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unesp UNIVERSIDADE ESTADUAL PAULISTA

CÂMPUS DE MARÍLIA

Faculdade de Filosofia e Ciências

Análise pedagógica apresentada à disciplina Metodologia


de Ensino II, ministrada pela Prof.ª Dr.ª Sueli Guadelupe
de Lima Mendonça, do Departamento de Didática da
Faculdade de Filosofia e Ciências, campus de Marília
(SP).

Aluno: Caio Nunes da Cruz

Curso: Ciências Sociais (Noturno)

Disciplina: Metodologia do Ensino das Ciências Sociais II

Professora: Sueli Guadelupe de Lima Mendonça

Novembro
2017
Introdução

Em geral, na formação dos professores de sociologia, algumas questões


são priorizadas e outras preteridas. É algo comum para o estudante de ciências
sociais, ou para o professor recém formado, a capacidade de realizar uma
análise sociológica da educação, levando em conta a particularidade do seu
local de estudo e trabalho. Conseguimos colocar problemas, trabalhar com
hipóteses, e chegar a conclusões, entretanto, nossa análise permanece presa
na perspectiva sociológica, trabalhamos com conceitos e categorias gerais, nos
atentamos para a estrutura, para a relação entre os sujeitos e as instituições, e
mesmo que nosso trabalho esteja diretamente ligado com a educação,
raramente levamos em conta nas nossas análises, as questões próprias da
pedagógia e da forma como ensinamos e aprendemos os conteúdos que temos
de trabalhar em sala de aula. Não se trata apenas de saber o porque a
disciplina de sociologia se mantêm tão instável no ensino brasileiro, ou do
porque o mercado de trabalho esta tão limitado, ou então analisarmos o papel
da escola na sociedade de classes, enquanto reprodutora da ideologia das
classes dominantes. Nossas análises tem que ir além, tem de ir para dentro
das relações em sala de aula, nós também precisamos aprender a forma como
o conteúdo que estamos trabalhando, é aprendido pelo aluno, sem isso,
corremos o risco de reproduzirmos a didática da pedagogia tradicional, e nos
limitaremos a sermos reprodutores de conteúdo sociológico que só serve para
provas e vestibulares. A sociologia tem de servir para além disso. Tem de servir
para a própria formação humana de nossos alunos. Pois eles também são
sujeitos históricos, e o que nós estudantes e professores de sociologia
sabemos, é que o acumulo dos conhecimentos produzidos em quase 150 anos
de sociologia e ciências sociais servem para muito mais do que acertar alguns
pontos no vestibular. Buscaremos nesse trabalho, pensar justamente a forma
que se dá o processo de ensino e aprendizagem nos sujeitos, qual a origem
desse processo? Quais o meios em que ele se realiza? Como podemos
orientar nossos trabalhos em sala de aula de forma a garantir a emancipação
dos sujeitos e não sua conformação. Ao menos, garantir a socialização dos
conhecimentos produzidos pela humanidade. Um papel que a escola pública
deixou de realizar a tempos.
A Teoria Histórico-Cultural – Vygostki, Leontiev, Davydov

A Teoria Histórico-Cultural é o fruto do desenvolvimento das teorias da


psiquê calcadas nas premissas da filosofia da práxis. Seu fundador e principal
teórico, L. S. Vygotsky, junto a A. N. Leontiev e A. R. Luria, em parceria com
outros pesquisadores de elite dos campos da psicologia e da pedagógica, dão
inicio em 1924, na U.R.S.S, a uma série de estudos que se prologam até 1934,
estudos estes que irão definir o corpus da teoria psicológica histórico-cultural.
Assim, nestes 10 anos, estes pesquisadores irão se debruçar sobre as
discussões da origem e formação do psiquismo humano, do desenvolvimento
da consciência, do processo de ensino e aprendizagem, das emoções, da
atividade e da formação humana, entre outros conceitos basilares da teoria
histórico-cultural.

L.S. Vygotski, procurando romper com as limitações positivistas no


campo da psicologia e da pedagogia tradicional, desenvolve as premissas da
filosofia da práxis, desenvolvida por Karl Marx, a partir de um novo olhar nestas
áreas, agora visando o campo da formação da psiquê humana através de sua
categoria fundante: o trabalho.

