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Daniel Coelho de Oliveira

Maria da Luz Alves Ferreira


Sheyla Borges Martins

Sociologia iv

1ª EDIÇÃO ATUALIZADA

Montes Claros/MG - 2015


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Carlos Caixeta de Queiroz
Autores
Daniel Coelho de Oliveira
Mestre em Ciências Sociais.
Professor de Sociologia do Departamento de Ciências Sociais.
Professor conteudista da UAB/Unimontes.

Maria da Luz Alves Ferreira


Doutora em Sociologia e Política.
Professora de Sociologia do Departamento de Ciências Sociais.
Professora conteudista e formadora da UAB/Unimontes.

Sheyla Borges Martins


Mestre em Desenvolvimento Social.
Professora de Sociologia e Metodologia do Departamento de Ciências Sociais.
Professora conteudista e formadora da UAB/Unimontes.
Sumário
Apresentação . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 9

Unidade 1 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
Da escola de Frankfurt à teoria de Jurgen Habermas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

1.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

1.2 Escola de Frankfurt: contexto histórico e pressupostos teóricos . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11

1.3 Indústria cultural . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 14

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20

Unidade 2 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23
Distinção entre as esferas do indivíduo e da sociedade . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

2.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 23

2.2 A operacionalização do conceito de classe social pelo neomarxismo . . . . . . . . . . . . . 23

2.3 Teoria da escolha racional . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .31

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 34

Unidade 3 . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37
As contribuições de Elias, Giddens e Bauman, para a compreensão das sociedades
contemporâneas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37

3.1 Introdução . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37

3.2 Sociologia de Norbert Elias . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 37

3.3 Anthony Giddens e Zigmunt Bauman . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 41

3.4 Zygmunt Bauman: entre a fluidez e a solidez . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 45

Referências . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49

Resumo . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 51

Referências básicas, complementares e suplementares . . . . . 55

Atividades de Aprendizagem - AA . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 59
Ciências Sociais - Sociologia IV

Apresentação
Caro(a) acadêmico(a), que bom estar com vocês de novo! Se voltarem um pouquinho ao
tempo, lá no início do primeiro período, na sociologia I, vão se lembrar de que nós falamos da
importância da sociologia na formação do professor e também de como essa disciplina – apesar
de apaixonante – é complexa e requer muita persistência para apreender os seus conteúdos. Pois
bem! Já se passaram três períodos e agora estamos aqui para conhecer a sociologia IV.
Antes de adentrarmos no mundo da sociologia IV, é preciso compreender que apreender
sociologia é um processo, ou seja, ninguém dorme hoje e acorda amanhã conhecendo a socio-
logia, vamos puxar pela memória. Na disciplina de Sociologia I (primeiro período), estudamos o
contexto do surgimento da sociologia, as condições históricas e intelectuais que possibilitaram o
surgimento da ciência da sociedade bem como a especificidade do objeto sociológico e a pecu-
liaridade do objeto. Ainda na sociologia I começamos a estudar os autores clássicos da sociolo-
gia. Quem de vocês não se lembra de Karl Marx, Emile Durkheim e Max Weber?
Na Sociologia II continuamos os estudos das matrizes clássicas da sociologia. De forma até
exaustiva estudamos a interpretação que Marx, Durkheim e Weber deram ao capitalismo e tam-
bém como os referidos autores pensavam a mudança social na sociedade moderna. Vocês viram
que, embora, os autores tivessem como objetivo analisar o capitalismo, cada um deles fez esta
análise a partir da sua ótica. Assim: Karl Marx analisava a sociedade moderna de uma perspecti-
va materialista, lembra-se do materialismo histórico? Emile Durkheim analisava a partir da pers-
pectiva da integração social, lembra-se da solidariedade mecânica e da solidariedade orgânica? E
por último, Max Weber analisava da perspectiva individual, lembra-se do conceito de ação social?
Uma questão muito importante destacada nas sociologias I e II é que os autores estudados
seriam a base para a compreensão da teoria sociológica contemporânea. Vocês se lembram de
que na sociologia III, no semestre passado, comprovamos isso porque a nossa primeira unidade:
o estrutural funcionalismo de Parsons e Merton. Vimos que Parsons, por exemplo, tentou fazer
com a sua teoria geral da ação, uma interface entre a teoria da sociedade de Durkheim, onde a
estrutura é preponderante, e a teoria da ação social em Weber, onde a agência humana é pre-
ponderante. As outras escolas estudadas, o interacionismo simbólico, a etnometodologia e a teo-
ria da troca social (na perspectiva individualista), tiveram sua inspiração na microssociologia, que
é herança da sociologia weberiana e que tinha como ponto de partida o indivíduo.
Agora, na Sociologia IV, vamos estudar três unidades que contemplam autores muito im-
portantes para a nossa formação como futuros professores de sociologia. Vamos começar com a
unidade intitulada “Da Escola de Frankfurt à teoria dual de Jurgen Habermas”, em que estudare-
mos o histórico e os principais temas de pesquisa de um grupo de pesquisadores do Instituto de
Pesquisa Social de Frankfurt, que tiveram como objetivo contribuir para a teoria de karl Marx, es-
pecificamente sobre os motivos da não ocorrência da inevitabilidade histórica, ou seja, a revolu-
ção proletária e a instauração de uma sociedade comunista. Como expoente do terceiro momen-
to da escola de Frankfurt, estudaremos Jurgen Habermas. Veremos como o autor, partindo do
diagnóstico weberiano da modernidade, ou seja, a perda da liberdade e a perda do sentido, irá
construir sua teoria dual da sociedade a partir do sistema e mundo da vida. Na segunda unida-
de, “Distinção da esfera do indivíduo e da sociedade”, estudaremos como autores neomarxistas
contemporâneos – tentando contribuir para a teoria de Karl Marx – irão tentar operacionalizar
o conceito de classe social do referido autor. Autores como Jon Elster, Adam Przewoski e Erick
Olin Wrigth tentaram operacionalizar o conceito de classe social a partir do desenvolvimento do
capitalismo no século XX. O argumento comum dos três autores é que o desenvolvimento do
capitalismo no século XX não culminou na polarização de duas classes sociais – a burguesia e
o proletariado – como definido por Karl Marx. Elster e Przewoski consideram o surgimento das
classes médias como um elemento que impediu essa polarização entre burgueses e proletários.
Também estudaremos, na segunda unidade, a teoria da escolha racional que é uma corrente
dentro da sociologia que sustenta o argumento de que os indivíduos agem o tempo todo, ten-
tando maximizar os lucros ou minimizar as perdas. Finalmente, na terceira unidade, estudaremos
as contribuições de três importantes sociólogos contemporâneos: Norbert Elias, Anthony Gid-
dens e Zigmunt Bauman para a teoria sociológica atual. Nesses autores, estudaremos a questão
da modernidade, pós-modernidade, tempo e Espaço, globalização, entre outros.
Esperamos que vocês aproveitem bastante o quarto período de Ciências Sociais e apren-
dam a Sociologia IV.

Bons estudos!
Os autores. 9
Ciências Sociais - Sociologia IV

Unidade 1
Da escola de Frankfurt à teoria de
Jurgen Habermas
Sheyla Borges Martins

1.1 Introdução
Nesta primeira unidade, apresentaremos a abordagem de uma das maiores expressões da
sociologia contemporânea, denominada Escola de Frankfurt. Mais especificamente, estudaremos
as principais influências das correntes teóricas que compõem a Escola para o desenvolvimento
do pensamento social, a partir de meados do século XX.

1.2 Escola de Frankfurt: contexto


histórico e pressupostos teóricos
A Escola de Frankfurt diz respeito a um grupo de pensadores alemães associados ao Insti-
tuto de Pesquisa Social da Universidade de Frankfurt, que tinham como objetivo principal de-
senvolver uma Teoria Crítica da sociedade, extraindo respostas de outras escolas de pensamen-
to e utilizando os conhecimentos da psicanálise, da filosofia e outras disciplinas. Dessa forma, as
principais figuras da escola buscaram discutir e sintetizar as obras de pensadores variados, como
Kant, Hegel, Marx, Freud, Weber. Figura 1: Instituto de
Os temas tratados foram os mais variados: cultura contemporânea, análises do facismo e do Pesquisa Social – Escola
capitalismo monopolista de Estado, das indústrias de cultura, da tecnologia e do consumo. En- de Frankfurt
tre os principais componentes da Escola, vamos estudar as ideias de três deles: Max Horkheimer, Fonte: Disponível em
<www.publicadasletras.
que foi diretor do grupo; Theodor Adorno, considerado um dos principais filósofos e críticos cul- zip.net/images/frankfurt>.
turais do século; e Jurgen Habermas, que é tido como o mais influente representante contempo- Acesso em 14 mai. 2010.
râneo da Escola de Frankfurt. 
De acordo com sua orientação marxista,
todos eles estavam preocupados com as condi-
ções que permitiram a mudança social e o esta-
belecimento de instituições racionais, a supera-
ção dos limites do positivismo, do determinismo
do materialismo histórico, retornando à filosofia
crítica de Kant e seus sucessores no idealismo
alemão, principalmente a filosofia de Hegel,
com sua ênfase na dialética e na contradição
como propriedades inerentes da realidade.
O contexto histórico que marca o nasci-
mento da escola de Frankfurt é a transição do
capitalismo de pequena escala empresarial
para o capitalismo monopolista e do imperia-
lismo, o crescimento do movimento operário
socialista, a Revolução Russa, a ascensão do co-
munismo e o surgimento da cultura de massa.
Trata-se de um período tão extenso que pode

11
UAB/Unimontes - 4º Período

ser considerado como a própria história do século XX: alguns dos acontecimentos mais impor-
tantes desse período foram vivenciados, estudados, tematizados e debatidos pela Escola de
Frankfurt (MUSSE, 1999).
Os teóricos de Frankfurt foram os primeiros a analisar as novas configurações estatais e
econômicas nas formações sociais do Estado capitalista. Eles estavam entre os primeiros a ver
a importância da comunicação de massa e cultura na constituição das sociedades capitalistas
avançadas. Eles viram a ciência e a tecnologia como forças de relações de produção e como o
fornecimento de ideologias para legitimar sociedades capitalistas contemporâneas. Desde o iní-
cio de sua investigação social, houve a intenção prática do conhecimento e da descoberta da
vida social em toda sua totalidade, a partir da rede de interações entre a base econômica, os fa-
tores políticos e legais até a vida intelectual da sociedade.
Para compreendermos a dimensão das teorias Frankfurtianas, algumas questões são colo-
cadas: como se define o progresso? Quais são os seus efeitos positivos e negativos? Esse foi o
empreendimento desses pensadores, que, na verdade, propuseram uma reformulação nos fun-
damentos das ciências sociais? Os seus principais interesses e princípios podem ser resumidos da
seguinte forma:
1. Desenvolvimento de uma crítica ao materialismo histórico (economicismo) no marxismo or-
todoxo. O afastamento do foco sobre a economia política deu-se pela necessidade de análi-
se dos fenômenos culturais para além do modelo de estrutura material.
2. Elaboração de uma crítica do capitalismo avançado (atualização da perspectiva Marxista).
3. Ataque à racionalidade instrumental como o princípio básico da sociedade capitalista.
4. Ataque à direção tomada pelo Iluminismo e ao surgimento de uma indústria do entreteni-
mento.

1.2.1 O desenvolvimento do pensamento moderno

Para uma melhor contextualização da discussão sobre a Escola de Frankfurt, retomaremos


algumas questões relativas ao desenvolvimento do pensamento moderno, desde os principais
preceitos do Iluminismo, considerado o marco inicial do desenvolvimento científico.
A partir das disciplinas estudadas anteriormente, vocês viram que, na pré-história, os ho-
mens não conseguiam explicar os fenômenos que aconteciam na natureza. Isso ilustra suas
reações: viviam sempre com medo, temiam o desconhecido. Num estágio posterior, os homens
passaram do medo para as primeiras explicações dos fenômenos, recorrendo ao pensamento
mágico, das superstições e crenças. Com o passar do tempo, essas explicações míticas tornaram-
se insuficientes para explicar os fenômenos e os homens lançaram-se à procura de respostas por
caminhos em que a comprovação fosse possível. Estamos diante do nascimento da ciência metó-
dica, marcada pela constante aproximação com a lógica, estimulada pelo iluminismo.
O iluminismo – esclarecimento – pode ser entendido, em sentido amplo, como o avanço
do pensamento, que tinha como principal objetivo libertar os seres humanos do medo e colo-
cá-los na condição de “senhores do mundo”. Tratava-se de um programa que pretendia acabar
com os mitos e substituir a crença pelo conhecimento, na medida em que este poderia fornecer
respostas para todos os anseios dos homens. A humanidade acreditava no progresso constan-
te desse conhecimento até atingir a explicação total da realidade, o que certamente permitiria
a manipulação técnica e ilimitada da ação humana. Podemos dizer que a ciência, deste ponto
de vista, passa a ocupar o lugar que antes era ocupado pelos mitos, sendo considerada como
um conjunto de verdades absolutas e inquestionáveis. A busca pelo esclarecimento pode ser
representada pela destruição dos mitos, pela substituição da imaginação pelo saber, pelo de-
senvolvimento da técnica como essência do saber e pelo domínio do saber e dos homens sobre
a natureza.
O modelo de representação citado é o retrato da sociedade capitalista ocidental, marcada
pela administração técnica da vida e das pessoas. O iluminismo, enquanto categoria filosófica,
deste ponto de vista, reafirmou o controle da razão sobre os indivíduos, através da suposição de
que estes estariam livres das trevas da ignorância e da superstição. Porém, como defendem os
teóricos de Frankfurt, o projeto “emancipador” iluminista acabou se transformando em uma nova
prisão, capaz de controlar todas as dimensões da vida social.

12
Ciências Sociais - Sociologia IV

1.2.2 A instrumentalização da razão

Vamos partir do pressuposto de que o processo de racionalização do mundo, pretendido DICA


como fonte de esclarecimento, progresso e emancipação dos homens e da sociedade, provocou
Leia o livro “A Dialética
um efeito inesperado: a razão assumiu uma forma instrumental, responsável pela manutenção do Esclarecimento”,
do dogmatismo e autoritarismo em todas as áreas de atividade humana na civilização moder- teoria produzida du-
na. A razão instrumental surge no momento em que os sujeitos do conhecimento decidem que rante a Segunda Guerra
conhecer é dominar e controlar a Natureza e os seres humanos. Assim, a ciência abre mão de Mundial, quando os
autores (Max Horkhei-
sua condição de acesso a conhecimentos verdadeiros para se transformar em via de exploração,
mer e Theodor Ador-
poder e dominação. no), ambos judeus de
A reflexão que se segue a esse panorama é direcionada para a compreensão das vantagens origem alemã, estavam
e dos limites de uma sociedade em que o cálculo racional generalizou-se, e os teóricos da Escola emigrados nos Estados
de Frankfurt tinham o propósito de descobrir o que deu errado com o projeto de emancipação Unidos. Atual ainda
hoje, o livro propõe-se a
do homem, o projeto do iluminismo. O fracasso social, econômico, político e cultural a que se
indagar o esclarecimen-
chegara, através dos ditames da razão, produziu efeitos tão visíveis que se acharam impelidos a to que temos diante de
examinar a razão através das suas figuras materializadas no decurso do processo histórico (MA- nós: como é possível
TOS, 1993). que este esclarecimen-
O que deu errado, então, com o projeto de emancipação do homem, já que o projeto do ilu- to, que supostamente
nos levaria para uma
minismo, ao contrário do imaginado, culminou numa sociedade marcada pelo controle de todas sociedade mais justa
as dimensões da realidade, em que os homens são vistos como manipuladores de instrumentos, e livre, acabou produ-
ao mesmo tempo em que as pessoas são transformadas em “máquinas”? (ADORNO e HORKHEI- zindo o seu reverso, ou
MER, 2006). seja, uma sociedade
Em A Dialética do Esclarecimento (2006), Horkheimer e Adorno mostraram que o Iluminis- destrutiva e injusta, por
mais esclarecida que
mo tinha “tendências autodestrutivas”, e era necessário oferecer uma saída positiva para evitar a seja? Que esclarecimen-
reversão do Iluminismo e reconstruir o conteúdo racional da modernidade. A possibilidade de to é esse?
renovação estava configurada na formulação da “Teoria Crítica”.
A Dialética do Esclarecimento procura descobrir por que a humanidade, em vez de entrar
em uma condição de liberdade humana, na verdade, está afundando em uma nova espécie de
barbárie (ADORNO e HORKHEIMER, 2006). No plano teórico, desde que a filosofia tenha implica-
Figura 2: Adorno e
ções no sistema de dominação, ela também deve distanciar-se das noções tradicionais e tornar- Horkheimer.
se crítica, para desenvolver seus próprios conceitos e métodos de investigação, de pensamento e Fonte: Disponível em
expressão. <www.republicadasletras.
A razão instrumental invadiu um número crescente de espaços da nossa vida, através da zip.net/images/pensado-
res>. Acesso em 14 mai.
ciência e da filosofia, de modo que a razão por si só tornou-se mito. Adorno e Horkheimer argu- 2010.
mentam ainda que o desenvolvimento do capitalismo levou à exploração sistemática de novas

formas de conhecimento. A dominação da natureza tornou-se um inte-
resse do sistema econômico inteiro.
Em sua crítica ao positivismo, os teóricos defendem que o Ilumi-
nismo encontrou a sua plenitude na fundação da ciência moderna, que
veio a assumir uma função técnica, tornando-se um instrumento de do-
minação do ambiente, ao invés de uma ferramenta crítica. Na verdade,
a dominação da natureza é o cerne da filosofia do Iluminismo. A razão
libertadora foi se transformado em uma ortodoxia regressiva: o Iluminis-
mo se transformou em totalitarismo. Vamos entender por quê.

