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Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., São Paulo, v. 11, n. 2, p.

239-253, junho 2008

Contrato narcisista e clínica do vazio*

Mario Rossi Monti

Na sociedade ocidental, a relação entre as gerações é modulada


por um pacto narcisista implícito. As características desse pacto foram
bem descritas por Piera Aulagnier e, antes disso, por Sigmund Freud
239
em seu “Sobre o narcisismo: uma introdução”. Nesse ensaio, Freud
descreve a atitude dos pais em relação a seus filhos. Os pais clamam
para seus filhos a ab-rogação de todas as leis da natureza e da
sociedade (que limitam seu próprio narcisismo). Doença, morte,
renúncia ao prazer, restrições não deveriam atingir seus bebês. Seus
bebês aspiram ser “Sua majestade o bebê”.
As “leis da natureza e da sociedade” são hoje muito diferentes
em relação à época de Freud. Nas sociedades ocidentais, a criança
realmente se tornou “Sua majestade o bebê”. Que relação existe entre
esse novo pacto narcisístico e as novas formas de psicopatologia que
caracterizam a sociedade ocidental? A condição borderline e a
depressão endêmica têm alguma relação com essa nova condição
cultural e social na infância?
Palavras-chave: Psicopatologia, depressão, narcisismo, borderline

* Tradução de Roberta Barni.


R E V I S T A
L AT I N OA M E R I C A N A
DE PSICOPATOLOGIA
F U N D A M E N T A L

Contrato narcisístico implícito

Há muitos anos – se diz – as sociedades ocidentais já não se reconhe-


cem numa cultura da culpa e do conflito quanto, antes, numa cultura do em-
preendimento e depois da iniciativa. A angústia da culpa foi substituída pela
angústia da inadequação, do vazio, do déficit do desempenho, da insuficiência
vexaminosa. Alain Ehrenberg (1998), em brilhantíssimo ensaio sobre as for-
mas da depressão no mundo atual, falou em cansaço de ser si mesmos. De
maneira parecida, Pierre Fédida (2001) propôs que se considerasse o fenô-
meno clínico da depressão como uma espécie de contrapartida negativa da
valorização extrema do desempenho e da capacidade de estar plenamente à
altura das próprias expectativas ideais, que o espírito da época nos impõe.
Em suma, tornou-se um lugar-comum dizer que a cultura do pós-moderno
é uma cultura do narcisismo. Nessa época parece ter sentido apenas ocu-
par-se de si mesmos ou das próprias realizações pessoais. Prevalece o in-
dividualismo, em detrimento da subjetividade. Muitas análises psicológicas
240 ou sociológicas do fenômeno tendem, todas, à mesma conclusão: a atenção
para a subjetividade, para a dimensão da espiritualidade deu lugar a uma vi-
são materialista na qual os indivíduos são entidades separadas, dominadas
pela indiferença e pelo impulso à auto-realização a qualquer preço.
Narcisismo, intimismo, hedonismo, tornaram-se as palavras-chave des-
sa “idade do vazio” (Lipovetsky, 1983) na qual um desencanto geral, uma
“forma inédita de apatia, que se distingue por sensibilização epidérmica em
relação ao mundo” conjuga-se com uma profunda indiferença. Essa verda-
deira mutação antropológica realiza-se num clima de “apatia desenvolta” que,
se provavelmente constitui um antídoto em relação à paranóia, presente em
toda grande ideologia, ao mesmo tempo implica uma desagregação da iden-
tidade. Nessa condição de perene fluidez, na qual as coisas e as pessoas não
parecem dotadas de forma própria, mas assumem, antes, a forma de seu
recipiente, toda identidade vacila ou vive sua própria inconsistência. Nessa
corrida rumo à “pluralização intrapsíquica dos sujeitos” decerto se abre a
possibilidade de imaginar inúmeras identidades possíveis, transbordando da-
queles vínculos com base nos quais, convencionalmente, atribuem-se os
papéis; mas também se corre o risco de uma paralisia da identidade. Como
reconhecer-se em uma identidade numa condição em contínua transforma-
ção e que remete sistematicamente a possibilidades infinitas? Se não ficar-
mos atônitos, perplexos e paralisados diante da vastidão de horizontes

