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PLANO DE AULA APOSTILADO

Escola de Teologia do Espírito Santo

Missiologia

Uma abordagem moderna sobre missões

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 2


© Copyright 2004, Escola de Teologia do ES

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Todas as citações bíblicas foram extraídas da Bíblia Versão Almeida


Corrigida e Fiel(ACF)
©2008, publicada pela Sociedade Bíblica Trinitariana.

O presente material é baseado nos principais tópicos e pontos salientes da matéria em questão.
A abordagem aqui contida trata-se da “espinha dorsal” da matéria. Anexo, no final da
apostila, segue a indicação de sites sérios e bem fundamentados sobre a matéria que o módulo
aborda, bem como bibliografia para maior aprofundamento dos assuntos e temas estudados.

TEOLOGIA DO ES, Escola de - Título original: Missiologia, Uma abordagem moderna sobre
missões – Espírito Santo: ESUTES, 2004.

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 3


__________

SUMÁRIO

_______

UNIDADE I
MISSIOLOGIA
O que é Missões...................................................................................................................................................5
O papel da Igreja em Relação a Missões.............................................................................................................6
Para que fazer Missões?......................................................................................................................................7
Onde fazer Missões?............................................................................................................................................7
A chamada específica para obra Missionária.......................................................................................................9

UNIDADE II
MISSÕES: TAREFA DA IGREJA
Deus usa as vidas pros seus Propósitos............................................................................................................13
A Batalha Espiritual............................................................................................................................................15
O desafio de Missões.........................................................................................................................................22

UNIDADE III
O RELACIONAMENTO ENTRE A IGREJA LOCAL E AS JUNTAS OU AGÊNCIAS MISSIONÁRIAS
O papel da Igreja................................................................................................................................................25
O Pastor – A chave para Missões Mundiais........................................................................................................27
O sustento de Missões.......................................................................................................................................29

UNIDADE IV
ANTROPOLOGIA MISSIONÁRIA
O Desenvolvimento Histórico da Antropologia...................................................................................................32
Cultura e as Principais necessidades do ser Humano.......................................................................................34
A visão Teológica Transcultural da Bíblia...........................................................................................................38
Os cuidados na obra Missionária.......................................................................................................................44

BIBLIOGRAFIA..................................................................................................................................................45

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UNIDADE I
MISSIOLOGIA
...............................................................

“Bem aventurados são os pés dos que anunciam as boas nova”.

..............................................................

O QUE É MISSÕES

A palavra "Missões" vem da expressão latina "missione', que se origina, por sua vez do verbo
latim "mittere", que significa "ação, tarefa, ordem, mandato, compromisso, incumbência, encargo
ou obrigação de enviar missionários". No Novo Testamento, a palavra usada é "apostello", verbo
que no grego que significa enviar. A tarefa de salvar o mundo não pode ser desassociada do "enviar"
homens e mulheres cheios do poder de Deus para alcançá-lo, porque não há como salvar o mundo
sem que haja alguém enviado para pregar e apontar-lhe o caminho. No início deste estudo vemos
em Rm 10.13-15 que há um processo para a salvação do homem. Este processo começa com "enviar".
"Enviar" pessoas capacitadas por Deus e pela Igreja, para que preguem o Evangelho; "Pregar" para
que homens, mulheres e crianças de todas as tribos, línguas, povos e nações possam ouvir; "Ouvir"
para que possam crer; "Crer" para que possam invocar o nome de Jesus e, ao "lnvocar" o seu nome,
possam ser salvos. Quem primeiro se preocupou em "enviar" foi o próprio Deus. (João 3.16). Através
deste versículo, conhecemos a preocupação de Deus para com a humanidade decaída e distanciada
de si, razão pela qual, enviou Jesus, o seu Filho Unigênito, ao mundo para uma única missão, salvar
o homem perdido. (Lucas 19.10). O verbo "dar", neste texto, não é simplesmente alguém estender a
mão e oferecer alguma coisa a outrem. É oferecer ou ofertar uma dádiva valiosa para alguém que
não merece, sem impor o recebimento de algo em troca. Foi exatamente o que Deus fez: Ofereceu o
seu Filho amado para resgatar o homem que havia se afastado completamente dEle. Para se
entender Missões é preciso partir deste princípio, que Deus enviou o seu Filho e que o próprio Filho
se deu para salvação dos homens perdidos. Se compreendermos que Deus deu o seu Filho e que
Jesus se deu a si mesmo para a salvação da humanidade, podemos, então dizer: MISSÕES é a Obra
de Deus dada à Igreja que, seguindo o exemplo de Cristo, proclamei por palavras e ações o Reino de
Deus, chamando todos ao arrependimento e a ter fé em Cristo, enviando-os a serem discípulos dEle.
Podemos concluir, através da missão confiada aos doze, que o alvo principal de Missões é a
proclamação do Reino de Deus a todos os homens. Inicialmente, só os judeus estavam ao alcance da
bênção enviada pelo Pai, mas o plano de Deus era alcançar também os gentios e o meio para isto foi
o fato de os judeus rejeitarem o Filho de Deus. (Atos 13.46). Quando Jesus disse que o "Evangelho do
Reino será pregado", falava de um reino; de algo com autoridade. O reino teria algumas
características que o tornaria completamente diferente dos que tinham sido implantados no mundo
até então. Em primeiro lugar Jesus assinalou no mesmo capítulo 10 de Mateus que não há reino sem
conflitos, os quais durarão até que Ele volte. Se alguém perguntar para quem é o reino, a resposta de
Jesus será: "para os pobres". Porém não somente para os pobres economicamente, senão para todos
que sofrem qualquer carência; Em segundo lugar, Jesus proclamou também um grande programa. A
expressão "será pregado a todas as nações", mostra o alcance geográfico de seu programa. No entanto,
demonstra também o seu alcance no tempo.

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Precisamos ter a visão de missões como a obra que exige prioridade - Caminhando para a Galiléia
(João 4.31-34), Jesus passa por Samaria e, enquanto seus discípulos saem a procura de pão, Ele faz
contato com uma mulher da aldeia samaritana. Para Jesus, descortina-se a possibilidade de salvar
aquele povo. Seus discípulos chegam e insistem que coma, mas mesmo cansado e com fome, Jesus
se recusa a comer e coloca o tipo de prioridade que deve caracterizar seus seguidores. Há uma obra
a realizar, e ela é mais importante do que qualquer outra coisa. Precisamos recuperar este sentido de
urgência na realização de Missões. O seu tempo é hoje.

Precisamos ter a visão de missões como o desafio de cada oportunidade (Jo 4.35) - Os discípulos
sabiam que levaria ainda quatro meses para chegar o tempo de colher aqueles cereais. No entanto,
Jesus lhes diz: "Levantem os olhos, pois há uma colheita a ser realizada imediatamente". Que acontece aos
frutos maduros que não são colhidos? Eles se perdem. É preciso aproveitar as oportunidades. Deus
tem criado condições favoráveis à pregação do Evangelho em diferentes partes do mundo. Há um
anseio pelas novas de salvação, e como estamos respondendo a estas oportunidades que não
sabemos até quando resistirão?

Precisamos ter a visão de missões como o meio de construir para a eternidade (Jo 4.36-38). - Aqui
há três situações possíveis quanto aos resultados imediatos (v. 36); os discípulos ceifariam o que
outros semearam e plantariam o que outros colheriam (v. 37 e 38). Mas a que tipo de resultado se
refere o texto? Ajuntar fruto para a vida eterna ou para o reino de Deus. Então, “realizar Missões é
conquistar vidas para o celeiro eterno de Deus”. Este é o único trabalho cujos resultados não são
transitórios. Porque fazer Missões e o meio principal de se construir para a eternidade.

O PAPEL DA IGREJA EM RELAÇÃO A MISSÕES


Avaliando a primeira multiplicação dos pães, no ministério de Cristo,
destacamos a insuficiência dos recursos humanos para saciar a fome da
multidão. Se compararmos a fome espiritual do mundo com os recursos
humanos que temos, nos perguntaremos de igual forma: "Como fazer
tanto com tão pouco?" Cada igreja existente sobre a terra pode ser
comparada àquele pequeno menino que tinha tão pouco, cinco pães e
dois peixinhos (Jo 6.9), mas que nas mãos do Senhor Jesus seria
multiplicado de tal forma a saciar tantos e ainda sobejar. Como Pode um
país pobre contribuir para evangelizar países ricos? Jesus não tinha em
mãos nada para usar até que o rapaz lhe pôs nas mãos tudo o que tinha e então o milagre aconteceu.

“Missões é um milagre de Deus” e só os que colocam nas mãos do Senhor os seus poucos recursos
é que se dão conta do milagre realizado. Os povos precisam de Jesus. Nós temos Jesus. Não temos
apenas migalhas, mas a graça infinita de Deus à nossa disposição (João 6.9).

“Missões é compartilhar” o pouco que você tem, cinco pães e dois peixes, com o Senhor Jesus que
pode multiplicar este lanche, tornando-o num verdadeiro banquete que pode alimentar milhões,
tornando-o num verdadeiro banquete que pode alimentar milhões que vivem sem Jesus.

“Missões é entrega de vidas sem reservas”, sem questionamentos e pondo toda a nossa confiança
no Senhor da Obra, que nos chamou para tão honrosa tarefa. Alguém poderia formular a seguinte
pergunta: "Há diferença entre Missões e Evangelização?" Responderíamos da seguinte maneira: o
plano de Deus para salvação do homem é constituído de três elementos - a mensagem, o meio
(recurso) e o processo (método). A mensagem e o Evangelho, o meio é Missões (enviar) e o processo
é a evangelização (proclamação). Em outras palavras, Missões e Evangelização não são coisas
distintas entre si, mas ações interligadas e integrantes do plano de Deus. A Evangelização é o ato de
proclamação da mensagem, a implementação de Missões.

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PARA QUE FAZER MISSÕES?
"Falar em Missões" sem querer saber "para que" fazemos Missões é o mesmo que andarmos no
escuro. Paulo, o grande missionário, foi sempre consciente de que há um objetivo a ser alcançado
em Missões. Das três indagações feitas por Paulo, no texto que estamos aplicando para este estudo
(Rm 10.14), a segunda interrogação é: "Como crerão naquele de quem não ouviram?" Sabe qual é a
resposta? Missões. Sim, Missões existe para levar Cristo a todas as pessoas, fazendo-as crer que Ele é
eterno e suficiente Salvador. Não podemos mais visualizar um mundo rodeado de barreiras sociais
e políticas, porque Deus está derrubando todos os bloqueios de Satanás. O Evangelho precisa
chegar às grandes cidades do mundo como: Tóquio, Bombaim, Calcutá, Cairo e outras que
aparentemente estão fechadas para o evangelho, onde a população geme sobre o impacto do
paganismo buscando outra forma de vida após a morte para aliviar o sofrimento da existência
presente. Não podemos ficar indiferentes ao fato de que “apenas 8% de toda força missionária
mundial” trabalham entre povos não alcançados; ou seja, entre os hindus, budistas e muçulmanos,
povos que representam aproximadamente “50% da população do mundo”. Calcula-se que, hoje,
apenas metade da população do globo terrestre já ouviu falar do evangelho, e a outra metade
representa cerca de 3,2 bilhões de pessoas, que estão envolvidas nas trevas espirituais.
A África é o continente que mais cresce na aceitação do Evangelho, porém as suas práticas pagãs
continuam, devido a tradição cultural, arraigadas na alma do povo. O sincretismo é um grande
problema em muitas áreas. Um real arrependimento de pecado e das obras das trevas está faltando
e muitos cristãos africanos ainda continuam com medo das feitiçarias e dos espíritos. Existe
Missões porque há um mundo carente e necessitado do amor de Deus.Não há outra forma
de livramento para o mundo: somente através da pregação do " Evangelho. As boas Novas
de Deus para o homem caído em delitos e pecados estão
nas verdades fundamentais do Evangelho.

ONDE FAZER MISSÕES?


Se fizermos uma retrospectiva da obra missionária realizada nas últimas décadas, observaremos que
a igreja contemporânea preocupou-se em plantar o evangelho no mundo ocidental esquecendo-se
definitivamente do mundo oriental. Por esta razão, os povos esquecidos se multiplicaram formando
hoje mais da metade da população mundial mergulhada nas trevas espirituais. Fazer missões hoje
representa um desafio transcultural a ser vencido pela igreja. Já sabemos que o objetivo de Missões é
levar todos à salvação, porém podemos ir mais além do seu objetivo. Em todos os lugares da Terra o
Evangelho deve ser pregado. Isto está provado em Mateus 28.19: "Portanto ide, ensinai todas as
nações". Jesus disse ide a todas as nações ou o mesmo que "Ide ao Brasil, Japão, Coréia, Indonésia, aos
países africanos e de outros continentes". Salvação é uma dádiva oferecida independente de cor, raça,
idioma e posição social.

O Evangelho é para todos os povos, em todos os lugares


Atos 1.8 nos dá uma visão missionária global e estabelece quatro pontos estratégicos para se fazer
Missões. Através desses lugares, o referido escritor estabelece quatro pontos estratégicos para se
fazer Missões:

Jerusalém - É o trabalho missionário em nossos lares, vizinhança, escola, faculdade, trabalho, etc.
Este campo é muito vasto. Você já evangelizou alguém de sua família? Ou seu colega de faculdade?
Seus vizinhos? Pense nisto agora.

Judéia - É o trabalho realizado nas vilas e bairros próximos; este campo parece sem nenhuma
importância, porém não há dúvidas de que é um excelente local para uma boa pescaria. Existem
grandes bairros e vilas próximos de nós onde há milhares de pessoas precisando ouvir a mensagem
do Evangelho.
Samaria - É o trabalho realizado em cidades mais distantes, no interior do país, o que se pode
chamar de "Missões Nacionais".
Aos Confins da Terra - É o trabalho missionário realizado em todo o mundo, isto é, "Missões
Estrangeiras". Nunca o mundo esteve tão aberto para o trabalho missionário como agora. Não
sabemos até quando durará tal abertura. Está na hora de obedecermos ao IDE de Jesus. O mesmo

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livro de Atos que estabelece os lugares onde deve ser proclamado o Evangelho, também nos dá um
panorama geral da expansão da proclamação através do trabalho missionário.

Quantitativo - Almas "acrescidas" (Leia Atos 2.41-42,47).


O Número de discípulos "continuava a se multiplicar" (Leia Atos 6.1,7; 9.31). O Crescimento
quantitativo era evidente por causa do Crescimento espiritual, comunhão, compartilhamento,
adoração e testemunhos dos crentes. Além dos pontos estratégicos para se fazer Missões, Atos 1.8
diz que o trabalho missionário deve ser feito "ao mesmo tempo" em cada um dos quatros lugares. O
trabalho dos discípulos não deveria primeiro ser iniciado e completado em um lugar para depois
partirem para outro. Essa "simultaneidade" está expressa nas palavras "tanto em", "como em" e "até
os". A Igreja de hoje tem avançado consideravelmente na conquista dos povos, mas temos que
observar que existe metade da população do mundo que ainda não ouviu o evangelho. Essa grande
massa tem as barreiras transculturais da religião milenar e os costumes quase que intransponíveis
ao nosso mundo moderno. Os povos não alcançados, na sua maioria, ainda são os que vivem na
miséria social, cultural e econômica. E sabemos que só o evangelho pode mudar este quadro social.

COMO FAZER MISSÕES?


A evolução da sociedade é rápida e constante, ou seja, vivemos num mundo globalizado. As nações
se aproximam velozmente pelos meios de transportes e a comunicação e os satélites quebraram as
barreiras da distância divulgando toda e qualquer notícia falsa ou verdadeira instantaneamente. A
igreja precisa agir ensinando ao nosso povo o que é básico. A Bíblia é a nossa regra de fé e praticar
missões é o objetivo principal dela. Jesus ordenou a permanência dos seus discípulos em Jerusalém
até o revestimento de poder. (Lucas 24.49). Retornar ao ensino básico é sentir a necessidade de
revestimento de poder para que o mundo de hoje seja alcançado não pela palavra persuasiva, mas
pela demonstração do Espírito Santo que transforma a vida das nações. Cremos que estamos
vivendo os últimos dias da oportunidade de salvação aos homens e é urgente que a obra de missões
seja realizada no poder de Deus que opera milagres. Em Marcos 16.20 lemos: "E eles, tendo partido,
pregaram em toda parte, cooperando com eles o Senhor, e confirmando a palavra por meio de sinais
que se seguiram". Este versículo serve para nos lembrar que, acima de tudo, para se realizar uma
autêntica Obra Missionária, é preciso ter a cooperação do Senhor Jesus, porque sem Ele nada
podemos fazer. Jesus tem que estar em primeiro lugar em qualquer trabalho missionário. É Jesus
quem nos manda ir e também, quem nos oferece princípios orientadores para fazermos Missões. Os
princípios estão demonstrados nas experiências dos primeiros missionários. Podemos observá-los
sendo postos em prática por Filipe por ocasião de uma extraordinária experiência evangelística
(Atos 8.26-40). Você leu o texto que trata da conversão do eunuco, mordomo-mor da Candace,
rainha da Etiópia, país localizado na África. Da experiência evangelística de Filipe podemos então
extrair Cinco Princípios Orientadores do trabalho missionário.
a. Ser guiado pelo Espírito Santo;
b. Não se deixar levar por preconceitos ou tradições humanas;
c. Conhecer a Bíblia Sagrada;
d. Não deixar de anunciar a Cristo;
e. Ter um alvo definido.

