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Da Monarquia a Repablica Momentos decisivos Emilia Vioti da Costa Da Senzala 4 Colonia [Emilia Vioti da Costa A Ditadura da Divida Gausas € consegioncias de divida latino-americana Bernardo Kucinskt © Sue Brandiord Estrutura € Dindmica do Antigo Sistema Colonia Fernando A. Novais Hist6rla Econdmica do Brasil Caio Prado Jr © Mercado de Trabalho Livre no Brasil Ademir Gebara Propriedade da Terra € Transiglo Estudos da formacao da (propriedade da terra e ‘transigdo para o capitalismo tno Brasit Roberto Smith Coles Tudo € Histor) Brasil: do Café A Indéstei Transigao para 0 mercado ore no Brasit Roberto Cat ell Je A Formacio do Terceiro Mundo Ladisiay Dowbor [A Crise do Escravismo € | Grande Imigracao Paula Beiguelman José Roberto do Amaral Lapa A ECONOMIA CAFEEIRA 58 edigao Copyright © by José R. do Amaral Lapa, 1984 Nerhuma parte desta publicagto pode ser gravada, Ne rvmsenada em sistemas eletronicos, fotocopiada, reprodusida por mcios mecinicos ou outros quaisduer dom autorizagao prévia do editor. ISBN: 85-11-02072-1 Primeira edigio, 1983 3% edigho, 1993 R. M. de Oliveira e José E, Andrade Revisdo: Vera mtigo 27) Artistas Graficos ‘Capa: 123 (a ‘Au. Manqués de Sao Vicente, 171 (01139-903 - So Paulo - SP Fone (O11) 825-0122 - Fax 67-3024 IMPRESSO NO BRASIL Introdugao e O itinerdrio por vales, Da semente a xicara Indicagées para leitura impinas e espigdes 14 \WA¥33 yer (Derset Dem Nuc sere INTRODUGAO Nao se trata de género de primeira necessidade. Pelo contrério, chega-se mesmo a afirmar que nossa satide seria beneficiada sem o seu uso. E um simples produto de sobremesa. Entretanto, a propagacio do ‘seu consumo, o complexo e 0 porte dos interesses eco- ‘n6micos e politicos que envolve — tanto para os paises produtores, quanto para os consumidores — torna- fam-no definitivamente um dos produtos aos quais € mais sensivel a economia ocidental, pois 0 mercado de café é muito vulneravel & especulagdo, enquanto Sua produgiio costuma ser instavel, acusando ainda oscilagdes inerentes curva de pregos. ‘Na verdade, € para deplorar-se que o Oriente nfo o tenha ainda incorporado aos seus hébitos coti- dianos, preferindo o desenxabido cha, pois caso con- trio seria uma vitoria de campeonato mundial para ocafé... No Brasil, éhe atribuido ter modelado uma ‘José R. do Amaral Lapa civilizagdo (a “civilizag&o do café"). J the foi mesmo conferida a patente de “general”, menos talvez pela semelhanga do renque dos cafezais com o perfilar do exército em dia de parada e mais pelo comando de nossa vida econdmica e politica, que ainda, também, procura efetivamente exercer. Quanto ao seu uso, para n6s brasileiros, fez 0 chamado casamento perfeito com o leite, numa alian- a que, conforme os eruditos, teria se dado, pela primeira vez, na Europa, em 1660, apesar da campa- nha contréria que entio se fez a essa mistura. Mas, costuma também ser indefectivel ap6s as refeicdes. ‘A genial compatibilidade com 0 leite admite entre nés, quando muito, efémeras unises com © creme de chantilly, 0 que nao o impede entretanto, ‘em outros paises, de andar em més companhias — icores e espirituosos — ou até de admitir a heresia de ser servido com 0 p6 ou ser tomado com agua! ‘Aqui, 0 sorvemos com ligeireza, como convém ‘a0 nosso subdesenvolvimento, mas, Ié, no estran- geiro, tem-se 0 bom gosto de tomé-lo sentado, sem pressa, alimentando conversa fiada ou grandes neg>- cios. O uso do café no mundo foi rapidamente disse: minado. Em nosso-século, até a década de 70 pelo menos, 0 consumo mundial mais do que dobrou (172%), sendo que a nossa exportacdo aumentou no mesmo periodo em 34,7%, ficando o atendimento dessa diferenga entre a demanda e a producdo a ‘cargo dos novos pafses concorrentes do Brasil no mercado cafeeiro. A nossa curva de exportacbes de A Economia Cafeeira café é naturalmente afetada por um elenco de fatores ‘que vio dos acidentes meteorolégicos as crises econd- micas ¢ politicas — internas ¢ externas — que se abatem sobre a sociedade em geral ou sobre o mer cado cafeeiro em particular. © seu paladar é de agrado geral, ao que se acrescentaram, a0 longo dos séculos, até lendas & priticas de superstigdo sobre as suas virtudes de cura e outras propriedades estimulantes e reconstituintes, ‘que os érabes se encarregaram inicialmente de divul- gar. A historia de sua expansdo é acidentada e plena de lances até herdicos, pois também nao faltaram ‘graves dentineias dos seus maleficios e, a partir dai, sistematicas perseguicdes. A historia do café no Brasil tem sido escrita e reescrita, com abordagens as mais diversas, o que hoje em dia nos permite dispor de ponderdvel conhe- cimento acumulado. Dessa maneira, sua geografia e economia, a sociedade que se criou gracas A cafeicultura, 0 exer- cicio do poder politico por parte daqueles que dispu- nham dos meios de produgio cafeeira, a cultura popular e erudita que nele se inspirou compdem numerosa bibliografia, possivelmente como nenhum outro produto econ6mico brasileiro chegou a mere- cer. Até certa altura, a sua hist6ria foi envolta por| determinado fatalismo. Convencemo-nos ou nos con- venceram de que o Brasil era “um pafs eminente- mente agricola”, 0 que significava dizer, dentro de| determinado contexto, que a nossa vocagao econd-| José R. do Amaral Lapa mica era indesviével e, assim, atrelada aos interesses dos paises hegem6nicos. Ora, o Brasil era o café. ‘Como a cultura deste produto tinha efeitos bastante negativos sobre a natureza e em tempo relativamente curto exauria 0s recursos da terra, deixando em seu lugar tdo-somente pastos e “cidades mortas”, © conhecimento que se produziu sobre o café até época recente mostrava que © roteiro iniciado no Rio de Janeiro ja chegava ao seu termo no Parana, na fron- ‘com o Paraguai, onde, portanto, terminaria © reinado do café e em conseqiéncia o Brasil, desde que este era o café... Felizmente j4 nos tranqiiliza a verificag&io de que tal antevisio nao se concretizou! ‘A firea geografica que este estudo compreende é, grosso modo, na ordem de sua expansao fisica, a do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espirito Santo, Sao Paulo e Parana. O periodo vai do primeiro quartel do século XIX até os nossos dias. ‘Como nao se trata de uma histéria do café no Brasil, fizemos destaque para temas que julgamos representativos, predominando a linha descritiva no texto, que por sua vez evita demorar-se sobre assun- tos tratados em outros volumes especificos desta Co- legao. O ITINERARIO POR VALES, CAMPINAS E ESPIGOES Ex quiserasepenera ‘Na coieta de cafe Para andi dipindurado ‘Nar cadera das muié (Quem vive fia nite Nacmande spark café ‘Sifominin, vem mocs: $Sif6 moga, vem mus! (Quadras populares) O café entra para a historia do Brasil num lance romintico. (Os fatos, aos quais ficaram documentos, pare- ‘cem ter-se passado da seguinte maneira. Paraense de ‘hascimento, 0 sargento-mor Francisco de Melo Pa- theta era conhecedor das Areas litigiosas que Portu- gal tinha na Amazonia. Em 1722-23 fora encarre- José R. do Amaral gado, pelo Governador do Estado do Maranhao, de Shefiar uma das numerosas expedicoes militares que enti se faziam ao Rio Madeira. Dessa acidentada viagem hé minucioso relato. ‘Mas foi com outra expedigio, em 1727, que ga nnhou a notoriedade capaz de introduzi-lo na historia. Desta feita, destinou-se A possessao francesa (Guia nna), em cuja capital, Caiena, compareceu a0 Palacio do Governador, onde pela primeira vez tomou uma cara de café, achando deliciosa a bebida. Como por ‘um bando local havia sido proibida qualquer venda de café — “eapaz de nascer” — 20s portugueses, 4 verdade 6 que, por solicitacdo sua ou no, sigilo- Samente a esposa do Governador francés Claude samen storie Ihe oferecido, num gesto galante, | Sementes e cinco mudas de café, que dariam origem 0s cafezais brasileiros. ‘Uma vez introduzido no Brasil, durante 0 século | {que se segue, embora o café tivesse se propagado por quase toda a Col6nia, respondeu entretanto, a maior Parte desse tempo, as necessidades do consumo in- Temo, notando-se certo aumento gradativo da produ- (fo. Inicialmente, ocupou modestissimo lugar em fossa pauta de exportagbes, ainda que fosse reme- tido com certa regularidade para a Europa na se- gunda metade do século XVIII. Vencido 0 primeiro quartel do século XIX, @ produgio cafecira decolaria, vindo a ocupar, no curto Pepage de 10 anos (1830-1840), o primeiro lugar em nnossas exportagdes, Concorriamos com 1/5 do con- Tomo mundial no periodo em questio, mas jé no Francisco de Melo Palheta, 0 introdutor do cafeeiro "0 ‘Brasil (crayon do Prof. ‘Marques Jiinior). ‘iltimo quartel do mesmo século assegurévamos 3/4 daquele consumo. Hoje, 0 Brasil ¢ 0 maior produtor e exportador de café do mundo, com 36% das exportagdes mun- diais, o que supera a producio das nacbes africanas, América Central e Colombia reunidas. E 0 segundo pafs em termos de mercado consumidor. Desde 1821 0 IBC tem as séries completas de exportagao do café brasileiro, coligidas com dados da Diretoria de Estatistica Econdmica ¢ Financeira do Tesouro Nacional. Para se ter idéia dessa evolucdo, damos a expor- tagdo de alguns anos agricolas representatives (pas- sagem de cada década), relevando entretanto a osci- Jago anual que ocorre: ease | en [eee |e &) | S/S ‘Sed | 190: om U5 | exprente eles | ee So"| iam | hos S| iz| se | as | ee a ‘A Economia Cafeeira ‘A primazia do café em nossa balanga de expor- tagdes foi mantida até 1968/1974, quando, na inver- s&o do chamado “milagre brasileiro” atendendo & conjuntura internacional, vai cedendo, aos poucos, lugar aos produtos industrializados, mais especifi- camente a indiistria de bens durdveis. Em 1981, a participagao do café na pauta de exportacdes brasileiras estava com a modesta posicio de 15,20% . Para termos uma idéia dessa peformance do ‘café no periodo de 1968-1980, seguem-se tabelas com ‘o crescimento de nossas exportagdes: -TAXAS DE CRESCIMENTO DAS EXPORTACOES BRASILEIRAS \Gobre valores correntes, em USS) 77 | | 74/78 | 79780 Mamtatundoe | 422 | sos| 219 | 318 Primaris, inchisiveocaté | 268 30 Cate 263 37 Fonte: Dados do Banco Central “TAXAS DE CRESCIMENTO REAL DAS EX! on 78 Manufaturades | 264 184 Primaris. incase o call a2 | 6] —25 Cale Fonte: Dados do Banco Cental José R. do Amaral Lapa A Economia Cafeeira n Ao longo do nosso século observamos que em- bora a curva de exportacdes do caié brasileiro seja sempre crescente, com excec&o para o perfodo de duracdo da II Guerra Mundial, o seu grau de compe- titividade em relago aos outros paises produtores diminui, conforme se pode verificar: EXPORTAGOES DE CAFE: MUNDIALE BRASILEIRA | ‘(Médias anuais. em mihars de sacas de 60 ull) ‘Anos | Consumo Exportagdes | Percentagem Mu do Brasil, ‘Brastires [Outros pele ssoo1m | 16.30 [240 | 390 | 76.0% wi0-19 | 17900 | 130 | 4600 | ™43% 120.109 | 21.200 | 130 | 710 | 60% 930.109 | 27.400 | 1500 | 1240 | s47% 1940-199 | 24200 | 130 | 1050 | seam wso.19 | 34240 | 14m | 19.30 | aan 1960-1962 | 44450 | t6ni0 | 2.70 | 375% Fonte: Jest Ribeiro de Araijo File, Santos, © porto do café, 144 Hoje (1981), ocafé cru em grao esta ocupando 0 4° lugar na pauta de exportacdes, atrés, respect mente, do farelo de soja, do material de transporte (veicules © autopegas) © dos minérios metalirgicos. ‘Vamos rapidamente seguir seu itinerdrio geo- grafico, Na abertura de areas de plantio, procede-se & queima da mata, para serem utilizadas as cinzas como adubo. So relativamente recentes os cuidados com a conservagao do solo, com o uso de fertilizantes e produtos quimicos que corrigem as deficiéncias na- turais e combatem as pragas. Por outro lado, ac longo do periodo estudado, a existéncia de terras favoraveis 4 cultura do café, co- bertas ou no de vegetacdo, levaram a cafeicultura a ocupar vastas porgdes dessas reas, cumprindo um roteiro que praticamente j4 fez a travessia do terri- torio brasileiro no sentido leste-oeste da regido Sul, entre 0 Paralelo 20° e 0 Trépico de Capric6rnio. Esse avango em grande parte foi determinado pelo ritmo dos pregos, a que se acrescenta, entre outros fatores, a inflagao em certos periodos, facilitando assim a mobilizacio de recursos por parte dos fazendeiros. Ahist6ria dessa expansio esté tradicionalmente balizada em trés grandes periodos histéricos, mais ou ‘menos de meio século cada um, cuja seqiéncia é bem definida e subdividia geograficamente, mas nio cronologicamente, Por outro lado, essas datas nao coincidem neces- sariamente com as conjunturas favoraveis e as crises, muito embora as curvas de pregos determinem a velocidade do avango da frente pioneira e também do refluxo para areas j4 ccupadas, mas cuja cafeicultura fora relegada pela dependéncia externa. Tampouco ‘as mais pronunciadas mudangas nas relacdes sociais, de producto e nas forgas produtivas ocorrem ao mesmo tempo que aquela periodizagdo. Alids, € 0 esgotamento do solo que vai conferir em média 40 anos de vida titil a0 cafezal. Enfim, trata-se de um processo de expansao da economia de mercado vinculada 4 grande exporta- io, Desta maneira, provoca-se 0 continuo desloca- José R. do Amaral Lapa mento dos centros de produgio em busca da exce- Iéncia das condigdes naturais, como o clima tropical ou subtropical, a distribuicao favordvel de precipi- tagbes atmosféricas, altitudes médias, etc, ‘A viabilizagdo e @ montagem dessa economia eram ainda asseguradas por varias outras condigbes, internas favoraveis, como a acumulagao propiciada pela cultura canavieira em certas areas ou pelo co- mércio praticamente em todas, cujo resultado desti- nava-se primeiro a compra de escravos depois a organizagio de uma politica imigrat6ria, bem como ainda aos meios de transporte € comunicacdo, as benfeitorias das unidades de producio, etc. A tradigao agréria formada com o acticar, desde ‘© século XVIII, permitira estocagem de mao-de-obra ‘escrava, incorporagho de técnicas agrarias ¢ de co- mercializagao que irdo facilitar a adaptacio dos en- ‘genhos em fazendas de café. Nesse sentido, o café apresentava necessidades mais simples, em matéria de tratamento agricola, do que agiicar, com menos capital e mais resisténcia & precariedade que as vias de comunicago ofereciam ‘a0 seu transporte. (© que Celso Furtado considera a “gestaglo da economia cafeeira” constitui 0 rapido processo — econdmico e social — de formacio ¢ montagem, organizagio ¢ projegao dessa economia, particular- mente nos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e ‘Sao Paulo. As teses mais conhecidas sobre a sua viabiliza- ‘do interna dizem respeito a dois ciclos produtivos A Economia Cafeeira “Mas, serdo os grandes portos do Rio de Janeiro, Santos ¢ Paranagué... que passardo a exportar mais de noventa ‘por cento da producao". anteriores — minera¢do, particularmente em Minas Gerais (1695-1763), e aticar (1765-1851) — que vio ensejar a acumulacao financiadora do novo produto, ‘empolgando nossa economia no século XIX. As estruturas dessas economias precedentes, em termos de instalagdes, transportes e comercializacao serao utilizadas pelo café, bem como a disponibilidade de um estoque de mao-de-obra escrava ociosa ou semi- ‘ociosa, estudada por Furtado, em resultado da desin- tegragdo da economia de mineracgfo, o que teria ‘assim, segundo o mesmo autor, propiciado o “apro- yeitamento de recursos preexistentes € subutiliza- dos”. ‘Nessa linha, ter-se-ia que considerar ainda em termos de acumulagio, com padrdes diversos, 0 co- mércio interno, num complexo de atividades, no qual 6s tropeiros ocupariam um espago, além dos ataca- distas urbanos. Outra dimensio seria a do comércio ‘externo — importador e exportador — e do trafico negreiro, ambos pouco conhecidos nesse period de interregno entre ciclos produtivos. ‘Quanto 4 primeira tese, de fato uma pratica agricola e comercial, que se estruturou por cerca de noventa anos, conferiu aos seus agentes uma acu- mulag&o prévia de recursos que tornou possivel a gestagio do café. Entretanto, a nivel empirico pouco se conhece da transig&o entre essas economias, em termos de infra-estrutura, alteragdes no aproveitamento da ter- rae nos servigos, equipamentos benfeitorias, i.e., na organizag2o e no processo de producdo, com suas ‘A Economia Cafecira necessidades de custos e reposicao monetéria, grau de capitalizaco, produtividade, etc. ‘Algumas dessas hip6teses, aceitas até ontem ‘com natural tranqiilidade, reclamam detida revisto ‘a partir da pesquisa de Roberto Borges Martins (Growing in silence: the slave economy of nineteenth- ‘century, Minas Gerais, Brazil, Nashville, Tennessee, 1980). Em primeiro lugar, um suposto refluxo demo- ‘grifico, acompanhado dos seus respectivos escravos € trens, que teria ocorrido de Minas Gerais, apés a exaustio da mineragio, em diregao ao litoral ¢ inte- rior do Rio de Janeiro e Sdo Paulo — levantames a hipétese — parece ter-se dado ja no século XVIII, beneficiando antes o agdcar do que o café. Em se- gundo lugar — e esta € uma verificacdo conereta, a de Borges Martins —, ap6s 0 declinio da mineracto, ‘© que realmente se deu em Minas foi um processo ‘endégeno de recuperagio e crescimento, capaz nao 86 de reter o seu plantel de escravos, como de pro- mover a continuidade do tréfico, portanto em nada desviando recursos para o café, antes atuando em fungdo da potencialidade de mercados consumidores internos, com destaque para a concentracao de popu- Jaca .e servigos na corte. Dessa maneira, 0 que teriamos, contrariamente a formulagio de Furtado, ndo é um aproveitamento do que estava ocioso com a decadéncia de outras economias regionais, mas sim uma certa dindmica ‘que delas resultou e que viabilizaria a economia feeira, que no seu crescimento, num prazo inici seus eee recursos e financiamento, ae rota pagal) a Rio de Janeiro, San- “ em relaglo rede wre interns © hs Brandes totes comerciais do Atlntico, bem como aos ieee mentos de que foram dotados — que ae exportar mais de 90% da producao. = oe Nesses ports, as bolsas de café, 2 Katine 9s servicos de armazenamento e esta cassia, prove, et, come ainda teemos tunida le de referir, formam um complex permite altos indices de comercializagao. ‘com as ie rovias ligando tamente as areas Btodutorad ae grandes portos, o grandes portos, os pequenos portos entraram em 'S grandes fir- ae jie da economia de mercado é peculia- , Por sua vez, pela revoluglo indust 2 Seca a ee mogrifico acompanhado pela rida difusto do uso Coe Lai ‘grandes massas da populagao de todas as ca ee desenvolvido, onde justamente nac a ligdes naturais favoraveis ao seu cultivo. e ase ME andes empresas de torrefasdo, agindo