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A CHAVE DO TAMANHO: DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO

E PERSPECTIVAS DO MERCOSUL

Luiz Augusto Estrella Faria

TESES FEE Nº 5

Porto Alegre, de 2003.


2

F224 Faria, Luiz Augusto Estrella, 1956-

A chave do tamanho: desenvolvimento econômico e perspectivas do Mercosul /


Luiz Augusto Estrella Faria. – Porto Alegre: Fundação de Economia e Estatística
Siegfried Emanuel Heuser, 2003. – (Teses FEE, n. 5).
p. : il., tab.
ISBN

ISSN 1676-4994

Tese (Doutorado) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Instituto de


Economia, 2001.

1. Integração econômica internacional. 2. Mercosul. 3. América Latina –


Integração econômica. I. Título. II. Fundação de Economia e Estatística Siegfried
Emanuel Heuser. III. Série.

CDU 339.922(7/8=4/=6)

CIP

Ivete Lopes Figueiró

CRB10/509
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4

Para Paula, Cláudia e Beatriz

À memória de Milton Santos.


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AGRADECIMENTOS

Além do formalismo ou da delicadeza, que, por si só, já o justificariam, devo


sinceramente reconhecer o coleguismo e a amizade de um conjunto de pessoas que, de
diferentes maneiras, me ajudaram a concluir este trabalho. Em primeiro lugar, José
Ricardo Tauile, orientador no doutorado que está na origem desta publicação, parceiro e
amigo, quem apoiou muitas das minhas ousadias, ao mesmo tempo em que sempre me
fez estar atento à necessidade de todo o vôo, em algum momento, retornar à terra firme.
Joachim Becker e Andreas Novy foram, de certa forma, os responsáveis pela escolha do
tema, quando, ao tomarem a iniciativa para uma colaboração entre a FEE e a
Wirschaftsuniversität de Viena, me convidaram a abordar o processo de integração sob
o prisma da teoria da regulação e a pensar a relação entre espaço e economia. Apesar de
minhas dificuldades, por não dominar a língua alemã, muito devo a seus comentários
sobre as coisas que escrevi e muito aprendi lendo seus trabalhos e participando de
longas conversas juntos, pessoalmente, sempre que algum de nós conseguia atravessar o
Atlântico, ou por correspondência.

Meu pai, Werter, pioneiro no campo jurídico do estudo da integração em Porto


Alegre, muito me ensinou, em longas conversas que roubaram tempo de momentos
afetivos em família para ocupar-nos de assuntos de trabalho. Da mesma forma, minha
mãe, Guiomar, com sua maneira muito técnica de tratar as questões e, especialmente,
meu irmão, José Ângelo, quem escreveu um trabalho para mim decisivo na
compreensão da dimensão institucional do Mercosul, ambos dedicados ao tema da
integração, e também juristas, souberam agradavelmente estender a conversa após um
jantar ou num final de tarde e diminuir um pouco minhas incertezas.

Em Porto Alegre, meus amigos Octavio Conceição, Adalberto Maia e Carlos


Winckler sempre estiveram prontos a dar sua opinião sobre meu trabalho e foram
grandes incentivadores de minha ida ao Rio de Janeiro, onde amadureci as reflexões que
levaram à redação deste livro. É preciso lembrar também o Rubens Soares de Lima e o
Álvaro Garcia, então responsáveis pela direção da FEE, que viabilizaram a licença para
minha estadia no Rio. No Instituto de Economia da UFRJ, onde recebi a acolhida de
uma hospitalidade que sempre achamos ser exclusiva dos gaúchos, quero mencionar
especialmente João Saboia, José Luís Fiori, Eli Diniz, Antônio Castro, Fabio Erber,
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Ernani Torres Filho, Franklin Serrano e Carlos Medeiros, com quem muito aprendi,
esclareci dúvidas, completei lacunas de meu conhecimento e tive acesso a fontes
bibliográficas.

À FEE e ao Departamento de Ciências Econômicas da UFRGS, minhas duas


casas, devo a compreensão e o apoio indispensáveis a este trabalho e o patrocínio de
minha estadia no Rio, inclusive através da indicação para uma bolsa da CAPES. Aos
colegas que militam nessas duas instituições, mais ainda, pelo esforço extra de terem
assumido as tarefas de ensino e pesquisa que deixei para trás em razão do afastamento
por todos esses anos. Também a Tereza, Daniel, Omar, Paulo e demais companheiros da
Secretaria-Geral de Governo e ao Vice-Governador Miguel Rossetto, que
escrupulosamente respeitaram nosso trato inicial e permitiram que inúmeras horas,
necessárias à feitura deste trabalho, fossem subtraídas às minhas obrigações de servidor
público devidas ao Governo Democrático e Popular do Rio Grande do Sul.

