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APRESENTAÇÃO

Ele usava barbas longas e vestia roupas de pele.

Qualquer estilista diria que seu figurino era terrível. Nenhum nutricionista aprovaria sua dieta baseada
em gafanhotos e mel. Foi assassinado por não refrear a língua diante dos erros dos poderosos.

Enquanto o estabelecimento político-religioso de seus dias o rejeitou, Jesus considerou João Batista o
profeta mais importante da história.

O Mensageiro do Deserto foi escrito para explicar a vida daquele que preparou o caminho para a
chegada de Jesus. Ao comparar João Batista conosco, este livro revela o tipo de gente que Deus espera
que seus filhos sejam nos dias de hoje.

Douglas Reis é pastor e escritor. Atua como capelão no Instituto Adventista Paranaense (IAP),
onde ensina e aconselha jovens e universitários. Ele é autor do livro Paixão Cega, lançado pela
Casa Publicadora Brasileira
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1ª edição neste formato
Versão 1.1
2016
Coordenação Editorial: Vanderlei Dorneles
Editoração: Vinícius Mendes e Wellington Barbosa
Revisão: Adriana Seratto
Design Developer: Cristiano Soares Vieira
Projeto Gráfico e Capa: Leonardo Alves C. Rodrigues
Imagem da Capa: © george kuna | Fotolia

Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial, por qualquer


meio, sem prévia autorização escrita do autor e da Editora.
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INTRODUÇÃO

C abelos vermelhos, desfiados, cortados no estilo moicano. Tatuagens verde-


musgo correndo pelos braços, furiosas. Roupas sujas, esfarrapadas. O
homem encosta o cavanhaque espesso no microfone e brada para sua igreja,
como se estivesse em um show de rock: “Feliz sábado! Sou o pastor Pedro e
assumirei este distrito a partir de hoje…”
Agora, outra cena: o tribunal reunido. Réu preocupado, juiz impaciente,
promotor triunfante. Falta o advogado. Eis que, num rompante, chega o defensor.
Ele traja uma calça colante azul, uma camisa rosa e sapatos esverdeados.
Boquiabertos, os presentes veem quando a estranha figura abre a pasta e se
coloca em pé, esperando o início da sessão.
O último exemplo: todos estão em frente a um rio, diante do espetáculo. Ele
não é um saltimbanco, mas consegue atrair boa parte da população. Não com
truques de mágica ou números de malabarismo. Ali está um homem diferente:
barbas longas e roupas de pele, capazes de fazer os ativistas da organização
PETA 1 ranger os dentes de raiva! Além do visual impressivo, o cidadão tem
voz altissonante e uma mensagem provocativa.
Por gentileza, pense por um instante nos três casos acima. Neles, há
indivíduos exóticos, pelo menos à primeira vista. Contudo, para além das
semelhanças, pode-se notar que nos dois primeiros casos há uma clara
inadequação entre a função e a imagem: ninguém se sentiria à vontade tendo um
pastor grunge ou diante de um advogado que seguisse a moda chamada de
“colorido”. 2 No entanto, o que dizer do terceiro caso?
Quando leio as páginas do Novo Testamento, lá está esse terceiro homem.
Seu nome? João.

Naqueles dias surgiu João Batista, pregando no deserto da Judeia. Ele dizia: “Arrependam-se,
porque o reino dos céus está próximo.” […] As roupas de João eram feitas de pelos de camelo, e ele
usava um cinto de couro na cintura. O seu alimento era gafanhotos e mel silvestre (Mateus 3:1, 2,
4).

João Batista é, sem dúvida, uma figura vistosa. Não é o tipo de sujeito que
você esperaria ver na fila do banco ou saindo de um restaurante. Qualquer
estilista diria que seu figurino é desatualizado. Nenhum nutricionista aprovaria
sua dieta baseada em gafanhotos e mel. Ele tem olhar penetrante e voz potente. É
infatigável e corajoso em suas denúncias. Arauto incansável, mestre persistente.
Vejo-o percorrer distâncias arenosas, fustigado pelo calor palestino, adornado
por expressões de curiosos e sinceros.
Sem dúvida, João não era seguidor de uma tendência da moda ou fazia
parte de uma tribo urbana (dessas que os pais torcem para os filhos adolescentes
não aderirem). Por vezes, ele nos faz lembrar os tipos messiânicos dos quais a
história testemunha. Apesar de algumas semelhanças entre o Batista e Antônio
Conselheiro ou Inri Cristo 3 existem diferenças abissais!
Por mais que João se pareça com um revolucionário popular ou um
religioso charlatão, trajando pele de animais, com a barba a roçar o peito, ele é
mais do que aparenta ser. Examine o aspecto que o torna inconfundível: ao
contrário da mensagem de Conselheiro e Inri, a de João era legítima. Tudo o
mais não era questão de excentricidade; tratava-se de adequação às
circunstâncias. Vestir-se daquela forma fazia sentido em sua época. Se você
fosse um judeu do primeiro século e se deparasse com ele, às margens do Jordão,
não teria dúvidas: aquele era um profeta, o porta-voz de Deus!
Contudo, voltemos para o século 21: entre todo tipo de aberração, um
programa de TV acompanha anônimos que realizam cirurgias plásticas. O
objetivo é se assemelhar a algum ídolo do cinema, da música ou do show
business. Para uma especialista, apesar desse comportamento não se caracterizar
como uma doença, “de qualquer forma, é sintoma de uma desvalorização pessoal
muito grande”. 4
Mesmo entre artistas, a supervalorização da aparência é potencialmente
destrutiva. Por outro lado, as aparências contam e temos de nos adequar a
padrões sociais para sermos bem compreendidos. Mencionamos de início a
estranheza que causariam pastores e advogados que se vestissem de forma pouco
convencional. Não faz mal respeitar algumas convenções sociais e transmitir, por
meio da aparência, uma mensagem de integridade, honestidade e decência,
compatíveis com o caráter cristão. O perigo está na forma exagerada como as
pessoas se preocupam com a beleza exterior. Isso hoje se tornou um pré-
requisito para aceitação social e construção de uma autoestima veiculada a
padrões midiáticos. Bem diferente da preocupação adequada com o exterior,
muitos se voltam para estereótipos superficiais.
Você não precisa viver assim. Podemos ser felizes equilibrando o que é
socialmente aceito com nosso jeito de ser, e ainda encontrar orientação em
princípios bíblicos.
Analise mais a fundo, por exemplo, João Batista, que mostrava quem era
por sua roupa e por seus hábitos. O que o impulsionava? Certamente, sua
motivação seguia para além de ter “um nome a zelar”. João possuía identidade
estritamente relacionada com a urgente missão que Deus lhe dera. Tudo nele
contribuía para atingir seu alvo na vida. Ele não buscava fama ou aprovação
social. Não imitava nenhum astro recém-surgido dos reality shows. João era
autêntico e plenamente identificado com o que Deus queria dele. “Por sua vida
abstinente e simplicidade de vestuário, devia [João Batista] constituir uma
repreensão para sua época”. 5 Nesse aspecto, será que estamos à altura de seu
ideal de vida?
João possuía um referencial. Infelizmente, muitas pessoas imaginam que
viver seguindo “a própria vontade” seja um alvo ideal. O roqueiro Gene
Simmons, da famigerada banda Kiss, é alguém que pensa assim: “Tenho o
melhor hobby do mundo, que é ser Gene Simmons, do Kiss. É um hobby para o
qual não há regras. E eu nunca tenho de perguntar a alguém como devo me
comportar ou o que fazer. Mesmo o papa tem de perguntar pra alguém. Eu não
tenho mestre nem patrão.” 6 Ocorre que viver espelhado no próprio umbigo não
garante que nossas escolhas sejam as melhores ou mais corretas.
Imagine: dez pessoas acordam em uma floresta escura, desconhecida.
Nenhuma delas possui treinamento em sobrevivência ou está habituada a trilhas.
Não possuem alimento, GPS ou mapas. Cada qual pode intuir ou tentar sair da
floresta. Obviamente, suas tentativas bem-intencionadas para achar o caminho
para casa seriam confusas, dividindo potencialmente o grupo e os expondo a
eventuais perigos.
Entretanto, imagine que surja ali um desconhecido. Com boina de soldado e
fala arrastada, ele se apresenta ao grupo como a única solução para seu dilema.
“Eu conheço esta mata como a minha palma. Posso levá-los à cidade; mas terão
que confiar em mim.” Nesse caso, uma ajuda externa seria menos arriscada do
que tentar a esmo achar um caminho sem qualquer tipo de indicação.
Semelhantemente, viver sem referenciais é algo confuso, perigoso. Precisamos
de um guia. Alguém que nos preencha com significado exuberante, indicações
claras e nos dê uma direção confiável.
João Batista era do tipo que preferia reconhecer a necessidade de um guia
no longo deserto da vida. Já foi dito que a mensagem de João, que se originava
em Deus, “não veio das sinagogas ou das escolas do templo, mas de um homem
cuja escolaridade estava em sua caminhada com Deus”. 7 Nas palavras de Ellen
White, ele contemplou “o Rei em sua beleza, e o próprio eu foi esquecido. Vira a
majestade da santidade, e sentiu-se ineficiente e indigno. Estava disposto a ir
como mensageiro do Céu; não atemorizado pelo humano, pois contemplara o
Divino. Podia ficar ereto e destemido em presença de governantes terrestres,
porque se prostrara diante do Rei dos reis”. 8
Fascinantes lições existem na vida do profeta do Jordão. Ele combateu
burocratas religiosos enquanto abria os braços a prostitutas e operários de moral
duvidosa. Até soldados estrangeiros acatavam suas orientações! Sua acolhida aos
desclassificados prenunciava o tipo de abertura social que mais tarde seria vista
na pregação de Jesus. João lidou com a intriga das massas, o receio dos fariseus
e os louvores equivocados daqueles que viam nele o Messias prometido.
Todavia, a principal função do Batista era atrair a atenção do povo, despertar-lhe
para a vinda do Messias. Sua mensagem era inequívoca: “Arrependam-se, pois o
reino do Céu está próximo.” Sua mensagem o definia.
Será que os crentes que vivem às vésperas do advento de Jesus estão
compenetrados como João em sua missão de preparar o caminho para o Rei?
Será que suas músicas gritam que eles não pertencem ao mundo que os cerca?
Será que suas roupas testemunham que esperam pelo Rei? Será que seus hábitos
contam que eles são hoje “a voz que clama no deserto”?
Pense neste exemplo: nas capas dos álbuns, sua presença era discreta. Nas
músicas, sua voz não se destacava, embora integrasse harmoniosamente o todo.
No entanto, ele foi um dos maiores gênios da música adventista. Wayne Hooper
compôs e fez arranjos para mais de 2 mil hinos para quartetos masculinos. Ele
integrou The King’s Heralds 9 por 18 anos, cantando a voz do barítono e
permaneceu outras muitas décadas como arranjador, ora em período integral, ora
ocasionalmente. Seu último álbum foi uma coleção de Spirituals intitulada
Delivered (2002).
As duas composições mais lembradas de Hooper, ainda cantadas no mundo
inteiro, são: The Lord is coming, are you read? (O Coração Não se Turbe) e We
have this hope (Oh, que Esperança, HA 469). Sobre esta última, Hooper
declarou, certa vez, que sentiu a música fluindo em sua mente no momento da
composição. Em inglês, o hino começa com as solenes palavras: “Nós temos esta
esperança queimando em nosso coração”. 10
A volta de Jesus queima em seu coração? Sente você que a “bendita
esperança”, que movia João Batista, comove sua alma e a faz vibrar? Sinto que
enquanto a esperança do retorno do Senhor não nos motivar a falar a outros
sobre o Salvador prestes a vir, permaneceremos por tempo indefinido neste
mundo! Está em nossas mãos apressar o regresso de Cristo.
Este livro é escrito para corações que desejam permanecer queimando. E
mesmo para aqueles que parecem reduzidos a cinzas: Deus pode reanimar as
chamas internas com a esperança dada em sua Palavra. Temos de viver para
anunciar o retorno da Luz ao mundo. Para nos orientar a cumprir essa preciosa
missão, escolhi analisar a biografia de um personagem fantástico e vitorioso:
João Batista. O que aprendemos com sua vida de sacrifício e sua pregação
zelosa? Como seu exemplo pode nos animar a viver para anunciar o advento do
Senhor? É sobre temas como esses que trataremos.
Antes, eu preciso evidenciar meu agradecimento sincero a todos os que
contribuíram, de alguma forma, para o nascimento deste livro. Aos amigos de
São Francisco do Sul, a quem apresentei os temas principais sobre João Batista
durante o acampamento de verão de 2011, meu muito obrigado pela
oportunidade.

1
A organização PETA (sigla de People for the Ethical Treatment of
Animals ou “Pessoas pelo Tratamento Ético aos Animais”) milita contra os maus
tratos prolongados sofridos pelos animais nas indústrias farmacêuticas, têxtil e
de entretenimento, entre outras. A PETA é bem conhecida por campanhas
agressivas, nas quais recorre frequentemente à nudez.
2
A moda dos coloridos chegou ao Brasil especialmente pela banda de rock
Restart. Basicamente, essa tendência explorava cores vibrantes, chegando até
mesmo ao fosforescente.
3
Antônio Conselheiro foi um célebre líder carismático que liderou a
Guerra de Canudos, no fim do século 19. Ele se tornou célebre por intermédio do
relato de Euclides da Cunha em Os Sertões, clássico da Literatura Brasileira. Inri
Cristo é um autoproclamado messias brasileiro, que possui um pequeno número
de seguidores. Ele ganhou fama por aparições bizarras em programas televisivos
(sobretudo, os humorísticos).
4
Revista Veja, “Anônimos com cara de famosos”. Disponível em:
<http://veja.abril.com.br/050504/p_072.html>. Acessado em 23 de abril de 2013.
Quem opina é Ana Mercês Bahia Bock, presidente do Conselho Regional de
Psicologia de São Paulo.
5
Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações (Tatuí, SP: Casa
Publicadora Brasileira, [CD-ROM], 2001), p. 100-101.
6
Jotabê Medeiros, “Com a língua de fora, mas infatigáveis”. Disponível
em:
<http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20090325/not_imp344374,0.php>.
Acessado em 23 de abril de 2013.
7
Myron S. Augsburger e Lloyd J. Ogilvie, The Preacher’s Commentary
Series Matthew (Nashville, TN: Thomas Nelson, 1982), v. 24, p. 18.
8
White, O Desejado de Todas as Nações, p. 103.
9
The King’s Heralds é o mais antigo quarteto contínuo do mundo,
existindo desde 1927. A princípio formado por estudantes com certo grau de
parentesco, o quarteto adotou o nome de The Lone Star Four [Quarteto Estrela
Solitária, em tradução livre]. Convidados pelo fundador da Voz da Profecia,
H.M.S. Richards, para participar de séries evangelísticas e cantar em programas
de rádio, o grupo teve o nome mudado para King’s Heralds, por meio de um
concurso de votação popular. Hooper integrou a formação de ouro do quarteto,
com Bob Edwards (primeiro tenor), Bob Seamont (segundo tenor) e Jerry Dill
(baixo), todos já falecidos. Atualmente, o quarteto continua em atividade, tendo,
a partir de 2004, voltado a fazer parte de A Voz da Profecia (o grupo permaneceu
desligado da VP por 22 anos, período no qual adotou o nome de The Heralds).
Os integrantes atuais do The King’s Heralds são Don Scrogg (primeiro tenor),
Jared Otto (segundo tenor), Russell Hospedales (barítono) e Jeff Pearles (baixo).
O site oficial do grupo é <www.theheralds.org>.
10
O depoimento de Wayne Hooper se encontra no DVD Fireside Reunion,
gravado em 2000.
1. SERÁ MESMO?

A os três ou quatro anos de idade, eu andaria pela primeira vez de metrô.


Minha mãe conversou comigo antes para me instruir.
“Você não precisa dar sinal para ele parar, certo? Ele para sozinho em cada
estação. Entendeu?”
“Hum-hum!”, eu balançava afirmativamente a cabeça como o soldado
recebendo comandos do superior.
“Outra coisa: no horário em que estivermos usando o metrô, muitas outras
pessoas estarão fazendo a mesma coisa; é possível que não haja bancos para nos
assentarmos. Por isso, não reclame se ficar em pé!”
“Pode deixar.”
Minha mãe deve ter me olhado e pensado que fizera um bom trabalho.
Orientações bem claras. A decisão do filho por obedecer. Tudo corria bem.
No dia seguinte, estávamos na plataforma apinhada de usuários. Olhando
para baixo, minha mãe viu seu “toco de gente” com o braço direito estendido. “O
que você está fazendo, Douglas?”, ela perguntou surpresa e tentando disfarçar a
vergonha que eu a estava fazendo passar. “Estou dando sinal para o ‘trem-
metrô’”, respondi enfático, na certeza de que estava fazendo tudo certo. Ela
queria morrer! “Abaixe o braço, menino. Não precisa dar sinal nenhum!”, ela
disse, com firmeza expressa na voz. “Mas mãe, se eu não der sinal, como o
‘trem-metrô’ irá parar?” Mal houve tempo para discutir; o veículo começou a
diminuir a velocidade, as portas se abriram, e todos já se achavam a postos para
entrar.
A despeito de não ser profetiza, minha mãe conhecia o suficiente sobre os
horários de metrô, a ponto de saber quando havia picos. Ela acertara: não havia
sobrado qualquer lugar livre. Como eu já havia sido alertado e possuía índole
resignada, não decepcionei minha mãe: comecei a chorar!
“Eu quero sentar, ninguém vai dar lugar a um garotinho?”, era minha frase
entrecortada por lágrimas hollywoodianas. Comovente, não? Pois minha mãe
não achou. Ela me olhou feio e simplesmente ordenou: “Fique quieto e segure no
‘ferrinho.’” Sem muitas alternativas, dirigi-me para um canto e me apoiei em um
balaústre, chamado popularmente de “ferrinho” pelos paulistanos.
Não demorou muito para que eu percebesse o olhar de censura de minha
mãe. Eu lhe devolvi um olhar de indagação. Como tréplica, ela apontou com a
cabeça para o que estava atrás de mim. Eu me virei e percebi em que estava me
apoiando.
Ao meu lado naquele vagão, existia uma moça com deficiência física, que
se apoiava numa barra com as mãos. Ao vê-la, perguntei escandalosamente:
“Você tem um ferrinho só para você?”
Desconcertada, a moça não tinha alternativa a não ser conversar. “Não, a tia
tem um problema nas pernas. Quando era criança, não tomei vacina e peguei
uma doença que me deixou assim!”
“Sua mãe não te deu vacina?”, perguntei-lhe. “A minha dá vacina para mim.
Não é, mãe?” Àquela altura, minha mãe bem que gostaria de ter a capacidade de
se “teletransportar” para Saturno ou ter os poderes de Susan Storm, a mulher-
invisível! 11
Por mais constrangedora que seja, a curiosidade é natural às crianças. As
indagações que se repetem fazem parte do desenvolvimento saudável. Aliás, os
adultos também possuem sua cota de perguntas. Isso é aceitável. Entramos na
faculdade com algumas questões inocentes e saímos de lá formados – cheios de
dezenas de dúvidas esmagadoras! À medida que amadurecemos, não deixamos
de perguntar, apenas mudamos o tipo das dúvidas. Isso é natural. Temos o direito
de nos confundir, de julgar errado e ter limitações ao percorrer as intrincadas
avenidas do mundo.
E qual o problema com isso? Haveria algum espaço para a dúvida na vida
cristã? Não conheço ninguém em particular que fosse elogiado por questionar.
Como cristãos, associamos dúvida com descrença. Quem questiona, está fraco
na fé. Logo, a dúvida parece ser, se não propriamente um pecado, ao menos, o
primeiro passo antes da queda.
Uma boa definição explica a dúvida como um estado entre fé e
incredulidade. A dúvida não seria uma coisa ou outra, apenas um meio-termo. 12
Assim, os questionamentos não consistiriam necessariamente em algo errado em
si mesmo.
Apesar disso, o que é natural pode evoluir para uma atitude de descrença e
mesmo de teimosia obstinada diante daquilo que o Senhor revelou ser sua
vontade para o ser humano. Às vezes, essa atitude se inicia com uma simples
curiosidade, um questionamento que, caso não seja plenamente satisfeito, resulta
em insatisfação e desconfiança. Quando as indagações entram sem bater à porta
e puxam uma cadeira à mesa, surge certo tipo de ceticismo, ainda que discreto
como uma mariposa. Infelizmente, muitos cristãos não resolvem suas dúvidas –
limitam-se a conviver com elas. Dê uma boa olhada nas pequenas histórias
abaixo. Apesar de todas serem inventadas, será que você se identifica com
alguma delas?