Para Karl Marx, é a atividade ou a capacidade de trabalho, que nos


diferencia dos animais, e nos define enquanto humanidade. Historicamente, foi
a nossa atividade do trabalho, que nos permitiu enquanto espécie, sobreviver
as adversidades do mundo natural, retirando deste mesmo mundo natural
aquilo que necessitamos para sobreviver e reproduzirmos nossa vida.
Diferentemente do resto das espécies animais, que também retiram sua
sobrevivência do ambiente, estas o fazem de forma adaptativa, guiadas
instintivamente por sua herança genética, herdada através do processo de
evolução. Nós enquanto humanidade não carregamos essa herança genética
para além da nossa própria constituição física. Todo o resto deve ser criado
através do trabalho, ao modificarmos constantemente a natureza para
saciarmos nossas carências e necessidades, porém, não guiados pela
genética, mas pela cultura. Produzimos, na nossa relação de transformar a
natureza, a história e a cultura humana, e nesta relação, somos transformados,
pois nos tornamos algo além daquilo que nossa herança genética nos permitiu.
Deixamos de ser animais e nos transformamos em humanos.
Assim, tendo o trabalho como constituinte da nossa humanidade, nos
libertamos de nossas prisões naturais. Pois estas eram limitadas, e não
bastavam para reproduzirmos nossa existência. Assim, passamos de um ponto
evolutivo no campo da natureza, para o campo da história e da cultura. E este
novo mundo, que nós enquanto humanidade produzimos através do trabalho, é
algo externo a nossa herança genética, esse conjunto de conhecimentos não
será reproduzido de forma natural através de nossos genes, então como
garantir que nossos filhos, e as gerações posteriores conheçam o que foi
produzido antes de suas existências, e possam assim, continuar suas vidas a
partir deste acumulo? Através da educação.

A nossa forma de transmitir o conjunto de conhecimentos que


construímos enquanto humanidade, não se transmite geneticamente, mas
através do processo de educação das novas gerações. É preciso transmitir o
conhecimento produzido para aqueles que nasceram sem nenhum destes
conhecimentos. É por isso, que o humano é um ser obrigatoriamente gregário,
nossa primeira carência para sobrevivermos é estarmos juntos aos nossos, a
sociedade. E é por meio da nossa relação com a sociedade que iremos
aprender e descobrir como reproduzirmos nossa existência, sem que fosse
preciso reinventar a roda da história a cada novo nascimento de uma criança. A
nossa natureza, não é mais natural, mas é histórica e cultural, e nossa herança
não é mais genética, mas é educacional.

Como nos diz Karl Marx nos seus Manuscritos Econômicos e Filosóficos:

Todas as suas relações humanas com o mundo, a visão, a audição, o


olfato, o gosto, o tato, o pensamento, a contemplação, o sentimento, a vontade,
a atividade, o amor, em resumo, todos os órgãos da sua individualidade que,
na sua forma, são imediatamente órgãos sociais, são no seu comportamento
objetivo ou na sua relação com o objeto a apropriação deste, a apropriação da
realidade humana. (MARX Apud LEONTIEV, p. 286)

É sobre estes processos que a teoria histórico-cultural busca uma


melhor compreensão da formação e do desenvolvimento humano. E é por isso
que Vygotsky se debruçara extensivamente sobre o problema do processo da
comunicação em sociedade enquanto uma necessidade para a formação da
psiquê humana. Para ele, é necessário não mais nos perguntarmos o que nos
define como humanos, mas como se dão os processos que nos definem como
humanos, em especial, o processo de educação.

Para L. S. Vygotsky (1896-1934), o processo de aprendizagem e ensino


na educação, acontece através da comunicação dos sujeitos com a sociedade,
nesta comunicação, a linguagem vai se constituindo, permitindo que o sujeito
apreenda o sentidos e atribua significados as coisas ao seu redor. Este
processo acontece de forma que o sujeito internalize em si, aquilo que antes
estava externo a ele, e assim, ele se desenvolve enquanto indivíduo, e
desenvolve suas funções psíquicas superiores, as condições cognitivas
necessárias para que ele continue aprimorando o seu processo de apropriação
dos objetos da cultura produzidos pela humanidade. Assim, Vygostky evidencia
o caráter mediativo da educação, pois o sujeito, não se apropria diretamente
dos objetos da cultura, é preciso que esta apropriação seja mediada, ou seja,
esse processo é uma relação entre o sujeito e objeto. Nisto, é preciso
compreendermos a importância desta mediação através do conceito de
Atividade.