na te. aA dispondo de recursos financeiros manter vultosos esto i esr Ronee estoques, exercem decisiva in- Entretanto, por out . POF outro Jado, deve-se consi io série de dificuldades que se Sica apa: eaten as de ordem natural, como tea pha: erases, intempéries ¢ pragas, quer as deter relativamente rapido, ganharia condigdes para gerar José R. do Amaral Lapa A Economia Cafeeira cado, como financiamento ‘escasso, oscilagdes de prego, 0 fato de o ciclo ‘dos cafezais novos levar até S anos para comegar a produgio, ‘naturalmente recla- mando durante esse tempo ‘despesas ¢ inverstes de demorado retorno. Esse leque de entraves nao che- gou a comprometer de ‘maneira decisiva @ expansao; quando muito contribui para controlar ou erradicar oplantio, recuperando-0 poucos anos: depois. Registre-se que no ciclo de vida do cafezal novo, ‘uma yez que tenha este ‘sido plantado em condigdes favoriveis de clima ¢ solo, pode ter a sua florada mais significativa j4 no terceiro ano, a partir de quando a produg’o ‘média por pé vai num crescendo, sendo o melhor rendimento atingido aos 7 ou 8 anos, prolongando-se dos 15 aos 20 anos, ‘excepcional- mente até os 40 anos, sempre de maneira irregular de ‘um ano para 0 outro, embora @ &rvore possa viver outro tanto de anos. Mas, continuando @ acompanhar a marcha do café no Brasil, verificamos que @ incorporagio dessa cae ne uperticie, que assistiu ¢ ainda assiste & ex pansio, mas agora em ‘outras diregdes ¢ com bem menor impeto, compreendeu, a0 Jongo dos séculos XIX e XX, os estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais, Espirito Santo, Sa0 Paulo, Parand e sul do Tira Growso do Sul, estendendo-se para o Paraguai, ‘com fluxos demograficos que geralmente seguiam da regido de solos esgotados para as frentes pioneiras. Sobre a cafeicultura no Espirito Santo e sul do Mato! Sobre @ clirecemos ainda de bem mais estudos, se] compararmos com 0 ‘conhecimento produzido sobre) 0s outros estados. Mesmo 0 caso de Minas Gerais so ‘agora comegamos a melhor conhecer, com os traba- Thos de Borges Martins e Heraldo Lima. Verifica-se que em suas grandes linhas 0 pro- cesso é 0 mesmo, isto é, uma acumulagdo prévia em atividades outras que nao o café, ligadas & terra ¢ a0 comércio, bem como forga de trabalho escrava em grande volume. Entretanto, no interior do processo ha ocorrén- cias que nos fazem repensar todo um quadro de generalizacdes que se montou sobre o café ¢ sua his- toria. Hé uma peculiarizagio que Minas impde a0 incorporar a expans&o cafeeira no seu espaco fisico. Do predominio da pequena propriedade a uma acu- mtulagdo (entesouramento; pecudria ¢ subsisténcia) excepcional, do recrutamento de trabalhadores livres brasileiros a um projeto politico, o café em Minas presenta contornos proprics. Para o ceste geogrifico de Sao Paulo ¢ norte do Parand nota-se sempre um movimento seqtiencial, cujo primeiro momento é marcado pela tumultuada ‘ocupagio e desenvolvimento da “frente pioneira”, onde a derrubada da mata cedia lugar as plantagbes, aos povoades ¢ cidades, palco de rapido e muitas veres tenso processo de modernizagio. ‘Os “primeiros tempos” so de grandes dificul- dades (“‘fronteiras de expansio”), quando a fronteira demografica antecede a fronteira econdmica. As Te~ agbes econtmicas e sociais configuram-se como pré- capitalistas e so tensas, exigindo desde a defesa contra os ataques indigenas até 0 trabalho pesado © José R. do Amaral Lapa integral com a plantacdo, os animais, a subsisténcia, etc. Quando ambas as fronteiras — demografica econdmica — confundem-se em termos de mercado, ‘esta superada a etapa da subsisténcia como a ativi- dade principal da maioria dos ocupantes ou possei- ros. ‘A montagem da infra-estrutura jé ¢ ento carac- terizada pelos empreendimentos capitalistas: ferro- vias, bancos, empresas imobilidrias, comércio, ete. Essas iniciativas cabem aos “pioneiros”, personagens ‘que guardarao, durante muito tempo, certo status na sociedade que ent&o se forma nessas areas. "A vida social torna-se intensa, como aquela re gistrada por Lévi-Strauss, surpreso com o némero de bordéis ¢ a vida noturna em Mavilia, onde nas ruas principais 0 comércio permanecia aberto 24 horas por dia. ‘Guardadas as diferencas entre 0 avango dessa fronteira nos séculos XIX e XX, ou melhor, ao longo da transigao das estruturas escravistas para as capi- talistas, uma vez esgotado o solo pelo café, tem-se, ento, um segundo momento, com a fragmentacdo ido latifiindio, a regressdo para a economia de subsis- téncia e pastagens, a atrofia urbana, etc., que 0 capitalismo entretanto encontrard, anos mais tarde, meios de reativar, com outras formas de apropriaglo do excedente. Essa é a Area geogrifica objeto do nosso estudo. No Rio de Janeiro, o café inicia-se como cultura doméstica, nas montanhas que incluem a Tijuca ¢ © Corcovado, passando por algumas escalas até chegar Biblioteca Seloral de Ciércias Socials e Humankdade José R. do Amaral Lapa ‘ao latifindio. Vai multiplicar-se em varias diregbes: litoral do Rio e $40 Paulo, encontrando seu grande ‘cenario nos terrenos cristalinos do Vale do Rio Pa- raiba. Entre 1760 e 1762 foi que surgiram no Rio de Janeiro as primeiras plantas, vindas do Extremo Norte, e que ficavam em quintais de casas ¢ ma chacara dos frades barbadinhos, de onde se irradia- tam para Sao Goncalo e Resende. Alids, os religiosos istinguir-se-iam com as primeiras culturas de café, feitas ja em sitios e fazendas. Mas seria dos locais ‘apontados que sairiam duas grandes linhas de ex- pans&o: Sao Gongalo, que deu origem as culturas da Baixada Fluminense até Campos, estendendo-se para ‘a zona montanhosa do Norte, e Resende, que seria a vertente das grandes culturas do Vale do Paraiba, mata mineira e chapaddes paulistas, no chamado Norte de Sao Paulo. Mesmo em terras fluminenses, o café levaria cerca de meio século para sua grande expansdo, sendo no inicio mais uma lavoura complementar 4 do agticar em certas Areas. Dessa maneira, por toda a parte, onde a natureza das terras favorecia, 0 café fot Substituindo quer a floresta quer outros produtos. (© Vale do Paraiba comportaré portanto sua grande expansio, polarizada pela cidade de Vassou- tas, a 4 horas da cidade do Rio de Janeiro, que foi 0 maior centro cafeicultor da provincia. ‘© transporte e a comercializacao do café no Vale fizeram-se, antes das estradas de ferro, pelas tropas de muares, enviadas pelos fazendeiros varias A Economia Cafeeira vyezes por ano. A tropa ia até a localidade mais pré- xima, onde geralmente as sacas de café eram enfei- xadas em sacos de couro e depositadas em armazéns de comissirios ou correspondentes, que as venderiam aos exportadores da cidade do Rio. O grosso do escoamento fazia-se pela antiga estrada de tropas que unia a corte a Sao Paulo, mas toda uma maha de caminhos foi sendo tracada e desenvolveu-se gra- {gas ao café, dirigindo-se também para 0 porto de Ubatuba. Por ela, antes das ferrovias, as pessoas circulavam nas liteiras, bangtiés, balaios, carros-de- boi, cavalos, troles e aranhas. Em Minas Gerais, cujas primeiras lavouras da- tam de 1791/98, foi sobretudo na chamada Zona da Mata que o café melhor se aclimatou. ‘Ao longo de sua secular marcha, foi encon- trando e transformando uma sucesso de grandes paisagens. Primeiramente, como vimos, 0 Vale do Paraiba — datas aproximadas: 1830/1850 — onde as altitudes, que vao até 1.000 m, ofereciam bom regime pluviométrico, temperaturas amenas, certa protecio eélia, revestimento florestal ¢ étimo solo. Em seguida, em meados do século XIX, embora tivesse penetrado em Sao Paulo no final do século XVIII, 0 café, confluindo com a expansio que vinha do Sul de Minas, atingiu a regido que ent&o se desig- nava 0 “Oeste” de Si0 Paulo, apés contornar a.re~ gio da capital paulista. Essa érea nao coincide exa- tamente com 0 oeste geografico do estado. ‘Até mais ow menos 1860, o Vale, na provincia do Rio, produziu 78%, enquanto Sao Paulo produ- ziu 12% e Minas, 8%. Mas, nas duas Gitimas dé- ‘cadas do século XIX, a producdo do Oeste paulista, rapidamente superaria a do Vale. Sto Paulo ultra- passa a produgdo de Minas Gerais em 1881 e a do Rio de Janeiro em 1889. Por sua vez, 0 Rio seria superado por Minas em 1896 ¢ pelo Espirito Santo em 1928. Neste estado, embora registrem-se lavouras jé em 1815, a expansio cafeeira dé-se no Gitimo ‘quartel do século XIX, pelo sul e sudoeste. No “Oeste Velho” de Sio Paulo — em contra- posic¢aio ao “Oeste Novo”, regides cujo confronto se- ria aproximadamente no atual municipio de Rio Cl: ro — onde as primeiras lavouras foram estabeleci das no primeiro quartel do século XIX, a cidade de ‘Campinas seré 0 grande pélo de expansio, em terre- nos sedimentares, tendo duas irradiagdes marcadas pelas estradas de ferro que antecedem ou sucedem os fatos urbanos, que por sua vez continuam surgindo ou tendo grande desenvolvimento gragas ao café. Uma linha — Companhia Paulista de Estradas de Ferro (‘‘zona paulista") — ira de Campinas a Catanduva, passando por varias cidades, e a outra — Companhia Mogiana de Estradas de Ferro (‘‘zona mogiana”) — partira de Campinas em diregao a Ribeirdo Preto e depois Franca. A incorporagto de reas novas foi-se dando sobretudo a partir de mea- dos da década de 70, quando hé a grande expansio. Durante muito tempo a literatura