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Fantasias Depravadas - delectio fornicationes

ANÔNIMO

Fantasias Depravadas
Para Verona, amável filha que ainda hei de ter!

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Capa: Fernand Khnopff – Du Silence (1890)
Contra capa: Joseph Apoux – Reveries Fantastiques

(Autor córsico anônimo do final do séc. XIX)


Traduzido e modernizado do Francês por:
Renato Araújo
araujinhor@hotmail.com
(Junho de 2008)

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ÍNDICE

Prefácio................................................................................................................................ 05

Parte I

O “Embalsamador de Corpos” ou “As Despedidas”......................................................... 07


Não era justo! (Um conto na Alsácia) ................................................................................ 16
Azules los ojos; pero rubio lo Culo ..................................................................................... 26
As irmãs depravadas – em três atos:
Ato I – a curiosidade ........................................................................................................... 39
Ato II – a descoberta ........................................................................................................... 71
Ato III – o desencanto ......................................................................................................... 76
O velho que fora pré-adolescente ......................................................................................104

Parte II

As Fabulosas Meretrizes de Shangai ................................................................................ 126


A História da Loira com o Filho Débil Mental ..................................................................136
Como eu Ganhei uma Causa para o ´Homem Têxtil´ e Também sua Amizade por Meio de
um 'Feito Memorável'..........................................................................................................152
Furores Renascentistas ou: Como Eu Fiz Alguém Gozar Apenas Pondo em Prática a
Leitura de um Livro de ‘Libertinage Erudit’, de um Anônimo Italiano ............................ 161
A História da Madame Buffon e Seu Maduro Bandido Marido ........................................183
Como a Minha Adorável Petrusca Comeu o Cu de uma Doce Noviça Cuja Fé Inabalável
Tentava por Frequentemente à Prova ............................................................................... 197
Cobiçada por Idosos ......................................................................................................... 211
Os Artistas Comiam Algodão Queimado no Bico de Bunsen
Ou: Como e Por Que Eu Perdi Todas as Minhas Referências de Classe ......................... 226
Por que Eu me Apaixonei pela Baronesa de Trento? ...................................................... 256
Posfácio ............................................................................................................................. 272

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Les Images ......................................................................................................................... 272

2008

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Prefácio
Carta a meus amigos (23-12-2008) -

Palavras chave: vida, morte, sexo, horror, desliteratura.

Escrevi para vocês um livrinho (em duas partes) muito bobo de nome também bobo
"Delectio Fornicationes" (ou fantasias depravadas) cuja única satisfação que tive, além de
constranger vocês meus amigos, foi de criar uma personagem fraca. A noção da criação de
uma personagem “humana demasiada humana” sempre me interessou. Indo mais além ,
quis criar uma personagem que, sem auto-crítica alguma, tudo que considerasse atroz fosse
algo desejado e sobretudo praticado por esta personagem irrazoável. Em suma, uma
personagem bem católica, por sinal, na última das minhas críticas heréticas ao catolicismo -
nada neste sentido vale mais a pena! Mas eu nunca escrevo apenas pelo que ainda hoje
valha a pena, mas também ao que valeu a pena e que não foi suficientemente explorado ou
que pode de alguma forma ser revisto.

Esta personagem não tem nome. Do pouco que se pôde depurar de dados biográficos
deixados por ele próprio nesse seu livro é que ele nasceu antes de 1872 (provavelmente
1868-9) e que foi herdeiro da parte paterna de um bisneto de Napoleão Bonaparte. Ele foi
advogado por profissão, nascido na Córsega, tinha durante esses relatos do final do séc.
XIX, entre 23 e 29 anos, mas ele podia mesmo ter 32, ou 42 ou 24... no sentido idêntico no
qual a ordem dos fatores não alterariam o produto, bem como a ideia conformista de que
independentemente da qualidade do produto ele não faria, sob circunstância alguma,
quaisquer dos fatores se ordenar - ele quis mistério sobre sua identidade e sobre a
identidade de seus familiares aristocratas.

Seguindo aos meus impulsos libertários, meus poucos instintos em direitos autorais e as
novas possibilidades provocadas aos leitores e escritores através do aparecimento da
internet, encaminho-lhes em anexo a 1a. e 2a. parte desse meu livrinho que certamente
concorrerá para ser o pior entre os melhores!

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Eu digo que a um fissurado pela “estética do mal gosto” (a qual eu próprio inventei no ano
de 1992) o pior do mal gosto literário proposital é sempre o melhor propósito para a
desliteratura! Sintam-se constrangidos! Divirtam-se, enojem-se, lambusem-se e vomitem à
vontade!
Abraços,

Renato Araújo, dezembro de 2008.

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Tenho certas coisas para vos contar...Sentai aqui e aproximem vossos ouvidos
para que me escutem:

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PARTE I

O “Embalsamador de Corpos” ou “As Despedidas”

Ela havia morrido de sudorese. Não que esta fosse propriamente sua causa mortis,
mas que, enlaçada pelas garras do destino, ela caiu em febre fatal resultante de uma
gravíssima infecção generalizada que a fez tremer e pingar de suor por todo o corpo. Que
lhe adiantava agora aquela beleza? Que lhe adiantava ter sido tão amorosa, tão ridente, tão
cheia de frescor do viver? Que lhe adiantava agora sua sofreguidão e toda sua agitação
ansiosa? Com sua extinção haveria de, imediatamente, rejeitar o futuro – abandonar o
presente. Haveria de ofertar também ao esquecimento este corpo belo, agora eternamente
imóvel? Restar-lhe-ia somente o passado... E seria mesmo possível que em todos os reinos
de vossas majestades europeias não haveria nunca mais um só homem que pudesse no
presente e no futuro esbaforir cansaço divino em suas narinas, suar por sobre ela, lamber
seu suor com o mesmo vigor com que se chupa um pescocinho de frango?
Tivera eu, caros leitores, a inocente perspicácia dos indivíduos comuns com suas
belas mentes saudáveis e seu convívio social repleto de bons costumes... Mas não! Sou eu
um reles sapato de camurça vulgar que a mais inofensiva das chuvas tem suficiente pendor
para desfigurar! Todavia, haveria de existir ao menos um homem sob a face da terra que,
como eu, mataria para vê-la. Ainda mais uma vez...”- Vê-la mais uma vez...?” - Mais isto?
O que estou a dizer? Neste caso, vê-la ainda muito mais agora, já que estava morta...
Quando nos despedimos de uma pessoa, abrimos um elo, pois supomos que a
encontraremos novamente algum dia; quando nos despedimos de um cadáver, fechamos um
caixão, e, com ele, todo destino daquela que, por continuidade de um costume, continuamos
a chamar de “pessoa”. E eu não demoraria a perceber que este homem realmente existia
muito proximamente a mim. Eu compreenderia que esta despedida lhe seria como que “sua
ligação fundamental com a vida”, sua realização. Seria uma ligação, sobretudo, com a
existência daquela a quem ele decidira amargurar também no além da vida – fosse isso
possível! Dizem que depois da morte ainda há vida... Disto eu não sei coisa alguma... Este
homem tampouco se interessava por estes assuntos metafísicos. Ele estava certo

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simplesmente de que a morte necessariamente segue a vida e, portanto, a vida que por
eventualidade seguir a morte terá seu divino contato com um cobiçado desconhecido.
Sabendo do pior, não tardou este homem em aparecer. Seguramente, assim o
desejava antes na casa da falecida, em intimidade, que em seu velório – espetáculo para
seres vivos. Estranhamente, eu fui o primeiro a chegar naquela casa, mas ele supôs ter sido
ele próprio o primeiro, porque eu ficara ali, camuflado. Relatar-vos-ei desta estória
aterrorizante tudo do quanto vi com meus próprios olhos morenos, mas apenas ao redor
dela, porque raro me fiz como agente, antes como espectador do que alguém que tivesse
tamanha falta de pudores para agir e não ser da história um ator coadjuvante.
Cogitar-se-ia ser seguro, porém, contar-vos de antemão algo a respeito deste homem
que abraçava a morte com fervor de vivo. Ele era serviçal de Igreja havia mais de 15 anos.
Ele era também encarregado em fazer as honras que ninguém suportava: lavar os corpos
mortos para terem um enterro digno; profissão esta que ele executava com persuasão, bem
conformado que era de seu valor perante “aquelas almas perdidas que haveriam de se
aconchegar até Deus”. Pelo menos era isto o que todos supunham até que se pudesse
enxergar este episódio mais de perto.
Esta pequena estória começa aqui, meus caros e pacientes leitores. Eu também
conhecia aquela morta. Já tinha me deleitado em sua alcova por quatro anos repetidos a
despeito de seu marido, um banqueiro vulgar, já não a satisfazer em nada há mais de sete
quando eu a conheci. Digo isto apenas como um ‘confesso pueris’ e sem descaso quanto ao
meu mau comportamento. Todavia, entendendo também que, por razão da quantidade de
pêlos que a bela adúltera colecionava num pote malévolo para quantificar não seus amantes,
mas seus coitos com eles, minha adorável cabrita jovem, agora imolada, exigindo o desfiar
no momento do ato, devia acumular outras centenas de encontros sexuais com múltiplos
varões por anos antes de esta vitimação chegar até a mim! Repleta estava a coleção de pêlos
naquele pote de vidro tanto quanto de fé as vesperais da Igreja.
O embalsamador de corpos se chamava Fidélius e nossa amada corrompida, Venera.
Eu não o conhecia tão bem, soube que eram antigas as suas concupiscências com a ela
somente no dia em que ele foi linchado e executado em praça pública, com vistas grossas
das autoridades, sob a acusação popular de profanação de cadáver. Mas reforço que foi sem
que eu soubesse que Venera já se deitara antes abundantemente com aquele sujo, que

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poucas vezes comigo! Aceitando o quinhão das mulheres, ela devia ter mesmo fervores por
porcos vis! Porquanto Fidélius era de modos e corpo grosseiros. Saibam que quase
desfaleci de surpresa quando soube que eles se lambuzaram por diversas vezes até quantas
se podem contar as estrelas do céu numa noite escassa de nuvens sem se perder...
Deitavam-se na sacristia, deitavam-se nos aposentos do padre, deitavam-se no
túmulo de vidro de Cristo. (Obviamente tinham de retirar a estátua de lá! O que faziam,
ainda que com dificuldade, com muito esmero, pois a madeira nobre que serviu de aporte
para a existência do Cristo se mantivera intacta, a despeito de sua antiguidade e da frágil
película de tinta que os artistas do séc. XVI (sejam lá quais almas bondosas foram!) tiveram
o cuidado de revestir na louvável imagem do Cordeiro Salvador das almas). Retardatária e
em retrospecto astuto, minhas palavras parecem vir de algum vil indiferente aos exageros
dos dois. Não é nada disto, pacientes leitores! Muito me fiz detestável por relatar tamanhas
afrontas ao casto Jesus que quase já não tive coragem de fazê-lo não fosse a necessidade
que tenho de expiar e livrar-me de tais lascívias lembranças! A expiação finalmente me
salvará! E cada uma das palavras aqui relatadas nos serviram a todos como a remissão que
nos guardará ao lado do Pai.
Dizem as más línguas que aquele cheiro de azedume provindo das cruzes e
candelabros e velas da igreja devia então ter se dado em razão das averiguações anais que
os dois pecadores instigavam entre si. Isto é de todo possível! Causada por aquela venenosa
mulher, esta horrenda arte da qual também fui eu uma pobre vítima, em um momento de
fraqueza impudica, parecia ser mesmo uma prática comum no ato sexual com seus amantes.
Penso nisso com rancor, mas sem remorso, se isto for possível... Principalmente porque
consegui surrupiar-lhe também outros fragorosos e não menos ímpios desejos. Mas não me
deterei aqui em minha história com esta dama inoportuna, caros pacientes, quiçá eu tenha o
privilégio de vos assegurar esta narrativa um outro dia, com a certeza de que não terão nada
a perder, exceto, por ventura ou compaixão, as vossas próprias almas!
Fidélius havia sabido da morte da senhora profana por meio de uma mensagem
endereçada a ele ainda quando aquele corpinho humano e juvenil estava em seus últimos
instantes de calor. Correu para casa dela apressado e deixando para trás o corpo esquálido
de uma beata viúva sem valor. Dirigindo-se às pressas para sua tão amada Venera, contudo,
ele esqueceu-se de abotoar as calças... Tal como o confirmou a dama de companhia da

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Senhora. Supõe-se ter sido ele interrompido de seus atos podremente secretos, sabe-se hoje.
Ao chegar lá, pediu: “- Ficar a sós com a falecida”. Isso ele conseguiu, por meio, claro, de
mil trejeitos - e de certo, por insuspeitáveis ducados também destinados à dama de
companhia (não sei ao certo o valor do suborno, ainda que seguramente eu saiba tê-lo
havido). Esta dama de companhia era uma vil agiota que já me levou uns bons ducados por
minhas sandices com respeito a sua senhora. Tendo conseguido o que queria, com mais
certeza de que o sol se levantará amanhã pela manhã, Fidélius se debruçou sobre o corpinho
da jovem defunta não mais para chorar que para derramar líquidos mais pastosos sobre sua
entrada divina, ainda mais uma vez. Ele certificava-me agora que, como eu, ele mataria
para vê-la: “- vê-la mais uma vez...”, embora não encontrara necessidade suficiente para
matar! Tanto melhor, começo eu mesmo a imaginar o quanto não se tornou libertário de
esforço evitar a fadiga de assassinar alguém que o impedisse de vê-la? O quanto não foi
ótimo concentrar aquelas forças de lamento no ato sexual final, seu grande épico, seu
grande apocalipse?
Quero vos dizer que isto tudo não seria ademais, inusitado, não fosse contado pela
boca de alguém cujos olhos tivessem presenciado o ocorrido. E para provar-vos o que digo,
conto com detalhes tudo do quanto vi, por meio da fresta a qual tinha me escondido com
timidez para friccionar meu membro ao contemplar aquele cadáver num ato pudico choroso,
de soslaio, em minha dor, pela última vez... Ainda mais uma vez... Isso mesmo, meus caros
pacientes leitores, tendes misericórdia deste vil algoz de vossas almas pelo menos por
minha juventude: Conto vinte-e-três!
Lá estava eu, na realidade testemunho primeiro da pena de morte sofrida por aquela
infame maravilhosa. Não a vi morrer, aliás. Cheguei lá rapidamente, pois sua dama de
companhia, sabendo exatamente o quanto poderia lucrar avisando primeiramente aos
amantes, um a um, com diferença de meia hora cada, o direito de ter “suas despedidas”",
avisou-os segundo o mérito próprio de cada qual. Não que eu ou o Fidélius fôssemos ricos,
bem o contrário! No meu caso, em verdade, cheguei primeiro sem saber da morte dela, pois
ela havia pedido, em seu leito de morte e vazada em delírios de febre, que eu lhe fizesse
assinar alguns documentos, em honras de ser eu o seu advogado... Cheguei tarde para isto;
mas cedo para aquilo... Quanto a Fidélius, ora, Fidélius! Sequer eu sabia que aquele
torturante amigo era seu confessor. Depreendi isso tudo só quando do meu ato libidinoso,

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filtrado por aquela pequenina fresta do armário do quarto - que eu conhecia tão bem, diga-
se, já tendo eu estado ali por mais de duas dezenas de vezes com ou sem o consentimento
da pobre ela...
Fidélius chegou no quarto acompanhado da infeliz copeira que também não me vira
entrar. Esta era a outra mulher habitante da casa que, em sua tristeza católica, murmurava a
seguinte ladainha em baixa voz, por respeito aos mortos: “- Oh! Sr. Fidélius! Coitadinha!
Pobre madama Venera! Que Deus a tenha no paraíso! Informei ao senhor primeiro do
ocorrido porque eu sabia o quanto o senhor a amava... Afinal eu odeio o velho... Ele é ateu,
sabe? E o senhor, um homem tão temente a Deus, tão próximo de Deus, não pôde vê-la
antes de morrer!...” Ao dizer isso esta mulherzinha inútil se pôs a chorar em desespero
deixando o embalsamador de corpos Fidélius ali, “a sós” com o corpo, morto, em sua
absoluta imobilidade passiva de cadáver. Ele trancou febrilmente a porta com as chaves que
certamente teria sido dada pela agiota dama de companhia da senhora. Aproximou-se dos
restos mortais da senhora lentamente e, a que parecia ser sincera, com muita dor.
Neste momento, eu já esfriara meu sangue de ambos os fervores que, ainda bem,
voltariam a me dominar sem tardar. O primeiro deles era o fervor que vem dos vapores do
corpo e da chama sexual que eu nutria por ela, o segundo, menos divino, vinha da
necessidade de eu me despedir de alguma forma. Assim, sem que eu pudesse imaginar, a
chegada deste homem atroz poderia absolver-me do ódio de eu ter sido interrompido de
minha despedida sutil, sem animosidades. Certamente, vendo como fui pio neste momento,
Deus me assegurou, nas mãos absolutas do acaso do destino, que o Altíssimo escreve
certamente por linhas tortuosas, que eu pudesse ter logo a diante a minha própria despedida
particular como eu a queria e, desta vez, com bastantes animosidades!
E Fidélius aproximou-se do corpo ainda mais um pouco até que pudesse olhá-la
mais de perto. Cada um dos movimentos dele em direção ao cadáver de Venera exprimia
uma contraditória negação do movimento nela. Cada um dos passos, gestos, expressões do
rosto e de seu corpo frente ao dela exprimia a relação filosófica mais cruel entre o Ser e o
Não-Ser, a ponto de reforçar ainda mais a distância entre eles. Como ele se aproximasse
mais, parou apenas a uma distância vacilante e trêmula de centímetros. Curvou a cabeça
com os olhos fechados em direção ao rosto de olhos também muito fechados daquela que
ele havia visto viva e por quem qualquer um teria tido mil razões para viver... Fidélius

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sofria. Sua dor crua era tão apaixonante! Eu me arrepiei diante daquele frisar de olhos,
daquele arrependimento demonstrado nos lábios secos cerrados, daquela amarga sensação
de dó que empaticamente contagia a todos como quem vê uma adorável viúva jovem sofrer
diante do túmulo de um esposo eternamente adormecido. Meu prurido, aquele comichão
nas ventas, era de uma surpresa absoluta para mim. Como poderia sentir empatia por aquele
homem de ossos largos, pele rude e áspera, cheio de pêlos crespos pelo corpo todo e que
ressentia a corpos putrefatos?
Recostado sobre ela, ele deixou mesmo cair uma lágrima nos olhos de Venera,
aqueles olhos evaporados e tornados inativos pelo mais profundo dos sonos. Lambeu-a
sistematicamente. Lambendo-a de cabo a rabo, fez questão especialmente de lamber os
pingos de suores que ainda lhe restavam na testa morta e ex-febril de Venera. Tomei-me
por filósofo refletindo sobre a felicidade viva de uma febre! Quero dizer que, enquanto ela
vivia, o suor que lhe cobria o corpo fazia lhe muito sentido. Uma doença, por mais crônica
que pareça não é nem sombra do que se pode chamar de definitivo se comparável à morte.
A morte separa o que existe do que já não mais existe, e sob quaisquer circunstâncias! Nada
mais definitivo que morrer; morrer é para sempre! Como se disto já soubesse, Fidélius
lambeu-a metodicamente! E o fez como se um gatinho fosse: por meio de doces modos...
Beijou também o lábio morto de modo respeitoso, sem tentar abrir aquela boquinha muda –
ao pensar no que ele ainda haveria de lhe infringir em instantes, esse gesto de consideração
parecia lhe um mero requinte... Depois de lamber cada gota do rosto da falecida com uma
delicadeza e dedicação invejáveis ele desabotoou a camisa-pijama lentamente puxando os
lacinhos que escondiam uma pele branca típica das gentes mortas.
Para além da morte ele só devia enxergar sua esperança de unir-se a ela uma vez
mais; e foi exatamente o que fez. Mal escorregou o restante de pano que cobria aquele
defunto e já se debruçara, mas sempre com asseio e afinco devotivos. Envolvido com
aquela cena prodigiosamente dantesca mal o vi desnudar-se. Em parte, recuperado de
minhas vertigens, quando me dei por mim – num frenesi espantoso tal como se ela estivesse
viva – aquele mamute horroroso já galopava minha amada Venera – ou, pelo menos, o que
restava dela. Na verdade ela não mais existia, nada nela guardava a dignidade do que foi,
manteve-se ali apenas uma pobre história que começou desajeitada, por acaso, e que
chegou ao fim do mesmo modo, sem jeito, sem necessidade, abruptamente, sem querer.

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Nós sabíamos que ele tinha pouco tempo até que fosse surpreendido, ou antes, que
chegassem outros ex-amantes... Tínhamos pressa! A despedida de quem não se quer
distância é dolorosamente breve... Vita brevis; ars longa... Em velocidade, aquele monstro
polia artisticamente pela última vez as entranhas da (até a morte) amável Venera, passiva e
silenciosa. Ele virava de lado o que restava dela, de bruços, ele alcovitava uma de suas
mãozinhas inertes inteira dentro de sua boca, levantava suas pernas para o alto, esfregava
suas partes íntimas nos que haviam sido os pés dela - o que aparentemente parecia lhe
proporcionar particular afeto, haja vista aquele arfar rude que saia do nariz quando afagava
seu membro contra os imóveis pés de Venera, mantendo sua máscula cabeça erguida para o
céu, como se honrasse ao Deus dos céus infinitos. Abraços, mordidas e lambidas... Mãos
nos seios mortos tal qual vivos, deparou-se ele a partes pudicas de seu corpinho que eram
de resto, para ele, independentes da vida.
Seus seios pululavam feito bolinhas de sabão. Suas ancas, agora reviradas para o
alto, à maneira da oração mulçumana, não estavam enrijecidas pelo rigor mortis por isso
tremiam ao impacto sofrido pelo corpo grotesco daquela besta demoníaca. Lembrei-me dos
repuxões dos músculos dos cavalos que tanto ela adorava em vida, naquele seu galopar
frenético pelos campos afora, deixando crina, cabelos, coxas e ancas vibrarem a cada um
dos trotes violentos...Ali, a égua era ela! Na medida em que aquela cena me deixava
atordoado, mais a repugnância do ato se desviava de meu senso moral.
Quanto mais sórdidas eram as investidas do monstrengo Fidélius na minha amada
celeste vagabunda, mais eram os venenos intoxicadores daquele meu inusitado prazer.
Cheguei a espasmos antes mesmo de sequer pensar em me aventurar também em cima
daquele corpo entregue, “todo a ouvidos”. Manchei algumas roupas do armário com o suco
selvagem e, por vingança, sequer as limpei! Mas, minha rapidez seria comparável a
precipitação, em pensar na calma com que Fidélius parecia “bater palmas” com o seu corpo
contra o de Venera. Os sons destes aplausos ruminavam a minha certeza. Eles aplaudiam a
vida, certamente! Venera, amada, morta e muda, tornar-se-ia assim simpática àquele
espetáculo? Ele suou também naquela tarde quente. Sempre cuidando, todavia, para que o
rosto dela estivesse ininterruptamente limpo do seu suor repugnante e úmido que caia,
lambendo-o religiosamente do rosto dela e apenas depositando em troca algo vivo, uma
máscara mortuária representada por sua saliva nojenta.

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Ele parecia um impávido insaciável que em silêncio contorcia sua dor e libertava-se
do prazer sem rangidos, sem murmúrios, sem gemidos, só com o duro arfar que saía de suas
narinas cavernosas rastejando o ar para dentro das vazias narinas da ex-adúltera, ex-amante,
ex-ridente, ex-viva, ex-tudo! Logo ficou claro porque o silêncio funesto daquele ato bestial
fosse perdurar tanto; estava certo de que aquilo era um prenúncio de algum rugido final.
Perto de preencher a vulva inativa da venerável, aquele animal uivou tão alto quanto se é
possível a um bicho-homem. Tanto me tive em medo que pus a vestir-me apressadamente,
sem quaisquer regras. Só neste momento me dei conta de que eu estava na mesma posição
entregue e desfacelada por volta de 10 minutos ou mais...
Seu uivo despertou-me do absurdo daquela situação. Era-me repugnante o que
ocorria! Meu estômago revirado, minha garganta apertada, meus olhos comprimidos pelo
choro, fizeram-me renunciar a tempo. Não sei se inteiramente vestido, mas completamente
tomado pela ânsia, abri em desespero a porta do armário e corri em direção à saída. Ao
destrancá-la, desapareci sem ser visto como se estivesse fugindo de mim mesmo, evadindo-
me do obscuro selvagem que reside também dentro de meu coração. Sequer percebi ter
deixado a porta aberta que permitiria a dama de companhia adentrar livremente no quarto
de Venera já na presença de um outro ex-amante e policial aposentado, segundos depois.
Deveria ter sido o ex-capitão da policia o primeiro a ter suas despedidas, nisso aquela
agiota se deu muito mal. Foi ela quem houve de expor a todos de como encontrou aquela
anomalia repelente ainda devorando o corpo morto da nossa amada Venera fenecida e
profanada. Ele sequer teve o trabalho de deixá-la quando foi surpreendido em seu comensal
satânico, seu ato de amor na morte. Ele não estava só, porquanto forças malignas o
auxiliaram nesta busca estafante de despedir-se. Foi imobilizado ainda ali mesmo, sem
roupas, desacreditado, imóvel; olhar vazio, sem esboçar arrependimento ou dor. Ele havia
encontrado alívio na perversidade, satisfação irregular em conduta ignóbil, ele havia
conquistado a liberdade, a vida, a paz.
Na hora de sua prisão estavam lá a copeira imbecil, a dama-de-companhia judia, o
ex-policial decrépito e uma enchova de católicas puritanas que se guiaram pelo cheiro do
sexo, uma matilha de ex-amantes chorosos por não terem sido capazes de se despedirem
com “honradez”, simplesmente por terem chegado momentos atrasados. E haveria de ter
também aquele que deveria ser o último a chegar, seu marido banqueiro que, pasmem meus

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pacientes leitores! Acabou não comparecendo sequer na hora da morte! Eu próprio o soube,
ausentou-se em despedir-se de sua mulher em função de “compromissos inadiáveis com
investidores...” Tanto melhor! Pois só estes compromissos foram suficientes para que
somente nós, eu e Fidélius, nos despedíssemos da “bolinha branca”, apelido o qual eu
costumava chamar Venera, no íntimo de sua alcova.
Fidélius não estava acabado! Ele aprontaria mesmo depois de ter sido linchado e
enforcado! Alguns seres conseguem mesmo esta façanha de retornar do túmulo! Foi
somente depois de 16 dias de sua morte que encontraram no fundo falso do assoalho de seu
quarto os corpos em parcial putrefação de outras quatro mulheres. Todas pálidas, corpos
roliços, de cabelos negros, olhos azuis sem pálpebras, vestidas de um mesmo tipo de saião
de dormir rosa e branco, irremediavelmente estáveis, assaz inexistentes, com seus corpos
mumificados... Hoje, ouvindo relatos de desaparecidos, indago sobre os quantos não caíram
nas circunstâncias de tipo “Fidélius” e quantos destes apavorantes embalçamadores não
estariam em ação bem exatamente agora, enquanto nos entretemos com as nossas
literaturas...? Quando na prisão, Fidélius sequer havia ainda sido chamado de “o
embalsamador”. Surpreendentemente, no dia de sua execução sem julgamento, podia-se
confirmar ter ele deixado seu testamento declaratório escrito na parede. Jamais soube que
aquele homem tosco tinha tido espírito, mas eram exatamente assim que diziam as suas
palavras:

"Cada cheiro putrefato inalado por narinas vivas justifica-as”. Fidélius

O caso não era explicável. Penso, contudo, que somente o fenômeno e os fatos
deveriam ser guia de entendimento dos acontecimentos. Quanto a isso digo simplesmente
“só sei que tudo se passou exatamente assim, ainda que para muitos, os fatos jamais se
explicariam por si mesmos...”.

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Não era justo!
(Um conto na Alsácia)

As crianças corriam selvagemente feito átomos no vácuo do cientista, feito grãos de


poeira ao vento. Sem direção aparente, sem razão de permanência na rota, sem rumo certo,
sem sentidos quaisquer.
Nós adultos jamais conseguimos seguir a esses passos, enquanto adultos. Antes era
diferente. Conseguíamos sentir, sorrir e correr, sem certeza externamente verificável, sem
adulteração do prazer.
As crianças da rua estavam dessa maneira mesma, puramente a correr... Digo isto
unicamente porque eu, na minha adulta observação, não compreendia nada do que se
passava... Mas não demoraria eu a compreender algumas poucas e suficientes coisas.
Naquela bela tarde estava eu em viagem, na janela da casa de Madame Buffon, uma
amiga de infância, habitante da Alsácia, enquanto eu saboreava o meu delicioso licor
Vauvenargues como o chamava a Madame, com referência às uvas amargas daquela região.
Quase não haveria de presenciar tal ato de vergonhoso sentimento de imundice quando,
pela janela, de fato pensei ter visto uma carruagem raptar uma das crianças...
Todas riram feito bobas que eram a esperar por algo que as tirasse de seu tédio
excelente e delirante daquele fim de tarde... Ou talvez aguardavam algum tio rabugento, ou
algum pai impiedoso recuperar seu animalzinho selvagem para dentro de seu curral? Disso
eu não sabia nada e de maneira alguma poderia sabe-lo... Exceto se um acaso, uma fenda no
destino me recuperasse um saber: a minha habilidade e atenção para o mal. O fato era que
aquele acontecido tirara minha concentração animosa daquela correria instintiva e por fim
me irritara bastante, destarte, presenciar aquele rigor, aquela respeitabilidade, aquela
imposição de “chega!”, própria de um pai, própria de um adulto.
Só por um segundo pensei que haviam retirado a minha satisfação alegre quando vi
sem jeito e tortamente, o ranhento disforme, a criança sicofanta, a animalzinho de expiação,
o pequeno e torto Edmond, tão vilipendiado pelas crianças daquela rua...Vi-o abrir os seus
olhos como se fossem olhos de cavalos, para trás repuxados de maneira, sem dúvida,
assustados e brilhando os negros vapores do desespero... Quase não percebi isso porque
ocorrera no acaso instante em que quase olhava para a Madame Buffon no momento

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seguida em que me ofereceria um de seus doces arrebatadores de saborosos recheios
alcoólicos. Caso o olhar me tivesse traído, minha secura por álcool me tivesse desviado o
olhar, eu teria por certo perdido o licor dos licores! A luminosidade comparável apenas ao
nascer do sol. Os encantos definitivos encontrados somente nos deleites das primaveras
eternas.
Mas, por acaso do destino, eu presenciei aquelas narinas trêmulas, aquele pisado
firme das botas infantis de Edmond em direção à carruagem. Eu sabia internamente que ele
considerava estranho e amargurante aquele repentino laço! Dir-se-ia ainda que criança
sequer daquela turba havia se injuriado um segundo por aquela cena que aparentemente,
para nós adultos, sobretudo, ter-se-ia reconhecido como algo por demais comum: Um justo
predecessor salvando um pupilo da inocente bestialidade infantil - nada de anormal!
Qual não foi a minha estultícia e ignorância em relação a isso, meus caros leitores!
Ao ver o desespero daquele menino que tanto eu me habituara a observar pela mesma
janela em sua estrondosa estupidez e ardorosa força estimulante para que lhe oferecessem
choças, chistes e vitupérios – não pude deixar de perceber ali algo incomum... Graças a
Edmond, eu pasmei... Aquela criança estava sendo mesmo raptada?!
O que queimava na garganta silenciada de Edmond que justificaria aquele
semblante de ardente fogo desesperador? Seus olhos queimavam menos que sua garganta e
boca. Ali da janela eu pude ver, por exemplo, num relance que agora reconheço como
indispensável, as trêmulas traqueínhas de Edmond roçar movimentos horizontais em
conjunto com a amostra de dentes tortuosamente desalinhados numa boca que se esticava
assustadoramente para trás como que para dar-lhe impulso ao correr atrás da carruagem que
saia em disparada.
Ai não fosse eu um amante desta turbinha iridescente! Não haveria modos de saber
o que de fato havia acontecido... Meu Deus, como sou observador! Tudo se passou por
segundos! Sou como sou, do contrário não haveria de sentir aquele comichão pelas ventas e
os arrepios pelos sentidos vertebrais... A sensação intuitiva de que algo eu estava perdendo
que valia a pena não perder!
O fato, meus caros pacientes, era que eu acabara de presenciar um sequestro! Mas
como poderia certificar-me disto? Como eu, por mil desejos de proteção, poderia levantar-
me contra aqueles sutis tratamentos propostos pela Madame Buffon, agora já bastante

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intrigada pela espécie de abscesso em minha expressão facial? Como me proteger daquelas
fórmulas prontas para o deleite? Como abandonar o imaginário, quiçá o seja, para o para
além de minha janela de observação?
Mas eu não pude! Fervido pela angústia não de uma fantasia de rapto, ou de um
medo de que algo de muito ruim tivesse realmente acontecido, mas sim, impulsionado pela
força do destino que escolhi para mim, quer seja, a observação nos seus íntimos detalhes,
eu corri pelas ruas feito um louco atrás de Edmond para apurar os fatos ocorridos. E, com
os segundos de desvantagem que vinham se alargando em minutos e, talvez, em
amontoados de horas na escuridão do desconhecimento, eu tinha de utilizar todos os meus
motivos para saber se aquilo era mesmo o que eu estava percebendo desde o início daquela
correria selvagem, ou se era apenas um simples erro, um entendimento desfocado, uma
mera sombra fantasiada do impossível...
Kairós diziam os gregos, o tempo oportuno é o tempo da oportunidade. O tempo
certo é o irremediavelmente exato, como são exatas as maçãs que caem na cabeça dos
cientistas. Eu pensava isso num entendimento desfocado, enquanto corria e alimentava
minhas dúvidas numa sombra fantasiada do que deveria ou não acontecer. Mas não! O
tempo oportuno é o tempo da exigência absoluta, não se pode sequer pensar em negá-lo.
Esse pensamento sim é impossível; como fazer foco de uma estrela que está num para além
do universo? Antes fosse foco de quaisquer outras coisas, porque daquele instante a seguir,
certamente algo de muito ruim estava para acontecer àquela femeazinha que foi levada à
força por um brutal desconhecido, isto sim! Avaliava isso pelo ríspido segurar pelo braço
enquanto a carruagem ainda galopava em velocidade, mas, especialmente, por causa do
espanto subsequente escrito na face Edmond, seu defensor e admirador nada secreto.
Edmond cansou-se, por fim. Jamais perdoaria seu cansaço contra uma carruagem de
dois cavalos! Quisera ser forte quais três cavalos! Desejara ter a força imensa de qualquer
besta da natureza que pudesse alcançar aquela carruagem e impedir aquela arbitrariedade.
Não fosse a sua falta de voz, sua ausência de expressão infantil, sua imensa dor expressa
nos olhos, dir-se-ia que aquela única gota que escorria ao dividir-se em duas passando por
cada uma de suas narinas eram simplesmente uns pinguinhos d´água sem valor.
Era claro para mim e para Edmond que algo ocorrera. As crianças continuaram a
brincar seus jogos aracnídeos a despeito de mim e do pobre ele. Nós adultos e pequenos

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monstrengos infantis não somos bem compreendidos pelas belas e bem nascidas crianças
dos bairros de província. Ninguém se deixou comover. Ninguém se aventurou no abandono
da inércia: toda turba ostenta-se no flerte de uma eternidade quando indisciplinada,
porquanto, calhe o que venha a calhar, voltam sempre a brincar suas falazes brincadeiras
sem se darem a mínimos gestos ou pesares... Há uma observação de segundos que me fez
intrigado, contudo... Em vez de voltarem a fazer o que faziam, outras brincadeiras
apareceram de imediato depois do ocorrido... Pelo visto, o fato de terem mudado de
brincadeira sem se dar a mínimos gestos ou consternação, já se demonstra como algo muito
estranho, como algo neste caso que se deva ainda que a posteriori oferecer alguma
consideração... Sendo então uma reflexão a posteriori desse caso eu me questiono: será que
aquelas crianças eram cúmplices? Sabiam da coisa? Estávamos nós, eu e Edmond, em
nossa anormalidade social, condenados ao delírio? Aos soluços inaudíveis das fantasias
desvirtuadas? Certos estaríamos eu e Edmons de que a seres como nós apenas se reservaria
o sonhar, enquanto aos que agora eu havia chamado de “turba inconsciente” e que seriam
na verdade aqueles que melhores se adaptariam ao inelutável, aqueles para os quais se
reservaria a vigília do real?
Meus caros e pacientes leitores, não havia de conseguir explicações instantâneas ao
observar a pseudonaturalidade das crianças, aqueles demoninhos, ao voltar a brincar sem
pesares, logo depois do sequestro de uma delas. Nem havia eu de encontrar esclarecimento
na desventura de ficar ali, parado, sem ação, sem comoção, sem verdadeira paixão e
também desejo, ao fingir ter aquela situação sob meu mais absoluto controle. Que
normalidade doentia, que tranquilidade afronte e covarde. Como são cheios de
repugnâncias os seres sociais! Como se presenciar ou conhecer ocorridos fatais fosse
motivo suficiente para se ter certeza de que não se pode fazer nada. Ousar é viver!
Num ato desesperador, adultamente, empurrei Edmond que ainda corria sem fôlego
seus últimos passinhos limitados atrás da carruagem. Ele caiu sem que eu quisesse ter
causado essa sua queda, este “ato vergonhoso”, forçando-o a reconhecer-se um decaído, um
mero limitado, um meramente “humano” (que certamente ele devia associar a “reconhecer-
se meramente infantil”, isto é, sem forças, incapaz, ingênuo, inútil etc... mas não era bem
isso). Estaria eu descarregando o ódio que sinto pela ignorância e desconhecimento dos

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fatos naquela monstruosidadezinha? Digo sinceramente que empurrá-lo para cair, isto foi
sem querer. Rogo-vos perdão por este pecado também!
Uma criança é sempre preterida nas honras e urgências dos adultos. Eu sabia disto
em minha consciência angustiante, mas passei por cima de minhas divagações ao agir por
praticidade e instinto empurrando o garoto para alcançar, com justificada urgência, um
cavalo que numa coxia vizinha se espairava. Quando alcancei o cavalo, contudo, a
carruagem sequestradora já estava há distância significativa a ponto de não me perceber em
sua vigia. Passou-se algumas léguas e a carruagem perdeu fôlego. Pensava eu já em acudir
a garota e enfrentar com tom de exigir explicações ao adulto severo que havia feito isto
àquela adorável indefesa quando algo me ocorreu:
Estamos em meio aos prados do Conde D´Auvigon, aonde esta carruagem se dará
por satisfeita em parar? Minha curiosidade se exaltou, pois Madame Buffon havia decaído
de sua pseudo-aristocracia quando foi pega roubando um colar misto de ouro e
madrepérolas da nobre dama De L’Clerc numa festa. Qual não foi sua sorte em ter amigos
influentes a contar o próprio Sr. De L’Clerc, um idoso que havia tido certamente muitos
pruridos de amor cortês dentro e fora do casamento com inúmeras tolas incluindo minha
aristocrática amiga gatuna, a sorrateira cientista especialista em latim e amiga de infância
Madame Buffon. Quero dizer simplesmente que ela estava a viver (temporariamente, diga-
se, talvez ainda me reste tempo em breve para contar-vos a sua história) numa casa de
subúrbio emprestada de seu “amigo” açougueiro o Monsieur Cavenargues, depois que quis
se separar de seu marido, um franco-germano chamado Friedrich Buffon.
O caso é que, sendo a criança uma simples aldeã, o que ela estaria fazendo na
carruagem bastante apetecível e pomposa, diga-se, rumando no entorno ou em direção à
fazenda D´Auvignon? Meus instintos recurvaram-se, eu próprio deixei a carruagem, por
reflexo cocheiro, cavalgar para longe dos meus olhos, só a seguindo pelos seus rastros,
cheiros e evidências.
Já caíra a tarde quando chegamos no final da fazenda D´Auvignon que, por um
maravilhoso e imprevisto destino, eu já havia estado no ano de minha adolescência primeira
a nove anos atrás com a agora já bem casada Condessa Lombardi, antiga Mademoiselle
D´Auvignon. Estes são recursos da juventude, meus caros. E talvez, em minha decrépita
adultice, não me caibam aqui relatá-los. Narrar estes acontecidos não os posso. Mas, ao

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pensar naquelas ingenuidades tão primevas, nas nossas línguas tão sibilinas a se encaracolar
no resvaladiço pântano de nossas bocas; a pensar nos assovios tão fulgaces que eu soprei
naqueles ouvidos nobres, sinto mesmo muito anseio de fazê-lo agora mesmo, de vos contar
tudo e ainda mais – o que renuncio por motivos nada alheios à minha vontade. Eu vos
explico por fim, voltando a toda situação: logo o entenderão, mas tendo os cavalos se
cansado, a tarde caída e os lampiões todos acessos, fora antes mais fácil e necessário para
eu seguir naquele dia e a continuar a seguir ainda hoje e para todo o sempre a carruagem
dos meus sonhos mais brutais a partir deste meu eterno presente que voltar a introduzir
nostalgia em minha biografia. A nostalgia revela uma maturidade. Por outro modo,
defraudar o futuro, viver é pegar uma fruta imatura da árvore da vida e saboreá-la ali
mesmo, com seu veneno e amargor próprios de se transpassar a garganta pensando
encontrar ali, tanto faz, a vida ou a morte, a liberdade ou a prisão!
Ao longe não se ouvia sussurros, gritos ou sequer gemidos. Tudo se fazia passar por
natural e digno. Estaria eu enganado? A fantasia, por santificada que seja, concreta e óssea,
deixa-nos espaço para o iludido, alucinante, e o enganador. Mesmo se desejasse me deixar
enganar deveria dar a volta em torno de mim e remeter minha atenção ao que desejo de
minha própria vida. A carruagem variava seus movimentos contínuos do relevo em silêncio,
os passageiros continuavam mudos como quem estivessem à espera de um acontecimento.
Eu mesmo não me fiz mais de atento, preocupado, que de paciente. Aguardava mesmo que
tudo do quanto havia eu imaginado não passasse de uma miserável migalha de esperança,
de vida de expectativa que soçobrara em minha conformação de vida adulta, escassa, chata,
repetitiva e ignóbil.
Jamais pudera eu imaginar que assombros mais vigorosos e ao mesmo tempo
relâmpagos ruidosos passariam por minhas juntas e clavículas menos de um quarto de hora
depois de me sentir um asno debaixo do firmamento, um nada sob estrelas
decadentes...Tendo cavalgado devagar quase em círculos por volta de duas horas seguidas,
tendo passado a gigantesca fazenda D´Auvignon, encontrávamos nós agora diante de um
desfiladeiro íngreme que eu não reconhecia, mas que deixava vislumbrar com segurança
uma pequena construção numa arquitetura bem comum a todas as casas de capatazes que
guardam a cerca (por que não dizer “fronteira”?) das fazendas dos nobres da Alsácia. Eu
mesmo, enquanto um mero advogado desta raça esnobe, jamais pude ter uma cercaria tão

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cheia de vazios que deixaria a vista não alcançar seu fim em dias mais ou menos claros...
De qualquer forma, aquele não era o dia mais claro do ano. Com uma tímida lua minguante,
de certo, o negrume que invadia rapidamente a fazenda não me ajudava em nada à visão.
A carruagem parou, entretanto, desceu um homem de altura viscosa abraçando à
força um serzinho pequenino que andava a passos duros de asninho que repele a vontade do
sertanejo. Por que não eu? Mesmo que a revelia, desci de meu cavalo “emprestado” e fui
em direção aos dois. Eles entraram numa cabana de anexo da casa do capataz e a carruagem
seguiu em direção a outro casebre que se via a uma distância segura. Com minha
curiosidade infantil, meus pés de cavalo macho, minha sede de bisbilhotices, aproximei-me
ainda mais e já estava há uns 200 metros quando vi o homem fechar a porta atrás de si.
Como se uma pequenina luz ainda brilhasse à abaixo da janela do casebre a oeste,
decidi verificá-lo mais de perto. O casebre era um pouco mal feito, torto e recurvado, de
certo por ser uma daquelas casas feitas às pressas sem motivo justificável, sem desejo de se
fazer algo durável ali, seja auxílio na sobrevida animal ou mesmo algo humano para se
morar. Mas foi bem este pequeno defeito da casa que me fez poder investigar melhor tudo
do quanto se passava entre os duelantes. Por meio de uma fenda aberta entre duas tortas
madeiras de apoio da janela pude concretizar minhas aspirações de entregar-me
completamente às decisões do destino, que dali em diante passei a amá-lo.
A criança emburrada não gritava, apenas o olhava em silêncio. Fez um gesto com os
braços cruzados refletindo desgosto por algo que certamente já se passara muitas e muitas
vezes, pensara eu, mas que não se queria de forma alguma ver continuar... Foi isso que eu
interpretei ao ver aqueles dentinhos de ódio cravarem-se nos braços peludos do gigante que
há duas horas atrás a arrebatara e que naquele instante expressava a dor nos braços pela
mordida da criança com altos risos.
Agora eu devia estava certo. Ele a havia raptado! Por que não eu? Ele a sequestrara
de diante dos olhos de mil pirralhos, de uma matilha de cãezinhos que sequer se deram
conta do ocorrido, de absolutamente nada, exceto por um deles. O mais maltrapilho, o mais
sem raça, o mais vira-latas, o mais mal-tratado dos cãezinhos, o pequenino Edmond, que
naquela altura, em sua mediocridade infantil jamais pudera supor o que havia de se passar
de verdade, além da certeza de que era algo de muito ruim com sua não muito menos

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pequenina Ava. Segredara-lhe ela outrora a respeito de toda moléstia que lhe abateram os
adultos?
Suas pequenas garras e caninos não eram suficiente para aquele grande mamute que
agora haveria de lhe fazer um grande mal. Ao vê-los todos cravados, aqueles caninos
infantis em seu braço, o grandalhão embrulhou delicadamente em sua mão esquerda o
cabelinho castanho claro daquele animalzinho chamado Ava, como uma avó que amarra
um fio num carretel de costura, delicada e pacientemente. Perdi a soma das voltas todas que
o brutamontes deu em seu cabelo revelando um pequenino e branco coro cabeludo na nuca,
aproximando-os inteiramente enrolados à palma de sua mão. Seu olhar era calmo, a
despeito da sensação de dor presente no aspecto da pequenina e bela Ava ao abrir a boca e a
mostrar seus irritados dentinhos brancos.
Exceto pelo inusitado da situação, parecia um jogo que os jogadores jogavam sem
muita animação, viciados em distribuir suas cartas e ansiar por vitória ao olhar de soslaio
para o inimigo. Algo novo para quem vê, algo velho para quem o faz. Uma imensidão de
atos tem esta característica: belo e fatal de longe aos transeuntes; normal e vital de perto aos
assentados. Tal qual uma série imensa de plataformas de locomotivas como as de Londres e
de Paris que esperam centenas de passageiros, os dois efetuavam sua ação com certeza
convicta no que produziam. Dançarinos! Eles eram como atores num palco fazendo os
outros sorrirem, com seu profissionalismo austero e pacífico.
As cigarras começavam seu canto noturno, uma pequena friagem matizava minha
pele com o rubor do arrepio vesperal, e amenizava o antigo calor visivelmente provindo
apenas do sol que já partira, algo que só Alsácia é capaz de nos dar. Mas a principal
sensação de arrepio ainda estaria por vir...
Os olhinhos cerrados daquela infante travessa venenosamente sorriram. Seus
pequeníssimos seios à mostra agora por puro deleite do querer desdobraram-se em um
dengoso cachinho de uvas com as duas últimas unidades bem redondas e imaturas a se
oferecerem. Na medida em que sorria com seu olhar infantil, ela dobrava a cabeça, o
pescoço e também a cintura todos para direita como se posasse para um pintor renascentista.
Ela não tinha curvas, não tinha nem mesmo cintura, o que chamo de cintura aqui é a mera
proporção que vai da metade do corpo até o limite de sua terça parte, e ainda um pouco
acima, vale dizer, pois a menina Ava tinha tronco curto e pernas grandes! Mas é certo que

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sua cintura posava de fruta verde com esperança de quiçá um dia amadurecer. Nada de
mais... Na altura de sua pequenina vulva, até as entradas do umbigo – sua cintura são puras
medidas; bem como as medidas, puras! Logo depois, pequena dança. Na minha posição da
janela, eu só via agora o sujeito de costas e o rosto da menina. Pelo visto, entretanto, aquele
monstrengo enorme diante dela parecia-lhe sorrir. Isto é o que deduzo do que vi pelo brilho
nos olhos daquela pequenina que pareciam sonhos a vagar para o zênite com vistas de fazer
um pedido. Por que não eu?
Surpreendidos por uma luz forte e um som de patas de cavalos que se aproximavam,
eles hesitaram um pouco...Eu, extasiado demais para correr, não. Pequenos ósculos na boca
pequenina da mini fêmea se ouviam a distância. O caso deles não se alongou muito. Eu
mesmo já o definira muito bem segundos antes, em minha piedosa experiência e sabedoria
de causarem dó: Eles já se encontraram antes! Isto não era justo!

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Azules los ojos; pero rubio lo Culo

Tudo para mim estava claro como o dia. Ela não passava de uma ordinariazinha
estúpida. Uma fêmea puramente instinto, uma bárbara que veio do frio, uma égua! Claro o
dia como claros os seus olhos, como seu cabelo, claro, como sua pele branca e odiosamente
pálida. Quanto gosto eu não tive, adocicado entre meus lábios, daqueles embaraçados
mamilos, róseas e macias balas de doces artesanais?
Ah, meus caros e pacientes leitores! Se me fosse possível continuar a ter um tanto
mais de vossas santas paciência, eu mesmo contar-vos-ia tudo do quanto eu sofri ali no
meio daqueles dois balãozinhos brancos. Isto! Era um verdadeiro sofrimento para eu
entrelaçar meus dedos nuns cachos amarelecidos de palha, lisos cor de milho, sofrimento
vacilante ouvir com meus próprios ouvidos descrentes o palpitar ativo do coração daquela
infame. Tu existes mesmo, leviana por detrás de seios rasos?! Enquanto eu segurava
firmemente a nuca dela com as duas mãos, sofrimento digno era perscrutar sua boca úmida
com minha canoa de tronco rígido, nem a bombordo nem a estibordo, mas pra frente e pra
trás, a perfurar com força e embalo as vagas daquela boca tal como navegar à toda prova e
a todo vapor em um belo mar banal, suave e vulgar.
Ela havia se casado com um amigo meu. Casado não! Ela havia dado nele
um verdadeiro golpe de mulher abandonada, com filho débil mental e tudo, isto sim! De
fato, seu rebento tinha adquirido uma infernal doença na tenra infância após uma queda
duvidosa. Ela contava agora seus 32 anos. Amparada somente por sua falta de desespero,
sendo este tão comum a mulheres desta idade, resolvera que seu filho havia de ficar com a
mãe, enquanto a mãe mesma iria produzir outra vergôntea que lhe proporcionasse maiores
triunfos financeiros.
E desta vez não falharia! Tendo deixado este filho inútil com sua mãe de onde viera,
no interior da Rússia...(Eu sabia exatamente como dizê-la, mas perdoem-me por eu ter me
esquecido o nome de sua terra natal... Esses nomes russos são de fazerem doer as nossas
línguas!!!) Ela partiu para a cidade grande, agora, em busca de novas ereções desavisadas.
Ao chegar aqui na cidade luz, destino de todo inteligente interiorano, de todas as mulheres
mau amadas da Europa e de todo imigrante e forasteiro miserável, ela não tardou em

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encontrar centenas de espadas eretas, algumas até bem aprumadas, revestidas do mais fino
algodão de um colorido assaz harmônico da burguesia local.
Diante da luz era possível a ela ver que a maioria das flechas de Eros, mesmo as
mais compromissadas, apontavam para baixo de seu umbigo e já outras, mais sagazes,
seguiam-na por trás, pela linha que marca sua coluna a partir da nuca até em baixo, na
entrada fatal. Mas que de todo modo, sem exceção, elas se aprontassem para alçar vôo, isto
era por demais um fato. Dir-se-ia bastões batizadores fazendo nela o sinal da cruz, mas da
esquerda para a direita e de baixo para cima e, numa invenção triunfal: para dentro e amém!
Mas a cabelos claros resolveu encher-se de doce, exibindo meiguice e fingindo-se a
comprazida com aqueles galanteios todos... Fingiu-se ainda mais bancando a “assustada
com os alcoviteiros” ao seguir seus instintos mais-que-femininos utilizando-se também de
uma peneira doméstica típica das mulheres, a separar o joio do trigo, especialmente os
carunchos dos graúdos. Pois não fora minha a surpresa quando se viu escolher para amante
um dos homens mais ricos da cidade, um magnata têxtil, que se pode dizer amigo meu.
Em verdade, eu o conheci por tê-lo salvado da miséria por duas vezes: uma por
causa, com o perdão da má palavra, de uma verdadeira PUTA e adorável primeira esposa
com a qual ele havia mesmo se casado, por direito e no papel; e a outra vez, para além da
prostituição de luxo, dos vícios e da jogatina, depois de seus venenosos golpes, monopólios,
vermífugas práticas de negociatas escusas, meu caro amigo viu-se à beira da prisão,
pensando em suicidar-se, ou em algo por probo pior, quando eu intervi ganhando um
importante litígio contra ele com um feito memorável... Deste eu terei a honra de lhes voltar
a falar!
Eles haviam se conhecido na famosa “festa das malhas de inverno” perto do Palais
Royal quase em frente à capela St. Eustáquio. Uma estupidez momentânea essa na qual
caem as mulheres que já possuem roupa suficiente para três invernos, mas que não se
privam do direito de entupir ainda mais seus abarrotados guarda-roupas... O caso era que a
bela loira devoradora de homens ricos havia estado lá e foi ele mesmo quem a selecionou
da multidão.
O magnata das malhas de algodão tinha por apelido “Homem Têxtil”, era em
honraria, assim chamado por todos. Fernandez Ruiz Peres, era este seu nome impávido por
ser descendente de judeus espanhóis aventureiros que chegaram nesta cidade para abrir

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lojas de confecções nos fins do séc. XVIII anno domini. Sua família veio da ascensão
burguesa a Paris depois da grande revolução e ele herdou tudo mantendo somente um
quarto de toda a fortuna. Ela estava na festa por puro galináceo para com as malhas de
inverno, jamais imaginaria encontrar o rico de sua vida; ele só participava da abertura,
como de costume. Tendo eles, todavia, por acaso do destino, trocado três ou quatro olhares
e um meio sorriso durante seu discurso de abertura, ele não hesitou em comparecer
novamente no outro dia, para quiçá apreciar novamente a “doçura daquele azul celestial...”.
Ah! Quantas putas de Brescia, Pádova, Bérgamo e Trento não levaram aos céus
azuis do firmamento a todo mediterrâneo? De Elba a Cagliari, de Cartagena, Malta, Creta
ao Chipre? Mas esta viera de muito longe, não longe como Estocolmo, Helsink, Riga,
Gdansk, Oslo ou Copenhagem, com mulheres desse tipo que jamais nos decepcionam. Mas
muito mais longe, porque sabe-se lá aonde fica a Rússia! É algum lugar muito distante e
ainda muito mais frio. Muitos confiam em sua música, seu balé, e suas loiras bailarinas, já
eu desconfio que todas mulheres de olhos azuis são demoninhos que se fazem de santa, são
animais irascíveis que só devem, por meio de cuidado extremo e só de vez em quando,
serem retirados de suas jaulas para um passeio ao sol... É certo que eu já pensava assim
antes de conhecê-la. Antes de saber quem era ela, eu já desconfiava de tudo isso, depois eu
tive certeza. Não se trata de um prejulgamento, meus senhores e senhoras, caros pacientes!
Em algum momento eu melhor me explico; tratava-se o caso, isto sim, de uma confirmação
empírica por indução, método pelo qual eu, parcimoniosamente escolhi, sendo discípulo do
grande filósofo escocês David Hume. O que vale dizer, cavalheiro este que meu jovem
bisavô, ao mentir deslavadamente, disse ter conhecido em pessoa, embora dissesse, o que
vale pra mim igualmente: “que eles tiveram lá suas discordâncias práticas!”.
O nome dela também não era santo: Eva Ilyinichna Rubina! Não conheço nome tão
próprio para uma meretriz! Bem, talvez outras preferissem Maria Rubina, Rute Rubina,
Débora Rubina, ou Sara Rubina, mas o episódio expunha que a conformada mãe de nossa
curvada e volúvel heroína dera o nome de Eva Rubina, chamada simplesmente “Eva”.
Perdoemos-la, pois! Bem que poderia ter sido muito pior! Os senhores ainda haverão de
concordar comigo!
Ora, ela também não havia retornado àquela festa senão por galináceo masculino,
desta vez. Ao perceber ter conseguido afinal laçar algo realmente grande agora, ela não

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hesitou desta vez em vir ainda mais perfumada, ainda mais ingênua, ainda mais saboteadora,
ainda mais pegadora de pênis por carteira. – “Fisgar algo grande”!!! – Gritava Eva para si.
Algo que, obviamente, se comprovaria por exclusividade na conta bancária do “Homem
Têxtil” e jamais no cumprimento de sua aventura! Tão pouco caso nossa heroína faria disto:
- “Quem precisa de um único pepino se se pode comprar cenoura, beringela, linguiça e todo
um armazém?” Uma coisa nela era realmente indepreciável: suas boas mãos para os
legumes em geral!!! Ora eu que tantas vezes já provei desta sopa de verdura com meus
ovos saborosamente mexidos a se encharcar...!
Ao retornarem para o festival de malhas no dia seguinte não foram só os seus olhos
que se curvaram um ao outro, seus braços roçaram-se também como que “por acaso”
naquele tumulto feminino de mulheres efervescentes... Aliás, conto-vos um segredo: os
melhores lugares para se bolinar com as fêmeas necessitadas de aconchego e de calor
masculino são mesmo nestas festas de roupas, onde se vendem artigos para mulheres e
feiras de bijuterias e outras bugigangas universais. Nada como roçar de olhos, peitos,
bundas, cinturas e braços nestas compras frenéticas que elas fazem... Sabendo os dois a
respeito disto, quero dizer, a respeito do grande resvalar de corpos no delírio das compras,
os dois aproveitaram-se para se roçar ainda mais, digo, se conhecer melhor enquanto seus
corpos iniciavam as preliminares ali mesmo, num início de esfrega e fricção.
O homem têxtil seguiu a seus impulsos chamados por ilusão e fantasia de
“dominadores”. Seu porco contador, um capitalista esguio, feio e alto, trigueiro, com nariz
de águia, tendo-os visto sair dali apressados, os seguiu e contou-me parte do que eu sei
sobre esta história que se arrastou até aqui e com vossa paciência se prosseguirá:
O galpão da “festa das malhas de inverno” fora alugado, como todo ano, do bom
velhinho judeu Sr. Ibrahim Peres. Ele havia, completamente por engano, é bom que se diga,
imaginado ser o meu amigo magnata Fernandez Ruiz Peres, filho de um tal Armando Ruiz
Peres, um judeu imigrante (piada!) da Romênia que havia servido na Guerra Franco-
Prussiana a favor dos Alemães! Bela história essa, não fosse completamente enganosa. O
que meu amigo, vendo um filão ali, deixou que se passasse por verdade verdadeiríssima,
inclusive contando detalhes altamente heróicos de seu “pai”, estranhamente confirmados
pelo velho Ibrahim Peres, que havia servido como herói coadjuvante juntamente com seu
amigo de mesmo sobrenome: “– Pura coincidência judaica, pura coincidência judaica...”, –

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Dizia o cabalístico velhinho que, nesta guerrinha estúpida, havia lutado e se ferido, por não
menor estupidez, uma vez que era também voluntário de uma guerra que não era
absolutamente a sua. E para piorar, tinha orgulho de ter defendido a “sua adorada Alsácia
para o magnífico Império Alemão; o seu verdadeiro lugar!”.
O galpão tinha pequenas salas filiais cercadas por colunas de madeira bem atadas.
Eles partiram rapidamente para lá. Acercaram-se do que é prevenido, reserva muita para
eles é também muita bobagem, mas no paralelo a tanta bagunça, estavam por fim sós. Os
dois pombinhos selvagens não demorariam a terminar em privado o que haviam dado início
em público. Armando, o contador nariz de águia, para espiar aquela aventura teve de, à toda
amostra, se esgueirar por debaixo de uma coxia abandonada ao lado da casinha filial aonde
os dois agitadores pélvicos tinham se escondido. Sequer notou que transeuntes estranhavam
aquele entortar de pescoço de águia ao aterrisar na presa suas garras de rapina.
Ela mal havia tirado toda a roupa e meu amigo já estava enrabando a moça com
uma cusparada bastante torpe e bem provida no meio de seu olho benfazejo. Não sei se
descobriu vagamente as verdadeiras intenções daquela mundana ou bem não saberia tratá-la
como deveria não fosse daquela maneira mesmo que se devesse tratar qualquer uma que
tivesse olhos azuis...
Bom, certamente eu estou divagando... Se isto deve ser assim eu próprio o teria
pensado e não meu amigo, por acaso concordam? Se ele a tratou bem foi antes por instinto
que pela infelicidade dos costumes! Malditos sejam os costumes que nos forçam a tratar
erráticas perambulantes tal qual damas respeitosas somente por parecerem ou por vemo-las
vestidas como tais! Fiquei com uma pequenina inveja amistosa quando ouvi esta história
sórdida, pelo menos no que ela tem de visivelmente prazerosa. Seu início foi mesmo assim,
belamente, com muito regalo, com muito do doce deleite, fétido e melífluo prazer anal.
O final? Bem, que meus pacientes leitores o aguardem! Mas de aviso eu digo que
não se degustará nada mais daquele antigo mel, daquele túnel de calor ardente, daquele
faminto circuito rotundo, aspirante à dentro; nada mais de orbitar às maravilhas do círculo
sedal – sendo eu um mero e típico homem ao bater-lhe à porta detrás. Por tristeza, me ficará
somente o fedor desprezível da produção retal de um organismo humano... Certas safadezas
exigem total cumplicidade...

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Fernandez continuava a enrabar Eva que permaneceu com os seus lindos olhos azuis
revirados para cima como em coma ou vidrados de superabundância divina. Com uma
abertura bastante bem adequada que ela tinha para o ato, qualquer ente masculino do
mundo ali se escorregaria. Em majestoso proveito, Deus houvera feito aquele buraquinho
daquela maneira mesmo, ou antes, sendo realista, algum homem já houvesse, por fricção,
bem torneado aquele túnel formidável e oblongo que suplicava deslizantemente por mais e
mais e mais, sem oferecer resistência... O redondo desoprime...
Cansaço sequer passou pelas pernas daqueles ousados! Tendo suas mãos aos joelhos
e seu rosto disforme de assanhada virado para trás e para cima ao mesmo tempo e o nosso
garanhão, sem violência, segurando as duas mãos da égua loira pelo encaixe dos dedos,
permaneceram ali bem uns 20 minutos a resfregar o vai-e-vem sadio de todos os santos dias.
Não dando por satisfeito, antes de terminar com seu delírio, Fernandez, sem pestanejar,
soterrou sua língua inteira, ela toda no fosso milagroso de nossa loira. Como se pusesse a
pôr e a tirar sua língua, num movimento enfermo de tão manso e sossegado, lambia depois
os próprios beiços e recolhia a língua para dentro de sua boca como se estivesse a degustar
um velho vinho vertido de um odre novo. Ele repetiu isso ad infinitum, enquanto ela,
atleticamente, curvava-se com as mãos abaixo das pernas dele e roçava-as, apalpando suas
“bolas” sabiamente chamadas de “testículos”. Como ela fazia isso com muito esmero e com
uma delicadeza infinita um ponto chegara até que ele não conseguira suportar mais
vibrando um urro antes de gozar, levantando-se rapidamente e engatilhando a sua
ferramenta férrea para inundar de suas sementes aquele túnel tão viçoso e catinguento tão
bem feito por nosso bondoso Senhor Deus.
Eu ainda assim eu me surpreenderia se tivesse ouvido esta história a tempo de não
me surpreender. Quero vos dizer, meus caros, que aqueles defeitos mais impróprios, vindos
de alminhas tão arduamente puras em seu aspecto exterior, tendem a nos enganar para todo
o sempre! Oh, como é saboroso o gosto deste engano! Aliás, eu fui bem aventurado ao me
enganar no início imaginando que aquele suposto “anjinho” do Senhor que havia de fazer
meu amigo um homem tão feliz, teria vindo simplesmente para abençoá-lo de sua longa
angústia e tristeza por ter nos negócios quase se dado totalmente mal. Eu próprio ao me
enganar, de todo paradoxal, vi-me febrilmente envolvido nesta vodka russa, a mulher que
veio do gelo para aquecer e tentar o meu coração mediterrâneo.

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Meses depois já convivendo na empolgante "Maison Frères Peres", era criticada
pelas “cunhadas”, as mulheres dos irmãos de Fernandes com as quais Eva não se dava nada
bem – “incompatibilidade de gênios”, inadvertidamente se presume... Mas as putarias se
equivalem, porque, de outra feita, uma mulher sempre conhece a outra. Ainda que todas se
unam e concordem por demais na tapiação dos homens, jamais deixam o conhecimento de
si mesmas para depois e dificilmente enganam-se mutuamente. Um olhar feminino
direcionado a um homem tem significados totalmente irreais, um olhar feminino a outra
fêmea é verdade pura. É por isso que nós homens nos unimos com facilidade, e fazemos
política, tolos que somos, por isso também que as mulheres competem entre si, pelo seu
excesso de saber de si e das outras - um ser apolítico por excelência. Uma mulher
reconhece outra a mil metros de distância. Mas quem se importaria com isto também? Eva
tampouco se importou de modo algum. Síntese do judaísmo e do feminismo, tudo para ela
se encerrava em lucro.
Meus deleites com ela não duraram pouco – principalmente depois de eu saber
como ela havia fisgado meu amigo Fernandez e também depois de eu perceber que, a
estabelecer sua morada definitiva, a expertise havia-se depositado ali, naquela bela
cabecinha loira.
Embora eu não seja exatamente defensor de devassos corruptos, e sim de homens de
posses, dentro do que se pode chamar lei eu fiz o melhor que pude por ele que, por sua vez,
retribuiu de modo francamente bondoso e financeiramente desejável. Afinal,
considerávamos-nos amigos! Ora, que não seja um bom bocado de esfrega-esfrega silvestre
motivo para se perder uma boa amizade! Digo isto de inocente aprendiz de cordeiro que por
curiosidade não foge quando a raposa se aproxima. Outros diriam e fariam muito mais em
meu lugar! De certo não pude comentar os ocorridos entre mim e Eva com Fernandez
simplesmente por ele se ver totalmente entregue a esta russa ardilosa e arguta. Que o meu
próprio silêncio me justifique e me perdoe!
No mesmo dia em que o nariz de águia me segredou os ocorridos na “festa da
malha”, não pude conter meus impulsos devidamente humanos de provar de tudo do quanto
seja bom no viver! Enquanto vivo, eu dizia, quero experimentar, viver e ser. Culpo-me
todavia, pelos métodos que utilizei para conseguir o que quis. Se os indico aqui, não é para
que os imitem, senão para que fique clara uma maneira possível de arrepender-se, se este

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for o caso... Parece que minha educação católica sempre se sobrepõe a herança cada vez
mais ateia de nossa sociedade, ou antes, esta àquela! Basta por fim que nos arrependamos
para que possamos voltar para a graça de Deus num só pulinho de remorso! Espero que
estas palavras me sirvam lá no céu quando nosso Senhor Deus me chamar! Melhor prova
de Sua infinita misericórdia não há!
Ela sabia que estava em dívida comigo porque deixava claro para ela em milhares
de flertes que não sou tão burro em sexualidade quanto meu amigo Fernandez... Os
impulsos femininos para o sexo respondem primeiramente ao “o que eu ganho com isso?”,
em seguida ao “com esse eu estou garantida!”. E nesse sentido eu fui mal. O caso é que usei
barbaramente de chantagem quando vi que a russa simplesmente não liberava
espontaneamente o buraquinho das delícias para mim. Também eu não fui muito prático!
Todo homem medianamente prático sabe que deve, por meio de técnicas sagazes e
artificiosas, conquistar de uma mulher somente por modo indireto, o que quer que deseje.
Eu pedi o buraquinho das delícias e pronto! Ela se sentiu vulgarizada e chula... Como se
fosse outra coisa...como pudesse imprimir um senão em sua qualificação ordinária,
descartável e carnal... Que sabichona! Que tola ingrata! Que atriz malévola! Queria provar-
me ser muito mais digna para uma atuação shakespeariana? Nada obstante, não tenho
práticas labiais com vagabundas!
Evoquei a ela, deste modo, a festa da malha, o filho débil mental que meu amigo
Fernando sequer se dera conta. Evoquei suas obrigações para com sua sorrateira mãe na
ânsia por dinheiro. Falei da investigação que conduzi pessoalmente a respeito dos safados
que se deram bem dentro daquele reto russo para que, por fim, ela se sentisse mais amena,
sociável, meiga, confortável, afetuosa e simpática para comigo. E deu certo! Senhoras e
senhores, não sei se por medo, vergonha ou volúpia mesmo, a loira russa acabou voltando a
traz de sua recusa inicial e concordou em direcionar suas nádegas ao meu quadril, mas não
pensem os senhores que ela o fez de modo tão volúvel quanto desejável, ela aceitou se
entregar sim, mas o fez de maneira seca, fria e burocrática, em respeito à minha afronta. Oh!
Como é belo o conhecimento do mundo! Serão a afetuosidade, a amizade e a compaixão
filhas do mesmo medo? Disto eu não sei mesmo não, mas sei que tendo dado mais ou
menos certo ela me ofereceu sua bundinha russa na secura regelada de seu frígido inverno
temperamental. A mim pouco me importa se a mulher finge ou não, se está rígida, parada

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ou se movimentando de prazer, o mais importante pra mim é ver que ela se sujeitou ou me
quis, qualquer uma das duas opções de prazer me foram igualmente válidos e
correspondentes - será por isso, temo decepcionar alguns de vocês, que não me verão forçar
ou pegar à força uma mulher para o sexo. O grande poder é anterior, o sexo, no limite, é
secundário.
Mas ela de fato me desprezou. E isso era mesmo odioso. Sim, como eu gostaria que
tudo fosse diferente! Aquela frieza glacial russa, aquela falta de esboço humano, aquele
deleite rude, deixou-me completamente a mercê! Por que uma devassidão tão cheia de
ótima lubricidade, isto é, de envolvente desejo, me pegou de forma tão agressiva, gélida,
indiferente e eu não a recusei? Tão mais fácil para mim seria não ter nunca tido o prazer de
conhecer tão lascivo e sensual pedaço de carne que veio do frio. Mas fui mal e assim o
similar com o similar se cura! Mereço o pior! Não há, em todos os cantos dos nossos lados,
corpo saudável o suficiente que jamais tenha em veneno tocado. O veneno cura!
Confesso, apesar disso, que fiquei tão mais apegado a ela quanto mais ela me mal
tratava, seja intimamente; seja na frente dos agora seus empregados. Costumava jogar as
coisas no chão para que eu as pegasse... O que eu fazia, mesmo rangendo os dentes de ódio
desta diaba de olhos azuis... Mandava-me lamber seus calcanhares vermelhos... O que me
arranjava um certo prazer, embora não fosse o pé propriamente o sustentáculo do que
considero de fato prazeroso, meu intuito abrasador, e sim seu oblongo furo traseiro da
mesmíssima cor... Fui mal e fiz jus a toda pena! Processe por sobre mim todo seu digestivo
bolor fundamental!
Certa vez, por exemplo, tendo me obrigado a lamber umas feridas de seus braços e
costas, ela debochou de minha decadência. Não sei que doença de pele acometera esta
senhora... Pessoas assim, muito claras, vivem de extremos cuidados com a pele. Sou de tez
escura, mas eu sei a respeito disto por causa de minha avó materna que, tendo branco e
ruivo sangue escocês, padecia da mesma moléstia que aquela puta. Passava mal a velhinha
na minha Córsega ensolarada, por ter sido convencida a morar lá a contragosto.

- Que pena! - dizia eu a ela - uma meretriz tão jovem e já cheia de purulências! Ela
não me dava ouvidos e pedia para que eu chupasse suas cicatrizes sem delicadeza, uma vez
mais...

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“- Vai! Lambe! Lambe uma vez mais! Seu cachorro! Se não, não vai ter
‘buraquinho das delícias’..., hein...!? É pegar ou largar!”

E eu peguei! Meus caros e pacientes leitores, não pude recusar um cuzinho tão bem
roliço, engraxado e escorregadio...A que ponto eu cheguei! Tive de me rastejar não sei mais
quantas vezes atrás daquela megera da libidinagem. Encarreguei-me de envenenar meu
autocontrole, de superar meu egocentrismo, de entorpecer meu senso moral e sobretudo de
dar graças a Deus por me fazer tão ínfimo, tão miserável, tão humilde e tão cheio de
esperança na salvação eterna. Viver para ela, fazer tudo por ela, enaltecê-la sem razão! Uns
são afeitos ao álcool, outros ao ópio, e os como eu, ao buraquinho das delícias... Isso
mesmo, viciado naquele loiro cu! O quê mais me restaria fazer?
Fomos para o quarto da criada. Eva fazia sempre questão disso e de mantê-la em
casa enquanto trepássemos para que nos avisasse a tempo caso Fernando ou outro alguém
batesse à porta. Ajudei-a se despir no langor vagaroso de me aproximar da excitação da
vida, enquanto eu olhava fixamente para dentro de seus olhos azuis de mulher bárbara.
Acariciei seus pesados e rebeldes cabelos que, divididos ao meio da cabeça, cobriam sua
testa de modo singelo o que lhe dava um ar ainda mais puro e menos comprometido com o
foder humano. Sempre tive uma queda por mulheres com franja, principalmente por
aquelas que fingindo incomodação nos olhos pelo cabelo, chacoalham a cabeça ao sorrir.
Este era o jeito dela. Sorria antes de qualquer coisa... Puta sem vergonha, mulher bárbara
sorridente, por que eu te amo tanto? Por que teu cu é tão delicioso e imploro por mais?
Fui seguindo minhas mãos desajeitadas em suas curvas sutis, ombro, culote e
coxas... Era magra. Bochechas, pescoço, peitos, barriga e nádegas... Era linda... Sorri de
nervoso feito um menino ao ver aqueles peitinhos secos olhando para mim como ovinhos
fritos cuja gema amolecida inundará de gozo a minha língua enquanto derreterem dentro de
minha boca. Pedi que ela deixasse tocá-los e ela riu-se. Julgava-me um tolo por ter tudo a
seu alcance e ainda assim fazer questão de “pedir licença”. Lambi o seu escapulário e o pus
quase que totalmente dentro de minha boca. Eu sabia que ela era ortodoxa ou fingia ser,
mas como Fernandez era judeu convertido ao cristianismo passou a usá-lo. Fiz uma rápida
oração antes de me deitar em cima dela, algo que sempre fiz em cima das loiras (que
sempre riram como se isso fosse piada): “obrigado, meu Deus! Obrigado meu Deus!

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obrigado meu Deus!”. Ela não havia compreendido que essa era minha forma ritualística de
dizer: Bendita sois vós entre as mulheres! Benditos os ovinhos fritos dos vossos peitos,
salvadora, esses mesmos que me servirão como entrada para o prato principal! Oh, loira
que veio do gelo, oh, olhos azuis astuciosos e perspicazes!
Ao levantar sua saia para cima e tirar tudo aquilo que me separava de sua arruela
alimentar, ela deitou-se de costas na cama de solteiro da criada e abriu com as duas mãos as
poupas da bunda deixando livre a entrada frutífera para um mundo por demais róseo e
fantástico. Os dedo dela deixavam marcas vermelhas em sua branca bunda e isso era como
que uma mensagem divina para mim. Quando vi aquele lindo fenômeno da natureza,
aquelas pequenas curvas que desabavam num fossinho singelo de deleite, redondinho e
rosado, aqueles risquinhos bucólicos que adornavam seu furinho pareciam raios de sol dos
desenhos infantis, com muito fervor agradeci ao espanhol Fernando por liberar sua mulher
e assim orei ao seu Deus:

¡Bueno es Dios! Azules son los ojos; pero rubio es lo culo!

Cumpri minhas obrigações do modo raso. Lubrifiquei seu ânus sem muita grosseria,
mas rosquiando-os, enfiei logo três dedos com uma vingança violenta dentro dele. Não
havia lubrificante apropriado, utilizei me então do que havia à mão no momento: um pouco
de sebo de vaca que a criada havia guardado para o repasto daquele dia. Odeio o cheiro do
sebo e o odor da gordura, mas não havia outra alternativa, era aquilo ou o cuspe, mas
frequentemente fico sem saliva quando estou às vésperas de adentrar em um cu de uma
mulher...

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As irmãs depravadas – em três atos

Ato I – a curiosidade

Fabiana, menina toscana, da província de Grosseto, pseudopuritana, tinha


aparentemente uma personalidade mais firme que sua meia-irmã por parte de pai, a
Petrusca, Florentina. O pai delas havia nascido numa fazenda no interior. Ele retornava para
lá sempre que podia, isto é, quando havia emprego. Em Florença trabalhava no ramo da
tecelagem, já em sua terra natal, uma cidadezinha de Grossetto, no ramo que aparecesse.
Tendo de voltar a trabalhar e morar em definitivo agora em Florença, a família Grimaldi foi
obrigada a se adaptar aos costumes da cidade grande. A mãe delas, determinada em manter
ambas, a filha Petrusca e a enteada Fabiana no caminho da bondade do afeto e do amor de
nosso Senhor Jesus Cristo, as encarregou à Madre superiora (por que não dizer Madre
Assustadora?) Ginevra Moretti, do convento do Sagrado Coração de Florença. Seriam
agora alunas daquele colégio de muito boa fama nas rodas de caridade cristã e mal afamado
nas conversas de taberna da verdadeira Florença...Não caberia melhor lugar para elas! O
colégio já famigerado por suas desavenças morais acolheu bem as danadinhas, sem que lá
se soubesse que elas lhe aumentaria a um só tempo a boa e a má fama.
Haviam chegado lá com a idade de 14 anos e meio, Fabiana e de quase 13 anos,
Petrusca. Tiveram de acompanhar o curso em atraso, pois já passava da metade do ano e em
Florença há uma lei que força as crianças nestas condições a seguirem normalmente os
cursos anuais. Não temos nada disso lá em Córsega, gostaria de vos dizer. Há crianças de
11 a 14 anos convivendo todas juntas e aprendendo o que se deve aprender na escola! Ora,
quem sou eu para questionar o método Florentino de estudo? Como diz sobre os
Florentinos aquele historiador Napolitano cujo nome não me recordo: “Eles sempre deram
os maiores poetas, os maiores filósofos, os maiores cientistas e os maiores estúpidos
também!”.