1.2.3 A teoria crítica

A Teoria Crítica começou a ser desenvolvida a partir da publicação


de um ensaio publicado por Max Horkheimer, em 1937, intitulado “Teo-
ria Tradicional e Teoria Crítica”. Depois disso, foi empregada e criticada
por diversos cientistas sociais por conta de sua própria construção como
teoria, que é autocrítica por definição.
A Teoria Crítica pode ser definida como distinta da “teoria” tradi-
cional de acordo com um princípio prático: a teoria é fundamental na
medida em que visa à emancipação humana, para libertar os seres hu-
manos das circunstâncias que os escravizam (Horkheimer, 1983). Ana-
liticamente, a Teoria Crítica fornece as bases para a investigação social

13
UAB/Unimontes - 4º Período

que visa identificar e superar todas as circunstâncias que limitam a liberdade humana. Essa tarefa
normativa só pode ser realizada através de uma interação interdisciplinar entre filosofia e ciência
social, através da pesquisa empírica. De acordo com Horkheimer, uma Teoria Crítica é adequa-
da somente se preencher três critérios: deve ser explicativa, prática e normativa, tudo ao mesmo
tempo. Ou seja, deve explicar o que está errado com a realidade social atual, identificar os atores
para mudá-la e fornecer normas claras, tanto para a crítica quanto para a transformação social.
Qualquer teoria verdadeiramente crítica da sociedade tem como objeto os seres humanos
como produtores de sua própria forma de vida histórica, o que mostra que a Teoria Crítica não
tem nada de uma teoria passiva, ao contrário, busca sempre articular teoria e prática.
No entanto, não se pode afirmar que a Teoria Crítica seja restrita à expressão da situação
histórica concreta, ao contrário, guarda em si um componente de estímulo e transformação. Sua
principal contribuição era abreviar o desenvolvimento para que os indivíduos fossem condu-
zidos a sociedade livre e sem exploração. O que está em questão é a tentativa de redefinição
do conceito de razão, tanto na prática como na teoria. Esta é a maneira pela qual os teóricos de
Frankfurt acreditam ser possível transpor os limites da razão instrumental. Os principais pontos
dessa perspectiva se apoiam na crítica que é feita aos seguintes elementos:
1. Filosofia Tradicional: crítica às formulações metafísicas e religiosas da realidade, na medi-
da em que defendem a utilização da religião e da metafísica como ideologias da sociedade
burguesa.
2. Razão: crítica à perspectiva da instrumentalização da razão, direcionada à obtenção de be-
nefícios em detrimento do saber. Ressalta-se aqui a dimensão "prática e utilitária" da razão,
o que fomentou uma cultura mecanizada e de consumo.
3. Sociedade Burguesa: a crítica é direcionada às possibilidades de mudança das estruturas
da moderna sociedade capitalista, a partir da utilização de pressupostos marxistas, ofere-
cendo uma alternativa à revolução.
4. Marxismo: O foco da crítica é o dogmatismo marxista. Ainda que, utilizando os preceitos
dessa linha de pensamento, os teóricos de Frankfurt abrem mão das ideias de "ditadura do
proletariado", da luta de classes como motor da história e, principalmente, da determinação
da base material como sendo determinante em qualquer sociedade.
A Teoria Crítica é crítica, portanto, porque rejeita a civilização moderna, o cientificismo po-
sitivista, o "ideal" cientificista aplicado ao domínio humano. Dessa forma, é definida como uma
proposta teórica que não é dogmática, mas capaz de evidenciar o potencial crítico nas ciências
humanas. Sua principal contribuição está na possibilidade de apreensão da realidade como ela
de fato é, através da análise das estruturas sociais vigentes e, principalmente, das situações histó-
ricas concretas.
A Teoria Crítica, que em muitos pontos é tida como a própria Escola de Frankfurt, continua
a ser de grande interesse para a conjuntura atual e fornece recursos essenciais para a renova-
ção da Teoria Crítica social e política, precisamente porque, como na época de sua formulação,
a nossa época está passando por transformações enormes, algumas das quais são promissoras
e algumas ameaçadoras. Voltar aos clássicos na Teoria Crítica, portanto, é uma possibilidade de
enriquecimento teórico e metodológico na construção do conhecimento.

1.3 Indústria cultural


Vamos agora conhecer a discussão sobre a massifi-
Figura 3: Theodor  cação da cultura, outra dimensão da Escola de Frankfurt,
Adorno amplamente difundida no meio acadêmico. O termo In-
Fonte: Disponível em dústria Cultural foi cunhado em Frankfurt, na década de
<www.agente.files.word- 1930, para indicar a industrialização da cultura produzida
press.com.br/adorno_te-
odor>. Acesso em 18 mai. em massa e os imperativos comerciais que são construí-
2010. dos, através de artefatos de produção industrial. Adorno
e Horkheimer alegam que a indústria cultural existe para
reforçar o capitalismo, em que foi verificado um conjunto
de fenômenos que colocava em xeque conceitos como
entretenimento e cultura de massa (ADORNO e HOR-
KHEIMER, 2006).

14
Ciências Sociais - Sociologia IV

No ensaio A indústria cultural: o esclarecimento como mistificação das massas, os autores


discutem as especificidades e as implicações do conceito de cultura e sociedade, demonstrando
que os produtos da indústria cultural apresentam as mesmas características de outros objetos
produzidos em massa: mercantilização, padronização e massificação. Desse modo, a indústria
cultural tem a função específica de prestação de legitimação ideológica das atuais sociedades
capitalistas e da integração dos indivíduos em seu modo de vida.

1.3.1 Cultura de massa e indústria cultural

Os primeiros esboços do ensaio Indús-


tria Cultural de Theodor Adorno continham o
termo “cultura de massa”, que acabou sendo
substituído por indústria cultural, para excluir ◄ Figura 4: Cultura
a interpretação de que se trata de algo como Industrializada
uma cultura que surge das próprias massas. Ao Fonte: Disponível em
<www.pedrobeck.files.
invés disso, Horkheimer e Adorno procuram wordpress.com/capital>.
descrever um tipo de cultura mercantilizada Acesso em 14 mai. 2010.
e industrializada, gerida de cima para baixo, e
essencialmente produzida a partir da lógica do
lucro (ADORNO e HORKHEIMER, 2006).
A definição da estrutura básica para o es-
tudo da cultura no capitalismo faz parte de um
projeto teórico maior que iniciou uma análise
da indústria cultural através de filmes, músicas,
jornais, revistas e livros, que, mesmo não sendo
controlada diretamente pelo Estado, sua na-
tureza da estrutura de propriedade comercial
desmobilizou a classe trabalhadora através do
desvio. As análises evidenciam que, ao invés de terem desenvolvido a consciência para a supera-
ção do sistema capitalista, a classe operária tinha se tornado mais incorporada do que nunca, e a
DICA
indústria cultural foi a principal responsável.
A Escola de Frankfurt compartilhou algumas das premissas básicas da teoria da sociedade Para entender melhor
de massas, estabelecidas pelos sociólogos europeus em meados do século XIX. Esses teóricos es- os temas tratados,
sugerimos a leitura do
tavam tentando compreender a natureza da industrialização emergente e os processos de urba- livro “1984”, de George
nização, incluindo seus efeitos sobre a cultura. Com a industrialização urbana, as pessoas passam Orwell. A obra mostra
a viver de acordo com o seu trabalho nas fábricas. Essa nova forma de ganhar a vida envolve como uma sociedade
também o surgimento de novas formas de vida cultural. Assim como as famílias começaram a oligárquica coletivista
substituir os produtos caseiros pelos bens manufaturados produzidos em massa, a indústria cul- é capaz de reprimir
qualquer um que se
tural começou a substituição de uma cultura tradicional da sociedade rural que girava em torno opunha a ela. Confira e
da família e da comunidade pela cultura fabricada e industrializada. compreenda melhor a
O processo de industrialização resulta em certa lógica que rege a produção e a distribuição unidade!
de mercadorias. Eles são produzidos, em primeiro lugar, para o seu valor de troca (isto é, os lucros
que geram quando são vendidas para os consumidores). De bens de consumo em mercados, a
produção em massa resultou na produção de produtos cada vez mais homogêneos, que são ar-
tificialmente diferenciadas através da publicidade, dando a ilusão da escolha. O mesmo ocorreu
com a industrialização da cultura, mas as ramificações da homogeneização parecem mais signi-
ficativas devido ao seu papel fundamental em ajudar a moldar a forma como a realidade é per-
cebida. As indústrias culturais não são meramente ideológicas porque elas são controladas pelas
autoridades econômicas e políticas, mas, principalmente, porque sua produção é regida pela ló-
gica do capital.

1.3.2 As características de mercantilização da cultura

Podemos concluir que a indústria cultural é a consequência lógica da produção industrial


capitalista e sua característica mais essencial é a repetição. Como uma maneira de restrição do
potencial crítico e de dominação das consciências dos indivíduos, o consumo de produtos da in-

15
UAB/Unimontes - 4º Período

dústria cultural, ao contrário de que


se possa imaginar, não é uma escolha
Figura 5: 
Mercantilização da
livre do consumidor, mas, em grande
cultura medida, determinado antecipada-
Fonte: Disponível em mente na fase de fabricação dos pro-
<www.republicadasle- dutos.
tras.zip.net/images/cons- Na sociedade capitalista as pes-
ciência.br>. Acesso em 17
mai. 2010. soas somente são toleradas a partir de
sua completa identificação com a ge-
neralidade, o que impede o desenvol-
vimento de sua autonomia e da inde-
pendência para julgar e decidir por si
próprio. Os apelos da Indústria Cultu-
ral desenvolvem e reforçam o ajusta-
mento e a obediência a partir de um
estado de dependência. As condições
que possibilitaram o fortalecimento
desse fenômeno estão situadas em
dois campos:
1. O desenvolvimento técnico, com a propagação em grande escala de produtos.
2. A concentração administrativa e econômica, que unifica a produção e a difusão, o que lhes
confere uma condição de sistema.
O resultado desse processo é o desenvolvimento de formas de controle social que restrin-
gem as possibilidades de superação do modo de produção vigente, o capitalismo, e faz com que
as pessoas se transformem em objeto e percam sua autonomia.
A efetivação desse controle se dá a partir da sua extensão sobre toda a experiência dos in-
divíduos, que ficam sujeitos aos princípios do sistema social, além do seu processo de trabalho,
também em seu tempo livre, de lazer, constituindo um ciclo que se autorreforça.
O resultado desse ciclo é a incapacidade das pessoas de identificar-se com a realidade e re-
fletir criticamente sobre o mundo. A partir da anulação das diferenças entre a realidade mostra-
da pela indústria cultural e os mecanismos empregados nesse processo, as pessoas são privadas
da tomada de consciência, ficando
Figura 6: Imobilidade 
imóveis em relação aos mecanismos
diante da dominação utilizados para a sua dominação. O
excessiva consumidor não tem soberania. A in-
Fonte: Disponível em dústria cultural atua para garantir sua
<www.guiatpm.files. própria reprodução e as formas cultu-
wordpress.com/conscien-
cia_01>. Acesso em 14 mai. rais que propaga devem ser compatí-
2010. veis com essa finalidade.
O significado para os nossos
tempos do pensamento de Adorno
sobre a indústria cultural é cada vez
mais aparente, justamente pelo cres-
Dica cimento do poder de manipulação
da indústria cultural. Por isso, o en-
Aprofunde os estudos
sobre a Indústria Cultu- saio “A indústria cultural: o esclareci-
ral lendo o artigo “A te- mento como mistificação das massas”
levisão como consolida- permanece até hoje como um texto
ção da Indústria Cultural decisivo para a compreensão dos fe-
no cenário brasileiro” de nômenos da cultura de massa e da
Marco Antônio Bettine
de Almeida. Acesse indústria do entretenimento.
o link e veja o texto:
http://www.efdeportes.
com/efd121/aspectos-
teoricos-da-industria-
1.3.3 Habermas: uma alternativa para o problema da racionalidade
cultural-e-a-televisao-
no-brasil.htm.
O trabalho teórico-filosófico de Jurgen Habermas ocupa uma posição significativa no discur-
so social e político ocidental. Com base na Teoria Crítica (Adorno, Horkheimer, Benjamin e Mar-
cuse), Habermas também elabora uma crítica profunda dos métodos de dominação vigentes na
sociedade moderna. O seu pensamento é voltado, em particular, para a reflexão do processo de

16
Ciências Sociais - Sociologia IV

racionalização, através de uma análise sistemática e uma


crítica do presente e a identificação de suas patologias e ◄ Figura 7: Jurgen
as perspectivas de futuro. Habermas
Sua principal contribuição para a filosofia e para as Fonte: Disponível em
ciências sociais é o desenvolvimento de uma teoria da ra- <www.revistacult.uol.
com.br/habermas_jur-
cionalidade. Para Habermas, a capacidade de usar a racio- gen>. Acesso em 17 mai.
nalidade vai além do cálculo estratégico de como alcan- 2010.
çar um objetivo escolhido. Existe uma possibilidade para
o consenso, através da ação comunicativa, o que para ele
é a própria racionalidade.
A teoria da modernidade de Habermas é também o
produto da releitura de alguns pensadores da modernida-
de, entre os quais se destaca Max Weber e a sua teoria do
desencantamento do mundo.

1.3.4 A ampliação da tese do


desencantamento do mundo

Vamos retomar alguns aspectos do diagnóstico Weberiano da modernidade. Segundo We-


ber, o processo de racionalização da sociedade, representado principalmente pela burocratiza-
ção e secularização, desencadeou outro processo: o desencantamento do mundo. Esse diagnós-
tico de Weber apresenta-se sob uma perspectiva totalmente pessimista com relação ao futuro
da humanidade. Para ele, não há saída para os dilemas causados pela racionalização: estamos
presos numa “gaiola de ferro”, o que é um processo irreversível.
Habermas concorda em parte com Weber na medida em que defende que também acredita
que o mundo encontra-se racionalizado e desencantado. Porém, a sua resposta ao desespero da
“gaiola de ferro” é que não estamos diante de uma situação sem saída. Para Habermas, é possível
resistir à racionalização e à dominação através de alternativas para a vida coletiva e da adoção de
um discurso racional orientado para a compreensão, no qual participam todos os interessados.

1.3.5 A teoria da racionalidade: razão instrumental x razão


comunicativa

Na perspectiva Habermasiana, a racionalidade é tida como um processo histórico. Trata-se


do próprio desenvolvimento das sociedades modernas, secularizadas e desencantadas, que têm Dica
como características básicas a formação de uma economia capitalizada, de desenvolvimento das Para pensarmos o
forças produtivas e o consequente aumento de produtividade, a formação dos Estados-nação, a conceito de ação co-
expansão dos direitos e da participação política, e, sobretudo, da urbanização. municativa, temos que
considerar a questão da
Os homens livres racionalizaram a realidade com o uso público da razão. Como vimos, o fim linguagem, considerada
pretendido desse processo seria a liberdade, a realização livre e consciente da humanidade. A por Habermas como
tese de Habermas sobre a racionalidade ocidental caminha na direção da Teoria Crítica, na medi- o veículo para a forma
da em que busca as causas e os efeitos da modernização, da ação racional e das visões de mundo mais fundamental de
racionalizadas. ação social. Para ele,
portanto, a ação comu-
Habermas concorda com os demais teóricos da Escola de Frankfurt que apontam para o nicativa é uma forma de
fato de que o iluminismo falhou; porém, sua principal hipótese é que o projeto da modernidade interação social em que
pode ser revisto. A principal tarefa de sua construção teórica é reconstruir o projeto de moderni- as ações dos diversos
dade através do que ele chamou de ação comunicativa. Seu ponto de partida é a negação da atores estão assentadas
razão instrumental e a defesa de uma razão centrada no sujeito, o que supõe a possibilidade de em atos comunicativos
através da utilização da
superação do pessimismo dos diagnósticos da modernidade e dos dilemas da razão. linguagem, na busca
Para isso, ele utiliza preceitos da filosofia da linguagem e expande o conceito de razão para pelo entendimento
incluir a “racionalidade comunicativa", porque a linguagem pressupõe irrestrita comunicação e comum.
compreensão mútua. Com esses movimentos teóricos, o autor restabeleceu a centralidade da
razão como o princípio norteador para a realização de emancipação. A partir dessa perspectiva
filosófica, Habermas desenvolveu o conceito de “ação comunicativa”, definido como o tipo de in-
teração na qual todos os participantes harmonizam seus planos de ação individual com o outro
e, assim, prosseguem os seus objetivos.

17
UAB/Unimontes - 4º Período

De acordo com esse argumento, as dificuldades da sociedade moderna são conseqüências


- como Horkheimer e Adorno tinham argumentado – de uma confiança excessiva na razão ins-
trumental. Nas estruturas comuns da "ética do discurso" é que, segundo Habermas, podemos en-
contrar uma base para a fé no futuro da humanidade.
Por Razão Instrumental, podemos entender a forma objetiva da ação que trata o obje-
to simplesmente como um meio, e não como um fim em si mesmo. A razão instrumental é
constituída por elementos que remetem ao cálculo capaz de estabelecer a relação entre meios
e fins, prever as consequências de nossos propósitos, além de analisar a relação entre diferentes
objetivos.

Figura 8: Cegueira 
Fonte: Disponível em
<www.guiatpm.files.
wordpress.com/tiras_ca-
pitalismo>. Acesso em 15
mai. 2010.

O mundo, nessa perspectiva, é um mecanismo onde a racionalidade pode agir, ainda que
não se tenha certeza sobre os valores que dirigem o comportamento dos indivíduos. Desse
modo, a racionalidade instrumental apresenta-se em três momentos distintos:
1. A descoberta dos meios para alcançar os objetivos.
2. A seleção dos meios mais eficientes.
3. A previsão do comportamento racional dos outros.

A Razão Comunicativa, por outro lado, é baseada em uma análise do uso social da lingua-
gem, orientada para alcançar um entendimento comum. Está ligada à capacidade humana para
a racionalidade, que não é individualista, mas uma capacidade inerente à linguagem, especial-
mente na forma de argumentação. Na estrutura do discurso argumentativo, há uma busca de
compreensão, sem força coercitiva, com o poder convincente do melhor argumento. Trata-se,
portanto, de uma racionalidade intersubjetiva.

Figura 9: Uso social da 


Linguagem
Fonte: Disponível em
<www.republicadasletras.
zip.net/images_2007/
orgm>. Acesso em 15 mai.
2010.

Para Habermas, a ação comunicativa baseia-se num processo deliberativo onde as pessoas
interagem e coordenam sua ação com base na interpretação da situação. Nota-se, assim, que a
racionalidade é a chave tanto para a dominação quanto para a emancipação. Por isso, a teoria

18
Ciências Sociais - Sociologia IV

da ação comunicativa tem como objetivo principal demonstrar a relação existente entre a razão
e a comunicação. Nesse sentido, a teoria, além de servir de base para uma crítica da razão ins- Dica
trumental, constitui-se como critério através do qual é possível distinguir o poder legítimo do Jurgen Habermas, filó-
ilegítimo. Assim, o poder para Habermas somente será legítimo se estiver fundamentado no con- sofo e teórico social, é
senso alcançado pela ação comunicativa. considerado por muitos
como o mais importan-
te intelectual alemão do
pós-guerra, principal-
1.3.6 Sistema e mundo da vida mente por sua teoria da
ação comunicativa. Sua
maior preocupação é
A partir dos pressupostos apresentados, Habermas introduz em sua abordagem uma nova o desenvolvimento de
concepção de sociedade, em que se entrelaçam o conceito de mundo da vida (o fundo comum uma teoria que consiga
abarcar a igualdade e a
de conhecimentos que os indivíduos usam para atribuir sentido ao mundo) e do conceito de sis-
participação aberta no
tema. De acordo com esta abordagem “dual”, a sociedade evolui, diferenciando-se tanto como debate público, razão
sistema quanto como mundo da vida. pela qual seu trabalho
Os dois conceitos são utilizados para oferecer uma melhor compreensão das sociedades teórico-filosófico ocupa
modernas, correspondendo a uma separação da sociedade em duas esferas: a da reprodução uma posição significa-
tiva no discurso social
material e a da representação simbólica.
e político ocidental.
Sistema: Esse conceito descreve as estruturas responsáveis pela reprodução material e ins- Como componente da
titucional da sociedade: a economia e o Estado, que representam dois subsistemas: o dinheiro Escola de Frankfurt,
e o poder, respectivamente. Nesse plano, a linguagem é secundária e há o predomínio da razão Habermas elabora uma
instrumental. crítica profunda das
formas de dominação
O mundo da vida: É composto pelas experiências comuns a todos os atores, das tradições,
na sociedade moder-
da cultura e da língua compartilhada. É o espaço social em que a ação comunicativa permite a na, admitindo, porém,
realização da Razão Comunicativa, alicerçada no diálogo e no argumento. Representam três sub- a hipótese de que o
sistemas: personalidade, social e cultural, regulados pelos mecanismos de integração social. De “projeto da modernida-
acordo com Habermas, os dois mundos não são antagônicos, ao contrário, são complementares. de” pode ser redimido,
através da reconstitui-
ção dos dilemas razão
Quadro 1 numa dimensão da
Relações entre o Mundo da Vida e Sistemas ação comunicativa.
Mundo do Sistema Mundo da vida

Modos de produção e reprodução artificial Modos de produção e reprodução simbólica


Estado/economia Experiência comunicativa dos sujeitos
Poder/dinheiro Cultura, linguagem
Conhecimento voltado a interesses Conhecimento tácito
Ação instrumental e/ou estratégica Ação comunicativa
Entendimento, liberdade e autonomia refle-
Êxito e domínio
xiva.
Fonte: Adaptado de Freitag, 2000.