Atmosfera carregada em Duvidolândia


Ao clicar no ícone do canto esquerdo, Jorge acessa a internet. Ele faz o
login e começa a pesquisar. Começa a ler tudo o que a esposa tem escrito em
todas as conversas. Cada contato é checado sem que Michele, sua companheira
há cinco anos, sequer suspeite. Os dois são felizes no todo. Entretanto, Jorge
sabe o que é ser enganado. Aconteceu durante um período de noivado com outra
moça. A noiva se relacionou com um de seus melhores amigos. Aquilo havia
arrasado o coração dele por meses – até conhecer Michele. O ciúme de Jorge
quase sufocou a nova namorada; porém, continuaram juntos. Casados, o ciúme
não diminuiu. Nem a desconfiança da parte dele.
Marcelo gosta de conferir a contabilidade de seu escritório após o
expediente. Ele e o irmão prosperam. Há funcionários novos e não se pode dizer
que eles continuem como um negócio familiar. E se alguém estiver roubando,
mesmo que seja pouco o suficiente para passar despercebido? Marcelo não
deseja correr o risco. Ser passado para trás? Jamais! A cada manhã, os
funcionários sentem a pressão, a cobrança, a desconfiança no ar. Alguns já se
demitiram. Será que motivados pela culpa?
O tempo que Bonifácio é ancião de sua igreja supera a idade dos demais
anciãos. Os colegas de ancionato, aqueles “das antigas”, ou se mudaram ou
“penduraram as chuteiras”. Restou a ele manter a bandeira hasteada e dar o
sonido certo. Imagine se ele deixaria a liderança nas mãos desses jovens
irresponsáveis e sem experiência? As coisas são decididas com o seu
consentimento ou simplesmente não podem acontecer. Alguns reclamam que
Bonifácio tem dificuldade para delegar tarefas. O pastor distrital tentou lhe falar
a esse respeito. No entanto, como confiar num pastor que ainda não chegou aos
30 anos de idade?
O que você diria de Jorge, Marcelo e Bonifácio? Suas suspeitas,
preconceitos e ressalvas são justificáveis? Ou apenas expressam inseguranças
pessoais, nem tanto relacionadas a fatores externos, como a experiências
negativas e temores escondidos? Você se identifica com eles? Sente que possui
dúvidas que sufocam seus relacionamentos? É assim que vivem determinadas
pessoas: como temerosos moradores de “Duvidolândia”, o paraíso da incerteza.
E o que dizer de seu relacionamento com Deus?
Obviamente, há pessoas que vivem em desarmonia com Deus devido à
incapacidade de aceitar a possibilidade de encontrar objetivamente a verdade –
chamamos a esses de “céticos”. 13 Há bons livros e artigos que eu indicaria para
os céticos. Todavia, esse capítulo trata de algo mais comum. Ele fala ao cristão
que não devolve o dízimo porque desconfia de como ele será usado. Trata da
jovem que se relaciona com um rapaz que não partilha e suas convicções
religiosas porque teme ficar solteira. Aborda o que há por trás da pessoa que não
persiste em oração, receosa de se sentir frustrada diante de um pedido não
atendido. Essas pessoas estão longe de ser enquadradas como céticas.
Estou falando de gente que frequenta a igreja por anos, levando a Bíblia de
bordas gastas na pasta de couro. Pessoas que se levantam para cantar no meio da
congregação sem serem notadas. Algumas se engajam nos ministérios da igreja e
servem de bênção para a comunidade; porém, não estão em paz. Acordam ao
som do despertador e, enquanto seu creme dental desliza pelas cerdas da escova,
resmungam diante do espelho, com um bocejo de incerteza. Elas leem a Bíblia e
sentem-se tocadas – e o sentimento evapora como a fumaça das fábricas. Ouvem
apelos de seus pregadores favoritos e tomam decisões – que costumam durar por
uma semana.
Estou falando com você!
Você já percebeu que suas perguntas que antes possuíam dentes inofensivos
como filhotes de chihuahua agora exibem caninos de tubarões? Você não ousa se
aproximar da zona proibida, aquele território sombrio onde a dúvida assobia
como um tufão. Portanto, aí está você: diante do acomodamento, sem provar a
plenitude revitalizante da fé. Entretanto, sem sofrer com os vermes das dúvidas
maiores. Sua dúvida fica no canto devido. E você segue a vida, equilibrando-se
tristemente entre o mundo da fé e da descrença, num estado caótico de dúvida
em suspensão. E não há solução para isso?
Sim, felizmente. Antes de mostrar como, quero que você não se sinta
sozinho: por isso, atente para este homem: o rosto vincado por dúvidas está bem
encoberto pela aparência de um zeloso sacerdote. Se você olhar com atenção,
verá que a insegurança dele é tão grande como a sua. Com a diferença: ele se
curou. E se ele pôde, você também achará bálsamo. Vamos ao começo.

Um religioso muito cético


Zacarias é um nome bíblico bem comum. E, semelhante ao seu nome,
estamos diante de um religioso comum, atuando de forma discreta em seu turno.
Nada de especial. Quando saiu da cama e calçou suas sandálias, Zacarias não
tinha a presunção de encontrar nada além do que se espera ver em um dia de
trabalho. Se você olhasse em sua agenda, não veria qualquer menção a algo do
gênero: “11 horas: encontrar-se com o anjo no templo.” Todavia, às vezes, o
extraordinário surge na esquina de nossa rotina comum.
A coisa aconteceu assim:

Conforme o costume dos sacerdotes, ele havia sido escolhido por sorteio para queimar o incenso
no altar e por isso entrou no templo do Senhor. Durante o tempo em que o incenso queimava, o povo
lá fora fazia orações. Então um anjo do Senhor apareceu em frente de Zacarias, de pé, do lado
direito do altar (Lucas 1:9-11, NTLH).

Claro que Zacarias sabia quem eram os anjos. Ele já havia lido sobre eles
na Bíblia Hebraica. Conhecia o relato da visita deles a personalidades como
Abraão, Jacó, Manoá e sua esposa (os pais de Sansão) e tantos outros. Ocorre
que você não esbarrava em anjos o tempo todo nas ruas de Jerusalém. Aliás,
fazia algum tempo desde que o último anjo fizera uma visita ao povo escolhido.
Muitos sacerdotes já nem acreditavam mais neles. 14
O que um anjo fazia ali? Sem dúvida, não tinha ido tomar uma xícara com
cevada! O mensageiro celestial portava um recado. Algo incrível aconteceria. E
Zacarias faria parte daquilo – por mais inacreditável que parecesse.
A primeira reação do sacerdote e futuro pai de profeta foi de medo. Ele se
sentiu profundamente aterrorizado pela companhia repentina. Você já teve medo
de algo que Deus fez? Já sentiu o coração ficar abaixo de zero com o toque do
Eterno? Era bom demais para se crer, mas estava lá, acontecendo diante dos
próprios olhos fora das órbitas!
Claro que o anjo tinha boas notícias. Zacarias veria um sonho concretizado.
Eu me recordo de uma sexta-feira, quando estive na sede da Associação
Catarinense. Três fatos espetaculares aconteceram: um velho problema, que
quase me fez desistir do ministério, foi resolvido. Simples assim! Em um dia, eu
tinha o sono perturbado. No outro, voilá. Conversando com o secretário do
Campo (na época do ocorrido), eu mal podia crer. Era assombroso; porém,
estava diante dos meus olhos. Eu achei incrível. Deus dizia que era pouco.
O secretário me perguntou se eu sabia do restante. E ele me informou: eu
voltaria a trabalhar na Educação, como pastor de escola. Fazia três meses que
deixara essa área para tornar-me um pastor auxiliar. A mudança foi positiva em
muitos aspectos. Houve crescimento. Em um primeiro momento, eu me assustei
quando a departamental de Educação manifestou interesse no meu retorno aos
colégios durante o concílio, no início daquele ano. Contudo, no transcurso dos
meses, eu havia sentido falta do contato com os alunos. E agora, eu teria isso de
volta! Fiquei maravilhado. E Deus no Céu, sorria, como se dissesse: “Douglas,
você ainda não viu tudo!”
Ao voltar de Florianópolis naquele dia, recebi um e-mail de meu amigo,
Denis Cruz. Ele escrevera para avisar que meu primeiro livro, Paixão Cega,
havia sido lançado pela CPB. Não contive minha alegria; afinal, três coisas
daquele tipo acontecendo simultaneamente, no mesmo dia? Eu comecei a ficar
assustado. Quando contei à minha esposa as três bênçãos, emendei uma
pergunta: “Agora, depois de tudo isso, não diga que você está grávida!” Se
tivesse dito sim, provavelmente um infarto impediria que eu escrevesse este
livro.
Zacarias também deve ter ficado ainda mais deslumbrado com a notícia de
que suas orações haviam sido atendidas e que em breve seguraria um filho nos
braços (Lucas 1:13). O cheiro de xampu infantil ficaria impregnado nas mãos
cheias de calos. Depois de tantos anos, ele e sua amada Isabel poderiam voltar a
pensar em enxoval e economias para as fraldas.
Contudo, não se trataria apenas de um sonho. O pacote completo incluía
uma solene responsabilidade. O menino seria especial. Um mensageiro de
alegria. Traria renovação e satisfação a um povo oprimido pela maldade. A
aridez da religião seria irrigada com a mensagem do profeta do Jordão.
O menino seria chamado João, nome que está associado à palavra “graça”.
Graça é quando o Ser supremo beija o pó que o cerca, o qual jamais poderá
beijar sua face em retribuição – eu e você somos esse pó, diante do glorioso
Deus que nos trata favoravelmente. Não merecemos e recebemos. Isso é graça.
Para transmitir a mensagem de amor com propriedade, o menino passaria
por um preparo altamente espiritual. Deus o escolhera para ser nazireu. À
semelhança de Sansão, João Batista assumiria o voto que implicava consagração
ao serviço espiritual. O não tomar vinho (ou quaisquer derivados da uva), não
cortar os cabelos e não encostar em mortos (mesmo familiares) eram as
prescrições básicas do nazireado. Alguns pregadores bem-intencionados
afirmam que Jesus também fez esse voto. Provavelmente partam de uma
confusão entre o termo nazareno (referente à cidade de Nazaré onde Jesus
cresceu) e nazireu. É improvável admitir que Jesus fosse nazireu não só pelo fato
de ele não ter cumprido os princípios do voto, mas porque o próprio Jesus
admitira o contraste entre sua condição e a do primo, João Batista (Mateus
11:18, 19; Lucas 7:33, 34).
Tudo aquilo soava fantástico. Até demais. Zacarias era um sacerdote, que
orava regularmente e que tinha diante de si a confirmação sobrenatural de que
Deus o ouvira. O que fez ele? Começou a exclamar “aleluia!”, enquanto pulava
de felicidade? Infelizmente, sua reação tinha o ranço da dúvida que persegue um
adorador amargurado:
Zacarias perguntou ao anjo: ‘“Como posso ter certeza disso? Sou velho, e
minha mulher é de idade avançada.’ O anjo respondeu: ‘Sou Gabriel, o que está
sempre na presença de Deus. Fui enviado para lhe transmitir estas boas-novas.
Agora você ficará mudo. Não poderá falar até o dia em que isso acontecer,
porque não acreditou em minhas palavras, que se cumprirão no tempo
oportuno’” (Lucas 1:18-20).
Com mal disfarçada descrença, o esposo de Isabel se manifestou. Talvez
fosse a vez do anjo se impressionar: “Como esses mortais conseguem ser tão
cegos?!”

Soltando a voz
O texto destaca qual seria a punição de Zacarias: sendo que sua fala
expressou descrença, sua mudez serviria para convencê-lo de que Deus é capaz
de realizar o que desejar. Às vezes, as maravilhas do Céu nos deixam
boquiabertos e mudos, de qualquer jeito mesmo…
Quando o Senhor levanta a voz, o silêncio humano deixa de ser mero
requisito para tornar-se o habitat do sábio – pois quem seria tolo para contestar
as palavras do Rei do Universo? No templo do silêncio, a alma reverencia quem
merece ser ouvido.
Foi fácil para o idoso sacerdote se conservar mudo? Nos meses seguintes,
ele não pôde comemorar a gravidez com Isabel, nem dizer que ela continuava
linda quando a barriga começou a se destacar. Não deu muitos palpites nas cores
do quarto da criança. Teve que permanecer quieto, de forma embaraçosa.
Contudo, chegou o dia da mudança: o sol se derramou pelas colinas e se
deitou sobre a grama, que agora se iluminava de forma especial. Pássaros
cantavam apaixonada e febrilmente. Todos na vizinhança acordaram cedo,
expectantes. Uma parteira estava profissionalmente ao lado de Isabel, insegura
pela gestação tardia. As contrações aumentaram, os gritos surgiram, os sorrisos
despontaram.
O bebê nasceu!
Zacarias, evidente, estava lá, na primeira fila. As circunstâncias lhe faziam
ter muito a comentar. Se pudesse, teria falado para todos de sua alegria. Todavia,
ele ainda estava sem palavras – literalmente. Os presentes reconheciam o
nascimento da criança como resultado da misericórdia divina sobre o casal
(Lucas 1:57); na verdade, como veremos, Deus estendia sua misericórdia sobre
todos ao levantar João Batista.
Oito dias depois, o menino deveria ser circuncidado, de acordo com a lei.
Seria uma grande festa, além de ocasião para que a criança recebesse um nome.
Segundo a tradição, era mais comum receber o nome de seu pai ou de algum
familiar. Quando Isabel, mãe de primeira viagem, disse que a criança se
chamaria João, todos objetaram. A saída foi perguntar ao pai como ele queria
nomear seu filho:

Então fizeram sinais ao pai do menino, para saber como queria que a criança se chamasse. Ele
pediu uma tabuinha e, para admiração de todos, escreveu: “O nome dele é João”. Imediatamente
sua boca se abriu, sua língua se soltou e ele começou a falar, louvando a Deus (Lucas 1:62-64).

Somente quando reconheceu a vontade de Deus (expressa na escolha do


nome de seu filho), Zacarias recuperou a fala. O sacerdote de fé vacilante havia
aprendido a lição. Como demonstração de sua confiança resoluta no Senhor de
Israel, ele cantou um belíssimo salmo (v. 68-79), um dos três que adornam a
introdução do evangelho de Lucas.
O estágio da dúvida ao louvor passa pelo reconhecimento de que Deus é
real. Isso pode ocorrer de várias formas: Pela leitura da Bíblia ou escutando as
palavras de um pregador; por meio de música ou literatura cristã; até mesmo
mediante a recordação daquilo que Deus fez ou ao testemunhar sua atuação em
nossa vida. O processo pode variar, mas o efeito é o mesmo. Fé revigorada.
Coração abastecido. Um olhar de calma e esperança lançado ao futuro. Certeza
das promessas divinas.
Leia o cântico de Zacarias. São palavras que ardem. Ficaram presas na
garganta. Nunca mais a Bíblia fez menção ao pai de João Batista ou a suas
palavras. É seu último ato. E ele cumpriu seu papel com louvor.
Se pudéssemos dividir didaticamente seu poema em algumas partes
significativas, perceberíamos que sua estrutura ajuda na divisão. Isso porque ele
se parece com os salmos do Antigo Testamento. Em vez de rimas, encontramos o
paralelismo, quando as linhas se repetem, se completam ou se contrastam. 15 Às
vezes, as linhas em paralelo formam uma estrutura mais complexa, chamada de
quiasmo. Isso acontece, por exemplo, quando a primeira linha (A) faz paralelo
com a última (A’) e a segunda (B) e terceira (B’) entre si. Talvez o assunto
pareça difícil ou muito técnico. Observe esse esquema resumido do cântico de
Zacarias:
Perceba as semelhanças entre as linhas marcadas com a mesma letra. O
tema central do salmo está relacionado à esperança messiânica, o maior sonho de
Israel. Quando Zacarias venceu suas dúvidas, ele conseguiu enxergar além de si
e contemplar panoramicamente o plano divino. A linha sem paralelo (D) é a
parte central do poema. Deus enviaria o Messias, predito pelos profetas do
passado e antecipado por um novo profeta, para libertar seu povo em virtude da
aliança que tinha com eles.
(A) A visita do Deus que redime seu povo – v. 68.
(B) A salvação predita pelos profetas do passado – v. 69, 70.
(C) Salvos dos inimigos – v. 71.
(D) A revelação da aliança – v. 72, 73.
(C’) Salvos dos inimigos para servir a Deus – v. 74, 75.
(B’) O conhecimento da salvação por meio do profeta atual (João Batista) – v.
76, 77.
(A’) A visita do sol que brilhará sobre o povo em trevas.
Hoje, o Senhor quer fazer um concerto com você. Novamente, o Messias se
manifestará – agora, em toda sua majestosa glória, iluminando as trevas desse
mundo com sua justiça. Compensa abandonar as fraquezas e devaneios. Ele está
voltando. Está perto. Vindo.
O povo de Deus recebeu a incumbência de lhe preparar o caminho. Ao
mesmo tempo, devemos crer na mensagem. É hora de experimentá-la. E de crer
como nunca.
Como Zacarias, deixe seu grito preso pela dúvida atravessar a garganta com
o design de um cântico de fé.

11
Nos quadrinhos, Susan Storm é uma integrante do Quarteto Fantástico,
equipe de super-heróis criada pelo quadrinista Stan Lee. Susan é a Mulher
Invisível, que além da habilidade de sumir de vista, projeta campos de força para
proteger-se.
12
Oswald Guinness, Encontrando Deus em Meio à Dúvida: A Segurança
da Fé Para Além das Questões Mais Difíceis da Vida (Brasília, DF: Palavra,
2011), p. 26.
13
Abordei a questão do ceticismo pós-moderno em meu livro Explosão
Y: Adventismo, Pós-Modernidade e Gerações Emergentes (Ivatuba, PR: IAP,
2013).
14
O grupo dos saduceus, influenciados pelo pensamento grego, não
acreditava em anjos, milagres ou determinadas manifestações sobrenaturais.
Esse grupo era composto justamente pela maioria dos sacerdotes do templo.
15
Uma ótima introdução ao paralelismo no Novo Testamento pode ser
achada em Kenneth E. Bailey, As Parábolas de Lucas (São Paulo: Edições Vida
Nova, 1995).
2. A VOZ NASCIDA NO DESERTO

S e você o visse, teria de se controlar: Quem não gostaria de corrigir aquele


pequeno furacão à base de umas boas palmadas?
Em 2004, eu trabalhei como instrutor bíblico em Guarulhos, minha cidade
natal. Visitava diversas casas diariamente. Em uma delas, Severina 16 vivia com
o filho, que contava com quatro anos de idade.
Você se sentiria constrangido por estar lá: um lugar apertado, com roupas e
brinquedos espalhados, talvez reflexo da desestrutura da própria Severina. Nada
daquilo se pareceria com o tipo de ambiente apropriado para qualquer família.
Além disso, ficava patente a ausência de controle da mãe sobre o filho.
Certa ocasião, nós começamos o estudo como fazíamos costumeiramente.
Havia deixado minha pasta em um canto. Nela, eu guardava todo o material de
trabalho. Enquanto abríamos a Bíblia, percebi que o menino se aproximava com
a intenção de mexer na pasta. “Deixe minhas coisas aí”, disse com firmeza. O
menino se voltou para trás, estarrecido. Sua expressão indicava que ele não
estava acostumado a ouvir ordens. “Agora, sente-se!”, falei usando o mesmo
tom. Para a surpresa da mãe, o garoto sentou-se, ainda surpreso por algo que não
o acostumaram a fazer – prestar obediência.
Claro que a mãe vibrou. “Pastor, ele obedece ao senhor!”, admirou-se
Severina. Em poucos segundos, ela descobriu que eu poderia ser um trunfo em
suas mãos. Acredite você ou não, ela me pediu para mandar o filho – o filho dela
– guardar os brinquedos jogados por toda parte. Obviamente, eu me recusei.
Afinal, há atitudes que apenas os pais podem e devem tomar em prol dos filhos;
exercer autoridade com sabedoria é uma delas. Em vez de simplesmente dar
algumas ordens ao filho dela, fiz questão de lhe dizer, da melhor forma que
pude, que ela precisava assumir o comando.
Se você visse, teria de se controlar: ali estava Severina, mostrando
arranhões e marcas de mordida que recebia do filho, um garotinho com quatro
anos de idade. Quem não gostaria que aquela mãe condescendente aprendesse a
corrigir devidamente o filho?
À saída, senti que deveria orientar a mulher. Deveria amar o próprio filho a
ponto de impor limites. Ninguém cresce feliz sem receber dos pais ou
responsáveis noções claras de seu dever. Disciplinar, de forma redentiva, faz
parte do plano divino para a educação dos filhos.
Enquanto conversávamos ao portão, o menino empurrava um carrinho pelo
chão do pátio. “Pastor, o senhor não é o primeiro a me falar isso. Outras pessoas
estão me dizendo que não posso educá-lo desse jeito. Às vezes, eu me pergunto:
O que será do meu filho quando ele crescer?” Naquele momento, aconteceu algo
que me marcou.
O filho de Severina veio para próximo de nós, com o carrinho ainda em
mãos. Ele havia escutado toda a conversa. Aquele garotinho, de apenas quatro
anos, ouvira a pergunta final da mãe – “O que será de meu filho quando ele
crescer?” – e, em resposta, disse com uma naturalidade horripilante: “Vou pegar
uma arma e atirar em você.” Em seguida, ele retornou para onde estava e voltou
a brincar tranquilamente.
A falta de controle dos pais sobre os filhos atinge todas as camadas da
sociedade. Como capelão de colégios, já convivi com famílias que, embora
esbanjassem bens materiais, externavam sua infelicidade de forma inegável.
Quando adolescentes exibem comportamento agressivo, desordeiro em excesso e
são frágeis emocionalmente, é possível que as coisas não estejam bem em casa.
Os valores se consomem na lama em uma época que se banqueteia com
elementos tais como prestígio, prazer e aplausos. Com quais sabores temos feito
as novas gerações salivarem? E quais saberes transmitimos?
Os ponteiros dos relógios são adagas que nos impulsionam para um estado
de não reflexão. “Apenas corra, sem ver as consequências” – parecem nos dizer.

