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1.

Ao anjo da igreja de Éfeso escreve: Estas coisas diz aquele que conserva na mão direita as sete estrelas e que anda no
meio dos sete candeeiros de ouro:
2. Conheço as tuas obras, tanto o teu labor como a tua perseverança, e que não podes suportar homens maus, e que puseste
à prova os que a si mesmos se declaram apóstolos e não são, e os achaste mentirosos;
3. e tens perseverança, e suportaste provas por causa do meu nome, e não te deixaste esmorecer.
4. Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor.
5. Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti e moverei do
seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas.
6. Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio.
7. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça o que o Espírito Santo diz às igrejas: Ao vencedor, dar-lhe-ei que se alimente da
árvore da vida que se encontra no paraíso de Deus.

Introdução

Curiosidades sobre a cidade de Éfeso (30 – 100 dC)

1. Éfeso era uma província romana e capital da Ásia Menor, sendo uma das mais importantes
cidades do mundo na época.
2. Historiadores geralmente calculam a população da cidade no primeiro século entre 250.000
e 500.000 habitantes.
3. Éfeso teve uma localização importantíssima de contato entre os dois lados do império
romano (a Europa e a Ásia). Era uma cidade estratégica para o comércio internacional da
época.Conhecida também como a feira da Ásia, onde ficava o mais importante porto da
região.
4. Éfeso era conhecida como um dos maiores centros religiosos de todo império. Lá era
o centro do culto ao imperador romano na Ásia menor.
5. Éfeso era também um centro de ocultismo da época. Havia na cidade uma mística muito
grande, com o comércio de muitos livros de ocultismo. Conta-se que veneravam uma carta
(Pergaminho) como um amuleto da sorte.
6. Éfeso era o centro de adoração da deusa da fertilidade, Ártemis ou Diana. O templo de
Diana era oito vezes maior que o Paternom de Atenas. Era também uma das sete
maravilhas do mundo antigo, construído em mármore branco com colunas ornamentadas
em ouro.
7. O comércio da cidade era aquecido com a venda de estatuetas (nichos) da deusa Diana.
8. Éfeso possuía um anfiteatro a céu aberto, com capacidade para 25 mil pessoas sentadas.
9. Atualmente as ruínas de Éfeso encontram-se na cidade de Selçuk, na Turquia.

Panorama histórico

A igreja de Éfeso foi fundada pelo apóstolo Paulo, no final de sua segunda viagem missionária,
conforme Atos 18:19-20. Ele retorna na sua terceira viagem e se fixa ali por três anos, começando
numa Sinagoga e depois na Escola secular de Tirana, onde ensinou regularmente a Palavra de
Deus por dois anos. O resultado disso foi:

Queda da idolatria. O comércio de ídolos se desarticulou e entrou em colapso. As pessoas


estavam abandonando os ídolos para servir a Deus. Isso trouxe uma reação negativa em alguns
comerciantes da cidade. Isso levou uma multidão insatisfeita a questionar Paulo acerca dos seus
ensinos. Por isso ele fala que lutou com “feras”

“Se, como homem, combati em Éfeso contra as bestas,…” 1 Coríntios 15:32


Queda do ocultismo. O ocultismo entrou em colapso quando as pessoas passaram a conhecer a
verdade e a se desfazer dos seus livros de magia, levando-os para serem queimados na praça
pública, como um gesto de rompimento com tais práticas.

“Também muitos dos que seguiam artes mágicas trouxeram os seus livros, e os queimaram na
presença de todos e, feita a conta do seu preço, acharam que montava a cinqüenta mil peças de
prata.” At 19.19

Houve um avivamento em Éfeso. Todos os habitantes da Ásia menor ouviram a palavra de


Deus. Atos 19 diz que a Palavra de Deus prevaleceu em Éfeso. O evangelho tornou-se próspero
naquela terra outrora pagã.

fatos importantes sobre a igreja de éfeso.

Depois desses fatos iniciais, a igreja de Éfeso se transformou na terceira e mais importante
igreja do novo testamento, depois das igrejas de Jerusalém e Antioquia da Síria.