A partir desses dois campos, a análise da modernidade de Habermas tem como pressuposto DICA
algumas transformações societárias que aconteceram e foram especificadas em quatro proces-
Assista ao filme “Me-
sos, que apresentam aspectos positivos e negativos. trópolis”, produzido em
Em relação aos aspectos positivos, as sociedades passaram por processos de: 1927. É um filme alemão
1. Diferenciação: traduzidas principalmente na divisão de tarefas políticas e econômicas, o de ficção científica que
que fez com que a reprodução material e simbólica da sociedade se tornasse mais compe- demonstra preocu-
tente e eficaz. pação crítica com a
mecanização da vida
2. Autonomização: ou seja, a separação relativa de uma esfera do conjunto societário, propor- industrial nos grandes
cionando maior autonomia no seu funcionamento, o que representa uma conquista relativa centros urbanos, ques-
de liberdade das esferas em questão. tionando a importância
do sentimento humano,
Por outro lado, com uma conotação negativa, houve os processos de: perdido no processo.
1. Racionalização: tipicamente instrumental, com o predomínio do calculo da eficácia, o que
trouxe efeitos indesejados para a sociedade, na medida em que os benefícios passam a ser
um fim em si mesmo. Dessa forma, há a expulsão da razão argumentativa, que seria capaz
de proporcionar a negociação coletiva dos fins.

19
UAB/Unimontes - 4º Período

2. Dissociação: que desconectou a produção material dos processos sociais da vida cotidiana,
Atividade levando o poder e a economia a assumir aparência natural (FREITAG, 2000).
Faça análises críticas
sobre a Escola de Frank-
furt e a Teoria de Jurgen 1.3.7 As patologias da modernidade
Habermas e debata com
os colegas no fórum de
discussão. Os processos de transformação de conotação negativa – racionalização e dissociação – são,
em boa medida, os responsáveis pelas patologias da modernidade.
• A dissociação trouxe consigo o desengate do sistema e do mundo da vida.
Glossário
• A racionalização provocou uma contaminação da economia e do estado, além de contami-
Racionalidade: Quali- nar também o mundo vivido.
dade ou estado de ser
Por isso é que Habermas defende que o sistema colonizou o mundo da vida, fazendo com
sensato, com base em
fatos ou razão. Implica que os indivíduos estejam subjugados às leis do mercado e à burocracia estatal. Em decorrência,
a conformidade de o sistema se fortalece e passa a impor a sua lógica ao mundo da vida (FREITAG, 1995).
suas crenças com umas A colonização, portanto, diz respeito à introdução da racionalidade instrumental e dos me-
próprias razões para canismos de integração do “dinheiro” e do “poder” no interior das instituições culturais, que dei-
crer, ou de suas ações
xam, nesse caso, de funcionar segundo o princípio da verdade, normatividade e expressividade,
com umas razões para
a ação. passando a funcionar segundo o princípio do lucro e do exercício do poder, atuantes no sistema
Ação comunicativa: econômico e político.
Refere-se a uma teoria
desenvolvida por Jur-
gen Habermas - filósofo
e sociólogo alemão. 1.3.8 A saída para os dilemas da modernidade
Trata-se de uma análise
teórica e epistêmica
da racionalidade como Como vimos anteriormente, Habermas não é pessimista com relação ao futuro da humani-
sistema operante da dade. Ele argumenta que há uma maneira de sair desta situação: a fim de superar as crises so-
sociedade. Habermas ciais, é necessário contrabalançar a racionalidade instrumental, trazendo a racionalidade comuni-
contrapõe-se à ideia cativa de volta ao jogo. Trata-se de promover o reacoplamento do sistema com o mundo vivido,
de que a razão ins-
trumental constitua a mas sem extinguir os limites estabelecidos e as autonomias adquiridas.
própria racionalização
da sociedade ou o único O “reacoplamento” se impõe para manter a integridade e complexidade do todo
padrão de racionaliza- a ser controlado e corrigido por todos os “envolvidos”. A “descolonização” se im-
ção possível, e introduz põe para permitir a livre atuação da Razão Comunicativa em todas as esferas e
o conceito de razão instituições do mundo vivido e na busca de “últimos fins” do sistema. As regras
comunicativa. do jogo para a sociedade como um todo precisam ser buscadas em processos
Cultura de massa: argumentativos, dos quais todos participem, definindo os espaços de atuação e
Também chamada de a fixação de objetivos do sistema. (FREITAG, 1995, p. 146)
cultura popular ou
cultura pop, é o total Para Habermas, a terapia para as patologias da modernidade deve se dar a partir de uma
de ideias, perspectivas, mudança de paradigma: da ação instrumental para a ação comunicativa, da subjetividade para a
atitudes, memes, ima-
gens e outros fenôme- intersubjetividade. É este o caminho da compreensão correta da modernidade e de suas patolo-
nos que são julgados gias. A prioridade deve ser a liberdade e a realização de todos os membros da sociedade. A teoria
como preferidos por da modernidade de Habermas, dessa forma, preserva os preceitos do projeto iluminista, apenas
um consenso informal promovendo modificações em sua forma.
contendo o mainstream
de uma dada cultura,
especialmente a cultura

Referências
ocidental do começo da
metade do século XX
e o emergente mains-
tream global do final do
século XX e começo do
século XXI. ADORNO, Theodor W., HORKHEIMER, Max. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2006.

FREITAG, Bárbara. Habermas e a teoria da modernidade. Cad. CRH. Salvador, n.22. p. 138-163,
jan/jun.1995.

HABERMAS, Jurgen. Teoria de la acción comunicativa: complementos y estudios previos. Ma-


drid: Ediciones Cátedra, 1994. Cap. 8.

HORKHEIMER, Max. “Teoria Tradicional e Teoria Crítica”. In: HORKHEIMER, Max. Textos Escolhi-
dos. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

20
Ciências Sociais - Sociologia IV

MATOS, Olgária C. F. A Escola de Frankfurt: luzes e sombras do iluminismo. São Paulo: Editora
Moderna, 1993.

MUSSE, Ricardo. As Raízes Marxistas da Escola de Frankfurt. In: A Escola de Frankfurt no Direi-
to. Curitiba: Edibej, 1999.

Sites

http//:www.agente.files.wordpress.com.br. Acesso em: 18 mai. 2010.

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http//:www.guiatpm.files.wordpress.com. Acesso em 14 mai.2010.

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http//:www.revistacult.uol.com.br. Acesso em 17 mai. 2010.

http//:www.republicadasletras.zip.net/images/pensadores. Acesso em 17 mai.2010.

21
Ciências Sociais - Sociologia IV

Unidade 2
Distinção entre as esferas do
indivíduo e da sociedade
Maria da Luz Alves Ferreira

2.1 Introdução
Nesta segunda unidade, estudaremos, de forma específica, os espaços dos indivíduos e da
sociedade. Iniciaremos com a discussão sobre a operacionalização do conceito de classe social
pelo neomarxismo e a ação coletiva na perspectiva de Marx.

2.2 A operacionalização do
conceito de classe social pelo
Figura 10: Ação coletiva
Fonte: Disponível em
<http://abstracaocole-
tiva.com.br/2013/04/11/

neomarxismo modernismo-brasileiro-
-tematica/>. Acesso em 19
mai. 2010.

Os autores definem a
ação coletiva como um fe-
nômeno que resulta da in-
teração de dois ou mais
indivíduos cientes de suas
capacidades e dispostos a
dar sentido a sua prática so-
cial. Para autores como Olson
(1956), essa discussão traz
à tona o complexo proble-
ma da racionalidade da ação
coletiva, ou seja, indivíduos
singulares, situados em um
determinado contexto de so-
cialização, que interagem a
partir de critérios práticos e
racionalmente definidos.
Nesse contexto, a ques-
tão que se coloca é saber em
que medida a teoria da mo-
derna ação social concebe
os fenômenos coletivos não
institucionais – ou movimen-
tos sociais – como fenômenos de natureza racional. Ou seja, em que medida indivíduos isolados
admitem engajar-se numa ação conjunta para fortalecer ou defender sua situação? Nesta unida-
de será discutida a operacionalização do conceito de classe social para os autores que se funda-
mentam em Karl Marx. A fim de cumprir esse desiderato, far-se-á, num primeiro momento, uma
reflexão da ação coletiva em Marx – entendida como a ação de indivíduos engajados numa clas-
se social.
23
UAB/Unimontes - 4º Período

2.2.1 Ação coletiva na perspectiva de Marx

Marx discutia a questão da ação


coletiva em consonância com a teoria
Figura 11: Ação coletiva  do desenvolvimento do capitalismo.
na sociedade cultural Para ele, o capitalismo era uma forma
Fonte: Disponível em
<http://www.djban.com.
específica de sociedade que detém
br/noticias/sindicato-di- um enorme poder produtivo, capaz de
ploma-dj-especulacoes- promover um grau superior de desen-
-mtv-debate/>. Acesso em
19 mai. 2010.
volvimento e realização humana. En-
tretanto, este projeto se frustra na prá-
tica, posto que as relações sociais no
capitalismo geram uma dinâmica de
individualização extrema das pessoas,
a qual redunda na perda progressiva
do caráter social da existência humana
(desumanização dos indivíduos).
Essa tensão entre, por um lado, o potencial humanizador do capitalismo e, por outro lado,
a efetiva frustração de tal potencial na prática social, destaca-se na sociologia marxista, porque
nela deriva a proposição de que, no sistema capitalista, há uma contradição fundamental implíci-
ta entre a lógica da produção e a lógica da apropriação dos bens produzidos, isto é, socializa-se a
atividade produtiva, porém, privatiza-se a propriedade.
Esta ambiguidade latente da sociedade burguesa, que se manifesta como degradação cres-
cente do ser humano, só pode ser (e deve ser) superada com a realização de processos, como: a
luta coletiva em favor da supressão das classes sociais e do Estado, o fim da divisão social do tra-
balho, a abolição positiva da propriedade privada, enfim, a efetiva superação da alienação.
São estes, segundo Marx, os fins políticos que devem orientar a ação coletiva dos seres so-
ciais, de modo a permitir o florescimento da sociedade comunista, síntese do processo de huma-
nização das pessoas e em cujo contexto surgirá o indivíduo plenamente desenvolvido, apto para
a execução de uma variedade de atividades, livre de constrangimentos externos, autônomo e,
todavia, estreitamente vinculado à comunida-
Figura 12: Revolução  de social.
cubana de 1959 A crítica ao capitalismo é justificada cien-
Fonte: Disponível em tificamente com base na constatação de que
<http://sesi.webensino. as estruturas político-econômicas inerentes ao
com.br/sistema/webensi-
no/aulas/repository_data// modo de produção capitalista, na medida em
sesieduca/ens_med/ que promovem desigualdades sociais e legiti-
ens_med_f03_his/278_ mam o empobrecimento material e espiritual
his_ens_med_03_11/
investigando_caminhos. dos trabalhadores assalariados e camponeses
html>. Acesso em 19 mai. (classe majoritárias), bloqueiam definitivamen-
2010. te os potenciais emancipatórios e solidarísticos
do mundo social e restringe significamente o
campo das escolhas individuais.
Para o nosso autor, estrategicamente, os
trabalhadores, ao tomarem consciência da
condição de privação – consciência para si –,
tendem a organizarem-se politicamente e a
agirem (lutar) racionalmente como um coletivo
em favor da supressão radical do capitalismo
Figura 13: Revolução 
russa de 1917
e de suas mazelas (revolução proletária), até a
Fonte: Disponível em
efetiva instauração de uma comunidade social
<http://filosofandoehis- verdadeiramente humanizada.
toriando.blogspot.com. Na teoria marxista do capitalismo moder-
br/2011/05/revolucao-rus-
sa-de-1917-resumo-parte.
no, a ação social é concebida, prioritariamente,
html>. Acesso em 19 mai. como a ação de indivíduos discretos e autoin-
2010. teressados, que podem constituir-se em classes
sociais – dependendo do grau de consciência
ou racionalidade que caracteriza suas ações –,
cuja orientação diz respeito a fins proeminen-

24
Ciências Sociais - Sociologia IV

temente econômicos que se identificam, em última instância, com a perpetuação (capitalistas) ou


com a superação (proletariado) da propriedade privada. Dica
Nesse sentido, só os movimentos coletivos, que surgem no bojo do conflito capital-trabalho
Vocês se lembram de
podem, quando relacionalmente orientados, ser definidos como formas específicas da ação so- que Marx sempre traba-
cial da classe trabalhadora que demarca o início da explosão revolucionária. lhou com a dicotomia,
a oposição entre duas
classes sociais polariza-
das: escravos e senhores
2.2.2 A operacionalização do conceito de classes sociais na no escravismo; senhores
perspectiva dos autores que se fundamentam em Marx feudais e servos no
feudalismo; burguesia e
proletariado no capita-
lismo? Qualquer dúvida,
Os autores neomarxistas partem do pressuposto de que o campo marxista considera como retorne aos Cadernos
princípio estruturador da vida social a ideia de que essa estrutura é material, e em todas as socie- Didáticos de sociologia
dades onde existiu a propriedade privada dos meios de produção, especialmente a capitalista, a I e II.
estruturação é baseada na ideia de que os indivíduos são estratificados de forma relacional, ou
seja, os que são donos dos meios de produção e os que não são. Portanto, o que estrutura as re-
lações sociais é o acesso ou não à propriedade.
Nesse sentido, a perspectiva marxista considera que a sociedade é estratificada de acordo
com a propriedade, ou seja, a posição em uma classe determinada. Portanto, a classe é entendi-
da como uma categoria geral que serve para identificar posições na estrutura econômica, bem
como a instância de organização e gestão da produção e distribuição de bens e serviços, que se
materializa em contextos históricos específicos.
É consenso entre os autores que Marx, apesar de ter se dedicado em algumas de suas obras
a discutir a luta de classes, não elaborou um conceito sistemático de classe social. Por outro lado,
embora ele tenha considerado a existência de classes subsidiárias – nos 18 Brumário de Luís Bo-
naparte, definiu várias classes, entre elas, o proletariado, a pequena burguesia e o campesinato
–, considerava que o movimento da história era polarizado em duas classes antagônicas, a bur-
guesia e o proletariado. Diante disso, a seguir serão discutidas as contribuições de alguns autores
neomarxistas, como Jon Elster Erick Olin Wright e Adam Przeworski, no sentido de contribuir para
operacionalizar o conceito de classe social desenvolvido por Marx.

2.2.2.1 Jon Eslter

A questão central, da qual se ocuparam os se-


guidores de Marx, foi: o que é uma classe? Elster ◄ Figura 14: Jon Elster
(1989) considera que, embora Marx nunca tenha ex- Fonte: Disponível em
plicitado o seu conceito de classe, a sua teoria possi- <http://web.stanford.edu/
group/RCTandHumani-
bilita uma reconstrução da definição de classe, con- ties/overview/>. Acesso
siderando que alguns grupos podem ser definidos em 19 mai. 2010.
como classe, distinguindo-se dos que não se enqua-
dram nessa categoria. Contudo, o autor argumenta
que é difícil definir um conceito preciso de classe de
forma arbitrária, porque “as classes têm uma exis-
tência real como grupos de interesses organizados,
e não como meras observações do observador. Por
outro lado, classe não pode ser reduzida a uma opo-
sição dicotômica entre os que têm e os que não têm,
ou exploradores e explorados” (ELSTER, 1989. p.142).
O autor supracitado ressalta que os seguidores
de Marx, ao elaborarem o conceito de classe, utili-
zam como critério os elementos propriedade, explo-
ração, comportamento de mercado e dominação. Embora sejam elementos importantes para a
reconstrução do referido conceito, a (re)elaboração não é fácil, pois deverá ser comprovada em-
piricamente em várias sociedades com sistemas econômicos com e sem economia de mercado,
com propriedade individual ou coletiva dos meios de produção.
O autor entendia que, mesmo que Marx tenha definido vários grupos – em diferentes mo-
dos de produção social – como referência à classe social, estes não podem ser utilizados para se
elaborar um conceito que possa ser generalizado, para outras sociedades que Marx não tenha
25
UAB/Unimontes - 4º Período

estudado. Ele afirmou também que o número de classes definido por Marx pode não ter contem-
plado todas as classes existentes naquela sociedade. Outra crítica que Elster faz à teoria marxista
é o fato de esta não ter considerado categorias como renda, ocupação e status, pois, segundo
ele, essas categorias são centrais para inferir como a sociedade é estratificada.

Há cerca de quinze grupos a que Marx se refere como classes: burocratas e teo-
cratas no modo de produção asiático; homens livres, escravos, plebeus e patrí-
cios na escravidão; senhor, servo, mestre de guilda e artesão no feudalismo; ca-
pitalista industrial, capitalista financeiro, senhor de terras, camponês, pequeno
burguês, trabalhador assalariado no capitalismo. Não podemos, porém, definir
o conceito de classe com essa enumeração. Para decidir se os exemplos formam
um conjunto coerente, precisamos de uma definição geral. Queremos também
ser capazes de aplicar o conceito a outras sociedades, diferentes daquelas estu-
dadas por Marx. Em relação às que ele estudou, precisamos saber se sua enume-
ração das classes é exaustiva ou se poderiam existir outras além das que ele cita.
Em uma palavra, precisamos saber se em virtude da propriedade esses grupos
constituem classes (ELSTER, 1989, p 142).

Um aspecto considerado pelo autor é que Marx considerava que as classes não se diferen-
ciavam pela sua renda. Assim, ainda que membros de classes diferentes tipicamente obtivessem
rendas diferentes, isso não seria necessário; e, mesmo que fosse, não seria em virtude desse fato
que eles pertenceriam a classes diferentes.