cientifica que tratou da economia cafeeira distinguiu bem, no “ro- teiro” cumprido pelo café, no século XIX, duas re- sides distintas, quer pelo seu relevo e condigdes na- José R. do Amaral Lapa Js, quer pelo grau de transformagtes econdmi- €m’ periodos historicos cronologicamente também istintos. ‘ o Essa diferenciag&o nao nasceu de simples obser- ‘vagbes e estudo dos cientistas sociais, mas de um con- fronto de pratica social ¢ ideologia entre os proprios fazendeiros das duas areas. Embora solidarios em uitas questdes, os fazendeiros chegaram a ter inte- esses conflitantes, acusando-se mutuamente a pro- posito da demanda de forca de trabalho, da politica ira, etc. chine — vis&o dicotomizada também contribui- ram muitos viajantes estrangeiros, a0 destacarem a progressividade dos fazendeiros do Oeste em contra- posig&io A retrogradacio dos seus colegas do Vale. ‘Nao demorou para que 0 discurso académico incorporasse essas diferencas, laborando um quadro: de confronto dentro da andlise da emergéncia do -apitalismo no Brasil, via economia cafeeira. = Grosso modo, as diferengas em questio podem ser assim enumeradas: 1850-910 Vale do Paraiba ete Pasta st de ocopa- 1, formas capitalists de ocupe vuodaere | Gegumodaters 2. Pejonamento dos latitindios 2. predominio da grande propeie: ‘ate 3. Progresso 1 mentalidade empresarial capi: taste 5. investimento produtivo dos i José R. do Amaral Lapa 6 agricatra area 6. agricttura moderna arendassutesuficientes 7. fazendas dependentes & anstocraciaexravocratwecon- 8. arstocracin imigrantsta © ti se eral enhorio ollado para gestlo 9. senorio empresaria, desdo- aricola ‘rando-se em inicntvas urba- 10, dependéacia do patrcini of 10. iniciativa privada independente cal 31 lament © reese ur 11; demalvimenta bane 12 formagio das clasves médias 12. formaglo das classes médias foro ovinetosedsceso gro movment de sso srntocracia ‘Se segmentosinferiores 12, indifereng politica 13, ativismo na pritin pllticn M4. rest 20 movment to 14. aia do movment sa ‘onista ‘omista 1S, ideologia monarquista 1, eolog a republicana 1, intrcia cultural 16. intensidade do movimento col impermeailidade so procesto 17. Tell adapta a nova in ae cu Soebeee ee 1s, relagoes sca pateralstas 18, Flags socials capitalists 1B: fener ‘suis prodogho 19. felgtes soins de produeto ‘ceravsas ‘apatites 2o, forasprodutiva cicravitas 20, forgas produtivascaptaisas 2, dminkragto disva doteabs- 21. adminstagaoindreta do tre ite ato 22, Widade de proturt tradicie 2. nidade de producto capt lands) te A literatura que admite 0 confronto entre as duas regides ¢ farta. O quadro que construimos usou propositadamente como suporte alguns autores de diferentes tendéncias metodoldgicas e tebricas. Em- bora haja uma certa gradacdo das diferengas esta- belecidas, de um autor para outro, bem como tam- bém o teor das explicagdes ndo permaneca 0 mesmo, as aproximagdes levam a certo consenso, que $0 re- Centemente comega a ser revisto, na medida em que o Oeste Velho de Sto Paulo passa a ser objeto de es- tudo. Nesse sentido, as pesquisas vém relativizando ‘esses critérios diferenciais, observando-se que em- bora certas diferencas sejam notadas, ¢ com insis- téncia explicitadas no discurso dos agentes, na ver- dade ambas as regides ém muito em comum dentro de uma estrutura em transicio, sendo, no geral, faces de uma mesma moed: "Ao conhecimento cientifico que se produziu so- bre essas reas, pareceu que certo determinismo geo- grafico, i. ¢., fertilidade ou exaustio da terra, era 0 frotive decisivo para condicionar o povoamento. As- Sim, influia no desempenho econdmico ¢ politico © até mesmo no nfvel de consciéncia social da classe dominante. Se a proximidade geografica dos fazendeiros do Vale ¢ as condigbes agrarias que enfrentavam con- feriam-lhes certa identificagao de interesses que Po- dia distingui-los dos seus colegas do Oeste, no che- gavam entretanto, nesse nivel, a constituir uma uni- dade em cada are ‘O exemplo mais expressivo das diferencas, que nfo se estabelecem apenas em termos das regides, ‘di-se com o encaminhamento politico da liquidacdo do escravismo. Em torno dessa questio os fazendei- fos dividem-se e subdividem-se. Sao muitas vezes le- Vados a esse fracionamento por certo imediatismo (ou pela perspectiva de enfrentamento de proble- mas como o de uma revolta generalizada dos escravos diante da inoperancia do Estado ou das dificuldades no aproveitamento dos libertos e dos trabalhadores nacionais livres. Perante 0 movimento abolicionista ¢ possivel vi- sualizar da parte dos grandes proprietarios agricolas Posigdes € propostas que parecem ir do escravismo mais renitente a abolicdo pura e simples. Dessa maneira, hé fricgSes no interior da classe produtora, que se posiciona e participa da questo. Também no que diz. respeito a politica econd- mica do governo, as reagdes dos grandes fazendeiros de café nao explicitam homogeneidade de interesses. Por outro lado, ndo comprometem de maneira deci siva 0 projeto que a burguesia impde a sociedade, adequado que esta ao capital internacional. ‘Nessa linha, a origem ¢ desempenho da classe dos fazendeiros de café envolve a polémica da bur- guesia nacional, sobre o que se tem gasto tanta tinta. AA legido de autores que localizaram no tempo no espaco a emergéncia do “modo de produgo capi- talista no Brasil”” — grosso modo na segunda metade do século XIX, no Oeste Velho de Sao Paulo — jé se contrapdem colocagSes que mostram a relatividade dos seus indicadores de racionalidade econdmica modernizagio social. Entretanto, reconheca-se que a oligarquia pau- lista e sua vanguarda empreendedora, como setor privilegiado das classes dominantes, conseguem de- senvolver certas formas de pressio ou aco, manipu- ladoras dos aparelhos do Estado, acionando meca- nismos de dominio politico e mandonismo local. José R, do Amaral Lapa Essa vanguarda, gracas a sua experiéncia e ac mulacdo, bem como estimulada também pelo dec! nio da produtividade nas areas mais velhas, arreme- tia para as frentes pioneiras, sabendo aproveitar se das condigdes favoriveis do mercado. Ligada ainda a esse confronto entre o Vale do Paraiba e 0 Oeste de Sao Paulo, temos uma outra questdo controversa, que é aquela que diz respeito as relag®es que se desenvolveram ao longo do periodo que estudamos entre o setor agricola cafeeiro € os demais setores da economia brasileira, ou seja, 0 ‘manufatureiro/industrial e 0 comércio. Durante a gestaglo ¢ expansio da cafeicultura no século XIX, a industrializagao brasileira, sobre- tudo na 4rea téxtil e de alimentagio, teve um pro- cesso com rupturas e contradig6es, marcado por efé- meros “‘surtos” a partir da extingao do trifico afri- cano em 1850 e localizado em areas de concentragio populacional, poder aquisitivo e facilidades de trans- porte e de obtencdo de mao-de-obra e matéria-prim: ‘Como 0 setor agricola é que gerava divisas, en- volvendo um complexo de interesses externos ¢ inter~ nos, o setor de manufaturados, sem tradigao € mal organizado, pouco conseguia sensibilizar quer 0 Es- tado, quer a sociedade, enquanto o alto comércio de importagao e exportardo atuava supostamente € com discricao junto ao Estado contra uma eventual poli- tica industrialista. De qualquer maneira, esses setores integram um sistema de economia dependente, o que significa dizer que nao se compartimentam e sao fortemente José R. do Amaral Lapa condicionados por fatores de ordem externa, o que nao impede, entretanto, que haja um espago e certa candio guardou muito, nos primeiros tempos, do iifgo engenho de agicar, formando uma unidade asa, auto-suficiente. Nessa época fazendciros terre que se vangloriavam de s6 precisar Comprar sal, ferro, pélvora e chumbo Mem Sao Paulo, a rotina rural era quebrada pelas relagdes com as cidades. A terra foi deixando evger o pequeno mundo do fazendeiro, tornou se séenas uma fonte de renda, a0 mesmo tempo que apetpia um tratamento agricola mais moderno, 0 que rere pem se dava com 0 processo de beneficiamento, ‘como temos registrado. ‘Como testemunhos das épocas de fastigio, tanto no Vale quanto no Oeste restam até hoje, sobretudo ne vaio urbano, construcdes solarengas que serviam para a vilegiatura ou morada permanente, des ricos Pavendeiros, apresentando azulejaria na fachads © argos espacos interiores. "A partir do segundo quartel do nosso século, em a0 Panto e no Parané, as grandes fazendas foram Sifrendo tum processo de modernizaglo que alterou pastante sua primitiva fisionomia- © complexo de edificacdes foi-se alargando, ‘atendendo i multiplicagdo dos servigos e equipamen- atendeMtinados as necessidades bfsicas da comunt Gade de homens e animais que ali convivem. | ‘Areas destinadas ao lazer: quadras de esportes, jardins, pomares; a capela para o servigo religioso ‘nos domingos e dias santos, cinema e até campo de pouso foram sendo incorporados as grandes fazen- as. Baias, canis, maternidade para os animais, es- critorios, recintos para atender até mesmo a comer- ‘cializago de partidas de café compradas pelo fazen- deiro, que nesse caso atua também. como interme- didrio, oficinas diversas, lavanderia, etc., compdem ‘a nova paisagem. Forga e relacdes de trabalho ‘Como outros volumes desta colegio tratam espe- cificamente da escravidao, bem como de problemas figados A imigrac&o, vamos