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instáveis e cambiantes, que se abrem diante de cada um, só resta agarrar mais do
que depressa – como diz Bauman (2003) – “identidades esvoaçantes” que, porém,
logo depois se dissipam.
O narcisismo do qual pretendo falar aqui não é apenas o da cultura narcisis-
ta, em que todos nós estamos mergulhados, mas, antes, aquele que constitui o
cerne de um contrato implícito: o contrato narcisístico. No que consiste esse con-
trato? Com esse termo Piera Aulagnier (1975) indicava a missão que pesa sobre
cada recém-nascido assim que ele aparece. Assim que cada recém-nascido da
espécie humana vê a luz, é investido numa missão. Uma missão que é parte da-
quela transmissão transgeracional dos fantasmas dos pais que assume o aspecto
de um verdadeiro “fantasma no berçário”. Um fantasma que vigia o recém-nas-
cido, pondo-se ao lado de seu berço desde suas primeiras horas de vida (Fraiberg
et al., 1975) e que encarna as expectativas, conscientes e inconscientes, que as
gerações anteriores fazem com que pesem sobre ele e sobre sua vida inteira.
Mas para que serve esse contrato? Ele desempenha a função de um víncu-
lo. Vincula cada geração com a anterior. Garante a continuidade entre as gerações,
segundo uma modalidade peculiar, conjugada nos termos de um contrato implí-
cito que é parte de uma economia narcisística. Cada recém-nascido ocupa um
lugar dentro de um conjunto. Esse conjunto – para lhe assegurar um lugar – tem
de investir narcisisticamente o recém-chegado. Esse investimento de caráter nar- 241
cisista se dá dentro de uma cadeia da qual cada sujeito se sente membro reco-
nhecido na medida em que é portador do sentido de pertença e de continuidade
do grupo. O contrato narcisista, portanto, desempenha uma função tripla: asse-
gura uma origem; mantém a continuidade entre as gerações e garante o desen-
volvimento de um sentido de continuidade; garante ao recém-nascido, e ao fu-
turo adulto, o direito de ocupar um lugar. Um direito que se fundamenta não ape-
nas no veredicto dos pais, mas também no reconhecimento sobre que grupo, em
seu conjunto, é assegurado ao recém-nascido enquanto filho daquele casal. Ao
lado do vínculo de filiação narcisista que atua dentro do casal que gerou o re-
cém-nascido, coloca-se, assim, a dimensão da filiação instituída (Guyotat, 1980):
o reconhecimento, por parte de um grupo, de um vínculo de filiação que adqui-
riu uma dimensão social.
Os termos desse contrato haviam sido desenhados com grande acuidade e
sensibilidade por Freud em “Introdução ao narcisismo” (1914) quando escrevia:
... se considerarmos a atitude daqueles pais especialmente ternos com seus filhos,
temos de reconhecer que essa atitude é um novo despertar e uma reprodução do
próprio narcisismo, do qual os próprios pais tinham desistido havia tempo (...) Ao
mesmo tempo, esses pais também tendem a suspender, em favor da criança, to-
das as aquisições da civilização que seu próprio narcisismo fora obrigado a res-
peitar, e tornam a reivindicar, pela criança, privilégios dos quais tinham desistido

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havia tempo (...) Doença, morte, renúncia do prazer, restrições impostas à vonta-
de pessoal não devem ter validade para ela; as leis da natureza e da sociedade
devem ser revogadas em seu favor, ela deve mais uma vez se tornar realmente o
centro e cerne da criação – aquela “Sua Majestade o Bebê” que outrora os pais
se sentiam (...) No ponto mais vulnerável do sistema narcísico – a imortalidade
do ego, que a realidade questiona tão fortemente –, se consegue segurança refu-
giando-se na criança. 1 (tradução livre)
Dessa reflexão freudiana, gostaria de frisar quatro pontos fundamentais:
1. Os pais, quando um filho nasce, vivem uma reativação do próprio narcisismo
infantil. Narcisismo do qual tinham desistido por causa dos vínculos e das li-
mitações com que se depararam na vida adulta;
2. em nome dessa reativação, os pais fantasiam que seu bebê possa desfrutar de
uma moratória. Como dizer que precisamente para ele todos aqueles limites
impostos pela sociedade podem ser momentaneamente suspensos e não vale-
rem. Em suma, os pais reivindicam para ele todos aqueles privilégios dos quais
eles próprios, ao contrário, tiveram de desistir. Tudo o que se interpõe limi-
tando a felicidade ou o bem-estar do homem deve ser alvo de moratória:
doença, morte, renúncia do prazer, restrições e leis não devem valer para ele;
3. leis naturais e sociais devem ser revogadas. A criança se coloca no centro da
242 criação como um pequeno soberano: sua majestade a criança;
4. diante da tomada de consciência de que a própria vida é alvo de pesados li-
mites, até temporais, já que ninguém é imortal, os pais procuram segurança
na criança, prolongando-se narcisicamente em sua vida.

Doença, morte, renúncia ao prazer

Se esse é o contrato narcísico implícito que regulou as relações entre as ge-


rações desde a época de Freud, a impressão é que no mundo atual (ao menos na-

1. “If we look at the attitude of affectionate parents towards their children, we have to recognize
that it is a revival and reproduction of their own narcissism, which they have long since
abandoned (...) Moreover, they are inclined to suspend in the child’s favour the operation of
all the cultural acquisitions which their own narcissism has been forced to respect, and to
renew on this behalf the claims to privileges which were long ago given up by themselves (...)
Ilness, death, renunciation of enjoyment, restrictions on his own will, shall not touch him; the
laws of nature and of society shall be abrogated in his favour; he shall once more really be
the centre and core of creation – ‘His Majesty the Baby’, as we once fancied ourselves (...)
At the most touchy point in the narcissistic system, the immortality of the ego, which is so
hard pressed by reality, security is achieved by takin refuge in the child.” S. Freud. “On
narcissism: an introduction”, p. 90-91.