Ritmo legítimo?
Jonathan Swift não tem uma obra literária de grande expressão, mas marcou
presença na literatura mundial com o clássico Viagens de Gulliver. Num dos
momentos do livro, o cirurgião e aventureiro Lemuel Gulliver sobrevive a um
naufrágio e chega inconsciente às praias do reino de Lilipute, onde vivem
pessoas do tamanho de dedos.
Por sinal, essa desproporção causa pânico nos nativos, que resolvem
prender o “gigante” com amarras antes que ele desperte. Por precaução, retiram
todos os objetos “perigosos” encontrados nos bolsos do náufrago.
Dos bolsos de Gulliver surge um relógio, engenhoca desconhecida pelos
liliputianos. Eles passam a considerar a peça como uma espécie de oráculo, por
observarem que o estranho não tomava uma decisão antes de consultar o curioso
mecanismo.
Acho a passagem deliciosa e há muito reflito na forma sarcástica como ela
expressa uma observação sobre a nossa cultura: o tempo é nosso oráculo. Nós
não apenas o consultamos, mas vivemos em função dele. Cronometramos a vida
na esperança de que, ao dividi-la e mensurá-la, possamos controlar seu curso.
Infelizmente, com que frequência nós nos tornamos escravos sentindo as
chibatadas cruas do tempo em vez de o dominarmos!
Pertenço a uma geração superestimulada. Nossos pais não nos queriam
desocupados – por isso, pagavam cursos de inglês ou informática, judô, natação,
escolinha de futebol ou qualquer outra atividade do gênero. Cresci jogando os
games competitivos, desafiado sempre a passar fase de fase. Os adultos que têm
minha faixa etária são como eu. Apressados, quase neuróticos. Envolvidos com
muitas coisas. A simultaneidade das tarefas é imprescindível. Isso significa
agenda com folhas maiores. E, às vezes, poucas horas de sono à noite. 17
Minha esposa é uma típica workaholic. Há ocasiões em que apareço na sala
dela. O fim do expediente já aconteceu há algumas horas; porém, ela continua
correndo, digitando comunicados ou revisando as provas que os professores
enviam. Eu bato à porta e mal sou notado. Ela está refém de suas obrigações (já
se sentiu assim?). Costumo brincar com ela. Eu entro e digo: “Vim salvar você
de você mesma.”
Se mesmo no contexto de uma instituição confessional devemos lutar
contra a tirania dos ponteiros, imagine no ambiente secular. Em um colégio
cristão, trabalha-se para promover uma educação restauradora. Em uma empresa
secular, as pessoas buscam lucros e promoções. Você trabalha duro, faz cursos,
especializa-se, aumenta a produtividade. O mínimo esperado é receber um elogio
do supervisor. O gerente tem de ver tudo o que você realizou durante a semana.
Trabalha-se por dinheiro, status e valorização. Tudo ao redor nos diz isso.
Sobra pouco tempo para acompanhar a lição de casa dos filhos ou visitar os avós
doentes.
O pastor que me batizou voltou dos Estados Unidos para visitar nossa
igreja, na cidade de Guarulhos (SP). Contou algumas experiências. Uma delas
tratava de um membro de sua congregação. O ministro o conhecera anos antes,
ainda no Brasil. Era um líder envolvido em diversos ministérios. Trabalhando no
exterior, ele reencontrou o mesmo homem. Quanta mudança! Ele mal ia à igreja.
Quando o fazia, sua participação se resumia a ocupar um lugar em um dos
bancos.
Notando a diferença, o pastor resolveu visitar aquele membro.
Amorosamente, ele perguntou o que estava acontecendo. “Pastor”, respondeu o
cidadão, “eu vim para esse país porque queria dinheiro. Se eu estivesse
interessado em continuar envolvido com a igreja, teria permanecido no Brasil”.
O sonho americano é o pesadelo que impede a muitos de sonhar com o Céu.
Se quisermos contemplar a Deus, é tempo de frearmos ambições. Casa na
praia e viagens a Orlando não podem estar no topo da lista. É hora de pensar
menos em horas extras. Gastar menos no shopping. Menos programas de
televisão. Mesmo as coisas boas precisam ser usadas com temperança.
A vida de “sim” com Deus exige uma série de “nãos”. Não à toa, quando
Deus precisou de homens para serviços especiais, ele os levou ao seu centro de
treinamento chamado deserto – um lugar onde videogames e smartphones são
inúteis. No deserto, ninguém se preocupa com a última moda ou com o acesso à
internet. O deserto evoca as questões primordiais, relativas à sobrevivência.
E é para lá que nós vamos.

Desacerto, deserto e concerto


Observe como Mateus apresenta João Batista:

Naqueles dias surgiu João Batista, pregando no deserto da Judeia. Ele dizia: “Arrependam-se,
porque o reino dos céus está próximo.” Este é aquele que foi anunciado pelo profeta Isaías: “Voz do
que clama no deserto: ‘Preparem o caminho para o Senhor, façam veredas retas para ele’” (Mateus
3:1-3).

A mensagem do filho do deserto era simples e essencial, como as condições


de vida à sua volta. João trazia um ensinamento não apenas fundamental, mas
fundamentado naquilo que os profetas disseram. Principalmente Isaías (40:3) e
Malaquias (4:5) predisseram sobre a obra dele.
Qual o motivo de Deus ter escolhido o deserto para o desenvolvimento de
seu mensageiro, em uma época de simplicidade campesina? Convenhamos: o
primeiro século não possuía a gama de desafios que o século 21 apresenta.
Outdoors para todos os lados, fumaça de carros, gente apinhada correndo para o
metrô. Sem dúvida, se viagens no tempo existissem fora da ficção, um israelita
daquela época ficaria estarrecido com a balbúrdia que se tornou a nossa vida
cotidiana. Até que ponto João precisaria sair das vilas de seu tempo para entreter
comunhão com Deus?
É sempre arriscado comparar períodos históricos tão distantes. Contudo,
todos têm seus desafios específicos. O ranço do mal perverte todas as melodias
do coração humano. E em qualquer época. Simultaneamente, o Espírito Santo
permeia a cultura, manifestando-se de formas diversas.
Sem dúvida, havia na sociedade israelita pecados de cujo convívio João
teria de evitar se quisesse cumprir sua missão. O desacerto dos contemporâneos
evocava a urgência do deserto.
Após o retorno do exílio na Babilônia, os judeus se viram dominados por
outros povos mais de uma vez. Após a revolta dos Macabeus, durante o período
selêucida, começou a ser formada a sociedade judaica dos tempos do Novo
Testamento. A partir dessa época cresceu a importância dos fariseus.
Eles passaram a influenciar grande parcela da população, representando a
imagem tradicional do judaísmo. 18 O maior problema com a tradição farisaica é
sua visão sobre o pecado. Para eles, o pecado era mais um ato do que uma
condição. Assim, se você corrigisse o exterior, poderia agradar a Deus com seus
esforços. No julgamento celestial, seriam postos palavras e pensamentos bons
em um dos lados da balança, e os maus no outro lado. Se as boas ações pesassem
mais, parabéns – a eternidade seria sua. Caso contrário, você estaria condenado
para sempre. 19
As cerimônias religiosas se tornaram a religião em si. Quando pompas e
rituais ganham corpo, a espiritualidade perde sua alma. Com tons sombrios,
Ellen G. White traça uma radiografia a religião de Israel:

Mas os judeus perderam a vida espiritual de suas cerimônias, apegando-se às formas mortas.
Confiaram nos sacrifícios e ordenanças em si mesmos, em lugar de descansar naquele a quem
apontavam. […] Mediam sua santidade pela multidão de cerimônias, ao passo que tinham o
coração cheio de orgulho e hipocrisia. 20

A luz do Céu não atingia os porões da consciência porque havia lixo


entupindo o acesso. Se o profeta deveria mudar o quadro, não poderia ficar
exposto à corrupção do cenário espiritual. Nesse aspecto, não houve mudanças
entre o que Deus exigiu de João Batista e o que pede dos mensageiros que
sustém na atualidade.
Como adventistas, fomos chamados para viver a luz desse tempo.
Pecadores imperfeitos? Sim, eu e você! Contudo, Deus quer nos usar. Ele tem
planos delineados que contam com nossa participação. No entanto, será
impossível que a santidade se vincule a quem não busca se separar das distrações
seculares. Se quisermos aceitar a honra de servir a Deus, devemos nos despir das
influências que nos levam a tratar a realidade segundo um modelo contrário às
Escrituras. Somos chamados a permear todas as áreas da existência com a
presença transformadora do Espírito. Isso implica que, em aspectos como
entretenimento, trabalho, relacionamentos e vida acadêmica (entre outros),
viveremos como autênticos cristãos.
No caso de João Batista, não só o ambiente teria de ser outro. Uma
mensagem distinta exige uma mente limpa para ser armazenada. João deveria
estar acostumado a hábitos simples:

João vestia roupas feitas de pelos de camelo, usava um cinto de couro e comia gafanhotos e mel
silvestre (Marcos 1:6).
[…] Ele nunca tomará vinho nem bebida fermentada, e será cheio do Espírito Santo desde antes
de seu nascimento (Lucas 1:15).

Equilíbrio e simplicidade seriam encontrados tanto no figurino quanto no


cardápio de João Batista. Suas roupas não o identificavam tão somente com os
profetas, mas também com os pobres. Roupas de pelo de camelo eram
compradas por gente que não possuía limites suficientes no cartão para adquirir
vestes de lã. O pelo de camelo era grosso e áspero. Os gafanhotos também
estavam no cardápio das camadas mais simples, sendo cozidos até hoje pelos
beduínos. Alguém poderia dizer: “E quanto às abelhas? Não é muito comum vê-
las no deserto!” Sim, por isso muitos creem que se trate de mel de tâmaras,
encontradas num oásis próximo a Jericó. 21
João Batista cresceu treinando com a disciplina de um pianista chinês. Nada
de supérfluo. Fora com o desnecessário. Abaixo o excesso. Sua rotina era clara e
limpa. Seus passatempos, comedidos. Seus prazeres, saudáveis.
Durante meu ministério, pude encontrar jovens educados em lares
adventistas. Muitos me impressionaram com sua inteligência e conhecimento
bíblico. Destacavam-se e iluminavam os colegas. Deus usou seus pais, e o
resultado estava ali.
Infelizmente, conheci outros. Vinham de lares onde o culto familiar não era
um hábito. Como sei disso? Era nítido: esses meninos não possuíam a menor
noção de reverência. Seu contato com Deus era superficial. Alguns deles se
converteram de verdade, enquanto boa parte abandonou a fé.
Será que o lar de João Batista não continua transmitindo preciosas lições
para as famílias adventistas no século 21?
Em que hábitos os lares que dizem crer no breve retorno de Jesus estão
iniciando seus filhos? Quais princípios de alimentação e modéstia cristã são
incentivados? Como o estudo da Bíblia é dirigido? Se esses assuntos nem fazem
parte da preocupação dos pais, ou motiva seus esforços e orações, é impossível
que a mensagem do adventismo sobreviva nas próximas gerações.
Um concerto com o regente do Universo precisa estar em pauta. Do
contrário, corremos o risco de nos tornar consumidores de uma mídia religiosa
ávida em oferecer entretenimento. Pregadores que comovem com histórias.
Músicos virtuosísticos. Grandes eventos. Muito choro e emoção. Se a vida cristã
se resumir a isso, dificilmente Jesus encontrará um povo preparado.
Fracassaremos. Lamentavelmente, fracassaremos.
Assim como João Batista, precisamos devotar a vida a anunciar o Messias
que está às portas. As pessoas precisam olhar em nossos olhos e saber que
cremos nessa esperança. Precisam sentir que temos fé além de palavras
apropriadas. Querem ver cristãos, não demagogos religiosos.
Passa da hora de assumirmos quem somos perante o mundo.
Se o relógio, as roupas, os pratos e a vida não nos acompanham à igreja,
então poderíamos dizer que nosso cristianismo é o mesmo encontrado no deserto
do Jordão?
Ore comigo:
“Senhor, em nossa fragilidade e hipocrisia, confessamos que o Céu está
longe de nossos objetivos, porque pensar nele representa abandonar sonhos
importantes para nós. Significa abrir mão de prazeres que nos confortam e
confortos que nos satisfazem. No entanto, tem de ser assim mesmo: não
podemos comungar com o pensamento dessa época e com a tua Palavra. É
necessário escolher onde queremos estar, a quem serviremos. Como João
Batista, ajuda-nos a ser íntegros. Queremos viver em função da mensagem do
Céu. Constrói nossa vida, carreira, família e nosso futuro sobre o sólido alicerce
das Escrituras. Conscientiza-nos de que, se esperamos pelo Messias, tudo em
nossa vida deve se ajustar a essa expectativa de recebê-lo. Abençoa-nos nesse
sentido, em nome do Senhor Jesus. Amém.”

16
Para proteger os envolvidos, usei pseudónimo.
17
De forma mais completa, abordo as questões envolvendo a nova geração
e o adventismo no já mencionado Explosão Y: Adventismo, Pós-Modernidade e
Gerações Emergentes (Ivatuba, PR: IAP, 2013) e em Adventismo para uma nova
geração: como viver a fé em um contexto digital (Ivatuba, PR: IAP, 2014).
18
Menahem Stern, “A revolta dos Asmoneus e seu papel na história da
religião e da sociedade judaica”, em Vida e valores do povo judeu (São Paulo:
Perspectiva, 1999, 2a ed.), p. 100.
19
George R. Knight, The Pharisee’s Guide to Perfect Holiness: A Study of
Sin and Salvation (Boise, ID: Pacific Press, 1992), p. 18-21.
20
Ellen G. White, O Desejado de Todas as Nações (Tatuí, SP: Casa
Publicadora Brasileira, 2008), p. 29
21
David H. Stern, Comentário Judaico do Novo Testamento (Belo
Horizonte: Atos; São Paulo: Didática Paulista, 2008), p. 42.
3. VIVER PARA A MENSAGEM

E nquanto você é conduzido a seu posto, os gritos, assobios e aplausos


desencadeiam a liberação de sua adrenalina. Suas pernas não ostentam
muita firmeza. Mãos e braços parecem tão fora de lugar que melhor seria não tê-
los. Basta, porém, olhar a figura carismática, trajada com um terno sofisticado,
para que você se acomode no ambiente.
O apresentador desfere um sorriso macio. Você se contém, o corpo agora
está aprumado, encarando a plateia. “É melhor sorrir”, você pensa, “porque
estou diante das câmeras”. “Bem, vamos à pergunta”, diz o seu interlocutor com
uma ousadia polida.
É hora de se concentrar; o programa oferece um valor mirabolante, e algo
lhe diz que essa é a sua oportunidade. “Muita atenção: eu vou dar as
características de uma pessoa que marcou a história. E você terá de me dizer
sobre quem eu falei. Está preparado? Escute com atenção!
“O pai era um carpinteiro”, prossegue a voz levemente anasalada. “Essa
pessoa não nasceu como fruto natural do relacionamento de seus pais; apesar de
fazer sucesso com seus sermões, dizia não desejar o poder do mundo. Ela
procurou instituir uma ordem mundial vivendo entre religiosos hipócritas e se
apresentava como juiz de toda a Terra.” Depois da pausa dramática, o
apresentador prossegue: “Valendo o grande prêmio da noite, responda agora
quem é essa pessoa?”
O cronômetro passa a regredir. O auditório suspenso. Você sorri triunfante,
certo de que a pergunta está muito fácil. Nesse ponto, sua mão aperta o botão do
painel à frente e você diz convicto “Jesus Cristo”. O apresentador mantém o
suspense e anuncia que a sua resposta está e… e… errada!
O personagem é o frade Hildebrando!

Parece, mas não é


Surpreso com isso? Alguns fatos sobre a vida do frade Hildebrando: seu pai
realmente era um carpinteiro, cujo nome era Banizon. Como ele pode não ter
nascido do relacionamento natural de seus pais? Em verdade, sua mãe adulterou
– os historiadores creem que Hildebrando fosse de fato filho de seu tio materno,
o abade do convento de Nossa Senhora Aventino.
Concluídos os estudos, Hildebrando se fez presente na corte do imperador
Henrique, o Negro; alcançando grande sucesso com os seus sermões naquela
ocasião, foi designado para realizar uma reforma no mosteiro de São Paulo, em
cuja direção proibiu a presença feminina (razão de alguns escândalos).
Apesar disso, uma das mais belas serviçais foi apanhada em constrangedora
situação justamente com... Hildebrando.
Acima de tudo, a terrível biografia de Hildebrando revela seu desejo pelo
poder e também os crimes que cometeu para alcançar seus objetivos. Chegaria o
momento de ver sua empreitada lhe trazer o êxito. Por ocasião do falecimento do
papa Alexandre II, os cardeais se reuniram na Basílica de São Pedro, buscando
eleger um nome para ocupar o trono pontifício.
Nas ruas, alguns padres se puseram no meio da multidão passando a gritar
por Hildebrando, e o povo não tardou a repetir a aclamação. Esse fenômeno de
massa levou à eleição de Hildebrando, que sendo arquidiácono já atuara como
legado papal.
Assumindo a cadeira de São Pedro, o frade Hildebrando, aliás, Gregório
VII, aos 60 anos, trabalhou durante o seu pontificado (1073-1085) para
estabelecer seu domínio temporal. Para ele, ser representante de Deus sobre a
Terra significava governar o mundo. Em virtude de sua gestão agressiva, a
Gregório VII se deve a responsabilidade por inúmeras guerras e mortes. Um
exemplo disso foi a famosa contenda das Investiduras.
Gregório reclamou exclusivamente para si a autoridade de nomear bispos,
entrando em choque com o imperador germano Henrique IV. Os revezes se
sucederam de ambos os lados. O monarca chegou mesmo a ser forçado a viver
por certo período uma vida simples, abrindo mão de suas regalias e posição de
comando.
Temendo o pior, o rei não esperou para encontrar-se com o papa no concílio
em Roma. Após algumas negociações (envolvendo ouro), Gregório recebeu e
absolveu Henrique que, em jejum, suportou os rigores do inverno por três dias
vestido de maneira reles, descalço, enquanto esperava pela audiência à porta do
castelo de Canossa!
Em outra atitude polêmica, durante um concílio, Hildebrando afirmou
preferir padres devassos, sodomitas (homossexuais) e até incestuosos a aqueles
que se casavam! 22
Creio que já é o momento de pararmos e refletirmos: um rápido olhar sobre
a vida de nosso Salvador Jesus Cristo e a do frade Hildebrando, que assumiu o
pontificado como Gregório VII, pode revelar algumas coincidências. E elas não
passam disto: meras coincidências. Comparando os dois, encontramos dois
homens de princípios diferentes. Neles, a maior distinção estava na essência da
personalidade: o caráter.
Ser cristão tem pouco que ver com o que você afirma crer. Na verdade, tem
que ver com suas crenças reais, aquelas que afetam seu caráter.
Todos já caíram no erro de confiar em pessoas que não eram exatamente o
que pareciam – de um pedinte a um funcionário. É desagradável e frustrante
descobrir que alguém não é confiável. Há alguns anos, certa empresa fez vários
vídeos de comerciais com situações hilárias, que geralmente não eram o que
pareciam.
Em um desses vídeos, dois médicos atendiam o paciente, quando o mais
novo começou a se incomodar com uma mosca. Depois de persegui-la, consegue
finalmente matá-la com o desfibrilador. Enquanto isso, um garotinho e sua mãe
chegam ao hospital e avistam um curioso momento: um dos médicos diz para o
outro, olhando para o inseto morto sobre o paciente e ainda com o aparelho nas
mãos: Acho que o matei! Como nos demais comerciais da série, aparece a
mesma frase no fim: “Não julgue rapidamente.”
Julgar rapidamente é se deixar levar pela mera impressão das coisas. Uma
análise mais profunda pode confirmar ou desmentir a ideia inicial. Quando
olham para nós, muitos podem ter a opinião de que somos cristãos consagrados e
comprometidos. O que diriam se olhassem mais detidamente?
Somos razão de decepção? Levamos outros a se afastarem de Cristo, em
função de nossa péssima conduta, superficialidade ou intolerância? Somos o que
parecemos, aquilo que nosso crachá de “adventistas” indica aos olhos de todos?
Como superar esse cristianismo nanico e fragmentado, que restringe o
Senhor a poucas e convenientes esferas da vida e que ignora sua influência para
além das questões “espirituais”? De que maneira o Jesus do fim de semana é
transportado para as atividades da semana? Vamos olhar de perto um exemplo de
integridade e robustez espiritual.
João Batista esteve no deserto porque Deus quis que ele se ajustasse à
mensagem necessária para sua época. Se ele deveria pregá-la, precisaria estar à
altura dela. João foi treinado em função de um objetivo claro e se adequou às
tarefas que teria ao longo de seu ministério de profundo impacto. Jerusalém não
seria a mesma depois da pregação do mais famoso primo de Jesus.
Se você vivesse no primeiro século e quisesse ter ideia de como seria o
Messias, mesmo antes de sua vinda, bastava olhar para João Batista. Ele era a
antecipação do caráter e da pregação de Cristo. Um estudioso do Novo
Testamento expressou o mesmo pensamento da seguinte maneira:

João é “o começo das boas-novas de Jesus” porque Elias deveria “vir primeiro para restaurar
todas as coisas”. Desse modo, o que ele dizia ou fazia não importava tanto quanto quem ele era. 23

O segredo de João foi ter se identificado tanto com sua mensagem a ponto
de ser difícil dissociá-lo dela. Ele não era uma pessoa até a soleira da porta de
sua casa e outra da porta para dentro. Sua vida estava despida do senso do
politicamente correto. Vaidades não lhe convenciam. Estamos diante de um
homem que descobriu que agradar a Deus é o melhor da vida.
Cabe perguntar: Qual era exatamente a mensagem que João Batista tinha a
transmitir? Vale descobrirmos a reposta.
O evangelho do Jordão
Lá no Jordão, um homem vestido de forma exótica começa a dizer
impressionantes verdades. Os longos cabelos encobrem parcialmente os olhos.
Estes irradiam tamanha percepção que, caso você se demore muito em olhar para
eles, ficará com a impressão de que eles absorvem todos os seus segredos mais
íntimos. A voz desse pregador é desafiadora, mas cheia de entusiasmo. Ele
atende pelo nome de João.
A mensagem desse surpreendente profeta tem um centro: arrependimento.
Não se trata de se desculpar por erros ocasionais; vai além disso. João chamava
o povo de volta a Deus. Retornar para Deus implica abandonar a rota escolhida
pelos próprios pés. A urgência do arrependimento aumentava, em virtude da
chegada do juízo divino (Lucas 3:7). Esse julgamento não dizia respeito apenas
ao fim de tudo. O “reino dos céus está próximo” (Mateus 3:2) porque seria
manifestado na pessoa do Messias – Jesus, a quem João antecipava. Desse
modo, ouvindo João e sendo levado a Jesus, qualquer pessoa experimentaria a
essência da eternidade.
O que é religião? O mundo precisa disso? Em tempos em que o termo
“religião” aparece desgastado (devido, principalmente, aos escândalos), ele é
evitado mesmo entre os cristãos. Religião é identificada com formalismo
religioso, com regras excessivas e uma herança cultural maciçamente rejeitada.
Não obstante, religião permanece aventura empolgante, sentimento
realizador e pensamento excelente. Religião: a mão que oferece capa ao nu, o
livro que se abre para o inquiridor, a esperança para quem morre. A luz da
religião é um grito quebrando o silêncio das trevas ao longo da história.
Embora pingasse a superstição sobre a seda da tradição bíblica, houve
alvejante disponível àqueles que queriam remover a mancha e redescobrir a
verdade. Afinal, por meio do compromisso religioso com o Deus supremo,
quantos não puderam obter o verdadeiro significado para a vida?
Olhe com atenção: embora profundamente espiritual, a pregação de João
Batista tinha algo a dizer para o cotidiano das pessoas. O preparo para o reino
incluía aspectos práticos, consequentes de quem havia se voltado em
arrependimento sincero para Deus.
É importante notar as instruções do profeta do Jordão a seus discípulos:

“O que devemos fazer então?”, perguntavam as multidões. João respondia: “Quem tem duas
túnicas dê uma a quem não tem nenhuma; e quem tem comida faça o mesmo.” Alguns publicanos
também vieram para serem batizados. Eles perguntaram: “Mestre, o que devemos fazer?” Ele
respondeu: “Não cobrem nada além do que lhes foi estipulado.” Então alguns soldados lhe
perguntaram: “E nós, o que devemos fazer?” Ele respondeu: “Não pratiquem extorsão nem acusem
ninguém falsamente; contentem-se com o seu salário” (Lucas 3:10-14).