Ao final, estes agradecimentos vão para quem me é mais cara, Paula, minha
amada há tantos anos, que envidou esforços para estar comigo no final da estadia no Rio
de Janeiro, onde então vivemos a ansiedade da espera de nossa primeira filha, Cláudia.
Quando esta tese estava iniciando, Cláudia tinha poucos meses, e, nos três anos e pouco
de sua elaboração, ela muito engatinhou e depois caminhou em volta de minha mesa de
trabalho, num discreto e tolerante protesto à minha ausência de suas extraordinárias
aventuras infantis. E, quando o trabalho começou a ficar pronto, veio a gestação de
nossa segunda filha, Beatriz, que foi nascer à época de sua conclusão. Todo esse tempo,
a Paula teve a paciência e a generosidade de aceitar minhas ausências e suprir, com
afeto e dedicação, tudo o que se fez necessário à nossa família. Este trabalho é, também,
uma forma de retribuição a ela e a todos.

Rio de Janeiro, novembro de 2001


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“Antes de la peluca y la casaca


fueron los ríos, ríos arteriales:
fueron las cordilleras, en cuya onda raída
el cóndor o la nieve parecían inmóviles:
fue la humedad y la espesura, el trueno
sin nombre todavía, las pampas planetarias.

“El hombre tierra fué, vasija, párpado


del barro trémulo, forma de la arcilla,
fué cántaro caribe, piedra chibcha,
copa imperial o sílice araucana “Voy a hacerle mis preguntas
Tierno y sangriento fué, pero en la Ya que tanto me convida –
empuñadura Y vencerá en la partida
de su arma de cristal humedecido, Si una explicación me da –
las iniciales de la tierra estaban Sobre el tiempo y la medida,
escritas. El peso y la cantidá.
Nadie pudo (...)
recordarlas después: el viento “Uno es el sol – uno es el mundo,
las olvidó, el idioma del agua Sola y única es la luna –
fué enterrado, las claves se perdieron Ansí han de saber que Dios
o se inundaron de silencio o sangre. No crió cantidad ninguna –
El Ser de todos los seres
“No se perdió la vida, hermanos pastorales. Sólo formó la unidá –
Pero como una rosa salvaje Lo demás lo há creado el hombre
cayó una gota roja en la espesura Después que aprendió a contar.”
y se apagó una lámpara de tierra.
José Hernández, La vuelta de
“Yo estoy aquí para contar la historia. Martín Fierro.
Desde la paz del búfalo
Hasta las azotadas arenas
de la tierra final, en las espumas
acumuladas de la luz antártica
(...)
Tierra sin nombre, sin América,
estambre equinocial, lanza de púrpura,
tu aroma me trepó por las raíces
hasta la copa que bebia, hasta la más delgada
palabra aún no nacida de mi boca.”
Pablo Neruda, La lámpara en la
tierra.
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RESUMO

O capitalismo vive uma relação de eterna mudança com suas dimensões espacial e
temporal, uma decorrência de sua natureza, em permanente transformação, e do sentido da
evolução histórica desse modo de produção, o desenvolvimento das propriedades de
auto-referência e autoprodução. A integração econômica regional no Mercosul é explicada
como uma manifestação da tendência à expansão territorial das economias de mercado.
Inicialmente, é abordada a dinâmica dos sistemas econômicos capitalistas, tendo em vista
compreender seus mecanismos internos de transformação e auto-organização, o lugar das
relações sociais e das instituições na determinação do movimento do todo. Logo a seguir, é
estudada a relação do sistema capitalista com suas dimensões espacial e temporal, sua
história e seu território; a configuração do regime internacional na relação estabelecida entre os
diversos sistemas nacionais e a cena internacional sob o movimento de mundialização e
expansão regional em curso. Na seqüência, a história econômica do Cone Sul sofre uma
revisão, recolhendo em seus episódios mais significativos a presença tanto da mudança em
sua dimensão espacial quanto o desenvolvimento das propriedades de auto-referência e
autoprodução e sua crise. Por fim, é estudado o Mercosul, suas origens, seus princípios e sua
evolução nos 10 anos de existência, enfocando tanto seus resultados econômicos e comerciais
quanto institucionais, procurando identificar em que medida a integração em marcha
corresponde a um movimento de mudança na dimensão espacial das economias da região em
direção à formação de uma nova unidade em escala superior. Na conclusão, é retomado o
argumento central, tendo em vista responder à pergunta de se, através da integração, o
capitalismo do Cone Sul poderia superar os entraves ao seu desenvolvimento e retomar o
processo de afirmação de sua autonomia, dando o passo à frente que se mostrara
intransponível nos limites das fronteiras nacionais ao longo de sua história.
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ABSTRACT