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quelas sociedades denominadas avançadas) alguma coisa importante deve ter


acontecido, precisamente no âmbito do contrato narcísico. Para tentar compreen-
der o que poderia ter mudado no contrato narcísico implícito, que vincula as ge-
rações, vale a pena começar a tratar, mais do que do contrato em si, do cenário
social e cultural em que o contrato havia sido implicitamente rubricado na época
de Freud. O cenário – escrevia Freud – é um cenário no qual nos confrontamos
com “doença, morte, renúncia ao prazer”. Nos anos em que Freud escrevia es-
sas palavras, muitos recém-nascidos morriam ao longo do primeiro ano de vida:
no começo do século XX (na Itália, por exemplo) morriam 168 em cada mil. Em
meados da década de trinta, morriam cem. Em 1975 morriam 20,5. Hoje morrem
4,3. Em todos os países avançados encontramos a mesma tendência.
Nesse novo contexto, pôr no mundo uma criança se tornou uma coisa bas-
tante diferente do que era à época de Freud. Toda mãe, todo casal de pais, todo
filho se confrontava quase invariavelmente com a morte de uma criança, espe-
cialmente na época perinatal. Hoje a morte de uma criança já se tornou um fato
raro: tanto que, quando isso acontece, tende-se a raciocinar em termos de cul-
pa. Se um recém-nascido morreu, deve haver um culpado, alguém deve ter er-
rado. Enfim, a morte em época perinatal não é mais um fato inevitável ou vivido
como “natural”. Ao contrário, tornou-se “natural” pensar que o nascimento de uma
criança não tem nada a ver com o risco de morte. Uma morte que atingia em gran- 243
de medida o recém-nascido, mas que também dizia respeito à mãe: o medo que
a mulher tinha (e tem) do parto se sustentava também no fato de que, com efei-
to, muitas mulheres morriam de parto ou de complicações a ele ligadas. Hoje já
não é assim. A eventualidade de que o nascimento de um novo indivíduo impli-
que em um evento lutuoso, enfim, é extremamente rara.
Mas em geral, porém, podemos afirmar que a pressão que em outros tem-
pos – doença, morte, restrições e renúncia ao prazer – se exercia sobre cada bebê,
agora diminuiu de forma extraordinária.
Talvez as leis da natureza e da civilização, cuja revogação os pais pediam
para seus filhos, tenham sido realmente revogadas. Não só os limites temporais
da vida humana se estenderam, mas também as restrições sociais e as leis que
outrora regulavam a vida das crianças mudaram profundamente. Uma gama de
possibilidades inimaginável na época de Freud abre-se diante das crianças de hoje:
gozo e prazer parecem estar ao alcance da mão.
Dizer que atualmente a vida das crianças melhorou é dizer uma coisa óbvia.
Igualmente óbvio é afirmar que se desenvolveu uma verdadeira cultura da infân-
cia: uma cultura dos cuidados infantis, da relação mãe-bebê e pais e filhos. Essa
nova cultura se expressa em verdadeiros ritos sociais, como o preparo ritualiza-
do do espaço que o recém-nascido ocupará: o espaço físico, como o seu quarti-

