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Bernardo

Soares

O Livro do Desassossego
O Livro do Desassossego
Carta a Adolfo Casais Monteiro sobre
a génese dos heterónimos (1935)
Bernardo Soares

ž  Não se sabe a data de nascimento.

ž  Nasceu na província, perdeu a mãe quando =nha um ano e passou a viver com uns

familiares. Soube aos três anos que o pai se suicidara. Vem para Lisboa ainda jovem. Vive

num quarto alugado na mesma rua onde trabalha.

ž  Ajudante de guarda-livros (= contabilista) da firma Vasques e C.ª, na Rua dos

Douradores, na Baixa de Lisboa.

ž  “Poeta urbano” à como Campos e como Cesário (? – Cesário pode ser considerado um

poeta urbano devido à sua dicotomia cidade/campo?)

ž  A personagem que assume o diário revela um desassossego cole=vo, o desencanto de

todo um século.
O Livro do Desassossego
Linguagem, es>lo e estrutura

A natureza fragmentária da obra

*
O Livro do Desassossego
O imaginário urbano

▪ A modernidade do imaginário urbano


▪ A descrição da cidade de Lisboa, na sua vertente
]sica e humana
▪ A inspiração em Cesário Verde:
“Vivo uma era anterior àquela em
que vivo; gozo de sen6r-me coevo de
Cesário Verde, e tenho em mim,
não outros versos como os dele,
mas a substância igual à dos
versos que foram dele.”
*
O Livro do Desassossego
O imaginário urbano

▪ A fixação de instantâneos do dia a dia


▪ A ro=na da vida quo=diana: “oscilações do tempo,
breves episódios de rua, cenas de escritório,
encontros de restaurante ou de café” (Jacinto do Prado
Coelho)

▪ A atenção conferida aos espaços e aos figurantes


do quo=diano lisboeta

*
O Livro do Desassossego
Deambulação e sonho: o observador acidental

▪ A deambulação (]sica e onírica) pela cidade de


Lisboa
▪ O ambiente envolvente como inspiração
▪ A observação pormenorizada do real
▪ A constante ideação (imaginação)
▪ A mistura de sensações e sonhos

*
O Livro do Desassossego
Perceção e transfiguração poé>ca do real

▪ O mundo exterior como ponto de par=da para


divagações subje=vas (um mundo alterna=vo)
▪ Os objetos como lugares de transfiguração do
banal
▪ A análise in=mista de realidades obje=vas – as
“viagens interiores” (Fernando Cabral Mar=ns)
▪ A ro=na da vida quo=diana “transfigurada por um
devaneador” (Jacinto do Prado Coelho)

* (Manual, Outras Expressões, Porto Editora)


O Livro do Desassossego
O olhar de Bernardo Soares

Ao caminhar pelas ruas e praças da cidade de Lisboa, o


narrador-transeunte revela, simultaneamente, uma relação
de entrega e de evasão. O caminho percorrido é moldado
pelo sonho e transformado através da sobreposição de
“paisagens” interiores, as quais se projetam na geografia
urbana. A cidade adquire as caracterís=cas do observador e
a distância entre ambos é encurtada, numa relação de
simbiose. (Manual, Palavras 12, Areal)
O Livro do Desassossego – fragmento 1
Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste
acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento
das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais quedos
— tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto. Vivo uma era
anterior àquela em que vivo; gozo de sen=r-me coevo1 de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos
como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação
de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são
cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença
entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha
ante o que é a essência das coisas. Há um des=no igual, porque é abstracto, para os homens e para as coisas —
uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.
Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser,
a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder
alterar. Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me subs=tuírem a
realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fora, como o
eléctrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador nocturno, de não sei que coisa, que se
destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!
Passam casais futuros, passam os pares das costureiras, passam rapazes com pressa de prazer, fumam no seu
passeio de sempre os reformados de tudo, a uma ou outra porta reparam em pouco os vadios parados que são
donos das lojas. Lentos, fortes e fracos, os recrutas sonambulizam em molhos ora muito ruidosos ora mais que
ruidosos. Gente normal surge de vez em quando. Os automóveis ali a esta hora não são muito frequentes; esses
são musicais. No meu coração há uma paz de angús=a, e o meu sossego é feito de resignação.
Passa tudo isso, e nada de tudo isso me diz nada, tudo é alheio ao meu des=no, alheio, até, ao des=no próprio
— inconsciência, círculos de super]cie quando o acaso deita pedras, ecos de vozes incógnitas — a salada colec=va
da vida.

1Que ou quem é do mesmo tempo ou da mesma época. = COETÂNEO, CONTEMPORÂNEO (IN DICIONÁRIO PRIBERAM ONLINE).

