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WACQUANT, Loïc.

Moralismo e panoptismo punitivo: a caça aos


delinquentes sexuais. In: ______. Punir os pobres: a nova gestão
da miséria nos Estados Unidos [a onda punitiva]. 3. ed. rev. ampl.
Rio de Janeiro: Instituto Carioca de Criminologia: Revan, 2007.

Moralismo e panoptismo punitivo: a caça aos delin-


qüentes sexuais·

Os delinqüentes sexuais são, juntamente com os jovens ne-


gros dos bairros segregados das grandes cidades, os alvos privile-
giados do _panoptismo penal que há duas décadas floresce nos
escombros do Estado caritativo estadunidense, em seguida à re-
viravolta política e racial dos anos 1970, que levou os Estados
Unidos a substituírem seu (semi-) Estado-previdência por um
Estado policial e penitenciário, para o qual a criminalização da
pobreza racializada e o confinamento das categorias deserdadas
e desviantes passaram a servir como uma estranha forma de po-
lítica social em relação aos marginalizados.
Os condenados por tent d ão, certamente, e já
há muito tempo, objeto de profundos temores e severas sançõ<;:s, em
razão do estigma particularmente virulento que os atinge numa cultura
puritana, asfixiada por tabus, que, até recentemente, considerava cri-
me a contracepção, o adultério, práticas sexuais tais como o sexo oral
e anal, mesmo entre marido e mulher, e práticas auto-eróticas tão ba-
1

nais como a masturbação e a consulta de materiais p~n:nográficos, para


não falar no casamento inter-racial'. Portanto, o pânico frenético que

'N. do T.- Este capítulo é versão revista e ampliada de capítulo "Presas


fáceis: a caça aos delinqüentes sociais", constante de Punir os po-
bres. A nova gestão da miséria nos Estados Unidos (2" ed.) (p. 123-
144 ), tradução de Eliana Aguiar.
i o
Como criminologista Donald MacN amara observou em 1968, o com-
portamento ligado ao sexo nos Estados Unidos é "rigidamente circuns-
crito pela lei" e essa estrita legislação cria "um corpo de delinqüentes
sexuais (talvez exagerado quando ao número e certamente exagerado

355
I
I
I
varreu os Estados Unidos no início dos anos 1990 não foi nenhuma
~ novidade. Ele teve pelo menos dois importantes pr~cedentes históricos
l no século XX: um durante a Era Progressiva, quando os "pervertidos"
sexuais eram primeiro identificados e em seguida encarriinhados para
intervenção eugênica, e o outro no período 1936-1957, quando se acre-
ditava que hordas de "psicopatas sexuais" perambulavam pelo país em
busca de ví~as inocentes, prontos para atacar a qualquer momento 1•

"A vJgonha da América" i


I I
O p~nico de meados do século XX solidificou a noção,
que emergira no início daquele mesmo sécJlo, de que quem
desrespeidva as leis relativas ao sexo constituía uma categoria
distintivarr{ente ameaçadora de malfeitores, e ativou a ampla
difusão de ( leis contra os psicopatas sexuais;· através do país.
Entre 1937 e 1950, 12 estados e o Distrito de ,Colúmbia instau-
,ràram um estatuto jurídico específico de "sex offender", auto-
rizando sua detenção em hospitais para doeptes mentais com
propósitos preventivos2 . Entre 1950 e 1972, mais 13 estados
adicionaram esses estatutos aos seus códigos penais. Embora,
: com o passar do tempo, essas leis tenham sido declaradas con-
trárias à Constituição Federal e revogadas, outra legislação obri-
gando os ex-delinqüentes sexuais a dar Ínformações sobre seu
paradeiro permitiu que as autoridades os mantivessem numa si-
tuação judicial particularmente restritiva.
Na Califórnia, por exemplo, esses condenados por crimes
sexuais são obrigados, desde 1947, a se registrarem junto ao
comissariado de polícia de seu local de residência nos cinco dias
que se seguem à sua liberação de uma casa de detenção ou pri-
, quanto ao grau de perigo que representam para a sociedade) que está
, sujeito, de forma diferenc;iada, a sanções punitivas histéricas e quase
sádicas por parte do público, da polícia, dos tribu~ais e das autoridad~
penitenciárias" (Donald E. J.MacNamara. "Sex Offenses and Sex\
Offenders", Annals of the American Acaàemy of Political and Socia!J
Sciences376(março1968),pp.148-155,citaçãop.l48). _ -~-·-

' .. 356
são, e dC? ali comparecerem, anualmente, nos cinco dias seguintes
ao seu aniversário. A partir de 1995, todo delinqtiente sexual resi-
dente no' Golden
' State que não cumprir com essa obrigação é
passível ,d ~ 16 a 36 meses de prisão (e de reclusão perpétua auto-
mática, ç'aso se trate de sua terceira condenação penal, por conta
da sever~ ;lei estadual do Three Strikes and You 're Out). Entre
as muita§;. outras restrições que os atingem, também lhes é proibi-
do exerderiqualquer profissão ou fazer parte de organizações que
os coloq:fem em contato com menores de idade. Contudo, a exem-
plo de o~· ros ex-detentos, eles podiam, até recentemente, se apro-
veitar ddfànonimato para r~ fazer suas vidas, uma vez cumprida a
pena. E~se• não é mais o c~so desde que o Congresso votou, em
1996, ~ rk~i de egan", gue permite às autoridades co ocru: s
"s ~ ,. " 'ndex_ gá-los à inquisição eonanente
·~ . I
à xe É ç- ber:.t do p ' · Além disso, mais de dez estados
adotarani,lé'statutos que permitem o "confmamento civil" de certas
categori.~~~,)de
,. criminosos sexuais após terem cumprido integral-
mente s.t;Jas sentenças, colocando-os, na prática, em confmamento
indefmiáo·: por conta de crimes que eles poderiam vir a cometer.
jf)
AI'l ·e~ de passarmos ao exame dos objetivos, do funciona-
mento Jl<fb significado dessas inovações penais, devemos obser-
var que. es ta última onda de pânico em relação aos criminosos
sexuais ~~presenta um certo número de surpreendentes semelhan-
ças co~~eus predecessores. Primeiramente, como·no passado, ela
se centli.6'u em atos altamente infreqtientes e particularmente atro-
zes, enq:~uanto as formas rotineiras de assédio sexual, particular-
mente dquelas cometidas no interior das famílias e que perfazem o
grosso da~ infrações, foram meticulosamente negligenciadas.
Em segundo lugar, a atual febre de preocupação do público
e de legislação com criminalidade sexual está completamente
disconee ada da evolução estatística das infrações: como antes,
os clamÓres quanto a uma "epidemia" explodem justamente quan- ·1
do a incidência das violações recua. Assim, o número de estupros !
ocorri dÓs no país e registrados pela National Crime Victimization
,, 357
;!
'
Sun,ey revela uma estagnação em tomo de 2,5 vítimas por 1. 000
pessoas com 12 anos ou mais, de 1973 até 1988, seguida por um
continuado declínio até 1995 (salvo para um momentâneo incre-
mento em 1991), quando chegou acerca de 1%, exatamente quando
o furor em relação a crimes com inspiração sexual atingia seu
pico. A tendência no volume de infrações sexuais reportado à
polícia atesta uma queda similar, de 9% entre 1991 e 1995,
correspondendo a uma redução de 12% em termos de taxa per
capita. Isso se reflete no declínio constante no número de deten-
ções por crimes sexuais após 1990. Por volta de 1995, quando
leis tipo Megan se tinham espalhado por todo o país como um
incêndio, a taxa de detenção para infrações sexuais além do estu-
pro forçado era 30% inferior à registrada em 1983. Ao mesmo
tempo, a participação de assassinatos com motivação sexual no
conjunto dos hqmicídios despencou de 1,5% em 1976 para 0,7%
em 19943 • Muito embora esses dados devam ser interpretados
com cautela, devid.o à existência de um grande número de casos
que não são reportados e a outras questões de definição e técni-
cas, eles não deixam de refutar, de forma consistente, a noção de
que o país experimentou uma retomada de ataques sexuais ao
longo das duas últimas décadas.
Em terceiro lugar, a crença pública de que os delinquentes
sexuais são tratados de forma condescendente pelos tribunais é
igualmente contraditado por dados judiciais que mostram que,
embora a incidência de infrações sexuais tenha caído, o número
de prisioneiros sentenciados por sevícias sexuais, não incluindo
o estupro, .cresceu numa média de 15% ao ano entre 1980 e 1995,
o dobro da taxa de crescimento da população prisional em seu
conjunto; e a duração das sentenças aumentou para todas as cate-
gorias de condenados por crimes sexuaís4 •
Em quarto lugar, do mesmo modo que a obsessão com o
"psicopata sexual" da década de 1940, a campanha do "predador
sexual" dos anos 1990 é em grande parte resultado do ativismo
da núdia e dos políticos. Coberturas sçnsacionalistas por jamais,

358
I

estações de televisão e especialmente pelos canaib de notíc_ias 24


horas, e o crescimento de uma verdadeira ihdústri~ cultural espe-
cializada no retràto chocante do crime (com programas e canais a
cabo, tais como a Court TV, dedicados ao tema), combinaram-se
à crescente exploração eleitoral da violência criminosa para inflar
o assunto na cena pública além de qualquer senso ;de medida5 •
I
"Basta, basta, basta!": Oprah Winfrey levanta':'se con-
tra o pior dos "males"
No outono de 2003, aproveitando-se da onda crescente das
histórias de horror de crimes contra crianças na mídia nacional, a
rainha dos talk-shows Oprah Winfrey lançou uma campanha pes-
soal na televisão contra os delinqüentes sexuais 6 , incluindo em
seu programa a divulgação de uma lista regularmente atualizada
de "predadores de criança" que se encontravam em liberdade,
"quadros com títulos sugestivos, tipo "Mentiras Secretas: Quan-
do Quem Você Ama é um Pedófilo" e "Seqüestrado por um
Pedófilo: a Tragédia de Shasta Groene", e a divulgação da oferta
de uma generosa quantia, de seu próprio bolso, para estimular a
.população na captura de condenados por crimes sexuais procura-
dos ou de suspeitos ("Pretendo trabalhar com os delegados de
polícia e se eles me disserem que um de vocês forneceu informa-
ções sobre um desses fugitivos que nós estamos mostrando hoje,
e que essas informações levam à captura e à prisão de um deses
homens, eu darei uma recompensa pessoal de US$100 mil em di-
nheiro vivo"). No segmento de vídeo que fazia propaganda da "Lista
de Predadores de Crianças da Oprah", a super-estrela da televisão
encara o espectador, vestida com uma blusa preta, voltada contra
uma janela escura, numa luz mortiça. Quando a câmera se aproxi-
ma de seu semblante severo, ela começa a falar, em tom sombrio:
Hoje eu estou diante de vocês para dizer, de forma definitiva-
e eu espero não dar margem a nenhuma dúvida: para mim
basta! 'com todas as minhas forças, custe o que custar, e, o
mais importante, com seu apoio, nós vamos mover céus e terra

359
I
I
para deter uma doença, um tormento, ~ue eu acredito que é a
de-fi-ni-ção do mal e que já foi longe demais. As crianças
I
desta nação, os Estados Unidos da América, estão sendo [ela
fala lentamente, sublinhando cada II palavra] roubadas,
esupradas, torturadas e mortas por predadores sexuais, que
estão rondando as suas casas. Quantas ~ezes
I
mais isso terá de
acontecer? Quantas crianças terão de ~er sacrificadas? Que
' I
preço nós, enquanto sociedade, estamos dispostos a continuar
pagando antes de nos erguem1os e tomarmos as ruas para bra-
dar [sua voz é firme e solene] bas-ta! Basta! Basta!
Para ajudar a colocar um ponto final n~ "vergonha da Améri-
1ca" , ou .
seJa, na tolA ' penal que permite
eranc1a I . que um número
estimado de 100 mil delinqüentes sexuais estejam em liberda- .
de, "a Lista de Predadores de CrianÇas da Oprah" oferece
'instruções sobre como ''Proteger Seus Filhos", "Perfis dos
Acusados" e retratos dos ''Fugitivos Capturados". A página
da web anuncia alegremente: ''Nós colocamos seus retratos e
pessoas como você podem denunciá-los. O aviso à polícia, a
localização, a captura ... Damos todos os detalhes! Como você
pode conseguir os próximos US$100 mil de recompensa!
Molestadores de crianças, nós estamos atrás de vocês!" E
teclando "Buscando Delinqüentes Sexuais na Sua Comuni-
dade" o visitante virtual será conduzido através de uma bus-
ca na Internet, com as orientações passo-a-passo de como
"fazer sua pesquisa online" para caçar e esmagar o que é
· apresentado como um novo verme moral.
Será que tudo isso significa que a mais recente histeria não
passa de' uma repetição familiar de ciclos de alarme público e
I
de~onização ~os delinqüentes sexuais, como o historiador Philip
Jçnkins ~ugere qy~ndo;escreve que "o pânicp atual em relação aos
1
1

crimes sexuai~ é' tão violento quanto o do final dos anos 1940, e
atribuiu ao predador um papel na demonologia nacional tão proe-
minente quando o do seu predecessor psicopata"T Neste capítulo,
eu ar~rriento no sentido contrário, de que a atual onda de execração

I I 360
, .. ....

públic \ 1punição penal daqueles que desrespeitam as regras do


compdrtamento sexual é extremamente distinta tanto por seus ob-
jetivos:l •sua intensidade,' quanto por seus efeitos. Ela não apenas
foi eno~entemente ampliada pelas novas tecnologias disponíveis
para a Hisseminação da informação e da vigilância de suspeitos e
Jj '

condeqa os por mau comportamento sexual (em consonância com


o expl~.•tt o desenvolvimento dos recursos do Estado penal exami-
1
nados h'Çl'capítulo 5). 'Ela também se centrou na extensão do con-
trole jO lciário dos ex-delinqüentes sexuais após sua saída da pri-
são e deP.ois do cumprimento de sua sentença criminal. Ademais,
as opipiões técnicas de especialistas, tais como psiquiatras e
penolo~stas, que desempenharam um papel central nas campanhas
A •I +1oram rota1mente
antenores, I
superadas pe Io d'tscurso repetttlvo
.. e
l '
emocio ai de jornalistas, políticos e especialmente das vítimas dos
!<
crime ~~seus familiares, que emergiram como protagonistas prin-
cipais,fl~.~ campo penal a 'partir do fmal da década de 1980S .
·'f!ú l '
Bombardeado por uma retórica cruel que retrata a luta con-
., "1'
tra o c j me como uma batalha moral de vida ou morte entre o bem
e o rrlal~ - ao invés de uma questão organizaciorral de direitos,
respog~~bilidades e a alocação racional de recursos penais e de
outra~~~aturezas, para prevenir, aliviar ou suprimir o desvio dano-
so - 0:' 'predador sexual", pintado invariavelmente com as cores
de u i agabundo fora da sociedade, conquistou um lugar central
na cuZ iura pública de vil!ificação de criminosos, em expansão
Ir· •
no pai~ .~ Na qualidade de corporificação viva da abjeção moral,
ele fo~1ece uma motivação urgente e perpetuamente revigorada
para 9completo repúdio do ideal da reabilitação e o recurso à
neutralização feroz e à retaliação vingativa que caracteriza a po-
lítica penal dos Estados Unidos desde meados dos anos 1970. A
vimlêt ·ia da animosidade que hoje estimula a ação pública con-
tra o elinqüentes sex,uais determina e acelera a expansão da
respo.sta penal a problemas sociais na base da cstmtura de classe
e de c sta que a alimentou em primeiro lugar.