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Petrusca era uma loirinha muito meiga com lábios pequeninos da cor da amora
quando está para amadurecer. Ela tinha um corpinho tão bem feito quanto é possível a uma
menina desta idade. Dir-se-ia ainda imatura não fosse o delgado das ancas que já se
formavam bojudas e, digamos, “prontas para o abate” de tão maravilhosamente durinhas e
tremulantes quando a víamos de calças curtas a correr. Fabiana, já um tanto rechonchuda,
parecia-se muito com a sua mãe, bonita nas proporções do rosto, com o nariz um tanto
avantajado (o que particularmente gosto) e com um corpo agradável de se olhar. Talvez
manifestasse um pouco de vergonha em saber-se tão redondinha, embora nada houvesse ali
de preocupante, pelo contrário, seu corpo redondo não limitava o aparecimento natural de
declives suaves competindo com curvas acentuadas nos locais sensualmente adequados.
Seja pela crença em sua má-compleição, seja por alguma lembrança nostálgica de
sua terra natal, Fabiana não gostou da mudança para Florença porque os florentinos “não
são toscanos de verdade”, dizia. Tinha em Grosseto, ambiente de rara pureza toscana,
amiguinhas, bosques de passeio, uma cadelinha chamada Fafá e até alguns namoradinhos
que, a despeito do valor que conferiam a ela, ficaram todos para trás... Desvalorizada,
seguindo forçosamente para Florença, Fabiana trouxe consigo sua nostalgia e a certeza de
que um dia voltaria para suas toscanas lembranças, substituindo finalmente o desejo pela
realidade, ao retornar para sua terra natal. Mas antes disso, ela sabia que teria de amargar
algumas penetrações forçadas e aprender, de pernas bem abertas, a conter os soluços diante
das autoridades da Santa Igreja...
Com seu sorriso angelical, seus olhinhos puros e sua altura de criança alta (ela
alcançava a altura de meu ombro!), Petrusca se esbaldou com o preconceito daqueles que
veem na beleza natural a autoridade tirânica de quem nasceu para vencer a qualquer custo.
Sendo por estes apoiada e adulada a todo tempo, certamente esta “bela”, como um ser
divinizado, conseguiria tudo o que quisesse na aventura romanceada de sua vida inteira,
pelo menos enquanto seu corpo e rosto expressassem aquela beleza. Não precisaria nem me
dar ao trabalho de dizer quem seriam aqueles ávidos do belo, aqueles selvagens, aqueles
idólatras, não fossem complexamente feios, desventurados, estéreis e tristes. A Madre
Superiora, a primeira a se fartar desta falta de comedimento, possuía a feiúra suficiente dos
que se escravizam diante de uma pequenina beldade divinal. Mas ela não aprontou tantas a
esta velha freira burra quanto aprontou muitas a uma doce noviça chamada Greta, uma que

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se tornaria a freira cuja fé inabalável Petrusca tentava pôr frequentemente à prova. E que
duras provas, caros e pacientes leitores! Se tiverdes um tanto mais de vossa paciência
contar-vos-ei algumas das aventuras destas meia-irmãs em devassidão pela parte paterna e
alguns pormenores, não menos devassos, daquele colégio de Florença onde pululavam
santas tetas e devassos corações.
Certa vez tendo escapado da sala de aula sem que seu professor percebesse,
Fabiana quis conhecer o dormitório das freiras localizado no convento anexo ao Colégio. E,
só para que os leitores o saibam, não se havia estabelecido uma divisão estreita entre o que
era Colégio-Igreja-Convento exceto pelo dormitório das freiras, aos quais nenhuma aluna
tinha acesso e por isso mesmo esses aposentos bem cheirosos enchiam-nas de curiosidades.
Fabiana, portanto, não podia ter querido ver algo de mais horrível que aquele bem cheiroso
bordel cheio de cruzes, bíblias, santos de todos os nomes, especialmente aqueles de quem, a
todo canto, nunca se ouvira falar!
Saindo do átrio estudantil, ela subiu a escadaria que dava num corredor amplo com
piso renascentista, colunas neoclássicas e com pequenos ladrilhos de mármore fino nas
paredes. Eu odeio arquitetura de imitação romana! As igrejas pelo mundo a fora procuram
imitar aquilo que mais foi o antípoda do mundo cristão! Acrescentando aquelas cenas de
lamentação, querem supor transformar a casa de Deus em uma ante-sala do paraíso, que
mais se parece com um banheiro público da época de Cícero. Que tolos! Isso é deprimente!
A decoração do convento ressentia mesmo à purificação paradisíaca, pois tinham
recentemente colocado afrescos da via crucis por todas as laterais, uma vez que o colégio
mesmo estava passando por reformas que o desconfigurara bastante de sua característica
original – se é que ele já fora bonito alguma vez! Fabiana caminhou até ali distraída
deliberadamente pelos opressores afrescos.
Por segundos esqueceu-se do que tinha ido procurar, esqueceu-se de qual impulso a
havia feito por um pé sobre o outro em direção aos aposentos das esposas do Senhor. É fato
que eu soube pela boquinha desta mesma menina prodígio que ela simplesmente queria era
“prescuitar”. (aquele acento toscano assombroso ficava formidável em sua boquinha de
mel).
Não tendo sido surpreendida por nenhuma das fabulosas meretrizes de longos
vestidos cinzas e de gorros brancos, ela continuou observando o corredor, o mármore, os

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quadros de cristo semidespido em expressão de gozo fundamental. Aquelas sequências de
cruzes depositadas amorosamente em pequenas mesas ao lado, ferramentas ao chão e os
andaimes que cobriam algumas largas portas verdes de um feio rococó a lembravam de que
havia homens trabalhando no Convento. Que delícia para algumas freiras observadoras que
se passavam por técnicas de um saber de vistoria. Na mixórdia impressionante de estilos
antigos decorados ao redor, Fabiana divagava sem evitar os passos cuidadosos em direção à
aventura...

“- Onde haveriam de estar aqueles trabalhadores? Seria hora do almoço? Não!


Estamos na aula de religião e por isso não deve passar das 10:00h da manhã. Estariam
dentro dos quartos? Quiçá estariam bolinando com as freiras mais selvagens desta
confraria...? Não! Eu hei de estar enganada!... Só há três freiras verdadeiramente safadas
em todo este Convento. E eu descarto a Dona Vera e a Dona Eulália, pois as vi juntas no
escritório estudantil ainda há pouco. Mas há pelo menos quatro homens trabalhando na
pintura das portas do Colégio, segundo vi ontem à tarde... Então...”.

Depois de passar um tempo caminhando e dando vazão a estas reflexões


tipicamente toscanas e liberais, ela sequer teve tempo para concluir um pensar sobre Dona
Frígia quando se deparou com soluços, um pequeno tossido e risadas mal contidas que
vinham de uma porta doravante já pintada de marrom. Sendo a única porta que destoava de
todo o corredor mais estreito onde havia pouca luz – mas luz suficiente para se perceber à
distância ter-se depositado ali mãos masculinas – Fabiana aproximou-se ansiosamente em
silêncio. Ela curvou o ouvido até à porta e sentiu o cheiro forte da tinta marrom entrar por
suas narinas, agora já infalivelmente infladas de curiosidade. Como se os gemidos não
houvessem diminuído, muito de outro modo, aumentado um pouco e alternado não mais
com risadas, mas com aquele tossido seco e leve, algumas vezes reprisado, Fabiana não
tinha mais dúvidas, tratava-se mesmo de Dona Frigia. Aquela tosse era lhe por demais
familiar. Dona Frigia tossia às trovoadas sempre que desabava a falar a respeito de algo que
a excitava, quando cumpria longo trajeto à pé e quando ficava com raiva de alguma coisa
ou de alguém (diga-se de passagem, aquela pequena tosse culposa da freira devassa viria a
se tornar funesta logo a diante. Tratava-se de uma tuberculose intratável que a levaria a uma

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morte rápida, poucos meses mais tarde). O que faria a Dona Frigia ali? Certamente estará às
voltas de sacanagem com alguma outra freira...! Ou estaria com um dos homens
trabalhadores da pintura? Fabiana não viu morosa a finalização de toda esta sua
expectativa... Ouviu uma voz masculina dizendo: “Enraba ela enquanto eu gozo na boca!”.
Falsamente apavorada, Fabiana quis correr, mas não pôde porque seu ávido
coraçãozinho tão machucado e palpitante fez seu corpo não obedecer a sua súplica de fuga.
“– Minhas pernas simplesmente não obedeceram!” – Segredou-me ela com sinceridade
certo dia em que me narrou estas suas histórias fabulosas. E eu estava em espírito com
ela: – A vida torna demasiadamente secos os nossos corações para que resistamos
cordialmente a estas úmidas tentações.
Tendo, por arremate, ficado ali durante alguns poucos minutos, esteve lá o
suficiente para ouvir gargalhadas masculinas que pareciam vir de muitas vozes... “–
Quantas vozes?” – Roguei a ela, aflito. Em resposta, disse-me em sua candura: “– Isso eu
não posso saber, mas eram mais de três, pois tinham risos e gemidos diferentes... sabe?”.
Como têm percebido, meus nobres leitores, destas excitantes histórias, por
infelicidade do destino, eu não as participei. Fui apenas cúmplice daquela garotinha ao
prometer em nada contar seja a seus pais, seja ao clero, seja a qualquer pessoa. Voto que
cumpri até este momento com distinção e louvor. Se o relato agora é porque ambas irmãs já
se foram desta para melhor na última epidemia de cólera em Florença da qual escapei
refugiando-me aqui em Paris, de onde escrevo estas humildes linhas de recordação.
Fabiana arrepiou-se. Diante da porta da freira a imobilidade a fez refugiar-se em
seu próprio corpo. Passado o primeiro susto, sua concentração nas aulas do vigário
Lancelotti veio-lhe à mente: “Aqueles que presenciam o pecado alheio sem admoestá-lo
comete pecado mui grande, talvez mil vezes maior!” Por mais aparvalhado, lerdo e bruto,
estaria o padre certo? Não demorou muito para que o temor da danação lhe desse forças
para vencer a pressão exercida contra suas trêmulas pernas pelo seu desejo de ficar parada
ali ouvindo palavrões tão sensualmente benignos não somente aos seus ouvidos mas
também a seu corpo todo que, naquela altura já se umedecera vigorosamente.
Quando enfim resistiu e correu, o fez com passos tão longos quanto foram possíveis
a uma moça e digo que, realmente, quase posso ver aqueles labiozinhos apertados e olhos
de angústia imóveis enquanto sua saia azul marinho se levantava ao sabor do vento em sua

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corrida em direção ao colégio para sua aula de religião. Que olhos divinos presenciaram
aquela cena de suas perninhas rechonchudas e brancas tremularem para cima e para baixo
rapidamente como quem chama alguém por meio de gestos para que lhe sirva de chão ou de
tapete? Deus somente deve ter visto aquele pequeno milagre e permaneceu, como sempre,
em Seu Onipresente silêncio.
Eu próprio, sendo mesmo um pobre mortal e mísero pecador, permaneceria também
em silêncio não fosse o motivo pelo qual eu soube de toda essa história que vos confio
neste instante. Tendo sido eu convocado para advogar na causa particular de um Fidalgo
por quem nossa bela redonda havia se apaixonado, pude conhecê-la e ouvir de sua própria
boca, em pagamento de serviços prestados, a respeito destes assuntos todos, bastantes
difundidos, por sinal.
Para que não vos custe seu precioso tempo, meus pacientes, resumo assim o meu
motivo para não ficar quieto: Ela se apaixonou por um Fidalgo bem casado e eu os
encobertei na argúcia também de cobrir as partes pudentas da esposa dele, no mesmo
momento em que eles se encontravam. Acreditem! Foi isto um puro profissionalismo! Se
me perdoam! Pois, de fato, não havia nunca encontrado mais tediosa mulher que a mulher
do Fidalgo. Eu próprio já não sou muito de Fidalguias, por isso, se o fiz foi porque também
temia um pouco aquele Fidalgo que diziam estar metido com o diabo. Dizia-se que ele
utilizava de bruxaria com as roupas íntimas de suas amantes para fazê-las se apaixonar e
obter delas os piores favores...Quanto a isso não sei quase nada, mas sei que se fiz o que fiz,
entreti sua mulher para que eles se entendessem, foi unicamente a favor do pedido da
menina Fabiana, roliça saborosa. Enquanto eu arranjava um encontro com a mulher dele,
geralmente num albergue barato perto de minha casa (nesta época eu me virava numa
pocilga alugada no centro de Florença), eles se armavam na coxia de uma antiga fazenda
próxima. Foi assim que eu ajudei a toscana de Grosseto Fabiana a se dar bem com o
Fidalgo florentino à custa sensual de me contar histórias temperadas sobre sua vida.
Confiando-me preguiçosamente algumas peripécias recentes com bobos meninos e
depois de eu tanto insistir que estas suas histórias eram-me tediosas, ela contou-me com
afinco literário suas aventuras colegiais e de como ela foi estuprada pelos párocos mais
respeitados das igrejas das vizinhanças (tendo virado notícia) desde os nove anos de idade.
Bom, eu digo aqui “estuprada” no sentido mais figurado possível! Não demorou em tirar

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boas conveniências dos desejos masculinos que evocava... Especialmente dos falsos
puritanos... Conheço bem esta laia! Mal podem avistar uma puta santa que confundem as
mãos pelos pés, em seu desespero angustiante... Pelos pares de olhos tão meiguinhos que
me fitaram sem nenhuma culpa e sem nenhum rancor ao comentar suas sensações ao ser
forçosamente penetrada, vi realmente que estava mesmo diante de uma pseudopuritana, ou
mais especialmente, uma falsa antidevassa – porque um par de olhos meigos já não mais
dizem nada.
Dada minha experiência, nada adiantava que ela reforçasse, com um suposto seu
sentimento de culpa, o quanto eram boas suas intenções para com o Fidalgo. Ademais ele
era casado! Eu dizia a ela simplesmente: “Eu não sou aquelas madres! Não há necessidade
de rodeios, não precisa tergiversar comigo!”. Penso até, olhando para trás, que ela me deu
detalhes de suas estripulias simplesmente para rivalizar... Quiçá tenha inventado algumas só
para dar-me exatamente o que eu queria...FANTASIAS DEPRAVADAS... Pouco me
importavam a veracidade ou a verossimilhança explicita de seus contos, o que importava
para mim, que não participei de nenhum deles, era o excitante sentido que estes faziam,
aparecendo-me, então, como HISTÓRIAS REAIS. Nada daquelas histórias me lembravam
as pantomimes lumineuses1 do Theâtre Optique que vi em paris. A fantasia é imaginada a
partir da realidade, pois não temos outro ponto de apoio, estamos irremediavelmente presos
ao real, ao fenômeno, ao que nos aparece, tais quais bebês recém nascidos presos às suas
mães, sendo que para nós o rompimento do cordão umbilical representaria a nossa própria
morte. As Fantasias Reais relatadas pela Fabiana eram-me de tanta valia a ponto de me
fazer sentir se avolumar meu pênis dentro das minhas calças largas de cetim azul que tanto
as uso e amo... Vi-me então contentado e feliz com a ambição buscada em suas peripécias;
algumas das quais relato aqui para que possam entretê-los, senhoras e senhores.
Tendo ela gastado em vão a lábia com sua irmã Petrusca tentando convencê-la de
que mentisse para a Madre Superiora a fim de que pudessem escapulir da aula, Fabiana
queria fazê-lo assim mesmo, ainda que só. Petrusca não admitia faltar ou evadir-se da aula
com a habitual desculpa esfarrapada como a “morte de um parente” ou uma “doença na

1
Antes de fazer sucesso o cinématographe de Lumière, as chamadas “Pantomimas Luminosas” de Emile
Reynaud, no fim do séc. XIX, chegou a agrupar centenas de milhares de pessoas encantadas em torno de suas
fantásticas projeções de fotos, pinturas coloridas, animadas e com projeções sonoras no Musée Grévin,
Boulevard Montmartre. N do T.

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família” para se encontrarem num riacho próximo com meninas de outras salas que dariam
a mesma frágil e antiquada desculpa combinada. Petrusca, irredutível, a partir dali não iria
mais mentir! Sem a anuência e cumplicidade de Petrusca, mas com a certeza de que não
seria delatada, Fabiana, em correria, beijou a irmã no rosto pedindo para que mentisse
apenas dizendo que não gostava deste tio que ela pretendia “matar”, e que por isso não fôra
a seu enterro... Disse isto e saiu apressada, sem sequer dizer qual era mesmo o nome deste
mais novo “defunto”...
Mal podendo aguardar o esperado, tamanha era a excitação, a jovem roliça Fabiana
começou a sentir-se úmida. Andava agitadamente às pressas, com o grande volume de suas
coxas raspando-se uma na outra como bóias infláveis ou salva-vidas, destas que ficam
dependuradas em cascos de navios costeiros e que as crianças adoram usar para brincar nas
águas da praia.
Ao chegar num escoadouro que dava para o riacho, sem franzir ou curvar seu rosto,
não hesitou em descer por ali mesmo para que ganhasse tempo encurtando o caminho. Essa
descida era conhecida de todas as crianças que iam “matar” aula e vencer o tédio nas
ensolaradas tardes de Florença. O local não era por princípio de “devassidão” infanto-
juvenil, entretanto, com a ajuda das sensuais irmãs, a partir de um determinado tempo,
aquele local ficou conhecido como “riacho das lambidas” - apelido singelo que as crianças
haviam dado ao local de encontro das meninas curiosas para explorar com a língua o gosto
do corpo alheio.
Novas cicatrizes estavam se demarcando naquele corpinho rechonchudo cheio de
novidades. Ela jamais se importunou com a dificuldade em chegar até seu riachinho
querido. Dizia, pretensiosa, numa imitação barata de poetiza que: “as duras penas valem a
concretização de um destino...”. Para além desta mania de Safo, ela variava da inocência
própria da adolescente perspicaz com a sabedoria da devassa juvenil.
Ela tinha, ademais uma secreção transbordante na xoxota... Parecia que o aumento
do friccionar de suas coxas, o deleite produzido do escorrer de sua umidade e o assovio
ritmado do arfar de suas narinas a conduziriam para o inevitável... As folhas verdes, por
demais cintilantes, acolá brilhavam a cada um dos passos seu. Alívio das sombras que se
deitam no verão por sobre uma cabeça candente – o desejo por água terá sua satisfação
garantida, sede esta que lhe será saciada logo à diante; sua boca, cheia de sorrisos e dentes à

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mostra lancinantes, os galhos secos, os espinhos de plantas que a arranhavam, os pequenos
filetes de sangue que suas pernas decoravam, seus gemidos aflitivos, faziam-na doravante
existir.
A pequena floresta que a mocinha atravessava com seus cortantes emaranhados
indiferentes à sua humanidade, aparentemente lhe oferecia resistência, mas estava ali, ao
contrário, em sua ânsia de viver, mantendo-a desejosa do que queria ou ainda insistindo
neste mesmo desejar, completamente ciente de si e do mundo. Tudo aquilo que nos resiste
nos impõe estímulo para continuar... Portanto, deseje com força, Fabiana, vá!!! Incitada a
contrastar seus objetivos contra toda advertência possível que lhe fira ou que lhe cause
alguma dor, a mulher do século XX encontrará os caminhos para a realização de si e
assim, o caminho da realização de toda a humanidade. Disse em aula a sua nova
professora de ciências, uma polaca de nome difícil, mas de fala muito mansa.
Ao chegar ao riacho, Fabiana encontrara apenas uma menina das cinco que haviam
combinado a se encontrar por lá. Sentada distraidamente a jogar pedrinhas na água, estava
uma imagem de consolo: Estella Benvenutti, a mais tímida de todas as cinco que viriam...
Menos pior! Se Fabiana tivesse chegado lá primeiro, sem que houvesse com quem se
corresponder, tudo o que antes passara teria sido totalmente em vão: a secreção que saia de
sua vagina, as narinas que haviam se espaçado pelo seu desejo de ar cada vez maior, os
dentes mostrados como que num tipo diverso de fome, a queda das gotículas de sangue que
vertera, o calor que subira até ali... Não será de modo algum em vão todo dedo em riste que
almejar o bocado que lhe cabe de uma venturosa satisfação, a partilha de um contentamento.
A menina Benvenutti a havia salvado outra vez de começar sozinha o que
combinaram por bem fazer em grupo:
- Também pegou o atalho?
- Não! Vejo que se arranhou lá!
- Não tem importância, uma vez que estou aqui... - Ao dizer “estou aqui” Fabiana
roçou seus dedos nos curtos cabelos da nuca de Benvenutti – Ela sorriu! Expressão
imediatamente correspondida.
- Matou a aula de Grego?
- Não, da Madre Maria!

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- ...Eu, do Lancelotti, como sempre...! – Antecipou Fabiana, antes que a
perguntasse...

Elas se beijaram primeiramente com ardor, digo, com uma “longa ânsia” por parte
da Fabiana e com uma “imobilidade sem surpresas” por parte da menina Benvenutti, mas
esta, depois de sentir-se desconsertada, dragada como se fosse um jarro d´água que mataria
uma forte sede, decidiu correr e molhar os pés...

- Vamos brincar! – Gritou ela ao correr em direção à água.

Fabiana rapidamente ajoelhou-se um pouco impávida. Não quis acreditar que sua
sede de viver seria sublimada por meras brincadeiras infantis. Mas sem impedir afinal que
os músculos levemente inflados de suas bochechas se afastassem de sua boca devagar
esticando os cantos para trás e, em seguida, seus olhos tornassem pequenos pela luta por
espaço em seu rosto por causa do leve deslocamento de suas bochechas. Era assim seu
sorrir... Mas ela continuava simplesmente imóvel e lânguida observando a amiga deslocar-
se na água, mantinha-se em silêncio estático como fizera outra vez quando assistira
escondida exatamente a um balé e uma ópera buffa no teatro Della Pergola.
Percebendo a ingratidão da amiga, a menina Benvenutti começou a levantar água
em sua direção repetidas vezes até que conseguiu ganhar dela sorrisos muito mais
convincentes. A arcada dentária de Fabiana já estava totalmente à mostra quando ambas
ressoaram seu adolescente recitativo, aqueles gritinhos que se seguiam a ruidosas
gargalhadas dadas em uníssono desuniforme. Fabiana aceitou o convite e passaram minutos
juntas a se empurrar e a se molhar com água, a se lambuzar com lama os cabelos e
seguindo a escorregadios desejos, a passar as mãos por sob os corpos resvalados e sujos da
a materialidade da vida.
Elas estavam definitivamente contentes. Passariam de resto ali todo o tempo da
eternidade, se este lhes viesse. Passaram, em realidade, o restante da tarde secando-se ao sol,
sussurrando obscenidades aos ouvidos uma da outra, atirando pedrinhas na água, brincando
com os próprios mamilos, medindo o tamanho dos pés por comparação, coçando nariz com
nariz feito passarinhos e alisando-se num terno carinho as nucas sem dizer para outra uma

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só palavra. Mutuamente cúmplice o silêncio, pois a ação da boca de uma alternar-se-ia à do
ouvido da outra e vice-versa. Mas não! Em silêncio, a palavra falada tem uma força
infinitamente menor que a certeza do que se quer dizer.
Quando Marina, a Silvia, a Suzan e a Erica chegaram elas não tinham ainda tocado
as línguas em outras partes fora de suas próprias bocas. A bailarina Fabiana estava de pé a
mostrar a uma atenta Estella como se equilibrar com um pé só tendo a outra perna, o dorso
e os braços estirados em horizontal.

– Se eu, que sou pesada consigo, você cons...” – Neste momento, gritou Silvia:
– As duas!!!

Fabiana se desequilibrou e caiu. As outras viram e correram em direção às amigas e


todas se miraram às gargalhadas. As duas perceberam que elas tinham vindo pela estrada de
pedra, como chamavam à antiga via medieval abandonada.
– Não vieram pelo atalho? – Perguntou Fabiana levantando-se e curvando-se para
trás com as mãos na cintura heroicamente e de pés afastados, remetendo toda a atenção para
si.
– Não! – Respondeu Silvia ao olhar os riscos mal-cicatrizados das pernas da amiga.

As outras meninas perceberam as “impressões de confronto” e os “estímulos para


inveja” que petecara por ali. Distraindo-se da competição, Suzan, que não havia sido
convidada pela Fabiana, mas sim pela própria Silvia, que a topara casualmente no colégio,
tirou as sandálias que usava, correndo imediatamente para água. As outras duas a seguiram
com o regozijo da jovialidade.

– E a Amanda Negrini? – Perguntou Fabiana ao abraçar Estella, ambas já sentadas.


– Não quis vir! Gritou Erica, já animada, correndo e dando tapas na água para
molhar as amigas...

Meus mais que pacientes leitores, queiram os senhores, por favor, saber: o que se
seguiria daí? Eu digo apenas que essas moças não vieram ali senão para brincar e por isso

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não foi sem pressa que elas tiraram a roupa sem nenhum pudor para, antes de qualquer
coisa, nadar, simplesmente. Enquanto as meninas se divertiam, Estella e Fabiana se
abraçaram delicadamente permanecendo em silêncio beijando os ombros uma da outra,
como se as outras que chegaram ali depois simplesmente não existissem.
A ideia era que encerrassem seu banho solar com frenesis e enlaces deliciosos,
secassem seus corpos da água do riacho com a água da saliva que vinha do fundo de suas
bocas, auxiliadas pelo afetuoso sol da tarde. Nada obstante, Fabiana e Estella já estavam
quase secas da água do rio quando as outras começaram a se explorar com os dedos.
Silvia, ainda na água, tomou a iniciativa com Marina. No entanto, não querendo
ficar de fora e nem sequer para trás, Erica decidiu fazer o mesmo com Suzan agarrando-a
na cintura, sentindo prazerozamente as poupas da bunda dela, agora curvada, contra suas
coxas. A Suzan, por sua vez, rapidamente afastou-a com sua mão esquerda por instinto,
exalando um pequeno gemido de uma sorridente porém assustada criança que se surpreende
com uma “má” intenção alheia. Ambas sorriram e se entre olharam em silêncio. Suzan
alertou Erica com o cotovelo duas vezes e apontou o dedo em direção da Silvia e da Marina
que já se beijavam tendo os corpos aproximados e os joelhos mergulhados n´água. As duas
foram até aquelas que se beijavam lançando alternadamente as suas pernas para o ar para
fugir da resistência da água. Quando finalmente Suzan e Erica chegaram até Silvia e
Marina os dois casais de meninas se abraçaram uns aos outros formando um quarteto
mágico e belíssimo, no entanto, vergonhosamente apenas visto em literatura de má
reputação. Ao perceber a manobra, Silvia desgrudou-se dos lábios de Marina, mas
manteve-se abraçada a ela, curvou-se um pouco conseguiu dar um imenso beijo aberto na
boca da Erica, obrigando Marina fazer o mesmo com Suzan.
Ah, meus caros leitores! Quanta satisfação eu teria em ver in loco esta cena tão
prodigiosa! Frenéticas lesbianas a alternar as bocas feito essas engrenagens modernas das
máquinas locomotivas a vapor! Dir-se-ia um conjunto de quadridentes, vagão-reboque,
beleza férrea e essencial de magníficas locomotivas. Seus uivos, seus gemidos, seus
assovios são expelidos depósitos da caldeira. Suas oito mãos são eixos e seus braços
êmbolos excêntricos fazendo o maquinário todo andar... Seus ósculos e lambidas seriam
ouvidos à toda distância como sons do novo e barulhos selvagemente deliciosos: Shock,
Shock, Shock...Viva a modernidade!

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Agachando-se para pegar o que é seu, Marina, já excitada, vasculha com a boca o
corpo... De mais quem? Não me perguntem! Testemunha ocular deste fato jovial, a própria
Fabiana, não soube responder dezenas das minhas ansiosas perguntas, portanto, a partir
daqui apenas o fantasio... Elas se uniram na frenética harmonia de corpos. Oh, unidade
santa do olfato, paladar, audição, visão, tato e instinto tornados um só na unidade do corpo
santo, amém!
A língua de Marina saltada para fora parecendo um ser vivo enrosca-se no umbigo
de alguém. Esta era outra? Era aquele mesmo umbigo que havia tocado com a mão?
Nenhuma delas fazia qualquer questão de formar ideia alguma a respeito do objeto a que
atingiam! Correspondentemente, quando entramos numa locomotiva a vapor deixamos
nossa confiança na modernidade. Não sabemos o que faz cada uma das peças desta
máquina, mas sabemos que ela nos levará rapidamente ao nosso destino. Uma mão
sorrateira aprecia sua carne, primeiramente os glúteos, as coxas, as ancas, palpitam os seios,
escorregam com objetivo à vagina, fazendo uma parada na curva da barriga, que como por
mero instinto se encolhe. Outra mão, só, arteira, levanta-se pelas costas de alguém, rasteja-
se por cabelos molhados de delícia fluida, aprecia alguns braços por meio tátil e revolve-se
dentro de umas ancas em dedos interesseiros... E perceber o quê...? O que foi isso? Quem o
fez? Quem está aí? Elas continuam sem saber, se são, quem são? São dedos, são mãos,
braços, são bocas, línguas, são corpos em uníssono.
Fabiana e Estella já não mais se tocavam... Já não mais se divertiam mutuamente
como há algumas de dezenas de minutos atrás, pelo menos não mais como aquelas que
chegaram depois. A vantagem no tempo lhes havia dado regalia de expectador em relação
às outras meninas. Os que chegam antes na Estação da Experiência, esses arautos, têm a
prioridade vantajosa de poderem olhar para trás. Já quem partiu do trem depois tem todo
um caminho ainda a percorrer, atinados são, por isso, os mais velhos que nos observam
sorrindo com deleite e paciência infinitos! Mas essa intuição de precedência sobre os outros
seja pela corrida no tempo, seja pela condição social ou de nascimento é apenas uma ilusão.
Tão pouco Fabiana e Estella, cujos interesses estariam acima de quaisquer hierarquias, não
buscariam aí também quaisquer motivos para tirar vantagem senão por equanimidade, uma
da outra.

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Ambas ficaram paradas estaticamente, pendurando sorrisos e contemplando os
acontecimentos da tarde que caía. Com os olhos bem abertos, Fabiana ainda lambuzava os
lábios com saliva insaciável e seu coração pedia mesmo um pouco mais. Nenhuma angústia
a visitara naquele maravilhoso dia arrebatador. O sol lá em cima ainda brilhava um pouco e,
como nunca, para todos nós. O astro celeste ao mesmo tempo contemplava bem ao longe a
minha vida de adulto envolto em burocracias e mediocridades sem fim no mesmo instante
em que ele estava a contemplar as meninas livres e grandiosas no “Riacho das Lambidas”.
Impassível, o astro rei é a maior das testemunhas, a rivalizar apenas com a lua das
incontáveis escolhas de nós seres humanos. Da minha parte, antes eu queria pegar a
locomotiva direto para uma estação de maior ardor, que o de uma carreira, uma profissão,
algo que me tirasse do meu foco essencial. Naquele mesmo dia, Fabiana segurou-se para
não fazer parte daquela maquinaria pesada, mas muito leve de se olhar, embora tenha se
contentado indefinidamente apenas em acariciar com a língua os seios de Estella que, por
seu turno, envolvida por aquela visão inebriante, de modo algum se sentiu incomodada com
isto, ao menos não desta vez.
As meninas que se agitavam por sob a água já há algum tempo estavam agora, a
cada roçar de pernas semi-eretas, mais próximas à margem. Diminuindo a velocidade do
comboio ou talvez por se sentirem satisfeitas por aquele instante, levantaram ainda semi-
despidas quando perceberam estarem a sós.
– “Onde estariam Fabiana e Estella?” – Ora, não importa! Elas deviam ter se
entendido e buscaram por privacidade...!” Sem se envolver mais que isso, extenuadas de
sua longa viagem, simplesmente ajeitaram suas roupas e ainda molhadas partiram. Sequer
olharam para trás e não foram testemunhas de tudo o que se passara senão até ali, onde os
olhos limitam o que se presta a existir. Os olhos são como panos sobre uma leve camada de
poeira, onde não se deitaram não podem de modo algum tornar límpida toda a superfície...É
por isso que dar testemunho significa num só tempo lançar luz e trevas a depender de onde
os olhos passaram e com que rigor.
As meninas já deviam estar agora em suas próprias casas, ignorando que aquela
linda tarde havia sido arranhada por uma espécie de usurpação do prazer; sem imaginar que
houvesse algum adulto que as observava por entre os arbustos na margem do rio. Há quanto
tempo, afinal, devia estar aquele homem parado ali? Não havia ele presenciado nada

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chegando apenas no fim de todas aquelas femininas carícias? Representar-se-ia ele este fim?
Estaria ele lá desde o começo daquelas saborosas brincadeiras femininas, ou mesmo antes,
maculando com a sua infâmia masculina um riacho celebrado apenas à meninas mulheres?
Quer dizer, sabia ele sobre aqueles juvenis encontros femininos? Bom, não é preciso dizer
que estas indagações e elucubrações são coisas inteiramente de minha cabeça: minha
dúvida; minha fraqueza! A própria Fabiana quem me confiou toda esta legendária historieta
não soube em nada me responder. Calo-me, portanto! Quando o testemunho é falho, apenas
há espaço para insinuar, sugerir, propor, apontar. Mas sendo eu também um homem que
tirou proveito sem procuração da intimidade feminina naquele virginal riacho, tudo fiz para
não conduzir a vocês os meus leitores, a tirarem conclusões precipitadas quanto ao fato
ocorrido e o que, de fato, se pode tomar , por fim, como estabelecido.
Tudo do quanto sabia dizer-me Fabiana era que elas estavam ainda no riacho, mas
um tanto afastadas das outras meninas. Ela estava beijando longamente sua querida Estella
quando repentinamente sentiu uma mão pesada e rústica, masculina, desabar por cima de
seu ombro nu. Tendo-se regelado da cabeça aos pés e ainda mais ficado muda ao ver os
olhinhos da Estella tão grandes quanto se é possível ver uns pequenos olhos se arregalarem
num estanque de pavor, Fabiana saltou a outro mundo. Ao ver isto, a pequena roliça
engoliu a saliva à seco e, sem nenhuma coragem, olhou para trás. Era o padre Arnaldo
Vitale com sua fisionomia séria, sem muita expressividade quanto mais sem palavras.
Fabiana ficou surda por alguns segundos, nunca passara por medo tão profundo e
involuntariamente cultivado. Os segundos ali passados eram essenciais para ela. Sentia que
ia sufocar. Regelou não apenas seu estômago, as extremidades dos membros, mas sentiu a
própria alma regelar e lhe faltar o fôlego. Nada disso foi comparável à pressão sanguínea
que subiu em seu pescoço que parecia querer explodir em sua espinha dorsal e mais acima
em sua cabeça. Não sabia se as palavras que não saiam de sua boca tinham-na abandonado
por completo em função do pânico ou porque não se lembrava de que algum dia tivesse
sido capaz de pronunciar palavra alguma. Ela me confessou este sentimento desta forma:
“– Era como nascer de novo! Eu senti um medo tão grande e um pânico tão violento que
suei frio, minha mandíbula tremia sozinha e minha garganta se fechou involuntariamente
na mesma hora impedindo-me de abrir a boca!... Fora isso as minhas mãos se fecharam

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fortemente e eu só me lembro de conseguir pronunciar gemidos, como se estivesse tendo
um pesadelo sem que eu conseguisse acordar”.
Realmente, com um gesto agudo, o padre Arnaldo Vitale fez com que elas se
levantassem mudas. Estella o conhecia, mas não tinha qualquer contato com o padre; já,
Fabiana, tinha aulas com ele e se confessava, por vezes. Estella, por frequentar outra
paróquia e por não ter tido ainda aulas com o padre no colégio, foi capaz de apenas tentar
emitir algum som que, por fim, se mostrou ininteligível e quase imperceptível mesmo que
tenha sido emitido com fervor do fundo de sua fina garganta. Mesmo assim, por não
conhecer bem o padre, Estella não estava tão regelada quanto a sua amiga Fabi.
Com outro gesto expressivo, agora com rigor utilizando somente as sobrancelhas, a
boca em forma de bico e os olhos de fogo, o Padre Arnaldo Vitale a impedia de forma bem
vagarosa de emitir qualquer ruído. Apontando com o queixo em direção ao atalho, fez
primeiramente Fabiana se mover; mas a sua amiga Estella a acompanhou em seguida,
escoltando-as, enquanto o Padre impôs o seu ritmo para se afastarem do riacho, o mais
depressa possível. Foi neste único momento que Estella pensou nas outras. Ao olhar para
adiante, onde esperava seu destino e para trás aonde se refugiavam as meninas, viu que elas
ainda estavam ausentes do perigo a planar nos altos e purificados ares de um céu azul
infinito e por isso mesmo, como todos nós, distraídas das dores e das dificuldades alheias.
Por míseros segundos de desconcentração dessa realidade mais comum, isto é, o
egocentrismo irreversível dos seres humanos, tudo estaria perdido para o padre Arnaldo e
para todas as outras também. Mas longas e amplamente vivas são as possibilidades do
destino! Impondo-se somente sobre as duas, o padre sabia que poderia utilizar-se da força
de seu testemunho presencial de um crime para comprar o silêncio cúmplice para com um
outro crime, mas desta vez cometido contra as próprias criminosas.
Ele as levou para longe dali, pelo atalho. Mas não voltaram ao colégio, como
pensara inicialmente Estella, num misto de inocência com a famosa burrice que acomete a
todos quanto entram em pânico. O medo provoca alucinações, atrapalha a reflexão e
entorpece o juízo. A verdade, a realidade, por sua vez, deveriam ser algo comum a todos os
seres humanos, mas os medrosos vivem em outro mundo! A realidade que eles vivem é
outra. Estella e Fabiana estavam perdidas demais por seu medo provocado pelo “flagra”
dado pelo padre no “riacho das lambidas”. Estavam perdidas demais para enxergar o

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evidente. O refletido, o racional, o que há de se esperar, nunca são outras coisas senão o
óbvio... Porém, mesmo que a verdade tão óbvia quanto a luz do dia possa ser ao menos
sentida por um cego e vista por todos aqueles que podem ver, os loucos, semi-loucos, os
distraídos, os ególatras e os medrosos seriam quem como cegos. Se, ao contrário, o medo
fosse confrontado e as distrações divinais compartilhadas, saberíamos que a gravidade nos
alcança sempre a todos - inclusive aquele que nos querem achacar e nos por para baixo!
Que o diabo o carregue, Padre Vitale! Pensou a filósofa Fabi, enquanto andava o mais
lentamente possível para se recuperar do susto e do medo tentando estar pronta para o seu
destino, qual seja: a expulsão do colégio ou algo menos pior.
Era fato que aquele percurso que os três estavam seguindo era outra trilha forçada
pelo padre e desconhecida das duas até então. Nada ali havia de galhos espinhentos, nada
de íngremes subidas, nada de pedras antigas, apenas uns relevos numa paisagem pouco
sinuosa que dava para um bosque de mato rasteiro no qual as duas jamais pisaram e a
respeito do qual jamais ouviram falar. Chegando, então, num lado oposto ao morro da
reconhecida Igreja da Nossa Senhora da Conceição, o padre fez um gesto para que elas se
sentassem. Sem dizer uma só palavra começou pelas suas sandálias franciscanas a se despir
tranquilamente, embora ainda estivesse ofegante e com os olhos fixos nas duas. Ambas se
olharam sem acreditar que aquilo estivesse mesmo acontecendo... Eu também que só o
imagino, quase vejo um pequeno sorriso vultuar no canto dos lábios de Fabiana, enquanto
eu soubesse que na cabecinha de Estella um pensamento não lhe quisera dar sossego: “Este
padre também é safado! Este padre também é safado!”.
Ajoelhou-se rapidamente Fabiana na altura dos quadris do padre e levantou a batina
dele com agilidade de quem não está nem aí para o que se costuma chamar de
sentimentalismo. Sim! Sentimentalismo era o que Fabi costumava chamar um não sei quê
de “não estou gostando, fingindo surpresa…” ou a um “dizem que é assim que devemos nos
portar, comedidas…” ou a qualquer um costume tão idiota quanto automático reservado às
mulheres que Fabiana dava de ombros e imputava estupidez... “Antes uma inteligência
incólume e tímida que uma burrice escancarada aos olhos e ouvidos de todos!” Pensara a
mini-poetiza roliça, a desde ali, minha filósofa preferida.
Se se pensar bem, o padre Vitale era imoral e ladino, mas não era mesmo de se jogar
fora! Embora não fosse exatamente bonito, mas pelo menos, penso eu, era o

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suficientemente “jovem” para ser incorporado. Tinha quase 30 anos durante esses
acontecimentos e ele sabia como tirar prazer das meninas, suas alunas. Fabiana sabia disso
também e foi capaz de superar o seu pânico ao se decidir, como se fosse uma imperiosa
mulher adulta do descortinado séc. XX: todas as suas ações, a partir de agora, procurariam
respeitar a lei que visa estabelecer o amanhã!
- Estabelecer o amanhã!? O Padreco não se fez de rogado... Mas não se eximiu de
aproveitar cada um dos segundos de liberdade total ofertados a ele pela excelente Fabiana.
O destino estava repleto de si! Era pra ter dado tudo errado, era para que aquela menina se
tornasse exatamente o que era, uma menina simples de predecessores límpidos, de humildes
e tementes a Deus e que fossem castigados pelas más reputações e descomedidos. Mas algo
havia surpreendentemente “dado certo” e tudo de novo se concretizara. Não fosse a sua
vontade de viver, a sua capacidade de entender que viver está para além dos costumes, sua
visão aguçada que lhe mostrava a clareza da certeza de que sentir é viver –
independentemente das posturas contedoras das qualidades de sentir do corpo etc. – não
fosse isso tudo, Fabiana jamais experimentaria do real prazer em toda sua vida. Essa era a
única coisa que o Padre tinha em sua consciência: seu prazer dependia de pessoas como
Fabiana, dignos seres que escolhiam pela vida e pela liberdade. Por isso mesmo, igual a um
estuprador que tenta convencer a sua vítima e aos juízes de seu julgamento de que ele não
passaria de “um louco”, o Padre Vitale decidiu de modo forçado tentar convencer Fabiana a
dar sentido à própria existência dele. Mas, assim mesmo, ela não se incomodava nem fazia
“didática” naquela ocasião – um estupro mais que consentido, exatamente como um grupo
de outros que ocorreram nas outras muitas vezes em que esse casal inusitado vivenciaria
aquilo quando se encontrassem depois outras vezes a sós, era a ambos muito bem vindo... –
a despeito da embasbacada Estella, que estava no Riacho das Lambidas na hora errada
ainda que com a pessoa certa.
Dê ao padre uma hora de mágica, belíssima Fabiana! Ofereça-lhe o que nós temos
de melhor! Dê-lhe a superabundância do refúgio ao se entregar à sua roliça e juvenil lição -
confira, contra a agonia da elegância, a tirania da servidão voluntária. Costumávamos
acreditar na força das repreensões que nos colocava para baixo de nossas fortalezas quando
não a conhecíamos, fazíamo-nos sentir pouco importantes quando nos humilhávamos
diante estrondosa e aborrecida ante-sala do paraíso, conquanto a hora mágica para nós era

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outra. Mas agora não! Nossa heroína experimentou o estupro na hora exata e disse que: “–
tudo bem!Vamos lá!”
Estella, catatônica, observava-os. Desabotoou assim mesmo o seu pequenino sutiã
de novo, por instinto reflexivo e olhando fixamente para a sua amiga Fabi, como que a
procura por palmas. Refletiu posteriormente que fizera isso para que o padre não
desconfiasse de sua surpresa e que ele se aproveitasse agora de duas “mulheres” liberadas,
em vez de uma só! Por isso eu jogo as minhas mãos para o alto! Ó deuses do céu infinito!
Ó esperança de algum dia! O século XX é o século das crianças; se hoje elas tem 13 e 15
anos, assim que o século tiver quinze anos, elas terão 23 e 25... E tudo será límpido! O dia
amanhece, e eu tenho de estar preparado!
“– Ambos já devem ter feito isso junto antes, tranquilamente...” Antecipara, Estella,
num certeiro sussurro com a boca. Foi assim que ela conquistou a respeito disto, por fim,
certeza absoluta a partir dali, ao falar sempre em voz alta consigo mesma. Dizem os
entendidos que faz parte de resultantes atos ou acontecimentos estressantes por quais
passam esses falantes que pensam com a boca... disso eu nada sei... O que é fato é que a
menina Estella pegou esse hábito de sempre se referir a ela e a conversar consigo em voz
alta desde ali.
Estella acaba de ter presenciado algo que pareceria inatural para todo o mundo,
exceto para os dois pervertidos à sua frente. Tudo em micro segundos pensou
principalmente em Fabiana, de quem gostava. Pensou em si mesma sendo delatada. E
articulou finalmente um: “– Sim!”. Momento surpreendente este em que, com um mero
abanar de ombros, teve Estella a indiscrição de reconhecer que todas as meninas suas
amigas eram altamente sensuais, dadas e recipientes para todo sêmen possível no raio das
relações entre os belos bem nascidos daquela Florença ardente. Elas preferiam umas às
outras, mas aqueles homens que servissem, poderiam fazer parte, ainda que um pouco
distante, desse grupo seleto. Por que não poderia também ela mesma inclui-lo nesta
ardorosa aristocracia?
- Eu concordo! Mas conquanto que eu me assegure de que esta questão não saia
daqui! Asseverou ingenuamente Estella sobre esta questão sexual secamente imprópria,
sem obter resposta alguma dos dois que já se enroscavam...

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O Padre Vitale e a menina Fabiana continuavam mesmo a aumentar suas
respirações como se não houvesse testemunhas ou habitantes num raio de mil quilômetros
quadrados. Pareciam simplesmente dois jovens semi-virgens recém casados a dividir sua
alcova pela primeira vez. Começariam assim o coito que inauguraria uma série de outros
nos quais encerrariam suas vidas ligadas a um futuro e ao mesmo tempo despedir-se-iam de
suas vidas solteiras passadas dando, ao cabo, um fim à solidão.
Estella, provavelmente, não gostaria de ficar de fora disso, custasse o que custasse!
Se antes a aceitação disso era lhe um triunfo em suas mãos, em que a sua decisão teria o
peso dos acontecimentos, a indiferença dos dois à essa “nova Estella” demonstrava que
dentro da aristocracia, a igualdade é perene e que não há comemorações com a sua
ampliação, ou seja, na chegada de novos membros. Abobalhada ou não, no momento em
que viu Fabiana chacoalhar o bambu já enrijecido do padre, Estella acorreu para que fosse a
primeira a por a boca ali. Sugou-o todo com enorme barulho, fazendo a ponta do icebergue
ainda mais rijo alcançar a sua garganta ressequida ao engasgar:
– Coff...Coofff...Coooffff…
– Há… Há… Há… – Gargalhou a italiana Fabiana ao dizer em excelente francês:
“– Doucement petite, doucement…”2
Pegou ela própria, Estella, a vara de bambu molhada agora de sua própria saliva
misturada à cusparada de Fabiana e a enterrou diretamente em sua boca. Tirou rapidamente
e enroscou sua língua na ponta como quem enrola um carretel de linha de costura; com
muita segurança, agilidade e aceleração. As mulheres acham que isso nos é excitante, não
sei por que... Todas as que tiveram a autoridade para ter o meu próprio pinto em suas bocas
fizeram isso, de forma inconsciente! Eu que não sou de deter alguma tentativa de
penetração em meu mundo sensível, jamais tolhi nenhuma a deixar de fazê-lo. Mas parece
que com Vitale essa ação cumpria bem seus objetivos.

2
Fabiana tinha o Francês falado e escrito impecáveis. Muito melhor até do que o meu, aliás, pois nasci em
Bonifácio na Córsega e sou Cismonte. Nasci no sul dessa maravilhosa ilha e, por causa da profissão de
marinheiro de meu avô, sempre falei o Corso, o Inglês (um pouco) e o Francês em casa, mas considero como
minha língua materna o italiano da toscana. Eu tive influência irlandesa de berço por parte de minha avó que
foi quem nos criou, a mim e aos meus irmãos e foi a responsável direta pela minha educação na infância, mas
ela sempre falava toscano em casa. Ela se casou com um marinheiro toscano e foram casualmente ter minha
mãe na Córsega, onde se estabeleceram anos depois. Não tive pai, a despeito dele ser natural de Bonifácio e
ter pertencido à aristocracia que remete à Casa Bonaparte, nos separamos ainda quando eu tinha oito anos de
idade. Minha mãe morreu de parto em 1872. N. do A.

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O padreco desta vez se dera bem! As duas não eram como aquelas outras
lambisgóias que haviam recuado no momento chave... Essas não eram nem metidas, nem
antipáticas, nem prontas para “dar com a língua nos dentes”. Sabia que podia gozar sem se
preocupar em ter de reforçar no fim quem ali teria o poder de expulsá-las do colégio
contando aos pais, aos professores, à madre superiora e aos outros párocos, o que faziam
com frequência no riacho. Por fim, em quem mais acreditariam, nelas ou no Padre? As
Sagradas Escrituras, em consequência, os párocos e a Igreja eram há séculos os
proprietários únicos e absolutos de toda a verdade - eles jamais foram efetivamente
confrontados.
Sem que tirasse a batina, o padre desmanchou o cabelo de Fabiana que, a esta altura,
ainda estava amarrado na parte de trás e começou a enrolá-lo em torno de uma de suas
mãos enquanto ela saboreava sua espada de Vênus com muita segurança e ímpeto. Estella
recostava as palmas das mãos em cada uma das pernas sem pêlos do padre Vitale fazendo-o
suspirar. Seriam as mãos delicadas de Estella que, como ondas, cobriam lhe de vagas de
prazer? Ou seriam antes as bochechas, os movimentos da língua, os lábios bem nutridos de
Fabiana que estariam a inundar de encanto e gozo o pênis do vigário? Seja como for, ele
sabia que tirara a sorte grande! Dividiu seus fluidos com pares, divisou-se com iguais...
Encontrara finalmente a felicidade! Principalmente a partir de agora, não precisaria fazer
mais nada nesta vida que fosse menos instigante do que gozar! Guardaria-as para si, como
joias. A uma pérola negra chamaria Fabi, e a uma gema leitosa evocaria por nome Estella.
Mas como o padre soubera da aventura do riacho? Como se advertira de que poderia
encontrá-las ali? Tamanhas interrogações não passavam mais pela cabeça das duas
safadinhas naquele momento. Seria como que duvidar da chance de ter diante dos olhos um
pintão adulto, pronto para se lambuzar e engolir... Pode-se mesmo dizer que elas estavam
entretidas em chupar o padre mais que estavam entretidas em chupar uma à outra, pela
emoção da curiosidade. Tinham poucas relações sexuais com os meninos porque estes eram
sempre “uns biscoitinhos”, como diziam elas ao desprezar seus pênis pouco desenvolvidos.
Antes fossem só seus pênis pouco desenvolvidos, infelizmente ,seus cérebros também
padeciam do mesmo mal. Por volta dos 12 anos as meninas já estão prontas para se tornar
mulheres e os meninos estão prontos para vestirem fraldas de comportamento e emoções
infantis que durarão ainda três ou quatro anos seguidos. Elas, afetadas pela fúria de Príapo,

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jamais teriam paciência para esperar! Cumpriram suavemente sua sorte enfiando
alternadamente até à garganta de uma e de outra o prêmio corretivo por se entregarem
desnudas no beligerante “riacho das lambidas”.
Curiosidade era a minha em saber dos motivos do padre. Seria ele um bisbilhoteiro
atento às securas juvenis? Seria ele um garanhão pervertido que por acaso tivesse passando
por lá e vira sua grande sorte passar por diante de seus olhos? Seria ele um tolo que por
contingência o paraíso lhe caíra na cintura? Ah, meu Deus! O que acontecera para este
padre ter tanta sorte e eu tão pouca? Com certeza Deus está do lado dos seus filhos mais
fiéis!
Foi preciso dois meses para que eu sorrateiramente investigasse por mim mesmo os
motivos clarividentes do padre sortudo e chegasse a alguma conclusão. Assim que Fabiana
me contou esta história, fiz questão de conhecer o padre Vitale pessoalmente. Aos quase
quarenta anos, era uma criatura um pouco franzina, mas que gozava de boa saúde. Testa
alta, lábios finos, jeito delicado, dir-se-ia um verdadeiro homem da fé de Deus. Encontrei-
me com ele por duas vezes. Inventei algum nome e menti. Fiz como que um irmão mais
velho de uma das meninas, suas alunas, a questionar a falta de disciplina em casa. O padre
me acolheu bem, porque é indiferente aos seres nomeados de sua paróquia e de sua sala de
classe. Disse-me que eu “era um orgulho para Deus e para os bons costumes”. Fez questão
de me abençoar ao se despedir, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Sondei tudo que pude. Desde as freiras aos professores leigos, o zelador do
convento, o menino de 15 anos que, com frequência insuportável, vendia figo às freiras, as
empregadas arrumadeiras, e nada. Quando me dei por vencido, tendo interrogado todo
mundo que imaginara, fui perguntar finalmente para um cocheiro que eu via por vezes na
frente do colégio. “– Provavelmente ele sabe de alguma coisa”.– arrazoei. Se de nada
souber, pelo menos perguntarei a ele se teria alguma estória sórdida sobre o colégio para
me narrar em troca de alguns bons ducados... Mas que nada...! Dando de ombros aos meus
pedidos, às minhas ordens, aos meus profanos desejos e finalmente às minhas moedas, ele
me amaldiçoou religiosamente e se retirou. Ou bem se fez de injuriado ou não sabia de
coisa alguma mesmo... Alguns homens pobres são mesmo tão estúpidos quanto parecem!
E eu já estava indo pra casa amargurar uma dúvida insensata quando me deparei
com uma pequenina loira de um pouco mais de um metro e meio de altura que sorria para

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mim. Um milagre! Era Petrusca, irmã de Fabiana! Ora, Deus meu, como sou observador!
Eu sabia, olhando para dentro daquele sorriso, tudo do quanto é possível saber de alguém a
partir de um simples sorriso... Decidi interrogar a pequena. Aquele vivo sorriso vinha da
consciência de que ela sabia algo a respeito do que eu gostaria muito de saber? Vinha da
cumplicidade promovida pela certeza de que eu sabia tudo sobre elas? Gostaria ela própria
de experimentar o que sua irmã experimentara com o padre? Afinal não só meu pênis como
meu cérebro já andam bem desenvolvidos há mais de sete anos, por sinal! Não fosse minha
curiosidade maior que meu sensual interesse por aquela mirrada criaturinha, eu teria em
função destes devaneios, dado atenção à pequena ereção que se avolumara entre minhas
pernas, enquanto ela caminhava em direção a mim.

- Você sabe de alguma coisa? Perguntei à pequena loirinha que permaneceu muda
e engolindo um sorriso.
- Você sabe de alguma coisa? Insisti.
- Bem, depende...

Ela não era nada boba! Eu sabia que aquele pouco entusiasmo cheio de rodeios era o
desejo dela querer algo em troca pela informação. Ainda mais sua maneira de dizer
“depende”, era óbvio que ela estava tentando me subornar... Aquela vadiazinha estaria me
tentando... Certamente ela queria ver-me nu, talvez quisesse chupar meu doce de banana
cilíndrico, talvez até fazer com que eu lambesse a folhinha de alface dela para que eu a
fizesse sentir o mesmo que a irmã sentiu com o padre... Talvez até quisesse que eu a
rasgasse por dentro como se rasga a um livro novo, página por página...
Minha insegurança estava a cada segundo se dissipando. Meus dedos gélidos, a cada
segundo desejavam acariciar aqueles cabelinhos dourados. Meu coração palpitante subiu e
tremulou até minha garganta fazendo-me quase que engoli-lo à seco. Eu precisava me
acalmar... Se a menina quer, perguntava ao meu eu ingênuo, intimamente, por que não dá-
lo? A única coisa que eu realmente queria era uma “explicação coerente” que justificasse a
ida do padre até o riacho naquele dia. Mas percebi imediatamente que só conseguiria tal
resposta entregando-me aos caprichos daquela mocinha sem vergonha.

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Pedi a ela que me certificasse de que, se eu me rendesse, ela me contaria tudo o que
eu quisesse. Depois que eu disse isto ela pensou de uma maneira estranha, com os olhos
virados para o teto e com rugas entre eles. Em seguida disse simplesmente. “- Sim...!” Por
isso mesmo, ao ouvi-la aceitar, o que eu absolutamente não esperava, eu soei! Sabia que
agora não teria volta! Eu haveria de fazer quase à contra-gosto tudo que aquela pequena
pervertida me pedisse. Ora, não sou tão dado a estas profaninhas infantis como talvez haja
por aí algum imaginar... Seria eu obrigado a cavalgar por sobre ela? Seria obrigado a deixar
que enfiasse seu dedinho no meu cu? Eu sabia que essas meninas apreciavam por demais
este incômodo vasculhar, ao qual eu já fora estorvada vítima. Que espécie de tara selvagem
passaria pela cabeça de uma mocinha tão jovem? Estaria eu preparado? Confesso-vos o
dúbio e confuso sentimento de medo num prazer. Ou bem seria antes um desejo de prazer
no medo?
Ela me pediu misteriosamente que a seguisse e foi exatamente o que fiz. Estávamos
ainda em frente ao colégio quando ela se afastou em direção a uma loja de artigos religiosos.
Ao entrar lá, dirigindo-se para os fundos que dava numa porta singela, cumprimentou o
lojista piscando-lhe um dos olhos e prosseguiu. Eu a segui mudo, fantasiando que os dois
deveriam ser cúmplices numa trama inacreditável: Quantos homens essa menina incrível
levara até ali? Era aquela loja uma fachada para o bambolear dos quadris? Seria a versão
citadina do “riacho das lambidas?” Como a chamariam? “Salinha religiosa das lambidas”?
Ó como somos tolos nós adultos! Fingimos que jamais fomos jovens e olhamos para estes
como se fossem meras crianças despreparadas, frutas puras e ingênuas a espera de, com o
tempo, amadurecer... Com certeza, aquela jovem fininha que mais me parecia um
tronquinho de árvore recém plantada, daria-me tanto ou mais prazer quanto uma adulta

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o faria, em seu cavalgar de circunflexões mais salientes. Disto deverei estar eu certo a partir
de hoje!
Entrando naquela porta eu senti um cheiro forte de vela e incenso, era um aposento
de orações. Ela curvou-se para pegar um lenço que colocou imediatamente em sua cabeça.
Fez um sinal da cruz e começou a me falar sussurrando numa rapidez que meu cérebro
confuso não pôde depreender precisamente tudo do quanto me dizia.

- Trouxe-lhe aqui, pois é mais seguro. Eu sei o que quer. Sei que está a interrogar
todo mundo sobre nossas atividades no riacho e sobre nossas investidas para ganhar
melhores notas. Por favor, desista de suas tentativas! Está muito bom assim como está.
Precisamos muito de boas notas e se fazemos isso tudo é porque já não tem mais jeito.
Aquelas que tentaram desistir foram expulsas...

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Soei frio...

- Espere aí, menina, o que estais a me dizer?

Por mais esforço que fazia eu não entendia o que a menina estava tentando me dizer.
Pensei até que estivesse querendo me enganar, tergiversar ou algo parecido. Onde estava
aquela sede sexual que eu tinha visto em seus olhos? Onde estava seu apetite por meu pênis?
Ou eu estaria enganado? Não me trouxera ali para uma investida? Não me arrastara até ali
para me fazer gozar? Tentei ficar sem expressão, mas foi sem sucesso. A decepção tem um
ego tão grande que ela derruba qualquer tentativa de controle facial! E olha que eu fiz um
pouco de teatro amador quando eu estudava direito na Faculté de Droit de Paris. Eu
aprendi ali a controlar minhas emoções e a manter minha face imóvel em momentos de
pânico mais sensíveis. Mas este não era o caso. A garota percebeu minha confusão e tentou
me acalmar.

- O senhor está pálido! Está me entendendo?


- Não!
- É simples. O senhor descobriu tudo. A Fabi me contou. No início ela não quis
me dizer, mas eu insisti, pois eu queria saber por que ultimamente ela andava tanto a
conversar com o senhor... Eu tive de em troca dar a ela algumas de minhas calcinhas para
que ela me dissesse... Eu não tenho ainda hoje a menor ideia do por quê ela me pediu isto,
mas o fiz... Ela me disse ainda que o senhor a pressionou e ela teve de confessar-lhe o
ocorrido no riacho... eu já sei de tudo!
- Não! Não é nada disto! Ora Deus!
- É sim, é inútil negar! Eu já sei de tudo. Sei o que deseja, mas eu lhe peço...
- Não, não é isto!
- Só não entendi se está com o padre Vitale ou está metido nesta algazarra
sozinho mesmo...
Foi aí que eu compreendi. A danada da Fabiana mentira para a irmã. Não havia
falado nada de um fidalgo por quem se apaixonara. Não havia contado nada a respeito de
minha “ajuda” para que os dois se encontrassem sem que a mulher daquele soubesse da

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pequena amante do marido. Havia lhe escondido tudo e agora, estava certo de que ela
mentira para irmã para encobertar os seus próprios erros! Porém, mesmo que eu tenha
entendido a respeito disto, ainda não entendi nada dos motivos dela, em absoluto! Por que
Fabiana havia mentido à sua irmã? Que motivos poderiam ser menos virtuosos para se
incentivar a esconder num segredo do que seriam aquelas “lambidas” entre pequenas
fêmeas no riacho? A massa da população, com sua inteligência mediana, a esmagadora
maioria da sociedade, em seu vício, exige segredo das verdadeiras virtudes humanas, a
saber; o amor, o ódio, a preguiça, o esforço pessoal, a solidariedade e a vingança.
As práticas depravadas daquelas putinhas juvenis fazem o adultério parecer
brincadeirinha de pecado! Mas ora, o contrário disso eu afirmo! Como foram pecadoras
virtuosas aquelas meninas! Isso, pacientes leitores, pois eu não vos contei tudo ainda do
quanto sei. Claro está que, se isto fiz, antes foi para vos poupar os ouvidos que para reter
alguma informação, devo retomar algumas questões que ficaram ainda obscuras contra a
minha vontade. Eu lhes omiti, por exemplo, sobre o cachorrinho que a faltosa Amanda
Negrini trazia sempre consigo ao “riacho das lambidas” para deliciar-se com mel jogado
nas vaginas das garotas! Parece que ela deixava o cãozinho sem comer e o fazia lamber mel
vertido nas folhinhas de alface das meninas até que, nas gargalhadas, as limpasse
completamente. Omiti de outra feita, que não segui o indício deixado por uma das freiras,
que em minha investigação pensou que a própria Petrusca estivesse envolvida no “sumiço”
das meninas, já que ela “sempre encobertava as práticas erradas da irmã gordinha”. Entre
outras omissões maiores ou menores. Se eu próprio sou assim, faço os meus próprios
recortes para que não insista em entediá-los, meus leitores, ora, por conseguinte, por que
Petrusca ou mesmo Fabiana não podiam nos omitir alguma coisa aqui e outra coisa ali?
Eu fora pego de surpresa! Petrusca não podia estar a me ludibriar com aquela
história toda. Assim, habilmente, refiz-me o íntegro diante dela. Afinal, eu era o adulto ali.
Certo era que eu só contava 13 anos de idade a mais do que Petrusca, mas acredito que isso
seria o bastante para que eu a enganasse e não ela. Assim, de início, eu me fiz de inocente,
sem entendê-la (o que era verdade), mas depois eu menti a Petrusca apoiando totalmente a
versão de Fabiana. Como se ela soubesse que não teria maneiras de me fazer voltar à trás,
seja lá o que supôs ter eu pensado ou querido fazer, ela foi muito mais direta dessa vez:

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- Para que o senhor não pergunte mais a ninguém, porque isso levantará
suspeitas sobre todos nós, eu faço o que o senhor quiser!

A menina Petrusca, que já estava sussurrando, falou ainda mais baixinho e


diminuindo a velocidade da fala ao dizer “o que o senhor quiser!”... Ah...Senhoras e
Senhores! Eu senti um arrepio muito agradável nas pernas que subiu rapidamente para
dentro do meu estômago vazio, que repuxava... Confessaria eu agora que estava só
blefando? Revelar-lhe-ia que tudo não passou de um mal entendido e que eu não quis sair
perguntando a todos a respeito do riacho, ou do senso moral das meninas ou de quaisquer
dos clérigos por mero e idiota bom senso? Falaria eu à menina Petrusca que a mim pouco
me importam os deleites sensuais das pessoas e nem das crianças e que me agasta saber
serem estes compreendidos como sendo pecados mortais? Desconfiar de pecados que
sejam mortais! A morte, afinal, alcança a tudo e a todos, santos, pecadores, covardes e
heróis! Teria gritado eu naquela sala de orações silenciosas... Isso se eu não quisesse, numa
quietude ainda mais profunda, descortinar suavidades por demais saborosas antes que fazer
orações em silêncio ao lado de uma loirinha “aleluia” tão linda quanto é possível a uma
criança daquela idade. Meu Deus sabe que não sou santo. Jamais me curvei a Deus
dizendo-me sem pecado. Deus me conhece como sou.
Por alguns segundos de fraqueza eu ia lhe entregando tudo...:

- Minha querida, nem tudo é o que parece...Eu não...


- Não precisa me dizer mais nada...Aceita meu pedido! Peça o que quiser e eu lhe
darei em troca de...
- Diga-me simplesmente, Petrusca, não tenha medo: Por que... Como o padre
Vitale ficou sabendo que vocês se encontravam no riacho?

Para minha irritação ela ficou em silêncio por uns instantes. Depois balançou a
cabeça e abriu a boca com interesse ansioso em mudar de assunto. Finalmente, depois de
coçar insistentemente uma mão contra a outra e depois o couro cabeludo que estava
debaixo daquele pano imbecil, decidiu me contar pausadamente tudo o que sabia.

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- É assim... Naquele dia... Minha irmã tinha dito no colégio que morrera um
parente nosso e por isso teria de ir pra casa com urgência... Claro que ela estava mentindo.
Eu não quis ir pro riacho naquele dia porque eu fiquei menstruada. Não quis contar nada
a ela, fiquei com vergonha. Eu já menstruo há 11 meses e ninguém jamais o soube; o
senhor agora é o primeiro a saber. Eu não podia voltar pra casa porque meu pai
perguntaria pela Fabi, então, eu decidi ficar na aula. O padre Vitale desconfiou que minha
irmã estava mentindo porque outras meninas já haviam dado esta mesma desculpa muitas
vezes, sabe? A gente tinha uma combinação para as desculpas, mas alguma errou naquele
dia, sem querer.
- Até então ele não sabia? Perguntei atônito...
- Não! Ele não sabia de nada! Mas para ele nos dar a nota máxima temos que
fazer aquilo nele... Entende? Mas sempre preferimos fazer isso em nós mesmas... Bom..., eu
sempre preferi... A Fabi prefere de tudo, eu gosto só de meninas...
- Continue!
- Ele me forçou a contar aonde ela estava e, em princípio, eu fiquei quieta, não
disse nada. Achei que ele havia desistido, pois voltou a dar a aula e não insistiu. Eu não tive
como impedir que ele, inseguro, encerrasse a aula na metade fazendo-me continuar com a
sala lendo um ditado às outras alunas. Quando ele saiu, intuitivamente eu sabia que ele iria
para o riacho. Devia ter ficado sabendo de algum modo, pensei... Mas como? Eu não sabia
como, mas fiquei com muito medo! Desesperada, eu expliquei o acontecido a uma das
alunas e pedi para que ela fosse na frente dele, pelo atalho e avisasse minha irmã e às outras
meninas do perigo que se aproximava. Mas eu não sabia que com isto eu cometeria um erro
ainda pior... A menina para quem eu tive de pedir socorro era uma puritana de nome
Margarete Piovanni, mas, sem que eu soubesse, ela havia brigado com a minha irmã e elas
não se falavam já há mais de um mês. Margarete saiu da sala correndo e fingiu que ela iria
chegar lá antes dele e na verdade não foi tentar avisá-las...Traiu-nos! Seguiu o padre até lá
para se regozijar na vingança somente espiando o flagra... Acompanhando tudo o que
ocorreu por lá à distância, para não ser vista. E tudo o mais ocorreu, a seguir daí, como o
senhor já o sabe.
- Deus meu! Esta menina Piovanni foi testemunha de tudo...! Mas, é só, Petrusca?
Não está me escondendo nada?

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- Não! É só isso! O senhor não vai contar pra ninguém?
- Quem mais sabe do que ocorre no colégio?
- Vai contar?

Neste instante, meus pacientes leitores, vendo aqueles olhinhos sofridos querendo
adorar-me como se adora a um deus do Olimpo, fiz o que qualquer homem virtuoso ou
mesmo um pecador faria nas mesmas tentadoras condições. Mantive-me no poder do
silêncio pelo maior tempo possível de que fui capaz! Fiz isso a ouvir seus repetidos
murmúrios interrogativos que saiam pelo nariz para significar: “- o senhor vai contar?”
Tive muitas excitações neste momento, mas me dediquei inteiramente num outro tipo de
prazer que me comovia de modo diferente... Era o prazer do poder. Finalmente o sentira.
Ter alguém nas mãos é como sentir a alma pesar muitíssimo mas ainda assim conseguir
flutuar. Eu poderia beijá-la ali mesmo em troca do meu silêncio, mas eu declinei da
tentação. Pensei um pouco e arquitetei uma forma de como capturar um animal selvagem
mesmo estando só e tendo a meu favor apenas uma cordinha tão fragilmente curta.

- Eu não contarei! – Eu disse a ela de supetão. Ela, que imediatamente começou a


sorrir e a mostrar-se grata, chegou a tossir de emoção... Embora diminuísse o sorriso ao
perceber que eu continuaria a falar...
- ...Mas, terá de me fazer uma coisa...
- “Tudo bem!” – Disse-me ela de improviso, sem animosidade, como que já
esperando o tedioso esfrega-esfrega forçado em sua boca, próprio de padres imundos.
- Não é o que está pensando! Como você disse que não gosta de meninos e sim de
meninas, só quero que você me conte um pouco sobre as histórias que teve com as meninas.
Eu lhe contarei algumas minhas se quiser, ficaremos amigos e guardaremos os segredos
um do outro.
Os olhinhos da pequena Petrusca brilharam e seu sorriso ficou ainda mais inundado
da divindade. Levantou-se depressa, colocou suas mãozinhas delicadas sob meus ombros e
me perguntou antes de me beijar rudemente os lábios: - “É só isso? Quer que eu lhe conte
histórias?” Deliciosamente apavorado, eu respondi também sorrindo: “- Sim, é só isto!” e
então, pensei numa oração silenciosa e com os olhos brilhantes quase em lágrimas: “meu

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amor!”. Ela prometeu beijando-me que nos encontraríamos outro dia, pois já estava na hora
de voltar à escola. Despediu-se e correu acelerada como se nada tivesse acontecido que não
fosse para todos nós pura alegria e sonho de felicidade da infância, essa mesma energia que
elas nos emprestam de graça e mesmo assim não sabemos o que fazer com ela, além de
sorrir animados a lembrar de que já fomos um dia assim...
Fabiana havia mentido, que cachorrinha! Mas eu ganhara muito com isso. Agora eu
tinha duas confidentes para fertilizar minhas fantasias depravadas. Em conclusão de tudo, o
curioso desta história contada por Petrusca é o que eu descobri por meio de outra garota.
Dias depois, ao prosseguir com minhas investigações, soube que o padre já sabia mesmo do
riacho! E pior! Sabia a partir do fato de ter surpreendido às ocultas, dias antes, a própria
loirinha Petrusca comentando algo a respeito do “riacho das lambidas” ingenuamente com
uma de suas amiguinhas na escola, a confirmar essa trama paranóica naquele mesmo dia
fatídico em que ele as surpreendeu aos beijos. De início ele não disse nada a ninguém.
Queria tê-las pego de surpresa realmente. Ele deve ter ficado intrigado quando soube da
existência de um tal juvenil antro de libertinagem maravilhoso e ainda mais curioso ao
saber o que poderia encontrar se aparecesse por lá sem aviso. Ora, o único riacho a que
estas meninas poderiam se referir era aquele próximo à Igreja da Nossa Senhora da
Conceição... Não precisava de inteligência para ver o pássaro livre do destino se se
dependesse apenas de suas próprias asas para voar... A sorte tem feito uns homens palermas
e otários e já outros, ativos e sagazes; uns são modelos de sapienza pela qual têm sido
aclamados por toda história da humanidade, outros preferem passar a vida toda sem
aprender muito com o saber, sem ousar, sem experimentar.
Padre Vitale era um homem da primeira linha. Mas este padre cachorro teve
também seu quinhão meses depois; soube que a menina Piovanni, a que traíra Petrusca e
Fabiana ao não avisar sobre a presença do padre no riacho, decidiu tornar dupla a sua
vingança, porque trouxera com ela ao riacho a madre superiora, fazendo-o levar a júri, com
abundantes provas, por corrupção de menores. Sendo que esta Margarete foi a única que
saiu-se inteiramente bem em toda esta história estapafúrdia... Infelizmente, eu não a
conheci, pois morreu também no mesmo surto de cólera que ceifou as duas depravadas
irmãs - como eu lhes disse, é inútil tentar; Deus, em seu amor eterno e misericórdia infinita,

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decepa a cabeça dos seus filhos puritanos e depravados numa mesma ceifada,
indistintamente.

Ato II – a descoberta

Tendo-me pasmado às alturas, assim que começou a desfilar suas histórias, Petrusca
havia já retirado todo meu senso do que seja uma infância. Encontrávamo-nos antes e
depois da escola. Eu ia buscá-la e na volta eu a levava até a casa dela. Para que não
levantássemos suspeitas, Petrusca pediu para que uns meninos ingênuos da escola
espalhassem a notícia de que havia um tarado alienado pela cidade. Isso por meio de
histórias mais ou menos falsas, mas não menos horripilantes. Ela própria decidiu contar
para sua mãe que eu, “sendo um irmão mais velho de uma de suas amigas”, as levaria e
traria do colégio de bom grado, para “proteger-nos de loucos e mal intencionados do
mundo moderno...”. Que menina inteligente!
Da minha parte, devo dizer, fizemos longas incursões ao paraíso, senhoras e
senhores! Logo eu que pensava tolamente que as historias da pequena Petrusca seriam
certamente menos saborosas que as de sua irmã! Ainda bem que eu estava, em meu
incógnito, abundantemente enganado. Jamais soube que as crianças tinham falta de pudores
tão violentos considerados típicos de adultos apodrecidos. Se aquela criança tinha me
mostrado os dotes infantis, ela me mostrara também o quanto se deve respeitar a uma
infância! Os mesmos segredos, os mesmos sentimentos do que é desejável também passam
pelas cabeças destas criaturinhas doces. Mudei em relação a isso! Tudo que julgava tão
depravado em minha vida, agora não me pareceu jamais ser senão uma tentativa de
correspondência com a natureza e curiosidade para com os orifícios de nossas extremidades.
Com suas histórias, suas aventuras, aquela criança havia me salvado. Tirou-me da
associação imediata entre sexo-pecado, prazer-dor e satisfação-perversão.
No primeiro dia de nosso encontro, antes que ela criasse a estória do “tarado”,
cheguei hora na frente dela no cruzamento em frente ao armazém do senhor Anastácio.
Sem almoçar, mas ansioso pelas histórias, eu comprei um pedaço de salame dos grandes e o
devorei ali mesmo, sentado na esquina com muita ansiedade. Nunca comi um salame tão

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rapidamente. O velho Anastácio era um Italiano da Calábria que tinha uma venda de frios e
carnes chamada Monalisa na esquina das movimentadas vias Biancarolla António de Régia
com a via Augusta. Estranhou minha presença ali nos primeiros dias, mas logo se
acostumou. Durante aquela primeira semana tive de me abastecer de algo para manter meus
maxilares ocupados enquanto a minha mente e o meu coração desejavam ardentemente por
mais. Meus suspiros hesitavam um pouco quando via dobrar a esquina primeiramente a
Fabiana, acompanhada de uma vizinha tapadinha que estudava na mesma escola e em
seguida, atrás delas, Petrusca, a loirinha dos meus sonhos.
Eu deixava, como costume que introduzi desde nosso primeiro encontro, que
Fabiana e a outra menina passassem por mim e fossem na frente entretidas consigo mesmas
e me colocava ao lado de Petrusca que não hesitava em relatar-me suas atividades
esquecendo-se por vezes de me cumprimentar até, começando com impaciente pressa suas
histórias. Pensando hoje a respeito disto, eu imagino o que devia servir de justificativas
para sua irmã Fabiana quanto à nossas contínuas aproximações num mesmo horário
marcado. Aposto que imaginava estarmos metidos em absurdas taras e fascínios sexuais,
uma vez que ela nunca nos incomodou. Para além deste mistério, ela não me ocultou nada,
dia após dia, história após estórias, sentia-me de todos os modos aproximado a ela, sentia-
me cativado, pasmado, entregue... Apaixonado, dir-se-ia! A menina estava por me levar por
pura vontade a um mundo em que eu já estive antes, mas do qual me esquecera por
completo. O mundo infanto-verdadeiro!

- Estava comendo salame, você quer? Perguntei a ela candidamente...Mas ela não
deixava espaço para milongas ou delicadezas sociais:
- Não! A primeira vez que eu beijei uma menina já faz muito tempo. A mãe dela,
amiga da minha mãe tinha chegado com ela em casa, num carrinho de bebê. Eu tinha sete
anos de idade e fiquei brincando com a menina tentando saber o que era a tal coisa que
tinha ouvido uns adultos falar dois dias antes. Eu peguei dois adultos falando em beijos e
línguas... Na época não tinha ideia do que significava isso e resolvi tentar na criança.
- Sério? Não acredito...?
- Sério! Não me interrompa! Senão eu não conto mais!

