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Cinema Marginal, político por essência.

Todos os movimentos cinematográficos da história, de alguma forma, refletiram o que a


sociedade estava enfrentando no momento. No cinema um grande exemplo é o Expressionismo
Alemão. Com suas formas distorcidas e temas macabros, foi fortemente influenciado pelo
contexto histórico e político de uma Alemanha da Primeira Guerra Mundial.
Quando a arte cinematográfica chega ao Brasil, os filmes, em sua maioria, se
desenvolvem pautados no âmbito da crítica. Talvez isso devido à questão histórica e social do
país que, em sua maior parte, foi repleta de incongruências. Desde os primeiros filmes, até as
mais recentes obras, podemos perceber que, mesmo passando por várias fases e ciclos, o cinema
brasileiro se consolidou como um cinema de crítica. Sejam sobre a sociedade, política, sobre
cotidiano, relacionamentos, os filmes que marcaram o cinema do país, quiseram, além de
promover entretenimento, dizer algo a mais. Algo que talvez estivesse travado nas entrelinhas,
ou mesmo que explicitamente.
Se na primeira fase do Cinema Novo o grande objetivo era representar, de forma crítica,
a cultura e sociedade brasileira, com fortes influências da Nouvelle Vague Francesa em sua
forma, e do Neorealismo Italiano no conteúdo, em sua terceira fase, próxima a estourar a
repressão militar no Brasil, os filmes começaram a determinar ênfase na política vigente. Nasce
então, com abordagens que permitia uma maior liberdade estética, o cinema marginal. À
margem da sociedade de consumo e das grandes produções, filmes de baixo orçamento,
simples, abordando temas incomuns e inesperados, realizando uma profunda análise do homem
e seus valores.
No final dos anos 60 o país se encontrava em uma das melhores fases em relação à
produção cultural. O Cinema Novo e o movimento tropicalista influenciavam pessoas de todos
os campos da arte, especialmente na música. Por outro lado, o país enfrentava um regime militar
que instaurou o fechamento político e reprimiu a liberdade de expressão das ideias nutridas
durante a década. Junto com este desmoronamento e a consequente incapacidade ou
impossibilidade de uma ação política nos termos anteriores estabelecidos, surge uma atmosfera
carregada de tensão, onde o terror e a paranoia parecem dar o tom predominante. Este clima, em
que delírio e realidade muitas vezes se misturam, tem como pano de fundo não tanto a revolta,
mas o terror. E, dentro deste terror, o horror, principalmente o horror do dilaceramento corporal
reflexo da tortura que aterrorizou muitas pessoas na época.
A questão da marginalidade dentro deste quadro ganha outra perspectiva. A postura
marginal, antes pejorativa, ganha valoração positiva, constituindo um lema e bandeira de toda
uma geração. Os filmes colocavam a figura do marginal como símbolo da revolta.
Os criadores do movimento disseminavam a ideia da contracultura e a antiestética,
rejeitavam o cinema “bem feito” em favor da tela suja, contestavam os costumes e rompiam
com a linguagem fílmica linear. Isso explica porque a maioria das obras “agrediam” o
expectador que buscava a conclusão ou “a moral da história” tentando encontrar um
encadeamento lógico das sequências. Os precursores do cinema marginal diziam que esse
estilo era o mais apropriado para um país de terceiro mundo, por possibilitar a transformação
das sobras de um sistema internacional dominado pelo monopólio capitalista do primeiro
mundo.
Mas, mesmo contra tudo e contra todos o movimento está inserido no grupo daqueles
que procuraram experimentar, criar, inovar, ou até mesmo inventar um novo estilo. E para
atingir esse objetivo procuraram explorar cada vez mais a “mise-en-scène”. E a essência da
arte cinematográfica está no fato de conseguir a compreensão e sentir pela mise-en-scène e
pelo recurso da montagem, não necessitando de qualquer explicação externa como
legendas, música, trilha sonora ou diálogos. Fazer a encenação conseguir dar conta de ser
autoexplicativa.
O cinema marginal dava voz a personagens inteiramente desestruturados que se
encontravam à margem da sociedade. Prevalecia a estética do grotesco, onde o kitsch, o
burlesco, as imagens sujas e desfocadas eram suas maiores características. Histórias e
personagens estranhos, anti-heróis da realidade brasileira, como o bandido da luz vermelha,
marginal que realmente causou um grande terror na cidade de São Paulo; Lula, o adolescente
baiano que não fazia nada, mas era amigo de Glauber Rocha e queria ser cineasta, ou Sonia Silk,
“a fera oxigenada”, rainha do trottoir na Rua Prado Jr., em Copacabana, que sonhava em ser
cantora. E, a cada produção, surgia um novo universo, repleto de seres peculiares.
A principal fonte de inspiração foi o filme A Margem, de 1967, dirigido por Ozualdo
Candeias, que antes de ser cineasta já havia trabalhado como caminhoneiro. O filme de Ozualdo
possui um grande número de cenas rodadas às margens da avenida expressa da Marginal Tietê e
locações repletas de quantidade de lixo urbano da cidade de São Paulo. A obra retrata, de forma
grotesca e irônica, o sistema capitalista, mostrando a vida de pessoas que vivem à margem da
sociedade na maior capital do país. Com uma narrativa não linear, entrecortado por pequenas
histórias, o filme possuía os elementos de estilo que definiriam mais tarde os moldes do que,
futuramente, se chamaria “cinema marginal”.
Dizer que o cinema marginal é político por essência, reflete o nascimento do movimento
durante a vivência do povo brasileiro com um regime repressivo. Significa dizer ainda, que
todos os filmes produzidos durante essa fase, mesmo os mais fantasiosos, diziam nas
entrelinhas, amparados por metalinguagem e metáforas, que a repressão não limitava o poder
criativo dos artistas, e que inclusive, sob o regime ditatorial é que o cinema marginal encontrava
solo fértil para se desenvolver.