatura do Rio para Olimpíadas 2016; 11. Logotipo
Oficial Olimpíadas Rio 2016. Montagem pelos autores.

Após levantar em notícias de jornais e em comentários na internet as


características que eram atribuídas aos logos quando comentados sobre sua
adequação à imagem do povo brasileiro, chegaram-se a alguns termos chave, que a
seguir (Figura 5) ligamos com cada uma das imagens onde apareceram.
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Figura 5 – Termos recorrentes, e onde ligados a quais logotipos apareceram.

Para as outras marcas gráficas não se encontraram maiores comentários.


Desmembraram-se, assim, esses mesmos termos entre outros, e ampliou-se o
diagrama para os demais itens de estudo, como apresentamos na Figura 6.

Figura 6 – Desmembramento dos termos e diagrama com demais marcas gráficas.

Listando as características que poderiam ter ligação literal (imagética) com seus
objetos, observa-se que se trata da mais básica que são as Cores da Bandeira, o
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tradicional Verde e Amarelo. A esse ponto identificamos o nível da Imagem,


caracterizado pela similaridade a aspectos qualitativos (cor).
Para um segundo nível, identificamos ao Diagrama as características relacionais
das marcas gráficas, como no caso da Candidatura do Brasil aos Jogos Olímpicos de
2004, a relação entre as fitas formam a silhueta do Pão de Açucar. Assim, nem trata-se
de uma representação qualitativa literal apenas, e nem de uma arbitrariedade.
Para essa última, o nível da Metáfora, o identificamos com aspectos muito mais
convencionais, ou culturais, como por exemplo o sentimento que as “Mãos dadas” do
logotipo para a Copa do Mundo FIFA 2013 desejam representar. Todos aspectos que
remontam a sentimentos ou afetividades foram listados como metáforas.
Assim, temos o seguinte quadro:

Quadro 1 – Níveis de Significação e Hipoícones.


Brasília 2000 Jogos Sul- Cand. Rio Cand. Copa Pan 2007 Futsal 2008
Imagem: Forma Americanos 2004 FIFA 2006 Imagem: Silhueta Imagem:
da Catedral 2002. Imagem: Imagem: dos pássaros é o Cores da
Diagrama: Imagem: Cores Fitas em Cores da pão de açucar Bandeira
Relação entre a da Bandeira e Movimento Bandeira Diagrama: Diagrama:
forma da Silhueta de e Cores da Diagrama: Relações entre Relação
catedral e os tocha Bandeira Relações entre elementos entre as
arcos olímpicos Diagrama: as formas remetem a uma formas gera
para remeter a Relação geométricas e revoada centrífuca uma arara
uma tocha entre as fitas suas cores Metáfora:
para formar remontam às Diversidade nas
o pão de formas da Cores e
açucar bandeira Quantidades
Cand. Rio 2012 Cand. Rio 2014 FIFA 2014 Cand. Rio Rio 2016
Imagem: Fitas Imagem: Letra Imagem: 2016 Imagem: Cores da
em movimento “Caligrafada”, Cores da Imagem: Bandeira,
nas cores da Bola de Futebol Bandeira Cores da Silhuetas de
Bandeira + e Faixa em Diagrama: Bandeira Pessoas
vermelho Movimento Relação Diagrama: Diagrama:
Diagrama: Diagrama: espacial Relações entre Relações entre
Conjunto de Relação entre entre as formas e cores imagem sugere
fitas remetem a faixa e Bola mãos formam o pão uma ciranda ou
Carnaval e criam ideia de remete à de açucar e abraço
Festividade movimento e taça da Baía de Metáfora:
Gol Copa Guanabara Relações de
Metáfora: Metáfora: Metáfora: O afetividade entre
Cores + Bola + Relações todo forma as pessoas
Faixa remetem afetivas pelo um coração
a Festividade e entrelaçame
à Bandeira do nto das
Brasil mãos

A repetição de termos e ideias entre as formas dos logos nos levaram àquele
momento a criar algo como uma estrutura de código de Brasilidade, ou seja, algo que
poderia ser compreendido como um conjunto de regras convencionadas que se
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seguidas possibilitam a criação de determinado sentido caso interpretadas pelo


receptor. Interessa ressaltar que tal ideia de criação do código remonta à teoria que
então abordávamos, de Estruturas Modelizantes, emprestada da Semiótica Russa de
Lotman e demais membros da Escola de Tártu.
Essa possibilidade de um código de brasilidade consideramos então como um
Legisigno, emergido a partir da análise de uma série de Sinsignos, ou seja, a leitura das
Marcas Gráficas em seus hipoícones.