Na ciência social contemporânea, renda, ocupação e status são os conceitos cen-


trais para o estudo da estratificação social. Esse fato não implica qualquer incon-
sistência com o marxismo, porque a teoria da estratificação e a teoria de classes
têm propósitos diferentes. Esta última aborda a questão de que grupos organi-
zados serão os atores principais na ação coletiva e no conflito social; a primeira,
porque os indivíduos diferem em termos de desvio, consumo, saúde ou hábitos
de casamento. Essa distinção é ao menos válida em relação ao próprio Marx, que
não tinha uma teoria sociológica no sentido moderno da expressão. Em sua dis-
secação do capitalismo, o foco estava quase que exclusivamente em fenômenos
econômicos e políticos, a expensas da textura e eventos da vida cotidiana fora
do lugar de trabalho. Tentativas posteriores de criar uma sociologia marxista ba-
seada no conceito de classe se dedicam às mesmas questões da teoria da estra-
tificação. Na medida em que os objetivos das duas abordagens se superpõem,
elas são, de fato, incompatíveis, pelo menos se cada uma delas tiver a pretensão
de dar a explicação completa dos fenômenos em estudo. (ELSTER, 1989, p.143)

O referido autor considera ainda que o pertencimento a uma classe é definido pela proprie-
dade ou não dos meios de produção. Entretanto considera que, para os objetivos de Marx, essa
definição não é suficiente – em que pese a importância desta variável –, mas, dependendo de
como ela é entendida, pode ser muito importante ou pouco importante. Pode ser muito impor-
tante se todos os atores que possuam alguns meios de produção além de sua própria força de
trabalho forem incluídos na mesma classe, porque isso não permitiria fazer a distinção entre se-
nhor de terras, capitalista, artesão e camponês. Pode ser menos importante se os atores forem
“relegados a diferentes classes, de acordo com a quantidade de meios de produção que possuí-
rem, pois isso criaria uma infinita fragmentação das classes” (ELSTER, 1989, p.144). O argumento
do autor é que, se a variável definidora de classe for a exploração – explorados por um lado, e
exploradores por outro –, em termos metodológicos não é interessante, na medida em que deixa
de captar as nuanças do modelo capitalista de seis classes postulado por Karl Marx.
Em relação à consciência de classe que era para Marx a condição sine qua non para a ação
coletiva, Eslter considera que a condição para a ação coletiva é que os membros de uma classe
tenham uma compreensão da sua situação e de seu interesse.

Marx era um tanto mais otimista em relação à capacidade de os operários ingle-


ses formarem uma concepção adequada de seus interesses. Mas ele também se
frustrava por sua falta de uma consciência de classe revolucionária, que impu-
tava em parte à sua falta de compreensão de seus interesses. Por volta de 1850,
depois do colapso do movimento cartista, ele explicava a confusão pelo fato de
que os trabalhadores lutavam numa guerra de duas frentes. Como os capitalistas
não tomaram diretamente o poder político, mas deixaram seu exercício aos aris-
tocratas agrários, os operários se confundiram sobre a natureza do inimigo real
– o capital ou o governo? Lutando simultaneamente contra a opressão política e
a exploração econômica, e não compreendendo que a primeira não passava de
uma extensão da última, tinham apenas uma noção difusa de onde estavam seus

26
Ciências Sociais - Sociologia IV

verdadeiros interesses. Por volta de 1870, a guerra de duas frentes foi substituída
por um argumento de divisão para conquistar. Marx sugere que, se não fosse Dica
pela presença dos irlandeses, os trabalhadores ingleses teriam sido capazes de
perceber seu interesse real e seu inimigo real. Tendo alguém abaixo deles para Entenda mais sobre
desprezar, distraíram-se do inimigo principal. (ESLTER, 1989, p. 149). o movimento cartista
acessado o site www.
historiadomundo.com.
Elster destaca também a relevância das classes sociais tanto como fonte de conflito, quanto
br
como “instrumento” de barganha para a formação de alianças determinantes da estrutura de po- No endereço eletrônico,
der em uma determinada sociedade. Entretanto, embora as classes sejam relevantes, o autor não você encontrará artigos
admite que estas sejam centrais – como Marx afirmava – para a explicação dos conflitos entre os e textos sobre o assun-
grupos organizados coletivamente na sociedade. to, para aprofundar os
estudos.

2.2.2.2 Adam Przeworski

Uma outra análise interessante em relação


à discussão de classes e que considera a dificul- ◄ Figura 15: Adam
Przeworski
dade de utilizar o conceito de classes tal como
Fonte: Disponível em
Marx o elaborou é feita por Przeworski (1989), <http://www.nyu.edu/
que argumenta que, a partir do final do século about/news-publications/
XIX, tornou-se problemático operacionalizar o news/2010/04/09/poli-
tics_professor_p.html>
conceito de proletariado tal como foi proposto Acesso em 19 mai. 2010.
por Marx. A fim de comprovar esse argumento,
ele faz o seguinte questionamento:

Quem são todas aquelas


pessoas geradas pelo
capitalismo a um ritmo
cada vez mais acelerado,
que são separadas dos meios de produção, forçadas a vender sua força de traba-
lho em troca de salário e que, contudo, não trabalham, vivem, pensam e agem
realmente como proletários? São eles operários proletários? Ou serão da ‘classe
média’? Ou talvez simplesmente trabalhadores ‘não manuais’, como os estudio-
sos os classificam em suas pesquisas? Ou ‘La nouvelle petite bourgeoisie? Ou
ainda agentes da reprodução capitalista e, portanto, simplesmente a burguesia?
(PRZEWORSKI, 1989, p. 83).

Pzeworski discute que o problema de operacionalização do conceito de classe dicotômica –


como foi formulado por Marx – não é uma tarefa muito simples. Uma possível solução apontada
por ele é incluir na análise as classes que não foram contempladas pelo viés marxista, ou seja, a
adição das classes médias. Para comprovar sua tese de que não se pode pensar – nas sociedades
de capitalismo avançado do final do século XIX e do século XX – somente em duas classes anta-
gônicas e polarizadas, ele lançou mão da discussão feita por Wright, que tentou operacionalizar
empiricamente o conceito de classe na sociedade americana e chegou à conclusão de que nem
todos os membros da população economicamente ativa dos Estados Unidos são enquadrados
dentro da categoria de operários e capitalistas (PRZEWORSKI, 1989, p. 84).
Entretanto, apesar de o autor considerar importante a contribuição de Wright, ele enten-
de também que a questão do conceito de classes não será resolvida nem com a definição de
classes objetivas, tampouco com as localizações contraditórias. O que ele propõe é analisar a
seguinte questão: como, a partir de posição
em lugares econômicos determinados, podem
os indivíduos lutar de forma coletiva para a ◄ Figura 16: Classe média
realização dos seus interesses objetivos? Para Fonte: Disponível em
responder a essa questão, ele considera que é <www.google.com.br>.
preciso incorporar o problema de identidade. Acesso em 19 mai. 2010.
Assim, a classe não pode ser considerada ape-
nas pela posição objetiva; tampouco as lutas
são determinadas apenas pelas relações de
produção/econômicas, mas devem ser levadas
em conta também as relações políticas e ideo-
lógicas, ou seja:

27
UAB/Unimontes - 4º Período

Como agentes históricos, as classes não são determinadas unicamente por quais-
quer posições objetivas, tem mesmo a de operários e capitalistas (...) a própria
relação entre as classes como agentes históricos (classes em luta) e os lugares
nas relações de produção deve tornar-se problemática. As classes não são deter-
minadas unicamente porque quaisquer posições objetivas, porque constituem
efeitos de lutas, e essas lutas não são determinadas unicamente pelas relações
de produção. A formulação tradicional não nos permite raciocinar teoricamente
sobre as lutas de classes, uma vez que as reduz a um epifenômeno ou as consi-
deram isentas de determinação objetiva. (...) as classes são um efeito de lutas que
ocorrem em uma determinada fase do desenvolvimento capitalista. Devemos
compreender as lutas e o desenvolvimento em sua articulação histórica concre-
ta, como um processo (PRZEWORSKI, 1989, p. 86-87).

Portanto, o autor defende a necessidade de se conceber a formação das classes como re-
sultantes de lutas estruturadas por condições econômicas, ideológicas e políticas que ocorrem
objetivamente, moldando as práticas de movimentos que organizam os trabalhadores em uma
classe, sendo que as classes são constantemente organizadas, desorganizadas e reorganizadas.
Para ele, o problema que se apresenta em operacionalizar o conceito de classe social, como
Marx entendia, dá-se porque em lugar de que as classes existem objetivamente dentro das rela-
ções de produção, em alguns períodos históricos, a noção de classe seria irrelevante para a com-
preensão da história. Ele dá como exemplo o período em que essas classes não desenvolvem a so-
lidariedade e a consciência de classe ou quando não têm efeito político. Outra objeção colocada
pelo autor é que a identificação das classes como força política organizada traz à tona o problema
de como remontar à origem dessas classes no nível dos lugares na organização social da produção.

Se a hipótese é que todo operário manual na indústria comporta-se politicamen-


te como um operário, então a teoria é absolutamente falsa; se todo indivíduo
que é um socialista em potencial é considerado um operário, a teoria é sem sen-
tido na acepção positivista da expressão. A primeira interpretação do marxismo
é predominantemente, entre muitos estudos do comportamento político, que a
partir dela descobrem um grande “resíduo” de divisões outras que não as de clas-
se, divisões estas por vezes maiores que as de classes. A segunda interpretação é
subjacente ao tipo de raciocínio voluntarista segundo o qual os funcionários de
serviços eram considerados não pertencentes à classe operária quando as pers-
pectivas de sua sindicalização pareciam obscuras e, entretanto, hoje em dia, são
considerados da classe operária majoritária (PRZEWORSKI, 1989, p. 89).

Ele propõe, para superar essa dificuldade, do ponto de vista metodológico, conceber as clas-
ses formadas decorrentes de lutas estruturadas em vários campos, como político, ideológicos e
econômicos que ocorrem em condições objetivas, também políticas, econômicas e ideológicas
que moldam as práticas dos movimentos organizados dos operários em classe. Considera, ainda,
que as classes não são um elemento anterior à história das lutas concretas como também não
antecederam à prática política e ideológica, sendo que elas se constituem em uma fonte impor-
tante de divisão social. Para ele, as classes:

1) são formadas como efeito de lutas; 2) o processo de formação de classes é per-


pétuo: as classes são continuamente organizadas, desorganizadas e reorganiza-
das; 3) a formação de classes é um efeito da totalidade das lutas nas quais diver-
sos agentes históricos procuram organizar as mesmas pessoas como membros de
uma classe, como membros de coletividades definidas em outros termos, às vezes
simplesmente como membros de uma sociedade (PRZEWORSKI, 1989, p. 91).

Przeworski considera ainda que, apesar das várias tentativas de reinterpretação da teoria da
classe média de Marx, não se constata um grande avanço, no sentido da operacionalização do
conceito nas sociedades capitalistas, nas últimas décadas. O que parece consenso é que o de-
senvolvimento do capitalismo culminou, além do crescimento da força de trabalho excedente
– produtores imediatos e organizadores do processo de trabalho – em uma categoria que não se
enquadra em nenhuma das duas citadas acima, ou seja, que apesar de não ter uma relação dire-
ta com a produção, do ponto de vista técnico, são indispensáveis para “reprodução das relações
capitalistas de produção” (PRZEWORSKI, 1989, p.108).
Na perspectiva do autor, o conceito de classe é mais abrangente do que a velha teoria mar-
xista supunha. A polarização entre os proprietários dos meios de produção e proprietários da for-
ça de trabalho não é empiricamente aplicável para as sociedades capitalistas contemporâneas. A
estas devem ser adicionadas as classes médias que são fundamentais para se continuar reprodu-
zindo a estrutura das relações capitalistas de produção.
28
Ciências Sociais - Sociologia IV

Classe, portanto, é o nome de uma relação, não uma coleção de indivíduos. Os


indivíduos ocupam lugares no sistema de produção; os agentes coletivos apa-
recem em luta em momentos concretos da história. Nenhum deles – ocupantes
de lugares ou participantes de ações coletivas – são classes. A classe é a relação
entre eles, e nesse sentido a luta de classes diz respeito à organização social de
tais relações (PRZEWORSKI, 1989, p.102).

Portanto, o autor defende que a análise de classes não tome como ponto de partida o lugar
que as pessoas ocupam no sistema de produção, pois o capitalismo constantemente gera um
grande número de trabalhadores que não dispõe de emprego produtivo, mas que se organizam
pela luta de classes. Ele ressalta ainda que a definição do proletariado com base na não proprie-
dade dos meios de produção não é operacionalizável no século XX, pois o crescimento de seg-
mentos que não se enquadram nessa categoria cresce em toda a sociedade e até mesmo dentro
do proletariado.

As consequências dessa abordagem para o conceito de classe, como geralmente


compreendido pelo marxismo: As pessoas são classificadas como membros de
uma classe em virtude da posição que ocupam nas relações sociais. A tautologia
é deliberada: as pessoas são membros de uma classe porque aconteceu serem
membros dessa classe. A condição de membro de uma classe constitui o ponto de
partida para a análise do comportamento individual (PRZEWORSKI, 1989, p.115).

Em suma, a concepção de classe de Przeworski parte do pressuposto de que as relações so-


ciais (políticas, econômicas e ideológicas) são determinantes de uma estrutura econômica exis-
tente em um período determinado da história. Contudo, as classes sociais não surgem das re-
lações sociais, mas sim como resultantes das práticas que os indivíduos historicamente fizeram.
Todavia, as escolhas foram condicionadas pelas opções deixadas abertas pelas relações sociais,
que são tomadas por cada ator como dadas.

2.2.2.3 Erick Olin Wright


Outro autor que se dedicou a analisar o conceito de classe
social proposto por Marx foi Wright. Ele fez uma revisão da discus- ◄ Figura 17: Erick Olin
são teórica realizada por Marx, principalmente no tocante à ope- Wright
racionalização empírica do conceito de classe – aqui entendida Fonte: Disponível em
<http://puntoedu.pucp.
como uma posição objetiva dentro do sistema de propriedade, edu.pe/entrevistas/
ou seja, os proprietários dos meios de produção e proprietários capitalismo-puede-fallar-
da força de trabalho – nas sociedades capitalistas do século XX, -tener-exito-mismo-
-tiempo/>. Acesso em 19
que assistiram a um grande crescimento da classe média. Assim, mai. 2010.
a questão que se coloca para Wright é a forma de operacionaliza-
ção do conceito de classe (tal como é considerado por Marx, bur-
guesia e proletariado) e ao mesmo tempo levarem-se em conta as
classes médias. O desafio empreendido pelo autor é como com-
patibilizar o fundamento da posição de classe na divisão entre
proprietários e não proprietários e na divisão social do trabalho, que se exprime na estrutura das
ocupações com as posições que não fazem parte da burguesia nem do proletariado.
A fim de cumprir esse desiderato, Wright elaborou um esquema de classes baseadas em ma-
pas, onde as classes foram estruturadas da seguinte maneira:

Quadro 2
Primeiro mapa de classes desenvolvido por Wright
1. Burguesia capitalista tradicional;
2. Posição quase contraditória (altos executivos de empresas);
3. Posição contraditória (gerente de alto nível);
4. Posição contraditória (gerentes de nível médio);
5. Posição contraditória (tecnocratas);
6. Posição contraditória (supervisores);
7. Proletariado;
8. Posição contraditória (trabalhadores semi-autônomos);
9. Pequena burguesia;
10. Pequenos empregadores.
Fonte: Extraído de Santos, 2002.
29
UAB/Unimontes - 4º Período

Figura 18: 
Trabalhadores da Sang
Yong protestam contra
demissões em fábrica
na Coreia do Sul
Fonte: Disponível
em <http://g1.globo.
com/Noticias/Carros/
foto/0,,20433494-EX,00.
jpg>. Acesso em 19 mai.
2010.

Wright construiu os mapas, objetivando identificar os diferentes tipos de classes, e localizou


algumas classes contraditórias compostas por indivíduos que estão numa posição de controle,
como os gerentes ou administradores, pequenos produtores e trabalhadores semiautônomos,
que não são proprietários, no sentido estrito da propriedade, tal como definido em Marx.
Embora a elaboração do mapa de classes possa ser considerada uma grande contribuição
do autor à teoria marxista de classes, o próprio Wright reconheceu que a sua concepção de clas-
ses contraditórias não era fiel ao pressuposto da teoria de Marx, pois não centralizava sua análise
na exploração – como Marx – e sim na dominação, entendida por ele como qualquer situação de
opressão.
No intuito de aperfeiçoar o seu mapa de classes, ele elaborou um segundo mapa com duas
 divisões distintas:
Figura 19: Gerente
considerado por Wright Quadro 3
como uma classe Segundo mapa de classes desenvolvido por Wright
contraditória
Fonte: Disponível em 1) os proprietários e os não proprietários de meios de produção.
<www.google.com.br>. 2) as divisões internas, a saber: os proprietários que possuem ou não empregados e os não
Acesso em 19 mai. 2010. proprietários.
Fonte: Extraído de Santos, 2002.

O autor comprovou empiricamente que, na sociedade capitalista atual, ocorre uma frag-
mentação da estrutura de classes e, consequentemente, a expansão da classe média. Nesse sen-
tido, alguns setores da classe média são considerados contraditórios, porque ao mesmo tempo
em que dominam os trabalhadores, são dominados pelos capitalistas.
Segundo Santos:

Wright desenvolve uma estratégia sofisticada, particularmente para mensurar


a dimensão de autoridade, denominada, antes, de ativos de controle organi-
zacional. Os entrevistados são questionados minuciosamente sobre o seu en-
volvimento em tomadas de decisões, autoridade sobre os subordinados em
termos de serviço e punições, e posição na hierarquia da empresa. Os gerentes
correspondem a posições que estão diretamente envolvidas em tomar decisões
de política no local de trabalho e que possuam autoridade efetiva sobre o su-
bordinado. Já os supervisores representam posições que possuem autoridade
efetiva sobre subordinados, mas não estão envolvidas em tomadas de decisão
na organização. (...) Tal estratégia dá origem às nove posições de classe diferen-
ciadas dentro do segmento de não proprietários. Wright esclarece que o objetivo
perseguido por essa solução foi o de construir uma tipologia em que as posições
assimétricas (por exemplo, gerente e trabalhador) fossem inequívocas. Na ver-
dade, criou uma variável tricotômica para capturar e representar uma dicotomia
teórica. A ideia foi concentrar nas categorias intermediarias e ambíguas os pro-
blemas e deficiências de mensuração. Assim fazendo, ao confrontar as posições
assimétricas, teria certeza de estar comparando grupos relativamente bem men-
surados (SANTOS, 2002, p. 52-53).

30
Ciências Sociais - Sociologia IV

Portanto, o autor, ao empreender o desafio de operacionalizar a teoria de classes de Marx,


empiricamente enfrentou os “limites” da teoria marxista em dar conta de explicar a complexida-
de da estrutura de classes do capitalismo atual. Por isso, elaborou um esquema de classes bas-
tante próximo da concepção de Weber, reforçando sua tese de que a concepção do conflito de
classes presente na ótica marxista não torna operacionalizável à forma de estratificação nas so-
ciedades capitalistas atuais.