Situação e estado de espírito do sujeito


O Livro do Desassossego – fragmento 1
Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste
acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento
das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais
quedos — tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto. Vivo
uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sen=r-me coevo1 de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros
versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma
sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de
noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há
diferença entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que
nada valha ante o que é a essência das coisas. Há um des>no igual, porque é abstracto, para os homens e para as
coisas — uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.
Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o
ser, a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu
poder alterar. Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me subs=tuírem a
realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fora, como o
Nos seus passeios pela baixa de Lisboa, o sujeito estabelece uma relação de semelhança entre o seu estado de
eléctrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador nocturno, de não sei que coisa, que se
espírito e o espaço que percorre.
destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!
Esta Passam casais futuros, passam os pares das costureiras, passam rapazes com pressa de prazer, fumam no seu
deambulação, próxima de Cesário Verde, fá-lo sen=r amor pelo “sossego da cidade baixa”, mas
simultaneamente sente-se triste, “tudo isso [o] conforta de tristeza”, e amargurado. Também a “paz de angús>a”
passeio de sempre os reformados de tudo, a uma ou outra porta reparam em pouco os vadios parados que são
e a resignação fazem parte deste seu sen=r perante a sua observação acidental do quo=diano de Lisboa.
donos das lojas. Lentos, fortes e fracos, os recrutas sonambulizam em molhos ora muito ruidosos ora mais que
ruidosos. Gente normal surge de vez em quando. Os automóveis ali a esta hora não são muito frequentes; esses
são musicais. No meu coração há uma paz de angús>a, e o meu sossego é feito de resignação.
Passa tudo isso, e nada de tudo isso me diz nada, tudo é alheio ao meu des=no, alheio, até, ao des=no próprio
— inconsciência, círculos de super]cie quando o acaso deita pedras, ecos de vozes incógnitas — a salada colec=va
da vida.

1Que ou quem é do mesmo tempo ou da mesma época. = COETÂNEO, CONTEMPORÂNEO (IN DICIONÁRIO PRIBERAM ONLINE).

Situação e estado de espírito do sujeito


O Livro do Desassossego – fragmento 1
Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste
acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento
das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais quedos
— tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto. Vivo uma era
anterior àquela em que vivo; gozo de sen>r-me coevo1 de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos
como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação
de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são
O sujeito expressa a sua descontextualização face ao seu tempo, sen=ndo-se a viver num tempo cronológico
cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença
posterior àquilo que sente no seu interior. Por este mo=vo, faz referência a Cesário Verde, estabelecendo
entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha
uma iden>ficação com o tempo e com o conteúdo dos seus versos, sobretudo no que se refere à
ante o que é a essência das coisas. Há um des=no igual, porque é abstracto, para os homens e para as coisas —
uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.
deambulação descrita ao longo do texto e os seus efeitos.
Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser,
a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder
Intertextualidade com Cesário Verde – “O Sen=mento de um Ocidental” - Realidade representada
alterar. Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me subs=tuírem a
poe=camente:
realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fora, como o
•  Visão crí=ca dos =pos sociais: “casais”, “costureiras”, “rapazes” (em busca de pros=tutas), “vadios” (os
eléctrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador nocturno, de não sei que coisa, que se
“donos das lojas”).
destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!
Passam casais futuros, passam os pares das costureiras, passam rapazes com pressa de prazer, fumam no seu
passeio de sempre os reformados de tudo, a uma ou outra porta reparam em pouco os vadios parados que são
donos das lojas. Lentos, fortes e fracos, os recrutas sonambulizam em molhos ora muito ruidosos ora mais que
ruidosos. Gente normal surge de vez em quando. Os automóveis ali a esta hora não são muito frequentes; esses
são musicais. No meu coração há uma paz de angús=a, e o meu sossego é feito de resignação.
Passa tudo isso, e nada de tudo isso me diz nada, tudo é alheio ao meu des=no, alheio, até, ao des=no próprio
— inconsciência, círculos de super]cie quando o acaso deita pedras, ecos de vozes incógnitas — a salada colec=va
da vida.

1Que ou quem é do mesmo tempo ou da mesma época. = COETÂNEO, CONTEMPORÂNEO (IN DICIONÁRIO PRIBERAM ONLINE).

Ligação com Cesário Verde


O Livro do Desassossego – fragmento 1
Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste
acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento
das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais quedos
— tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto. Vivo uma era
anterior àquela em que vivo; gozo de sen=r-me coevo1 de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos
como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação
de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de um bulício que não quer dizer nada; de noite são
cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu. Não há diferença
Metáfora – reforça a ideia de amálgama, de falta de diferenciação ou consciência da vida individual, ou seja ,
entre mim e as ruas para o lado da Alfândega, salvo elas serem ruas e eu ser alma, o que pode ser que nada valha
ante o que é a essência das coisas. Há um des=no igual, porque é abstracto, para os homens e para as coisas —
falta de iden=dade daqueles que o circundam.
uma designação igualmente indiferente na álgebra do mistério.
Mas há mais alguma coisa... Nessas horas lentas e vazias, sobe-me da alma à mente uma tristeza de todo o ser,
a amargura de tudo ser ao mesmo tempo uma sensação minha e uma coisa externa, que não está em meu poder
alterar. Ah, quantas vezes os meus próprios sonhos se me erguem em coisas, não para me subs=tuírem a
realidade, mas para se me confessarem seus pares em eu os não querer, em me surgirem de fora, como o
eléctrico que dá a volta na curva extrema da rua, ou a voz do apregoador nocturno, de não sei que coisa, que se
destaca, toada árabe, como um repuxo súbito, da monotonia do entardecer!
Passam casais futuros, passam os pares das costureiras, passam rapazes com pressa de prazer, fumam no seu
Repe=ção dos vocábulos “tudo” e “nada” – encerra em si uma anutese que reforça a descontextualização do
passeio de sempre os reformados de tudo, a uma ou outra porta reparam em pouco os vadios parados que são
narrador face ao “tudo” que o rodeia e do qual “nada” recebe, na medida em que está “alheio” ao seu sen=r
donos das lojas. Lentos, fortes e fracos, os recrutas sonambulizam em molhos ora muito ruidosos ora mais que
ruidosos. Gente normal surge de vez em quando. Os automóveis ali a esta hora não são muito frequentes; esses
e até ao seu próprio des=no.
são musicais. No meu coração há uma paz de angús=a, e o meu sossego é feito de resignação.
Passa tudo isso, e nada de tudo isso me diz nada, tudo é alheio ao meu des=no, alheio, até, ao des=no próprio
— inconsciência, círculos de super]cie quando o acaso deita pedras, ecos de vozes incógnitas — a salada colec=va
da vida.