O conceito de atividade é fundamental para entendermos como se dá a


relação entre o sujeito e a realidade imediata, é fundamental para entendermos
como se dá o processo de internalização e apropriação dos objetos da cultura.
A ideia de atividade, provém da filosofia da práxis, pois assim como o homem
transforma a natureza e a si mesmo através da atividade trabalho, é pela
atividade que o sujeito transforma a si mesmo na relação com os objetos da
cultura. O desenvolvimento psíquico humano, é produto e material da vida
concreta, da realidade imediata, que se internaliza no sujeito e aparece como
atividade da consciência.

A teoria da atividade vai ser melhor desenvolvida por A. N. Leontiev


(1903-1979). Para o autor, a atividade é a premissa fundamental de toda ação
humana. E toda atividade, provém de uma necessidade, e detém uma
intencionalidade, um motivo. Caçamos porque sentimentos fome, e a forma
como iremos caçar determina o resultado de nossa atividade. Não é diferente
na formação do psiquismo humano, e no processo de apropriação dos objetos
da cultura. Assim, toda atividade humana tem sua ação correspondente.
Em resumo:

No cerne da teoria da atividade está a concepção marxista da natureza


histórico-social do ser humano explicada nas seguintes premissas: 1) a
atividade representa a ação humana que mediatiza a relação entre o homem,
sujeito da atividade, e os objetos da realidade, dando a configuração da
natureza humana; 2) o desenvolvimento da atividade psíquica, isto é, dos
processos psicológicos superiores, tem sua origem nas relações sociais do
indivíduo em seu contexto social e cultural. (LIBÂNEO; FREITAS, p. 4)

Assim, Leontiev procura entender o papel da atividade didática e as


ações de aprendizagem necessárias no processo do desenvolvimento humano.
Podemos pensar que a internalização e a apropriação do sujeito dos
fenômenos e objetos ao seu redor, se dá diretamente através dessa relação
das necessidades e dos motivos desse sujeito frente a suas ações. Nas ações
de aprendizagem, é necessário então buscarmos criar atividades didáticas que
levem em conta este processo.

Partindo então das contribuições de Vygotsky e Leontiev, V. V. Davydov


(1930-1988) irá desenvolver uma teoria do ensino a partir dos conceitos da
teoria histórico-cultural e da teoria da atividade, criando a teoria do ensino
desenvolvimental. Para o autor, a principal atividade exercida pelas crianças
em idade escolar, são as atividades de aprendizagem, por isso, é necessário
pensarmos uma teoria do ensino que dê conta de nestas atividades de
aprendizagem, realizar a transmissão do acumulo do conhecimento cultural
produzido pela humanidade, garantindo assim, que o sujeito aluno, se aproprie
desses conhecimentos, e não apenas como dados, mas como instrumentos
que irão permiti-lo reproduzir sua vida. Então, Davydov irá definir em sua teoria,
que o principal conteúdo a ser transmitido nas atividades de aprendizagem, é o
conhecimento teórico-científico. Pois este conteúdo permitirá ao aluno
desenvolver as capacidades e habilidades necessárias para a vida. Assim,
partindo deste conteúdo, os métodos de ensino e aprendizagem devem ser
construídos, de forma a atender as necessidades dos sujeitos alunos,
permitindo que a apropriação e a internalização dos conhecimentos aconteça.
Para Davydov então, é necessário que as atividades de ensino e
aprendizagem, ocorram de maneira a desenvolver a formação das funções
psíquicas superiores, garantindo assim o desenvolvimento e a formação dos
sujeitos humanos, na sua relação com os objetos da cultura. Para isso, é
preciso que o professor, detenha total clareza teórica acerca das bases que
irão orientar o seu trabalho, de forma que domine o conteúdo das disciplinas e
da didática necessária para realizar o trabalho com os alunos. Assim, tendo
este domínio, o professor ainda deve buscar trabalhar com o conhecimento
teórico cientifico de forma concreta, buscando a partir das necessidade dos
sujeitos alunos, o prosseguimento da atividade, e sempre buscando trabalhar
os conceitos em sua essência, para além de floreios teóricos, buscar o
irredutível do conceito, de forma que conceito-chave possa ser
operacionalizado e apropriado pelo sujeito aluno em sua vida.