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nho pronto para recebê-lo, mas também o espaço mental dos pais, predispostos
ao evento graças à freqüentação de cursos específicos para prepará-los a assu-
mir a função de genitor. Uma cultura, enfim, que pressiona os pais desde a épo-
ca anterior ao nascimento, ou até mesmo desde antes a concepção. Mas essa
cultura da infância, na maioria das sociedades avançadas, resvala cada vez em
direção a um verdadeiro culto da infância, marcado por uma extraordinária va-
lorização da vida infantil. Poderíamos nos perguntar, retomando os termos da re-
flexão freudiana: será que a criança se tornou realmente “sua majestade, a
criança”? Não é raro acontecer que em nossos ambulatórios encontremos pais
tratados de maneira tirânica por suas crianças. Por crianças que não são sobe-
ranos bem-aventurados, mas que, ao contrário, exercem um poder quase sádico
sobre seus pasmados pais.
A rapidez das transformações a que assistimos nessas últimas décadas cor-
re o risco de fazer com que esqueçamos um passado que deixamos para trás a
bem pouco tempo. Apenas duas notas, breves, para chamar a atenção sobre al-
guns aspectos.
Há pouco mais de cem anos Anton Tchekhov (1887) sublinhava o valor do
progresso. Nem tanto pelas conquistas científicas ou tecnológicas a que levara,
244 quanto, antes, pelo fato que trouxera consigo uma maneira diferente de cuidar das
crianças: “... acreditei no progresso desde a infância”, escrevia, “e não deixei de
acreditar, pois a diferença entre quando me batiam de chicote e quando deixaram
de me chicotear foi enorme”. Um progresso que Tchekhov vivera, é literalmente
o caso de dizer, na própria pele.
O historiador Hugh Cunningham (1995) em seu Children and childhood in
western society since 1500 recorda que no início dos anos 30 do século XIX, o
governo britânico, no âmbito de uma tratativa sobre a duração do horário de tra-
balho, não cedeu às reivindicações por uma jornada de trabalho de 10 horas. Ape-
sar disso, o governo havia acatado a solicitação para as crianças “proibindo o seu
trabalho nas fábricas se tivessem menos de nove anos, e limitando a oito horas
por dia o trabalho das crianças de até 14 anos”. Naquela época, de fato, não se
considerava viável levar adiante o trabalho industrial sem poder contar com o tra-
balho das crianças entre nove e 14 anos! O penoso entrelaçamento entre infân-
cia e trabalho só foi se dissolver há pouco tempo, em pequena porém significativa
parte do mundo, por meio da tomada de consciência de que trabalho e infância
são termos antitéticos: se há trabalho não há infância. Tanto que o termo “traba-
lho infantil”, foi dito, deve ser considerado um verdadeiro oximoro: se há traba-
lho não pode haver infância, e vice-versa.
Aliás, basta ouvir os relatos de nossos avôs ou mesmo de nossos pais para
encontrar vestígios de um mundo que hoje desconhecemos. Meu pai, por exem-

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plo, nasceu em 1923, e narra que ele e seus colegas, quando freqüentavam a es-
cola primária, podiam “admirar” pelas paredes da classe a seqüência fotográfica
relativa à execução, por enforcamento, de Cesare Battisti: um herói nacional ita-
liano da Primeira Guerra Mundial. Trata-se de uma série de fotos nas quais o con-
denado à morte foi retratado antes, durante e depois da execução, cercado pelo
carrasco e seus colaboradores, sorridentes e orgulhosos de seu trabalho.2 Quem
poderia tolerar, hoje, que seu filho fosse pedagogicamente exposto a tamanha abo-
minação numa sala de aula do ensino fundamental?

Monumentalização da infância e psicopatologia

Se o pano de fundo diante do qual se celebrara aquele contrato narcísico


implícito, do qual Freud falava, mudou tanto assim, é altamente provável que as
novas condições culturais e sociais nas quais vivemos tenham implicado uma nova
negociação desse contrato. Parece realmente, em suma, que a condição de sus-
pensão das leis da natureza e da sociedade que se pretendia para os próprios fi-
lhos na época de Freud hoje seja não só um augúrio expresso pelos pais, mas que
tenha se tornado parte de um novo contrato social implícito. A criança – pros-
seguia Freud – tem de ter uma sorte melhor daquela de seus pais: não deve ser 245
obrigada a padecer as renúncias e as necessidades que, como os pais sabem, do-
minam a vida. Hoje, todavia, a renúncia às próprias aspirações não é sentida como
uma necessidade inevitável, e sim como um ataque injustificado à liberdade e aos
direitos do indivíduo: “o mal-estar da pós-modernidade”, escreve Bauman (2000),
“deriva de uma busca pelo prazer tão desinibida que é impossível conciliá-la com
aquele mínimo de segurança que o indivíduo tenderia a exigir”.
O genitor – escrevia ainda Freud – consegue segurança no ponto mais vul-
nerável do sistema narcísico, vale dizer, em relação à imortalidade do ego, tor-
nada radicalmente incerta pela realidade, refugiando-se na criança: entregando-lhe
um trono do qual tomar posse.
Entretanto, o que acontece quando esse trono – não mais tão ameaçado pelas
limitações que a realidade da época impunha – se torna um trono de verdade? Um
trono real do qual se torna difícil descer. Um trono do qual não se pode descer
é mais uma armadilha do que um trono. Não uma etapa mais ou menos fugaz de
um percurso evolucional ao longo do qual nos confrontamos com uma progres-
siva decepção. Antes, um trono que se torna ponto de chegada. Uma prisão? Esta