nos limitar a apontar al- gumas questies possivelmente nao abordadas naque- Ies textos, dando uma visio répida e geral dos temas. Cristalizada secularmente a sua pratica na Cold- nia, a escravidao representou a solucdo natural ¢ continuada que respondeu as crescentes necessidades de mao-de-obra por parte dos fazendeiros de café. ‘Com a cafeicultura desenvolveu-se 0 periodo mais intenso do trafico. A escravidao logrou sua in- sergdo na estruturago do Estado nacional livre. Dessa maneira, institucional © economicamente 0 regime de trabalho escravo foi inerente & construgdo da Nagao. Para a grande lavoura de exportagio, essa solu- ‘cdo apresentava, apesar de suas implicagdes negati- ‘vas, uma soma de vantagens, entre as quais assegy- vas jom o proprio trabalho a subsisténcia necesséria fo intenso regime a que era submetido o escravo, eRidando por sua vez de todas as etapas da producto Cafeeira, além do que 0 escravo era valiosa merca- Goria que em determinadas condig0es podia inclusive sor atugada ou alienada constituindo, nesse sentido, uma nova dimensao do mercado. Possuir um escravo significava portanto ter sua orca de trabalho a disposiclo, em principio sem fetiibuigdes outras sendo aquelas que asseguravam & rea subsisténcia e controle para 0 trabalho. Além isso, i. e., de apropriar-se totalmente do resultado Go seu trabalho, o senhor podia especular com @ propriedade dessa “mercadoria” e usufruir dos Pivi, Tegios que a sociedade ¢ 0 Estado concediam & quem possuia escravos. “Ter urn escravo era decidir sobre os destinos de tum ser humano, que pela forca ov persuasio ficava lnteiramente & merce do seu senhor: seu trabalho, invandia, racdo de roupas ¢ alimentos, seus movi- mentos, sua vida fisica e mental, seus sentimen’ox ig praticamente deviam estar sob controle do(s) ‘seu(s) proprietario(s) ‘Naturalmente, tal relacionamento colocava em confronto vontades ¢ disposicbes de afeto ou édio, ceteresses e intencDes. A partir dai a tensio era per interests entre ambas as partes, restando para 0 opri- mii no limite do suportivel, a fuga, o suicidio, wiggoura. Mesmo em meio do condicionamento dif see de todas as horas de sua vida, 0 escravo procu= raya, de maneira sutil ou ostensivamente, ocupar € ampliar 0 espago de que dispunha dentro do regime, do qual chegava a ser 0 centro, sob alguns Angulos. ‘Diante desse quadro, durante grande parte da historia da escravidio negra a maior aspiragao de todo homem livre, de qualquer posicAo social, era a de possuir © seu escravo, pois isto significava, no limite, livrar-se do trabalho para o seu sustento, ampliar sua rea de direitos ¢ assegurar ‘certo status. Essa situacio nao impedia a solidariedade dos pobres com 0s escravos, nem aspiraco destes & liberdade. ‘A propriedade de um ser humano trazia natu- ralmente consigo deveres ¢ obrigacdes, que nao eram tao dificeis de serem atendidos, uma vez que cabia ao proprio escravo, como dissemos, 0 provimento de sua subsisténcia e muitas vezes o seu tratamento, em ‘caso de doenga. De qualquer maneira, a apropriagao do trabalho escravo tinha resultados que excediam Tonge os gastos com sua manutencao e controle, pois ‘o comum ou 4 regra era a extragao de um sobretra- balho escorchador. ‘Nessa linha, temas que reclamam estudo so os do comércio interno de escravos, a venda € revenda, ‘os precos para as diferentes categorias de escravos, os mais e os menos capazes, os de capacidade limitada para o trabalho, os escravos dos segmentos inferiores da populacdo, os escravos de escravos, a mobilidade dos escravos, a sua solidariedade € organizagio, a consciéncia social, as comunicagdes entre escravos, & distribuigdo da populagao escrava entre aqueles que possufam poucos escravos, ete: i ese desse @ Nao se esperou a aboliglo para que s¢ sntreduguo do trabalho livre e se dlscutise ¢ 5© Prot introdneMgiferentes formas de agenciamento ¢ con: to de trabalho. trata de rfator de produc deu margem a um Huo vamige eels continvado ao longo da segunda meri img KIX e no século XX, pelo menos até 1 ‘k partir da crise de je se proces- saram no mereado eduziram substancialme! : reduzirrasil,diante do que o trabalhador Dravieee Patsard a ser o recurso fundamental para atendi- assard. javoura cafecira. Durante o periodo nie, taeaie ee gue ve comhece, case trabellaior % 2 tion, atjovon se apresentara de forma ancilar © Pars {arefas mais pesadas, : ; aretas malt zrto. as questdes imigratbria ¢ dos imi, ranter serto abordadas menos sobre seus sST&S {ce santos srg rau de assimilaclo @ SeaTeGas20» © culturaiso de mercado de trabalho em termos 6 In centosinternos na divisto internacional do tra tho. : Dato. ssa manera, embora visculada a0 problems dia aaniagor a imigracto estrangeira para o Braid a abolsas” gondicionamentos externas. © ¢¢60\e: cons na Europa, as tensdes entre trab: mento dae grandes proprietrics, as crises aercol8s, Inagorseno fiscal, 0 desflorestamento, 2 polticn °O cis Socais ¢ He Sotora de citacias ied mercial, o desemprego, as deficiéncias dos sistemas ‘econémicos, incapazes de garantir trabalho para todos, o grande “negécio” em que a imigraco trans- formou-se para o Estado, a expectativa de melhori de vida na América, as flutuagdes do mercado mun- dial de trabalho, entre outras causas, determinam 0 fluxo imigrat6rio para o nosso pais. ‘De parte do Brasil contribuem para 0 estimulo a imigragéo toda uma gama de causas mais imediatas, que vio da propaganda, particularmente das compa- nhias de navegacdo, interessadas no transporte dos imigrantes, até as noticias enviadas pelos emigrados, excitando a imaginagio dos parentes © amigos, a demanda de mao-de-obra gracas & expansio da la-_|/ ‘youra, provocada pelos precos compensadores, as |{ facilidades concedidas pelo governo, o interesse dos ‘grandes proprietérios, ete. Embora as primeiras noticias sobre imigrantes | vindos para o Brasil datem de 1817, somente na dé- cada de 1850 é que h4 maior incremento da imi- gragio. Por motivos de ordem externa ¢ interna, que j& apontamos, a politica imigratéria adotada pelo Bra sil nao conseguia indices regulares nesse desloca- mento demografico. lavoura cafeeira, as dificuldades encontradas pelos imigrantes, no seu processo de adaptagdo, che- gavam a ser até de ordem natural: exuberancia do solo, com plantas de extraordinério e répido vigor, ete. ‘As emogtes, da despedida na aldeia, de onde muitos saiam pela primeira vez, em diregio ao porto de embarque, numa cidade maior que jé 0s cons- trangia, deixando parentes € amigos, compromissos e pertences. Uma viagem desconfortavel ¢ com res- trigdes a bordo, Chegavam ao porto brasileiro, onde permaneciam algum tempo praticamente confina- dos, sendo objeto de “negociagbes”, intermediadas por intérpretes, entre os fazendeiros interessados ou seus prepostos ¢ os colonos e suas familias. Nao transcorria em melhores condigles a viagem dos imigrantes do porto de desembarque no Brasil até a fazenda onde iriam trabalhar. As estradas eram precirias e 0 que se chamava de albergues para pernoitar n&o eram mais do que simples ranchos desabrigados. Embora a fazenda pudesse fornecer carros-de-boi ou tropas para o transporte dos colo- nos, nao era raro terem que caminhar a pé, quando entio as criangas, em grupos de 4, eram acomodadas ‘em cestas que as mulas carregavam. Para os velhos © doentes também eram reservados animais ou carros- de-boi. ‘Como os imigrantes recebiam ragdes de alimen- tos durante a viagem, havia parada para as refeigdes, que eram preparadas por eles proprios. Geralmente eram compostas de carne, arroz, feijfo, café, agiicar ¢ toucinho, © preparo da comida exigia a busca de Tenha e gua, o que resultava em nao pouco trabalho. A noite nao era raro dormirem no chdo, em leitos de folhas. Os mais afortunados traziam arranjos de cama, 0 que permitia relativo conforto. Havia fazen- das que forneciam, & chegada, esses arranjos, bem co- ‘mo os trens necessiirios ao estabelecimento da famil dos colonos. Claro que tudo era debitado em suas ‘contas. Sem entender muito o que se passava, famin- tos e cansados, tomavam conhecimento do “‘regula- mento da fazenda”, do qual geralmente recebiam cépia. Fsse documento tatara dos dio © deveres fe cada colono, compreenden ; eis cee, competent Ode teas 'Na fazenda, a vida dos colonos era obj toda uma série de normas, que aseigiara ped: prios movimentos. Assim, em dia til, ninguém odia ausentar-se sem autorizaclo por escrito do Giretor da col6nia. Facilitava-se quando 0 local era ‘muito préximo, podendo a viagem ser feita num dia 36, ida-e-volta. A visita de parentes ¢ amigos era também disciplinada, nfo podendo efetivar-se sem permissio. 'A obediéncia as normas era sob pen: que muitas fazendas faziam reverter aer an em beneficio dos colonos. 