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Cristãos no século 21

Os dilemas e oportunidades da época atual

LEANDRO LIMA

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© Leandro Lima

Projeto gráfico
Meios Comunicação

Revisão
Adély Costa

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (cip)

L732c Lima, Leandro Antonio de, 1975-


Cristãos no século 21: os dilemas e oportunidades da época atual / Leandro Lima.
- São Paulo: 2015.
v.1.

Inclui referências.
ISBN: 978-85-99704-18-9

1. CRISTIANISMO E OUTRAS RELIGIÕES - ROMANA. 2. ATEUS-ASPECTOS RELI-


GIOSOS. 3. RELIGIÕES - DOUTRINAS E CONTROVÉRSIAS. 4. IGREJA E PROBLE-
MAS SOCIAIS. 5. MISTICISMO. 6. PRAGMATISMO. 7. RELIGIÃO - FILOSOFIA.
8. BÍBLIA - COMENTÁRIOS. 9. BÍBLIA - CITAÇÕES. 10. PÓS-MODERNISMO -
ASPECTOS RELIGIOSOS. I.Título.

PeR – BPE 12-002 CDU261


CDD 261.22

2015
Todos os direitos reservados e protegi-
dos pela Lei 9.610 de 19/02/1998.
Editora Agathos, Ltda
www.grandesdoutrinas.com.br

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SUMÁRIO

Volume 1

1 O CONFUSO MUNDO ATUAL 5

2 A DIFÍCIL VIDA DE UM ATEU 10

3 PESSIMISMO DESNECESSÁRIO 16

4 DEVEMOS ESPERAR UM MUNDO MELHOR? 22

5 O ABALO DOS PILARES DA MODERNIDADE (PARTE 1) 28

6 O ABALO DOS PILARES DA MODERNIDADE (PARTE 2) 35

7 A CIDADE DOS HOMENS 42

8 A CIDADE DE DEUS 48

9 O VELHO E SEMPRE NOVO PAGANISMO 55

10 A MAIOR AMEAÇA PAGÃ 63

11 A INVASÃO DO MISTICISMO NA IGREJA 69

12 IGREJA INSATISFEITA COM CRISTO 75

13 O PODER DESTRUIDOR DO PRAGMATISMO 83

14 A FÉ PRÁTICA SEM SER PRAGMÁTICA 90

15 ÉTICA EM TEMPOS DE RELATIVISMO 95

16 O PERIGO DO RADICALISMO (PARTE 1) 102

17 O PERIGO DO RADICALISMO (PARTE 2) 109

1 BELEZA EFÊMERA 116

123

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1
O CONFUSO MUNDO
ATUAL

Mt 16.1-4

INTRODUÇÃO ENTENDENDO OS TEMPOS

Dois homens conversavam num avião. O mundo, a sociedade e a cultura são or-
Um deles, um cineasta, se reconhecia ganismos dinâmicos que estão em cons-
como uma pessoa pós-moderna. O ou- tante mudança, adaptação e readaptação.
tro, um cristão evangélico, pediu que o Ideologias surgem, desaparecem, ressur-
homem explicasse o que significava ser gem, convivem mutuamente, contradi-
“pós-moderno”. O cineasta respondeu: zem-se, tornam-se dominantes, caem no
“É não ter preconceitos, é aceitar que to- esquecimento, e isso tudo com a mesma
dos possuem um pouco de verdade, é ter velocidade dos meios de comunicação
a mente aberta para aceitar o diferente”. O modernos. Caso a igreja queira realizar
cristão agradeceu pela resposta e antes de uma obra eficaz de influência e transfor-
sair do avião ofereceu ao cineasta um pe- mação num mundo assim, ela precisa es-
queno exemplar de um plano de salvação. tar atenta para essas transformações. Essa
O cineasta fez uma cara esquisita e foi uma das grandes funções dos profetas
perguntou do Antigo Testamento. Eles não eram
apenas homens de visão a respeito do
“Isso é coisa de evangélico?”. futuro, mas também homens que enxer-
“É sim”, o evangélico respondeu. gavam muito bem o presente. Esses ho-
“Obrigado, eu não quero”, o cineasta mens tinham um olho em Deus e outro
respondeu, “dê para outra pessoa”. no mundo e, assim, conseguiam perceber
O evangélico ficou surpreso: as ações de Deus na História, o cresci-
“Mas você não disse que ser pós-mo- mento do mal dentro da sociedade e os
derno é não ter preconceito?”. principais desafios para o povo de Deus