1Que ou quem é do mesmo tempo ou da mesma época. = COETÂNEO, CONTEMPORÂNEO (IN DICIONÁRIO PRIBERAM ONLINE).

Expressividade – “tudo”/”nada” e Metáfora final


O Livro do Desassossego – fragmento 1

Imaginário urbano/Quo=diano
Aspetos gerais: “o sossego da cidade baixa”.
Aspetos par>culares: “casais futuros”;
“costureiras”; “rapazes”; “reformados de
tudo”; “donos das lojas”; “recrutas”; “Gente
Observador
normal”; “automóveis”.
acidental
Síntese final: “salada cole=va da vida”.
“Amo, pelas tardes
demoradas de
verão…” Deambulação
Sonho
Marcos temporais da deambulação: “pelas
tardes demoradas de verão”; “por essas Vida interior
tardes”; “Por ali arrasto, até haver noite”. que irrompe
Espaços exteriores percorridos: “A rua do do exterior:
Arsenal, a Rua da Alfândega […] toda a linha “o elétrico”; “a
voz do
separada dos cais quedos”.
apregoador
noturno”.
O Livro do Desassossego – fragmento 2
Tudo é absurdo. Este empenha a vida em ganhar dinheiro que guarda, e nem tem filhos a quem o deixe nem
esperança que um céu lhe reserve uma transcendência desse dinheiro. Aquele empenha o esforço em ganhar
fama, para depois de morto, e não crê naquela sobrevivência que lhe dê o conhecimento da fama. Esse outro
gasta-se na procura de coisas de que realmente não gosta. Mais adiante, há um que ☐
Um lê para saber, inu=lmente. Outro goza para viver, inu=lmente.
Vou num carro eléctrico, e estou reparando lentamente, conforme é meu costume, em todos os pormenores
das pessoas que vão adiante de mim. Para mim os pormenores são coisas, vozes, letras. Neste ves=do da rapariga
que vai em minha frente decomponho o ves=do em o estofo1 de que se compõe, o trabalho com que o fizeram —
pois que o vejo ves=do e não estofo — e o bordado leve que orla a parte que contorna o pescoço separa-se-me
em retrós2 de seda, com que se o bordou, e o trabalho que houve de o bordar. E imediatamente, como num livro
primário de economia polí=ca, desdobram-se diante de mim as fábricas e os trabalhos — a fábrica onde se fez o
tecido; a fábrica onde se fez o retrós, de um tom mais escuro, com que se orla de coisinhas retorcidas o seu lugar
junto do pescoço; e vejo as secções das fábricas, as máquinas, os operários, as costureiras, meus olhos virados
para dentro penetram nos escritórios, vejo os gerentes procurar estar sossegados, sigo, nos livros, a contabilidade
de tudo; mas não é só isto: vejo, para além, as vidas domés=cas dos que vivem a sua vida social nessas fábricas e
nesses escritórios... Todo o mundo se me desenrola aos olhos só porque tenho diante de mim, abaixo de um
pescoço moreno, que de outro lado tem não sei que cara, um orlar3 irregular regular verde-escuro sobre um
verde-claro de ves=do.
Toda a vida social jaz a meus olhos.
Para além disto pressinto os amores, as secrecias4 [...], a alma de todos quantos trabalharam para que esta
mulher que está diante de mim no eléctrico use, em torno do seu pescoço mortal, a banalidade sinuosa de um
retrós de seda verde escura fazendo inu=lidades pela orla de uma fazenda verde menos escura.
Entonteço. Os bancos do eléctrico, de um entretecido de palha forte e pequena, levam-me a regiões distantes,
mul=plicam-se-me em indústrias, operários, casas de operários, vidas, realidades, tudo.
Saio do carro exausto e sonâmbulo. Vivi a vida inteira.