2.3 Teoria da escolha racional Dica


Em Sociologia III vimos
Além das análises da operacionalização das classes sociais pelo neomarxismo, em que aca- a teoria da troca social.
bamos de estudar como autores que se ocuparam em contribuir para a teoria de Karl Marx, es- A perspectiva individua-
lista da teoria da troca
pecialmente em relação à operacionalização empírica do conceito de classes sociais, uma outra
social, de inspiração
teoria que tem a ver com o marxismo analítico é a teoria da escolha racional. Um dos precur- norte-americana, que
sores dessa teoria é o autor Mancur Olson com o seu livro “Lógica da Ação Coletiva” (1956), em concebia a troca como
que defende o argumento de que os indivíduos não se engajam numa ação coletiva movidos material, inspirou a teo-
por incentivos coletivos, mas sim por incentivos seletivos. A seguir serão discutidos a origem e ria da escolha racional.
alguns pontos explicativos, bem como a perspectiva de Jon Elster, o grande sociólogo da teoria
da escolha racional.

2.3.1 Origens e pontos explicativos da escolha racional

A escolha racional surgiu de alguns questio-


namentos feitos em relação às escolhas dos indi- ◄ Figura 20: Dilema do
víduos. Embora seja creditada a Olson a origem da prisioneiro.
escolha racional, duas correntes da economia foram Fonte: Disponível em
fundamentais para a origem da referida teoria: 1) <http://acertodecontas.
blog.br/artigos/o-bra-
teoria da decisão: é o estudo de como os agentes sileiro-vive-um-eterno-
racionais decidem agir (objetivos, opções, opiniões), -dilema-do-prisioneiro/>.
sendo que essa ação tem efeitos sobre os seus obje- Acesso em 19 mai. de
2010.
tivos; 2) teoria da utilidade: que é entendida como
o conjunto de resultados alternativos associados a
uma probabilidade para cada resultado, ou seja, a
escolha entre duas ou mais ações que dão oportuni-
dade à perspectiva de risco.
A teoria da escolha racional concebe o jogador
racional como uma pessoa que maximiza o valor es-
perado não de lucro, mas de sua utilidade. A teoria da utilidade diz respeito a decisões racionais
tomadas em condições de incerteza (risco representável por probabilidade).
A teoria da escolha racional utiliza a racionalidade, em termos utilitários, como uma questão
de maximização das preferências do indivíduo. Parte ainda do pressuposto de que os modelos
de comportamento maximizante (amplamente utilizados na economia contemporânea) podem
ser ampliados para a vida social. Essa vertente sociológica postula que a racionalidade individual
não implica a racionalidade do comportamento coletivo. Aponta dois motivos para sustentar
esse argumento: 1) as preferências individuais não são agregadas a preferências coletivas, ou
seja, não pode haver nenhum resultado do qual seja possível dizer que maximiza preferências
coletivas. 2) o comportamento coletivo implica a interação estratégica dos indivíduos racionais e
cada um agirá baseado nos cálculos dos efeitos das ações dos outros.
Outro aspecto considerado pela escolha racional para sustentar a tese de que essa teoria é
aplicada de forma mais eficaz a indivíduos ou pequenos grupos do que em grandes grupos é o
problema do free rider – o carona –, designado como a (não) ação de pessoas que, a não ser que
exista algum elemento compulsório que faça com que os indivíduos contribuam para a provisão
de um bem coletivo, não contribuiriam para com outros indivíduos. O carona obtém os benefí-
cios de uma ação coletiva sem ter nenhum custo.

31
UAB/Unimontes - 4º Período


Outra questão importante da escolha racional é que ela não exige que seus modelos de
Figura 21: Greve X
ação sejam inteiramente realistas. O objetivo é fornecer previsões com sucesso, na maioria dos
Compras.
Fonte: Disponível em
casos, e, quando houver falha, fornecer elementos explicativos. Portanto, o papel explicativo da
<http://willianchaves. suposição de racionalidade nos leva a esperar certa consistência no comportamento dos indiví-
blogspot.com.br/2010/05/ duos, entretanto não revela as suas motivações. Assim, a escolha racional está intimamente liga-
greve-acaba-e-aulas-
-voltam-amanha.html>.
da à corrente do individualismo metodológico, como pode ser compreendido a partir da citação
Acesso em 19 mai. 2010. a seguir:

O individualismo congrega sob sua bandeira autores cujas concepções estão


longe de convergir em tudo. As abordagens mais radicais, amplamente inspi-
radas em temáticas da economia neoclássica, dependem da teoria da escolha
racional. Desse ponto de vista, mesmo que as normas tenham de fato um poder
coercitivo, o indivíduo age racionalmente: pode-se, com efeito, supor que as pre-
ferências e os fins individuais são dados, que os atores devem efetuar escolhas
no uso de meios e que, por conseguinte, a seleção de uma sequência de ação é
racional (LALLEMENT, 2004, p. 269)

2.3.2 A perspectiva de Elster

Elster parte do princípio de que, na escolha racional, toda construção teórica parte de um
modelo do comportamento de um indivíduo, cuja ação é orientada, unicamente, pela adequa-
ção de meios em relação aos fins. Em outras palavras, a vida social é o resultado de um grande
número de decisões de indivíduos, buscando atingir fins específicos e, para tanto, lançam mão,
da forma mais eficiente possível, dos meios que estão ao seu alcance. Nesse processo, os indi-
víduos são obrigados a interagir uns com os outros, pois atingir os objetivos de uns implica au-
mentar ou reduzir as chances dos demais.

A escolha racional é instrumental: é guiada pelo resultado da ação. As ações são


avaliadas e escolhidas não por elas mesmas, mas como meios mais ou menos efi-
cientes para um fim ulterior. Um exemplo simples é o empreendedor que deseja
maximizar o lucro. Para alcançar esta finalidade ele considera cuidadosamente
que produtos oferecer, quantos deles produzir e como produzi-los. Um exemplo
mais complexo é o general a quem foi ordenado derrotar o exército inimigo a
qualquer custo para si próprio. Antes que possa distribuir seus soldados, ele pre-
cisa formar uma opinião sobre os planos inimigos. Adicionalmente, deve tomar
medidas para dar ao inimigo uma ideia errada sobre os seus próprios planos.
Uma vez que sabe que os generais inimigos estão cientes desses cálculos e, com
efeito, estão realizando eles mesmos um raciocínio similar, deve tentar adivinhar
corretamente suas intenções e vencê-los em esperteza (ESLTER, 1994, p. 38).

32
Ciências Sociais - Sociologia IV

Para o autor, um determinado estado do mundo é lido como o resultado dos impactos re-
cíprocos das ações individuais, muitas das quais não intencionais, outras representando um re-
sultado sub-ótimo e outras ainda sendo uma solução eficiente para o problema colocado pela
adequação de meios a fins dos indivíduos. O problema para o conhecimento da Escolha Racional
residiria, portanto, em compreender como indivíduos orientados por fins diversos, com uma úni-
ca norma de ação, produzem os resultados sociais observáveis.

A escolha racional busca encontrar os melhores meios para fins dados. É um


modo de adaptar-se otimamente às circunstancias. A adaptação ótima também
pode ser obtida por meios outros que a escolha racional. (...) a escolha racional
não é um mecanismo infalível, uma vez que a pessoa racional pode escolher ape-
nas o que acredita ser o melhor meio (ESLTER, 1994, p. 41).

Portanto, os estudos da Escolha Racio-


nal lançam mão de modelo com alto grau de
◄ Figura 22: Maximização
abstração do mundo real, habitualmente ad- de lucros
vindos da teoria dos jogos, em que é possível Fonte: Disponível em
demonstrar que, mesmo sendo benéficos para <www.google.com.br>.
todos os indivíduos, determinados resultados Acesso em 19 mai. 2010.
coletivos podem não ser atingidos. Ou ainda,
como indivíduos buscando seu autointeresse,
geram resultados nos quais todos estão numa
situação pior relativamente ao caso em que
todos agissem altruisticamente. Assim, o fato
de certos resultados serem funcionais para a
estabilidade da ordem não é condição para
sua existência. Torna-se necessário encontrar
os microfundamentos desse resultado, ou seja,
como indivíduos agindo racionalmente contri-
buíram para produzi-lo.

Agir racionalmente é fazer tão bem por si mesmo quanto se é capaz. Quando
dois ou mais indivíduos interagem, eles podem fazer muito pior por si mesmos
do que agindo isolados. Essa percepção é talvez a principal conquista da teoria
dos jogos, ou a teoria das decisões interdependentes. Mas a teoria também é útil
de vários outros modos. Com efeito, uma vez que alguém chegue a examiná-lo
plenamente, ela mostra ser não uma teoria no sentido ordinário, mas o contexto
natural e indispensável para compreender a interação humana. É nesse sentido,
mais próxima à lógica do que uma disciplina empírica. Torna-se uma teoria em-
pírica, uma vez que acrescentemos princípios de comportamentos que possam
ser testados e verificados verdadeiros ou falsos, mas não se mantém ou cai com
o teste empírico (ESLTER, 1994, p. 44-45).

Para a escolha racional, a ação social deve ser compreendida como um ato racional rea-
lizado por um indivíduo sem constrangimentos morais ou valores, ou seja, como é a ação de
alguém, que busca exclusivamente adequação de meios disponíveis, em relação a fins estabele-
cidos.
Se não há garantia de que os indivíduos serão motivados para se orientar da mesma forma
em relação a objetos, como é possível formar expectativas sobre o comportamento dos outros
atores e, consequentemente, realizar o cálculo necessário para poder escolher o curso de ação
mais eficiente? Se o nível de incerteza sobre o comportamento dos demais atores é excessiva-
mente alto, não é possível agir racionalmente, pois as decisões são tomadas ex-ante, supondo
determinado padrão de comportamento dos demais atores envolvidos.

A teoria da escolha racional tem o objetivo de explicar o comportamento huma-


no. Para isso deve, em qualquer caso, proceder em dois passos. O primeiro pas-
so é determinar o que uma pessoa racional faria nas circunstâncias. O segundo
passo é verificar se isso é o que a pessoa realmente fez. Se a pessoa fez o que a
teoria predisse que faria, o caso pode ser acrescentado à relação a seus créditos.
Similarmente, a teoria pode falhar em cada um dos passos. Primeiro, pode falhar
em produzir determinadas predições. Segundo, as pessoas podem não se ajustar
às suas predições – podem comportar-se irracionalmente (ELSTER, 1994, p. 47).

33
UAB/Unimontes - 4º Período

Embora a natureza do processo de escolha mude, percebe-se aqui outro ponto em comum
nas duas formulações: em ambas, o problema da seleção, da ação social como um problema da
Dica escolha realizada pelo ator, possui centralidade. Enquanto para a Escolha Racional o problema da
seleção se refere ao cálculo da conduta mais eficiente e, para tanto, coloca-se o problema da se-
Para aprofundar os
estudos da unidade, leção das informações, para Parsons o problema sociológico se coloca quando está posto o pro-
sugerimos assistir ao blema da seleção entre certas formas de orientação cognitiva, catética e avaliativa, algumas das
filme “Eles não usam quais mais apropriadas para a convivência social.
Black-Tie”. A obra nacio- Diferentemente da Escolha Racional, para Parsons, a sociedade somente é possível, pois
nal é de 1981. É baseada existe um “a priori” entre indivíduos, ou seja, uma convergência nos processos de discrição de
em uma peça teatral de
cunho sociopolítico. certos objetos (cognição), de atribuição de significados (catecsia) e escolha de uma conduta mo-
ralmente aceitável (avaliação). Qual seria a origem desses processos não é um problema a ser in-
vestigado pela sociologia, para Parsons. Se a vida em sociedade existe é porque há a convergên-
cia desses processos, mesmo que eles mudem com o tempo. Já para a escolha racional, o critério
utilizado na seleção é em si o eixo explicativo de toda teoria, a eficiência instrumental da escolha.
No entanto, dados os fins diversos e as múltiplas formas de dispor dos meios, não haveria nenhu-
ma garantia de que as orientações fossem as mesmas.
Mas, como dito anteriormente, posto dessa forma, o problema da escolha da conduta mais
eficiente se torna praticamente insolúvel. A complexidade do cálculo que cada ator teria de reali-
ATIVIDADE zar em relação às inúmeras possibilidades de ação dos demais atores tornaria o esforço de busca
de informação e cálculo de custos e benefícios para cada uma das opções não apenas muitíssi-
Faça uma pesquisa
sobre a biografia dos mo trabalhosa como marcada por enorme incerteza. Nesse caso, pode se tornar racional simples-
autores Jon Elster Erick mente escolher uma norma de conduta, um padrão de comportamento preestabelecido, evitan-
Olin Wright e Adam do a necessidade do cálculo.
Przeworski e discuta Posto de outra forma, se o fim é escolher o curso de ação mais eficiente, é perfeitamente ra-
com seus colegas a con-
cional adotar uma conduta orientada por uma norma. Se há um grau de incerteza muito alto so-
tribuição desses autores
neomarxistas para a bre a conduta a ser seguida pelos demais atores, não será racional gastar uma quantidade enor-
teoria das classes sociais me de tempo e esforço buscando as informações disponíveis e realizando um cálculo de custos
em Karl Marx. Os deba- e benefícios. Se o resultado esperado entre as diferentes opções é marcado por enormes incerte-
tes devem ser feitos no zas, é devido à dada a magnitude de possibilidades do comportamento de cada ator envolvido.
fórum de discussão.
Dito ainda de uma terceira forma, não é racional parar para buscar todas as informações dispo-
níveis e calcular todas as implicações para o conjunto dos diversos cursos de ação, seu e dos de-
mais atores, quando não é possível construir expectativas sobre o comportamento de ninguém?

A unidade elementar da vida social é ação humana individual. Explicar as insti-


tuições sociais e mudança social é mostrar como elas surgem como resultado da
ação e interação de indivíduos. Essa visão, com frequência, chamada de indivi-
dualismo metodológico, é, em minha opinião, trivialmente verdadeira. (...) Um
esquema simples para estudar uma ação é vê-la como resultado final de duas
operações filtradoras sucessivas. Começamos com um grande conjunto de to-
das as ações abstratamente possíveis que um indivíduo poderia empreender. O
primeiro filtro é constituído por todas as coerções físicas, econômicas, legais e
psicológicas com que o indivíduo se depara. As ações consistentes com essas
coerções formam seu conjunto de oportunidade. O segundo filtro é um meca-
nismo que determina qual ação do conjunto de oportunidades será de fato exe-
cutada (ELSTER, 1994, p.29).

Assim, uma solução eficiente para esse problema pode ser a de escolher normas que tor-
nem a seleção mais ágil. A racionalidade do processo de escolha guiado por normas em situa-
ções de alta incerteza é admitida por Elster, em Peças e Engrenagens das Ciências Sociais, livro
que foi a base de elaboração desta seção.

Referências
ELSTER, Jon. Peças e engrenagens das ciências sociais. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1994.

____________Marx Hoje. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1989.

LALLEMENT, Michael. História das ideias sociológicas: de Parsons aos contemporâneos. Petró-
polis: Vozes, 2004.

34
Ciências Sociais - Sociologia IV

PRZEWORSKI, Adam. Capitalismo e Social-Democracia. São Paulo: Cia das Letras, 1989.

REIS, Bruno. Classes sociais e a lógica da ação coletiva. Revista Dados, 1991.

SANTOS, José Alcides Figueiredo. O esquema de classes neomarxista de Erik Olin Writght. In A
Estrutura de Posições de Classe no Brasil. BH: UFMG; RJ: IUPERJ, 2002.

35
Ciências Sociais - Sociologia IV

Unidade 3
As contribuições de Elias, Giddens
e Bauman, para a compreensão
das sociedades contemporâneas
Daniel Coelho de Oliveira

3.1 Introdução
Nesta unidade vamos destacar o espaço conquistado por inúmeros sociólogos nas últimas
décadas. O crescente número de publicações sociológicas pode revelar, entre outras coisas, a ca-
pacidade explicativa que essas teorias têm fornecido para os fenômenos da contemporaneidade,
tais como a intensificação das atividades globais em várias esferas, que se convencionou chamar
de globalização; e, paralelamente, o surgimento do mapa global com fronteiras mais rígidas, pro-
vocadas pelo reforço de identidades locais e regionais. Nota-se a elevação das trocas econômicas
e a metamorfose de uma sociedade que, para alguns, não pode ser chamada de “sociedade da
produção”, mas passa a ser sociedade do consumo, sociedade das relações “fluidas”. Já as mudan-
ças nas formas de solidariedade envolvem mais do que a criação de indivíduos racionais e egoís-
tas; surgem novas formas de solidariedade, como as redes de relacionamentos permeadas por
infinitas ligações.
Na atual Unidade, será possível trabalhar com um número restrito de autores que se con-
frontaram com os fenômenos contemporâneos. Por isso, optou-se por apresentar, nesta última
Unidade, o pensamento de três eminentes sociólogos: Norbert Elias, Anthony Giddens e Zyg-
munt Bauman. Vocês notarão que a lucidez e a originalidade de suas teorias são razões mais do
que suficientes para justificar suas escolhas.

3.2 Sociologia de Norbert Elias


Norbert Elias, autor tardiamente reconhecido na sociologia, nasceu em Breslau, em 1897,
hoje Wroclaw, na Polônia, e morreu em Amsterdam, em 1990. Estudou medicina, filosofia e psi-
cologia. De família judaica, foi obrigado a fugir da Alemanha nazista, exilando-se em 1933 na
França, antes de se estabelecer na Inglaterra, onde passará grande parte de sua carreira. Elias
permaneceu durante um longo período como um autor marginal, tendo sido redescoberto nas
últimas décadas. Atualmente é considerado um dos grandes pensadores da sociologia.
Inserido em uma Alemanha prestes a conhecer o domínio Nazista, Elias acreditava que um
de seus deveres como cientista era lutar contra o grande número de informações equívocas na-
quela sociedade. Em sua visão, o sociólogo deveria levantar o véu das mitologias que estão pre-
sentes na visão da sociedade, com objetivo de levar as pessoas a agirem de maneira mais sensa-
ta. Em suma, sua missão como sociólogo consistia em desmistificar a realidade e caçar mitos.
Além de se afastar dos mitos, segundo Elias, o pensamento sociológico possui duas caracte-
rísticas específicas: o distanciamento e o engajamento. Como em toda ciência, o rigor científico
do sociólogo depende do afastamento das ideias preconcebidas, além do fato de seu “objeto” ser
também “sujeito”, ou seja, que possuem representações em sua vida, diferentemente, por exem-
plo, de partículas de uma fórmula química. Em segundo lugar, podemos dizer que o pesquisador
faz parte do seu objeto de estudo. Seu engajamento é necessário para compreender a forma de
organização e funcionamento de grupos sociais.