1. Dada a importância dessa igreja, passaram por lá o apóstolo Paulo (por três anos), Apolo,
Timóteo, Áqüila e Priscila.
2. Durante os anos na prisão, Paulo escreveu a epístola aos efésios. Também deixou Timóteo
em Éfeso para edificar os irmãos.
3. O apóstolo João escreve de Éfeso o evangelho e três cartas. Depois foi deportado para Ilha
de Patmos (próximo a Éfeso), de onde escreveu o Apocalipse. Nota-se assim, que uma
relevante literatura cristã é dirigida ou produzida nessa cidade.
4. Na carta que Paulo escreveu aos efésios, ele a elogiou por seu amor.
5. Quando Paulo escreve a Timóteo (que era pastor de Éfeso), ele orienta a trabalhar algumas
questões, pois o amor já estava sendo ameaçado.
6. Mais tarde Jesus escreve essa carta elogiando sua firmeza doutrinária, mas exortando a
voltar à pratica das primeiras obras (primeiro amor).

Considerações acerca das sete igrejas.

 Havia mais de sete igrejas na Ásia. Possivelmente por influencia de Paulo.


 Jesus tece apenas elogios a duas igrejas (Esmirna e Filadéfia). Curiosamente, a mais pobre e a mais
fraca.
 Jesus tece elogios e censuras a quatro igrejas (Éfeso, Pérgamo, Tiatira e Sardes).
 Ele só tece censuras a uma delas, a mais rica, (Laodicéia).

Com isso, notamos que o diagnóstico que Jesus faz dessas igrejas é muito diferente do que
poderíamos ter feito.

A visão limitada que temos da igreja pode não refletir a sua realidade espiritual.

Quantas vezes nos enganamos e pensamos que uma igreja é forte pelo seu número de membros,
pela beleza do seu templo ou pelo poder econômico do seu orçamento.

 A igreja de Esmirna era pobre e composta de escravos, mas Jesus olha para ele e diz: “você é
rica”.
 Laodicéia, a mais rica igreja da Ásia, que se olhava no espelho e dizia não precisar de nada. Jesus
olha para ela e diz: “Você é pobre e miserável”.
 Sardes que se julgava dinâmica e avivada, teve que ouvir de Jesus: “você está morta”.
 Jesus olha para igreja de Filadélfia e diz: “você tem pouca força, mas diante de ti eu pus uma
porta aberta”.

Temos muita dificuldade em andar em equilíbrio. Corremos o risco de ir para um extremo ou para
outro e cair como a igreja de Éfeso caiu. (doutrina X relacionamentos).

Lições do texto

1) Jesus dá segurança a sua igreja. “Ao anjo da igreja em Éfeso escreva: Estas são as
palavras daquele que tem as sete estrelas em sua mão direita e anda entre os sete candelabros de
ouro”. Apocalipse 2:1

O importante é saber que Jesus não apenas tem a igreja em suas mãos, mas que anda no meio dela
e a conhece. Ele conhece o nosso coração.

 Das sete cartas, para cinco Jesus disse: “eu conheço as tuas obras”.
 Para Esmirna ele disse: “Eu conheço a tua tribulação”.
 Para Pérgamo ele disse: “Eu sei o lugar onde habitas, onde está o trono de satanás”.
 Para Éfeso ele disse: “abandonaste o teu primeiro amor.”
 Para Tiatira ele disse: “tenho contra ti que toleras Jezabel”

“As minhas ovelhas ouvem a minha voz; eu as conheço, e elas me seguem. Eu lhes dou a vida
eterna, e elas jamais perecerão; ninguém as poderá arrancar da minha mão”. João 10:27-28

Não temos dúvidas da transcendência de Deus (habita todo universo), mas às vezes perdemos de
vista que Ele é imanente (que está presente).

Às vezes entramos em um culto sem termos a percepção espiritual que Ele está presente. A
consciência que Ele está no meio da igreja deveria gerar em nosso coração um senso profundo de
reverência, quebrantamento e humilhação.

Porque a carta que Jesus enviou a Éfeso é tão importante para a igreja de hoje?