361
O objetivo deste capítulo não é oferecer urna explicação aca-
bada da ascensão e do papel das políticas vingativas contra os de-
linqi.lentes sexuais implementadas nos Estados Unidos, nos anos
1990, em sua inteira complexidade, suas complexidades legais (que
são tremendas) e suas bases psicosexuais (que são rnultifacetadas).
Ao contrário, ele foca sua atenção em aspectos específicos deste
setor em mudança da ação do Estado a que obedece e que, portan-
to, ajuda a elucidar a penalização corno um recurso generalizado
para administrar populações problemáticas e fronteiras simbólicas
sensíveis. É por isso, do mesmo modo que foi feito com a análise do
. teor punitivo da "reforma do welfare" de 1996, esboçada na pri-
meira parte deste livro, que limitamos nosso foco aos anos da incu-
bação fmal e da implementação inicial da lei de Megan corno um
momento de cristalização discursiva e de revelação prática da lógi-
ca profunda desta inovação no controle penal.

Supervisionar e estigmatizar
Com o ressurgimento do moralismo no campo da política e a
extrema projeção dos crimes sexuais na mídia durante a década
·j
passada, correlacionados ao aumento continuado da cobertura
jomalística conferida à violência criminal, a opinião pública vol-
tou-se, coino nunca antes, para os atentados sexuais contra cri-
anças9. Como resultado, obteve-se não somente um consenso so-
lidificado em favor de conferir a essas violações da lei a mais
severa resposta penal possível. Urna dezena de estados
implementaram os estatutos two strikes que automaticamente
enviam os delinqüentes sexuais violentos reincidentes para a pri-
são perpétua, ao passo que meia dúzia deles permitem ou reque-
rem que esses infratores sejam submetidos à "castração quími-
ca" por meio de injeções regulares de Depro-Provera, urna droga
que inibe o impulso sexual' 0 • O monitoramento punitivo dessa ca-
tegoria de condenados -e, por efeito de propagação da rotulação
inclusiva de quase todos os ex-prisioneiros "mandados para trás
das grades" por acusação sexual, não importando a gravidade -

\. 362
-~
intensificou-se e estreitou-se a tal ponto que eles não são mais
considerados corno pessoas com distúrbios, merecedoras de ação
terapêutica, mas sim corno desviantes incuráveis, que represen-
tam urna ameaça criminosa intolerável ad atemitum, não levan-·
do em consideração seu status judicial, seus antecedentes soci-
ais, sua trajetória no caminho da reabilitação e seu comportamen-
to pós-penal.
A causa disso tudo são as leis de Megan, assim batizadas
depois que Megan Kanka, uma menina de Nova Jérsei violentada
e assassinada por um pedófilo em liberdade condicional, que vivia
em frente casa de seus pais sem que eles o soubessem, e cuja
morte em 1994 desencadeou urna febre irresistível de legislação
em todo o país, que obriga a polícia das cidades e dos condados
dos 50 estados da federação não apenas a "registrar" (ex-)delin-
qüentes sexuais, corno também a " notificar publicamente" a sua
presença e suas (más) ações 11 •
A extensão e os recursos destas Leis variam de urna jurisdição e
de urna cidade para outraii. Em alguns estados, a notificação é "passi-

;; Os dispositivos organizados, por comodidade, sob o rótulo genérico


de "Lei de Megan" dizem respeito, de fato , a um apanhado de legisla-
ções estaduais e de três conjuntos de medidas federais: o Jacob
. Wetterling Crimes Against Children and Sexually Violent Offender
Registration Act, de 1994 (assim denominado por conta de um menino
de Minnesota raptado em outubro de 1989, e desde então desapareci-
do), que atribui aos governos estaduais a obrigação de manter um
registro dos condenados por pedofilia e atentados sexuais violentos; a
versão federal da "Lei de Megan", votada em 1996, que os obriga a
notificar o público sobre a presença de certas categorias de delinqüentes
sexu;üs; e.o Pam Lychner Sexual O!fender Tracking and ldentijication
Act (igualmente votado em 1996, apos a agressão sexual sofrida por
uma corretora de imóveis de Houston, Pam Lychner, quando ela fazia
uma visita a um apartamento, na companhia de um cliente em poten-
cial, que já tinha cumprido pena por duas vezes), que estabelece a
constituição de um banco de dados informatizado dos delinqüentes
sexuais, em âmbito nacional e sob a responsabilidade do FBI.

363
I

va", isto é, ela deve ser iniciada pela _ .


0
suas expensas; em outros ela , " .P pulaçao e, freqUentemente às
• e attva" · - '
( que tomam a iniciativa e qu
.
' ou seJa, sao as autoridades
e assumem os c t d .
t~fon:nação junto à população local. E us os a divulgaç~o da
çao dtz respeito apenas a algu m ~lguns lugares, a nottfica-
sideradas perigosas ou espe .mlas categonas de "sex offenders" con~
cta mente propens- , ·d·
chama de "predadores . ., as a rect tva, que a lei
soctrus · em outr 1 .
· de condenados por atentad ' os, e a se aplica ao conjunto
os aos costume sem g a1 - ·
do a sua gravidadel2 A . . er , nao tmportan-
estu ro . , . _s~un, noAlabarna, a hsta ~os condenados por
d P ~ ~odorrua, sevtctas sexuais ou incesto é afixada no saguão
as pre etturas e da delegacia mais próxima do~ domicílios dos in-
, fratores.' Nos centros urbru1os maiores, como B~ghrun, Mobile e
I' Hunrsvtlle, todos os moradores num raio de 300 metros de um "sex
offendel' _são pessoalmente avisados de sua preSença:;;- o perime-
tro de notificação se amplia a 600 metros nas comunas rurais.
- · Na Luisiânia, o próprio (ex-)delinqüente dexual é obrigado a
revelar, pelo correio, sua condição ao seu senhorio, aos seus vizi-
nhos e às autoridades responsáveis pela escola~ parques e jardins
públicos de seu bairro, sob pena de um ano de prisão e de uma
multa de US$1.000. Ele deve também, em 30 dias, mandar-publi-
car, por sua conta, num jornal local, notícia informando à "comuni-
dade" sobre a sua localizaÇão. Além disso, a lei autoriza "qualquer
forma de notificação do público", inclusive por 'meio da imprensa,
de cartazes, panfletos e adesivos colocados no pára-choque do ve-
ículo do delinqUente sexual. Os tribunais podetit até mesmo exigir
·de um condenado por atentado aos costumes ,que ele traje uma
roupa distintiva do seu estatuto judiciário- à maneira da estrela ou
do boné de linho amarelo que os judeus usavam;nas cidades princi-
pescas da Europa medieval 13 . A (ou as) vítima(s) do crime sexual
. qt,~e 1valeu ao condenado ser preso, as testemunhas arrotadas no
I ) da d d
.~ ~·eu ;processo, beJTI ICOmo to s as pessoas a qr o procura or o
I I

;;; O masculino é usado aqui porque a esmagadora maioria dos delin-


qüentes sexuais são homens (97% na Califónia e 99% em escala naci-
onal, no caso de condenados por estupro e sevícia sexual, em 1995) .
i .
distrito julgue conveniente avisar, devem ser igualmente informa-
das por ~~frito de sua libertação e do seu local de residência 14 •
Na Çarolina do Norte, os arquivos com dados sobre os condena-
dos por atentado sexual com violência ou contra um menor de idade
são trm1shutidos na futegra a todas as entidades que se ocupam de
crianças, ~~ deficientes físicos e de pessoas de terceira idade. Na Flórida,
a inform~~~o é difundida por meio de uma linha direta e de um site
gratuito \ :Internet. Em 19~9, este site incluía, além dos nomes, as
fotos e os'·~.'pdereços atualizados de 12.000 "predadores sexuais" con-

'

denados a~de 1993, bem como as circunstâncias de seus crimes e a


idade de~! [~~s

vítimas. Tod~ os "sex oFFenders"
'JJ'
de outros estados
devem s ·~Meclarar às autoridades locais, nas 48 horas que se seguem
I

à sua enlli ,Cd1a no território do Sunshine State. Em muitos estados, os


dados tr~ ·tidos ao público incluem não somente informações sobre
localizaçã<;? )IDas também os números dos telefones de casa e do traba~ r
lho, a maW·~~e a placa do carro do ex-infrator.
A v <..ante da "Lei de Megan", votada pela Assembléia do
~

Texas em.1 9,97 (em complemento à lei federal), exige que todos os I

I condenad~s por atentados aos costumes desde 1970 sejam


Tegistrado;s· ~o banco de dados automatizado que a administração
penitenci4P~ mantém à disposição do público. "Isto significa que
I
·I

nossos ciq. daos têm um acesso mais fácil do que nunca à informa-
ção que p <v e dar-lhes uina indicação da segurança relativa de um
bairro em~ ~rmos de crimes sexuais potenciais. Isso também.pode
ajudar os ç[iipregadores, as escolas e as associações voltadas para
a juventudé a identificar os predadores sexuais", explica o coronel
Duddley Wh~mas, diretor do Departamento de Segurança Pública,
que se felifita por ter colocado à disposição "um novo in~trumen~o
de alta tecnologia que ajuda a fazer do Texas um lugar amda mais
seguro para se viver". Os indivíduos ou organismos que o deseja-
rem pod comprar esta base de dados em CD-Rom pela módica
quantia d~ U$35: "Nós queremos que os criminosos sexuais no
Texas saibam que nós sabemos quem eles são. E agora, mais do
que nunca, ,1
nós sabemos ond e voces " estao- "15 .
IJ•

365
f
II Na Califómia, a polícia municipal toma públicos os dados pes-
soais (nome, fotografia, altura, peso, sinais particulares), o prontuá-
rio judicial e a localização de 64.600 condenados por delito sexual
considerado "sérios" ou "de alto risco" (num total de 82.600), por
meio de folhetos e pequenos cartazes, de conferências de impren-
sa, de reuniões de bairro e na prefeitura, e por campanhas porta-a-
porta nas suas vizinhanças. Já o registro completo dos sex offenders
podia ser consultado em 1999 por meio de uma linha direta e de
CD-Roms disponíveis nas delegacias centrais, bibliotecas munici-
pais e por ocasião das feiras anuais dos condados.
Durante o ano que seguiu à sua entrada em vigor, 213 "CDs
da Lei de Megan" foram distribuídos na Califómia por intermédio
de 145 delegacias policiais. Nas ruas, foram distribuídos 6.500
panfletos reve\ando os perfis de delinqüentes sexuais "de alto ris-
·co" (isto é, aqueles que cometeram pelo menos dois atentados,
dos quais um com violência) e notificando as escolas sobre a
presença de 134 deles em suas proximidades imediatas. Em três
meses , mais de 24.000 pessoas haviam consultado o citado CO-
Ram, com urna taxa de 12% de respostas positivas, enquanto o
número da "Linha de Identificação de Delinqüentes Sexuais" havia
recebido 7.845 chamadas (mediante o pagamento de um direito
de acesso de US$1 O por consulta, automaticamente faturado pela
companhia telefônica), dos quais 421 tiveram como resultado a
identificação de um ex -condenado por delito sexual. Anualmente,
o estado da Califórnia acrescenta 3.000 novos dossiês a esse
banco de dados informatizado que, desde 1998, incluía um em
150 adultos califomianos do sexo masculino.
Em San Diego, logo após a aprovação da lei, o chefe de polí-
cia reuniu a imprensa para revelar a identidade de sete (ex-)delin-
qüentes sexuais "de alto risco". Para eles, o anonimato não era
mais uma opção: a lista dos sete foi divulgada nos telejornais da
noite e seus nomes reproduzidos pelos jamais da cidade, muito
embora o San Diego Tribune tenha preferido, pudicamente, não
reproduzir suas fotos pelo fato de "elas serem datadas e, em al-

366
guns casos, de má qualidade". Em Los Angeles, a polícia alertou
os moradores das proximidades das escolas, patrulhando casa
por casa; em Santa Rosa, advertiu também as empresas e os
clientes dos centros comerciais. Na parte leste da baía de San
Francisco, as cidades de Fremont e Hayward distribuíram às fa-
mílias com filhos em idade escolar cartazes assinalando a locali-
zação dos "sex offenders" classificados como "sérios" e "de
alto risco" que viviam num raio de dois quilômetros em tomo de
um estabelecimento de ensino. Um triângulo indica as ruas en-
volvidas (mas não o endereço exato), de tal modo que os pais
preocupados podem recomendar aos filhos que as evitem em seu
caminho para a escola. Em outubro de 1998, no condado rural de
Calaveras, o jornal local, o Ledger-Dispatch, foi o primeiro jor-
nal da Califórnia a publicar a lista completa dos condenados por
atentados ao pudor da região, a pretexto de eles 1representarem
"um risco para toda a comunidade" 16 .