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Que grosseria! Petrusca não só me induzia, em sua velocidade cerebral, a ouvi-la,
como me forçava a ouvi-la em silêncio. Tanto melhor, minha fada de olhos amendoados,
tanto melhor meu pêssego de bochechas rosadas e de cabelos loiros, como queira, tanto
melhor! Ao obedecê-la, mil possibilidades de ventura, eu não necessitaria fazer os
“marcadores de fala” que tanto sou habituado e displicentemente obrigado por vezes a fazer
quando converso com alguém: “Hã... hã... - Sim... Sei... - Humm... - Que bom...! Que
chato...! Nossa Virgem! Sério? Etc”. Ela me comunicava o que tinha a ser dito sem muita
animação, mas com muitos detalhes e pormenores – minúcias pelas quais eu
particularmente sinto afeto. A maneira como sentiu frio na barriga ao amaciar os seios das
meninas que lhe pareciam, nas palavras dela: “pequeninas bolas feitas de algodão”. Ou o
“doce sabor do beijo a desvendar favas de mel”. Falava, por exemplo, como abotoava sua
calcinha de renda, como perdeu sua virgindade do ânus, das “bolinhas” que descobriu
dentro de si vasculhando com o dedo as paredes internas de sua própria vagina, falava da
dureza dos lábios dos meninos e da maciez dos lábios das meninas. Do dia em que mordeu
o micro pênis de um garoto fanfarrão que se arrogava ser um gênio e de ser o herói sexual
de todas as garotas da escola. Do quanto se aproveitou das crianças aldeãs quando morou
por uns tempos na casa da Fabiana em Grosseto, quando os pais dela se separaram por um
curto espaço de tempo... Falava das fricções vertidas em cócegas com crianças mais
inocentes do que ela. Das satisfações que sentiu, as alegrias que viveu, as dores que sofreu,
os descontentamentos com que teve de lidar, as decepções pelas quais teve inevitavelmente
de passar...E assim se seguia...
Dia após dia os meus temores foram se confirmando. A suavidade de suas vivências,
a pura necessidade de seus relatos me entusiasmaram de um modo muito desconcertante.
Eu queria sempre mais...e mais...e mais... Odiava ter de deixá-la na escola e voltar para
meus afazeres mundanos. Eu queria aquela espiritualidade novamente! Ansiava por vê-la e
quase sempre eu chegava antes do horário de buscá-la para que pudesse me preparar
emocionalmente. Aquelas histórias estavam produzindo um efeito amoroso comigo. Sua
voz meiga soava macia por demais aos ouvido. Sua pontuação desregrada, o seu jeito
infantil de contar as histórias, aliados à excitação daqueles instintos ditos por aí pervertidos,
deixavam-me em uma incendiária curiosidade. As suas histórias edificantes justificavam as
minhas próprias. O tom meigo com que falava coisas sujas me absolvia. Era a voz do anjo

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de Deus a me reconfortar por meus desatinos e me agasalhar por toda essa angústia de me
sentir diferente e tão distante dos outros - Petrusca era tão inteligente quanto eu! Ela era
divina e sua voz era a voz incendiária de Deus sobre mim!
Estranhamente, um destes dias, ao chegar só e bem mais cedo que eu, antes do que
era habitual em nosso encontro, Petrusca interrogou-me a respeito de algo bastante bizarro.
Questionou-me se já havia usado máscara antes... Na ocasião eu fiquei confuso. Só depois
de muito tempo entendi sua colocação desconfiada. Fiquei na ocasião tão dubitável, isto é,
cheio de dúvidas, quanto os senhores neste momento. Com paciência eu vos elucido:
quando falei, caros leitores, que ela havia criado e ajudado a espalhar aquela história de que
tinha um tarado na cidade só para que eu pudesse levá-la ao colégio, ela não havia tirado
esta história do nada. De fato, contou-me ela, dois anos antes surgira rumores em Florença
de que havia um homem mascarado de aproximadamente 23 anos, distinto, tez da pele e
cabelos negros, com calças largas de cetim azul que rompia hímens de donzelas
desprevenidas à força... Ora, ela própria havia me contado sobre uma história que
presenciou de modo atônito no qual não pôde fazer nada a não ser observar quieta. Leiam,
portanto, esta história contada por ela mesma e comunguem com a desconfiança dela sobre
mim, se assim desejarem, mas se quiserem comigo da verdade dessa história duvidar
saibam que têm em mim alguém que lhes dará o maior apoio:
Petrusca estava voltando da escola, mas como se tivesse saído mais cedo, desta vez
resolveu fazer um passeio por umas vielas de uma parte da cidade que ainda não conhecia.
Descendo pela rua Tortello di Corezzo e pegando uma das duas saídas pavimentadas pelos
belos paralelepípedos antigos de Florença, seguindo por uma antiga via, hoje já totalmente
encoberta pelo mato e pelas árvores, ela chegou a um palacete em ruína, abandonado...
Sentiu curiosidade, mas queria continuar sua caminhada, pois não ouvia um só rumor
naquele fim de tarde já inteiramente desmoronado. Até então, ela estava totalmente
entregue à aventura. Somente depois de ver aqueles escombros, as janelas descobertas, as
pedras do que tinha sido um muro, como que inteiramente fragmentadas, esborrifadas pelo
chão, Petrusca se lembrou das histórias horrendas a respeito dos efeitos terríveis das balas
de canhão sobre as construções de pedra que lhe contava seu avô materno, ex-combatente
do exército por Florença contra os Austríacos na Segunda Guerra da Independência. Ela
sabia dessas histórias, regradas de algumas farsas que fazia seu avô amigo de Leopoldo II e

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parente do próprio Garibaldi. Todos os meus amigos de Taberna em Nice se dizem parentes
de Garibaldi, aposto que o mesmo ocorre na América do Sul.
Enfim, Petrusca, erroneamente supôs que aquelas ruínas eram frutos da guerra,
embora ela não pudesse imaginar que havia sido ali na verdade a casa de um famoso
Maestro do século passado, hoje já esquecido, Signore Carlo Mazzilli. Não sabia também
que ali havia sido palco de festas, cama de cortejos, lençóis de desesperadoras frenesis
lesbianas, convulsos reclinares corporais, frenéticas colocações anais e antro da
libertinagem musical sodomita do século passado. Como ela poderia sabê-lo? Eu próprio
não quis contar nada a ela do que eu sabia, pelo menos não ainda! Este detalhe era
pequeníssimo ao pensar no que ocorria nas alcovas, nos salões dos nossos dias, pleno
despontar revolucionário do séc. XX!
Antes que ela pudesse encontrar o caminho de volta para a via principal, ouviu
gemidos que de pronto eram abafados por sussurros mais ou menos distintos. Não quisera
se demorar, mas não pôde conter seu impulso de ouvir por mais alguns segundos aqueles
soluços que se ouviam fracos, ao longe. Parecia um gemido de gato jovem, ou talvez fosse
um bebê sentindo falta de sua mãe...? Chegando bem perto da enorme porta de madeira
grossa que limitava a entrada, Petrusca conseguiu ouvir com mais nitidez o que
seguramente era um estertor de rejeição feminino e um estrondo de aprovação masculino.
Estava, por meio de eternos segundos, presenciando uma horrenda cena de um estupro...
Para que tirasse todas as dúvidas, precisava confirmar com os olhos o que os seus
ouvidos lhe antecipara. Como as janelas da casa não tinham vidros, caso elas não ficassem
em alturas inalcançáveis a pobre Petrusca talvez viesse facilmente, a saber, o que estava a
acontecer lá dentro. Mas sua distância lhe exigiria um esforço extra. As coisas que estão
fora do nosso alcance só permanecerão assim caso nosso esforço não seja suficiente. Ora,
quantas crianças, por curiosas, ou quantos homens corajosos não haveriam de simplesmente
evocar um “deixa pra lá este ruído que acabo de ouvir; coisa que não me diz respeito!”, em
uma de suas habituais ignominiosas recusas ao auxílio alheio?
E bem não era esta a atitude de nossa corajosa heroína. E não é que ela subiu numa
árvore para observar melhor com tanto mais segurança que curiosidade ou medo? Todavia,
quando subiu à altura satisfatória nos galhos secos daquela árvore ela engoliu saliva a seco.
Pôde ver duas pessoas nuas. Uma mulher jovem com as mãos amarradas e braços esticados

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para traz nas costas. E um moreno jovem que vestia uma máscara. Ela estava pendurada por
uma argola no pescoço, enquanto seu corpo pendia na perpendicular com as pernas abertas
e tinha seus tornozelos presos por correntes. Via que seu grito lancinante era abafado pela
quantidade de grossas cordas que estavam amarradas em sua boca. Petrusca estava muito
longe, mas a uma distância suficiente em que conseguia ver lágrimas escorrendo da vítima
e o seboso deleite de aproveitamento do criminoso. Parecia que este se deliciava ainda mais
com o sofrimento infligido à vítima que pela fortuna voluptuosa de estar diante de um
corpo à sua disposição e nu.
Morrendo de medo, ela desceu rapidamente da árvore começando a correr
instintivamente para lugar algum, ou melhor, para qualquer lugar longe dali. Após alguns
passos rápidos, percebeu que não sabia para onde tinha ido. Havia se afastado da casa, mas
não havia encontrado lugar apropriado para estar. O caminho que havia escolhido por
instinto a levara para um lugar muito mais estranho e inóspito que aquele palacete destruído
pelo tempo. Não havia saída por ali. Percebendo seu erro, vendo que estava perdida, isto é,
dando-se conta que tinha tomado a direção errada, nem esperou que seu coração se
recuperasse do susto e criasse coragem, simplesmente deu meia volta e começou a
ligeiramente voltar pelo mesmo caminho. Correndo ainda e diminuindo um pouco a corrida
ao voltar para perto da casa, diante da janela, sentiu pânico novamente. Não ouvia mais
gemidos... Começou a caminhar na ponta dos dedos... Eles já haviam terminado? Aquele
monstro em cima da moça havia notado algum barulho ali fora e interrompera seus atos
sádicos? Era ela quem corria perigo agora? A cada dúvida que surgia em sua cabeça,
surgia-lhe também o desesperante desejo de saber o que se passara com a moça, vítima da
satisfação de um monstro anômalo. Por fim, ela não soube me explicar o que queria com
isso ou nem mesmo porquê ou como tomara esta decisão, mas subiu na árvore outra vez!
Ao subir percebeu porque, exceto pelo barulho ritmado do seu coração, não tinha
ouvido ruído algum há minutos: a moça estava morta! Ou pelo menos estava inconsciente –
era somente isso o que dava para se supor daquela distância... Petrusca jamais o soube com
certeza. Sabia, no entanto, que aquele homem seguramente havia feito algo de muito ruim à
moça... Pendendo a cabeça para baixo, a mulher jovem escondia seu belo rosto atrás dos
cabelos não muito longos. Ela tinha cabelos pretos bem escuros. Suas costas eram bem
torneadas, a espinha era enterrada em uma pequenina vala que escorria suavemente em

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direção a suas ancas magras, pálidas, mas não pouco voluptuosas. Embora estivesse
desfalecida, como ela continuava amarrada, os músculos de suas costas pareciam ainda
tesos, o que parecia a Petrusca, um pouco distraída por aquela beleza notavelmente estranha,
um recheio ondulado de cobertura de bolo de confeitaria – como que um pedaço suculento
de uma peça de carne num açougue, acrescento eu.
Petrusca nunca havia sentido algo assim. Nesta época ela ainda tinha tido poucas
sensações prazerosas com o contato, pensamento ou mesmo a visão de mulheres. Penso que
quando uma mulher procura outra mulher para contato sexual, esta mulher superou o maior
dos obstáculos: ela conseguiu ver e ser vista como alguém. Deduzo isto a partir do que ouvi
da menina Petrusca ao comentar a respeito de sua curiosidade ou necessidade de estar com
outra mulher. Ela me dizia que “estar com uma mulher era como que estar consigo mesma”.
Nenhuma obrigação de fazer senão aquilo que a atrai mais e aquilo que ela sabe com
segurança que é totalmente bom e prazeroso para si mesma e para a outra de si à sua frente.

- Beijar um menino até que pode também ser prazeroso! Dizia eu a ela que me
respondia da seguinte maneira:
- Isto o Senhor diz! Que deve beijar meninos aos gozos! Beijar uma menina não é
só prazeroso, é ter a possibilidade de encontrar-me a mim mesma. Satisfazer-me a mim
mesma, estar a sós comigo e me sentir excitada excitando, realizando ao me sentir
realizada.

Maldita menina prodígio! É tremendamente odioso para mim observar uma menina
tão jovem corporalmente e tão madura mentalmente. Era com uma segurança inacreditável
que ela buscava prazer na fartura labial, na abundância das ancas, nas “partes avantajadas
por proteção do corpo oblongo feminino que em seu excesso de gordura a preparam
naturalmente contra qualquer queda numa provável gravidez, sem complicações ósseas, ou
para o feto”, como dizia algum poeta florentino do qual já não me lembro mais o nome. Era
com segurança que ela procurava na abundância dos seios, nos volumes do aconchegante
colo, nas coxas redondas tal qual formosos travesseiros, o sentido de si mesma. Abundância,
transbordamento, abastança, descomedimento, sobretudo, são as delicadezas apaixonantes
de uma mulher. Petrusca sempre odiou a moda dos últimos anos que fazem os meninos

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jovens a manter grandes suas cabeleiras. “– Meninos jamais serão como mulheres!” – Dizia
ela... “Os meninos de cabelos compridos só são melhores porque são mais delicados e
assim parecem mulheres vistas de um modo também interessante”. Entretanto, o doce sabor
de uma pele feminina, por mais feminino que possa parecer um homem, é impossível de ser
confundido. Segundo ela, todas as mulheres são apaixonadas umas pelas outras, só não
acharam o caminho de como ampliar esse desejo de amor sem sofrer e serem feridas pelos
homens que as cercam e as proíbem...
Como é desconcertante ouvir verdades de alguém tão jovem! Digo isto com pesar
principalmente porque foi tão tardiamente que descobri a importância de todas estas coisas.
Eu me sentia, por fim, próximo a ela. Dava aquilo que não tive nesta idade. Dava-me antes
de tudo, uma vida de volta. Ela me reconfortava com todas essas estórias, mesmo estórias
como estas sem começo, meio e fim. E, para aqueles que estão se perguntando, eu não sei o
que aconteceu depois que ela saiu correndo deixando aquele pedaço de carne desfacelado e
pendurado pelos braços no castelinho mal assombrado. Petrusca dava-me pouco espaço
para questioná-la sobre as conclusões de seus contos e memórias. A única coisa que sei é
que as estórias delas me deixavam de sobremaneira boquiaberto que desta boca incrédula
escorria também água, tanta era a vontade de participar, de estar lá junto delas, inserido
completamente nestas narrativas fossem elas falsas ou não.
Um golpe que recebi, entretanto, foi o relato das historinhas de como conhecera as
diferenças entre os sexos. Anos antes, quando Petrusca ainda não contava mais do que 8
anos, com o pretexto de ajudar a trocar as fraldas dos bebês das novíssimas mães que por
vezes apareciam lá para tomar chá e conversar com sua mãe, ela não perdia uma só chance
de ficar de olho no que apareceria na parte de baixo dos bebês. Certo dia, tendo visto uma
das mães se descuidar em outro aposento, Petrusca enfiara o dedo médio quase que inteiro
na vagininha do bebê que chorara com convicção. Rompera-se algo? Como podemos sabê-
lo? Que louca! Que diabinha curiosa! Seguramente Petrusca jamais ouvira falar em hímen.
Talvez tivesse perdido o seu próprio sem nem mesmo o perceber! Costumava fazer aquelas
distensões que na aula de balé provocava às duas pernas ao separar-se uma da outra no
spacatti – aliás, as duas irmãs eram ótimas nele. Talvez em função disto, para elas, a perda
do hímen jamais foi confundida com a perda da virgindade e acredito que isso de “perder o

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hímen” no exercício físico tenha ocorrido quiçá com ambas irmãs, que gostavam muito de
bancar as moças atléticas.
Fabiana era convictamente pervertida, “herança de família”, justificava-se. Petrusca,
por seu lado, era pervertidamente mais pura, efêmera e, por sua vez, mais pueril! Só que
não era a face da perversão e sim aquele rostinho de anjo enaltecedor das maravilhas do céu
que me fazia crer na certeza da existência de Deus! Deus me provocou e eu olhei para ele, e
quando o seu grandioso rosto olhou para mim, ele tinha pelos loiros pubianos e sorria como
quem sorri para o filho que quer tomá-lo em seus braços e empurrar para dentro de si.
Astutamente, Petrusca se exibia com as pernas abertas para mostrar nuas, as suas
partes debaixo, sentada na calçada. E, para que os transeuntes se sentissem mal, quando ela
fingia a desligada e eles olhassem curiosos para o que se devia cobrir com a saia, depois de
permitir aquele mirar continuo e indesculpável de alguns segundos, ela franzia os olhos,
fechava rapidamente as pernas, cruzava os braços e falava em alto e bom som a todos os
ouvidos: “– PORQUE ESTÁ OLHANDO NO MEIO DAS MINHAS PERNAS???”
Danadinha, ela fazia isto de propósito, só para se divertir! “– Brincadeira excitante...
Brincadeirinha excitante...” Dizia ela toda animada...
Aliás, este era um método que utilizava para distinguir os “safados religiosos” dos
que eram simplesmente “safados”. Disse-me ela que os “safados religiosos” voltavam-se
para ela tentando se justificar seja dizendo; “Que não estavam olhando pra lá, que ela era
só uma menina... blá blá blá...”. Seja dizendo; “Que coisa feia! Menina sentando assim...
Esses não são modos de uma menina tão bonita...” Isto é, fingiam inocência acusando a
uma inocência (claro, “supostamente verdadeira...”) ou fingiam inocência depois de
estimular a malícia por sobre uma inocência apenas “mais ou menos verdadeira...” (Aliás,
eu faço um parêntese ao que me referi aqui, pois esta é a meu ver a definição de educação
para os Florentinos... “fingir inocência ao castigar, afligir e acusar a uma suposta
inocência” – Acham que com isso podem praticar o “ensino” (voltarei a isso logo que
possível). A verdade é que somos todos responsáveis! Todos sabemos ou supomos saber
que “isto” ou “aquilo” que fazemos compõe parte das sabedorias que nos forçaram e nos
forçarão a viver como antes, como nossos ancestrais, simplesmente, e não como vivemos
hoje, ou como hoje gostaríamos de viver... (Chamo a isso de “tirania do passado”
imposição secular na qual somos obrigados a não saber como dar direcionamento às nossas

79
próprias vidas... Porque o que se passou determinou nosso presente e quer, por tirania,
determinar também nosso futuro). Enfim, quanto aos observadores do meio das pernas das
meninas, havia também os “simplesmente safados...” Ao interrogá-la sobre estes, rindo
muitíssimo, quase que sem conseguir dizer uma palavra, eu brinquei dizendo que ela era
uma deles! Um “simplesmente safada!”, foi quando ela me disse a contra-golpe: “– Bom,
estes são simplesmente uns safados... e os safados, eles riem de tudo... eles só sabem rir!
Há há há há”.
Mais de que risos, os safados haviam resguardado, atrás de suas bocas ousadas,
infames calos... Aqueles aos quais Petrusca chamava de “safados” eram pessoas que
haviam atingido todos os picos do que se podia chamar de devassidão e de compreensão
total da verdade do mundo e da “estranha razoabilidade de viver pelo prazer”. Tudo isto
não seria de fato estranho se não viesse da intuição juvenil de alguém que devia estar
preocupada com a vaidade dos seus cabelos, com a fútil beleza dos lábios pintados das
atrizes de teatro (tão cobiçados e imitados às escondidas pelas jovens da idade dela). Mas
não, Fabiana estava atenta ao fato de que alguns vivem pela fantasia de que irão viver para
sempre e outros vivem pela certeza de que irão embora deste mundo e por isso querem tirar
dele o que há de sobretudo melhor. Alguma intuição ainda mais dura a faria acreditar na
certeza de que não devia mesmo haver de melhor, exceto se deliciar por sobre um corpo
jovem, tão jovem quanto possível...
Ela tinha experiência suficiente para renegar aos pedidos dos “safados”. E parecia
ter experiência de longínqua idade, por esquisito que isso nos possa parecer. Digo isto a
partir do que depreendi do que ela me falou. Eu mesmo, tomado por discrição evitei
comentar ou interrogá-la a este respeito. Contudo, certo era de que ela havia cruzado em
sua vida infantil há anos atrás com vários destes “safados” a ponto de precisamente saber
como eles pensavam. Ao negar estes pedidos com veemência descobriu por maldade, num
destes dias, qual era o maior medo deles: ser pego no ato de seu maior prazer! Serem
flagrados na atividade de sua salvação. Era por isso que zombava deles e fazia-os de
grandes escravos conseguindo muitas coisas com esta técnica; desde notas na escola,
presentes; até meninas órfãs desfrutadas em conjunto, bem como presentes muitíssimos
menos interessantes como perfumes, brinquedos, bonecas e pequenas bolas e longos
chapéus bordados adquiridos em Paris, ao estilo de Viena... Ela guardava todos os seus

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“presentes” no porão de sua casa e dizia como desculpa que se uniu às amigas para fazer
um bazar beneficente... Que criatura! E ainda que estas ações não tenham sido uma prática
que tenha alçado uma organização deliberadamente frequente por parte de Petrusca, ela, na
medida do possível, contudo, não hesitou em utilizá-las. Fazia isso tendo em vista não
somente as benesses advindas destes “safados” mas principalmente a possibilidade de
controlá-los de imediato mesmo que à distância.
Ah! Como eram lindas e verdadeiras as irmãs depravadas! Todavia, vale ressaltar,
eu jamais as chamei assim, enquanto vivas! Ocorreu-me isso no momento em que comecei
a vos assentar esta história. Embora nunca soube que depravadas seria o melhor adjetivo
para elas, insisti nisso por reconhecer justamente que “pudoradas” era exatamente o
contrário do que eram! Chamo-nas agora simplesmente meninas! Ao orar pra Deus oro por
elas, oro para elas. Em instantes infinitos eu sentia que fazia parte do vosso planeta e o
sinto ainda! Ó Mundo maravilhoso de contos de fadas... Meninas, vocês que reconfortam
meu coração com o mais pacíficos dos descansos, olhai por mim do céu aonde residem.
Intercedei-vos por mim, pois se a Virgem Santa falhar, em vós encontrarei a minha
esperança! Sonho eu com o dia em que umas dessas fadinhas me levarão para a paradisíaca
terra encantada dos doces ósculos em pequeninas boquinhas adoráveis.
Na verdade, não era o caso com elas... Nunca tive intenção real em depravá-las.
Acho que minhas atitudes para com elas sempre foram de um verdadeiro respeito amoroso.
Respeito que tive por elas serem como são. Únicas. Divinas. Impecáveis! Nada pode nem
ninguém haverá de poder no futuro ser comparável à gorduchinha Fabiana e principalmente
à minha adorável Petrusca loira, jovem, libertina e bela. Se eu por ventura tentasse algo,
talvez pudesse aproveitar das minhas vantagens para obter algum benefício de sua liberdade
incondicional. Ao contrário, prefiro respeitar essas que são metafisicamente dignas de
respeito. Prefiro estar verdadeiramente de bem com minha crença moral e enaltecer aquelas
meninas por permitirem que eu me mostrasse como sou. UM SER MORAL. Filho de Deus
e de Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém!

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Ato III – o desencanto

Aquelas meninas tornar-me-iam ainda mais intrigado com outros acontecimentos.


Numa rapidez quase rude acabariam por terminar sua afinidade absoluta e romper com
aqueles anos de inocente amizade entre as paternalmente consanguíneas. Algo haveria
ainda de interpor-se entre as irmãs...Tendo desconfiado dos sumiços repentinos de sua
meia-irmã sempre num mesmo horário, Petrusca resolveu por si só investigar. Não
demorou muito para ser avisada do relacionamento dela com o Fidalgote, o qual ela devia
estar usurpando. Ela soube disso porque sempre há línguas dispostas a se mexer quando
entram em jogo uns bons ducados. Petrusca quis, então, conhecê-lo. Procurou Fabiana que
confessou o caso, mas falara dele distraidamente e com um certo desdém, como não se
devesse ou quisesse dar real importância ao relacionamento entre os dois. Ele, contudo, era
dono de uma grande extensão de terra, tinha modos corteses, tinha traços finos, nariz, boca,
olhos e roupas impecáveis... “– Era um tanto rechonchudo na barriga”. – Dissera. E sua
cabeça disfarçadamente resguardava um pequeno redemoinho de ausência capilar que se
alastrava a partir do topo da nuca, mas sem dominar toda a cabeleira ruiva – embora de
resto fosse, a seu modo, uma pessoa simpática.
Petrusca contou-me das poucas vezes que foi conversar com ele. Sabia-se que não
podiam ser vistos juntos – um adulto mais velho e uma jovem solteira – isso por causa da
estupidez social da Florença atual, indigna de seus antepassados. Este ato, ainda que o caso
de uma eventualidade o arranjasse, era rejeitado indiscriminadamente pela maioria das
pessoas. Com eles não era diferente. Petrusca não via interesses possíveis no fidalgote,
segundo me dissera, exceto o único desejo que tinha que era então “simplesmente conhecê-
lo”. Se se encontraram umas três vezes foi, segundo me segredou, só para que pudesse
“tirar dúvidas que a haviam repetidamente perturbado a existência”. Pouco me inteirei a
respeito de seus questionamentos; não tenho tempo satisfatório de vida para desfazer
dúvidas alheias... Contudo, não estava nada seguro de que se tratasse apenas da alegada
“curiosidade desinteressada” de Petrusca.
Ora, ainda assim, eu já estava realmente me convencendo de seu “desinteresse”
quando, com a ajuda de Marina, a companheira de lagoa de Fabiana, desvendei toda trama
que estava por trás daqueles atos Petruscos pouco ingênuos. Sabia que pouco não havia

82
naquele ar pausado e sem graça com o qual Petrusca me contara a respeito de seu “interesse
desinteressado” no Fidalgo. E tudo se passou da seguinte forma que vos transmito agora
para encerrar, por agora, este relato sobre estas depravadas irmãs, certo de que não será esta
a última gota de estória remediadora que poderei pingar até a cura de vocês, meus caros
pacientes:
Levando a mulher do Fidalgo para se distrair com minhas condescendências, já
havia mais de um mês que eu, desta maneira, auxiliava Fabiana, a irmã rechonchuda de
Petrusca, a se encontrar com seu mais novo amado. Digo mesmo “mais novo”, e pode
parecer chacota ou inveja, mas não! Faço-o por compará-lo com seu “amor antigo” não
menos “jovem”, todavia, bem parecido tanto em conteúdo quanto em forma; insignificante...
Eu jamais forço os jovens com quem convivo a encurtar, substituir ou economizar de seus
próprios passos e experiências! Faço claramente questão de comparar uma burrada à outra,
mas nunca interfiro na escolha deles. Cada experiência de nossas vidas tem função
diferente em cada pessoa, mesmo aquelas experiências que são visivelmente erros
profundos para qualquer um que se arriscar por sobre elas, todas as provas, degustações e
tentativas são sempre novas para aqueles que as experimentam. Sempre consegui fazer jogo
de abstração, ou melhor, jogo de empatia para com as necessidades dos jovens! Nunca fui
daqueles que riem de sua ingenuidade, que fazem chacota de suas pequenas cotas de
asneira diárias e suas inconsequentes e ordinárias opções. A ideia de que já passamos
durante nossa vida experiente por alguma situação parecida não é justificativa para
determinarmos o que deve fazer aquele que passar por uma situação semelhante –
sobretudo se for mais jovem do que nós. Nada é razão suficiente para que sigam a nossos
conselhos! Conselhos são ridículos, pois são incomensuráveis! Não se pode medi-los, ora,
por bem isto, não se pode pedi-los! Foi exatamente assim com Fabiana e não foi por falta
de aviso que ela mergulhou profundamente nesta enrascada, levando-me consigo.
Excetuando eu próprio, Marina, era a única confidente de Fabiana que, tomada de
ansioso desejo de compartilhar suas aventuras, cometeu o erro de se abrir completamente à
amiga. Ela obviamente não podia saber que isso implicaria mais tarde numa desavença com
sua irmã, justamente a quem ela devia a maior intimidade e respeito. Para todos os efeitos,
não era o objetivo de Marina, em princípio, trair a sua própria amiga. Estranhamente,
Petrusca deve ter aprendido comigo a técnica da pressão para se conseguir o que se quer,

83
como eu soube pela Marina mesma, e havia ensinado esta mesma técnica a ela; Qual não
foi meu espanto ao ouvir isto, meus pacientes leitores! Nunca quis servir de mau exemplo
para uma menina qualquer, ainda mais para esta que eu tanto apreciava. Certamente, quis
justificar-me com Marina: “ – Ela o faria de uma maneira ou de outra sem que eu servisse
de modelo a ninguém!” Ela obviamente não quis me ouvir. Dizia que a culpa era
completamente minha. Se Petrusca não soube como manter segredo a respeito dos
encontros que eu tinha com a mulher do Fidalgo para que Fabiana pudesse por sua vez ter
os dela com ele, era porque eu próprio a tinha estimulado e muito! Marina só não me
pressionou mais, imagino, por saber que eu não tinha muito a perder.
Sendo assim, a sabiazinha Petrusca, vendo aí um ótimo filão para num mesmo ato
vingar-se de mim e da sua irmã confidente sem confiança, acabou por pressionar Marina
para que contasse tudo do quanto soubesse a respeito do caso. E ela realmente lhe contou!
Claro que, como relatei acima, isto não foi totalmente gratuito. Aproveitando para
se beneficiar de algum modo, seja por influência de um ou de outro adulto, Marina ainda
aproveitou para se dar bem e receber algum em troca da informação que tinha em mãos.
Malditas sejam ambas! Enquanto eu tediosamente lambia os grandes e gorduchos lábios
vaginais da mulher do Fidalgo, sendo o único a sair perdendo desta inusitada e cansativa
situação, Marina recebia seus trunfos delatores, Fabiana sonhava com um casamento nobre
(e levava também nobres doses cavalares no ânus), o próprio Fidalgo livrava-se de um
velho fardo, um desgosto de um verme parasita e abastecer-se-ia de um jovem fardo,
também “verme” só que “muito gostoso parasita”, entretanto.
Descobri a respeito do resto da história por um vagaroso acaso que muito me
auxiliou: às horas antes combinadas, declinei de apalpar aquelas tetas gordas. Fiz isso por
puro desgosto... Não estava eu numa situação tão tranquilamente favorável, muito pelo
contrário, estava já disposto a dizer para minha querida Fabiana que aquelas horas passadas
com a mulher do fidalgo já me embrulhavam o estômago. Ademais ela falava
exageradamente de seu marido: “o quanto supunha ser ele infiel e - de fato - o quanto era
ele um grosseiro, o quanto era impaciente, tão mais irritante, sobretudo desleal, de jeito
pérfido, de tipo mau caráter, patife, velhaco, falso e mulherengo”, etc. Ora, justo eu que
gozo até com um pedaço de galho de árvore, desde que este me mostre uma beleza e que
fique em seu mais absoluto silêncio se não me tiver nada a dizer! Portanto ficava eu no

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mesmo lugar, mudo, ouvindo-a, pois sei que mulher alguma jamais conheceu o silêncio em
sua boca, exceto as mortas, as mudas, as prostitutas, as jovenzinhas e as minhas bonecas de
mulher em tamanho natural que mandei confeccionar em Berlim.
Aquela lamentável dona, ainda que me fizesse espermar, impedia-me de fazer gozar.
Jamais fui conivente com uma matraca de reclames que só deseja ao longo de sua vida a
todo custo fazer corresponder à verdade do mundo a sua própria verdade. Pena que não
deverei sentir jamais um gozo que seja permitido por meio de um sorriso inocente e por
pernas acolhedoramente abertas dizendo para mim “Apressa-te! Isso tudo é teu!”. Antes, a
mim cabem, em minha modéstia financeira e fisionômica, as abundâncias extravagantes de
mulheres cujas elegâncias principais são comer, ler péssimos romances de amor e cuidar
dos afazeres domésticos.
No momento em que desisti de ir lá na casa da mulher do fidalgo, por puro impulso,
isto é, sem desejar, provoquei um pequeno desastre do qual eu só me atrevo a comentar
aguardando deferência divina – ela quis aproximar-se por si só do fim de tudo, “de seus
bem amados que mal a amam, de seus problemas, de seu solitário destino, dos ingratos de
seus dias”.
Quais foram os meandros do ocorrido? No intuito de tentar dizer à mulher que já
não mais aguentava suas lamentações mandei a ela uma carta por meio de um mensageiro.
Que carta, meus pacientes! Eu engoli como vocês agora o fazem por meu impulso, mas por
suas próprias vontades, um remédio que turvava meus pensamento e minhas palavras. Se
me recordo bem, diziam algo confuso, mas verdadeiro, tais como isto: à ela “era para que
se livrasse de criar presentemente justificativas maiores, perda de muito do meu tempo,
aluguel de minhas energias e segundos de existência vividos somente para o prazer, e não
para seu contrário, pois já não mais suportava um ai de seus resmungos de desejos por
mim, sua cobiça em me fazer gozar, seus pofs pofs de sons lastimosos do seu corpo contra
o meu...” Graças a Deus, minha carta jamais foi lida, exatamente! Caso tivesse sido lida,
hoje eu me sentiria muito culpado e logo todos compreenderão bem o por quê!
Eu vos havia prometido acima voltar ao tema da “educação florentina” e da
“inocência” e quanto a isto, devo dizer, não foi absolutamente à toa esta promessa! Volto-o
aqui por achar oportuno criticar com a educação florentina, uma de suas pupilas mais bem
dotadas! Infelizmente a educação feminina, ainda tão escassa hoje, responde aos ideais

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florentinos para as mulheres que são “cama, cozinha e filhos”. A mulher do Fidalgo era a
florentina por opção, as irmãs depravadas e muitas das meninas suas companheiras, não. A
mulher do Fidalgo foi treinada a dar prazer ao homem, obedecê-lo, segui-lo...Quando
Petrusca exortava os olhares da rua para dentro de sua vagininha ela sabia que seu destino
de mulher já estava fadado: ser esposa. Era isso contra o quê ela sempre se rebelou desde
sua juventude mais tenra, agora posso de todo compreender... Teria dado uma excelente
educadora tivesse sobrevivido à cólera!
Ora, o mensageiro para quem confiei a carta, sendo um conhecido em comum,
partiu até a casa da mulher para a entrega, porém ela não se encontrava. Ele, sabendo de
minha urgência e conhecendo os lugares onde pudesse estar, vasculhou por toda parte à sua
procura e não a encontrou em lugar algum; nem na praça, nem no armazém, nem da casa de
corte e costura, nem na Igreja, nem na casa sua vizinha Dona Francesca. Ao desistir de
procurá-la, decidiu voltar à sua casa. Por segurança não podia deixar minha carta ali, teria
de entregá-la pessoalmente à mulher, por isso sentou-se na frente da casa dela e esperou.
Por sorte, não havia passado muito tempo quanto viu ao longe a carruagem chegar. Ocorre
que a mulher do fidalgo não chegara sozinha. Para livrar-se da situação embaraçosa sem
delatar a intenção de sua esquiva ele inventou de improviso que portava uma carta de seu
marido... “Uma carta de amor, portanto íntima...” – Reforçara este mensageiro o qual,
nesta altura, eu já devia estar arrependido em ter buscado a sua ajuda.
Não sei se houve desconfiança da parte de sua companhia, Madame Benvenucci.
Talvez houvesse mais que isso, de sua parte, uma compreensão imediata do que bem se
tratava aquela carta. Certamente, a cultura do círculo burguês a respeito da hipocrisia social
em se ter amantes a impediria de fazer qualquer comentário embaraçoso, seja em público,
seja intimamente. Ainda bem! Nós torpes burgueses amamos mesmo seremos enganados
uns pelos outros! Mas, estranhamente, o instinto burguês da mulher do fidalgo falhou. Sem
que abrisse a minha carta desprezível, ela pediu para que o mensageiro entrasse com elas
em sua casa, o que ele fez de prontidão imaginando que ela aguardava um momento
oportuno a sós com ele para averiguar o conteúdo da carta e para escrever-me uma resposta.
Mas ele estava errado!. Ao entrar em sua sala, fez com que os “convidados” se sentassem e
dirigiu-se com a carta ainda fechada em punho, em direção a outro aposento da casa.

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Meus caros e pacientes leitores, não vos pedirei mais para continuar a aturar isto!
Palavras só se amontoam quando não sabemos como exprimir o óbvio. Ela já imaginara
que algo estava ocorrendo. Seu marido jamais lhe emitira uma única carta de amor. Em
toda sua vida, aliás, ninguém jamais o fizera. Ao voltar do aposento seus olhos estavam
cheios de lágrimas. Não teve tempo de se recompor na frente da amiga que logo lhe
lançou: – “Oh! Que lindo, uma carta de amor! Está chorando?!”
Sem dar explicações desnecessárias pediu para que ambos saíssem de sua casa.
Aceitaram sem resistência, embora nenhum deles entendera bem o pedido. Contudo, eles
deviam ter em mente algo como, por hipótese, pode ter pensado a Madame Benvenuchi:
“– Seu grande amor já deve estar chegando em casa e será melhor deixá-los a sós”. Ou
como suponho ter pensado meu mensageiro: “Ela ficou furiosa. Não quer enviar respostas.
Quer apenas ficar só”. Ambos tolos; ambos certos. A tolice, esta douta ignorância, por
mais odiosa que seja é como veneno diluído em vinho – saboroso o paladar que carrega em
si a verdade de todas as coisas.
Vale admitir, só sabemos o pensamento dos outros quando supomos com nossos
próprios pensamentos que eles pensam exatamente como queremos que pensem. Neste
ponto o tolo sou eu... Mas para todos os efeitos, o fato é que eles simplesmente foram
embora. A mulher do Fidalgo releu a minha carta e não tinha dúvida: eram palavras duras
de seu marido contra ela! Meus pacientes leitores! Que estupidez a minha! Sem àquela
altura saber, escrevi uma carta e sequer a assinei, em minha pressa em desfazer-me de um
embaraço de 113 quilos! Fico me perguntando como aquela ignorante não podia reconhecer
a letra do próprio marido, uma vez que certamente desconhecia a letra do amante?
Ela tomara a minha letra pela dele... Todas aquelas palavras ríspidas, aquele
desgosto pronunciado por palavras, aqueles retumbares galopantes provocadores de
lágrimas, agora faziam parte da estante de rancores acumulados pela gorda mulher do
fidalgo contra seu próprio marido e não contra seu amante, este servo do Senhor que vos
fala humildemente, como devia exatamente ser... Não tivera tempo suficiente para explicar-
me do ocorrido o mensageiro quando outro homem chegava em minha hospedagem
dizendo ter mensagem urgente vinda da mulher do fidalgo: “Não guardarei rancores. Farei
da maneira que me pediu. Viverei pelo prazer de viver! Mas venha imediatamente, pois
tenho que lhe dizer algo que certamente lhe será importante”.Não entendi seu entusiasmo.

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Esperava uma outra lamentação, esperava mais resmungo e até mesmo possivelmente uma
vingança... Mas me iludi com aquelas palavras vivas em que “venha imediatamente!”
simbolizaria certamente algo muitíssimo bom a acontecer. Meus caros leitores, que homem
recusaria um pedido de “venha imediatamente!” vindo de uma mulher, por mais rejeitada
que fosse? Não pude, portanto, declinar de seu convite. Quiçá ela tenha entendido que pra
mim “já chega”? Quiçá ela tenha me tido como alguém que lhe foi útil, enquanto ela
necessitou? Quiçá não tenha rancores e, verdadeiramente, “faça como eu pedi”? Pela
primeira vez ouvia algo que sempre quis ouvir de uma mulher rejeitada. Suas palavras
soavam como minhas! Aquelas palavras reverberavam dentro de mim, em meu imaginário,
da seguinte maneira: “– Meu lindo amor, não se sinta preso a mim, viva como se fosse um
pássaro a beliscar vermelhas amoras e que eu seja somente uma delas, a mais
desnecessária de todas...”.
Eu fui ao encontro dela irmanado pelas minhas fantasias em relação às mulheres.
Isto foi sempre assim, podiam ser as mais repugnantes, mas quando me diziam que estavam
livres, justamente o que eu queria ouvir, eu simplesmente as obedecia de pronto e fazia
tudo do quanto elas me pedissem para fazer. Durante alguns segundos eu quase me
esquecera de suas lamentações, de seu corpo desproporcionalmente oblongo, de suas
chances em me tomar meu tempo. Agradeci ao meu mensageiro e decidi, “sem nenhum
rancor”, também. Que palavras belas! Decidi ir vê-la e terminar tudo com a tranquilidade
que me é tão cara e que nos é tão sadia em pensar em nossa tão rápida passagem neste
mundo de Deus.
Vesti-me de modo cortês. Sentia-me pulsar novamente. Aquele antigo estrume em
forma de mulher mostrara-se digno! Quando eu próprio sinto-me digno, visto-me como tal.
Sempre adorei vestir-me elegantemente e principalmente quando estava prestes a encontrar
também pessoas dignas, elegantes, sinceras, vivas, inteligentes; mulheres, sobretudo, que
gozavam da vida de modo definitivo. “- Quem sabe eu não lhe dou um último dos
suspiros?!” Pensava eu a caminhar em direção a casa da mulher do Fidalgo. Não me seria
em nada faustoso obedecer a ela em seus desejos românticos, em suas pudicícias juvenis,
em suas carícias tediosas, desde que a reivindicasse livremente, e pela última vez...
Por bela e estranhíssima recomendação do destino, que tece linhas duras e
complicadas em cada uma de nossas vidas, cruzei sem querer no caminho com a bela

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rechonchudinha Fabiana. Quisera eu interrogá-la a respeito de sua “discrição” em não
contar seu caso com o Fidalgo para sua irmã. Não é à toa que ela se esquivou fingindo-se a
apressada. Fabiana jamais se justificaria nessa vida, e isto era certo! Alguma confusão
ainda restava em meu mediano cérebro investigador que me induziu a tomar uma atitude de
muita coragem, mas de não pouca precipitação. Fabiana lançara-se na aventura de
envolver-se com aquele homem de reputação questionável, decidiu ser uma verdadeira
“dona do destino de sua própria vida”, enfim, voltou-se para a atividade irrefletida em que
“gozar” seja sinônimo de se “libertar”:
“– Gozar é libertar-se!” Podia-se senti-lo como uma máxima em seus lábios
movendo-se depressa ao me pedir um último favor. Tendo sabido que restavam poucos
segundos para que seu belo Fidalgo a pedisse em casamento, ela não podia perder milésimo
de segundos para que tudo desse certo. Foi assim que ela convidou-me novamente (quem
sabe pela última vez?), a entreter a mulher do fidalgo, enquanto ela pudesse passar a tarde
inteira do sábado próximo numa viagem (bastante comum a jovens apaixonados) nos lindos
prados de Siena, para além das cercarias de Florença. Sentindo a importância da situação,
expliquei a ela minhas intenções (ou falta de intenções?) com relação à mulher do fidalgo,
sem lhe avisar que já havia emitido a ela uma “carta de rompimento”, arremate de algo que
nunca deveria ter acontecido. E, para não perder esta oportunidade, exigi em troca que ela
contasse toda a verdade a sua irmã Petrusca e que me ajudasse a conquistá-la, uma vez que
eu estava perdidamente apaixonado por ela.
Não dei tempo para que ela se assustasse com meu pedido, especialmente em
relação ao meu comentário definitivo: “Apaixonei-me por Petrusca! Ela é a razão por que
vivo!” Adoro não dar tempo para os outros pensar! Esta é uma das maldades que carrego
comigo! Já tentaram isto os senhores também? Isso força as pessoas a fazerem exatamente
o que queremos quando nos pedem alguma coisa. Adoro colocar meus pedintes na berlinda!
Todos sempre têm algo a me pedir e eu que sempre peço em troca o que quero, raramente
fico sem me satisfazer – esta é minha boa lição de vida! Se alguém lhe pedir algo, peça algo
em troca!
Tendo tudo bem definido a meu favor, apressei-me em convidar também a minha
madura admiradora. Segundo o plano da descarada Fabiana eu já estava atrasado, então. Ela
havia me procurado no dia anterior para informar-me que seu amante lhe faria um pedido

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na tarde seguinte e não tendo me encontrado deixara um bilhete pedindo que eu fizesse
exatamente o que tinha de fazer...Não vi sombras do bilhete, mas o destino é como se fosse
Deus, o que ele não quer, não se apresenta, mas o que ele quer não há modos de não se
apresentar. Por isso, quando quero muito uma coisa eu sempre digo: Seja o que Deus não
quiser, pois Ele tem querido cada coisa doida ultimamente que nem sei!!!
Naquela manhã o Fidalgo levantou-se cedo. Sabia que tinha muito o que fazer:
trajar-se elegantemente, treinar no espelho palavras de amor como se fosse um jovem
jurando amor pela primeira vez. E principalmente comprar um presente para a linda e
rechonchuda Fabi. Um presente qualquer que fosse, que pelo menos fosse útil às mulheres
em geral, tais como são úteis os gritos de “cheque mate” no jogo de xadrez. Ele queria
realmente dar este grito “Você é minha a partir de agora!”; “O jogo está ganho!”; ou o
divino: “Tudo é meu!”. Levantou-se cedo, portanto, como de fato já fazia todas as manhãs,
mas sem pedir o jornal desta vez. Beijou a sua mulher como se nada tivesse acontecendo e
disse que estava bem disposto para uma pescaria. Não tardou em aparecer um par de
cúmplices que despertaram a casa em algazarras masculinas de fazer irritar qualquer ser
sensível – estes opostos humanos “sensíveis e insensíveis” veem uns aos outros como seres
sem importância.
Desfeito-se de um dos homens, aliás, sem saber, mal pagos haja vista a importância
da situação – como se é de esperar destes pobres todos que se vendem barateando a mão de
obra de seu trabalho – o fidalgo correu em direção à uma loja judia e saiu de lá portando
uma caixinha que certamente devia conter alianças... Um dos homens ainda estava a esperá-
lo do lado de fora da loja o qual, saibam, foi meu informante do que se passou até aqui
nesse sentido. Logo o fidalgo tratou-se de fluir para um aluguel de carruagens válido
apenas para as cercarias do parque Flannon.
Eu já estava em face daquela bela casa azul e branca quando confusamente pensei: -
“É a segunda vez que estou aqui. Minha primeira visita foi a negócios...e desta vez...Ora!
O que estou a dizer? Esta segunda visita não deverá também por qualquer outra razão ser
senão a negócios...? Desta vez, entretanto, surpreender-me-ia o desenrolar dos inusitados
acontecimentos. A obesa mulher do fidalgote estava pálida e com o olhar tétrico ao abrir a
porta para mim. Logo imaginei que estava passando mal a ponto de um desmaio em função
da carta que havia lhe enviado: Ela mentira, pensava eu. Agora eu o sabia! Fingira a mim

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em seu bilhete ser a mulher amável, a dona de si, a livre, a mulher do século XX! Besteiras!
Eu estava sendo ludibriado pela melancólica mulher do séc. XIX a me entediar pelos seus
lamentos de mulher abandonada.
Evoquei sem galhardia a necessidade da presença de um médico da família no
instante em que meus braços frágeis mal suportavam o peso daquelas banhas melancólicas
a inundar com lágrimas o meu ombro e peito e de poluir meus ouvidos com seus soluços
vãos, suas lamentações em tom de voz estafante e anasalada, suas frases soluçantes e
desconexas:

- Ele tem... Uma caixa assim...Maldito o seja! Desde sempre...Ele me engana!

A necessidade de aprumo de certos cérebros femininos jamais fica tão patente como
quando elas ficam em pranto nervoso. Até ali, em nossos encontros proibidos de amantes
ela fizera questão de tratar-me como a uma caixa de depósito de toda a sua frustração.
Meus caros leitores, permitam-me que vos faça uma confissão: eu sou avesso ao casamento!
Tenho asco ao papel de ser marido; mas eu sou mais avesso ainda em ser uma muleta para
um casório, tenho ainda o mais horripilante horror ao papel de ser para uma mulher casada
apenas um “amante”!
Depois de que alguns poucos bem sucedidos beijos meus em sua nuca repelente
teria lavando seu suor – lembro-me só agora de dizer-vos que ela tinha dobras de gordura
no pescoço que apareciam como uma pequenina bunda na nuca, algo que eu jamais tinha
visto em um ser vivo! – procurei acalmá-la do mesmo modo como eu a tranquilizava
quando era tomada de desespero, seja pela aflição em trair seu tão bondoso e ingrato
marido, seja pela maldita solidão que sempre invariável e conflituosamente a forçava a
chorar.
Essa atitude sempre a fazia relaxar, mas ficava óbvio que eu estava com isto
transportando uma ação que eu praticava com gosto nos pescocinhos de tantas moças
italianas desde jovem para uma ação num corpo que não demandava nenhum destes
carinhos: Passar delicadamente a mão nas bochechas, alisar pequenos tufos de fios de
cabelos com os dedos indicador e médio olhando diretamente nos olhos, pentear estas
mesmas madeixas para traz desfazendo seu penteado original, roçar com a ponta dos dedos

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os ombros nus, segurar as duas mãos como quem segura ovos com cascas muitíssimo
frágeis, fazer deitar no peito, num jardim estrelado, uma cabeça cheirosa que ouvirá mitos
romanos de sua boca ao mesmo tempo em que lhe mostrará pelos nomes as constelações do
zénite.
Determinadas práticas sensuais deveriam limitar-se a determinados tipos de corpos.
Por exemplo, algum inimigo desavisado talvez pudesse, ao ler estas linhas, imaginar que eu
fosse de me repugnar pelo excesso de gordura corporal feminina. Bem ao contrário! Eu
soube como me regozijar nele! Entretanto, minha atração maior a todo corpo gordo se
manifesta em tapas, apertos esmagadores, penetradas violentas, mordidas em que só depois
de muito tempo e custo se rescindem as marcas! Como podem ver, ao contrário de desgosto,
sinto um militar apreço pela carne gordurosa em excesso.
Jamais senti desejo de beijar lugar algum de seu corpo, todavia. A única ação que
talvez passasse por perto disto era a tentativa de afogar meu rosto inteiro no meio daquelas
macias bolas infladas cuja textura me lembrava as de uma massa crua de pão. Certamente
seus seios eram formidavelmente grandes o suficiente para me excitarem desejo de
sufocação inebriante no momento de gozar. Só isto era gostoso naquela inútil massa
disforme. Enterrar meu nariz sem respiração por entre aquelas bolas gigantes que ela
instintivamente segurava segundos antes do gozo sufocante, que é como uma pequena
morte deliciosa... Já o experimentaram? Ora, por que perdem tanto do vosso tempo?!
Tampar o nariz para gozar é melhor que morrer, porque, calculado um respirar desesperante
a tempo, pode-se voltar à vida como se a morte tivesse finalmente acontecido como uma
experiência a se somar à outras vindouras.

“– Enquanto essa retardada estiver chorando – pensava eu acariciando-a – não


vou poder experimentar, em despedida, um pouco da pequena morte nos seios dela”.

Ao tentar métodos mais envolventes de acalmar uma mulher pousei uma de minhas
mãos sobre suas coxas de vaca leiteira e a outra agasalhei seus ombros apertando-os contra
os meus. De pronto ela se levantou e deu um grito.

- Ali! Ali ele guarda as provas de seu desrespeito contra Deus!

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- O que está a dizer?
- Ali! Ali! Ali! – Num crescendo Exasperava.

Imperava sua voz cada vez mais violenta e aproximando-se aos poucos de uma
porta que aparentemente havia sido arrombada há pouco. Eu entrei ali aonde se escondia
um cheiro nauseabundo de vinagre, sem ter noção do que aquela louca estava tentando me
dizer. Desconfiava que ela tentava me pregar alguma maldade. Quão horrendo aquele olhar
que orbitava o desespero! Seus glóbulos oculares exigiam sangue, suas mandíbulas
famintas apreciavam carne, nem uma sombra inoculava as suas brilhantes efígies faciais de
monstro. Suspirei de alívio, contudo, quando ela me mostrou a minha carta dizendo que era
de seu marido. Ainda sem a entender, peguei a carta com a qual eu estava muitíssimo
habituado com cada qual daquelas palavras, sílabas, em sua pontuação e letras, quando
nervosamente procurei pela assinatura final e exclamei em bom som. “– Claro! Eu me
esquecera disto!”. “– O quê?” Resmungara desconfiada a duplamente tola mulher do
fidalgo sortudo e amante do plebeu azarado – sem que eu lhe respondesse nada, obviamente.
A carta podia muito bem ser do marido dela, uma vez que só dizia verdades íntimas
sobre ela, sem tocar em outro assunto relevante à outra personagem em questão, exceto pela
frase final que dizia: “não quero vê-la nunca mais!”
Aos poucos, minha inteligência foi se adequando àquela situação ridícula. Ela havia
confundido a minha carta como se fosse a de seu marido. Eu estava ali consolando-a pelo
que ele fez, quero dizer, pelo que eu próprio fiz, sem que ela ou mesmo eu o soubesse até
então. E ele haveria de saber disto em breve, pois ela certamente o cobraria, deixando-me
em maus bocados mais uma vez. Pois, embora realmente não se devesse importar o mínimo
com este casal (que se danem ambos!), seu marido, pretenso esposo da minha futura
cunhada, certamente haveria ainda de me causar um grande estrago com esta lavada
situação!
Ainda assim, contive minha falta de paciência porque desviei minha atenção ao
local onde estava. Senti muitos calafrios naquela sala escura, sem janelas, com cheiro de
vinagre, com pouca luz e as paredes pintadas de preto. Havia uma estante de livros, mas
com edições às quais sequer eu, que sou um ávido leitor, tinha jamais visto – belas capas
verdes com inscrições douradas. Aproximei-me e li alguns dos títulos: Missa negra; Flores

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do Mal; Apadrinhados de Satã; São Cipriano; a Bíblia Maldita; Contos de Maldoror; entre
outras confusões.
Havia cerca de 40 livros dispostos em fileiras estranhas, tombados para esquerda. A
mulher do fidalgo apontou de modo nervoso para o chão e disse:

- Ali! Abra a Caixa!

Hesitei! Não por medo, mas por indignação mesmo! Sendo eu católico, sei que para
Deus é possível a graça da salvação mesmo a um ateu, mas jamais para um demonista. De
espanto em espanto, a cada fresta, esconderijo ou canto que meus olhos se assentavam,
mais me era enervante conhecer o destino daquela pobre mulher. Ela havia se dirigido a
mim como a sua última fonte de humanismo e a única coisa em que eu podia pensar até
aquele momento neste nervosismo e ainda muito tempo depois de me acalmar era “como?”
e “o quanto antes?” eu, por obrigação, poderia tirar os peitos dela pra fora para ali me
afogar quase que satisfeito.
Abri a caixa com insegurança. Havia nela um cem número de calcinhas de
tamanhos gigantescos e pequeninos incomensuráveis ou pelo menos inumanos. A quem
pertenciam? Num mister de dedicação analítica da minha parte ao investigar os espaços
internos das peças íntimas e ímpeto indutivo também de quem colocou aquelas calcinhas ali,
percebi que haviam números em série marcados à tinta em cada uma delas. O que viria a
ser estes números? Pensava eu em silêncio quando a miserável inteligentemente me
interrompeu:

- Veja aquela agenda de anotações! Eu já observei a respeito dos números!

Meus caros amigos leitores! Eis que vejo uma agenda aberta por sobre a
escrivaninha onde se lia em letras garrafais os nomes que correspondiam aos números
místicos. Eram nomes femininos, alternados em ordem alfabética e também numérica com
dezenas de grupos em forma de cruz de David. Não tive tempo para ler muitos nomes, não
pude verificar nomes conhecidos entre tantos outros nomes de mulheres, em princípio. Foi
quando ela aproximou de minha mão um bilhete escrito, segundo ela, pelas as próprias

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mãos dele. Refleti sobre sua dificuldade e estupidez para reconhecer uma letra, mas,
segundos depois, de surpresa, veio-me à mente que ela tinha uma limitação visual e
precisava utilizar-se de óculos, embora nunca tivesse tido vontade de fazê-lo, segundo ela,
acreditem, por pura vaidade!!! O bilhete dizia assim:

“– Encontre-me terça-feira na Piazza Santa Maria Novella às 17:00h em ponto!”.

“– Ele tinha amantes!” – Assegurava-me ela...

Achei tudo isto muito bobo, mas não menos estranho. Já a conhecia, aquela era
realmente a letra dele, mas que bilhete não possui a imediata necessidade de despacho? Não
me fazia sentido que escrevesse um bilhete que não tenha sido entregue, rasgado ou pelo
menos tenha mantido consigo. Interroguei-a com relação a isto sem obter resposta. Minhas
hipóteses são assim mesmo, improváveis... Havia falado com a misteriosa personagem
pessoalmente e não precisou utilizar-se do bilhete? Havia abortado seu encontro na mesma
terça em questão? Essas questões somente poderiam ser respondidas por ele, mas não senti
o menor interesse em interrogá-lo. Satisfação de dúvidas tem limites, meus caros! Ademais,
seria justo reconhecer que este bilhete se tratasse possivelmente de um mero encontro de
trabalho, ou de uma amizade, coisas que não me interessariam... Mas por que na piazza
Santa Maria Novella, conhecido reduto de encontros amorosos?
Segura do que “realmente” se tratava, ela queria ir ela mesma ao encontro para
flagrá-los. Era o que ela tinha tentado fazer com a amiga quando esteve fora de casa, mas a
falta de coragem a impedira. Somente a duras penas consegui convencê-la em deixar que eu
fosse a este encontro em seu lugar. Eu prometera que surpreenderia seu marido em seu “ato
libidinoso” e o faria sentir as consequências de seus atos provocando lhe desejos de
reconciliação com ela... Estava tudo certo... Tudo se daria deslumbrantemente como
combinamos! Ela o aceitou!
Cheguei um pouco mais de meia hora antes do combinado e pude averiguar o local.
Dei algumas voltas na praça buscando os locais mais adequados tanto para observá-los
chegando quanto para ouvir de suas conversas sem ser notado. Optei por bem me sentar
num banco de entrada da própria praça a ler distraidamente um jornal. Como me sentei num

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banco que fica de costas para a entrada, na frente de um grande cipreste cheio de arbustos,
julguei-me suficientemente escondido e irreconhecível para os que entram e estes ficariam
satisfatoriamente visíveis e de costas para mim, por sua vez.
Quinze minutos da hora marcada, depois de me preocupar falsamente com visitantes
ingênuos daquele lugar, avistei de costas um rapaz tão belo quanto desconhecido com uma
calça tergal apertada, gozando de bela saúde corporal que acompanhava uma pequena loira
trajada com um belo vestido de renda azul, uma sombrinha pequena e um discreto chapéu
branco com delicadas flores amarelas nas laterais.
“– Espere um instante!” – pensei. “– Eu conheço essa moça! Está com muita
elegância neste vestido maior que seu corpo, está andando com modos afetados. Está com
este total desconhecido, mas trata-se certamente da Petrusca. Minha bela loirinha amada!
Malditos! Hão de se encontrar para o namoro! Eu os seguirei! Eu os matarei! Petrusca,
meu amor, não!”.
Nos poucos segundos que hesitei em segui-los, chegou-se a mim de surpresa uma
jovem senhora que, ao observar-me há tempos sem que eu a percebesse, sorriu-me e ficou
na minha frente em silêncio. A surpresa daquela situação me fez corar. A tomar por aquele
olhar lânguido que ela me dirigia, aquela mulher idiota supôs erroneamente que eu
estivesse desconcertado com a situação de luxúria a qual ela gostaria de me envolver. Ai se
soubesse que eu queria era estrangulá-la ali mesmo! Ou se soubesse pelo menos do meu
desejo de lhe dar um bom tapa em seu rosto simplório para que me deixasse em paz a
seguir aqueles malditos namorados! Mas não, com este ato impudico, sem que eu soubesse,
aquela mulher havia salvado todos os meus objetivos naquele dia. Como é irrelevante lutar
contra os fatos! A contingência, ainda que contrariem aos nossos desejos fatais de controle
do destino nos assegura a novidade da experiência. Devemos assim, ao Acaso, que este seja
louvado, em gratidão, como a um Deus! Se fosse romano este deus chamaria-se Fortunam,
se fosse grego seria Kidynos, sendo humano e ao mesmo universal o podemos chamar de
Vida.
Depois de segundos ouvindo algumas palavras que não me faziam em absoluto
sentido - sequer sei o que ela disse, pois não a ouvi, observei aquele casal afastar-se
lentamente para o centro da praça e sentaram-se numa distância significativa o suficiente
que não se ouvia suas vozes, mas que se podia vê-los com segurança. Se se beijassem, eu

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iria até lá e massacraria o jovem rapaz! Jamais senti ciúmes de quem quer que seja. Mas
com Petrusca era diferente. Era uma vontade de proteção, era um desejo de acolhê-la em
meus braços, era uma vontade de guardá-la numa caixinha em que carregaria comigo por
onde quer que eu estivesse... Dez minutos se passaram, e para mantê-la perto de mim eu
não falei com aquela mulher mais de que três ou quatro frases descontínuas, intercaladas
que eram entre as montanhas de idiotias sem fim vindas de sua podre boca. Palavras mal-
vindas entram no ouvido da gente como pedras que esmagam o cérebro e o transformam
em grãos de arroz num vômito líquido.
Mas que nada! Fiz esta palerma gozar bem umas três vezes antes de vir para Paris!
E se o fiz foi para agradecê-la por ter-me tratado como a um idiota, pois não fosse isto eu
não poderia ter visto a cena que se seguiu e que me demonstrou ser Petrusca não a
namorada daquele jovem, - pasmem! - mas seu agente de prostituição! Andando apressado,
quase em atraso, eu vi um homem marchar com uma sacola na mão em direção aos dois,
era o fidalgo. Assustei-me a ponto da paralisia, obviamente. Aquele bilhete era para meu
amor! Pensava eu aflito... Eu suava frio a ponto de transparecer para minha conviva que
minhas urgências tinham pouco a ver com sexo. Tinham a ver com a vida e a morte!
A cada um dos passos do fidalgo na direção deles, meu coração batia tão depressa
que tinha força de um bombardeio de canhões do meu familiar distante Napoleão (voltarei a
lhes falar sobre isso). Ao chegar lá, vendo o fidalgo sorrir para minha menina, apertei forte
a mão de minha admiradora dando a entender que eu faria tudo do quanto me pedisse,
desde que ficasse em total silêncio e me acompanhasse em meus interesses. Não sei que
disposição para a carência sexual e solidão faz algumas mulheres se sujeitarem a nós
homens. O fato é que consegui este silêncio e sempre cumpro uma promessa, mesmo as
feitas com gestos, olhares e apertos de mãos – sou um homem de palavra; e também de
gestos!
Meu alívio e confusão vieram de alguns acenos do fidalgo em relação ao rapaz que
acompanhava Petrusca. Eles sorriam muito, quase não se falavam (percebia-se isto pelo
pouco mover dos lábios). O fidalgo fez um carinho no cabelo do rapaz acompanhando seu
lindo penteado juvenil para o lado. Muitos homens adultos de Florença adoram o penteado
molhado e voltado para trás, os jovens em geral fazem o contrário, com franjas laterais e
caídas para frente. Percebi que dali para diante o fidalgo quase não deu chances de atenção

97
a Petrusca que já virava de lado como que não querendo ouvir a conversa dos dois varões.
De repente ela levantou-se infantilmente e já caminhava para fora do parque correndo
devagar. O fidalgo levantou os braços e disse algo que não ouvi. Ela voltou, ficou de pé
junto aos homens. Eles levantaram e foram todos em direção à saída da praça. Neste
ínterim eu pensava ansiosamente em Deus, com medo de que me vissem:

“– Eu tenho de fazer alguma coisa!”.

Certo! Levantei-me do banco ainda com as mãos dadas àquela mulher. Colocá-la-ia
entre minha visão e a deles sobre mim e aproveitar-me-ia também de sua sombrinha para
que, assim que se aproximassem de mim, eu pudesse “beijá-la em segredo” e assim
disfarçar-me para que não me vissem. Logo que saíram da praça eu os segui. Acompanhado
pela minha nova “amante”, curiosamente ainda sem fazer uma só pergunta... Mulheres com
força para conter sua curiosidade são raras e essa mereceu a minha atenção! Fomos
caminhando até uma pequena casa de tijolos vermelhos de tipo inglês. Lá funcionava um
bar que naquele momento estava aparentemente abandonado, mas na verdade estavam
preparando o local para ser um armazém.
Petrusca os acompanhou até ali e seguiu caminhando sem dizer uma só palavra. O
rapaz parecia ter a chave do lugar, pois ficou uns instantes na frente da porta e logo a abriu
e entraram os dois. Assim que entraram, dei dois passos curiosos atrás deles e minha
“amiga” me segurou. Seu braço retesado pedia-me explicações. Contei a ela que
investigava a menina e que ela era minha irmã mais nova e que estava metida com
corruptores de menores. Eu precisava salvá-la! Ela concordou de toda paixão. Que fêmea
estúpida! Sequer lhe passou que minha tez morena e meus cabelos pretos ondulados não
tinham nada que ver com aquela loira palidez de Petrusca. Ainda sim insisto que fôssemos
em verdade irmãos, não “irmãos de carne”, mas sim “irmãos na carne”.
Ficamos uns minutos tentando ouvir, próximos da porta de entrada, que espécie de
conversa aqueles homens tinham. Sem nada conseguir, de tempos em tempos nos
afastávamos da porta, especialmente quando víamos transeuntes se aproximar. O tempo já
estava passando em demasiado quando ela arregalou os olhos e convidou-me a segui-la por
uma viela que margeava a praça. Mesmo sob minha suspeita, meneou seriamente a cabeça

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de sobrancelhas retesas como quem soubesse o que estaria a fazer a partir dali. A viela fazia
uma curva para direita e culminava justamente na parte de trás do antigo bar. Ela olhou
para cima, para os lados, para todo redor onde se via um muro alto que bloqueava a parte de
trás da construção... Por fim, fez-me um gesto e me pôs, ainda cético, a voltar pela mesma
viela de onde viemos, mas desta vez batendo à porta da casa vizinha da qual os misteriosos
entraram. Sem que me permitisse envolver, começou um diálogo com uma ocupante da
casa que nos atendeu dizendo o seguinte:

– O que desejam? – Acolheu-nos uma pacata senhora que parecia ser uma
empregada.
– Desculpe-me incomodá-la, mas sou a dona do novo armazém daqui do lado. Por
descuido esqueci-me da chave no lado de dentro, se não for incômodo, gostaria de pedir
para que deixe este senhor ir buscá-la a partir do seu muro na parte de trás da casa, isto
seria possível?

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Aquela senhora não parecia estúpida, mas acho que as mulheres são muito
condescendentes umas às outras. Ela sabia que seria de grande utilidade e não hesitou
muitos segundos para dizer: “- Sim, claro!”. Acredito, entretanto, que desconfiou bastante
de mim. Não só por ser homem – as mulheres, de fato, possuem uma desconfiança
biológica contra nós – mas por causa da máscara de estupefação que eu devia carregar em
meu rosto, como uma face teratológica do teatro chinês.
Pulei o muro enquanto as mulheres conversavam no fundo do quintal. Cheguei a
uma porta que ficava na parte de trás. Ao manuseá-la com cuidado, verifiquei que estava
fechada. Dando a volta pelo lado esquerdo da casa, onde se encontrava uma chaminé, era
possível enxergar outra porta, esta já entreaberta. Aproximei-me o mais silenciosamente
possível enquanto ouvia gemidos indescritíveis que vinham bem detrás da porta. Hesitei e
voltei por instinto, correndo para trás da casa novamente. Como não havia acesso pelo lado
direito tive de encorajar-me a voltar pelo mesmo corredor de novo. Novamente, na ponta
dos pés, ultrapassei a porta atrás da qual ouvira gemidos antes, segui em frente e entrei pela
destrancada porta principal. Vi uma garrafa de vinho pela metade, no chão, logo na entrada,
e por fim ouvi gemidos muito delicados do lugar onde já partira os primeiros sons estranhos
que ouvira antes. Tive coragem para aproximar-me já sabendo do que se tratava. Passei por
um corredor de uns dois metros, olhei de relance para que pudesse talvez ainda passar
desapercebido – o que consegui. Estavam próximos à porta. No chão. Esta cena não me
instigou somente o riso. Senti um calor se transportar pela minha pele, os braços, meu peito,
o rosto, senti-me corado pelo corpo todo. Nunca tinha pego de surpresa dois homens
fazendo sexo, isso me desconcertou. Porém os meus sentidos me abriam quanto mais me
excitava eu não ter sido descoberto ainda e poder continuar a ser um observador ideal.
Amorteci meus lábios secos com um pouco de saliva que me restava. Não desgrudaria os
meus agigantados olhos daquela cena curiosamente excitante!
Minha exultação não durou muito. Em segundos ouvi passos grotescos do lado de
fora. Era minha amiga. A partir da porta que eu evitara, ela surpreendeu os dois em seu ato
e deu imediatamente um grito estridente ao correr em direção à saída da casa. Eu a segui de
susto e saímos pela rua a correr os dois feitos pombos de praça assustados com firmes
passos de transeuntes infantis. Eu parei não tão longe para descansar do meu susto e da
minha palpitação curiosa ainda de pé, mas curvando as costas para frente, esbaforindo com

100
as mãos nos joelhos. Ela seguiu em frente ainda em desespero... Eu já tinha recobrado a
minha respiração quando a vi novamente com as sobrancelhas retesas e desta vez
acompanhada de um policial que corria em direção à casa.
Por estupidez, há leis imbecis que limitam a sodomia na cidade. A Florença dos
anos de ouro, a Florença de Leonardo Da Vinci, mesmo a de Petrarca, de Boccaccio, de
Giotto, dos grandes mestres do hedonismo e da sodomia, já havia passado. A mulher
contou ao policial sobre as “minhas suspeitas”, sobre “minha irmãzinha inocente”, “um
docinho adorável de Jesus...ta rá rá, ta rá rá...” Prevendo o inevitável, não impedi que o
policial entrasse na casa aos berros e correndo. Como se nada ocorresse de preocupante, ele
surpreendeu os dois ainda nus a se beijar. Eu disse antes que não iria entrar lá novamente e
pedi a ela que também não entrasse no edifício, mas foi em vão. Pedi, então, que me
encontrasse na praça no dia seguinte, pois os varões amantes não poderiam saber que eu
estaria por trás desta prisão, pois viriam em represália, com toda certeza. E ela concordou.
Meus caros amigos leitores, da seguinte forma termino esta história das irmãs
depravadas – tanto quanto longa será a noite que nos consumirá para sempre. No dia
seguinte, a mulher me contou tudo do quanto se passara naquele edifício. A prisão dos
infames por sodomia, a invasão do armazém (isto mesmo, o rapaz não tinha a chave, havia
arrombado a porta com técnicas de ladrão, posto que o era, uma vez que havia queixas
sobre ele e estava sendo procurado pela polícia). Mas ela não tinha provas quanto à
corrupção de menores, por isso, eu devia ir até lá oferecer testemunho antes das 16:00h, “–
Pois um deles, o sodomita passivo, estaria livre até essa hora por falta de provas”. Eu
concordei em fazê-lo e tampei meu nariz ao mentir agradecendo-a muitíssimo: “ – Por
tudo que fez pela honra da Cristandade”. Obviamente, ao contrário, fui até lá e me utilizei
do expediente legal que me cabia como advogado para soltá-lo ainda mais depressa do que
se havia previsto.
Juntando cada um dos cacos desta enorme peça de louça frágil onde se amontoam
os eventos semelhantemente ao casual destino a desferir pústulas em nossas peles, fui
compreendendo boa parte dos motivos de cada um dos envolvidos no caso das irmãs
depravadas. Foi Petrusca que ao provocar sem querer a ida de seu professor ao riacho das
lambidas criou o primeiro grande desentendimento entre elas. Fabiana abusou da irmandade
que tinha com Petrusca mantendo-se em silêncio em relação a seu caso com o fidalgo que,

101
para obter frutos proibidos, lançou magias para com a calcinha de Petrusca (Sim! Pobre
coitada! Inconfundível como o tamanho de sua calcinha, tal como eu próprio li sem poder
levantar suspeitas, era seu nominho angelical naquela agenda diabólica). Sabe-se disto
lançando olhar à ansiedade de calcinhas que o fidalgo manifestava, para que, em seus atos
contra Deus, utilizasse Fabiana fazendo-a obter muitas delas em casa e no colégio com suas
amiguinhas, o que Fabiana de prontidão obteve por puro amor a este homem miserável.
Ela não deve ter questionado os motivos dele, tal a cegueira que lhe fora provocar
este amor. Este porco vil acabou por desirmaná-las ao fim! Quem sabe esta desagregação
tenha afetado muito na falta de resistência à doença que as afligiria nos derradeiros dois
anos, após estes acontecimentos? Teriam sido as suas vidas repentinamente modificadas
por razão egoísticas daquele verme sem valor?
Antes de morrerem soube ter o Fidalgo levado a pequena Petrusca ao mesmo local
onde mantinha encontros com a traída Fabiana que, por suas mentiras a Petrusca, ficava
vingada sem que Petrusca viesse jamais a saber. A magia bem feita gera frutos
inexplicáveis, muito embora eu seja católico e não acredite em nada disto!
Para que saibam, a mulher do fidalgo suicidou-se com arsênico diluído, (maravilhas
da modernidade!), no mesmo dia que soube por meio da polícia que o homem levado por
Petrusca até a piazza Santa Maria Novella estava já há pelo menos dois anos fazendo
sexualmente passivo a seu marido.
Para livrar-se da magia negra praticada contra ela, Petrusca era somente um
intermediário entre os dois, o Fidalgo a chantageara para que fizesse isso; levasse homens
para sodomizá-lo. Enquanto ela chantageara aqueloutro o qual não passava de mais um das
dezenas de malandros de Florença que viviam atrás dela dizendo que “dariam o que ela
pedisse desde que fizesse o que eles pediam”. Os acontecimentos que se amontoam
esmagam muitas vidas sem que se possa jamais considerá-los trunfos.
Tenho muitas saudades daquelas meninas. Eu sabia que foi por influência delas que
as outras se estimularam a compor um grupo que frequentaria pestilento e lindo “riacho das
lambidas”. Elas possuíam um caráter de ponta. Uma desobrigação fundamental com tudo
que lhes fossem amarras às tradições, prisões aos costumes, ataduras morais, modismos
vãos... Como dizia a Fabi, poetiza roliça falecida, que Deus a tenha em seu lado: “práticas

102
essas todas que envelheceram e que simplesmente cheiram idênticas ao mofo das coisas
antigas”.

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103
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O velho que Fora Pré-Adolescente3

Conheci o velho Lyu yang numa pocilga em Shangai. Eu estava em uma viagem de
negócios a convite do meu amigo Fernandez, o “Homem Têxtil” (rico industrial do ramo).
Ouvi-me, pacientes leitores! Não há tabernas melhores no mundo, aguardentes possantes ou
meretrizes mais sagazes do que as que conheci no oriente! Eu me refiro a Tóquio e
especialmente a Shangai. Ávidas por sexo, aquelas pequeninas deusas de papel não se
envergonham em recorrer a capciosas metodologias... Pouco tive de desembolsar e muito
tive de me manter em pé diante de tanta sagacidade de estimular-se o gozo. Não sei por
qual motivo cultural, contudo, a perda da virgindade feminina é vista ali como uma
maldição a ser aceita somente depois do casamento. Poucas mulheres consegui ver pela
frente na China! Mais velhas, em geral, descasadas (outra maldição menos terrível), as
mulheres são minoria em toda parte do oriente chinês. Ouvi histórias de arrepiar os cabelos
que diziam elas serem rejeitadas já do nascimento. Isso mesmo, meus queridos, os chineses,
esses estúpidos, rejeitam as suas mulheres! Aquelas que amistosamente chamamos aqui na
Europa de verdadeiras PUTAS, estas se encontram em bem menor número – também não
me perguntem por qual razão, vale dizer apenas que as chinesas são tão pudoradas quanto
possível até que nos confiem a sua sadia cavidade anal. A grande sabedoria oriental,
equivalente à russa havia recomendado à estas puritanas se utilizarem do furo sub-
localizado como preventivo contra a sedução do hímen e sobretudo como método
anticoncepcional. Que belo método! O eurasianismo um dia vencerá no mundo!
O velho Lyu, conhecido devasso da cidade de Shangai, havia escrito e
publicado um diário íntimo aos 14 anos de idade no qual ele relatava suas aventuras
amorosas de pré-adolescente. Não sei se aquilo poderia bem ser chamado de “aventuras
amorosas”. De qualquer forma, dias depois de conhecê-lo, eu pude “ler” algumas partes de
seu “livrinho” com ajuda do tradutor chinês de Fernandez, um belo rapaz cujo nome era
Qiang e cuja pele era muito suave... Tendo o velho Lyu me chamado a atenção por
conversar com duas moças, de certo portuguesas, na própria língua delas, interessei-me por

3
Do orginal em francês: Le Vieil Homme qui Était dans sa Dernière Partie de Son Enfance. Como todos
sabemos os conceitos “adolescência” e pré-adolescência” é do séc. XX. Mesmo tendo ciência de que a
modernização de terminologia trai parte da força literária de textos antigos, em inúmeras passagens dessa
tradução preferimos modernizar alguns conceitos em desuso ou inexistentes no fim do séc. XIX a fim de
trazer ao livro um ar mais palatável para os leitores contemporâneos.

105
aquela figura chinesa frágil e bondosa que me evocava os sábios da altura do aparentemente
não muito mais velho Confúcio.
Que velhice era aquela? Ele conversava com as duas raparigas4 de modo
suave e elas pareciam fitar-lhe com a gratidão de jovens devotas. Depois, em ocasião
propícia, terei eu algo a dizer sobre a tradição de mestre-discípulo no oriente! Eles não
perdem em nada para a Paideia grega, na qual a educação da virtude é transmitida por um
escravo de corpo e alma. Perde muito menos para a maiêutica Socrática, onde a parteira
punha-se a pôr e a tirar ideias nas cabeças infantis tal como varões de todas as idades
auxiliam na concepção a pôr, tirar e pôr, pintos, indefinidamente, nas vaginas juvenis.
Muito menos perderiam para um tipo de ocultismo medieval, uma pedagogia oculta dos
tempos de São Tomás de Aquino, o Doctor Angelicus, que visava se chegar à virtude a
partir da colocação exata do pinto no ânus! Uma distinção entre o Ser e a Essência.
As duas jovens estavam aparentemente muito felizes cercando o velho. Enquanto
uma sorria levemente mostrando dentes brancos e finos ao encanecido chinês, a outra
existia com seus longos e belos cabelos pretos e suas costas semidespidas, cobertas apenas
por um roupão marinho escuro tradicional que, infelizmente, não consigo descrevê-lo aqui.
Basta apenas que o imaginem: a abertura natural na parte dos peitos num vestido oriental
deveria oferecer logo a baixo uma barriguinha e um umbigo quando abertos os seus botões
de marfim... Todavia, aquele traje, por meio de uma abertura vertical sem botões somente
na parte de trás, apresentava as delicadas curvas espinhais. Apoiado por este modelo de
vestido sem pudor, o velho não tardou em investigar com suas mãos rugosas as costas
daquela ingênua alcoviteira. Ela lhe retribuía as carícias com suas mãozinhas pequeninas, a
enrolar com o dedo indicador, pêlos imaginários no peito liso do chinês senil.
- Pode me dizer o que está acontecendo ali? Perguntei divertidamente ao jovem
tradutor que me sorriu ao dizer sem sotaque algum: “– Claro! Este é Lyu Yang, um senhor
muito respeitado nos bordéis de toda Shangai. Foi ele quem há trinta anos tem salvado da
fome centenas de meninas crianças que se prostituíam por comida aqui na zona do
meretrício”.
- Gostaria de conhecê-lo! Poderia levar-me até ele?
- Sim, claro! – Disse o meu jovem anfitrião.
4
*raparigas é o nome como os taberneiros de Xangai chamavam as prostitutas portuguesas que vinham de
Goa e de Lisboa – este termo em português significa “moças jovens” ou “solteiras” N. do A.