Observe a seguir, Cinco Princípios Orientadores De Missões:


Filipe era um homem guiado pelo Espírito De Deus: Não havia a menor possibilidade humana de
uma comunicação entre Filipe e o eunuco; se aquele era judeu, de uma tradição que o impedia de
juntar-se a um estrangeiro, este era um alto funcionário do governo etíope, não lhe sendo permitido
conversar com um homem "comum". Ocorre que Filipe era um homem guiado pelo Espírito e fazia
o que Ele lhe ordenava. Filipe não se deixava levar por preconceitos ou tradições humanas: Ele
entendia que todos são pecadores e carecem da glória de Deus não importando 'quem' e 'onde'
esteja (Romanos 3.23; 5.8; e II Pedro 3.9b). Filipe conhecia a Bíblia: Ele interpretou corretamente a
passagem lida pelo eunuco. Quem quiser ser bem sucedido na execução de Missões precisa
conhecer a Bíblia. Ela é fundamental na realização do trabalho missionário. Filipe não deixava de
anunciar a Cristo: Diz o texto (v. 35) que Filipe "abrindo a sua boca, e começando nesta Escritura, lhe
anunciou a Jesus". Isto nos leva a três importantes conclusões com base no sucesso ministerial

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daquele extraordinário missionário: Cristo deve ser o centro do nosso testemunho pessoal (II Co
2.15); Cristo deve ser o centro da nossa mensagem (IICo 1.23); Cristo deve ser o centro da nossa
missão evangelística, pois o verdadeiro evangelismo é confrontar Cristo com os homens. Para
realizar Missões, além de aplicar estes princípios, é preciso haver a prática de três ações, que são:
orar, contribuir e ir.

Orar
A oração do crente na Obra Missionária tem duas finalidades: a primeira pode ser entendida
comparando-se a oração com a missão dos "intercessores" nos dias do profeta Isaias (Is 62. 6-10). O
versículo 10 oferece-nos a idéia de um caminho sendo aberto. É assim que funciona a oração em
Missões. Ela vai na frente do missionário abrindo um caminho por entre a escuridão espiritual. Há
lugares em que o domínio da feitiçaria e dos demônios são tão intensos que o trabalho de
evangelização se constitui por muito tempo apenas de oração, para que o domínio de Cristo seja
implantado. É o caso de países da África e tribos indígenas onde o animismo é a religião, e de países
da Ásia (Índia e China) onde predominam religiões milenares como o budismo, confucionismo e
xintoísmo.

Contribuir
Contribuir para missões envolve, principalmente; a contribuição através de bens materiais. O
missionário Paulo, na sua carta aos Filipenses 1.5 agradece "pela cooperação no evangelho". A
palavra "cooperação", neste versículo, na língua original em que foi escrita a carta, tem o sentido de
"ser sócios no Evangelho". Contribuir para a Obra Missionária também é uma maneira de ajuntar
tesouros no céu e não ajuntar na terra, conforme está escrito em Mateus 6.20.

Ir
Além de orar e contribuir, o crente deve estar pronto a ir fazer trabalho missionário, se ainda não o
está realizando. O profeta Isaias prontamente pediu que ele fosse o enviado, quando o Senhor
perguntou: "A quem enviarei, e quem irá por nós?". Para proclamar o Evangelho, o Senhor não
envia anjos. Ele usa homens e mulheres, seus discípulos (Leia Hebreus 2.16 e II Pedro 1.12). Esteja
pronto a repetir a resposta de Isaias? "...Então disse eu: Envia-me a mim (lsaías 6.8b).

A CHAMADA ESPECÍFICA PARA OBRA MISSIONÁRIA


Antes da chamada
Deus chama seus servos de diferentes maneiras, para Ministérios específicos. Para chamar, Ele fala
direta ou indiretamente. Pode falar audivelmente ou por sinais. O chamado pode ocorrer por um
forte sentimento interior de que é a vontade de Deus para determinada tarefa, ou pode ser através
de mensagem transmitida por outrem ou por sonho ou por visão. Às vezes, um servo recebe
convicção do chamado de Deus tomando conhecimento da necessidade urgente de que determinada
obra seja feita. Há muitas outras maneiras de Deus chamar alguém para sua obra. Deus é
infinitamente sábio e criativo. Porém, há dois passos na vida cristã que devem ser analisados antes
de alguém ser chamado para uma tarefa específica. Observe-os:

1° Passo: Comunhão com Deus. O primeiro passo é estar em comunhão com Deus. Não se pode
falar com alguém que esteja dando atenção a outra pessoa ou outra coisa. Não haveria comunicação.
Assim também é com Deus. Ele tem de esperar até que nos voltemos para Ele e lhe demos atenção,
para que possa repartir conosco os seus planos.

2° Passo: Envolvimento. Depois de uma pessoa acercar-se de Deus, de Ter comunhão com Ele, essa
pessoa passa a ser participante do Reino de Deus no sentido ativo. Dizemos sentido ativo porque o
crente pode tornar-se apenas um espectador do que acontece na obra do Senhor. Acredito que esse
não é o seu caso. Sim, o crente fiel precisa envolver-se inteiramente na obra do Senhor. E, nesse
sentido, todos os crentes são chamados, são vocacionados, são comissionados para a obra.

Pode ser que um crente não tenha a chamada específica para ser um pastor, um missionário ou uma
enfermeira no meio dos índios, etc. Contudo ele é servo na situação em que vive. É um soldado
produzindo em sua própria comunidade para o Reino. Entretanto, Deus, exercendo sua soberania,
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chama alguns dos seus servos para trabalhos específicos. Exemplos:
a. Abraão foi chamado para ser o iniciador de uma grande nação( Gn 12.2);
b. José teve a incumbência de ser o provedor de seu povo em meio à fome, (Gn 45.5);
c. Moisés foi chamado para libertar o povo de Israel do Egito( Ex 3.10);
d. Jonas foi enviado à Nínive para anunciar o juízo de Deus;
e. Paulo foi enviado aos gentios (Atos 22.21);
f. Lutero foi levantado para reformar a Igreja e traduzir a Bíblia;
g. Livingstone foi levantado para missões na África;
h. Gunnar Vingren e Daniel Berg receberam a visão para evangelizar o Brasil e iniciar o Movimento
Pentecostal no Brasil.

Deus Fala Através Da Igreja


No texto de Atos 13.13, mostra que Deus fala através da Igreja. Paulo e Barnabé haviam recebido a
chamada pessoal de Deus. Agora, os profetas foram usados para confirmar o chamado desses
homens e separá-los para a obra específica que Deus tinha com eles. Aqui Deus falou com Paulo e
Barnabé através, do ministério (isto é, do grupo de servos) que operava na Igreja de Antioquia. Este
é um dos textos chaves e padrão para a Igreja. Este é um fato que precisa ser levado a sério tanto
pelo candidato à missões como pela missão ou igreja que o envia. A vida de um missionário deve
estar intimamente ligada com a igreja local. Assim, para que haja mais segurança no envio do
missionário é prudente que a decisão final seja feita como resultado do discernimento de um grupo
de pessoas que estão procurando servir ao Senhor com jejum e oração. Além disso, o missionário
terá certeza de que um grupo de pessoas estará orando por ele. Ele se sentirá ligado a um corpo e
muito mais segurança.

a. Deus fala pessoalmente


b. Fala audivelmente
c. Fala por sinais
d. Fala através de um sentimento interior
e. Fala através de mensagens transmitidas por pregadores
f. Fala através de sonhos
g. Fala através de visões
h. Fala através do conhecimento da necessidade urgente de determinado grupo.
i. Fala através de ministérios na igreja local: Estes ministérios são pessoas que servem ao Senhor em
oração e jejum e são usados por Ele para falar aos seus servos. A eficácia destes ministérios está no
fato de operarem como um grupo e não como indivíduos.

Sete Meios Pelos Quais Deus Nos Chama


Temos visto como Deus é muito criativo na maneira de chamar alguém para ministérios específicos,
porque Ele não está limitado a métodos humanos. Vejamos abaixo mais alguns exemplos:

1°- Forte convicção da direção do Espírito Santo:


A convicção do caminho certo posto em nossos corações pelo Espírito santo é uma das maneiras,
pelas quais Deus nos guia dentro de sua vontade. (Atos 20.22-24).

2°- Palavra de Deus:


O missionário Robert Moffat escreveu Deus me chamou ainda jovem. Às vezes eu duvidava que
poderia ser realmente um missionário. Havia algo errado dentro do meu ser que falava. Então, abri
a Bíblia e pedi ao Senhor: "Mostra-me se é a tua chamada que sinto em meu ser". Ao abrir a Bíblia,
entendeu que o Senhor falava ao seu coração em Isaias 6.8. Na manhã seguinte, na Escola
Dominical, o pastor leu o mesmo trecho (Is 6.8) e depois de orar disse: Deus está falando com
alguém hoje, aqui. Robert Morffat entendeu, então, que naquela hora Deus estava confirmando sua
chamada.

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3°- Portas abertas e fechadas:
"Se uma porta fechar, vira-te que hás de deparar com uma outra abrindo naquele instante". Dizia Studd.
Quantas portas se fecham ao longo do nosso caminho. Deus faz dessa maneira para abrir os nossos
olhos para contemplarmos as portas que devemos entrar, para se cumprir sua vontade!

4°- Paz e descanso profundo:


O missionário David Livingstone na África expressou: "Quando decidi obedecer a chamada do Mestre
para o continente africano, senti uma paz profunda no meu ser. Muitos dos meus familiares não entenderam e
até zombavam de mim, mas a paz que excede todo o entendimento guardou o meu ser”. É a mesma paz que
Paulo sentia em seu coração que lhe pediram que não subisse a Jerusalém. ( Atos 21.13,14). Sua santa
vontade no Salmo 37.5 diz: “Entrega o teu caminho ao Senhor, confia nele, e ele tudo fará”. Paz e descanso
profundo nos dá certeza da vontade de Deus."

5°- Oração respondida:


Hudson Taylor, o fundador da grande Missão para o Interior da China, depois de sua conversão,
começou a sentir um profundo interesse elos chineses; olhava nos mapas, lia livros e os meios
transportes das províncias. Com o passar dos tempos, uma grande tristeza e pesar entrou em seu
coração. Sua saúde piorava e os médicos recomendavam repouso a ele. Porém, um dia, caiu em um
sono profundo e, de madrugada, acordou com uma luz brilhando em se quarto e uma voz que dizia:
"Hudson, estás disposto a ir á China por mim?” Quando tentou responder, tudo desapareceu. Ajoelhou-
se e disse: "Senhor, eu irei, mas estou doente. Se me curares, então saberei que é da tua vontade." No mesmo
instante, sentiu uma forte tremedeira da cabeça aos pés. Era o Senhor que o curava, confirmando
assim, sua chamada para a China. Sua oração foi respondida. Deus responde as orações.

6°- Circunstâncias:
Billy Bray levava uma vida indiferente a Deus, mas aos 17 anos converteu-se ao Senhor e o servia
com mais ardor do que quando servia ao diabo. Devido a pressão econômica perdeu o emprego na
cidade grande onde morava, longe dos pais. Ficou somente a pergunta; "O que fazer?" Sem recursos
e sem lugar para morar, finalmente voltou à casa dos pais, à vila onde nascera. Ali começou a pregar
o evangelho. Primeiro ganhou seus pais para Cristo e mais pessoas. Continuou pregando nas
demais vilas até conseguir uma tenda de circo onde"' realizava cruzadas evangelísticas. Foram as
circunstâncias que ocorreram em sua vida que o levou a seguir esse caminho.

7°- Conselhos cuidadosos de pessoas experientes:


James Gilmour, missionário na Mongólia expressou o seguinte: "Depois que Deus me salvou, senti
forte desejo de trabalhar na Mongólia. Quando falava sobre este assunto todas as pessoas achavam
impossível. Em certo culto, ao terminar de pregar, uma senhora idosa veio ao meu encontro e disse-
me: "Jovem, ouvi tuas palavras, e te digo: Não temas. Siga a Deus, pois ele nunca dá impressões falsas,
quando sinceramente o buscamos. Não dê ouvidos às vozes do desânimo. Olhe n’Ele”..

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UNIDADE II
MISSÕES: TAREFA DA IGREJA LOCAL
...............................................................

“Deus, em sua infinita sabedoria e soberania, decidiu usar homens para a execução dos seus planos”.

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DEUS USA AS VIDAS PROS SEUS PROPÓSITOS

Se folhearmos a Bíblia, vamos encontrar Deus usando vidas para cumprir seus eternos propósitos,
tanto no Antigo Testamento, com o povo de Israel, como no Novo Testamento, com a igreja.

No Antigo Testamento
O plano de Deus é encher a terra com Sua glória. O homem é o agente e instrumento de Deus para
cumprir seus propósitos. No Antigo Testamento encontramos Deus usando situações e levando o
homem a cumprir seu plano.

Nos Primórdios da Criação


Antes da queda do homem
Ao criar o universo, decidiu Deus formar o homem "à sua imagem e semelhança" (Gn 1.26-27); em
seguida, abençoou o homem e a mulher, dando-lhes a seguinte ordem: "Sede fecundos, multiplicai-vos,
enchei a terra..." (Gn l .28). Note que Deus colocou Sua imagem e semelhança no homem e ordenou-
lhe que enchesse a terra. Fica claro, portanto, que Deus queria ver, por intermédio do homem, sua
glória espalhada por toda terra.

Na queda do homem, Deus prometeu a restauração em Cristo


“Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu descendente. Este te ferirá a cabeça, e
tu lhe ferirás o calcanhar” (Gn 3.15). Com a queda houve a entrada do pecado no mundo, e a imagem e
semelhança de Deus ficaram distorcidas no homem. Deus prometeu que o descendente da mulher
feriria a cabeça da serpente, referindo-se à vinda do Messias, que destruiu as obras de Satanás, o
agente da queda. Por causa da entrada do pecado, toda humanidade sofreu a consequência, que é a
separação de Deus. Mas, no mesmo instante, Deus prometeu a solução em Cristo. Na obra de Deus
em Cristo temos o processo de restauração da imagem e da semelhança de Deus no homem.

No pacto com Noé e seus filhos


“Abençoou Deus a Noé e a seus Filhos e disse-lhes: Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra”).Sim,
estabeleço o meu pacto convosco; não será mais destruída toda a carne pelas águas do dilúvio; e não haverá
mais dilúvio, para destruir a terra” (Gn 9.11). O gênero humano havia se corrompido, mas Deus tinha
uma família que andava em perfeição. Deus planejou o dilúvio, mas decidiu preservar a família de
Noé e continuar a execução do seu plano de encher a terra com a sua glória. Após o dilúvio Deus
mandou que Noé e seus filhos frutificassem, multiplicassem e enchessem a terra, e a seguir estabe-
leceu o pacto de nunca mais destruir a terra com água. Aprendemos que a graça e a misericórdia
sempre sobrepujam a condenação diante de Deus. Isto é obra missionária. Deus operando para
manter seu relacionamento de amor com o homem.

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 12


No Episódio da Torre de Babel
“Disseram mais: Eia, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo cume toque no céu, e
façamo-nos um nome, para que não sejamos espalhados sobre a face de toda a terra” (Gn 4). Deus
havia dado ao homem a ordem de frutificar, de multiplicar-se e de encher a terra, tanto na criação
como após o dilúvio. Mas é impressionante ver como a desobediência já era inata ao ser humano. O
povo decidiu desobedecer e criar uma cidade com uma torre, para que não fossem “espalhados
sobre a face de toda a terra”. Deus havia dado a ordem de se espalharem e de encherem a terra, mas
eles agora estavam, como muitos hoje, desobedecendo voluntariamente à ordem de Deus. Deus, que
planejou ver sua glória espalhada por toda a terra, colocou uma confusão de línguas e forçosamente
espalhou o povo.

Na Nação de Israel
Deus usa vidas para o cumprimento dos seus propósitos. Em sua soberania e sabedoria ele decidiu
organizar um povo, por meio do qual executaria seu plano de espalhar sua glória a todas as nações.
a) Na chamada de Abrão, Deus prometeu abençoar todas as famílias da terra, por intermédio do
povo de Israel.
b) O povo de Israel tinha o ofício sacerdotal.
c) O povo de Israel era o veículo pelo qual Deus manifestava Sua salvação.
d) O povo de Israel era o instrumento para espalhar a glória de Deus.

No novo Testamento
Infelizmente o povo de Israel falhou no seu propósito missionário; eles não perceberam que Deus os
organizou para abençoar todas as nações; e até hoje os israelitas pensam que as bênçãos de Deus
lhes são exclusivas. Deus decidiu organizar um novo povo, que é a igreja no Novo Testamento, à
qual designou a mesma tarefa missionária, Na Carta aos Efésios, o apóstolo Paulo deixa claro que
está organizando um novo povo: "Porque ele é nossa paz, o qual de ambos fez um; e tendo derrubado a
parede da separação que estava no meio, a inimizade, aboliu na sua carne a lei dos mandamentos na forma de
ordenanças, para que dos dois criasse em si mesmo um novo homem, fazendo a paz, e reconciliasse ambos em
um só corpo com Deus, por intermédio da cruz, destruindo por ela a inimizade" (Ef 2.14.16). Essa fusão de
judeus e gentios é a igreja, que tem a responsabilidade missionária de tornar conhecida a sabedoria
de Deus, conforme o versículo 10 do capítulo 3: "... para que, pela igreja, a multiforme sabedoria de Deus
se tome conhecida agora dos principados e potestades nos lugares celestiais".

A Igreja de Cristo
O instrumento de Deus para atingir seus propósitos na terra é a igreja
Quando Jesus estava executando seu ministério, tinha como objetivo deixar uma organização que
desse continuidade à obra de Deus na terra, e essa organização é a igreja.