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daquele período. Embora nem sempre a história da igreja, percebemos que os
fossem aceitos pelos seus contemporâne- religiosos se ocuparam demasiadamente
os, puderam fazer uma obra de influência com essas tarefas.
duradoura dentro de Israel.
Uma das razões pelas quais muitas igrejas
Jesus repreendeu severamente os fariseus históricas estão vazias em nossos dias não
por seguirem um caminho oposto, pois é só porque as pessoas se tornaram apai-
eles demonstravam dificuldades em re- xonadas por modismos e invencionices
conhecer o que chamou de “os sinais dos modernas, mas porque muitos púlpitos
tempos” (Mt 16.3). Eles não conseguiam, têm se tornado irrelevantes, e as pessoas
ou talvez não quisessem, entender a situ- estão cansadas de ouvir coisas irrelevan-
ação de sua própria época. Eles estavam tes. De muitos púlpitos o que se ouve
desatentos para reconhecer os sinais de são mensagens excessivamente técnicas,
Deus para aquela geração; estavam preo- destituídas de vida, piedade e aplicação
1
.John Stott, Ouça o
cupados demais com seus afazeres e em prática, num terrível distanciamento do
espírito, p. 246. manter a posição que haviam conquista-
mundo e de Deus. O radicalismo, seja ele
2
Embora devêsse- do. Ao desconsiderar o que estava acon-
mos preferir “pós- de caráter liberal, carismático ou tradi-
-modernidade” ao invés tecendo em sua geração, eles se tornaram
de “pós-moderno” ou cional, é sempre um pálido substituto da
“pós-modernismo” para irrelevantes e um peso para as pessoas de
evitar mistura de concei- ação de Deus na História.
tos. O termo “pós-moder- seus dias. Tudo o que faziam era manter
nismo” é mais aplicado
um esquema fixo de religião superficial
à literatura, arquitetura MODERNO OU PÓS-MODERNO?
e artes como estilo pró-
prio. Pós-modernidade
que não atendia às verdadeiras necessida-
tem a ver com a época des das pessoas.
generalizada. Ouvimos frequentemente que estamos
3
Antonio Cruz vê o
Esse é sempre o grande risco que a igreja vivendo numa sociedade pós-moderna
desenvolvimento da ide-
ologia pós-moderna ao
enfrenta. Ela pode ficar tão concentra- e pós-cristã. Será que estamos realmen-
longo do século 20: no
vitalismo anti-intelec- da nos seus problemas e tarefas internas te numa sociedade pós-moderna? Então,
tualista do começo do
século, no existencia- que se esquece de que há um mundo lá isso significa que o moderno não existe
lismo das décadas 30 a
50, na contracultura dos fora, onde pessoas, seres humanos, estão mais? Embora utilizemos o termo “pós-
anos 60 e, finalmente,
no atual estágio da gritando de angústia, vivendo sob o ter- -modernismo”2 nestes estudos, é preciso
pós-modernidade. (Ver
Antonio Cruz, Postmo- rível peso da frustração, do ceticismo, do entender a limitação dele. Não é possível,
dernidad, p. 50-52).
desespero e do conformismo. E, mesmo com o termo em si, por exemplo, definir
dentro de suas quatro paredes, há pessoas a data e o sentido exato de um aconte-
cheias de dúvidas, de agressões à fé, de co- cimento3. O mundo pós-moderno, de
rações endurecidos e com absoluta des- certo modo, ainda é um mundo “moder-
preocupação espiritual. Quando a igreja no”, até porque há muito da filosofia do
se esquece de olhar para Deus e para o modernismo atuando hoje. Ou seja, são
mundo, ela corre o risco, como diz Stott, mundos que se sobrepõem, ou interfaces
de “responder perguntas que ninguém que convivem. O fim da modernidade e o
está fazendo, coçar onde não há coceira início da pós-modernidade são períodos
alguma, prover bens para os quais não sobrepostos e que, talvez, jamais deixem
há nenhuma demanda”1 . Olhando para de se sobrepor. Como disse Jencks, o pós-