1estofo – tecido;
2retrós – fio de seda torcido;
3orlar – pôr orla ou cercadura; Divisão do texto em partes
4secrecias – segredos
O Livro do Desassossego – fragmento 2
Tudo é absurdo. Este empenha a vida em ganhar dinheiro que guarda, e nem tem filhos a quem o deixe nem
esperança que um céu lhe reserve uma transcendência desse dinheiro. Aquele empenha o esforço em ganhar
fama, para depois de morto, e não crê naquela sobrevivência que lhe dê o conhecimento da fama. Esse outro
gasta-se na procura de coisas de que realmente não gosta. Mais adiante, há um que ☐
Um lê para saber, inu=lmente. Outro goza para viver, inu=lmente.
Vou num carro eléctrico, e estou reparando lentamente, conforme é meu costume, em todos os pormenores
das pessoas que vão adiante de mim. Para mim os pormenores são coisas, vozes, letras. Neste ves=do da rapariga
que vai em minha frente decomponho o ves=do em o estofo1 de que se compõe, o trabalho com que o fizeram —
pois que o vejo ves=do e não estofo — e o bordado leve que orla a parte que contorna o pescoço separa-se-me
em retrós2 de seda, com que se o bordou, e o trabalho que houve de o bordar. E imediatamente, como num livro
O narrador especifica a primeira frase do texto através de vários exemplos ilustra=vos das a=tudes
primário de economia polí=ca, desdobram-se diante de mim as fábricas e os trabalhos — a fábrica onde se fez o
tecido; a fábrica onde se fez o retrós, de um tom mais escuro, com que se orla de coisinhas retorcidas o seu lugar
humanas, tais como ganhar dinheiro, fama, bens… - estes são os elementos do imaginário urbano
junto do pescoço; e vejo as secções das fábricas, as máquinas, os operários, as costureiras, meus olhos virados
que alimentam a sua reflexão.
para dentro penetram nos escritórios, vejo os gerentes procurar estar sossegados, sigo, nos livros, a contabilidade
de tudo; mas não é só isto: vejo, para além, as vidas domés=cas dos que vivem a sua vida social nessas fábricas e
nesses escritórios... Todo o mundo se me desenrola aos olhos só porque tenho diante de mim, abaixo de um
pescoço moreno, que de outro lado tem não sei que cara, um orlar3 irregular regular verde-escuro sobre um
verde-claro de ves=do.
Toda a vida social jaz a meus olhos.
Para além disto pressinto os amores, as secrecias4 [...], a alma de todos quantos trabalharam para que esta
mulher que está diante de mim no eléctrico use, em torno do seu pescoço mortal, a banalidade sinuosa de um
retrós de seda verde escura fazendo inu=lidades pela orla de uma fazenda verde menos escura.
Entonteço. Os bancos do eléctrico, de um entretecido de palha forte e pequena, levam-me a regiões distantes,
mul=plicam-se-me em indústrias, operários, casas de operários, vidas, realidades, tudo.
Saio do carro exausto e sonâmbulo. Vivi a vida inteira.

1estofo – tecido;
2retrós – fio de seda torcido;
3orlar – pôr orla ou cercadura;
4secrecias – segredos
O Livro do Desassossego – fragmento 2
Tudo é absurdo. Este empenha a vida em ganhar dinheiro que guarda, e nem tem filhos a quem o deixe nem
esperança que um céu lhe reserve uma transcendência desse dinheiro. Aquele empenha o esforço em ganhar
O sujeito refere a sua localização e desenvolve o seu pensamento a par=r de pormenores como,
fama, para depois de morto, e não crê naquela sobrevivência que lhe dê o conhecimento da fama. Esse outro
gasta-se na procura de coisas de que realmente não gosta. Mais adiante, há um que ☐
por exemplo, o ves=do da rapariga que está sentada à sua frente.
Um lê para saber, inu=lmente. Outro goza para viver, inu=lmente.
Vou num carro eléctrico, e estou reparando lentamente, conforme é meu costume, em todos os pormenores
das pessoas que vão adiante de mim. Para mim os pormenores são coisas, vozes, letras. Neste ves=do da rapariga
que vai em minha frente decomponho o ves=do em o estofo1 de que se compõe, o trabalho com que o fizeram —
pois que o vejo ves=do e não estofo — e o bordado leve que orla a parte que contorna o pescoço separa-se-me
em retrós2 de seda, com que se o bordou, e o trabalho que houve de o bordar. E imediatamente, como num livro
primário de economia polí=ca, desdobram-se diante de mim as fábricas e os trabalhos — a fábrica onde se fez o
tecido; a fábrica onde se fez o retrós, de um tom mais escuro, com que se orla de coisinhas retorcidas o seu lugar
junto do pescoço; e vejo as secções das fábricas, as máquinas, os operários, as costureiras, meus olhos virados
para dentro penetram nos escritórios, vejo os gerentes procurar estar sossegados, sigo, nos livros, a contabilidade
de tudo; mas não é só isto: vejo, para além, as vidas domés=cas dos que vivem a sua vida social nessas fábricas e
nesses escritórios... Todo o mundo se me desenrola aos olhos só porque tenho diante de mim, abaixo de um
pescoço moreno, que de outro lado tem não sei que cara, um orlar3 irregular regular verde-escuro sobre um
verde-claro de ves=do.
Toda a vida social jaz a meus olhos.
Para além disto pressinto os amores, as secrecias4 [...], a alma de todos quantos trabalharam para que esta
mulher que está diante de mim no eléctrico use, em torno do seu pescoço mortal, a banalidade sinuosa de um
retrós de seda verde escura fazendo inu=lidades pela orla de uma fazenda verde menos escura.
Entonteço. Os bancos do eléctrico, de um entretecido de palha forte e pequena, levam-me a regiões distantes,
mul=plicam-se-me em indústrias, operários, casas de operários, vidas, realidades, tudo.
Saio do carro exausto e sonâmbulo. Vivi a vida inteira.