Uma nova atração nas feiras: o "OUTING" dos ex-de-


linqüentes sexuais
Desde 1997, uma das atrações mais concorridas das feiras
dos condados organizadas durante o verão na Califórnia- junta-
mente com as corridas de cavalo, a pesagem de leitões e os con-
cursos de ·cuspe a distância - é o "outing" dos condenados por
atentados aos costumes. Entre a carrocinha do vendedor de so-
nhos, o estande de tiro ao alvo e a barraca que gaba as qualidades
dos produtos caseiros, sob uma imensa faixa de cores gritantes
("Check it out! Acesso livre à lista de delinqüentes sexuais"), a
Secretaria de Justiça coloca à disposição sete micro-computado-
res equipados com os CD-Roms da "Lei Megan" no qual o fre-
guês pode digitar o código postal de seu domicílio e ver aparecer,
instantaneamente, na tela a foto dos (ex-) delinqüentes sexuais
que residem em seu bairro .
Para se entregar a essa variante cibernética do voyeurismo,
que, no passado, era saciada pelos "espetáculos de monstros",
I

367
I
/

comuns nas feiras estadu 'd ,


· 111 enses até o Ne D l'7
entusiasmados que se amontoam e w ea , os basbaques
do estande devem apres ~ grupos compactos em torno
bilitação que fazem entar, prevtamente', suas carteiras de ha-
' as vezes de cart · d · .
se verifique se eles me _ . etra e Identidade, para que
nados por costu smos na? figuram no registro dos conde-
vertidos" utT mes - as autondades dizem temer que os "per-
1 lZem 0 banco de dados para se localizarem uns aos
outros e acabem formando redes criminosas.
A experiência promete emoções fortes:e a baixo custo. ''U au!
Esse cara mora em frente minha casa", exclama Sergio Rubio 32
anos, quando o I~ome e a foto colorida de um homem de bigodes,
c~m uma certa Idade, e de feições comuns, brilham no terminal
dtante dele. "A filha dele vai a escola com a minha menina de seis
anos! Na semana passada, eu estava no barbeiro esperando a mi-
nha ver de ·cortar o cabelo e ele se sentou! do meu lado". Rubio
a?unci~ que vai colocar seus vizinhos a plli- de sua descoberta as-
stm que voltar da feira. Pouco depois, uma mulher idosa irrompe
em lá~as, ao descobrir a foto de um vizinho de muitos anos,
condenado por atentado sexual contra um menor. "O que eu vou
fazer dgora? Nossos filhos e os dele cresceram juntos. É muito
duro qhando você conhece alguém há 25 ~nos. Ele é um bom pai
de fa$1ia. Fiquei muito traumatizada quando vi o seu rosto na
tela 18 ". Uma mãe tem um ataque de nervo's quando descobre que
o seu setor geográfico abriga 63 "sex offenders"; outra fica visi-
velmente aliviada ao verificar que o seu bairro não tem nenhum.
Para o secretário de Justiça da Califórnia, Dan Lundgren,
que estava burilando aqui o tema-piloto da sua próxima campa-
nha de reeleição;·, era ~ma questão de honra inaugurar pessoal-
mente o "estande de Megan" , na feira do condado de LosAngeles,
um dos maiores e mais populares da feira, a se julgar pela multi-
'
iv Na Califórnia, o attomey general, que chefia o Departamento de Jus-
tiça estadual, é eleito independentemente do governador, embora es-
teja sob a sua autoridade, e ele deve, por conseguinte, desenvolver
sua própria agenda de campanha.

~.. 368
dão que esr,erava em longas filas a hora de se sentar numa cadei-
ra e fazer ·., consulta. Ele explicou: "A maioria das pessoas não
sabe que es ta informação está disponível e algumas hesitam em
entrar num~ delegacia de polícia. Então tive essa idéia: que lugar
é mais ac~~h'edor do que a feira do condado? 19 ". Lundgren era
encorajad~'}p,elo fato de que em menos de uma semana 4.000
pessoas teph!lm consultado os arquivos de Megan entre duas
11
vo 1tas de carrosse
( I e "desentocaram" 300 (ex) "sex offenders".
"O .secr~t ári ?~~f ~pressou a I~ gar um.press rele~se louvando os
~~ . d' 1
c I dada os respettadores da lei , que assim descobnram e denunci-
aram 16 ex ~~~pnqüentes sexuais cujos empregos os colocavam em
contato com menores. Um deles era vendedor em uma loja de
ca lçad os paJjal-i'ç:nanças, outro era trema dor de bA'
eise bo1e um tercei-
0 0

ro, empregatl0!do serviço de parques e jardins de sua cidade.


:Í~
Essas tmormaçoes, - que nmgu. ém se preocupou em comprovar,
se revelaram)~quivocadas em muitos casos. Na verdade, na maioria
dos distritosArlais da metade dos endereços colocados na ficha dos
/?,, atenta do aos costumes sao
cond enad os P.Pr - mcorretos
. (quer porque
os interessad6s'haviam morrido, mudado de endereço ou tinham sido
novamente p~f'os). Além disso, o "CO de Megan" não indica nem a
data das infra~qes- que pode remontar até mesmo a 1944- nem o
fato de que rrrnf~as delas já deixar3fll há muito tempo de ser sancio-
nadas pela lei~tffi.s como as relações homossexuais consentidas entre
adultos que não são mais criminalisadas na Califórnia desde 1976,
mas que, ~ãdtbstante, são registradas sob o mesmo código que o
abuso sexual~d~ uma criança. Isso levou milhares de velhos gays
californianos ~a serem assimilados a "tarados" e obrigados a se apre-
sentar anualm~nte no posto policial de seu bairro para um procedi-
mento de regl'stro humilhante. que os submetia ao opróbio público
(isso aconteceu até 1998, quando a classificação foi discretamente
alterada por uma decisão da Assembléia da Califórnia, por pressão
de grupos pe[ s direitos dos homessexuais).
Esse siJ~ema rudimentar de disseminação de informações
criminais foi ~uplementado em 2004 por um web site organizado
\
I

369

' I'
pelo escritório do secretário de Justiça. Este site exibe o "Mapa
de Localização dos Delinqüentes Sexuais da Califórnia", que per-
mite aos navegadores procurar o registro pelo nome, endereço,
cidade, código postal ou pela localização de escolas e parques
(isso quando o caprichoso instrumento de busca coopera). O mapa
de localização é precedido por urna página inteira de avisos que
parecem querer desacreditar a sua utilidade, incluindo advertên-
cias de que o objetivo do si te é "apenas informar", que "o Depar-
tamento de Justiça da Califórnia não pode garantir, de forma ex-
plícita ou implícita, que as informações neste site sejam comple-
tas ou corretas", e que "não pode ser considerado ou avaliado o
risco específico que qualquer condenado por crime sexual exibi-
do neste web site venha a cometer uma outra infração"20 .
A incessante insistência da mídia em torno dos crimes sexuais
mantém uma ansiedade febril no país, de tal modo que os governos
estaduais que demoraram em divulgar os registros dos delinqüen-
tes sexuais foram ultrapassados pelos condados e pelas cidades que
publicaram suas próprias listagens. Em Michigan, o senador esta-
dual David J aye- que se gaba de ser o primeiro político a ter mon-
tado seu próprio "site de pervertidos" -arroga-se ao direito de di-
vulgar, ele mesmo, o mapa dos delinqüentes sexuais do seu distrito
na Internet, a fim de pressionar a administração da justiça estadual
a acelerar a difusão eletrônica da lista de Megan e "colocar na canga
estes predadores que são iguais a cães raivosos"21 •
No Alasca, no início de 1998, um particular abriu um site na lntemet
- www.sexoffender.corn -, que prometia acesso direto a 500.000 fotos
de condenados por atentados sexuaiS nos 50 estados da federação, e
também no México, mediante o pagamento de uma modesta taxa de
US$5 por consulta Em Nova Iorque, em abril de·2000, LauraAhearn,
uma assistente social de Stony Brook, fundou a associação Parents for
s
Megan Law, destinada a exibir mais rapidamente na rede o registro
dos "sex offenders" do estado de Nova Iorque (voluntários passaram
um ano copiando a mão nomes de subdiretórios judiciais para uma lista
·j principal) e a operar urna linha telefônica só para este serviço.

370
Essa organização não-lucrativa, cuja missão declarada é "pro-
mover tolerância zero para com as sevícias sexuais cometidas con-
tra crianças", t'o go recebeu financiamento do condado de SuffoJk e
expandiu suas ações, organizando workshops, reuniões comunitá-
rias e seu próprio web site (ParentsforMeganslaw.com). Por meio
delas, a PFML promove a "aproximação da comunidade na gestão
da lei de Megan", que requer esforços sistemáticos por parte do
eleitorado para disseminar as informações liberadas pelas autori-
dades, de modo a pennear todos os escaninhos da sociedade local.
Eleita pelo Senado do Estado de Nova Iorque "Mulher de
Destaque" por seu ativismo, Mrs. Ahearn escreve editoriais opi-
nativos, aparece regularmente na mídia eletrônica e publica um
relatório no qual dá notas aos diferentes estados em relação a
como eles estão colocado em prática a lei de Megan. Ela também
vende seu livro (que foi mostrado na Fox, no John Walsh Show,
no Peter Jennings, no CSPAN, no ESPN e mais), Megan's Law
Nationwide and the Apple of My Eye Childhood Sexual Abuse
Prevention Program. O livro propõe "pôr abaixo mitos comumente
divulgados sobre a Lei de Megan e ensinar a pais e responsáveis
. como evitar que as crianças sofram abusbs sexuais", graças a uma
lista de "27 truques que os predadores usam para ter acesso às
crianças, indicações de como detectar um predador em seu meio,
dez regras de segurança para seus filhos e muito mais". O web
site da organização transmite essa severa advertência: "Os pre-
dadores sexuais são espertos, extremamente astutos e muitas
vezes são os pilares da comunidade; quem nós menos esperaría-
mos que molestassem nossos filhos . Eles farão qualquer coisa
para ter acesso às crianças."
Assim, por volta do fmal da década, a caça aos ex-delinqtien-
tes sexuais tinha-se tomando uma verdadeira indústria doméstica,
misturando vítimas, advogados, políticos, a mídia, os auto-procla-
mados especialistas engajados em um novo e lucrativo setor da
livre iniciativa simbólica, alimentando a experiência pessoal, o medo
ou a fantasia da violência sexual. Os brutais assassinos de Megan

371
Kanka e Jacob Wetterling atingiram tamanho status icônico na núdia
que seus pais foram capazes de fundar organizações de caridade
dedicadas a promover campanhas em prol da segurança infantil em
escala nacional (e a garantir emprego para a vida toda para a farní-
lia)22. Eles foram logo acompanhados pela Polly Klaas Foundation
e pela KlaasKids Foundation, entidades rivais criadas pelos dois
lados da família de Polly Klaas, uma adolesc~nte de Petaluma, pe-
quena cidade localizada num rico condado ao norte de San Fran-
1

cisco, cujo seqüestro e assassinato no outono de 1993, por um de-


linqüente sexual violento, em liberdade condicional e duas vezes
condenado, levou os políticos do estado a aptovar o mais duro es-
tatuto "Three Strikes and You're Out" do país. A influência des-
sas fundações e de numerosas organizações similares foi ampliada
por conhecidas figuras do talk-show, como Ôprah Winfrey, Geral-
do Rivera e John Walsh, pai de um menino seqUestrado e apresen-
tador do reality show "America's Most Wanted", na Fox TV, e
pela capacidade de seus líderes de transformar tragédias farrúlia-
res em convites para integrar equipes do governo, testemunhar
perante comissões legislativas e mesmo fazer pronunciamentos em
importantes conferências acadêmicas".
"Vários oradores nesta conferência utilizaram o termo "tole-
rância zero'' em relação aos delinqüentes sexuais. Eu acho
que nós cumprimos esse objetivo em Illinois. Temos casos
formidáveis que comprovam isso. Identificamos um homem

v Em seu discurso de abertura da Conferência Nacional sobre Registros


de Delinqüentes Sexuais, organizado pelo Departamento de Justiça
dos Estados Unidos em abril de 1998, "Mrs. Patty Wetterling, advogada
de crianças desaparecidas e co-fundadoríi da Jacob Wetterling
Foundation", contou "em detalhes o seqUestro do seu filho e os altos
· 11 1 1 : I e baixos emocionais que acompanharam as repercussões" para uma
' I
audiência cativa de altos funcionários públicos, advogados, legisla-
dores e estatísticos" . Ver Patty Wetterling. "The J acob Wetterling
Story", in Jan M. Chaiken (org.). Na~ional Conference onSex Offender
Reg istries Washington, DC: Bureau of Justice Statistics, 1998, pp. 3-
7.
~-. 372
I t .'
I r de 86 anos numa casa de idosos, um quadriplégico e um indi-
víduo [sob proteção judiciária dos serviços secretos] no pro-
1•

rl: grama de Proteção Federal ao Testemunha. Chegamos mes-


l~ mo a identificar ~m homem que se encontra atualmente em
,!· estado de coma. Por tudo isso eu acho que nosso programa
}'foi bastante agressivo" .
•f·
l··:.: Kirk Lonbom

i
' ~
,.·: .
' í ..~·
I
Diretor-adjunto do Intelligence Bureau,
Polícia do Estado de Illinois 23