'A distribuigdo de moradias era feita por sorteio, sendo que muitas casas por terminar exigiam dos colonos esse trabalho, em troca de certas compensa- {g0es. Para os padres de moradia do camponés eu- Topeu, as residéncias no Brasil eram bem deficientes. Dependendo do contrato, a moradia era cedida gra- tuitamente por certo periodo, ou entio cobrava-se aluguel desde o inicio. ‘Um dos regimes de trabalho que mais iru, umn certo perio, eatre os migrates nas zendas de café foi o contrato de parceria. Implicava ‘um acerto, pelo qual o fazendeiro cedia a0 colono Geterminada rea de sua propriedade, com o respec the eafezal, para ser cultivado, colhido ¢ benefi- Gado, repartindo-se os resultados entre ambos, na proporgdo que fosse estipulada pelo contrato. Na verdade, era um sistema adotado como inter- mediagto entre a escraviddo ¢ o trabalho livre. Mal protegido pela legislagdo que no garantia ao colono Rberdade, seguranga e acesso a propriedade, 0 sis: tema mostrou-se vulneravel, com deficiéneias due Comprometiam 0 seu funcionamento. As partes con- fratantes defrontaram-se desde logo com um contlite de interesses, marcado pela mitua desconfianca. O Sclono partia do pressuposto, valido muitas vezes, de Gue o fazendeiro aproveitava-se de todas as opera- does, como por exemplo pesagem, despacho, vendas, Ste” para locupletar-se. Do lado dos fazendeiros, Stes exerciam excessivo patriarcalismo, revoltando Se colonos no acostumados a esse controle. Habi- tuados a tratar com os escravos, a quem forgavam a Tongas jornadas de trabalho diério, com custo mi- fnimo para sua alimentac%o, vestuério ¢ alojamento, tiem do exercicio de severo controle sobre sua movi- mentago, os fazendeiros nfo aceitavam a apresey- Tucho de reivindicagbes pelos colonos, portadores de Um elenco maior de necessidades, de certo grau de Cultura e politizagao que dificultavam as relagtes Socials de producdo baseadas na exploracdo selva- om, A propria vida privada dos imigrantes era 0b- jeto do “zelo” do fazendeiro. ‘Enganados pelos agenciadores de viagem € Te Jo Rd Amar crutamento nas aldeias, os imigrantes construian]} ‘uma expectativa de répido e relativamente facil enti quecimento, que logo se desvanecia em esperancas| perdidas. Num contexto diverso, mas em seguimento de| certa pritica que jé vinha da escravidao, inclusive reconhecida como uma “brecha campesina™, os fa-! zendeiros concediam aos colonos o plantio de cereais| entre os pés de café, assegurando assim 0 abasteci- mento das fazendas. Em areas menos proprias 40| café, plantavam batata, milho, tendo também cria- ‘¢f0 ¢ vendendo o excedente aos domingos, nas feiras das vilas, depois do culto. Dadas asimplicagbes dessa pratica, voltaremos ainda a consideré-la em outro passo deste livro. ‘A parceria foi marcada pela rapida percepgio de ambas as partes de que 0s seus interesses ram prejudicados. Os fazendeiros alegavam, diante dos resultados que nao correspondiam, que entre 0s colo- nos vinham vagabundos, condenados, enfermos, ve- | Thos, invalidos, etc. Da parte dos imigrantes, a falta de garantias e a realidade de sua redugo a escravos estavam entre os motivos mais fortes para sua re- volta. ‘© mercado internacional de trabalho permitia recrutamento sem muito critério de racionalidade € selecio. Dessa maneira, nao se levava em conta ha- bitos, habilidade profissional, codigos morais, idade, condigées de satide. Essas ocorréncias eram agra- vadas por uma legislagao falha, executada ¢ fiscali- zada precariamente. Os intérpretes abusavam de fazendeiros e colonos. Em tese, alegavam seus defensores, 0 sistema de parceria oferecia ampla liberdade ao empregado, reduzindo os conflitos de tradices, costumes e con- vengdes, nao permitindo quistos raciais, vitalizando novas regides. Poderia ser, continuavam, nessa linha de argumentos, uma oportunidade para adaptacao a plantagem. O- ‘empresario nao passaria de simples rendeiro, repartindo o trabalho de administragao € planejamento, bem como os riscos com o trabalhador rural, conforme lembra Delfim Neto. Embora o sistema de salarios prefixados fosse oferecendo mais garantias aos colonos contra as osci- lagdes do prego do café e de ‘outros riscos, outros regimes de pagamento foram sendo praticados. TEnquanto os colonos viveram com as suas fami- lias dentro da fazenda, comumente um simples ajuste verbal com o fazendeiro fixava o nimero: de pés de café que competia a cada familia cuidar, havendo Gquelas que, por numerosas e/ou capazes, encarre- gavam-se de 8 a 10 mil pés. ‘Ocumprimento da tarefa que Ihes cabia, no que se incluiam © trato do cafezal e 4 colheita, deter- minava o pagamento que recebiam, tendo por base um ano agricola, mas sendo feito mensalmente (me- sada), em geral no primeiro sibado de cada més. O SOntrole contibil desse pagamento era feito precaria- ‘mente, em cadernetas. | ‘Nesse processo incluiam-se 0 crédito dos colonos pela venda do excedente de sua produce ao fazen- deiro, bem como as suas dividas para ‘com este. O regime de colonato comporta geralmente trés formas de pagamento: 1) fixo, por 1000 pés, sendo 0 colono obrigado a manter limpo e preparado 0 terreno para ‘a colheita; 2) por dia de trabalho, para os servigos de oda, adubac&o, reparos no equipamento de produ- Gio, ete. € 3) proporcional ao niimero de sacas co- thidas. © salério assim recebido 6 complementado pela lavoura de subsisténcia consentida ao colono, Sentro das ruas do cafezal ou em terreno separado, pela criagio doméstica, lenha, café para o consumo, te, O colonato configura-se como exploragio tipica~ mente capitalista, na qual o fazendeiro € 0 empre- sério que assume todos os riscos do negocio. ( sistema de contratos também era objeto de critica das partes. Quando os colonos conseguiam liquidar seus débitos até o final do contrato, deslo- cavam-se em massa, levando 0 fazendeiro a ficar exposto a sérios prejuizos. Eram ainda os fazendeiros que afirmavam sobre a relutincia dos colonos em pegar a quantidade de afeeiros que podiam tratar, destinando mais o tem- po para suas lavouras e criagdes, 0 que nos mostra 0 dtrativo que a comercializagdo da economia de sub- Sisténcia passa a ter diante do desenvolvimento do mercado interno. Vindos muitas vezes de paises frios do Norte da Europa, 0s colonos estranhavam 0s costumes, a ali- mentacio e as formas de vida. O asseio corporal que (0 tropico exigia parecia diminuir-Ihes a resisténcia. A sabedoria popular apontava, por exemplo, a alta incidéncia de bicho-do-pé a falta de lavarem os pés ‘O imigrante jovem ¢ sadio fazia-se as vezes acompanhar de velhos e doentes, de quem nao queria apartar-se, responsabilizando-se ento pelo seu sus- tento, mas onerando, naturalmente, sua produtivi- dade para o fazendeiro. ‘Os compromissos que © governo assumia nem sempre eram cumpridos, ao passo que, origindrios de regides superpovoadas, onde jé haviam desenvolvido téenicas agrérias e de aproveitamento do solo, 0s colonos viam aqui inoperante a sua experiéncia nesse sentido, isto €, davam-se melhor com terrenos mai cansados, onde podiam usar fertilizacho ¢ arado. ‘Terras excessivamente ricas € vegetacdo exuberante exigiam uma reciclagem nas suas priticas. Visto este capitulo de dificuldades, temos que reconhecer que a imigracdo possibilitou a continu dade da expansto cafeeira, apés a abolicho. Digni- ficou o trabalho manual, aviltado pela escravidao. Introduziu certos tipos de veiculos rurais e instru- mentos agricolas europeus, ensinando novos métodos de utilizagio dos animais. Revolucionou a dieta mentar brasileira: introduziram-se 0 consumo didrio da manteiga fresca, do leite, etc., ¢ as massas de farinha de trigo e fubé ingressaram definitivamente em nossa cozinha. ‘O cultivo de hortas, pomares ¢ jardins foi desen- yolvido, No meio urbano os imigrantes influenciaram ‘0s costumes ¢ usos, a-indumentiria, as atividades Hidicas, a arquitetura, o lazer. ‘Com a imigragaio uma série de novas ocupagdes foram sendo criadas, além do que a pequena e a média indistria, origens dos grandes estabelecimen- tos fabris, foram-se desenvolvendo, muitas vezes a partir de um modesto atelier. ‘© constante fluxo imigratorio, uma yez incor- porado ao mercado de trabalho, vai formando tam- bém um mercado consumidor, capaz. de gerar ocupa- ‘gBes e um elenco de necessidades. Para isso também contribuia o crescimento vege- tativo entre os imigrantes, incomparavelmente maior ue entre 0s escravos. Nas colOnias verificava-se que as criangas até os 15 anos representavam cerca de metade da populacdo total, proporgdo que chegava a ser trés vezes maior que a dos filhos de escravos. ‘Tanto os interesses do Estado quanto os dos fazendeiros convergiam para a introducto de fami- ias, uma vez que era uma forma de prender 0 imi grante A terra, nio alimentando esperangas de volta rapida, diante da responsabilidade de manté-los ‘aqui. Permitia também para 0 fazendeiro um trab: tho suplementar barato, isto é, das mulheres e crian- cas. Nao se tratava de uma concessio do sistema de imigrago, com o sentido de abrir livremente a opor- tunidade de enriquecimento, tornando os colonos proprietirios e promovendo a sua ascensio social. O proprio sistema engendraré novas formas de apro- priagdo do trabalho do imigrante, mitificando entio Bs oportunidades ¢ elaborando um discurso ideol6- fico que vendia a riqueza e a felicidade, desde que trabalhassem mais... ‘A grande imigragio, particularmente de italia- nos, foi fortemente estimulada e subvencionada pelos cofres piiblicos, fieando 0 governo encarregado do Pagamento das passagens dos imigrantes e muitas Rezes dos primeiros servigos de assisténcia quando de sua chegada. Em nosso século a economia cafeeira contard, no seu primeiro quartel, com a forca de trabalho representada pelos colonos estrangeiros, ¢, como jé afirmamos, a partir da década de 30, com a reducao substancial do afluxo externo, o