 Estamos vivendo tempos extremamente perigosos, onde o meio evangélico está confuso.
 Sobre a prática do “cair no espírito”, iniciada em Toronto Canadá, talvez por influencia de Benny
Hinn.
 Precisamos de muita clareza num ponto: Deus não está agindo onde sua palavra não esteja sendo
pregada com fidelidade, zelo e submissão.
 Jamais encontraremos relatos de Deus abrindo mão da verdade ou tolerando erros, seja
doutrinário ou moral.
 Experiências pessoais: por mais populares ou que o povo goste. Não podemos abrir mão, nem
negociar a verdade.

A igreja brasileira proclama seu crescimento espantoso. A pergunta é: o que é que está
crescendo? É o evangelho genuíno de Jesus Cristo ou é um outro evangelho? (Hibrido, sincrético).
Onde se prega prosperidade e não salvação. Onde se busca milagres e não novo nascimento. Onde
se corre atrás das bênçãos e não de Deus.
2) Jesus FAZ vários elogios a igreja de Éfeso. “Conheço as suas obras, o seu trabalho
árduo e a sua perseverança. Sei que você não pode tolerar homens maus, que pôs à prova os que
dizem ser apóstolos mas não são, e descobriu que eles eram impostores”. Apocalipse 2:2

a) Ele elogia aquela igreja por sua ação. “Conheço as suas obras, o seu trabalho
árduo”. Éfeso era uma igreja que trabalhava, de ação, não teórica e intramuros. Era uma igreja
operosa, que buscava resultados. Com sua ação ela irradiou a influencia do evangelho por toda
Ásia menor.

b) Elogiou por sua fidelidade e firmeza doutrinária. “Sei que você não pode tolerar
homens maus, que pôs à prova os que dizem ser apóstolos mas não são, e descobriu que eles
eram impostores”.Ap 2.3

Jesus elogiou a igreja de Éfeso por não tolerar os falsos apóstolos, por não deixar que falsas
doutrinas penetrassem no seu arraial, por pôr aprova aqueles que se diziam apóstolos e não eram.

” Tens, contudo, a teu favor que odeias as obras dos nicolaítas, as quais eu também odeio.” Ap 2.6

A palavra “Nikolaíta” vem da junção de duas palavras gregas: niko (conquistador) e laos (povo)

Significa, então, que o objetivo dos Nikolaítas era conquistar o povo, centrar os princípios da igreja
nos homens, e não em Deus. Esses falsos mestres foram chamados de Nikolaítas, que induziram
aos cristão a comerem carnes sacrificadas a ídolos e praticarem a prostituição e imoralidade.

Assim como a igreja de Éfeso rechaçou e repudiou esses falsos mestres. Hoje, precisamos do
mesmo zelo pela verdade em nossa vidas e na igreja.

Muitas Igrejas hoje dizem: “nós não temos uma única linha doutrinária”

Vemos que muitas igrejas possuem grupos com linhas e visões doutrinárias diferentes. Isso
significa que a verdade está sendo negociada para abraçar a todos num pragmatismo perigoso
por resultados. Em outras palavras: o que o povo quer, nós fazemos. Eu procuro agradar.

O papel da igreja não é agradar e sim levar as pessoas ao arrependimento e a


salvação.

c) Elogiou por sua perseverança. “Você tem perseverado e suportado sofrimentos por causa
do meu nome, e não tem desfalecido”. Apocalipse 2:3

Ser crente em Éfeso não era fácil. Se você é perseguido por causa da sua fé, glorifique a Deus.

“Bem-aventurados serão vocês quando, por minha causa os insultarem, perseguirem e


levantarem todo tipo de calúnia contra vocês. Alegrem-se e regozijem-se, porque grande é a
recompensa de vocês nos céus, pois da mesma forma perseguiram os profetas que viveram antes
de vocês”. Mateus 5:11-12

 Se a igreja ganha a amizade do mundo, alguma coisa pode estar errada.


 Veja se o seus relacionamentos estão sofrendo alguma pressão devido sua defesa da verdade?

3) Jesus tinha uma censura a fazer: “Contra você, porém, tenho isto: você abandonou o
seu primeiro amor.” Apocalipse 2:4

O problema dos efésios não foi uma questão de doutrina correta, mas de amor. Abandonaram o
seu primeiro amor. Em nome da defesa do evangelho, perderam de vista o amor que é a essência
do cristianismo.