Os .el eitos perver~os da elaboração do index dos


"pe vertidos" I

As a:~percussões da disseminação oficial da identidade e da
localizaçã6~tlos (ex-) delinqüentes sexuais não tardaram muito. Eles
I''
são humillúidos com regularidade, freqüentemente molestados e in-
~ I
sultados, é/muitas vezes obrigados a mudar de endereço em razão da
hostilidadK~ das ameaças dos vizinhos. Muitos deles perderam suas
casas ou ·1,~~~,us
,!j_ •
empregos e se vtram lança dos, su b'ttamente, num os-
tracismo~ <l lento, que os empurra para a marginalidade, e em al-
. guns cas9s:~ara o suicídio. O~tros, viram_§!la reputação, suas famílias
e suas vi .4~ destruídas pela J evelaçãÕ pública de uma infração que
não se reg·etiu, cometida anos ou mesmo décadas atrás.
J' .'1
Já s ··pode esboçar os .contornos de um novo fenômeno que
pode serjd~arnado de Megan 's flight (a "fuga de Megan"), ex-
pressão q~e descreve o destino errante forçado dos ex-delinqüen-
tes sexuai's: sob a pressão raivosa dos moradores locais"i, de um
r't
.'
vi Foi esse o caso de um notório violemador, libertado após ter cumprido
14 anos de reclusão. Ele teve de mudar de casa três vezes em menos de
quatro eses pelos serviços de condicional da Califórnia, devido a
protestos violentos de moddores avisados da sua presença pela polí-
cia, em virtude da obrigação legal de notificação. A situação chegou a
tal ponto que a administração penitenciária estadual está pensando em
criar uma espécie de "reserva judiciária" numa área desértica do esta-

373
lado , e, do outro, os ex-condenados sexuais que escapam da vigi-
lância oficial ou passam à clandestinidade, para escapar à
execração pública. Sem falar nos danos causados às pessoas
acusadas injustamente de atos infames em razão dos equívocos
que se multiplicam nos registros de Megan, ou da difusão maldo-
sa de panfletos truncados ou mentirosos. Só em 1999, centenas e
centenas de queixas foram encaminhadas contra as administra-
·j
ções judiciárias estaduais por conta dis.so.
De urna costa à outra dos Estados Unidos, os incidentes se
multiplicam desde o início da aplicação das leis de Megan. Em
junho de 1997, os moradores do bairro de El Caminito Sur, em
Monterrey, promoveram uma grande manifestação pública dian-
te do apartamento de um ex-condenado por estupro e tentativa de
estupro (cometidos em 1980 e 1983). Eles apresentaram uma
lista com centenas de assinaturas, que exigia sua expulsão imedi-
ata, depois que seu passado foi tomado público pela polícia. Um
mês depois, um "sex offender" , que trabalhava como caminho-
neiro em Santa Rosa, foi agredido verbalmente por seus vizinhos,
que, por meio de uma petição, exigiam seu banimento da cidade.
Em decorrênc_ia disso, ele foi prontamente dispensado pelo seu
patrão e depois preso pela polícia sob suspeita de ter infringido as
condições que lhe permitiram ser posto em liberdade condicional,
pois dirigira a palavra a um jovem morador das vizinhanças·· ii.

do, onde os delinqüentes sexuais em liberdade condicional, rejeitados


pela sociedade, seriam ftxados. "Doggy Door Rapist Out on Parole",
"Rapist Moved from School Area: Residents Picketed Boardíng House"
e "Complaint Forces Rapist On Parole to Move Again", San Francisco
Chronicle, 28 de outubro, 11 de novembro e 9 de dezembro de 1998,
respectivamente.
viiA Secretaria do Trabalho da Califórnia recusou-s~ a intervir na questão,
não ordenando a anulação da sua demissão do emprego. Além disso, ele
foi condenado a cumprir mais nove meses de detenção, depois que a
mãe do adolescente com quem ele havia falado depôs contra ele.

~- 374

I
Em julho de 1998, o cadáver de Michael Allan Patton, de 42
anos, foi encontrado pendurado numa árvore perto da auto-estra-
da 101, na saída de Santa Rosa . Ele se suicidou seis dias depois
de a polícia ter ido de porta em porta em seu bairro, distribuindo
panfletos que revelavam o seu passado judiciário. Um vizinho
declarou: -"Não sei por que seria um problema distribuir estes
panfletos e eu não sei também por que seria um problema este
tipo ter morrido. Eu vi o "rap sheet" dele" 24 . No verão anterior,
um jornalista do Paradise Post, em Butte, Montana, foi despedi-
do depois que o jornal descobriu que ele figurava na lista dos ex-
delinqüentes sexuais do estado. No Oregon, um condenado por
delito contra os costumes deixou precipitadamente sua cidade
depois que uma cruz em chamas foi plantada uma noite no seu
jardim. O carro de um "sex offender'' explodiu por ocasião de um
atentado a bomba em Covina, subúrbio de Los Angeles; um outro
foi dilapidado em Massachusetts. No Texas, a casa de um conde-
nado pelo estupro de uma criança foi destruída num incêndio cri-
minoso, na véspera de sua libertação.
Uma pesquisa realizada em 1996, em 30 dos 39 condados do
estado de Washington, nos quais era aplicada uma variante da
"lei de Megan" (que estava em vigor nessa jurisdição desde 1990),
uma das mais preocupadas com a educação pública, revelou 33
casos de "maus tratos" contra ex-delinqüentes sexuais que se se-
guiram a 942 notificações públicas, das quais 327 diziam respei-
to a condenados de "terceira categoria" (considerados perigosos
em virtude do seu comportamento passado de "predador" ou de
problemas psicológicos). Entre os incidentes oficialmente relata-
dos, encontravam-se uma casa queimada, um "piquete d~ greve"
diante de um apartamento, a agressão de um menqr, manifesta-
ções nas proximidades da casa de um "sex offJnder", durante
as quais foram proferidas ameaças pessoais, e a colagem ilegal
de cartazes no bairro de um ex-condenado 25 . Esses fatos repre-
sentam apenas a parte emersa do iceberg das reações contra os
"sex o.ffenders", cujas dimensões reais ninguém conhece, uma

375
I I
I
vez que eles não se sentem nada à vontade de se queixarem às
autoridades, uma vez que isso os expõe a~ risco de ter a sua
condição·de liberdade condicional revogada.!I
No ~erao de 1998, mas dessa vez nai Costa Leste, cinco
tiros de revólver foram desferidos, em plena noite, através das
janelas do apartamento de um ex-condenado por crime sexual
em Nov~ Jérsei. O atentado foi cometido pbr um dos seus vizi-
nhos, qule confessou, em seguida, ter "se :destravado" depois
que ficob sabendo que suas jovens irmãs v~viam ao lado de um
(ex-)estuprador. Frank P., 56 anos, fora cm;tdenado por atenta-
dos sexuais contra duas adolescentes em 1~76 e, depois de ter
~ passado 16 anós na penitenciária, vivia recluso na casa dos pais,
! para onde fora após ter deixado a prisão. Depois que a polícia
I distribuiu pa,nfletos com a sua foto, seu en~ereço e um resumo
I · do seu prontuiírio judiciário, as crianças do bairro passaram a
insultá-lo ("estuprador de crianças!"), as pessoas do bairro se
esquivavam dele, os professores da escola vizinha que ele fre-
qUentava passaram a evitá-lo. Ele se refugiou no porão da casa
de sua mãe. "Eu .não posso me mudar, sirlto-me como se esti-
vesse numa jaula. Não posso trabalhar porque não consigo em-
prego. Não tenho dinheiro nem renda. Não posso viver. Talvez
eu devesse voltar para a prisão .26 "
O ponteiro, que por muito tempo osdilou encre o "modelo
.i médico" e o '\modelo reativo" como resposta aos atentados sexu-
ais, acabou escolhendo o segundo durante a última década27 • A
"tensão entre a ~egurança da comunidad~ e as liberdades civis
dos delinqüentes sexuais" foi claramente resolvida pela abroga-
i ção, de fato, dessas liberdades28 • A lógica do panoptismo puni-
11· .•1 tivo e do encarceramento segregativo que informa a gestão das
li; Ili btegorias d~s~~d'adas, desviantes e perigbsas nos Estados Uni-
, I . dos, desde a denúncia do contrato social:keynesiano, aplica-se
1

hoje em dia aos delinqtientes sexuais com mais vigor, quanto mais
infamante for a falta por eles cometida e quanto mais diretamente
ela afetar os fundamentos da ordem familiar, exatamente no mo- ·
I
I

376
mento em que a farru1ia deve tomar para si a compensação das
carências; cada vez maiores das proteções oferecidas pelo Esta-
do dianre,' dos riscos da vida assalariada 29 •
•F.'~ I
Isf:~~ deixa claro que as leis de Megan e as medidas a elas
relaciok ' as marcam uma ruptura nas peregrinações cíclicas
·~ ~
do Est~~o penal nessa frente. Enquanto as ondas anteriores de
medo da" criminalidade sexual afirmaram o modelo médico e
apoiar~~io compromiss~ com a filosofia da reabilitação, a últi-
ma erodiú, se não os enterrou-, e isso com a plena concordân-
cia dos I i ibunais, como v:eremos em breve. A nova política para
com os~~~linqtientes sex~ais descarta abertamente a prioridade
na "coiã~ião" de condutas e na reforma de indivíduos, predo-
minant t:Mesde os anos 1920 até a década de 1970. Ao contrá-
rio, elaj~rioriza a reação,, a incapacitação e a supervisão rigoro-
sa de d th orias inteiras: de condenados, definidas estatistica-
mente ; P,artir' de probabilidades agregadas de comportamento
desvia-9-tÇ. Nesse aspecto, as leis de Megan e as medidas a elas
associátlas fundem o instrumentalismo da "nova penologia" da
gerênct·~~estocástica e neutralização seletiva, com a ferocidade
emoci<Sn~lmente dirigida do populismo punitivo30 . Elas descar-
tam d~j,:orma decisiva a filosofia terapêutica e faz do delinqüen-
lr.:•w.
te sexu'á:k uma analogia aos dejetos do mercado do gueto deca-
dente ~a~, frente civil, uma espécie de lixo moral a ·ser jogado
fora o .\ .i ncinerado na fornalha da punição estatal, alimentada
com a . ·d stilidade ardente do eleitorado. Assim, a difusão de um
idiom(Ji' a~versivo de repulsa, poluição e medo de contágio no dis- r.
1

curso *Óblico sobre os delinqüentes sexuais, sugere um intenso


desejo'He extirpá-los física e simbolicamente do corpo social, a
fim d~ 1 ~antê-lo em sua fictícia pureza moraP 1•
ajuda a explicar uma segunda diferença fundamental
entre ~ · ça aos sex offenders do fin-de-siecle e a que a antecedeu
em meados do século XX, especificamente a incapacitação do
espedalista e a promoção das vítimas dos crimes à condição de
detentores confiáveis da sabedoria e da vontade popular sobre a
l

377
matéria•·:::. Enquanto o pânico em relação ao "psicopata sexual"
afirmava e expandia as prerrogativas dos psquiatras, as formas
de controle social estimuladas pela febre das leis de Megan que
tomou conta do país, e que determinava a notificação públi~a.da
localização dos condenados por crimes sexiais e sua indefuuda
detenção no terreno da "anormalidade mental", eral_ll contraditadas
pelas organizações oficiais de médicos e profissionais da área da
saúde mental. Assim o relatório de 1996 da equipe da Associação
Psiquiátrica estadunidense responsável pelos predadores sexual-
mente violentos acusou veementemente essas leis de "darem um -~:'
mau uso às instalações e aos recursos psiquiatras e de constituírem
um abuso da psiquiatria"32 • Mas a colaboração de especialistas l
médicos não é mais necessária, uma vez que todas as considera-
ções etiológicas e terapêuticas virtualmente desapareceram do de-
t
bate público spbre delinqüência sexual. Não se trata mais de reabi-
litar cerca de 150.000 pessoas estranhas, que, anualmente, come-
tem atentados aos costumes, mas sim somente de "contê-los", a
fim de "reforçar a segurança do público e a proteção,das vítimas"i•.
E, assim como no caso dos refugos do merca~o - os doentes
mentais, os toxicômanos, os sem-teto e os prisioneiros em liberda-
de condicionaP 3 -, o governo penal da pobreza - da miséria
l
sexual, neste caso - tende a agravar o fenômeno que ele deve-
ria combater, tanto do lado daqueles que cometel_ll as infrações
r
l
r.
viiiE revelador que a equipe governamental que recomendou a aprovação
da primeira lei abrangente de confinamento civil de delinqüentes sexu-
I
ais no terreno da "anormalidade mental", no estado de Washington, em
I 990, desqualificou os psiquiatras e conferiu prioridade às vítimas dos
'l
'
crimes (Roxanne Lieb, Vernon Quinsey e Lucy Berliner. "Sexual
Predators and Social Policy". Crime andJustice 23 (1998), pp. 64-65.
;, Em 1997, cerca de 234 mil "sex offenders" estavam sob a custódia da
Justiça; desse total, perto de dois terços encontravam-se em regime de
liberdade vigiada e sob a autoridade das agências de condicional. No
entanto, não existe praticamente nenhum estudo que avalie os (raros)
programas de tratamento aos quais eles têm acesso.