recrutamento no mercado do trabalho voltar-se-4 para os descompas- sos do proprio mercado interno, dando margem a permanente migracio de trabalhadores dos estados Go Nordeste para Sao Paulo e Parand, © que, se eli minou alguns problemas, criou entretanto novas difi- culdades. ‘A exploragao da forca de trabalho ¢ feita através de diferentes formas contratuais de trabalho ou de certo verbal. No Paran4, difundiu-se muito 0 sis- tema de meias, incluindo a formacao €/ou condugio dos cafezais, ficando 50% da producto para cada uma das partes. Ao meeiro cabe também a explo- rago das culturas de subsisténcia. Para a lavoura cafeeira particularmente, 0 pro- biema da mio-de-obra marca toda a sua historia. A mobilizagdo de um grande efetivo de forga de trabs tho, bem como as dificuldades naturais da mecani- zacio, levam a lavoura tradicional a despender em mao-de-obra 30a S0% do custo de produgao, Colheita, beneficiamento e acondicionamento Nos primeiros tempos as deficiéncias industriais no beneficiamento do café brasileiro, destinado a0 exterior, eram responsaveis por um produto que se inferiorizava perante os concorrentes, pois era mar cado pelo mau tratamento que recebia em sua co” Iheita, separagdo, etc., apresentando-se cheio de de- tritos, com cheiro desagradavel, cor desigual € gosto amargo. Entretanto, o setor que parece ter oferecido mais visivel evolugdo foi o de beneficiamento. Nao acom- panhando o crescimento e 0 volume das colheitas, fom rendimento limitado, exigindo mumerosa milo- de-obra, o sistema de pilar o café foi rapidamente superado, Enquanto durou, as suas operagio peno- sas e demoradas absorviam os escravos € mais tarde 0s colones. Foram ent&o introduzidos outros meios mecé- nicos, como a trag&o animal. Os meios hidréulicos ‘usados eram: 0 monjolo ea roda d’égua. | ‘A lenta evolugaio teenolbgica do café, particular mente no século XIX, é atribuida A existéncia mio-de-obra escrava, relativamente facil de ser ad- quirida, 0 que nao estimulava o investimento em tecnologia mais avancada (Buescu, p. 121). Entre- tanto, essa verificaco nao deve ser considerada como uma suposta incompatibilidade do trabalhador ¢s- ‘cravo com 0 avanco tecnolbgico. 'S6 com a abolig&o € que a maior dificuldade na obtengdo de escravos ¢ a conseqilente introdugao do trabalho livre fizeram maior 0 aproveitamento de implementos agricolas, que tornaram 0 trabalho mais produtivo (idem, p. 122), dando ensejo inclu- sive & sua fabricago no Brasil, quando dependiam de menor nivel tecnol6gico. © acondicionamento do café passa por varios trabalhos, sendo usados diversos tipos de invélucro, conforme a fase da colheita, beneficiamento, trans- porte e consumo. ‘Assim, na fazenda, na fase de produclo, temos ‘a utilizag’o do barril ou balaios ao pé do cafeeiro. ‘O barril é feito de madeira e 0 balaio € um cesto de palhi ‘A colheita fazia-se pelos escravos com uma neira amarrada a cintura, enquanto parecem ter sido ‘0s imigrantes italianos que introduziram a utilizaglo de um pano estendido no chao, onde caia o café, uma vez derricado. Em seguida o café era mergulhado num tanque ‘com Agua. O processo de molhar variava no tocante a0 local e aos vasilhames usados. Outrora o terreiro, onde secava 0 café, era de terra socada e no lajeado como hoje. Exigia-se, no terreiro, quantidade de pes- soal que se encarregava de espalhar 0 café com © rodo. A tarde o café era recolhido ou ajuntado aos montes e abrigado ou coberto. Esses cuidados nto mudaram muito até hoje. Depois seguia-se 0 beneficiamento em pildes, monjolos, ete. ‘Uma vez descascado, o café era entio peneirado e ia para as caixas de madeira, bacias, coches ou barricas, cestas de vime, etc. Nesses vasilhames per- manecia varios dias, para a catagdo. Quando se des- tinava ao uso da propria fazenda era guardado em pequenos baiis de madeira ou outro tipo de vasi- Thame. Da fazenda para a cidade, 0 acondicionamento era em sacos (bruacas) encerrados em grandes cestos de bambu. Esses sacos geralmente eram de couro, mais tarde substituidos pela sacaria de aniagem (te- cido grosseiro de linho cru). ‘Ao entrar no armazém do comissério, 0 saco de café era submetido ao furador, um instrumento alon- tgado, oco, munido de ponta de ago, que penetrando na saca deixava sair pela sua cavidade interna certa porgiio de graos, que eram entao examinados. E claro que esse proceso acabava por inutilizar 0 te- cido das sacas em pouco tempo. O acondicionamento da grande quantidade de café que era comercializado estimulou a indtistria téxtil, que em boa parte tinha cardter doméstico, com fibras téxteis aqui mesmo cultivadas, muitas vyezes diretamente pelos fazendeiros. A aramina, por ‘exemple, fibra txtil do carrapicho, superior a juta, teve grande difusdo para a tecelagem dos sacos. O ‘encarecimento da mdo-de-obra conseguiu, entre ou- tros motivos, contribuir para que a producao nacio- nal sofresse forte competicao das fibras orientais. i José R. do Amaral Lay Hoje em dia, para a sacaria, usa-se rami, si efnhamo, etc. ae Transportes Antes de advento das estradas de ferro, © 0 trans: porte do café era feito pelas tropas de muares, que eram origem a todo um sistema de transportes, de gamirco © &Yormcte de um ements ‘social que a ter ceria projesdo politica, estuds recentes. at ak ‘Antes das tropas, os escravos 6 spor- : que tran taam as carga, caregando nas costs, ombro® ¢ cabeca. Esses carregadores hu I cabec, Esse ‘manos eram geral ‘As tropas eram constituidas de um animal muito resistente, © muar, resultado do cruzamento do ju- mento com égua ou de cavalo com jumenta. Suportando 2/3 do seu peso em carga, enquanto o cavalo s6 suporta a metade, proporcionalmente a0 seu tamanho o muar tem mais forga e resisténc.. que © cavalo uma vez que a conformago da coluna ver- tebral eo dorso curto dio capacidade para carregar grandes pesos. Desenvolve a mesma velocidade tanto no terreno plano quanto em acne, excedendo os walos em terrenos acidentados. cavalosem tere ‘apesar do volume e Vinham do extremo sul, onde eram criados, sendo comercializados sobretudo na Feira de Burros Ge Sorocaba. As tropas que transportavam café, em se Paulo, chegavam a ter de 200 a 300 mulas cada. evavam 0 café até a localidade que possuisse ym os artigos neces- carne e peixe secos, Sal, ferramentas, mas guloseimas. Em 1858 0 trafego de muares entre Sao Paulo ¢ Santos era de 25000 animais por ano, sendo que sare anos em que esse nimero atingit 200 mil ani- mai “a transposiclo da Serra do Mar s6 podia se feita elas tropas; nem cavalos nem carros-de-boi ‘cia para essa travessia. Entretanto, as tropas de sertres condicionam as lavouras de eafé a um raio de miufaineia que nao ultrapassava 150 quilometros dos pportos. Pois caso contrario tornavam a tiecondmico eye tipo de transporte pelo seu encarecimento. Ge carros-de-boi foram usados em freas mais restritas e para certas tarefas; quase sempre para 2° wesvigos, internos das fazendas. No Norte de Sto rego de boiadas no trans- Paulo era comum o emp! porte do café dos municipios ribeirinhos do Parafba para Ubatuba e Sao Sebastiao. ‘Meamo mais tarde, com as ferrovias, muitas fazendas utilizavam-se dos carros-de-boi para. Hrrasporte do café da fazenda até a estacdo. Para © transporte de méquinas de beneficiamento do café também os carros-de-boi serviam, como ‘finda para o transporte de pessoas. Entre as lropas os carros-de-boi havia desvantagens € vantagens. O carro, sendo mais lento, pesado, e deteriorando 05 caminhos, carregava entretanto a carga de 15 ou 20 animais. J4 as tropas tinham o inconveniente ée carga e descarga para o pernoite, fugas e transvios de animais, etc. O transporte urbano do café era geralmente feito pelas préprias tropas, embora houvesse certa disci plina para a sua circulacdo: animais conduzidos ‘Passo, presos uns aos outros, sem poder pernoitar na cidade e tendo determinados pontos de parada € concentragio. — ‘Na segunda metade do século XIX apareceram ‘as carrogas, que também obedeciam a toda uma série de posturas municipais. Certas fazendas, dada a proximidade de vias navegiveis, chegaram a utilizar-se também de barcos para o transporte do café. Assim, no litoral do estado do Rio as faluas (barcos a vela), canoas bateles, | traziam 0 café de pontos terminais para as tropas que desciam o altiplano. Esse sistema de te atin- gia ainda Mangaratiba, Angra dose! Turumirim, ‘Ubatuba, Séo Sebastido, Carageftatuba, Iha Bela, 2 A partir da década de 60, ou mais precisamente ‘em 1854, 0 destino do Café ligar-se-& em total relaco de dependéncia ao das ferrovias, 0 que durara até época relativamente recente. Matéria de numerosos estudos, essa interacto consentida pelo capitalismo inglés beneficiaria so- bretudo 0 Oeste de Sao Paulo, desde que a pene- tragdo dos trilhos dé-se numa seqiéncia: Santos- Economia Cafeeira Jundiai, 1867/1868; Jundiai-Campinas, 1872; Cam- pinas-Itu, 1873; Mogiana e Sorocabana, 1875, dan- do-se a ligagio com a Estrada de Ferro D. Pedro I em 1877 Durante esse perfodo todo o sistema de trans- portes de tropas de muares é substituido, com grande vantagem, pelas ferrovias. Estas ofereciam maior seguranga, funcionalidade, eficiéncia, rapidez, me- nores custos e fretes, regularidade, menores riscos de deterioragio do produto, bem como comportavam muito maior volume de cargas. © novo