 É possível, que comecemos a desenvolver uma relação com a nossa ortodoxia sem nos deleitarmos
mais com Deus.
 Lutamos por uma verdade, mas não vivemos mais por ela, nem nos deleitamos mais nela.
 Perdemos de vista a intimidade com Deus e o prazer na sua causa. As coisas acontecem
mecanicamente sem alegria e amor que governou a nossa vida lá no passado.

Paulo em sua carta aos efésios elogia a igreja pelo amor.

Jesus, uma geração depois, na carta do Apocalipse, a censura por sua falta de amor: “vocês
perderam o primeiro amor”É possível termos uma relação de fidelidade doutrinária
sem o exercício do amor?

Um outro grave problema é a ORTODOXIA MORTA.

É quando eu tenho todas essas verdades na minha cabeça, mas essas verdades não movem mais o
meu coração. (Amar a Deus e amar o meu irmão).

É quando a espiritualidade se torna árida e estéril. É quando se perde de vista que a verdade e o
amor precisam caminhar juntos.

4) Jesus chama essa igreja ao arrependimento. “Lembre-se de onde caiu! Arrependa-se


e pratique as obras qu

e praticava no princípio. Se não se arrepender, virei a você e tirarei o seu candelabro do seu
lugar”. Apocalipse 2:5

Jesus pede três respostas dos efésios:

a) Lembra-te, pois, de onde caíste: Para os efésios se arrependerem, teriam que lembrar da
comunhão com Deus que deixaram para trás. Para permanecermos fiéis, a presença de Deus
precisa ser a coisa mais preciosa na nossa vida.

b) Arrepende-te: O arrependimento é uma mudança de atitude. O pecador precisa se


arrepender e dar prova do seu arrependimento. Depois do arrependimento temos que mudar e dar
frutos (Relacionamentos com Deus e pessoas). Aqui, uma igreja cujo amor esfriou-se precisa se
arrepender.

c) Volta à prática das primeiras obras: A mudança de atitude (o arrependimento)


produzirá frutos (Mateus 3:8). Pelas obras, a pessoa arrependida mostrará a sinceridade da sua
decisão. A igreja em Éfeso precisava voltar à prática das primeiras coisas, regatando o cristianismo
doce, que atrai as pessoas pelo amor. Somente esse cristianismo é que vai revolucionar esse mundo
perdido e em trevas. O apóstolo João escreveu: “quem não ama ainda está nas trevas”.

5) Jesus faz um apelo à uma igreja sensível. “Aquele que tem ouvidos ouça o que o
Espírito diz às igrejas. Ao vencedor darei o direito de comer da árvore da vida, que está no
paraíso de Deus.” Apocalipse 2:7

A recompensa da prática do amor é o amor eterno.

Conclusão

Será que a exortação de Jesus a Éfeso é oportuna a essa igreja de hoje?

Talvez, nós também precisemos nos arrepender e voltar a prática das primeiras obras e ao
primeiro amor.

Talvez, você precise fazer um check-up em sua vida e perguntar:

 Meu Deus, onde está aquele meu fervor inicial?


 Onde está aquele entusiasmo?
 Onde está aquele tempo de prazer e deleite na presença de Deus?
 Onde está aquele tempo em que eu lia a bíblia com voracidade e alimentava minha alma?
 Onde está aquele tempo que você tinha amor pelos seus irmãos e pelos perdidos?
“Tenho, porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor” (Ap 2.4).
“Tenho, porém, contra ti…”
Observe que a repreensão vem logo após o elogio. Isso faz parte de uma avaliação honesta. Essas duas
coisas são extremamente importantes em nossas vidas, pois, se criticarmos aos outros de forma construtiva e
também elogiarmos o que há de bom neles, as nossas críticas se mostrarão carregadas de um poder que irá
transformar as pessoas para melhor. Porém, se tão somente criticarmos as pessoas, ignorando qualquer coisa
de bom que há neles, poderemos apenas feri-los, piorando o estado deles. Por outro lado, se não fizermos
outra coisa senão elogiá-los, então eles ficarão extremamente mimados, tendo uma ideia falsa sobre aquilo
que realmente são, nada vendo que deva ser modificado, ao passo que, na vida de qualquer pessoa, sempre
haverá coisas que precisam de modificação e aprimoramento. Assim como Deus trabalhou com a igreja de
Éfeso, do mesmo modo o Senhor trabalha conosco também.