378
I
quanto do da população, que os teme e os rejei~a. 'p~~ começar, do
ponto de vista do público, a generalização dos d1spos1UVOS e progra-
mas de registro e de pessoas que notificam a presença
1
dos c~nde­
nados por atentados aos costumes, longe de tra nquilizar, auça o
medo irracional das agressões sexuai~, _corno se \pode ~epree~der
das manifestações abertas de hostlhdade das qua1s os sex
offenders" têm sido alvo, de um lado, e da corrid~ pânica e~~~­
ção aos registros de Megan, do outro. O site do estado da Vrrgm1a
na IJHemet, por exemplo, recebeu, em cinco meses, 830.000 visi-
tantes, que efetuaram perto de cinco milhões de consultas, embora
o estado conte apenas com 4.600 delinqüentes sexuais registrados.
Depois que entrou em funcionamento, há dois anos, o site da
Secretaria de Justiça de Michigan recebeu, em média perto, de 5.000
visitas diárias; o que equivale ao número total de dqssiês de condena-
dos a cada quatro dias. Por ocasião das feiras dos condados na Califórnia,
milhares de famílias que não têm nenhuma razão em particular para se , I
preocupar em saber se seus vizinhos já foram condenados por atenta- 1

do aos costumes se veêm arrastadas para uma espécie de cyber-


safari sem direção ao "pervertido", o que só faz aumentar sua ansie-
dade, sobretudo quando a busca se revela frutífera. Um relatório de .
avaliação do programa de notificação do estado de Washington inclui
entre os maiores inconvenientes dessa lei "a reação excessiva do pú-
blico: os moradores podem ter reações imprevisíveis para com os de-
linqüentes sexuais. A notificação pode criar um pânico coletivo compa-
rável ao ato de gritar 'fogo' numa sala de cinema cheia"34 •
A contrario, se os dispositivos de Megan geravam em al-
guns uma sensação de segurança, como afmnam os seus arquite-
tos, esse sentimento não poderia deixar de ser ilusório e conduzir
a um relaxamento da vigilância coletiva, cuja consequência para-
doxal, o que, aliás, dá no mesmo, seria um aumento do· risco
objetivo•. Com efeito, além do fato de os registro' dos condenados
por atentado aos costumes mantidos pelos governos estaduais
• Janet Howell, a candidata democrata eleita que introduziu essa lei no
Senado da Virgínia, admitiu essa situação tardiamente: "Foi a manei-

379
I
estarem repletos de erros (a administração judiciária de Michigan
reconheceu, perante os tribunais, que de 20 a 40% dos nomes e
endereços que figuram em seu banco de dados eram I
incorretos),
a grande maioria dos delinqüentes sexuais não ~ nem detida nem
condenada pelas autoridades. De acordo com ~ National Crime
Victimization Survey, nos anos 1990 menos de um em três ata-
ques sexuais no país são reportados com vista~ à punição legal,
resultando daí que os 265.000 condenados por crimes sexuais
representavam 10% de todos aqueles que desrespeitam as leis nesse
I ' 35 I
campo no pa1s .
Além do mais, um grande número daquel~s que constituem
a pequena minoria detida, julgada e condenada insiste em não se
fazer registrar, depois da saída da prisão. Na Califórnia, por exem-
plo, a taxa "de .e vasão" do "CO de Megan" vaqa de 35% a 70%,
dependendo do ano da infração, a despeito das pesadas sanções
previstas em lei. Sem contar que nada impede um (ex-) delin-
qüente sexual, devidamente registrado e corretamente localizado,
vir a cometer um delito fora do seu bairro de ~oradia . Saber que
um "sex offender" mora na esquina desta ou daquela rua não
reduz a probabilidade de um atentado mais do que saber que o
.fato de os motoristas bêbados que dirigem à noite serem mais
numerosos não diminui a chance de ocorrer um acidente de trân-
sito à tarde. Em tudo e por tudo, a "falsa sensação de segurança"
. - estimulada pela lei de Megan via seu foco exclusivo em estra-
nhos vagamente definidos e mal circunscritos- "pode, na verda-
de, aumentar o risco para as crianças no sentido de que reduz a
vigilância parental na monitoração dos contatos do filho com
amigos, parentes e outras pessoas de confiança" 36 .

'I

' ra fácil, agradável (jeel-good) e politicamente popular de abordar o


' problema, mas essa não foi senão uma pequena'parte do que poderia
ser feito. Eu não acredito que isso represente grande coisa para prote-
ger o público, e temo me~mo que isso dê às pessoas uma falsa sensa-
ção de segurança".

380
. I

......
Em segundo lugar, do ponto de vista dos condenados pelos
atentado; àos costumes, as leis de Megan representam a instaura-
ção, por yia parlamentar, de uma segunda pena de infâmia, cuja
duração excede em uma década ou mais a duração da pena de pri-
são infligida pelos tribunais- nos estados que lideram a corrida ao
hiper-encar~eramento,
.• f
ela se estende até mesmo à perpetuidadex;
-e anula,.fna prática, seu direito à intimidade da vida privada. Essa
"marcaçã§~ se aplica, ainda por cima, de forma retroativa, uma
vez que, deixada ao arbítrio do legislador local, a data de condena-
ção a p ;: ,1da qual os delinqüentes sexuais são submetidos à obri-
gação do · ~gistro e da notificação pública remonta a anos e mesmo
I
a décadas'_àJjtes da votação das leis de Megan (federal ou estadual).
Ela data &ed 992 na Luisiânia, de 1990 na Virgínia, de 1985 em
Wyoming ~~~e 1970 no Texas, de 1956 em Nevada e de 1947 na
Califómia. A despeito disso, em fevereiro de 1998, a Corte Supre-
ma dos EStados Unidos recusou-se a examinar a constitucionalidade
desta lei,r jv alisando a opinião de diversas jurisdições inferiores,
segundo ;.k qual esta não contraria os direitos fundamentais, visto
que, "nãd obstante a intenção subjetiva do legislador", seu objetivo
não é "piliiir", mas somente "regulamentar", com a fmalidade de
asseguraE ~ !a proteção do público"'".

•i A duração da obrigação de registro e de notificação pública é de dez


'I
anos no:Arizona, na Luisiânia, no Tennessee e em Illinois; de 15 anos
no Alasca, Michigan e Nova Jérsei (para os ex-delinqUentes sexuais
que nã ' 'Ú!m nenhuma condenação penal durante esse período e que
solicitarÓ !t Corte Suprema do estado que o seu nome seja retirado do
registro}.: Ela vale até o 90° aniversario do condenado no Arizona e se
aplica por toda a vida em 15 estados, entre os quais a Califórnia, o
a
Texas, Flórida e Nevada. Os dossiês dos condenados por atentado
aos costumes na Flórida continuam no "registro de Megan" (acessí-
vel na Internet) mesmo após a sua morte, sob o pretexto de que isso
possa a] âar suas vítimas "a acabar com o luto de seu sofrimento".
•ii Segundo essa argumentação, o "público" que se quer proteger não
inclui aparentemente os membros da família do "sex o.f!ender' , visto
que seu direito à intimidade da vida privada se encontra automatica-

381
Ainda há mais, porém. Ao fazer pesar permanentemente
sobre os condenados por atentado aos costumes, aí compreendi-
dos aqueles se corrigiram e se instalaram numa nova vida, a ame-
aça de serem "desalojados" e atados ao pelourinho simbólico di-
ante de sua fann1ia, seus amigos, colegas e vizinhos, essas medi-
das encorajam os ex-delinqüentes sexuais a se refugiarem na clan-
destinidade e, portanto, na ilegalidade. Em casos de abuso sexual
no interior da fann1ia, saber que a identidade e as ações do infra-
tor serão tornadas públicas certamente convencerá algumas víti-
mas a não darem queixa às autoridades, permitindo assim que
alguns delinqüentes não sejam registrados.
Um-estudo detalhado de 30 condenados por crimes sexuais
de alta periculosidade realizado em Wisconsin não apenas cons-
tatou que, em todos os casos, a notificação à comunidade "afetou,
-de forma adversa, a transição da prisão para o mundo exterior",
com a perda de emprego, a exclusão de residência, o isolamento
social e angústia ajudando a criar obstáculos. Foi t:;tmbém revela-
do que a ruptura de laços sociais essenciais à sua (re)integração
na estrutura social local estende-se às pessoas próximas que os
cercam: "Um entrevistado referiu-se ao sofrimento da sua mãe,
à angústia e à depressão que ela sentiu depois que a notificação
j foi publicada no jornal. Um outro depqente referiu-se à decisão
do seu filho de deixar o time de futebol estadunidense da escola
para não se expor ao ridículo perante seus companheiros, en-
quanto um terceiro relatou como sua irmã estava sendo evitada
pelos amigos. Um outro entrevistado afirmou que a mulher tinha
ameaçado se suicidar porque não podia mais lidar com o estresse
decorrente da constante exposição à mídia". Um ex-condenado

mente. anulado, e a notificação pública tem todas as chances de provo-


car entre eles um novo trauma (seria esse, por exemplo, o caso das
crianças vítimas de incesto). Robert Kwak. "Megan's Law and the
Protection of the Child in the On-Line Age (Pane) Discussion)". In:
Ernie Allen e Nadine Strossen. American Criminal Law Review 35, n.
4 (inverno 1998), pp. 1319-1342.
\. 382
I
.
por mcesto I porque sua fil-
. l mente perturbado
mostrava-se especta
lha estava se~do alvo de chacotas na escola por parte das outras
crianças, que lhe diziam que sabiam que "seu pai fez sexo com
você" 37 • Isso sugere que a lei de Megan produza a penalização
secundária daqueles que se encontraram ou ousam se inserir no
círculo social do ex-delinqüente, sujeitando-os a variantes atenu-
adas de mortificação, tormento e ostracismo38 •
Além de abrigar sentimentos depressivos, uma sensação de
insignificância abjeta (muitos se perguntam por que ainda conti-
nuam vivos) e um constallte temor por sua segurança que chega à
paranóia, a notificação cria uma aura de notoriedade vergonhosa,
sob a qual todos os "sex offenders" são identificados como os
"piores entre os piores", e a rrúdia consolida essa idéia. A isso
tudo deve ser, acrescentada a pressão burocrática em cima dos
agentes da co~dicional para tratar seus "clientes" duramente, au-
mentando as chances de que eles voltem à custódia por violações
administrativas de menor monta. A combinação de sofrimento
psicológico, pressão social que exclui, intransigência burocrática
e identificação insidiosa, alimentada pela notificação pública, não
pode deixar de ter efeitos anti-terapêuticicos e degenerações pos-
teriores, como um ex-delinqüente sexual de Wisconsin franca-
mente sugeriu:
Se essas pessoas sabem que você é um delinqüente sexual e
eles continuam repetindo isso, apontando para você e tudo
mais, tudo desaba sob essa pressão toda, tu~o desaba. Não
importa quão forte ele pensa que é. Se você perturba um
cachorro por muito tempo, não importa o quanto esse ca-
chorro é tranqüilo e legal...ele pode ter sido o mais amoroso
. dos cachorros com crianças e tudo mais, mas ele vai acabar
mordendo. E é exatamente isso que a lei faz. Ela permite que
qualquer um perturbe os delinqüentes sexuais. Mas cedo ou
mais tarde, alguma coisa vai acontecer39 •
No final das contas, a principal conseqüência das leis
batizadas com o nome da pequena Megan Kanka pode ser, para-

383
doxalmente, ampliar o risco e aumentar as' chances de os con-
denados por atentados contra os costumes cometerem novos de-
litos , uma vez que os condena a uma espécie.de exílio social sem
retomo, e os sujeita a uma pressão incessante e a uma vigilância
inflexível40 •
I

Finalmente, a batalha político-jornalística em tomo dos dispo-


sitivos de vigilância punitiva instaurados pelas leis tipo Megan faz
com que esses dispositivos se auto-perpetuem, cimentando o mito
público de que os sex offenders sejam incorrigíveis, e ao mesmo
tempo exime as autoridades de buscarem uma abordagem realista
e persistente, que vise a uma redução genuína de suas atividades,
mediante a combinação de prevenção e tratamento, apoiada na
medicaÇão, na psicoterapia e nas técnicas de modificação do com-
portamento. Mas é mais barato fmanceiramente, no curto prazo, e
oferece mais.retomo eleitoral montar um site na Internet- ôu ain-
da oferecer ao pasto midiático a castração de alguns renitentes
mediante a injeção de hormônios ou a ablação'dos testículos, como
se faz, por exemplo, no Texas e em Wyoming- e lançar anatémas
coloridos contra os prisioneiros universalmente execrados como
monstros do que implementar um programa de cuidados psquiátricos
no meio penitenciário e uma rede de centros terapêuticos fora dele . .
1
Por tudo isso, é mais cômodo tratar os delinqüentes sexuais como
um conjunto indiferenciado ou mostrá-los como psicopatas anti-
sociais e amorais, fadados à reincidência, do que estabelecer cate-
gorias distintas entre eles, em função da gravidade e da natureza da
· infração, dos riscos que eles representam, de suas necessidades e
' de sua reatividade ao tratamento41 •
Dos quase 300 mil prisioneiros libertados nos 15 estados
estudados pelos pesquisadores do Escritótio:de Estatística Judi-
cial em 1994, dois terços voltaram ser presos no espaço de três
anos, a rrietade foi ,acusada de um novo criipe, e um quarto foi
sentenciado com a custódia, mas 52% dessa l.egião encontravam-
se de volta atrás das grades como resultado combinado
I
de novas
sentenças, e de violações técnicas das estipqlações da liberdade

( 384
i~:.
condicio;1,I
; l42 . Os detentos libertados com as taxas mais elevadas
de volta' à prisão - todas as novas infrações consideradas em
~.

conjunt&.:.. foram aqueles inicialmente acusados de furto de veí-


culos (7,9 %), receptação ou venda de bens roubados (77%), furto
(75%) e~ assalto (74%), seguidos pelos ladrões (70%), pes~oas
envolvidas
I
com drogas (67%) e motoristas embriagados (52%).
Os ex-detentos sentenciados por estupro (46%) e outros crimes
sexuais jl 4I%) apresentavam a mais baixa taxa de volta à pri-
são, ju ...àmente com os assassinos (também 41 %). ·
Al1éth
~sr;-t·~,
do mais, a grande maioria daqueles 46% de ex-
estupraGtqtes recap~rados pela polícia foi acusada de praticar cri-
mes nã~i~~olentos, mas sobretudo infrações à ordem pública (21%) r.
e à prop,(j~~ dade (15%), e env~lvime.nto com drogas (11 %). Ape-
nas 18% f.~ram acusados de crunes vwlentos, normalmente agres-
são (9%~ , ·,e um mero 2,5% foram novamente presos sob acusação
da prátib~1de estupro. Portanto, se se considera a probabilidade
de voltaif~,;:prisão pelo mesmo crime, os estupradores libertados
exibem, ~q~ longe, a mais baixa taxa de reincidência entre todos
os prisiqi,?~iros, juntamente com os assassinos (1,2%), compara-
dos a 41~i dos envolvidos com drogas, acusados de estarem às
voltas c ~~ um novo narcótico a cada três ano, 23% para os ex-
assaltantes~ novamente envolvidos com assaltos, 19% para aque-
~ ... ,
les acusaClós de fraude e 14% para os ladrões.
!"!
Se á~Óstificativa para a vigilância especial dos "sex offenders"
é a intenstd} de do seu recidivismo, deve-se então observar, similar-
mente, qtie: ladrões, assaltantes e ladrões de carro, por exemplo,
todos ele~ hpresentam taxas de cometimento de novas infrações
violentas significativamente mais altas (30%, 27% e 22%, respec-
tivamente) 'do que a dos ex-estupradores. Para finalizar, dado que
os estupradores representam um pequeno percentual do conjunto
de detentG's'em liberdade, sua reincidência "especializada" produz
muito menos estupro do que o número de estupros perpretados por
outros criminosos de baixa periculosidade. Dessa legião de 300 mil,
os 3.138 condenados por estupro cometeram 78 novos estupros