2. As imagens de toda a seqüência da execução podem ser vistas no site: http://


www.kaiserjaeger.com/it/Albums_Cesare_Battisti.htm

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idealização permanente da infância, essa monumentalização que enfatiza as infi-


nitas potencialidades evolucionais não acabará pesando nos ombros de Sua Ma-
jestade? Não fará com que ele esqueça que, embora sentado no trono mais pres-
tigioso do mundo – como dizia Montaigne – está, ainda assim, sentado apenas
sobre a própria bunda? Na medida em que esse trono é uma armadilha, não fará
com que apareça a angústia de que fala Edgar Morin (2002) quando escreve que
o ser humano “ao se tornar tudo, tem, ao mesmo tempo, consciência de não ser
nada”. Em que medida essa sensação de ser tudo e não ser nada tem a ver com
aquele manto depressivo inespecífico que envolve as queixas de nossos pacien-
tes? Cada vez mais freqüentemente, de fato, os clínicos contam que há algumas
décadas seus pacientes mudaram. Não são mais os mesmos. Queixam-se de um
sofrimento generalizado, pouco estruturado, que não se encaixa nas categorias
descritivas que a psiquiatria predispôs há certo tempo. Chamamos tudo isso de
“depressão”. Mas essa palavra se tornou tão inespecífica que tem cada vez me-
nos significado. Talvez as queixas genericamente “depressivas” que ouvimos de
nossos “novos” pacientes poderiam vir de pessoas fechadas numa espécie de tro-
no-armadilha? Em que medida os pacientes vazios e “deprimidos” dos quais com
cada vez maior freqüência nos falam psicanalistas, psiquiatras e psicólogos clí-
246 nicos são pessoas traumatizadas por esta monumentalização da infância?
Nos últimos anos do século passado Elisabeth Roudinesco (1999), como
muitos outros, colocou-se o problema de como mudaram os pacientes dos psi-
canalistas. Os pacientes do final do século XX – essa é sua conclusão – se pare-
cem pouco com aqueles graças aos quais a psicanálise surgiu. São, antes,
pacientes “conformes à imagem da sociedade depressiva em que vivem. Im-
pregnados pelo nihilismo contemporâneo, apresentam distúrbios narcísicos ou de-
pressivos e sofrem de solidão e de sintomas de perda de identidade”.
O panorama que se oferece ao ponto de vista dos psicanalistas é bastante
nítido: há muitos anos os psicanalistas trabalham em torno da tentativa de encon-
trar modalidades mais eficazes de trabalho com pacientes muito diferentes daque-
les em torno dos quais sua teoria e sua técnica nasceram. Precisamente porque
os pacientes dos psicanalistas são uma absoluta minoria no panorama das disci-
plinas psicológico-psiquiátricas, é natural perguntar se as observações que os psi-
canalistas formularam de seu ponto de observação concordam (ou, ao contrário,
contrastam) com aqueles realizados a partir de outros pontos de observação. Es-
pecificamente: mudaram, e em caso positivo, como mudaram, os pacientes dos
Serviços de psiquiatria? Mesmo desse contexto chegam sinais similares àqueles
registrados pelos psicanalistas. Por exemplo, os serviços de psiquiatria comuni-
tária estão cada vez mais empenhados no tratamento de pacientes com distúr-
bios de personalidade, particularmente da área borderline e narcísica.
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Se há 25 anos os pacientes com personalidades anômalas ou psicopáticas


eram consideradas pessoas que simplesmente “eram assim mesmo”, maneiras de
ser não passíveis de mudança (e portanto não pertencentes ao âmbito da psiquia-
tria, por não padecerem de nenhuma “doença”), hoje as coisas já não são assim.
Miguel Benasayag e Gérard Schmit (2003) trabalham no Serviço para dis-
túrbios psicológicos da adolescência na França. De seu ponto de observação no-
taram uma dramática mudança qualitativa do sofrimento mental. E lançaram um
grito de alerta. Ao pedido de ajuda que se manifesta nas formas clássicas descritas
pela psicopatologia, pela psiquiatria e pela psicologia clínicas – escrevem – hoje
se acrescenta e se sobrepõe um novo tipo de pedido. Um pedido de ajuda disse-
minado que se origina da percepção de um mal-estar genérico que os operado-
res não têm condições de enfrentar, quer de um ponto de vista quantitativo (pela
amplidão do fenômeno) quer de um ponto de vista qualitativo (pela nova nature-
za do fenômeno). Até porque o tipo de pedido que lhes é dirigido é alguma coisa
para a qual não receberam formação. “Atualmente”, escrevem, “na França, as-
sim como em outros países, milhares de jovens acompanhados por suas famílias
literalmente perambulam de uma instituição a outra, de uma consulta a outra, car-
regando um fardo pesado de sofrimento e patologia”. Tanto que nossos Serviços
“se transformaram, aos poucos, numa espécie de funil em que se verte a triste-
za disseminada que caracteriza a sociedade contemporânea”. 247
Esse conjunto de sintomas se configura aos olhos de alguns como uma nova
patologia (ou um conjunto de novas patologias, se não forem verdadeiras doen-
ças). Nessa ótica, a nosografia psiquiátrica mais uma vez se lançou ao encalce
da descrição e da definição dessas novas entidades. Mas, mais do que diante de
um conjunto de sintomas e de doenças, estamos diante de uma mistura de expe-
riências e no máximo de síndromes que representam os pontos de agregação de
um sofrimento que pertence ao indivíduo isoladamente, mas também, e conco-
mitantemente, à sociedade e à cultura na qual o indivíduo está inserido. As no-
vas formas em que o sofrimento mental do indivíduo se configura parecem
constituir o lugar em que esse sofrimento disperso precipita em constelações de
experiências patológicas individuais. A prática clínica nos Serviços de psiquiatria
comunitária permite captar os presságios, até maciços, desses novos fenômenos
psicopatológicos. Em 1984, na Itália, o psicanalista Gaddini tinha enfatizado como
o sofrimento individual podia, aos poucos, perder o sentido diluindo-se no fun-
cionamento social do indivíduo: a eventual patologia de cada indivíduo – escre-
via – pode ser temporariamente ocultada pelo funcionamento social do indivíduo.
Em anos mais recentes, outro psicanalista italiano, Giuseppe Di Chiara (1999),
falou em síndromes psicossociais: situações capazes de desempenhar funções
defensivas patológicas, comportamentos coletivos que geram mal-estares futuros
e previsíveis. O narcisismo, por exemplo, pode se desenvolver como síndrome
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psicossocial quando se constitui como defesa do grupo social na direção do egoís-