Nada nas respostas de João sugere o evangelho do espetáculo, em que a


performance humana substitui o Espírito. Tampouco, existe aqui frieza
intelectual, que se preocupa com questões marginais. A essência do
reavivamento promovido por João não permitia que a cabeça dos ouvintes
ficasse nas nuvens, enquanto seus pés eram plantados no ar. Não há nada de
místico ou irreal. As palavras de João nos confrontam com nosso egoísmo e
preconceito. Ele apresenta a verdade de Deus de forma abrangente, sem reduzi-
la, mesmo que ela seja contextualizada para atender melhor à realidade dos
ouvintes.
De forma geral, João transmitia a mesma moral prática do Antigo
Testamento, que voltava os olhos – e as mãos – na direção dos desfavorecidos.
“Dividir a capa com quem não tem” assume hoje várias possibilidades.
Note que o precursor de Jesus estendeu a mão até a quem não recebia
qualquer respeito da sociedade. As classes mais odiadas eram receptivas ao
evangelho do Jordão. Entre aqueles que faziam fila para ouvir a mensagem,
estavam os publicanos.
Os publicanos da Bíblia são judeus que serviam de auxiliares aos
publicanos romanos. Eles cobravam imposto em nome de Roma, que dominava
a região. A aversão dos judeus à dominação romana levava essa classe a ser
reconhecida como traidora da pátria. Esses cobradores corruptos gozavam da
fama que os políticos possuem atualmente. Certamente, havia publicanos
honestos, como hoje há políticos honestos. No entanto, esses geralmente
constituíam a exceção.
Quando um grupo deles sinceramente perguntou a João como deveria ser a
vida após o arrependimento, o profeta não lhes disse que deveriam deixar sua
ocupação, muito menos que a questão fosse irrelevante. Ele lhes falou para
cobrar o devido, uma vez que era comum a extorsão, motivo dos publicanos
serem quase todos bem-sucedidos financeiramente.
Talvez alvo de ódio maior, os soldados também se encontraram com João.
Violência e extorsão faziam parte de seutrabalho. João lhes colocou um limite –
seu soldo. Deveriam ser justos e não aceitar suborno. A mensagem do Batista
desconhecia fronteiras nacionais, visto que esses soldados não pertenciam ao
povo de Israel.

O Céu: Uma fuga?


Olhe para o quadro atual: tensões internacionais, tráfico de crianças, os
lucros exorbitantes da indústria pornográfica, a banalização da violência, os
escândalos políticos e as crises econômicas. O ator Gerard Butler comentou algo
nesse sentido:

Hoje há um grande medo nas cidades grandes e vivemos com medo porque sabemos que somos
muito vulneráveis a coisas como o terrorismo ou a um chefe de governo que decida fazer alguma
coisa estúpida a ponto de mudar o curso da história. E conforme a tecnologia avança, crescem os
perigos. Nosso mundo não é lugar seguro. 24

“Nosso lar não é aqui.” Ouvimos isso constantemente no meio cristão. O


sentido é óbvio: temos uma esperança para além desse mundo. Ao mesmo
tempo, essa espécie de jargão religioso acaba confundindo. Não me refiro à
reação de não cristãos. Alguém diria, em tom de gracejo, que os seguidores de
Jesus são ETs assumidos! A confusão maior parece se manifestar entre os
próprios adeptos da cruz.
Embora o mundo se apresente manchado pelo mal, e tragédias apontem
para um fim próximo do mundo físico como o conhecemos, temos de ter cautela.
Ao assumir que não pertencemos definitivamente a esse mundo, não podemos
nos esquecer de que temporariamente estamos nele. E enquanto aqui estivermos,
temos de viver de forma qualitativamente superior em comparação com aqueles
que se pautam por outras perspectivas, quer religiosas, quer filosóficas.
A recusa em pertencer a esse mundo jamais deve expressar certo niilismo
sutil, em virtude de decepções pessoais ou de perdas em qualquer natureza.
Afinal, o que nos move a ser cristãos? Apenas o fato de não termos um emprego
melhor, uma casa maior ou um carro mais novo?
São elementos como os citados que provocam a sensação de mal-estar nos
cristãos em relação ao mundo? O motivo pelo qual resistimos à ideia de viver
apenas a vida presente é por que somos inferiorizados de alguma forma? Se for o
caso, Nietzsche estaria correto ao atrelar aos seguidores de Cristo a chamada
“moral de escravo” – uma frustração que forçaria um nivelamento por baixo da
humanidade.
Pense: a razão maior para desejar outro lar deve ser a identificação com
Cristo: “Se o mundo vos odeia, sabei que, primeiro do que a vós, me odiou a
mim” (João 15:18, ARA). A perseguição contra os membros da família de Deus
se explica como sendo um reflexo da perseguição contra o próprio Jesus (v. 20).
No entanto, felizes seriam os que se identificassem com Jesus e os profetas do
passado, suportando idêntica oposição (Mateus 5:10-12).
No aspecto positivo, a identificação com Jesus nos leva a buscar a herança
prometida, e os que a desejam são identificados por Deus como seus filhos
(Hebreus 11:13-16). Logo, fecha-se um ciclo: nós nos identificamos com Deus,
desejamos a herança (a pátria superior) e Deus, em pessoa, identifica-se conosco.
Claro que essa perspectiva, longe de levar à alienação ou ufanismo,
constitui uma vigorosa visão, capaz de nortear a atuação dos cristãos no mundo,
de forma distintiva – nas artes plásticas, literatura, ciências, medicina, música e
política, entre outras áreas. Mesmo que nosso lar não seja aqui, isso não implica
que devemos recusar viver de forma digna a vida atual, até como forma de
aliviar o sofrimento alheio; melhorar os serviços sociais; e, elevar os padrões
morais, representando por meio de todas essas maneiras a vontade divina,
enquanto nos preparamos para a existência futura – a qual será definitiva!
Acho que João Batista concordaria que precisamos viver como cidadãos do
Reino, em vez de puramente cruzarmos os braços ao esperarmos o fim.

22
A maior parte das informações sobre Hildebrando foi obtida de um
antigo volume sobre História dos Papas, uma compilação sem indicação de data.
23
Walter Wink, John the Baptist in the Gospel Tradition (Cambridge, UK:
Cambridge University Press, 2006, [edição digitalizada]), p. 3-4.
24
Gerard Butler, em entrevista publicada no jornal O Estado de S. Paulo.
Disponível em: <http://www.estadao.com.br/noticias/impresso,entrevista-com-
gerard-butler--para-agradar-kim-jong-un,1022007,0.htm>. Acessado em 17 de
abril de 2012. O ator fez a declaração no contexto do lançamento de seu novo
filme, Invasão à Casa Branca, no qual terroristas norte-coreanos fazem o
presidente dos Estados Unidos como refém. Coincidentemente, na vida real
houve especulações sobre um possível ataque da Coreia do Norte aos Estados
Unidos, próximo ao lançamento do filme.
4. DOCUMENTOS, POR FAVOR!

E les vieram enfileirados, como grandes urubus carrancudos, a passos largos e


cheios de cochichos, tão maledicentes quanto discretos. Fizeram um
paredão de intolerância próximo à margem barrenta. O público ao redor
contemplava o grupo com respeito e certo temor. A função que eles exerciam
inspirava reverência – o sacerdócio.
Você já ouviu falar deles, certo? Eles diferiam dos fariseus. Hoje, o sentido
do termo “fariseu” se acha associado a hipocrisia, principalmente devido às
críticas constantes do Novo Testamento. Claro que houve fariseus sinceros,
como Nicodemos (João 3). Embora a maior parte deles justificasse a
desaprovação, eles gozavam de reputação favorável em sua época. Eram a elite
religiosa. Aqueles que exerciam decisiva influência sobre as pessoas comuns. O
modelo de boa conduta.
Os sacerdotes eram diferentes. Eram os mandachuvas do templo. Tinham
conexões políticas. Eram mais liberais, não acreditando em muito do que a velha
fé de Israel ainda pregava. Esses homens ricos e bem-nascidos acrescentavam
um tempero grego ao ensopado judeu. A mistura nem de longe tinha sabor
agradável.
Assim, ver uma delegação de sacerdotes diante do misterioso profeta do
Jordão criava muitas expectativas. Seria João Batista reconhecido por aqueles
mestres respeitáveis? Se fosse mesmo o Messias, essa seria uma boa
oportunidade para que ele se apresentasse.
Longe de ser algo ruim, declarar-se o Messias significava mais audiência,
muitos tapinhas nas costas, doações garantidas e voluntários para trabalhar na
campanha. Viagens exaustivas para garantir alianças e conquistar o eleitorado.
Sim, nos dias de João o conceito de Messias possuía forte conotação política.
Automaticamente, ele teria o apoio da população – Quem não queria ver o
Messias chegar para quebrar alguns narizes romanos? João parecia mesmo o tipo
intrépido, de modo que muitos judeus sofredores poderiam sonhar com ele
esmurrando César! Com sua eloquência e estando bem assessorado, o Batista
facilmente ergueria o moral de Israel. Quanta expectativa!

Três perguntas intrigantes


O evangelho de João descreve o episódio com cores vivas:

Os líderes judeus enviaram de Jerusalém alguns sacerdotes e levitas para perguntarem a João
quem ele era. João afirmou claramente:
– Eu não sou o Messias. Eles tornaram a perguntar:
– Então, quem é você? Você é Elias?
– Não, eu não sou! – respondeu João.
– Você é o Profeta que estamos esperando?
– Não! – respondeu ele (João 1:19-21, NTLH).

Os presentes se voltaram para a cena. Um sacerdote pigarreou. Todos


estavam com os olhos arregalados, imóveis. Chega a pergunta esperada: “Então,
Sr. João, diga-nos: Você é o Messias?”
Todos os pescoços se voltaram para as águas do Jordão. A pressão era
imensa. A pausa fazia as gargantas passarem por algo como a sensação de se
engasgar. Se ele fosse mesmo o Messias, essa seria sua oportunidade, a mosca
azul para o filho de Isabel.
Você já passou por momentos assim, quando se pode tirar vantagem de uma
situação? Bem, talvez não se deva dizer a verdade logo de cara, apenas curtir o
momento e depois deixar as pessoas descobrirem por si mesmas que a coisa não
era bem assim. Afinal, não foi você que fez a confusão, foram elas, correto? João
teria mil motivos para aproveitar a deixa. Messias por um dia. Qual seria a
sensação?
“Não, eu não sou o Messias!” A multidão reagiu com um sonoro “Oh!” Um
levita meneou a cabeça, outro sorriu com disfarçado sarcasmo. Que decepção!
Automaticamente, o burburinho percorreu de uma margem à outra do rio. O
interrogatório continuou:
“Sr. João, já que você não é o Messias tão desejado, por acaso você seria
Elias?”, quis saber o mesmo sacerdote, enquanto coçava a barba que se
assemelhava a uma nuvem eriçada. Novamente, a multidão não poupou sua
concentração.
“Não, eu não sou Elias.” Outra rodada de admiração e desânimo. Mesmo
que João mantivesse a cabeça erguida, na certeza de que nunca se promovera de
forma enganosa, havia aqueles que deliberadamente se confundiram com
respeito à sua identidade. Quem não queria ver o Messias chegar para quebrar
alguns romanos?
Por último, os homens do templo judeu preparam o golpe final. “Sr. João”,
disseram então em um tom mais arrogante, para deixar claro sua superioridade,
“você seria pelo menos o Profeta?” A pergunta gerou a mesma tensão e obteve
idêntica firme resposta: “Não, eu não sou o Profeta.”
Ombros cabisbaixos. Olhos lacrimosos. Desalento e desassossego. A turba
se mostrava confusa. Mais triunfantes do que a princípio, os sacerdotes
resolveram dar o tiro de misericórdia.
“Bem, Sr. João, vamos recapitular: você não é o Messias, nem Elias e
sequer o Profeta. Por favor, então nos mostre suas credenciais para batizar e
dizer todas essas coisas. Quem o autorizou?”
João estava frente a frente com as autoridades. Aquilo não se tratava de
perguntas informais – era um inquérito público. Seu trabalho poderia perder o
sentido e pessoas seriam desanimadas. O desafio estava lançado.

O que de fato nos define


No fundo, os líderes religiosos corruptos sentiam ciúmes de João e queriam
provar que ele não possuía credenciais. “João Batista? Ora, ele é somente um
caipira que cresceu entre as ervas do deserto. Mande esse pregador popular de
volta para as rochas e chacais.” João não havia estudado nas escolas rabínicas,
embora fosse filho de sacerdote. Não dominava o jargão teológico. Quem ele
pensava ser para sair pregando por aí? Se o pregador do Jordão quisesse iniciar
seu ministério, teria de pedir autorização para os maiorais de Jerusalém.
Não é muito diferente hoje. Viver por uma perspectiva secular nos leva a
buscar razões e autorizações humanas. Confiamos naquilo que conhecemos e
que possui credibilidade. Escrevo em um momento em que uma famosa marca
de sucos de soja enfrenta séria crise de credibilidade – tudo por causa de alguns
lotes contaminados. Muitas pessoas deixaram de comprar esses produtos por um
tempo ou, talvez, alguns deixem de comprar para sempre. Evidentemente, a
maioria quer consumir produtos de qualidade. Queremos também acreditar em
algo que possua eficiência comprovada – em diversos âmbitos (inclusive, no
aspecto espiritual).
Acontece que Deus não usa crachás. Ele não se submete a exames de retina.
De uma perspectiva espiritual, autorizações humanas são úteis em diversas
situações, mas limitadas. Nem sempre o caminho conhecido é aquele que o
Senhor reservou para os pés de seus adoradores. Temos de ignorar o senso
comum, o tradicionalismo, a moda, a experiência, a fórmula, o politicamente
correto. Agir pela fé consiste em permitir que Deus opere à sua maneira, pelos
instrumentos que ele considera os mais apropriados.
Quando comecei meu ministério, não gostava de visitar simpatizantes da
igreja acompanhado por alguns membros voluntários. Não me entenda mal:
gostava e ainda aprecio a companhia dos irmãos de fé. No entanto, percebia que
eles diziam coisas e se comportavam de maneira a contrariar toda forma de
abordagem evangelística sensata. Eram diretos demais, informais ao extremo,
duros nas palavras. Cheguei a ficar encabulado em muitos casos.
Conforme o tempo seguia, eu me dei conta da realidade: a companhia dos
membros voluntários da igreja era extremamente necessária! Na maior parte dos
casos, eles se comunicavam com as pessoas simpatizantes de uma maneira que
eu jamais poderia fazer. E por uma razão bastante simples: eles pertenciam ao
mesmo meio social! Se estivesse visitando pessoas menos favorecidas ou mesmo
gente da classe média e alta, seus amigos cristãos os conheceriam melhor do que
eu, em todo caso. Tinham o mesmo tipo de linguagem (que soava diferente do
dialeto pastoral) e, por ter certo grau de intimidade, não ofendiam as pessoas que
visitávamos (quer dizer, em boa parte das vezes). Quem disse que Deus não pode
usar ferramentas que não estejam na caixa sob o rótulo “teólogos”?
Na Bíblia há um ponto de equilíbrio nessa questão. Se o Senhor emprega
aqueles que jamais seriam aprovados pelo departamento de RH de Jerusalém, é
certo que isso não dá espaço para pensarmos que credenciais sejam totalmente
dispensáveis. Esse é um extremo desagradável. Há desordeiros e fanáticos.
Pessoas de todo o tipo, que gostam de levar os cristãos a desconfiar de seus
líderes religiosos. Essa classe costuma instilar dúvida e usar sua desqualificação
como pretensão de que Deus os enviou.
Note que se a João faltava aprovação do ponto de vista humano, ele soube
corresponder às expectativas divinas. Embora negasse três vezes papéis que não
lhe pertencessem, o primo de Jesus sabia exatamente quem era. Conhecia seu
papel. A inveja não lhe sufocava. Nunca aspirou a cargos mais bem
remunerados. Mendigar simpatia e manifestar autocomiseração? Nunca. A
lucidez do profeta do Jordão provinha da compreensão de seu chamado.
Observe a chama queimar cada sílaba das palavras da resposta que João fez
transbordar pelas margens do rio:
Finalmente perguntaram: “Quem é você? Dê-nos uma resposta, para que a
levemos àqueles que nos enviaram. Que diz você acerca de si próprio?”
Ele respondeu com as palavras do profeta Isaías: “Eu sou a voz do que
clama no deserto: ‘Façam um caminho reto para o Senhor’” (João 1:22, 23).
A decepção do povo passava longe de preocupá-lo. As insinuações dos
fariseus seriam incapazes de lhe tirar o sono. João Batista estava consciente de
sua identidade. Nem mesmo fez mistério sobre si próprio.
Seu papel era formidável, pois representava o cumprimento de uma
profecia. Anunciar constituía seu verbo cotidiano. João estava para a
proclamação da verdade como Messi está para o futebol, Kobe Bryant para o
basquete e Bach para a música. O que definia João era o chamado divino.
Observe com atenção os efeitos de obedecer ao chamado divino:
Deus nos conduz para frente à medida que respondemos ao seu chamado. Seguindo o seu chamado
tornamo-nos naquilo que fomos constituídos para ser mediante a criação. Também nos tornamos o
que ainda não somos e só podemos nos tornar quando recriados como um povo chamado. 25

A quem ele chama? Deus chama pastores para ser pregadores do evangelho
em tempo integral. O que seria da igreja sem seus ministros? Digo que ser um
pastor é algo tremendo e maravilhoso, muito acima de minhas capacidades.
Trata-se de um privilégio que palavras jamais poderiam expressar com exatidão.
Louvo a Deus por ter me chamado para o ministério e desejo honrá-lo a cada dia.
Entretanto, Deus chama a outros de formas diferentes, com funções
diferentes. Não deve haver confusão: cada cristão é chamado, não somente para
ser um cristão, mas para servir em algum ministério. Isso tudo é simples: o
Senhor nos dotou de pelo menos um dom. Ao usarmos os dons individuais para
a glória do Céu, começamos um ministério. Todos podem servir de alguma
maneira.
Quando olhamos para o ministério de João Batista e para o modo como
Deus aprovou seus esforços, compensa nos espelharmos em seu exemplo.
Contudo, João não era a própria mensagem. O que o profeta tinha a dizer
era sobre outra pessoa. Ele deveria pavimentar o caminho para alguém diferente
dele. Sua missão exigia lançar fora a pior erva daninha do campo do coração: o
orgulho.

O inimigo íntimo de todos


Já lhe ocorreu como seria difícil para o Batista viver no século 21? Somos
autocentrados. Gostamos de nos promover. Pensamos em suprir nossas
necessidades. Viver em prol de alguém soa de forma pejorativa como se isso
significasse se anular.
Fica fácil rejeitar inconscientemente o viver para Jesus. Quando a bandeira
do eu é hasteada, a da cruz foi tirada do mastro há tempos. O orgulho inverte a
devoção devida a Deus e, em seu lugar, rabisca uma adoração caricata, baseada
em aspirações narcisistas. “Do ponto de vista bíblico, o orgulho é a violação e a
desordem fundamental do amor, pois põe o amor próprio à frente do amor de
Deus.” 26 Para Chesterton, o “orgulho é a resistência que empurra para baixo,
presente em todas as coisas, para uma solenidade fácil”. 27
As armadilhas do orgulho estão à espreita de todos os lisonjeados por seus
talentos e cheios de autovalorização. Uma ideia exagerada a respeito de si
mesmo e… zaz! Você caiu na armadilha da vanglória.
Quando retornamos ao relato, fica evidente o modo pelo qual João venceu
as inclinações naturais do coração humano. O Batista não se interessava por
questões políticas. Tampouco se preocupava com a data em que os noticiários de
Jerusalém divulgariam as pesquisas de opinião a seu respeito. Em sua resposta
final aos sacerdotes de Jerusalém, o profeta do Jordão não deixou de fazer o que
melhor sabia: proclamar aquele que viria.
João respondeu:

– Eu batizo com água, mas no meio de vocês está alguém que vocês não conhecem. Ele vem depois
de mim, mas eu não mereço a honra de desamarrar as correias das sandálias dele (João 1:26,
NTLH).