A igreja recebeu a ordem de evangelizar o mundo


Antes de subir aos céus, o Senhor deixou a ordem mais importante aos seus discípulos: "Ide por todo
o mundo e pregai o evangelho a toda criatura” (Mc 16.15); "Ide... fazei discípulos de todas as nações" (Mt
28.19). Está bem claro que o propósito de Deus para a sua igreja é a evangelização do mundo. Daí a
importância de a igreja ter uma declaração de propósitos que possa servir de base para toda
avaliação, implementação e planejamento de programas e atividades. Deus coloca em sua Palavra
não somente a ordem, mas um modelo que facilita nosso trabalho. A igreja de Antioquia serve como
exemplo, pois foi a base missionária do avanço da igreja primitiva no alcance de outros povos.

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 13


A BATALHA ESPIRITUAL
Devemos entender que estamos numa batalha espiritual. Fazer a obra de evangelista, querer ver o
mundo todo salvo, servir a Cristo, é atacar diretamente o inimigo, Satanás. Porém Satanás não quer
perder terreno e, então, procura enganar os cristãos, mantendo escondido o conceito da batalha
espiritual que mais lhe incomoda, que é a conquista dos povos ainda não alcançados. Os autores que
escrevem sobre batalha espiritual sempre se preocupam com as dificuldades espirituais individuais
dos crentes. Poucos têm percebido que a batalha espiritual mais eficaz é aquela que tira vidas das
mãos de Satanás e ganha terreno para o reino de Deus. Ouvimos muito falar de vitória na vida
pessoal, de libertação das obras malignas, de cânticos de guerra, de armas de vitória, mas sempre
em relação ao crente como indivíduo. O povo precisa abrir os olhos e ver que Satanás o está
enganando, não permitindo que veja o aspecto mais amplo e mais eficaz da batalha, que é avançar
no terreno do inimigo e saquear-lhe os bens. De acordo com a Bíblia, quem não tem Cristo pertence
a Satanás (Mt 13.38) e, logicamente, quando você começa a evangelizar uma pessoa, o inimigo não
vai gostar e fará tudo para não perder a vida que está em seu domínio. Você já tentou tirar um osso
da boca de um cão faminto? Que tal tirar a carne de um leão esfomeado? Saiba, então, que quando
você decidiu servir a Cristo, fez uma declaração de guerra contra Satanás. A Bíblia apresenta alguns
aspectos dessa batalha. Em Colossenses 1.13, ela diz: "Ele nos libertou do império das trevas e nos
transportou para o reino do Filho do seu amor". Veja a obra maravilhosa que Cristo fez por nós:
outrora estávamos no império das trevas, cegos espiritualmente, longe de Deus, sem esperança,
escravizados, cheios de medo, sem saber nada sobre o futuro, sob o domínio de Satanás. Mas Deus,
por sua grande misericórdia, libertou-nos do império das trevas e transportou-nos para o reino de
Cristo. Que grandiosa salvação! Aleluia! Mas como isso se deu? Foi quando alguém orou por nós e
mostrou-nos a verdade do evangelho. Portanto, quando saímos para pregar ou desejamos fazer a
obra missionária, devemos entender que estamos resgatando vidas do reino de Satanás, levando-as
para o reino de Cristo. A Bíblia diz que o mundo jaz no maligno. Portanto, o trabalho de
evangelização é uma batalha que arranca vidas das garras de Satanás, transportando-as para as
mãos de Cristo.

A Nossa Posição
Para enfrentar essa batalha precisamos, antes de qualquer coisa, saber qual é a nossa posição
espiritual, para termos ousadia, coragem e enfrentar o inimigo. Muitos de nós nos sentimos impo-
tentes e incapazes para a luta; por isso, precisamos entender o que a Bíblia fala sobre a nossa
posição. Em Efésios 1.19-22, encontramos as seguintes afirmações: "... e qual a suprema grandeza do
seu poder para com os que cremos, segundo a eficácia da força do seu poder; o qual exerceu ele em
Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos e fazendo-o sentar à sua direita nos lugares celestiais,
acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que se possa referir não
só no presente século, mas também no vindouro. E pôs todas as cousas debaixo dos seus pés e, para
ser o cabeça sobre todas as cousas, o deu à igreja..." Dessa forma, o crente tem poder para dominar
Satanás, expulsar demônios e exercer autoridade sobre toda obra maligna. Por outro lado, Jesus
Cristo afirmou: "Estes sinais hão de acompanhar aqueles que crêem: em meu nome expelirão demônios..."
(Mc 16.17). O Espirito Santo dá poder a todo crente para realizar as mesmas obras que Cristo
realizou, incluindo a expulsão de demônios. E preciso ter fé e pôr em prática a Palavra de Deus. Se
você é crente então pode expulsar demônios. Se você é crente e se Cristo controla sua vida, saiba que
está nesta posição espiritual, acima de todo poder de Satanás, e pode exercer autoridade e expulsá-lo
em nome de Jesus.

A Nossa Armadura
"Quanto ao mais, sede fortalecidos no Senhor e na força do seu poder. Revesti-vos de toda armadura
de Deus, para poderdes ficar firmes contra as ciladas do diabo; porque a nossa luta não é contra o
sangue e a carne, e sim, contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo
tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes. Portanto, tomai toda a armadura
de Deus, para que possais resistir no dia mau, e, depois de terdes vencido tudo, permanecer ina-
baláveis. Estai, pois, firmes, cingindo-vos com a verdade, e vestindo-vos da couraça da justiça.

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 14


Calçai os pés com a preparação do evangelho da paz; embraçando sempre o escudo da fé, com o
qual podereis apagar todos os dardos inflamados do maligno. Tomai também o capacete da
salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus; com toda a oração e súplica, orando em
todo tempo no Espirito, e para isto vigiando com toda perseverança e súplica por todos os santos, e
também por mim; para que me seja dada, no abrir da minha boca, a palavra, para com intrepidez
fazer conhecido o mistério do evangelho, pelo qual sou embaixador em cadeias, para que em Cristo
eu seja ousado para falar, como me cumpre fazê-lo" (Ef 6.10-20). Neste trecho da Palavra, o apóstolo
Paulo apresenta-nos a armadura de Deus. No verso 12, a Bíblia afirma que a nossa luta não é física,
mas espiritual. Há muita gente tentando expulsar demônios pela força física, pelo muito gritar ou
pela repetição de frases. Saiba que a luta está no âmbito espiritual; logo, temos de nos revestir da
armadura de Deus, mas antes temos de estar fortalecidos no poder do Senhor, com uma vida de
santidade, oração e cheia do Espírito Santo; então vestiremos a armadura e estaremos prontos para a
batalha.

A Nossa Estratégia
Para tornarmos efetiva a nossa vitória nesta batalha, precisamos de uma estratégia bem planejada e
estudada. Essa estratégia já está descrita na Palavra de Deus e constitui-se dos seguintes passos:

Derrubar as portas do inferno: "Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha
igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela" (Mt 16.18). Nesse versículo, Jesus está
apresentando o instrumento de Deus para a execução dos seus planos de restauração da
humanidade. Jesus está dizendo: "Eu edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não
prevalecerão contra ela", ou seja, o trabalho de Deus na restauração da humanidade começa com um
ataque frontal ao inferno. A igreja é o instrumento de Deus para atacar o inferno, e o primeiro passo
nessa estratégia é derrubar as portas do inferno. Assim, o papel da igreja é derrubar as portas do
inferno e entrar lá para tirar as vidas do domínio de Satanás e levá-las para as mãos de Cristo. As
portas do inferno não resistem ao poder de Cristo manifesto na sua igreja. Aleluia!

Amarrar o inimigo: "Ninguém pode entrar na casa do valente para roubar-lhe os bens, sem primeiro
amarrá-lo; só então lhe saqueará a casa" (Mc 3.27). O segundo passo na estratégia da batalha espiritual é
amarrar o inimigo. No contexto desse versículo, Jesus Cristo está falando sobre Satanás e apresenta-
nos a estratégia de amarrá-lo. Pela autoridade da nossa posição em Cristo, pela Palavra de Deus,
pelo nome de Jesus Cristo, podemos amarrar Satanás e os espíritos malignos para, finalmente,
tirarmos as vidas de suas mãos. Se estamos acima de todo domínio e poder, temos, então,
autoridade espiritual sobre este poder. Por isso, o crente em Cristo simplesmente pode amarrar
Satanás para executar a obra de Deus. Isso não quer dizer que podemos impedir a atuação de
Satanás no mundo, pois tal se dará só no final dos tempos, mas o que podemos e devemos fazer é
impedir a atuação de Satanás e dos espíritos malignos especificamente sobre a pessoa ou sobre a
área que estivermos evangelizando, fazendo a obra de Deus.

Roubar-lhe os bens: "Ninguém pode entrar na casa do valente para roubar-lhe os bens, sem primeiro
amarrá-lo; e só então lhe saqueará a casa" (Mc 3.27). No versículo acima, Jesus diz que devemos amarrar
o valente e saquear-lhe os bens. Quais são os bens de Satanás? São as vidas que ele tem em seu
domínio. Portanto essas vidas precisam ser resgatadas. Precisamos tirá-las das mãos de Satanás e
levá-las para Cristo. Isso é feito no campo espiritual.

Garantir os bens saqueados: Após roubarmos as vidas das mãos de Satanás, estas precisam ser
protegidas e garantidas para não caírem mais no domínio do inimigo. Poderemos fazer isso de três
maneiras:

Discipulando — Precisamos levar o novo convertido a compreender a Palavra de Deus e a colocá-la


em prática; estará assim firmando sua vida espiritual sobre a rocha que é Cristo, e nada poderá
derrubá-lo dessa posição. Daí a necessidade de alguém mais experimentado na Palavra tomar o
novo convertido e, pessoalmente, ajudá-lo no crescimento espiritual.

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 15


Resistindo a Satanás — "Sujeitai-vos, portanto, a Deus; mas resisti ao diabo, e ele fugirá de vós" (Tg 4.7).
O versículo diz que devemos primeiro estar em submissão a Deus. A nossa luta não é realizada
pelas nossas próprias forças ou capacidades, mas é uma luta espiritual, em que a vitória vem do
poder de Deus em nossa vida. Dessa forma, precisamos estar em inteira submissão ao Espírito de
Deus, para então resistir ao diabo. Quando resistimos a Satanás e aos seus ataques, ele foge. Note
que coisa interessante: quem foge é o diabo, não o crente. Temos visto crentes fugindo de medo do
diabo e de pessoas possuídas por demônios, porque não conhecem sua posição em Cristo.

Não dando lugar ao diabo — "... nem deis lugar ao diabo" (Ef 4.27). A vitória já está garantida, temos
autoridade sobre Satanás, mas precisamos tomar cuidado para não lhe dar lugar. O diabo é astuto e
não vai aparecer diante de nós como um bicho feio. Ao contrário, a Bíblia diz que ele se transforma
em anjo de luz para nos enganar. E o faz com muita sutileza, às vezes trazendo um mau
pensamento, desviando-nos dos propósitos de Deus; outras vezes, provocando divisões, contendas
etc.; assim, devemos tomar cuidado e não dar lugar ao pecado, às contendas e divisões na igreja,
para que ele não obtenha vantagem nessa batalha. Resumindo, esta deve ser então nossa estratégia:
derrubar as portas do inferno e entrar lá, amarrar Satanás, tirar as vidas de seu domínio e
transportá-las para o reino de Cristo e treinar essas vidas para que também se tornem soldados na
batalha contra o inimigo. Queremos apresentar nas páginas seguintes, de uma forma ilustrada, a
realidade da batalha espiritual hoje.

Os Que estão na frente da Batalha

Nesta linha encontramos os missionários enviados para os campos, que estão trabalhando na
formação de igrejas e nos ministérios de apoio. Note que, no desenho, eles estão em sua maioria
embolados num campo de batalha. Isso se deve à seguinte estatística:

Cristãos nominais - 1.300.000.000 - 96.800 missionários


Outras religiões e ateus - 4.000.000.000 — 24.200 missionários
Total 121.000

O número de missionários trabalhando com os povos mais necessitados e não alcançados é quatro
vezes menor que o total daqueles que trabalham com cristãos nominais. É tempo de olhar para os
povos não-alcançados pelo evangelho e colocar as mãos no arado, desafiando as igrejas a enviar
missionários para plantar igrejas onde não há testemunho do evangelho. "...esforçando-me deste modo
por pregar o evangelho, não onde Cristo já fora anunciado, para não edificar sobre fundamento alheio..." (Rm
15.20).

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 16


Linha dos que estão no Apoio

Esta é a linha dos que estão comprometidos com os missionários, orando e contribuindo
regularmente para o seu sustento. Veja que o número é pequeno, pois infelizmente poucos têm
visão missionária e assumem o compromisso de obediência total a Cristo. Estes estão segurando as
cordas da oração, sabendo que a obra missionária não é responsabilidade somente do missionário
que vai ao campo, mas estão associados a ele, orando para que seja usado por Deus no seu trabalho.
E não participam apenas orando, mas também financeiramente para o sustento da família do
missionário. Devemos orar para que haja um grande despertamento espiritual em nossas igrejas, a
fim de que Deus levante soldados que estejam na linha de apoio para o sustento espiritual e
financeiro dos missionários.

Linha dos que atacam só aos Domingos

Aqui encontramos os pastores e suas igrejas. Os pastores pregando sermões evangelísticos aos
domingos, e os crentes convidando pessoas para ouvi-lo. Durante a semana, levam uma vida de
comodismo, não se preocupando com a salvação das vidas; mas no domingo resolvem atacar o
inimigo. Louvamos a Deus porque em sua misericórdia vidas estão recebendo a mensagem de
ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 17
Cristo e sendo salvas. Mas se pensarmos bem e tivermos consciência de que estamos numa batalha
espiritual, como será possível atacar somente aos domingos? Onde está o nosso testemunho pessoal
durante a semana? Por que não fazemos discípulos de Cristo em nosso trabalho, em nossa escola, na
vizinhança, etc.? É tempo de a igreja de Cristo despertar, abrir os olhos e lançar mão das armas
espirituais, entrando na batalha contra as trevas.

Linha dos que atacam uns aos outros

A situação apresentada acima é a dura realidade da igreja de Cristo hoje. Muitos crentes estão
brigando entre si. O denominacionalismo tem semeado discórdia, desunião e confusão entre o povo
de Deus. Podemos notar como uns têm atacando os outros e, muitas vezes, para vergonha nossa,
usando meios públicos de comunicação, desonrando o nome do Senhor Jesus Cristo. Se os líderes
das denominações tivessem consciência clara da batalha espiritual que estamos enfrentando, talvez
parassem de atacar uns aos outros e se unissem espiritualmente, para juntos derrotarem o inimigo.
Imaginemos a alegria de Satanás quando vê os crentes brigando entre si. Não somos contra
denominações, mas contra o denominacionalismo que divide, discrimina e desune o povo de Deus.
Precisamos ter consciência de que nosso inimigo não é o irmão de outra denominação e sim o diabo.
Aqui não entra só o denominacionalismo, mas também as correntes teológicas. Nesta época, tem-se
dado muita ênfase a algumas idéias teológicas e práticas que têm surgido, e isso tem causado
divisões. Sabemos que cada um tem suas convicções e bases bíblicas. Podemos ter diferentes
correntes teológicas, mas nunca nos dividir por causa delas. Devemos nos unir no que concordamos,
compreendendo-nos no que discordamos.

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 18


Linha dos que estão construindo Templos

Aqui se alinham os que perderam o objetivo e o propósito da igreja aqui na terra. São os que dão
prioridade à construção de templos. Parece que nesta época há uma epidemia de construção de
templos. Há igrejas que há anos estão construindo templos, totalmente endividadas, e nunca
conseguem chegar ao fim da construção. Outras fazem campanhas espetaculares e levantam fundos
para edificar templos faraônicos, luxuosos, enquanto as almas estão famintas, sem Cristo e sem
esperança. Certo pregador disse a uma igreja que estava construindo seu templo: "Se após a
inauguração, vocês não continuarem investindo a mesma quantia mensalmente, para a obra mis-
sionária, terão erigido um altar de testemunho contra vocês mesmos". É tempo de a igreja de Cristo
voltar às origens e redescobrir seu papel aqui na terra, colocando as prioridades na ordem correta.
"... buscai, pois, em primeiro lugar, o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas vos serão acrescentadas"
(Mt 6.33).

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 19


Linha dos soldados Feridos

Nesta linha encontramos os crentes que só causam e trazem problemas à igreja. Satanás está
oprimindo muitos crentes, provocando problemas de toda sorte, para que pastores e crentes
maduros se preocupem e gastem um tempo precioso cuidando deles, quando poderiam estar
trabalhando para missões. É preciso ter muito discernimento para exercer o ministério de
aconselhamento e cura da igreja, ter discernimento quanto às nossas prioridades e ao uso correto do
nosso tempo; precisamos treinar pessoas que tenham dons espirituais de exortação, pastoreio,
misericórdia, socorro, etc., para que possam trabalhar com os necessitados. Devemos tomar cuidado
para não nos envolver em um ministério para o qual Deus não nos designou e assim prejudicar a
igreja no cumprimento dos seus propósitos. Há alguns crentes que querem somente ser afofados e
paparicados, mas não querem se comprometer com o senhorio de Cristo. Estes só dão trabalho e,
muitas vezes, são colocados em nosso caminho por Satanás, para que nos preocupemos com eles.