“… abandonaste o teu primeiro amor”.


Abandonas-te no grego é “aphekas”, o aoristo de “aphiemi”, que significa “partir”, “ir embora”,
dispensar”. Essa mesma palavra era usada para indicar o “repúdio” ou “divórcio”. [1]
Esta igreja tinha mais de quarenta anos quando Jesus ditou esta carta. Outra geração havia surgido. Os filhos
não experimentavam aquele entusiasmo intenso, aquela espontaneidade e o ardor que havia revelado os pais
quando tiveram o primeiro contato com o evangelho. Não apenas isso, mas faltava à geração seguinte a
devoção a Cristo. A igreja de Éfeso tornou-se farisaica, pois ela deixou de herança o zelo pela Palavra, mas
como se fosse uma lei, mas não deixou de herança o amor que é o vínculo da perfeição. A igreja havia
abandonado o seu primeiro amor. O problema da igreja de Éfeso é, com certeza, o problema da maioria das
igrejas de hoje: fazer as coisas sem solidariedade amorosa.

Quando abandonamos o primeiro amor, significa que abrimos mão de algo e elegemos outras coisas em seu
lugar. Quando fazemos as coisas por fazer, por causa da instituição ou da denominação, pela sedução do
crescimento numérico da igreja, pela fama e pelo status que se obterão na cidade ou coisas do tipo, essas são
provas evidentes de que nossas motivações são impuras e estão prostituídas [2].

Aqui é necessário parar e realizar uma urgente avaliação: fazemos as coisas por amor a Deus ou por amor a
nós mesmos? Se for por amor a Deus, então a glória será dEle e para Ele; se for por amor a nós e à nossa
própria igreja, então a glória será nossa. É necessário decidir, e rápido, antes que o próprio Senhor venha a
dizer para nós: “Tenho, porém contra ti!”

Este era um fracasso que atacara sua vida cristã pelas bases. O Senhor tinha ensinado que o amor mútuo
devia ser a marca que identificasse a comunhão dos cristãos (Jo 13.35). Os convertidos de Éfeso tinham
experimentado este amor nos primeiros anos de sua nova existência; mas a sua luta com os falsos mestres e
seu ódio por ensinos heréticos parece que trouxeram endurecimento aos sentimentos e atitudes rudes a tal
ponto que levaram ao esquecimento da virtude cristã suprema que é o amor. Pureza de doutrina e lealdade
não podem nunca ser substitutos para o amor [3].

A exortação para recuperar o primeiro amor não implica em relaxamento doutrinário. Doutrina sem amor
corre o risco de assumir uma rigidez dogmática, na qual as pessoas passam a ser menos importantes. O
contrário também é possível: desprezar princípios e valores do evangelho para acalmar ou acomodar certas
situações de quem está em pecado. Uma coisa é certa: doutrina sem amor é legalismo. Amor sem doutrina é
frouxidão e relaxo. Há necessidade de haver harmonia entre estas duas questões.

Deus muita vezes comparou Israel à Sua noiva e Ele mesmo ao seu noivo ou esposo. Ele fixou nela o Seu
amor. No entanto ela começou a flertar com outros amantes, os deuses cananeus. Ela procedeu como uma
prostituta com eles. Ela se tornou infiel e abandonou se verdadeiro marido [4].

No Novo Testamento, o novo Israel de Deus, a Igreja, é semelhantemente representado como desposado
com Cristo, exatamente como o velho Israel era desposado com o Senhor [5]. Mas, assim como o amor de
Israel muitas vezes havia esfriado em relação ao Senhor, esta mesma tendência estava evidente em Éfeso.
Aquela primeira sensação de enlevo e êxtase havia passado. Sua antiga devoção a Cristo tinha passado. Por
esse mesmo motivo o Noivo, Jesus, procura cortejar Sua noiva, a Igreja, para voltar ao seu primeiro amor.
Com a mesma ternura que Jeová mostrou à volúvel e adúltera Israel, o Senhor Jesus apela à sua Igreja para
que volte para Ele.

