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Tese 9: A teologia sistemática como reflexão sobre a fé no Deus que se revela na história.

É a priori que Deus se revela na história. “Aprouve Deus, em sua bondade e sabedoria, revelar-se a si
mesmo e tornar conhecido o mistério de sua vontade” (...) (Ef 1,19).
A descrição global segue o duplo objetivo da comunicação e da “concentração cristológica”. Na C. D.V.
procura-se expor com olhar trinitário o mistério (sacramentum) da “auto-revelação” de Deus, por Cristo e
no seu Espírito. Este anuncia a concentração na pessoa de Cristo, sacramento de Deus. O desígnio de
Deus é dar aos homens acesso e participação na vida trinitária.

Para tanto, Deus se dirige aos homens como a amigos (Ex 33,11; Jo 15,14-15). A linguagem da comunicação e
desse encontro, é do relacionamento e do convite à comunhão. Pela revelação, Deus, como Sabedoria, “conversa
com os homens” (Br 3,38). Esse plano de revelação se concretiza através de acontecimentos e palavras conexos
entre si, pois as obras realizadas por Deus na história da salvação manifestam e corroboram os ensinamentos e
as realidades significadas pelas palavras (...)” (n. 2).

A economia da revelação passa por gestos e palavras dentro da solidariedade do ver e do ouvir.
“O conteúdo profundo da verdade da parte de Deus e da salvação do homem se nos manifesta por meio dessa
revelação em Cristo, que é mediador e plenitude de toda a revelação” (n. 2).
O Cristo em pessoa, “Palavra substancial do Pai”, é o ápice dessa revelação. É o revelador, o mediador dela, “o
mensageiro e o conteúdo da mensagem“.

2. A Revelação é uma longa história (n. 3).

A revelação é apresentada na moldura da história da salvação. Como esta e solidária com ela a revelação
caminha. Quanto mais Deus se revela, mais Ele se dá, mais Ele salva.
Nessa revelação há três etapas: 1) A primeira base das demais é a revelação cósmica – ligada, desde os
primórdios, à revelação pessoal e gratuita de Deus. Foi destinada não somente a uma vocação à comunhão com
Deus, mas também uma revelação do mesmo nível. O desígnio divino é comunicar-se pessoalmente com a
humanidade.

2) A segunda vai do pecado de origem até Abraão. Após a queda, Deus promete a redenção, como se pode
entrever no “proto-evangelho” de Gn 3,15. Ele continua a cuidar do gênero humano “permanentemente”, para dar
a vida eterna aos que o procuram.
Deus continua a propor sua graça e, por isso mesmo, algum tipo de revelação, expressões de sua vontade
salvífica universal (1Tm 2,4). Ele “vela” pelo ser humano sempre, para conduzi-lo a uma única salvação: a vida
eterna em Cristo.

3) A terceira etapa vai de Abraão ao Evangelho. Resume toda a economia do A.T., dos Patriarcas e os Profetas.
Deus escolhe um povo para lhe confiar uma missão. Essa pedagogia de preparação passa pela Lei e pelos
Profetas. É uma história que converge para a vinda de Cristo.

4) A revelação que se completa em Cristo. “Depois de ter falado de muitos modos pelos Profetas, Deus
ultimamente, (...) falou-nos pelo Filho” (Hb 1,1-2). Agora é o Filho que nos conta a boa-nova, dando-se a nós.
Depois das revelações parciais, o revelador absoluto, a “palavra-síntese”, Cristo, o “exegeta” do Pai (Jo 1,18)
narra-nos os segredos de Deus.
“O destino humano de Cristo é a revelação absoluta e pura de Deus” (K. Rahner).
O Verbo é enviado no bojo de uma missão trinitária. Ele vem do Pai, que lhe dá uma missão e, por sua vez, envia
o E.S.
5) A fé, resposta do homem à revelação (n. 5). “Ao Deus que se revela deve-se à obediência da fé” (...) (Rm
16,26).
Nasce daí o diálogo. A fé cristã é inteiramente diálogo entre Deus e os homens. Um diálogo de salvação. A origem
transcendente do diálogo está no plano de Deus.