106
Eu, obviamente, não queria perturbá-lo naquela noite de folia e entretenimento, mas
a sua aparência de sábio e seus atos impudicos despertaram em muito a minha atenção e
decidi por bem fazer o que não consideraria ou faria normalmente. Um velho bem
intencionado que não é hipócrita nem falso puritano...? Isso me pareceu bastante
interessante! Ao me aproximar percebi que seu rosto era senil como todos os rostos senis,
com falsos sinais de cansaço, sofrimento e fragilidade. Mas suas rugas eram bem suaves.
Sua pele opaca apresentava ondulações provocadas pela passagem do tempo que lhe
desfigurava as expressões mais sutis do rosto. Aquela pele era, sem dúvida, vinda de um
passado longínquo. Entretanto, tão pura quanto a pele de um bebê, a pele de um velho é um
veículo da verdade; enquanto lá é bucólico esquecimento, aqui é a revelação da última das
proximidades. Um velho é frágil só na medida em que sabemos que ele está próximo da
morte. É claro que isso é um absurdo biológico. Todos nós estamos próximos da morte,
jovens e velhos. Mas na nossa imaginação moderna, em nossa fantasia de imortalidade,
supomos que os velhos é que nasceram pra morrer e os jovens pra viver eternamente. Não
me admiraria, filosofei, se encontrasse muita juventude por baixo de toda esta pelanca
decadente.
Além de sua barba espetada dando um aspecto enormemente pontiagudo ao seu
queixo, ele tinha um perfeito bigodão chinês que lhe caía nas bochechas; um bigode que era,
ademais, tão cumprido quanto horroroso! Em seu rosto se expressava a humildade, eu diria,
e suas mãos corridas nos corpos daquelas femiazinhas, a habilidade de um menino
surrupiador de carteiras. Propus a ele um brinde quando me aproximei e a partir daí, todos
os meus atos e falas foram traduzidos por meu muito prestativo e diligente sem vacilo,
jovem tradutor Qiang.
Ao aceitar o brinde, o vovô quis saber de onde vínhamos, acho que imaginou
sermos comerciantes portugueses, o que não teria sido ruim para os negócios, haja vista que
todos os lusitanos que conheci ali eram oportuna e exaustivamente ricos e sempre eram em
toda parte muito bem tratados. Certamente teria conseguido uns bons ducados a meu amigo
Fernandez, cujo ramo da tecelagem estava em abundante progresso naquela ocasião. Disse
que vínhamos de Ajaccio e que nasci em Bonifácio, que tinha cultura toscana etc, no que

107
ele prontamente demonstrou conhecimento geográfico dando uma sorridente resposta à
pergunta que não fiz: Corsário!

Envolvi-me com aquele clima amistoso e cômico:


– Sim, sou da Córsega, se o senhor quis dizer isso, e meu amigo aqui, Fernandez,
é de Barcelona, isto é, sua família é de Barcelona, mas, à negócios, residimos ora em Nice,
ora em Toulon ora em Marselha, ora em Paris... E nosso jovem Qiang é daqui de Xangai
mesmo! Apontei com os cinco dedos, imitando os chineses que eu conheci.

Como falasse bem o nosso idioma, arriscou ainda em Francês:

“– Je connais tous les endroits que tu m'as dit!” Mas o velho não insistiu, talvez
com medo de acabar seu vocabulário... Ao invés disso, ofereceu-nos um lugar a seu lado
(todos os chineses sentam-se no chão!) e sem milongas discorreu sobre sua estada em
Marselha e Toulon quando era ajudante de um comerciante português, em sua juventude...
– Levávamos para lá todo tipo de produtos desde seda, água ardente, azeite, óleo,
flor de palma, mel, tapetes de Bagdá e trazíamos para o oriente preciosidades que
conseguíamos em Palermo, Trípoli, Beirute, Nicósia e Alexandria.
– Deve ter tido bons tempos, então? Perguntei.
– Claro! – Disse ele.
– Visitei mares e mares e mares. Estou enjoado. Não quero visitar outros mares
que não sejam estes mares amenos... O velho disse isso sorrindo e olhando, lentamente
esfregando a sua mão na vagina de uma das raparigas sentadas ao seu lado. Ficava
evidente que ele estava aposentado de tradicionais aventuras marítimas!!! Não que em
função da senilidade não pudesse, posso dizer isso com segurança. Ele gozava
aparentemente de boa saúde. Exceto por suas rugas, dir-se-ia um senhor de uns 47 ou 50...
Em pensar que este velho já tinha mais idade do que hoje tenho eu quando o sangue
balcânico rolava na guerra da Crimeia!
Julguei sempre bom estar diante de velhos comprometidos a transmitir sua cultura
para jovens como eu. Estava claro, de modo óbvio, que eu não estava disposto a fazer parte
de sua companhia, enquanto um discípulo, pelo menos não necessariamente. Estava apenas

108
interessado que o velho me oferecesse um pouco de seu néctar para que eu julgasse suas
ações não por seus méritos propriamente, mas por sua diversidade de experiências. Um
velho só vale mais que um jovem na medida em que ele compartilha o que viveu – neste
sentido há numericamente muito mais a compartilhar, embora não haja qualitativamente
nada que se possa justificar quaisquer diferenças entre as experiências deles. Em suma, um
velho e um jovem têm tudo em comum – ambos extinguir-se-ão em breve e suas
experiências, no limite, se equivalem.

– Navegateur! Navegateur! Dizia o velho em bom Francês a ondular seu corpo


idoso como se estivesse no mar.
– Muitas mulheres? Perguntei a ele sorrindo apontando o queixo duas vezes em
direção às portuguesinhas.
– Sim! Sim! Muitas mulheres! Navegateur gosta de mulheres. De muitas mulheres.
– O Senhor pode nos contar alguma de suas aventuras? – Com um tom levemente
próprio da ignorância bêbada, isto é, desatenta, o velho me questionou:
– Aventuras?
– Sim, isto mesmo! As mulheres que conquistou por esse mundo à fora!
– Muitas mulheres! Conquistei muitas meninas também. Tirei do ofício.
– Ouvi dizer isto. O senhor é um homem bom!
– Não, não sou nada! Só tirei as crianças do meretrício. Todo punhado de notas
que guardei eu dediquei a essas crianças. Hoje foram adotadas e seguem a vida.
– Eu me referia às mulheres mesmo que o senhor conquistou e com quem se
relacionou...Foram muitas?
– Muitas mulheres, muitas mulheres...Quando eu era criança... – Interrompeu...
– O senhor ia dizendo... Quando era criança...?
– Não sei não, mas tive a sensação de que estava ali de novo!
– Na infância?
– Sim, na infância! Como era boa! Pague-me um trago? – Era visivelmente esse
seu incentivo para que me contasse um pouco do que foi sua infância e assim o fiz...

109
O velho contava suas histórias sem pudores. Dir-se-ia que a uma velhice a tudo se
perdoaria, não acreditasse ele estar, naquele bar, diante de pessoas jovens tão amavelmente
devassas quanto ele. Essa crença ocorreu nele ao ver nossos olhos se encherem de sorrisos
cúmplices e nossos lábios ressecarem-se exigindo a umidade da saliva tal qual um tirano
exige obediência: imediatamente! E depois da terceira dose etílica que ofereci e as altas
doses de carícias entre ele e as raparigas, ele continuou engasgando sua voz alcoolizada de
modo abrupto:

- Comecei a enfiar no cu carretéis de batom francês que pegava escondido de


minha mãe, que era atriz, desde os meus 13 anos! Bom, talvez tenha sido um tanto mais
tarde, mas é certo que eu comecei a ter avidez por sensações anais desde esta idade. No
começo, era só exploração. Tinha nojo de enfiar o dedo, assim enfiava o que tinha à
disposição em casa, tentei usar os pincéis caligráficos da escola, uns gravetos, potinhos de
tempero em formato fálico e só muito depois tive uma iluminação! Claro! Eu poderia
investigar-me melhor com os legumes! Mas nesta idade, já quase na adolescência, minhas
pequeninas sensações tinham-se transmutado em intrigantes sensações que passeavam
pelo meu corpo todo. Não supunha que aquilo era o gozo, simplesmente o fazia, mesmo
sem pensar. Igualmente, anos antes, eu esfregava meu pênis imaturo ao observar
escondido as mulheres casadas, amigas de minha mãe, a tomar banho. Escolhia as que não
tinham filhos e aquelas cujos maridos trabalhavam na lavoura até muito tarde. Elas
deixavam eu entrar, mesmo sabendo ser já tarde...Enfim, chegava na hora do banho que
antecedia a hora do jantar. Como éramos pobres, elas achavam que eu vinha pelo jantar!
HÁ HÁ HÁ HÁ...Pobres leitoas!!! Mas de minha garrucha genital ainda não saia nada!
Depois de inúmeras histórias, ainda sorrindo, o velhinho apontou com o dedo
indicador as moças e aos quartos no andar superior.
- Quer que eu mesmo suba com as duas? Questionei. Ao que eu o excitasse, o
velhinho disse simplesmente:
- Em toda sua vida, faça logo o que deva ser feito, assim você evita de que o óbvio
lhe seja obviamente cobrado.
Peguei pelo braço as duas raparigas que o cercavam e elas disseram uma a outra
algo em português que não entendi. Ainda assim, eu subi imediatamente para o pavimento

110
superior com elas. Depois que eu estava ali por uns alguns minutos, ainda não tínhamos
nos entendido bem. Parece que o português, sendo uma língua muito parecida com o
espanhol, só pode ser compreendida se eles falam bem vagarosamente, o que parecia ser
impossível para aquelas duas. De pronto, elas deslancharam a falar sem parar desde que
estávamos a sós no quarto. Elas sabiam o que eu queria e eu sabia o que eu queria, por que
diabos elas ficavam ali conversando e aparentemente sem querer me fazer entender?
Eu estava já ficando quase entediado e fui tirando as minhas botas, quando um
barulho de alguém subindo as escadas fez me deter. Era o meu tradutor, o jovem Qiang.
- Senhor, temo que o senhor deve devolver as duas jovens!
- Por que? Qual é o problema?
- Elas foram compradas pelo imperador como um presente ao Mestre Lyu yang, por
serviços prestados ao império. Portanto, receio que se o senhor tem valor à vida, peço-lhe
que devolva-as imediatamente.
Quase não tive palavras ao descer para o pavimento inferior, ainda a tempo de
desfazer o mal entendido. O velho Lyu me olhava gargalhando, enquanto as duas
portuguesinhas devidamente devolvidas sem um único arranhão, retornaram para o seus
lugares.
Eu não sei o que me deu. Talvez o calor do vinho misturado com o calor das
histórias do velho Lyu me convenceram que aquelas duas estavam ali para me servir e não
a servir outro homem, quanto mais um velho, embora, é verdade, eu próprio pude
testemunhar, ele em nada falha com relação ao sexo e ainda hoje mantém sadias relações
com as meretrizes de Shangai.
- Fustiguei sua face olhando-lhe com o pavor mais irascivo que o terror me move.
Disse o velho, como se estivesse interpretanto. Ele segurava e lia a um livro escrito em
francês, mas que estava com aquelas capas que impedem de ver o seu título. Sem me pedir
explicações, queria demonstrar sua rapidez em ler em francês. De fato o velho entendia
mais a leitura do que era bom em expressão oral. O francês, ademais, devia ser tão difícil
para eles do que para nós é o chinês, língua que só consegui compreender o mínimo para
não passar fome naquele país, no caso de ocorrer algo com o tradutor oficial.
Em seguida, o velho encontrou o trecho que procurara... De certo era um recadinho
para mim, depois de me sentir extremamente envergonhado de querer possuir algo que era

111
dele... Afinal, maior bem a um homem não há do que as suas mulheres. Se no primeiro
trecho ele quis me demonstrar a sua rapidez em ler em francês, neste tentando
honestamente falar com o menor percepção de sotaque possível, fez-se querer entender de
que suas mulheres não eram sua posse.
- É pois, claro que não vou privar-me de minha liberdade por conveniências
absurdas. Disse ele; e continuou: “ os meus presentes são teus presentes, portanto, pode
dispor dele o quanto for de seu favor ou o quanto elas o permitirem, mas sei que o farão
por mim, pois sabem o quanto aliviei a vida de outras meninas e estas são heroicas como
aquelas. Umas soltas, justificam as que estão aqui presas. Mas elas não são minhas, não
são as minhas posses. Veja esse trecho:
Um mundo em que a validade humana começa por suas posses é um mundo de
fantasmas pois todas as posses tendem ao desaparecimento fatal dentro de algum tempo.
Desde que os mais inteligentes entre os avarentos criaram fórmula para livrar-se do seu
mundo de fantasmagoria, foi-se creditar mais que o necessário na equação pragmática que
exige o máximo de satisfação temporal imediata nas posses adquiridas. Os planos da
avareza são modelos para que se mantenha a maximização do bem estar dos que se
utilizam da inteligência para se dar bem, mesmo que inconscientemente, em detrimento do
que se deu mal, pois todo pragamatismo tende a resolução teórico-prática dos problemas
que se impõe, no entanto , toda solução teórico-prática leva em consideração somente o
seu aspecto lógico e não conforma seu resultado às consequências desastrosas de seus atos
avarentos mantendo uma parcela importante da cicadania usurpada em seus direitos
cidadãos.
Achei aquela história toda exagerada, mas não pude deixar de compreendê-la. O
velho chinês estava a ler algum texto ocidental que demonstrava algum paralelo com a
filosofia de Confúcio ou algo assim, não pude decifrá-lo de início, mas essa predisposição à
se desatar das amarras que o prendiam ao mundo das posses. Mas aquele texto incluia
algumas máximas filosóficas e aforimos, dicas de bem-estar misturadas a profundas
reflexões sobre o comportamento, incluindo percepções positivistas e utópicas da vida:
Com esta avalanche de imprimatur, abundância de modos de impressão e
popularização da escrita, há meios de viver uma vida inteira neste galgar de sabedorias e
de todos os conteúdos alcançados pela humanidade até aqui. Sempre o sonho da

112
apreensão da totalidade do saber povoou as mentes dos filósofos em seu profundo sonho.
Chegado é o momento em nos aventurarmos em soluções cada vez mais coletivas para
problemas mais imediatos e a final conclusão de nosso senhorio em relação às máquinas.
Com isto quero dizer que haverá o dia em que nós seres humanos viveremos somente deste
galgar pelo e para o conhecimento e as máquinas darão o fundamento energético de nossa
existência; plantando, colhendo, cozinhando, nos alimentando para que possamos viver
apenas de colher informações do conteúdo de toda ciência. Neste dia haverá menos
necessidade de profissões como a minha onde o crime, a desordem, a quebra de contrato, a
guerra, não farão sentido...
De repente o velho interrompeu a leitura para elogiar em francês uma das moças
que voltava com mais bebida para oferecer a seu dono.
- Ah, dona das amorosas liras de sabor arcádico. perfume das madrugadas de
lençóis semi-úmidos, desejo-te novamente.
Para dizer a verdade eu não sabia se o velho estava elogiando a moça mesmo ou se
estava dizendo aquilo para o copo do doce vinho português. Mas ao dizer essas palavras
poéticas, o velho retomou num mesmo impulso a contar outras histórias ainda mais
picantes, dessa vez , história do período em que era marinheiro e sobretudo na época de
suas atividades como traficante de ópio - parece que o velho teve um papel importante
principalmente na segunda guerra sino-britânica.
É certo que ele mantinha uma certa rixa senão um ódio disfarçado contra os
britânicos. Ele nascera em Hong Kong e lutou pelo imperador com aguerrida resolução de
ter o território de sua terra natal perdido para os ingleses durante a primeira guerra do ópio.
Mas ele era só um menino quando a primeira guerra começou e ele não pode participar
como guerreiro e nem como espia e nem como traficante. Ora, quatorze anos depois, já
adulto, na segunda guerra sino-britânica pelo tráfico do ópio, ele pode não só executar uma
dessas três maiores profissões aos chineses inteligentes de sua época, como ele pode
experimentar cada uma das três.

113
O Velho Guerreiro

Já em 1856, ele se alistou em prol da etnia Han, da China Imperial, e tinha uma
única coisa em mente. Com amigos na Dinastia Grande Qing, o jovem Lyu queria somente
avançar contra as tropas britânicas e fazê-los bater em retirada de volta ao ocidente. O ópio
tinha desgastado a maior parte da juventude chinesa, o seus amigos adoeciam ou estavam
mortos, e os britânicos estavam tentando impor suas garras nos pescoços da juventude que
ainda restava, ao legalizar o comércio da droga.
- O que eles queriam era o direito de envenenar os nossos jovens e tirar lucros e
vantagens com isso! Irritara-se o velho.
Sua luta era evidentemente vã. A própria dinastia Qing havia se curvado diante do
britânicos em inúmeros momentos. Segundo o que me dissera, mesmo sem a permissão de
seus superiores, ele conseguiu matar cerca de 25 marinheiros britânicos, apenas se
utilizando de suas habilidades como nadador. O jovem Lyu, para não levantar suspeitas, se
aproximava do barco deles vestido como pescador e num abatido barco pesqueiro entre
muitos que rodeavam as costas de Hong Kong, mas um barco tão velho que estava quase
pronto para naufragar por excesso de uso. Então, com a ajuda de algumas amigas
prostitutas e velhos pescadores que enchiam de peixe a embarcação, ele nadava até uma
proximidade relativa dos navios chineses tomados sob comando britânico e, sem subir para
respirar por mais de 9 minutos, como um urso polar atrás de uma foca que toma sol no gelo,
ele subitamente emergia da água e invadia as almadias britânicas assim que percebesse
haver um único e distraído marinheiro ocidental para dominar. Ele o agarrava de modo que
não pudesse nem evitar e nem gritar e se lançava agarrado a ele ao fundo do mar. Como o
velho tinha essa maestria de peixe debaixo d’água. Ele ficava agarrado ao marinheiro inglês
até que este não pudesse mais aguentar. Como a luta era ferrenha em baixo d’água, um dos
truques do velho era alçar uma corda de uns 7 metros no pescoço britânico com um laço
chinês irreversível e fatal. No momento da luta, quando o marinheiro inglês tentasse retirar
a corda, forçando a sua libertação, a outra ponta da corda, nas mãos do jovem Lyu,
aumentava a força do estrangulamento. Além disso, os golpes marciais inventados pelo
próprio Lyu para uso debaixo d’água acabavam com a agonia final em golpes de
misericórdia. Ele, vencedor, ainda debaixo d’água, só respirava quando emergia para a

114
superfície atrás do barco pescador aonde estavam seus amigos para segurar e esconder os
corpos ingleses que boiavam mortos, enquanto se recuperava para o próximo assalto. Eles
chamavam os corpos de hǎibào xī “focas ocidentais”. Eles jamais foram pegos, e
certamente teriam feito outras baixas no exército britânico não fosse o fato da guerra já
estar perdida para os chineses desde o seu início. Eu fiquei imensamente feliz e curioso em
saber sobre esses golpes marciais debaixo d´água, mas o velho me disse que preferia levar
esse conhecimento ao túmulo do que ver um estrangeiro utilizá-lo essas suas técnicas
contra a sua própria população. - A difusão de nossa força será a nossa ruína. Acrescentava
o guerreiro magnifico e assassino Lyu Yang.

O Velho Espião

Antes de estourar o problema com o navio chinês com bandeira britânica Arrow,
dando início à segunda guerra sino-britânica, Lyu trabalhava como espião da dinastia Qing.
Suas principais missões ele havia completado quando os bárbaros britânicos utilizaram uma
inspeção chinesa no navio Arrow como uma desculpa para iniciarem uma nova batalha
contra eles.
Demorou três longos anos, mas uma outra atividade de espionagem lhe garantiu um
título no Império Chinês e a fama de herói depois da guerra. Tendo aprendido um pouco do
francês e do inglês, aproveitando-se ainda de sua fama de traficante inveterado, e de sua
boa relação com uma das concubinas do imperador Xianfeng ele fez amizade com nada
mais nada menos do que o embaixador Frederick Wright-Bruce, enganando-o de modo
espetacular.
Sua missão era atrasar o estabelecimento da embaixada Britânica de Pequim,
enquanto Xianfeng conseguia apoio dos russos para conter os avanços britânicos sobre
Pequim. O plano era simples de ser executado. Enquanto centenas de súditos dos Qing
lotariam o rio que dava acesso ao Forte de Dagu com correntes, estacas, filetes, longas
estacas de ferro tornando o rio inavegável para a invasão britânica, o jovem Lyu,
juntamente com outros espiões, levaria Frederick Wright-Bruce a crer que a invasão seria
tranquila e que o rio estaria navegável e límpido para as tropas britânicas tomarem o seu
primeiro posto em Pequim.

115
Ao chegarem lá, entretanto, os chineses já tinham preparada a emboscada. Quando
os britânicos tentavam retirar toda aquela tralha que os impedia de seguir com a invasão da
cidade base do império de Xianfeng, os chineses avançaram de surpresa culminando na
morte de inúmeros soldados britânicos e a eventual vitória chinesa. Por que não dizer,
vitória do grande “general”, o jovem espião Lyu, esquecido da história? De qualquer forma,
aquela quarta e última missão, embora bem sucedida, o forçava a se retirar de suas tarefas
de espia. Daquele momento em diante, ele teve de se isolar porque ficou na mira das
autoridades britânicas e certamente teria sido enforcado como traidor se não tivesse fugido
para o interior e ficado lá por alguns anos, antes de voltar para as suas atividade como
traficante de drogas no litoral. Quando Lyu retornou a Pequim, o imperador era um menino
de seis anos de idade chamado Zaichung e o imperador Xianfeng, seu pai, de trinta anos,
grande fumador de ópio e comedor de mulheres já estava morto por causa de seus excessos.

116
O Velho traficante

Entre uma e outra guerra, como o jovem Lyu começou ganhando a vida como
pescador e depois como marinheiro, viu uma grande chance bater em sua porta quando foi
convidado a escoltar um grande carregamento de ópio vindo de bases indianas e altamente
incentivado pela Companhia Britânica das Índias Orientais, por quem o jovem Lyu se
tornou um admirador distante, mas o suficientemente esperto para trabalhar com eles, sob
nome falso e disfarce.
Os principais carregamentos que vinham de Hanoi, passavam por Haikou, deixavam
grande soma em Macau e Hong Kong, uma outra enorme quantidade de drogas para
Taiwan até chegar a Shangai ao norte. Ao chegar ali, com já mais da metade da carga
entregue de lá ele seguia para Pequim para despachar o restante que sobrava. A rota era
arriscada, porque cheia de patrulhas tanto britânicas quanto chinesas. O objetivo era único:
uma concorrência interna na Companhia Britânica das Índias Orientais havia convocado o
jovem Lyu a traficar na clandestinidade para essa dissidência e assim obter ganhos
extraordinários.
Valendo-se de sua grande habilidade como navegador, o Jovem Lyu ganhou renome
e uma bela soma de dinheiro nessas viagens aventureiras pelo sul da China. A sua grande
sorte era que, quando era parado, desde Hanoi até Shangai o patrulhamento podia ser
comprado com propinas seguramente bem mais condizentes do que as pagas de Shangai até
Pequim. Era como se a jurisdição dele compreendesse o sul da China e quando fosse
chegando mais ao norte houvesse outros “donos do mares”, o que dificultava bem as coisas.
Por isso a maior parte do carregamento ficava no sul, que tinha uma demanda menor do que
o norte, mas não era nada para que ele pudesse reclamar.
Nada lhe garantia melhor tranquilidade do que a solidão do mar do sul da China. A
respeito dela ele nos presenteou com uma saudável reflexão a qual fiz questão de palava
por palavra, replicar em meu diário mantido durante a minha estadia na China:

- Verdadeiros, sós. Verdadeiros sobretudo quando sós. Sós, verdadeiros,


sobretudo. A vida social força o verdadeiro a ser um mentiroso. Nada como o
mar do sul da China, nada como o deserto! A vida em sociedade impõe ao

117
verdadeiro mentiras das quais ele sentiu repugnância quando sozinho. A
solidão política é a forma revolucionária dos nossos dias. Estamos a sós
quando justificamos a nossa existência somente em nós mesmos, mas
comungamos com toda humanidade em nossa solidão quando esta solidão nos
permite avaliar a distância secular entre o eu e os outros.

De fato o velho era um filósofo oriental, obscuro e fantástico. Nascido no meio do


nada, de pescador a filósofo, de guerreiro a comedor de prostitutas, ele não economizava
momentos para nos impressionar. Seria mesmo verdade a história que nos contou sobre as
suas Concupiscência em relação às mulheres drogadas de ópio no palácio imperial? Seria
verdade que ele trazia experiências inebriantes para as concubinas imperiais em troca de
participação na orgias magníficas do imperador Xianfen? Ah, como eu amaria permanecer
mais duzentos dias na China para ouvir uma a uma de suas histórias de sexo entre orientais!
Seja como for, vale a pena contar pelo menos uma das histórias contadas pelo velho
naquela pocilga chinesa, reforçando que sua vida fora boa de ser vivida.
Certa vez, seu barco estava tão lotado, tão lotado de carregamento puríssimo
provindo de Hanoi, que ele encarou aquela como a sua última viagem pelo ópio. Ele
ganharia dinheiro o suficiente para sair do tráfico e entrar definitivamente no comércio
legal de armas. Ainda assim, ao sair de Macau para atingir a sua clientela em Hong Kong,
quando estava entre as ilhas Shek Kwu Chau e Cheung Chau, um furo na proa produzida
não se sabe por que, atrasou a sua viagem em alguns dias e os forçaram a atracar em
Cheung Chau. A rota correta para seguir viagem até Tawan seria passar pelo lado leste da
Ilha, menos sujeitos à frotas governamentais... Mas agora que tinha caído contra a vontade
em Cheung chau, ele não podia mais dar a larga passada oriental antes de seguir rumo norte
numa rota menos lotada de fiscais britânicos e a elite de marinheiros chineses ávidos para
por as mãos num contrabando.
Antes de pensar sobre como poderia seguir viagem com seu carregamento sem que
desconfiassem, Lyu decidiu passar alguns dias a mais em Cheung Chau, para não levantar
suspeitas. Mas como a notícia do furo na proa daquele navio desconhecido se alastrara, era
bem provável que algum oficial quisesse fazer vistoria no carregamento do navio que, para
todos os efeitos, estava cheio de peixes sendo conduzidos para Taiwan. Outra desculpa ele

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não poderia dar, ja que não havia carregamento possível do sul da China para além norte de
Taiwan que já possuíam seus suprimentos de peixe bem estabelecidos e aquele tipo de
embarcação não teria afinal, permissão para navegar a leste de Taiwan, furando o recente
bloqueio econômico e domínio total da riqueza provinda do ópio, tão bem impostos pela
rede comercial britânica.
Assim que aportou em Cheung Chau, ele fez sua carga milionária partir em
diferentes navios de pesca, contratados especialmente para isso, cada um foi direcionado a
uma ilha distinta. Se fossem pegos, um ou outro se perderia, mas jamais toda a carga... Esse
era o plano do traficante Lyu. Até o segundo dia nada de más notícias haviam chegado até a
sua estada em Cheung Chau... Aguardando passar o tempo de conserto do seu barco de
“pesca” e esperando a diminuição das investidas dos fiscais possivelmente alertados, o
jovem Lyu passou a relaxar e a se entreter com as mulheres de Cheung Chau.
A primeira delas não era prostituta. Era uma viúva por quem Lyu se interessara ao
vê-la na porta de um comércio a devagar. Mas a viúva não se interessou por Lyu ou bem
quis deixar claro para o velho que ela poderia por glória passar otimamente bem sem
qualquer presença masculina:

- Quando gozo eu fico surda, não vejo nada ao redor, só penso no prazer que
estou sentindo, envolvida num mundo só meu, neste mundo só há dois habitantes,
eu e meu prazer – é um mundo formidável onde a masturbação substitui
absolutamente bem qualquer presença masculina!

A segunda delas não era outra coisa senão uma professora de literatura para jovens
com quem conversara:

- Toda beleza é fenomenal, única, isto é, tirânica. É preciso tirar a beleza de tudo.
Deve-se amar corpos belos, mas deve-se exigir beleza de tudo, até mesmo e
principalmente da feiúra. Um corpo feio que se embeleza de forma imitativa soa
falso – cuidado de se encapar um livro cujas páginas estão faltando!

119
O velho, que a essa altura era bem novo, e que, talvez, jamais tenha deixado de ser
pré-adolescente já estava fatigado com todas aquelas palavras vazias vinda de mulheres tão
desiteressantes quanto malucas. Mas tudo piorou! Achou que poderia ter a honra de levar à
alcova uma mulher mais velha que parecia alguém da aristocracia ao ver a jovial
quarentona lhe sorrir um pouquinho.... Mas ela tinha uma lábia ferrenha e nada sensual:

- Eu odeio a perda de tempo que nos força a conversar sobre superficialidades,


odeio as necessidades sociais que nos induzem a ter paciência uns com os
outros, odeio que meus passos se grudem a interesses que não são meus.
Excetuando o olhar e os sorrisos das crianças eu não gosto de nada. Nada é
certo, nada é puro, tudo é fatigante!

Nas primeiras duas noites o velho percebera que nada ali o levaria a abastecer-se do
bom e velho esfrega-esfrega nas pretas vaginas filosofais de Cheung Chau. Não haveria
terceira noite, pensara ele, pois, do contrário, ele perderia a sua “carga” pesqueira (na
verdade, sua “carga” não passava de uma pequena camada de peixe por cima e uma enorme
montanha de ópio por baixo, claro! Mas os oficiais desconfiariam se ele ficasse mais um
dia com toda aquela carga a ponto de apodrecer. Ele sabia, portanto, que tinha de partir na
manhã seguinte. Naquela tarde de sol sem nuvens que precedera a sua viagem ele fora
visitado por uma garota coreana que lhe fizera um “belo” convite - pena que era algo que
tinha muito pouco a ver com sexo. Considerando que ele era um exímio mercador, a
proposta dela não precisou de muito do elaborado jogo que os comerciantes mantém entre
si como que para justificar a sua ligação de exclusividade em relação a seus próprios
interesses profissionais. Dito de outra maneira, um comerciante sabe identificar o outro. E
quando o fazem, o fazem esperando esse reconhecimento que se reduz na fórmula: “tenho
algo que você quer e você tem algo que eu quero; façamos, portanto, um acordo!”
- Observei-o de perto e tive informações de que estão para partir amanhã pela
manhã. Eu quero que você leve cinco garotas coreanas para Hong Kong contigo, fazendo-
as passar por tripulantes suas. Um oficial do posto da alfândega já estará encarregado de
recolher as cargas e dar bom cabo a elas.

120
- Mas essa travessia pode ser mortal! Nenhum chinês tem o direito de conduzir
coreanos pelos mares. Eu não tenho autorização, tampouco. Mas se me assegurardes
algum material que valha a pena, eu poderia aceitar. Disse o jovem Lyu.
O que foi dito entender por “material” era-lhe evidente que a coreana lhe ofertaria
mesmo algumas daquelas mulheres, para benefício próprio... Lyu sabia que aquela era a
rota do tráfico de mulheres e algo deve ter dado errado com o seu transporte anterior que a
fizeram ter de confiar num jovem comerciante de “peixes”. Porém, como aquilo era um
tráfico de pessoas e o jovem Lyu não estava preparado para isso, ele hesitou. Também, logo
agora que seria a sua última missão com o ópio, tudo aquilo lhe apareceu uma atividade
dessas que poderia ser lhe realmente fatal, bem na hora mais inapropriada, se caso ele fosse
pego. Foi aí que ele tentou fazer a mulher coreana dobrar em bens pela proposta por
transporte tão especial desse tipo. Mas a mulher coreana era intransigente e por isso ela foi
muito mais incisiva e convincente da segunda vez que o propôs... Ela não deixaria o jovem
Lyu enganá-la facilmente:
- Acredito que se levar essas mulheres consigo seria algo muito mais vantajoso do
que ter de perder sua carga inteira, incluindo as que foram distribuídas pelos meus barcos,
nas ilhas Hei Ling Chau, Peng Chau e sobretudo aquela mais carregada que mandou
aportar em Cheung Sha Wan, devido a seu contato por lá...
Vejam que horror, meus caros pacientes! A desgraça estava feita! A mulher coreana
não só lidava com o negócio da prostituição, mas era ligada a negócios de aluguel de barcos
de pesca e sabia de toda a trama por detrás das distribuições do ópio em barcos distintos,
para que não fossem todos pegos em caso de inspeção. Essa pequena desgraça não impediu,
entretanto, que o jovem Lyu ainda assim insistisse. De um lado, era horrível que a mulher
soubesse, provavelmente, que a carga dele era de ópio. Mas, e se ela decidisse roubá-lo? O
que Lyu Yang faria? Ele não teria a quem recorrer! Por outro lado, se ele fizesse o que a
mulher coreana lhe havia pedido, ele poderia sair dessa contente da despedida de todo
tráfico humano e material e com grande sabedoria ainda vingar-se da chantagem evidente
daquela coreana que forçava-o praticamente a traficar mulheres da Coreia para Hong Kong.
- Eu aceito o seu convite, mulher! Mas tenho ainda uma condição. Eu não quero
cinco mulheres só, eu quero quinze! Mande-as para mim que eu farei as entregar aonde
você quiser.

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- Está feito! Disse isso sem pestanejar a traficante coreana. E prosseguiu: - Eu trarei
a você as suas quinze mulheres logo pela manhã e lhe pagarei a soma de dois mil lí
[moedas de prata chinesa]. E, se você chegar a salvo com as meninas em Hong Kong e
entregá-las ao oficial correto, você receberá imediatamente outros dois mil lí. O que acha?
Era óbvio que o jovem Lyu aceitara o convite da alcoviteira. O que a coreana não
esperava era que o jovem Lyu, com sua alma pré-adolescente, estivesse tramando para o
destino daquelas mulheres algo de tão espetacular quanto miraculoso. Assim, na hora
correta, ele se prontificou em leva-las sãs e salvas as para dentro de dois barcos bem
encobertas e distribuídas. Contudo, das quinze “mulheres”, disse-me o velho, “apenas
quatro eram mulheres de verdade..., todas as outras não passavam de meninas com idade
que variava entre oito e quatorze anos”. Quando viu tantas crianças, sua ideia inicial de se
dar bem dentro de algumas mulheres acabou sendo trocada por uma outra, pois, ao ver tanta
criança sendo traficada ao mesmo tempo ele corara de suas intenções iniciais. Era comum
que uma ou outra acabasse nessa rede. Como ele também já havia sido um pescador, ele
havia aprendido a ter menos pena do peixe do que do vazio de sua barriga. Mas, daquela
vez, ele se sentiu imbuído de uma força maior que o impulsionou fortemente a fazer o que
considerara correto. Essa força maior era exatamente a de sua própria consciência e alma de
heroi.
Fingindo fazer como havia definido aquela traficante de meninas coreanas, ele até
colocou algumas dela em próprio seu barco, agora consertado, e rumou com elas para Hong
Kong. No caminho, entretanto, fez com que os seus homens, divididos nas ilhas há 2, 3
horas de viagem dali, os encontrasse todos em Cheung Sha Wan, tal como ele havia pedido
para os mensageiros avisarem a todos na noite anterior. Tendo o seu barco cheio e muito
próximo da costa, demorou uma hora a mais para chegar em Cheung Sha Wan, mas estando
ali, tudo estaria acertado, as meninas reunidas e nenhuma patrulha costeira o faria perder o
seu tempo ou sua “carga”, já que naquele porto ele não seria importunado. Ao chegarem lá,
um a um dos barcos, esses tiveram a sua mercadoria escoada de volta ao barco do Jovem
Lyu, e por fim, ele fez amarrarem enormes cordas uns aos outros barcos, pedindo para que
um coreano que os acompanhava que rebocasse de volta os barcos para a sua dona em
Cheung Chau, mas, vagarosamente, pedira. O plano havia dado certo. Ao receber os barcos
de volta, a sua dona já devia prever que ele não tinha levado as mulheres para Hong Kong

122
como havia prometido, já que ele deveria dividi-las nos barcos para que elas não
chamassem a atenção das autoridades. Mas seu plano era mirabolante demais para dar
simplesmente errado.
Com o dinheiro dado pela coreana pelos seus préstimos, ele dividiu entre as garotas,
que, por segurança, se distribuíram quatro para cada barco, mais ou menos, e em seguida
partindo de Cheung Sha Wan para Macau, em vez de Hong Kong de lá elas partiriam, com
a ajuda de amigos portugueses do jovem Lyu, diretamente para a Coreia sãs e salvas, em
navio português (que por lei não pode ser inspecionado). Era de Macau, diretamente para a
liberdade! Como muitas vieram do norte daquele país, e o jovem Lyu conseguira carona
para que elas chegassem pelo menos até a ilha coreana de Jeju, no sul daquele país. Ele
dividira com elas as moedas recebidas daquela traficante coreana para que cada uma
comprasse sua viagem de retorno aos seus lares.
As meninas ficaram tão emocionadas quando entenderam o que estava ocorrendo
com a ajuda de tripulantes que sabiam o coreano, já que o jovem Lyu ainda não o havia
aprendido nessa época, que quiseram agradecer pessoalmente ao jovem Lyu cantando uma
bela canção. Todas elas vestiam amarelo e se perfilavam feito quinze lindas flores coreanas
da mais pequena à mais alta, todas envolvidas na divinal pureza asiática. Nas quatro
mulheres e na meninas mais velhas, podia-se ver seus olhos úmidos enquanto cantavam em
uníssono uma triste melodia que, somente ao se lembrar, lançou imediatamente às lágrimas
ao velho Lyu... Arirang, arirang, arariyo...
Senhoras e senhores, eu não entendi nada do que aquela melodia chorosa dizia, mas
as lágrimas do velho Lyu ao cantá-la me eram tão límpidas de uma verdade monstruosa que
ao pensar na salvação que encontraram aquelas meninas nas mãos de um então jovem
chinês que, em vez de se aproveitar do momento e comprar quinze belas garotas por nada
mais nada menos do que ganhar em vez de pagar dois mil seja lá de que dinheiro for, isso
tudo me encheu de imensa gratidão pela existência do velho Lyu e de eu poder ter
acompanhado essa sua história. Um dia eu o retribuiria por aquele presente, eu pensei. De
súbito, eu comecei a chorar um choro longo e barulhento dos justos e eu estava ali, no
oriente, a milhares e milhares de léguas longe do lar e me senti em casa... Viva a China,
exclamei aos prantos! O velho Lyu era ali, a China e a libertação do sofrimento do povo

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coreano, ele era alguém digno de nota, era alguém a quem se devia com toda tranquilidade
se confiar o seu tesouro.
Meus caros pacientes, evitei aqui como podem ver, de reproduzir toda a história do
velho Lyu a encontros amorosos que ele certamente os teve em sua última missão. Que
pena, portanto, eu não poder recuperar com toda a riqueza de minúcias a narrativa deste
velhinho safado, que a cada história séria, alternava duas molhadas pelo suor de corpos
molhados da China, esse país banhado de devassidão por todos os lados. Mas no que me foi
possível perceber constatei que ele havia se divertido muito mesmo! O velho já aproveitara
a sua estância correta na vida e agora aproveitava outra. Às vezes, olhando para essas
figuras de olhar vago e andar vagaroso, nos esquecemos que aquele montinho de rugas já
desfilou sorridentemente a sua juventude por aí! Precisamos por isso mesmo nos lembrar
que este velho decrépito já fora pré-adolescente! Desde então, toda vez que me deparo com
um destes, toda vez que me deparo com um cabeça branca, mesmo que esteja quase morto
de tão imóvel, eu me pergunto: Quantas trepadas ou ações dignas de notas este aí já não
desferira em sua efêmera juventude?

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Esta primeira parte termina aqui, meus caros e pacientes leitores. Um aviso de recomendação para
evitarem a leitura da 2a. e última parte que se segue ser-lhes-ia inútil em vossas iluminadas
paciências?

PARTE II

Não podeis impedir que a verdade chegue aos vossos ouvidos


pelas vias secretas de um livro silencioso.
Tertuliano (Cap. I- Apologia)

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As Fabulosas Meretrizes de Shangai

Ah! Pérfidas delícias!! Ah! Shangai legendária!!! Ah, Shangai majestosa! Passei lá
ótimos momentos de saborosa atenção às exigências de minhas extremidades... Graças ao
carinho que tenho pelas suas meretrizes, aqueles seres todos que se reconhecem pelo
escorrer mais prolongado dos cabelos cheios de perfume, a minha estadia em Shangai não
fora de modo algum entediante. Contar-lhes-ei agora exatamente que, tendo sido
convocado por meu amigo rico Sr. Fernandez Rui Perez para ser o seu conselheiro legal, eu
passei meus melhores dias de sexo pago naquelas pocilgas muito bem aprumadas e as de
maior benefício de toda a China, na primeira vez que estive ali.
Só meu Deus sabe quão boa é uma mulher chinesa! Cheirosa, amável, delicada,
meiga, submissa, toda feita só para mim!. Uma mulher tem o cheiro da floresta encantada
quando chega a primavera: flores e arrebatamentos. Shangai tem a fragrância arrebatadora
de uma mulher em seus encantos de viver na defensiva. Algum dia Shangai irá mostrar com
ódio todos os seus dentes e quando isso acontecer, eu já terei me envolvido a ponto de dizer
sim à toda a sua volúpia violenta. Seduz-me a cidade com seus cheiros, com seus toques,
com seus silêncios passivos femininos, com gemidos tão agudo de um ai...ai...aaa....que
suspira por todo corpo e sibila até o coração quase a ponto de fazê-lo parar.
Conheci meretrizes de Shangai que valem a pena tratar em um breve comentário.
Antes de qualquer coisa, consola-me a necessidade que tenho de um dia retornar para lá. Eu
quero fazer isso principalmente agora ao observar essas belas pinturas chinesas que
mostram atraentes orientais com seus longos vestidos tradicionais que escondem um corpo
mil vezes mil, vezes o delicioso. Sou forçado a me masturbar com frequência apenas na
simples visão casual dessas belas paisagens na parede do meu escritório... Que falta me
fazem aquelas prostitutas da china! Não há, ó Deus, não há, cuzinhos tão saborosinhos
como aqueles de Shangai!
Desilusão jamais se passa, esplendor sem igual sempre se oferece! Por todo
mediterrâneo, ouvira-se falar muito das cheirosas meretrizes chinesas de Shangai. Mas
antes de conhecê-las eu não tinha a menor ideia de como elas poderiam me fazer sentir
antes vivo do que quase morto. Pequim e Tóquio ficariam a desejar a pensar nas casas de
chá verde em que se queimam primeiro as nossas línguas depois o pontilho preto final pelo

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qual terminam as costas delas. Estranhamente, apesar das peles de porcelanas brancas,
muitas delas tem o cu preto. Fato curioso este! Foi porque nesse quesito elas se parecessem
em muito com as mulheres da Córsega, Grécia, Itália e Istambul, que aquele pretume em
comum que geograficamente circula o delicioso buraco anal, como que um convite para
entrar e sair no túnel escuro da vida, esse mesmo que me impeliu a querer adentrar nessa
prática de maneira muito mais vigorosa e experimental.
De imediato, aquelas mulheres de Shangai produziram um efeito enaltecedor em
meu coração. Sem deixar de lhes oportunamente dizer que quase realmente morro em cima
de uma delas, digo-lhes que, em verdade, de fato, isto quase ocorreu. Certa ocasião odiosa e
bela, baixou-me a batida do coração de modo desesperador na hora do esfrega-esfrega em
sua boceta.5 Certamente morrerei ainda deste suspirar! Meu coração palpitante, cansando-
se do pulsar sobremaneira, entregar-se-á à total ausência de movimento quando se sentir
por fim estafado de tanto se agitar. Foi somente depois que tive a orientação de um médico
chinês que percebi que o chá verde em excesso tem o mesmo efeito colateral do café e eu
tenho de admitir que não sou páreo para o café, algo que derruba continuamente as minhas
noites de sono. A mulher que quase me matou era uma prostituta viúva e jovem que não
conseguira outro marido e estava em vias de vender a própria filha mais velha de 12 anos -
um horror incrédulo, não fosse eu também um bom comerciante! Pasmem, os chineses
vendem as crianças meninas ou as matam assim que elas nascem! Idiotamente imaginam
que uma sociedade possa viver sem as mulheres que, ademais, são tratadas ali sempre
como lixo. Mas ela própria, essa jovem viúva desmiolada não tinha mais que 26 anos,
quando, ao se ver “órfã” de marido, porque o velho também a comprara quinze anos antes,
ela se obrigou a vir procurar sustento nessas casas de “sexo verde”, feitos ao sabor do chá
oriental. Estonteado, copulando ferozmente com aquela égua como se estivesse numa
corrida de cavalos, um tanto quanto quente e com suores e sem fôlego, momentaneamente
eu cedi... Mas não me dei por vencido... Como se eu continuasse ainda a arfar por sobre ela,
imaginou-me perdido de amor numa espécie de falta de ar amorosa e deslumbrante como o
amor juvenil. A verdade era que eu continuava galopando freneticamente a minha cintura
em sua direção e estava mesmo perdido e sentindo realmente muita falta de ar naquele
momento! Deitei-me repentinamente de lado e pressenti que a morte não passa de uma
5
Referência ao órgão genital feminino. Em provençal no original. Termo neo-latino que significa bolcinha,
caixa pequena. N. do T.

128
escuridão dos olhos e ausência total de sentimentos de dor e de prazer. Logo que recuperei
de minha descompostura, daquela diaba da morte que flertara comigo naquela noite, mas,
voltando à vida, ainda mais insistentemente eu voltei a pedir o que eu desejava: foder com
ela muito forte repetindo o prazer ainda mais uma vez. Ah, caros pacientes que louco por
experiências de post-mortem sou eu!
O abismo entre as culturas, a minha falta de educação em não distinguir o mandarim
dos estalidos que saem das panelas de comidas sendo fritas, fez de mim um homem
solitário a escavar a delícia do encanto no gozo, linguagem universal - a única coisa que
podia fazer ali, sem saber uma única palavra daquela língua infeliz. Deleite! Encanto! Gozo!
Eu quis viver tudo isso e o consegui em Shangai, aprendendo depois também algumas
palavras do chinês que não necessitam aqui serem repetidas. Entretanto, às vias de obter
essas necessidades, talvez seja muito importante narrar pelo menos da linguagem universal
da volúpia. Os corpos humanos quando se encontram, desafiam a cultura, pesos e tamanhos,
formas e cores. As tradições são nada comparadas aos instintos! Quantos milênios para
fazer uma cultura, sendo que nossos corpos já estão todos aqui, prontos, acabados para o
regalo, desde sempre. Tendo vindo do mesmíssimo lugar, o velho continente, todos os seres
humanos convergem para si mesmos feitos centros de gravidade inalteráveis pelo tempo.
Voltar para China é voltar para o útero, voltar para a china e almejar o que há de ancestral.
Ao cabo, por mais distinta que sejam todas as culturas humanas entre si, elas se remetem
todas à sua mãe, a volúpia, esta que lhes é sem sombra de dúvida, a sua essência.
A primeira vez que estive em um bordel de Shangai, reservei uma porção de
expectativas em torno do que haviam me adiantado sobre suas espetaculares decorações,
sobre o tratamento imperial ali oferecido aos visitantes, sobre suas milenares técnicas
sexuais, aquelas depravações frenéticas do oriente só comparáveis às táticas de guerra que
seus generais criaram há milênios. Uma espada bem feita atravessa um corpo para matá-lo
ou para lhe dar prazer... dizia um sábio Chinês.
A busca pela morte de um inimigo à espada é muito mais perspicaz e traz muitos
mais frutos materiais ao império do que atravessar com a nossa espada a uma mulher amiga.
Mas a busca de vida representada pela união com o sexo oposto é a mais importante
conquista: o território feminino. Nesse sentido, estando na China, eu me cobri de
esperanças e expectativas de verem supridas as minhas necessidades europeias insaciáveis

129
nesse quesito. E tenho dito: meus caros pacientes leitores, todas as minhas expectativas
foram satisfeitas! E muito bem satisfeitas, diga-se!
O jovem Qiang que já havia se estabelecido conosco como guia turístico e tradutor,
fez-nos muito bem ao mostrar-nos o que a China tem de melhor. Sem nos conhecer direito,
contudo, por quase uma semana infernal inteira, elegeu visitas a casas de chá para locais e à
farmácias tão grandes quanto as adegas portuguesas. Aproveitando-me daquilo, eu quis
quase todos os unguentos e remédios para dor e maladies que por desventura eu viesse a ter
no futuro. Mas o que mais queria mesmo era aquela ervilha marrom que eles chamavam
com nome difícil e magnífico: “dong chon xia cao”, se eu estiver correto.
Não demoraria para que o jovem Qiang, percebesse que os chás são quentes, mas
não mais abrasador do que o útero de uma mulher, os remédios exóticos são curativos e
restauradores, mas não tão terapêuticos quanto um cu de uma mulher oriental. Para aonde,
então, ele nos levaria a seguir? Casa de ópio ou casa de chá? Que diferença posso eu
distinguir enquanto forasteiro entre aquelas casas para locais e as casas para estrangeiros?
As meninas eram viciadas para se prostituírem - se o chá as ajudava a distrair sua clientela
para outras “infusões”, por que haveriam eles de não conciliar a cooperação entre os dois
setores mais forte de sua economia?
Se o governo não apoiasse que o chá e o ópio fosse convergido com a ajuda do
maior de todos os commodities, a mulher, num dos maiores negócios de todos, eles teriam
de encontrar melhor caminho para se livrarem das imposições britânicas quanto a seus
produtos. Mas não havia necessidade real disto, porque nunca faltou voluntárias para tal,
seja por extrema pobreza, seja por extrema safadeza mesmo. Por isso, só deixei de resistir a
este martírio por duas ou três vezes. Amo auxiliar o intento do império Chinês em mostrar
os seu talento para o mundo! Mas meus caros pacientes, bebo chá e bebo o maiores dos
líquidos, aqueles tão quentes quanto verdes, saídos em jatos direto do belo orifício.
Além do mais, os motivos de resistência são sobre-humanos diante da suavidade de
pele daquelas que eram cortesãs “sem querer”, comparadas às das prostitutas “por acaso”.
Tirei destas mulheres inocentes um prazer incomum, o qual não quis mais me satisfazer
pela eternidade, apenas por pudor – eis que eu tenho alma, os senhores sabiam?
A chinesinha que mais me emocionou foi a bela Qyu Lang. Seus grossos cabelos
pretos que lhe saiam de um branco coro cabeludo às amostras, camuflado apenas por uns

130
pinos negros florestais, eram como que agulhas negras em uma almofada branca, afagavam
meu nariz para me trazer de volta à vida. Sua pele, tão macia quanto algodão, era cheia de
um penugem preta branda que me distraiu muito ao roçar o rosto dela, particularmente a
barbinha rala de sua bochecha contra a minha. Ah Qyu Lang, bela meretriz de ouro! Como
eu me encantaria em trazê-la para o mar mediterrâneo e mergulhar para sempre o meu
“mediterrâneo” para dentro dela! Deixaria de navegar outros mares se aquelas penugens
pretas sob o fundo branco fossem o meu mar, para sempre...Trazê-la para cá e comigo e ter
mil adoráveis noites estreladas do mais deleitoso e intenso dos prazeres... Era isso o que eu
mais queria nessa vida!
Mas ela não foi, absolutamente, a primeira menina que me chamou a atenção. Ela
apenas roubou toda a minha solicitude antes que eu tivesse chance de continuar a
experimentar todas as outras chinesas da casa. Havia aquelas com cabeças redondas,
típicas...mas algumas eram coreanas, algumas eram da manchúria, outras até cabelos
naturais castanhos e loiros... Ching Hai era uma destas! Exótico e delicioso pacto entre
olhos puxados contra cabelos vividamente loiros... Que espécie de céu maravilhoso era
aquele? Eu me divertia da imensa variedade humana numa mesma China que era
incompreensível para mim. Achei que Hai fosse mestiça com europeus, mas logo meu
tradutor Qiang me advertiu que não. - Muitas chinesas do norte possuem cabelos loiros e
algumas têm até olhos claros - disse-me ele. À noroeste de Shangai, há uma cidade
campesina cujas meninas são com alguma frequência raptadas por causa de seus mágicos
cabelos loiros e olhos verdes e até mesmo azuis, como me disseram, algo que, não sei por
qual razão, faz muito sucesso nos puteiros de Shangai. Alguns chineses comerciantes
muçulmanos abastados pagam somas inacreditáveis para ter algumas dessas meninas como
escravas sexuais. Essa é outra coisa a se destacar de Shangai...Pobres camponesas chinesas
e coreanas, se a escravidão tão combatida durante todo este século, com sucesso em todo
mundo, em dois lugares, tanto na África quanto na China, somente daqui há mil anos essa
prática acabará! Não duvidaria se a china quiser pactuar com a África, retirar as colônias da
Europa para dominar o mundo tal como aqui estamos tentamos fazer, sem muito sucesso.
Ching Hai tinha olhos castanhos como uma grande parte das chinesas...De pronto
me deparei com a minha falta de memória, não reparei na cor dos olhos de todos os
chineses, mas me parece que o castanho é o tom principal por ali. E eu não sou,

131
absolutamente, o único interessado em Ching Hai. Por todos os lados havia nativos,
estranhos, jovens e havia velhos perseguindo-a com os olhos que cobriam inteiramente o
corpo dela. Se os olhos dos homens fossem faróis costeiros, os corpos das mulheres se
encheriam de luzes por todos os lados. Prostitutas, santas, experimentadas ou virgens, as
mulheres estariam cheias de luz, pois nós as amamos primeiro com os olhos, depois com a
boca e enfim, mãos, dedos, e ainda outras inúmeras partes do nosso corpo antes de chegar
ao que mais interessa: a torre do farol!
Embora houvesse ali também alguns poucos estrangeiros como eu, como os
marinheiros coreanos, eles sabem que Hai não é da altura deles em termos de sua condição
social, para eles, portanto, é como se ela não existisse. Que odiosa deve ser a percepção da
pobreza quando esta obriga ao falido a entender que, o que o limita a ter acesso a tudo do
quanto há de rico, caloroso e digno de viver é apenas uma mera condição material, algo tão
mecânico quanto casual, muitas vezes...
Mas embora eu tivesse condições materiais para atravessar o canal Ching Hai com a
minha balsa sedenta, não sei por que indignidade sentida, Ching Hai, justamente a mais
adorada das meretrizes de Shangai, me desdenhou como se despreza a existência de
fantasmas ao meio dia... Se algum fantasma passar ao seu lado a esse horário, você jamais
se dará conta! Mais do que isto, um fantasma quando devidamente desprezado, se ele
aparecer diante de seus olhos será num tempo passado irrecuperável do qual você sequer
fará quaisquer esforços para se lembrar. Então, era assim... Eu estava ali, Ching Hai
também estava... mas eu me encerrava quase que num espectro, numa visagem e ela se
distraia seja com bebidas que os homens direcionavam a ela, seja com a resistência a flertes
os quais ela recebia a todo momento. Ao fazer isso, ela não estava flertando comigo, como
fazem algumas mulheres, ao me ignorar ela apenas me tratava como mais um cliente...
Seria a minha tez morena? Eu sei que certamente os chineses com frequência demonstram
ter ojeriza à pele que não seja a mais branca e límpida possível... De fato, ela deveria
preferir se entregar a um pobre coreano branco ou a um inglês inimigo do que a um
mediterrâneo tão amoroso e comprometido como eu. E então, eu, pobremente ali, não fui
capaz sequer de me aproximar da bela Ching Hai... Aquela doce e saborosa meretriz
chinesa dourada de cheiro tão saboroso quanto o odor do óleo de gergelim torrado.

132
Mas tudo em Shangai recende mesmo a chá e à legumes, verduras e frituras de
porco e de frango. Até o cheiro das flatulências das meretrizes são deste último repelente
perfume citado... Percebi-o comovido com a ajuda do meu desentupidor anal. Aqueles que
possuem algum pudor de dividir com outros os líquidos e secreções corporais, que não
venham para a China! Aqui, eles cospem no seu pé, o tocam com as mãos que acabaram de
limpar o nariz, sempre cagam de cócoras e no lugar do sabugo, como nós na Europa
mediterrânea, usam papel para limpar a bunda defecada, um método certamente tão
nojento que, uma vez que eles não lavam as mãos, senão no rosto, nos braços e em outras
partes do seu corpo quando lhe tocam com curiosidade, é como se precisassem, para nossa
infelicidade, asquerosamente benzer-nos com suas secreções...
Eu escrevi isso em meu diário enquanto estava de visita à China. E, à essa altura,
esse meu diário já começava a se avolumar tão rapidamente quanto o meu pênis sorri a bela
tumescência quando ele está quase que inteiramente dentro da boca de uma mulher asiática.
Mas como as experiências novas se sobrepusessem umas às outras, eu, justamente ali, na
China, tive de conseguir outro volume para as minhas anotações de viagem. Não os fiz
avolumar para me vangloriar de minhas conquistas, obviamente. Todos já devem ter
compreendido isso até aqui. Eu gosto de descrições quase que científicas dos meus passos
em direção ao estrangeiro desconhecido. E foi isso mesmo o que eu vivi enquanto eu estive
lá, a sensação do quase hostil e agradável, oculto e secreto misterioso. A despeito de toda
diferença cultural, as chamas que animam a torre fálica da minha igreja de prazer,
inundaram-se alegremente de bênçãos e da comunhão de corpos, graças ao belo e pequeno
átrio ovalado que são os órgãos genitais femininos das meretrizes de Shangai. E isso se
seguiu tal como o descrevi em meu diário de viagem à China que, como se segue, eu
transcrevo parcialmente agora para vocês, meus caros leitores:
... Aqui na China eu me sinto vivo. Cada parte de meu corpo pulsa e eu vivo como
se hoje fosse o meu primeiro e único dia de vida - sinto que encarno toda sabedoria de mim
mesmo. Eu sei que até certo ponto meu próprio corpo, meu próprio eu são desconhecidos
para mim. Porém, na medida em que me entrego à essas sensações do oriente, eu consigo
transpor mais uma das grandes barreiras entre eu e os outros... Quantos abismos, quantas
pontes se observam entre eu e vocês? Dir-se-ia que esses outros de mim tão distantes e
irreversivelmente diferentes, no fundo, eles devem encerrar tanto em suas vidas quanto em

133
seus corpos coisas profusamente tão próximas a mim que, excetuando alguns poucos
ângulos no formato dos olhos e na tonalidade da pele, de um lado, e sua necessidade de se
multiplicar e ter filhos de outro, mal posso me distinguir inteiramente deles. Estar na
China, na Índia, no Japão me fizeram compreender o quanto nós humanos somos
semelhantes. Nos diferimos muito em quase tudo, e ainda assim somos em quase tudo
muito parecidos.
Para comemorar o intrincado limite entre eu o o outro, eu quero hoje lavar uma
buceta chinesa inteira apenas com a língua! Eu quero que ela faça o mesmo com os meus
lábios, pois eu amo a sensação de ver uma língua chinesa para fora da boca,
aproximando-se dos meus lábios em movimentos lânguidos ou que experimentem a sua
própria limitação muscular e de tamanho. Quando a língua de uma mulher limita-se para
fora da boca, a visão dela se distorce a tal ponto de torna-la mais humana do que já é - e
isso é por demais excitante. Eu desejo a língua pulsante face a face, como se a língua fosse
um ser vivo entre outros dois! E quando a minha própria língua explora esses mesmos
movimentos de verme, vagarosamente em direção à outra língua o tempo parece querer
parar. E é isso o que me faz quer perpetuar esse momento! Eu quero colar-me à boca de
uma chinesa mulher, eu desejo celebrar o seu corpo atravessado ao meu, eu quero
comemorar a minha existência!
Hoje eu desci, portanto, ao baixo meretrício...estava ansioso para deliciar-me como
ocorreu ontem, e também antes de ontem - então, assim o fiz, ao som de instrumentos
exóticos, bebidas amargas e cheiros transpassantes que inundam almas, vi-me a
experimentar. Ontem eu tive a grande sorte de encontrar duas aldeãs que vieram da antiga
cidade de Lijiang, aonde eu também já estive, aos pés do Himalaia Chinês. Imediatamente,
em meu cérebro, chamei-as de “deusas gêmeas de Lijiang”, pensando em fazer ontem
mesmo um relato especial que eu as guardasse para a memória de todo o sempre. Mas ao
pressentir que eu antes devesse estimular a humildade e não contrariar os deuses chineses
preferi tratá-las simplesmente como “as duas idênticas de Lijiang” para que as deusas da
China não sintam inveja dessas estupendas mortais que tanto as rivalizam.
Elas não eram irmãs, mas se pareciam tanto que as confundíamos sempre. Elas
eram realmente parecidas, muito mesmo. Há, aliás, uma semelhança formal muito incrível
nos rostos das mulheres dessa raça da China. Elas todas possuem rostos simetricamente

134
perfeitos. Os olhinhos pequenos delas, muito próximos uns do outro, tornam-se
semelhantes a conchinhas do mar quando nos dão a graça de sorriem. Os queixos das
mulheres de Lijiang são os mais perfeitos queixos que eu já tive a alegria de poder morder
em todo oriente. A base do queixo delas é bem angular e, diferente dos queixos das outras
mulheres do país, em algumas delas seus queixos são até triangularmente proeminentes.
Sendo como elas são, pérfidas delícias, eu quis ontem mesmo deitar-me com duas
delas ao mesmo tempo, assim que eu as vi. Porém, eu já havia saboreado, uma de cada vez,
três meninas cujas idades deviam sim passar da duração de nove ciclos anuais, mas
certamente jamais devem ter atingido em suas vidas ainda a décima quarta estação
primaveril. A meu pedido feito ainda no dia anterior, as duas idênticas de Lijiang estavam
vestidas de forma igual: com penteados iguais, roupas muito apertadas, e tinham corpos
tão parecidos qual irmãs gêmeas que estão prontas e juntamente dispostas a me confundir
na hora do beijo... E certamente me deixaram com essa deliciosa confusão sexual ao se
aproximarem de mim: Qual boca experimentar? Que parte do corpo e em qual corpo eu
iniciarei esse rito? Como isso tudo terminará, além da certeza de que eu irei experimentar
a presença suprema dos deuses Bonpo da cultura Nakhi? Não foram apenas essas,
obviamente, as questões que me povoaram naquele momento, mas certamente essas eram
as dúvidas abstratas que retrospectivamente eu me impus para mim e para vocês que me
acompanham agora nesse momento.
Com se fossem uma única mulher diante do espelho... confundiam-me! Não mais
seriam irmãs gêmeas? Por acaso não haveriam de ser uma mesma mulher deliciosamente
convertida em duas? Estar com uma única mulher já é vida, penso eu, e por que não estar
ao mesmo tempo com duas, três, talvez quatro ou ainda mais? Com eu não obtive meios de
como viver dessa fantasia muito antes? As duas idênticas de Lijiang tinham a mesma
altura, o mesmo sorriso bem tímido, olhinhos pequenos que pouco piscam, os mesmos
lábios perfeitos, o mesmo queixinho discreto, a mesma conduta ímpar. Eu me sentei no
chão como fazem todos eles e não mais me distraí. Mirei nos seios delas enquanto eu me
sentava e deixava-as de pé, aguardando o próximo movimento meu. Quando elas tiraram
aqueles trajes tradicionais com fitas brancas que marcam um “x” no peito tecido de vinho
eu quase desmaiei... E não é que os seios delas também eram iguaisinhos? Ó céus, ó Bonpa,
ó deuses do Himalaia chinês! Eu Ainda não tinha pedido para que elas tirassem as saias

135
brancas com barrado em azul, e elas realmente ainda não o haviam tirado, mesmo que
soubessem que isso era o que eu mais iria querer em toda a minha existência na China.
Elas sorriam com os seios à mostra, mas elas permaneciam contudo quase imóveis,
olhando para mim com curiosidade como se encarnassem duas deusas que estivessem
mirando um reles mortal do céu e eu ali, deitado, em baixo, humilhado aos pés delas a
roçar cada uma de minhas orelhas, como um ser humano, adorando-as.
À essa altura eu já tinha é claro, o pinto enrijecido dentro da calça, mas eu não
tinha sequer tomado consciência disso, como se não fosse importante. Parece que aquela
demora sem que ocorresse “nada” ainda me deixara em êxtase profundo. Se assim eu já
me sentia no paraíso, o que mais eu poderia querer senão ficar ali, prostrado diante de
deusas, tendo a visão de duas impávidas montanhas de picos regelados?
Foi apenas quando eu estatelei meus braços para cima e entreguei inteiramente o
meu corpo para o poder da gravidade como se quisesse contemplar as estrelas cadentes do
céu que uma delas se agachou ao meu lado sorrindo, e a outra se agachou no outro lado
também a sorrir... Hoje é um dia espelhado, hoje é meu dia de sorte, pensei eu: hoje é um
dia após o outro...o sol nasce no leste e ao leste minha mão direita contornara o sol; o sol
se põe ao oeste e no oeste a minha mão esquerda pousara alegremente no redondo do sol.
Aquelas bundas esféricas e maravilhosas não eram tão magras quanto a da maioria das
mulheres chinesas e isso me deixava ousado e excitado - uma bunda de um lado, uma outra
do outro, não sei por que pulso começaram a balançar ou a se mexerem sozinhas, com
vida, ritimadamente, e nas minhas mãos... Se naquele ambiente contiguo havia música
ainda, já não mais era capaz de dizê-lo. Era fato que a minha lembrança maior foi que
enquanto as minhas duas mãos dançavam em céus sem nuvens, as minhas roupas
recolhiam feito uma criança louca numa camisa de força, meu pinto enrijecido dentro de
um estofado de divã antigo. Uma delas, já não sei mais qual também, reconfortou a
“criança” louca retirando-a de sua amarga sina comprimida para libertá-la de sua
servidão e suavemente começou a nina-la como se ele fosse uma criatura indefesa, antes de
dar em beijinhos, pequenos estalidos produzido com as pontas dos lábios, e assim
abençoavam a ponta da cabeça daquela criança agora livre, porém não menos
translouquecida. Uma meretriz foi seguindo a outra em movimentos e logo alternavam as

136
duas, a ninar freneticamente a louca criança recém liberta, já quase pronta para se por a
chorar.
A minha cabeça voltou a se virar para o céu, como sempre fazemos nesses
momentos de glória. Era como se fôssemos inclinar para cima a nossa cabeça em oração
ao divino Deus lá bem alto. A Deus não devia ser esta a melhor oração de se ouvir, mas
Ele há de me perdoar pelo que irei dizer: É certo que eu jamais lhe daria oração maior do
que ele mesmo fez por bem de me presentear: a capacidade de com aquelas meretrizes e
com inúmeras outras gozar. Eu nasci assim, ou bem, a adquiri desde o amadurecimento,
uns onze anos atrás. Desde então, obtive de tudo um pouco, dia a dia, mês a mês...
implorando por um pouco mais disso. Mas a Deus eu louvo agora para jamais me
abandonar: Agradeço-te Senhor por dar-me mais uma vez disso! Mostro-te o pescoço para
que me degole agora se esse despelar não é a maior das tuas divinas criações! Quando eu
a descobri sozinho com as minhas próprias mãos, pela primeira vez, naquela tarde quente
do verão da Córsega, mal pensava eu o quanto ela iria me libertar, conquanto que sempre
pudesse ter mais e mais dessa liberdade, aquela que justamente me faz inteiramente
crédulo e fiel a Ti, ó Deus!
Deitado ainda de cabeça erguida em orações para o céu evocando a Deus, sem
perceber... as duas movimentavam, lábio a lábio, pareados, a torre alta do meu pênis
erigido em honra do nosso Deus, de suas criaturas e de suas criações. Eis uma estela
erigida com dignidade! Meu pinto é um rijo monolito beijado lado a lado por essas
princesas da china imperial. E eu quero mais! Ambas aumentaram a rapidez da
movimentação que faziam as peles dos lábios e a pele do meu ímpeto teso, denodado
maciço, impávido pinto tremerem. Como numa síncope, eu achava que algum gozo já fosse
eminente, e ainda nem sequer as tinha visto inteiramente nuas...embora já estivessem, eu
pressenti, ansiosas para fazerem isso.
Como num tom de ilusionismo, de modo de vagar como se o tempo fosse
diminuindo a sua pressa diária, as saias tradicionais delas foram magicamente removidas
de seus corpos. Peles palidamente brancas pelas quais espelham suas porcelanas! Ah, eu
as amo! Duas mulheres chinesas nuas valem mais do que mil tesouros deste Império
milenar!

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Nada digo a mais! Eu preciso parar... Relembrar aquela noite na china me fez
novamente interromper meu relato para olhar mais uma vez para as gravuras chinesas e
repetir na imaginação os movimentos delas no meu pinto, solitariamente desta vez, com as
minhas próprias mãos... Estou seco, raquítico mas não paro de pensar em querer mais e
mais daquelas mulheres do outro lado do mundo! Sentir-me dentro daquelas lindas
bocetinhas quentinhas enquanto elas tinham a boca aberta e os olhos cerrados como que
sentindo a dor do prazer me punha a pensar uma única coisa: porque o tempo não se
congelara ali mesmo, eternamente? Por que temos de nos obrigar a inúmeras atividades que
não só nos trazem dor, como mesmo se nos trouxerem prazer, não são de modo algum
igualáveis ao prazer que eu senti ao copular com as duas mulheres idênticas de Lijiang.
Elas eram cheirosas, elas eram corpulentas, elas eram apetitosas, elas eram as fabulosas
meretrizes de Shangai.

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139
A História da Loira com o Filho Débil Mental

Não tenho mais idade para entregar-me completamente e crer na tirania de uns olhos
azuis. Ainda assim, que desgraça mais proverbial é essa com a qual as bruxas mulheres
loiras nos enfeitiçam para que não deixemos dúvida de que nosso coração pertencem
voluntariamente à elas? Caros e pacientes leitores, devo-lhes confessar que algumas
mulheres de olhos azuis e cabelos loiros são emissárias do demônio, pestes odiosas, mas
são igualmente tentadoras demais para que consigamos fustigar o nosso sentimento de
culpa em relação às outras mulheres igualmente belas. As filhas de Satã de fato sabem que
são a desgraça da homenidade.6 Quando a besta, o canhoto, o capeta, demo e cão quis
torturar os seres humanos do sexo masculino inventou as loiras, para que o pecado fosse
sempre a enaltação ao rabudo, fazendo com que o anjo das trevas pudesse também ser
inevitavelmente abençoado tal como Deus o É, só que numa teologia própria. O
fundamento do diabo é trazer o máximo de almas para diante dos pés dele; o fundamento de
algumas loiras é enfeitiçar seres fracos como eu ao destino do fogo consumidor de tudo,
inclusive da lógica e da moral. E naquelas teologias as quais chamam de demonologia,
esqueceu-se de incluir o pior, o mais insidioso, o mais maldoso, o mais terrulento e suave
de todos os impiedosos súcubos: a loira de olhos azuis.
Talvez haja entre vocês, meus caros e pacientes, alguns leitores em descrédito,
sendo loiros ingênuos que pensem agora em suas loiras mães de olhos azulados, e que
talvez me advirtam: “o que há de mais santo do que ter uma mãe de ternos olhos azuis?”
Sim, eu vos permitirei que tenham muitas fantasias como eu mesmo as tenho! Eu sei que
não querem se decepcionar! Eu não falo da cor dos olhos e sequer do cabelo em si... Eu falo
da cultura criada em torno dessas características que fez com que a minha desumanidade
tornasse mais ideal do que a minha humanidade. Hoje eu louvo o que há de desumano em
mim, e por que? Por causa dos malditos e inocentes olhos azuis? Claro que não! Mas por
causa dos súcubos mais impiedosos que o utilizaram como feitiço medievo para fazer
sucumbir o maior número de homens e mulheres possível. Mas dentre vocês leitoras,
algumas quiçá se sintam como essas loiras, por eufemismo chamadas de “bondosas”, sendo
aqui injustamente atacadas por essas palavras de um suposto ódio ao loiro dos cabelos de

6
Hommanité - no original em Francês (N do T.)

140
certas mulheres inominavelmente malvadas... Saibam antes de mais nada que o ódio veio
de um amor tão profundo quanto a lava fervilhante que estoura no ar e pulula para fora do
Etna. Mas, ao contrário do que imaginam, como eu sou contra essa tirania, eu chamo o meu
amor de ódio. É por isso que devemos chamar a fidelidade às santas de olhos azuis de
ateísmo. Talvez vocês, minhas caras loiras leitoras, queiram se fingir de santas e me
dizerem que jamais enfeitiçaram e não levaram à desgraça, como a Loreley germânica a
quanto mais homens sucumbirem melhor? Se quiserem me enganar, façam-no logo, antes
que eu me volte contra vocês também! Como seria odioso um mundo não iludido por vocês!
Algumas carolas loiras de olhos azuis, ou os seus cães-de-guarda que me leem nesse
exato momento podem me tomar por um preconceituoso ou um desses frenologistas que
vivam de medir crânios ou de elogiar pureza da raça baseado apenas em suas cores e traços.
Nada passa mais longe da verdade! Talvez insistissem na nominal bondade e queiram
evocar a santidade de loiras que realmente existiram, como as loiras Santa Adelaide,
Brígida ou sua filha Catarina da Suécia, ou talvez queiram se contentar com a beleza da
Santa Beatriz de Portugal? Mas, amigos meus, pensem bem, como ousam ainda fingir
dessas suas “ingenuidades loiras”, teimosia de azêmola, defendendo inutilmente alguma
outra santidade faceira, senão dizendo o óbvio a uma a uma das santidades citadas, atrás
das quais fogem vocês para se esconderem de um veredito inevitável do feitiço que é a
maldade interior das mulheres loiras de olhos azuis na Europa e no mundo inteiro? E esse
óbvio é que vocês podem ser contestadas com afinco e uma a uma. Lembremos-nos,
contudo, apenas desses mais evidentes exemplos que lhes indico:
A Santa Catarina da Suécia, frígida, tinha de inutilmente chupar o pinto mole de seu
marido, o cristão Edgar, brocha e paralítico, sem que esse sentisse nada nas regiões
peninsulares. Viúvas negras em pacto bestial, mãe e filha, Brígida e Catarina, se
encontraram fugidas em Roma, enquanto jaziam de morte na Suécia, em conjunção
certamente promulgada pelo diabo malvado e tinhoso, ambos, o marido da loira Santa
Catarina e o marido da loira Brígida. Que os santos padres da igreja me absolvam se eu
estiver cometendo algum pecado! Mas que Deus me abençoe com uma loira santa de
verdade se a minha intuição, meu desejo, minha tentação não fossem o que exatamente
fossem: mulheres loiras são emissárias do capeta!

141
E eu já havia antes lhes dito dela, Eva Ilyinichna Rubina se volto a isso é porque
aonde alguns chamam “mulher” eu a chamo simplesmente “demônio”; não é por que ela
mereça, absolutamente, mas, porque achei que deveria ainda expiar mais algumas das
minhas culpas nos momentos em que estive mais próximo de Satã do que diante de Deus.
Se falo mais ainda sobre essa que roubou um nome santo, da primeira mulher saída de
nossa costela é para também me desculpar a vocês, meus leitores por que inundadamente
sem estilo, escrevo em forma de jorros e borradas que são cada uma de minhas frases ao
enunciar-lhes tudo isso à título de expiação. Tudo que escrevo é sem elaboração e sem arte,
faço lhes seguir a essas minhas memórias de um homem desonesto para que tenham
misericórdia de mim. Vocês, então, em algum dia do juízo, hão de me absolver dos meus
crimes e pecados porque vocês vieram até mim e porque foram meus pacientes. Pois se
pensei em deixá-los explícitos à luz de todos em escritos da maneira a mais humilde, direta
e sincera possível, foi porque não sou escritor, e sim um confessor em busca de cura para
mim e pra vocês.
Eva Ilyinichna Rubina, a loira de quem eu trato aqui é a mesma russa de 32 anos que
se casou em Paris com um meu amigo espanhol, Fernandez Rui Perez, o homem têxtil. Essa
é uma história a respeito da qual eu já tive a obrigatória infelicidade de parcialmente lhes
contar7. Saibam que não se satisfarão se eu incorrer aqui no erro de me deixar repetir e
acrescentar imagens ou descrições que já tivessem sido expostas antes. Isso porque, nada
que diga respeito de Eva pode jamais ser tratado como algo enfadonho ou mesmo repetitivo.
Eu já lhes havia dito também o quanto aquele “buraquinho das delícias” havia, com toda
perfeição, satisfeito integralmente aos meus desejos. Ter fodido com ela, ter tentado colocá-
la nas posições das mais embaraçosas, foi uma atitude decisiva para eu poder determinar
seu pacto com o demônio. Quem de vocês, caros leitores, que desejam experimentar um
método novo, elaborado por mim mesmo que distingue uma mulher loira pura, enviada de
Deus de uma loira bruxa enviada do cornudo anjo das trevas? Ha ha.... Acompanhem-me,
então, atentamente numa leitura imparcial dessa história da loira com filho débil mental.
Aqueles que até o final chegarem serão capazes de identificar, com muita segurança e
nenhuma margem de erro qual é a diferença entre uma e outra; qual é a a dissensão entre a
besta e a ovelha.