385
J
em três anos de liberdade, enquanto os 26.900 ex-ladrões pratica-
ram, 322 estupros, os 88.516 envolvidos com drogas, 265, e os 17.700
condenados por agressão, 177. Assim, do ponto de vista da preven-
ção do estupro, o foco exclusivo nos delinqüentes sexuais parece
altamente equivocado.
O paradoxal aqui é que, de todos os tipos de delinqüentes, os
condenados que sofrem de problemas parafílicos (i.e., distúrbios
do desejo) são aqueles que, quando corretamente diagnosticados
e recebem os cuidados necessários, apresentam a taxa de reci-
diva mais baixa. Menos de 10% no caso de exibicionistas,
pedófilos e autores de agressões sexuais contra mulheres, e ape-
nas 3%no caso dos pedófilos que seguem na íntegra o programa
implementado pela Clínica de Distúrbios Sexuais da Escola de
Medicina da Johns Hopkins University" 3 • Apesar disso, eles con-
tinuam sendo considerados depravados incorrigíveis e, de todo
jeito, o encarceramento não tem mais por objetivo "reabilitar"
quem quer que seja nos Estados Unidos 44 • O resultado é que
apenas 10% dos condenados por violência sexual recebem
tratamento durante sua detenção, e uma proporção ainda menor
é objeto de qualquer tipo de prática terapêutica após sua saídax;;;_
Um pioneiro nessa matéria, o estado de Washington aplica
desde 1990 um dos raros programas de notificação da presença
de delinqüentes sexuais preocupados em educar o público ares-
peito dessa categoria de infrações. No quadro de suas campa-

Em 1997, 95.700 detentos- ou seja, cerca de 10% dos internos das


• iii

penitenciárias estaduais- cumpriam pena por estupro (3,8%), ou por


outras modalidades de violência sexual (5,9%). Apenas 12.200, ou
1,3% dos prisioneiros destas mesmas penitenciárias, eram atendidos
por um programa voltado para os "sex offenders". (Esses dados são
retirados de Bureau of Justice Statistics. Correctional Populations
in the United States, 1995 (Washington: Govemment Printing Office,
1997), 9, Quadro 1.11; Camille Graham e George M. Carnp (org.).
The Corrections Yearbook 1998. Middletown: Criminal Justice
lnstitute, 1999, p. 114) .

\.. 386
nhas de informação, os polciais têm a seu encargo a distribuição
de uma série de notas informativas explicando o funcionamento
do Community Protection Act de 1990 e advertindo contra cer-
tas idéias preconcebidas a respeito dos "sex offenders". Por
exemplo: "Não é possível identificar um delinqüente sexual por
sua aparência física, sua raça, seu sexo, sua profissão e sua reli-
gião. Qualquer pessoa pode vir a ser responsabilizada por um
atentado sexual, de sorte que é preciso estar sempre atento para
isso". Sua finalidade é, muito prosaicamente, relembrar que "91%
dos condenados por atentados contra os costumes que se en-
contram atrás das grades [neste estado] não recebem qualquer
tratamento adequado" . O relatório de avaliação do programa de
notificação destaca a este respeito: "A maioria das pessoas acredi-
ta que, quando os condenados por atentados aos costumes são pre-
sos, eles recebem automaticamente um tratamento. As pessoas
ficam surpresas ao descobrir que a maioria dos delinqüentes sexu-
ais não recebe tratamento algum. O custo suplementar ajuda as
pessoas a compreenderem porque esse tratamento não é oferecido
a todos os delinqüentes sexuais que estão nas prisões""45 ·
Todavia, não ocorre aos responsáveis pelo programa de no-
tificação dos "sex offenders" de Washington educar a população
sobre o custo deste programa, mencionando, p9r exemplo, que
ele é um grande consumidor de um pessoal já sobrecarregado de
1

trabalho, uma vez que essa lei "estipula novas obrigações sem
fornecer os meios orçamentários correspondentes. Ela desperdi-
ça recursos e 'gasta um tempo enorme. As jurisdições· não contam
com o pessoal necessário. É ridículo designar 930 condenados por
agente"46. Seus próprios estudos revelam que o programa de no-
tificação não tem, rigorosamente, nenhum impacto sobre a taxa de
recidiva dos delinqüentes colocados sob sua supervisão.
Assim, os contraventores sexuais dos Estadod Unidos não des-
frutam, a não ser excepcionalmente, de acompanhamento médico e
social, mas são antes objeto de um controle policial e penal atento, que
garante que um número cada vez maior deles sej~, não curados de

387
suas aflições, mas prontamente "neturalizados" pela via do aprisiona-
mento em caso de recidiva ou do não preenchimento escmpuloso das
obrigações de registro que reavivam, periodicamente, o estigma e o
ostracismo que pesam sobre esta categmia de condenados.

Da entrada no índex ao descarte


As "leis de Megan" são emblemáticas das medidas
legislativas que favorecem a expansão do Estado penal e estimlam
a transição para a contenção punitiva da pobreza nos Estados
, Unidos, na medida em que promovem um triplo desvio . Para co-
meçar, ela~ drenam recursos preciosos, em orçamento, pessoal e
programas, do setor social e sanitário do Estado para seu setor
policial e judiciário. Por exemplo, enquanto 1os serviços de psi-
quiatria de: sua administração penitenciária (e de seus hospitais
. públicos) vivem em regime de penúria, o governo de Michigan
. obteve e gastou uma subvenção federal de; US$500 mil para
informatizar seu registro de condenados por atentados aos costu-
mes e para:colocá-lo na tela, ao passo que o ~ovemo da Virgínia
· reservou mais de US$300 mil ao seu site de cyber-vigilância dos
"sex offenders". Em Nova Jérsei - onde os tribunais desabam
sob o peso dos processos movidos ptincipalmente no quadro da
''guerra à qroga" e os serviços de condicional sofrem, como em
toda parte, lde uma escassez gritante de recursos-, cada um dos
36 condados do estado viu-se obrigado, em virtude da lei de Megan,
votada em 1994, a designar, em regime de tempo integral, um
procurador para proceder às audiências que visam estabelecer o
:nível de periculosidade presumida e, por conseguinte, as modali-
I
dades de notificação pública de cada delinqUente sexual prestes a
ser libertado. Só estas audiências custam mais caro em ·salários
do que todos os processos por atentados aos costumes somadosm.
I
I I

I•i• Ver a discussão empreendida por Strossen em/Allen and Strossen,


"Megan's Law and the Protection of Lhe Child ih the On-Line Age",
p. 1.340. Em 1997, Nova Jérsei gasrou US$600 mil com os processos
de delinqüentes sexuais e US$700 mil apenas com a rubrica relativa
I
388
\
~·· '
Em junho de 1997, o Departamento de Justiça anunciou a
inaugJração do Centro para Administração dos Delinqilcntes Se-
xuais, brganismo nacional ligado ao Centro para uma Política
Públic·(! Efetiva, localizado em Silver Springs, em Maryland, e cuja
missão'l. era dar assistência às autoridades das cidades, condados
e estados,
!ri
para melhor rastrear as pistas de cerca de 145.000
d.elinqüentes sexuais sob tutela penal, em meio aberto 47 • Um pro-
gramafpiloto, com dotação de US$1 ,4 milhão, formará nesse centro
equipe~' mistas compostas de agentes de condicional, técnicos do
teste d~·polígrafo (o famoso "detector de mentiras") e terapeutas.
A mis·s'ão desse triângulo de supervisão é localizar as "fantasias
' '
desvia <~ s" dos "sex offenders" em liberdade condicional e an-
tecip ,~lias oportunidades de acesso às vítimas em potencial, de
modo ~pertar a vigilânçia sobre eles e reforçar a capacidade de
neutratkz:â-los. Nâo há evidência alguma de que isso exercerá um
impact{tsbbre sua taxa d~ reincidência, muito menos na taxa agre-
gada d6 criminalidade sexual.
AS Í~is de Megan desviam, pois, dezenas de milhares de
corpos f .fiandonados dos setores social e médico do EStado para
o setor pe.~al, contribuindo assim para o crescimento exponencial
do apare1 ho carcerário e suas ramificações com um suplemento de
"matéria~~rima" que concorre para fazer do encarceramento uma
verdade ir~ "indústria", encaiTegada de "limpar o sistema social dos
elementÓs1 indesejáveis, eliminando-os"48 . Nessa perspectiva, a
obsessã~~ com o "predador sexual" do final do século XX marca
uma interrupção, mesmo uma reversão, em relação ao medo do
"psicopata sexual" de meados do século, na medida que enti·aque-
ce o pólo da assistência social do Estado e amputa a inf1uência de
especialistas (tais como sexólogos, psiquiatras e criminologistas),

aos sa · s dos advogados encatTegados das audiências que visa-


vam categorizar a periculosidade dos ex-condenados por atent'ados
sexuais (cf. Elizabeth A. Pearson. "Stan1s and Latest Developments in
Sex Offender Registration and Notification Laws". In: Na1io11al
Col!(erence 011 Sex Off'ender Registries, pp. 45-49).

389
que até então modularam e mesmo ·timitaram a aplicação de san-
ções penais a essa população problemática.
Em terceiro lugar, a nova onda de leis sobre os delinqüentes
sexuais canalizam e ampliam a corrente difusa de animosidade para
com os desviantes e os delinqüentes, ao fornecer um ponto de fixa-
ção e um modo de expressão legítimos, e mesmo oficialmente enco-
rajados. Ao fazer isso, elas desviam a atenção do público das causas
para os sintomas da violência sexual e mascaram o fato de que tais
dispositivos de marcação e de esquadrinhamento pós-penitenciários
não têm, no melhor dos casos, efeito algum sobre a incidência do
crime e que podem levar mesmo ao seu agravamento49 •
Como muitas outras medidas de forte teor simbólico, adotadas
por ocasião dos pânicos midiático-políticos que caracterizam a
irresistível asce_nsão da gestão penal da insegurança social (tais como
-as sentenças de perpetuidade automática por dupla recidiva, au-
mento das penas dos delinqüentes juvenis e as penas mínimas obri-
gatórias de reclusão por simples posse de entorperc!!ntes), as "leis
de Megan" foram votadas de afogadilbo, num clima passional, con-
trariando todo o bo~ senso penológico5°- a lei de Nova Jérsei foi
votada antes de o preso em liberdade condicional acusado do estu-
pro e da morte de Megan Kanka ter sido condenado. Pois, no mo-
mento em que os estados-membros da União rivalizavam para ver
quem votava mais rapidamente as medidas voltadas para a elabo-
ração de um índexjudiciário dos ex-"sex offenders", e pressiona-
vam, em uníssono, o governo federal a fazer o mesmo, já se dispu-
nha de um estudo estatístico aprofundado referente a cinco anos
de experimentação no estado de Washington, que concluía que a
notificação pública não exerce, a rigor, nenhum efeito sobre a taxa
de recidiva dos condenados por crimes sexuais51 •
Esse ~studo compara a trajetória judiciária de 125 delinqüen-
tes sexuais "de alto risco" submetidos à notificação pública de con-
denados, reunidos numa amostragem, que permaneceram anôni-
mos no período 1990 a 1995. Além da ausência de diferença esta-
tisticamente significativa na taxa de recidiva, observa-se que os

~-. 390
delinqüentes sexuais colocados sob registro-notificação cometem,
em média, um novo atentado contra os costumes dois anos após
su~ libertação, contra cinco anos para seus homólogos do grupo de
controle, sem que seja possível afirmar se a maior "precocidade na
recidiva" dos primeiros tem a v~r com o fato de que eles violam a
lei mais depressa (em razão, sobretudo, do isolamento social mais
intenso, resultante da publicidade dada à sua condição), ou com o
fato de que eles são mais suscetíveis de serem detectados e deti-
dos pelas autoridades em caso de nova infração. A plausibilidade
da primeira hipótese é reforçada pelo fato de que os recidivistas
são, em geral, menos bem integrados socialmente do que os não-
reci4ivistaS. Eles são menos freqüentemente casados do que os
outros, mais freqüentemente narco-dependentes e os que cometem
atentado sexual contra um(a) desconhecido(a) são mais numerosos
do que aqueles que o fazem contra um parente ou alguém próximo.
A focalização do debate público na figura solitária do pedófilo
que sai da prisão tem a imensa vantagem de reforçar a idéia
difundida de que a ameaça criminal que pesa sobre as crianças
proviria, essencialmente, de indivíduos não apenas desprovidos
. de moralidade, mas também de qualquer vínculo social. Assim, a
violência sexual seria magicamente expulsa para fora da
famílicr 2 , mesmo que todos os estudos concordem com o fato de
que a grande maioria dos atentados contra crianças (perto de
80% dos que são registrados) é cometida por um parente ou al-
guém conhecido da vítima, e que esses atentados estão estreita-
mente correlacionados a violências contra as mulheres. Entre 1991
e 1996, apenas 14% de todos os atentados sexuais foram cometi-
dos por estranhos, sendo que 27% dos casos envolviam membros
da farru1ia e 60%, pessoas conhecidas. Para crianças com menos
de 6 anos, o percentual de estranhos cai para 3% e a participação
de parentes chega a quase a metade 53 • ·

A representação invertida, que atribui a violência sexual ao es-


tranho solitário, desconhecido da farru1ia, é tanto mais atraente, num
momento em que a família patriarcal encontra-se submetida a pres-