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-modernismo tem uma filosofia e visão as “pós-modernas” em nossos dias, mas é
de mundo híbrida, misturada e dialetica- preciso que se entenda que ainda há pes-
mente envolvida com o modernismo4. soas “antigas” e “modernas” também. E
talvez nenhuma totalmente pura, como a
O caminho mais adequado, se quiser- história acima nos mostrou.
mos tentar diferenciar “modernidade” de
“pós-modernidade”, é entender as suas Jean-François Lyotard6 pode ser indica-
perspectivas a respeito da realidade. No do como o responsável pela introdução
mundo antigo (anterior ao moderno), a do termo “pós-moderno” na pesquisa
eloquência era o grande trunfo dos eru- acadêmica7. Entretanto, o termo já era
ditos. Os filósofos se destacavam, porque conhecido desde a década de 308. Ele de-
tinham a autoridade e a habilidade de ar- signou mudanças na arte, na arquitetura e
gumentar sobre as coisas. O mundo mo- na literatura. Hoje, o termo se tornou co-
derno rompeu com essa tradição dizen- mum e, embora extremamente discutido,
do: “Não me fale sobre algo, mostre-me”. é um conceito amplamente estabelecido, 4
Charles Jencks, “What
Na essência do modernismo científico, a pelo menos como ponto de partida para is Post-Modernism?”,
p. 478.
verdade não era aquilo a respeito do que discussões. Jameson diz que o sucesso 5
Ver essas expressões e
se podia argumentar, nem aquilo baseado da palavra “pós-modernismo” deveria comparações em: David
Harvey, Condição pós-
na autoridade de alguém, mas aquilo que ser escrito em forma de Best-seller, tal -moderna, p. 46.
se podia comprovar cientificamente. Por foi a capacidade do termo de aglutinar 6
A definição de Lyotard
de pós-modernidade já é
isso, os pensadores modernos rejeitaram pensamentos e sentimentos9. MacGrath clássica: “Simplificando
ao extremo, considera-se
a autoridade da igreja e dos filósofos an- entende que o termo “oferece correta ava- ‘pós-moderna’ a incre-
tigos em troca das pesquisas experimen- liação do tom cultural contemporâneo”10. dulidade em relação aos
metarrelatos” (Condição
tais da ciência. A pós-modernidade, por Certamente a expressão mais famosa as- pós-moderna, p. xvi).
7
sua vez, desacreditou da razão, pois não a sociada ao conceito de pós-modernidade Ver Alister MacGrath,
Paixão pela verdade: a
julgou mais capaz de chegar à verdade, até é o relativismo. Ao longo deste livro, pau- coerência intelectual do
evangelicalismo, p. 137
porque a pós-modernidade desacreditou latinamente, desenvolveremos de forma 8
Ver Margaret Rose, “De-
da existência da própria verdade (pelo aplicada os conceitos de pós-modernida- fining the post-modern”,
p. 119-36.
menos em termos absolutos). Assim, de. Mas desde já, podemos deixar nossa 9
Fredric Jameson, Pós-
podemos diferenciar essas três visões impressão generalizada da situação: pós- -modernismo, p. 17.
do mundo como se três pessoas estives- -modernidade é frequentemente uma 10
Alister MacGrath,
sem conversando. A pessoa “antiga” dirá: atitude em relação à vida que, sob a capa Paixão pela verdade: a
coerência intelectual do
“Fale-me sobre isso, argumente”. A pes- de uma suposta tolerância e aceitação do evangelicalismo, p. 137.