7
Ver: Azules los ojos; pero rubio es lo Culo. N.do T.

142
Como eu antes lhes havia dito, ela deixara seu filho débil mental com a mãe dela na
Rússia, vindo sozinha parar em Paris há cerca de 4 anos atrás, com o objetivo de encontrar
um pai tolo e rico para alimentar ao seu filho e à sua mãe, já que o pai, sendo pobre sequer
soube da existência do menino, tal como certa vez ela própria me segredara. Sendo do
interior da Rússia, - agora, de súbito, me veio o nome de sua cidade natal: Dimitrov, uns 60
km de Moscou, indo em direção norte - Eva não só não possuía os modos da educação
urbana, como não tinha modos algum. De toscas atitudes, rudes falas e grosseiros costumes
Eva conquistava os homens não por isso, mas por “aquilo”: em primeiro lugar pelos longos
e sedosos cabelos loiros, em segundo pela magra mas bem torneada bunda e em terceiro,
por nos fazer de capacho e nos tratar como cachorros que somos, exatamente como
merecemos.
Esse problema já era antigo e vinha de lá na sua cidade natal Dimitrov, na Rússia.
Quando ela nasceu, ela foi batizada na Vvedenskaya, a mesma igreja aonde, apenas doze
anos depois, ela levava secretamente dois ou até três meninos de Dimitrov até o terceiro
andar da torre do sino e de lá ela olhava para baixo pela ampla abertura da torre, enquanto
os meninos comiam em fila o seu lindo cuzinho infantil. Ela jamais deixou, entretanto, que
eles a penetrassem em sua vagina. Essa cultura russo-germânica estranha, segundo ela
própria dizia sem pudores, ela a adquiriu com muita felicidade aos onze anos de idade
depois de ouvir sorrateiramente atrás da porta a sua mãe dizer à umas amigas alemãs que
“esse era ao mesmo tempo a melhor prevenção contra a gravidez e a melhor maneira de
cativar os homens”. E foi isso o que ela fez. Seguiu o conselho de sua mãe e por isso ela a
amava de todo coração. Canal sacro-sedal proclamamos-te, ó despovoada caserna!
Mas logo que ela cresceu e ficou mais velha, aos dezesseis anos de idade, como todo
jovem dessa idade, passou a contrariar os pais e por isso ela fez o seu primeiro aborto.
Numa cronologia que não se ajusta muito, ela me disse que demorou pelo menos outros dez
anos para “perder a virgindade da buceta novamente”, mas foi bem nesse momento que ela
acabou engravidando (sabe-se lá de quem) parindo ainda em Dimitrov o seu filho débil
mental. Conta-se também que este aborto haveria de ter sido o último, aliás, porque ela teria
desenvolvido a partir daí, uma ojeriza fatal e definitiva em dar a buceta - pois o fruto dessa
união amorosa e sincera com um rapaz pobre só trouxe a ela arrependimentos. O menino,
que jamais conhecerá o pai e vice versa nascera débil mental e a mãe, que amava

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verdadeiramente o pai da criança, queria para ela um fim melhor do que ser lenhador - fim
último de todos os homens inteligentes ou burros da atrasada Dimitrov. Então, a partir dos
dezeseis anos, qualquer homem que se aproximasse dela, ela ia logo dizendo que jamais
tocariam com o pênis a sua parte da frente, mas estariam, por sua vez, à vontade para
fazerem o que quisessem com o rabo e toda a sua parte de trás.
Vamos nos lembrar que aquele tempo era um outro tempo, se a mãe de Eva era uma
mulher fácil, a Rússia de Alexandre II era muito mais e até perigosamente mais liberal do
que o suficiente. O banana bonzinho do Alexandre II libertara naquela época mais de vinte
milhões de servos entre os camponeses. Assim, o risco hoje para a Rússia, que
perigosamente sentiu esse gostinho utópico pela liberdade, não é mais a presença de suas
enviadas demoníacas, pois essas eles já estão exportando para toda a Europa e para a
América, prontas para explorar os machos desavisados desses países..., mas o risco é que o
povo russo, amargurado pela força autocrática de Alexandre III desde que restaurou a força
Russa e impôs limites aos exageros de seu fraco pai, o force a se rebelar contra a realeza e
contra o império, tal como tem ocorrido com frequência desde a Revolução Francesa até
hoje, com quase todas as monarquias da Europa, atualmente em franca decadência.
Mas política não era absolutamente o seu forte. Ao contrário, essa loira era como
aquelas do tipo exportação, que deviam ter nascido mesmo apenas para encontrar algum
cartola estadunidense e levá-lo à falência o quanto antes..., embuchando e, em poucos anos,
tirando dele toda a sua fortuna acumulada por décadas por sua família e entregando-se aos
homens sem pudor e sem valor. O que descontrolavelmente ela gostava mesmo, caros
pacientes, era de dar a bunda. A todos que se acercavam dela logo ela ia dizendo baixinho e
bem perto do ouvido, uma das mais belas entre as frases literárias que eu já ouvi
suavemente ao pé do meu próprio ouvido: “apenas no cu!”
Imaginem vocês, caros leitores, quantos homens de Paris não decidiram louvá-la
como santa, desde que ouviram isso da boca dela pela primeira vez? Meus caros e pacientes
leitores, eu fui um deles, confesso-lhes! Aquele dito: “apenas no cu”, dito de mansinho por
uma loira, é uma das minhas primeiras regras para distinguir uma loira diaba de uma loira
pura. Uma loira pura jamais impõem logo de início a você aquilo que você mais quer; uma
diaba, entretanto, para saciá-lo como que imediatamente, oferece-lhe o mais divinal dos
néctares quando você acabou de cruzar o imenso deserto cujas areias são a vontade e de

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cujo calor desértico provém a paixão. Não é possível que uma mulher loira direita, uma
temente a deus, à pátria e à família, ofereça-lhe o cu tão apaixonadamente! Disto eu estou
bastante certo!
Ela chegou à Paris vinda de São Petersburgo, pois passou alguns anos nessa cidade
relacionando-se sexualmente com aristocratas russos antes de finalmente imigrar. Eu soube
muito pouco a seu respeito diretamente dela, a maior parte de sua história eu soube mesmo
por outros. Não tenho todos os dados, mas sei que a situação dela na capital do Império
Russo era certamente trágica. Porém, nesse quesito, quase nada poderei destacar do que
realmente aconteceu durante o período de estadia dela por lá, exceto a certeza de que ela
não poderia mais voltar para São Petersburgo e manter, ao mesmo tempo, a sua vida em
segurança.
E não foi degredo, outrossim uma fuga, disso eu estou certo! Todos nós que temos
alguma relação com os aristocratas russos sabemos que eles não são flores que se cheirem.
Tudo bem que Alexandre III tem sido ótimo, ele foi o único a dar um fim com os assassinos
terroristas da Narodnaya Volya. Mas não sei ainda o que Alexandre III fará com a despeito
da grande fome que ataca metade das províncias russas, forçando a imigração dos menos
iludidos e a revolta e sublevação dos mais desesperados.
Em Paris, graças à sua beleza e à relativa soma de dinheiro que por obscuros
desígnios poupara, Eva foi logo se aproximando de afortunados que por ventura tivessem a
cabeça fora do lugar para caírem na lábia do diabo. Ela preferia os casados e velhos acima
dos 45 anos. Por isso que eu digo: foi uma graça divina ela ter se afeiçoado a mim, nesta
minha juvenil idade e nesta minha situação de um mero profissional do direito como a fiz
pensar, imagens da qual eu não fiz questão de apagar da mente dela, embora ela jamais
soube da riqueza de minha família na Córsega, muito menos soube quais eram os reais
motivos da minha boa penetração entre muitos dos aristocratas de toda Europa que
passavam por Paris. Talvez por isso mesmo, sabendo que o diabo é ardiloso, que ela deva
ter se “afeiçoado” um pouco por mim, mas não exatamente por mim ou pelo acaso...
Éramos de pronto muito parecidos, éramos dois forasteiros longínquos aproveitando o que
a Europa tem de melhor. Mas eu sempre tive isso, ela não. Falo francês desde criança,
porque me considero francês, ela não - para treinar nossa língua, tão comummente falada
entre os aristocratas russos, ela me disse - sendo proletária, meu único caminho era me

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aferrar a um falante nativo e só deixá-lo quando minhas habilidades linguísticas
superassem as minhas dificuldades em suportá-lo. E por “aferrar”, leitores, entendam, ela
quis dizer trancafiar-se com ele até esgotá-lo pelo sexo ou por cansaço de professor que
ensina a língua com a língua. Era por isso que ela sabia de cor e salteado todos os palavrões
e putarias em francês. Cabe a mim mesmo dizer que alguns deles, de tão baixo calão foi ela
mesma quem me ensinou!
Eu sempre fiz questão, portanto, de não comentar sobre a fortuna de minha família a
plebeus, forasteiros ou a putas loiras (a essas sobretudo); essas pessoas são ávidas por
perverter a norma, a regra e a ordem. Essa gana de se colocar do avesso em transparência
total é típica de proletários e dos recém chegados à burguesia. Ao contrário, sabemos na
aristocracia que toda a discrição é ainda pouco se confrontadas às grandes perdas às quais
tivemos de sofrer ao longo de anos de revoltas e expropriação dos reinos e impérios por
aproveitadores e corruptores das pessoas simples do povo. Os monarcas de Europa por
centenas e centenas de anos foram amados e temidos, hoje mal são respeitados ou se espera
deles algum respeito. A Europa vive o seu pior declínio!
Mas decadência, depauperamento, declínio algum eram páreos para as atividades de
Eva Rubina. Ainda que ela falhasse com um industrial aqui e outro grande comerciante ali,
grandes homens de negócios internacionais, políticos, chefes das colônias - Guiana, África
Equatorial, Senegal, Benin etc. ela jamais abriu mão em ser apresentada ainda a outros,
muitas vezes por antigos “clientes”. E se a chamo aqui de puta não é simplesmente porque
ela mereça, porque de fato, ela merece, mas porque, além de merecer, ela o queria...
Sempre cobrou por presentes que os trocava por objetos ou dinheiro que servissem para
serem enviados à Rússia. Ela fez fama dessa forma entre os grandes homens parisienses ou
apenas aqueles de passagem. E quando se julgasse que todos ali a “conheciam” em sentido
bíblico, sempre se acabava encontrando outro e ainda outro que nunca havia sido fisgado
pelo seu lindo cu de pelos circundantes dourados feito aureolas solares ou raios que
circundam a nossa estrela.
Do seu passado, obviamente, ela não se atrevia a desfazer completamente, uma vez
que a sua fama sempre só aumentou. E não arrefecendo essa fama nem mais nem menos do
que arrefecia o seu desejo de terminar no lugar de muitas mulheres insossas, as esposas dos
grandes homens, Eva foi radical ao se afirmar daquela maneira, levando ainda, é claro,

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embora por razões diametralmente opostas, também as mulheres dos respectivos à loucura,
pois sabiam que o que Eva oferecia elas não podiam dar, pelo menos não da mesma
maneira e nem que evoque o respeito, como é esperado de uma mulher do lar que também
dá o cu, claro.
Dar o cu é de fato uma arte! Aprendam mulheres! Quando uma mulher sabe dar o cu,
nos encaixar no orifício anal com perfeição, ela o faz sorrindo de modo a parecer que
estamos a lhe proporcionar um grande bem. E se aquele cu for de deliciosas pregas anais
que se movimentam como bolhas que saem do profundo do mar, e se ele tiver a compaixão
de querer nos deixar entrar, com aqueles pelinhos loiros salpicados em derredor feito um
tempero dos mais deliciosos de se lamber, então esse grande bem proporcionado se
transformou em arte. É por isso que as esposas urbanas não são, ademais, capazes de fazer
isso tal qual as aldeãs do interior ou como as russas loiras filhas do demônio o fazem. Para
dar o cu, é preciso ser uma artista de campo, ter experiência, ter merecimento, tradição: é
preciso ter aprendido isso com suas mães desde a segunda infância.
Da minha parte como eu já não evitei de lhes dizer, eu cometi esse adultério de
servir a Satã algumas vezes ao invés de servir a Deus, como de costume. Eu lhes falava
outra vez como Eva conhecera o meu amigo e cliente Fernandez Rui Perez, o “Homem
Têxtil”. Contei-lhes ainda, como eles se conheceram nas “Festa das malhas de inverno”,
promovida pelas indústrias Têxteis, dentre elas a de Fernandez. Ela disse posteriormente a
ele que o que mais a atraiu foi a voz de Fernandez, em seu discurso de abertura no dia
daquela festa. - De pronto, disse ela, - imaginei o seu discurso no dia do nosso casamento. -
Mentia! Descaradamente, ela mentia. Loira filha das trevas!
No casamento deles, obviamente, eu tive de estar lá - mesmo depois de passar por
inteiros quatro meses tentando impedi-lo. Mesmo quando eu estava em Trento ou em
Córdoba, mesmo quando tive de voltar para Córsega para cuidar dos negócios de minha
família, as minhas palavras de objeção seguiram em quilómetros a terra e o mar para chegar
até os ouvidos de meu amigo Fernandez, cartas, mensagens curtas, telégrafos e telegramas
simplesmente para dizer a ele: Não se case com essa mulher, por favor!
Depois que eu insisti à exaustão ele que sempre foi muito gentil comigo esbravejou
num telegrama curto e grosso:
- Caro amigo, cuide de sua própria vida!

147
O Discurso de Fernandez no casamento foi de fato emocionante. Falar de amor
eterno diante de uma tentação maldita de olhos azuis e cabelos loiros pensando no adentrar
eterno dentro do cu dela deve inspirar a certos homens. Mas eu próprio não o teria feito de
maneira sequer perto do semelhante. Ele estava inspirado, emocionado, exaltado por aquele
cu loiro.
Muito me fez feliz a senhorita tratar-me por uma pessoa normal...uma pena
entretanto....
Não sei mais o que ele disse...e portanto paro aqui... em outro momento, talvez, eu
lhes conte... algo de uma dor insistente me faz agora impedir de reproduzir aquelas palavras
por mais belas e transparentes que fossem... Porque ditas a uma mulher loira... Como foi
possível que eles se casassem? Não que eu a propusesse...longe de mim! Dela eu só queria
mesmo era poder sentir o delicado roçar de sua língua na minha, eu queria chupar e entreter
na minha língua e lábios os seus finos lábios pálidos, sentir seus seios pulando em minhas
mãos e perceber a sua bunda vibrando em ondas colossais enquanto eu a enrabasse com
toda a força até que meus testículos pudessem no limite de dor suportar o choque contra as
coxas das pernas delas ainda fechadas. Isso! De quatro, com as pernas fechadas e dando o
cu para mim, enquanto enverga o corpo dolorido ao olhar para atrás e sorrir - eu jamais quis
outra coisa de uma enviada do capeta! E digo isso para que, em fidedignidade, Deus me
enobreça pela minha franqueza e me coloque à sua esquerda! E eu sei que Ele não iria me
decepcionar!
No casório eles disseram a ambos “sim”! Foi aí que eu soube que não havia mais
nada a ser feito. Eva Ilyinichna Rubina, tornara-se Eva Ilyinichna Peres, e eu imaginara tê-
la perdido para sempre... Esse, vejo hoje, era o maior problema de todos. A sensação de que
eu nunca mais poderia dar vazão às minhas fantasias depravadas para com ela. Era certo
agora de que eu jamais meteria a língua no rabo quente daquela puta do demônio. E para
sempre ela jamais voltaria a ficar aos cuidados, sentada no meu tão carente e belo canudo
do prazer. Se antes ela era a mulher de fácil acesso, comensal da jogatina da vida; ao se
tornar a “Madame Peres” ela atingiria o máximo do que se pode chamar de “mergulho no
mar de egoísmo, possessividade e orgulho”. Rapidamente, nada da cultural herança
interiorana russa dela se manteria intacta. Acelerada numa velocidade tão vertiginosa de
meter medo a homens civilizados como eu e a dar ódio mesclado a inveja em mulheres da

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nossa sociedade, ela parecia uma égua participando da Sandown Park Racecourse: entre a
largada, de onde vivenciou em sua vida um filho débil mental, largou a partir de sua terra
de nascimento, galgou até Paris, cruzou ali com múltiplos cavalos de raça, fez sua
cavalgada mais tranquila até a feira de malhas, montou no pinto de Fernandez suando e
relinchando feito a égua que é, cavalgou até o altar e, finalmente, atingiu o pódio sendo
premiada com a sorte grande: “Madame Peres!”.
Demônio atrevido, dragão bajulador, chifruda das trevas, mulher loira, belzebu,
diaba! Ouvir as empregadas que, como eu, eram uns sete anos mais novas do que ela
chamarem-na de “Sim, Senhora Peres!”, “Sim, Madame Peres!”, era para mim o mais
doloroso dos golpes durante toda a minha estadia naquela mansão. Eva era um animal
irascível e mesmo quando queria, dificilmente era animada ou divertida. Fria, no mais das
vezes ela encarnava a senhora malévola da casa e não havia meios de dissuadi-la a tratar
aos empregados de uma melhor maneira. Não! Bem ao contrário, ela também me tratava
como a um empregado, até que um belo dia eu me entreguei e não mais a resisti. Eu passei
a gostar disso... e o fiz por vontade e para poder tê-la mais por perto, para poder ter aquele
cu loiríssimo mais de perto... Mesmo que ele se abrisse purgando toda sua consequência
digestiva por sobre o pobre de mim.
Chego aqui ao meu próprio veredito com relação a ela...Eu a venci e por ela eu fui
vencido! Então, assim eu lhes explico: Em outra ocasião, eu já lhes contei um pouco sobre
como é que consegui, devolvendo-lhe os seus ardis de insidiosa maldade reperfurar seu
ânus roliço e delicioso ao qual só tinha tido a chance uma única vez, quando ela ainda
achava que eu podia ser um “bom partido”, antes de ter certeza de que um advogado
internacional jovem não poderia ter fortuna que lhe pudesse ser nem um pouco o suficiente.
Pois bem, então, quando ela hesitou em todas as inúmeras das minhas tentativas de
conseguir de novo o que eu queria, como ela não desse o cu para mim e somente para os
patifes ricos da sociedade que eu mesmo defendia, eu tive de, como disse lhes disse outrora,
“avacalhar” com ela: ...evoquei, assim, a festa da malha, o filho débil mental que meu amigo
Fernandez ainda não tinha sequer ouvido falar. Comentei com ela, apavorada, sobre a minha
investigação a respeito dos safados que se deram bem dentro daquele reto russo. Falei sobre o
dinheiro de Fernandez com o qual ela garantia o sustento de um garoto de 17 anos, o único
“homem” atualmente o qual ela permitia penetrar em sua buceta. Foi assim que eu consegui

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dela uma atitude “mais amena, sociável, meiga, confortável, afetuosa e simpática” para
comigo. E foi lindo! Meus caros e pacientes, isso deu certo! Eu venci o diabo! Eu sou o filho de
Deus! Eu, como Jesus Cristo no Deserto, consegui dobrar as tentações do diabo e ainda assim
conquistar aquilo pelo qual fomos tentados: Possuir o mundo! Ressuscitando em mim uma
alcançável cristandade, eu me sentia humano, eu me sentia vivo, eu me sentia livre!
Conduzido pelo Espírito, eu jejuei no deserto. Por quarenta dias e por quarentas noites
eu desejei mas não lambi e não adentrei no seu cu. Pela iniquidade do diabo de límpidos olhos
azuis fui eu desafiado aos mesmo tempo a mostrar e a esconder a minha força de vontade. Ela,
a diaba russa e loira me exultara:
- Como podes transformar pedra em pão? Disse-me ela em meu deserto solitário e
faminto, onde pedra era a dor de não comer o pão de seu cuzinho que era um túnel de onde
exalava a minha extrema solidão humana: - Como podes querer comer o que eu tenho de
melhor se seu pinto, duro como pedra não possui o meu cu perto de seu alcance? Continuou
malvadamente o diabo:
- Por que não saltas do pináculo do parapeito para que teus anjos deem a ti aquilo que
tu queres, que é o meu cu, como bem sabes? Alguém poderia, por acaso dar-te o que queres só
de mim? Quem aliás, na terra dos homens ou no céu das potestades, ou até mesmo em nome de
Deus, poder-te-á garantir esse que é o mais profundo dos regozijos e júbilos, se assim eu não o
desejar?
Como o diabo conhece a bíblia de cor, assim, ele me citou o Salmos 91:11-12: - ‘Não
foi ele, o deus que te consagrou a teu afeto? Não será ele então que livrar-te-á do laço do
passarinheiro, cobrindo-te de tuas penas?’ Então salta, vai! Suicida-te! Salta do precipício que
ele, o teu deus, o acolherá e não o deixará morrer sem o que desejas... Não foi ele quem disse a
mentira: ‘Saciá-lo-ei com diuturnidade de dias, E mostrar-te-ei a minha salvação’? Agora
dize-me, aonde está agora o teu Deus salvador quando tu pedes um cuzinho tão gostoso quanto
o meu, sem a salvação do consentir, esta que pertence somente a mim?
Ó meus caros e pacientes leitores, a maldita besta tentadora sabia o que devia dizer para
me amargurar... Como podia eu pedir a Deus, o Senhor das Alturas, algo mundano, material,
algo tão indigno, menosprezivo, repulsivo, abjeto, sujo, pálido, doce, aconchegante, fraterno e
agradável quanto um cu loiro de uma mulher? A malvada figura, caçoando de minha santidade,
sabendo o que de fato eu queria em minha selvagem vida, ela perseguiu o meu desejo mais
secreto, numa palavra: o poder. Em múltiplas palavras digo ainda que era isso o que justamente
eu queria: era a autoridade do mundo, a potência do mundo, a dominação, a soberania, a

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influência, o comando, o arbítrio, o prestígio, o ímpeto, a energia, o vigor, a veemência, a
supremacia de um loiro Império anal. Isso era tudo o que eu queria desse mundo material!
Mas seria suficiente para mim desejar todo aquele poder omitido dentro de um loiro cu?
Acaso a mim caberia apenas a aspiração, apego, cupidez, gana, a ambição e o desejo de comer
o cu da loira que veio do frio? Não, isso não seria fácil e nem sequer possível sem que ela mo
permitisse. Como todo “toma lá, dá cá” quando se trata de valores muito altos e desejos muito
importantes, nunca se dá um cu de graça, ao contrário, o cu comprado ou oferecido sempre
valeu muito mais do que uma boceta. E ela queria vendê-lo a valor muito alto, não era boba!
Ela queria que eu a idolatrasse para possui-lo! A força para almejá-lo eu já conquistara, a
presciência de conduzir-me diante dele eu já tinha; deus já havia me dado a vontade de comer
um cu, mas nada disso ainda parecia ser suficiente... Quiçá tomá-lo à força! Pensara eu... Não
era ridículo que o diabo tentasse Jesus para dar a ele justamente aquilo que já era dele, espírito-
criador-criatura, enquanto sempre sentado à direita do Deus pai Todo Poderoso? Ou ele próprio
não poderia tomar o mundo a força? Que unidade de ação poderia configurar tentadoras
maldições semelhantes às de Jesus e ser ainda digna de nota a ponto de me fazer competir com
Ele? Se o mundo é do diabo e não de deus, aonde eu vim parar? Que o Deus Pai, criador do céu
e da terra e que todas as potestades me segurem para que eu não faça o contrário de Jesus no
deserto e tome à força tudo aquilo que me pertença. Querer um cu é sempre tão impetuoso que
frequentemente me ponho de joelhos a rezar para não violar um ou outro que rebolam a menos
de um metro e meio de mim.
Eu não fraquejei diante de tamanha tentação! Não o mundo mesmo, e sim poder do
mundo é que existe para o diabo, logo de início eu imaginara. Estarei assim livre das tentações
do demônio seguindo o exemplo de Jesus! Mesmo ali, nas terras que são as garras de Azazel,
aquele que transforma o “julgamento anual” em “julgamento anal” dos seres humanos - o
mesmo para o qual os judeus ofertam um bode para ele levando-o ao deserto para morrer de
fome e sede (como os adoradores de cu que jamais se saciam) e outro para Jeová, degolando-o
ainda vivo ao ferir apenas as veias principais do pescoço e não o topo da cervical. Nós todos, os
adoradores do cu das Evas, somos tal qual bodes espiatórios sacrificados ao deserto de Azazel.
Mas o Diabo partiu! Aleluia! Batizado igualmente que fui pelo Espírito Santo, os anjos,
em suas loiras e enroladas madeixas vieram e me satisfizeram, alimentando-me com o muito
ardoroso, o muito doce regalo, o fétido e melífluo prazer anal - maná dos deuses! Senhoras e
senhores, não sei se por medo,vergonha ou volúpia mesmo a loira russa, tal como o demônio
bíblico que tentou Jesus, desistiu e simplesmente desapareceu como se jamais tivesse existido

151
fora da cabeça delirante de quem viveu em jejum. Eu passava fome, mas o demônio acabou
voltando a traz de sua recusa inicial e concordou em direcionar suas nádegas ao meu quadril.
Mas não pensem os senhores que ela o fez de modo tão volúvel quanto desejável, grandioso
quanto merecido, bem ao contrário, ela aceitou se entregar sim, mas o fez de maneira bastante
seca, fria e burocrática. Ela deu o cu como aquelas prostitutas que já não fingem mais e só
esperam tudo acabar em menos de meia hora para que elas recebam a sua paga. A loira russa
deu-me o cu como qualquer demônio vencido em estórias mal contadas... Ele tenta, se oferece,
paga o devido, desaparece e fim.
Foi aí que tive a certeza de que o demônio não pode ser vencido, mesmo que fosse
“vencido” - e não pode vencer mesmo se fosse “vencer”. Não foi absolutamente à toa que eu
reinventei a teosofia demoníaca na qual aquele que não se pode vencer deve juntar-se a ele, e
assim o “vencer”. E minha tentativa, afinal, tinha dado certo. Eva Rubina e os pelos loiros de
seu cu maravilhoso eram finalmente meus. Adorava ver me dentro daquele cu branco do norte
europeu, enquanto os pelos loiros agasalhavam o meu moreno pinto mediterrâneo. O bem, o
bom e o nobre sempre vencem o diabo no final, não importam quais as lendas ou teologias.

Como eu ganhei a causa para o ´Homem Têxtil´ e também sua amizade eterna
por meio de um 'feito memorável' - talvez eu tenha de fazer aqui um adendo à essa
história da russa, a diaba loira do mais poderoso de todos os cus. Não contarei a história
completa dela nem me deterei em dizer-lhes detalhes de como Fernandez conseguiu ser
convencido por mim (ao contar a ele todas essas histórias que lhes contei até aqui e ainda
muitas outras) de que se casara com o diabo. E tampouco foi necessário que eu falasse a ele
que eu deveria ser a pessoa mais adequada para satisfazer o vício de sua esposa em ter o cu
sempre preenchido por um pinto ou por uma coisa, por algum objeto ou por uma
transcendência qualquer. Era óbvio a Fernandez que por um lado eu tenha uma dignidade
maior do que a de um legumes, mas, por outro, ela acabaria se livrando de alguns jovens
infelizes que ao se aproveitarem dela, aproveitariam-se dos benefícios financeiros advindos
da satisfação advinda juntamente com o seu belo corpinho de loira russa. E quiçá algum
jovem com suficiente audácia e enorme ganância para planejar o assassinato de Fernandez?
Foi aí que Fernandez olhou para mim de modo diferente. E eu não tenho necessidades
financeiras, apenas amorosas. Eis um fato! Amar o cu da mulher de Fernandez quando eu

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pudesse e estar sempre próximo para defendê-lo de suas putarias seria mesmo uma troca
justa.
Apenas digo, portanto que, ao descobrir quase sem querer que ela jamais saia de
casa sem algum objeto roliço penetrado em seu orifício anal, uma comiseração cristã me
tomou completamente, a ponto de querer auxiliá-la a levar o suplício de sua vida aos braços
do alívio dos tormentos que a afligia. Eu propus a ambos Eva e Fernandez, de que enquanto
e sempre que eu estivesse em Paris eu iria enrabá-la e deixar o cuzinho dela sempre
preenchido com meu mediterrâneo calor. Como sou um amante de ampla durabilidade
erétil, ela corou e viu nisso grande chances de se livrar dos legumes um pouco, ele, como
um homem de fé em nosso senhor Jesus Cristo como eu, viu na minha proposta a chance de
reduzir o séquito de homens que a procuravam justamente por causa do seu sequioso cu,
mas sempre em troca de dinheiro, o que é repugnante para nós aristocráticos, em muitos de
seus aspetos.
Mas o que mais deve ter convencido definitivamente Fernandez de que eu era a
pessoa certa a fazê-lo foi certamente as vezes em que, com a ajuda de minha habilidade
com o fisco, eu lhe impedi de experimentar a miséria e, finalmente, em função de uma
grande cartada de chefe que empreendi ao ganhar uma ação judicial para ele, por meio de
um feito memorável. E nisso, meus caros pacientes, eu tenho de me curvar em
agradecimento a Fernandez, pois a sua fidelidade à amizade e sua generosidade em
compensar uma mostra de cooperação e de conivência de classe fez com que ambos nos
sentíssemos os donos do mundo, ele por se livrar da miséria econômica e dos grilhões da
justiça e eu por me aventurar para sempre, logo que estivesse em Paris, dentro do cu divinal
de sua diaba mulher.
Eu já advogava há algum tempo para Fernandez, a quem fui apresentado anos antes
por uma prostituta de nome Isabel. Com uma assiduidade mais do que anormal, vez ou
outra ele me chamava para tirá-lo de suas enrascadas. Às vezes, ele era acusado de um
crime contra as crianças que trabalhavam nas fabricas dele...Vocês sabem que esses
malditos socialistas vivem impedindo que as crianças pobres ajudem com alguma renda a
seus pais trabalhando nas indústrias têxteis. Isso porque preferem que eles passem fome,
pois assim conseguem manter vivas as suas ideias mortas. Eu jamais perdi uma única causa,
deliberando com o júri, apenas com o óbvio ululante: se querem que as famílias se acabem,

153
tirem as crianças do trabalho, se o fizerem, cada morte será de inteira responsabilidade dos
senhores!
Se os pais não quisessem seus filhos trabalhando, bastava que eles os tirassem de lá
e, no entanto, ao contrário, sempre os pais que há tempos ali trabalhavam, levavam seus
filhos assim que tivessem idade suficiente para compreender a sua função e o destino de
sua gente. Quase todos os pais trabalham juntos com os seus filhos, assim, se eles perdem
suas mãos quando exaustos, mal nutridos ou quando não frequentam a escola, a
culpabilização jamais deve recair sobre o dono da fabrica, mas sim aos pais que assim
permitem e desejam que seus filhos trabalhem, em vez de simplesmente ficarem em casa ou
que trabalhem e economizem para poder pagar a eles uma escola.
Raros os juízes, júris ou pares nas cortes que não acompanharam os meus
raciocínios quando eu defendia as empresas de Fernandez. O mais preocupante, às vezes,
não era apenas a morte acidental de crianças nas fábricas da qual Fernandez era
frequentemente livrado por mim, mas principalmente, o abuso sexual das mulheres das
fábrica. E o pior de todos os casos de abuso em que ele se envolveu foi considerado um
crime muito maior do que a morte acidental das crianças e, por isso mesmo, muito mais
difícil de defender, já que de um lado havia inúmeras testemunhas, e de outro, o apoio
externo na defesa. Mas mesmo nesse caso, eu pude, por meio de um evento memorável,
reverter a má sorte do homem têxtil e conseguir a sua amizade eterna, o que me fez
posteriormente entendê-la como a mais proveitosa de todas, já que assim eu nunca mais
perderia a chance de me aproximar do cu da mulher dele - por nada nessa vida eu perderia...
Eu não me lembrava do nome dela. Lembrei-me sempre dos olhos tristes, do cabelo
desgrenhado, do pescoço fino e do vestido sujo, maior do que o seu corpo. A empregada da
indústria têxtil que conseguiu (sabe-se lá como) um bom advogado liberal para defendê-la
num júri contra Fernandez, tentou levá-lo às profundezas da lama, sendo até perseguido
pelos jornalistas liberais, socialistas e anti-capitalistas de toda a França. Mas eles me pagam!
Pensei eu. Levarei esse caso às últimas consequências e procurarei produzir o maio número
de provas contra essa mulher. Ela irá pensar duas ou três vezes antes de fazer chantagem
com um gigante da indústria francesa.
Ela parecia pacata, uma pobre vítima do capitalismo; ele parecia furioso, o feliz
beneficiário de um sistema irretocável, ainda que não caiba ao sistema em si corrigir

154
eventuais desajustes sociais; mas esse justamente era o lado fraco de nossa defesa. Hoje,
envenenados pelo socialismo um número muito grande de pessoas de nossa classe, ficam
com dó das pessoas trabalhadoras como se elas fossem criancinhas indefesas que
precisassem de custódia. Pode-se provar isso pelo que se lê nos jornais nos dias de hoje.
Jornalistas inflamam as turbas para se voltarem contra os seus senhores, invertendo a ordem
natural das coisas. Segundo a perversão dos nossos dias: os que governam devem ser
governados; os nobres são pelos plebeus vilipendiados; os chefes ouvem ordens dos
subordinados, os ateus apontam os dedos aos cristãos! Uma inversão completa de todas as
crenças e de toda ordem civilizada.
Certamente aquela vagabunda trabalhadora deve ter sido influenciada a dizer o que
se passava na fábrica impulsionada pelos liberais e socialistas que estão usando a pobre
infeliz para que seus objetivos políticos sejam impostos na sociedade. É a busca pela
usurpação do poder a qualquer preço. Parece que estamos nos encaminhando para um outro
1848, quando a plebe se sublevou de forma a mais perigosa de todas, por causa do seu
discurso teórico perfeito. Mas no que dependeu de mim, em relação a esse caso, a plebe não
teve nenhuma chance conosco! Assim, quando eu tive notícias das exigências dela na
audiência prévia do litígio, por meio da leitura da carta de petição inicial redigida para a
instrução pelo seu advogado, eu quase caí para trás, ao mesmo tempo enojado e rindo às
gargalhadas:

- Minha cliente, a senhora Clara Thébaud, trabalhadora nas indústrias Têxteis


Peres é uma mulher cujo salário é menor do que o dos homens com o mesmo cargo e a
mesmo tempo de serviço. Viemos à essa corte, portanto, demandar a compensação
financeira por vivenciar as seguintes violações sobre seu corpo e a seus direitos:
A) Jornada exaustiva de quinze horas diárias com períodos mínimos de descanso,
com jurisprudência competente resguardada.
B) Indemnização por molestação sexual
C) Indemnização por dannos morais
(...) Para essas referidas acusações pedimos o indiciamento do senhor Fernandez Ruiz
Peres, dono das Indústria Têxtil pela responsabilidade delictual, ou delito de negligência,

155
tanto na difamação da minha cliente, agravo moral, ameaça e tentativa de estupro. (...) A
soma do litígio requerido o valor de 100.000 francos.

Era óbvio, pelas palavras do advogado dela, que era uns 3 anos mais jovem do que
eu, que ele não tinha muita experiência com o júri parisiense, sequer com o direito. Por ser
certamente recém formado e aliás, mal formado, ele não parecia saber que fazia pedidos
que aquele tribunal não seria capaz de acolher. Mas eles estavam acompanhados com uma
pequena turba que pelos cabelos compridos e bigode, juntamente com alguns rapazes de
chapéus anarquistas, faziam um grupo de mal encarados que pareciam estar prontos para
brigar. Não duvido de que algum daqueles pudesse ser irmão, pai, primo ou seja lá que
nivel de parentesco for daquela mulher desgraçada.
Assim, eu não demorei muito para perceber que aquela vadia acabaria sendo
auxiliada por aquela ralé liberal da terceira república que demandavam ao mesmo tempo o
sufrágio, liberdade de imprensa, fortalecimento dos sindicatos, o divórcio, entre outras
palhaçadas patológicas da esquerda radical que, desde 1881, enchiam a sociedade de
perversidade e de malícia. A França de meus antepassados! A gloriosa França napoleônica
já não mais era a mesma... Ao despontar de um novo século, querem agora esmagar tudo o
que conquistamos em termos civilizatórios. Isso tudo era impensável há poucas décadas
atrás! Era uma questão de honra e classe. Era a vitória nossa contra a deles. O que se
passasse ali, deveria ser o que se passará por todo século glorioso que, para a nossa classe
há, de se seguir.
A capciosa malandra queria ver meu amigo preso ou mesmo morto e eu tinha de
reagir. Nós os boulangistas e monarquistas conservadores não tínhamos outra alternativa
senão colocar pra correr a esses republicanos esquerdistas que se escondiam atrás da barba
de Jules Ferry. Não há discurso mais saboroso para nós no qual, por virtude ou condição de
nascimento, advertirmos as grandes massas de seu baixo papel social. Melhor ainda,
gloriosa seja aquela vingança que pode ser cometida em nome da lei, porque fomos nós os
inventores das leis, essas mesmas que nos serviram sempre de guia para que nossa
excelência prevaleça sob a miserável turba ignorante reivindicadora de benefícios sociais.
Assim, o meu plano para conter a avidez por direitos que esses trabalhadores e seus

156
manipuladores tinham já estava sendo bolado ali mesmo, enquanto eu lia aquela maldita
carta de petição de direitos, toda atrapalhada, incompetente e sem classe.
Afinal, com um golpe de sorte e com o meu talento jurídico eu ainda haveria de ver
os policiais arrastando-a para a cadeia por aqueles cabelos crespos feito algodão ressecado
pelo inverno. Eu ainda haveria de receber a notícia de que alguém a engravidou
forçosamente na prisão, para fazê-la lembrar para o resto da vida o que significa confrontar
a seus superiores. Quiçá uma boa notícia haveria eu algum dia de ouvir, saber de que ela
pudesse, por exemplo, ser currada na prisão. Não seria lindo? Eu adoraria pagar a alguns
policiais para dar uma boa lição naquela vagabunda!
Eu sempre havia sido designado para cortes de primeiro grau nos tribunaux de
commerce. Eu sabia que a apelação deles acabaria tendendo, de acordo com algumas partes
do litígio, para fora do campo de minha jurisdição habitual. Eu não podia, sob hipótese
alguma, deixar que eles apelassem a algum Tribunal d’instance, o tribunal local aonde são
tratados os litígios civis. Mesmo assim, era impossível que aquele litígio não fosse
desdobrado e sua causa levada a outro tribunais apodrecidos pelas novas ideias liberais da
esquerda republicana. Esses tribunais estão cheios de juízes mandriões, indolentes e
molengas. Liberais, socialistas e os piores de todos, os comunistas. Segundo essa pior de
todas as ralés, os trabalhadores devem ter direitos garantidos por lei e foram esses malditos
juizecos de primeira instância que forçaram as modificações legais recentes permitindo o
crime que eles chamam de direito à sindicalização. Preguiçosos que não querem trabalhar
quinze horas por dia! Eu trabalho muito mais do que quinze horas, porque um trabalhador
de fábrica não poderia?
Enquanto eu via o rosto de espanto do conciliador ao perceber que a petição teria de
ser desmembrada para diferentes tribunais... com genialidade, antes que ele distribuísse
didaticamente as demandas para cada tribunal eu me adiantei e disse:
- Estou ciente, na condição de advogado de defesa da parte, que os autos ora pré-
estabelecidos não irão atingir os requisitos mínimos necessários para a audiência de
instrução. Não deixemos que outros tribunais se sobrecarreguem com litígios que possam
ser conciliados! A par das dificuldades que essa pobre moça possa vir a ter com o
desmembramento do processo, tais como um longo período de espera e custas processuais

157
para além de sua capacidade financeira, em nome do meu cliente, eu proponho de antemão
um substancial acordo.
Isso não era comum - todos sabíamos disso, é claro. A função precípua da audiência
de instrução é a reunião das partes para que haja uma proposta conciliatória, mas como os
autos estavam mal qualificados pela acusação, não haveria ainda uma audiência e a carta de
petição deveria ser novamente redigida, assegurando que cada pedido seja direcionado ao
tribunal correto. E, ademais, meu cliente sairia perdendo, já que a instrução estava mal
redigida. Assim, o que o jovem conciliador, enganado por mim, não se dera conta foi que,
embora eu me passasse por um ser compreensível e honesto, sobretudo demonstrando
conhecimento do erro do meu rival e ainda assim, me predispondo a fazer conciliação antes
mesmo que se desse entrada no processo, eu justamente evitaria o processo - e era esse
mesmo o meu plano. O advogado dela, de início, se esmoreceu. Era de fato tudo “muito
bom pra ser verdade...” Todos sairiam ganhando, a mulher pobre não precisaria bater em
porta em porta nos tribunais, o advogado dela não passaria a vergonha por ter feito uma
petição criminal mesclada a uma civil num tribunal trabalhista, o aspirante a conciliador
ganharia o mérito de conciliar antes da conciliação formal, os verdadeiros conciliadores se
desafogariam de mais um processo entre os milhares que se avolumam e eu, em minha mais
nobre virtude socialista cristã demonstraria a minha moral e bons costumes diante de uma
pobre vítima do capitalismo!
- E qual é a sua proposta, Sr? Dirigiu-me a mim o conciliador que queria ser juiz
(um belo título esse para alguém tão inocente, não?) - no rosto de quem eu já conseguia
antecipar a alegria de ter “resolvido” um caso antes mesmo de ter sido aceita a petição
inicial. Certamente ele seria visto como um ótimo conciliador, porque eu já sabia, na
medida em que eles desafogavam a quantidade de casos judiciais, eles ganhavam somas
gordas de dinheiro e benefícios anuais. Então, eu ampliei a minha aposta na ignorância
alheia:
Vamos evitar os elaborados e cansativo recursos de apelação, sem contar que a
condição social das testemunhas acabam pecando contra elas e que as provas juntadas ao
processo revelariam uma dificuldade imensa para a consecução dos pedidos da reclamante.
Minha proposta, portanto, é que eu possa ter com o meu colega advogado, por 30

158
segundos apenas, um pequeno a parte a sós. Se vossa excelência me permite, não mais que
esses segundos poderemos resolver toda essa questão diante da justiça.
Capciosamente eu me dirigi ao conciliador, como se ele já fosse o juiz do caso... E
eu sabia que não há adulador maior e beneficiário melhor do que aquele que se dirige ao
deleite do enorme ego de porco de alguns agentes públicos ou de quaisquer seres humanos.
E aquele homenzinho infeliz tinha mesmo um ego do tamanho do mundo. Hahahaha... E foi
isso que permitiu que eu conduzisse tudo a meu favor, toda a chamada justiça, toda aquela
cena cômica. E, igualmente, o advogado dela, não sabia que esse não era o costume da casa
e, portanto, me seguiu a um canto recluso sem sequer discutir ou tentar contra-argumentar
algo com o conciliador.
Como eu sabia que ele se tratava de um mero idealista, eu jamais conseguiria
comprá-lo com os francos de Fernandez Peres - este é de fato o método mais fácil de todos,
mas apenas quando não estamos tratando com jovens justiceiros, sonhadores e idealistas.
Com esses, o que mais vale é o pedido de perdão e a confissão chorosa de toda culpa,
porque assim, pegando-os pelo o que eles mais querem: consertar o mundo, eles lhe olharão
como digno de fazer parte da vida e da existência, porque, afinal, eles, como se fossem os
antigos magos, gênios, santos, bruxos, sentem assim, que foram capazes de fazer
exatamente o impossível: converter a corrupção endêmica do ser humano em misericórdia,
amor e luz. Se eu me “ajoelhasse” diante daquele parasita defensor dos pobres que se pensa
santo e se eu pedisse perdão confessando a enorme culpa de meu cliente, essas ações sim
lhe dariam um verdadeiro triunfo porque, aos olhos desses idealistas, seriam como que
pedidos de misericórdia feito por um humano falho, ganancioso e forte (aristocrata ou
burguês, como eles dizem), diante de um humano perfeito, cheio de retidão, altivez e
perfeição moral (o trabalhador e seus libertadores de vanguarda).
Ora, como a esquerda republicana é indigente!!! Como é fácil enganá-los! Ao
chegarmos num canto aonde eu conduzi meu colega de profissão pelo braço, eu olhei
fixamente para a moça que, juntamente com o conciliador, nos olhavam curiosos como que
na expectativa de que solucionássemos questões de suas próprias vidas. Aliás, vale como
um parênteses, por muitas vezes eu me senti assim na advocacia, a ideia de que outros
esperem que eu solucione aspectos de sua vida sempre me foi muito estranho e ao mesmo
tempo reconfortante. O poder dá mesmo essa sensação em nós. Todos olham para nós como

159
que esperando que possamos dar alguma solução para os impasses que são de todos. É claro
que eu sempre gostei de ter essa força e ter esse poder, no entanto, eu me perguntava: o que
faria alguém entregar nas mãos de outrem, assim, com numa segurança quase que
metafísica, conclusões que certamente alterarão para sempre os rumos de suas próprias
vidas? É uma tal alteração no futuro pessoal enquanto indivíduo que, para esses que são a
maioria, a retórica política mais rasteira terá mil anos de verdade em suas cabecinha pelos
rumos tortuosos dos tempos vindouros. Essa é a prova de que nós das classes abastadas
devemos para sempre conduzir os rumos da história, custe o que custar!
Forçando meus olhos como se fosse chorar e olhando com delicadeza e compaixão
para a moça, como se fosse um ator trágico eu me dirigi ao advogado dela e exclamei:
“Culpado! Culpado! Eu sei que ele é culpado! Eu olho para essa delicada
madmoiselle, ela é tão pura, tão altiva... (mentira, ela parecia um trapo!)... Ela me parece
tão trabalhadora e respeitosa... Não quero nem imaginar que tipo de maldades foram
cometidas contra ela! O Sr. Não as qualificou ali, mas não precisaria, pois eu já as
imaginava todas como a mais suprema verdade...”. E continuei: eu só gostaria de lhe dizer
uma coisa antes de lhe propor uma reconciliação. Sou do partido republicano (mentira, era
mais do que óbvio que eu era monarquista, bastava que as minhas roupas e meu jeito de
falar já o determinassem! Só um retardado idealista para não o perceber). E como um
republicano, eu tenho de pensar antes no sofrimento das pessoas do povo e o quanto elas
são exploradas por indutriais mal intencionados e prontos para tirar vantagem na menor
chance que eles tiverem. Sim! Esse foi o mal que o meu cliente provocou. Eu não sei quais
são exatamente as acusações, mas eu estou pronto para assumi-las todas. Leve-mos ele
para a justiça , e assim daremos uma boa lição nele!
Oh, meus caros e querido pacientes leitores... aqueles me vissem naquelas
desenvolturas todas teriam dito ser eu o maior de todos os atores! Até contra a minha
própria vontade, penso que um dos meus olhos soltou uma pequena gotícula de lágrima
quando eu desferi um ódio gutural contra a burguesia dizendo o quanto ela devia pagar por
seus crimes... Mas não pagar a esse ou a aquele trabalhador, e sim pagar por todos as cruzes
pelas quais os trabalhadores tiveram de suportar ao longo dos séculos e séculos, amém!...
Eu não queria tirar da cruz a Maria Thébaud, eu queria tirar da cruz a todos os
trabalhadores! A partir dali, eu não seria mais um advogado dos malditos ricos! Um

160
advogado que ganha muito, muito, mas muitíssimo bem para defender o poder. Eu iria, a
partir dali, graças a sinceridade, a potência e a verdade concreta vistas nos olhinhos daquela
pura e santa trabalhadora, e sobretudo na garra e diligência revolucionária de seu advogado,
ser um defensor da justiça, e da verdade dos trabalhadores: - façamos sim justiça! Eu disse
a ele, mas façamos juntos, uma justiça muito maior...retire as acusações contra Fernandez
Peres que eu lhe garanto, com a minha ajuda, descobrirei todas as vergonhosas ações dos
burgueses e as colocarei a disposição do povo! Se insistir na ação, provavelmente ganhará,
mas se fingirmos que perdemos essa batalha, juntos, poderemos ganhar a guerra! Nós
vamos tirar de todos os burgueses, os seus bens e direitos de nascimento e de capital e
vamos distribui-lo igualmente ao povo! Este sim é o grande merecedor das riquezas dos
burgueses. E poderemos fazer isso juntos! Eu e você! Eu quero encontrá-lo regularmente
para planejarmos juntos a revolução social!
Ha ha ha ha.....Meus caros e pacientes leitores! E não é que deu certo? Eu nunca
tinha sido tão convincente dizendo tanta mentira! Eu acho que utilizei talvez 3 minutos ou
quatro dos 30 segundos pedidos ao conciliador inicialmente, mas eu tinha certeza que se eu
fosse bem sucedido, todos nós ficaríamos felizes, exceto, claro, aquela vagabunda
trabalhadora que ademais não entenderia nada do que se passou e qual era o exato papel
social dela na vida das relações Indivíduo-Estado: ser uma inerte massa de manobra.
Depois que o advogado dela disse sem lhe explicar nada: está tudo resolvido! O
caso está encerrado! Não há mais litígio. Tudo não passou de um engano! Aquela vadia
trabalhadora estava com um olhar vazio e tonto, ainda querendo entender o ocorrido.
Parece que eles até têm alguma inteligência, porque ela olhava mais para seu próprio
advogado incrédula vendo que ele ainda não conseguia esconder seu sorridente semblante,
e para o conciliador, que também não havia entendido aquele desfecho tão inusitado, do
que pra mim, o principal responsável pelo início de sua desgraça. Em breve eu enviaria um
pequeno presente para ela guardar dentro da boceta dela!
Com as novas demandas dos trabalhadores e de seus sindicatos sendo auxiliados por
juízes e advogados da esquerda republicana, os patrões tinham começado nojentamente a
perder uma a uma de todas as causas trabalhistas que chegavam aos tribunais. Como eu
vinha acompanhando isso de perto, especializando-me em comércio exterior, vi que as
grandes empresas eram as que mais sofriam com esse tipo de assédio trabalhador e o capital

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estava de antemão em sérios apuros se a inteligência, a atitude, a aptidão e a astúcia não
tomasse o seu lugar de direito.
O advogado dela estava tão pacificado e tão generoso no olhar que assim que ele
disse “não haverá mais litígio”, e tão logo que ele fez a sua cliente assinar a retirada das
acusações, sem mesmo antes explicar para ela o que estava acontecendo, e assim que o
conciliador, em sua fantasia egóica, sentiu que tinha ganho um caso em juízo e que isso lhe
valeria uma promoção ou ao menos uma “citação por bons trabalhos”, o advogado dela me
cumprimentou efusivamente e foi logo na frente de todos dizendo despudoradamente:
temos muito o que conversar.... Aguardo-o nas reuniões regulares, às quintas-feiras as 20h,
na câmara sindical têxtil. Paul Baé, em pessoa estará lá e eu gostaria de apresentá-lo ao
senhor.
Quando aquele idiota falou no nome do indigente do Baé, não tive dúvidas...Foi aí
que eu percebi que valia muito a pena oferecer sim dinheiro a ele. Não para a propina, por
ele ter livrado um burguês da prisão, pois isso seria visto como “pecaminoso” aos olhos de
um idealista, como ele, mas seria um dinheiro para a “revolução”, a sua religião mais
ardorosa... o uso do dinheiro para a “revolução”, seja de qualquer fonte for, é perfeitamente
aceitável por todos os revolucionários! Eu sei que, ademais, ele iria utilizar com ela uma
parte daquela “grande soma”, ainda que não fosse nem 1% do que Fernandez teria de
desembolsar se aquele litígio perdido fosse pra frente... Ela, afinal, mesmo com esse parco
dinheiro, acabaria por ceder e julgar-se “vingada”. E certamente ela seria “vingada”, já que
fiz Fernandez pedir desculpas à ela e jurar que a recontrataria e a trataria como uma
“princesa” nos meses seguintes, para não descobrirem do plano que eu tinha para reverter
toda a situação a nosso favor! Fazer o mesmo com muitos outros casos, auxiliando outros
advogados da nossa rede).
Ao dar aquele dinheiro ao advogado dela, eu imaginava, e ainda hoje o imagino, que
estaria fazendo aquilo que sempre faço quando necessário, isto é, assegurar os interesses
dos meus clientes nem que seja pela força monetária, mas ao dar dinheiro a ele, da minha
parte seria uma propina como agradecimento pelo o que ele fez por todos nós (inclusive por
aquela idiota a quem ele representava, pois ela nunca tinha visto tanto dinheiro assim na
vida) e um valor a ele também, já que ele estava convencido de que teria convertido um
filho de um burguês para a luta revolucionária. Ora, ora, ora, na Paris dos meus

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antepassados! Que ingenuidade era essa que fazia dos republicanos esquerdistas pessoas tão
burras para acharem que conseguiriam o que acham que querem: igualdade? Imaginem eu
me igualar com aquela ralé? Como eu poderia me igualar Newton ou a Charles Darwin?
Que espécie de igualdade seria útil a quaisquer seres humanos se de ante-mão somos todos
desiguais desde o nascimento e essa desigualdade que se acirra ao longo do tempo de vida
de cada um? Eu nunca consegui entender a esses indigentes, e por isso mesmo eu nunca fiz
muito esforço. Apenas aprendi com eles mesmos que eles não passavam de uns religiosos
no mundo político! Tinham uma crença divina no que chamavam revolução, seja lá o que
isso significasse, e eles fariam tudo para ver o povo pobre acreditar piamente mais nisso do
que em Deus e que os profissionais liberais, professores, médicos, advogados especialistas
de todas as ordens, fossem também convertidos para essa “religivolução”, pois sem nós,
não seria possível jamais que esses usurpadores chegassem ao poder. Eis os motivos pelos
quais ele brilhou os olhos quando eu menti ao dizer que eu estava do lado deles.
Assim, eu fiz com que o meu rival saísse sorrindo, com dinheiro “revolucionário”
no bolso. Um dinheiro fácil, que consegui apenas extorquindo uma dona de um bordel. Não
era sequer dinheiro de Fernandez. Por isso que, quando cheguei no escritório Peres
fumando, como de hábito, o meu cachimbo e com meio sorriso nos lábios, apertando com
os dentes a piteira. Fernandez não se conteve e, para tentar entender as razões da minha
felicidade, já se adiantou:
- Então, o que você conseguiu? Conseguiu pelo menos fazer a petição deles ser
reduzida ao problema das 15 horas?
- Não, meu caro Fernandez! Consegui fazer com que eles retirassem todas as
queixas!
Tornei-me, dali em diante, um eterno amigo de Fernandez e de sua adorável e loira
esposa satânica. E Fernandez não se conteve de alegria quando soube de como ganhei a
causa e ele tornaria esse feito memorável mandando gravar uma moldura de ouro o
documento que marcava o fim do pior litígio armado contra ele, deixando o quadro em sua
sala à luz de todos que o visitassem, como se fosse um quadro de Da Vinci. E, ademais, ele
queria por isso mesmo me encher de dinheiro, o que graciosamente aceitei, obviamente,
apesar de que eu gostaria mesmo de tê-lo recusado, já que foi apenas a minha astúcia,
aliada à burrice de todos que vivem da ganância de alimentar aos seus próprios egos, os os

163
vitoriosos naquele dia e estes que são ao mesmo tempo os verdadeiros juízes de todos nós.
E por descobrir isso, eu não merecia nem mesmo um centavo. Tudo o que eu pudesse vir a
querer agora, eu já o possuía; antes da parte dela e agora da parte dele. Assim, digo em
resumo que tudo do quanto eu queria, agora e para sempre o eu teria: nada além do cu loiro
e delicioso de sua esposa, a mulher que veio do frio.

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Furores Renascentistas ou Como Eu Fiz Alguém Gozar Apenas Pondo em Prática a
Leitura de um Livro de Libertinage Erudit, de um Anônimo Italiano

Não tenho muito a lhes dizer sobre minha última passagem por Florença. Mas achei
que seria digno de nota se pudesse contar uma ou duas situações que me fizeram preencher
com um pouco mais de notas esse meu pequenino diário do absurdo.
Não que eu quisesse contar vantagens a vocês a respeito de minhas aventuras
sexuais. Espero que, à essa altura, já tenha ficado claro que, a despeito de eu ter mesmo
uma vida sexual dinâmica, ela em nada ficaria para atrás de qualquer jovem da minha idade
ou de minha classe. Se meus amigos não contam isso em diários não é porque não o
vivenciem. Quantas não foram as inúmeras vezes em que eu, ainda na tenra idade juvenil
há pelo menos cinco anos atrás, não tive a ilusão de estar contando originalmente alguma
aventura que acaso alguns de meus colegas já não a tivessem vivido? Hoje mesmo,
múltiplas são as estórias que pretendendo serem originais, e que não passam do corriqueiro,
principalmente entre nós jovens da classe alta, mas abundam nos jornais, em panfletos
clandestinos ou mesmo em hebdomadários mensais. Talvez essa minha profissão que me
forçou a viajar de navio no exterior me forçasse ainda em assegurar, de algum modo, pelo
menos algumas de minhas memórias dessas aventuras do nosso tempo, condicionadas pelos
temperos locais e pelas variações nos tons de peles, nas línguas, na forma de se vestir e de
ser de cada um dos povos os quais eu pude visitar.
Mas Florença era ainda Europa... Acho que nunca houve nada ali na Itália, desde o
renascimento, que não ocorresse em quaisquer outros lugares, sejam em grandes e ricos
países sejam mesmo nas ilhas remotas da Europa, haja vista que a velha Europa, como a
conhecemos, nasceu exatamente ali - na época do trecento. E se nesse tal de trecento, ainda
não houvesse ocorrido os mesmos tipos de lambusações sexuais como as depois
vivenciadas durante o quattrocento, que não seja apontado o dedo da culpa às inocentes
história e geografia, senão Calígula, Nero, Heliogábalo, Tibério, Sade, Henrique VIII,
deveriam estar contidos num cinrcunflexo específico seja ela chamado Europa, seja ele
chamado globo terrestre, para que as suas ações depravadas fossem histórica e
geograficamente definidas e pontualmente entendidas e explicadas.

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Mas não! Bem ao contrário! O que difere a época e a região de Giotto de Andrea di
Cione e outros da região e da época de Pisano, Antonio Pisanello, Simone Martini, e
Duccio, não são os motivos pelos quais houve um aumento das crônicas e autobiografias do
período florentino, mas porque houve um aumento progressivo no ideário de que o
pensamento racional e iluminista, em contraposição às forças religiosas e obscuras da
superstição fosse o grande vencedor entre o mundo antigo e o medievo. Assim, o resultado
último da vitória da luz sobre as trevas seria o gozo da vida contra o suplício estóico, no
qual o maior inimigo de gênio seria mesmo Sêneca, Marco Aurélio, Confúcio, Zoroastro ou
quaisquer outros moralistas e estoicos com ou sem gênio algum - padres e pastores de todos
os tempos, por exemplo, ou todos aqueles que ajudaram a nos meter nas trevas do
obscurantismo.
Mas Florença já estaria livre do estoicismo há séculos. Quando a libertinage erudit
se espalhou pelos salões, igrejas, universidades e bibliotecas da França do século XVII,
Florença já tinha tido as suas próprias experiências de “libertinagem erudita” em séculos
anteriores. Não quero com isso tirar a originalidade de nós franceses na tarefa teórico-
prática libertina. Ocorre que, com a herança cultural e sangue romano correndo nas veias de
cada italiano e por sua vez nas veias das pessoas de cada grande cidade mediterrânea, o
verdadeiro iluminismo é latino e começou nas tabernas, nos prostíbulos, nos conventos, nas
universidades, nos bares e nas casas de bem nascidos, sendo que cada toscano, ou seja cada
florentino, arezzense ou sienês ou mesmo cada veneziano, milanês, cada um dos homens,
cada uma das mulheres, os devassos de Turim, Pádua e Gênova, depravados de Sorrento e
de Trieste, Parma, Ancona, Mântua ou Siracusa, não importa - todos somos herdeiros de
Pompeia! Nossa grande mãe Vesta, nosso guia Cupido e nosso enorme hábito sacerdotal
foram os nossos guias para a instituição do que chamamos hoje de Europa. Não é a toa que
nos tornamos cristãos e compreendemos o verdadeiro sentido do evangelho. Foi a
promiscuidade que gerou a luz... Eis, então, o sentido verdadeiro do gênesis. E disse Deus:
Haja luz; e houve luz. Crescei-vos e multiplicai-vos; e crescemos! Na entranhas de cada
mulher e cada homem da face da terra concentra-se a origem de sua mais íntima
racionalidade: a vida civilizada.
Durante toda a alta idade média a Itália inteira gerou inúmeros escritores livres dos
dogmas, pensadores livres, promíscuos que se portavam discretamente e sobretudo

167
libertinos de espírito capazes de fazer de sua inteligência brotar múltiplas concretudes em
torno dos seus próprios sexos e dos de alheios também, claro! Não devia ser absolutamente
à toa que a filosofia não nascesse apenas do “espanto”, “maravilhamento”, que se diz em
grego θαυμάζω - “thaumazoo”, como queria Aristóteles, mas viesse também do “questão”,
“questionamento”, “pedido”, que se diz em grego ἐρωτάω - “erootáoo” - de “ereção”,
“erotico”, “eros”... Se uma das mais importantes ginásticas da Paideia era alargar o cu dos
jovens meninos para que esses mesmos jovens da aristocracia e não outros fossem
verdadeiros homens, não era absolutamente à toa que o erootáoo fosse o questionamento
que lhes levaria à luz da sabedoria aristocrática. Que haja a luz, portanto!
Caros e pacientes leitores, eu vos poderia conduzir pelas mãos e fazê-los
acompanhar as mais belas e picantes estórias das alcovas de cada uma das supracitadas
cidades italianas, a maioria das quais eu tive o prazer de ficar por pelo menos uma semana
no verão. Ainda enquanto eu era só uma criança, meu pai, que amava as prostitutas italianas,
me fazia dormir com o rosto entre as pernas delas, fazendo aqueles travesseiros de pelos
maus cheirosos compor uma parte quente entre os meus sonhos e delírios de infância.
Passei uma meniníce, por isso, a menos reclusa possível. Acostumei-me a adormecer e a
babar por entre uns piolhos pubianos, os mesmos os quais meu pai me fazia comer,
mandando as prostitutas ficarem em silêncio para que eles ouvissem o estalar daqueles
insetos entre os meus afiados dentes de leite. Mesmo que tivesse falhado e engolido alguns
ao longo de minhas experiências aperitivas, eu, da minha parte, que queria sentir o orgulho
másculo vindo da pose que eu fazia ao meu bêbado pai, os mastigava sem deixar
transparecer qualquer nojo ou medo. Que excelência paterna, não acham?! Mesmo não
querendo filhos, eu certamente tive a quem puxar!
Mas não, senhoras e senhores, não vos posso tomar muito mais do vosso precioso
tempo com todas essas estórias que os senhores próprios poderiam contar melhor do que eu
e enumerar aos milhares ao quadrado, já que são muitos e eu sou um só; já que são
omniscientes (os olhos que a tudo podem ver e ler), omnipresentes (as mãos que avançam
nas páginas da vida aonde quiserem) e omnipotentes (as mãos que, ao bel intento, fecham a
esse pecaminoso livro e assim eliminam num estálo todas as registradas histórias por mim
vividas criando a minha morte). Desta feita, restringir-me-ei a lhes assegurar uma bela
fusão de duas histórias, uma das quais eu li em Florença, e a outra eu próprio a vivi na

168
região central de Toscana. Não que se tratassem de distintas histórias, mas que uma havia
sido tirada da literatura e a outra de uma ligação desta com a realidade - eram as minhas
mãos, pés, nariz, língua e mente de cientista que me fizeram aglutinar uma estória irreal
dentro de uma história real. Permitam-me, portanto, entreter-vos mais uma vez!
Como eu já havia dado exemplos outrora, é para a região italiana de Toscana,
particularmente para a cidade de Arezzo que eu costumo ir quando quero sentir-me vivo
envolvido em tanta beleza natural herbal ou humana quanto me for possível nesta face da
terra. Ancestrais muito antigos nossos viviam em Pisa e muitos de nós córsicos somos
como que primos distantes deles. Mas era em Florença que encontravam-se as mais dadas
mulheres de toda Itália. Entre todas as cidades toscanas, o máximo de beleza espontânea
comungada com o máximo desejo involuntário e franco de abrir as pernas, somente pode
ser encontrado entre as mulheres de Florença. Quem, por acaso, então, deveria ser aquela
florentina que servira de modelo para que Botticelli emprestasse a sua digna beleza para
fixá-la em sua pintura “O Nascimento de Vênus”, afinal?
Era a respeito disso o que eu estava me referindo.... Eu experimentei tantas mulheres
lindas da região de Toscana que não exagerariam fazer-me associar a Giacomo de
Casanova, le chavalier de Seingalt. É claro que li os seus volumes todos e com avidez em
viagens que fiz pela Europa. Mas, em verdade e em verdade eu vos digo: em nenhum lugar
daqui (nem mesmo Kiev ou Amsterdã, Veneza, Copenhagen ou Budapeste) encontram-se
mulheres tão cheias de tesão quanto na região italiana da Toscana. A mulher Toscana é uma
deusa do amor e não há uma só donna da região da Toscana que não seja capaz de fazer um
homem chorar de prazer no leito. Experimentem-nas meus caros leitores e leitoras, aqueles
que ainda não o fizeram saberão que eu estou dizendo a verdade... E aqueles que já o
fizeram, já são meus companheiros e nossas vozes falam em um só tom sobre elas... É algo,
não sei..., talvez esteja no sangue e em seu suor, algo que nos enfeitiçam, a ponto de nos
fazerem querer até chorar logo após o gozo - é impressionantemente saudável, aliviante e
bom! Nada há de equivalente do que gozar e chorar sobre una donna Toscana.
Mas algo ocorreu na minha viagem para Arezzo que mudou um pouco o sentido do
desejo que eu tinha por encontrar mais uma Toscana para em cima dela poder chorar.
Houve o atraso de um dia que se mostrou determinante para que eu pudesse sentir algo
diferente mais uma vez. Demonstrando para mim que o que buscamos, sendo o

169
maravilhoso, os percalços no caminho podem ser ainda mais produtivo, desde que eles não
nos impeçam de conseguirmos casualmente esse bem. Imaginem vocês que uma carruagem
que nos levava a mim e ao jovem hospitaleiro natural de Arezzo Caio Ballarini foi
irremediavelmente quebrada e destroçada por malditas pedras que sabotadores deixaram
deliberadamente pelo caminho! Para que não viajássemos a cavalo, gentilmente cedidos
como substitutos para a carruagem, tivemos que encontrar uma pousada de beira de estrada,
e acabamos por encontrar um pequeno chalé de todo não tão indigno de nossas exigências,
mas certamente um lugar inóspito para os nossos finos gostos. Era uma casa feita de pedras,
como as mais antigas de toda Toscana, mas sem estilo algum, reformada e que queria fazer-
se passar por medieval. A parte principal do chalé era rodeada por ciprestes, árvores ponte-
agudas e estranhas, porque não possuem caule aparente, e eram vistas ao longe como se
fossem imponentes colunas de 6 metros de altura compostas apenas por folhas verdes,
fincadas ao chão como eram as antigas estelas ou os obeliscos ultrafálicos dos romanos. Na
lateral da casa, havia uma grande escada que dava a um pavimento superior. O que gostei
foram das grandes janelas transparentes que me permitiam ver todo o conteúdo interno da
casa, inclusive as belas mulheres (provavelmente empregadas) em delicada curiosidade e
beleza capazes de estontear a quaisquer viajantes. Foi ali de cima que eu pude ver que algo
de muito bom e produtivo que não me faria perder meu tempo ali.
Eu já estava prevendo, com aquele o atraso inesperado, chegaríamos em Arezzo já
em pleno domingo, em que a piazza grande estaria abarrotada de grotescos transeuntes para
assistir aquela selvageria ignóbil da Giostra del Saracino, uma palhaçada inventada não sei
por quem que recria num espetáculo teatral cômico a luta medieval entre cristãos e mouros,
todos vestidos supostamente à moda antiga dos tempos de Gregório VIII e Inocêncio III.
Como eu tinha horror a aquilo, decidi convencer il giovane Baillarini a passar mais um dia
ali próximo de Fabro, e somente seguir viagem a Arezzo um dia depois, na manhã de
segunda-feira, “quando a vida barulhenta dos malditos festeiros já deverá ter terminado”.
Eu não precisei muito para convencer ao meu amigo Baillarini porque ele, de fato,
se interessou ardentemente por uma viajante que trabalhava nos telégrafos. Uma pequenina
e sorridente loira, com rosto fino, e com dentes pequenos. Parece que ela viajava com seus
superiores de posto, fazendo viagem oposta à nossa. Assim, tudo o que ele tinha de fazer
com ela, fosse o que fosse, teria de ser muito rápido, a considerar o que passamos naquela

170
tortuosa estrada, e também porque viemos de Roma e não da muito mais longínqua Nápoles,
que era o destino final em direção ao qual eles iriam partir! Era o dever de Baillarini dizer
a eles que saboteadores haviam fechado a estrada de Fabro e que, para chegar a Orvieto,
eles teriam de fazer uma viagem um pouco mais lenta tentando ir por Ficulle e de lá chegar
a Pian Del Vantaggio e tentar seguir em direção sudeste para o pozzo di San Patrizio, aonde
eles queriam visitar a fonte milagrosa antes de seguir para Nápoles, tal como segredara a
loirinha a Baillarini: per espiare i peccati.
Que valor poder-se-á encontrar na vida se a cada passo construtivo que damos outra
centena de passos destrutivos marcham os grosseiros de coração? Como poderíamos
imaginar que aquela sabotagem pudesse não nos tirar da nossa rota, mas nos colocar na rota
certa? Tal havia sido a insistência de um dos cocheiros de nos levar em dois
desconfortáveis cavalos até Arezzo, que ele, ao nos ver incrédulos de tamanha ousadia,
quase que forçou uma senhora que vinha conosco a fazê-lo em nosso lugar, sendo depois
pago pelo esposo dela a levá-los pelo menos até Montepulciano, pois ele tinham parentes
por lá. Há aquelas pessoas irremediáveis que vivem de contrariar os outros, especialmente
os dignos, os seres positivos, os seres comunitários por excelência. Agora, por que existe
ou devem existir pessoas no mundo desejosas de tanto desprezo pseudo-inteligente sobre as
pessoas em sua simplicidade? Disso eu não sei! Eu sei que as desprezo de maneira igual ao
perceberem em mim alguém “como eles”, como finjo ser para reconhecê-los, entrego-me a
certeza de que são estes mesmos os que não merecem de mim a menor atenção. Odeio
gente que perde seu tempo a tentar provar o quanto os outros estão errados. Odeio gente
que perde seu tempo tentando justificar a sua verdade, inteligência ou saber acusando a
falsidade, burrice e ignorância de outrem. Era o que aquele cocheiro idiota estava tentando
nos fazer entender que àquela distância de Fabro, não encontraríamos lugares adequados
para repouso e que seguir a cavalo era a coisa mais inteligente a ser feita. Ora, da minha
parte, eu teria afinal a chance de ver com meus próprios olhos que aquele cocheiro estava
completamente errado, graças a Deus!
Mas essa estória não começa de fato em Arezzo, em Fabro ou mesmo nas
estradinhas que me levavam a meu paradiso. Essa história começou há alguns meses antes,
quando eu estive em Florença a pedido de um padre designado para lá, e que era natural da
região de Veneto e amigo de minha família. Ele precisou dos meus préstimos como

171
advogado para livrar-se do fisco, haja vista que parte dos bens da família dele em Verona e
em Pádua estavam sendo escoados para o ralo do desde que impuseram a tassa sulle
farine e por causa de outros impostos os negócios da família estavam quase que indo à
bancarrota. Foi muito fácil organizar a ele a metodologia básica aprendida na universidade
de como se livrar de cobradores de impostos - paga-se a eles até a metade da quantia devida,
a depender do poder, ganância e poderes dos fiscais do governo e se livra do desafio com
50% de perda.
Ocorreu que de outra maneira mais violenta já haviam solucionado completamente o
problema financeiro do meu amigo padre Biondo, como carinhosamente chamavam suas
jovens admiradoras, quando eu cheguei por lá. Contudo, para que eu pudesse me alegrar,
sabendo que eu não podia perder a viagem, meu primo me colocou em mãos um livro
bastante antigo, com uma belas e douradas imagens, com marginálias, nos cantos das
páginas... Ele me segredou que irresistivelmente roubou o lindo volume da coleção de
Domenico Moreni quando visitou o Palazzo Medici Riccardi. Foi um outro padre cujo
nome eu não fui dado a saber que o introduziu a esse maravilhoso texto que, pelo
vocabulário, devia mesmo datar del Seicento, sabe-se lá que ano exatamente, pois não havia
no livro indicações nenhuma da data de sua publicação. Era certo, contudo, que algum
florentino o havia escrito, mas de forma anônima. Uma longa nota que serve de prefácio o
denuncia, porque, à maneira do florentino Petrarca, esse anônimo alterna a língua latina
com seu dialeto natal florentino. Seu título, quase bucólico, pode certamente lançar
algumas dúvidas sobre a o talento contido nele: “Spiriti Forti, et Feminarum Vestimenta”,
mas, ao contrário, as cachorradas escritas ali em latim são pra deixar as saias de quaisquer
padrecos sem vergonha levantarem-se por si mesmas a fim de que se faça por eles algo pela
frente ou por trás, que os tire de sua imensa necessidade de experimentação de todo dito e
historiografado no livro, mas agora em suas próprias ventas - eis alguma maldição deliciosa!
Eu próprio, digo-lhes, leitores, lambia os meus beiços a cada uma daquelas estórias
lidas num latim limpíssimo, digno de um notório escritor da igreja do século XVII, o que
suponho ser o seu escritor por causa de alguns detalhes cujo conhecimento devia ser o de
um clérigo de patente não menor do que a de um Bispo. Nada ali havia de estórias chulas,
de devassidão contra ícones sagrados ou mesmo a putaria quotidiana encontrada no lado de
dentro de quaisquer conventos da Europa de todos os tempos. Aquilo ali era a mais sagrada

172
e fina pureza do sexo contada de forma poética e generosa, e em algumas dessas linhas
garantia-se o direito a suspiros românticos e a galanteios cômicos à la Boccaccio.
E, certamente, o autor devia ser um amante de literatura italiana porque algumas
cenas me lembraram a majestosa De mulieribus claris. Eu digo isso porque o modo como
esse anônimo descreve em seu livro a importância de Sibila de Cumas8 em sua vida, seguia
ipsis literis o modo como Bocaccio a biografou em seu livro “As Mulheres Famosas”. Sua
personagem, também de nome Amaltheia, era uma mulher quase idosa, ainda linda e cheia
de profecias que se cumpriam. Uma dessas estórias, a considerei a mais saborosa de todas,
e era aquela em que dizia haver uma contra-maldição por ela viver como idosa por mil anos,
tal como foi a maldição lançada sobre ela por Apolo: ut apud Ovid nuntiavit “assim como
nos contou Ovídio”, diz o anônimo. Uma maldição, dizia também, que “seria tão ruim
quanto a dela” e que seria lançada contra os leitores jovens que por ventura estivessem
passando os olhos naquela estória, sem o consentimento da velha. E a maldição seria a
seguinte: aqueles que tivessem idade maior do que cinquenta anos (isto é, aqueles que
tivessem a idade dela ou fossem mais velhos) que continuassem sem rodeios a ler aquela
estória, pois estes não sofreriam consequências algumas. Mas aqueles que, advertidos agora,
fossem mais jovens do que isso, deveriam fechar o livro imediatamente, senão,
amaldiçoados após a leitura daquele texto sombrio, passariam a ter desejos insaciáveis por
pessoas de mais de cinquenta anos. Quanto mais jovens fossem, mais velhos seria o seu

8
Descrita nas eclógas da Eneida de Virgílio, tanto quanto nas Metamorfoses de Ovídio e no
Satiricon de Petronius, Amaltheia, a Sibila de Cumas, foi a principal sacerdotisa de Apolo e da qual originou
nome às outras “Sibilas” (sacerdotizas que incorporavam divindades e faziam previsões do futuro). Estas a
homenagearam atribuindo a si, o nome e com ele o poder dessa sacerdotisa, uma humana tão poderosa e bela
que foi capaz de seduzir o próprio deus da harmonia, equilíbrio, beleza e razão. Ao se aproximar daquela
linda jovem, o próprio deus não resistiu a seus encantos, prometendo-lhe o que ela pedisse, em troca do seu
amor. A jovem, que na verdade queria eternizar a sua juventude, mas efetuou mal o seu pedido, disse com um
punhado de areia nas mão: “eu quero viver um ano para cada grão de areia que carrego”. E isso lhe foi
concedido, porém, mesmo tendo o dom da profecia desde menina, na jônia (atual Turquia) ela não foi capaz
de prever que esse era um teste do deus Apolo, quanto a distância entre o seu desejo e a sua lealdade. Ao
recusar o seu amor ao deus ele a amaldiçoou, mantendo o prometido de fazê-la viver por quase mil anos, mas
envelhecendo naturalmente, ja que ela “se esquecera” de pedir também que ficasse eternamente jovem
durante esse período de vida. Tendo se ressecado até caber num vaso e aos que se aproximavam dela ela dizia
que o seu único desejo era morrer. N. do T.