mo, da satisfação hedonista e da competitividade. Quando o equilíbrio defensivo
fundamentado na “socialização” (entendida como “tentativa de ocultação da pró-
pria patologia individual no social”) se rompe; quando eventos de caráter traumá-
tico massivo perturbam esse equilíbrio; ou quando, mais simplesmente, o
indivíduo se encontra momentaneamente sozinho, sem cobertura, não mais pro-
tegido pela casca da socialização, o sofrimento pode aparecer e assumir as for-
mas mais ou menos específicas. Formas que – ultrapassado certo patamar –
acabam coincidindo com o que os clínicos e os nosógrafos identificam como dis-
túrbio codificado pelas modernas classificações psiquiátricas. O distúrbio que hoje
se espalhou sobretudo nas sociedades avançadas é indubitavelmente a depressão.
Mas a depressão de que estamos falando nessa expansão extraordinária,
desnaturou-se, perdeu suas características tradicionais e se elevou à categoria de
entidade mítica. Uma depressão que, com base nas características de gravidade
(em sentido quantitativo) e duração, é codificada pela nosografia psiquiátrica como
Transtorno Depressivo Maior ou como Transtorno Distímico. Uma depressão que
a nosografia psiquiátrica atual descreve como sempre igual a si mesma, sem ne-
nhuma atenção para a qualidade da experiência depressiva: vale dizer para os di-
versos modos em que se pode estar deprimido. Se, de fato, a adoção de critérios
248 diagnósticos cada vez mais caracterizados pelas exigências de ateoricidade, ob-
jetividade e mensuração quantitativa facilitou o uso do diagnóstico e aumentou a
concordância entre os clínicos, por outro lado criou o problema de não saber mais
direito do que se está diagnosticando. Em suma, na nosografia contemporânea
teve lugar (e, portanto, também na percepção do clínico que adotar acriticamente
essa abordagem) um verdadeiro processo de homogeneização da depressão. A
vasta gama de modos diferentes de viver a própria depressão deu lugar para uma
espécie de “geléia” depressiva indiferenciada que pode ser espalhada nos supor-
tes mais diferentes. Assim uma única e monumental entidade clínica se parece cada
vez mais a uma galáxia que compreende todas as formas de sofrimento patoló-
gico, mas que inclui ainda muitas formas de normal infelicidade. Uma normal in-
felicidade que se origina pelo registro da diferença existente entre como somos
e como gostaríamos de ser. Por isso a depressão se tornou – como afirma Eli-
sabeth Roudinesco (1999) – a epidemia psíquica das sociedades democráticas:
“... a sociedade depressiva não quer mais ouvir falar nem de senso de culpa, nem
de intimidade, nem de consciência, nem de desejo, nem de inconsciente”. Uma
depressão não mais fundamentada nas experiências que, para mais de um sécu-
lo, sustentaram o paradigma da verdadeira e mais profunda depressão: a melan-
colia. A experiência da culpa marcou desde sempre a depressão por excelência (a
melancolia). Tanto que quem se questionou sobre o sentido da experiência da culpa
na depressão colocou à luz uma continuidade profunda entre cultura ocidental e

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psicopatologia. Uma relação que pode acolher as diferentes manifestações que a


depressão assume em culturas diferentes da nossa. Evelyne Pewzner (1996) afir-
mou que “a linguagem da loucura sempre acaba sendo o eco mais ou menos dis-
tante e deformado de outra linguagem que, sem saber, serve como sua referência
e suporte”. Se é verdade que os grandes temas que se expressavam na depres-
são melancólica representavam o eco de uma série de grandes temas pertencen-
tes à nossa tradição cultural (pecado, culpa, expiação) hoje, diante do desvio de
paradigma que a depressão veio a enfrentar, é preciso reconsiderar a continuidade
entre cultura e patologia. Com que aspectos de nossa cultura estão relacionados
os temas que despontam na galáxia depressiva mítica que nos envolve como o
ar que respiramos?