Linha dos que não sabem que estão na Guerra

Composta de crentes indiferentes quanto ao progresso do evangelho. Estão preocupados com as


coisas da vida. Só pensam em ganhar dinheiro e acumular tesouros aqui na terra; preferem os

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 20


passeios à Escola Dominical; preferem a cama ao estudo da Palavra; preferem a televisão à reunião
de oração; vivem despreocupados em relação ao fato de as pessoas estarem salvas ou não. O pior é
que aplaudem os que estão na linha de frente da batalha. Às vezes, vejo as reações de algumas
igrejas quando ouvem o testemunho de um missionário. Elas aplaudem, exaltam a coragem e o
desprendimento daquela vida, ficam admiradas com o altruísmo do missionário e se deleitam com
as histórias fascinantes e diferentes do campo. No final, dão uma pequena oferta, apenas para
desencargo de consciência, e voltam às suas atividades, não percebendo que também fazem parte
dessa batalha espiritual. Infelizmente, para vergonha nossa, esta é a realidade da maioria das igrejas;
o maior número de soldados encontra-se nesta linha e são aqueles que não estão preocupados nem
engajados na batalha. Desobedecem voluntariamente ao comando do General, mas estão
aplaudindo os obedientes. Deus tenha misericórdia de nós e faça descer sobre nós o poder do alto,
para que cada crente, e consequentemente cada igreja, assuma a responsabilidade de entrar nessa
batalha, usando todos os meios possíveis para que Cristo seja pregado a todas as nações.

O DESAFIO DE MISSÕES
"...mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e sereis minhas testemunhas tanto em
Jerusalém como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra" (Atos 1.8). Esse versículo tem
sido a base de um sermão que em diversas igrejas e conferências missionárias Deus tem usado para
desafiar vidas e comunidades para a tarefa da evangelização mundial. Nesse versículo encontramos
condensado o plano de Deus para a igreja.

"... recebereis poder..."


Missões começam no poder do Espírito Santo. Ele é o chefe de missões, porque é quem dirige,
motiva, impulsiona e leva a igreja a cumprir sua tarefa missionária. Algumas igrejas dizem que têm
o poder do Espírito Santo, mas não têm visão missionária, o que é impossível, porque se de fato
tivessem poder, consequentemente teriam visão missionária. Outras querem fazer a obra de missões
sem o poder do Espírito Santo, e o resultado é um fracasso total. Jesus conhece nossa fraqueza e
incapacidade para cumprir sua ordem; por isso, todas as vezes que ordenou que fôssemos por todo
o mundo pregando o evangelho a toda criatura, prometeu também nos capacitar com o poder do
Espírito Santo. Examine o quadro da página seguinte. É impossível fazer a obra de missões sem o
poder do Espírito Santo. E impossível haver poder do Espírito Santo sem que haja visão mundial. Se
olharmos para a história da igreja, veremos que sempre que houve um derramamento do Espírito o
resultado foi um grande movimento de missões mundiais. O resultado do derramamento do
Espírito Santo no dia de Pentecostes foi a salvação de quase três mil almas (At 2.41); mais adiante,
cerca de cinco mil (At 4.4); depois disso houve um grande movimento missionário (At 7.6). Na
história dos avivamentos, podemos perceber grandes movimentos missionários. Se quisermos ver
nossas igrejas crescendo, o reino de Deus implantado e o evangelho sendo pregado a todas as
nações, precisamos do poder do Espírito Santo. Todas as vezes que Jesus deu a Grande Comissão a
seus discípulos, deu também a promessa da capacitação do Espírito Santo para sua execução. Mas o
diabo não quer que o evangelho seja pregado, e sabe que se a igreja for cheia do Espírito Santo,
haverá um grande trabalho de evangelização destinado a todas as nações; por isso ele começou a
semear um movimento de divisão nas igrejas é uma tremenda confusão doutrinária. Podemos andar
no Espírito pela fé. A Bíblia diz que sem fé é impossível agradar a Deus (Hb 11.6); o justo viverá pela fé (Gl
3.11); ora, como recebestes a Cristo Jesus, o Senhor, assim andai nele (Cl 2.6); andai no Espírito, e jamais
satisfareis à concupiscência da carne (Gl 5.16). Você pode andar cheio do Espírito Santo pela fé na
Palavra de Deus. Ele já nos prometeu poder e autoridade; basta-nos agora recebê-lo pela fé e
andarmos cada ano, cada mês, cada hora do dia, cada minuto da hora, cada segundo da nossa vida
cheios do Espírito Santo pela fé na Palavra de Deus. Você está cheio do Espírito Santo? Talvez você
seja um cristão derrotado, sem poder e sem frutos por estar vivendo a vida cristã pelos seus
próprios esforços ou, quem sabe, procurando emoções! Nós lhes recomendamos que peça a Deus
que o encha do Espírito Santo agora mesmo, onde você está, e que o receba pela fé.

"... e sereis minhas testemunhas..."


O resultado de uma vida cheia do Espírito Santo é o testemunho. O crente que se apropria do poder
do Espírito Santo, pela fé, sente-se motivado a falar de Jesus Cristo aos outros e o faz de forma

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 21


natural. Além do poder para testemunhar, o crente produzirá o fruto do Espírito, que se refletirá em
suas atitudes, e sua vida servirá de estímulo para que os outros sigam Jesus. Jesus Cristo nos chama
para ser suas testemunhas. Testemunha é uma pessoa que viu algum acontecimento e é solicitada a
relatá-lo. Jesus quer que sejamos testemunhas do que ele fez e está fazendo por nós e em nós. Se
Cristo fez e está fazendo algo em nossa vida, temos do que testemunhar, porém se Cristo não fez
nem está fazendo nada em nós, não temos nada para testemunhar. Deus nos ordena em sua Palavra
que sejamos testemunhas das bênçãos que ele nos dá, e essas bênçãos têm uma razão de ser: para
que o mundo creia. Veja o que lhe diz Salmos 67.1-3: Você tem sido uma testemunha? Quantos ao
seu redor estão morrendo sem Cristo, sem esperança, sem salvação, indo para o inferno! Você tem
pregado o evangelho e está fazendo discípulos? Você se lembra da pessoa que lhe falou de Cristo?
Lembra-se do dia da sua salvação? Você já pensou que aquela pessoa foi fiel a Deus e a você? Você
já agradeceu a Deus por aquela vida? Será que algum dia alguém vai agradecer a Deus porque você
lhe testemunhou? Enquanto estamos vivos devemos ser testemunhas de Cristo.

Locais para o testemunho


Em Atos 1.8 Jesus apresenta-nos quatro locais onde devemos ser testemunhas: Jerusalém, Judéia,
Samaria e os confins da terra.
a) Jerusalém — cidade onde os discípulos estavam quando receberam a ordem. Ela foi palco dos
acontecimentos básicos do cristianismo. Nela Jesus morreu, ressuscitou e deu a Grande Comissão
aos discípulos. A nossa Jerusalém deve ser a cidade onde vivemos, nos reunimos como igreja e
recebemos as bênçãos de Deus. Portanto devemos ser testemunhas em nossa cidade, no trabalho, na
escola, na vizinhança, na rua, falando de Cristo, distribuindo folhetos, convidando pessoas para ir à
igreja, realizando programas de rádio e TV, colocando mensagens nos jornais, cartazes nas lojas, nos
veículos de transporte coletivo, etc. Enfim, devemos fazer tudo para que Cristo seja conhecido em
nossa Jerusalém.
b) Judéia — estado cuja capital era Jerusalém. Quando Cristo diz que devemos ser testemunhas em
toda a Judéia, ele quer que evangelizemos nosso estado. A nossa Judéia é o estado onde estamos
vivendo.
c) Samaria — região mais afastada, com conotações transculturais. A nossa Samaria é o Brasil.
Portanto, devemos ser testemunhas no Brasil do que Cristo fez e está fazendo em nossa vida aqui.
d) Confins da terra — Jesus quer que sejamos suas testemunhas em todas as nações da terra. A
visão de Deus é implantar seu reino em todas as tribos, povos, línguas e nações (Ap 5.9). Devemos,
portanto, ter a mesma visão, pois somos os instrumentos de Deus para essa tarefa.
Se somos servos de Deus e temos a Bíblia como única regra de fé e prática, teremos visão
missionária mundial, que é o que Deus espera dos seus servos.
Qual tem sido a sua visão? O que você e sua igreja estão fazendo para levar a glória de Deus a todas
as nações?

Quando testemunhar? Hoje e agora!


Alguns têm uma visão errada da obra e da tarefa da igreja. Pensam que devem atingir somente o
seu bairro com a mensagem de Cristo. Oh! Como precisamos de visão! Como precisamos de uma
operação sobrenatural de Deus abrindo os nossos olhos para a tarefa que está diante de nós! A visão
de Deus é que a igreja seja testemunha de Cristo em Jerusalém, na Judéia, em Samaria e nos confins
da terra ao mesmo tempo. Alguns planejam evangelizar primeiro a cidade ou o país, para depois
pensar em missões mundiais. Isso é pecado! É desobediência à ordem de Cristo, falta de
responsabilidade, e prestaremos contas diante de Deus por esse nosso pecado (Hb 2.2). Observe os
destaques no texto: "... recebereis poder ao descer sobre vós o Espírito Santo e sereis minhas
testemunhas tanto em Jerusalém, como em toda a Judéia e Samaria e até aos confins da terra". Note que
devemos evangelizar os quatro locais ao mesmo tempo. No original grego, a palavra
correspondente a tanto em é te, que quer dizer "ambas"; daí a idéia de simultaneidade. Devemos ser
testemunhas na nossa cidade, no nosso estado, no nosso país e no mundo todo ao mesmo tempo!
Os números abaixo mostra-nos a realidade do mundo hoje.

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 22


Situação do Mundo Em 1998
Cristianismo
Igreja Católica........................................ 970.000.000
Igreja Ortodoxa e outras........................ 180.000.000
Protestantes e Evangélicos..................... 800.000.000
Outros Grupos....................................... 100.000.000
TOTAL................................................... 2.050.000.000

Outras Religiões
Islamismo.............................................. 1.150.000.000
Hinduísmo............................................. 770.000.000
Religiões Orientais................................ 680.000.000
Judaísmo................................................ 20.000.000
Animismo.............................................. 160.000.000
Outras................................................... 70.000.000
TOTAL.................................................. 2.850.000.000

Ateus e Secularistas
Sem Religião ........................................ 1 .200.000.000
TOTAL GERAL...................................... 6.100.000.000
Fonte de Informação: U.S. Center for World Missions

A JANELA 10/40

• A Janela 10/40 é a faixa entre os graus 10 e 40 ao norte da linha do equador; é onde se concentra o
maior número de povos não alcançados do mundo.
• Há 62 países nesta faixa, dos quais 55 são os menos evangelizados do mundo.
• Nesta região vivem 706 milhões de muçulmanos, 717 milhões de hindus e 153 milhões de
budistas.
• 82% dos povos mais pobres do mundo estão nesta área.
• Na maioria dos países da Janela 10/40 não há acesso ao evangelho.
Espero que essas informações tenham sido um instrumento de Deus para mover seu coração. O que
você está fazendo para mudar esse quadro?

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 23


UNIDADE III
O RELACIONAMENTO ENTRE A IGREJA LOCAL E AS JUNTAS OU AGÊNCIAS
MISSIONÁRIAS
...............................................................

“Elas têm o seu lugar, que é muito importante. Para executar sua responsabilidade, as igrejas necessitam de
auxílio e de apoio dessas organizações”.

..............................................................

O PAPEL DA IGREJA

A igreja reconhece a chamada e seleciona os candidatos. Ninguém melhor do que a igreja local
para reconhecer e identificar uma pessoa chamada para a obra de missões. A igreja vê o fruto e
identifica o dom porque está convivendo e trabalhando com a pessoa. Por isso, é muito importante e
de muita responsabilidade a recomendação que uma igreja faz para uma pessoa ir ao campo
missionário. Se o candidato não produz fruto no país, não o produzira também no campo
missionário, e quem atesta a produção de frutos é a igreja local.

A igreja treina o candidato


Toda igreja deve ter seu próprio treinamento para os candidatos a missões. Ninguém melhor do que
o pastor, desde que seja um pastor que produza frutos, para treinar e orientar o candidato à obra de
missões e para praticar o trabalho com ele. Veja na Bíblia o que Paulo fez com Timóteo (At 16.1-3).
Além desse treinamento prático, Paulo continuou trabalhando com Timóteo até morrer (veja as duas
cartas a Timóteo). Portanto, o melhor treinamento surge na igreja local, que deve estar atenta à sua
enorme responsabilidade perante seus membros, pois se ela é o modelo do que o futuro missionário
irá reproduzir no campo, precisa cuidar para que seja biblicamente estruturada, responsável,
espiritualmente amadurecida e produtiva. Muitas vezes ensinamos mais pelo que fazemos do que
pelo que falamos.

A igreja envia o missionário


Já vimos a base bíblica da responsabilidade da igreja no envio do missionário. Ela poderá fazê-lo
diretamente ou usar uma junta denominacional ou agência missionária, mas não pode esquecer que
a responsabilidade é sua, e esta aumenta quando o missionário sai para o campo.

A igreja cuida do missionário


Qualquer problema do missionário no campo deve ser encarado como problema da igreja local. É
importante que ela saiba das despesas financeiras do missionário, que são muitas, conheça as
dificuldades lingüísticas, com enfermidades, com adaptação cultural, etc. A igreja tem a
responsabilidade de cuidar do missionário. Mais adiante, vamos estudar sobre a parte prática desse
cuidado.

O Papel das Agências ou Juntas Missionárias


Agora que já estudamos a responsabilidade da igreja, quero falar sobre a importância das juntas
denominacionais e agências missionárias. Essas organizações vieram a existir por causando fracasso
das igrejas em cumprir a tarefa. Hoje elas são de grande importância e atuam como instrumentos de
Deus para ajudar a igreja local a fazer missões.
ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 24
Prover treinamento específico para o missionário
A igreja provê o treinamento geral, teológico, prático, etc., mas o missionário precisa receber
treinamento específico de acordo com o campo onde vai atuar. É importante que ele esteja
preparado para enfrentar as dificuldades da adaptação cultural. Além disso, tanto a esposa do
missionário quanto toda sua família também precisam de treinamento específico. A esposa tem de
receber o mesmo reparo do marido, e as crianças um cuidado especial. É importante também o
treinamento lingüístico, de sobrevivência nas selvas, etc., caso haja necessidade. A igreja terá muita
dificuldade para oferecer esse tipo de treinamento. Por isso é necessário que as organizações
missionárias especializadas a ajudem nessa área.

Orientar quanto às melhores oportunidades


Pelo fato de estar em contato com outras agências e fazer estudos específicos, essas organizações
sabem onde estão as melhores oportunidades. Estão mais bem informadas sobre os campos mais
necessitados, conhecem os países que estão abertos para missões e suas necessidades específicas — o
que facilita ao candidato avaliar se o seu dom vai suprir as carências do campo escolhido. Note que
o apóstolo Paulo disse aos romanos que gostaria de ir a Roma com a finalidade de repartir algum
dom espiritual (Rm 1.11). É importante, pois, que o missionário conheça o seu dom, e saiba se ele é
necessário no campo missionário escolhido. Por exemplo, há lugares que não precisam mais de
missionários para plantar novas igrejas, porque as igrejas já plantadas podem fazer esse tipo de
trabalho. Talvez precisem de missionários para p treinamento das igrejas já estabelecidas. Por isso é
necessário que alguém esteja fazendo esses estudos, e o trabalho das juntas e das agências dirige-se
para isso.

Executar o serviço burocrático


Há inúmeras dificuldades para o envio de um missionário. Precisa haver contatos com outras
agências missionárias, com autoridades governamentais, emissão de vistos de entrada e de
permanência, câmbio e envio de dinheiro, orientação quanto aos relacionamentos no campo com
igrejas, governo e outras agências, e avaliação in loco do andamento do trabalho. Todas essas tarefas
são difíceis para a igreja. Daí a importância das juntas e organizações missionárias. Se as
organizações missionárias estão ocupando o lugar da igreja, isso ocorre porque igrejas e pastores
estão falhando. O fato de essas organizações existirem não tira a responsabilidade da igreja. O
problema é que algumas igrejas transferiram sua responsabilidade para as juntas ou agências
missionárias. Simplesmente dão uma oferta anual e dizem que já cumpriram sua tarefa. Além disso,
muitos terminaram o seminário e, em vez de se apresentar à igreja para o envio ao campo,
apresentam-se à junta ou agência. Creio que é tempo de acabar com esse problema de uma vez por
todas. Cada junta ou agência deve enviar apenas candidatos recomendados pela igreja local, que
estejam produzindo frutos e comprometidos com a igreja e com eles. O gráfico seguinte poderá
ajudá-lo a entender os relacionamentos.

Perceba que há um relacionamento de interdependência entre os três. Quando não há esse


relacionamento correto, ocorrem dificuldades, das quais o Diabo gosta muito. Apresento a seguir

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 25


quatro dessas dificuldades:

a) A igreja não conhece o missionário. Quando um missionário é enviado por uma junta ou agência,
e a igreja não o conhece nem tem nenhum relacionamento pessoal com ele, fica desmotivada na obra
missionária.

b) A igreja não ora. Por não conhecer o missionário e por não saber o que ele está fazendo nem onde
está, a igreja não ora e, não fazendo isso, prejudica-se a si mesma e ao missionário no campo.

c) A igreja não contribui. Se a igreja não conhece o missionário, não sabe o que ele está fazendo, nem
recebe relatório, fica desestimulada a contribuir financeiramente. Mais adiante vou falar a respeito
de finanças em missões e contar alguns milagres que Deus tem feito em questões financeiras pelo
fato de a igreja conhecer pessoalmente o missionário.

d) A igreja fica desanimada com missões. É lógico! Se não há um relacionamento pessoal com o
missionário, a igreja fica fria quanto à obra missionária. Quando o missionário sai da igreja local
comprometido com ela e dela recebendo o mesmo compromisso, a coisa é diferente. Precisamos
aprender o conceito de personalização. Personalização é cada membro da igreja local envolvido
pessoalmente na evangelização do mundo usando suas habilidades e seus dons.