173
objeto de amor indesejado. E os velhos aos quais se apaixonassem seriam, em verdade,
jovens leitores amaldiçoados nos quais a bruxa se incorporaria, sugando a sua juventude a
partir do sexo e a partir do amor que esses jovens fizessem, tão logo que estes não
seguissem a prevenção feita pela Sibila Amaltheia.
Meus caros e pacientes leitores! Que alegria para mim estar diante daquele livro que
de vista ninguém pagaria por seu enorme apreço, pois, de vista, não parecia senão outro dos
inúmeros tediosos sermões latinos encontrados nessas coleções bibliófilas fedidas. Aquilo
não! Eu estava diante de uma verdadeira obra de arte literária! Estranhei até que aquele
autor não pudesse ter deixado seu nome para a posteridade, um nome que certamente
ficaria ao lado de um Giulio Cesare Vanini, ao lado de um Pierre Bayle, François De La
Mothe Le Vayer, ou de outros grandes mestres da perversidade. Havia ali também, em
meio as bucólicas cenas de interior, inúmeras Pyschopathia sexualis para Von Krafft-Ebing
nenhum botar defeito!
Para cada qual daqueles a quem ela amaldiçoar, dizia o anônimo “Dos Espíritos dos
Fortes e os Vestidos Femininos”, ela irá bloquear a própria maldição que teve sobre si e
rejuvenescer a si própria ano a ano, contra-feitiço a contra-feitiço, até que voltasse a ter a
idade que tinha quando foi amaldiçoada por Apolo. Como ela chegara na exata metade de
sua vida, de acordo com a maldição grega, para que ela rejuvenescesse, ela precisaria então
de uns 455 heróis jovens que lessem a estória e não temessem a própria maldição que ela
lançara. E já parecia óbvio que nós jovens, seja porque não resistamos a uma tentação, seja
por queiramos intrepidamente testar a veracidade de tal estranha “maldição” sempre
insistimos em continuar lendo, e com isso, continuar pecando e sendo amaldiçoado pela
velha cinquentenária com mais de mil anos. Não preciso dizer que foi o que eu,
particularmente, o fiz para a alegria da Sibila Almatheia, que eu viria afinal a conhecer,
talvez não tão por acaso, bem longe de Florença, e sim naquele chalé cheio de ciprestes
próximo a Fabro, quando a carruagem em direção a Arrezo quebrou devido à uma
sabotagem na estrada.
Oh, meus caros pacientes, a saber, eu seria evidentemente um daqueles que daria
com prazer, em detrimento da minha, um ou mais anos de vida para aquela velha; desde
que soubesse que passaria por uma duas, três, dez daquelas sensações novamente. Sim, eu li
inteiramente aquele conto, e lhes digo, que história foi simplesmente de tirar o fôlego! A

174
cada linha que meu olhos passavam por aquela maldição literária, mais esperança de que
aquilo não passasse da mais pura verdade me enchia de comoção e vontade de experimentar
tudo aquilo. Meus testículos me denunciavam! Deslizando suavemente no céu do meu saco
escrotal lentamente como se fossem pássaros que planam em torno de uma montanha, ao
ler aquele livro, eu sentia cócegas maravilhosas que antecediam centenas de milhares de
ereções seguras que estavam por vir nos próximos minutos, uma para cada linha, com
direito a um gozo para cada atividade libertina. Enfiar o meu pinto numa mulher de mais de
cinquenta anos! Como ainda não...? A simples possibilidade de poder experimentar um
corpo velho, que jamais tinha passado em minha cabeça até então, inundou meu corpo com
um calor de prazer que me fazia querer ler mais rápido aquele conto e me satisfazer muito
mais do que estava me satisfazendo ao apenas fantasiar com uma realização desse sonho,
dessa nobre maldição.
O cabelos dela eram cinza escuro, restava-lhe agora poucos cabelos pretos entre um
emaranhado de fios acinzentados. Os cabelos curtos dela eram cheirosos...sim eu podia
sentir esse cheiro profundo dela advindo de dentro daquela literatura. Sedosos como as
folhas de um livro antigo, e com odores de fazer mergulhar nossos narizes neles, os cabelos
dela eram como páginas acizentadas que me enchiam de desejo de manipula-los. Não havia
meios possíveis de que algum escritor, mesmo que este fosse algum gênio literário, pudesse
descrever o prazer que é sentir o cheiro daquela cinquentenária retratada na história daquele
livro. E mais do que amor pelas palavras, aquilo que eu estava sentindo realmente era amor
pela personagem Amaltheia. Eram os seus lábios finos, suas rugas ao redor dos olhos e as
que acompanhavam a silhueta de sua boca como se fossem leves raios de sol matutinos à
espera de aconchego o desejo de beijá-la. Não me comoviam mais seus olhos joviais do que
sua pele branca flácida, suas avermelhadas marcas solares na forma de pequenas pintas ao
longo de seu corpo e a maneira delicada, segura e convincente de uma mulher madura e
independente.
Foi logo ao subir as escadarias do chalé de beira de estrada próximo a Fabro e me
deparar com aquelas pessoas visíveis por meio das grandes janelas transparentes que me
deparei com alguém que, como eu a via em minha cabeça, cumpriria todas as características
daquela mulher cinquentenária descrita no livro daquele Anônimo florentino. Ela não se
destacava só das outras pessoas ao redor, mas ela se destacava para mim. Talvez o único

175
aspecto que eu podia distinguir entre as duas, entre a senhora literária e a senhora que
estava ali diante de mim fosse o fato de que a minha Almatheia real era bastante alta, o que
é raro entre as italianas em geral, mas não tanto entre as toscanas. Foi muito depois que eu
descobri que, na verdade, ela não era toscana e sim, uma mulher de origem sul eslávica e
que portanto toda aquela altura tinha origens familiares pregressas. Ela partiu fugida de
Laibach há 15 anos e imigrou para Itália por causa do pan-germanismo austro-húngaro,
uma versão similar da liga pan-germânica criada recentemente após o tratado de Zanzibar.
Sendo um tanto mais alta do que eu isso me forçava a curvar um pouco a minha
cabeça para falar com ela e, desconsertado pelo inusitado da situação, as minhas primeiras
palavras vieram acompanhadas de uma hesitação estranha. A minha voz sumia de minha
garganta e gaguejei por mais de um minuto, o que raramente ocorrera em toda a minha vida.
Ela certamente estava provocando algo em mim, seria a paixão, seria a maldição? Ora,
fosse o que fosse eu não haveria de desistir justo agora. Bem ali diante dela, paisagem
montanhosa e permanentemente estável que estava ali muito antes de eu nascer. Ela era
tudo do quanto eu mais precisava na vida, como dizem “água para a minha sede e descanso
para os meus olhos” - uma mulher idosa.
Ainda divisando aquele corpo alto não muito distante de mim, eu me distraí com as
minhas mãos num pequeno pote em cima do balcão. Era um punhado de Peperoncini, uma
pimenta calabresa saborosa que estando já em minhas mãos, inconscientemente e sem
querer eu recolhi alguns gomos aos bolsos. Sim! Isso é estranho, caros leitores, eu não tinha
objetivo consciente em recolher aos meus bolsos algumas pimentas, mas quando de súbito
algum impulso me tira do meu centro emocional, seja por vergonha ou por constrangimento,
defensivamente eu sempre coloco as minhas mãos no bolso. Já me avisaram disso outrora, e
tampouco consigo dizer o por que disso. O fato é que, assim que aos poucos eu fui me
recompondo eu pude fixar os meus olhos nos dela e imediatamente aquilo começou tão
rapidamente quanto foi possível. Eu já não queria saber se ela tinha vindo a aquele chalé só
ou não, se era viúva ou casada. De fato, eu nunca soube nada dela, o pouco que eu soube
foi o mínimo, a respeito de suas origens eslavas - se é que devessem ser verídicas - mas
isso eu descobri numa investigação que eu próprio fiz, passado o “feitiço”, antes de deixar
o chalé, mas que ocorreu quatro dias depois do planejado com Ballairini, numa quinta-feira
e um dia depois que ela própria partiu sabe-se lá para onde! Isso, meus leitores! Ela não

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deixara pistas, dicas ou rastros sequer para onde foi, e enquanto esteve ali, aumentando o
mistério, ela não manifestou sotaque algum. Ou melhor, ela tinha sotaque de Roma, pois
falamos em italiano o tempo todo durante a sua estadia. Mas fiquei um dia a mais ali da
quarta para quinta-feira porque aquele cheiro suntuoso de mulher ainda estava impregnado
nos lençóis dela que, seguramente, os levei em furto comigo para Arezzo e os exibo até
hoje em meu quarto.
Da primeira vez que a vi, passado o susto inicial e vi que a minha gagueira cedia eu
olhei fixamente para ela e me senti mais confiante, pois seus ternos olhos avelãs
demonstraram suave prazer ao me verem.
- Da dove vieni straniero? Disse-me ela sem sotaque algum num italiano puríssimo.
Ela de certo teria visto eu conversar com a camareira, tentando imitar os trejeitos toscanos,
algo que mal consigo, a despeito de eu conhecer razoavelmente 5 línguas da Europa e do
oriente. Como um viajante, um sotaque é sempre perceptível por mim e sei imitá-lo com
alguma segurança, embora eu não consiga mantê-lo na conversação por muito, muito tempo.
Enquanto que eu sabia que haveria de denunciar minha condição de estrangeiro, da parte
dela ela jamais o denunciou.
- Vengo da Roma, ma sono nato in Corsica! Respondi alegremente e forçando o
meu sotaque estrangeiro para que a divertisse. E eu continuei:
- Viajo com meu amigo Caio Ballarini, natural de Arezzo, para aonde nos
dirigíamos, até que a nossa carruagem ficou bloqueada por causa de uma sabotagem aqui
na estrada perto de Fabro.
- Não sinto pena por ti, já que por mim eu sinto feliz em te conhecer. E pelo que
percebi de teu espanto ao subir a escada externa e nos espiar do lado de fora pela janela,
que tampouco deva estar guardando para si algum remorso de ter feito a escolha certa.
Meus caros e pacientes leitores, que palavras certeiras! Eis o que em definitivo, dali
por diante eu considerei uma das mais importantes qualidades femininas: a inteligente
espontaneidade. As palavras fluíam da boca dela como se estivessem sido preparadas ali
por anos. Tratava-se de uma dessas modernas oradoras que lutam pelo sufrágio feminino?
Tratava-se de alguma aristocrata eslava em disfarce? Uma escritora de talento, talvez? Para
além da presença absoluta de seu cabelo acinzentado e de suas rugas explícitas, eu não quis
lhe fazer perguntas e não quis nada dela que não fosse aquela espontaneidade mesma.

177
Hesitei por cerca de vinte minutos, enquanto conversávamos no saguão, para chamá-la ao
meu quarto e verificar se aquela espontaneidade podia ir além de um belo rosto e daquelas
belas palavras. E o ímpeto de minha surpresa não me deixou escondê-la quando, sem dizer
palavra, passou as mãos em minhas costas quando ela própria convidou-me a seu quarto -
algo que fiz imediatamente naquele fim de tarde e que me faria permanecer ali, enfeitiçado
com o cheiro dela, até depois que ela fosse embora do chalé.
Ao chegar em seu quarto, havia poucas coisas ao redor, mas umas iluminarias
orientais me deu o mote para uma de minhas últimas perguntas, antes que eu me fizesse
entender:
- Dove li hai trovati? Conosci il oriente?
- Li ho comprati qualche anno fa da un viaggiatore!
- Se ti piace, puoi tenerne uno.
- No! No! Non lo farei esso
Peguei em suas mãos, olhei profundamente em seus olhos como o havia feito lá
embaixo na recepção... Beijei, primeiramente, a mão direita e quando ia repetir meu ato
com a esquerda, ela se soltou e longamente me beijou diretamente na boca, sem me abraçar.
Depois de três ou quatro pausas para respirar ela fez que ia se despir, mas preferiu sentar-se
com pouco fôlego e apontar-me um roupão de banho como se pedisse para que eu trouxesse
para ela. Assim que eu trouxe o roupão, sem dizer uma única palavra, ela pegou meu punho
direito e me fez sentar em seu leito, e assim que ela me deitou ali, ela acariciou
serenamente o lado direito do meu rosto e de súbito foi se banhar.
Eu não podia acreditar, lá estava eu no quarto de uma mulher cinquentenária e
certamente eu faria sexo com ela. Como devia ser vivenciar aquilo pela primeira vez? Tudo
para mim era novo. Quando nos beijamos, havia algo de passional e ao mesmo tempo terno,
macio e vagaroso como quando nós éramos crianças e minha avó, retornada de Marselha no
inverno, sempre nos levava, eu e meus irmãos para tomar sol e brincar na praça Foch com
aquela majestosa Fontaine aux Quatre Lions, que eu tanto amava. Mas eu não sabia porque
os meus pensamentos me levavam para Córsega de outras eras. Há tempos que não resido
lá! As lembranças de minha vida na Córsega, seu cheiro, sua presença branda e elegante, a
sua suavidade eram como uma baforada do ópio que de pronto me tomaram e aquele som
de água delirante na banheira do chalé era o próprio som das fontes da minha terra natal. A

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voz daquela mulher que me chamava, era como que a própria voz da minha própria falecida
mãe, que sequer cheguei a conhecer. e eu sabia disso. A voz da cinquentenária misteriosa
era a voz da sabedoria, da verdade e do amor. Não hesitei, portanto, investido da
possibilidade de voltar de onde eu sai, penetrar novamente os recôndidos uterinos, mesmo
ainda nem de todo despido, entrei naquela banheira quente e perfumada na mais maternal
visão das falésias Piana crescendo mais e mais em nossa direção como quando partimos de
navio de Marselha em direção à nossa amada Córsega.
Não sei em que embaraço obnubilado que minha mente pairava ou quantos minuto
eu já estava mergulhado de volta ao colo da mais protetiva das mães, já havia escapado do
meu pênis aquela gotícula esbranquiçada que antecede o maior dos prazeres, eu estava
pronto para inundar a sua boca quando de pronto me recordei de onde aquela cena advinha.
O Livro florentino! Claro! O livro que tinha como personagem central Amaltheia e sua
maldição! Eu fora amaldiçoado! Isso era mais do que evidente! Como não o percebi antes?
Claro que eu estava sendo ligado realmente à uma estória literária e a sensação de
obnubilação do pensamento era a prova que me faltava... Amaltheia tinha uma cena na
banheira em que ela sugava a vida juvenil de alguém que havia lido a sua estória, sem ter se
prevenido para tal, já que a prevenção dela era rígida: que não leiam os jovens que não
quiserem ser amaldiçoados e se apaixonarem para sempre por idosos! O meu espanto
repentino, que fora percebido por ela na banheira, mas provavelmente ela o confundiu com
a figuração do gozo, a forma que nossas faces adquirem no momento ideal de nossas vidas,
ela implicou em bloquear imediatamente a minha vontade de gozar ali mesmo dentro em
sua boca com um movimento brusco. O que fiz, foi abusar da minha afronta à literatura,
essa bruxaria, e seguir os passos um a um de tudo aquilo que havia sido dito a mim
naquelas palavras amaldiçoantes de Amaltheia. Ela disse que era para não ler e eu li... Ela
disse que se lêssemos, sendo jovens, nos apaixonaríamos por mulheres velhas e eu de fato
acabara de me apaixonar! Se mais duas de suas profecias se concretizassem ali, eu saberia,
por fim, que eu teria encontrado ao mesmo tempo duas belezas, a verdade literária e a
verdade crua da vida: a certeza de gozar com a pessoa certa deve ser a busca a fundamental
- ter nos braços a uma mulher cinquentenária de verdade. As mulheres cinquentenárias não
engravidam, não são medrosas e não são pudoradas, então, eu poderia testar linha por linha,
palavra a palavra, milímetro a milímetro de cada uma das letras do Spiriti Forti.

179
E foi o que eu fiz, caros pacientes! Pedi para ela esvaziar e voltar a encher a
banheira com a água mais quente de todas... Enquanto isso, de súbito, querendo refazer
todos os passos literários que eu havia decorado, lembrei-me de que havia aquelas pimentas
no bolso da minha calça. Assim que a água estava pronta, tomei coragem e coloquei a
minha amiga Amaltheia real sentada na beira da banheira escaldante, pus vendas em seus
olhos com um lenço e a coloquei com as mãos amarradas para trás, de onde eu pude
controlar cada um de seus movimentos, enquanto ela sentia o calor da água da banheira
subir por suas costas. E depois que ela se sentou, ela não poderia se soltar ali por nada nesse
mundo. Tendo ela concordado e feito de acordo com a descrição que eu tinha em minha
mente, eu entrei vagarosamente na água fervente e como quem não sente mais os pés, a
canela e o joelhos... fui seguindo a sequência literária como se tivesse a honra e a glória de
vivenciar cada linha da fantástica literatura. Demorei alguns segundos para tomar ainda
mais coragem e, por fim, mergulhei meu quadril inteiro cuja dor penetrante fez com que
meus lábios se recolhessem. A essa altura já estava em minhas mãos alguns gomos daquela
pimentinha italiana, sendo assim, coloquei-os inteiramente dentro de minha boca e os
mastiguei com enorme gosto, dor e bravura.
Ó, meus sábios e experientes leitores! Quantas provas seriam ainda preciso para que
me retirasse da certeza de que é sempre possível explorar o mundo dos sentidos muito mais
do que hoje pobremente o exploramos? Agora lá estava eu com o saco escrotal fervendo e
minha boca em chamas de frente à bunda flácida de uma mulher cinquentenária, pronto
para vivenciar mais uma fulgurante felicidade, que se demonstraria uma das mais copiosas
de todas as sentidas.
Não se enganem! A Amaltheia literária, por sua vez, aquela bruxa flagelada, havia
me informado que o produto a ser mastigado era armoracia rusticana, ou a raphanos
agrios, como ela a chamava, mas, certamente, seja aquela planta, seja aquela pimenta,
ambas teriam um efeito igualmente deletério em minha boca, mas, meus pacientes, aonde
eu encontraria essa planta ali, naquele quarto de chalé de beira de estrada no meio do nada?
Então, timidamente eu tive de me permitir à essa pequena modificação na estória daquele
maldoso e apetitoso livro. Mas quando a minha língua estava suficientemente adormecida
de dor, espalhei com as minhas mãos água por toda a costa da Amaltheia real, que via
naquela brincadeira sexual também uma impressionante fonte de prazer. As gotas de água

180
quente liberaram pela primeira vez alguns sonidos de prazer da boca dela e o arfar de suas
narinas começaram a ficar mais fortes. Eu queria mais.... Engoli parte daquele fogo que me
atormentava para sentir mais prazer. Os beijos que eu milimetricamente oferecia a cada
omoplata gentilmente, e ainda a maneira como eu deslizava os meus lábios pela sua espinha
molhada até chegar nas beiradas de seu ânus, agora aberto por minhas próprias mãos,
faziam minha amiga delirar com gritos cada vez mais perceptíveis para fora daquele
banheiro, para fora daquele quarto... e para dentro do mundo. Eu sabia que o grito mais
profundo de todos seria aquele constituído do maior de todos os prazeres... E nós, de fato o
ouvimos, quando a minha língua toda ardente foi recolhida de forma certeira e repentina,
bem dentro do cu dela que, até àquela altura, não se dera conta da pimenta ardente que eu
tinha em minha boca. E eu fiz isso exatamente como mandou-me o contrato literário o qual
segui, aceitando-o passo-a-passo, fazendo a minha amiga também experimentar. Enquanto
eu enfiava e graciosamente brincava, já há alguns minutos, com os meus dois dedos do
meio aquecidos pela água quente em sua vagina e no seu grelho mágico, os gritos dela
permitiam-me saber que ela finalmente gozara, graças à libertinage erudit do anônimo
italiano.
Sim, ela gritou muito, mas como eu a segurava pelas mãos e agora também a tinha
cingido com um dos meus braços a sua cintura, ela não pode se livrar de mim, de minha
língua e do desejo (ou reflexo, como posso saber? ) que ela sentiu de entrar na banheira
com a minha língua ainda tentando manter-se dentro do cu dela conosco nos afogando na
água quente, pois percebi que não era só o meu rosto que a água cobria mas o corpo inteiro
dela estava de todo mergulhado na banheira, e só retirei minha língua dali para respirar
quando vi que sem fôlego ela retirou sua cabeça para fora da água gritando:
- PER U CELU, AMORE DI DIO, CHE GIOIA, CIÒ DILIZIOSO!!!!
Depois de alguns minutos prostrados ali na banheira, ainda suavizando a delicia de
nos saber vivos. Dei beijos apimentados em seus lábios e a sua língua parecia querer passar
para dentro de minha boca. Depois de duas vezes eu gozar dentro de seu cu, sentindo ainda
a penetrante agulha apimentada ferir também a cabeça de meu pinto, estávamos saciados e
plenos. Aguardando-me dizer algo sobre aquilo tudo, ela sorria ao meu lado ainda dentro
da banheira. Eu tentava encontrar as palavras para dizer hesitantemente para ela de onde eu
tinha tido essa original ideia. Mas, em seguida, me veio de súbito um sábio pensamento:

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A ideia do anônimo com esse texto e a tal da “maldição” que ele criou, se tornou tão
evidente para mim e não era outra coisa senão incentivar o relacionamento entre jovens e
velhos e reforçar que se deva considerar como uma tremenda tolice a distância entre as
idades! A sensação de prazer pode ser tão picante quanto aquelas entre dois jovens, basta
que se siga um plano e que esse plano, se for executado com prazer, o resultado ser-lhe-a
correspondente. E foi o que ela disse depois de ouvir o que eu tinha a dizer sobre aquilo:
Que esperança digna foi para mim poder encontrar um parceiro com quem dividir
experiências como estas. Descobrir casualmente esse escritor anônimo foi uma grata
satisfação da qual brotou um grande respeito por sua alma complexa e tão versatilmente
rica, Ti amo, giovanotto!
Aquilo não era exatamente romântico, mas eu gostava do jeito estranho de como ela
me falava. Tendo se ressecado daquela água que a essa altura já não estava tão quente
quanto nossos corpos e nossas almas ainda estavam, ela olhou-me com olhar tenro e amplo
de uma mulher gigante como quem transmite pensamentos e o que eu havia pressentido até
ali, uma divisa certeira e definitiva: seu único desejo era viver.

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A História da Madame Buffon e Seu Maduro Bandido Marido

Talvez se lembrem de quando eu lhes falei a respeito da Madame Buffon, uma


amiga conterrânea que mora hoje em Estrasburgo. Certa vez eu estava em sua janela a
observar as crianças em suas inesgotáveis brincadeiras, quando vi uma delas ser raptada.
Pois bem, tal como eu havia prometido, dessa vez eu gostaria de falar algo não sobre essa
cena terrível que presenciara, mas algo mais antigo, algo que ocorreu há muito mais tempo
atrás, bem na época em que eu tinha poucos anos de vida, embora a Madame Buffon nessa
época já fosse bem uma mocinha - ela conta dez anos a mais do que eu. Essas lembranças
de infância são belas recordações dos anos passados que valem cada uma um milhão de
francos para quem as vivenciou!
Antes de contar-lhes a história da Madame Buffon, cabe dizer-lhes que ela fez parte
da minha época de meninice. E que época, caros leitores! Não perderiam o vosso precioso
tempo se se sentassem para me ouvir contar um pouco de tudo quanto aconteceu lá atrás.
Então, que espécie de infância foi a minha? Ora, acredito que fora a melhor que poderia ter
sido para um órfão adotado por sua avó. Por isso sempre que houvesse crianças ao meu
redor, as respectivas mães, com muita dó do meu destino, nunca sentiam que deixar seus
rebentos brincarem sozinhas comigo pudesse evocar algum tipo de perigo.
Chegava momentos em que perfilaram em minha frente três meninas sentadas de
pernas abertas, uma de tez morena de ascendência espanhola de nome Andréia na extrema
direita, a outra, uma loira de ascendência portuguesa de nome Adriana ao centro e outra era
minha própria irmã, morena da Córsega. Abaixei minha cabeça até as pequenas vaginas
com pernas abertas... Comecei pela Andréia, que sorriu e animou as outras a também o
sentirem. Fui para Adriana, minha preferida, depositei mais confiança, o que me mostra que
também fui animado pelo sorriso da primeira. Adriana gargalhou...Tudo durou segundos,
fiz novamente... outra gargalhada... Eu também sorri! Olhava pra ela quando ela me disse
extasiada: “Você enfiou até o fundo!”... “Faz em mim também!” - Exigiu a minha irmã. Eu
o fiz. E ela se frustrou com sua voz infantil: “Você não foi até o fundo! Você não foi até o
fundo!” Eu insisti. Estiquei a língua dentro de sua vagina infantil até não poder mais. E ela
repetiu as mesmas palavras enquanto eu tentava ultrapassar o limite da minha própria
língua até sentir dor: “Você não foi até o fundo!Você não foi até o fundo!...” Repetiu a

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frustrada. Andréia a interrompeu para pedir mais daquilo e sorriu. Seguida da loirinha
Adriana, muito estimada, que pediu mais e repetiu gargalhando de prazer infantil. “Foi até
o fundo de novo!!!”. Eu já não mais sabia se elas estavam competindo entre si para saber
quem tinha mais prazer ou não, o fato deu ter podido experimentar isso já na tenra infância,
em meus seis ou sete anos de vida determinou amplamente o que adviria nos próximos
vinte anos depois.
Madame Buffon era a irmã mais velha de uma delas, mas que não estava naquela
tarde de domingo comigo e com as minhas queridas amigas há vinte anos atrás. A
irmazinha dela era Francesca, um doce de criança, alguém cuja pele begemente leitosa já
me fez lamber ingenuamente o bracinho dela pra ver se ele também tinha o gosto do leite!
Demorei quase vinte anos para segredar com a Madame Buffon o que ocorria naqueles
tempos na Córsega. Elas eram tão apegadas... tão apegadas que, da primeira vez que contei
essas histórias a ela, menti dizendo que amava Francesca desde pequenino, para evitar más
interpretações... Depois ela acabou intuindo que meu amor por aquela fofinha era tão
grande quanto meu desejo de enfiar a língua em sua linda e redondinha entrada principal.
Nada precisava que eu mentisse ou inventasse história alguma, sobretudo depois do
belíssimo casamento de Francesca com o Conde de Lambert ocorrido no ano passado.
Atuantes do teatro, ouvia-se sempre ruídos de personagens, enquanto eles faziam
isso no quarto da casa delas: eram os seus pais ensaiando uma nova peça:

- não me venha dizer que pensa e vive como aquele guerreiro contumaz da capital...
se o fizer lhe digo que virei como donzela apaixonada a lhe pedir que fique, que não
apresente-se herói, que não dê maiores ouvidos aos instintos teus que aos meus...

- embora eu o ame, alguma coisa me diz que eu não devo abandonar o real em
nome deste desprestigioso mundo das sombras, essas esquinas esfumaçadas de neblina
noturna, esse palco vertiginoso das narrativas.

Eu não me recordo em nada de que peça ou a que autor pertencia esse texto.
Lembro-me que achei essa passagem muito curiosa e, só para treinar a escrita, a reescrevi
num papel, ora já amarelado pelo tempo. Enquanto seus pais treinavam a fala no quarto

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deles, eu treinava o falo no quarto de Francesca, já que, ainda muito pequenino e sem
ereção espontânea, eu obtinha para isso uma ajuda inesperada. Como que por uma eureca
científica, Francesca aprendeu como fazer o meu pipi ficar ereto para que pelo menos
roçasse contra a sua linda, despenada e rosadinha pererequinha. Segredo: ela fazia eu beber
bastante água e não deixava que eu fosse ao banheiro! Assim, na medida em que eu queria
muito ir ao banheiro, meu pintinho se enchia de aflição e se “excitava” com aquele roçar no
meio das pernas dela, permanecendo magicamente ereto.
Ora, como essa brincadeira começou e o que ela tem a ver com Francesca, irmã da
Madame Buffon? Como todas aquelas vizinhas, sem exceção, eram meninas mais velhas do
que eu, em torno de nove, dez, onze anos, elas sempre me tratavam como a um “filhinho”.
Certa vez, diante de tanta brincadeira exploratória no corpo que eu sequer me lembrarei
com exatidão, porque eu as imaginava inteiramente inocentes (apenas hoje tenho certeza de
que não eram), Francesca me viu caminhando por perto e pediu que eu viesse em sua
direção. Ela estava sentada numa cadeirinha de balanço de ferro e cordas construída pelo
seu próprio pai e especialmente para ela. A cadeira era grande o suficiente para duas
crianças pequenas como nós, mas como ela tinha nove anos e eu acabara de fazer seis, foi a
minha inocência que me fez imaginar que estava sendo convidado apenas para se sentar
naquela cadeirinha tão linda e única. Mas, não! Ela queria brincar de gangorra. Pediu que
eu me sentasse em cima da vagina dela como se a cintura dela fossem o corpo de um cavalo
e eu fiz. Mantive as pernas abertas em cima dela, segurando as suas mãos no encosto da
cadeira e com o rosto espantado bem rente ao dela. Depois de alguns momentos no balançar
da cadeira, ela começou a esfregar quase rudemente as pernas dela contra as minhas coxas
me abraçando e sorrindo. Eu não sentia nada, mas como eu via a modificação de seu rosto,
eu percebi que algo estava ocorrendo de absolutamente novo ali. Era o sexo, ou a
preparação para ele. Perdoem-me, meus pacientes, éramos crianças, sentia o sexo pela
primeira vez nos braços de uma pequena menina loira de nove anos de idade!
Depois disso nos apressamos em experimentar mais. Francesca era impávida! Quase
nunca queria brincar de outra coisa senão algo que pudesse ter-nos roçando o seu corpo.
Olhando retrospectivamente eu fico sem graça de falar, mas aquela menina tinha de fato
práticas sexuais bastantes estranhas. Algo deve ter acontecido como que algum ato fatal
para que ela tivesse esse furor uterino em tão tenra idade. Eu sei que seu outro irmão, o

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mais velho com mais de dezesete anos era um total pervertido. O loiro Pedro, por mais de
uma vez quando eu tinha seis anos de idade me apalpou, enfiou o dedo no meu cu (sem
penetrá-lo, graças a Deus!) e fez com que eu o masturbasse até que ele gozasse dentro de
uma meia preta de seu pai, fazendo-me ver pela primeira vez o sêmen (que eu não julgava
ser outra coisa que não um transbordante e estranho leite qualquer). Eu, repentinamente,
tive pena e medo de que Francesca tenha passado pelo pior com relação ao seu perverso
irmão - isso deixa marcas. Mas, o fato foi que ela me ensinara a sentir isso também e eu
agradeço a ela por isso, porque, não fosse essa maravilhosa iniciação ao mundo da
perversão, eu, provavelmente, seria apenas uma daquelas crianças que só ficam dentro de
casa, tornam-se pais aos vinte anos e trabalham numa mesma coisa a vida inteira, sem
viagens, sem novidades, sem sexo fora do casamento, sem alegria. Francesca me ensinara a
buscar sempre mais e esse mais lhe daria o poder da presença efetiva da vida e a esperança
no hoje como mais frutífero do que a esperança num devir, sempre incerto, inapreensível,
entediante e banal.
À essa altura, Madame Buffon era chamada de Julie. Seu nome de solteira era
Juliette Agostini, mas, como se casou com um industrial franco-germânico, ela passou a ser
chamada de Madame Julie Buffon. Ela era uma adolescente tímida, recatada e tinha
preferências por homens mais velhos. Por mais de uma vez eu a vi chegar na presença de
homens que pareciam ter a idade do pai delas, que eu presumia sem pensar muito se tratar
de tios ou parentes dessa ordem. Nunca eu dei importância a isso, exceto por um senhor
muito fino, de óculos e um longo bigode branco que se enrolava em ambos os lados como
se fossem enrolados rabos de macacos pendurados a cada lado do seu nariz. Ele portava
sempre uma cartola preta bastante elegante e parecia bastante cortês.
Dezesseis aninhos, a futura Madame Buffon, devia estar apaixonada por aquele
velho septuagenário perfumado! Como afinal se fez surgir uma ideia tão repugnante em
minha cabecinha ainda por demais infantil? Eu a vi suspirar um dia, assim que ele a deixou
em casa no fim de uma tarde. Alguém havia me dito que “se apaixonar” era “suspirar” e
víamos isso, realmente, nas cenas de apaixonados que os pais delas representavam em
nossa frente, como se fôssemos público para isso! Nas cenas românticas, sempre havia o
momento em que a mãe delas suspirava de contentamento e por paixão. Ora, devia ser isso!
Pensara um certo eu, ainda mirim...

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Julie se encantara por aquele idoso, sabe-se lá por que razão! Até então, eu
imaginava que os casais só poderiam ser jovens... Nunca tinha suposto que um idoso
pudesse beijar uma jovem que não fosse apenas na mão. Caros pacientes, e não foi apenas
nas mãos que Julie foi beijada por aquele bigodudo. Ela fora beijada, obviamente em todo o
corpo sem exceção de um único milímetro. E eu soube disso da boca dela própria por
detalhes inebriantes naquela mesma tarde do sequestro da menina já contado antes, minutos
antes dela me oferecer aqueles doces com recheios alcoólicos. Se o sequestro não tivesse
ocorrido e eu não tivesse saído em socorro daquela menina, talvez eu teria mais detalhes e
ainda outras histórias para lhes contar, mas do pouco que soube, não poderia deixar de
registrá-lo para que outros pudessem comigo saborear do que é saudável e bom. Deixem
portanto, que eu lhes conte como foi a história pregressa da Madame buffon, sua infância
como filha de atores de teatro, sua juventude como sedutora de idosos e seu casamento com
um rico industrial de pai francês e mãe alemã nascido em Lorena, Friedrich Buffon.
Aos quatorze anos, quando teve a sensação pela primeira vez, Julie estava diante do
espelho penteando seus longos cabelos castanhos claros e cacheados com um lindo pente de
madeira lisa e encerada. Ela não estava nua, mas diante do espelho, com poucas roupas,
começou com mais persistência a tocar as partes íntimas de seu corpo que estavam a se
modificar e a crescer muito rapidamente. Quando a menina se torna púbere, diferentemente
de nós, cujas experiências com mudanças corporais dessa ordem almejamos por pelo menos
mais de dois ou três anos antes de acontecerem, finalmente ela se sente muito incomodada,
especialmente com o aumento repentino dos seios. Por exemplo, Julie viu que seu mamilo,
da noite para o dia, engordara e se tornara redondo, disforme e mais vermelho do que o
habitual. Teve um susto e imaginou que algo de errado estava acontecendo com o seu corpo,
supondo uma doença incurável. Tendo falado para sua mãe que quis imediatamente
averiguar, ela a acalmou e disse sorrindo simplesmente:
- Pronto, chegou a hora!
Sem dizer mais nada, como se provocasse a certeza de que aquela “doença
irreversível” que todas as mulheres adultas tem houvesse alcançado a pobre filha. Demorou
alguns meses até que sua mãe a procurasse novamente para lhe falar o que era de fato a
menstruação, o que era o sexo e como ela deveria se portar melhor dali em diante. É certo
que a mãe dela era uma figura bem aberta em relação a isso. Presumo que ela até não ligava

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que eu continuasse a ir lá e ficar sozinho com sua filha... afinal, tínhamos só três anos de
diferença, e já era de se supor que o início do despertar de sua filha pudesse encontrar em
mim um ótimo objeto de prazer, já que sempre fui inteiramente pronto para ser fruto de
experiências minhas e alheias. A mãe dela certamente devia saber o que fazíamos ali... Não
sei... Nunca tive coragem de lhe perguntar e essa era a única coisa que eu pensava durante o
funeral dela em 1885. Mas com a filha Julie, isso não era exatamente assim. Ela estava com
dezesseis anos, então, e não com nove como a irmã mais nova. Algo devia ser encarado
com mais seriedade e, de fato, o corpo da mulher púbere guarda mais responsabilidade e
segredos do que o corpo de um homem de qualquer idade. A gravidez, a sífilis ou outra
coisa pior sempre rondou os corpos das meninas mais jovens, porque desprevenidas e mais
desprestigiadas corporalmente. “Apenas quando se casar poderá sentir o prazer do sexo,
mas agora não!” Reforçava sempre a sua falsamente severa mãe, que havia engravidado há
17 anos, tivera três filhos e não se casara até aquela data.
Mas não demorou muito para que Julie quisesse aumentar a segurança que sentia ao
se desnudar na frente do espelho segurando o pente. Com o tempo, ela foi aprendendo a
fazer mais coisas com aquele pente roliço nas mãos. Com o passar dos meses, a angústia da
solidão a tomara. Estava já com quase dezessete anos e ela não via nos meninos de sua
idade alguém com quem pudesse experienciar mais daquelas sensações. Algumas meninas
do colégio já tinham experimentado isso. Pelo menos era o que elas diziam. A sensação que
mais descreviam do sexo era a de que uma faca entrava e saia delas pela parte de baixo. E
que isso só doia muito quando a faca queria penetrar cada vez mais fundo ou cada vez mais
rapidamente: Com o tempo você se acostuma com essa faca, e passa a querer mais dela,
até ela quase lhe matar! Diziam suas amigas gargalhando...
A primeira vez de ninguém é satisfatória, certa vez ouviu sua mãe dizer pra
frustrada filha de uma amiga que se casara a pouco tempo. Isso a intrigou. Como será a
minha primeira vez e com quem será? Esses sonhos juvenis foram de quando em quando
chegando próximos de se realizar. Ela já sonhara sonhos úmidos com seu pente de madeira
em punho pensando em todos os meninos mais bonitos do colégio - mas sem muita
satisfação. Numa dessas madrugadas quentes em que se exercitava sozinha em seu quarto,
repentinamente lhe veio em mente, sem que ela mesma quisesse, a imagem do seu
professor de latim: Dumenicu Vanini. Mesmo que o susto não a tivesse feito sentir nem um

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tipo de repulsa pela imagem daquele sexagenário, ela não queria aquilo e tentou
mentalmente trocá-lo por outro. Não conseguiu! E a cada tentativa de modificar a
mentalização, mais e mais ela se sentia excitada e mais ainda sem conseguir tirar da mente
a imagem daquele velho severo.
Depois que ela terminou de se masturbar pensando sem querer em seu professor de
latim, ela ficou algum tempo sem pegar em seu pente, exceto pela manhã quando
habitualmente o colocava entre os cabelos de sua cabeça. Mas com a chegada do dia da
aula do Professor Vanini na quinta-feira, alguma apreensão passou por sua cabeça e era
algo de fato do qual ela nunca mais iria se esquecer. Uma mistura de vergonha com prazer,
algo que fazia seu coração disparar. Ela não queria sentir aquilo justamente com um
homem idoso e ainda mais com o seu professor, mas ela não podia impedir, principalmente
a partir do momento em que ela começou a perceber melhor o jeito elegante dele se vestir, a
imagem de límpida integridade que ele passava e o modo como tirava o lenço da lapela
para delicadamente limpar os lábios, a testa e depois de beber alguns goles d’água depois
de recitar sabiamente de cor aqueles belos versos agostinianos:

pondus meum amor meus; eo feror, quocumque feror


O meu amor é o meu pendor; ele me leva aonde quer que eu vá

As aulas de latim de repente começaram a fazer lhe muito sentido. Nunca reparara
ou dera algum crédito naquele professor e agora as palavras dele ganhavam um enorme
significado. Tudo que saia de sua boca entrava nos ouvidos dela com a garantia de
permanecer ali com uma potência divinal que lhe permitia absolver os conhecimentos da
língua latina como se ela tivesse nascido para isso. Que magia pedagógica é essa que a
empatia amorosa torna um desinteressado cultural num especialista?
Sim, meus caros, Madame Buffon é conhecida hoje em toda Alsácia por sua
habilidade com a língua latina, sendo que um de seus trabalhos majestosos começou a ser
recentemente desenvolvido em Munique com uma equipe de latinistas. Um gigantesco
volume de dicionário lexicográfico, da cultura e das ideias latinas: o Thesaurus Linguae
Latinae. Como uma das melhores especialistas na área, falante fluente de francês, inglês,
grego, latim e alemão, ela foi chamada por seus méritos pela casa de Hohenzollern para

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atuar no campo científico do estudo do latim e essa equipe deu o início há alguns meses do
levantamento do léxico latino total que deverá durar mais de cem anos!
Acredito que ela é um exemplo clássico de como é possível sair da ignorância para o
conhecimento através da Paideia, através da ἐρωτάω - “erootáoo” - de “ereção”, “erótico”,
“eros”. A paideia (educação) cuja realização se encontra mesmo na paiderastia, ou na
relação sexual-mental entre o mestre e o discípulo, era o caminho do conhecimento para os
meninos gregos. A apreensão do saber se relaciona à retórica, à persuasão, à sedução
provocada pelo mestre em relação ao discípulo. Entre os gregos isso era chamado
pederastia, a penetração do mais velho no mais novo. Da philia (amizade) nasce a sabedoria!
Aquele amor que sentiu pelo seu professor conquistou a ela o amor à língua latina,
mas rapidamente foi comutado e dividido mais uma vez para outros homens mais velhos.
Dumenicu Vanini era a primeira imagem desse furor que a levaria ao conhecimento, mas
ele era tão frio quanto as declinações do caso ablativo. Então, intuitivamente, ela soube que
a sensualismo que pressentido nele poderia ser comprovado em outros velhos não tão frios,
quanto um professor de latim. O melhor de tudo é que o que o velho Vanini fez por ela em
sua descoberta da língua latina era, ademais, aquilo que os outros velhos não podiam dar e
vice-versa. Assim, ela soube distinguir em sua busca por Eros o que era uma coisa e o que
era a outra, tirando vantagem de ambas.
Ela insistiu e tentou fazer o mesmo com alguns garotos mais novos, alguns da idade
dela, e com outros um pouco só mais velhos e nada disso deu certo. O desejo dela estava
mesmo relacionado a uma certa idade que passasse dos quarenta e que principalmente
passasse dos cinquenta e que se, pelo menos chegasse aos sessenta anos, tudo era visto por
ela como o suprassumo do maravilhoso. Era como se o vinho velho fosse vertido nela, um
odre novo em folha, pronta para ser penetrada, invadida e defendida por braços de idosos
bastantes safados e generosos.
Ao chegar os dezoito anos, Julie já tinha certeza do que queria: a presença de um
homem maduro. E isso foi feito. Em segundo lugar, foram pequenos os flertes com amigos
de seu pai, em geral, casados, tipos os quais ela sempre hesitou. De outra feita, ela
conseguiu reunir-se com alguns viúvos. O primeiro foi o Dr. Luca Dacomo, dentista com
quem ela se tratou do ciso, o segundo foi um instrutor napolitano aposentado Lorenzo
Galiotto, o de bigode de rabo enrolado de macaco - era esse o septuagenário com quem ela

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mais se enturmou, e por isso que eu tanto os via juntos durante a minha primeira infância na
Córsega!
A preocupação que ela tinha em preferir os viúvos e separados era porque ela sentiu
que podia contar melhor com esses e evitar embarassos com relação às esposas daqueles,
esposas para as quais ela não devia nada, mas sempre colocava a sua prudência na frente de
seu ímpeto de ver preenchida sua vagina por homens bem mais velhos do que ela. E esse
vício nunca foi, como todos sabemos, um desejo muito incomum entre as mulheres. Como
são objetivas, as mulheres conseguem enxergar muito mais adiante do que nós no quesito
vida social, sexual e familiar. Enquanto nós homens caçamos, as mulheres criam a cultura.
E por “caçar” inclua-se ter em mente o fazer sexo e todas as pequenas coisas ao redor disso,
desde ser bem sucedidos para termos o melhor e mais variado sexo, até trabalharmos por
horas a fio em um ambiente desagradável com vistas no status que aquele ambiente adquire
entre as mulheres, com as quais, a propósito, queremos fazer sexo.
Cuidar bem das nossas crianças porque as mulheres que nos veem fazer isso querem
fazer sexo conosco! Cuidar bem dos idosos porque as nossas mulheres se tornam mais
apaixonadas e mais entregues à perfeição do que elas consideram ser “maduro”! Os
melhores maduros são aqueles que conseguem fingir que não o são: os “maduros bandidos”,
como os chamo, em sua habilidade para se sobressair entre os “maduros rotineiros”. Os
homens rotineiros, aqueles que fazem as suas obrigações de forma constante, indolente e
sem graça, são facilmente ofuscados por aqueles que conseguem, por sua safadeza e
sagacidade, demonstrar a maturidade deles com ímpeto, ainda que haja uma constância e
um ar de integridade, os maduros bandidos conseguem a partir de seus próprios esforços,
chamar atenção das mulheres por sua coragem, arroubo, furor e cobiça...
Outros talentos vistos pelos maduros rotineiros como vícios, tais como a veemência,
entusiasmo, vigor, gana, destreza, insolência, vanglória, maestria, altivez, ostentação,
fortuna, virtuosismo, desembaraço, etc., são características que as mulheres secretamente
mais procuram quando saem em busca daqueles a quem elas chamarão de seus “machos” -
estes maduros mesmos que as excitam:
Talvez eu não lhes tome muito do tempo em dizer-lhes que a vida de minha querida
amiga Julie Buffon descreve em síntese aquilo que as mulheres buscam em um homem. E
talvez eu não lhes tome muito do vosso tempo se o descrever com mais detalhes que

191
espécie de verdade está por trás de toda busca de satisfação feminina. Acompanhem, por
favor ao meu raciocínio, adquirido diretamente do diário de minha amiga Julie buffon:
Sem veemência o homem se torna brando; e toda mulher que for escolher entre um
veemente e um brando, não haverá dúvidas.
Sem entusiasmo o homem se torna comedido; e toda mulher que for escolher entre
um entusiasta e um comedido, não haverá dúvidas.
Sem vigor o homem se torna letárgico; e toda mulher que for escolher entre um
vigoroso e um letárgico, não haverá dúvidas.
Sem gana o homem se torna apático; e toda mulher que for escolher entre um
homem com gana e outro com apatia, não haverá dúvidas.
Sem destreza o homem se torna inepto; e toda mulher que for escolher entre um
homem com destreza e outro com inaptidão, não haverá dúvidas.
Sem insolência o homem se torna humilde, recatado; e toda mulher que for escolher
entre um homem insolente e outro humilde, não haverá dúvidas.
Sem vanglória o homem se torna deferente (em relação a outros homens), e toda
mulher que for escolher entre um homem de vanglória ou um deferente em relação a outros
homens, embora deva necessariamente ser em relação a ela, não haverá dúvidas.
Sem maestria o homem se torna adepto, sectário, secundário; e toda mulher que for
escolher entre um mestre e um discípulo, não haverá dúvidas.
Sem altivez o homem se torna um molenga, um palerma; e toda mulher que for
escolher entre um altivo e um palerma, não haverá dúvidas.
Sem ostentação o homem se torna sovina; austero, e toda mulher que for escolher
entre um homem que ostenta e um homem sovina, não haverá dúvidas.
Sem fortuna, isto é, sem assumir o risco da sorte, o homem se torna medroso, e toda
mulher que for escolher entre um homem que aceita o risco e um medroso, não haverá
dúvidas.
Sem virtuosismo, isto é, sem se destacar, o homem se torna deficitário, e toda
mulher que for escolher entre um homem virtuose e um deficitário, não haverá dúvidas.
Sem desembaraço, isto é, sem ousadia, o homem se torna empacado, e não haverá
dúvidas porque nós mulheres sabemos melhor do que os homens quem queremos escolher
como parceiro sexual ou como marido (na maioria das vezes elas não fazem essa distinção

192
como nós homens a fazemos com naturalidade). Mas meus caros pacientes, quanta
sabedoria contida em poucas palavras! Há algo ainda a acrescentar sobre as mulheres. O
que é certo entre elas é que entre um homem embaraçado, empacado e um ousado só nós
teremos dúvidas, sabem por que? Porque pensamos com a cabeça de baixo e por isso nunca
sabemos escolher integralmente, mas elas sim. As mulheres sempre sabem o que querem!
Digo, então, em resumo, por favor, homens, se querem acesso às mulheres, sigam os
concelhos de Madame Buffon e não sejam frouxos, apáticos, medrosos, desanimados,
desinteressados, sisudos, moderados em demasia, se forem o oposto disso por pior que , aos
olhos de alguns possam parecer, serão os melhores para elas. Afinal, esses frouxos,
medrosos e desinteressados são exatamente aqueles homens de quem elas querem se
distanciar ao máximo! Então, se alguma delas caiu por desgraça ou fraqueza própria delas
nos braços de algum desses afrouxados, não tardará para que ela tente se livrar o quanto
antes de seu erro, ou bem tentando modificar essas odiosas características em seus parceiros
sexuais ou bem buscando aquelas outras características do lado de dentro da cerca de suas
vizinhas. Os melhores homens são aqueles que ou bem possuam o máximo dessas
qualidades supracitadas ou bem saibam introjetar uma ou outra delas e reproduzir o que os
maduros bandidos têm.
Nós homens passamos a maior parte de nossas vidas observando as mulheres;
aqueles que não possuem as qualidades buscada por elas - e esses todos já o sabem pela
intuição - devem passar a maior parte de suas vidas observando os homens delas,
principalmente no momento do flerte e nos primeiros segundos, minutos, horas, dias,
semanas, meses e primeiro ano do romance deles.

Como Julie conheceu o seu marido?: Quem por acaso poderia ter essas qualidades
somadas, multiplicadas e até, pasmem, divididas? Somente alguém que pudesse roubar o
coração da maravilhosa Julie e transformá-la na maravilhosa Madame Buffon. Todos nós
gostaríamos de arrancar o nome de solteira dela, usurpar o trono de seu pai, retirá-la do seio
familiar e introduzi-la diretamente em nossas camas, como na conquista de um prêmio.
Friedrich Buffon fez isso com um homem experiente do teatro, mesmo sendo um
idoso mais velho que o pai dela, imaginem! Conseguir roubar de seu pai uma mulher tão
meiga e bem nascida como Julie, na idade dele, outrora sexagenário, hoje ele tem 79 anos

193
de idade e continua a levantar suspiros não só numa de 34 anos como a Madame Buffon,
claro, também levante suspiro de outras mulheres ainda mais jovens, vinte e quatro e quiçá
quatorze? Não foi assim com Julie e seu professor de latim? O que Friederich Buffon teria
o que muitos outros homens não tem? Perdido em reflexões, passei a levar a sério a
classificação das virtudes masculinas levantadas por Julie:
Ousado: diante do claro do dia, logo no início do namoro entre os dois, ele fazia ela
tirar os peitos para fora em praça pública quando estivesse mais vazia para que eles
pegassem alguns minutos de sol... mas logo depois de uns trinta minutos no sol forte
aqueles peitos quentes na boca dele davam a ela uma sensação de terno conforto e alegria
deslumbrante... Ousadia! Homens, sejam ousados, e experimente vocês também! Não será
preciso lhes dizer que muitos sabores dos que foram aqui degustados passaram por meu
crivo rigoroso experimental e, por sua vez, aqueles foram consagradamente aprovados! Não
é demasiadamente a toa que eu peço sempre para que meus amigos me contem as suas
aventuras de além, para que a grande força imaginativa que tenho eu possa acrescentar-se à
força imaginativa e à ousadia dos outros para todo o meu favor e prova.
Insolente: no primeiro ano de casados ele costumava ler a ela algumas de suas
atrevidas reflexões sobre a vida, aquelas mesmas que faziam ela corar porque supunha
muita inteligência, coragem e insolência: - Nossa! Quanto mal gosto nos filósofos...eles
estão atrás da verdade! Eles querem a verdade, esta nojeira. A verdade é rude, a verdade é
fria, suja, esgoto. A verdade é desumana é cruel, desinteressada de tudo, e é feita para
nada. A verdade é antes de mais nada inútil, não serve, não governa, não é dominante e
nem cidadã, não é fundamento de nada e não se importa sequer com fundamentos, a
verdade é uma verdadeira mentira. Mas antes fosse assim, a mentira é suave, é quente,
limpa, água de beber. A mentira é fina, tem modos, tem jeitos, é interessada, é humana é
feita se não para tudo, pelo menos para muitas ocasiões. A mentira é fundamento de tudo e,
se ela não se importa com tudo; ao menos a mentira é mesmo uma verdadeira verdade.
Entusiasta: Ao pé do ouvido dela, em sua alcova, ele também sabia dizer palavras
que fossem amorosas, mas que não fossem diretas. Sabendo da naturalidade Córsega de sua
esposa, associada à sua fascinação ao filósofo francês Rousseau, Friederich Buffon
decorava passagens para galanteá-la: no maior de todos os textos, “Do Contrato Social”
Rousseau profetiza: Existe ainda na Europa um país com legislação capaz: é a ilha da

194
Córsega! O valor e a constância com a qual esse bravo povo soube recobrar e defender
sua liberdade mereceria bem que algum homem sábio lhe ensinasse a conservá-la. Eu
tenho um pressentimento de que um dia essa pequena ilha espantará a Europa” ...
E essa ilha verdadeiramente me espanta, dizia Friedrich ao passar a mão
gentilmente sobre os pelos pubianos excitados da mulher....
Desembaraçado: outra escrita que de tão delirante e incompreensível a fazia delirar
incompreensivelmente - eis a maior de todas as virtudes masculinas, fazer uma mulher
gozar sem saber porque está gozando: meu novo deus escorre... Ele salga, ele seca,
impregna. Meu deus é multiplicado em pequenas gotículas que se engrandecem ao se unir.
Tu, ó virgem e santa mulher, Tu jorras o meu deus líquido. É água do líquido que eu bebi
antes. Digerindo, contristando, contraindo, meu deus é o tênue equilíbrio entre a liquidez e
a fibra - meu deus é suor e outros líquidos no meio de nós dois. Então, pelo suor que
escorre em minha testa: Respeita-o! Pelo incômodo e pelo tempo de vida que te empresto,
por ter te infligido medo, desculpa-me! Pela verdade divina, desculpa-me, PELO AMOR
DE MEU SUOR!!!
Fortunado: Friederich sabia que desde os trinta anos Madame Julie já estava louca
para ter um filho dele. Ainda assim, segundo ele, para que um filho não o atrapalhasse nos
negócios tirando-lhe toda a atenção devida ele conseguiu enrolá-la até que completasse os
seus 33 anos e, desde então, eles estão tentando ter filhos. Mas antes disso, no momento
em que ele aceitou ter um filho com ela, ele brincou com a sorte, e ousou dizer que filhos
modificam tanto as suas mães, que passam apenas a viver por eles - e ele não a queria
perder. As mulheres que se tornam mães, dizia ele, se transformam também em mulheres
parecidas com a mãe do Czar Nicholas II. Antes de ter o filho ela era bastante liberal,
quando nasceu o menino suas opiniões políticas se inverteram!
E eis que contra o desejo das mães em esquecerem da política e do mundo em
honra de seus filhos, antes de dizer que aceitava isso como um destino, o próprio Friedreich
disse à sua esposa, em língua inglesa, pois ela já havia dito que queria que o primeiro filho
nascesse aos pés do Thames River: The vainglory, haughtiness, lordliness, bounce, morgue,
self-conceit and pride of a pregnancy fills the woman with the tyranical ethos (mental and
biological state) that arrogates her to be the only enabler of the future of the race. Do you
want to know what I think? Bullshit! The ultimate selfish desire inside all mother is the

195
beginning of the end of social construction. “All power to my offspring!” means “Nothing,
but easement for everybody”9.
Um bandido! Eis o que era o Sr. Friedrich Buffon! E o que nós ganhamos ao não
sermos como ele? O que esperar da vida de um homem senão tentar pelo menos chegar
perto de uma mulher como a Madame Buffon, ainda que pela imitação das ações de seu
maduro marido bandido? E o mais próximo que eu consegui chegar da madame, caros e
pacientes leitores, foi apenas enfiar minha língua e roçar a beiradinha da buceta infantil de
sua irmã - há vinte anos atrás. Pobre de mim!

-------------------------------------------------------------

9
Sem tradução no original: “A vaidade, a altivez, a imponência, a rejeição, o mortuário, a autoconfiança e o
orgulho de uma gravidez preenche a mulher com o ethos tirânico (estado mental e biológico) que a arroga a
ser a única facilitadora do futuro da raça. Você quer saber o que penso? Besteira! O desejo egoísta final
dentro de toda mãe é o começo do fim da construção social. “Todo o poder para minha prole!” Significa:
“Nada, senão servidão para todos”. N. do T.

196
Como a Minha Adorável Petrusca Comeu o Cu de uma Doce Noviça cuja Fé
Inabalável Tentava por Frequentemente à Prova.

Quem em sã consciência, por acaso, poderia se esquecer de minha adorável Petrusca,


a criança libidinosa, a loirinha matreira do riacho das lambidas? Falecida na altura dos seus
lindos 15 anos e que me fizera crer que a vida vale a pena ser vivida o quanto antes de ser
terminada e que ela, por infelicidade, pode ser teminada antes de ser iniciada e que estamos
todos, portanto, atrasados nisso: no viver. Por isso eu gostaria agora de, com vossas santas
paciências, caros leitores, falar de como a minha adorável Petrusca comeu o cu de uma
doce noviça, cuja fé inabalável tentava pôr frequentemente à prova.
Esses fatos ora descritos ocorreram um pouco antes de sua morte por cólera em
Florença. Dedicarme-ei, a seguir, portanto, apenas com uma lembrança daquela que foi
verdadeiramente uma menina mulher ao relato de como e por que é importante viver. E se
faço isso em nome dela é porque nenhum estado da existência ou período de vida se iguala
ao período pré-adolescente.10
Quem sou eu senão um mero instrumento de sua fé, ó inabalável criança? Como
posso servi-la nessa terra e em outra, Petrusca? Como não louvá-la da terra neste céu que é
só seu em sua juvenis atividades? Como não pedir que daí aonde está, você não possa
interceder por mim como faria uma verdadeira santa? Sim, eu a amei sua putinha sem
vergonha! Amei todas as suas travessuras, toda a sua suavidade fedelha, aquele seu cheiro
de pirralha da rua, amei como metia gostoso na sua vontade e talento únicos para dar um
verdadeiro sentido à palavra vida. Sua vida, nossa vida, a minha vida, principalmente.
Ah! Essas danadas crianças que com seu cheiro nobre, pulos desavisados cheios da
rica vida e sorrisos que fazem inveja à eternidade! As crianças valem a pena de fazer de nós
adultos seus eternos escravos! E era mesmo o caso ocorrido com Petrusca! Servindo o
exército que era aquele colégio Sagrado Coração de Florença, aquela loirinha muito meiga
“com lábios pequeninos da cor da amora quando está para amadurecer” e de cujo “delgado
das ancas que já se formavam bojudas e, digamos, “prontas para o abate” de tão
maravilhosamente durinhas” desde os seus tenros 13 anos de idade foi a mais
empedernecida de todas as putinhas santas do colégio.

10
Prépubère no original em francês. N. do T.

197
Para além das reuniões e brincadeiras sexuais das petizes, o bendito riacho das
lambidas que deixara tantas vezes o padre Lancelotti entristecido, certamente, por não
poder nele se banhar, as pequerruchas tinham outras manias e maneiras de fazer com que
seus tirânicos professores se curvassem à sua superioridade de nascimento. Petrusca era
nesse sentido um demônio. E como o demônio gosta de seres humanos, o dela se chamava
o bem soante Greta Beatrice de Grassi. Enquanto o demônio saíra de direto do seio da
classe trabalhadora, o ser humano havia vindo da alta classe florentina, no entanto, como
sempre, os ricos sempre mandam seus filhos mais estúpidos para a igreja, Greta Beatrice
acabou tendo de cair no poço sem fundo de uma irmandade religiosa de Florença.
Recolhidas em geral contra a sua vontade em conventos, além das obras de caridade,
e a educação a crianças e jovens, as freiras renunciam à vida comum, e são obrigadas a
ficar rezando muito mais do que os homens padres e clérigos da igreja. Como ninguém
passa o dia todo rezando, e com Greta não deveria ser diferente, a condução de sua vida
passou a ser orientada de acordo com a rotina severa do convento.

Tabella Generale Dei Lavori

5:00h da manhã - orações matinais


6:30h da manhã - preparação e degustação do colazione - petit déjeuner (café da
manhã)
8:00h da manhã - Serviços no Colégio (enquanto umas ministram aulas,
trabalham na burocracia do colégio, outras preparam o almoço
das crianças, ainda outras são faxineiras - impressionante!
13:00h da tarde - déjeneur
14:00h da tarde - leituras bíblicas (seminários rotativos dados um dia por cada uma)
17:00h da tarde - orações vespertinas
19:00h da noite - missa
20:00h da noite - souper
21:00h da noite - reunião com a madre superiora
21:30h da noite - horário livre
22:00h da noite - dormir

198
É por isso que elas não tem muito mais tempo pra pensar no que é preciso para viver
e amar. Mas a bem da verdade, todas as freiras já perceberam modos de romper com esse
pacto demoníaco com o relógio. Umas fingem doença, outras fingem a necessidade de
executarem outras ocupações importantes, algumas se atrasam deliberadamente, ainda
outras procuram dormir enquanto oram ou cochicham enquanto leem a bíblia. O fato é,
absolutamente nenhuma delas segue num rigor explícito a Tabella Gene rali dei Lavori.
Segundo o que a própria Petrusca descobriu certa vez, parece que para profissionalizar a
malandragem elas criaram a Tabella Gene rali de la Pigrizia, na qual elas revezavam nas
mentiras que iam contar para suas superioras, e nas posições dos bancos que se sentavam,
que permitiam ficar mais distantes dos ouvidos “santos” que iriam curiosamente querer
saber os temas dos buxixos das adolescentes do fundo.
Eis os votos das monjas consagradas! Poder fofocar, bocejar, ler literatura de má
reputação, e inclua-se a isso, claro, meter e amar, entre outras honradas tarefas do
apostolado. Duas delas, pelo menos, do que ficou comprovado, aproveitavam o horário
livre antes de dormir para fugir para um bordel religiosamente às sextas-feiras, no qual
ganhavam o suficiente para comprar livros de romances, brincos de ouro e perfume
franceses que de outra forma não o conseguiriam - a igreja católica é muito pobre em
instinto feminino, mal sabem o que uma mulher realmente quer! Elas tinham de estar em
suas camas às 22:30h, horário em que cronometricamente a madre superiora, a gorda e
bonachona Ginevra Moretti passava por entre as camas, uma a uma, para ver se alguma
freira ainda não estava dormindo.
Greta não era como elas. Estava inscrita na “tabela da preguiça”, obviamente, mas
não deu nunca a entender que pecava contra a castidade, que gostava de mulheres ou que
participasse das sórores orgias na madrugada daquele colégio-convento. Como se ela
acreditasse realmente na devoção religiosa e não estivesse ali para passar o tempo, já que
suas famílias a rejeitariam para sempre se abandonassem o hábito, Greta tinha tudo para ser
uma daquelas personalidades notáveis para as quais se impõem o feio nome de beata.
Quando esteve em Florença o Papa Leão XIII, responsável pelo exagerado tomismo
nos colégios católicos, escolheram-na para o “rito da palavra” e para beijar o seu anel, após
a majestosa missa ocorrida na imponente Cattedrale di Santa Maria del Fiore. Devo-lhes
dizer que eu em pessoa estive lá, e que portanto, sem o saber, já havia também conhecido

199
Greta e sua inesquecível bunda majestosamente redonda, com a ajuda de meus amigos
clérigos graças a quem eu consegui um local privilegiado para ver as freiras se ajoelharem
diante do Santo Padre. Poucas delas me deixaram tão impressionante memória do que Greta
e seus seios fartos que mal se escondiam por trás dos paramentos. Quisera eu mesmo tirar-
lhe o limpel na frente mesmo do padre da igreja, arrancar-lhe violentamente o capuz fazer
com que seu habito de coro escorregasse por sobre o seu volumoso corpo, e enquanto eu
abaixasse para jogar longe a batina e ver com meus próprios olhos a imagem do paraíso lá
no céu, eu subisse lentamente com a boca aberta, língua pra fora, olhos acume subisse
minha boca entre as pernas dela enquanto ela puxasse meus cabelos a gritar louvores por
salmos responsoriais que ela, assim como eu, certamente os sabia de cor:

Lava-me completamente da minha iniquidade, e purifica-me do meu pecado.(...)


Ah! filha de Babilônia, que vais ser assolada; feliz aquele que te retribuir o pago
que tu nos pagaste a nós. Feliz aquele que pegar em teus filhos e der com eles nas pedras.

Mas tudo o que tive, além das minhas fantasias depravadas, foi o sorriso meigo dela
ao enfiar quase a metade dos dedos indicador e polegar dentro de minha boca quando fiz
questão de ficar na fila em que ela estava oferecendo a sagrada hóstia que sempre será
podre e naturalmente processada por nossos intestinos. Um prazer inesperado e repentino
como são os mais prazerosos prazeres:

- O corpo de Cristo!
- Amém!

Ah, que delícia, então, não deveria ter sido se eu tivesse não só os dedos, mas a mão
inteira dela dentro do meu corpo! Greta selvagem, freira consagrada à luxúria, você não me
enganaria se eu conseguisse chegar até você! Mas o que todos diziam, assegurou-me
Petrusca, era que ela era pura, mesmo, e que verdadeiramente “chegaria até deus antes de
todas nós”.
Petrusca havia colecionado, por outro lado, algumas poucas histórias que a fez
perceber que Greta tinha, na verdade, paúra de ver descoberta a sua dissimulação. Era por

200
isso que radicalizava na beatitude, forçava o vigor em suas leituras bíblicas, levantava a sua
voz sobre as outras nas orações conjuntas, dedicava mais tempo nas práticas sacerdotais e
nas conversas com a madre superiora, que a adorava por sinal, do que nas poucas horas de
lazer ou de liberdade fora dos muros do convento.
Se ela de fato dissimulava, como é que ninguém a descobriu em um único ato
pecaminoso sequer? Das investidas de Petrusca, a minha criança sedutora, Greta sempre se
esquivara. Como foi possível se esconder por tanto tempo? Como não foi flagrada sequer a
comentar a cerca dessas coisas mundanas? Caros leitores, a respeito de nada disso eu sei! O
que é certo é que o seu disfarce apenas durou até o dia em que Petrusca, já auxiliada por
minhas “aulas de manipulação de pecadores”, conseguiu uma confissão dela e a
possibilidade das duas se encontrarem para “súplicas, pedidos e orações”, como seria
indicada a desculpa para a ausência entre o souper e a reunião com a madre. Elas se
encontrariam sempre num canto do átrio da capela, em baixo do túmulo de mármore de
Cristo, “para se beijarem, apenas...apenas para se beijar!”, repetia a freira, temendo o pior.
Talvez devam estar se perguntando como é que eu, um advogado adulto e bem
sucedido, dei aulas a uma criança de como manipular falsos beatos a se entregarem,
conseguindo por meio de chantagens o que quer que deseje deles, não é? Sim, meus caros
pacientes, eu ministrei aquelas aulas prazerosamente para ela e sua meia irmã rechonchuda
Fabiana, em troca de suas estórias maravilhosas, foi só isso. Além do mais, algumas dessas
estórias eu jamais soube se eram de fato verdadeiras ou apenas verossímeis. Mas quem se
importa? As histórias só viram mentiras para aqueles que a vivenciaram e souberam que
nada se passou dessa maneira contada. Mas eis o desafio: para todas as outras alternativas
não presenciais, ainda que absurdas, as narrativas são em si mesmas verdadeiras, até que se
prove o contrário. Mas não precisa! O real é mais sensível quando ele passa pela literatura
e vice-versa.
Para poder se encontrar com aquela freira, Petrusca tinha de chegar ao convento
pontualmente às 8:30h. Se ela chegasse 10 minutos depois, talvez não conseguisse aquele
pequeno espaço de prazer entre uma refeição cheia e um discurso vazio. Até que por fim,
não só uma, duas, mas por três vezes Petrusca foi pega saindo do convento à noite... Por
sorte nunca entrando ou já lá dentro, aos beijos com sua freira preferida, tentando
convencê-la de dar mais coisas tão lambuzantes, excitantes e sadias quanto um “mero”

201
beijo entre duas mulheres, ou melhor, entre uma menina de quinze anos e uma freira de
vinte e cinco. Imaginem, serem descobertas ali aos beijos Greta e Petrusca? Seria não só o
fim do mundo como talvez fosse até expulsa do colégio, algo que ela não podia sequer
imaginar acontecer, já que, vinda de uma pobre família, ela jamais conseguiria voltar a
estudar novamente. Teria de se casar, e isso sim para ela ou para qualquer menina
inteligente era pior que ser expulsa do colégio! Mas, por sorte, da única vez em que foi
descoberta e teve de dar explicações, foi quando uma velhaca, esposa de um jardineiro e
segurança do convento forçou Petrusca a se ver com a temida e gorda madre Ginevra
Moretti.
Petrusca, ao ser conduzida forçosamente para os aposentos da madre superiora já foi
pensando num álibi que a pudesse livrá-la do grande mau. Petrusca, a malvada, conseguia
ter sangue frio suficiente para inventar estórias rapidamente entre lágrimas tais como o
“fato” dela ter sido forçada a estar ali “por causa do bebum de seu pai, para pedir clemência
por ter jogado fora as suas preciosas garrafas de rum”: - Eu adverti papai que a essa hora
da noite nenhuma freira iria me atender. Disse ela, - Ainda assim, ele me fez vir e, como
tive muita vergonha de falar essa verdade contra meu próprio pai, vim pelo portal de
entrada e fiquei ali por um tempo, escondida, até que ele voltasse para casa. Mas quando
vi que alguém chegava, corri furtivamente para não ser descoberta, porque se não, eu não
teria como me defender!Mas fui pega pela esposa do jardineiro e aqui estou para expiar os
meus pecados... Disse isso aos prantos se curvando diante da madre superiora, que sentia o
quente hálito de seu choro em seu rosto e a viscosidade das lágrimas que escorriam do rosto
dela em suas mãos. A Madre Superiora não seria tão dura se fosse com qualquer freira, mas
com Greta, ela não poderia se render aos encantos daquela menina loira aos prantos...
Apenas os homens caem nessa, ela pensou.
É fato de que Petrusca com frequência se esquivava de cada achaque produzido pela
bruxa gorda Signora Moretti, que disse que já havia encontrado ela algumas vezes a
conversar com a irmã Greta no colégio, durante os intervalos das aulas... A bruxa era feia
mas não era burra! Mas a princesa, além de linda era, comparativamente, muito mais
inteligente: O que outra coisa estaria uma criança fazendo no lado de dentro do convento a
essa hora, madre? Insistiu minha mentirosinha Petrusca, fingindo a inocente. Como a
madre não podia provar, ainda mais contra uma de suas freiras preferidas, resolveu não dar

202
nenhuma punição à loirinha sabida, mas, dali em diante começou a ficar muito mais atenta,
tanto aos passos de Petrusca, quanto nos de sua amada Greta Beatrice de Grasse.
Quem não gostaria de ter um pequeno romance com uma jovenzinha infante quando
se está enjaulado com uma velha bruxa? Ninguém duvidaria de que a Greta pudesse
também tirar algum proveito daquelas sobremesas de estalar lábios após as refeições
noturnas... Mas depois de ter sido descoberta, aquela maluquinha teria de ser muito mais
habilidosa e arrojada, para que valesse mesmo a pena arriscar a perder fortuna por ter sido
alocada naquele colégio tão adequado a ela, uma depravada garotinha pobre e sua irmã a
estudarem, sabe-se lá auxiliadas por que mãos divinas!?
O que faria ela para voltar a ver sua Greta à noite, momento ideal para encontros
furtivos? Certamente, imaginação era o que não faltava à menina! Petrusca aumentou as
suas notas no meu curso na medida em que, uma semana sem beijar a sua freira saborosa,
ela escreveu este desesperado bilhete e o entregou para a sua professora Greta Beatrice de
Grasse, em mãos, e sem causar suspeitas:
Leia este bilhete! Rasgue-o e jogue-o fora! Eu estou em dívidas contigo! Faz-me o
que peço e nunca mais voltarei a atormentar-te. Eu preciso que me encontres essa noite
ainda em minha casa na hora do jantar. Deixarei a minha bicicleta no lugar de sempre.
Fica tranquila, eu estarei só em minha casa hoje, pois o meu pai e minha irmã encontrar-
se-ão em um velório e voltarão apenas amanhã pela manhã. Eu já paguei para que
encontrem uma desculpa por sua ausência no discurso da Signora Moretti e almofadas a
substituirão nessa contagem noturna. Vem amor, vem!

Toda tua, Petrusca.

Petrusca morava há uns 25 minutos a pé da li, num dos becos que dava para a
Piazza di Santa Croce, perto da Basílica. Mas já estava tudo organizado, de bicicleta, a
mais importante novidade de Florença desde o automóvel, aquele trajeto se encurtava
saborosamente a ponto da bela Greta ainda ter tempo de sorrir para Petrusca, que ainda a
contemplava ao longe, vendo-a rasgar lentamente o bilhete com as mãos baixas, de forma
delicada e num contentamento e cumplicidade irrevogáveis.

203
De fato aquele era um convite moleque que dificilmente alguém iria recusar. Mesmo
Greta, que ainda bancava a pura oferecendo apenas a sua boca para a demoníaca Petrusca,
não iria perder a oportunidade de sair do convento à noite e aproveitar a suave brisa da
manhã no dia seguinte de volta ao convento, ainda que tivesse de oferecer ainda outras
partes de seu corpo à boca e à luxuria daquela pequena e inocente loirinha do diabo.
Na hora combinada, a bela Greta Beatrice salta desesperada por sobre a bicicleta da
sua amante e se dirige para seu encontro proibido. Cheia de excitação por fugir do convento,
ela espantou-se como foi rápida a chegada até a casa de Petrusca, a mesma menina que, a
despeito de ser dez anos mais nova de que ela, a ensinou a andar de bicicleta há exato ano
atrás. Dir-se-ia que ambas nasceram uma para outra, essa é a pura verdade. Petrusca me
segredara sua paixão avassaladora por aquela freira juvenil e eu tive de concordar, elas
realmente se amavam:
- Algo que me reconforta quando estou ao lado dela são suas mãos úmidas e
quentes. Jamais tinha sentido mãos grandes sob os meus seios. Quando da primeira vez
que nos beijamos, eu fui de roupa leve do verão e ela repousou a sua mão direita inteira
sobre o meu seio que abriga o coração, sem fazer qualquer movimento. Com uma
respiração ofegante, eu podia sentir sob a mão dela o pulsar do meu peito e a penugem
fina sobre a pele que o rodeia ficar de pé, arrepiada, excitadíssima! Eu podia ficar ali
uma eternidade inteira apenas beijando-a, mas senti necessidade de algo mais. Eu queria
pela primeira vez me sentir mulher de verdade nos braços de outra que fosse mulher e não
uma menina. E a todo custo Greta me faria sentir isso!
Não era um amor a minha adorável Petrusca? Ela estava certa. É assim a sensação
de amor. Uma estrada que se pega sem convite, mas que logo se observa silhuetas ao longe
que podem vir a ser algo mais próximo do que se esperava; o amor é uma expectativa que
se cumpre! E essa expectativa da picola bionda, como eu a chamava quando dava razão
para ela, se cumprira. Greta havia chegado na hora marcada e Petrusca já estava
absolutamente pronta dessa vez para experimentar o corpo inteiro da freira e não só a boca.
Petrusca já tinha um rol de planejamento de atividades para as duas e foi logo
oferecendo uma taça do vinho mais antigo da adega de seu tio Alfreddo Grimaldi. Pois,
exceto por seu pai inventado para a madre superiora, ninguém na casa dela bebia, todos
eram abstêmios, mas seu tio, que era moderado na bebida, mas especialista em vinhos,

204
mantinha uma pequena adega no porão a qual não se importava em abrir para deixar suas
sobrinhas brincar. Numa dessas inocentes brincadeiras Petrusca roubou uma das 17 garrafas
que faziam parte da “relíquia do tio Alfreddo”, e ela o fez imaginando que ele não desse
falta ou mesmo quando ele desse conta já fosse tarde demais.
Ela também pegou uma taça para si, não que quisesse realmente beber, mas molhou
um pouco os lábios para vê-los tornarem-se vermelhos como os lábios de sua amada, que
estava ali, agora, toda à sua disposição, à luz de velas. Petrusca havia comprado roupas
civis para a freira que ficou espantada de como teria servido aquele lindo vestido, já que
Petrusca não devia saber bem o número dela... Mas Petrusca sabia bem e de cor cada curva
daquele corpo esmerado. A menina havia preparado também o jantar e elas não perderam a
chance de sentar-se à mesa. Estranhamente, ambas gostavam muito do cheiro da cebola e,
quando se beijavam, pasmem!, faziam questão de comer algo que tivesse esse produto
como ingrediente. Alguma vontade estranha de misturar comida e beijo aproximou
vigorosamente as duas. Não devia haver outra alternativa melhor! pensara Petrusca na
noite anterior, quando ainda estava bolando sua noite romântica, depois da morte da vizinha.
Ela havia aprendido a pouco tempo a fazer algo bem simples que ambas iriam adorar comer
com pão, diferentes queijos e beber com vinho: zuppa di cipolle. Não me perguntem, meus
caros, porque os toscanos gostam tanto dessa iguaria fedorenta. Da minha parte, que não
posso com cebolas, sequer provei dessa que é quase uma sumidade de todo inverno e
outono, primavera e verão entre os toscanos... Eles a consomem esse nojo o todo tempo.
Também, eu os compreendo! Com ingredientes como conhaque, vinho branco e caldo de
vegetais, imagino que, se não fosse pela cebola, eu também seria um excelente amante
dessa cozinha italiana, o que absolutamente não aprovo como sendo o caso!
De qualquer forma, as duas seguiam os planos de Petrusca à risca. Depois de se
alimentarem, foram para sala com as taças e a garrafa de vinho em mãos, conversando, de
modo tranquilo, sobre a família de Petrusca e de quem seria exatamente o corpo que estava
sendo velado enquanto elas brindavam à vida... Era o de uma velha vizinha judia sem
importância, mas a quem todos deviam alguma coisa porque, como ela era sozinha e rica,
sempre tinha dinheiro para emprestar para todos, que raramente a pagavam e que ela
raramente cobrava. Esse detalhe facilitou em muito as coisas para elas, já que não havia
quase ninguém nas ruas naquele instante em que Greta chegara - elas estavam alegremente

205
a sós e poderiam experimentar o sabor da cebola e do pão e do vinho nas bocas uma da
outra, como se fossem as últimas habitantes de toda Florença. Greta estava sentada no
longo e macio sofá, quando Petrusca sentou-se no chão ao lado dos pés dela. Nesse
momento, Petrusca estava sentindo a iluminação de perspectivas e o calor corporal que era
a linguagem do amor. Pôs as mãos sobre os joelhos da amada e tinha os olhos vividos e
úmidos como se chorasse de alegria.
Greta ao sentir se aproximar a hora dessa comunhão, cingiu com as duas mãos parte
do rosto, tampando as orelhas da menina e começando a fazer um carinho com os dedos
polegares na parte de cima de suas bochechas. Petrusca, já vendo aumentar a sua respiração
ficou de joelhos sem dizer palavra e escorregou suas mãos de aonde estavam, para cada
lado das coxas levemente avantajadas de sua amante. Quando as suas mãozinhas chegaram
até as ancas sentadas, Greta deu um pequeno passo à frente, sentando-se na beirada do sofá.
Foi nesse momento que as duas iniciaram o seu cerimonial no qual as línguas se movem
umas contra as outras num rito instintivo, duradouro e absolutamente gracioso de se ver.
Os seios pequeninos da bela Petrusca pareciam duas maçãs em pleno vigor,
querendo saltar para fora da macieira. A cada estalar dos lábios de Greta, a vontade de
Petrusca de se livrar de suas roupas era tanta que quase se esqueceu de que havia planejado
o seu quarto só para as duas naquela noite. Tentou se recompor, mas não antes de sentir
novamente aquelas mãos que tanto adorara sentir por seu talento em fazer amoldar os seus
seios como se fosse uma escultora em argila, com a maciês e paciência artísticas. Petrusca
exclamou sussurrando nos ouvidos de Greta:
- Andiamo nella mia stanza, amore mio!
Ambas seguiram se beijando e com as mãos nos corpos uma da outra. Como
Petrusca era alta e Greta não era tanto, ambas tinham quase a mesma altura e, de acordo
como me contou em seus detalhes Petrusca, quando elas saíram da sala e ao chegarem no
quarto de Petrusca, elas o fizeram ainda aos beijos, mas com as mãos trançadas,
depositadas de forma imóvel na bunda uma da outra. Que belo espetáculo de se ver, caros
leitores! Quisera eu ter tido a sorte de estar ali, na espia, por toda aquela noite que estava
ainda apenas começando! Mas não, nessas horas eu devia estar estudando algum caso
particular de como fazer os juízes absolverem os meus réus, ainda que culpados o fossem.