soa moderna dirá “Prove-me com algum “diferente”, esconde o velho orgulho e au-
experimento verificável”. E a pessoa pós- tonomia humanos.
-moderna dirá “É tudo inútil, não dá para
ter certeza de nada, eu não estou interes- Quanto ao termo “pós-cristão”, embora
sado nisso, deixe-me viver a vida”. Por o aceitemos com reservas, é preciso en-
isso, a palavra chave para o modernismo é tender que, para que a sociedade mundial
“epistemologia” (racional) enquanto que fosse de fato pós-cristã, ela precisaria ter
a palavra chave para o pós-modernismo é sido, em algum momento, cristã. Mas isso
“ontologia”5 . Certamente existem pesso- nunca aconteceu. Apesar de sempre te-

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rem existido no mundo cristãos verdadei- vezes, são acusados de não construírem
ros que influenciaram positivamente suas nada.
famílias, suas cidades e até mesmo suas
gerações, este mundo jamais assimilou o Precisamos construir uma fé resistente
verdadeiro Cristianismo. Todavia, ainda aos ataques do mundo moderno ou pós-
que o mundo nunca tenha sido realmente -moderno, mas não só isso, pois é possível
cristão, por bastante tempo o Cristianis- construir uma fé que se torne ainda mais
mo teve forte influência sobre ele, espe- forte e relevante a partir desses ataques.
cialmente sobre o Ocidente. A moralida- O mundo de nossos dias, com toda a sua
de cristã preponderou por muito tempo confusão, as suas contradições, os seus
e conseguiu influenciar fortemente a cul- distúrbios e as suas hostilidades, ainda
tura até a metade do século 20. De lá para pode se configurar uma excelente opor-
cá, o Ocidente tem se libertado dessas in- tunidade para a igreja realizar a obra de
fluências e apregoado novos valores, uma Deus e anunciar o evangelho eterno (Ap
nova moralidade e uma nova religião, os 14.6)12.
11
É claro que não no quais são, geralmente, nada mais do que
mesmo sentido que a
expressão é aplicada imoralidade, desvalorização do ser huma- Esse é o nosso grande desafio. Nosso ob-
a Derrida, Foucault e
outros. Na verdade, esse no e, acima de tudo, paganismo. A cultura jetivo aqui não é uma análise acadêmica
desconstrucionismo é
secular redescobriu no paganismo o seu da pós-modernidade, mas uma avaliação
tipicamente pós-
-moderno. Grenz diz: “os verdadeiro habitat natural. pastoral de seus fenômenos para uma me-
filósofos pós-modernos
aplicaram as teorias lhor mobilização da igreja, ou talvez de-
do desconstrucionismo
literário ao mundo como A ATITUDE DA IGREJA vêssemos dizer, para seu melhor posicio-
um todo” (Stanley J.
Grenz, Pós-modernismo,
namento, o qual Jesus disse que é sobre a
p. 22).
É importante entender as filosofias e as mesa e não escondido debaixo dela (Ver
12
Mesmo que não fosse,
não nos isentaria da
práticas que têm dominado a sociedade Mt 5.15).
responsabilidade de
fazer isso.
atual e influenciado a igreja cristã. Evi-
dentemente, uma análise exaustiva de CONCLUSÃO
algo assim seria impossível, pois nem
sempre conseguimos sequer acompanhar Permanece que Deus deixou, em cada
o dinamismo do tempo. Nossa busca é a época, sinais sobre os tempos e sobre as
de olhar para o mundo e ver o que está expectativas dEle próprio em relação aos
acontecendo e, ao mesmo tempo, olhar homens. Entender a época em que vive-
para Deus, para sua Palavra, em busca de mos é crucial para viver do modo que
respostas ou orientações. A ideia não é só Deus deseja, pois o Todo-Poderoso quer
destruir o que se apresenta errôneo diante que vejamos nos tempos em que vivemos
de nossos olhos, mas oferecer uma opção as marcas deixadas por Ele. Diante da atu-
viável para uma vida significativa à luz da al situação do mundo é possível discernir
Palavra de Deus. Às vezes, os cristãos re- o “vermelho sombrio” que anuncia tem-
formados são chamados de “desconstru- pestades. Por outro lado, os cristãos sem-
cionistas”11, pois têm grande facilidade pre devem se lembrar do maior sinal que
em demolir as estruturas de pensamento Cristo já deu para os homens: o sinal do
que consideram erradas; porém, outras túmulo vazio. Como Jonas, Ele ficou em-

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baixo da terra, porém saiu ao terceiro dia
para demonstrar que é o senhor do tem-
po e da história.