O PASTOR – A CHAVE PARA MISSÕES MUNDIAIS


Há um ditado que diz: "Tal pai, tal filho". Podemos transferi-lo para a situação eclesiástica e dizer:
"Tal pastor, tal igreja". Normalmente uma igreja é o que o seu pastor é. Se o pastor leva Deus a sério,
a igreja vai levar Deus a sério. Se o pastor é consagrado, a igreja será consagrada. Se o pastor leva
uma vida de santidade, a igreja também levará uma vida de santidade. Se o pastor tiver visão
missionária, a igreja também terá visão missionária. Se nossas igrejas não tem tido visão, nem
programa e ministério de missões mundiais é porque está havendo alguma falha. Uma delas está no
preparo do pastor. Nossos seminários estão entregando às igrejas, pastores sem visão missionária.
Na maioria dos seminários, missões são apenas uma matéria entre outras, dada em apenas um
semestre, somente com o objetivo de cumprir o currículo. Precisa haver uma mudança radical no
ensino teológico. Se missões são a razão de ser das igrejas, deveria então haver um departamento ou
cadeira de missões em cada casa de ensino teológico, como matéria prioritária, básica e obrigatória
em todos os cursos. Os pastores deveriam sair dos seminários conscientes do seu papel e da razão
de a igreja existir. Oremos para que Deus faça uma mudança radical em nossas vidas, seminários e
igrejas.

As Responsabilidades do Pastor
Conduzir a igreja à maturidade que produz fruto
... “Cristo em vós, a esperança da glória; o qual nós anunciamos, advertindo a todo homem e ensinando a todo
homem em toda a sabedoria, a fim de que apresentemos todo homem perfeito em Cristo; para isso é que eu me
afadigo, esforçando-me o mais possível, segundo a sua eficácia que opera eficientemente em mim” (Cl 1.27b-
29). O apóstolo Paulo, inspirado pelo Espírito Santo, deixou registradas essas palavras, para que
tenhamos um modelo a seguir. O texto diz que o ministério de pregação de Paulo consistia em
anunciar, advertir e ensinar a todo homem em toda a sabedoria. Que tremendo ver a extensão e a
totalidade da visão ministerial de Paulo! Note bem os "todos" que aparecem no texto. Jesus Cristo
não nos vai perguntar: "Como está a sua denominação? Como está a construção do seu templo?
Quanto vocês têm depositado na poupança?" Não! Nunca! Ele vai pedir contas do rebanho que
confiou a nós.

Levar a igreja a experimentar a vontade de Deus


“Rogo-vos, pois, irmãos, pelas misericórdias de Deus, que apresenteis o vosso corpo por sacrifício vivo, santo e
agradável a Deus, que é o vosso culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela
ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 26
renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus” (Rm
12.1-2). Vontade de Deus não se conhece; vontade de Deus se experimenta. Note que Paulo está
rogando à igreja que tome atitudes sérias no sentido de consagração e de separação do mundo, mas
tudo com um objetivo claro na mente: para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade
de Deus. Aqui fica bem claro que o propósito da consagração dos crentes é fazer que cada um
experimente, ou seja, comprove a vontade de Deus, como ensina o texto no seu original. Portanto, a
tarefa de todo pastor é ajudar os membros de sua igreja a experimentar a vontade de Deus para suas
vidas, lançando-lhes os desafios emergentes da sua Palavra.

Levar a igreja ao serviço de edificação do corpo


E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros para profetas, outros para evangelistas, e outros
para pastores e mestres, com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu
serviço, para edificação do corpo de Cristo (Ef4.11.12).

a) Apóstolo (no original, enviado) - É aquele que tem a visão de fazer coisas novas. Está sempre
preocupado em abrir novas igrejas e fazer novos projetos. É aquele irmão que sempre vem com
novas idéias e planos para a expansão do reino de Deus.

b) Profeta (no original, o que fala da parte de Deus) - É aquele que quer ver a igreja obedecendo à
Palavra de Deus. Sempre está exortando o povo. Este dom é diferente do descrito em l Coríntios 12,
pois aquele se refere a trazer uma mensagem direta de Deus para a igreja.

c) Evangelista - É aquele que desafia, motiva e ensina a igreja a ganhar vidas para Cristo. Ele
pessoalmente ganha vidas, mas também cuida que a igreja esteja fazendo o mesmo. Seu interesse
sempre é a salvação de almas.

d) Pastor - É aquele que cuida do rebanho. Gosta de aconselhar, fazer visitas e estar em comunhão
com as pessoas. Sempre tem uma palavra de conforto para os necessitados. Preocupa-se com o bem-
estar das pessoas como indivíduos.

e) Mestre - É aquele que ensina a Palavra de Deus. Gosta de detalhes, e sempre está ensinando os
princípios bíblicos e expondo a Palavra. Seu maior interesse é saber o que a Bíblia diz e ensinar ao
povo. Esses dons são distribuídos à liderança da igreja com o propósito de capacitar os crentes para
o desempenho do seu serviço. Paulo está ensinando que o objetivo é aperfeiçoar (que poderia ser
traduzido como equipar), ou seja, dar condições aos crentes de exercerem o seu ministério. Quem
tem um serviço a realizar são os crentes, e tal serviço deve ter como objetivo final o cumprimento
dos propósitos da igreja, que é a evangelização do mundo. Por isso todo pastor deve equipar os
membros de sua igreja, para que eles tenham um ministério e cumpram a vontade de Deus. Ah!
Como precisamos de pastores segundo o coração de Deus, homens que sirvam de modelo ao
rebanho e o ajude a cumprir os propósitos de Deus!

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 27


O SUSTENTO DE MISSÕES
Como todo empreendimento, a obra de missões precisa de sustento. Porém, quando falamos nesse
assunto, a primeira idéia que vem à nossa mente refere-se ao dinheiro, mas não é apenas o dinheiro
que sustenta missões. Neste capítulo, vamos separar as duas facetas mais importantes do sustento
de missões. A primeira é a oração; a segunda, as finanças.

Oração
Como as demais atividades da igreja, o trabalho de missões é movido a oração. A oração é uma
arma poderosa para vencer barreiras e alcançar metas. Por meio da oração, podemos ver as janelas
dos céus abertas e as bênçãos de Deus caindo sobre o seu povo. A oração move o coração de Deus.
Não há problema ou dificuldade que resista a uma oração persistente. Deus responde à oração, e o
trabalho de missões pode ser sustentado só com muita oração. Temos de enfrentar a realidade de
que estamos numa guerra espiritual. Fazer missões é lutar diretamente contra as hostes satânicas.
Jesus disse que as portas do inferno não prevalecerão contra a igreja (Mt 16.18); disse ainda que
devemos amarrar o valente e saquear-lhe os bens (Mc 3.27). A Bíblia também nos diz que Deus “nos
tira do reino das trevas e nos transporta para o reino do filho do seu amor” (Cl 1.13-14). Portanto, o bom
crente é um ladrão! Ele amarra o Diabo, invade sua propriedade e rouba-lhe os bens — as almas em
seu poder nas trevas — e as encaminha para o reino de Jesus Cristo. Por intermédio da igreja, o bom
crente derruba as portas do inferno, entra, amarra o valente e saqueia-lhe os bens; isso é feito pela
oração. O Diabo treme de medo quando vê um crente orando. Os crentes, então, precisam
reconhecer sua posição em Cristo, que é de superioridade e vitória sobre todo poder do mal. Em
Efésios 1.20-21 lemos: "...o qual exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, fazendo-o sentar à
sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado, e potestade, e poder, e domínio, e de todo nome que
se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro". Note que Cristo está assentado nas
regiões celestes, acima de todo espírito maligno, acima do diabo e de sua hostes. Agora observe no
mesmo contexto a nossa posição, em 2.6: "... e juntamente com ele nos ressuscitou e nos fez assentar
nos lugares celestiais em Cristo Jesus". Veja bem isso: quando aceitamos Cristo, somos colocados nas
regiões celestes em Cristo portanto estamos na mesma posição de Jesus, ou seja, acima de todo
principado e potestade. Em outras palavras, o Diabo está debaixo de nossos pés. Aleluia! A vitória já
está garantida nessa luta, pela nossa posição em Cristo. Mas o Diabo é persistente, e temos de usar a
arma da oração para golpeá-lo. Em Efésios 6.10-20, o apóstolo Paulo fala sobre a armadura de Deus
na luta contra o Diabo, e nos versículos 18 e 19 explica que essa armadura é movimentada com a
oração. Missões são um trabalho de batalha espiritual, que ataca e destrói as fortalezas do inimigo, e
isso é feito por meio da oração. Algumas sugestões bíblicas de oração missionária.

Oração que roga por obreiros


Rogai, pois, ao Senhor da seara que mande trabalhadores para-a sua seara (Mt 9.38).

Oração pelas igrejas


E também faço esta oração: que o vosso amor aumente mais e mais em pleno conhecimento e toda a
percepção, para aprovardes as cousas excelentes e serdes sinceros e inculpáveis para o dia de Cristo,
cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus Cristo, para a glória e louvor de Deus (Fp 1.9-11).

Oração pelos missionários


Com toda oração e súplica, orando em todo tempo no Espírito, e para isto vigiando com toda
perseverança e súplica por todos os santos e também por mim; para que me seja dada, no abrir da
minha boca, a palavra, para, com intrepidez, fazer conhecido o mistério do evangelho (Ef 6.18-19).

Oração para que Deus abra as portas


Suplicai, ao mesmo tempo, também por nós, para que Deus nos abra porta à palavra, a fim de
falarmos do mistério de Cristo, pelo qual também estou algemado (Cl 4.3).

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 28


5) Oração pelas finanças
Todavia, fizestes bem, associando-vos na minha tribulação. E sabeis também vós, ó filipenses, que
no início do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja se associou comigo, no tocante
a dar e receber, senão unicamente vós outros; porque até para Tessalônica mandastes não somente
uma vez, mas duas, o bastante para as minhas necessidades (Fp 4.14-16).

6) Orar pedindo grandes coisas


Ora, àquele que é poderoso para fazer infinitamente mais do que tudo quanto pedimos, ou
pensamos, conforme o seu poder que opera em nós, a ele seja a glória, na igreja e em Cristo Jesus,
por todas as gerações, para todo o sempre. Amém (Ef 3.20-21).

Finanças
Um dos assuntos que mais provocam medo e tensão nos pastores e líderes são as finanças. Porém, se
aprendermos a aplicar os princípios bíblicos, tudo funcionará bem nessa área. Para conseguir bom
êxito no sustento da obra missionária é preciso, além de oração, dinheiro para cobrir as despesas.
Por esse motivo, quero iniciar esta parte com uma exposição bíblica de Filipenses 4.10-20, que
apresenta alguns princípios bíblicos sobre finança Primeiro para o missionário e depois para a igreja.
Em Filipenses 4.10-20 encontramos quatro princípios de finanças para o missionário:

a) O missionário deve estar associado à igreja local


Todavia fizestes bem em tomar parte na minha aflição. Também. vós sabeis, ó filipenses, que, no
princípio do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja comunicou comigo no sentido
de dar e de receber, senão vós somente (v. 14-15). Missões não são um trabalho realizado somente
pelo missionário, mas é um trabalho feito em conjunto. O apóstolo Paulo usa o verbo "associar" para
descrever seu relacionamento com a igreja. Esta é, no original, uma palavra comercial usada em
referência aos negócios, quando duas partes se associam num empreendimento. Chegamos, assim, à
conclusão de que o trabalho de missões é feito em conjunto, tendo de um lado a igreja e, de outro, o
missionário. Assim como duas pessoas que se unem para fazer um negócio se tornam sócias, a obra
missionária tem como um de seus sócios a família do missionário e como outro, a igreja local; e
ambos vão juntos para o campo missionário. Quando o missionário vai para o campo por conta
própria, sem estar associado à igreja local, cria problemas tanto para si como para a igreja.

b) O missionário deve viver contente em qualquer situação


Não digo isto por causa da necessidade, porque já aprendi a contentar-me com as circunstâncias em
que me encontre. Sei passar falta, e sei também ter abundância; em toda maneira e em todas as
coisas estou experimentado, tanto em ter fartura, como em passar fome; tanto em ter abundância,
como em padecer necessidade (v. 11-12). Deus, em sua soberania, sabe quais são as experiências
necessárias ao nosso crescimento espiritual; por isso permite-nos passar por situações difíceis e por
outras fáceis, segundo as nossas necessidades. Essa é a razão de o apóstolo Paulo afirmar que sabe
viver contente em toda e qualquer situação. Ele havia aprendido a olhar para Deus trabalhando em
sua vida, não para as circunstâncias, e o aprendizado aconteceu pela prática. Note que, no versículo
12, ele afirma ter experiência de fartura e de fome, de abundância e de escassez.

c) O missionário deve confiar no Senhor


“Posso todas as coisas naquele que me fortalece” (v. 13).
Paulo afirma que tudo pode em Cristo, porque, em meio às experiências, conheceu o poder de Deus
suprindo suas necessidades. Posso imaginar Paulo enfrentando dificuldades como escassez e fome,
perigos, nudez, como ele mesmo afirma, e, no meio de tudo isso, recorrendo ao Senhor Jesus como
único socorro e tábua de salvação, experimentando quebrantamento e milagres ao mesmo tempo.
Posso imaginar, ainda, Paulo em meio à fartura e abundância, recorrendo ao Senhor, para que
ficasse livre de se apoiar em seus bens materiais e em recursos humanos. Se Deus nos chamou para
a obra de missões, ele vai nos sustentar, dando-nos tudo que necessitamos, incluindo os períodos de
escassez.

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 29


d) O missionário deve estar interessado não no dinheiro, mas no fruto que aumente o crédito da
igreja
Não que procure dádivas, mas procuro o fruto que cresça para a vossa conta (v. 17).
Há muitos missionários interessados apenas no dinheiro que irão receber. Posso dizer isso por
experiência própria. Quantas vezes eu me surpreendo com o meu coração voltado mais para o
dinheiro e para a oferta que vou receber do que para a bênção que aquilo representa para a vida da
pessoa e da igreja que estão ofertando. Observe no texto bíblico que o interesse de Paulo não estava
no dinheiro, mas sim na bênção que os irmãos iriam receber se ofertassem.

Princípios financeiros para igreja


a) A igreja deve estar associada ao missionário
Todavia fizestes bem em tomar parte na minha aflição. Também vós sabeis, ó filipenses, que, no
princípio do evangelho, quando parti da Macedônia, nenhuma igreja comunicou comigo no sentido
de dar e de receber, senão vós somente (v. 14-15). Aqui entra um conceito muito importante para a
igreja que envia. Muitas igrejas entregam o missionário a uma junta ou agência e simplesmente se
esquecem de que têm uma responsabilidade; transferem-na para essas organizações. Isso é mau
porque desliga o missionário da igreja e esfria o ânimo de todos. Por isso, ao enviar o missionário,
mesmo que seja por meio de uma junta ou agência, a igreja deve se comprometer com ele e associar-
se a ele.

b) A igreja deve suprir as necessidades do missionário


“Porque estando eu ainda em Tessalônica, não uma só vez, mas duas, mandastes suprir-me as necessidades”
(v. 16). Paulo está agradecendo à igreja em Filipos porque ela cuidara dele na obra de missões. O
processo desde a seleção até o envio do missionário é bastante árduo e exige um cuidado especial da
igreja. A responsabilidade aumenta quando ele é enviado para o campo. A igreja tem a
responsabilidade de cuidar de todos os detalhes necessários para que o missionário encontre
facilidades para exercer seu ministério, sem se preocupar com os problemas materiais. O cuidado
missionário é uma diaconia da igreja e dá liberdade para que o missionário se entregue às orações e
ao ministério da Palavra (At 6.3-4). Se uma igreja decide cuidar do missionário, então deve assumir
responsabilidade integral por ele. Veja que a igreja enviou a Paulo, duas vezes, o suficiente para
suprir-lhe as necessidades. Para que o missionário possa estar bem no campo, despreocupado com
relação às coisas materiais, a fim de se dedicar ao ministério, a igreja, sendo a outra parte da
sociedade, deve cumprir o seu papel e suprir as necessidades do missionário.

c) A igreja deve entender o princípio financeiro de Deus


“Meu Deus suprirá todas as vossas necessidades segundo as suas riquezas na glória em Cristo Jesus” (v. 19).

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 30


UNIDADE IV
ANTROPOLOGIA MISSIONÁRIA
...............................................................

“Para o diálogo efetivo do evangelho é necessário aceitar, em princípio, a estranheza da nova cultura e não
questionar nem criticar logo coisas que ainda não compreendemos”.

..............................................................

O DESENVOLVIMENTO HISTÓRICO DA ANTROPOLOGIA

A noção de que existem diferenças de costumes entre os vários povos certamente é muito antiga.
No entanto, o estudo sistematizado da "cultura" em si é bem mais recente. E mais contemporânea
ainda é a idéia de que a missão pode se servir destes estudos. O objetivo principal dos etnólogos
(professores e eruditos da antropologia) é composto pelos povos e grupos de povos. No mundo de
hoje nos referimos a um número de 2.000 povos e 12.000 a 17.000 grupos de povos. Na prática, os
etnólogos não se preocupam com todos os povos, mas sim, com os povos não civilizados, pré-
industrializados, povos naturais ou povos sem língua, em contraste com povos culturais. Não é fácil
determinar o início da antropologia. A antropologia, como fenômeno, existe desde que o ser
humano se movimenta entre várias culturas, tendo condições de comunicar-se em línguas
diferentes, possuindo a capacidade de desenvolver tradições, costumes, hábitos, religiões e conceitos
sociológicos. Na antropologia existem várias convicções, escolas, perguntas, teorias e métodos
diferentes. Trata-se de uma ciência empírica cujos resultados são, continuamente, revisados,
rejeitados, ampliados e modificados.