A expectativa estava posta no Messias. Aquilo que soou como péssima


notícia para a multidão (“eu não sou o messias”) logo deu lugar à melhor dentre
todas as novidades (“o Messias já está entre nós”).
Mais do que nunca, João soube reconhecer seu papel e ser fiel ao chamado
que havia recebido. Sem espaço para vaidades. Sem sentir inveja. Sem dar vazão
ao orgulho. Abnegada e pacientemente, ele estava ali para proclamar e antecipar.
Não lhe cabiam honras, a não ser a de conhecer em breve o motivo de seu
ministério.
Perto daquele que viria, quem era João? Ora, ele valia menos do que um
escravo. Ele nem poderia desamarrar as sandálias desse Príncipe entre os
homens! Quão ansiosa não deve ter se sentido a multidão por conhecer alguém
ainda mais fantástico do que o Batista!
Hoje somos tentados a nos sentir superiores. A sentir que nossa crença
correta nos faz mais amáveis diante de Deus. Quem são os adventistas? O povo
da profecia, os arautos da verdade, os portadores de luz para esse tempo.
O povo que deveria ser o mais humilde dessa Terra.
Aqueles que deveriam gritar pelas ruas: “Não somos mais do que escravos
imprestáveis do Rei que voltará.”
Não são nossas instituições de saúde. Ou os internatos. Ou as emissoras. Ou
os colégios. Nada disso. Essas coisas, todas com seu devido valor e utilidade,
não definem nosso valor; apenas estão a serviço da missão. Servem como
ferramentas nas mãos do Mestre. Foi Jesus quem nos deu as credenciais
imerecidas. Devemos usá-las não como insígnia ou um troféu que tivéssemos
conquistado. Nosso chamado só faz sentido se nos humilharmos e anunciarmos a
mensagem, que não é fruto de imaginação. Não diz respeito a nós, mas a quem
nos chamou. Ele deve ser exaltado.

25
Oswald Guinness, O Chamado: uma Iluminadora Reflexão Sobre o
Propósito da Vida e o Seu Cumprimento (São Paulo: Cultura Cristã, 2001), p.
32.
26
Oswald Guinness, Sete Pecados Capitais: Navegando Através do Caos
em uma Época de Confusão Moral (São Paulo: Shedd, 2006), p. 41.
27
G. K. Chesterton, Ortodoxia (São Paulo: Mundo Cristão, 2008), p. 199.
5. APRESENTO-LHES O CORDEIRO

Ocavalheiro ali atrás tem uma resposta para a nossa pergunta. Posso ver que os
olhos queimam, e ele não evita levantar a mão pedindo a palavra.
Assemelha-se a um afobado aluno da sexta série. Claro que ele é um homem
feito, ainda no auge da juventude. Por mais ansioso que se mostre, temos que
fazê-lo esperar.
Primeiro, vamos ouvir os artistas. Sempre criativos e preocupados com uma
visão autoral. Depois vamos convidar nosso voluntário a dar seu depoimento.
Comecemos então por Laudo Ferreira Júnior, um desenhista de história em
quadrinhos (HQ). No fim de 2009, o artista lançou a obra Yeshuah: assim em
cima assim embaixo. Trata-se da história de Jesus. Laudo foi responsável pelo
enredo e pelos desenhos, enquanto Omar Viñole realizou a arte-final. Para
escrever Yeshua, o autor pesquisou os evangelhos canônicos e apócrifos. Muitos
dos nomes de personagens bíblicos foram trocados pelos nomes hebraicos
originais, num preciosismo um tanto piegas. Contudo, o mais preocupante na
adaptação é a perspectiva com a qual foi feita.
No site da Devir (editora que lançou a obra), Laudo declarou:

A ideia não foi criar um roteiro completamente novo levando a história de Jesus para outro
caminho que não o conhecido. O desafio foi justamente trabalhar em cima da versão canônica
dando minhas intervenções, meu pensar quer textualmente ou visualmente sobre várias sequências
da história. O meu Jesus a ser apresentado nessa história, teria que ser um homem normal, humano,
completamente fora da aura católica, santa, de que as grandes obras do Renascimento estão
impregnadas. 28

Teríamos muito a comentar sobre essa abordagem (e o homem que levantou


o braço continua agitado!). Todavia, ouviremos outro artista. Na verdade, outro
quadrinista.
O nome do sujeito se parece com o daqueles policiais durões de filmes B:
Sean Murphy. No início de 2012, Murphy lançou a HQ Punk Rock Jesus. No
enredo, um clone de Jesus é criado em um reality show e o garoto cresce avesso
a preconceitos e se apresenta como um adolescente revoltado. Se você achou que
já tinha visto os piores absurdos…
A série saiu pelo selo Vertigo (DC Comics). De acordo com o site
Multiverso DC, “convicto do ateísmo, Murphy disse que sua história mostrará
sua visão pessoal das religiões, da política e outros problemas sociais do mundo
real”. 29 Outro site especializado complementa as informações:

Toda essa pressão recairá sobre Gwen, a mulher que foi selecionada através de um processo
parecido com o do American Idol para ser a mãe do novo Messias. Para proteger o clone é
contratado Thomas McKael, guarda-costas que já foi integrante do IRA, o que lhe garante um
passado turbulento. 30

Quase sou capaz de prometer dar meu carro para quem surgir com uma
história mais blasfema e ridícula! Todavia, nesse caso, o prêmio caberia a Rob
Liefeld.
Rob Liefeld nunca foi um desenhista de muitos recursos. A anatomia das
personagens desenhadas pelo norte-americano sempre se mostraram deficitárias,
assim como suas noções de luz e sombra. Não se pode dizer, contudo, que
Liefeld não tenha contribuído com a indústria de quadrinhos. Suas criações
marcaram a década de 1990 – Cable, Deadpool (Marvel Comics) e Youngblood
(Image Comics), entre outros.
Depois de homéricas brigas com a DC e a Image, companhia que ajudou a
fundar em 1992, Liefeld começou a retornar ao cenário dos quadrinhos. Com um
enredo baseado em uma porção bíblica, convenientemente deslocada, a trama
gira em torno de uma invasão de zumbis a Jerusalém, após a ressurreição de
Jesus. Tudo bem, o negócio é, de fato, tão ruim quanto parece (pior seria
impossível!). Para completar, um cavaleiro chamado Lázaro, o imortal, surge
para combater as criaturas.
Na mesma linha, a HQ Jesus Hates Zombies [Jesus Odeia Zumbis] foi
lançada em 2011. Chamar a série de trash é ofender o gênero! Na trama, Jesus
volta à Terra para salvar o mundo os zumbis, que disputam com vampiros a
participação no maior número de obras de ficção de mau gosto. O autor da
façanha é Eric Balfour. 31
Depois dessa maratona, de clones a zumbis, passando por interpretações
pouco convencionais, resta perguntar: De onde surgiram ideias tão estranhas
sobre Jesus?

Dupla natureza, múltipla incompreensão


Sempre houve concílios e debates entre os teólogos sobre a dupla natureza
de Cristo. O quanto ele era humano e o quanto ele era divino? A Bíblia ensina
que o Salvador era 100% humano e 100% divino. 32 Ainda assim, o pêndulo da
compreensão oscilou, ora aceitando Jesus apenas como uma espécie de Deus
impassível, ora como um ser humano que “recebeu” a habitação de Deus
temporariamente.
Os teólogos liberais sempre excluíram os atributos divinos de Jesus,
despojando os evangelhos de eventos miraculosos. Apesar de nada na Bíblia
levar a essa conclusão, tais estudiosos foram fortemente influenciados pela
filosofia racionalista, especialmente, a partir do período iluminista. Permitindo
que ideias seculares norteassem sua teologia, os eruditos liberais tentaram
repaginar o Messias.
Para eles, Jesus era um professor sábio, que ensinou fraternidade e teve uma
morte cruel a mando dos romanos. Simples assim, sem milagres, ressurreição e
ascensão.
E o resto? Inventado pela comunidade cristã, responsável pela criação de
um Jesus mítico. Daí que a grande caçada teológica se deu em busca do suposto
“Jesus Histórico”. Ensinar a perdoar os outros? Razoável. Andar sobre as águas?
Impossível!
Passadas algumas décadas, o reflexo da incredulidade dos próprios teólogos
agora se reflete na cultura popular – sobejam relatos fictícios, tentando
apresentar um Jesus mais humano e real. Geralmente, Cristo é retratado sob a
ótica e de acordo com as preferências de cada um. Nessa linha, o conhecido
cantor pop Elton John, desrespeitosa e bizarramente, declarou em uma
entrevista: “Acho que Jesus tinha muita compaixão, era um homem gay
superinteligente, que entendeu os problemas da humanidade.” 33 Tornou-se
moda imaginar Cristo mal compreendido pelos discípulos ou pensar que o
Mestre manteve um caso amoroso com Maria Madalena. Filmes, livros e
musicais, como A Última Tentação de Cristo, Jesus Cristo Superstar, O Código
Da Vinci e A Cabana 34 exalam a fantasia de seus idealizadores. Quase nada do
Jesus que a Bíblia apresenta se acha ali. Isso sem falar em retratos polêmicos,
como o clip musical de Lady Gaga, Judas. Nele, a cantora insinua estar dividida
entre dois amores, representados por Jesus e Judas – tudo regado a forte
erotismo.
Infelizmente, nenhuma concepção de Jesus fora da Bíblia corresponde ao
Jesus real. E, a partir do momento que se idealiza Cristo como mero ser humano,
ele deixa de estar à altura da tarefa que veio cumprir – a nossa salvação. O mais
belo na história da redenção é o fato de o Verbo divino ter se tornado um de nós,
vindo habitar entre nós “cheio de graça e de verdade” (João 1:14). Não estamos
diante de um presidente que visita uma periferia – não; o próprio Rei do
Universo se humilhou a ponto de assumir a forma humana (Filipenses 2:5-8)
para revelar o caráter de seu Pai (João 14:9).
Lamentavelmente, nenhuma obra de ficção moderna conseguiu retratar a
grandeza desse amor, embora algumas, de cunho cristão, se esforçassem para nos
levar o mais perto possível dele. Ainda assim, a imaginação humana fica aquém
da realidade divina.

Ouvindo quem sabe o que diz


Ah, eu já havia me esquecido. Há alguém que tem muito a dizer sobre
Jesus. Ele esperou até agora, embora de um modo impaciente. Eu até o
compreendo. Afinal, em meio a tantas bobagens sobre Cristo, como não sentir o
sangue borbulhar? E justamente ele, que conheceu pessoalmente o Salvador!
Com passos apressados, ele vem à frente. A plateia então deixa os
burburinhos. Até as crianças prestam atenção, arregalando os olhos. Quando ele
toma o microfone, sua voz enuncia a conhecida frase com clareza
inquestionável:
“Eis o cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (João 1:29, ARA).
Sim, alguns homens são conhecidos por suas frases. E nenhuma frase de
João Batista é mais repetida do que essa. Não se trata de um aforismo político.
Não é algo cômico, falado em uma comédia stand up. A sentença é como uma
pílula: pequena e eficaz. O que ela significa?
Para entendê-la, é necessário relembrar alguns fatos. João estava no Jordão,
anunciando vida nova a quem quisesse ouvir. Ele já havia repreendido até
mesmo os fariseus orgulhosos e falado francamente a sacerdotes não menos
presunçosos.
João certamente havia frustrado alguns quando confessou: “Não sou o
Messias.” A voz que clamava no deserto havia predito que haveria alguém. Ele
não era páreo para o homem esperado – na verdade, não era sequer digno de
desatar as correias das sandálias da pessoa a quem se referia. João Batista sabia
que sua missão consistia em apontar o caminho para o Messias. E ele já estava
próximo!

Naqueles dias, Jesus foi da Galileia até o rio Jordão a fim de ser batizado por João Batista. Mas
João tentou convencê-lo a mudar de ideia, dizendo assim:
– Eu é que preciso ser batizado por você, e você está querendo que eu o batize?
Mas Jesus respondeu:
– Deixe que seja assim agora, pois é dessa maneira que faremos tudo o que Deus quer.
E João concordou (Mateus 3:13-15, NTLH).

O batismo não era algo totalmente inédito em Israel. Os essênios, grupo de


judeus que se isolaram em uma comunidade própria em busca de pureza,
praticavam ritos de ablução. A ideia encerrada na etimologia do termo indica
soterramento ou imersão, ambas identificáveis com a morte. Quem era batizado
morria para o egoísmo e, como sinal de arrependimento e mudança, iniciava
nova vida. Ficha limpa. Folha em branco. Passado não conta. Nova oportunidade
para recomeçar. Que tal?
Tudo estava certo. Prostitutas se tornavam mulheres decentes. Soldados
deixavam de ser truculentos, para viver vida ordeira. Sacerdotes deixavam a
pompa da crença vazia, preocupados agora em estar de acordo com a lei e o
testemunho. Muitas mudanças marcaram os ouvintes. Havia conversões em
massa. As coisas seguiam sua ordem natural.
Até que ele apareceu e mudou tudo.
Provavelmente, fosse um dia comum. O Batista começou o dia na margem
do rio, cercado por um público bastante heterogêneo. Crianças de povoados
próximos sentadas junto às mães reverentes. Pescadores que haviam decidido
não enfrentar o mar apenas para estar ali. Soldados em roupas comuns.
Sacerdotes divididos entre a reputação e o coração. Estrangeiros com dificuldade
para encarar a desconfiança dos judeus mais nacionalistas que se sentavam perto
deles. Para essas pessoas, João representava esperança e verdade.
Após expor a vontade do Céu, o profeta teria feito seu apelo costumeiro.
Automaticamente, uma fila de pessoas sinceras se formou. Queriam mudar de
vida. Ficha limpa. Folha em branco. Passado não conta. Nova oportunidade para
recomeçar. Um a um, os candidatos entravam no rio. Saíam diferentes daquelas
águas barrentas. Não se tratava de mudança meramente psicológica. Deus
reescrevia histórias de vida usando as águas do Jordão como tinta e João Batista
como pincel.
O profeta fazia um sinal, e a pessoa entrava na água. Ele olhava nos olhos
de cada um. E, certamente, olhou aquele par de olhos masculinos. Pertenciam a
um homem de aspecto comum: um carpinteiro galileu. O mesmo homem que,
quando bebê, não chamou atenção do sacerdote que o apresentou no templo. Ao
contrário do sacerdote, João Batista notou que estava diante de alguém especial.
Não seria mais outro batismo.
Veja as palavras do próprio profeta do Jordão:

Era dele que eu estava falando quando disse: “Logo vai chegar um homem muito mais importante
do que eu, o qual já existia muito antes de mim! Eu não o conhecia, porém estou aqui batizando com
água a fim de revelá-lo à nação de Israel.” Então João deu o seguinte testemunho: “Eu vi o Espírito
descendo dos céus na forma de uma pomba e permanecer sobre Jesus. Eu não sabia quem era ele,
mas aquele que me enviou para batizar, disse-me: ‘Quando você vir o Espírito descer e pousar sobre
alguém, esse é aquele que batiza com o Espírito Santo’. Eu vi acontecer isso com esse homem, e,
portanto, sou testemunha que ele é o Filho de Deus” (João 1:30-34, Nova Bíblia Viva).

Impressionante! O Espírito Santo avisou João Batista sobre quem era


aquele homem na verdade. O Messias não deveria ser esperado mais para dias
distantes. Ele viera e estava então no meio da multidão, sendo batizado pelo
profeta escolhido para anunciá-lo!

Batizando o Messias
Se o seu chefe lhe dissesse: “Escute, preciso de sua ajuda. Gostaria que
você agisse com franqueza. Não tente ser lisonjeiro ou conciliador. Responda à
minha pergunta: Quais defeitos você nota em mim?”
Por um minuto, a indecisão paira sobre sua fronte. Ele está falando sério? E
se, hipoteticamente falando, você tentasse responder à pergunta da forma mais
objetiva, qual o risco de deixar o seu superior descontente? Talvez lhe ocorra
algo como: “Digo para ele assinar um acordo prometendo não me demitir e aí
responderei à questão.”
Há certos momentos em que temos vergonha de dizer ou fazer algo na
frente dos superiores. Rir com os colegas de trabalho é algo diferente de estar na
presença do chefe. Já se sentiu assim?
João Batista estava em uma situação similar. Já havia batizado outras
pessoas. Todavia, desta vez era diferente. Ele batizaria o “Cordeiro de Deus que
tira o pecado do mundo”. Era de fazer com que qualquer um tremesse e suasse.
Outros poderiam ignorá-lo. Os teólogos liberais chegaram a desprestigiá-lo. A
mídia de hoje pode achar que Jesus foi somente um homem qualquer. No
entanto, João sabia bem quem estava à sua frente.
Como batizar alguém que não precisa morrer para o pecado, pelo simples
fato de jamais ter pecado? Nada de mudar de vida. Esqueça coisas como ficha
limpa ou folha em branco. A história de que o “passado não conta” se torna
irrelevante. Falar em recomeço é perda de tempo. A vida imaculada de Jesus
tornava todas essas garantias desnecessárias.
Isso deve ter dado um nó na cabeça de João. Se Jesus não possuía pecado,
porque batizá-lo?
Perceba o constrangimento evidente do Batista:

– Eu é que preciso ser batizado por você, e você está querendo que eu o batize?
Mas Jesus respondeu:
– Deixe que seja assim agora, pois é dessa maneira que faremos tudo o que Deus quer.
E João concordou (Mateus 3:14, 15, NTLH).

A lógica de João fazia sentido. Não havia necessidade para batizar o


Messias. Entretanto, havia um motivo. Seu batismo significava o exemplo para
todos os que, ao longo dos séculos, aceitassem ser seus seguidores.
Por essa causa, João acabou concordando em batizar Jesus. A cena toda foi
impressionante: o céu se iluminou, abençoando o Filho de Deus. Nenhum outro
batismo seria jamais como aquele! O Espírito Santo se manifestou para
completar o retrato de família – junto ao Pai e ao Filho. Uma voz majestosa
declarou para a multidão: “Esse é o meu Filho amado, de quem me agrado”
(Mateus 3:17). O próprio Deus apresentava seu Filho diante de todos.
João Batista sentiu que era a sua deixa: ele testemunhou para a multidão
que ali estava o Cordeiro de Deus. Se no antigo sistema judaico de sacrifícios se
exigia um animal inocente como substituto do pecador, agora se revelou o Ser
que salvaria o mundo da condenação. O cordeiro do templo não passava de um
símbolo, uma sombra: Jesus é a realidade, o verdadeiro remédio para a
necessidade humana.
O privilégio de João foi ímpar: como profeta, algo raríssimo. Muitos
anunciaram o Messias vindouro – mas João o contemplou e ainda mais, ele o
batizou! Quando ele anunciou Jesus, não falava de um futuro próximo, mas de
alguém que estava diante da multidão para ser contemplado.
Hoje, nós temos um privilégio semelhante: anunciamos a volta de Jesus,
que ocorrerá diante de todos os olhos. Não mais como um candidato ao batismo,
mas vindo em um trono entre as nuvens. Ele terá o cetro do Universo nas mãos.
Sua luz afugentará as trevas do mundo. O cordeiro vitorioso será visto em glória
real.
Todavia, precisamos agora ter tanto uma visão correta sobre ele, quanto um
relacionamento correto com sua pessoa. O cordeiro que tira o pecado do mundo
precisa ser o cordeiro pascal de cada um de nós.
Você já o aceitou? Una-se a mim nessa oração: “Senhor, quero fazer de teu
Filho o meu substituto pessoal. Muito em breve iremos vê-lo; portanto, prepara-
nos para esse momento. Habita em mim com teu Espírito. Em nome de Jesus,
amém.”