37
UAB/Unimontes - 4º Período

3.2.1 Norbert Elias e a sociologia figuracional

Norbert Elias criou uma abordagem denominada “sociologia figuracional”, que parte do
princípio de que o surgimento das configurações sociais são consequências inesperadas das
interações sociais. Conforme Elias (1994), o conceito de “configuração” ressalta as ligações entre
mudanças na organização estrutural da sociedade e transformações na estrutura de comporta-
mento e na constituição psíquica. O autor pretende, assim, escapar da histórica dicotomia so-
ciológica: indivíduo versus sociedade. Na visão de Elias, a sociedade está sempre em mudança
estrutural, o que leva a um equilíbrio sempre tenso entre suas partes. Dentro do debate sobre
configuração também se inserem os jogos de distinção social e o controle de impulsos.
Na obra o “Processo Civilizador”, Elias (1994) levanta alguns questionamentos iniciais: quais
foram as causas ou forças que motivaram o processo civilizador ocidental? Como ocorreu essa
mudança? Em que constituiu?
Imaginemos que qualquer um de vocês que estão lendo este texto fosse transportado aos
tempos passados, em sua própria sociedade. Certamente notariam um modo de vida muito dife-
rente do seu, alguns costumes provavelmente causariam horror, enquanto outros, curiosos, atrai-
riam a sua atenção. Em outras palavras, vocês chegariam à conclusão de que a sociedade dos seus
antepassados não era “civilizada” no mesmo sentido e no mesmo grau que a sociedade ocidental
moderna. Elias (1994) entende que os caminhos tomados pelo processo civilizador dependem da
mudança na balança entre coerção externa e autocoerção, com prevalência da última.
Inicialmente, Elias (1994) examina os significados atribuídos ao conceito de “civilização” na
Alemanha e na França, para, em seguida, abrir caminho à compreensão do processo psíquico ci-
vilizador. Através de inúmeros exemplos, é possível observar como o padrão de comportamento
humano gradualmente muda em uma direção específica. Por exemplo, a mudança específica nos
sentimentos de vergonha e delicadeza desempenha um importante papel no processo civiliza-
dor. O autor pretende dizer que há diferenças no tipo e estágio do processo civilizador que as
sociedades ocidentais atingiram.
No segundo volume de sua obra o “Processo Civilizador”, Elias (1994) procura entender
como se formou a estrutura que hoje nós chamamos de “Estado”. Em outras palavras, ele busca
estabelecer a correlação entre processo de individualização e formação dos Estados Nacionais,
ou seja, entre mudança em longo prazo nas estruturas da personalidade e a transformação de
longa duração na sociedade como um todo. De acordo com Elias, a estrutura do “comportamen-
to civilizado” está inter-relacionada com a organização das sociedades ocidentais sob a forma de
Estados. Conforme argumenta Vianna (2005), ao criar seu modelo analítico, Elias não pensava o
processo de civilização como se as noções de “evolução” ou “desenvolvimento” implicassem num
progresso automático.

Não fui orientado nesse estudo pela ideia de que nosso modo civilizado de com-
portamento é o mais avançado de todos os humanamente possíveis, nem pela
opinião de que a ‘civilização’ é a pior forma de vida e que está condenada ao de-
saparecimento. Tudo o que se pode dizer é que, com a civilização gradual, surge
certo número de dificuldades especificamente civilizacionais (ELIAS, 1994, p. 18)

Elias (1994) é enfático ao dizer que não pretende apresentar o “modo” ocidental de viver
como o mais avançado, nem que a “civilização” é a pior forma de vida e que está condenada ao
desaparecimento. Segundo ele, devemos levar em consideração que as estruturas de personali-
dade e sociais não serão consideradas como se fossem fixas, mas em constante mutação.
Em sua obra “Os Alemães”, Elias (1997) estuda os processos sociais de longa duração. Para
isso, ele procura entender a construção e o colapso da civilização alemã. Como ponto de partida,
ele analisa as características que permitiram a supremacia do Sacro Império Romano-Germânico
formado no século X sobre os demais Estados europeus. Enquanto muitos Estados vizinhos esta-
vam se transformando em monarquias centralizadas e internamente pacificadas, o Sacro Império
manteve uma frágil integração. A partir dessa primeira caracterização, Elias constrói um quadro
de fragilidades da nação germânica.
A forma como é realizado o relato da história alemã não apresenta novidades. A inovação
na obra de Elias diz respeito à natureza das consequências provenientes desse processo histórico
para o entendimento da Alemanha, como um todo; e da catástrofe nazista, em particular. As con-
sequências estão ligadas à formação de um “habitus” característico da nação alemã. O principal
objetivo de Elias é o de entender como a história de uma nação, ao longo dos séculos, sedimen-
tou-se no habitus de seus membros considerados individualmente (FAUSTO, 1998).
38
Ciências Sociais - Sociologia IV

Em Elias (1994), habitus é entendido como um saber incorporado, pensado com o objetivo
de contornar a dicotomia entre indivíduo/sociedade. Habitus compreende, portanto, os compor-
tamentos individualizados e os partilhados pelos membros dos grupos. Elias (1994) ressalta que,
apesar do conceito de habitus remeter ao passado, ele não se caracteriza como algo fixo ou está-
tico, mas é mutável com o passar do tempo.
Elias (1997) destaca que, no processo histórico alemão, em contraste com outros países eu-
ropeus como a França, a Alemanha tomou o rumo da fragmentação; o resultado foram sinais de
depressão e perda de identidade no habitus dos membros da sociedade germânica. Com essas
características, o habitus, transmitido de geração em geração, produziu no povo alemão um forte
desejo de unidade, que surgiu recorrentemente na Alemanha em situações de crise. A autoima-
gem de que os alemães não eram capazes de conviver sem discórdias e disputas encontrou ex-
pressão no sonho de encontrar um soberano ou um líder poderoso, capaz de produzir a unidade
e o consenso, expresso na figura de Hitler. Na visão elisiana, o ressentimento, o sentimento de
inferioridade na hierarquia dos Estados europeus tiveram sua contrapartida na ênfase exagera-
da posta na interiorização do sentimento de grandeza e do poder da nação alemã. A partir des-
se quadro, podemos perceber em que características de longa duração se assentam o nazismo.
Portanto, se Hitler triunfou ao destruir a República de Weimar, foi porque ele foi capaz de apelar
às massas e mobilizá-las, em uma situação de crise econômica e social. Apresentando-se como
um homem do povo e um simples cabo do Exército, Hitler construiu eficientemente sua imagem
simbólica de representante da “raça alemã”, oferecendo um mundo de glória e dominação para
todos os setores da sociedade dispostos a segui-lo (FAUSTO, 1998).

◄ Figura 23: Poder da


nação alemã
Fonte: Disponível em
<www.elbiomeireles.
blogspot.com.br>. Acesso
em 11 fev. 2010.

Por trás dos conceitos de figuração e habitus, é possível entender que existe na história re-
lações de poder. Nas várias figurações históricas, a mudança e a permanência de determinados
habitus são estabelecidas pela capacidade de imposição e aceitação. O tema poder é recorrente
em diversas obras de Elias. Veremos agora como essa abordagem aparece em sua obra Os Esta-
belecidos e os Outsiders.

3.2.2 Alguns são estabelecidos; outros, outsiders

O livro “Os Estabelecidos e os Outsiders” é fruto de uma pesquisa realizada por Norbert Elias
e John Scotson, no fim da década de 1950, em uma pequena comunidade batizada de Winston
Parva. Única obra etnográfica de Elias foi resultado de aproximadamente três anos de trabalho
de campo. O estudo combina dados de diversas fontes: estatísticas oficiais, relatórios governa-
mentais, documentos jurídicos e jornalísticos, entrevistas e, principalmente, “observação partici-
pante”. Os autores destacam que o interesse inicial da pesquisa era estudar os índices de crimes
juvenis; no decorrer da pesquisa, ocorreu o deslocamento do problema da delinquência para o
problema mais geral, que era a relação entre os diferentes bairros da localidade.

39
UAB/Unimontes - 4º Período

Em Winston Parva havia duas áreas de residência operária. À primeira vista era impossível
distinguir as duas zonas, pois, conforme tipo de renda, tipos de ocupação profissional, aparência
das moradias, nada parecia diferente. Porém, a comunidade periférica mostra uma nítida divisão,
em seu interior, entre um grupo “estabelecido” desde longa data e um grupo mais novo de resi-
dentes, cujos moradores eram tratados pelos primeiros como “outsiders”. O fato de o estudo ser
realizado em uma pequena localidade não minimiza sua contribuição para o campo sociológico.
Dica “...nessa pequena comunidade, depara-se com que parece ser uma constante
Um bom exemplo histó- universal em qualquer figuração de estabelecidos-outsiders: o grupo estabeleci-
rico da constituição de do atribuía a seus membros características humanas superiores.” (ELIAS & SCOT-
grupos estabelecidos SON. 2000, p. 20).
e Outsiders ocorreram
com a Apartheid na No caso de Winston Parva, a segregação entre os grupos era alimentada por meios de con-
África do Sul. O ícone da
luta por igualdade de trole social, como a fofoca elogiosa [praise gossip], para todos os membros do grupo estabeleci-
direitos entre brancos do; e a fofoca depreciativa [blame gossip], para os outsiders. No entanto, observando a história da
e negros foi o Nobel da humanidade, podemos notar várias maneiras de criar o “carisma grupal”, para o próprio grupo;
Paz Nelson Mandela. e a “desonra grupal”, para os demais. O caso indiano é um exemplo. A legislação estatal da Ín-
Para saber mais sobre o dia aboliu a posição de párias dos antigos intocáveis, mas as castas superiores, especialmente no
Apartheid sul-africano,
assista o filme “Invictus”. meio rural, resistem em manter contato com estes. No caso da escravidão se vê algo semelhante.
A mudança da legislação proibindo tal prática não impediu a extinção do sentimento de valor
humano superior dos descendentes de senhores de escravos, nem a sensação de inferioridade
dos descendentes de escravos.

Figura 24: Nelson 


Mandela
Fonte: Disponível em
<www.learntoquestion.
com/seevak/groups/2002/
sites/mandela/visual/BIG-
-mandela18.jpg>. Acesso
em 25 mar.2010.

O poder de impor um sentimento de superioridade, do grupo que estava estabelecido há


muitos anos em Winston Parva, em grande medida era baseado na coesão entre as famílias. Elas
se conheciam há duas ou três gerações, havia laços já consolidados, situação não visível no bair-
ro onde as famílias eram recém-chegadas. Com isso, tal grupo ocupava posições estratégicas nos
diversos espaços de sociabilidade. “Um grupo só pode estigmatizar outro com eficácia quando
está bem instalado em posições de poder das quais o grupo estigmatizado é excluído.” (ELIAS &
SCOTSON. 2000, p.23). Na opinião dos autores, observa-se, em Winston Parva, figurações mutá-
veis. É possível que, quando um grupo de menor poder diminua as disparidades de força, sua ati-
tude seja de retaliar os grupos anteriormente dominantes, em outras palavras, apelar para con-
traestigmatização.
Os grupos que, por várias gerações permaneceram no poder, sentem dificuldades quando
perdem poder e prestígio, pois eles não conseguem se desvencilhar da “fantasia grupal” criada
nos bons tempos. Na visão dos autores, por algum tempo, o escudo fantasioso de seu carisma
imaginário como grupo estabelecido e dominante pode ser suficiente para um grupo em declí-
nio seguir em frente com um pouco de prestígio.
Outra forma de observar a segregação entre dois grupos é verificada através dos nomes que
um grupo denomina o outro. Nomes de grupos que estão numa situação de outsiders trazem
em si, até mesmo para os ouvidos de seus membros, implicações de inferioridade e desonra.
“Criolo”, “papa-hostia”, “farofeiro” são alguns dos nomes entre inúmeros outros utilizados para in-
feriorizar grupos sociais. O desequilíbrio de poder entre dois grupos sociais é mensurado pela in-

40
Ciências Sociais - Sociologia IV

capacidade dos grupos outsiders retaliarem com termos equivalentes para se referirem ao grupo
estabelecido.
A obra de Elias é rica e extensa, várias livros já foram traduzidos para o português. Entre os
textos publicados aqui no Brasil, destaca-se: “Mozart: Sociologia de um Gênio”. Nesse livro, Elias
aplica seu poder de percepção para analisar o conflito entre a criatividade pessoal de Mozart e
o controle exercido pela sociedade da época. O excelente trabalho sobre o gênio da música clás-
sica é uma boa oportunidade para conhecer o relacionamento entre arte e sociedade no século
XVII. Em “A Solidão dos Moribundos”, o autor aborda a dificuldade que temos em encarar a mor-
te, tendo em vista que a morte está cada vez mais asséptica e solitária, porque os saudáveis não
são mais capazes de transmitir afeto neste momento.

3.3 Anthony Giddens e Zigmunt


Bauman
Passaremos agora à análise de importantes sociólogos contemporâneos: Anthony Giddens
e Zygmunt Bauman. Daremos destaque à análise dos fenômenos da globalização e modernidade
presentes na obra desses autores. Verifica-se hoje que a utilização em demasiado de alguns con-
ceitos nem sempre vem acompanhada de claras definições conceituais. Nesse sentido, um dos
objetivos deste capítulo é de resgatar estes temas através da abordagem realizada por ilustres
pensadores.

Sociologia de Anthony Giddens


Anthony Giddens nasceu em 1938, na Inglaterra.
Giddens pode ser considerado um dos mais renoma- ◄ Figura 25: Anthony
dos sociólogos da atualidade. Além de professor da Giddens
Universidade de Cambridge, foi director da London Fonte: Disponível em
School of Economics (LSE). Diferente de Norbert Elias, <http://pt.wikipedia.org/
wiki/AnthonyGiddens>.
Giddens concentra a maior parte de suas energias em Acesso em 15 abr. 2010.
abordagens teóricas.
A sociologia de Giddens pode ser dividida em
três grandes temas. Primeiro, é possível notar uma
tentativa de reconstrução da teoria social. Verifica-se
também que o autor objetiva reinterpretação, o que
se convencionou chamar de modernidade, e por últi-
mo a tentativa de reformulação de uma Teoria Crítica
da política. O último tema não será analisado nesta
disciplina.
Assim como os autores clássicos na sociologia, Anthony Giddens tenta construir uma teoria
para compreender as relações sociais e o funcionamento da sociedade em geral. Sua perspectiva
propõe recolocar novos termos sobre o clássico embate da sociologia entre “estrutura” e “ação”. A
preocupação central do autor se refere à determinação da dualidade estrutural, ou seja, a ação
cria as estruturas, e ao mesmo tempo a ação só acontece nas estruturas. Da mesma forma que
ela constrange a estruturas, também facilita a organização delas. Por isso, a intencionalidade e
reflexividade são características de toda ação.
O agir dos indivíduos, ou seja, a capacidade de fazer coisas, ocorre devido à manutenção
das relações sociais através da rotina. A continuidade das práticas sociais depende da reflexivida-
de e esta só é possível devido à continuidade das práticas que as tornam nitidamente as mesmas
através do tempo e do espaço. A reflexividade se assenta no monitoramento contínuo da ação
que os indivíduos exibem, esperando sempre o mesmo dos outros. Nesse sentido, o monitora-
mento reflexivo da atividade humana é uma característica da ação cotidiana, que envolve a con-
duta do indivíduo “eu” e dos outros “nós”. Giddens acredita que a estrutura é um conjunto de
regras e recursos que permite o controle de coisas e controle de pessoas. A estrutura está fora do
tempo e do espaço, sendo marcada pela ausência do sujeito. O termo estruturação representa,
na obra de Giddens, a condição que governa a continuidade ou transformação das estruturas e,
portanto, a reprodução dos sistemas sociais. (LEME, 2006).

41
UAB/Unimontes - 4º Período

3.3.1 Análise de Giddens sobre a modernidade

Na visão de Giddens, a modernidade se alicerça em “dimensões institucionais” ou “feixes or-


ganizacionais”, que relacionam e estabelecem várias conexões entre si. Giddens descreve quatro
tipos: 1º) Vigilância, responsável pelo controle da informação e supervisão social; 2º) Capitalismo,
que permite acumulação de capital no contexto de trabalho e mercado de produtos competiti-
vos; 3º) Industrialismo, a partir do qual ocorre a transformação da natureza: desenvolvimento do
“ambiente criado”; 4º) Poder militar, respaldado no controle dos meios de violência.
As dimensões institucionais da modernidade estão envolvidas nas três fontes de dinamismo
da modernidade: distanciamento do tempo-espaço, desencaixe e reflexividade. Vejamos do que
trata cada uma delas.

3.3.2 Relação tempo-espaço

Giddens (1991) nos alerta que, para compreender as transformações no tempo e espaço
que aconteceram na modernidade, é necessário fazer um contraste com relação ao papel que o
tempo possuía no período pré-moderno.
Todos nós sabemos que o hábito de calcular o tempo é tão antigo quanto à humanidade;
porém, nas sociedades pré-modernas, a população vincula tempo e lugar. Giddens aponta a in-
venção do relógio mecânico e sua difusão por volta do final do século XVIII como um marco na
separação entre o tempo e espaço. O relógio que usamos diariamente expressa um tempo “va-
zio”, que permite designar “zonas” do dia, como, por exemplo, a “jornada de trabalho”.

O ‘esvaziamento do tempo’ é em grande parte a pré-condição para o ‘esvazia-


mento do espaço’ e tem assim prioridade causal sobre ele (...) O desenvolvimento
do ‘espaço vazio’ pode ser compreendido em termos de separação entre lugar e
espaço (GIDDENS, 1991, p.26).

Conforme Giddens (1991), a separação entre


tempo e espaço é crucial para o dinamismo da mo-
dernidade. Dois motivos são apontados. Primeiro, por
ela ser a principal condição do processo de desen-
caixe, em que a separação entre tempo e espaço na
dimensão padronizada “vazia” penetra nas conexões
entre a atividade social e seus “encaixes”. Em segundo
lugar, é através dela que se proporcionam os meca-
nismos de engrenagem para aquele traço distintivo
da vida social moderna, a organização racionalizada.
Estamos aqui falando das organizações modernas
descritas por Max Weber. Vocês já estudaram que,
para Weber, a burocracia moderna está associada a
certo dinamismo, que contrasta com as formas de or-
ganização das sociedades pré-modernas.

Figura 26: Relógio
Fonte: Disponível em 3.3.3 Desencaixe da modernidade
<www.deconcreto.files.
wordpress.com/2006/11/
relogio.jpg>. Acesso em 26
mar. 2010.
Além da análise da relação tempo-espaço, a definição de desencaixe adotada por Giddens
(1991) é essencial para se entender a modernidade, em suas palavras “Por desencaixe me refi-
ro ao ‘deslocamento’ das relações sociais de contextos locais de interação e sua reestruturação
através de extensões indefinidas de tempo-espaço.” (GIDDENS, 1991, p.39). O autor ressalta que,
em geral, os sociólogos utilizam os conceitos de “diferenciação” e “especialização” funcional para
explicar a transição do mundo tradicional para o mundo moderno; contudo, esses conceitos não
são adequados para lidar com a vinculação do tempo e espaço nos sistemas sociais. Na concep-
ção de Giddens, há dois mecanismos de desencaixe presentes nas instituições sociais modernas:
as fichas simbólicas e os sistemas peritos.