Tese 11: O Reino de Deus compreendido como centro da pregação de Jesus de Nazaré.
“A realidade histórica vive as contradições do fazer humano e o esforço dos cristãos é diagnosticar e discernir os
sinais de Deus nesta única história que é prenhe de salvação e amor divino”.

Como verificar na história, nas contradições que nela se apresentam, que ele é prenhe da salvação e de amor
divino?
A expressão “Reino de Deus” ocorre 122 x no N.T., sendo 99 x nos evangelhos sinóticos e, destas, 90 x pertencem
às palavras de Jesus.
Na história da Igreja a palavra “Reino de Deus” foi concebida dos seguintes modos. Nos Padres reconhecemos
três dimensões na explicação desta palavra-chave:

1) designação cristológica. Orígenes caracteriza Jesus como auto basiléia, i.é., como o reino de Deus em pessoa.
Jesus mesmo é o “Reino”; a expressão em si mesma, seria como que uma cristologia oculta: no prodígio que é
Deus mesmo que está em Cristo presente entre os homens. Cristo presença de Deus, conduz os homens para Ele
através do modo como Ele fala do “Reino de Deus”.

2) Designação idealista ou mística, a qual vê o Reino de Deus situado na interioridade do homem.


No escrito sobre a oração, Orígenes diz: “quem reza pela chegada do reino de Deus reza sem dúvida pelo Reino
de Deus que ele já leva em si mesmo e pede para que este Reino produza frutos e para que chegue à sua
plenitude. Pois em cada homem santo, Deus domina (= é soberania, Reino de Deus).
3) explicação eclesiológica: o Reino de Deus e a Igreja são colocados de um modo distinto um em relação ao
outro e mais ou menos aproximados um do outro.

Qual foi a fé de Jesus, o que ela proclamou?


O que é o Reino?
Reino (malkut (heb.) basiléia) designa a realeza de Deus sobre o mundo, a qual de um modo novo se torna
acontecimento na história.
O “Reino de Deus” fala da condição senhorial de Deus ou da soberania de Deus.
O conteúdo da “mensagem de Jesus sobre o Reino” radica no A.T, que Ele, no seu movimento progressivo desde
os inícios em Abraão até sua hora, lê como um todo, o qual precisamente se se capta a totalidade deste
movimento – conduz diretamente a Jesus.
A partir do séc. VI a.C o Reino de Deus torna-se expressão da esperança a respeito do futuro.
A soberania de Deus, o divino ser senhor sobre o mundo e sobre a história, transcende o momento, transcende a
história no seu todo e vai para além dela; a sua dinâmica interna conduz a história para além de si mesma. No
entanto, o Reino é ao mesmo tempo algo sempre presente – presente na Liturgia etc. –, presente como força que
transporta o jugo de Deus e assim alcança antecipadamente a sua parte no mundo futuro.

O agir de Jesus que acontece no E.S. revela o “Reino de Deus”. Torna-se presente Nele e por Ele.
Através da presença e atuação de Jesus, Deus irrompe como atuante na história. N’Ele Deus está agora em ação
e é verdadeiramente Senhor, dominando divinamente através do amor que vai até o “fim” (Jo 13,1), até a cruz.
Onde ele surge?

Qual a relevância de seu pensar sua envergadura hoje?


Evangelizar pelo Reino, pois a prática de Jesus que, por sua vez, revela a prática de Deus. A prática de Deus
revela o agir de Jesus.
Uma questão genético-sintomática se faz necessária colocá-la: situar o Jesus histórico na problemática do Reino.
Quais as manifestações metafóricas do Reino.
Por que Jesus elegeu o estilo de parábola (parabolesis) para falar do Reino?
Segundo o estudioso do Novo Testamento, Joaquim Jeremias, há 86 modos de falar do Reino no N.T.