206
Eu amo ver duas mulheres num ato libidinoso! Não sei que coisa é essa que me faz
delirar, pois as mulheres são absolutamente meigas umas às outras quando estão fazendo
amor. Devia ser lindo na era bigama, quando homens podiam ter em suas camas no mínimo
duas mulheres para que, a despeito de seu pinto único - maior seria o prazer se tivéssemos
dois! -, conviria deitarmos com as costas na cama e com as nossas pernas abertas, sentindo
os pelos pubianos de duas de nossas mulheres, cada uma sentada em cada coxa! Adoro
sentir o calor de uma vagina nas minhas frias coxas. Só Deus sabe quantas vezes eu pude
provar disso... Graças aos céus eu fui beneficiado pelo ardor do gozo. Alegria é ter pelos
pubianos de duas mulheres raspando cada uma das minhas coxas, num frenesi completo e
por no mínimo meia hora, quase que a fazê-las doer!
Pensando em Greta e Petrusca, e se fosse o contrário, e se fossem homens? Bom,
não devia ser bom sentir dos pelos pubianos masculinos raspando as minhas coxas? E se
em vez de pelos da vagina roçassem as minhas coxas os sacos escrotais de homens ? Eu
jamais o havia tentado ainda... Se a sensação de sentir os pelos pubianos de duas mulheres
nas minhas coxas me é muitíssimo agradável, porque eu devo não admitir que também a
raspagem em minhas pernas de quatros ovinhos e os seus respectivos sacos escrotais e seus
pelinhos crespos ali, numa mesma posição, não deveriam? De forma semelhante, quem não
pode considerar demasiado estranho que heterossexuais tenham um nojo tal de
homossexuais a ponto de terem aversão completa a qualquer tipo de toque, quem dirá das
atividades efetivamente sexuais entre homens...? Poucos estranham que os homossexuais
masculinos tenham atração por heterossexuais. Mas, por outro lado, é fácil compreender
que são adoráveis aqueles homossexuais ou não que gostam, valorizam e divinizam a
mulher. Diz a voz máscula: eu não gostarei de você, pois não gosto de homens, mas se
gostar dela que é fantástica e surpreendente eu gostarei de você pois saberei que você sabe
amar do que é amável. É por isso que eu amo amar as mulheres e a alguns homens
homossexuais também11.
Vejam, por outro lado que, mesmo se imitássemos toda essa delicadeza da mulher, e
se fôssemos alguns de nós homens, meus leitores mais sagazes, que estivêssemos com
Greta naquele quarto à luz de velas, o que pensaríamos em fazer, e o que exatamente

11
Os termos pejorativos e vulgares inverti, enculée, gouine (respectivamente “invertido”, “enrabado”,
“sapatona”) entre outros, para designar o que chamamos hoje de homossexual foram suprimidos da tradução
por autocensura..

207
faríamos para obter dela aquilo de que mais gostamos: o buraquinho das delícias? Não
imploraríamos por isso depois de ter já dado à mulher tudo aquilo que achamos que elas
querem de nós? Sendo naturalmente delicadas, as mulheres sabem como uma à outra
agradar, a ponto de sequer pedir para que uma dê à outra o cu - nenhum pedido nesse
sentido jamais é feito. Isso é coisa nossa! Elas têm uma comunicação automática, uma
certeira correspondência, uma atração siamesa - linguagem tácita. Eu acredito piamente que
se nós homens temos em geral aversão uns aos outros, ao contrário, as mulheres uma a
outra se reclama. Seus corpos estão sempre a se tocar em quaisquer lugares aonde estão
como amigas, o carinho é sempre recíproco e os olhares e sorrisos sempre amistosos, as
mãos ou nos braços ou nos ombros ou nos cabelos e quase sempre nas mãos umas das
outras conferem os definitivos vereditos a seguir: benditas sois vós, mulheres! similia
similibus curantur! E vocês se merecem!
Meus caros e pacientes leitores, devo-lhes informar que fico trêmulo de prazer
quando me lembro dessa história contada diretamente da boca da minha saudosa menina
toscana. Elas ainda estavam de pé a se beijar, mas não se sabe bem aonde... Mas era certo
de que as roupas de ambas já estavam no chão do quarto em algum lugar perto delas
quando ambas deixaram de raciocinar e se entregaram ao absoluto reino animal. O primeiro
impulso partiu de Greta, mulher extremamente ativa e protetora: na medida em que abria a
boca e atirava para frente um pequeno pedaço de sua língua e o recolhia fechando a boca e
abrindo-a novamente em seguida e recomeçando o rito, ela foi se abaixando e se abaixando
nessa mesma atividade, deixando marcas de saliva em todo o pescoço de Petrusca, em sua
clavícula em destaque e por fim, passando por entre os seios dela, foi descendo ainda mais
parando e diminuindo a velocidade desse beijo estarrecedor, logo abaixo do umbigo, aonde
pelos loiros finos pareciam querer saltarem do corpo de Petrusca e entrar na boca da freira
como se fossem agulhas de bússolas lindíssimas apontando para a eterna direção norte.
Petrusca não queria ficar de fora e testou lançar boas ideias para a satisfação da
amiga... e assim, antecipando os seus próximos movimentos, Petrusca escorreu suas mãos
atrás da nuca da freira, que tinha aliás, uns cabelos pretos curtos, mas um pouco mais
compridos do que os de Joana Darc. Com os cabelos firmemente presos à sua mão direita,
ela os puxou levemente para trás o que fez a freira levantar-se em direção a sua amante e
manter a boca aberta pronta para o prazer. Petrusca aproveitou para enfiar mais uma vez a

208
sua língua inteira na boca da freira, como se a língua dela tivesse tido uma ereção e tivesse
quase que dobrado de tamanho. Como se Petrusca ainda não tivesse tido esse tipo de
experiência ou porque estivesse um pouco embriagada pelo pouco que bebeu, embora não
tivesse costumes alcoólicos, uma quantia significativa de saliva começou a descer de baixo
de sua língua direto para dentro da boca de Greta. Petrusca, ao perceber isso quis fechar a
boca e se conter, mas as mãos da freira agora a estavam segurando firme pelos braços,
fazendo ainda um movimento de sucção da saliva de Petrusca para que a menina
continuasse na mesma posição e fizesse desaguar em sua boca santa tanto líquido de deleite
quanto fosse natural.
Como que num espelho em reflexo, deitaram-se juntas na cama, continuando seus
movimentos serpentinos. Quando se achavam sumariamente excitadas mantendo aqueles
lençóis sob chamas, Greta se voltou em direção aos pés de Petrusca, ficou de joelhos com a
cabeça entre as pernas dela, num estalar enormemente sonoro, começou a beijar as partes
internas das pernas de Petrusca inúmeras vezes, a alternar cerca de três beijos numa das
coxas e três beijos na outra. Enquanto fazia isso sem se fatigar, Petrusca, por sua vez,
mantinha seus dedos ocupados a deslizar sobre os pelos pubianos da freira, dedilhando-os
delicadamente como se fossem cordas de uma pequena cítara, antes de prová-los com a
língua ainda úmida.
Petrusca estava adorando sentir o cheiro e o gosto de uma vagina adulta em sua
boca. Quando a freira enfiou a língua inteira e sem aviso em sua bucetinha pequenina,
Petrusca começou a lamber a vagina da amiga com muito mais frenesi do que sempre
lambeu as bucetinhas das outras meninas com quem já se deitara. Era incrível o quanto saia
de umidade tanto das bocas quanto das vaginas das duas... Chamar-se-ia poço de prazer
toda aquela babação! Estavam a se molhar tal qual bebês se molham todos pelas bocas
quando estão a ponto de nascerem os seus dentinhos.
Alguns minutos se passaram com as duas ali, satisfazendo-se integralmente. Mas
ao chegarem em mais um climax, com os dois dedos, o indicador e o médio ensopados
depois de tê-los enfiado inteiro em sua boca, Greta perscrutou devagar e ao mesmo tempo a
vagina e o ânus da minha pequena Petrusca - e ela gritou... Isso também era novo para ela.
Claro que já tivera dedos em ambos os lados do corpo, mas nunca os tinha ao mesmo
tempo dentro de si. E que longos dedos maravilhosos de pianista Greta tinha... Petrusca

209
sentiu a alegria de ter dedos adultos em sua buceta e em seu cu ao mesmo tempo pela
primeira vez e viu o quanto isso era bom. Para aumentar o grau de novidade, Petrusca fez o
que era preciso. Também sem aviso algum cravou sua língua dentro do cu de Greta que deu
extrema certeza para Petrusca que ela já devia ter feito isso há muito tempo atrás, mas antes
tarde do que nunca...
Eu jamais irei me esquecer como os olhos de Petrusca se enchiam de ânimo e sua
boca de risos quando me segredara que, antes de ambas chegarem ao ponto máximo de
gozo, Greta, que praticamente já estava “sentada” na língua tremulante de Petrusca feito um
peixe fora d’água e seu dedo do meio se agitando por entre a beira da vagina em sua parte
superior mais sensível, que parecia que ela “ejaculava”. Greta, já em júbilos pronta para
uivar de prazer, gritou para si essas palavras de um benefício sagrado e enaltecedor:
Come, come,...come tudo! Isto é o meu corpo que é partido por ti. Come, come,
come... come tudo! E faze isso em memória de mim!

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210
211
Cobiçada por Idosos

Quão linda! Cabelos pretos e pretinhos olhos atentos. Pele morena escura,
avermelhada feito um final de tarde de outono na Itália. Seus dentes são tão branquinhos de
pérolas brilhantes que incitavam na gente o desejo de quer enfia-los todos na nossa boca, à
maneira daquelas balas árabes que são tão saborosas para todas as crianças dessa luxuriosa
cidade. Ah, que belos aqueles pingos de energia que abençoam aquele maravilhoso sorrir!
Maravilha daquele dentes que se abrem amplamente cuja dona do sorriso o faz como quem
diz: “Venha me beijar porque eu sou toda sua!”
Seu brilhante cabelo preto escorrido, agora cortado curto e esticado pelo pente de
ferro quente para emular os penteados das belas meninas que ela vira em Modena, era um
verdadeiro chamariz para o deleite, conforme a disposição de alguns velhinhos desejosos
em voltar a saber como era isso.
Seus lábios inchados como gotas talvez jamais tenham sentido quaisquer outros
lábios senão os de seus próprios pais quando era um bebezinho. Quanta sensação de prazer
não deveria ela ter provocado a alguns bons velhinhos quando ela, de modo absolutamente
inocente, lambia os lábios e os recurvava para dentro da boca como se tivesse levando uma
bronca e, logo em seguida, os libertava vagarosamente fazendo-os inflar outra vez para fora,
de maneira irrevogável, como são as leis da gravidade. A inocência é o cultivo de uma
alegria multicolorida, uma certeza de que o totalmente incógnito advirá do resultado de um
plantio, uma lavoura em que se semeia nada mais que excitação, graça e candura, mas que
se colhe, por fim, um fruto desconhecido.
Ela é baixinha, mirradinha, como uma mediterrânea. Não fosse ela a “cobiçada por
idosos”, eu a chamaria de “A Bela Tuareg de Agadez”! Mas, sem um sotaque sequer no
francês ou no árabe ela já me disse que todos em sua família de mercantes, dentro de casa
falam a língua hausa dos negros. Impressionante! Estranhamente, ela não deixou de passar
despercebida entre as marroquinas tanto por seu andar miúdo, suas pequenas pernas magras
e por seus inúmeros e sedosos véus de cores de mil e uma noites que cobrem noventa e
cinco por cento de seu corpo. Soube que eles foram por questões políticas impelidos a
chegar primeiramente à Melila e depois aqui, na luxuriosa Marrakesh, aonde ela finalmente
conseguiu fazer com que seu pai, meu cliente, a contragosto dos seus conservadores pares

212
árabes, pudesse deixá-la entrar para os negócios da família. Graças a Deus! Santo Pai
misericordioso! Que se danem os árabes e sua mania de esconder atrás dos panos as suas
mulheres! Caso contrário, eu jamais poderia ter tido a deliciosa sensação de vê-la sorrir; eu
jamais poderia, não fosse a “modernidade” de seu pai, perceber as silhuetas de deixar
quaisquer velhos pintos moles, rígidos, e em erupção; ou jamais poderia contemplá-la
agachada ou de cócoras procurando tecidos, inconscientemente da ânsia contida em meu
olhar, mostrando suavemente a sua redondinha bundinha no interior de montanhas de
retalhos ou nas partes debaixo das grandes gavetas da loja de tecidos de seu pai.
Sei que o cruzamento entre as raças não é apreciado na Europa. Mas... Ah,
redondinha bundinha, redondinha bundinha... Aqueles tecidos coloridos de fundo a
valorizavam tão imensamente as barreiras da cor da pele são logo esquecidas, toleradas e
até perdoadas. Quando ela abria uma gaveta de baixo deixando transparecer na parte detrás
um mundo inteiramente luminoso, meu coração palpitava e já não mais me perturbava
saber se o pai dela estava atento à minha cobiça ou não. Ressabiado e arredio, talvez ele
quisesse mesmo que algum jovem a desposasse logo, antes que o tentasse fazer algum
daqueles longevos sovinas que a viviam rodeando. Entregá-la a um idoso certamente seria
algo que, como dizemos em minha adorada Córsega “o deixaria às vistas” com toda a
sociedade de mercadores árabes de Marrakesh. Por isso ele abria e fechava aquelas gavetas
de modo rude com os vetustos devassos e olhava compasivamente para garotos como eu,
mesmo que daqueles só nos diferenciávamos pela idade mesmo e fossemos, ademais,
semelhantes tanto em devassidão quanto em pretensão insaciável em comer um cu gostoso,
o dela. Ela, por sua vez, dava pouca atenção aos novinhos bobos e alegres como eu e
guardava outras alegrias somente aos carrancudos e tristes mais velhos, como aqueles
árabes. Sim... Ela era certamente mais uma das gavetinhas que seu pai abria a bel prazer...
Mas não me parece que ele de fato quisesse abrir ela aos clientes senão os mais jovens e
ricos. Porém, contrariando a seu pai, enquanto ela se abria violenta e rudemente aos garotos
e compassiva e docemente a todo anoso matusalém que demonstrasse interesse por ela, seu
pai, eu e os outros garotos perdemos a nossa chance de sermos inteiramente felizes. Mas à
sua maneira ela soube bem como abençoar-nos a todos e espero que, com a vossa santa
paciência, caros leitores, farei questão de apresentar algumas dessas lascívas felicidades.
Abrir e fechar gavetas bem que pode ser uma profissão honrosa, desde que se inclua essa

213
menina linda que veio da tórrida África, uma excitante gaveta de tecidos que todo mundo
queria apalpar e abrir!
Ah... quisera eu também poder abrir essa gavetinha e empeirar dentro todo o rolo e
assim montar o meu tear! Se o vai-e-vem da tecelagem fosse meu saboroso destino, como
um tecelão eu faria a montagem do órgão na traseira daquele tear, pente a pente, urdume a
urdume, liço a liço, até que violentamente um fio branco e quente saísse em gotas do meu
firme rolo para fazer parte íntegra umidificando todo quente o tecido que é o corpo dela. Eu
costuraria com a ponta dos dedos cada centímetro de sua pele preta, sentiria com os lábios o
suave resvalar dos micro pelinhos de sua vagina, ensoparia minha língua com a doce
brandura melada do fluido saboroso que há dentro dela. Ai meu Deus, que vontade grande
de chupa-la! Mas eu, no auge dos meus jovens anos, não obtive permissão sequer para
encostar meus lábios nos lábios da cobiçada, quanto mais mergulhar a minha língua em seu
espaço vácuo, pântano eternamente aberto, puro e doce, suave acesso ao prazer.
Para que eu pudesse fode-la, seria para mim necessário contar não dias ou meses,
sequer alguns anos, uma ou outra década, senão, pelo menos quatro delas... Ninguém mais
novo do que os que já completaram sessenta e quatro primaveras conseguiu desllizar a sua
língua debaixo do vestido daquela fêmea de cercope. No entanto eu, como os outros jovens
de Marrakesh, insistimos sempre em nosso agradável e sereno serviço que relegara aos
noviços e que nos sobrara, a volúpia sutil de apenas contempla-la! Quer isso dizer que, com
nossas próprias mãos satisfazer-se-iam os nossos desejos somente a imaginar que esses
másculos manípulos entre o indicador e o dedão fossem iguais à aquelas femininas
mãozinhas magrinhas a sacolejar os nossos rígidos pintos? Por acaso, afável é a mente
excitada, pelo reconforto daquilo que não foi por meio do corpo sentido? Não! Claro que
não! Eu precisava segurar aqueles peitinhos pequeninos com as palmas das minhas próprias
mãos! Eu precisava ficar junto dela... sentir o odor do seu cheiro de mulher selvagem...
desnudar aquele estreitos ombros e para sempre necessitar roçar a ponta estridente do meu
cabo de guerra naqueles bojudos lábios femininos até que estes ficassem dormentes... afinal
eu jamais me cansara de imaginar que era dela a mão esquerda ou direita que fragorosa e
ininterruptamente socava os bens que me honravam em tópicos com ainda algum respeito
juvenil... uma tora chamada sordidamente de “membro viril”, com suas duas bolotas
pequenas e sensíveis, ensacadas como que num pano pré-histórico ressecado e senil... Mas

214
os dedos reais dela eram muito mais delicados que os meus! Comparações entre o ferro e a
flor são loucuras nas quais as gentes as vezes se entregam! Mas nada disso valia para mim...
vindo da Córsega, nesse país umbroso, não é veneno notar que tanto os árabes
mediterrâneos, quanto os turco-otomanos, com seus narizes de caçadores, não são páreos na
arte do sexo frente a nós Córsicos, franceses, ou mesmo para os italianos e os egípcios.
“Isso não tem a ver com sangue” me segredara a cobiçada por idosos, “isso vem da
opressão cultural”...ah... não sei de onde ela tirara aquelas frases de efeito como se ela
tivesse juízo, mas sim, como eu adorava ouvir aqueles relampejos de inteligência sair
daquela boquinha minúscula dela...perceber inteligência numa linda mulher geralmente é
desconcertante..mas com ela não...era como se a beleza não existisse como tal, era como se
jamais almejássemos isso em supremo primeiro lugar e que homens e mulheres fossem
equilibradamente felizes para sempre assim....Mas quem quer ouvir lampejos de uma linda
mulher se ela já relampeja em tudo quando anda, quando sorri ou quando vagarosamente
abre com as duas mãos a poupa da bunda para nos reconfortar? Todos os lampejos delas me
soaram sempre intermitentes, menos um... quando ela estava com menos roupa no quente
verão de Marrakesh e quando se equilibrava com apenas uma das mãos num banco antes de
se sentar, virando sua bunda todinha para mim! O infinito é um contínuo de sensações que
tenho e isso é apenas comparável ao próximo gozo da vida...Todavia, gozo é sobretudo algo
que eu não tive, não tenho e, com pavor, jamais eu terei com essa bendita menina negra
cobiçada por idosos.
Ela pegou o trem de volta pra casa, vestia aquele vestido preto que todos odiavam,
menos ela, com aquele lenço verde que sem utilidade insistia em colocar no pescoço como
quem laça uma gravata. Sentou-se do lado de um idoso distraído, olhar vago e expressão
triste de gente velha. Como se o tempo tivera passado de modo infinito para uma juventude
e como um piscar de olhos para uma velhice, o velho tentou um início de uma conversa.
- É bom que esse trem não se demore muito. Estou cansado.
- Eu também, quero chegar logo no meu destino! Disse ela ao velho, que olhava
fervorosamente para as suas pernas, enquanto ela as fechava instintivamente.
- Ah, não gosta? Disse-lhe o velho baixinho.
- Não!
- Vem cá, menina, que cheiro gostoso... Qual é o seu nome, fala?

215
- Não, melhor não!
Ela olhou nervosamente para os outros lados sem saída. Mas agora já sem medo,
percebendo o sorriso puro e meigo de todo ancião, ela se limitou a dar seu meio-sorriso
juvenil, expressão que se dá a idosos, brincalhões e amistosos em geral. No que o velho
insistiu...
- Cheiro bom, de onde vem?
- Que cheiro?
- Hum, do seu perfume.
- Ah, é a essência.
- Tem um cheiro maravilhoso... Você tem um cheiro maravilhoso!
-Obrigada!

O Seu “obrigada” ressoava o sintoma de quem já percebeu algo ao redor mas que
não tinha total certeza... O velho disse a palavra “maravilhoso” de um jeito que ela já
ouvira antes. A propósito, sua inocência para com os homens havia já se dissipado em
muito na altura daqueles tempos porque, há eras que ela vinha sofrendo com o flerte
masculino na cidade. Ela despertara, foi como depois da passagem da ponte, num momento
você está aqui, repentinamente você já não mais está. Assim, com essa marca abrupta se
pode descrever a passagem pela qual esta moça atravessou, sem nem mesmo tempo de se
despedir do que ficou para trás.
O velho pegou na perna dela na altura da coxa com firmeza mas de modo
descomprometido. Sem reação, ela deu um leve sorriso, ou um meio-sorriso que se dá para
aqueles cuja impaciência vai forçar a você fazer o que lhe pedem, mas sem que estivesse
com a mínima vontade. Isso acontece quando um amigo lhe pede dinheiro emprestado
dizendo sorrindo com malícia em seguida: “Calma, desta vez eu vou lhe devolver!”.
- Eu tenho um imã..., ela quis dizer algo... Mas, no final da frase, retraiu a boca novamente
como fazia sempre, para molhar os lábios grossos.
- O quê? Perguntou-lhe o velho.
- Dá pra tirar a mão da minha perna?
- Ah, claro! Se assim o deseja. Disse o velho recolhendo vagarosamente a sua mão
enrugada e antes que ele a tirasse totalmente, ela completou:

216
- Não, pode deixar! Disse ela com seus lábios grossos e úmidos a sorrir...

Ah, Nada justificava a distância que para sempre separava o meu beijo da boca da
menina ‘cobiçada por idosos’... Por que eu não fui nascer velho? Por que as minhas rugas
ainda não apareceram ou sequer deram um mísero sinal por aqui? Pela majestosa sensação
de indefinidamente tirar e enfiar com toda força o meu pinto contra a buceta dela eu, como
Fausto, renunciaria à minha juventude! Eu venderia a minha alma a Mefistófeles acaso eu
pudesse sentir a sensação de me sentir friccionar por trinta minutos dentro do cu dela com
rapidez impressionante e deixar para os últimos segundos que precede o gozo a lentidão dos
movimentos me dominarem até que eu, nessa mesma lenta velocidade, me entregasse ao
grito da natureza humana fundamental ao dizer o trêmulo: Eu gozei dentro do teu cu! Eu
gozei dentro do teu cu!...
Mas...Ah!... Sonhos são só sonhos... Eles não passam da incerteza de estarmos ou
não vivendo as nossas fantasias depravadas... Sonhar não é como estar acordado porque
para prolongar a vigília, permanecer na vida é preciso se manter ali comezinha, sistemática
e mediocremente de olhos abertos. Ao sonharmos, nos mantemos imóveis e temos a
percepção falsa de possuirmos tudo; ao acordarmos tudo perdemos do fantástico, ainda que
tudo ganhemos de real para construir, incluindo a fantasia. Mas o seu mundo paralelo
novamente nos absorve e, ao voltarmos a dormir, o sono nos leva novamente a seu mundo
de sombras. Como nunca paramos esse redemoinho do estar acordado, por sua vez, ele nos
faz movimentar para o sustento mediano e ter a certeza de perceber a nossa carência por
esse tudo que representa o sonho e suas falsas realidades... a certeza, em ambos, na vigília
no sono, na fantasia e na realidade, de sermos meros desgraçados. Na fantasia depravada,
além da vigília e além do sonho, a realidade no real aparece.
Perguntava-me, portanto, por que eu tinha ainda de amargar uns bons quarenta anos
antes de poder querer algo com essa pequena e safada fantasia? Que sujeito miserável sou
eu que mesmo sendo jovem e viril, para poder penetrar na cobiçada por idosos, estou agora
na fantasia depravada de ter rugas, em ter dores nas articulações, nas costas e quiçá ter um
pinto bem mole para fazê-la lamber como o novilho lambe o mamilo da vaca quando está
com sede as cinco da madrugada! Sim, como queria que ela fosse um novilho e meu pinto o
mamilo de uma vaca, eis a fantasia das mais depravadas - não faltar-lhe-ia leite, disso eu

217
lhes garanto! E a faria engolir pela mama toda espuma nutritiva que faz tão bem a todos nós,
vacas e novilhos.
Meus caros e pacientes leitores, minha insistência nisso não é para que o deleite que
tiveram comigo até aqui se arrefeça como a despedida do sol das cinco horas da tarde no
inverno. Tanto tenho ainda a vos aquecer! Se falo dessa pomba rola que jamais bicou em
meu sabugo de milho é porque sei dela estórias de fazer gozar quaisquer Santa Claus,
velhos bibliotecários ou cientistas com mais de setenta e um anos de idade. Dela eu
dificilmente teria algo, é verdade, mas eu não podia simplesmente esquecer, desistir. Eu
precisava de histórias dela porque eu sabia intuitivamente que, por aqueles lábios molhados,
já devem ter passado muitos pintos árabes, negros, velhos ou não. Algumas dessas estórias
deviam figurar em algum repositório digno de nota, era só necessário chegar até ele e saber
qual fosse o segredo de entrada, para entreabrir todo aquele tesouro! Para isso, eu fui me
inteirar no local mais sábio de todos: as casas de banho e de hashish da velha Marrakesh.
Há menos de vinte anos atrás, nós cristãos tínhamos de pedir autorização ao Sultão
para entrar no Reino de Marrakesh, imaginem, então, para poder entrar nas casas de banho
e hashish! Mas saibam, meus leitores, que todos os velhos árabes daquela cidade as
frequentam! Excentricamente, acredito que são obrigatórias! Aos que não as conhecem, por
favor, não as percam de vista! Para que se informem melhor disso, Hashish é a mesma
planta que os Sadhus da Índia fumam em honra ao demônio destruidor a quem eles
chamam Shiva. Ao observar o olhar apático, embora sorridente dos sábios hindus que
fumavam as bolinhas de erva, eu não tive coragem de fazê-lo naquela única vez em que
estive em Uttarakhand, há dois anos atrás. Mas, graciosamente, foi ali que me contaram
uma deliciosa estória que vale a pena dividir com vocês, meus pacientes leitores: Shiva
aguardava tranquilamente o desejum quando sua esposa Parvati o deliciara com comidas
que ele imediatamente as considerou fabulosas. Diante de tantas delícias, Shiva,
literalmente, babou! E sua baba tocou o chão e dali se viu crescer a planta hashish (esse é
o nome árabe, eles dão na Índia outro nome à essa planta, algo de que eu não me recordo
bem agora, mas não encontro motivos para não chamá-la de “baba de Shiva”).
A primeira sensação é flutuante, depois você tem certeza de estar perante os deuses...
É maravilhoso! Eu somente me senti assim uma única vez naquela casa de ópio na China e
esse tal de hashish é empolgadamente melhor do que o ópio, entretenimento aos que não

218
amam a vida! O hashish tem mesmo algo de mágico e retira todos os incômodos do dia-a-
dia, sem deixar o fumante prostrado ou imóvel, como o ópio o faz. E, movidos pela
suprema verdade do hashish, aquele velhos árabes se punham a falar e falar e a falar... E foi
justamente isso o que fui buscar ali. Eu levei comigo a embreaguês deles para casa, tudo em
nome da ciência, fui coletando inúmeras estórias de deleite voluptuoso, de encantos
aprazíveis e de jocosas aventuras senis.
Se eu tivesse o mesmo tempo que esses velhotes tinham eu juro a vocês, meus
leitores, que eu lhes deixaria como que num “espólio científico” todo o arsenal de estórias
orgiásticas que ouvira daqueles velhos à respeito dela e de muitas outras cobiçadas por
idosos daquela ensolarada Marrakesh - ela não era a única, isso ficou óbvio. Mas como eu
sou só um jovem cumpridor do meu dever, resguardo apenas as horas de lazer o
entretenimento de vocês, contando pelo menos uma parte de algumas dessas estórias
marcantes. E e se conto apenas partes das partes foi porque eu tive justamente essa
“iluminação” ao fumar aquele cachimbo árabe: parte da história, seja ela qual for, é apenas
parte da parte de uma história, porque de partes são constituídas todas elas, minúsculas
verdades, alíquota, segmentos, frações de vida. E eu lhes explico: para aqueles que
acreditaram que eu me tornara um místico da África misteriosa, ou tenha tido súbitos
desprezos pela minha adorável razão, vou logo dizendo o que quis dizer com essa frase
inóspita: a pequena finitude da nossa mente só pode abarcar parcialmente a história
complexa de todas as coisas. Foi isso o que eu vi na sinuosa alegria daquela quente fumaça;
o mais profundo e verdadeiro acontecimento da história dos seres na face deste gigante
universo repleto do maravilhoso não passa de uma pequeníssima porção, componente ou
quinhão de um universo inteiramente novo a se descobrir.
Foi assim que eu decidi contar lhes parte dessas estórias e umas partes as quais me
causaram maior impressão do que as outras, sobretudo umas partes que me divertiram mais,
me inspiraram mais, e que me trouxeram uma alegria de inspirada satisfação. O mais
surpreendente para mim era que essas foram estórias vividas por homens cujas idades se
igualavam a de um tataravo meu! Quem poderia supor que em avançada idade, homens
idosos com corpos quase doentes, mas moralmente saudáveis pudessem ainda querer
regalar os seus corpos senis com aquelas jovens cujas idades ainda demorariam anos para

219
pensarem em se casar? Ainda mais a minha querida e bela tuareg de Agadez, que não era
tão nova quanto eu senão por uns sete anos mais ou menos.
Um velho nojento de nome Bashar Hafez a encontrava pelas manhãs porque,
enquanto o pai dela ia abrir a loja, a menina se fingia de preguiçosa e ficava em casa
supostamente dormindo, como ela dizia: “só uns minutinhos mais, papai”. A verdade era
que ela aguardava o pinto do velho se levantar, como fazia todas as manhãs, para que com
ela pudesse descobrir como era a vida juvenil do qual ele já não mais se recobrava com
facilidade. É por isso que mais uma parte dessa estória, meus pacientes leitores, ocorreu
comigo sendo uma ávida testemunha ocular.
Há não muito tempo atrás, comovido pela singularidade daquele eventos matutinos,
um dia fui ter com a bela menina cobiçada por idosos a fim de que compartillhasse algumas
dessas estórias comigo. Qual não foi minha surpresa ao perceber que ela era irredutível
neste e em todos os sentidos. Imaginara que, sendo uma safadinha como era, que ela fosse
mais verdadeira, mais tagarela como toda fêmea. Que difícil entender as mulheres que
cheiram a sexo, elas insistem em fingir que elas não foram feitas para isso! No caso dela,
como se ela achasse que eu me intrometesse e quisesse, sem direito, ter ciência das estórias
sexuais dela a fim de me aproveitar desse conhecimento para colocá-la contra a parede em
relação a seu pai, disse-me simplesmente “- Não, não!” E novamente: - não!...
Ela não quisera me segredar um milímetro sequer de suas (somente para ela)
maravilhosas aventuras. Claro que para eu seria lindo poder fazer parte integral disso,
penetrá-la... Era isso o que não me saia da cabeça. O que ela não sabia é que eu já guardava
dentro de uma caixinha de surpresas, aonde eu protejo com todo o meu coração todas (ou
quase todas) aquelas estórias aventurosas de meter medo, assombro e por vezes quiçá retire
algum nojo de alguns de vocês, meus pacientes. Vendo em seu silêncio uma suposta virtude
que ela fingia bastante mal vencer o meu egoísmo masculino, o que acabei querendo dela
foi que me deixasse ao menos participar daquelas estórias como mera testemunha... Isso
mesmo, pensei eu e lhe disse mesmo isso: “Se não posso tê-la, pelo menos aceita-me como
teu expectador! Muitas vezes, em minha jovem vida apenas o que me restou foi participar
das aventuras dos outros imaginando serem elas as minhas próprias. Por frustrado que às
vezes eu me sentia, intuído a incompletude disso, certo constantemente estive de que a
compaixão, empatia e amor ao próximo sempre foram as minhas virtudes cardeais!

220
Com o consentimento e acordo com o velho árabe12, num contrato realizado com ele
a respeito do qual eu lhes entreterei logo em seguida, eu já estava atrás de uma grossa
cortina que separava o quarto da cobiçada e os aposentos de uma de suas serviçais mais
íntimas. Cabe, por isso falar, que também tive de fazer algum contrato com esta também,
principalmente depois de que soube a respeito das desavenças dela com a sua senhorinha.
Os árabes mantém a escravidão na África do mesmo modo como aqueles quackers na
América. Curioso, entretanto, é ver essas duas negras, uma senhora e a outra escrava,
obcecadas por suas posições, uma negando e a outra permitindo que um Córsego que jurou
sob a bandeira U Moru defender com a vida aquela ilha e a nossa mais profunda verdade
saboreasse igualmente das duas, a escrava pela sua vingança e a senhora pela sua falta de
compaixão e indulgência. Eu vivo num mundo de doidos! Quantas dificuldades eu terei
ainda de passar para poder aproveitar o melhor do sentido da vida!
Atento à necessidade de fazer com que o velho tarado me permitisse participar
também de sua vitória sexual, eu fiz com ele uma aposta e um trato. Se ele conseguisse
permanecer em cima daquela tuareg mundana por mais de vinte minutos eu lhe daria duas
moedas de ouro. Mas, para que eu pudesse ter certeza disso eu teria de contemplar a sua
“luta pela vida” ao vê-lo nivelado pela horizontal em cima da africana na cama do quarto
dela: este contrato ele aceitou. Faltava ainda um outro: fazer com que a criada dela, por
outras duas moedas de ouro, participasse também do nosso jogo sem contar nada à sua
senhoria, para que ela não julgasse que estivesse sendo observada por um completo intruso

12
Permitam-me fazer um parênteses e contar-lhes algo interessante que esse velho árabe me disse outra vez.
Eu soube que ele já visitara uma aldeia africana de verdade, ao sul do Saara. Eu nunca tinha estado antes na
África, e acredito que não se pode contar aquela vez que, sem querer, aportei em Cartago, depois de um
naufrágio. Ele me contou que havia lá um chefe tribal que fez um concurso para adotar uma esposa. Ele
emitiu uma lei que exigia que todas as mulheres solteiras da aldeia se enfileirasse para trabalhar naquilo que
ele chamava de "concentração". Esta consistia em fazê-lo abandonar a castidade e provocar o intercurso
sexual da maneira como elas quisessem. Elas teriam de fazer um esforço, pois ele era conhecido como alguém
insubmisso e com “controle mental absoluto contra tentações femininas”. Ele lutaria contra essa tentativa de
ser seduzido pelas virgens que o tentassem. No entanto, se alguma conseguisse tirar dele uma única ereção e
assim perdesse a virgindade, ele prometia tomar essa mulher como esposa imediatamente e casar-se com esta
que seria uma entre as cinco mulheres de sua coleção. Parece que ele fazia isso regularmente e pretendia com
isso formar uma fileira que fosse suficiente grande para abastecer seu pênis com a rigidez necessária para um
simples coito. Enquanto a maioria dos pais forçava as suas filhas com todas as técnicas e ungentos mágicos
conhecidos milenarmente a irem lá no festival excitar o pênis real e assim modificar a sina da família, o fato,
desmascarado pelo velho árabe, era que o chefe tribal sofria de uma tortuosa e quase irremediável impotência
sexual. Enfilerar cinquenta meninas virgens diante do seu pinto para colecionar aquela que o fizesse funcionar
era sua única maneira de tentar se livrar deste mal assustador. A considerar que ele tinha cerca de 5 mulheres
naquela altura e que havia criado esse festival anual há pelo menos 8 anos, o problema parecia persistir e,
segundo a matemática, ao menos 394 virgens fracassaram.

221
jovem europeu, justamente em sua alcova lânguida e visitada por ninguém não africano e
principalmente com menos de sessenta anos. E foi o que eu fiz. Ao mostrar a cor do ouro
para a empregada, eu não precisei muitíssimo implorar para que ela me ajudasse com ardor
em minha nobre missão.
Uma hora antes da manhã demarcada por mim e pelo velho, eu já estava sendo
ajudado pela empregada a adentrar furtivamente no quarto da adormecida senhoria.
Enquanto aquela ajudava a me esconder por detrás da cortina que dava de frente para a
cama eu vi que, realmente, ela dormia o seu sono mágico... Na medida em que eu entrava
no quarto, dava para perceber o volume da sua bunda revolta em seda branca transparente
como uma montanha vulcânica com picos regelados deitada sobre uma planície. Sem
respirar, permaneci o tempo suficiente para poder ainda presenciar por meio de rápidos
sons matinais a saída de seu pai para o trabalho na loja. Mas chegar aí não foi fácil.
Continuava a soar frio, na frente daquelas montanhosas curvas... em imediata ereção ali
mesmo, atrás da cortina, ereção e medo...,Subitamente, eu paralizei. Mergulhado no terror
de ser ali descoberto, caso ele entrasse no quarto da filha, sons do pai dela se aprontando
para sair se aproximavam e subitamente se afastavam do quarto aonde estávamos... Se ele
entrasse e me surpreendesse no quarto da filha e assim a acordasse, pouco eu tinha
planejado para me auxiliar como desculpa. De um lado ou bem ele me forçaria ao casório
(o que seria estúpido, mas, pelo menos, eu finalmente teria a bunda dela só para mim!) ou
bem, o mais provável, ele me matasse ali mesmo, já que a lei islâmica é a única que
funciona nesse mundo cruel. Ele me mataria com o consentimento da filha que seria
vingada e ao mesmo tempo ficaria feliz com a minha morte reivindicando que se sentiu
desonrada perante todos em ter um jovem indesejável em seu quarto.
Mas, por fim, Alah me ajudou e eu fui abençoado pelos dois velhos do
mulçumanismo, o que não se importava muito com ela e sim com os negócios e o que a
esperava a boa distância apenas para ver o negociante sair de casa e permiti-lo com isso
adentrar em seus dois aposentos, na casa e na vagina de sua filha:
...Venha minha boquinha selvagem, venha meu doce carnudo, meu pedacinho de
ameixa suculento...
Aquele velho miserável falava tão bem aos pés do ouvido ao acordar a africana que
quase não tive nojo de sua pele branca, enrugada e flácida sob aqueles deliciosos seios

222
negros, duros e pequeninos sendo despertos. Aqueles peitinhos adoráveis bem que
mereciam, na verdade, a minha língua jovem e a minha boca firme, mas não! Fui eu ter o
plácido destino de nascer nessa era e não em outras décadas atrás, para que não pudesse
nem sequer suavemente roçar com a ponta do meu nariz os pelos pubianos dela antes de
sugar com a língua todo o líquido daquela preta caverna africana... Como seriam seus
pelinhos de baixo? Pretinhos e enroladinhos bem apertados ou, então, como os de cima,
encaracolados em anéis bem maiores tais os cabelos de sua desguarnecida, oca e linda
cabecinha? Ah, meu nariz, ah meu jovem nariz! Tu nunca mergulharás na profundidade
juvenil daquela miudeza como fez o decrépito velho naquela tórrida manhã em Marrakesh!
A ti, só lhe resta suspirar por entre essa cortina que separa a sua besbilhotice da minha
amargurada sina de ver um espetáculo sem poder dele nem um pouco participar!
Meus nobres e pacientes leitores, foi isso o que eu simplesmente fiz, confiante de
que não haveria para mim uma aleluia tão reconfortante e uma nobre represália tão digna de
mim do que manchar com o meu gozo e de propósito a cortina daquela cobiçada por idosos.
Refletindo, eu fraquejei... “Antes eu o fizesse em seus lençóis, para que ela pudesse depois
deitar-se sobre o meu sêmen, sem o saber”. Mas gozar no melhor véu de sua empáfia seja
ele qual for, me faria mergulhar na aventura heróica de vingar duas almas sedentas por
justiça com um só golpe de martelo, e ao mesmo tempo, tal como eu gosto sempre de fazer
- eu e a sua criada estaríamos, assim, igualmente ressarcidos! Então, naquele mesmo dia,
segurei-me da aventura de manchar com o meu sêmen as cortinas daquele quarto de
perdição geriátrica. Com auxílio do trabalho de mãos feitas para esfregarem que tinha a sua
empregada, eu não posso deixar de exclamar que, assim que a africana foi trabalhar na loja
de seu pai, eu deixara também ali, no travesseiro dela, à exata coordenada aonde a
senhorinha põe a boca, uma amostra do meu líquido espermal, com a promessa que a criada
não o lavaria. Eu não vivenciei o sono dela na noite posterior, deixei essa glória para a
criada, mas eu podia muito bem imaginá-la babando por sobre o meu sêmen e quiçá tendo
sonhos molhados enquanto seus lábios recostavam num pedaço de mim que eu deixara ali,
para sempre, grudado em sua boquinha carnuda e safada.
Mas antes, na cena com o velho, não era exatamente a eternidade juvenil que ele
conseguira alcançar. Foram apenas uns míseros trinta minutos que fiquei ouvindo aquela
bajulação do velho sobre ela e confesso que eu não esperava muito mais do que isso.

223
Exceto por uma única implicação daquele ato, todo o resto era com segurança o
entendimento dos limites de uma velhice. Algo ali também ocorreu para que eu tivesse
certeza de que minhas súplicas teriam sido ouvidas. Repito, numa determinada hora
próxima ao fim dos pouco minutos de esfrega e esfrega bem mornos, algo ocorreu que
conseguiu tirar o meu fôlego. Por causa daquilo, certamente eu voltaria a vê-los novamente.
Eu faria tudo isso de novo por ela, já que só assim eu seria capaz de alcançá-la.
Mas antes disso, ainda dessa primeira vez que testemunhava aquela aventura dela
tornada nesse meu mal destino contemplador, eu fiquei pensando: “Ora, ora, ora...por que
não eu e sim esse matusalém? O que faz uma flor imaculada como essa deixar-se profanar
por mão tão safadamente enrugadas? Por que os lábios tristes, mornos e murchos daquele
homem a satisfazem mais do que os sorridentes, joviais e ardentes meus lábios juvenis?”
Eu não sabia das razões das preferências da cobiçada e dos motivos pelos quais eram os
sexagenários os únicos autorizados a mergulhar toda a sua intensidade viril no fundo de seu
íntimo feminino. Mas eu os vi, caros leitores, talvez eles encheriam de nojo alguns ou
fariam salivar a outros, então devo dizer que, da minha parte, aumentar o conhecimento que
tenho da diversidade humana, senão através do sexo não há outra prova de que a variação
conforma a potencialidade entre os Homens e estabelece toda a abundância e maleabilidade
da vida. A fantasia é a fonte de todo o prazer, eu tenho dito. Enquanto uns chamam a isso
de ilusão e outros de enganação, falta de senso moral, eu chamo de intrépida satisfação:
assim, quando o velho estava com seu arcaico pinto perfeitamente pronto para enrabá-la, a
menina se prostrou em direção à Meca e fez o velho orar em formato prolongado e numa
melodia sinuosa a reza matutina de todo árabe, o canto do Muezim: Allah hu Akbar,
Allaaaah Akbar. Deus é grande... Deus é grande... De fato Deus tinha a exata
circunferência daquela bunda!
A verdade estava ali diante dos meus olhos, senhoras e senhores! Deus é grande! Eu
só não me converti ali imediatamente ao mulçumanismo porque eu sabia que a hipocrisia
deles não era tão mais provável do que a nossa... Mas Allah é grande, mesmo! Eu o vi por
aquela cortina sagrada que me fez feliz um dia. E por isso fiz questão de perder 4 moedas
de ouro e uma aposta com um velho abjeto... Porque Deus é grande! Nem o nojo nem o
prazer em si mesmos me forçaram a ter nessas experiências um fim último; o fim último, se
ele realmente existir deverá ser a sabedoria. Conseguir tirar saber de uma cena de sexo é

224
como ler um livro de mil páginas em apenas alguns poucos minutos. Minutos esses que,
para os bem aventurados envolvidos, deslocados de seu quotidiano material pela sensação
espiritual de prazer passam por milhares de séculos de onde não se quer ou não se pode
mesmo sair sem o risco de querer sempre mais e mais e mais.... E um dia, aos oitenta e
quatro anos, finalmente serei eu, na madura idade que ainda ei de provar, um daqueles que,
ao cobiçar uma jovem virgem meretriz mergulhará no mais rico dos mares em lençóis a
experimentar a vida eterna. Este é o risco que eu sempre quis e sempre vou querer ter:
poder voltar para sempre na imensidão do útero de onde eu vim, nessa atemporalidade
divinal, sair e entrar de lá repetidas vezes ileso, como quem ganhou milhares de batalhas
contra a morte, e quem mo permitirá isso no futuro será, certamente, alguma cobiçada por
idosos que nascerá apenas daqui há 67 anos.

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Os Artistas Comiam Algodão Queimado no Bico de Bunsen
Ou: Como e Por Que Eu Perdi Todas as Minhas Referências de Classe

Os artistas são definitivamente uns malucos mesmo! A meu ver, conviria apenas aos
equilibrados mentais, igualmente aos seres que, faltando-lhes apenas um pouquinho de
juízo, não se impedisse a chance e a sorte de conviverem com outros de nós, seres humanos,
seus irremediavelmente desiguais. Mas seriam apenas os saudáveis pares, os de bom
nascimento, capazes de justificar a hombridade, a honra e a sensatez? Aqueles leitores
dentre vocês que, estando sempre dispostos a não nos fazerem perder muito de nosso
precioso tempo com inúteis descrições pormenorizadas certamente concordariam com as
nossas razões para dizermos sim à essa pergunta. Apenas os saudável pares e de bom
nascimento justificam exigências tão enormes quanto a hombridade, a honra e a sensatez!
Assim, sem muitas explicações, apenas parafraseando Platão dizemos que o bem é belo e o
belo é bom; assim, enquanto se se prezar o regente e a classe dominante em uma sociedade,
no fito de encontrar para todos o bem, a paz e a estabilidade, saberemos que apenas os bem
nascidos poderiam oferecer essa estabilidade à ignóbil e irrequieta multidão. O mesmo
pode-se dizer dos artistas? Ao contrário! Foram eles mesmos que me convenceram disso!
Há um grande vale que opõe os seres de classes abastadas e a grande turba desprovida; mas
a qual desses dois grupos acaso pertencem os artistas? Não devemos falar apenas de posses
quando percebemos o que há de distinto entre uma pessoa de bom berço e outra mal
educada? Os artistas, em sua sensibilidade, inteligência, doçura e trabalho, estão sempre em
acordo conosco? Pelo mesmo sabemos ou bem não queremos saber que quando esse
artistas desferem as suas galanterias com relação às moças de baixo calão, elas não são de
modo algum impróprias. No entanto, quando esses se julgam no direito de propor
interpéries para moças bem nascidas, não seria o caso de maculá-los com a alcunha de
devassos pela evidente agressão ao cavalheirismo? Quais dentre esses artistas da academia
francesa que por acaso não deveriam ser considerados insanos só por supor pertencerem
eles a uma determinada casta totalmente imparcial, acima dos homens, como se pudessem
cruzar as fronteiras das classes, subjulgando-as todas?
Caros e pacientes leitores, era isso tudo o que eu refletia. Os médicos de sanatórios e
de casas de repouso em geral, bem como os teóricos especialistas em saúde mental, por
indisplicência, estão a todo custo tratando apenas dos alienados habituais, porém, eles mal

226
se aproximam dos homens da academia de teatro, de escultura e de pintura - aqueles
“loucos especiais” que deveriam ser tidos como “a luz do mundo”, não fossem as suas
incontáveis manias sexuais tão dignas do nosso desprezo! Eu não estou falando do
pequenas displicência sexuais das quais muito já li, escrevi, ouvi ou presenciei, tais como a
atração por pessoas mortas. Esse pecado é ingênuo perto dos deles. Nós, além disso, já
conhecemos bem aqueles que se apegam sexualmente a jovens crianças sem decoro,
aqueles que, por outro lado, se apegam a idosas velhas com um amor infantil agindo como
se fossem seus filhos bebezinhos; aquele se alvoroçam com cavalos, aqueloutros com
cachorros, aqueles que camuflam suas perversões em edifícios e em alcovas privadas e
aqueloutros que desavergonhados copulam nas ruas, fingindo estarem escondidos, para que
mesmo assim sejam vistos por todos. Eu não estou falando de meras ilusões, desvarios,
utopias ou quimeras, eu estou falando de fantasias depravadas. Estou falando sobre aqueles
que tiram prazer da mordida de testículos alheios, estou falando daquele que amarram
pedras ou cortam seu próprio órgão genital... Não estou falando daqueles que se aprazem
com corpos gigantes de mulheres ou homens imensamente obesos esmagando-os na cama,
estou me referindo a aqueles que se deitam somente com plantas, legumes e frutas. Eu
estou me referindo a aqueles cuja sensação mais prazerosa e sublime é urinar e defecar na
boca de belas pessoas conhecidas da alta sociedade. Essa é a verdadeira e odiosa perversão!
Aquela promulgada pelos artistas!
Ah, quantas vezes eu presenciei, seja aqui na França, na Itália ou na Alemanha
inúmeros doidos a quem a modernidade chamam por eufemismo de “artistas” cometerem a
estultícia de provocar a alta sociedade com suas estripulias manicomiais? Ah, artistas,
artistas, artistas...Vós deveríeis sentir vergonha do escândalo, escarcéu, cena ou alvoroço
que armais sistematicamente para com os bem nascidos aristocratas e burgueses da Europa!
Ao humilhar a filha dos aristocratas que vos prestam favores que não poderiam realizar à
luz de todos, escravizam o futuro da nobreza. Essa mesma que já há tanto carcomida,
encaminha para o perigoso risco do desaparecimento. Se forem dadas chances aos artistas,
logo se esvairão as altas classes sociais e com ela o bom e querido espírito aristocrático-
burguês.
Não éramos eu, e os jovens oficiais do Exército Beltrand e Mouffetard os que mais
vos protegiam a fim de que mantivésseis sabiamente às escondidas aquilo que somente era

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possível e estratégico manter apropriadamente oculto? Mas não! Ao contrário, sempre vos
esforçastes a não manterem as vossas palavras; sempre vos esforçastes a cometer o pecado
e deixá-lo à luz de todos; sempre vos esforçastes a não dar valor às vossas próprias honras;
e quem dirá se vos importaríeis com as honras alheias na hora de debelá-las - a honra
justamente daqueles a quem mais odiais?! Dizei-me, então, se não é por ódio somente que a
glória, a pátria, a Igreja e a família, continuamente profanais em honra apenas de vosso
próprio deus; e o que este mais é do que o vosso enorme e estrume ego? Dizei-me, então, a
paga por seus atos ignóbeis tem oferecido sequer um único benefício digno ou que valha a
pena das armadilhas que vindes armando justo contra aqueles que vos querem bem?
Ah, meus caros e pacientes leitores, por quantas amarguras eu tive de passar pelos
inúmeros cabedais de maldades que souberam os artistas parisienses resguardar para cada
donzela aristocrática indefesa. Mas se pensam assim o fazem errado: eu não sou o defensor
delas todas, por certo que não! Porém, se a sociedade não salvar pelo menos as moças de
boa família, sobretudo as meninas católicas, pouco restará da antiga honradez, do espírito
probo e da dignidade límpida nesse mundo industrial.
Mas e por que lançar luz sobre isso no papel? Por que publicar relatos dessas
indecorosas atitudes desses artistas vis expondo-as? Ora, se meus leitores souberem de tudo,
pensara eu, talvez assim proteger-se-iam melhor a eles mesmos e aos seus próprios rebentos
da ação desses criminosos imorais! Eu quero muito deixar-lhes, portanto, meus caros, mais
um desses relatos tragicômicos, simplesmente porque eu quero lhes mostrar o quanto
alguns ingratos seres abusam de sua própria capacidade mental e de seu talento relativo
para as artes para comungarem com a falta de arrependimento descaradamente expondo à
luz todos a “suprema desnecessidade dos bons convivas da virtude fidalga”, tal como eu
ouvi diretamente da boca de um desses nefandos artistas.
Sendo assim, meus pacientes, deixem-me alertar-lhes contra aqueles que,
manifestando um ódio contra os privilégios de classe, atentando contra a propriedade,
falando contra a herança, o monopólio do poder e a prerrogativa de nascimento, ou seja,
contra toda ordem natural das coisas, privaram com que os mais fortes prevalecessem sobre
os mais fracos; permitiram com que o indecoroso saísse dos bordéis, das vilas e cortiços
para habitar a casa das meninas sadias da fidalguia - invertendo toda a ordem natural do
universo. Esses mesmos que se arrogam tomar para si a fala de uma suposta liberdade e, em

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nome dela, ousam deter a nobreza se infiltrando em seu seio o fazem por meio de mil e um
subterfúgios. Eles não merecem jamais a nossa piedade! Falarei aos senhores um
pouquinho sobre esses artistas que procuraram, da maneira a mais ardilosa, subverter as
mentes jovens com as mentiras sobre uma certa doçura e uma finesse que naturalmente não
podem de forma alguma obter por merecimento ou ser por eles apropriadas à força.
Era mais do que certo que o apanágio dos artistas sempre foi a imunidade na qual,
em geral, se blindaram historicamente, por terem eles a isenção e a tolerância que lhes são
ainda resguardadas pela nossa sociedade de forma semelhante como eram resguardadas
isenção e impunidade às investidas do Court Jester [bobo da corte] aos reis da era medieval.
Ninguém se daria ao luxo ao dizer que o Court Jester, por causa de suas estórias e de seus
discursos de malícia e palhaçadas contra a figura do rei e, com efeito, contra toda a
aristocracia, deveria ser preso, torturado ou morto por cometer tais atos de “rebeldia”
caricata. Esse era o papel deles, afinal, não?! Todo rei, toda rainha da Europa medieval se
divertiu muito às custas deles, mesmo quando as zombarias se excediam de maneira
colossal - aqui na França, por exemplo, eles existiram até às margens da Revolução, depois
desapareceram para dar lugar a commedia dell´arte. Mas cá estamos nós, à beira do novo
século, e vemos essa turba parisiense degradar o pouco que restou da bela aristocracia
francesa no disfarce burguês ao qual todos tivemos de vestir desde a reclusão da Casa de
Bonaparte, parcialmente minha família também, como já vos confessei. Ainda assim,
obviamente, pensando nas glórias do passado e abrindo espaço ao futuro, valorizarmos
imensamente meu primo de segundo grau por parte de mãe, Napoleão V, com quem eu
sempre me encontro quando estou na Bélgica por termos tanto em comum, embora ele seja
alguns poucos anos mais velho do que eu.
Então, para lhes falar algo a respeito desses artistas indecentes é necessário dizer
que convivi com muitos deles. Omitirei aqui os seus nomes, não porque não merecessem
passar pela mesma humilhação por que fizeram passar as mais belas aristocratas da Europa,
mas por não querer me rebaixar tanto quanto eles numa vingança, ademais inútil. Se
descrevo os detalhes horrendos os quais eu tive de presenciar, revelando os nomes dos
vitimados e não de seus corruptores, tudo o que faço é pelo nome da pena, constrição e pela
certeza de que absolverão os pecados das vítimas, em razão dos quais resguardei para mim
a maior lance de dor. Meu quase padecimento, minha aflição e condolências evocam a

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piedade de vocês, meus caros pacientes, para que esse condoimento vingue todo o mal
pelos artistas cometido - por favor, pelas vitimas tenham compaixão em vossas almas, pelos
algozes, devolvam-lhes o ódio, pois se Deus for justo, será desse fel que eles deverão
certamente provar!
Eu sofro por exemplo, pela desgraça a qual esses artistas submeteram em primeiro
lugar a minha linda prima de segundo grau, a amada e santa Mademoiselle De Beauharnais,
também deveria ter sido herdeira da Casa de Bonaparte, já que era bisneta de Josefina de
Beauharnais, ainda que bastarda da parte do General Duroc, seu avô. Vejam vocês, meus
caros leitores, o grande Imperador em pessoa, meu conterrâneo e com uma ligação familiar
distante, foi casado com a bisavó dela, por parte de mãe. E para que tenham uma noção
presente da pureza dessa criança, a Mademoiselle De Beauharnais foi a mesma que, com
tanta polidez, disse-me certo dia um muito bem-educado “não!” à minha proposta de que
dançássemos uma inocente polca num baile, para que, como disse-me ela: “o calor do
verão não a fizesse soar ao meu lado na frente dos outros”. Ela não é linda? Mas essa
beleza foi tristemente profanada e eu jamais poderei me imiscuir ou resistir de trazer à luz
os detalhes dessa profanação.
Antes que eu possa lhes contar essa estória, devo-lhe ainda dizer que a alta
sociedade francesa já há muito tem sido enganada por esses lacaios pervertidos das artes
plásticas e do teatro. Não é que eles não tenham lá o seu talento ou que eles não prestassem
de modo algum como seres humanos que são. Certamente nos valeria muito mais um
humano talentoso rebelde e louco sendo artista do que um louco apenas louco. É talvez por
isso mesmo que a alta sociedade da França e de toda Europa se deixa levar por esses
desgovernados artistas e estes fazem sempre o que bem entendem daqueles, com frequência
abusando muito, já que são tão queridos por eles. As pessoas muito queridas abusam
daquele que lhes querem bem, e isso é uma regra!
Quando os artistas pintam ao ar livre ou aguardam os visitantes nos salões de suas
exposições ou, quando discorrem suas longas falas numa das peças de Racine ou nos
deleitam com o erotismo de Marivaux, eles não são menos adoráveis do que as adoráveis
luzes trazidas pelas primeiras horas do dia. Mas confrontar-lhes-ia também o conhecimento
que têm sobre as regras fixas de suas artes com as regras fixas da sociedade? Por que exigir
liberdade criativa em seus sexos e não o fazê-lo em suas artes? Que espécie de furor

230
vulcânico os fariam colocar o que têm entre as pernas acima de quaisquer virtudes,
dignidade e honra? A preeminência que não a deles os desagrada. A distinção seja por
títulos, seja por herança familiar os aborrece. A galhardia, o relevo, a largueza da elite os
repele. Fineza, garbo, excelsitude, magnanimidade, ostentação, virilidade e glória, são
virtudes contra as quais os efeminados artistas dedicam as suas vidas para colocar cada uma
daquelas desgraçadamente na lama.
Atacar mulheres puras da aristocracia é o crime perfeito deles. O veredito é a da
imoralidade, porque se propusessem isso com prostitutas ou mulheres da turba que mal
veria alguém nisso? Mas, não! Foram buscar nas jovens da aristocracia uma maneira de
lançarem o seu veneno manipulador das virtudes de classe. Que instâncias mecânicas
seguem esses artistas que sua busca pelo virtuosismo exclusivista de suas artes não é
suficiente para mantê-los como guardiãos dos restritos bons costumes? Como enxergam
bem a expressividade de uma cor ou de uma frase e ao mesmo tempo não enxergam a
expressividade e a cor dos olhos puros das jovens mulheres abastadas? Enfim, nada disso
eu sei! Apenas digo, entretanto, que com a ajuda divina descobriríamos, por fim, aquela
oposição derradeira e irreconciliável: seria uma ultrajante injustiça tentar encontrar
convergência entre a arte e a vida de um artista; enquanto na arte o deus artista é
sobejamente um exemplo a ser seguido, em sua vida, o humano artista reflete a ignóbil,
ordinária e menosprezível indignidade em pessoa.
Por favor, caros pacientes, não me perguntem como foi que esse dramaturgo podre a
conheceu, ou como ele chegou até ela, sequer me perguntem como foi que ela pôde se
rebaixar a tanto! Pergunte-me apenas aquilo que lhes poderei responder: perguntem-me, por
exemplo, como cheguei a saber de toda aquela ignomínia putrefata... Perguntem-me se eu
pude flagrá-lo em seu ato degenerado. Perguntem-me se esse ato aviltante dele já foi
vingado. Assim, eu prometo deixar lhes a par a respeito dessas diabólicas investidas, desde
que sempre reclamando piedade à minha prima Mademoiselle Beauharnais e a chama do
inferno para o seu dramaturgo tentador.
Logo de início eu lhes devo confessar, embora no todo ela permanecesse pura, por
pelo menos uma vez que eu saiba, minha prima foi penetrada tanto no ânus quanto na boca
e mais ainda na vagina por aquele vagabudo sem pudor. Soube disso não por ela, que
sempre negou, mas por causa de duas de suas criadas que presenciaram toda a cena.

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Imaginando estarem presenciando e interrompendo um estupro, acorreram para salvar a
Mademoiselle, mas logo foram convencidas pelo terror e ameaças de castigo se contassem
algo do que viram com pavor, ameaças essas advindas não apenas do dramaturgo, mas de
ambos os amantes. Talvez minha prima sentisse vergonha, disso eu ainda não sabia ao certo.
Foi por isso que as criadas foram forçadas a não contar o que viram para absolutamente
ninguém, exceto que, obviamente, elas acharam por bem caiarem em minha teia retórica
aprendida numas melhores salas de direito da França, a universidade, que com dedicação
sempre nos ensinou como atingir o convencimento! Em breve voltarei a isso, mas antes
gostaria de lhes dizer como isso tudo começou.
Tudo se iniciou assim, por acaso... Mais uma vez eu estava no local incerto, não
testemunhei todos os fatos, mas mesmo assim, pude adquirir mesmo ali, naquele erro,
naquela indeterminação, a certeza que tanto procuro, a mais profunda de todas as
experiências: o aprendizado. Então, tudo ocorreu da maneira que deveria ser. Eu odeio não
poder saber detalhes sobre fatos sobre os quais me incitam o interesse e que eu não tenha
presenciado... Especialmente a essa altura, os senhores devem mais do que presumir e sim
terem certeza: eu sou sensível a observar aos fatos ocorridos na alcova... é incrível como
certas mulheres e homens recatados fora da cama se transformam em selvagens
irreconheciveis quando o assunto é o sexo. A sexualidade é o verdadeiro motor imóvel do
qual falava Aristóteles! É ela que dá o piparote para a existência! Essa que é uma contínua
sensação de energização na base da espinha não deve ser só vontade de procriar. Eu não sei
ao certo, mas eu vejo isso como experiências necessárias para compor um grupo de saberes
sobre o corpo do outro e sobre o nosso próprio, capazes de nos trazerem a verdade sobre a
vida e sobre a natureza da existência. Se não temos a direção e a lógica por traz dessas
coisas, talvez seja porque não tenhamos ainda nos libertado o suficientemente das terríveis
amarras culturais. Precisamos buscar razões e significados para isso. Mas não podemos
deixar de observar que por intuição acabamos sabemos de tudo... ou quase tudo... E foi,
portanto, exatamente o seguinte o que ocorreu quando aportei aqui:
Eu cheguei na França à navio pelo porto do Havre, pois tinha ido a Winchester e a
Southamptonshire visitar a uma tia casada com um milionário britânico. Na verdade, devo
admitir, eles são meu álibi perfeito, já que viajar até eles com frequência me permite
também visitar o túmulo da minha amada escritora preferida Jane Austen. Eu li todos os

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seus livros com entusiasmo desde que a conheci graças ao texto crítico de Léon Boucher
“Le Roman Classique en Angleterre”. Esse texto que praticamente caiu dos céus em minhas
mãos, emprestadas de um turista francês numa dessas longas e literárias viagens a navio
salvou a minha vida certa vez... quiçá tenha eu algum momento tempo para lhe contar algo
sobre isso em outra hora. Por agora é suficiente dizer que eu, como todos da minha geração,
enquanto amamos a poesia de Milton, Blake, Wordsworth e, naturalmente, o teatro
shakespeariano, execramos o romance inglês, exceto por Shelley, Dickens e Eliot, claro.
Desde então, sempre que posso, visito a minha tia para, na verdade, ir visitar Austen
cumprindo, assim, regularmente o meu ritual ao fazer durante a viagem a leitura de Pride
and Prejudice, no original. Mas não pensem que sou ótimo em língua inglesa, ainda que de
fato eu leia bem, eu mau consigo me expressar oralmente nessa língua de bárbaros, que me
perdoem os meus amigos bretões que ainda os amam. Além do que, o Reino Unido é o
único império europeu em que eu não posso exercer a minha profissão de advogado. Não
sei por que cargas d’água há uma lei lá que me impede de eu ser quem eu sou.
O Porto do Harvre sempre foi meu preferido, seja vindo de Hamburgo,
Bremenhaven, Amsterdã ou Southhampton, eu sempre aportei ali antes de partir para
Rouen e de lá para Paris. Quando cheguei a Rouen, há semanas antes de descobrir o
segredo de minha prima, encontrei-me rapidamente com meus queridos companheiros de
Porto, os jovens oficiais do Exército Beltrand e Mouffetard (é de bom tom aqui dizer que,
na época da faculdade, nós nos encontrávamos com frequência no Porto do Harvre para
experimentar as deliciosas prostitutas polonesas. Bons tempos aquele!). Com a ajuda de seu
pai o Admiral Édouard Barrera, ainda que sendo filho ilegítimo, Beltrand, já aos 27 anos,
chegou a ser um capitaine de vaisseau! Outro amigo, “Mouffetard” (bom, este é, pelo
menos, o apelido de Martin-Bernard, o mais simples de nós três), tem origem humilde, pois
ele pertence a uma família camponesa da região de Loire. Mouffetard é assim chamado
porque as roupas dele fedem ao mercado da Rue Mouffetard, uma desgraça! Este nasceu
para ser marinheiro! Pelo o que eu soube, depois da morte de seu pai, para sustentar a
família, sua mãe, tal como confirmei em retratos de família, realmente era muito bela e por
isso tinha com frequência casos com oficiais do Porto de Cherbourg. Ambos esses meus
amigos fizeram a Escola Militar de Paris, mas como eu estudava direito internacional na

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Faculté de Droit de Paris, e foi feito na época um acordo entre as Escolas, chegamos a
fazer alguns cursos juntos, e foi lá num bar na Place du Panthéon que nos conhecemos.
Nós amamos o Porto do Harvre! Mas ali, quase sempre evitamos ficar com a nossa
própria gente. Então, a primeira coisa que fazemos quando chegamos é ficar bem longe do
Quartier de la Coté, do boulevard maritime e dos patifes comerciantes ricos. Por outro lado,
o que mais nos emociona no Harvre é poder ficar próximo da turba barulhenta de Saint-
François, e mesmo no perigoso e delinquente Leure. Poucas vezes eu me hospedei no Hotel
Suisse, quando tinha pouco tempo a ficar no Harvre, na maioria das vezes eu me hospedava
mesmo nas espeluncas das Maisons de Tolérance e outras espeluncas próximas do baixo
meretrício. Bebidas, mulheres e cabarés... diversão de verdade no Harvre é encontrada
apenas nos bas-fonds...Rue Marchande, para ser mais exato! Ou então, encontre num outro
sentido, a mais próxima dos destinos franceses a Rue: Galions para quando estiver com
pressa para partir, como eu estava desta vez, a ponto de não poder desfrutar melhor o Havre
com esses meus parceiros de mendicância, dei apenas uma pequena e rápida metidinha com
um prostituta menor de idade cujo pai Bretão me escoltou até ela...nada que valha a pena
relatar. Outra coisa, aliás, que eu também amo é o estilo rústico das mulheres bretãs...esse
imigrantes estão tão bem habituados ao porto que mal se presume que não chegaram ali há
muito mais do que cem anos atrás, e eu os amo a todos! Eu amo aquelas criancinhas
desnutridas, os marinheiros fortes, os artesãos habilidosos, aqueles velhos barbudos e mal
vestidos fumando e recendendo integralmente a seu tabac, aquela montanha de gente que
não tem o que fazer e estão sempre nas ruas, pela manhã, pela tarde, noite e madrugada
afora!
Como se eu já estivesse pronto para a minha viagem à Rouen, eis que eu encontro
no boulevard Carlos Ramos e Jacqueline, sua esposa, os fieis concierges espanhóis da
residência (Deuxième Manoir) da minha prima em Paris. Eles tinham vindo de Sevilla e
aportado naquela mesma tarde. Algo que percebi em Carlos, me trouxe uma estranha
sensação... Ele estava um pouco tenso quando me viu e deixava isso transparecer com um
leve sintoma de irritação em sua mão esquerda que, com frequência excêntrica mexia
rapidamente, como se tocasse uma rápida passagem de uma melodia nas teclas de um piano
invisível. Como eu estava muito interessado em saber a respeito de minha prima, eu reparei
naquela movimentação suspeita de sua mão, mas simplesmente não associei a nada

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específico imediatamente. A velha e constante angústia de quem não tem intimidade com o
mar. Inúmeras vezes eu vi coisas semelhantes acontecerem com viajantes de navios... Os
impacientes não pertencem ao mar!
Aliás, eu conheci um doutor suíço que de um modo muito sombrio propôs uma
classificação dos efeitos deletérios que o mar oferece a passageiros de longas viagens a
navio. Dentre outros ele destaca em sua classificação desde os pensativos, cansados,
incomodados, contristados, aborrecidos, irrequietos, agoniados, até os tensos, ansiosos e
agressivos, de um lado, e de outro, o médico destaca ainda mais tragicamente, aqueles que
são os melancólicos, mortificados, desolados, torturados e patéticos, entre outros. Em todos
o mar causa algum tipo de afeto; a todos o mar nos coloca contra a parede. Poseidão anima
e coopera com os aventureiros, corajosos e vivazes, mas ele também se vinga dos covardes,
traidores e doentis. Igual a um deus no dia do juízo, o mar a todos confronta, interpela,
questiona, põem em cheque. O mar, tal como o deserto, sempre nos coloca diante de nós
mesmos - são poucos os que o suportam com boa animosidade e ímpeto, ao contrário, a
maioria não o tolera; força intransponível que é o mar!
Em todo caso, com relação a Carlos, o que me pareceu muito evidente era que ele
pertencia à classe dos viajantes tensos - só isso poderia explicar toda aquela agitação em
sua mão, presumi eu. E não sou vaidoso ao comentar que, com relação a mim, de outra feita,
é mais que óbvio que eu pertença a uma classe completamente diferente da dele, pois eu
praticamente nasci dentro de um navio - eu pertenço sobretudo ao mar e do mar tiro a
minha animosidade e esperança! Na minha classe estão os entusiasmados, exaltados,
joviais... Nenhum distúrbio, nem enjôo ou alvoroço, nem assombro ou sofregidão nos
atinge quando estamos em alto-mar. Somos tomados apenas pela mais animadora e
abundante alegria.
A viagem desse casal de espanhóis foi muito mais longa do que o esperado,
contaram-me eles. E infelizmente acabariam se atrasando para honrar um compromisso
importante com a minha prima. Esse atraso ocorreu porque, embora eles tenham saído de
Sevilla a tempo de pegar o último navio de Huelva para Lisboa e de lá pegariam outro para
o Harvre com segurança, depois que embarcaram e seguiram viagem tiveram alguns
problemas sérios com alguns agitadores anarquistas a bordo que tentaram controlar o navio
algumas horas depois que esse partiu. A tripulação conseguiu sem muita dificuldade

235
subjulga-los, mas isso os atrasou em quase um dia, já que tiveram de voltar para Lagos, no
Sul da Espanha. Naquelas águas, já na Costas de Portugal eles não teriam jurisdição para
lidar com os amotinados. Ao voltarem para Lagos, um longo processo interrogatório não os
livrou deste atraso. Eles já deviam estar partindo de Ruen hoje para Paris para cumprir os
seus deveres, mas estavam detidos no Harvre. E por isso pediram a minha ajuda. Eu decidi
acompanhá-los diretamente à Paris e convencer a minha adorável, mas rigida prima de que
o casal não teve culpa alguma desse atraso - em acréscimo, eu poderia adiantar em um dia e
meio a minha estadia em Paris, pensava eu. um dia a mais em Paris! Ó, quem não mataria
por essa oportunidade?
Com a ajuda de uns bons ducados, eu conseguiria a carruagem com os mais rápidos
cavalos até Rouen e de lá, conseguiríamos imediatamente um Chouffer que nos levasse de
carro com combustão interna, que meu amigo Carl comprou em Manheim, Alemanha,
como havia me informado no ano passado e tanto tinha insistido para que eu o testasse.
Prevendo a oportunidade, eu próprio telegrafei a ele que, prontamente concordou em me
emprestar o tal automóvel. Não sou muito ligado à essas novidades, mas achei que seria útil
fazendo esse meu amigo imaginar que está sendo útil também para mim já que tinha
algumas dívidas comigo - e realmente estava feliz. Enfim, essas coisas que fazemos com
frequência e não sabemos bem o por quê. Porém, quando chegamos em Rouen eu declinei.
Eu vi que o carro, por mais impressionante que fosse, jamais aguentaria uma viagem até
Paris... pelo menos não enquanto tivermos aquelas estradas cheias de pedras, troncos e
elevados... As cidades francesas não estão preparadas para a modernidade do automóvel!
Além disso, estávamos com pressa, e certamente isso seria muito pior, pois o automóvel
não iria atingir a velocidade de que precisávamos a fim de chegar a tempo da minha prima
não se aborrecer mais do que já devia estar aborrecida depois de lhes enviar o telegrama:
“corram!!!”. Corri, portanto, para que conseguissem para nós a carruagem mais rápida,
com o melhor cocheiro e com os melhores cavalos. Assim feito, partimos de pronto e com
poucas pausas para a bela Paris.
Carlos, ao contrário de sua esposa é muito introspectivo e silencioso. Pode-se dizer
que em toda viagem falamos eu e ele menos de uma hora ao todo e sempre se ouvia mais a
minha voz do que a dele. As outras horas foram todas preenchidas com a voz de Jacqueline.
Devo-lhes dizer que não era uma voz irritante ou repulsiva, bem ao contrário! Ela é dona de

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uma voz de veludo muito nobre que se não fosse o forte sotaque passaria tranquilamente
por uma sedutora francesa. Já devo ter lhes falado delas, se ainda não, peço lhes que me
perdoem... São muitas as possibilidade de tratar tudo por meio dos assuntos. Assim, digo
apenas que há um grupo de mulheres aristocratas em nossa Ilha a quem chamamos de
“sedutoras francesas” que têm uma fala mansa e uma certeza irrepreensível do que querem...
Muitas delas conseguiram casamento com expoentes Córsicos e dizem os malvados que é
sempre somente isso o que elas constantemente precisam e desejam: casarem-se com
alguém de posses!
Mas Jacqueline não era uma sedutora francesa, era uma sedutora espanhola! Não,
meus caros, eu não tive nada com ela e tampouco quisera ela tentar-me ou algo assim. Mas,
nos momentos durante a viagem ou bem quando parávamos em estaleiros para descanso
dos cavalos, ou bem quando nas inúmeras vezes em que seu marido tenso queria parar para
urinar, ela sempre me fazia perguntas e me contava curtas estórias levemente eróticas como
que para me testar. Contou-me primeiro como conheceu Carlos, seu marido. Como eles
transaram embaixo de um orvalho antes do casamento e Carlos foi preso por causa disso, já
que seu pai, um policial, não tardou em encontrar uma acusação digna para aquele que, nas
palavras dela “tinha desvirginado a sua linda filha”. Ela contou-me ainda, não sem um
pouquinho de vergonha, como fez com que Carlos a perdoasse por tê-lo insultado, quando
ela pediu para que ele a penetrasse no cu. “Os alemães fazem isso! Os alemães fazem isso!”
insistia ela, mas ele, que devia fazer isso apenas com prostitutas, presumo eu, dizia em
resposta num saboroso linguajar cheio do seu sotaque lindo: E o que eu tenho de ver com
isso? E o que eu tenho de ver com os alemães? Ela certamente tinha muito mais a me
contar, mas, pelo visto, ela estava aguardando para quando chegássemos a Paris; e foi lá,
então, que eu soube de toda a desgraça que ocorrera antes e depois da viagem deles.
Mademoiselle nasceu em Turgóvia, no norte da Suíça, talvez por isso ela tenha essa
predisposição um tanto diferente em relação às francesas em geral. Apesar de também
católica, a Mademoiselle tem o ar carregado e um senso de retidão como os das protestantes
suíças. Seu gênio, fortemente impregnado de tradições germânicas jamais deixou de ser
percebido aonde quer que ela estivesse presente no nosso mundo latino. As mulheres suíças
tem uma certa empáfia se comparada aos nossos costumes mediterrâneos, mas isso não era

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tão forte na Mademoiselle, a doçura dela era tão demarcada quanto a sua seriedade,
moralismo e correção.
Vejam vocês, meus caros leitores, o plano conduzido por mim para evitar a fúria de
Mademoiselle e o eventual castigo de Carlos e de sua esposa deu muito certo. Assim que
chegamos em sua casa e ela nos viu, abriu um enorme sorriso e mal foi necessário
demasiadas explicações com relação aos problemas que fizeram atrasar a vinda de seus
consierges dos quais é tão dependente...
- Ele são os meus olhos, minha mente e minha segurança quando eu não estou
presente. - Disse-me ela num sorriso encantador.
- Certamente eles são bastante valiosos. - insisti eu. A senhora Jacqueline é
extremamente bondosa e de inteligência ímpar. Dir-se-ia uma oradora nata!
- Ha, ha...Sim, ela fala bastante! Se é isto o que quis dizer, meu primo...
- Ha, não...não, eu não quis dizer isso!...Apenas... Ela é de fato muito inteligente..E
você sabe bem, minha prima, o quanto sou solicito quando se trata de entretenimento com
muitas e muitas boas estórias.
- De fato, vocês devem ter tido bastante tempo para trocar estórias durante a
viagem. E ela acaso lhe contou sobre alguma novidade ocorrida por aqui?
- Não, minha prima, infelizmente não tivemos tempo de chegar a isso. Há novidades
suas com as quais queira me entreter?
Eu já havia percebido as reticências tanto de Jacqueline quanto do marido dela, e
agora, muito mais com a evidente suspeita que levantava a minha prima em tratar de
determinados acontecimentos ocorridos em Paris. Não, minha prima não quis me entreter
com as novidades dela, apesar disso, reconhecendo aquele senso do misterioso pairando no
ar, eu insisti. A partir desse momento, a consciência de haver algumas novidades mal
contadas aguçou irremediavelmente o meu senso de direção e ânsia em relação a todas as
estórias talvez perdidas. Tentei, de início, insistir com minha prima... e nada.
- E que notícias nos traz Paris, cara prima?
- Paris me entedia! - Disse-me ela de forma muitíssimo estranha.
- Como assim? - Insisti...Depois de uma longa pausa ela me respondeu de forma
reticente com os olhos enterrados no chão:

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- Estou pensando em morar com minha tia Eugenie, ela está muito doente e precisa
de alguém para cuidar de questões burocráticas da associação. Você sabe o quanto eu
amos os animais!
A tia avó dela é uma velha luterana doente. Ela criou uma associação de direito dos
animais há alguns anos atrás, única no gênero em Stockholm, é provável que o século XX
que se anuncia será uma nova era em relação aos direitos dos homens e dos animais... com
certeza o próximo século promete! Mas eu não vejo, de qualquer forma, quaisquer chances
de que minha prima viva bem por mais de três meses na fria Stockholm. Aquela cidade só é
habitável por quatro ou no máximo cinco meses do ano. Nossa alma mediterrânea não foi
feita para o frio. Da última vez que estive lá no início da primavera e fez - 4C graus eu tive
vontade de desaparecer. Eu odeio o frio, eu odeio a neve e só acho belas as imagens delas
na pintura ou na fotografia. Acho que com minha prima também, ela jamais suportaria
viver naquela solidão. Sem o vício da bebida não há sueco suficientemente nacionalista
para dizer que sua terra possa ser habitada por não-vikings que desprezam o valor da saga
da sobrevivência.
- Eu poderia ir visitá-la uma vez por ano, ao menos, minha querida. Mas
manteremos contato por meio das cartas.
- Eu ficarei muito grata a você, por não me abandonar. - Disse-me ela.
- Claro, prima. Você é muito querida.
Nossa conversação, que mal tinha começado, foi interrompida pelos cocheiros e
outros criados que a aguardavam. De fato, a urgência da presença de Carlos e de sua esposa
Jacqueline tinha bases na viagem urgente que Mademoiselle teria de fazer, como eu já
suspeitava, mas essa não era uma simples viagem - era uma fuga.
- Meu caro primo! - Continuou ela... - Não poderei permanecer em Paris por um
bom tempo... Eu tenho negócios urgentes em Reims e de lá eu partirei para Bruxelas. Eu
lhe contarei tudo por carta e por favor, perdoe-me por essa terrível má educação!
- Imagina, minha cara! - Disse eu. - Eu compreendo integralmente. Aliás, eu vim
apenas trazer-lhe os seus criados que precisaram de mim para que estivessem aqui o
quanto antes, para essa urgência. Conversaremos sim por carta, pois tenho muito ainda a
lhe falar.