Clínica do vazio

Em 1983, Franz Alexander fazia o balanço de seus quarenta anos de traba-


lho como psicoterapeuta. Neurose, ansiedade, conflitos – escrevia – não são mais
visíveis como em outros tempos: “... vejo, no entanto, mais pessoas se queixando
de depressão”. Contudo, essa depressão consiste no fato que as pessoas “não têm 249
emoções, sentem-se vazias, estão profundamente frustradas e insatisfeitas (...) O
que parece estranho é uma relativa falta de ansiedade e de sentimento de culpa,
apesar da gravidade da síndrome. Esse fato, unido à ausência de sentimentos, dá
uma impressão de irrealidade”.
A ausência de culpa era motivo de surpresa. Hoje já não é assim. Em 1999,
Nancy McWilliams confirma o que Lowen havia observado dezesseis anos antes.
Um número cada vez maior de pacientes não descreve mais problemas que pos-
sam ser ligados a um conflito (segundo a tradição freudiana), mas se queixa de
uma “vaga sensação de vazio, de ausência de significado, de dificuldade para de-
finir a si próprios e em gostar de si mesmos e um sentimento de inveja em rela-
ção às outras pessoas, que se presume desfrutem disso tudo”. É evidente como
essas novas formas depressivas não pertencem à tradicional constelação da de-
pressão (culpa – inibição – desaceleração – persecutoriedade interior) quanto,
antes, à constelação daquelas depressões que a psiquiatria clínica e a nosografia
chamam “atípicas”: depressões atípicas que agora, porém, se tornaram típicas.
Formas depressivas que se agregam em torno de duas constelações fundamen-
tais de experiências: uma primeira constelação constituída por disforia – raiva –
solidão – vazio e que afunda as raízes em uma disposição de personalidade da área
borderline; uma segunda constelação, organizada em torno das experiências de
vazio – insuficiência – desilusão – vergonha, que se inscreve no âmbito da per-
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sonalidade narcísica. Nesse sentido, a epidemia depressiva poderia ser conside-


rada como o invólucro exterior de algumas vicissitudes psicopatológicas em dis-
posições de personalidade que pertencem à área borderline e narcísica. Duas
disposições de personalidade cada vez mais freqüentes que parecem estreitamente
com aquela perturbação da cultura da infância que levou à sua monumentaliza-
ção. Ao elenco dos eventos traumáticos infantis que são correlacionados com o
desenvolvimento das patologias de personalidade, da área borderline e narcisis-
ta, deveria ser acrescentado o trauma relativo ao aprisionamento na condição de
Sua majestade a criança que impede de encontrar e pôr à prova as fronteiras da
própria identidade.
No que tange à área borderline, recorreu-se a muitos termos para descre-
ver a afetividade “depressiva” borderline: tédio, anedonia, sentimentos de futili-
dade e sobretudo de vazio interior. Uma condição de fundo atravessada por
sentimentos de irritação, disforia, tendência às queixas, experiências de desper-
sonalização auto e halopsíquica e ocasionalmente por acessos de raiva até violenta.
Não se trata apenas de uma diferença de quantidade em relação à tradicional cons-
telação depressiva. Estamos diante de uma diferente qualidade da experiência.
Muitos estudos, até de caráter empírico, colocaram à luz a relevância dessa di-
ferença qualitativa centrada predominantemente no relevo da constelação afetiva
250 vazio crônico – solidão – disforia – raiva (Gunderson, Phillips, 1991). Em extrema
síntese, a depressão borderline se diferencia da depressão clássica pela qualida-
de dos afetos em jogo, mas também pelo caráter difuso e crônico da experiên-
cia depressiva. Uma experiência não delimitável em fases, caracterizada ademais
por uma variabilidade elevada por uma reatividade quase atmosférica aos even-
tos e às relações.
No âmbito da psicopatologia narcisista de personalidade, a depressão se ca-
racteriza, ao contrário, por um doloroso senso de inconsistência, irrealidade e
vazio. Em lugar da plenitude de um sentimento depressivo centrado na culpa, abre-
se um precipício. Na personalidade narcísica, a depressão é sempre latente: toda
organização narcisista da personalidade vive constantemente sob a ameaça da
queda. A ponto de tornar necessário um trabalho ininterrupto de hipercompensa-
ção por meio dos mecanismos de auto-regulação e manutenção da auto-estima que
sustentam o delicado equilíbrio do paciente narcisista. Um pouco como funcio-
na o queimador que aquece o ar e permite que um aeróstato mantenha a cota.
Quando os complicados processos de auto-regulação, que talvez tenham susten-
tado por muito tempo o funcionamento de um grandioso self narcísico, entram
em crise por um motivo qualquer, a estrutura range: o aeróstato perde altura. Vêm
à baila sintomas vagos, porém persistentes: uma sensação subjetiva de inconsis-
tência e vazio. Um vazio que corre o risco de se tornar uma voragem aberta so-
bre a própria identidade e sobre o próprio valor. Esses primeiros rangidos podem