“Lembra-te, pois, de onde caíste, arrepende-te e volta à prática das primeiras obras; e, se não, venho a ti
e moverei do seu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas” (Ap 2.5).
“Lembra-te, pois, de onde caíste…”
A lembrança é um dom precioso. Olhar para trás pode ser pecaminoso; mas também pode ser sensato. Olhar
para trás com os olhos lascivos, como fez a mulher de Ló, para os pecados de Sodoma dos quais temos sido
libertos, é atrair desastre. Olhar para trás ansiosamente para os confortos despreocupados do mundo, uma
vez que já pusemos a mão no arado, é não ser apto para o reino de Deus. Mas olhar para trás ao longo do
caminho em que Deus nos conduziu é o mínimo que a gratidão pode fazer, e olhar para trás para as alturas
espirituais que pela graça de Deus já ocupamos é dar o primeiro passo na estrada do arrependimento. Não
devemos viver no passado. Mas lembrá-lo e comparar o que somos com o que fomos, é uma experiência
salutar e frequentemente perturbadora [6].

Observe que a igreja de Éfeso não está sendo chamada a lembrar o seu pecado. Não está sendo dito para ela
lembra-se em que situação ela caiu, mas de onde caiu. Por isso o Senhor desperta a igreja a se lembrar do
amor que ela havia abandonado. O amor por Jesus havia sido substituído pelo zelo religioso. Éfeso defendia
sua teologia, sua fé, suas convicções e estava até pronta a sofrer e morrer por essas convicções, mas não se
deleitava mais em Deus. Não estava mais afeiçoada a Jesus. Estava como os fariseus, zelosos pelas coisas de
Deus. Observando com rigor os ritos sagrados. Mas com o coração seco como um deserto.

“… arrepende-te e volta à prática das primeiras obras…”


Arrependimento não é emoção é decisão. É atitude. Não precisa haver choro, basta decisão [7]. Tanto que o
termo grego é “metanoeo”, significa “mudança de mente”, que leva a uma mudança de conduta diária,
mudar de direção. Isto quer dizer voltar às costas, resoluta e completamente, a todo pecado conhecido. Esse
arrependimento proposto por Jesus é para que a igreja pratique as obras que realizava no princípio. É assim
que acontece. A igreja nasce, cresce, vai se desenvolvendo e corre o risco de ir fazendo as coisas por fazer,
um dia após outro, um domingo após o outro; o culto passa a ser apenas mais um culto, a ceia não passa de
outra ceia e logo haverá outra, a pregação é apenas mais uma pregação para que as pessoas gostem ou
desgostem. A rotina vai se estabelecendo, assim como os mariscos do mar se fixam nas pedras. Erwin Lutzer
diz que quando ele era adolescente, ele se perguntava por que o pastor não mimeografado o sermão e o
enviava aos membros pelo correio. Com isso, eles poderiam aprender as verdades bíblicas sem ter o trabalho
de ir à igreja. Agora reconheço, diz ele, que pensava assim porque o pastor pregava tão sem entusiasmo, que
seu desempenho quase nada acrescentava ao teor da mensagem [8].
Os pastores e líderes de igrejas precisam ser os primeiros a encabeçar a fila de arrependimento. Nossa
preocupação e mentalidade institucionais podem nos conduzir a um ministério de manutenção das coisas.
Corremos o risco de incorrer em esterilidade ministerial, e as pessoas de nossa comunidade notarão que o
nosso ministério não faz mais sentido para elas [9].

“Volta” literalmente traduzido seria “faz”, que dá a ideia de uma atitude definitiva, a fim de que tais obras
sejam constantemente praticadas. As “primeiras obras” não são novas e diferentes modalidades de ação;
antes, são as mesmas obras, mas motivadas pelo amor original, de tal maneira que até pareçam novas. Seria
o amor rejuvenescido [10].