A teoria histórico-cultural, em especial as contribuições desenvolvidas


pelos três autores trabalhados, demonstram o potencial que esta teoria oferece
para o trabalho docente no geral, e em especial para o trabalho da sociologia,
pois no ensino de sociologia, podemos notar a importância maior do trabalho
com o conhecimento teórico cientifico e com os conceitos-chaves. É muito
comum o professor se perder em suas atividades, ou dar mais aulas de história
da sociologia, do que de fato, conseguir trabalhar os conteúdos acumulados
pela sociologia desde sua origem. No que toca o ensino público, é notável que
o desenvolvimento dos sujeitos alunos foi prejudicado por uma série de
precarizações na própria estrutura do ensino, mas também pela perspectiva
pedagógica, que se afasta da proposta pela teoria critica, de continuar
desenvolvimento as funções psíquicas superiores dos sujeitos, e continua
calcada em bases tradicionais, positivistas ou biológicas. É necessário então,
frente as propostas da teoria histórico-cultural, conseguir estruturar atividades
de ensino e aprendizagem que levem em conta as necessidades dos sujeitos
alunos, incentivando o desenvolvimento de suas funções psíquicas superiores,
e o desenvolvimento de suas individualidades e personalidades, pela
socialização dos conhecimentos produzidos pela humanidade na história, de
forma que sua formação vise não apenas a reprodução de conteúdos, mas a
internalização destes para a continuação de sua vida rumo a emancipação.
Considerações finais

Neste trabalho, buscamos sintetizar as contribuições dos três principais


nomes da teoria histórico-cultural: Vygostki, Leontiev, Davydov. Apresentamos
um pouco dos elementos que constituem suas teorias histórico-cultural, da
atividade, e do ensino desenvolvimental. Esta síntese foi realizada buscando
pensar como se dá o processo de ensino e aprendizagem dos sujeitos na
escola, permitindo termos um olhar pedagógico sobre o ensino da sociologia, e
não apenas sociológico. Foi fundamental esta síntese, pois pudemos perceber
que as contribuições dos autores é basilar para o ensino e para as práticas
pedagógicas dos professores de sociologia, como das demais áreas do
conhecimento. Com este novo olhar sobre a forma que ensinamos e
aprendemos sociologia, nos afastamos da pedagogia tradicional e seu caráter
positivista, pois o nosso trabalho pode ser orientado para a emancipação
humana, garantindo que os frutos do trabalho da humanidade, nas suas
diversas expressões, como a arte, a ciência, a tecnologia, sejam apropriadas e
internalizadas por nossos alunos. Vimos que para isso, precisamos enquanto
professores, dominar teoricamente os conteúdos a serem trabalhos, buscando
sempre a relação entre o sujeito e a realidade, dando concretude aos conceitos
trabalhados, de forma que o sujeito aluno, consiga apreender o irredutível dos
conceitos-chaves e dos conteúdos da sociologia. Para assim se desenvolverem
continuamente, refinando e superando suas capacidades cognitivas de forma
que consigam realizar cada vez mais tarefas complexas a partir das
ferramentas internalizadas nas atividades. Para a sociologia isso é
fundamental, mais importante do que se decorar as datas e os momentos
históricos, é fazer com o que o aluno internalize o irredutível dos conceitos-
chaves da sociologia, e em situações diversas, consiga ele mesmo realizar as
análises necessárias.

Pudemos aprender que a teoria histórico-cultural se desenvolveu como a


mais avançada teoria psicológica e pedagógica calcada nas contribuições da
filosofia da práxis, permitindo que a educação seja sempre vista como um
processo dialético e emancipador. Como nos disse Karl Marx: “(…)são os
próprios homens que produzem as circunstancias e que o próprio educador
precisa ser educado.” (MARX; 1989, p, 94)
Bibliografia

Davydov, V.V;. Slobodchikov, V.I and G.A. Tsukerman. O aluno das séries
iniciais do ensino fundamental como sujeito da atividade de estudo.
Journal of Russian and East European Psychology, vol. 41, no. 4, July–August
2003, pp. xx–xx.© 2003 M.E. Sharpe, Inc. All rights reserved.

LEONTIEV, A. O homem e a cultura. In: O desenvolvimento do psiquismo.


Lisboa: Horizonte, 1978. Página: 261-284

LIBÂNEO, J.C; FREITAS, Raquel A.M. da M. Vygotsky, Leontiev, Davydov –


Três aportes teóricos para a teoria histórico-cultural e suas contribuições
para a didática.

MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Teses sobre Feurbach. In: A Ideologia Alemã.
São Paulo: Martins Fontes, 1989.

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes,


1984.