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ser o prelúdio de uma condição que a clínica psiquiátrica define como “depres-
são”. No entanto, mais uma vez, uma depressão que transborda do seu paradig-
ma tradicional; uma depressão que não se inscreve numa dinâmica fundamentada
na agressividade e na culpa, que não recorre à dimensão da culpa para recupe-
rar ao menos o sentido de ter sido artífice do próprio destino. Mas uma depres-
são em que, impotentes, assiste-se à ruína das próprias ilusões megalomaníacas.
Aquele trono se transformou numa armadilha, pois não permitiu que nos arriscás-
semos na vida. Decepção, vergonha, humilhação, inferioridade, desgosto, deses-
pero pelo tempo perdido: queda da máscara do narcisismo, a pessoa sente-se
desnuda, exposta à própria impotência, fragilidade e dependência.

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Resumos

(Contrato narcisista y clinica del vacío)


En la sociedad occidental la relación entre las generaciones es modulada por un
252 pacto narcisista implícito. Las característica de este pacto fueron bien descriptos por
Piera Aulagnier y, antes de ella, por Freud en su Introducción al narcisismo. En ese
ensayo, Freud describe la actitud de los padres en relación a sus hijos. Los padres
claman para sus hijos la derogación de todas las leyes de la naturaleza y de la sociedad
(que limitan su propio narcisismo). Enfermedad, muerte, renuncia al placer,
restricciones, no deben alcanzar sus bebes. Sus bebes aspiran ser “Su majestad el
bebe”.
Las “leyes de la naturaleza y de la sociedad” son hoy muy diferentes en relación
a la época de Freud. En la sociedades occidentales, el niño realmente se torno “Su
majestad el bebe”. ¿Que relación existe entre ese nuevo pacto narcisista y las nuevas
formas de patología que caracterizan la sociedad occidental? ¿La condición
borderline y la depresión endémica tiene alguna relación con esa nueva condición
cultural y social en la infancia?
Palabras clave: Psicopatología, depresión, narcisismo, borderline

(Le contrat narcissiste et la clinique du vide)


Dans la société occidentale, le rapport entre les générations est façonné par un
pacte narcissiste implicite. Les caractéristiques de ce pacte ont été décrites par Piera
Aulagnier et, même avant, par Sigmund Freud dans Sur le narcissisme: une
introduction. Dans cet essai, Freud décrit l’attitude des parents par rapport à leurs
enfants. Les parents plaident pour leurs enfants l’abrogation de toutes les lois de la
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nature et de la société (qui limitent leur propre narcissisme). Maladie, mort,


renonciation au plaisir, restrictions ne devraient pas atteindre leurs bébés. Leurs bébés
aspirent à être “Sa Majesté le Bébé”.
Les “lois de la nature et de la société” sont actuellement très différentes de celles
du temps de Freud. Dans les sociétés occidentales, l’enfant est vraiment devenu “Sa
Majesté le Bébé”.
Quel pourrait être le rapport existant entre ce nouveau pacte narcissique et les
nouvelles modalités de psychopathologie qui caractérisent la société occidentale? La
condition borderline et la dépression endémique gardent-elles des rapports avec cette
nouvelle condition culturelle et sociale dans l’enfance?
Mots clés: Psychopathologie, dépression, narcissisme, borderline

(Narcissistic contract and the clinic of the void)


In Western society the relationship between one generation and the next is
modulated by an implicit narcissistic pact. The characteristics of this pact were well
described by Piera Aulagnier and, before her, by Sigmund Freud himself, in On
narcissism: an Introduction. There Freud described the attitude of parents toward their
children. Parents hope that all the laws of nature and society (which limited their own
narcissism) will be abrogated for their children. In other words, death, the
renouncement of pleasure, and other restrictions will not affect their little ones. 253
Today the “laws of nature and society” are very different from those in Freud’s
time. In Western societies, children have truly become “[Their] Majesty the Baby.” What
relationship can be seen between this new narcissistic pact and the more recent forms
of psychopathology that characterize Western society today? Do borderline condition
and epidemic depression have some relationship with this current cultural and social
condition in childhood?
Key words: Psychopathology, depression, narcissism, borderline

Versão inicial recebida em dezembro de 2006


Versão aprovada para publicação em outubro de 2007

MARIO ROSSI MONTI


Professor Titular de Psicologia Clínica do Istituto di Psicologia della Università di Urbino (Ur-
bino, Itália); psiquiatra; psicanalista da Società Psicoanalitica Italiana (IPA)
Via Ubaldini 17
60100 Urbino, Itália
e-mail: rossimonti@alice.it

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