“… se não, venho a ti…”


O “vir contra” do Senhor Jesus será uma consequência da escolha da igreja de Éfeso em continuar na prática
do farisaísmo. A opção pertence a igreja. A graça de Deus pode ser acolhida ou reprimida. Não podemos
subestimar o caos que a vontade pervertida poderá efetuar nas nossas vidas [11]. Temos um bom exemplo de
uma má escolha em Gn 13.1-13 onde nos diz que Abrão e Ló separam-se por causa da briga que estava entre
os pastores de Abrão e os pastores de Ló, pois eles estavam comparando as riquezas dos seus patrões. Abrão
para evitar que a coisa se agravasse pediu a Ló que se apartasse dele, e lhe disse: “Acaso não está diante de
ti toda a terra? Peço-te que te apartes de mim; se fores para a esquerda, irei para a direita; se fores para a
direita, irei para a esquerda” (Gn 13.9). “Se” é uma condicional, que pode tornar-se uma condição de benção
ou de maldição. Ló por ser ganancioso escolheu “para si toda a campina do Jordão” armando as suas tendas
até Sodoma. A escolha de Ló fez com que ele perdesse todos os seus bens, como também destruiu a sua
família, pois Deus destruiu Sodoma e Gomorra. Da mesma forma, estava diante da igreja de Éfeso a escolha
de voltar ao primeiro amor ou não, de ter o Senhor Jesus como referencial de benção ou como referencial de
castigo. Assim acontece com cada um de nós. As nossas escolhas irão definir benção ou maldição para a
nossa vida.

“… e moverei do teu lugar o teu candeeiro, caso não te arrependas”.


A partir de 431 d.C., a cidade entrou em período de declínio, parcialmente a surtos descontrolados de
malária. Suas excelentes esculturas foram removidas para outros lugares, principalmente para
Constantinopla [12]. Entre 630 e 640 d.C. Éfeso caiu nas mãos dos turcos que retiraram dali os habitantes
que ali restaram. A cidade mesmo foi destruída em 1403 d.C. por Timur-Lenk. Hoje seu porto marítimo é
um pantanal coberto de juncos e está em ruínas. As ruínas restantes chamam-se hoje “Adscha Soluk”
surgido de “Hagios Theologos”, que quer dizer “santo teólogo”, lembrando o apóstolo João, “o teólogo”,
que teria sido sepultado lá [13]. No entanto, hoje, a região é escassamente habitada e inteiramente da fé
islâmica. Nenhuma igreja tem um lugar seguro e permanente neste mundo. Ela está continuamente em
julgamento. Se podemos julgar pela carta que o bispo Inácio de Antioquia escreveu à igreja de Éfeso no
princípio do segundo século, ela se reanimou após o apelo de Cristo. Inácio faz um retrato em termos
candentes. Mais tarde, porém, ela voltou a decair, e durante a Idade Média seu testemunho cristão
desapareceu [14]. Devido a isso o candeeiro foi removido. O inigualável privilégio de testemunhar por
Cristo perante o mundo perdeu-se para sempre. Tanto a igreja como a cidade foram destruídas; a única coisa
que restou foi um lugar chamado Agasalute, e isso, ironicamente, honra a memória de João e não de Éfeso.

“… caso não te arrependas”.


Se igreja de Éfeso foi chamada ao arrependimento, fica entendido que ela era capaz de fazê-lo. Deus não
impede homem algum de arrepender-se. O intuito inteiro da mensagem do evangelho é contrario a esse
conceito. Mas como vimos a igreja de Éfeso não foi perseverante e perdeu a oportunidade de ter sua vida
restaurada. O candeeiro é feito para brilhar. Se ele não brilha, ele é inútil, desnecessário. A Igreja não tem
luz própria. Ela só reflete a luz de Cristo. Mas, se não tem intimidade com Cristo, ela não brilha; se ela não
ama, não brilha, porque quem não ama está em trevas.

Pedro na sua primeira carta diz que o juízo começa pela Casa de Deus (1Pe 4.17). Antes de julgar o mundo,
Jesus julga a Igreja. A igreja de Éfeso deixou de existir porque ela não soube aproveitar do tempo da
visitação de Deus e não se arrependeu do seu pecado. Que isso seja um alerta para nós também nos dias de
hoje.