Anotações

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2
A DIFÍCIL VIDA DE UM
ATEU

Salmo 14.1–7

IINTRODUÇÃO TANTOS FILÓSOFOS, MAS CADÊ A


VERDADE?
Não é fácil ser um ateu nesse mundo. A
frase acima pode parecer estranha, pois No mundo moderno, em que a tecnolo-
ouvimos falar de tantos ateus por aí, e eles gia e a ciência conquistaram os maiores
geralmente são hostis à mensagem cristã, espaços, foi declarado que não havia lu-
mas a grande verdade é que é difícil con- gar para as crenças em milagres divinos
seguir ser um ateu convicto. E a razão dis- ou interferências sobrenaturais, nem para
so não está na discriminação que os ateus se acreditar nas velhas histórias da Bíblia.
se dizem alvo, mas no esforço que alguém Tudo o que o homem tinha era sua pró-
assim precisa fazer para se livrar da noção pria capacidade de resolver seus proble-
envolvente da existência de Deus. mas. Nesse sentido, Deus não era mais
necessário, pois o sobrenatural não exis-
O rei de Israel escreveu: “Diz o insensato tia, ou se existia estava tão distante dos
no seu coração: Não há Deus” (Sl 14.1). homens que certamente não podia ser
Ou seja, o ateu precisa fazer um esforço alcançado.
de dizer para si mesmo que Deus não
existe. Ele precisa fazer isso porque tudo Quando estudamos a história da filosofia,
à sua volta e também dentro de si grita percebemos como o racionalismo trouxe
de modo impossível de abafar que “Deus o ceticismo e, por fim, gerou o agnosti-
existe”! cismo, que pode ser definido como a im-
possibilidade de conhecer algo realistica-
mente.

Na Idade Média, o filósofo francês René


Descartes (1596-1650) queria chegar

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às ideias fundamentais das coisas e, para que a ideia da existência de Deus não era
isso, criou um processo rigoroso de dúvi- algo inato no ser humano; ao contrário, o
da sistemática. Tudo o que fosse suscetí- homem pensa na existência de Deus pela
vel de dúvidas deveria ser rejeitado. Sua análise das coisas existentes. Locke en-
máxima era: “Penso, logo existo”. Essa tendeu que a existência de Deus era ne-
frase se tornou bem conhecida e frequen- cessária, pois algo precisava existir desde
temente vemos paródias dela por aí. Mas toda a eternidade, ou então nada existiria;
ele simplesmente estava querendo dizer porém, ele colocou a existência de Deus
que essa era a coisa mais básica que não dentro do campo das experiências e as-
podia ser negada. Isso lhe dava firmeza sim a tornou mais difícil de ser afirmada.
para começar a construir um sistema de Já não era uma ideia em si. Era algo que
pensamento confiável. Do “Penso, logo carecia de comprovação.
existo” Descartes pulou para o “Penso,
logo Deus existe”. Descartes dizia: “Eu A discussão entre Descartes e Locke le-
não teria a ideia de uma substância infi- vou outro importante filósofo daquele
nita, eu que sou um ser finito, se ela não período a trabalhar sobre esta questão: 13
René Descartes,
tivesse sido colocada em mim por alguma David Hume (1711-1776). Ele simples- Meditações, III, 22 (pp.
115-116).
substância que fosse verdadeiramente in- mente levou a abordagem empírica de
14
Ver David Hume,
finita”13. Logo, a existência de Deus era Locke às profundezas do ceticismo. Se a Investigação sobre o
necessária para explicar a existência da ideia de Deus precisava ser comprovada entendimento humano,
IV, 2 (pp. 140-141).
ideia da perfeição e a existência da pró- pela razão e pela experiência, uma vez 15
Grenz & Olson, A
pria pessoa. Nesse sentido, Descartes se que isso era impossível de fazer, então, teologia do século vinte,
p. 28.
colocou alinhado com os filósofos e teó- somente restava a dúvida. O verdadeiro
logos clássicos. Ao longo da história, qua- conhecimento, se existisse, estaria sim-
se todos os que tentaram negar a existên- plesmente além das capacidades huma-
cia de Deus precisaram lutar contra essa nas. Assim sendo, a ignorância podia ser
lógica cartesiana. convertida num tipo de mérito14 .