1estofo – tecido;
2retrós – fio de seda torcido;
3orlar – pôr orla ou cercadura;
4secrecias – segredos
O Livro do Desassossego – fragmento 2
Tudo é absurdo. Este empenha a vida em ganhar dinheiro que guarda, e nem tem filhos a quem o deixe nem
esperança que um céu lhe reserve uma transcendência desse dinheiro. Aquele empenha o esforço em ganhar
fama, para depois de morto, e não crê naquela sobrevivência que lhe dê o conhecimento da fama. Esse outro
gasta-se na procura de coisas de que realmente não gosta. Mais adiante, há um que ☐
Um lê para saber, inu=lmente. Outro goza para viver, inu=lmente.
Vou num carro eléctrico, e estou reparando lentamente, conforme é meu costume, em todos os pormenores
das pessoas que vão adiante de mim. Para mim os pormenores são coisas, vozes, letras. Neste ves=do da rapariga
que vai em minha frente decomponho o ves=do em o estofo1 de que se compõe, o trabalho com que o fizeram —
pois que o vejo ves=do e não estofo — e o bordado leve que orla a parte que contorna o pescoço separa-se-me
em retrós2 de seda, com que se o bordou, e o trabalho que houve de o bordar. E imediatamente, como num livro
primário de economia polí=ca, desdobram-se diante de mim as fábricas e os trabalhos — a fábrica onde se fez o
tecido; a fábrica onde se fez o retrós, de um tom mais escuro, com que se orla de coisinhas retorcidas o seu lugar
junto do pescoço; e vejo as secções das fábricas, as máquinas, os operários, as costureiras, meus olhos virados
para dentro penetram nos escritórios, vejo os gerentes procurar estar sossegados, sigo, nos livros, a contabilidade
de tudo; mas não é só isto: vejo, para além, as vidas domés=cas dos que vivem a sua vida social nessas fábricas e
nesses escritórios... Todo o mundo se me desenrola aos olhos só porque tenho diante de mim, abaixo de um
pescoço moreno, que de outro lado tem não sei que cara, um orlar3 irregular regular verde-escuro sobre um
verde-claro de ves=do.
Toda a vida social jaz a meus olhos.
Para além disto pressinto os amores, as secrecias4 [...], a alma de todos quantos trabalharam para que esta
mulher que está diante de mim no eléctrico use, em torno do seu pescoço mortal, a banalidade sinuosa de um
retrós de seda verde escura fazendo inu=lidades pela orla de uma fazenda verde menos escura.
O narrador sai do elétrico “exausto e sonâmbulo”.
Entonteço. Os bancos do eléctrico, de um entretecido de palha forte e pequena, levam-me a regiões distantes,
mul=plicam-se-me em indústrias, operários, casas de operários, vidas, realidades, tudo.
Saio do carro exausto e sonâmbulo. Vivi a vida inteira.