391
!Sões mais fortes, provocadas pelas mudanças em curso nas relações
entre os gêneros e entre as gerações, por um lado, e pela erosão da
esfera doméstica causada pelo assalariamento desregulado, do outro
(particulannente nos lares em que os dois pais trabalham, por esco-
lha pessoal ou por necessidade matelial). O contínuo aumento no
número de horas trabalhadas pelos estadunidenses, a dispersão da
' jornada de trabalho na semana e no ano (40% dos assalariados
estadunidenses trabalham hoje em dia em horários "não-tradicionais",
a cada vez maior competitividade no ambiente de trabalho e a inse-
gurança do emprego combinaram-se com a diversificação das for-
mas domésticas para colocar uma pressão adicional' na fmru1ia como
54
depositátio social . Os conflitos crescentes entre as forças do mer-
cado em ascensão e a forma estabelecida de família foram desloca-
' dos para o campo político com a canonização:da categoria civil da
"família trabalhadora" (que hoje substitui a figura do cidadão durante
o período eleitoral) e, no domínio penal, com a demonização do "pre-
1 dador sexual". A execração hiperbólica do pedófilo estranho na cena

pública serve, portanto, para purificar simbolicamente a fmru1ia e para


reafirmar seu papel estabelecido como refúgio contra a insegurança,
mesmo com a aceleração das tendências neoli~erais na cultura e na
economia /que a estão minando. 1

Para ,terminar, as leis de Megan abrem um grande espaço à


extensão sem limites dos dispositivos de vigilância punitiva e de
exclusão ~i vil das categorias sociais que inspiram medo e aversão.
Poucos m~ses após a aprovação da nova legislação, políticos ansi-
osos para ,se assegurar dos dividendos eleitorais de uma eferves-
cente hostilidade para com os delinqüentes sexuais compromete-
ram-se, em reuniões públicas com seus eleit01;es indignados, fazer
votar leis cada vez mais severas 55 . (A Assen1bléia da Califórnia,
por exemplo, já examinou a possibilidade de utilizar técnicas avan-
çadas de identificação biométrica a fim de exigir ' dos ex-delinqüen- I

.11
tes 'sexuais um comparecimento diário, em lugar fixo) .
Em junho de 1997, em uma apertada decisão (cinco votos con-
tra quatro), a Suprema C01te dos Estados Unitlos legalizou, com a
'
I
392 I
I
r.
sentença ~.Kansas vs Hendricks, a prisão- por tempo indefinido, em
hospitais ·psiquiátricos- dos delinqüentes sexuais considerados peri-
gosos tríri razão "de anonnalidade mental", depois que eles tivessem
cumprido
/.
integralmente sua pena de reclusão, mesmo sem terem
recebido nenhum cuidado psiquiátrico na prisão (como foi o caso de
Leroy .Fléndricks). Em janeiro de 1999, a Suprema Corte da Califómia
avaliso~ uma das disposições da "Lei sobre os predadores sexuais
violentÓ
t.
s" de 1996, autorizando o encarceramento, por tempo inde-
frnido,dos condenados por atentados aos costumes em final de pena
nos asil6s
V' ~' ('
do estado - os quais se haviam livrado de seus doentes,
envim1d~~os para o sistema carcerário desde a década de 1960- com
base na )tpples presunção de periculosidade, até que umjuizdecida
que ele não apresentam mais risco de recaída.
, . I

N'~ "íitício de 2001, 15 estados já praticavam uma varim1te deste


descmte~nAr
, r,....- ''anormalidade", que não é nem um i.ntemamento civil, o
qual reqq,et: uma prova, nem uma simples presunção de periculosidade,
e nem u~â- sentença penal, uma vez que a pena já fora cumprida. No
papel, os ·condenados por atentados aos costumes no momento da
extinção1p~:sua pena não são mais criminosos, mas sim "doentes". Na
realidad~f ~rém, continuam submetidos à autoridade e ao regime pe-
nitenciário§. Na Fló1ida, por exemplo, o estabelecimento de tratamen-
to que os(,acolhe é um centro fechado, de alta segurança, para onde
são condtizidos acorrentados, cabeça raspada e colocados em isola-
mento desae sua chegada. E o número de "sex offenders" cujo
encarcermnento é assim prolongado (potencialmente por toda a vida)
~

é tão grm1de que ameaça levara Serviço de Infância e da Família, cujo


orçamento deve cobrir seu "tratmnento", à bm1cm1·ota56 .
Se, como observa a jurista da Universidade de Nova Iorque
e presidente da ACLU, Nadine Strossen, a sentença Kansas vs
Hendircks é "profundamente atentatória à nossa noção de liber-
dade, à 11!ssa noção de justiça, à nossa noção da missão do siste-
ma de saúde mental, de um lado, e do sistema penitenciário, do
outro", em contrapartida, está em perfeita harmonia com o novo
governo da pobreza e da insegurança. Para essa última, justa-

393
mente, revoga a oposição tradicional entre o médico e o peniten-
ciário a fim de subordinar o social à resposta penal quando se
trata das classes populares e das categorias (étnicas ou jurídicas)
estigmatizadas. Strossen não está enganada quando vê nesse sis-
tema "uma variante dos gulags soviéticos: utilizar os hospitais
psiquiátricos como locais de depósito para as pessoas que são
consideradas indesejáveis ou perigosas por diversas razões" 57 , já
que se trata, justamente, de um encarceramento por segregação.
O jurista Adam Falk também tem razão quando argumenta
que um confinamento dessa natureza é "uma técnica de controle
j
social fundamentalmente incompatível com o nosso sistema de li-
berdad.e ordenada garantida pela Constituição"5s, na medida em
que aqueles que sofreram condenação penal- como os beneficiários
de auxílios sociais, e, de um modo mais geral, os trabalhadores
.precários e os. pobres- não são mais, sob o regime nascente do
"liberal-paternalismo" estadunidense, cidadãos como os outros. Fica
evidente que a possibilidade de esses dispositivos de vigilância e
' confinamento "preventivos" serem estendidos a outras categorias
de condenados não permanecerá por muito tempo inexplorada' v.
Em fevereiro de 1999, a Assembléia da Virgínia examinou um tex-
to de Lei que visava permitir o livre acesso na Internet à lista com-
pleta de todos os condenados elo sistema penal, adultos e menores,
nela incluídos aqueles que cometeram infrações simples, como o
desrespeito ao Código de Trânsito e as faltas concernentes à regu-
lamentação sobre as carteiras e as licenças. Nos Estados Unidos, o
panoptismo punitivo tem um futuro brilhante pela frente.

•• Ademais, suas consequências extra-judiciárias não cessaram de rever-


berar. Por exemplo, a notificação pública da presença de delinqüentes
sexuais afeta diretamente o funcionamento do setor imobiliário: o valor
de uma casa é bruscamente reduzido quando um "sex ojjender" mora
n? bairro; os condomínios exclusivos desejam excluir os condenados
por atentado aos costumes a fim de preservar sua probidade moral e seu
valor de mercado; os locadores de imóveis estão propensos a afastá-los,
a fim de não correr o risco de ver seus outros apartamentos vazios.

\. 394
NOTAS

1
Estelle B. Friedman. '"Uncontrolled Desires': The Response to the Sexu-
al Psychopath, 1920-1960", Journal ofAmerican History74, n11 1 (janeiro
1987), pp. 83-106, e Philip Jenkins. MoralPanic: Changing Concepts of
the Child Molester in Modem Ame rica. New Haven: Yale University
Press, 1998. Para situar esses episódios de pânico dentro da evolução
social mais ampla das sexualidades no país, ver John D'Emilio e Estelle
B. Freedman. Intimate MaJters: A History ofSexuality in America. Chi-
cago: University o f Chicago Press, 1998, 2" ed.
0 ste processo é dissecado no clássico artigo de Edwin H. Sulherland
"The Diffusion of Sexual Psychopath Laws" , American Journal of
Sociology 56, n. 2 (setembro 1950), pp. 142-148. Um balanço com-
pacto do destino dessas leis encontra-se em Roxanne Lieb, Vernon
Quinsey e Lucy Berliner. "Sexual Predators and Social Policy", Cri-
me and Justice 23 (1998), pp. 55-65.
3
Ver, respectivamente, Michael R. Rand, James P. Lynch e David Can-
tor. Criminal Victimization, 1973-1995. Washington, DC: Bureau of
Justice Statistics, 1997, p. 3; Federal Bureau oflnvestigation. Uniform
Crime Reports: Crime in the United States, 1995 (Washington, dispo-
nível on tine em hnp://www.fbi.gov/ucr/95cius.htm, p. 21); e Lieb et
al, "Sexual Predators and Social Policy'', pp. 51-53.
4
Lawrence A. Greenfeld. Sex Offenses and Offenders: An Analysis of
Data on Rape and Sexual Assault . Washington, DC: Bureau of Justice
Statistics, 1997.
5
Jeremy H. Lipschultz e Michael L. Hilt. Crime and Local Television
News: Dramatic, Breaking, and Live From the Scene. Washington,
DC: LEA Books, 2001; William J. Chambliss. Power, Politics, and
Crime. Boulder, CO: Westview Press, 2000, capítulos 1 e 2.
6
Para situar Oprah Winfrey e seu programa de televisão baseado na
retórica do sofrimento e da auto-ajuda no panorama 1moral da cultura
comercial e (a) política estadunidense, ver Eva lllouz. Oprah Winfrey
and the Glamour of Mise1y: An Essay on Popular Culture. Nova Iorque:
Columbia Uni'versity Press, 2003. "Oprah 's Child Pre~ator Watch List"
I
pode ser encontrada em: http://www.oprah.com/presents/2005/predator/
predator_main.jhunl. j

395
7
Jenkins, Moral Panic, p. 312.
3
Frank J. Weed. Certainty of Justice: Reform in the Crime Victim
I

Movemen( Nova Iorque: Aldine de Gruyter, 1995.


9
Sobre a explosiva expansão do interesse da mídia pelo crime, ver
Steven Do;nziger (org.). Tlze Real War 011 Crime. Nova Iorque: Basic
Books, 1996, pp. 63-73, e Stevan Chermak. Victims in the News: Cri-
me and tlze AmericanNew Media. Boulder. CO: Westview Press, 1995;
sobre as o~das de histeria coletiva a respeito das ameaças (em grande
parte imaginárias) às crianças, que os Estados Unidos conhecem peri-
odicamente, ver Joel Best. Tlzreatened Children: Rlzetoric
I
and Concem
about Clzild- Victims. Chicago: University of Chicago Press, 19.90, e
para uma perspectiva mais histórica, Paula Fass. Kidnapped: Clzild
Abduction in Ame rica.. Nova Iorque: Oxford uJiversity Press, 1997.
10
Ronald M. Homes e Stephen T. Holrnes. Curre/ll Perspectives on Sex
Crimes. Thousand Oaks, CA: Sage Publications, 2002.
li Robert J. Martin. "Pursuing Public Protection through Mandatory
Community Notification o f Convicted Sex Offenders: The Trials and
' Tribulations ofMegan 's Law", The BostonPublic lnterest l.Ltw Journal
26 (outono 1996) , pp. 26-56; Nadine Strossen (org.). "Criticai
, Perspectives on Megan' s Law: Protection vs . Privacy", New York l.Ltw
Sclwol Joumal of Human Riglzts Annual13, nn 2 ( 1996), pp. 2-178; e
Lie et al., "Sexual Predators and Social Policy.'l

12
Para dois exemplos que ilustram o funcionamentp desses dois dipos de
mecanismos nos casos da Flórida e de Michigan, ver, respectivamente,
Donna M. Uzzell. "The Florida Sex Offender Registration and
Noti.fication System". In : Jan M. Chaiken (org.).' National Conference
on Sex O.ffender Registries. Washington: Bureau of Justice Statistics,
. 1998, pp. 68-71; e Mike Welter. ' 'Development of ~e Illinois Sex Offender
Registration and Conununity Notification Program", ibid., pp. 72-77 .
I
13
Kenneth Stow. Alienated Minority: The Jews of Medieval Latin
Europe. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1992.
· /~ 14
Scott A. Cooper. ~·community Notification and Verification Praclices
I in Three States". In: National Conference 011 s Jx 0./fender Registries,
pp. 103-106. I
t.l Departamento de Segurança Pública do Texas, press release, 13 de
janeiro de 1999, disponível no website da administração de prisões do
(.
396
I •

Texas ( ww.txdps.state.tx.us). Por volta de maio de 1999, 15 estados


tinham dolocado seus registros dos criminosos sexuais na Internet.
16 '
"Sherifti Releases
,' Names, Photos of Sex Offenders", San Diego Union-
Tribune 19 de março de 1998; "South Gate Police Maps Sex
Offend~ts", Los Angeles Times, 6 de abril de 1999; "Megan's Law
Notices;Given Out: Santa Rosa Cops Go Door to Doar to Warn About
~ I
Sex Offf nders" e "Parents to Get Maps Locating Sex Offenders:
Warnin&~f'Jear Schools in Alameda County", San Francisco Chronicle,
2 de ju o de 1998 e 30 de outubro de 1997; "Calaveras Newspaper
' ,··l
Prints Offender List", San Francisco Chronicle, 2 de outubro de 1998.
17
~~;14 '
Roger .Bq,1;1gan. "Le commerce des mon.stres", Actes de la reclzerc/ze
1
en scien ."ês sociales 104 (setembro 1994), pp. 34-46, e idem. Freak
Slzow:PJt t}~nting Human Oddities for Amusemel!l and Proflt. Chica-
go: Un( ' } ity of Chicago Press, 1988. ·
18
"At the.~Ôs Angeles County Fair, 'Outing' Sex Offenders", Tlze Wa-
shington ,,Pbst, 20 de setembro
I de 1997.
19
"CountY.~'Fair Opens with New Exhibit: Safety- Access to Megan's
Law Dat~qili>e Offered", Los' Angeles Times, 12 de setembro de 1997.
20
Ver http:r meganslaw.ca.gov/disclairner.htm.
r >
21
ão dada por David Jaye, citada em "Ir Takes a Perv to Catch
DeclaraÇ'.t.. ~

· a Perv", To ·onto Star, 25 de dezembro de 1998. ·


22
Ray Sur~~i~. "Predator Cri~inals as Media Icons," in Gregg Barak
(ed.}, Media, Process, and tlze Social Construction of Crime. Nova
'' !
Iorque: Garland, 1994, pp. 131-158.
23
Citado ~~ Chaiken (org.). National Conference on Sex Offender