De acordo com o racionalismo cartesia- O ceticismo de Hume despertou de seu


no, o homem tinha ideias inatas a respeito sono dogmático aquele que seria con-
da divindade, e isso produziu reações na siderado por muitos o maior filósofo
Europa, e uma das maiores foi a do inglês dos tempos modernos, Emmanuel Kant
John Locke (1632-1704). Locke seguiu (1724-1804).
a linha racionalista como Descartes, mas
percebendo falhas e inconsistências no Kant se tornou o divisor de águas da filo-
pensamento cartesiano, duvidou da capa- sofia moderna. Ele entendeu corretamen-
cidade intuitiva do ser humano para con- te que o empirismo cético de Hume im-
seguir adquirir o conhecimento. Locke possibilitava o conhecimento verdadeiro,
dizia que o ser humano nasce como uma e ele não acreditava que a limitação do
“tábula rasa”, ou seja, sem nenhuma ideia conhecimento humano exigisse uma re-
inata, e tudo o que adquire é durante a jeição cética de todos os conceitos meta-
vida, pelas experiências. Locke entendia físicos (sobrenaturais)15 . Para evitar isso,

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fez distinção entre os mundos fenomenal Por causa disso, os seres humanos sempre
e numenal. Disse que somente podíamos conservam certa “semente da religião”
conhecer os fenômenos, ou seja, aquilo (semen religiones)17 , e não conseguem
que se apresenta aos sentidos, pois a esfera viver sem ela.
do númeno, que seria o sobrenatural, era
impossível de ser conhecida. Deus, para A negação do sobrenatural é uma nega-
Kant, ficava no campo numenal; logo, ção de um conceito íntimo. E é também a
não poderia realmente ser conhecido. negação de uma “voz” exterior. O salmis-
Embora Kant acreditasse na existência de ta afirmou: “Os céus proclamam a glória
Deus, sua filosofia tornou a existência de de Deus, e o firmamento anuncia as obras
Deus algo demasiado vago e inverificável. das suas mãos. Um dia discursa a outro
Ela ficou conhecida como Agnosticismo dia, e uma noite revela conhecimento a
Metafísico (negação da possibilidade do outra noite. Não há linguagem, nem há
conhecimento das coisas não físicas). palavras, e deles não se ouve nenhum
16
som; no entanto, por toda a terra se faz
J. Calvino, Institutas,
1.2.1. Assim, a “evolução” da filosofia redire- ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos
17
J. Calvino, Institutas,
cionou o seu alvo da metafísica (sobre- confins do mundo” (Sl 19.1-4). Essa so-
1.2.1. natural) para a natureza. As ideias nora voz da natureza ecoa no ser humano,
18
J. I. Packer, Nunca sobrenaturais deviam ser deixadas de pois seus sentimentos mais íntimos ane-
perca a esperança, p. 105.
lado, seja porque não existia o lam pela existência de Deus. O ateu, seja
sobrenatural, ou porque era impossível ele racionalista, cético ou agnóstico passa
analisá-lo. a vida inteira lutando contra isso, tentan-
do silenciar os apelos íntimos do seu ser e
fechando os olhos e os ouvidos ao que a
EVIDÊNCIAS CLARAS, PORÉM NEGADAS natureza proclama.