28
Disponível em: <http://www.devir.com.br/hqs/yeshuah_v001.php>.
Acessado em 18 de março de 2013. A obra de Laudo Ferreira Júnior ganhou um
segundo volume, intitulado Yeshua, o Círculo Interno, o Círculo Externo.
29
Disponível em: <http://www.multiversodc.com/v2/2012/04/punk-rock-
jesus-e-nova-obra-da-vertigo/>. Acessado em 19 de março de 2013.
30
Disponível em: <http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?
acao=noticias&cod_noticia=34086>. Acessado em 19 de março de 2013.
31
Disponível em: <http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?
acao=noticias&cod_noticia=30424>. Acessado em 19 de março de 2013.
32
Veja, por exemplo, as seguintes passagens bíblicas: João 1:1, 14, 18;
20:28; Filipenses 2:5-10; Colossenses 1:16; Hebreus 1:6, 8.
33
Disponível em:
<http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u696080.shtml>. Acessado
em 19 de março de 2013.
34
Há bons livros cristãos que respondem às distorções sobre Jesus
presentes nesses materiais. Veja especialmente: Grenville Kent, Philip
Rodionoff, O Código da Vinci e a Bíblia (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira,
2006); Josh McDowell, Bill Wilson, Ele Andou Entre Nós: evidências do Jesus
Histórico (São Paulo: Candeia, s/d); Woodrow W. Whidden, Ellen White e a
Humanidade de Cristo (Tatuí, SP: Casa Publicadora Brasileira, 2004).
6. ENCARAR A REDUÇÃO DE SI MESMO

N ão foi só o nadador Paul Biedermann que não acreditou. O mundo inteiro


ficou estarrecido quando o alemão, de 22 anos, bateu o recorde mundial
dos 200 metros livres em 28 de julho de 2009, com a marca de 1m42s00. De
quebra, Biedermann deixou a estrelinha da prova, o americano Michael Phelps,
comendo poeira – ou melhor, gotinhas.
Desde que o tabloide inglês News of theWorld pegou Phelps com a boca na
botija (no caso, com a boca no bong, tubo usado para fumar maconha), uma
nódoa surgiu na carreira do supernadador. 35 Até então, Phelps era um fenômeno
unânime: os chineses mal deixavam o homem-peixe caminhar pelas ruas de
Pequim. Não era para menos, já que naquela edição das Olimpíadas (2008)
foram oito as medalhas de ouro conquistadas por ele, mais do que todas as
medalhas desse tipo conquistadas pelos atletas brasileiros, somadas todas as
modalidades. Até 2012, Phelps conseguiu 18 medalhas de ouro, somando sua
participação em quatro edições dos jogos olímpicos.
Na ocasião da derrota por Biedermann, Phelps estava sem treinar e culpava
seus maiôs. Ele estava visivelmente decepcionado. Teve de deixar a piscina e
disfarçar um sorriso amarelo, completamente sem-graça. Sua frustração encheria
uma piscina olímpica.
Pensando bem, não deve ser fácil se ver superado. Não apenas por outra
pessoa, mas principalmente em relação a si mesmo (Phelps ficou aquém do
próprio tempo). Para aqueles que medem sua aceitação por desempenho ou
popularidade, o choque se torna maior ainda. Tanto que, na opinião do ex-
nadador Mark Andrew Spitz, a aposentadoria precoce de Phelps teria uma razão:
“Ele teme fracassar.” 36
Não é seguro confiar em nossas habilidades como medida para a felicidade.
Somos mais do que nosso desempenho, por mais impressionante que sejam os
números que nos seguem. Chega a hora em que o cansaço, a idade ou as
circunstâncias diminuirão nosso ritmo. Então nos resta viver do passado ou
repensar a forma como nos avaliamos. A maioria dos esportistas aposentados
escolhe a primeira.
A verdade dura é que detestamos ficar em segundo lugar. Pelé, por
exemplo, não gosta de ser comparado a Lionel Messi, e desconsidera
completamente as sugestões de que o argentino poderá igualá-lo ou mesmo
superá-lo. Apesar disso, a tendência é de que, conforme Messi acumule mais
títulos e quebre recordes importantes, as gerações atuais – que não viram Pelé
jogar – se inclinem a pensar que o argentino é de fato o melhor futebolista de
todos os tempos.
Fora do mundo esportivo, muitas empresas estimulam a concorrência entre
colaboradores. Nessa situação, os funcionários sentem-se desafiados porque não
querem ficar abaixo de seus colegas ou vir a ser preteridos em uma eventual
promoção. A verdade é que ninguém deseja meramente compor o cenário; a
maioria das pessoas quer o papel principal.
Alguns dizem que, para vencer, temos de agarrar as oportunidades. Basta
ser agressivo. Fincar esporas nas circunstâncias e galopar seu destino. Fazer os
ventos soprarem em favor próprio.
Minha esposa testemunhou um aluno da pré-escola levar o lema de “fazer
do meu jeito” muito a sério. Na função de coordenadora, ela substituía a
professora regente, que havia se ausentado por questões familiares. Como era
ano de Copa do Mundo (2006), a turma estava construindo a maquete de um
campo de futebol. O tal aluno desejava montar as traves do gol. Todavia, outros
dois colegas foram encarregados, cada qual, de construir um dos gols.
Insatisfeito, o garoto resolveu construir um terceiro gol. Foi necessário que a
educadora interviesse na situação para demovê-lo da curiosa ideia.
Semelhante àquele menino, muitos pensam que o importante é jogar com as
próprias regras. Especialmente quando fama, popularidade e atenção estão em
campo. Vale tudo por um minuto de aplausos a mais. Ocorre que isso é prática
tão recorrente na sociedade que a mentalidade cristã se acha infestada de ideias
parecidas, adornadas por justificativas piedosas e discursos que mascaram as
intenções egoístas. Rangemos os dentes porque queremos o primeiro lugar, mas
somos capazes de saudar o irmão rival com o ósculo santo besuntado em
hipocrisia!
Se levarmos Jesus a sério, aprenderemos que servir não tem nada que ver
com atitudes autopromocionais. Precisamos disso; porém, o remédio parece
amargo demais. Assim, continuamos a usar estratégias seculares para atingir
sonhos de grandeza, os quais nos levam para longe do reino de Deus.

Quem não é visto…


Certo aluno de um seminário teológico estava apreensivo ao se aproximar o
fim de seu curso. Afinal, a expectativa era receber um convite para servir aos
propósitos de Deus em sua denominação. Trabalharia em alguma região perto ou
longe? Teria de cuidar de um distrito pastoral ou ajudaria em outro ramo? As
preocupações eram grandes e não o deixavam em paz. O ano foi se pondo e a
noite, baixando nas suas esperanças.
Quando o jovem se formou, o temor se tornou em realidade: ele ficou sem
chamado. Isso significava que não serviria ao Senhor em lugar algum! Um
quadro apavorante. Após quatro anos de faculdade, estava de mãos vazias.
Algumas vezes, ele tentou conversar com o dirigente de uma das sedes regionais
da igreja. Na época, o líder era um pastor com larga experiência, cabelos
brancos, alto e com voz grave. Assentado em uma cadeira enorme, ouvia o rapaz
pedir uma oportunidade para trabalhar.
Atenciosamente, o homem instruía o recém-formado sobre como deveria
agir. “O problema”, falava, enchendo a sala com sua voz de líder, “é que não
temos notícias suas. Faça assim: toda vez que pregar, diga às pessoas para ligar
para nós, caso gostem de seu sermão. Precisam elogiá-lo, para que
acompanhemos seu serviço. Assim você será contratado.” Aquelas foram as
primeiras lições de marketing pessoal aplicado ao ministério que o jovem
ministro recebeu! O conselho nunca foi seguido. Porém, algum tempo depois,
ele recebeu o tão sonhado chamado.
Não importa se somos mães, jornalistas, esportistas ou pregadores do
evangelho. O desejo de supremacia impregna nosso DNA. E esse desejo se
manifesta nas ocasiões mais ridículas.
Eu me recordo de outra ocasião. Estava no supermercado, andando em
direção à lotérica. As contas se aninhavam em minhas mãos. Dolorosamente,
teria de pagá-las na lotérica. No trajeto, percebi que certa senhora ao meu lado
tomava o mesmo rumo. Instintivamente, acelerei meu passo. E ela fez o mesmo!
Dissimulamos, como dois adultos educados, nossa competição infantil.
Cautelosamente, eu olhava pelo “retrovisor” e acelerava. A cada passo, procurei
me distanciar da rival. Sendo mais novo, recebi primeiro a “bandeirada”. Quase
podia ouvir a torcida explodir, ovacionando o campeão. Já na fila da lotérica, foi
que me dei conta: Eu, feliz por ter “ganho” um lugar a mais? Que diferença
aquilo faria?
Somos mesquinhos mesmo em questões triviais. O coração corroído pela
exaltação própria busca obter vantagens sobre os semelhantes. Até um lugar na
fila serve!
Você entende mais claramente o porquê de Jesus ter insistido com seus
apóstolos sobre liderança servil (João 13:12-17)? Para ele, a igreja deve ser não
apenas um modelo de mera convivência e cordialidade, mas uma representação
bem próxima da atmosfera celestial. No entanto, isso só pode ser possível se o
povo de Deus estiver se preparando hoje, para andar sobre as avenidas de ouro.
Teríamos de pensar diferente em relação ao que as pessoas em geral pensam.
Mesquinharias teriam de ser abandonadas para que uma mudança
substancial fosse visível na vida dos cristãos. Sobre isso, tenho algo a dizer.
Enquanto colportava em minhas últimas férias como estudante, fiquei hospedado
em três lugares diferentes: em um colégio católico, na maior parte do tempo; na
casa de uma família que morava no interior, a qual não era adventista (e talvez
desconhecessem o adventismo); e, por último, na casa de um estranho.
Apenas na última ocasião me encontrava sozinho. Curiosamente, havendo
perdido um ônibus que me levaria para a sede da campanha, tive de procurar
abrigo naquela noite. Foi quando um rapaz desconhecido resolveu me acolher
em seu lar. Apesar de termos conversado previamente e saber que ele fora
educado como evangélico, quando me deitei no sofá da sala, ocorreu-me que
poderia estar em apuros! Felizmente, aquele cidadão tinha mesmo boa índole.
Ao sair pela manhã, deixei a chave na porta, uma vez que ele acordaria mais
tarde – e saí envergonhado, por ter suspeitado dele, quando ele deveria ter muito
mais razões para suspeitar de mim.
Fiquei naqueles três lugares. Entretanto, o pior foi saber que a única
comunidade que havia se recusado a receber não só a mim, mas também a meus
dois companheiros era uma igreja adventista local, que havia anos tinha um voto
de não acomodar colportores. Sim, é fácil culpar aquela congregação. Ocorre
que a questão é mais profunda: E hoje, eu costumo reagir com a generosidade
daqueles que me abrigaram, ou com a justificativa daqueles que se recusaram a
fazê-lo?
Sem espírito de serviço que aceite os outros, sem a atitude que estimula a
criatividade nos jovens e sem o apoio aos que caíram, como esperamos fazer
qualquer diferença no mundo? Se o coração se acha cheio de inveja e
conspiramos secretamente pela supremacia, não somos a igreja sonhada por
Jesus, mas qualquer coisa que se assemelhe com o pior pesadelo dos homens! Se
a atitude amorosa não substitui a doutrina correta, a recíproca é verdadeira. As
duas coisas precisam andar de mãos dadas para que Cristo seja revelado por seu
amado povo.

Apenas o amigo
A essa altura, alguém poderia dizer: “Bem, isso é tudo muito bonito, mas
que tal voltar para a atmosfera do planeta Terra?” Falar em abnegação em um
mundo competitivo? Com raros exemplos, as pessoas não se parecem com anjos,
que, ao menor sinal, acham-se dispostos a servir. Há exemplos de gente
abnegada. Todavia, quem garante que suas boas atitudes não eram apenas
pontuais? Caso tenham feito o bem buscando aprovação, continuam sendo
egoístas no íntimo.
Talvez esses questionamentos tenham seu lugar. Entretanto, o argumento da
maioria não serve para anular nosso dever. Se Deus exige algo, seria tolice
humana tentar se desculpar argumentando que aquilo seja pouco popular ou
incomum! Além do mais, o Senhor reservou, ao longo da história, exemplos
genuínos de abnegação e serviço. Embora imperfeitos, homens e mulheres fiéis
abrilhantaram a trilha e cravaram suas pegadas de forma inconfundível.
João Batista faz parte da lista de pessoas abnegadas que devem nos inspirar.
Um dos episódios mais ilustrativos ocorreu durante um diálogo de João e seus
discípulos.
Tudo começou um pouco antes, quando os discípulos de João
aparentemente discutiam teologia com um grupo de judeus. Provavelmente, o
assunto “Jesus” entrou na pauta. Os seguidores de João voltaram como nerds que
ouviram alguém criticar seu filme favorito (nunca contrarie um fã!). Eles
possuíam um lado zeloso e ciumento.
Sentiram que Jesus estava ganhando espaço e, dia a dia, tornava-se mais
popular do que seu querido mestre. Eles não poderiam tolerar isso! Quem sabe
uma campanha de marketing, uma nova turnê ou um jingle mais chamativo
poderia mudar as coisas, e as pessoas voltassem a valorizar João Batista. No
entanto, teriam de primeiro comunicar o profeta do Jordão dos índices do Ibope:
“Mestre, aquele homem que estava contigo no outro lado do Jordão, do qual
testemunhaste, está batizando, e todos estão se dirigindo a ele” (João 3:26).
Os alunos de João trataram Jesus quase que como desertor de seu clube e,
pior, fundador de um clube rival. Para tornar a situação ainda mais dramática, o
sucesso de Jesus superava o daquele que o havia batizado. Quanta falta de
respeito – afinal, Jesus não devia seu sucesso a João, que havia servido de mestre
de cerimônia entre ele e a multidão?
Impressionante como existem aqueles que “tomam as dores” e se envolvem
em situações que não lhe dizem respeito. Sem se dar conta, os discípulos de João
estavam servindo de tentação para seu mestre. Ele poderia “comprar a briga”.
Ainda bem que João tinha consciência de quem era. Calmamente, ele deve ter
feito seus alunos zelosos se assentarem em roda, enquanto lhes contava essa
parábola:

João respondeu: – Ninguém pode ter alguma coisa se ela não for dada por Deus. Vocês são
testemunhas de que eu disse: “Eu não sou o Messias, mas fui enviado adiante dele.” Num
casamento, o noivo é aquele a quem a noiva pertence. O amigo do noivo está ali, e o escuta, e se
alegra quando ouve a voz dele. Assim também o que está acontecendo com Jesus me faz ficar
completamente alegre. Ele tem de ficar cada vez mais importante, e eu, menos importante (João
3:27-30, NTLH).

Em primeiro lugar, João sabia de algo que nós não sabemos. As pessoas não
ocupam cargos no reino dos céus por seu talento, beleza ou status. O Senhor
reservou um lugar para cada um. Isso implica que desde agora o foco tem de
estar no serviço, não na função e no que ela representa.
Alguém já disse sabiamente que “o verdadeiro teste do servo é ver se ajo
como servo quando sou tratado como um deles”. 37 Por mais tocante que seja
assumir o título de “servo de Deus”, somente quando nossa patente é rebaixada e
pisam em nosso pescoço é que de fato somos servos.
Os seguidores de João são relembrados de que suas esperanças foram
construídas sobre a areia da vaidade humana. Seu mestre jamais aspirou a
qualquer cargo. Ele não estava ali para concorrer com Jesus, mas para apresentá-
lo. Portanto, não havia a menor razão para ciúmes. João e Jesus desempenhavam
o papel que a Providência lhes confiara. Para ilustrar isso, João fez uso de uma
história.
Preciso dizer para você que o casamento é uma bênção, e sempre me
recordo com muito carinho daquele dia especial em que eu e Noribel estivemos
juntos no altar. Que dia magnífico e abençoado! Claro, o dia do casamento
também é marcado por picos de ansiedade, como, aliás, toda grande ocasião na
vida. Para que tudo corresse bem, os preparativos foram intensos. Até
improvisamos uma linha de montagem para organizar os presentes – Henry Ford
balançaria a cabeça em aprovação.
Por mais que todos os detalhes sejam planejados com carinho e zelo, somos
surpreendidos por aquilo que sai do script – desde o sapato do pajem, que, por
engano, era um número a mais, ao sumiço das chaves da sala em que ficava o
banco para noivinhos. Obviamente, nenhum desses detalhes tira o brilho do
sonho que está sendo realizado, em virtude do amor que bancou o sonho.
Sem dúvida, devo muito aos amigos. Muitos vieram de longe. Outros
participaram em momentos decisivos da cerimônia. Ajudaram a organizá-la.
Fizeram todo o barulho possível na festa, arrecadando dinheiro – a famosa
técnica da gravata! No fim, todas essas pessoas contribuíram para que o dia
findasse com um sentimento de vitória muito grande, que eu descobriria depois
que é apenas parte da vitória maior de continuar casado com alguém tão
especial!
No entanto, quando a festa terminou, eu e minha esposa fomos a um hotel
na cidade mesmo, antes de viajarmos. Aquele era o nosso momento. Não fomos
acompanhados por nenhum amigo ou amiga. Não esperávamos que a campainha
tocasse e víssemos um rosto conhecido à porta. Estávamos sozinhos e assim
deveria ser!
Note as palavras de João: “Num casamento, o noivo é aquele a quem a
noiva pertence. O amigo do noivo está ali, e o escuta, e se alegra quando ouve a
voz dele” (João 3:29, NTLH). Os noivos pertencem um ao outro. Há amigos,
padrinhos, pajens e uma série de outras pessoas que se envolvem em um
casamento. Todos muito queridos e bem-vindos. Eles participam de alguma
forma, tanto na cerimônia quanto na festa. No entanto, há uma diferença crucial
entre o noivo e seus amigos: apenas ao noivo pertence à noiva.
João Batista sabia os limites de seu ministério. E estava feliz por participar
da alegria de Jesus, mas como um amigo. Jesus era o noivo bendito, aquele que
conquistaria as multidões que formariam a sua comunidade, a igreja, tantas
vezes comparada a uma noiva (veja, por exemplo, Efésios 5:25-27). A igreja
pertence a Jesus, não ao seu primo e precursor.
João ainda exterminou o orgulho do partido que levava seu nome com a
frase: “Convém que ele cresça e que eu diminua” (João 3:30, ARA). Havia
chegado o tempo de o profeta do Jordão sair de cena. Ele não mensurava o
sucesso por seu desempenho ou pela mídia que reunia. João ignoraria os
paparazzi ou os índices do Ibope. O Batista seguia o roteiro divino para sua vida.
Isso sim lhe importava.

Abrace a humilhação
Escolha um ano a partir de 1960. Seja qual for sua escolha, darei uma das
seguintes respostas: “tenho” ou “nesse ano eles não lançaram nada.” Eu explico:
mantenho uma coleção de álbuns dos King’s Heralds, desde a década de 1960
até os dias atuais. Praticamente todos os álbuns. Conheço centenas de músicas
do quarteto. Consigo reconhecer a formação que canta pelo timbre de cada uma
das vozes. Consigo identificar cada um dos componentes do grupo.
Sendo assim, fica difícil dizer qual minha música predileta. Durante muito
tempo, eu não tinha dúvida de que minha favorita era uma canção simples,
intitulada Humble Heart [Coração humilde]. Curiosamente, eu a ouvi
primeiramente em português, em um antigo vinil dos Arautos do Rei (aqueles
que tiverem menos de 18 anos perguntem a seus pais o que é um vinil!). 38
Na época, era muito comum as canções receberem o nome conforme o
primeiro verso. Assim, a canção em português foi intitulada De onde vem tão
clara luz. Na segunda estrofe, em um dos momentos mais belos, o primeiro tenor
assume a melodia e a letra diz:

De mil florestas escolhi


Das plantas a menor.
O humilde aflito é para mim
De todos, o melhor.

Sim, Deus tem prazer naquele servo que está tão despido de si mesmo que
pode ser preenchido com o Espírito. E ele convida você hoje para ser esse servo,
disposto a se reduzir, a se humilhar, a abrir mão de supostos direitos e abandonar
a arrogância. Está você disposto a encarar o chamado?
35
Vale lembrar que o jornal News of the World, o maior da Inglaterra, viu-
se em meio a escândalos devido ao uso de escutas ilegais e uma série de falsas
alegações que lhe valeram uma insuperável crise de credibilidade. Acabou
encerrando suas atividades em julho de 2011.
36
Mark Andrew Spitz mantinha o recorde de sete medalhas de ouro em
uma mesma edição das Olímpiadas (conquistado em 1972) e superado apenas
por Phelps em 2008. A sua declaração aparece em uma entrevista cedida a Paulo
Roberto Conde, “Phelps não volta a nadar porque teme fracassar”, publicada no
jornal Folha de S. Paulo, caderno Esportes, p. D9, 10 de março de 2013.
37
Citado em C. Gene Wilkes, O Último Degrau da Liderança (São Paulo,
Mundo Cristão, 1999), p. 124.
38
A música estava no quinto disco da série Redescobrindo, composta
originalmente de seis discos de vinil gravados pelos Arautos na década de 1970.
Originalmente, pertencia ao álbum Wheel in a Wheel, Gravado em 1967 pelos
King’s Heralds.
7. PELO CERTO

P or influência dos países anglófonos, uma parte considerável do Ocidente


comemora o Halloween. Você sabe qual a origem dessa festa, com suas
representações de fantasmas e “criaturas do além”? Há algum tempo, li sobre
isso e quero compartilhar as informações. 39
Muitos séculos antes de Cristo, os celtas já comemoravam o festival de
Samhain na véspera de seu ano-novo, o que acontecia no dia 1o de novembro.
Segundo a crença deles, Samhain julgava os mortos na ocasião. Como as almas
dos mortos ficavam aprisionadas nos corpos de animais, alguns eram libertados
pela entidade e favoreciam os druidas (espécie de sacerdotes), revelando os
segredos da vida após a morte ou potencializando augúrios.
Na ocasião, as pessoas se vestiam como espíritos para “confundir” os
mortos que ficavam vagando e, dessa forma, não sofrer nenhum dano. Comidas
eram coladas às portas da casa para aplacar os espíritos libertos.
Na véspera do ritual de Samhain, ofereciam-se sacrifícios ao deus Bel
(semelhante ao deus cananita Baal), os quais incluíam cavalos e até seres
humanos. Com a conquista dos celtas pelos romanos, os sacrifícios humanos
cessaram, e a celebração a Samhain se fundiu com a festa romana da deusa
Pomona, que acontecia na mesma data.
Devido à degradação do cristianismo, muitos costumes pagãos entraram na
igreja. Assim, em 13 de maio de 610, o papa Bonifácio IV dedicou um templo
pagão a Maria e decretou uma nova data a ser comemorada pela igreja: o dia de
todos os santos.
No 8º século, o papa Gregório III fez com que o dia de todos os santos
passasse a ser comemorado em 1o de novembro, o antigo dia da festa pagã de
Samhain, o que foi pensado para “evangelizar” (leia-se: “fazer média com”) os
pagãos. A partir dali, as relíquias (objetos religiosos ligados aos santos) eram
exibidas e peregrinações a santuários famosos foram encorajadas.
A população foi incentivada a se fantasiar para honrar os santos –
paroquianos se vestiam como santos, anjos ou demônios nas igrejas pobres. Com
o tempo, criou-se a festa das Almas, cuja data era 2 de novembro (o nosso dia de
finados). Ambas as celebrações se fundiram, passando a acontecer em 1o de
novembro. Em inglês, o dia 31 de outubro se tornou All Hallows Eve (véspera do
dia de todos os santos), que evoluiu até se tornar o Halloween.
Com todo esse histórico, dificilmente algum cristão poderia
conscientemente apoiar a celebração do Halloween. Uma festa que nasceu pagã
e recebeu o endosso do catolicismo apóstata merece a completa rejeição
daqueles que servem a Jesus verdadeiramente.