24
.'
RegistrieJ\>,. 72 .
" Death of Sex Offendcr Is Tied to Megan's Law", New YorkTimes, 9 r
de jullio d~ 1998; "Last Days o f a Sex Offender: Santa Rosa Neighbors
Said He Looked Depressed", Sa11 Francisco Clzronicle, 8 de julho de
1998.
25
Scott Matson e Roxanne Lieb. Community Notification in Waslzing-
• '
ton State. q996 Survey of Law Enforcement. Seattle: Washington State

26
.
Institute for Public Policy, 1996, pp. 8 e 15 .
"Neighbor Admit'> Firing Gu'n into Home ofParoled Rapist" e "Paroled
Rapist Says He's the Yictim Now : Target of Gunman Contends

397
'Megan's Law' has Stolen his Freedom", New York Times, 10 e 14 de
novembro de 1998.
21
M.E. Wolfgang. 'The Medicai Model Versus the Just Deserts Model",
Bulletin of lhe American Academy of Psychiat1y and the Law 16 (1988),
pp. 111-21; Dayle Karyn Jones. "The Media and Megan's Law: Is
Community Notification theAnswer?", Joumal ofHumwtistic Counseling,
Education aJUi Developmeitl38, rPI2 (dezembro 1999), pp. 80-88.
28
Vernon. L. Quinsey "Treatment of Sex Offenders" in Michael Tonry
(org.), Handbook of Crime and Punishment. Nova Iorque: Oxford
University Press, 1998, pp. 403-428; Anne-Marie McAlinden. "Sex-
Offender Registration: Some Observations ou 'Megan's Law' and the
Sex Offenders Act 1997", Crime Prevention and Community Safety:
An Intemational Joumal 1, n.11. 1 (1999), pp. 41-53 . O papa do
"comunitarianismo", Amitai Etzioni, vê no "tardio desenvolvimento"
da chamada lei de Megan o sintoma do peso excessivo conferido até
recentemente ao direito à privacidade (dos ex-delinqüentes sexuais),
em detrimento do "bem comum" (da "comunidade") . Amitai Etzioni.
The Limits of Privacy. Nova Iorque: Basic Books, 1~99 .
29 Frances Fox Piven. "Welfare and Work", Social Justice 25, rPI1 (1998),
pp. 67-81 , e Robert Castel. "The Roads to Disaffiliation: Insecure Work
and Vulnerable Relationships", lnternational Joumal of Urban wtd
Regional Research 24, nu 3 (setembro 2000), pp. 519-535 .
30 Jonathan Simon. "Managing the Monstruous: Sex Offenders and the
New Penology", Psychology, Public Policy, and Law 4, nu 1 (janeiro
1998), pp. 452-467.
31
Mona Lynch. "Pedophiles and Cyber-Predators as Contaminating
Forces: The Language of Disgust, Pollution, and Boundary Invasion
in Federal Debates on Sex Offender Legislation", Law and Social
lnquiry 27, 3 (2002), pp. 529-567.
32
Citado em RobertA. Prentky, Eric S. Janus e Michael C. Seta (org.) .
Sexually Coercive Behavior: Understanding and Managemenl . Nova
Iorque: Annals of the Nova Iorque Academy of Sciences, 2003, p. 26.
Ver também Robert M. Wettstein. "A Psychiatrist's Perspective on
Washington 's Sexually Violent Predators Statute", Unive rsity of Puget
Sound Law Review 15 (1992), pp. 597-634, e a discussão em Lieb et
al., "Sexual Predators and Social Policy", pp. 68-69.

\..
398
33
Terry Kupers. Prison Madness. San Francisco: Jossey-Bass, 1999, e
Joan Petersilia. "Parole and Prisoner Reentry in the United States". In:
Michae1 Tonry e Joan Petersilia (org.). Prisons. Chicago: University
of Chicago Press, 1999, pp. 479-529.
34
Matson e Lieb,' Community Notification in Washington :State, p. 16 .
35 . I
Greenfeld, Sex O.ffenses and O.ffenders: An AnalysLs of Data on Rape
and Sexual Assault, p. 56.
36
James F. Quinn, Craig J. Forsyth e Carla Mullen-Quinn. "Societal
Reaction to Sex Offenders: A Review of the Origins and Results of
the Myths Surrounding their Crimes and Treatment Amenability",
Deviant Behavior25, n113 (maio 2004), pp. 215-232, citação p. 216.
37
Richard G Zevitz e Mary Ann Farkas. "Sex Offender Community
Notification: Managing High Risk Criminais or Exacting Further
Vengeance?", Behavioral Sciences & the Law 18, nos. 2-3 Uunho
2000), pp. 375-391, citação pp. 383-384.
38
Este argumento é adaptado do conceito de Comfort de "prisonização
secundária", cf. Megan L. Cornfort. "In the Tube at San Quentin: The
'Secondary Prisonizaüon' of Women Visiüng Inrnates", Journal of
Contemporary Ethnography 32, 1 Uaneiro 2003), pp. 77-107.
~ 9 Zevitz e Farkas, "Sex Offender Community Notification", p. 388. A per-
cepção de que a notificação é desagradável e abusiva pode ter também
efeitos anti-terapêuticos, de acordo com B.J. Winick. "Sex Offender Law
in the 1990s: A Therapeutic JurisprudenceAnalysis", Psychology, Public
Polícy, and Law 4, nlll (janeiro 1998), pp. 505-570.
I '
40
Lyn Hinds e Kathleen Daly. "The War on Sex Offenders: Community
Notification in Perspective", The Australian and New Zealand Journal
oJCrimínology 34,3 (dezembro 2001), pp. 256-276; ver também M.V.
Rajeev Go\Yda. "Integrating Politics with the Social Amplification o f
Risk Framework: Insights from an Exploration in the Criminal Justice
Context", in Nick Pidgeon, Roger E. Kasperson e Paul Slovic (org.).
The Social Amp!iftcation of Risk. Cambridge: Cambridge University
Press, 2003, pp. 305-325.
41
Quinsey, "Treatment of Sex Offenders", pp. 416-420.
42
PatrickA. Langan e David J. Levin. Recidivism ofPrisoners Released
in 1994. Washington, DC: Bureau of Justice Statistics, 2002. Todos

399
os dados fornecidos nessa seção são retirados das tabelas constantes
desse relatório.
1
43
L. Furby, M.R. Weinrott e L. Blackshaw. "Sex Offender Recidi vism: A
Review", Psychological Bulletin 105 (1989), pp. 3-30; Fred S. Berlin et
ai.. "A Five-Year Follow-Up Survey ofCriminal Recidivism Within a
Treated Cohort o f 406 Pedophiles, 111 Exhibitionists, and 109 Sexual
Aggressives: lssues and Outcomes", American Journal of Forensic
Psychiat1y 12, n11 3 (1991), pp. 5-27; e Earl F. Martin e Marsha Kline
Pruett. "The Juvenile Sex Offender and the Juvenile Justice System",
American Criminal Law Review 35, nn2 (inve~no 1998), pp. 279-332.
Este crescente domínio da pesquisa biomédica e psiquiátrica é marca-
'I
do por questões de propriedade técnica, comP,lexidades de medida e
padrões de rigor metodológico, quando na verdade ele se beneficiaria
mais de uma infusão de pensamento sociológico, permitindo-lhe situar
os infratores em seu meio e recolocar suas descobertas em seu contex-
to político e cultural mais amplo. Entre os prin~ipais esmdos que con-
sideram eferivos os programas baseados na prisão encontram-se o de
C.G. H ali. "Sexual Offender Recidivism Revisited: A Meta-analysis o f
Recent 'Treatment Studies", Journal of Consulting and Clinicai
Psychology 63, nll. 5 (outubro 1995), pp. 802-809; DanielleM. Polizzi,
Doris Layton MacKenzie e Laura J. Hickman. "What Works in Adult
Sex Offender Treatment? A Review of Prison-and Non-Prison-Based
Treatment Programs", Jntemational Joumal of O!fender Therapy and
Compa1ative Criminology 43, nll3 (junho 1999), pp. 357-374; Michael
C. Seto e Howard E. Barbaree. "Psychopathy, Treatment Behavior, and
Sex Off~nder Recidivism", Joumal of Jnterper:Sonal Violence 14, nll12
(dezembro 1999), pp. 1235-1248; Mario J. Scalora e Calvin Garbin. "A
Mu1tivariate Ana1ysis of Sex Offender Reci'd ivism", lntemational
Joumal of O!fender Therapy and Comparative Criminology 47, no. 3
(junho 2003), pp. 309-323; e Linda S. Grossman, Brian Martis e
Christopher G. Fichtner. "Are Sex Offenders Treatable? A Research
, o1 vervi w", Psychiatric Services 50 (março 1999), pp. 349-361.
1 I I
44
1Lo1c Wacquant. "La prison est une institution hors-la-loi", R de réel3
(mai~-junho 2000), pp! 33-38; ver também a Jenetrante caracterização
da "crise do modernismo penal" in David Garland. The Culture of
Co1z~ro?. Oxford: Oxford University Press, 2001, pp. 176-184 .
45
. Matson e Lieb, Comnumity Notification in Washi11gton State, p. 12.

"-.. 400
46
Jbid., p. I 6!
47
"Sex am:J;Justice: Justice Department to Open Center for Sex Offender
Manage~e·nc", U.S. News & World Report 122, no. 22 (9 de junho de
1997), ppl·24-25; Office o f Justice Programs. Comprehensi1'e Approaches
to Sex 0ffender Management Grant Program. Washington: U.S.
Departm~nt o f Justice, 1999.
48
Nils Ch},istie. Crime Contra/ as /ndust1y: Towards Gulags, Westem
Style. Londres: Routledge, 1994, p. 13.
49
Stuart A iScheingold, Toska Olson e Jana Pershing. "Sexual Violence,
Victim /J ..' ocacy, and Republican Criminology: Washington State's
Commun)•")1'1Protection Act", Law and Society Review 28, no. 4 (outu-
bro 1994j,. p'p. 729-763; "Symposium: Throwing Away the Key: Social
and Legal Response to Child Molesters", Northwestern University
I
Law Revi~w 92, no. 4 (verão 1998); e, no caso do Reino Unido,
McAlinden. " Sex-Offender Registration".
50
Michael ;ronry. "Rethinking Unthinkable Punishment Policies in the
United St~tes", UCLA Law Review46, nJ!1 (1999), pp. 1-38; e Franklin E.
1
Zirnring." e New Politics o f Criminal Justice: O f 'Three Strikes,' Truth-
in-Sentenci!)g. and Megan's Laws", Perspectives in Crime and Justice:
1999-2000"f,e cture Series 4 (2001), pp. 1-22.
51
Donna Sc~ram e Cheryl Darling Millroy. Commwzity Notiflca.tion: A
Study o r O.ffe"nder Characteristics and Recidivism. Seattle: Urban Policy
Institute, 1'995, pp. 14-17.
52
Neil Websdale , ''Predators: The Social Construction o f' Stranger-Danger' in
WashingtoàState as a Fonn ofPatriarchal ldeo1ogy", Women and Criminal
Justice 7, no 2 (1996), pp. 43-68; Caro! L. Kunz, "Toward Dispassionate,
~I

EffectiveCpntrolofSexual Offenders", The American University47 (dezem-


bro 1997), pp. 453-462. Jenny Kitzinger enfatizao mesmo processo no caso
blitânico em 'The Ultima te Neighbour from Hell? Stranger Danger and lhe
Media Framing ofPaedophiles". In: Bob Franklin (org.). Social Policy, lhe
Media and Misrepresentation. Londres: Routledge, 1999), pp. 207-221.
~ 3 Howard ' . Snyder, Sexual Assault of Young Children as Reported to
La.w En ·cement: Victim, lncidelll, and Ojfender Clraracteristics.
Washington , DC: Bureau o f Justice Statistics, 2000, pp. 10-11.
54
A cada vez maior diversificação cultural e estmtural das formns domésti-
cas é mapeada por Judith Stacey. Brave New Families: Stories ofDomestic

401
I '

Upheaval in Late-Twentieth-Century America. Nova Iorque: Basic


Books, 1990, e Stephanie Coontz, com Maya Parson e Gabrielle Raley
(org.). American Families:A Multicultural Reader. Nova Iorque:
Routledge, 1999. A crescente disparidade funcional e temporal entre a
pressão do sistema econômico dos EUA e as necessidades das famílias
é explorada em Phyllis Moen (org.). lt's About 1ime: Couples and
Careers. Ithaca, NY: ComeU University Press, 2003, e Jerry A. Jacobs
e Kathleen Gerson. The Time Divide: Work, Family, and Gender
Jnequality . Cambridge, MA: Harvard University Press, 2004.
55
Entre muitos relatos publicados na imprensa que fizeram eco a esta
escalada na demanda por severidade, ver, por exemplo, "Watching
'Megan's Law' in Practice", New York Times, 4 de janeiro de 1998.
56
"Sexual Predators Treatment Examined", The Tampa Tribune, 16 de
fevereiro de 1999.
51 Strossen, in Allen e Strossen. "Megan's Law and the Protection of
the Child in the On-Line Age", p. 133.6.
58
Adam J. Falk. "Sex Offenders, Mental Illness and Criminal
Responsibility: The Constitutional Boundaries of Civil Commitment
After Kansas vs Hendricks", American Joumal of Law and Medicine
25 (1999), pp. 117~154.
59 Ademais, suas consequências extra-judiciárias não cessaram de re-
verberar. Por exemplo, a notificação pública da presença de delin-
qüentes sexuais afeta diretamente o funcionamento do setor imobiliá-
j rio: o valor de uma casa é bruscamen~e reduzido quando um "sex
offender' mora no bairro; os condomínios exclusivos desejam excluir
os condenados por atentado aos costumes a fim de preservar sua pro-
de
bidade moral e seu valor de mercado; os locadores imóveis estão
propensos a afastá-los, a fim de não correr o risco de ver seus outros
apartamentos vazios.

"-.. 402