O ceticismo, ou o agnosticismo se tornou O ceticismo, de certo modo, é uma de-


a filosofia de vida de muitas pessoas, es- cisão existencial. Um cético é sempre al-
pecialmente no período moderno. Mas guém que se recusa a crer nas evidências.
o cético não tem uma vida fácil. Há um Packer está certo, “o ceticismo nunca é
imenso testemunho diante dos olhos hu- uma atitude a ser admirada. Ele sempre
manos que tem de ser ignorado para que tem algo de deliberado”18 . Na maioria das
uma pessoa rejeite a ideia da existência de vezes, o cético está magoado com alguma
Deus e do mundo sobrenatural. situação da vida e isso o leva a negar o as-
pecto sobrenatural, e outras ele está tão
Há no ser humano uma espécie de “sen- preconceituosamente convicto de que
so” da existência de Deus. Calvino (1509- não é verdade aquilo em que ele não quer
1564) chamou isso de sensus divinitatis. acreditar, que nada consegue fazê-lo ver o
Ele disse: “Nós afirmamos, sem nenhu- contrário.
ma discussão, que os homens têm certo
sentimento da divindade em si mes O ceticismo e o agnosticismo funcionam
mos; e isso, como por um instinto bem na teoria, mas são terríveis na prá-
natural”16 .

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tica. Eles destroem o sentido da existên- e ao sobrenatural, mas muito otimistas
cia. Não sobram ideais no ceticismo e no em relação ao que o ser humano podia e
agnosticismo. Por isso eles preparam o devia construir por si mesmo. Isso se de-
caminho para o existencialismo do mun- monstrou um otimismo ingênuo.
do pós-moderno. E quando as pessoas
se cansam do existencialismo, só sobra o Bertrand Russel (1872-1970) é um caso
niilismo. O niilismo é o filho natural do bem típico do pensamento que foi her-
existencialismo. No existencialismo o deiro do ceticismo e do agnosticismo. Seu
homem deixou de acreditar no sentido discurso “Porque não sou cristão”, profe-
da vida, então passou a aproveitar a vida rido em 6 de março de 1927, tornou-se
desesperadamente, como sendo tudo o um dos marcos do humanismo secular, e
que lhe resta. O niilismo entendeu que se um claro exemplo do ingênuo otimismo
não há sentido na vida, não há o que se dos modernistas. Russel pretendeu ofere-
aproveitar. Por isso só restou o protesto e cer explicações convincentes sobre a sua
depois de algum tempo o nada (nihil em descrença no Cristianismo e sobre sua 19
Ver Leandro Lima,
latim). expectativa de que a ciência traria o pro- Razão da esperança,
p. 562.
gresso e a paz de que a humanidade tanto
A não-existência de uma vida além da precisava.
morte, e a não-existência de um Deus jus-
to capaz de julgar todos os atos das pes- O grande esforço de Russel foi o de des-
soas tornaria a vida atual algo totalmente fazer os argumentos (naturais) filosóficos
desprezível da perspectiva da moral e da a respeito da existência de Deus, mas o
justiça. Seriam bem-aventurados aqueles que ele fez, na verdade, foi genericamente
que vivem sem nenhuma lei, exceto a de atacar os argumentos da teologia natural,
satisfazer suas paixões e apetites, pois ja- alguns já bem antiquados naquele tempo.
mais haveria algum julgamento pelo que
fizeram. Tolos seriam os que desejam vi- A força dos argumentos de Russel não
ver uma vida sóbria e equilibrada, pois ja- está nos questionamentos bíblicos ou te-
mais receberiam algo por esse esforço. A ológicos, os quais são bem superficiais,
ordem presente de todas as coisas se tor- mas na consciência dos males produzi-
naria irrelevante, animalesca e desprovida dos pela igreja ao longo da História. Ele
de todo sentido. A educação, a religião e acusou a religião de retardar o progres-
a própria sociedade como um todo, pas- so da sociedade pelo uso do medo e de
sariam a ser elementos da conveniência, fazer muito mal ao ser humano. Esse é o
desprovidos de validade intrínseca, apri- verdadeiro motivo pelo qual ele rejeitou
sionadores, condicionadores e ilusórios.19 o Cristianismo. Mas, se ele fosse hones-
to, teria que rejeitar a ciência por razões
CONFIANÇA INGÊNUA parecidas, pois querendo “libertar” o ho-
mem ela também causou muitos males à
O fim do século 19 e o início do século 20 humanidade.
viram surgir uma geração de pensadores
humanistas descrentes em relação a Deus Embora tenha sido totalmente cético em