Outras concessões
Evidentemente, existem outras heranças pagãs no seio do cristianismo.
Rituais dedicados a santos, festas pagãs recicladas e objetos de adoração
semelhantes aos encontrados em cultos não cristãos. Mesmo na
contemporaneidade, igrejas mais recentes têm voltado às tradições medievais,
usando água benta e objetos consagrados. Outras usam velas na adoração.
Ao longo de sua existência, o cristianismo enfrenta uma batalha para resistir
aos apelos da cultura em que está inserido. Nem tudo o que pertence à cultura é
errado por si – do contrário, teríamos de usar roupas completamente diferentes
em nosso dia a dia (não sei se eu me adaptaria a uma túnica, por exemplo!).
Ocorre que muitas expressões e costumes culturais podem ferir princípios claros
do evangelho.
Colportando nas serras gaúchas, certo dia eu voltava para o alojamento. Era
próximo ao meio-dia. O sol estava a pino. Tinha sede. Bati palmas em uma casa,
de onde saiu uma moça. Pedi-lhe um copo com água. Em instantes, ela voltou
com um copo que, em vez de água, continha vinho branco. Felizmente, percebi
antes de experimentar! Como a região onde eu estava é famosa por vinícolas
comunitárias, o costume era oferecer vinho. No entanto, como cristão, não
poderia aceitar aquilo. Então, gentilmente, expliquei à moça que não tomava
aquela bebida.
Nem sempre é tão simples detectar quando algo representa um perigo para a
vida cristã. Muitos hábitos, costumes e práticas aparentemente inofensivos
escondem princípios antagônicos à mensagem do evangelho. Cada realidade
cultural apresenta semelhantes desafios.
No contexto pós-moderno, os desafios são imensos e exigem constante
reflexão. A maior tentação é nos tornarmos cristãos pós-modernistas,
assimilando comportamentos urbanos errados e hábitos norteados pela cultura de
massa. A experiência religiosa se tornará mero entretenimento religioso, nutrida
com pregações pasteurizadas. Substituiremos as doutrinas pelo sentimento de
pertencimento e a autêntica comunhão cristã baseada na verdade pela mera
amizade social. Precisamos de equilíbrio para não ser insensíveis à época em que
vivemos, sabendo contextualizar o evangelho, sem cair na armadilha de aculturar
nossa fé.
Em cada período da história, os servos de Deus agiam como hábeis
médicos, capazes de fazer o diagnóstico correto e propor o tratamento adequado.
Isso não lhes garantia aceitação ou popularidade. Ao contrário, as reações a seus
esforços eram violentas – para dizer o mínimo.

Denunciando o erro
João Batista não era um mensageiro passivo. Não usava um microfone
auricular, enquanto contava piadas para ouvir sua audiência gargalhar. Não o
imagine como um tipo bonachão, boa-praça, desses que têm linguagem fluida e
sabem agradar a todos com lisonjas calculadas.
O que movia o profeta do deserto era o seu desejo de ficar ao lado da
verdade. E isso tem permanecido, ao longo dos séculos na história cristã, como
um dos maiores inconvenientes. Quem quer que se levante em favor da verdade
sofre, na melhor das hipóteses, zombaria e indiferença.
Isso não significa que os servos de Deus sejam desagradáveis de propósito.
Entretanto, ao se posicionarem diante do erro de seus contemporâneos, atraem
críticas e acusações. Desde Abel tem sido assim.
Certamente, João Batista tinha palavras duras a transmitir. Caso se
recusasse a falar, o peso da responsabilidade cairia inteiramente sobre ele. Sinta
o peso de sua pregação:

Quando viu que muitos fariseus e saduceus vinham para onde ele estava batizando, disse-lhes:
Raça de víboras! Quem lhes deu a ideia de fugir da ira que se aproxima? Deem fruto que mostre o
arrependimento! Não pensem que vocês podem dizer a si mesmos: “Abraão é nosso pai”. Pois eu
lhes digo que destas pedras Deus pode fazer surgir filhos a Abraão. O machado já está posto à raiz
das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo (Mateus 3:7-10).

Com o peito estufado e voz possante, João não poupava os fariseus que se
aproximavam do Jordão. Suas palavras não incluíam uma saudação
condescendente. O Batista agia como um verdadeiro zagueiro diante do contra-
ataque puxado por um volante habilidoso – rápido e incisivo.
João lembrava aos líderes de seu tempo que, se é impossível fugir do
julgamento de Deus, é mais sensato se preparar para ele. Parece que, em menor
ou maior grau, todos padecemos do sentimento irracional de viver em
desconformidade com nossa expectativa – o que afeta a vida espiritual.
É uma ilusão imaginar que se possa alcançar a salvação sem verdadeiro
arrependimento e transformação de vida. Nem mesmo a etnia – ser ou não
descendente de Abraão – garante privilégios espirituais. As árvores que não
produzissem fruto (de genuíno arrependimento) seriam cortadas pelas mãos
calosas do divino lenhador.
João não reservava suas palavras duras apenas para os fariseus. Ele
denunciou a imoralidade do próprio governante da região. Depois da morte do
profeta, Herodes ouviu falar a respeito de Jesus. Por alguma razão, o sinistro
monarca concluiu que o Galileu era, em verdade, o próprio Batista ressuscitado.
Nesse contexto, o evangelista relembra o motivo de João ter sido preso:

Pois Herodes havia prendido e amarrado João, colocando-o na prisão por causa de Herodias,
mulher de Filipe, seu irmão, porquanto João lhe dizia: “Não te é permitido viver com ela” (Mateus
14:3, 4).

É muito fácil confundir as coisas. A Bíblia fala de diversos indivíduos dessa


família. Quando Jesus nasceu, por exemplo, foi perseguido por Herodes, o
Grande. No entanto, ele morreu alguns anos depois. A história registra diversos
de seus crimes. Talvez por isso seus filhos tenham sido déspotas imorais – a fruta
não cai longe do pé.
Esse que aparece no verso bíblico acima (e que se encontrará com Jesus em
seu julgamento, veja Lucas 23:7) é filho de Herodes, o Grande, com Maltace,
sua esposa samaritana. Ficou conhecido como Herodes Antipas. Em Roma,
Antipas se apaixonou pela esposa de seu meio-irmão. Herodes Filipe (que
aparece na Bíblia apenas com o último nome), filho de Mariane, era casado com
Herodias e tinham uma filha chamada Salomé. A esposa o deixou e passou a
conviver maritalmente com Antipas. Dá para se ver que, na família de Herodes,
moralidade não era algo que se aprendia em casa!
E se João concentrasse sua pregação naqueles que estavam ao seu redor,
querendo ouvir a mensagem do Céu? E se ele se calasse sobre Herodes e o caso
público que mantinha com a própria cunhada? Que o assunto ficasse com as
revistas de fofocas e os sites do gênero! Por que falar disso, sabendo das
prováveis repercussões?
Sei que vivemos em uma era em que o mal parece estar em toda parte.
Alguns cristãos simplesmente preferem pensar que se viverem o evangelho isso
será suficiente. Confiam na “estratégia do exemplo mudo”. João não seguia essa
prática.
Para ele, o erro precisava ser denunciado. O mundo perece em seus erros. A
imoralidade convive em outdoors e em comerciais de televisão. Muitos já se
acostumaram com o erro. O pecado foi no passado um cãozinho desabrigado que
as pessoas acolhiam em casa e para quem serviam uma tigela de leite. Hoje, ele é
um gigantesco e feroz pitbull, rosnando e com as salivas à mostra.
O mal precisa ser combatido. O mundo precisa conhecer sua
periculosidade. As pessoas têm de ser advertidas de suas responsabilidades
eternas. O evangelho do aconchego não é aquele presente nas páginas das
Escrituras. Embora a presença do Senhor seja acalentadora, ela também perturba
a tranquilidade daqueles que se acostumaram com o pecado.
Por sua audácia, João Batista irritou quem detinha o poder, isto é, Herodias.
Isso mesmo. Herodes Antipas mandava na política, mas sua mulher mandava
nele! Incitado por ela, o tirano mandou acorrentar o filho de Isabel.
Provavelmente, João duraria mais algum tempo pregando se resolvesse
nada comentar sobre a situação imoral de Herodes. Falar a verdade lhe custou
um alto preço. Fico imaginando João se vendo cercado por soldados, muitos dos
quais talvez não o quisessem prender. Apenas cumpriam ordens de um
governante que, tampouco, tinha prazer em prender o mensageiro do deserto. O
ministério público de um dos homens de Deus mais notáveis chegava ao fim.
Tudo porque ele havia se recusado a ficar calado diante do erro. Sua fidelidade à
consciência garantiu sua prisão.
Por favor, não se iluda. Seguir o dever nunca representou algo sem riscos.
Embora seja desse modo, o chamado divino requer nossa obediência estrita.
Adocicar o remédio é diminuir sua eficácia. Todos nós carecemos de saber os
planos de Deus. A decisão a tomar é solene: Aceitar ou rejeitar a verdade.

Com a verdade ou contra ela


Já vi muitas pessoas serem confrontadas com a verdade. Algumas passaram
por sérios conflitos. Tiveram de abrir mão do emprego, de relacionamentos e de
seus sonhos. Outros resolveram rejeitar os apelos do Espírito Santo. Desistiram
de conhecer a Deus. Poucos casos me deixaram tão profundamente triste como
de um jovem catarinense chamado Marcelino. 40
Esse rapaz sofreu desde cedo com a perda dos pais. Passou por diversos
lares como adotivo, até ir morar com uma família muito religiosa em uma cidade
do litoral catarinense. Marcelino começou a estudar em um colégio adventista. A
princípio, tinha muitos preconceitos em relação à escola, principalmente por se
tratar de uma instituição confessional.
Marcelino fez amizades e cultivou um gosto por literatura macabra. Seus
escritos eram mórbidos. Ele traçava linhas sobre seu desgosto com a vida e
saudava a morte como um desejo maior. Todavia, algo mudou.
O rapaz passou a se interessar pela Bíblia. Nessa fase, um fato lhe trouxe
para mais perto das questões espirituais. Certo dia, Marcelino perdeu o ônibus.
Entrou em contato com os pais adotivos, mas eles não podiam buscá-lo. Ele se
dirigiu à igreja adventista, localizada ao lado do colégio. Pediu para falar com o
capelão da escola.
Marcelino já era meu aluno. Eu sabia de sua confusão de ideias e deixava
diversos recados nos trabalhos que ele me entregava. Questionava
respeitosamente seus pontos de vista. Tentava provocar reflexão. Naquela noite,
ele me pediu carona. Não seria nenhum esforço. Entretanto, eu disse que
somente poderia fazê-lo após terminar o culto. Eu o convidei para entrar e
esperar comigo.
Estava ocorrendo uma série com o pastor Luís Gonçalves. Marcelino
assistiu à programação e ficou impressionado com a mensagem, mas ele só me
contaria isso depois. Depois que chegou à sua casa, passou a noite refletindo.
Em outro momento, ele resolveu visitar a igreja. A mensagem do boletim,
escrito pelo pastor distrital, mexeu com ele novamente. À medida que ia se
aproximando da Igreja Adventista e manifestava o desejo de guardar o sábado, o
jovem via seu lar se tornar um ringue. A mãe adotiva passou a persegui-lo, pois
não lhe era possível admitir que o filho adotasse outra crença diferente da sua.
Quando a situação se tornou insustentável, Marcelino desabafou com sua
professora de matemática. Essa mulher cristã sentiu que o Senhor a estava
chamando para ajudar o menino. Numa atitude corajosa, ofereceu seu lar para
que Marcelino viesse morar com sua família. Isso não seria problema, uma vez
que o jovem já contava com 18 anos. Em poucos dias, Marcelino se mudou.
A mudança foi bem dramática. Por isso, todos nós que conhecíamos
Marcelino formamos uma rede de amizade para apoiá-lo. Conversei várias vezes
com ele antes do batismo, sobre o que teria de mudar em sua vida. Oramos
juntos. E ele jamais deixou de mostrar convicção.
O dia do batismo do Marcelino comoveu a todos. Era um encontro de
educadores adventistas de todo o estado de Santa Catarina. Nós, professores e
funcionários do colégio onde ele estudava, contamos a história de sua conversão
por meio de uma encenação, com direito à trilha sonora, cenários virtuais
desenhados no computador e projetados por trás da tela, para que não fossem
encobertos pelos “atores” em cena. No fim, o próprio Marcelino deu seu
testemunho. Em seguida, aconteceu seu batismo. Alguns alunos do colégio
estiveram presentes apenas para ver a cerimônia.
Eu gostaria de terminar a história nesse ponto. Seria lindo se esse fosse o
fim. Contudo, os dias se passaram, e Marcelino se viu às voltas com um sério
problema. Isso o afastou da igreja e da família que o adotou. Lembro-me de que
pouco antes da minha transferência daquela cidade, eu orei bastante por ele. E o
chamei à minha sala.
Marcelino se mostrou frio. Não queria conversar. Embora ele houvesse
admitido a questão, as coisas haviam mudado. Não que ele tentasse esconder.
Para ele, não fazia diferença. Aquilo nem era mais um problema. Tentei lhe
oferecer um livro, mas ele recusou. “E quando Jesus voltar, Marcelino?”, tentei a
última carta. “Irei para o lago de fogo mesmo”, disse-me sem se importar muito
com o teor da frase.
Incrível, não? Marcelino tivera envolvimentos com alguns meninos antes
do batismo. Ele estava disposto a abandonar a prática homossexual. Entretanto,
deixou-se vencer pela tentação. Sua página no Facebook exibe fotos e recados
entre ele e o namorado.
Esse era o pecado de Marcelino. Cada um tem o seu. Ser homossexual não
o faz melhor ou pior do que ninguém. Todos, caso não nos arrependamos de
cada pecado cultivado, perderemos a salvação.
É tempo de nos posicionarmos. João Batista preferiu sofrer nessa vida para
ficar ao lado da verdade. E você, deixará que suas inclinações o coloquem contra
o plano de Deus? Qual será a sua decisão? Em um mundo tomado pelo mal, é
impossível nos manter divididos por muito tempo. Uma escolha tem de ser feita.
Qual será a sua?
39
As informações foram retiradas da revista Las Buenas Noticias
(Julho/Agosto de 2004, p. 2, 3). O periódico é editado pela Igreja de Deus
Unida, que mantém semelhanças com os adventistas do sétimo dia (também
guardam o sábado e estudam Daniel e Apocalipse, entre outros pontos em
comum).
40
Para proteger os envolvidos, usei pseudônimos.
8. OS OLHOS DE DEUS POR ENTRE AS
GRADES

Q uando alguém pergunta minha profissão, geralmente respondo


prontamente: sou pastor adventista. Ultimamente, tenho me preocupado
como isso soa aos ouvidos. Não me entenda mal. Tenho satisfação em pregar o
evangelho. O problema são as notícias polêmicas envolvendo pastores.
Se abro uma revista, leio sobre pastores envolvidos com políticos que são
acusados de lavagem de dinheiro e tentativa de homicídio de desafetos. Se ligo a
TV, assisto à emissora de uma bem conhecida denominação denunciar o
enriquecimento ilícito de outro líder cristão (por sinal, rival do dono da
emissora!). Com tudo isso, a fama dos pastores não é das melhores.
Infelizmente.
Para além das igrejas regidas com mão de ferro, como empresas da fé,
existem milhares de pessoas sentindo um enorme vazio espiritual. A falta de uma
plataforma religiosa autêntica, de um currículo realmente cristão nos púlpitos, é
responsável por uma leva de fiéis desinformados, intoxicados por louvores
emocionais e chavões de autoajuda disfarçados de recomendações piedosas. Essa
apatia afeta, em maior ou menor grau, todos os cristãos. Infelizmente, os
adventistas não estão totalmente livres desse cristianismo supérfluo e
apequenado do século 21.
Em certo sentido, o cristianismo se acomodou de tal maneira à cultura ao
seu redor que a pureza de seus princípios azedou. Pular ao som de música pop
tornou-se equivalente de culto cristão. Assistir a todas as reuniões da igreja é
sinônimo de consagração. E o poder inequívoco que transforma perspectivas? E
a atitude abnegada que leva a ceder o lugar na fila? E a luta emocionante contra
pecados como gula ou ambição? Para alguns, isso soa como usar burca na praia
ou ler pergaminhos – coisa de gente atrasada ou fanática.
A chamada mídia cristã promove seus artistas, que ganham fãs capazes de
gastar horas em fóruns na internet exaltando seus ídolos. Um cristianismo de
empolgação e prazer.
Sabe o que isso me lembra? Penso no sofrimento dos primeiros cristãos.
Nenhum deles estampava Jesus em sua camiseta, porque os tempos eram outros!
Era perigoso sair às ruas e assumir a condição de discípulo de Cristo. Não havia
baladas gospel, e nenhum artista evangélico cantava em programas dominicais
da televisão. Os únicos shows nos quais os cristãos eram protagonistas
aconteciam no coliseu romano.
Ninguém sabe ao certo quantos deram sua vida pelo evangelho. O que se
sabe é que, por gerações, cristãos foram torturados, perseguidos, esquartejados,
afogados, queimados, mortos à espada e jogados aos leões. Eles não cantavam
junto a seus artistas, em ginásios lotados; seus lábios se moviam do alto da
estaca, enquanto esperavam o fogo consumi-los totalmente. Ao ouvi-los, a
multidão enfurecida acusava-os de heresia. Eram outros tempos.
Hoje, Jesus é uma logomarca. Um discurso, qualquer emblema. Há todo
tipo de Cristo para agradar à clientela. Basta escolher. No entanto, nenhum deles
oferece a paz, o calor, a completude e a restauração, que o verdadeiro Jesus
proporciona.
Por isso, eu entendo os mártires. Sofriam, mas com resignação. Eram
humilhados, porém conservavam sua nobreza. Passando privações, mas sem
deixar as palavras de gratidão se ausentar dos lábios e do coração. Eles
conheceram o segredo da vida, cujo valor excedia o da própria vida. O segredo é
Jesus. Por ele, fugir, lutar, sofrer, urrar ou perecer não bastava para tirar o sabor
do paladar: sabor do Céu.

Ele merecia isso?


Olhe para esse exemplo. A barba esverdeava no rosto esquálido. Olhos
esbugalhados, ouvindo cítaras alegres ou alaúdes festivos – sons de um mundo
que ria enquanto sua crença era pisoteada. Você consegue ler a linha de dúvida
insinuando-se em sua testa franzida? Consegue distinguir a boca balbuciar a
prece sentida, desconjuntada? Esse é um homem confuso, questionando a Deus
sobre até quando ele terá de suportar a prova, sem aparente socorro. Tudo lhe
parece injusto, cruel e desnecessário. Por que isso? E por que com ele?
Você não se enganou. Esse é mesmo João Batista! Incrível, não é? Há
pouco, ele estava pregando no rio, estufando o peito para desafiar a hipocrisia
dos religiosos. Seus cabelos respingando a água do Jordão pareciam cobertos de
cristais gloriosos. Ele batizou Jesus. Esse foi seu momento mais notável.
João agira como uma seta de neon que indicava o Messias. Ele o havia
batizado. Apresentara-o ao povo. Direcionara seus discípulos a Cristo. Afinal, o
Batista era a voz do deserto, o alto-falante do Céu. Suas convicções? Mais claras
do que a do mais bem-sucedido empresário. Se uma revista de empreendedores
fizesse uma matéria sobre a importância de manter o foco, deveria entrevistá-lo!
João sabia quem era e não admitiu que o confundissem com o Messias (embora,
sob uma ótica mundana isso fosse vantajoso).
E o que foi feito desse pilar da fé? O João de tantas certezas ficou reduzido
ao João que duvida. Leia com cautela suas palavras: “És tu aquele que haveria
de vir ou devemos esperar algum outro?” (Mateus 11:3).
Sei o que você está pensando: nem parece o mesmo homem. Ele, que
arrebanhou pessoas para Cristo, expressou incerteza quanto à sua identidade
messiânica. A bússola de João perdera o magnetismo.
Isso significa que João fosse superficial? Não creio que se trate disso.
Muitos mártires do passado experimentaram o mesmo. A dúvida, o medo e a
tentação de renunciar sua fé. Alguns até o fizeram e, depois, arrependeram-se
amargamente, voltando a professar sua crença na doutrina do evangelho com tal
veemência que foram levados ao sacrifício.
Deus distingue o coração que luta sinceramente daquele que não suporta as
provas, por falta de alicerce. Na hora mais escura, a luz invisível é percebida
quando a fé persistente prevalece. Aquela era a escuridão do Batista.
E quanto a nós? Que temos cultivado em nossa experiência? O cristianismo
de momento pode ser atrativo e estimulante. Todavia, a questão é: Quanto ele
dura? Na hora mais escura, de que ele nos aproveitará? Sem o exercício de fé
constante e madura, o menor sopro assumirá proporções ciclônicas!

Em busca de respostas
Atente para a sequência: os mensageiros de João chegaram a Jesus com
olhos sem brilho e vozes embargadas. A descrença de João não lhes havia
poupado. Que resposta deveriam dar ao desiludido precursor? Que resposta
teriam para seu proveito próprio?
Sem dúvida, as maneiras de Jesus irritariam muitas pessoas em nossos dias.
Parece que suas respostas raramente eram diretas. Não que o objetivo dele fosse
confundir ou dificultar. Ele é o Senhor do simples. Ao mesmo tempo, a
profundidade do que Cristo dizia causava (e ainda causa) alvoroços. No caso em
questão, sua resposta aos discípulos de João se mostrou rica em significado:

Voltem e anunciem a João o que vocês estão ouvindo e vendo: os cegos veem, os mancos andam,
os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e as boas-novas são
pregadas aos pobres; e feliz é aquele que não se escandaliza por minha causa (Mateus 11:4-6).