1estofo – tecido;
2retrós – fio de seda torcido;
3orlar – pôr orla ou cercadura;
4secrecias – segredos
O Livro do Desassossego – fragmento 2
Tudo é absurdo. Este empenha a vida em ganhar dinheiro que guarda, e nem tem filhos a quem o deixe nem
esperança que um céu lhe reserve uma transcendência desse dinheiro. Aquele empenha o esforço em ganhar
fama, para depois de morto, e não crê naquela sobrevivência que lhe dê o conhecimento da fama. Esse outro
gasta-se na procura de coisas de que realmente não gosta. Mais adiante, há um que ☐
O “eu” assume um papel de observador acidental
Um lê para saber, inu=lmente. Outro goza para viver, inu=lmente.
Vou num carro eléctrico, e estou reparando lentamente, conforme é meu costume, em todos os pormenores
das pessoas que vão adiante de mim. Para mim os pormenores são coisas, vozes, letras. Neste ves=do da rapariga
que vai em minha frente decomponho o ves=do em o estofo1 de que se compõe, o trabalho com que o fizeram —
pois que o vejo ves=do e não estofo — e o bordado leve que orla a parte que contorna o pescoço separa-se-me
em retrós2 de seda, com que se o bordou, e o trabalho que houve de o bordar. E imediatamente, como num livro
primário de economia polí=ca, desdobram-se diante de mim as fábricas e os trabalhos — a fábrica onde se fez o
tecido; a fábrica onde se fez o retrós, de um tom mais escuro, com que se orla de coisinhas retorcidas o seu lugar
junto do pescoço; e vejo as secções das fábricas, as máquinas, os operários, as costureiras, meus olhos virados
para dentro penetram nos escritórios, vejo os gerentes procurar estar sossegados, sigo, nos livros, a contabilidade
de tudo; mas não é só isto: vejo, para além, as vidas domés=cas dos que vivem a sua vida social nessas fábricas e
nesses escritórios... Todo o mundo se me desenrola aos olhos só porque tenho diante de mim, abaixo de um
pescoço moreno, que de outro lado tem não sei que cara, um orlar3 irregular regular verde-escuro sobre um
verde-claro de ves=do.
Toda a vida social jaz a meus olhos.
Para além disto pressinto os amores, as secrecias4 [...], a alma de todos quantos trabalharam para que esta
Após ter representado mentalmente tudo o que terá dado origem ao ves=do da rapariga e a sua
mulher que está diante de mim no eléctrico use, em torno do seu pescoço mortal, a banalidade sinuosa de um
envolvência social, o sujeito sinte=za a agitação do seu pensamento através desta expressão
retrós de seda verde escura fazendo inu=lidades pela orla de uma fazenda verde menos escura.
totalizante. Através da evasão apercebe-se dos mecanismos e processos da sociedade que o
Entonteço. Os bancos do eléctrico, de um entretecido de palha forte e pequena, levam-me a regiões distantes,
envolve.
mul=plicam-se-me em indústrias, operários, casas de operários, vidas, realidades, tudo.
Saio do carro exausto e sonâmbulo. Vivi a vida inteira.
O sujeito ar=cula a representação obje=va do real com a imaginação – transfiguração do real
1estofo – tecido;
2retrós – fio de seda torcido;
3orlar – pôr orla ou cercadura;
Recurso às sensações: visuais; táteis; audi=vas
4secrecias – segredos
O Livro do Desassossego – fragmento 2
Tudo é absurdo. Este empenha a vida em ganhar dinheiro que guarda, e nem tem filhos a quem o deixe nem
esperança que um céu lhe reserve uma transcendência desse dinheiro. Aquele empenha o esforço em ganhar
fama, para depois de morto, e não crê naquela sobrevivência que lhe dê o conhecimento da fama. Esse outro
gasta-se na procura de coisas de que realmente não gosta. Mais adiante, há um que ☐
Um lê para saber, inu=lmente. Outro goza para viver, inu=lmente.
Vou num carro eléctrico, e estou reparando lentamente, conforme é meu costume, em todos os pormenores
das pessoas que vão adiante de mim. Para mim os pormenores são coisas, vozes, letras. Neste ves=do da rapariga
que vai em minha frente decomponho o ves=do em o estofo1 de que se compõe, o trabalho com que o fizeram —
Função sintá=ca Sujeito composto
pois que o vejo ves=do e não estofo — e o bordado leve que orla a parte que contorna o pescoço separa-se-me
em retrós2 de seda, com que se o bordou, e o trabalho que houve de o bordar. E imediatamente, como num livro
primário de economia polí=ca, desdobram-se diante de mim as fábricas e os trabalhos — a fábrica onde se fez o
tecido; a fábrica onde se fez o retrós, de um tom mais escuro, com que se orla de coisinhas retorcidas o seu lugar
junto do pescoço; e vejo as secções das fábricas, as máquinas, os operários, as costureiras, meus olhos virados
para dentro penetram nos escritórios, vejo os gerentes procurar estar sossegados, sigo, nos livros, a contabilidade
de tudo; mas não é só isto: vejo, para além, as vidas domés=cas dos que vivem a sua vida social nessas fábricas e
nesses escritórios... Todo o mundo se me desenrola aos olhos só porque tenho diante de mim, abaixo de um
pescoço moreno, que de outro lado tem não sei que cara, um orlar3 irregular regular verde-escuro sobre um
verde-claro de ves=do.
Recursos expressivos Enumeração; uso expressivo do advérbio; hipérbole
Toda a vida social jaz a meus olhos.
Para além disto pressinto os amores, as secrecias4 [...], a alma de todos quantos trabalharam para que esta
mulher que está diante de mim no eléctrico use, em torno do seu pescoço mortal, a banalidade sinuosa de um
retrós de seda verde escura fazendo inu=lidades pela orla de uma fazenda verde menos escura.
Oração Oração subordinada adje=va rela=va restri=va
Entonteço. Os bancos do eléctrico, de um entretecido de palha forte e pequena, levam-me a regiões distantes,
mul=plicam-se-me em indústrias, operários, casas de operários, vidas, realidades, tudo.
Saio do carro exausto e sonâmbulo. Vivi a vida inteira.

Antecedente “esta mulher que está diante de mim no elétrico”