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relação à religião, Russel se demonstrou De modo geral, o que Russel fez foi atirar
infantilmente crédulo em relação à ciên- em alvos fáceis e irreais21, e ainda assim
cia, pois acreditava que o homem conse- conseguiu errar feio o alvo. Ele não ofere-
guiria, mediante o progresso tecnológi- ceu qualquer resposta à altura da religião
co e filosófico, construir uma sociedade bíblica e fugiu completamente ao con-
decente sem precisar de “ajuda do alto”. fronto com esta, mas demonstrou uma fé
Nesse sentido, suas palavras finais são inabalável, ainda que ingênua, na ciência
muito esclarecedoras: e no progresso humano.

A ciência pode nos ensinar, e penso que CONCLUSÃO


20
O texto está disponível também os nossos corações podem fazê-
em diversos sites na
Internet. Em inglês:
-lo, a não mais procurar apoios imaginá- Deus existe! “Não há outra resposta pos-
http://www.positivea-
theism.org/hist/russell0.
rios, a não mais inventar aliados no céu, sível”22 . Podemos ter a certeza de que
htm. Foi ublicado pela mas a contar antes com os nossos pró- nossa fé bíblica é absolutamente racional.
Brasília Editora, 1977.
21
prios esforços aqui embaixo para tornar A vida tem sentido, porque Deus existe.
Colin Brown, Filosofia
e fé cristã, p. 146. este mundo um lugar adequado para vi- Por esta razão, “Deus, e somente Deus é
22
Francis Schaeffer. O ver (...) o maior bem do homem”23 . A existência
Deus Que Se Revela,
p 52.
dele é a garantia da racionalidade de nos-
Toda a concepção de Deus é uma con- sa própria existência. É a certeza de que
23
Hermann Bavinck. cepção derivada dos antigos despotismos
Teologia Sistemática,
orientais. É uma concepção inteiramente a vida tem sentido. Quando o cético ou
p. 17.
indigna de homens livres. (...) Um mundo o ateu para de lutar contra essa verdade,
bom necessita de conhecimento, bondade encontra descanso para sua alma cansada.
e coragem; (...) Necessita de esperança
para o futuro, e não passar o tempo todo Há um Deus bom e sábio o suficiente
voltado para trás, para um passado morto,
para planejar todo esse universo e estabe-
que, assim o confiamos, será ultrapassa-
do em muito pelo futuro que a nossa in- lecer todas as leis que governam a criação.
teligência pode criar.20 Nós existimos porque Deus existe. Não é
irracional crer na existência dEle. Não é
Ao que parece, ele não conseguia (ou irracional crer nas Escrituras. É maravi-
não queria) ver que o progresso humano lhoso contemplar as obras da mão dEle e
pode trazer males e desgraças. No enten- saber, lá no fundo do nosso ser, que Ele é
dimento de Russel, o ser humano se basta o grande autor de tudo. Como ao final de
e pode fazer coisas muito boas por si mes- uma apresentação podemos nos levantar
mo e pelo mundo. Mas será que o mun- de pé, ante o imenso palco da natureza e
do tem realmente melhorado desde que aplaudir o criador pela maravilhosa obra
o homem procurou se livrar da ideia da de arte que ele realizou. E acima de tudo,
existência de Deus? O progresso cientí- podemos nos sentir como parte desta
fico melhorou o ser humano? As guerras ordem e propósito. Não somos fruto do
diminuíram? A fome e as doenças retro- acaso. Somos obra das mãos do Ser Infi-
cederam? O egoísmo e o narcisismo re- nito e Inteligente que nos criou e nos in-
cuaram? cluiu em seu plano eterno e perfeito.

 CRISTÃOS NO SÉCULO 21

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Anotações

A DIFÍCIL VIDA DE UM ATEU 

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