Jesus não tinha uma homilia sobre os sofrimentos. Não fez um discurso
acadêmico intitulado: “Motivo para resignação dos mártires da perspectiva
eclesiológica.” Ele, a princípio, nada disse. Contou com a compreensão dos
emissários de João. Fez com que acompanhassem a rotina do Messias. Após
algumas curas e feitos extraordinários, chamou os rapazes para um canto. “Vocês
viram o que eu fiz?”, perguntou-lhes Jesus. Cegos chegavam guiados e saíam
falando da cor do céu. Os surdos vinham deprimidos e voltavam assoviando para
acompanhar o cântico das aves. Paralíticos eram trazidos em macas e deixavam
o recinto aos pulos.
O que Jesus fazia era a evidência dos sinais messiânicos. A conclusão
deveria ser óbvia: se ele agia como o Messias, não poderia ser um jogador de
tênis passando as férias na Palestina! Não haveria outro para vir. O Nazareno de
fato era o Messias anunciado pelos profetas e batizado por João.
Já passou por momentos assim? As convicções rodopiam pelo ar, até
sumirem de vista. A esperança fica tão esmigalhada que parece impossível juntar
seus estilhaços. O que você faz? Desiste de lutar contra as ideias evolucionistas
na sala de aula e se submete às pressões acadêmicas? Abandona a resistência à
pressão e começa a frequentar as festas na república, regadas a álcool e muito
sexo? Fica com medo de perder a promoção e começa a trabalhar uma sexta-
feira à noite por mês?
Na hora da dúvida, a fraqueza espiritual nos esmaga. A angústia é imensa, e
as reservas emocionais estão ressequidas. João passou por isso. O primo do
Messias, na prisão? O mensageiro escolhido, dormindo com ratos? Teria o
Batista se enganado? Sua mensagem estava equivocada?
Se Jesus era mesmo o Messias, por que ele não o libertava? Bastava a ele
enviar um anjo, como quando Daniel esteve na cova dos leões (Daniel 6)? Jesus
poderia ter aparecido ali, de forma sobrenatural. Poderia ter feito as barras de
ferro se derreterem ou virarem isopor. Nada disso aconteceu. Sem milagres. Sem
solução. Sem certezas. João Batista estava sozinho?
Note a frase que Jesus cuidadosamente escolheu dizer a João: “Quem não
perde sua fé em mim é realmente abençoado.” Não é fácil remar entre
tempestades. Não é fácil dormir quando os problemas pesam. No entanto, é
necessário. E, pela fé, é possível. João deveria mais do que antes se apegar à
mensagem que ele próprio transmitiu. O homem do Jordão deveria substituir o
prisioneiro desiludido – sim, ele teria de voltar a ser o mesmo João Batista,
independentemente das circunstâncias. Principalmente, porque as coisas iriam
piorar!

Despedida cruel
Na prisão, João contava com um simpatizante inesperado: o próprio
Herodes!
Veja o que diz o texto bíblico:

Assim, Herodias o odiava e queria matá-lo. Mas não podia fazê-lo,porque Herodes temia a João e
o protegia, sabendo que ele era um homem justo e santo; e quando o ouvia, ficava perplexo. Mesmo
assim gostava de ouvi-lo (Marcos 6:19, 20).

À semelhança do rei Acabe, Herodes era um tirano que, em alguns


momentos, demonstrava ter resquícios de consciência. E, como o antigo
governante, ele era facilmente manipulado por sua mulher. A prisão do Batista
foi instigada por Herodias. O próprio governador não teria a iniciativa de atentar
contra o profeta: ao contrário, Herodes o temia. E ainda mais: visitava João
Batista e o ouvia pregar!
Nada indica que, uma vez preso, João começasse a transmitir mensagens
mais amenas. Ele ainda era o mesmo mensageiro duro com o pecado. Contudo, o
que ele tinha a dizer ainda mexia com Herodes. Infelizmente, as convicções do
tirano eram feitas de porcelana – e estavam prestes a serem lançadas ao chão.

Finalmente Herodias teve uma ocasião oportuna. No seu aniversário, Herodes ofereceu um
banquete aos seus líderes mais importantes, aos comandantes militares e às principais
personalidades da Galileia. Quando a filha de Herodias entrou e dançou, agradou a Herodes e aos
convidados. O rei disse à jovem: “Peça-me qualquer coisa que você quiser, e eu lhe darei.” E
prometeu-lhe sob juramento: “Seja o que for que me pedir, eu lhe darei, até a metade do meu reino.”
Ela saiu e disse à sua mãe: “Que pedirei?” “A cabeça de João Batista”, respondeu ela.
Imediatamente a jovem apressou-se em apresentar-se ao rei com o pedido: “Desejo que me dês
agora mesmo a cabeça de João Batista num prato” (Marcos 6:21-25).

Música alta, bebida à vontade, convidados importantes e clima de festa.


Herodes comemorava seu aniversário em grande estilo. A atração da noite veio
por conta de sua enteada, que dançou de forma sensual. Enquanto a moça
rebolava, os presentes marcavam o ritmo da música com palmas. O próprio
governante se agradou do espetáculo. Tanto que fez uma promessa impensada: a
menina poderia pedir o que quisesse. O limite seria a metade dos domínios de
Herodes.
Provavelmente, as palavras foram recebidas com vivas. A vaidade de
Herodes atingiu o pico. Em meio à agitação, Herodias fazia planos. Ardilosa e
mesquinha, ela soprou nos ouvidos da filha o que deveria pedir para o tolo
padrasto: a cabeça de João Batista.

O rei ficou muito aflito, mas, por causa do seu juramento e dos convidados, não quis negar o
pedido à jovem. Enviou, pois, imediatamente um carrasco com ordens para trazer a cabeça de João.
O homem foi, decapitou João na prisão e trouxe sua cabeça num prato. Ele a entregou à jovem, e
esta a deu à sua mãe (Marcos 6:26-28).

Herodes tinha o poder nas mãos. Se quisesse, ele se negaria a atender ao


pedido absurdo. Sua consciência protestava contra aquilo. Afinal, ele já queria
libertar o profeta preso há muito tempo. Tomado de tristeza, o rei deve ter
refletido por alguns instantes nas opções. Ao fundo, a figura de Herodias pairava
como uma cobra, satisfeita com o bote bem-sucedido.
Que contraste entre João e Herodes. Em certo aspecto, ambos lutavam com
convicções e dúvidas. A voz do deserto havia secado na prisão. Precisou enviar
seus discípulos a Jesus para recobrar ânimo. Seu caráter justo recebeu luz do Céu
para lutar contra as trevas. E Herodes? Ele também enfrentava uma crise. Ficou
abalado com a possibilidade de fazer tamanho mal a um homem santo. Todavia,
ao contrário de João, ele cedeu à pressão. Contemporizou com o que sabia ser
cruel e errado.
Quando os olhares da multidão abandonaram João Batista, ele enfrentou
desafios, mas a esperança se reacendeu. Quando os olhares de todos se voltaram
para Herodes, ele zelou pela sua reputação. Seu nome estava em jogo – e, desse
modo, manter sua promessa impulsiva lhe pareceu mais honrado do que poupar
a vida do mensageiro de Deus.
“Espere, isso é injusto!”, você protesta, quase rouco e ofegante. Por que um
homem da qualidade de João Batista teve que morrer dessa forma? Sim, não
houve julgamento ou possibilidade de defesa. A decapitação jamais foi um
método de execução muito humanitário. Por que um homem decente e digno,
aprovado pelo Senhor, precisou passar por isso?
Herodias podia pedir ao garçom para encher sua taça e brindar com alegria
por ver a cabeça de seu inimigo percorrer o salão na bandeja de prata, para
horror de todos; muitos dos líderes religiosos, incomodados com a mensagem
contundente do profeta, poderiam comemorar secretamente; alguns poderiam se
revoltar ou se amargurar diante da perda; mas nada daquilo seria definitivo. A
morte de um servo de Deus não significa sua destruição. Seu fim temporário não
anula as promessas do Senhor: os mortos em Cristo ressuscitarão para receberem
sua recompensa (1 Tessalonicenses 4:14-17).
Por que há hoje poucos cristãos mártires? Medo da morte? Comodismo?
Conformismo? Escolha um desses três. O resultado não será muito diferente.
Entretanto, o verdadeiro servo do Cristo é aquele que resolve ser um discípulo
radical, que leva às últimas consequências seu chamado, sem dever nada a
ninguém – exceto a Deus.
Ser cristão exige dedicação exclusiva. Quem há que, seguindo o exemplo
de João, esteja disposto a pagar o preço?
EPÍLOGO

Aacademia onde eu tinha aulas de judô havia se mudado para o centro da


cidade, em um teatro. Pessoas que eu conhecera havia pouco tempo e antigos
colegas se encontravam ali. Principalmente, tia Hilda continuava lá. Ela era tanto
a dona da academia, como a faixa preta mais simpática da história do esporte!
Ela me conhecia desde os meus quatro anos.
Tia Hilda sabia de meu gênio forte e, ao mesmo tempo, da minha reputação
de fazer as coisas de modo correto. Meus pais me ensinaram isso – evitar
problemas e ser honesto. No entanto, eu estava agora na adolescência e tinha
algumas coisas para “provar”.
Lembro-me de uma tarde em especial. Eu e outro colega estávamos
conversando na fila, esperando chegar nossa vez para realizar a atividade. Foi
nesse momento que ele me desafiou. Apontou para um menino e disse que eu
seria incapaz de derrubá-lo. Tratava-se de um lutador novato, magro, um faixa-
branca. Eu já devia ser faixa laranja, cheio de autoconfiança. Logo, derrubá-lo
seria moleza!
Fui até o menino e, sem muito aviso, apliquei-lhe um golpe que o levou ao
tatame. Simples assim. Voltei para a fila. Eu e alguns colegas rimos daquilo, mas
o que eu não esperava aconteceu.
Nem sempre tia Hilda estava conosco. Justamente naquela tarde, ela
acompanhava os exercícios, quando o rapaz que eu derrubei foi se queixar com
ela. Lembre-se de que ela sabia da minha reputação. Tia Hilda não teria
nenhuma dificuldade em me defender. E ela fez isso. Falou para o rapaz na
minha frente que eu jamais faria aquilo, a não ser que fosse provocado.
Ouvir aquela declaração poderia ter me enchido de orgulho. Contudo, o
efeito foi o contrário. Eu me senti arrasado e confessei que não houve motivo
para aplicar aquele golpe. Senti-me envergonhado com a expressão frustrada no
rosto de tia Hilda. Ela comentou algo, mas já não me recordo das palavras que
usou. Todavia, o sentimento, a cor, o jeito como ela disse, isso ficou gravado. Eu
a havia decepcionado.
Sempre corremos o risco de desanimar a outros, por não correspondermos
às expectativas. Entretanto, esse não é o problema. Devemos manter a
consciência tranquila de estarmos sendo justos e fazer o que é o correto. Às
vezes, cometer apenas um deslize destrói a boa imagem que as pessoas têm de
nós. Principalmente, devemos ser bons pensando que essa é a vontade de Deus
para nós: “E não cansemos de fazer o bem, pois no tempo próprio colheremos, se
não desanimarmos” (Gálatas 6:9). O mais importante, é fazer o que é certo e
agradar ao nosso Senhor.

A avaliação final
Enquanto escrevo estas linhas, uma série de adolescentes está na sala de
aula, exibindo a concentração de um equilibrista. Alguns, tensos. Outros, apenas
preocupados. Eles não estão em aula. Realizam avaliações para recuperar notas
ruins. A aprendizagem deles está sendo testada, após plantões de dúvidas, aulas
de revisão e muito estudo (em alguns casos, porque são adolescentes, e você
sabe…).
A pedagogia adventista é redentora e se preocupa em desenvolver no aluno
o máximo de seu potencial. Acredito nisso. Nesse processo, a avaliação não é
definitiva. Somente proporciona uma oportunidade para verificar o quanto o
aluno aprendeu e fazer com que o professor reveja o processo de aprendizagem,
pensando no aprendizado.
Claro que isso produz um resultado final. Daí se pode constatar se o aluno
foi ou não aprovado. Ainda estamos no segundo bimestre. Ainda há
oportunidades para todos.
Na vida, não é muito diferente. Podemos nos avaliar a todo tempo. O
objetivo deve ser rever e consertar a rota. Substituir hábitos ruins por outros
saudáveis. Abandonar fracassos no passado e focar o que vem a seguir,
conservando as lições aprendidas com os deslizes. Nada é definitivo, porque a
vida vai sendo construída no processo. Seria bom cometer o menor número de
falhas; mas entre erros e acertos, podemos aprender e nos apegar a Deus.
Todavia, como em um ano letivo (ou no semestre de um curso superior), o
fim da vida é definitivo. Chega o momento da última avaliação. E Deus, o
mestre supremo, é quem dirá se fomos ou não aprovados. Antecipadamente,
podemos saber do resultado, desde que sigamos as orientações divinas. E
confiemos naquele que nos ama de um modo que é didático e assombroso ao
mesmo tempo.
O momento da avaliação derradeira um dia chegou para João Batista. Na
maioria dos casos, seres humanos mortais são deixados em suspenso, porque
Deus não divide sua opinião sobre quem avaliou. Claro que esperamos que
muitas das pessoas que amamos e que vimos servirem a Deus ressuscitem para
receber a coroa da vida. No entanto, não há garantias de que elas confiaram nos
méritos de Cristo. E é justo dizermos que estamos no escuro quanto aos que,
aparentemente, morreram sem uma experiência religiosa declarada.
Quem nos garante que uma pessoa, que recebeu pouca luz da verdade, na
última hora não tenha se arrependido? Ou que um cristão aparentemente fiel não
tenha sido um bom farsante, um hipócrita? Somente o Senhor conhece os
corações. Apenas ele pode determinar o destino de cada um em seu juízo.
Quanto a nós, o máximo que podemos – e devemos – saber diz respeito à nossa
própria condição. Assim, em vez de especularmos sobre a salvação dos outros,
devemos estar mais preocupados com a nossa!
Entretanto, em algumas ocasiões, o Senhor nos mostra em sua Palavra
como avaliou grandes homens do passado. Isso acontece para sermos
incentivados a imitar esses santos exemplos. Dessa perspectiva, vale
recapitularmos as palavras de Jesus sobre João Batista. É a avaliação final do
precursor da luz feita pela própria Luz.

A radiografia de uma vida


Não tenha dúvidas: João viveu não para agradar a outros, nem com o fito de
corresponder às expectativas de seu tempo. Ele possuía uma missão. Era
portador de uma mensagem. Do deserto para cada lar de Israel, a luz do Batista
deveria brilhar intensamente.
De fato, Jesus reconheceu o poder da influência daquele que fora chamado
a preparar o caminho para ele:

Quando os discípulos de João foram embora, Jesus começou a dizer ao povo o seguinte a respeito
de João: – O que vocês foram ver no deserto? Um caniço sacudido pelo vento? O que foram ver?
Um homem bem-vestido? Ora, os que se vestem bem moram nos palácios! Então me digam: o que
esperavam ver? Um profeta? Sim. E eu afirmo que vocês viram muito mais do que um profeta
(Mateus 11:7-9, NTLH).

De forma poética, Jesus inicia sua reflexão levando as pessoas a pensarem


no sucesso da pregação de João. Por que ele atraía tanta gente? A localização
não era convidativa. Não havia qualquer truque midiático. Tampouco João se
parecia com um artista. Suas roupas não eram luxuosas e não havia diversos
números em seu show – sequer podemos falar que aquilo era um show.
Jesus respondeu de forma acurada por que as pessoas recorriam a João
Batista. Ele era um profeta. Entretanto, não estamos falando de qualquer profeta.
Embora todo profeta tenha a mesma inspiração – não há graus de inspiração –,
algo na vida do mensageiro da luz o tornava diferenciado. O Salvador destacou
João Batista, exaltando seu papel dentro do esquema divino em revelar a verdade
para aquele contexto:

Porque João é aquele a respeito de quem as Escrituras Sagradas dizem: “Aqui está o meu
mensageiro, disse Deus. Eu o enviarei adiante de você para preparar o seu caminho.” Eu afirmo a
vocês que isto é verdade: de todos os homens que já nasceram, João Batista é o maior (Mateus
11:10, 11, NTLH).

Uau! Não é de todo mundo que se ouve um elogio desse tamanho. Todos
gostamos de elogios. Lembro-me de um episódio interessante: postei em minha
página no Facebook alguns desenhos antigos, feitos com pincel e nanquim.
Muitos curtiram e comentaram. No entanto, quando li um comentário de Thiago
Lobo, ilustrador da Casa Publicadora Brasileira, simplesmente ganhei meu dia.
Ser elogiado por alguém da área é sempre incrível.
Contudo, nada se compara ao elogio que João Batista recebeu. O próprio
Jesus, criador da humanidade, conhecedor de todas as coisas, afirmou: “de todos
os homens que já nasceram, João Batista é o maior.” Certa vez, em uma
declaração polêmica, o ex-jogador brasileiro Romário disse: “Quando eu nasci,
Deus apontou para mim e disse: ‘Esse é o cara’.” Com todo respeito ao grande
centroavante, o único que recebeu um elogio parecido chama-se João Batista.
Jesus não terminou aqui suas considerações. Há outras surpresas:

Digo-lhes a verdade: Entre os nascidos de mulher não surgiu ninguém maior do que João Batista;
todavia, o menor no reino dos céus é maior do que ele. Desde os dias de João Batista até agora, o
reino dos céus é tomado à força, e os que usam de força se apoderam dele. Pois todos os Profetas e
a Lei profetizaram até João. E se vocês quiserem aceitar, este é o Elias que havia de vir (Mateus
11:11-14).

O Batista teve inúmeros privilégios: anunciou o Messias; mas, ao contrário


de outros mensageiros, ele o viu e mais: pôde batizá-lo. Que bênção! Contudo,
seus privilégios são limitados perto daqueles que contemplam as maravilhas do
Reino. E não precisamos esperar até que Jesus volte para conhecer tais
maravilhas. Pelo menos em parte, podemos antecipar o Céu, aceitando a sua
pessoa e a sua mensagem. Cristo veio trazer o Reino. Suas revelações
inauguravam um novo tempo.
Nesse sentido, podemos entender a declaração dele, geralmente alvo de
controvérsias teológicas: “Pois todos os Profetas e a Lei profetizaram até João.”
Longe de desvalorizar ou até mesmo descartar o Antigo Testamento, Jesus se
apresenta como o cumprimento de toda profecia. O último recado do Antigo
Testamento havia alcançado seu ápice em João, o último mensageiro antes da era
em que as profecias messiânicas se cumprissem em Jesus.
João era o Elias predito (Malaquias 4:5, 6). Não se trata aqui de
reencarnação; João viria no espírito, ou seja, em condições e com características
similares às do profeta Elias. Provavelmente, a crença do judaísmo sobre o
aparecimento de profetas na era messiânica estava tão distorcida que João negou
que fosse Elias (João 1:21), para não pensarem que ele era literalmente o profeta
do passado (compare com Mateus 16:14).
O reino de Deus, anunciado pelos profetas, sempre foi alvo de ódio de
homens movidos por seus impulsos terrenos. Isso explica o martírio de profetas
e pregadores. Apesar de João Batista ainda estar vivo quando Cristo fez seu
discurso em defesa dele, em breve ele se ajuntaria à fileira dos fiéis mortos
injustamente.

Geração indiferente
Como ninguém, Jesus se mostrou hábil em aproveitar as oportunidades. Ele
não pretendia apenas chamar a atenção para o caráter e missão de João Batista,
aprovado na avaliação do Céu. Ele queria que as pessoas pensassem em como
poderiam se autoavaliar. Acompanhe suas ponderações:

Aquele que tem ouvidos, ouça! A que posso comparar esta geração? São como crianças que ficam
sentadas nas praças e gritam umas às outras: “Nós lhes tocamos flauta, mas vocês não dançaram;
cantamos um lamento, mas vocês não se entristeceram.” Pois veio João, que jejua e não bebe vinho,
e dizem: “Ele tem demônio.” Veio o Filho do homem comendo e bebendo, e dizem: “Aí está um
comilão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores.” Mas a sabedoria é comprovada pelas obras
que a acompanham (Mateus 11:15-19).

Não importava que meios o Senhor usasse para impressionar seu povo
incrédulo, pois o resultado se mostrava idêntico: em vez de estado de alerta,
apatia; em lugar de arrependimento, indiferença. As críticas se dirigiam tanto a
João quanto a Jesus.
E ao responder de forma tão apagada à pregação da mensagem, quem o
rejeitava se desqualificava para a salvação. Somos avaliados por Deus de acordo
com a resposta que damos à sua vontade. Muitos judeus do primeiro século se
recusaram a ouvir (mas não nos esqueçamos dos discípulos que eram judeus,
além de muitos que se converteram no Pentecostes). Entretanto, como Jesus
explanou: “a sabedoria é comprovada pelas obras que a acompanham.”
E hoje é diferente? Jesus está próximo de interromper o curso dese mundo.
Ele assumirá o controle absoluto do planeta. Seus olhos o verão invadir o espaço
das nuvens, escoltados por incontáveis anjos. Como essa notícia afeta você? Isso
se parece com uma velha história de família, com a qual já nos acostumamos
tanto a contar e a ouvir outros contarem, que não nos comove mais?
Enquanto estivermos acostumados a ponto de não nos importar com as
implicações práticas da mensagem, padeceremos da mesma ignorância daqueles
que rejeitaram a luz de João Batista. Mais do que aceitarmos sem relutância a luz
celestial, devemos nos tornar precursores da luz que está prestes a retornar.
Levante-se e brilhe. Ilumine as trevas. Seja a voz no deserto de hoje.
Abrevie o momento glorioso em que o Messias aparecerá – não para iniciar
outra missão entre os homens, mas para reinar soberano!