O Livro do Desassossego – fragmento 3
1ª parte – descrição do “garoto do escritório”
O único viajante com verdadeira alma que conheci era um garoto de escritório que havia numa outra casa,
onde em tempos fui empregado. Este rapazito colecionava folhetos de propaganda de cidades, países e
companhias de transportes; =nha mapas — uns arrancados de periódicos, outros que pedia aqui e ali —; =nha,
recortadas de jornais e revistas, ilustrações de paisagens, gravuras de costumes exó=cos, retratos de barcos e
navios. Ia às agências de turismo, em nome de um escritório hipoté=co, ou talvez em nome de qualquer escritório
existente, possivelmente o próprio onde estava, e pedia folhetos sobre viagens para a Itália, folhetos de viagens
para a Índia, folhetos dando as ligações entre Portugal e a Austrália.
Não só era o maior viajante, porque o mais verdadeiro, que tenho conhecido: era também uma das pessoas
mais felizes que me tem sido dado encontrar. Tenho pena de não saber o que é feito dele, ou, na verdade,
suponho somente que deveria ter pena; na realidade não a tenho, pois hoje, que passaram dez anos, ou mais,
sobre o breve tempo em que o conheci, deve ser homem, estúpido, cumpridor dos seus deveres, casado talvez,
sustentáculo social de qualquer — morto, enfim, em sua mesma vida. É até capaz de ter viajado com o corpo, ele
que tão bem viajava com a alma.
Recordo-me de repente: ele sabia exatamente por que vias férreas se ia de Paris a Bucareste, por que vias
férreas se percorria a Inglaterra, e, através das pronúncias erradas dos nomes estranhos, havia a certeza
aureolada da sua grandeza de alma. Hoje, sim, deve ter exis=do para morto, mas talvez um dia, em velho, se
lembre, como é não só melhor, senão mais verdadeiro, o sonhar com Bordéus do que desembarcar em Bordéus.
E, daí, talvez isto tudo =vesse outra explicação qualquer, e ele es=vesse somente imitando alguém. Ou... Sim,
julgo às vezes, considerando a diferença hedionda1 entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos,
que somos acompanhados na infância por um espírito da guarda, que nos empresta a própria inteligência astral, e
que depois, talvez com pena, mas por uma lei alta, nos abandona, como as mães animais às crias crescidas, ao
cevado2 que é o nosso des=no. Divisão do fragmento em partes
1hedionda – que causa repulsa; repugnante
2ª parte – reflexões do narrador sobre o “único” e “maior viajante” que conheceu
2cevado – porco gordo
O Livro do Desassossego – fragmento 3
O único viajante com verdadeira alma que conheci era um garoto de escritório que havia numa outra casa,
onde em tempos fui empregado. Este rapazito colecionava folhetos de propaganda de cidades, países e
companhias de transportes; =nha mapas — uns arrancados de periódicos, outros que pedia aqui e ali —; =nha,
recortadas de jornais e revistas, ilustrações de paisagens, gravuras de costumes exó=cos, retratos de barcos e
navios. Ia às agências de turismo, em nome de um escritório hipoté=co, ou talvez em nome de qualquer escritório
existente, possivelmente o próprio onde estava, e pedia folhetos sobre viagens para a Itália, folhetos de viagens
para a Índia, folhetos dando as ligações entre Portugal e a Austrália.
Não só era o maior viajante, porque o mais verdadeiro, que tenho conhecido: era também uma das pessoas
mais felizes que me tem sido dado encontrar. Tenho pena de não saber o que é feito dele, ou, na verdade,
Caracterização do “garoto de escritório”
suponho somente que deveria ter pena; na realidade não a tenho, pois hoje, que passaram dez anos, ou mais,
Este “garoto de escritório” foi o “único viajante com verdadeira alma” que o narrador conheceu
sobre o breve tempo em que o conheci, deve ser homem, estúpido, cumpridor dos seus deveres, casado talvez,
porque este, sendo ainda jovem e tendo “a inteligência das crianças”, viajava com a imaginação,
sustentáculo social de qualquer — morto, enfim, em sua mesma vida. É até capaz de ter viajado com o corpo, ele
sem nunca ter ido aos locais explorados, através dos “folhetos de propaganda”, dos mapas, das
que tão bem viajava com a alma.
“ilustrações de paisagens”, dos “retratos de barcos e navios”.
Recordo-me de repente: ele sabia exatamente por que vias férreas se ia de Paris a Bucareste, por que vias
férreas se percorria a Inglaterra, e, através das pronúncias erradas dos nomes estranhos, havia a certeza
aureolada da sua grandeza de alma. Hoje, sim, deve ter exis=do para morto, mas talvez um dia, em velho, se
lembre, como é não só melhor, senão mais verdadeiro, o sonhar com Bordéus do que desembarcar em Bordéus.
E, daí, talvez isto tudo =vesse outra explicação qualquer, e ele es=vesse somente imitando alguém. Ou... Sim,
julgo às vezes, considerando a diferença hedionda1 entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos,
que somos acompanhados na infância por um espírito da guarda, que nos empresta a própria inteligência astral, e
O “eu” valoriza o rapaz e a sua capacidade de viajar, pois o =po de viagens que ele faz não estão
que depois, talvez com pena, mas por uma lei alta, nos abandona, como as mães animais às crias crescidas, ao
condicionadas por dimensões espaciais, na medida em que são espirituais e, por isso, livres.
cevado2 que é o nosso des=no.