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- Pois bem. Eu gostaria que ficasse aqui, primo. No entanto eu não sei quais são os
seus planos...
- Não se preocupe comigo. Ficarei aqui apenas por mais alguns instantes... Pois
Paris me chama!
- Claro! Maravilha! - Disse-me ela antes de sair e de me beijar o rosto duas vezes,
como fazem os parisienses.
- Adeus...
- Adeus!
Aquela viagem em si não me intrigava. Isso já havia ocorrido não sei quantas vezes.
Está no nosso sangue não ficar parado...Cada um de nossa família mora num país diferente
da Europa e também da África do Norte. Temos familiares na Martinica, na Guyana e no
Brasil. Os Bonaparte, Beauharnais, e os Leuchtenberg irão dominar o mundo algum dia,
dizíamos em nossas festas de família em Paris!
Mas antes de ajudar a nossa família a dominar o mundo eu precisava saber os
motivos de tanta aflição que enxerguei no olhar da minha querida prima, auxiliado pelo
tremor de dedos de Carlos e pelas esquivas de Jacqueline. Certamente as notícias deviam
ser graves! Esperava tirar as dúvidas com a minha prima, mas depois que eu soube que ela
tinha muito boas razões para fugir, reativei meu senso de proteção e o transferi à minha
prima. Fugir, ela queria, em primeiro lugar, do destino dela, e em segundo, de ter de contar
justamente a alguém que ela sabia que teria o dever de reprovar suas atitudes e ao mesmo
tempo descobri-la de todos os opróbios nos quais ela estava atolada era a fatalidade. Então,
se fazia míster encontrar alguém para me tornar a par de tudo do que ocorrera de fato.
- Estaria ela grávida? Pensei eu... Eu não acreditei nessa hipótese porque a
considerar que seu noivo, sendo um rapaz de tão boa índole e também nobre, celebraria
essa vida a reivindicar para si a sequência dessa linhagem familiar. Estaria ela com alguma
doença grave? Não me pareceu de forma alguma que Mademoiselle expressasse qualquer
abatimento, qualquer efeito visível que eu considerasse estranho o suficiente para supor
alguma doença. Todo aquele obscurantismo me deixou em pavorosa. Eu não tinha a
mínima ideia de que isso iria piorar mais aos termos exatos de uma proporção macabra:
quanto menor fosse o obscurantismo maior seria meu terror.

240
O primeiro a quem fui buscar ajuda foi com Carlos. Ele já havia se retirado, para a
casa deles que ficava num espaço interno da mansão. Eu insisti que ele viesse me ver e, não
sei se foi por causa da ajuda que eu o ofereci ao virem à Paris, mas isso deu uns bons
resultados. Quando ele chegou, ele estava ainda mais mudo do que esteve durante toda a
nossa viagem.
- O que tem a madame, Carlos? - Perguntei-lhe secamente.
- Nada! - Ele me disse, continuando tolamente... Bem, eu não sei...se tem...!
Fiz todo o processo de tentar tranquilizá-lo sobre o que falar e o que não falar a
respeito de sua Senhoria. Como se eu previsse que não conseguiria arrancar nada dele, eu
me esforcei para deixar claro que eu só queria que ele me informasse o básico. Eu não
necessitava de toda a estória, um pouquinho dela apenas já seria suficiente para me
reconfortar.
- Não precisa me esconder nada. - Insisti. - Você sabe que eu sou íntimo dela e que
não precisa ter medo...
Mas dele eu não obtive conhecimento de absolutamente nada. O pobre diabo estava
visivelmente mortificado pelo o que ele sabia. E eu o compreendia. O conhecimento de um
fato, neste caso, não era diferente de uma detenção de um tipo de “saber” e o saber nos
persegue a todos! Aqueles que não estão preparados para ele, experimentarão
irrevogavelmente os malefícios por ele exigidos. Os saberes se acumulam de geração em
geração, de pessoa a pessoa; aqueles que os possuem e não os compartilham, morrem com
esse pecado para si. Saber algo sobre esse universo é como ter sob sua própria
responsabilidade o futuro permanente ou a extinção derradeira de um conhecimento e com
ele de uma parte da humanidade... Em saber se essa parte extinta não fosse exatamente
aquela a que você quis ver belamente nascer o futuro no presente?
Saibam vocês ainda que, por eu ter experimentado a ansiedade para obter esse
conhecimento e não ter conseguido eu também experimento muitos malefícios irrevogáveis.
Mas quando a ânsia de saber supera o obscurantismo na luta eterna entre o conhecimento e
o desconhecimento, nenhum malefício pode vir a superar a experiência fundamental da
transparência. As minhas dificuldades, entretanto, se demonstraram enormes com relação a
esse fato; por isso eu não pouparia esforços e não evitaria quaisquer meios para obtenção
dos fins desejados. Afinal, eu estava comprometido até o meu último ímpeto em desvendar

241
aquele mistério. Eu sabia que alguém com a minha fibra poderia aumentar as luzes em
relação aos problemas advindos em nossos tempos e aqueles chegados à minha amada
prima ou poderia trazer paz de espírito a ela, em vez de temor da verdade que esse fato
misterioso poderia obscurecer.
Se eu não consegui o que eu queria com Carlos, sua esposa, entre outros
empregados que interpelei pelo caminho utilizando-me de todas as técnicas de abordagem
de testemunhas conhecidas, especialmente com duas das criadas que residiam na casa dela,
porém, ainda sem sucesso. A coisa teria de ser bem mais fácil, já que não obtive nenhum
triunfo com o complexo. Tentei outra alternativa mais segura: eu já as conhecia muito bem,
diga-se, e elas igualmente conheciam a mim. Isso foi o que facilitou a nossa conversação e
posterior acordo. Depois que eu me utilizei das técnicas conhecidas, eu teria de ser mais
profundo em meus intentos, sem que ultrapassasse os limites éticos impostos por mim
mesmo, por causa do direito à intimidade que tinha a minha prima, mas afrouxados pela
índole duvidosa daquelas duas criadas.
Por intuição, eu já imaginava o que estava havendo. O pudor é perceptível no rosto
das pessoas de boa-fé e de forma ainda mais decisivo nos simples trabalhadores. Bastou
que eu inventasse para elas a estória de um estupro real, porém, escondido, e que também
lhes ofertasse (com todo sigilo de ambas as partes) uma soma irrecusável de dinheiro para
que elas confiassem a mim tudo do quanto se passava naqueles aposentos à noite. É claro
que elas aceitaram, quase nunca ninguém recusou quaisquer soma de dinheiro que por
ventura eu lhe ofertasse para saber de algo a esse respeito. Sou advogado, mas tenho alma
de inspetor de polícia que me força a fazer isso de vez em quando... Bom, com mais
regularidade do que o necessário... isso é bem verdade! Mas é que quando eu quero, eu sei
ser convincente!
Meu convencimento, entretanto, somente trouxe para mim amarguras. De acordo
com as descrições dadas pelas duas criadas, o tentador da Mademoiselle era um velho
conhecido da casa. Já havia feito até um espetáculo particular aos empregados dela,
certamente com objetivo obscuros. Ele, havia há meses, se encontrava regularmente com a
Mademoiselle em seu quarto. E os gritos abafados logo no início das sessões, fizeram com
que duas criadas desavisadas se espantassem e acorressem aonde parecia haver alguém
avidamente suplicando por ajuda. Como eu já antecipara, elas imaginaram que estava de

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fato ocorrendo um estupro ali no quarto da Mademoiselle. Era a primeira vez que
presenciaram-na no quarto com um homem. Antes disso, elas imaginavam em suas mentes
de simples trabalhadoras, que a senhorinha delas fosse virgem e que fosse se casar de
grinalda com seu noivo da alta sociedade. Sempre me foi muito cômico e óbvio o quanto as
pessoas simples do povo tem uma ideia completamente iludida a nosso respeito. Isso talvez
tenha a ver com a influência da religião, mas eu não estou certo. O fato é que essa inocência
deles é um bom intrometer para que a nossa classe se mantenha no poder e que essa
realidade jamais possa ser subvertida.
Mas, ao contrário, as ações daquele teatralismo se tornavam cada vez mais evidentes
na medida em que eu tomava conhecimento de suas práticas contra a Mademoiselle e
também dos seus ardis em relação à obter a conivência dos empregados. Depois de muito
insistir com as criadas de que eu deveria investigar mais sobre ele para puni-lo, eu pude
entrar no quarto de Mademoiselle, que ela insistia a proibição de todos, inclusive das
criadas que geralmente limpam toda a mansão. Ao entrar ali, naquele quarto nada simples,
percebi uma generalizada confusão de móveis, coisas quebradas, utensílios estranhos e a
cama fora do lugar, havia lençóis e cobertores espalhados, velas caídas, objetos não
identificáveis, livros e um cem número de roupas todas jogadas ao chão como que depois
de um vendaval. Algo ainda me exaltou: havia alguns papéis encontrados sobre e
principalmente embaixo de sua cama.
Não restava dúvidas! Pensei eu. Mesmo que eu ainda nem tenha lido uma linha
sequer daqueles escritos cuja letra não era a de Mademoiselle, eu já sabia de todo o seu
conteúdo: ele escrevia poemas sujos para ela. Sim! Malditos teatrólogos! Pode-se dizer que
esse talento eles têm. Não sei mais quantos papéis encontrei embaixo da cama de minha
querida prima, mas, a partir dali, ficou para mim evidente de que ele havia lançado mão
dessa habilidosa estratégia na tentativa de obter alguma vantagem por meio de inúmeros
ardis, evocação de pecados por meio de palavras:

Tua buceta é como o sol


Quando Surge, toda vermelha, entrega-te ao azul do dia
Ergua-te me aquecendo, me alimentando , me dando vida!
Quando te vais, tuas pernas se fecham feito duas montanhas

243
Por onde um sol de intenso brilho se esconde me fazendo esperar o luar.
Mas se a lua aparece mais no escuro da noite, ela é como teu redondo cuzinho
Ele rodopia no céu da minha boca e minha língua é um viajante do espaço
Flutuante que sem gravidade nenhuma pousa no vazio da lua e começa
a pular e se enroscar dizendo:

Minha putinha princesinha....minha aristocratazinha maluca...


meto-te à noite, meto-te ao dia
Fique de quatro bem como tu gostas e verás a dor com os teus próprios olhos

Minha princesinha vagabunda... nobre com mendicância no ar...


cuspo-te na cara, cuspo-te na boca
E cuspo-te de novo....
Se quiseres sentir prazer com alguém do povo,
suplica-me que te darei a dor de novo
Aquela que merece uma vadia...

As criadas que me permitiram entrar ali, certamente analfabetas, apenas ficavam


imóveis, contristadas por mim, pela angústia que me comoviam aquelas torpes palavras.
Em função das irresistíveis lágrimas que rolaram da minha face e pelo aperto no meu
coração expressos ao ler aquilo como que em silêncio, uma delas tocou no meu ombro
impressionada... Insisti. Eu queria mais daquilo, embora aquele susto ainda não me havia
abatido por completo, havia pelo menos jogado-me no chão.
Meu coração se regelou! Mesmo que eu lesse apenas esse enojante poema, dentre
aquelas centenas e centenas de maços de papéis semi-amassados e regrado ao que me
pareceu ser o líquido seminal ou vaginal que lhes cobria com um tom amarelado como se
fossem antigos já seria suficiente para eu desejar uma morte: “- A minha ou a dele!”, pensei
eu. - Meu coração parou de bater? Por que eu não sinto os meus pés, não sinto a minha
perna, não sinto o meu corpo? Como poderei voltar a ver a minha desejada prima, a
mulher com quem eu tenho o mais íntimo desejo corporal e amoroso? Eu preferiria a morte
ao ter de comentar esse assunto com ela, que é pura feito o ar do céu! Morte a mim e a ele!

244
Mas eu não podia simplesmente desistir! Como se insistisse em viver, a única coisa que eu
podia fazer ali era continuar lendo todo aquele lamaçal, página por página, dor por dor,
sofrimento por sofrimento... Se fosse possível tirar do ciúme, prazer e do sentimento de
pavor, vingança.
Lendo uns trechos, dispensando outros... Ó, meus caros pacientes, minhas lágrimas
e meus soluços repentinamente me provocaram uma síncope e imediatamente recuaram de
onde vinham... Algo que eu começava a ler ali, era como se tivessem me jogado no
regelado lago Baikal na gélida sibéria. Triturei-me em culpa! Como eu nem pude imaginar
que aquele sórdido ator iria de fato representar o carrasco numa cena de tortura? Como,
conhecendo a ternura de minha amada prima eu não pude perceber o que eu já tinha
percebido em outras mulheres que, por trás de toda ternura inumana havia sempre alguns
sombrios sentimentos inexplorados e irresistivelmente aguardando para serem despertos?
Pois foram em páginas e páginas, justamente as que me fizeram conceber que a minha
adorável e pura amiga tinha em seu recôndido ser, uma alma constrita e cheia da escuridão
da dor. Como seria possível isso? Como foi possível que ela se entregasse a tão vis
sentimentos que as fizesse se estimular aquelas palavras tão torpes e cheias do nefasto bafo
de Satanás?
Eu não podia compreender muitas daquelas passagens, mas é certo, pacientes e
queridos leitores, é muito certo de que a esmagadora maioria daqueles papéis rezavam a
mesma súplica, a mesma ladainha, a mesma oração ao diabo, que me faziam minuto a
minuto em que as lia, sentir a ambígua sensação de nojo e curiosidade por querer ler e ler,
mais e mais... e ler ainda muito de toda aquela emoção de sobressalto infeliz... Ó Deus, por
que mesmo aqui que encontro o maior dos sofrimentos o desejo de saber me é tão maior
que o meu desejo de continuar na vida? Eu sei que aquelas palavras todas podiam ser
apenas como folhas ao vento, e que isso fosse apenas uma suja literatura de vagabundos, e
olhe lá! Mas não! Que me importava o nível de força literária que aquelas palavras podiam
conter se o que de fato valia a pena era conter nos braços pelas palavras ou não aquela pura
semente de Deus que era minha amada Mademoiselle de Beauharnais? Eu de certo trocaria
o céu por uma só noite dessas descritas por ele, mas desta vez em seus braços, Satanás que
não me ouça!

245
Eu bem que devo me entregar ao primeiro padreco infeliz que vier, se isso fosse
apenas assim... já que eu também mereceria por isso, o mesmo castigo que coubesse a eles
dois, porque devo lhes confessar que sofro duplamente aqui. Uma por causa do torpe
parceiro de desgraça dela e a outra por mim mesmo, por não ter sido eu o miserável que a
levou para o inferno. Não me sinto de modo algum menor diante daquele monstro. Eu,
ademais, sou igual a ele! Em que poderíamos emular para conquistar o coração de uma
moça pura, desejo entre os mais íntimos, o mais salutar? O fato de que eu faça isso com
proletárias e ele com aristocratas? Ora, o demônio teve nele um parceiro muito mais digno
do que eu!
Acho que desconfio da resposta à todas as perguntas. Já não sei de mais nada dessa
vida e tudo se torna muito confuso para mim! Aquele monstro sequer mereceria o posto de
grande teatralismo... Mas o teatro e a arte são coisas que levam até mesmo as mais puras
santas ao delírio. A melhor forma de perverter uma moçinha é introduzi-la ao mundo da
perversão por meio da sublimidade da arte. E ele sabia como fazer isso, já que ele vivia
enfiado lá nos Boulevards de Paris, fazendo aquele teatrinho de variedades... Justo aquele
que não ferem a virtude de ninguém. Eu já sabia que dentre as agastadas faculdades daquele
imbecil o teatro popular era aquilo em que ele mais se envolvia. Aqueles aborrecidos
Vaudevilles mesclados àquela fanática comédia burguesa faziam parte de seu quotidiano
mundano e infeliz. Tudo bem que todos nós da sociedade temos alguma atração para com
os melodramas, mas o que amamos realmente são muito mais aquelas tragédias clássicas do
que esses gêneros dramáticos populares. Mas para aqueles que querem ter o dom de iludir e
dar-se ao mesmo tempo o ar de singelo e inofensivo, não podem provocar damas com
tragédias e dramas, devem começar a preparar o terreno do inocente e amistoso com o
entretenimento puro, aquele caminho que o levará à confiança e de lá o golpe traiçoeiro da
mentira.
Na investigação que se seguiu eu descobri muitas coisas sobre ele. Parece que ele
não tem berço. Ele começou sua carreira como costumier e logo pulou para a profissão de
cenógrafo, depois de, como dizem, “aprender como dar o cu freneticamente para quem lhe
oferecesse quaisquer outros benefícios” deve ter sido sua prática mais habitual, já que é
sabido que assim se consegue uma ascensão quase que imediata na área artística. E não
falo isso por desavença ou por ver nisso quaisquer desmerecimento, pois sei que cada um

246
tem de dar o que tem. Mas é fato que ele jamais deveria ter tido acesso à Mademoiselle. E
no entanto, era exatamente por isso, pude compreendê-lo a partir da leitura minuciosa de
cada uma daquelas cartas indecorosas, algumas sagradamente escondidas debaixo de sua
cama, outras não, e que Mademoiselle, nobre de corpo e alma, pura em ações e
pensamentos, santa em casualidade e desígnios, se deixou explorar por esse homem vil
provavelmente em função de sua origem humilde e faceira. Os pobres em ascensão vivem
conquistando as mentes dos bem nascidos, porque esses últimos não têm noção alguma de
como se conquista os bens. Os de posses ficam em pleno descontentamento quando estão
diante de pessoas sem posse alguma, a ponto ridículo de dividir parte de sua riqueza com
eles, por vezes, sem exigir nada em troca. Mas devo dizer que não era bem assim com
minha amada Mademoiselle, de fato aqueles papéis embaixo de sua cama não se tratavam
de literatura, se tratavam sim de um minucioso relato científico de como ela foi vítima do
“conto do vigário”13 algumas de suas propriedades foram transferidas ao dito cujo e a paga
para isso foi apenas poder enrabá-la como se isso a colocasse no colo do demônio.
Não se tratavam apenas de indisplicências, mas seus poemas eram bastantes
vulgares e horríveis, orações diabólicas:

tantas taças pra encher


tantas águas pra rolar
tantas covas, rechear
tantas tetas pra mamar

Se vou em tua bunda


É no cu que quero entrar
Se chego à tua buceta
Com bom cuspe vou metê-la

Ah, ainda não ouvira palavras tão esdrúxulas quanto vazias! Mostro-lhes para que
tenham compaixão também por mim, que me acompanham nessas minhas estórias e saibam
que eu jamais seria capaz de propor algo tão ignóbil, tão sujo, como que a indisplicência em
13
Ou “comprou gato por lebre”, do original em francês: elle était le vitime trompée sur la marchandise. N.do
T.

247
palavras a uma moça da nobreza. Mas isso tudo não lhe era suficiente. Escrever aquelas
sujeiras para ele devia ser apenas mais um dos métodos de diverti-la, porque nunca as
ouviria de um de nós. É por isso, caros pacientes, que a partir daqui eu o chamarei de
Maldoror. E eu vos explicarei a razão disso, para que não se tenha dúvida de que aquele
maldito (disso, pelo visto, apenas inferi eu e mais ninguém) estava a testar
sistematicamente todas as imundícies planejadas nos chants de Maldoror, o famoso livro de
poemas de Isidore Ducasse (chamado Conde de Lautréamont). Mas, enquanto duas
modificações nos “cantos” foram impostas, sendo que a primeira dizia respeito a um novo
tratamento do absurdo presente no texto original, a segunda dizia respeito à adaptação
sexual para cenas brutais e violentas que não tinham originalmente esse apelo, por outro
lado, viu-se nos atos desse “Maldoror” do teatro a mesma selvageria contida no livro de
Ducasse.
E, para piorar a situação, em minha solitária consciência do que estava se passando,
percebi ainda que o Maldoror adaptava o conceito de humano da obra de Ducasse pelo
conceito de aristocrata; assim, toda vez que Ducasse condenava o humano, aquele Maldoror
teatral condenava a aristocracia. Ficou evidente bem ali, de que se tratava de um desses
agitadores políticos que querem derrubar do poder as monarquias. Eu li aquelas palavras
que ele tirara de Ducasse pervertendo-as e sentia medo por Mademoiselle. Lembrei das
coisas torpes e horríveis que o povo infligiu aos aristocratas há cem anos atrás durante a
Revolução. Toda vez que Ducasse dizia algo associativo, um frio baixava na minha espinha
me fazendo perceber que se tratava de fato, de um subversor, de um regicida, de um
anarquista.

Ó ser humano! Ei-te agora, nu como um verme, na presença da minha espada


diamante! Abandone o teu método: não há tempo para construir o orgulho:
envio-te a minha oração, no ato de prostração. Há alguém que observa o menor
movimento de tua vida culpada; Estás envolvido pelas sutis redes de tua
perspicácia implacável. Não confie nesse alguém quando ele virar-te as costas;
pois ele olha para ti; não confie nele quando ele fechar os olhos; porque
ele continuará a te olhar. É difícil assumir que, afetando
astúcias e malícias, a tua formidável resolução é superar

248
o filho da minha imaginação. Os teus golpes mais mínimos carregam potência. Com
precauções, é possível ensinar àqueles que acreditam que são ignorantes
de que lobos e assaltantes não se devoram;
talvez não seja costume deles. Portanto, remete sem medo, entre as tuas
mãos, o cuidado de tua existência: ele irá liderá-la da forma que ele
sabe. Não acredite na intenção de te fazer brilhar ao solar de te
corrigir; pois não interessa tanto a ele, nem a dizer menos;
ainda não me aproxima, a verdade total, na medida benevolente
da minha auditoria. Mas, é que ele gosta de te machucar, na
legítima persuasão de que tu te tornes tão mau quanto ele e que tu
acompanhe-o no abismo do inferno, quando a hora dele soar.
Seu lugar foi marcado há muito tempo, onde se nota uma forca de ferro,
na qual cadeados e grilhões estão suspensos.
Quando o destino a carregar, o funil funerário nunca terá provado
presa mais saborosa, ou contemplado uma habitação mais adequada.
Parece-me que eu falo de maneira intencionalmente paterna,
e que a humanidade não tem o direito de se queixar.

Eu devia estar certo portanto, pensei. Agora o entendo! Mademoiselle, tomada pelo
grande susto e ocasionalmente envergonhada dele, deve ter acordado de seu sono de
fantasias depravadas e por fim curtido a longa vigília pela pátria, religião e pela família.
Não é possível que ela, em sua inteligência mais aguda, não percebesse que aquelas
palavras na verdade descortinam o fim de toda aristocracia e de toda a burguesia da Europa.
Era a luta de classes... As bombas que nos jogariam... Desta vez as jogariam bem nas vias
das entranhas aristocráticas. Ela devia estar mais do que aliviada de partir daqui - fugir para
bem longe desses demoníacos da anarquia, leitores de Bakunin. Querer morar com sua
família seja em Stockholmo ou em Bruxellas certamente a faria refletir sobre o grande erro
que cometeu. Saber que deixou para trás todo ódio de classe e toda essa mania de
sublevação popular.
Contra esse “Maldoror” eu devolveria o verdadeiro “Maldoror”, o Lautréamont.
Não a toa que tinha por epíteto “Conde”:

249
Se a terra estivesse coberta de piolhos, como grãos de areia na costa
do mar, a raça humana seria aniquilada, atormentada pela dor
terrível. Que espetáculo! Eu, com as asas de anjo, imóvel no
ar, para contemplá-lo!

Mas não se tratavam dessas verdades as que o teatrólogo maldito assoprou nos
ouvidos de minha querida prima. Ele queria pervertê-la. Ele a queria para ele e para os ardis
sociais que planejara.

Depois, desta vez testemunhei as revoluções do nosso globo; os tremores


de terra, os vulcões, com a sua lava ardente, o simum do deserto
e os náufragos da tempestade, tiveram minha presença como expectador
impassível. Desde então, eu vi várias gerações humanas
Se levantar, pela manhã, suas asas e seus os olhos, contra o espaço, com a alegria
inexperiente da crisálida, que saúda sua última metamorfoses para morrer, à noite,
antes do pôr-do-sol, com a cabeça inclinada, como
flores desbotadas que balançam com o assobio queimado do vento.

Aquelas palavras nunca tinham tomado para mim este sentido. Seria possível que
esse vento carregado de calor febril da selvageria africana teria atingido o fio europeu e que
estaremos todos perdidos? Eu não queria acreditar naquelas palavras, porque, ainda estava
sob o efeito glorioso dos meus desejos com relação ao bem estar de minha prima. Mas eis
que quase sem querer, olhando para uma pequena vitrine que sustentava um mosaico
romano, eu fui me recordando de cada um dos acontecimentos que me levaram até ali. A
pressa de Carlos e de Jacqueline, sua parada por causa dos anarquistas à bordo, o tremor da
mão dele, tudo não haveria de resguardar ali quaisquer ligações? Estaria eu delirando? Meu
cérebro inteiro se escureceu!

250
As leis humanas continuavam ainda a buscar a sua vingança, embora eu não
atacara a raça que eu tinha deixado tão silenciosamente; mas minha
consciência não me reprovava. Durante o dia, eu estava lutando com os meus
semelhantes, e o solo estava cheio de muitas camadas de
sangue pisado. Eu era o mais forte, e ganhara todas as vitórias.
As feridas cobriram o meu corpo; Eu fazia parecer que não apercebessem.
Os animais terrestres estavam se afastando de mim, e eu
permaneci sozinho na minha grandeza resplandecente. Qual não foi o meu
assombro, quando, depois de atravessar um rio a nado, para
afastar-me das terras que minha raiva havia despovoado e conquistar outras
campanhas para plantar meus costumes de assassinato e carnificina, tentei
me encaminhar para este banco de flores! Meus pés estavam paralisados;
nenhum movimento veio trair a verdade dessa imobilidade imponderável.
No meio de esforços sobrenaturais para continuar minha jornada, foi então que eu
me revelei, e que eu senti que eu me tornara um homem de novo. A providencia me
deixou claro, de uma maneira que não é inexplicável, que ela não queria isso,
nem em sonhos, ver meus projetos sublimes realizados.
Retornar à minha forma primitiva foi para mim uma dor tão grande que,
durante as noites, ainda me pego chorando. Meus lençóis estão constantemente
molhados, como se estivessem na água, e todos os dias eu os faço
mudar. Se tu não acreditas, venha me ver; tu os controlarás, por
tua própria experiência, não a probabilidade, mas, ao contrário, a
a verdade da minha afirmação. Quantas vezes desde a noite passada
sob as estrelas, sobre uma falésia, não me misturei com rebanhos
de porcos, para recuperar, como a um direito, a minha metamorfose destruída!
É antes hora de deixar essas lembranças gloriosas, depois a sua continuação,
que a pálida via láctea de arrependimentos eternos.

Passaram-se os dias, passou-se um mês e quase nenhuma notícia eu tinha dela.


Desesperadamente enviei-lhe cartas que não obtive respostas. Insisiti enviando-lhes outras
por meio do endereço de outros parentes e nada. Fui impetuoso e continuei com amigos

251
muito fiéis de Bruxelas e conhecidos que não haveriam de me decepcionar. Outros dias se
foram feito as palavras ditas no ontem, mas, finalmente, a primeira carta chegara. Andreas
Dèr Mouw, era um poeta e filósofo holandês com quem eu havia me encontrado
romanticamente num dos bordéis de Bruxelas, antes dele meter na cabeça em se casar, algo
que fará daqui há poucos anos. Dèr Mouw me dava a saber que tinha de fato a visto, ainda
que por acaso, mas com roupas de homem e em uma manifestação pública contra o Rei
Leopoldo II. Como se eu não entendesse o conteúdo e, na verdade, nada do que ele me
disse na carta, eu devolvi uma outra cheia de perguntas a ele que, indignado, em retorno,
dias depois, me fez perceber toda a verdade absurda e inimaginável que jazia por traz de
todo aquele mistério sem precedentes.

Cher amie,

Estranha-me encontrá-lo nessa tamanha escuridão pela qual divisa a sua estadia aí
na calma e aristocrática Paris. Aqui e nos países baixos, além da Saxônia, bavária e
Rússia, encontramos todos em chama ardente. Autores como Saint Simon, Owen, Fourier
são agora apenas uma morta história. Aqui só se fala de Louis Blanc, Benjamin Tucker,
Pierre Proudhon e Bakunin. A luta de uns revoltados é pela simples revisão da constituição
e principalmente quanto a implantação do sufrágio plural, mas alguns mais radicais, como
Mademoiselle de Beauharnais, sua prima, e outros filhos de industriais que se juntaram
aos trabalhadores anarquistas, lutam pelo fim das eleições legislativas, pelo fim de todos
os sufrágios eleitorais, igualdade de direito entre homens e mulheres e amor livre! Além
disso, eles propõem o fim da monarquia e a morte a todos os aristocratas, incluindo os
burgueses donos de fábricas e aos padres da igreja, ou seja, morte a você e a toda a sua
família!
Surpreso?
Johan Andreas Dèr Mouw

Ps.: Como já deves saber, o seu amigo bonapartista General Boulanger se suicidou
no Cimitière d’Ixelles no 30 último com um tiro na cabeça, diante da tumba da amante,
Madame de Bonnemains.

252
Céus, minha virgem santa! O que estava havendo com a Europa? O que estava
havendo com a minha querida prima? Tomado pelo sentimento de dor, não queria pensar na
morte do General Georges. O mundo ruía ao meu redor e tudo o que eu podia ter em mente
era poder ter certeza de que ela estava bem e que aquelas palavras de meu amigo holandês
eram apenas uma vingança por eu tê-lo amaldiçoado aquela menina de dezenove anos Nans
van Enst, com quem ele irá se casar. Eu só tinha mente para a minha prima! Eu imaginava
ainda poder reencontrá-la, eu imaginava ainda poder tê-la em meus braços... talvez, quiçá
curá-la de seus desejos libertinos promovendo os meus próprios... Ensiná-la... Até hoje eu
não consegui entender o por que dela não escolher a mim para ir para o inferno em vez
daquele pobre salafrário!
Quisera eu poder suavemente enfiar a minha língua no cu de minha adorada prima,
conseguir fazer com que ela engolisse todo o líquido seminal que saísse do meu gozo
depois que eu a enrabasse em seu buraco delicioso sem que estivesse em nada limpo... Oh,
como isso tudo me seria anormal e de um aterramento absoluto! Até que poderíamos
imaginar isso... se a Europa não fosse hoje completamente irreconhecível... ainda que
fôssemos essas pessoas das classes desfavorecidas que insistem em ser felizes mesmo não
ligados a hábitos rígidos, etiquetas cansativas, deveres castradores, filantropia insincera,
hipocrisia desenfreada - nós só soubemos ser felizes sob esses auspícios... e tudo isso se
esvai com o novo século XX. Talvez poderíamos até nos amar e ter filhos neste novo
século... Estaria eu disposto a isso? Eu amava a Mademoiselle de Beauharnais, minha
prima! Mas, e agora? Isso tudo não me era demais? O passado se foi? Restara-me apenas o
presente, o século XX e suas barbaridades?
Ó, meus caros e pacientes leitores, maiores barbaridades estavam para me alcançar
antes que me alcançasse o século XX e suas revoluções em nossas vidas. Eu recebi uma
outra carta de Bruxelas, logo em seguida a de meu amigo filósofo Andreas Dèr Mouw. Essa
carta fez toda a minha esperança ruir de uma vez e para todo o sempre, com notícias
desesperadoras... Essa carta foi o primeiro golpe da pá que abriu a minha tumba.
Essas sim eram palavras dela, mas embutidas numa carta fúnebre advinda de um de
seus parentes holandeses por parte de pai. Na carta, muito sucinta, se dizia que
Mademoiselle havia sido presa pela Liga Democrática Liberal e depois de paga a fiança,

253
com ajuda da influência familiar, foi marcado o dia de sua soltura. Nesse mesmo dia ela se
enforcou em sua cela.
Naquelas poucas linhas, havia apenas essas palavras que eu tristemente reconhecia
ser de Ducasse e cujo fim trágico me fez ter certeza de tê-la perdido para sempre. Eram as
suas últimas palavras:

Quando ele falou,


Tudo era ti na natureza e experimentara uma grande emoção. Desde que te
aprazerias, vem para mim, como atraído por um imã. Eu não me oporei.
Que lindo ele é! Fico triste em dizer isso. Tu deves ser
poderoso; porque, tu tens uma figura mais do que humana, triste como o universo,
bonito como o suicídio.

Deitei-me, tomado pelas fantasias de assassinato e adormeci aos prantos em cima da


carta que me informava o fim do nosso mundo... No dia seguinte, eu fui à procura daquele
teatrólogo para me vingar... um revólver apareceu na minha mão direita, nessa mesma mão
desajeitada a qual jamais empunhei caneta alguma. Os sons de um burburinho
irreconhecíveis me fez tratar algumas vozes como que alucinações incompreensíveis... feito
ecos que provinham do fundo de um vale... Que uma ou outra mulher seja feliz e queira
demonstrar isso a todos, tudo bem. Mas me enjoa essa extrema necessidade que as
mulheres têm pra provar a todos o quanto são felizes...
Outros sons me dominavam... Aonde eu estava? A cada passo dado, a cada vontade
que eu tinha de matá-lo, a minha boca, as minhas mãos se enchiam de um ódio inaudível e
se contorciam, se apertavam numa esfera de chumbo única que se enfileravam em meus
dedos e dentes, unos, enquanto as vozes aumentavam com o seu pavoroso grito... O que o
artistas comem, esses pobres e malditos? Nada é o que lhes resta para comer! Passarão
fome aqueles que se levantaram contra os seus senhores!
Repentinamente, a voz dele era a mais reconhecível de todas.... a minhas mãos de
chumbo estavam prontas para cair sobre a sua cabeça, quando ouvi de sua boca... é preciso
saber mais do que inglês pra saber o que eu digo: "I did what I did and it's done". Ouvi

254
isso seguido de muitos risos... Eram as vozes de Satanás, belzebu e do demônio no palco da
vida...
Num irridescente e cruel sentido sem sentido para toda aquela situação foi-se
reduzida minha presença ali numa única fórmula sonâmbula; e quando eu entrei na cripta
que eles chamavam de palco, lugar exato aonde encontrariam três corpos baleados, lá
mesmo aonde eu vi um circulo de três artistas: eles comiam algodão queimado no bico de
bunsen.

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255
256
Por que Eu me Apaixonei pela Baronesa de Trento?

Apaixonei-me pela Baronesa de Trento. Aqueles peitos de seda, aquele nariz dos
mais ponte-agudos e adoráveis de se sentir no rosto ao beija-la, aqueles perfumes franceses
que eram o cheiro de suas ancas e me diziam exatamente o por quê se apaixonar: por que ela
não passava de uma nobre meretriz? Por que nós aristocratas e burgueses merecemos mesmo
a forca, como dizem cada vez mais a todo o tempo por aí os socialistas e anarquistas? Ó,
meus pacientes, se tiverem uma chance de se apaixonar por nobres que agem como
meretrizes, ou ainda meretrizes que se passam por nobres, não percam essa oportunidade
única! Depois da morte de minha amada prima e de seu tentador, vaguei por cinco anos sem
saber que cabo dar de minha vida. Mas eis que depois de muita reflexão e depois do
aparecimento da baronesa algo se esclareceu totalmente em meu ser e o que me restava dali
em diante era fazer o que era necessário. E eu não perderia, a partir dali, um único momento
dos que restam da minha vida, sem que eu profane essa mesma que me foi dada e ao mesmo
tempo tirada, para fazer somente isso: o meu dever.
Baronesa de Trento, Ah... que profana ignominiosa, sujeita aos caprichos femininos
mais cruéis, ela está mais para doceira que vende seus puros doces com desconto ou, a bem
da verdade, bem de graça do que para uma baronesa cheia de virtudes da aristocracia. A
Baronesa era a mais pronta das mulheres para o brinquedo adulto do “esconde-esconde”.
Durante toda minha parca existência, raramente vi mulher tão ávida de esfregar-se com um
homem a ponto de me ver acometido desta graça por tão divertidas vezes que evitei contá-las,
embora jamais tive o cansaço de não querer disso ainda mais. Gostava da coisa aquela mulher!
Ainda gosta, mesmo estando no inferno! Fale-se aqui num tom mais baixinho... Já que não
posso falar o nome dela, uma vez que não mais respira... bem por minha culpa... Se sorrio
não é para que me tomem por louco ou para que me tirem do convívio os jovens. Mas
principalmente também para que não me mande matar o seu marido, sabendo de minha
enorme carga de culpa nisso... antes eu prefiro fazer isso com as minhas próprias mãos!
Na derradeira última vez que a vi, num misto de ódio e amor eu quis encerrar todo o
ciclo de sexo e morte que nos trouxera até aqui. A Baronesa encontrava-se hospedada na
Bavária num pequeno chalé de veraneio no Grã-Ducado de Wurzburgo. Conto-lhes agora
esta pequena fofoca a título de vingança, claro, porque, logo que tomarem ciência do por quê

257
que eu me apaixonei pela Baronesa de Trento, acercar-se-ão dos motivos que fizeram esta
minha exultante raiva vir a baila e compartilharão comigo do pão de meu próprio pretexto
para a vilipendiá-la pela história na estória. Aquela linda descarada!
Conheci a Baronesa ocasionalmente num convento em Nápoles, quando fui visitar
o meu primo que, desde os dezenove, teve a desavisada insegurança juvenil para ordenar-se
padre. Tendo sido transferido da Córsega para Nápoles pelo santo padre em pessoa, ele
seguiu seus instintos purificados para fazer às vezes de professor de filosofia para jovens
freiras italianas. Por favor, meus pacientes leitores, não maculem a moral deste meu primo
querido! Pelo menos ele não! Por medo de inovação maior não fraquejaria em dizer-lhes o
contrário, o caso era que o primo Doudou (nome carinhoso pelo qual o chamamos) - quem
não tardou em demonstrar-se um verdadeiro santo - era chamado Padre Doudou... Vejam,
senhoras e senhores que, mal tendo atingido a ingrata idade de 16 anos ele já tinha se
obcecado pela beleza das vestes sacramentais. Dir-se-ia fadado, isto é, consagrado à igreja já
desde ao nascer! E o quê impulsionou esta alminha divina a encarar seriamente a carreira
eclesiástica? Ora, disso eu nada sei. Sei apenas que no furor de ser alguém de saia, por favor,
não me compreendam mal! - pois não vejo maldade nessa afirmação, mas o fato é que ele
vigorou-se em vestir-se como era, um santo! - ele quis provar isso sendo auxiliado pelos
outros. Assim como não há gênio sem burrice, não há santos sem pecadores. E a igreja é o
melhor lugar para encontrar ambos, alguma genialidade e muita burrice, santos, mas
sobretudo pecadores! Em poucos minutos entenderão o que a baronesa tem a ver com o meu
primo também.
Por razões óbvias, como lhes disse não informarei o nome da “baronesa”. Mas
também devo lhes dizer que nem de Trento era ela, essa é a mais pura verdade e peço que
acreditem, para que eu não cometa injustiças a quem dessa cidade puder eventualmente
servir todas essas minhas palavras. Vale também dizer que ela não tinha verdadeiramente
este título nobiliárquico, soube disso apenas depois. De fato, ela é de origem nobre, mas
não lhes posso confiar nada além disto. Não que eu não veja nas senhoras e nos senhores a
minha possibilidade de continuação, desdobramento, ao contrário, na medida em que
vossas paciências compartilham de minhas experiências, eu me desdobro até aí aonde estão
os senhores e me divirto para além do meu corpo por meio destas humildes palavras. É
verdade que, por outro lado, devo ter cautela para que não me enfiem numa cela de prisão

258
por causa disto também... E se isso um dia acontecer, que não seja por falar sempre a
verdade!!!
Nápoles cheira a pobreza! Foi isso o que me queixei com Giuseppe Saredo quando
lá estive pela primeira vez para participar do Encontro de Jovens Juristas no magistrado
italiano, antes dele se tornar senador. As pessoas jogadas nas praças, aquela sujeira das ruas,
incontáveis mendigos e prostitutas pululam por todos os lados produzindo aos visitantes e
aos citadinos muitos incômodos. E hoje, mais de cinco anos depois, tudo estava exatamente
igual, mas havia pelo menos uma riqueza em Nápoles, embora ela estivesse de passagem
por causa de suas férias de verão: a baronesa de Trento.
Já dentro da igreja, com o meu primo Doudou celebrando a missa, lá estava ela,
vestida de preto e com lenço nos sedosos, longos e pesados cabelos negros - o seu longo
vestido não impedia de se fazer perceber as curvas longilíneas de seu corpo escultural.
Tudo nela, aliás, é exceção. Peitos, bunda, batata da perna, seus olhos azuis acinzentados,
sua boca levemente proeminente e nariz pontiagudo desenhado por Deus. Ah, como eu amo
mulheres narigudas, olhos grandes e boca saliente... Dentes à mostra.... Tenho vontade de
beija-las num movimento que imita a penetração sexual... com ritmo e continuidade
avançar e me afastar de sua boca, nariz e olhos como se meu pinto estivesse na parte de
cima do corpo e não embaixo!
Aliás, o que mais amei na baronesa foi a boca dela. Quando fazia expressões com o
corpo e com o rosto parecia-se como uma verdadeira trentina. Mas essas expressões são
comuns em toda Itália do norte. O que era incomum nela era aquela enorme boca cheia de
carne. Poucas vezes a vi conseguir com toda aquela porta de entrada à disposição, fechar a
boca suficientemente que não se vissem os seus belos e milimetricamente enfileirados
dentes da frente. A retidão dos seus dentes só era igualável à linha de frente de batalha do
grandioso Napoleão! Eu queria que ela me desse uma mordida! Napoleão que o diga! Mas
nem o meu ancestral mais famoso e digno foi capaz de ter a expressão contínua de uma
boca como a dela. Ao manter a boca levemente aberta em função do excesso de carne nos
lábios, é como se ela estivesse sempre cansada pondo dentes à mostra... Aquela boca
amorosa estava sempre recitando um canto gregoriano silencioso cuja sílaba era única:
oooooooohhhh! Indefinidamente.

259
Ali, na igreja, eu não tive facilidade para me aproximar dela, pois via que ela estava
acompanhada de seu marido. Mas como sou impertinente, havia percebido que o marido
dela tinha conversado antes com uma senhora muito meiga e amistosa, uma típica carola
aparentando uns 70 anos de idade. Eis a minha chance! Pensei eu, um pouco antes do rito
sacramental das oferendas.
Com quase todo dinheiro que pude tirar dos meus bolsos, eu fui até aquela senhora
com essa boa quantia em dinheiro em mãos e à mostra e fingi não saber bem falar italiano
dizendo à velha senhora:
- Por favor, eu tenho essa oferta do casal que está ali... e deixei que ela completasse.
- Quem, o barão e a baronesa ....?
- Sim, eles mesmos! Naquela hora eu já sabia o nome dela e o que se seguiria seria
bem mais fácil.
- Ele terá de se ausentar por alguns minutos e não poderá ficar para a oferenda,
mas pediu-me que entregasse à senhora essa quantia para que a senhora pudesse ofertar
por ele.
- Grazie Dio! Disse-me ela sorrindo ao pegar o dinheiro.
Andei muito aceleradamente para fora da igreja para dar prosseguimento à outra
parte do meu plano. Eu não podia falhar porque se não, talvez eu jamais voltaria a vê-la
novamente. Eu gosto de Nápoles, mas eu não tinha até então o interesse em voltar ali
somente por causa dela. Mal sabia que depois que eu tivesse tido a nobre chance de
conhecê-la um pouquinho mais, eu deveria estar pronto para atravessar o mundo inteiro se
fosse necessário, em busca dela e depois, em fuga, como bem poderão acompanhar nessa
triste história eu pudesse alegremente dizer para o mundo - já tive de ti o suficiente, meu
amigo!
Quando cheguei na porta da igreja eu fiz uma verdadeira inspeção para ver qual dos
mendigos era o melhor “falso mendigo” de todos - em toda igreja do mundo sempre tem
um... Mas em Nápoles sempre há mais do que o necessário... Devido a pobreza
generalizada dos napolitanos, alguns pobres da classe trabalhadora aproveitavam-se dos
dias de domingo para fazer uma hora extra como pedintes na frente da igreja, mesmo tendo
capacidade para fazerem trabalhos remunerados, acabavam fingindo algum tipo de maladie
para que as pessoas que se sentirem culpadas ao sairem da igreja arrependidas pelos

260
próprios pecados, vissem alguém em condição muito pior, sentissem obrigação de lançar a
estes algumas moedinhas em direção a esses - meras misericórdia, caridade e compaixão,
não acham?
Salvara ainda algumas liras no bolso e que ainda não tinha jogado fora nas mãos
daquela velha carola, e eu as havia, obviamente, guardado para esse fim específico.
Escolhido o falso mendigo, agachei aonde ele estava, ele forçou a fingir aquela máscara de
sofrimento e eu peguei em seu colarinho bem duramente e fui direto, num melhor
napolitano que pude imitar no momento, anunciei-me como um dos temidos inspetores
policiais do reino para assustá-lo:
- Adda passà 'a nuttata in priggiune! Non hai nessuna malattia!(Passará a noite na
prisão! Você não tem nenhuma doença!).
- Io? Ma no!
- Não adianta tentar esconder! insisti... Mas eu quero fazer um trato contigo! Disse
isso entregando-lhe as minhas últimas liras. Eu tenho de prender um ladrão que está lá
dentro da igreja, mas estou sozinho aqui. Ele está disfarçado como se fosse um nobre.
Quando ele sair, eu quero que você o segure aqui fora, aconteça o que acontecer. Eu
sairei logo atrás dele para avisar a você quem ele é.... Para prender seus comparsas
primeiro, eu o atiçarei para fora; ele irá andar rapidamente em direção aos cavalos. Eu
quero que você o siga e o segure por lá a maior quantidade de tempo possível, mesmo que
ele queira tentar voltar para a igreja. Não permita-o! Diga que você sabe que ele é: o
barão de Trento e diga-lhe que alguém esteve ali procurando justamente por ele e que essa
pessoa lhe segredou uma coisa a respeito dele. Peça ainda que ele lhe ofereça algumas
liras em troca dessa importante informação... Assim será melhor pra você! Depois que ele
lhe der o dinheiro leve-o a um lugar reservado e conte a história mais longa que você
conhecer, inclua sempre o nome dele, está me entendendo?
- Si signore!
- Seja o que for inventar diga também que “o Visconde de Trento descobriu coisas
horríveis dele...” e que você ficou sabendo... Invente qualquer coisa, mas segure-o aqui.
Enquanto isso, eu prenderei os comparsas dele lá dentro da igreja e quando ele voltar
para lá, será a vez dele. Estamos entendidos? É isso ou a prisão, o que prefere?

261
- Eu o ajudarei, senhor! Disse-me tremendo de medo o falso mendigo que era, na
verdade, um belo de um ator, reconhecível à distância... por isso da parte dele eu sabia que
daria certo. Até a sua tremedeira repentina, presumo eu, não passava de um ato teatral. Ele
não me trairia, já que iria ganhar ainda mais umas liras e se divertiria no final.
Fechado o negócio que me interessava eu voltei para dentro da igreja. O Padre
Doudou já tinha terminado o “canto de ação de graças” que antecede a benção final e agora
eu tinha pouco tempo. Corri até a sacristia, pois sabia que sempre havia alguém ali. Pedi
encarecidamente a um menino de uns 12 anos que fosse correndo o mais rápido possível e
dissesse ao “homem com aquela dama ali” que “o Visconde de Trento em pessoa está lá
fora, junto aos cavalos e precisava lhe falar com urgência”. Ora, o menino correu pela
igreja, e obtive o tempo suficiente para que eu me escondesse próximo à porta para avisar
ao falso mendigo quem era o “ladrão”, ou melhor o “barão”. Como uma pequena multidão
já se levantava antes mesmo do padre dar a benção final, como eu já havia previsto, eu
corri para sentar-me ao lado da baronesa, no lugar do barão. Eu não sei o que dá na cabeça
dessa gente, mas em Nápoles é sempre assim, ninguém tem muita paciência para atingir o
final da missa e eles são incrivelmente mal educados nos ritos gerais da igreja.... Ainda bem!
Foi essa má educação que me permitiu me aproximar da baronesa, sem levantar suspeitas e
me fez, pela primeira, vez sorrir para ela, diante dela:
- O visconde de Trento me enviou! Eu disse amistosamente num nobre francês.
Tenho boas notícias, mas o barão não poderá saber ainda. Algo que mudará a vida de
vocês para sempre. Eu quero contar primeiramente a você, mas não aqui. Vamos nos ver
mais tarde em outro lugar?
Ah, meus caros e pacientes leitores, eu não devia ter imaginação tão mais fértil para
que conseguisse marcar um encontro com ela de uma outra maneira mais original. Mas
tinha de dar certo. Eu sabia como a hierarquia dos títulos nobiliárquicos sempre guardava
segredos uns com os outros e que ela iria ceder de algum jeito. Et voilà! Elle a dit oui en
souriant! Pediu-me que eu fosse até ela, já que estavam como hóspedes na Villa Florìdia
em Vomero. Eu disse que já havia sido hóspede por lá. E que fazia parte da Casa Bonaparte,
como o meu primo, o padre que celebrava a missa, e que seria um imenso prazer encontrá-
la para dar essa boa notícia. Qual dos nossos a hospedou lá? Alguém da Casa di Borbone-
Napoli ou da Villa Lucia?

262
- Borbone-Due Sicille! Disse-me ela.
- Ferdinando Pio?
- Sim, ele mesmo! Não pude vê-lo desde o casamento.
- Que ótimo! Ele eu o conheço bem, mas eu também não conheço a principesca
Maria Teresa. Será um ótimo momento para dar-lhe os meus parabéns um tanto atrasados.
Tudo acertado e nem sombra do barão, finalmente relaxei e pude segurar nas duas
mãos dela antes de me despedir com o meu melhor sorriso. Que Deus abençoe a todos os
falsos mendigos deste planetinha sujo e lindo! Que deus abençoe a miséria destes
condenados, que deus abençoe sobretudo a mentira, pois foi por meio dela quem consegui,
a partir dali, saborear o mais esplêndido de todos os sabores da vida: a paixão.
É claro que da primeira vez eu só queria comer o cu dela, mas, a paixão pode vir
também de dentro de uma esfregada vigorosa no cu. Ainda mais porque ela simplesmente
me respondeu em nossa primeira vez: nada de sodomia! nada mais não natural que um
pinto no cu. Se se responde à sede, ÁGUA! Eu respondo ao desejo impertinente de meu cu,
COCÔ! Oh, meus caro e pacientes leitores, adiantei-me nessa narrativa porque eu não
aguento e tenho, além de múltiplos orgasmos, eu tenho ao pensar na baronesa de Trento
uma ejaculação anterior às preliminares.
Mas depois de gozar novamente ao escrever isso, retomo de onde eu parei. Depois
de louvar a Deus por inventar a mentira em nossa boca, eu quis comentar com meu primo,
o padre Doudou sobre a baronesa e sua beleza sobrenatural. Ele não sabia quem ela era. Eu
a descrevi milimetricamente e nada. Foi aí que eu confirmei que ele era realmente um padre
por vocação. Ninguém perderia uma visão do paraíso nem há um milhão de léguas de
distância, só sendo padre por vocação. O padre Doudou devia estar mesmo interessado em
missas, orações, transcendências e outras coisas dessa natureza. Pois o divino baixou em
sua paróquia e ele nem se deu conta!
Na hora marcada, no minuto marcado no segundo a se viver, lá estava eu à espera
dela no último degrau da escadaria principal. Ela não se demorou muito a chegar e logo
desceu a escadaria com um lindo xale preto ao estilo português.
- Madame está belíssima. Atirei!
- Lisonja sua, cavalheiro!

263
- Quero lhe ser direto. Contarei sobre a minha vida pregressa em poucos minutos,
em seguida, tudo farei para que não me abandone e depois que eu lhe disser tudo o que eu
tenho a lhe dizer, coloco-me à sua disposição.
Mas meu caros pacientes, antes que eu terminasse a minha história, antes que eu
falasse completamente sobre minha ascendência de família nobre, sobre meus estudos na
França, sobre as minhas viagens de negócios, sobre as milhares de pessoas com quem eu
travei conhecimento, experiências e novidades, e ainda eu terminasse falando que eu vivi
tudo isso para chegar até ali e encontrá-la... mas ela belamente me interrompeu sem
sutilezas e me disse:
- Já chega! Eu não quero ouvir mais disso! Elencar os seu méritos não irão me
fazer convencer de que é alguém interessante para mim. Veja você que conheci o barão
num bordel! Nem ele e muito menos eu era para estarmos ali, no entanto, ao fugirmos de
um grande assalto que estava ocorrendo em Nápoles, entramos os dois no primeiro
estabelecimento aberto para nos proteger. E, de fato, embora havia dezenas de nobre pelas
ruas da cidade, pois saímos de nossa segurança completamente bêbados e quisemos nos
aventurar pelas ruas de Nápoles, imagine isso... quem mais no protegeu? Quem mais se
importou conosco? Os nobres correram feito crianças, mas as prostitutas e seus clientes,
ao contrário, estavam lá, presentes, concretos, e isso era óbvio... saltava aos olhos. E a
partir dali eu me senti muito atraída pelo sexo e pelo barão e por todos aquele homens que
eu começava a enxergar de modo diferente. Eram de fato, homens diferentes um dos outros
e como é que deveria ser para uma prostituta experimentar essa diferença? Por que eu
mesmo não tentar?
Assim, eu já havia percebido a sua movimentação na igreja. No momento em que o
menino veio correndo em nossa direção para avisar que o Visconde de Trento em pessoa
estava ali, numa igreja de Nápoles... Aquele retardado que não sai de Roma?
Hahaha...Era óbvio que seu interesse por mim encontraria modos de fazer nos aproximar
um do outro... Eu o compreendi posteriormente! Eu deixei o barão sair da igreja, já
sabendo que você me faria uma visita, porque eu o vi conversando com a senhora beata,
com menino da Igreja e em seguida comigo. Se não o fizesse eu o teria feito - o barão bem
que o merecia!

264
Era óbvio que ela não tinha muitos pudores para falar do marido daquele jeito.
Afinal, o barão de Trento, pela evidência que tive desde o primeiro susto que eu dei nele na
igreja, e depois por outras certezas seguras que tive ao saber que espécie de negócios ele
tinha em Nápoles (motivo pelo qual eles foram tirar as suas “férias ali”), ele monetarizava
demasiadamente a vida, o que sempre considerei um defeito perdoável, de toda feita. Se
tudo for dinheiro, tudo que foi um dia considerado humano se torna também dinheiro. A
verdade, a mentira, a saúde, a doença, a alegria e a dor - a experiência humana é monetária.
Se o dinheiro permear todos os aspectos da vida não restará literatura, não restará
arte, não restará vida. O exato contrário era a relação que eu tinha com a esposa dele. A
baronesa não representava a monetização da vida, ela era a própria vida - por isso eu queria
possui-la, por isso eu queria matá-la. Quando ela sorria, quando ela me dava as suas mãos,
quando ela gentilmente retirava em primeiro lugar a sua roupa para que eu a enxergasse e
em seguida a minha, para que eu não fizesse outro esforço que não a concentração total
nela... Ela era a pura vida para mim. E eu estava satisfeito, sentindo que eu me apaixonara.
Na última noite que a vi, eu comecei a ler para ela, enquanto ela carregava de saliva
toda a parte de baixo do meu corpo... Que sensação estranha essa que, em princípio, sempre
me fez querer concentrar-me totalmente nela e em seguida desconcentrar-me
completamente, enquanto a baronesa fazia algo que me deixara com a esperança de que
tudo fosse assim para sempre.
Mas logo que ela terminou o trabalho de limpeza corporal com líquidos naturais que
saem de bocas puríssimas, ela um tanto se irritou com algumas passagens esporádicas que
comecei a ler ao léu, sem que ela pudesse acompanhar o enredo ou as peripécias. Eu queria
imitar aquele maldito teatrólogo que havia ferido de morte a minha querida prima
Mademoiselle de Beauharnais. Mas a inteligência da baronesa de Trento era tão vivida que
desconfiava se ela, de fato, não devia se tratar de uma verdadeira baronesa em sentido
estrito, porque nada a fazia enojar, como as outras mulheres da aristocracia. Numa
passagem, para testá-la, eu li de uma só vez o seguinte:

Sobre o cu e seus cheiros podres: - Se quiseres concordar comigo pega simplesmente um


belo pedaço de carne de boi, divide-o ao meio. Um dos pedaços de carne será jogado ao
léu e terá um destino diferente de um pedaço de carne que será comido por ti. Lembra que

265
ao comer aquela carne irás processá-la...farás uma coisa boa com ela. Uma parte vai
constituir o teu corpo, alimentar-te e a outra parte dela se transformará em teu cocô. A
parte jogada fora se transformará em fétidas larvas. O cocô, neste sentido, será a parte
boa, uma vez que sairá de ti e, por que acostumastes contigo mesmo, quase não sentirá
asco desse cheiro vindo de ti, desse seu próprio seu cheiro, isso comparado à carne saltada
para fora! O que fede, para o mesmo é sempre o cocô dos outros!
Ela sequer se exaltou com essa leitura! A prova ou a ciência do egoísmo não lhe
parecia pertinente!
Eu estava adorando brincar disso! Abri as páginas ao léu e me deparava com coisas
desconexas, sem quaisquer organização, início, meio e fim, coisas que a faziam rir, tais
como:

- Lambo-te matreira selvagem!


- Mas vai com calma pois você é casado! Disse ela sorrindo...
- Olarila! Eu que tenho tantas qualidades você vai ressaltar logo a meu único defeito!

E em outro momento eu escrevi:

Eu conheci um sujeito que dizia “você pode até querer ferir e raivozamente dizer não a
tudo e a todos. Mas jamais pode-se dizer ‘vai se foder' para sua avó!”
E essa moral estranha tem lá o seu fundamento!

E em outras passagens eu tinha um senso esquisito que era logo sentido por ela:

...alguns roubos o direito o confirma. Sendo advogado, não posso deixar de exprimir meu
conhecimento do sentido universal dos direitos, a necessidade de se viver cercado por
alguns limites. Alguns limites nos são impostos necessariamente, outros, sem necessidade,
mas dentre estes há uma miríade que nos são particularmente aceitos.

De súbito, quando eu disse a amiúde: ... quando eu ficar velho também eu


transformar-me-ei numa planta e passivamente ficarei curtindo o que me resta do viver

266
alternando dormitares a resmungos, a respeito do que vivi e lamentos, a respeito do que
não poderei voltar a viver.
Ela queria ouvir mais! Sentiu que havia algo ali. Depertei-lhe a maior das
curiosidades. Algum tipo de sentido literário no que eu escrevia apenas para me livrar dos
meus pecados. Ela sentiu que podia contar comigo para também livrar-se dos pecados dela
e por isso insistiu... Leia! Leia mais um pouco disso para mim.
Eu estava confuso, imaginando que nessa altura, de tantas palavras ditas por mim e
jogadas ao léu, na intenção de que elas encontrassem algum cúmplice e me fizesse pensar
que valeu a pena chegar até aqui, as velas já se tinham quase apagado, a madrugada já
estava querendo despontar pra valer e a baronesa de Trento ainda queria ouvir mais e mais
do que eu tinha pra dizer.
- Não se trata de um diário. Nem de um livro de relatos, nem um livro de um conto.
Esses papéis que se amontoam são um retrato de sua vida. A maneira que escolheu para
dizer a todos que busquem as suas próprias fantasias, que todos possam voltar a viver o
sempre de seus quotidianos e que lutem para tirar o melhor proveito de todas as coisas
boas e ruins que a vida lhes trouxer.

Então eu o insisti, impondo o meu respeito:

- Quanto a essa morte? Nada de amargor ou sofrimento definitivo. Todos nós aguardamos
o mesmo destino.
(...)
Fazendo-a rir compulsivamente :

- Eu pedi tanto a Deus pra fudê com aquela vadia!


- Ora, mas desde quando Deus atende o pedido do diabo?

Ela foi se animando na medida em que queria ouvir trechos maiores, mais
abundantes, histórias inteiras. Ela queria que eu falasse tudo, tudo mesmo. Ela queria um
recital inteiro. Ela queria pra ela todo o Delectio Fornicationes: fantasias depravadas.
Comecei timidamente, li como e porque Fidélius se utilizava da morte para exaltar a vida.

267
Ela quis questionar-me como se aquilo fosse mesmo literatura e não um relato real de
coisas que ocorreram na realidade e que eu presenciara, sem romantismo, sem estilo, sem
ornamento, sem revisão ortográfica, sem aumento ou subtração - sem literatura. Ela queria
em princípio mudar o início e dizer que Venera não podia já iniciar morta no que ela
chamou de “conto”. Questionei-a:
- Mas não se trata de um conto, em sentido literário, é um relato, em sentido
científico ou histórico.
- Bobagem! Ela retrucou. - Quando duas letras se encontram para formar uma
palavra elas já criam num só ‘fiat lux’ o romantismo, o estilo, o ornamento, a ortografia, o
aumento e a subtração ao mesmo tempo e sob o mesmo aspecto.
A baronesa insistiu que Venera tinha de tentar lutar pela vida antes de dar vida a
Fidélius enquanto morta - talvez feri-lo no pinto ou algo assim, forçá-lo desse modo a se
ferir quando fosse estuprá-la já estando morta! A ideia não era ruim, mas mudaria o real, o
acontecido e a simples ideia daquilo me embrulhava o estômago, mas me enchia de
liberdade louca. A baronesa de Trento queria mudar a história! Ela queria interferir nos
acontecimentos. Ela não se sujeitava, ficou extremamente infeliz, inquieta com tudo
aquilo... Ela queria sobretudo mudar o final, ela não queria que Fidélius fosse preso, que
destino cruel para um homem tão digno! Se se não muda a história a seu bel prazer, que
relevância tem uma narrativa? Dizia ela com aquela boca mesma que em si mesma já dá
vontade de estuprar.
Ó meus caros e pacientes leitores, eis que eu encontrara a mulher da minha vida ou
da minha morte? Ela parecia querer me curar da dor da ausência que me ferira o suicídio de
minha prima ao mesmo tempo que me ensinava que o passado pode ser modificado. Ao
permitir que eu lesse para ela as minhas confissões, eu era duplamente maior do que ambos:
Santo Agostinho e que Jean Jacques Rousseau estavam à minha deriva. Eu, de fato, não
tinha a perspicácia, talento e penetração que eles tinham, mas eu tinha a minha própria vida
e dela eu poderia fazer o que bem quisesse... Todas as experiências possíveis... incluindo a
mais fatal de todas.., aquela experimentada por minha prima por razões políticas e a mesma
que ainda não fora experimentada por razões “experimentais”, ou seja, a mera cessação do
existir. Enquanto eu tinha a minha vida, em palavras relatadas, eu tinha ainda a “baronesa
de Trento” e, finalmente, nela eu encontrara a minha paixão, finalmente eu encontrei a

268
minha paz, as minhas explícitas confissões. Nela eu encontrara a morte. Tudo aquilo que eu
dissesse sobre mim e sobre os outros seria a verdade, a estória se reconciliaria com a
história.
E quando cheguei de onde saíra, eu sentei na cabeceira da cama e li novamente
alguns textos esparsos, sabendo que já não tinha mais o que contar... e sem perceber que ela
não mais me criticava e não mais ficava rabugenta com toda aquela má “literatura”,
continuei lento até que ela adormecesse:

Sorriso que Morde

Ela mora nos arredores de Paris, Joachim Eugênie d’Orange, 712, ap 204.
(com todo sofrimento)

- Eu te amei! ...(pausa) tu só amas quem te despreza, não é? Como todas as mulheres?


Então, vou fazer o que te convém para que me conceda o que me convém! Odeio-te desde
agora e para sempre! Odeio-te sorriso que morde! Odeio-te piscar de passarinhos! Odeio-
te minha querida sombra! Chega de teus jogos juvenis! Eu não te amo mais, mulher jovem!
Chega de todo esse teu silêncio que um dia eu exaltei... Chega de toda essa falta de
palavras que sai de tua boca. Tive o suficiente som de teu nada... Chega de brindes ao ódio
e ao amor. Já chega de uma vida estrangeira, asiática! Chega de teus olhinhos tristes a
recomendar-me o amor. A senhora não faz parte agora além da lista das que
aborrecidamente procurei em vão. Ou seja, a senhora faz coro com todas as mulheres, as
que possuí e as que possuirei - coro com o vazio da mulher.

- O que estás a dizer?

A baronesa acordou! Ofegante... Com medo.... De quem eu falava? Sobre o que eu estava a
delirar?

- Eu lia para ti meu amor... enquanto dormias... É apenas literatura...má literatura....são


fantasias...Volta a dormir. Teu sono te será reparador... Parta dessa para melhor...

269
- Com comoção ela continuou por ali vivendo, respirando, até morrer....
Eu disse isso quando ela estava em seu leito de morte... mas é verdade que ela não vivera
todo esse tanto até os seus últimos dias de vida até ali. A ela e a elas eu pude dar meu mais
profundo sentimento de generosidade... A imagem da mulher se esvaiu... E também já não
restava mais nada a dar-lhe senão o seu descanso final.
A honestidade pura é um mal num mundo mal. Tente experimentá-la e verá que não
sobrará um só ser humano capaz de perdoá-lo por mostrar sua sub-humanidade de modo tão
escancarado! Ser humano é ser capaz de compreender que não passa de um verme o qual
não fará falta o seu desaparecimento... Dar-te-ei de volta o presente que me confiara!

O travesseiro

Eu exigi muito dela. Deitada na cama, antes de cobrir todo seu rosto pálido, entrevi
a cena de todo fim. A um milímetro de distância uma da outra, as pequeninas rugas de sua
boca ruborizavam, arfavam no formato eterno do “ó” enquanto ela se mantinha cabisbaixa
ziguezagueando apenas no ritmo de sua respiração que ainda naquela noite viria a diminuir
pouco a pouco e por fim se cessar. E seus dentes? Eram afiados feito pontas de facas de
lâminas de porcelana e ao chorar ela levantava os cantos dos lábios que, a todo som,
resmungavam para o mundo a dor repentina que eu a fiz passar. Sim, a culpa era minha! Eu
era inconscientemente culpado por toda aquela agonia que agora se fazia viva aos olhos de
todos vocês, meus pacientes! Senti isso só tardiamente, mas a responsabilidade era minha,
sim. Eu fui quem fez baixarem por sobre ela o pêndulo da obrigatoriedade de amar. Eles
eram muitos, mas fui eu quem desejou isso pela primeira vez. Eu sou o criador do carinho,
da paciência leitora e do amor que mata.
Com aquelas mãos eu acariciei suas costas, o mais próximo de onde o tabu
concedia suas vistas rudes e grossas. Aquelas mãos eram as mesmas mãos que seguraram
pesadas velas, elas declinaram diversas palavras nobre sob o papel e conduziram tão bem
os acontecimentos naquela noite em que eu fui feliz...Quão abençoadas são as mãos por
que elas existem para serem utilizadas. Aquelas mãos que conduziram o dia até ali, são as
mesmas mãos que cerraram os punhos no objeto mais próximo de mim além dela, um

270
travesseiro. Servi-me dele para estancar a dor que produzia ritmicamente sons em suas
narinas eternamente fechadas e doces - e se eu for me encontrar no inferno com minha
amada prima Beauharnais e seus correligionários, eu os chamarei de meus irmãos e de
meus camaradas, eis o melhor motivo que eu tive para apaixonar-me pela baronesa de
Trento, antes de fugir para Paris para encontrar-me com o destino.

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271
Posfácio
Depois de uma excelente investigação encabeçada, em 1947, pelo filósofo russo exilado na França
Nikolai Alexandrovich Berdyaev (infelizmente ainda inédito), aventou-se uma teoria sobre a real identidade
daquela que foi chamada “Baronesa de Trento” nesse intrigante livro anônimo Delectio Fornicationes.
Embora o Regno d'Itália fosse um obscuro palco da unificação italiana, os frutos da unificação eram aqueles
mesmos que os encaminhariam tanto para a República quanto para o Fascismo. Certos barões e baronesas
prosperaram e alguns tinham mesmo uma linhagem nobre bastante antiga, associada à realeza europeia
medieval, que incluiria posteriormente beneficiários da França moderna e também a revolucionária. O “Reino
da Itália” havia sido um Estado fundado há mais de trinta anos antes desses relatos, em 1861. Alexandre, o
Visconde de Beauharnais (1760-1794) foi o primeiro marido de Joséphine de Beauharnais (1763-1814), quem
se casou posteriormente com Napoleão Bonaparte. Alexandre teve como filho Eugênio de Beauharnais (1781-
1824), proclamado vice-rei da Itália (1805-1814), o segundo homem de Napoleão naquele reino. A hipótese é
que se esse reinado tivesse prosperado, o futuro da casa de Beauharnais e de Bonaparte, da Itália e, portanto,
da Europa inteira teria sido totalmente distinto, tal como devia ter pensado confusamente o autor do Delectio
Fornicationes. Esse anônimo teria sido, por hipótese, identificado como “L.B.” (Louis de Beauharnais?)
numa única carta atribuída a ele que não fora destruída pela esposa de Andreas Dèr Mouw, antes do
casamento. Por curiosidade do destino, para se vingar por ter descoberto que a tal “Baronesa de Trento” era
na verdade uma descendente direta de um acusador público do tribunal revolucionário que mandara
Alexandre de Beauharnais para a guilhotina, acabando com a primeira tentativa nos sonhos dos Beauharnais
de “dominar o mundo” o advogado córsico teria enlouquecido, cometido o assassinato dela e depois se
suicidado em Paris. Isso explicaria as passagens obscuras finais e ainda outra deixada mais acima sem
explicações: “Na derradeira última vez que a vi [baronesa de Trento], num misto de ódio e amor eu quis
encerrar todo o ciclo de sexo e morte que nos trouxera até aqui”. Segundo o professor Aleksandrovitch, a
chamada “baronesa de Trento”, foi uma aristocrata obscura de nome Virginia Raggi, que viveu no anonimato
em função de suas ligações com os antigos carrascos da época revolucionária do Reino do Terror, os mesmos
de quem herdara enormes somas de dinheiro público, por causa de corrupção em sua família. Paradoxalmente,
ela era a mulher por quem o advogado córsego com quase trinta anos na época se apaixonou perdidamente em
Nápoles, mas, ao descobrir que ela era herdeira direta de um acusador público da Revolução Francesa (que
representou o início do fim da aristocracia na Europa) premeditou matá-la sufocando-a em Nápoles, antes de
viajar para Paris, dando cabo em sua própria vida ao se atirar no Siena. Antes do suicídio, ele enviou esses
escritos inéditos para o velho que encontrara anos antes em Shangai, de nome Lyu Yang, citado em “O Velho
que Fora Pré-Adolescente” (Le Vieil Homme qui Était dans sa Dernière Partie de Son Enfance). Esse senhor
reteve o manuscrito do Delectio Fornicationes até a sua morte, e então, ele foi encontrado por um neto seu
que estudou na Franca na década de 30 num programa de cooperação universitária Sino-Francês, facilitando
na época a sua primeira publicação.
No umbral desta nova era, o esperançoso e ideologicamente acalentado Séc. XX exultou: Quem
solucionará a incógnita do nosso tempo? Quais promessas serão cumpridas? Quem vencerá a batalha entre

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Eros e Thanatos? Tentará vencer a esse desafio insolúvel um jovem advogado corsico, moralmente fraco e
filosoficamente perdido.. O filho do séc. XIX, idealizador das potencialidades do séc.XX. E ele fará isso até o
fim..., permanecerá buscando se encontrar. Em primeiro lugar, ele não tem nome (nos dirigimos a ele com o
abstrato termo “Anonimo” - a possibilidade real dele se chamar Louis Beaurharnais, como quis Berdyaev,
talvez não nos ajude em nada).
Quanto ao anonimato do autor do Delectio Fornicationes, paradoxalmente, a família dele pertenceria,
e isso parece ser certo, à um ramo desgarrado e distante da usurpadora Casa de Bonaparte... Mas de que cepa?
Seria ele do ramo canino? Por diversas vezes ele evoca a que denominou Mademoiselle de Beauharnais como
sua prima, nascida na Turgóvia, no norte da Suíça... Essa era uma pessoa de carne e osso ou puro fruto da
imaginação? Não há registros de uma nobre que tenha se enfilerado nas barricadas anarquistas do fim de
século. Teria sido o caso dela abafado pela imprensa da época? E para o nosso autor córsigo, haveria algum
outro motivo para ele esconder o seu nome? Ele não se referiria, então, à uma filha bastarda de Napoleão III
da França? Essa moça germânica não teria sido “encomendada”, não das amantes anterioras desse supremo
imperador golpista, mas direto do fundo da derrota dos testículos dele em Kassel, Alemanha, antes do exílio?
A confusão e o anocronismo se amontoam! De qualquer modo desse mesmo ramo familiar partiu
os Leuchtenberg, e é possível que essas ligações do autor o associem ao Brasil na figura de Amélie Auguste
Eugénie Napoléone de Beauharnais (ou von Leuchtenberg), esposa de D. Pedro I, que teria morrido (em
1873), se nossos cálculos estiverem corretos, quatro ou cinco anos depois do nascimento desse autor anônimo
dessa mesma família (nascido portanto em 1868-9). Mas nem isso é seguro, porque nessa genealogia há
diversos ramos faltantes e alguns dados anacronicos aparentemente insolúveis. Essa genealogia paralela e
desconhecida de cuja clareza esse autor forçosamente nos mantém conscientemente distantes para não revelar
a sua verdadeira identidade, não nos permite fazer afirmações exatas.
A temática explicita do livro, aqui modernizada e adaptada parcialmente ao português do nosso
tempo, diz respeito, a nosso ver, a um questionamento. Talvez, nessa ansiedade despersonalizada de virada de
século ele se encontrasse mesmo no amor, ainda que depois da busca desenfreada por sexo fantasioso a
identidade sem identidade o fizesse loucamente se perder em sua busca... Era o realismo no irrealismo.
Mesmo assim, não há segurança alguma de que ele tenha mesmo praticado tudo do quanto relatou... Portanto,
nada mais inadequado chamar a esses contos de “relatórios de alcova”. Por outro lado, em alguns momentos
tão minuciosos ele parece divisar entre a realidade que ele deseja pela imaginação e a realidade que ele
constrói por atos. As ações e pensamentos dele descortinam o séc. XX como experimentação: enquanto o
sexo é vivenciado em ritmos pra ele extrapolantes; a paixão, o amor são vivido parcimoniosamente..., mas
mesmo o amor é lhe sentido como uma icógnita...e ele continuaria, então, em ambos, sexual e amorosamente
perdido... Arauto do século XX, conftontando eros e thanatos, ele propôs uma busca incansável por uma
fantasia (ideologia) pela qual viver e morrer... A fantasia da vida é perversa; a fantasia da morte é depravada.

Renato Araújo, São Paulo, Julho de 2008.

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LES IMAGES - PART I

Epoux – Reveries Fantastiques ( fin du 19ème siècle) ....................................................... 01

Dans la plage (fin du 19ème siècle) .................................................................................. 07

Julien Dillens – Figure Tombale (1887) ........................................................................... 17

Epoux (Simila Similibus Curantur – les semblables sont guéris par les semblables) ........ 27

Fernand Khnopff – Du Silence (1890) ................................................................................ 39

Jean-Honnoré Fragonard – Petite fille et le chien (1765-72) ............................................. 64

Toulouse-Lautrec : Le Baiser (1892) ................................................................................. 99

Aleksandr Benois – Le Pavillion Chinoise – Le Jalousie (1906) ..........…….….............. 104

LES IMAGES - PART II

Lai Afong – Fumeurs d'opium (1880) .............................................................................. 116

Vieux portraits de filles de Shanghai (Lǎo shànghǎi guì fù xiào xiàng huà) .…................. 91

Alexei Korzukhin – Dimanche (1884) ............................................................................ 139

Gustave Doré - La Bible : Le Monde envahi par les eaux (1860-6) ................................. 165

Rudolf Lehnert et Ernst Landrock Tunisie - La Présentation, (c. 1910) .......................... 211

Brasão de armas da casa de Beauharnais .......................................................................... 256

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