Por que Jesus não se auto-proclamou ?


Quais são sinais do Reino? Como eles se apresentam?

Tese 20: A moral entendida como defesa intransigente da vida.


Sobre um ponto tão delicado que implica a relação homem-Deus, natural-sobrenatural, razão-Revelação e que
tem um mesmo autor, Deus, merece igual respeito e exige apoio mútuo.
Temas que envolvem vida e morte, princípio e fim da existência humana afetam profundamente a consciência do
homem, a bioética e o aborto nesse terreno se inserem.
Bioética (bios + ethos) pode ser definida como um estudo sistemático do enquadramento humano na área das
ciências humanas e da atenção sanitária, quando se examina esse comportamento à luz dos valores e princípios
morais.
Bio, representa o conhecimento dos sistemas, a ciência dos sistemas vivos; ethos, designa o conhecimento dos
sistemas de valores humanos.
Deverá ser uma ética racional que, a partir da descrição do fato cientifico, biológico e médico, analisa
racionalmente a liceidade da intervenção do homem sobre o outro. A reflexão que aqui se impõe, tem seu ser
imediato e sua referência última em Deus, que é valor Absoluto. Nessa linha, faz-se necessário e normal seu
confronto com a Revelação cristã e com as concepções filosóficas.

1. Bioética e teologia moral.


(A congregação da Doutrina da Fé elaborou um documento, Donun vitae, 1987)1.
A moral médica, parte da moral voltada para a formação de quem trabalha na área da saúde – considera as
intervenções inerentes à bioética à luz da fé e, por isso, à luz da Revelação cristã, especificada pelo Magistério:
tem sua visão de ser como reflexão sobre o dado da fé e sobre a aplicação da lei divina no comportamento
humano.
A reflexão racional e deontológica sobre a vida humana se faz necessária, sobremodo sobre a licitude das
intervenções acerca do homem pelo médico e pelo biólogo.

1
Instrução sobre o respeito à vida humana nascente e da dignidade da procriação. É uma resposta a algumas
questões atuais. Acerca da conformidade com os princípios da moral católica das técnicas biomédicas que
consentem em intervir na fase inicial da vida humana e nos próprios processos da procriação.
Ora, a vida humana é um bem e antes de qualquer coisa, um valor natural. Tornou-se um bem precioso, pela
graça e dom do E.S. e não cessa ser para todos e, particularmente para os crentes, um valor inatingível.
A Igreja não nega o valor da razão e a legitimidade da ética racional (= natural).
Essas considerações são também válidas para o aborto.
Aborto (abortus), significa privação do nascimento; provém de ab (i.é., privação) e ortus (nascimento).
O aborto é considerado pelo posicionamento da Igreja, tem como fundamento das reflexões a priori, e como
Faktum der Vernunft, que a vida é igual para todos os homens e o imperativo de respeitá-la é dever do homem
enquanto homem.

2. Posicionamento do Magistério.
Baseia-se:
1) Na visão natural (ordem estabelecida por Deus), pois a moral tem princípios absolutos e indiscutíveis,
iluminados pela “teologia escatológica”, porque apontam para uma situação ideal do ser humano, da sociedade e
da ação histórica;
2) A vida deve ser respeitada e protegida de maneira absoluta a partir da concepção (Cat. I. C);
3) Deve-se reconhecer os direitos da pessoa – do ser humano – desde os primeiros momentos de sua existência,
entre os quais o direito inviolável de todo ser humano à vida.
4) A base do juízo moral sobre isso, não reside em atos predeterminados como intrinsecamente maus, mas no
respeito da pessoa ao chamado de Deus nas realidades concretas da existência;
5) A “identidade humana” do embrião constitui a argumentação basilar da fundamentação do direito à vida, direito
fundamental e prioritário, embora não absoluto;
6) A GS (n. 27; 51) condenam o aborto (cf. Evangelium vitae).