O “garoto de escritório”
O Livro do Desassossego – fragmento 3
O único viajante com verdadeira alma que conheci era um garoto de escritório que havia numa outra casa,
onde em tempos fui empregado. Este rapazito colecionava folhetos de propaganda de cidades, países e
companhias de transportes; =nha mapas — uns arrancados de periódicos, outros que pedia aqui e ali —; =nha,
recortadas de jornais e revistas, ilustrações de paisagens, gravuras de costumes exó=cos, retratos de barcos e
navios. Ia às agências de turismo, em nome de um escritório hipoté=co, ou talvez em nome de qualquer escritório
existente, possivelmente o próprio onde estava, e pedia folhetos sobre viagens para a Itália, folhetos de viagens
Referência aos produtos de divulgação turís=ca, aos jornais e às
para a Índia, folhetos dando as ligações entre Portugal e a Austrália.
revistas que sugerem o gosto pelas viagens internacionais e o O imaginário urbano
Não só era o maior viajante, porque o mais verdadeiro, que tenho conhecido: era também uma das pessoas
cosmopolitanismo associados aos interesses da vida citadina.
mais felizes que me tem sido dado encontrar. Tenho pena de não saber o que é feito dele, ou, na verdade,
suponho somente que deveria ter pena; na realidade não a tenho, pois hoje, que passaram dez anos, ou mais,
sobre o breve tempo em que o conheci, deve ser homem, estúpido, cumpridor dos seus deveres, casado talvez,
sustentáculo social de qualquer — morto, enfim, em sua mesma vida. É até capaz de ter viajado com o corpo, ele
que tão bem viajava com a alma.
Recordo-me de repente: ele sabia exatamente por que vias férreas se ia de Paris a Bucareste, por que vias
férreas
Quo=diano se percorria a Inglaterra,
implícito e, através
na referência à vida das pronúncias
social erradas
do rapaz dos nomes estranhos, havia a certeza
(agora
aureolada
adulto e da sua uma
com grandeza de exatamente
vida alma. Hoje, sim, deve
igual a ter exis=do
todas as para morto, mas talvez
outras um dia, em velho, se
O quo=diano
lembre, como é não só melhor, senão mais verdadeiro, o sonhar com Bordéus do que desembarcar em Bordéus.
pessoas que pertencem à “salada cole=va da vida”).
E, daí, talvez isto tudo =vesse outra explicação qualquer, e ele es=vesse somente imitando alguém. Ou... Sim,
julgo às vezes, considerando a diferença hedionda1 entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos,
que somos acompanhados na infância por um espírito da guarda, que nos empresta a própria inteligência astral, e
que depois, talvez com pena, mas por uma lei alta, nos abandona, como as mães animais às crias crescidas, ao
cevado2 que é o nosso des=no.
O Livro do Desassossego – fragmento 3
O único viajante com verdadeira alma que conheci era um garoto de escritório que havia numa outra casa,
onde em tempos fui empregado. Este rapazito colecionava folhetos de propaganda de cidades, países e
•  A=tude medita=va e crí=ca, refle=ndo sobre a importância do
companhias de transportes; =nha mapas — uns arrancados de periódicos, outros que pedia aqui e ali —; =nha,
recortadas de jornais sonhar/imaginar enquanto única forma de vida possível, a
e revistas, ilustrações de paisagens, gravuras de costumes exó=cos, retratos de barcos e
navios. Ia às agências de turismo, em nome de um escritório hipoté=co, ou talvez em nome de qualquer escritório
par=r de um esumulo do quo=diano (a observação do rapaz
existente, possivelmente o próprio onde estava, e pedia folhetos sobre viagens para a Itália, folhetos de viagens
que colecionava folhetos turís=cos).
para a Índia, folhetos dando as ligações entre Portugal e a Austrália.
Não só era o maior viajante, porque o mais verdadeiro, que tenho conhecido: era também uma das pessoas
mais felizes que me tem sido dado encontrar. Tenho pena de não saber o que é feito dele, ou, na verdade,
suponho somente que deveria ter pena; na realidade não a tenho, pois hoje, que passaram dez anos, ou mais,
sobre o breve tempo em que o conheci, deve ser homem, estúpido, cumpridor dos seus deveres, casado talvez,
sustentáculo social de qualquer — morto, enfim, em sua mesma vida. É até capaz de ter viajado com o corpo, ele
que tão bem viajava com a alma.
Recordo-me de repente: ele sabia exatamente por que vias férreas se ia de Paris a Bucareste, por que vias
férreas se percorria a Inglaterra, e, através das pronúncias erradas dos nomes estranhos, havia a certeza
•  Melancolia e desolação, ao constatar que a vida humana é
aureolada da sua grandeza de alma. Hoje, sim, deve ter exis=do para morto, mas talvez um dia, em velho, se
lembre, como é não só melhor, senão mais verdadeiro, o sonhar com Bordéus do que desembarcar em Bordéus.
desprovida de sen=do.
E, daí, talvez isto tudo =vesse outra explicação qualquer, e ele es=vesse somente imitando alguém. Ou... Sim,
julgo às vezes, considerando a diferença hedionda1 entre a inteligência das crianças e a estupidez dos adultos,
que somos acompanhados na infância por um espírito da guarda, que nos empresta a própria inteligência astral, e
que depois, talvez com pena, mas por uma lei alta, nos abandona, como as mães animais às crias crescidas, ao
cevado2 que é o nosso des=no.

Dois traços do perfil de Bernardo Soares


Texto exposi=vo-informa=vo

Redige um texto exposi=vo-informa=vo com as principais caracterís=cas de Bernardo Soares


e do Livro do Desassossego.

Tópicos:
•  O imaginário urbano
•  O quo=diano
•  Deambulação e sonho: o observador acidental
•  Perceção e transfiguração poé=ca da realidade
•  Natureza fragmentária da obra
Texto exposi=vo-informa=vo

Redige um texto exposi=vo-informa=vo com as principais caracterís=cas de Bernardo Soares


e do Livro de Desassossego.

Bernardo Soares no Livro de Desassossego desenha o imaginário urbano e o real


quo=diano lisboeta do início do século XX.
O narrador, ao deambular por Lisboa, observa os transeuntes com os quais se cruza
ocasionalmente, repara “em todos os pormenores das pessoas que vão diante de“ si e, a
par=r dessa realidade, imagina e faz uma viagem interna. É desta forma que transfigura o
real, como quando o bordado da gola do ves=do da rapariga do elétrico o faz referir as
fábricas, as costureiras, os operários, isto é, todo o percurso fabril por que aquele ves=do
terá passado. Assim, o mundo exterior surge como ponto de par=da para as suas divagações
subje=vas, razão pela qual afirma “Eu nunca fiz senão sonhar”, já que o ambiente
envolvente, os instantâneos do dia a dia e o quo=diano são a sua inspiração. Através de uma
escrita diarís=ca, que caracteriza a obra, surge o imaginário urbano das ruas, dos cafés e dos
elétricos da cidade de Lisboa, exis=ndo um pendor crí=co em muitas das suas reflexões.
Em suma, o Livro do Desassossego é uma obra fragmentária cons=tuída por textos de
Bernardo Soares, observador acidental que focaliza o pormenor para se poder evadir.
198 palavras

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