42
Ciências Sociais - Sociologia IV

Na visão de Giddens (1991), as fichas simbólicas são meios de intercâmbio e circulação que
não estão ligados às características específicas dos indivíduos ou grupos que lidam com eles. Um
exemplo de ficha simbólica é o dinheiro.

“O dinheiro, pode-se dizer, é um meio de retardar o tempo e assim separar as


transações de um local particular de troca. Posto com mais acurácia, nos termos
anteriormente introduzidos, o dinheiro é um meio de distanciamento tempo-es-
paço. O dinheiro possibilita a realização de transações entre agentes amplamen-
te separados no tempo e no espaço.” (GIDDENS, 1991, p.32).

Todos nós sabemos que, atualmen-


te, o dinheiro se tornou independente dos ◄ Figura 27: Cartões de
meios pelos quais ele é representado, as- crédito
sumindo a forma de uma informação de Fonte: Disponível em
números armazenados no computador. Os <www. queroficarrico.
com/blog/tag/cartao-de-
cartões de crédito exemplificam bem as -credito>. Acesso em 26
transformações desencadeadas pelas Fi- mar. 2010.
chas Simbólicas.
Uma característica comum às fichas
simbólicas e aos sistemas peritos é que am-
bos dependem da “confiança” depositada
neles. Por exemplo, qualquer um que use
fichas monetárias o faz confiando em que
outros, os quais ele ou ela nunca conhece,
honrem seu valor. “A confiança, em suma, é uma forma de ‘fé’ na qual a segurança adquirida em
resultados prováveis expressa mais um compromisso com algo do que apenas uma compreen-
são cognitiva” (GIDDENS, 1991, p.35).
O que seria sistemas peritos? Quando cada um de nós sai de carro para o trabalho ou pega-
mos um ônibus para escola, certamente entendemos muito pouco sobre os princípios que estru-
turam o funcionamento desses veículos. Ao atravessar uma ponte, não conhecemos as técnicas
utilizadas pelos engenheiros em sua construção. No entanto, existe uma “fé” que o projeto do
carro foi bem executado, ou mesmo na perícia do engenheiro responsável pela construção da
ponte. Giddens (1991, p. 35) define sistemas peritos nos seguintes termos. “Por sistemas peritos
quero me referir a sistemas de excelência técnica ou competência profissional que organizam
grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos hoje”.
Nós estamos cercados por sistemas peritos, ao procurar um advogado, médico, engenheiro,
etc., nós depositamos nossa confiança no conhecimento perito de cada um desses profissionais.
Para exemplificar a situação, vamos imaginar o caso da aviação civil, em que tudo está permeado
de sistemas peritos, desde mecânica dos aviões, o controle dos pilotos, os profissionais que tra-
balham com tráfego aéreo. Quando acontece um acidente, todo sistema é questionado, porque
abala a “fé” que as pessoas possuem nesse complexo sistema, cheio de conhecimento perito.
Na visão de Giddens, os sistemas peritos são mecanismos de desencaixe, porque removem
as relações sociais de intermediação de contexto. Para um leigo em engenharia mecânica ou car-
diologia, a confiança não depende nem de uma iniciação nesses processos nem do domínio do
conhecimento que eles produzem, ela passa a ser um artigo de “fé”.

◄ Figura 28: Acidente


aéreo
Fonte: Disponível em
<www.jn.sapo.pt/Pagi-
naInicial/Mundo/Interior.
aspx?content_id=1153>.
Acesso em 06 abr. 2010.

43
UAB/Unimontes - 4º Período

3.3.4 Reflexividade da vida moderna

É possível dizer que a ideia de modernidade se contrasta com o que se entende por tradi-
cional, mesmo que, em algumas situações, ambos possam estar entrelaçados. Em uma cultura
tradicional, por exemplo, o passado é honrado e os símbolos valorizados. “Ela é uma maneira de
lidar com o tempo e o espaço, que insere qualquer atividade ou experiência particular dentro da
continuidade do passado, presente e futuro...” (GIDDENS, 1991, p.44). Por outro lado, não é possí-
vel dizer que a tradição é estática, já que a cada geração ela é reinventada.
A tradição está envolvida com o controle do tempo. Conforme Giddens (1997) a tradição é
uma orientação para o passado, de tal forma que o passado tem uma pesada influência sobre o
presente. Em certo sentido, a tradição também diz respeito ao futuro, pois as práticas estabele-
cidas são utilizadas como uma maneira de se organizar o tempo futuro. A tradição está ligada
à “memória coletiva”, envolve ritual, está vinculada ao que ele denomina de “noção formular de
verdade” e, ao contrário do costume, possuiu uma força de união que combina conteúdo moral e
emocional. O ritual reforça a experiência cotidiana e refaz a liga que une a comunidade, mas ele
tem uma esfera e linguagem próprias e uma “verdade em si”, isto é, uma “verdade formular”.
Na visão de Giddens (1991), a reflexividade assume um caráter diferente com o advento da
modernidade e passa a inserir-se na base de reprodução do sistema, em que pensamento e a
ação estão constantemente refratados entre si.

“A reflexividade da vida social moderna consiste no fato de que as práticas so-


ciais são constantemente examinadas e reformadas à luz de informações renova-
das sobre estas próprias práticas, alterando assim constitutivamente seu caráter.”
(GIDDENS, 1991, p. 45).

Dessa forma, podemos entender que a modernidade não é marcada


por uma busca constante pelo novo, mas sim pela busca da suposição da
reflexividade indiscriminada.
Para Giddens, a modernidade é essencialmente globalizante. “Na era
moderna, o nível de distanciamento tempo-espaço é muito maior do que
qualquer período precedente (...). A globalização se refere essencialmen-
te a este processo de alongamento...” (GIDDENS, 1991, p. 69). Globalização
em sua visão é um processo de intensificação das relações sociais em es-
cala mundial, que conectam localidades distantes de tal forma que acon-
tecimentos locais são modelados por eventos ocorrendo a quilômetros de
distância e vice-versa. A figura abaixo releva o quanto as transformações
tecnológicas “diminuíram” as distâncias nos últimos séculos.
Para caracterizar o fenômeno da modernidade, Giddens (1991) utiliza
a metáfora do “Carro de Jagrená”. O carro faz parte da mitologia hindu. O
termo se origina da palavra Jagannalh, “senhor do mundo”, e é um título
de Krishna. Um ídolo desta deidade era levado anualmente pelas ruas num
grande carro, sob cujas rodas, conta-se, atiravam-se seus seguidores para
serem esmagados. A metáfora do Carro de Jagrená apresenta a moderni-
dade como um período de grandes riscos, como um veículo desgoverna-
do, o qual não é possível controlar, mas também não temos como “pular
fora”. Em suma, Giddens(1991) diz que a modernidade é

... uma máquina em movimento de enorme potência que, coletivamente como
Figura 29: Redução das seres humanos, podemos guiar até certo ponto, mas que também ameaça esca-
distâncias. par de nosso controle e poderia se espatifar (...). A viagem não é de modo algum
Fonte: Disponível em inteiramente desagradável ou sem recompensas; ela pode com frequência ser
<www.irisgeoeeepmjas. estimulante e dotada de espantosa antecipação (GIDDENS, 1991, p. 40).
blogspot.com/2009/08/
trabalhando-aula-06-do-
-projeto-primeiro_3836. Giddens nega a existência da pós-modernidade, houve uma intensificação das relações mo-
html>. Acesso em 04 mai. dernas. Segundo ele, muitos fenômenos frequentemente rotulados como pós-modernos na ver-
2010.
dade dizem respeito à experiência de viver num mundo em que a presença e ausência se com-
binam de maneiras historicamente novas. Vejamos abaixo um quadro que compara de forma
sintética as diferentes situações entre um mundo pré-moderno e as sociedades modernas.

44
Ciências Sociais - Sociologia IV

Quadro 4
Anotações sobre a modernidade na obra de Anthony Giddens
PRÉ-MODERNAS MODERNAS
Contexto geral: importância excessiva na con- Contexto geral: relações de con-
fiança localizada fiança em sistemas abstratos
AMBIENTE DE CONFIANÇA

1. Relações de parentesco: como um dispositivo 1. Relações pessoais de amizade


de organização para estabilizar laços sociais ou intimidade e sexual como meio
através do tempo-espaço. de estabilizar laços sociais.
2. A comunidade local como um lugar, fornecen- 2. Sistemas abstratos como meios
do um meio familiar. de estabilizar relações através de
3. Cosmologias religiosas como modos de cren- extensões indefinidas de tempo-
ças e práticas rituais fornecendo uma interpreta- -espaço.
ção providencial da vida humana e da natureza. 3. Pensamento orientado para o
4. Tradição como um meio de conectar presente futuro como um modo de conectar
e futuro; orientada para o passado em tempo passado e presente.
reversível.
1. Ameaças e perigos emanando da natureza, 1. Ameaças e perigos emanados da
como a prevalência de doenças infecciosas, reflexividade da modernidade.
AMBIENTE DE RISCO

insegurança climática, inundações ou outros 2. A ameaça de violência huma-


desastres naturais. na a partir da industrialização da
2. A ameaça de violência humana por parte de guerra.
exércitos pilhadores, senhores de guerras locais, 3. A ameaça de falta de sentido
bandidos ou salteadores. pessoal derivada da reflexividade
3. Risco de uma perda da graça religiosa ou de da modernidade enquanto aplica-
influência mágica maligna. da ao eu.
Fonte: SILVA, Antonio Ozaí. Revista Espaço Acadêmico, n. 47, abril de 2005.

Como vocês devem ter notado, Anthony Giddens apresentou uma interpretação singular
sobre as transformações que estão em curso na sociedade moderna. Agora passaremos a anali-
sar as considerações que o renomado sociólogo polonês Zygmunt Bauman possui sobre o perío-
do contemporâneo.

3.4 Zygmunt Bauman: entre a


fluidez e a solidez
Zygmunt Bauman nasceu em 1925, em Poznan, na Polônia. Estudou sociologia na Academia
de Ciências Sociais, em Varsóvia. Logo após, iniciou sua carreira acadêmica na mesma universida-
de. Após um período de perseguição nazista, mudou-se para Israel. Em 1971 foi para Inglaterra,
tornou-se professor da Universidade de Leeds, onde permanece até o momento.
Responsável por uma extraordinária produção intelectual, pode-se dizer que sua fama au-
mentou significativamente após a aposentadoria, em 1990. Nada menos que 16 de seus 25 li-
vros foram publicados após essa data. O autor recebeu o prêmio Amalfi, em 1989, pelo livro
Modernidade e Holocausto; e o prêmio Adorno, em 1998, pelo conjunto de sua obra. Os temas
abordados em seus livros são amplos e variados, vão desde o estudo do cotidiano de homens
e mulheres comuns ao holocausto, sociedade do consumo, amor, comunidade, modernidade e
globalização. Seus textos apresentam abordagens de diferentes fronteiras disciplinares. Bauman
é conhecido com um dos líderes da chamada “sociologia humanística”, ao lado de Peter Berger,
Thomas Luckmann e John O’Neill. Sua obra não é marcada por abstrações ou análises e levan-
tamentos estatísticos; mas, por outro lado, são encontradas ideias e teorias que nos auxiliam a
compreender a complexidade e a diversidade da vida humana. Devido à extensão de temas pre-

45
UAB/Unimontes - 4º Período

sentes em sua obra e às limitações de espaço presentes neste Caderno Didático, daremos ênfase
aos temas: modernidade e globalização. (PALLARES-BURKE, 2003)

3.4.1 A modernidade líquida

Para falar sobre a história da modernidade, Bauman (2001) utiliza a “fluidez” ou “liquidez”
como metáforas. Conforme o autor, os líquidos, diferentemente dos sólidos, não conservam sua
forma com facilidade, os fluidos não se atêm muito a qualquer forma e estão constantemente
prontos a mudar. Na visão do autor, estamos em um período com características diferentes dos
estágios iniciais da sociedade moderna, a que ele chama de “modernidade sólida”.
Na visão de Bauman (2001), duas características, no entanto, fazem a modernidade nova
e diferente. Uma é o declínio da antiga ilusão moderna: da crença de que existe um fim do ca-
minho em que andamos, como se houvesse um estado de perfeição a ser atingido amanhã, no
próximo ano ou no próximo milênio, algum tipo de sociedade boa, de sociedade justa e sem
conflitos. A segunda mudança é a desregulamentação e a privatização das tarefas e deveres mo-
dernizados. O que costumava ser considerada uma tarefa para a razão humana, vista como dota-
ção e propriedade coletiva da espécie humana, foi fragmentada.
Conforme Bauman (2001), a “individualização” nos tempos atuais significa uma coisa mui-
to diferente do que significava há cem anos, e do que implicava nos primeiros tempos da era
moderna – os tempos da exaltada “emancipação” do homem da trama estreita da dependência,
Dica da vigilância e da imposição comunitárias. A individualização traz para um número sempre cres-
cente de pessoas uma liberdade sem precedentes de experimentar, mas traz junto a responsa-
Entenda mais sobre o
assunto no livro “Amor bilidade de enfrentar as consequências. O fosso que se abre entre o direito à autoafirmação e a
líquido” de Zygmunt competência de controlar as situações sociais parece ser a principal contradição da “modernida-
Bauman. A obra tenta de fluida”.
investigar porque as Ao contrário do que ocorre na “modernidade fluida, uma das principais características da
relações humanas estão ‘modernidade sólida’ é a de que as ameaças para a existência humana eram muito mais eviden-
cada vez mais flexíveis,
gerando níveis de inse- tes”. Os perigos eram palpáveis e não havia muito mistério sobre o que fazer para neutralizá-los.
gurança que aumentam Os riscos de hoje são de outra ordem, muitos deles não se pode sentir ou tocar, apesar de estar-
a cada dia. mos todos expostos, em alguma medida, às suas consequências.

3.4.2 Globalização e suas consequências para humanidade

Globalização tornou-se uma palavra da moda. Na concepção de Bauman (1999), o termo re-
flete um destino irremediável, afeta todos nós. Para alguns, causa de felicidade; para outros, de
tristeza. Um das marcas da globalização é a intensificação do fluxo de informações, mercadorias
e pessoas. Mas a liberdade de movimento, por exemplo, não é distribuída de forma equitativa.
Isso quer dizer que alguns de nós fomos fixados na “localidade”, enquanto outros se tornaram
“globais”. Se as regras do jogo são fixadas pelos “globais”, estar preso a um lugar restrito se torna
algo desagradável. Estar preso a um local num mundo globalizado é sinal de privação e degrada-
ção social.
Bauman (1999, p. 13) utiliza a frase do célebre racionalizador da empresa moderna, Albert J.
Dunlap, para exemplificar a diferença de ocupação de espaço na empresa capitalista. “A compa-
nhia pertence às pessoas que nela investem – não aos seus empregadores, fornecedores ou à locali-
dade em que se situa”. A frase de Dunlap nos diz que empregados, fornecedores e acionistas estão
em posições distintas no mundo globalizado. Os empregados estão na localidade, presos pelas
obrigações familiares, da propriedade doméstica, não seguiriam a companhia, caso ela mude de
lugar. Os fornecedores, geralmente, estão na localidade, mas têm a vantagem de se deslocarem
assim que a companhia se mudar, mas seus suprimentos e matérias-primas permanecerão na lo-
calidade. Os acionistas são os únicos que não possuem ligação direta com o espaço. Não estão
“amarrados”, podem comprar qualquer participação em qualquer bolsa de valores, sem levar em
consideração a distância em que a companhia se encontra, pois ela está livre para se mudar e
encontrar o local onde o retorno financeiro é maior. As consequências das mudanças geralmente
são pagas pelos que ficam na localidade.

46
Ciências Sociais - Sociologia IV

As distâncias já não importam, ao passo que a ideia de uma fronteira geográfica


é cada vez mais difícil de sustentar no “mundo real”. Parece claro que as divisões
dos continentes e do globo como um todo foram função das distâncias, outrora
impositivamente reais devido aos transportes primitivos e às dificuldades de via-
gem (BAUMAN, 1999. p. 19).

O autor demonstra que a distância não


é um dado objetivo e impessoal, ela é um
produto social, sua extensão é diretamente ◄ Figura 30: Circulação
da Informação
proporcional à velocidade que ela pode ser
Fonte: Disponível em
vencida. Segundo Bauman (1999), a história <www.etutors-portal.
moderna é marcada pelo progresso cons- net/.../internet.jpg>. Aces-
tante dos meios de transporte, a circulação so em 23 abr. 2010.
de informação exerceu um papel muito im-
portante nessas mudanças. Hoje sabemos
que a informação se move independente-
mente dos seus portadores físicos.
Inicialmente o espaço moderno tinha
que ser rígido e sólido. Rodovias, aço, con-
creto representam muito bem esse cenário.
Atualmente observamos um novo espaço, o
cibernético, o advento da rede mundial de
informática. Os elementos desse espaço são
despojados de dimensões espaciais, mas
inscritos em um tempo instantâneo. Porém
esse fenômeno, ao invés de homogeneizar a
condição humana, desencadeou uma polarização.

Ela emancipa certos seres humanos das restrições territoriais e torna extrater-
ritoriais certos significados geradores de comunidade – ao mesmo tempo em
que desnuda o território, no qual outras pessoas continuam sendo confinadas”.
(BAUMAN, 1999, p.25).

O debate sobre a globalização não pode ser indiferente às alterações profundas que ocorre-
ram na relação tempo/espaço. Na visão de Bauman (2001), como já vimos, vivemos em um tem-
po instantâneo sem consequências. “Instantaneidade”, nesse caso, significa realização imediata,
“no ato” – mas também dissipação e desaparecimento do interesse.
As pessoas que hoje exercem poder de mando movem-se e agem com maior rapidez. Por
outro lado, há um grupo que não pode se mover tão rápido; são pessoas que não podem deixar
seu lugar quando quiserem. Nesse sentido, a dominação consiste em nossa própria capacidade
de escapar, de nos desengajarmos, de estar “em outro lugar”, e no direito de decidir sobre a ve-
locidade com que isso será feito. A batalha contemporânea da dominação é travada entre forças
que empunham, respectivamente, as armas da aceleração e da procrastinação. (Bauman 2001).
O conceito de procrastinação para Bauman (2001) deriva da sua definição moderna de tem-
po vivido como uma peregrinação, como um movimento que busca fixamente se aproximar de
um objetivo. Em tal tempo, cada presente é calculado por alguma coisa, alterações que vêm de-
pois. Qualquer valor que este presente aqui e agora possa ter não passará de um sinal premoni-
tório de um valor mais alto por vir. Em si mesmo, o tempo presente carece de sentido e de valor.
Uma busca dos meios que podem realizar o estranho feito de manter o fim dos esforços sempre
à vista sem nunca chegar lá, de trazer o fim cada vez mais para perto. A vida do peregrino é uma
viagem em direção à realização, mas “realização” nessa vida é equivalente à perda do sentido.
Viajar em direção à realização dá sentido, tem algo de um impulso suicida; esse sentido não pode
sobreviver à chegada ao destino, ao ponto “final”.