Definição de Antropologia Missionária


O termo antropologia é uma composição de duas palavras gregas:
• anthropos = que significa homem;
• logos = que significa palavra, doutrina, ensino, fala.

Portanto, a antropologia é a doutrina ou o ensino a respeito do homem. Na antropologia missionária


referimos à antropologia cultural no horizonte da responsabilidade e realidade missionária. A
antropologia missionária instrumentaliza os conhecimentos, conceitos, teorias e hipóteses da
moderna antropologia para a prática missionária. Então, ANTROPOLOGIA é o “estudo ou tratado
acerca do ser humano” ou ainda, “a ciência da cultura humana”. O antropólogo Kroeber a define
como a ciência dos grupos humanos, seu comportamento e suas produções. O Antropólogo norte-
americano Louis J. Luzbetak define a antropologia missionária como forma específica da
antropologia cujo alvo é missionário e cujo método é antropológico. A antropologia missionária
fornece os métodos científicos enquanto que a missão oferece os exemplos práticos. A partir do
momento em que deixamos a cultura na qual nascemos e fomos criados, percebemos mais cedo ou
mais tarde que nem todas as pessoas sentem, observam, explicam, comparam, controlam, pensam e
agem da mesma forma como nós. Outras pessoas se movimentam, comem, discutem e estudam de
modo diferente. Elas têm outros valores e convicções religiosas. Quem não se conscientiza de que
culturas diferentes têm também costumes, tradições, convicções e hábitos diferentes, logo será
confrontado com uma situação desconfortável. Quando entramos numa nova cultura podemos
facilmente ofender, mesmo sem querer, os sentimentos das pessoas locais. Portanto, a tarefa da
antropologia missionária é permitir que o processo de conscientização e respeito mútuo entre povos
ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 31
e culturas cresça na vida dos missionários bem como entre crentes no mundo inteiro. É importante
respeitar os costumes, tradições e hábitos diferentes para evitar erros irreparáveis. Para o diálogo
efetivo do evangelho é necessário aceitar, em princípio, a estranheza da nova cultura e não
questionar nem criticar logo coisas que ainda não compreendemos. O antropólogo R.A. Lê-Vine
argumenta que, quando o indivíduo se locomove para um novo lugar onde reinam costumes
estranhos ou novos, ele precisa adaptar-se ou será estigmatizado pela sociedade local.

O que e cultura?
É extremamente difícil definir bem, e de modo objetivo e concreto, o termo cultura. Isto tem a sua
razão no fato de que a cultura domina o nosso viver diário, a maneira como pensamos, sentimos,
falamos, comemos, nos vestimos e como mantemos relações interpessoais. Muitas vezes esquecemos
que somos filhos da e presos à nossa cultura. O teólogo alemão H. Baiz define a cultura,
cientificamente, como herança que o ser humano recebe de seus antepassados e passa para a
próxima geração. O famoso antropólogo norte americano E. B. Taylor define a cultura como herança
não biológica do homem. Ao estudarmos antropologia missionária, estamos nos munindo de meios
que nos auxiliarão a compreender o homem e tudo que o envolve, a fim de podermos entender
melhor a razão de suas atitudes e crenças, e, assim, anunciarmo-lhe o Evangelho com mais eficácia.
O homem, não importando a cultura, deve sentir que o Evangelho vai fazer parte dela, e não lhe
roubar o que tem por precioso: os valores adquiridos, passados de geração em geração.

Cultura nada mais e do que a maneira como vivemos uns com os outros
A cultura é, portanto, a soma de todo conhecimento, experiência e prática que um povo adota e
exercita. A cultura é um conjunto de hábitos, tradições, valores, normas sociais e convicções
religiosas que um indivíduo, grupo ou povo herda de seus pais e passa para os seus filhos como
verdade ou orientação. Partindo desta ampla definição percebemos que a cultura nunca chega ao
fim em si mesma. Ela nunca é absoluta, mas antes se encontra num processo evolutivo. Ela se
desenvolve. Nunca é algo estático. Ela se modifica, define-se, adapta-se muito mais do que
admitimos.

Para justificar estas teses precisamos apenas nos perguntar:


• Será que nos vestimos da mesma forma como nossos pais?
• Será que os nossos automóveis novos são idênticos aos automóveis do início do Século XX?
• Será que os templos das novas igrejas são idênticos aos das igrejas dos nossos avós?
• Será que a juventude de hoje é educada pelos mesmos métodos e com os mesmos princípios que dominava a
educação na década de 50?
• Será que o estilo da música popular nunca muda?
• Quais as transformações recentes na família brasileira?

Conforme E. Méier, ex-missionário da OMF no Sudoeste da Ásia, a cultura consiste de vários


aspectos:
A cultura sempre é única;
A cultura sempre é aprendida;
A cultura sempre é vivida por um grupo de pessoas.

Conceito
Para a maioria das pessoas, cultura significa o "cabedal de conhecimento que alguém possui", ou seja,
pouco ou nenhum estudo. Quando se diz que alguém possui "muita cultura", pensa-se logo que
aquela pessoa tem um alto grau de estudo ou conhecimento. Mas, se for pessoa de pouca instrução,
ou sem nenhuma, de origem humilde, linguajar rudimentar, ela é considerada "sem cultura". Puro
engano. Para um antropólogo não há grupo humano ou etnia sem cultura, pois ela é essencial à vida
em sociedade. Todos nascem dentro de uma sociedade e são enculturados dentro da sua cultura. A
antropologia define cultura como o "conjunto de comportamentos e idéias características de um povo.
transmitidos de uma geração a outra, resultantes da socialização e aculturações acontecidas em todo período
da história desse povo."

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 32


Características
A cultura é diversificada, constituída dos hábitos, mitos, religiões, folclores, costumes, língua,
estruturas sociais e realizações.

A cultura é mutável, sofre a influência de outras culturas, em decorrência de inúmeros e variados


fatores, resultantes da evolução do mundo, de novos conhecimentos da humanidade, das novas
informações, da massificação, da globalização e das influências transculturais, da absorção de
costumes, ideologias, valores e crenças de outras culturas.

A cultura é adquirida, Não é determinada por fatores biológicos ou genéticos, nem é restrita
segundo a raça, porém é transmitida de uma geração a outra. Ou seja, cada geração recebe a cultura
da geração ascendente, modifica-a e transmite-a à geração seguinte.

A cultura é dinâmica, porque cada geração recebe a cultura da geração anterior, modifica-a e
transmite-a à geração posterior.

A cultura é um sistema compartilhado e é preservada concordemente por uma sociedade.

CULTURA E AS PRINCIPAIS NECESSIDADES DO SER HUMANO


A cultura é tão abrangente como a pluralidade da vida do homem no seu pensar, em seus
sentimentos, na sua maneira de agir e viver. Todo ser humano tem necessidades biológicas, sociais,
econômicas e espirituais. A cultura é uma estratégia comum para sobrevivência do homem; é a
estratégia pela qual um grupo social tenta satisfazer as necessidades principais de vida. As
principais necessidades do ser humano são universais. Por esta razão as encontramos em todas as
culturas, apesar de serem vistas e interpretadas de modo diferente em cada uma destas. Toda
cultura pode satisfazer suas principais necessidades apenas parcialmente. Por isto surgem
problemas e desafios que provocam uma modificação cultural. Outro fator que induz a esta
modificação é o contato entre culturas.

Cultura E Sociedade
Os animais (quase todos) vivem em sociedade, mas não possuem cultura. Eles são guiados pelos
instintos e não precisam aprender para sobreviver. Os peixes já nascem nadando, as tartarugas, ao
nascerem, dirige-se para o mar impulsionadas pelo instinto. As abelhas constroem suas colméias e
produzem o mel, mas o seu modo de trabalhar não sofre alteração, não evolui tecnicamente de uma
geração para a outra. Os pássaros não precisam aprender a construir seus ninhos, nem o leão
aprende a rugir ou caçar para sua sobrevivência. Em tudo são regidos pelos instintos. Não possuem
noção de religiosidade, não têm conceito de valores materiais ou morais, não vivem regidos por
estatutos ou leis jurídicas, nem têm noção do que seja uma cosmovisão. Com o ser humano é
diferente. A religiosidade é uma característica inerente ao ser humano. Ele busca sempre a resposta
para o que é real. Preocupa-se com o passado, presente e o futuro. Está constantemente em busca do
saber e do aperfeiçoamento do seu conhecimento. O homem tem de aprender a falar, a andar, a
trabalhar, a construir suas habitações, etc. Estas coisas não acontecem instintivamente, têm de ser
aprendidas com muita paciência e persistência. A este processo de aprendizado, através da
observação, imitação deliberada e assimilação inconsciente do modo de vida dos membros de uma
sociedade, chamamos de enculturacão. Exemplos disso podemos observar na aculturação do índio
brasileiro: Os missionários evangélicos têm sido acusados pelos antropólogos de estarem destruindo
a cultura do índio, com a introdução de hábitos e costumes do homem branco. Assim, o missionário
deve cuidar para não descaracterizar a cultura do índio ou de qualquer povo que vai evangelizar.
Ele deve contextualizar a mensagem do Evangelho dentro de cada cultura, sem corrompê-lo com o
sincretismo religioso dessa cultura. A cosmovisão de uma cultura pode e deve ser modificada pelos
valores universais do Evangelho, sem destruir os seus valores culturais. O Aurélio define o termo
aculturação como "o conjunto de fenômenos provenientes do contato direto e contínuo de grupos de
indivíduos de culturas diferentes, e as mudanças decorrentes desse contato". A adoção dos costumes,
valores e crenças do homem branco o tem tornado um indivíduo biculturado, participante das
culturas indígena e civilizada. Entenda-se por cultura civilizada aquela em que o indivíduo tem
ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 33
várias opções a seu dispor; ele pode escolher aonde, como e com quem vai viver; o que vai vestir ou
comer; se vai morar numa casa de madeira ou de alvenaria; qual profissão vai exercer, etc. De início,
os indígenas e alguns habitantes de regiões primitivas no interior do Brasil estão classificados como
pertencentes à cultura primitiva. Os indivíduos de uma cultura primitiva não têm muito que
escolher: ele nasce, cresce e morre sem mudar o seu estilo de vida, igual ao de todos os demais
membros da mesma sociedade: o mesmo tipo de habitação, vestuários, alimentos, diversões, de
atividades primitivas - como a agricultura, caça e pesca, etc...

O Supracultural Na Cultura
Quando o Criador ordenou a nossos pais no Éden que crescessem, se multiplicassem, povoassem a Terra
e a governassem'(Gn 1.28-30) e, mais tarde, determinou a Noé e seus descendentes que "estabelecessem
a lei, a ordem e a justiça na Terra”' (Gn 9.5-6), Ele estava lançando as bases da cultura; porém, esta,
em si, é produção humana. Todavia, a cultura é o campo onde intervêm as forças divinas e forças
satânicas continuamente. Ela é o objeto da ação do supracultural divino e do supracultural
demoníaco. Trata-se de uma guerra contínua entre as potestades das trevas e os anjos de Deus, na
qual o missionário, como ministro enviado de Deus às culturas que estão dominadas por Satanás,
tem de tomar parte, revestido com a armadura de Deus (Ef 6.10-17), portando as armas da luz e da
justiça, as quais não são carnais, pois somos a milícia de Deus – Rm 13.12:2. A importância da
intervenção do supracultural nas culturas e no governo do mundo não pode ser ignorado pelo
missionário. O Senhor Jesus disse que o diabo é "o príncipe deste mundo" e João declarou que "o
mundo todo jaz no maligno", Jo 12.31; 14.30; 16.11; I Jo 5.19. O apóstolo Paulo também reconhecia
que Satanás é uma realidade espiritual, e não um mito, que influenciava (como influencia) as
culturas pagãs, cegando os homens e os levando a adorá-lo, I Co 10.20; II Co 4.4; 6.16. Inúmeras
vezes referiu-se aos poderes cósmicos demoníacos. I Co 15.24; Ef 1.21; 2.2; 3.10; Cl 1.16; 2.10,15, etc.
Muitos povos vivem no atraso tecnológico e não prosperam por causa da sua cosmovisão
deformada pelo supracultural demoníaco. A cosmovisão monista do hinduísmo, com seus 330
milhões de deuses, e do budismo tem levado seus seguidores ao fatalismo e impedido o progresso
da Índia e de outros países da Ásia. O mesmo acontece com a maioria dos países africanos (e com
alguns de outras regiões, seguidores da cosmovisão tribal, com sua hierarquia de deuses, espíritos e
demônios), os quais estão presos à escravidão do animismo, do sincretismo e da feitiçaria, etc. Por
sua vez, a cosmovisão materialista tem levado o homem a negar a existência de Deus. Satanás,
através de seus agentes humanos e demoníacos, tem governado inúmeros países e regiões deste
Planeta. O comunismo e o nazismo são exemplos hodiernos da ação do supracultural demoníaco
intervindo no governo humano. Cabe a nós, com virtude do Espírito Santo, a responsabilidade de
combater as hostes infernais do grande usurpador e levar aos povos a cosmovisão cristã.

Transculturação
“É o complexo dos padrões de comportamento, das crenças, das instituições e de outros valores
espirituais e materiais transmitidos coletivamente e característicos de uma sociedade". Os
evangelistas interculturais têm de ser eficientes no aprendizado de ambas as coisas, pois são a base
da evangelização dos grupos étnicos ainda não alcançados. É por isso que usamos a expressão
"aprendizado da língua e da cultura". Na realidade, JESUS FOI O PRIMEIRO EVANGELISTA
INTERCULTURAL! Não hesitou em vir do céu deixando a glória e o esplendor que ali desfrutava.
Leia atentamente Fp 2.7-8, e observe que Jesus esvaziou a si mesmo de sua glória divina e assumiu a
atitude de servo em corpo humano. Aculturou-se na sociedade hebraica e comunicou sua mensagem
primeiramente aos judeus. O aprendiz da língua e da cultura pode até mesmo ser um pregador
talentoso e respeitado, mas quando entra em outra cultura, deve humilhar-se a si mesmo como
Jesus o fez. assumindo três novas atitudes: a de APRENDIZ, a de SERVO e a de NARRADOR.
Transculturação é o "processo de transformação cultural caracterizado pela influência de elementos de
outra cultura, com a perda ou alteração dos já existentes". Esta definição do Aurélio novamente nos
deixa bem claro que este papel o missionário JAMAIS deve exercer. Sua tarefa não é alterar ou
mesmo mudar os valores de uma cultura, substituindo-os por outros de sua própria cultura.
Partindo destas premissas, chegamos ao termo MISSÕES TRANSCULTURAIS. O prefixo "trans"
deriva-se do latim e significa "movimento para além de" ou "através de". Portanto, em linhas gerais,
MISSÕES TRANSCULTURAIS é transpor uma cultura para levar a mensagem universal do

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 34


Evangelho, A mensagem do Evangelho não pode se restringir a uma só cultura, mas deve ter
alcance abrangente, em todos os quadrantes da terra, onde quer que haja uma etnia que ainda não a
tenha ouvido.