4. O USO DOS HIPOÍCONES PARA PROJETO DE MARCAS GRÁFICAS


Embora nosso exemplo tenha se tratado de uma análise posterior ao projeto, e
ainda de um conjunto não necessariamente uniforme de exemplos, acreditamos que é
possível intuir um uso de projeto a esses conceitos de Hipoícones.
Um primeiro dado que ressaltamos é novamente a característica de Sinsigno.
Sendo um sinsigno um elemento instanciado e pontual de algo maior (ou seja, uma
secundidade), podemos supor que a terceiridade é uma possibilidade lógica. Já se
pensarmos numa terceiridade que é um legisigno, daí então a secundidade passa a ser
uma necessidade lógica segundo as categorias peirceanas.
Ou seja: se durante a fase de conceituação de projeto encontrarem-se aqueles
pontos que são os legisignos conceituais daquilo que se pretende representar (seja
uma empresa, um evento, ou qualquer entidade que se pretenda criar uma marca
gráfica), necessariamente tal legisigno (mesmo que arbitrário) trará consigo um
universo limitado de possibilidades de sinsignos, ou seja, um universo limitado de
possibilidades de hipoícones a serem trabalhados.
Dependendo ainda do conhecimento que o público possui de tal entidade,
trabalhar tais hipoícones será uma questão de elencar quais são os níveis de
significados e formais que constituem cada uma das imagens, diagramas e metáforas
àquele legisigno maior. Conforme nosso exemplo anterior demonstrou-nos, os níveis
mais complexos estão na Metáfora, enquanto as relações mais explícitas estão no
Diagrama, e a mimese de alguma qualidade está na Imagem, e isso pode ser um dado
importante a não se trabalhar com signos que não serão compreendidos pela maioria
das pessoas.
Interessaria, ainda, verificar os aspectos cognitivos envolvidos em cada um dos
níveis categoriais e de classes sígnicas desse legisigno. E, para avançar a discussão além
das 10 classes de signos de Peirce, localizar os hipoícones dentro das 66 classes
conforme análise de Farias e Queiroz (2006) torna possível também aprofundar tais
aspectos de semiose envolvendo pontualmente os hipoícones. Tal análise, embora
insinuada aqui, deverá ser desenvolvida em trabalho futuro.

5. CONCLUSÃO
Pretendemos através desse trabalho resgatar pesquisas que trouxeram ao
universo do Design os conceitos de Hipoícones, ilustrando-os tanto com seus exemplos
originais providos por Farias (2002), quanto com um novo exemplo de caso de estudo,
proposto por nós. Através de tal análise, focamos na importância de identificar os
hipoícones com Sinsignos, e como tal dado poderia ser relevante a partir do momento
10

que um grupo de Sinsignos geram uma generalização de sentido na forma de um


Legisigno.
Para finalizar, retomando um comentário final do texto de Farias (2002):

A relevância destes conceitos [hipoícones] enquanto ferramentas de análise também


sugere que os mesmos possam ser empregados no estabelecimento de estratégias
adequadas para a criação de sistemas de informação visual mais eficientes, mas este é
um tópico para pesquisas futuras.

Acreditamos que nossa contribuição quanto à análise confirma as


possibilidades frutíferas de análise, e nossas indicações ao final do texto (num modelo
de engenharia reversa) permitiram indicar um possível caminho de uso de tais
conceitos para criação de trabalhos gráficos, conforme a própria autora sugeriu
interessante. Resta a que futuras pesquisas e ensaios confirmem a utilidade de tais
ideias a um projeto concretizado.

REFERÊNCIAS
FARIAS, Priscila. Imagens, diagramas e metáforas: uma contribuição da semiótica para
o design da informação. In: Congresso Internacional de Design da Informação, 2003,
Recife. Anais do Congresso Internacional de Design da Informação. Recife : SBDI -
Sociedade Brasileira de Design da Informação, 2003. v. 1. p. 1-11.
_________. QUEIROZ, João. Images, Diagrams, and Metaphors: Hypoicons In the
Context of Peirce’s Sixty-Six-Fold Classification of Signs. In: Semiotica, v.162, n. 1/4, p.
287-308, 2006.
_________. O conceito de diagrama na semiótica de Charles S. Peirce. In: Triades em
Revista, v.1, p.1-13 , 2008
LOTMAN, Iúri. Sobre o problema da tipologia da cultura, in SCHNAIDERMANN, B.
Semiótica Russa. São Paulo: Editora Perspectiva, 1979
PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. São Paulo: Editora Perspectiva, 1977.
ROMANINI, Vinicius. Minute Semeiotic [internet]. São Paulo: 2009 [acesso em
Abril/2014] - Disponível em http://www.minutesemiotic.org
SANTAELLA, Lucia. Matrizes da linguagem e pensamento. São Paulo: Editora
Iluminuras, 2001.
__________. O que é semiótica?. São Paulo: Editora Brasiliense, 2003
__________. Percepção: Fenomenologia, Ecologia, Semiótica. São Paulo: Cengage
Learning, 2010

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