3.4.3 Nova era de consumo

Na concepção de Bauman (2001), a procrastinação tem uma grande utilidade para a cultura
do consumidor pela sua autonegação. A origem do esforço criativo não é mais o desejo, mas o
anseio induzido de encurtar o adiamento, acompanhado do desejo induzido de reduzir a dura-

47
UAB/Unimontes - 4º Período

ção da satisfação quando ela chega. A mudança para a sociedade de consumidores do presente
encadeou, portanto, uma alteração de ênfase mais que uma mudança de valores. E, no entanto,
levou o princípio da procrastinação ao ponto de ruptura. Esse princípio está hoje vulnerável e
perdeu o escudo protetor da proibição ética. O adiamento da satisfação não é mais um sinal de
virtude moral que todos os homens de bem devem buscar.
Vivemos hoje em uma sociedade de consumidores! A
sociedade moderna foi fundada sobre uma base de produ-
tores industriais. Uma grande massa de trabalhadores era
necessária no advento da revolução industrial, mas, na atua-
lidade há pouca necessidade de mão de obra industrial, em
vez disso, todos nós somos persuadidos a nos tornarmos
consumidores. Conforme Bauman (2008), todas as socieda-
des produzem e consomem, a diferença da antiga “socieda-
de de produtores” para nova “sociedade de consumidores” é
apenas de ênfase e prioridades. A ênfase no consumo pro-
voca uma enorme diferença, em todos os aspectos da vida
em sociedade. O consumidor na sociedade de consumo é
consideravelmente diferente de um consumidor das socie-
dades anteriores à nossa, ele é continuamente expostos às
novas “tentações”.
O consumidor é alguém que deve estar sempre em
movimento. Alguém que procura sempre acumular novas
sensações. A intensidade de consumo está diretamente li-
gada à capacidade que as empresas possuem em deixar os
 consumidores acordados, alertas, entre as inúmeras opções que são expostas, só não é possível à
Figura 31: Consumo opção de não escolher.
Fonte: Disponível em Como nas sociedades anteriores à nossa, a “sociedade de consumidores” é estratificada. Na
<www.miriamsalles. sociedade de consumo, o princípio da estratificação pode ser verificado pelo “grau de mobilidade”.
info/.../uploads/consumo.
jpg>. Acesso em 25 mai.
Para o primeiro grupo, que ele denomina de “turistas,” o espaço perdeu sua qualidade restritiva,
2010. tanto no mundo “real”, quanto “virtual”. Para o outro grupo, chamado pelo autor de “vagabundos”,
a localidade é amarrada, estão fadados a viver sempre na localidade onde estão presos. Tanto o
turista quanto o vagabundo são consumidores, mas, pela limitação de meios para acessar as op-
ções oferecidas pelo mercado, o vagabundo é um consumidor frustrado. (BAUMAN, 2008).
Dica
Compreenda mais sobre
o tema e o excesso da 3.4.4 O mundo fluido e os laços humanos
sociedade consumista
assistindo ao filme “Os
Delírios de Consumo de É importante avaliar o quanto a sensação de segurança afeta nosso ritmo de vida. De acordo
Becky Bloom”.
com Bauman (2001), na falta de segurança por longo prazo, a satisfação imediata parece uma
estratégia plausível. Quem sabe o que o amanhã vai trazer? Nas últimas décadas, nota-se que o
adiamento da satisfação perdeu seu fascínio. Hoje é altamente incerto que o trabalho e o esforço
investidos venham a contar como recursos quando chegar a hora da recompensa. Além disso,
Atividade será que os prêmios que hoje parecem atraentes serão tão desejáveis quando finalmente forem
conquistados? Todos nós aprendemos com amargas experiências, sabemos que os prêmios po-
Relacione os autores
citados na unidade e dem se tornar riscos de uma hora para outra. As modas vêm e vão com velocidade alucinante, to-
elabore um texto sobre dos os objetos de desejo se tornam obsoletos, indesejáveis e de mau-gosto antes que tenhamos
a Modernidade e as re- tempo de aproveitá-los.
lações sociais. Poste no Nessa mesma linha de raciocínio, entende-se que laços afetivos e amizades tendem a ser
fórum de discussão. vistos e tratados como coisas destinadas a serem consumidas, e não produzidas; estão sujeitas
aos mesmos critérios de avaliação de todos os outros objetos de consumo. Na sociedade de con-
sumo, os produtos duráveis são em geral oferecidos para um “período de teste”; a devolução do
dinheiro é prometida se o comprador não estiver satisfeito. Se o participante numa parceria é
“concebido” como um produto, então não é mais tarefa para ambos os parceiros “fazer com que a
relação funcione”, “na riqueza e na pobreza”, “na saúde e na doença”. É, em vez disso, uma questão
de obter satisfação de um produto pronto para o consumo; se o prazer obtido corresponder ao
padrão prometido e esperado, ou se a novidade se acabar junto com o prazer, pode-se entrar
com a ação de divórcio, com base nos direitos do consumidor. Não há qualquer razão para ficar
com um produto inferior ou envelhecido em vez de já que existem outros novos que são ofereci-
dos. (BAUMAN, 2001).

48
Ciências Sociais - Sociologia IV

Por vezes chamado de apocalíptico, ou pessimista, Bauman é um tipo de intelectual que


provoca sensações ambíguas após sua leitura. Ao mesmo tempo em que o leitor se assusta com
a descrição sobre nosso estilo de vida “pós-moderno” e os possíveis caminhos traçados pela hu-
manidade, ela é atraente e desperta a capacidade imaginativa de repensar a contexto social no
qual estamos inseridos.

Referências
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50
Ciências Sociais - Sociologia IV

Resumo
Unidade I
• A Escola de Frankfurt pode ser entendida como um grupo de pensadores associados ao Ins-
tituto de Pesquisa Social, preocupados em desenvolver uma Teoria Crítica da sociedade, a
partir de uma proposta interdisciplinar, utilizando os conhecimentos de diversas áreas das
ciências do homem.
• A agenda de discussão da Escola da Frankfurt pode ser definida de forma variada: os mais
variados temas foram tratados, analisados e teorizados pelos seus pensadores. O escopo da
discussão tem diversos focos, tais quais: cultura contemporânea, capitalismo monopolista
de Estado, indústrias de cultura, tecnologia e consumo.
• A base do pensamento Frankfurtiano é marxista, ainda que em alguns momentos tenha
procedido a uma crítica às teorias marxistas ortodoxas. Mais do que elaborar uma crítica
ao capitalismo avançado, a atualização do marxismo se deu também através do questiona-
mento de alguns preceitos, como o determinismo do materialismo histórico, com a introdu-
ção de elementos culturais como foco de análise da sociedade.
• A Teoria Crítica, que muitas vezes aparece como sendo a própria Escola de Frankfurt, ataca
frontalmente a racionalidade instrumental e o rumo tomado pelo Iluminismo, que, antes de
promover a liberdade dos homens, fez com que ele se tornasse “prisioneiro” da razão, atra-
vés do domínio sobre a natureza e dos próprios homens.
• O positivismo também é alvo de crítica dos pensadores de Frankfurt. Em a Dialética do Es-
clarecimento, Adorno e Horkheimer argumentaram que o desenvolvimento do capitalismo
levou à exploração de novas formas de conhecimento, e o positivismo promoveu a cons-
trução de instrumentos de dominação, através do desenvolvimento da razão e da ciência
enquanto “mitos”.
• A indústria cultural é a consequência lógica da produção capitalista e tem a capacidade de
promover a restrição do potencial crítico dos indivíduos. Os apelos da Indústria Cultural de-
senvolvem e reforçam o ajustamento e a obediência a partir de um estado de dependência
e o consumo de produtos da indústria cultural, ao contrário de que se possa imaginar, não é
uma escolha livre do consumidor, mas, em grande medida, determinado antecipadamente
na fase de fabricação dos produtos.
• A razão instrumental pode ser conceituada de forma objetiva como a ação que trata o ob-
jeto como meio e não como um fim em si mesmo, na medida em que é composta por ele-
mentos que priorizam o cálculo e a análise da relação entre meios e fins. A Razão Comuni-
cativa, por sua vez, tem sua base no uso social da linguagem, orientada ao entendimento
comum. É a capacidade humana para a racionalidade que não é individualista e assume a
forma da argumentação, sem coerção e através do poder do convencimento.
• O sistema e o mundo da vida são as duas esferas da concepção dual de sociedade de Haber-
mas. O sistema diz respeito à reprodução material da sociedade (Estado e economia), onde
predominam o dinheiro e o poder, a linguagem é secundária e a razão instrumental predo-
mina. O mundo da vida, por seu turno, diz respeito à representação simbólica da sociedade
(tradições, cultura e língua compartilhada), constituindo-se como espaço da ação comuni-
cativa, do diálogo e do argumento. De acordo com Habermas, os dois mundos não são anta-
gônicos, ao contrário, são complementares.
• As patologias da modernidade, segundo Habermas, são o resultado dos processos de racio-
nalização e dissociação, com o desengate do sistema e do mundo da vida e com a coloniza-
ção do mundo da vida pelo sistema. Isso fez com que os indivíduos se submetessem às leis
do mercado e à burocracia estatal.
• Para resolver os dilemas da modernidade, Habermas aponta a necessidade do reacopla-
mento do sistema com o mundo da vida, contrabalançando a racionalidade instrumental
e trazendo a racionalidade comunicativa de volta ao jogo. Para Habermas, a terapia para as
patologias da modernidade deve se dar a partir de uma mudança de paradigma: da ação
instrumental para a ação comunicativa, da subjetividade para a intersubjetividade.

51
UAB/Unimontes - 4º Período

Unidade II
• O campo marxista considera como princípio estruturador da vida social a ideia de que essa
estrutura é material, e em todas as sociedades onde existiu a propriedade privada dos meios
de produção, especialmente a capitalista, a estruturação é baseada na ideia de que os indi-
víduos são estratificados de forma relacional, ou seja, os que são donos dos meios de pro-
dução e os que não são. Portanto, o que estrutura as relações sociais é o acesso ou não à
propriedade.
• Embora Marx não tenha deixado um conceito de classe social, não elaborou um concei-
to sistemático de classe de classe social, ele considerou a existência de várias classes, nos
18 Brumário de Luís Bonaparte, tais como: o lumpenproletariado, a pequena burguesia e
o campesinato - considerava que o movimento da história era polarizado em duas classes
antagônicas, a burguesia e o proletariado. Assim, alguns autores neomarxistas como Elster
Wright e Przeworski tentaram contribuir para a operaconalização do conceito de classe so-
cial desenvolvida por Marx.
• Elster considera que, mesmo que Marx tenha definido vários grupos – em diferentes modos
de produção social – como referência à classe social, estes não podem ser utilizados para
se elaborar um conceito que possa ser generalizado, para outras sociedades que Marx não
tenha estudado. Ele afirmou também que o número de classes definido por Marx pode não
ter contemplado todas as classes existentes naquela sociedade.
• Wright fez uma revisão da discussão teórica realizada por Marx, principalmente no tocan-
te à operacionalização empírica do conceito de classe – aqui entendida como uma posição
objetiva dentro do sistema de propriedade, ou seja, os proprietários dos meios de produção
e proprietários da força de trabalho – nas sociedades capitalistas do século XX, que assisti-
ram a um grande crescimento da classe média. O desafio empreendido pelo autor é como
compatibilizar o fundamento da posição de classe na divisão entre proprietários e não pro-
prietários e na divisão social do trabalho, que se exprime na estrutura das ocupações com as
posições que não fazem parte da burguesia nem do proletariado.
• Outro autor que tentou contribuir para a teoria marxista foi Przeworski, que defende a ne-
cessidade de se conceber a formação das classes como resultantes de lutas estruturadas por
condições econômicas, ideológicas e políticas que ocorrem objetivamente, moldando as
práticas de movimentos que organizam os trabalhadores em uma classe, sendo que as clas-
ses são constantemente organizadas, desorganizadas e reorganizadas.
• Przeworski considera ainda que, apesar das várias tentativas de reinterpretação da teoria da
classe média de Marx, não se constata um grande avanço, no sentido da operacionalização
do conceito nas sociedades capitalistas nas últimas décadas. O que parece consenso é que o
desenvolvimento do capitalismo culminou além do crescimento da força de trabalho exce-
dente – produtores imediatos e organizadores do processo de trabalho – uma categoria que
não se enquadra em nenhuma das duas citadas acima, ou seja, que apesar de não ter uma
relação direta com a produção, do ponto de vista técnico são indispensáveis para “reprodu-
ção das relações capitalistas de produção (Przeworski, 1989:108)”.
• Além do marxismo analítico, vimos, nesta unidade, a teoria da escolha racional.
• A teoria da escolha racional parte do pressuposto de que racionalidade individual não impli-
ca, portanto, a racionalidade do comportamento coletivo.
• A teoria da escolha racional não exige que seus modelos de ação racional sejam inteiramen-
te realistas. Sua pretensão é fornecer previsões com sucesso em muitos casos, e na possi-
bilidade de falha na previsão de fornecer meios de identificar o lugar dos elementos não
racionais na ação humana.
• Críticos têm afirmado que a teoria da escolha racional tem uma visão excessivamente sim-
ples do agente, ou seja, não leva em conta o altruísmo e outros engajamentos, que a racio-
nalidade humana é uma questão de projetos de autoedificação a longo prazo e não apenas
de maximização a curto prazo, e que as capacidades cognitivas dos seres humanos são de-
masiado limitadas para que suas decisões sejam totalmente racionais em todos os casos.
• As oportunidades são mais básicas que os desejos porque são mais fáceis de observar não
só pelo cientista social, mas também por outros indivíduos da sociedade. Se cada lado pla-
neja com base nas capacidades do outro lado (e o outro lado está fazendo o mesmo), suas
verdadeiras preferências podem não importar muito.
• Elster afirma que, quando as pessoas estão numa situação muito má, a sua motivação para
inovar ou rebelar-se é muito alta. Sua capacidade ou oportunidade de fazê-lo é muito baixa
quando estão em circunstâncias difíceis. A participação na ação coletiva requer a capacida-
de de retirar tempo de atividade diretamente produtiva.

52
Ciências Sociais - Sociologia IV

• Para Elster é incongruente explicar uma ação em termos de oportunidades e desejos. As


oportunidades são objetivas, externas à pessoa. Os desejos, ao contrário, são subjetivos e in-
ternos. Assim, o que explica uma ação são os desejos da pessoa juntamente com suas cren-
ças a respeito das oportunidades. Como as crenças podem ser equivocadas, a distinção não
é trivial. A pessoa pode deixar de perceber uma oportunidade e, por isso, não escolher o
melhor meio disponível de realizar o seu desejo.
• Inversamente, se acreditar que certas opções não exequíveis, a ação pode ter resultados
desastrosos, exemplo que o autor dá: seria ingênuo pensar que a política pública pode ser
explicada pelos objetivos do governo e as oportunidades que, objetivamente falando, lhe
estão abertas. Mais exatamente, os objetivos interagem com as crenças, sobre o que são po-
líticas econômicas exequíveis.

Unidade III
• Segundo Elias, o pensamento sociológico possui duas características específicas: o distan-
ciamento e o engajamento. Como em toda ciência, o rigor cientifico do sociólogo depende
do afastamento das ideias preconcebidas.
• Norbert Elias criou uma abordagem denominada “sociologia figuracional”, que parte do
princípio de que o surgimento das configurações sociais são consequências inesperadas das
interações sociais.
• Em sua obra “Os Alemães”, Elias (1997) estuda os processos sociais de longa duração, para
isso ele procura entender a construção e colapso da civilização alemã.
• O conceito de habitus é entendido como um saber incorporado, pensado com o objetivo de
contornar a dicotomia entre indivíduo/sociedade. Habitus compreende, portanto, os com-
portamentos individualizados e os partilhados pelos membros dos grupos.
• Anthony Giddens busca construir uma teoria para compreender as relações sociais e o fun-
cionamento da sociedade em geral. Sua perspectiva se propõe recolocar novos termos so-
bre o clássico embate da sociologia entre “estrutura” e “ação”. A preocupação central do au-
tor se refere à determinação da dualidade estrutural, ou seja, a ação cria as estruturas e ao
mesmo tempo a ação só acontece nas estruturas.
• Na visão de Giddens a modernidade se alicerça em “dimensões institucionais” ou “feixes or-
ganizacionais”, que se relacionam e estabelecem várias conexões entre si.
• As dimensões institucionais da modernidade estão envolvidas nas três fontes de dinamismo
da modernidade: distanciamento do tempo-espaço, desencaixe e reflexividade, vejamos do
que trata cada uma delas.
• Na concepção de Giddens, há dois mecanismos de desencaixe presentes nas instituições so-
ciais modernas: as fichas simbólicas e os sistemas peritos.
• Na visão de Giddens, as fichas simbólicas são meios de intercâmbio, circulação que não es-
tão ligados às características específicas dos indivíduos ou grupos que lidam com eles. Um
exemplo de ficha simbólica é o dinheiro.
• Por sistemas peritos, Giddens refere-se a sistemas de excelência técnica ou competência
profissional, que organizam grandes áreas dos ambientes material e social em que vivemos
hoje.
• Na visão de Bauman, estamos em um período com características diferentes dos estágios
iniciais da sociedade moderna, a que ele chama de “modernidade sólida”.
• Duas características, segundo Bauman, fazem a modernidade – nova e diferente. Uma é o
declínio da antiga ilusão moderna: da crença de que existe um fim do caminho em que an-
damos. A segunda mudança é a desregulamentação e a privatização das tarefas e deveres
modernizados.
• Conforme Bauman (2008), todas as sociedades produzem e consomem, a diferença da anti-
ga “sociedade de produtores” para a nova “sociedade de consumidores” é apenas de ênfase
e prioridades.

53
Ciências Sociais - Sociologia IV

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Ciências Sociais - Sociologia IV

Atividades de
Aprendizagem - AA
1) A Escola de Frankfurt defende que uma verdadeira Teoria Crítica da sociedade não tem nada
de teoria passiva. Quais são os principais preceitos da Teoria Crítica que permitem essa afirma-
ção?

2) Faça uma síntese sobre o conceito e principais características da Indústria Cultural.

3) A partir da perspectiva de sociedade dual de Habermas, discuta os principais pontos do siste-


ma e do mundo da vida.

4) Por que, na visão de Anthony Giddens, a separação entre tempo e espaço é tão crucial para o
dinamismo da modernidade?

5) Partindo do princípio de que estamos vivendo em um período de intensas transformações,


defina o que Anthony Giddens entende por globalização.

6) Por que Elster afirma que é difícil operacionalizar o conceito de classes de Marx? Aponte os
principais argumentos do autor.

7) Como Elster define a escolha racional?

8) Na obra “Os Estabelecidos e os Outsiders”, Norbert Elias e John Scotson estudam uma pequena
comunidade denominada de Winston Parva. Descreva como a segregação social presente nessa
pequena comunidade pode ajudar entender relações de exclusão em outras sociedades.

9) De forma metafórica, Zygmunt Bauman diz que a modernidade deixou de ser “sólida” para se
transformar em “líquida”. Apresente as razões que fazem o autor acreditar nessas transformações.

10) O que pode ser entendido por sistemas peritos na obra de Anthony Giddens?

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