Diferenças Culturais
O conhecimento das diferenças transculturais entre os povos da Terra é de capital importância para
quem se dispõe a trabalhar no campo missionário. No seu estudo sobre as diversas culturas, os
antropólogos observaram as profundas diferenças existentes entre elas, as quais evidenciam-se na
maneira como os povos agem, falam, comem e vestem-se, bem como nos seus conceitos de valores e
crenças e nas pressuposições fundamentais que fazem sobre o seu mundo. Visto que o evangelista
tem de aprender a passar pela rede intercultural a fim de evangelizar outra cultura, é importante
compreender o que constitui essa rede. Antes de aprender a passar por ela, tem de saber em que as
culturas se diferenciam. Podemos dividir essas diferenças em sete categorias:

Cosmovisão (conceito do universo);

Sistema de valores (o que é bom ou mal dentro dos padrões de um povo);

Normas de conduta (forma de comportamento aceita);

Formas lingüísticas (principal barreira à evangelização intercultural);

Sistema social (estrutura cultural e social de um povo. Classes, castas, religiões, seitas, etc.);

Formas de comunicação (dificuldades encontradas pela existência de vários dialetos numa só


cultura impedindo o estudo de uma só língua);

Processos cognitivos (toda cultura forma um conjunto de conhecimentos aceitos como verdades.
Esses conhecimentos podem ser enfocados ao nível de sua cosmovisão ou poderão simplesmente ser
conhecimentos restritos a pequenos grupos). Todo evangelista intercultural deve conhecer essas sete
categorias de diferenças culturais. Em cada um desses aspectos deve-o procurar aprender,
continuamente, mais e mais acerca do povo que deseja evangelizar. Para muitos africanos, a dança é
o instrumento principal de transmissão de valores, idéias, emoções e história. Consideram-na como
uma de suas mais importantes formas de comunicação. Missionários enviados à África têm
cometido sérios erros de julgamento quanto ao significado da dança africana. Inúmeras situações
transculturais existem fora do alcance do missionário e este precisa de preparo transcultural para a
divulgação do evangelho entre estes povos. Em alguns países os homens se beijam na face, e às
vezes na boca, ao se cumprimentarem, pois este comportamento faz parte da etiqueta social dessas
culturas. No Brasil, isto é visto como manifestação de homossexualismo, a não ser quando se trata
de pais e filhos. Ente os judeus do tempo de Cristo e os crentes da Igreja primitiva este costume
nada tinha de imoral ou homossexual, Lc 22.47,48; I Co 16.20. O missionário deve estar
psicologicamente preparado para qualquer diferença transcultural e não se escandalizar se for
beijado por um homem, se estiver em um país que adote este costume, como na Rússia, na França
ou em países árabes. O missionário deve conhecer e respeitar os costumes do povo da cultura alvo,
senão sua missão poderá falhar. Conforme abordado anteriormente, os gestos do povo podem Ter
significados diferentes em cada cultura. Podem ser considerados obscenos ou ofensivos em um país
e noutro não. E. A. Nida, em seu livro "Costumes e Culturas", conta que certa vez cometeu um grave
erro, em certo lugar da África, ao apontar com o dedo as coisas cujos nomes ele desejava saber. Para
os nativos, tal gesto era considerado grosseiro e contrário aos seus costumes; ofensivo, portanto. O
certo teria sido ele apontar as coisas usando o lábio inferior. Em alguns países asiáticos, sentar-se de
pernas cruzadas, mostrando a sola do sapato, constitui-se um gesto ofensivo. Entre os muçulmanos
do Oriente Próximo, as mulheres vestem-se com trajes longos que cobrem todo o corpo, além do véu
que são obrigadas a usar em público. Em algumas culturas africanas, as mulheres decentes não
cobrem os seios, pois cobri-los, usando alguma vestimenta, é próprio das prostitutas. Sabe-se que
alguns missionários americanos e latinos já incorreram em graves ofensas às mulheres dessas

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 35


culturas, por desconhecerem os costumes da cultura alvo. Estes são importantes detalhes que fazem
a diferença e podem complicar o trabalho do missionário. Falta-nos espaço para outros exemplos,
porém, em suma o missionário não pode se deixar levar pela atitude chamada ETNOCENTRISMO que é
uma tendência a ver a nossa própria cultura como a maneira universal de comportamento. Isto
acontece porque somos tão inconscientes de como nossas vidas são guiadas pela cultura e idioma, e
de repente, descobrimos que é mais difícil do que pensávamos aceitar uma outra cultura. Embora
reconhecendo o que possa ser considerado comportamento apropriado em outra cultura, apegamo-
nos ao que consideramos "normal" e "natural". Achamos que a nossa maneira de fazer as coisas é
"superior" ou "correta". Os antropólogos definem a cultura como herança total do homem não
transmitida biologicamente. É um sistema de normas de conduta aprendidas, comuns aos membros de uma
sociedade em particular, ou o modo de vida de determinado grupo étnico. Vimos que o conhecimento
cultural nos é transmitido desde a infância até o momento em que morremos. A cultura não é
estática, mas está em constante processo de mudanças que acontecem lentamente. Porém há
ocasiões em que a cultura muda quando um missionário leva o Evangelho e o povo assimila
conhecimentos novos mudando, muitas vezes, sua maneira de vida. Com o tempo, um número cada
vez maior de pessoas adotam essa nova conduta cristã, tornando-a normal entre o povo. Mas, não
podemos nos esquecer que o trabalho do missionário não é "levar estereótipos de uma cultura para a
outra", mas é, no dizer Larry Patê a "proclamação do Amor de Deus, que ultrapassa as fronteiras culturais,
raciais e linguisticas. Ele deseja que todos pigmeus da África ou os homens de negócios da Ásia - tenham a
oportunidade adequada de seguir a Cristo". Observe que foram citados como exemplo dois grupos de
pessoas culturalmente opostos: Singh, o conhecido evangelista hindu, certa vez afirmou: "Se você
está indo levar a água da vida para o hindu, leve-a para ele em copo hindu". Ou seja, no nosso
mundo natural a composição da água é a mesma, H2O, mas o vasilhame utilizado pode ser
diferente. Os missionários transculturais devem estudar com muito cuidado a estrutura social dos
grupos étnicos aos quais Deus os chamou. Como hóspedes entre esses povos, devem aprender a
fazer a obra até onde seja possível através destas estruturas. Usando esse conhecimento
(transcultural) ao planejar a estratégia de trabalho, alguns missionários tem tido bastante êxito entre
esses povos. Não é o Evangelho que se curva à cultura, mas esta se curva ao Evangelho, Isto é fazer
missões transculturais. É preciso descobrir o "auproach" de cada cultura, ou seja, os seus pontos de
aproximação para comunicar de maneira adequada as verdades do Evangelho, como fez Paulo entre
os atenienses. Este é, na Bíblia Sagrada, um caso típico de missões transculturais. O Espírito Santo é
criativo, isto é, usa métodos diferentes para diferentes culturas. Os métodos desempenham um
importante papel na realização nas metas do Espírito Santo para a evangelização de grupos étnicos
não alcançados.

Como Aprendemos A Conhecer E Respeitar A Nova Cultura?


Em primeiro lugar, precisamos analisar, cuidadosamente, a nova cultura.
• Precisamos compreender as tradições da nova cultura.
• É importante entendermos a maneira como as pessoas pensam na nova cultura.
• Não devemos rejeitar práticas culturais que não compreendemos.
• É bom perguntar, para os missionários experientes, como eles lidam com certas questões culturais.
• Amizade com obreiros nacionais ajuda a compreendermos melhor as convicções culturais;
• Aprender bem a nova língua é o portal para a entrada na nova cultura. Isto ajuda na comunicação
eficiente do evangelho de Jesus Cristo.
• Diaconia aplicada (ajuda aos pobres, assistência espiritual e pastoral aos queridos que perderam
um parente, aos sofridos e perseguidos) abre as portas do coração de todas as pessoas.
• Visitas às casas dão uma boa impressão dos costumes da nova cultura.
• Presentes mútuos ajudam a criar amizades.
• Expressar respeito pelas tradições e costumes da nova cultura.
Precisamos ter humildade para respeitar coisas que pessoalmente praticaríamos de modo diferente.
A igreja nacional ou indígena tenta viver a fé cristã no seu contexto cultural. Aspectos culturais que
têm sua origem no mal ou serão abandonadas pela igreja ou serão reinterpretados por que o Espírito
de Deus habita nesta nova comunidade. Por outro lado, quando a igreja não amadurece, sob a
orientação da Palavra de Deus e do Santo Espírito, ela estará aberta a todos os tipos de sincretismo.
As igrejas devem se empenhar em enriquecer e transformar a cultura local para a glória de Deus.

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 36


A VISÃO TEOLÓGICA TRANSCULTURAL DA BÍBLIA
Quando se fala em Missões Transculturais, a Bíblia é o padrão a partir do próprio Deus. Vejamos:
O Antigo Testamento nos traz uma revelação de um DEUS não nacionalista, mas um DEUS
missionário. Em pelo menos três ocasiões específicas, no livro de Génesis, Deus tratou com toda a
humanidade e não somente com uma nação:
• Em Gn. 3.15-queda do homem.
• EmGn. 6.13 -o dilúvio
• Em Gn. 12.3 - Eleição de um povo para abençoar a todos os demais, após a Torre de Babel.

Sabemos que de Abraão para Cristo houve aproximadamente 2.000 anos, e este foi o prazo que
Israel teve para cumprir sua tarefa missionária. As principais causas que levaram Israel a perder a
visão missionária foram:

• Eles ficaram mais preocupados em serem abençoados, pensando em si mesmos, do que em


serem abençoadores;

• Eles confundiram eleição com elitismo, isto é, pensaram que Deus estava somente preocupado
com eles;

• Etnocentrismo. Isto é, o povo de Israel pensou que a sua cultura ou o seu povo era melhor que os
demais, causando-lhes uma profunda cegueira racial e espiritual. No entanto, Deus não requereu
que algumas famílias da terra foram abençoadas, mas que TODAS as famílias ou povos fossem
alcançados. Embora Israel tenha falhado, Deus não desistiu de seu propósito, e continuou sua meta
de alcançar o homem até o Novo Testamento.

Jesus, O Modelo Para Missões Interculturais


A encarnação de Jesus Cristo constitui o maior exemplo de missão intercultural: "A palavra se
tornou carne e habitou entre nós" (Jo 1.14). Deus deixou a glória celestial eterna e se tornou humano
entre nós. O Deus eterno se tornou carne, homem desamparado e pobre. Jesus era singular em todos
os aspectos. Ele era uma pessoa duas vezes 100%. Ele era totalmente Deus e totalmente humano.
Este mistério das duas naturezas na pessoa de Jesus Cristo se torna um exemplo para missões
interculturais.

O que é BÍBLICO reporta-se àqueles costumes que, mesmo diferindo de uma etnia para outra,
como foi mencionado reiteradas vezes no decorrer da lição, expressam com a mesma grandeza e se
nenhuma distorção os princípios da Palavra de Deus, que são imutáveis e têm caráter universal.

O que é EXTRABIBLICO relaciona-se com aquelas áreas nas quais a Bíblia não interfere
especificamente, a favor ou contra, dependendo da consciência de cada um para julgar o que é lícito
e o que não é lícito. A Palavra de Deus não determina as cores das roupas que devemos usar e nem
o melhor tipo de calçados para os nossos pés. São, portanto, questões extrabíblicas. Aqui prevalecem
o bom senso e a orientação do apóstolo Paulo: (veja I Coríntios 10.23).

O que é ANTIBIBLICO refere-se àquelas situações que colidem frontalmente com a fé cristã,
exigindo do missionário um posicionamento decidido, mas ao mesmo tempo prudente, no sentido
de encontrar a estratégia correta para mudar esse tipo de circunstâncias; É preciso graça de Deus,
discernimento espiritual e aguardar o tempo certo, pois nem tudo se muda da noite para o dia.
Exemplo disso é a poligamia em países africanos, tradição que passa de geração para geração e que
demanda da parte do missionário não entrar em choque para que as portas não se fechem, mas em
Ter atitude decidida para influenciar a mudança de comportamento, sempre à luz dos princípios
bíblicos e doutrinários.

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 37


Contextualização
Contextualização é a adaptação da mensagem do Evangelho comunicada pelo missionário à cultura
receptora, dentro do contexto da cosmovisão dessa cultura. Veja a pregação de Paulo aos
areopagitas (At 17.22-31). A Contextualização das verdades universais do Evangelho numa cultura
inclui a definição, seleção, adaptação e aplicação dessas verdades universais, pois tem estreita
ligação com as necessidades das pessoas na sociedade (veja Atos 2.41-47), bem como na sua relação
com Deus. A Contextualização abrange todas as áreas das estruturas sociais (particularmente o
socorro aos necessitados e a justiça social), jurídicas, econômicas, políticas e ideológicas da
sociedade.

Como O Ser Humano Pensa E Se Sente Em Culturas Diferentes?


Pessoas de outras culturas agem e vivem de modo diferente de nós. Às vezes até pensam diferente.
Isto implica uma lógica diferente ou estranha. O que parece normal e lógico numa certa cultura se
torna, numa outra cultura, estranha e ilógica. De repente percebemos que existem também outras
atitudes, tradições e convicções, outros valores, sentimentos e hábitos. Esta problemática,
geralmente, não é uma questão de certo ou errado, melhor ou pior; simplesmente é diferente, um
problema que traz vantagens e desvantagens para a pregação do evangelho. No Japão existem
muitas regras para a vida em sociedade. Quem cruza as pernas ofende a pessoa que está próxima.
Decente é pedir uma segunda xícara fervente de chá. Cuidado com presentes - papel preto e branco
leva o mal. Eles devem ser entregue ao final de uma visita e jamais poderão ser desembrulhados
diante do doador. Na China os presentes devem ser embrulhados em papel vermelho. Agir com
nervosismo, falar alto ou outras reações emocionais constituem um escândalo, mas um sorriso
chinês é bem visto em qualquer circunstância. Cuidado com qualquer contato físico com pessoas no
Japão, na Tailândia e em Sri-Lanka. Ninguém jamais poderá tocar os cabelos de uma criança
tailandesa porque a cabeça constitui a parte mais santa do corpo humano. Pior ainda é apontar o
dedo para alguém ou tocar os seus pés. Os filipinos têm sérios problemas em aceitar crítica sobre
seu país. Pessoas convidadas devem chegar no local com, pelo menos, 15 minutos de atraso. Se elas
chegam antes são consideradas glutonas. Na China, por outro lado, a pontualidade os vestidos finos
e a decência são de suma importância. Gorjetas são desprezadas. Quando você chega a um novo
país é recomendado que comece logo observar e anotar os costumes, hábitos, tradições,
pensamentos predominantes e maneira de pensar, sentir e comunicar. Desta forma você terá, aos
poucos, um retraio fiel das pessoas que vivem nesta cultura. Você será sensibilizado e preparado
para, depois, aprender a língua e, finalmente, comunicar o evangelho de Jesus Cristo. O importante
é não criticar as coisas que você ainda não compreende. Você sempre pode pesquisar, ler, observar,
analisar e perguntar. Deve-se entender também que atrás de cada costume há uma razão e um
porquê. Se não entendemos a razão, observando apenas como alguém fora da cultura, fazemos
julgamentos errôneos, considerando um costume ou outro como "absurdo"- e assim por diante.
Recusamo-nos a nos adaptar e, pior ainda, tentamos mudar as pessoas daquela cultura, ensinar-lhes
e impor-lhes os costumes da nossa própria cultura, que consideramos a única certa. Isto é, na
linguagem antropológica, etnocentrismo - quando a cultura própria é o padrão para julgar-se
qualquer outra cultura. Vejamos alguns exemplos de comportamentos inerentes à cultura:
Nas culturas orientais, é proibido entregar ou receber algo com a mão esquerda. Deve-se usar
sempre a mão direita ao se relacionar com alguém ou para comer. A razão é que a mão esquerda
tem função de papel higiênico nesses países; portanto é imunda, e como tal não pode ser estendida a
outras pessoas. Outro exemplo: não se pode acariciar pessoas na cabeça, nem mesmo crianças. De
fato, uns quinze anos atrás, nos cartões de desembarque para estrangeiros preencherem, para entrar
na Indonésia foram incluídos dois avisos: "Portar droga é passível de pena de morte", e: "Não deve-
se acariciar nem mesmo crianças na cabeça". O próprio povo não sabe o porquê; só sabe que é
muito má educação e insulto ser tocado na cabeça. Estudando-se sua cultura, provavelmente a razão
disso foi porque aquele país já fora um país hindu, uns quinze séculos atrás. Pelo conceito hindu, a
alma da pessoa encontra-se na cabeça. Portanto, tocar alguém na cabeça insultaria ou faria mal à
alma. Com o passar do tempo, o povo não sabia mais a razão disso, embora o costume tenha se
tornado um tabu, uma tradição.