sistema de transporte permitiu acele- rou a expansio das lavouras em varias diregdes, ul- trapassando em muito a rea até ent&o limitada pela operacionalidade das tropas. Por sua vez, outra arti culagiio que as ferrovias estimularam foi a do escoa- mento da produgdo pelos grandes portos (Rio de Ja~ neiro e Santos) em detrimento dos portos menores, conforme demonstrou José Ribeiro de Araijo Filho. No século XX, também as ferrovias antecederao ‘ou acompanharao a expansao do café por areas como ‘Alta Paulista, Alta Mogiana e Sorocabana. ‘A ferrovia constitui, com certeza, a introducao de um fator capitalista multiplicador de grande por- te, destinado a provocar alteragées no proprio sis- tema de produgao. O interessante é tratar-se de um componente capitalista introduzido num momento de expanstio de uma economia escravista. ‘Como um componente empresarial de alto nivel tecnolégico, a ferrovia tem uma contrapartida em relaco a economia brasileira que é a de levar, para José R. do Amaral Lapa as fireas cafeeiras, com as mesmas vantagens ¢ sem ‘competic&o, os artigos industrializados europeus, ‘num processo de dependénciae modernizagao que se intensificaré durante pelo menos 100 anos! O estio- lamento da manufatura e da indtistria nacionais ters nas ferrovias uma de suas explicagdes. Organizacao da producao e comercializagao A formagio e a exploragto de uma fazenda de café exigem certo volume de investimentos. No pri- ‘meiro caso, como hé uma caréncia geralmente de 4a S anos para o café comegar a produzir, a manutengio da fazenda nesse periodo exige recursos de monta, destinados a derrubada da mata, preparo da terra, construgio de edificios da sede, da coldnia, quando esta existe, do terreiro, instalagBes de preparo do café, bem como a aquisigao dos mais diversos imple- ‘mentos agricolas. No segundo caso — da exploragio — os custos dirigem-se para 0 pagamento dos colo- nos, manutengdo € reposigao das maquinas e ape- trechos, conservagio e melhoria das benfeitorias, ‘gastos com transporte e comercializacao. O fato de a remuneragao dos colonos ser apenas parcial, oferece ao fazendeiro certa disponibilidade de capital de giro, flexibilizando a forma desse paga- mento, conforme os interesses da empresa, i: ¢., podendo reduzir o salirio monetario sem prejuizo do salério real, embora esta forma signifique quase sem- pre maior apropriagio do excedente de producio ¢ do trabalho, por parte do fazendeiro, como por outro lado também possa significar uma estratégia do fazendeiro para resistir A crise que se abate sobre 9 café (Delfim Neto, pp. 237 ess.) Exploracio em larga escala, dada a grande de- manda exterior. As unidades de producdo tém em dilatado momento de sua historia um exemplar ti- pico na plantagem, grande propriedade com acen- ‘tuado predominio da cultura cafeeira ¢ aprecidvel contingente de forga de trabalho, primeiramente re- presentada pelo plantel de escravos € depois pela colénia de trabalhadores estrangeiros. ‘As fazendas tém sua montagem ¢ funciona- mento assegurados gracas a um complexo de benfei- torias, edificagdes ¢ instalagdes, que como ja vimos atendem a cada uma das fases da producao ¢ as necessidades da comunidade ali concentrada. ‘A comercializaco ao longo do século XIX obe~ deceu a um esquema de intermediacdes € circuitos relativamente simples. Durante pelo menos todo esse século, as distincias, a necessidade de crédito e fi- nanciamento, o isolamento das fazendas, os condi- cionamentos dos meios de transporte ¢ © problema do abastecimento, bem como a requisiclo da pre- senga do fazendeiro nas lides da fazenda, 0 que © impedia de acompanhar o café para fora da porteit entre outras razdes, contribuiram para que entre © fazendeiro c 0 agente encarregado de colocar 0 pro- duto a venda fossem se constituindo intermediarios, que na medida em que aquelas razSes permaneciam ese intensificavam, dilataram e tornaram mais com- plexas as praticas comerciais e os circuitos em que atuavam. No ‘circvito de comercializagto do café, um agente que durante muito tempo (século XIX) teve vital importincia dentro de determinadas fungbes foi © comissario. Era 0 intermedidrio entre 0 fazendeiro ‘eo exportador, tendo portanto poderes para negociar o produto. ‘A sua origem prende-se as primeiras casas co merciais que no Rio de Janeiro foram-se posicio- nando nas transagtes do café, passando a recebé-lo em consignac&o, dos fazendeiros, recebendo 3% de comissao pela venda do produto. ‘AS suas fungdes eram as de classificar o café tendo em conta os tipos de exportaco. A seguir, entravam em negdcios com as grandes firmas expor- tadoras, através dos seus corretores, que ganhavam certa percentagem nas vendas. ‘Como as fazendas ficavam isoladas no interior, ‘© comissario foi assumindo outras atividades em sua intermediac2o. Vinha do comércio ou da agricultura, ice, tinha sido ou ainda continuava, também, como fazendeiro. O que acumulara em ambos os setores permitia-Ihe 0 capital inicial para suas novas Gades. Em muitos casos, as empresas que constituia ndo ultrapassavam o nivel familiar. Na torna-viagem da tropa o comissério aprovei- tava para fornecer aos fazendeiros artigos como ba- calhau, carne-seca, sal, toucinho, ferramentas, gulo- ‘seimas, etc, Assim, era também um comerciante; mantinha na cidade armazéns e depésitos com es- toque de mercadorias diversas, destinadas ao supri- mento dos fazendeiros. Estes preferiam comprar dos comissarios, um vez que vendiam mais barato que as casas comerciais das cidades mais proximas das fazendas ou do co- mércio de beira de estrada. Baseado na futura venda do café, 0 comissério ‘um crédito para o fazendeiro, o qual he per- mmitia atender as suas necessidades. Entre ambos pre- valecia ou devia prevalecer muita confianga, pois © Yazendeiro acabava aceitando os pregos oferecidos pelo comissarrio, tanto aqueles langados para a venda Go café ao exportador, quanto os que pagava pela aquisigao das mercadorias que encomenda ‘Nesse sentido, havia uma total dependéncia do fazendeiro em relac&o ao comissario, para a coloca- ‘gho do seu produto em condigdes vantajosas, 0 que Sra do interesse de ambos. Flutuagdes do mercado ‘que pudessem ocorrer chegavam a afetar as suas re- lagies. ‘© crédito aberto pelo comissirio em favor do fazendeiro baseava-se geralmente na proxima co- theita, sendo que este chegava a sacar até toda a disponibilidade, 0 que naturalmente o colocava em dificuldades. ‘© mercado muito sensivel chegava a ter flutua- qves didrias, o que exigia muita cautela do comissé- fio no sentido de alcangar sempre o melhor prego. Defendendo 0 interesse do fazendeiro, o comissirio direto no comércio de export i i ago e tendo maior Lames sua movimentag&o do que os comiss4- rics. Acabaram, como yimos, contribuit decadéncia destes. ee ee Entretanto, entre comissérios e ensacador , es nor- mans tt th trariando os exportadores, que pressic or nie fesinsch oa anoles, as ee Havia, assim, no mecanismo de comercializag? assim, io do calé, trés categorias de intermediaric comis- sario, 0 ensacador € 0 exportador. No periodo de decadéncia dos primeiros, de que estamos tratando, ‘os ensacadores e exportadores mandavam agentes compradores diretamente aos fazendeiros, elimi- nando dessa maneira os comissérios desse circuito. Aos exportadores ficara reserva¢ maior capacidade de presso sobre os pregos do produto, uma vez que se colocavam nao perante grandes casas com recur- eeapoerneeee mas uma rede de fazen- s — grandes e pequenos — deiros — a at quase sempre em A atuagao dos ensacadores definiu-se compradores de café dos comissirios, ge soll id pria. Assim, fizeram crescer a sua intermediagio entre 0 comissario ¢ 0 exportador, para quem ven- diam as partidas de café. Possu‘am muitos armazéns para estocar 0 café, dos quais o produto seguia direto’ Para 0 porto, e chegavam mesmo a ajudar 0 comis- sério a resistir as eventuais desvalorizagdes do café. Hoje em dia, acabou-se a distingao entre ensa- cador e exportador. A desnacionalizag&o desses se- Tores foi acionada, entre outras causas, pela articu- acho entre exportacio e comercializaglo, Brace fanango dos meios de comunicaclo — vapores mais arg, cabo submiarino, etc. — que permite S08 Sxportadores maior agilizagio no controle dos mer exo. Por outro lado, criou-se um sistema de arma Jens gerais que concedia aos fazendeiros a facilidade Je negociar diretamente com os exportadores, dis- ppensando os comissarios, apesar do custo de arma? Persanto e seguro do capital imobilizado que isso Tepresentava. Aliés, a institucionalizacto dos Arm: wee Gerais (1903), pelo Governo Federal, permitiu ee fazendeiros estocar neles 0 produto, mediante pagamento de uma taxa de armazenamento, sendo portanto um servico comercial de depésito. Em 1906, Dgoverno do Estado de Sao Paulo passou & estimular ‘a atuagdo dos armazéns. ‘As Companhias de Armazéns Gerais, resistra- das ¢ fiscalizadas pelo Instituto Brasileiro do Café, gfe podem comerciar o café, mas apenas armazené pa Pitretanto, nos anos que antecederam a crise de 1929, essas empresas, burlando o decreto de sua Fegulamentaglo, passaram a operar nos negécios do café, indo muitas a faléncia. ‘ armazenamento do café @ pritica normal, sem grandes riscos de deterioragao do produto. Pelo sem ario, certos tipos de café mais yelhos sio de