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 38


Nem Tudo, Porém É Explícito: Nem Tudo O Povo Sabe Explicar
O significado e a razão podem estar imersos, implícitos no conhecimento do povo. O missionário
deve estudar e pesquisar para descobrir as razões e significados de cada costume e comportamento.
Ao entendê-los, essas coisas não parecem mais absurdas. Indo além, saberá como adaptar-se ao
costume quando este é neutro, apenas uma cultura humana de socialização. Ou saberá julgar sob a
luz da Palavra de deus se trata-se de costume pecaminoso, devido à pecaminosa tendência da
Queda do homem, ou então de algum costume diabólico - devido à influência do inimigo, o
"príncipe deste mundo". A este último que chamamos fator supracultural, isto é, que não tem
origem humana. Então, o missionário deve discipular os convertidos daquele povo para que sejam
transformados, mudados nos aspectos culturais contrários aos princípios bíblicos para costumes de
acordo com a cultura do Reino de Deus. No entanto, deve-se tomar muito cuidado em não misturar-
se aí a cultura do próprio missionário, ao considerar os costumes de sua cultura como se fosse
costumes bíblicos. Deve-se ainda conseguir distinguir os fatores supra-culturais que tenham
origem em Deus, os quais são positivos para a cultura do povo. O homem foi criado à imagem e
semelhança de Deus; portanto, há aspectos bons em cada cultura. Nenhuma cultura é totalmente
perfeita - devido à mancha da Queda e à influência de Satanás - nem é totalmente errada - visto que
ainda há atributos da imagem de Deus no homem e também na cultura como um produto humano.
Observando as diretrizes da Antropologia Missionária, podemos estudar todos esses aspectos. Há
ainda o fator determinante da função de cada costume numa cultura. Além do comportamento
visível, há o significado por trás dele. Como uma somatória do comportamento e do significado está a
função do costume na sociedade. Um missionário que não esteja consciente da função de um
costume pode aboli-lo ao discipular os novos convertidos e provocar nesse momento um vácuo
cultural. Um caso desse tipo foi a abolição de um costume funerário em meio aos chineses, segundo
o qual passam-se dezenas de dias em "velório" antes do funeral, realizando cerimônias idólatras.
Como povo budista, eles não devem demonstrar muita emoção, nem mesmo tristeza no sofrimento
de perda de alguém amado. O velório de longos dias dá oportunidade para extravasarem a emoção.
Ao cabo de tantos dias recebendo condolências de todos os parentes e amigos, atendendo-os com
comida e bebida, a família em luto fica cansada e aliviada quando tudo passa, e já teve tempo
oportuno para adaptar-se à nova etapa da vida sem a presença da pessoa morta. Ao abolir o
costume, diminuindo para os cristãos o tempo de luto para apenas três dias, forma-se o vácuo: não
há tempo para adaptar-se nem para extravasar a tristeza. Vale a pena reiterar, para efeito didático,
que coreanos e japoneses, entre outros povos orientais, como citado anteriormente, têm também o
costume de tirar os sapatos como sinal de respeito antes de entrarem em qualquer casa. Em outros
países, como o Marrocos e Madagascar, é comum os homens andarem de mãos dadas, não
significando em hipótese alguma qualquer desvio de conduta moral. É apenas uma forma de
companheirismo. Missionários brasileiros que trabalharam em Madagascar tiveram que adaptar-se
às circunstâncias, como mostra o testemunho de um deles: “Quando viajávamos pela Ásia observamos
que um costume entre os homens era cumprimentarem-se dando três beijos na face, meu desejo era o de afastá-
los quando se aproximávamos. Se o fizesse, eu obviamente lhe comunicaria rejeição. Outras vezes, quando
caminhávamos com amigos, metia as mãos nos bolsos com medo de que alguém me tomasse pela mão enquanto
caminhávamos. Para os homens daqueles lugares, andar de mãos dadas é uma expressão de amizade totalmente
normal - o que para mim, um latino, significa algo muito diferente. Novamente, sem dizer uma palavra, eu
estava comunicando coisas que dificultavam a comunicação do Evangelho”. Muitas vezes nosso
egocentrismo cria barreiras para a comunicação transcultural. Usando as palavras de um missionário
no Suriname, isto significa que o missionário "precisa aprender os costumes do povo, comer sua
comida e vestir suas roupas. Caso contrário, o obreiro é tratado com desprezo". Outra questão séria
é a das vestimentas. O quadro muda de região para região, cabendo, portanto, ao missionário uma
atitude de equilíbrio, de modo que ele não transplante situações próprias do Brasil para a realidade
na qual vai viver, nem trabalhar, ao retornar, costumes incompatíveis com o nosso "modus
vivendi". Leia o texto de Deuteronômio 22.5. As roupas dos tempos bíblicos eram bem diferentes
das que se usam hoje, principalmente no mundo ocidental, mas sem dúvida havia um padrão para o
homem e outro padrão para a mulher. O princípio bíblico da distinção entre o sexo masculino e o
sexo feminino, embutido no texto acima, permanece inalterado em qualquer cultura, ainda que a
forma da vestimenta seja diferente, pois em cada circunstância há um padrão que distingue um sexo
do outro. A área dos costumes inclui, também, hábitos alimentares, à mesa e na convivência familiar
que diferem dos nossos padrões brasileiros. Aliás, esta questão sobre comida, para os povos
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orientais, é de profunda importância. Sendo os judeus um povo do Oriente Médio, a Bíblia
menciona diversas vezes as refeições. A própria entrada no céu é simbolizada como o Grande
Banquete (Lucas 14.15-24). Certa vez, uma igreja entendeu mal a viagem que um casal de membros
seus fez ao Oriente quando os viram participando de muitas refeições em suas fotografias e slides.
Acharam que haviam empenhado dinheiro para o casal ficar só comendo durante a viagem. Faltou-
lhes entendimento de que, ao oferecer ou convidar para refeições, os povos orientais estão dando
boas-vindas e oferecendo sua amizade. Se não houvesse refeições, significaria que o casal fora
rejeitado pelos povos pelos quais passaram. Ademais, no Oriente, recusar uma comida ou um
convite para refeição é como recusar a amizade estendida. Isto fecharia as portas para uma
exposição da Palavra do Evangelho. Numa pesquisa entre uma turma de novos missionários
transculturais indianos, deveriam listar-se as dez coisas mais ofensivas que as pessoas fora de sua
cultura poderiam fazer. Em resposta, mais da metade listou em primeiro lugar que seria se elas
desprezassem sua comida. Nós, às vezes, achamos que podemos e devemos ser francos, ou até
temos o direito de recusar certa comida, principalmente quando essa comida é muito diferente
daquela que costumamos comer - como, por exemplo; ovos chocos, cérebros de macaco, ratos,
cobras ou caramujos! Nossa tendência é de rejeitar o que desconhecemos, querendo o conforto
daquilo que conhecemos e gostamos. Como ocorreu com aquele obreiro que no seu décimo dia na
Europa ligou para sua mãe, dizendo que não agüentava mais comer só pão e batata: queria feijão!

O Preparo Cultural:Como Lidar Com Aculturação, Choque Cultural E Stress Cultural?


Diplomatas, representantes e empregados de embaixadas, comerciantes internacionais,
representantes das grandes empresas globais e missionários em geral conhecem a problemática da
aculturação, do choque e stress cultural quando viajam pelo mundo. Como evitar o famoso choque
cultural? Como podemos nos preparar bem, antes de viajarmos para um país estranho e novo, cuja
cultura e língua não conhecemos? Será que existem possibilidades de se evitar o choque cultural?
Será que todos os indivíduos passam pelo choque cultural? Como lidar com o stress cultural?

Aculturação
Quem visita o campo missionário chega como servo, aprendiz, forasteiro e não como imperador,
colonizador ou representante de uma cultura superior. Mesmo depois de ter vivido por muitos anos
no campo missionário, o europeu permanece europeu e o americano não deixa de ser americano.
Isto nada tem a ver com a falta de aculturação ou interesse pelo país onde se vai servir. Missionários
não conseguem esconder sua herança cultural, seu país de origem, suas raízes, seu modo de pensar
e viver ou educar seus filhos. Ninguém exigiria isto. O que se espera do novo missionário é que ele
se adapte, que ele conviva, aprenda e se comunique com os cidadãos nacionais como se fosse um
deles. Este processo de adaptação cultural se chama, na antropologia, assimilação ou aculturação.
Diante da realidade da aculturação existem duas possibilidades: ou o novo missionário nega que
vive numa cultura diferente e esperimenta um choque cultural dramático que, na pior das hipóteses,
pode custar sua própria vida, ou ele aceita o fato da estranheza, do novo, do ser diferente, acaba
aprendendo e assimilando, sem rejeitar a sua identidade de origem.

Choque Cultural
O choque cultural pode ser descrito como falta de orientação e estabilidade psíquicas diante da
realidade do novo e de sentir-se diferente diante da estranheza da nova cultura. Este choque leva o
indivíduo a sentir-se uma pessoa rejeitada, sem orientação, influência, poder e competência para
agir conforme as suas convicções ou necessidades básicas. De certa forma, todo indivíduo passa por
uma ou outra forma de choque cultural num país estranho. O que varia é a intensidade deste
fenômeno. Poucos missionários negam que passaram por um choque cultural. Na média, alguns
dizem que passaram por momentos curtos de crise e falta de orientação. Em alguns casos as pessoas
adoeceram tão gravemente que se tornaram candidatas ao suicídio. Outras precisaram voltar para
casa.

De acordo com alguns especialistas, o "choque cultural" pode ser dividido em quatro etapas:

• A Primeira etapa é a da "lua de mel". Nesse momento tudo é bonito; qualquer detalhe é

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maravilhoso.

• A Segunda é a etapa "crítica", quando pensamos que tudo está mal. A comida é ruim, as pessoas
são desonestas e nada funciona bem. Sentimo-nos tentados a voltar para casa.

• A Terceira fase é a etapa inicial de "recuperação". Começa quando aceitamos os costumes que, a
princípio, considerávamos estranhos. Recobramos o senso de humor e aprendemos lentamente a rir
de nossos próprios erros.

• A Quarta etapa é a da "adaptação completa", quando nos sentimos "em casa" na nova cultura. A
partir daí nosso ministério começa a dar fruto. Pelo desconhecimento da língua, das instituições dos
costumes, dos valores, das crenças e da cosmovisão do povo da cultura alvo, o choque cultural tem
sido a causa principal do desânimo de muitos missionários no campo. Esta reação é normal, visto
que todos os seus conceitos e comportamentos, além da diferença natural da língua, entram em
choque com a cultura do povo local.

Síndrome do Choque Cultural


Segundo a Missionária Margaretha N. Adiwardana - em seu texto "Não Tenho Privacidade na
Minha Própria Casa!" - (Preparando Missionários para o Século XXI - pág. 52), os conceitos, valores e
regras da sociedade são fatores que regem a vida social e cultural de um grupo. Ao Ter que viver
numa cultura onde esses fatores sejam tão diferentes de sua cultura de origem, a pessoa fica
desorientada, sem saber como agir. Ao longo do tempo, essa desorientação provoca certa frustração:
Não há como entender o funcionamento das coisas na vida cotidiana. O receio de agir erradamente
não evita as experiências de ser mal interpretado. A pessoa, então, entra num stress que varia de
grau de profundidade, aparecendo no dia-a-dia em forma de problemas emocionais e físicos,
incapacidade de se portar normalmente ou até mesmo pelo surgimento de doenças. Na perspectiva
do povo, o missionário é um estranho, um estrangeiro. Somente há abertura ao Evangelho se a
pessoa do missionário for bem recebida. As pessoas devem compreender suas ações, além das
palavras. Elas usarão para análise o raciocínio lógico, valores de correio e errado e conceitos sociais e
culturais. Entretanto, se este missionário não entende como o povo pensa ou age, comportando-se
como no próprio país, de acordo com outro padrão cultural, será mal entendido, mal interpretado e
considerado não bem educado. Alguém assim jamais será bem recebido na sociedade, e as
conseqüências serão de parte a parte: A mensagem não será ouvida, não havendo conversões; o
missionário, por sua vez, se sentirá rejeitado e fracassado, podendo isto refletir-se num stress. Como
então entender o povo que se quer ganhar para Cristo? Como o missionário pode adaptar-se à
sociedade onde ministra? A razão da adaptação não é só a de "sentir-se em casa" no Campo, mas
principalmente poder servir de forma eficaz, evangelizando e discipulando.

Quando está passando por um choque cultural, uma pessoa pode apresentar os seguintes sinais:
• Não consegue mais dormir apropriadamente.
• Desenvolve complexos de inferioridade.
• Sofre de fadiga física ou emocional.
• Mostra uma extrema saudade e forte desejo de retornar para casa.
• Vive constantemente frustrado.
• Fica completamente desanimado.
• Sofre de uma repentina e estranha mudança na sua personalidade.
• Torna-se incapaz de administrar sua vida diária.
• Torna-se nervosa.
• Torna-se hiperativa e apressada.
• Desenvolve algum hábito estranho.

É importante diferenciar entre um choque cultural dramático e um temporário. A maioria dos novos
missionários passa, de uma forma ou de outra, por um choque cultural temporário. É praticamente
impossível dar um prognóstico de quando e como uma pessoa está passando por um choque
cultural. Algumas pessoas negam veementemente que estejam passando por um choque embora

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 41


todos os colegas percebam, há dias, que elas estão passando por momentos difíceis.

O que pode ajudar alguém a vencer o choque cultural? Uma vida disciplinada, humildade,
flexibilidade, prontidão para ouvir e aprender ou aceitar aconselhamento pastoral. Quando o
missionário novato não consegue vencer o choque cultural da forma adequada, é melhor que ele
retorne ao seu país de origem.

Stress Cultural
O stress cultural pode ser descrito como um conjunto de elementos físicos e psíquicos adicionais
que o missionário sofre por viver numa nova cultura e num novo ambiente: calor, umidade, alergia,
língua, distância geográfica, estilo de vida, comida.
O stress cultural não é um fenômeno temporário. O missionário tem que aprender a se adaptar às
novas situações, embora isto se torne um desafio constante. Pessoas que aprenderam a conviver com
o stress cultural são pessoas bi-culturais.

Conclusão
Para concluir, fiquemos com o exemplo de Jesus que não obstante inserir-se na cultura judaica,
"jamais se mostrou prisioneiro dela, quando revelava exageros". Veja o que escreveu o autor, em
obra recente: "Sempre que fosse preciso tomar uma atitude que contrariasse costumes estranhos já
arraigados na consciência do povo, Jesus não hesitava em fazê-lo. Foi assim em relação ao divórcio.
Enquanto a lei de Moisés o previa em circunstâncias bem mais amplas (Deuteronômio 22.1-4), o que
tornou comum entre os judeus, Jesus o restringiu apenas a casos de adultério (Mateus 5.31-32;
Mateus 19.1-9). No contexto deste último capítulo, o Senhor indiretamente condenou as instituições
sociais da poligamia e do concubinato, tão em voga no Antigo Testamento e cujos resquícios ainda
perduravam. "O exemplo da mulher adúltera que, pela lei, deveria ser apedrejada se constituí em
outra lição sobre o modo como Jesus encarava os padrões éticos da cultura religiosa judaica. Ele se
apegava a valores absolutos e não relativos. Sob este prisma, o Mestre não poderia, pela lógica,
assentar-se junto ao poço de Jacó e dialogar com a mulher samaritana... Ele, todavia, permaneceu
fiel ao princípio universal do amor, que une todas as raças e alcança o pecador de índole mais
pervertida". Isto é missões transculturais. O homem, em qualquer cultura ou parte da terra, sempre
será um pecador necessitado da misericórdia divina. Não importa o conceito que tenha do mundo,
não importa as suas crenças, práticas e costumes. O importante é que precisa ser avisado
urgentemente que, mesmo na cultura dele, corre sério risco de perder a salvação caso rejeite a
mensagem de Cristo. Nós, servos do Senhor, temos a obrigação de avisá-lo de maneira inteligível,
na concepção que tem do mundo e na língua que lhe é comum, sentindo que o Cristianismo irá
melhorar sua cultura, e não anulá-la ou substituí-la.

OS CUIDADOS NA OBRA MISSIONÁRIA


Não ter pressa - Deus tem o tempo certo
Não tenha pressa. Simplesmente coloque sua vida e a igreja nas mãos de Deus; no tempo certo, ele
levantará pessoas, dirigirá seu treinamento e as enviará ao campo missionário.

Não mandar novatos para o seminário ou para o campo


Em I Timóteo 3, o apóstolo Paulo apresenta as qualidades que se aplicam também ao missionário e
no versículo 6 fala o seguinte: "... não seja neófito, para não suceder que se ensoberbeça e incorra na
condenação do diabo".

Enviar somente pessoas bem preparadas.


Já vimos no estudo sobre a igreja em Antioquia, em Atos 13, que o Espírito Santo separou as pessoas
mais capazes e preparadas para o campo missionário.
Quando enviamos pessoas mal preparadas, em lugar de adiantarmos a obra, estamos atrasando-a,
porque a pessoa mal preparada não produz, perde seu tempo e gasta o dinheiro destinado a
missões. Envie somente pessoas que tenham as seguintes qualidades:
a) Cheias do Espírito Santo;
b) reconhecidas pela igreja como dotadas para missões;
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c) possuidoras de experiência bem sucedida no trabalho nacional;
d) bem preparadas espiritual, intelectual, psicológica e transculturalmente.

Enviar somente pessoas com ministério aprovado


Não podemos mandar para o campo missionário alguém que não tenha o reconhecimento e o
testemunho da igreja quanto ao seu ministério. O pastor e a igreja sabem quem é chamado para
missões, pois quem não produz fruto aqui, não vai produzir no campo também. Por isso, antes de
enviar alguém para missões, verifique se a pessoa tem o reconhecimento da igreja, se é realmente
fiel, comprometida com o senhorio de Cristo e se está produzindo fruto.

Dar o melhor para missões


Nunca se esqueça: missões são a tarefa básica e mais importante da igreja. Assim, devemos dar para
a obra missionária o que temos de melhor: a melhor hora do culto; a maior porcentagem financeira;
a melhor época do ano para a conferência missionária; os melhores candidatos, etc. Tenha
consciência de que você também vai cometer erros, mas saiba usá-los positivamente para fazer as
devidas correções e não repeti-los mais.

ESUTES – Escola de Teologia do Espírito Santo 43


BIBLIOGRAFIA

• ADIWARDANA, Margaretha N. – Não Tenho Privacidade em Minha Própria Casa.


“Preparando Missionários para o Século XXI”. Editora Kairós, 1997, São Paulo.
• HARLEY, David – Missões: Preparando Aquele que Vai. Ed. Mundo Cristão.
• NIDA, E.A. – Costumes e Culturas. Ed. Vida Nova, 1992, São Paulo.
• PATÊ, Larry D. – Missiologia, A Missão Transcultural da Igreja, Ed. Vida.
• REIFLER. Hans Ulrich – Antropologia Missionária ara o Século XXI. Ed. Descoberta,
Londrina – 2003.
• SILVA, Miguel A. e et alli. – Preparando Missionários para o Século XXI. Kairós, Vol.
I,II,III e IV. Ed. Mundo Cristão.
• GRIGG, Vig - O Grito dos Pobres na Cidade – Belo Horizonte, Missão Editora, 1994.
• SMITH , Oswald - Paixão pelas Almas – 27ª Edição, São Paulo, Editora Vida, 1996.
• SMITH , Oswald - O Clamor do Mundo – 14 ª Edição, São Paulo, Editora Vida, 1994.
• LINTHICUM, Robert C. - Cidade de Deus Cidade de Satanás – 2ª Edição, Belo Horizonte,
Missão Editora, 1991.
Todos os manuais de estudo (apostilas) da ESUTES encontram-se devidamente registrados na
Biblioteca Nacional – Escritório de Direitos Autorais, e estão protegidos pela Lei nº. 9.610, lei que
regula os direitos Autorais no Brasil. Sendo assim, é proibida sua reprodução por qualquer meio, sem
a autorização por escrito da ESUTES. Todas as citações bíblicas feitas nos manuais de estudo foram
extraídas da Bíblia Versão Almeida Corrigida e Fiel(ACF), publicada pela Sociedade Bíblica
Trinitariana,considerada a tradução em português mais fiel aos Manuscritos hebraicos e gregos.

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