Capitalism has an ever-changing relation with its spatial and time dimensions. This is
one of its inner characteristics of permanent transformation and is a result of the development of
its properties of self-reference and self-production. Economic integration as in the case of the
Mercosur is explained in the light of this tendency to territorial expanding. First, capitalist
economic dynamics and its inner mechanisms of transformation and self-organization are
presented, as the role of social relations and institutions determining the performance of the
whole system. Secondly, the spatial and time dimensions of capitalist system are dealt of, its
history and territory; the configuration of national systems building an international regime and
globalization and regional integration are considered. Thirdly, Southern Cone economic history
is reviewed in order to look up the development of self-reference and self-production and the
transformation of its spatial dimensions. Finally, the origins, principles and evolution of the
Mercosur in its ten years existence are considered; its economic, commercial and institutional
achievements are accounted in order to realize how far this integration process should go,
transforming the spatial dimensions of regional economies and giving born to a new system in a
larger scale. As a way of conclusion, it is questioned if, through economic integration, capitalist
development in the Southern Cone could overcome its historic limits and found another road
towards growth and welfare.
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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO .........................................................................................................
1 - SOBRE A EVOLUÇÃO DOS SISTEMAS ECONÔMICOS CAPITALISTAS .
1.1 - As determinações da dinâmica histórica ..............................................................
1.1.1 - A trajetória dos sistemas: estabilidade e equilíbrio ..............................................
1.1.2 - Os nexos causais: explicação ...............................................................................
1.1.3 - As microtrilhas da explicação: relações fundamentais e formas institucionais ...
1.2 - A evolução das estruturas .....................................................................................
1.2.1 - Instituições e estruturas ........................................................................................
1.2.2 - A teoria dos sistemas ............................................................................................

2 - AS DIMENSÕES DA ECONOMIA ......................................................................


2.1 - A dinâmica econômica e suas dimensões ...........................................................
2.2 - O espaço ................................................................................................................
2.3 - O tempo .................................................................................................................
2.4 - Os sistemas econômicos e o regime internacional .............................................
2.5 - Espaço e economia na aurora do século XXI .....................................................
2.5.1 - A economia mundializada ..................................................................................
2.5.2 - A mudança na dimensão espacial do sistema .....................................................

3 - O TEMPO E O ESPAÇO NO CONE SUL ...........................................................


3.1- Antecedentes .........................................................................................................
3.2 - O sopro da modernidade .....................................................................................
3.3 - O desenvolvimentismo e sua crise ......................................................................
3.3.1 - O novo padrão de desenvolvimento ...................................................................
3.3.2 - Esgotamento e crise ............................................................................................
3.4 - A crise dos anos 80 e a mudança da estratégia econômica ..............................
3.4.1 - A crise da regulação ...........................................................................................
3.4.2 - A crise da acumulação ........................................................................................
3.5 - A capitulação nos anos 90 ...................................................................................

4 - O PROCESSO DE INTEGRAÇÃO E O MERCOSUL .......................................


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4.1 - A formação do Mercosul ........................................................................................


4.1.1 - Origens ..................................................................................................................
4.1.2 - Objetivos e meios ..................................................................................................
4.1.3 - O desenvolvimento da integração .........................................................................
4.2 - A economia do Mercosul ........................................................................................
4.2.1 - O comércio e o crescimento econômico no Mercosul ..........................................
4.2.2 - Os movimentos do capital .....................................................................................
4.2.3 - A desintegração da política econômica .................................................................
4.3 - Desenvolvimento no Mercosul ...............................................................................
4.3.1 - A acumulação em escala regional .........................................................................
4.3.2 - Instituições e integração ........................................................................................

5 - CONCLUSÃO: Integração, Relações Sociais e Espaço no Mercosul .....................


As idéias ...........................................................................................................................
Os acontecimentos ...........................................................................................................
A sorte ..............................................................................................................................

REFERÊNCIAS .............................................................................................................
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APRESENTAÇÃO

“Vuelvo al sur
Como se vuelve siempre al amor
Vuelvo a vos
Con mi deseo, con mi temor
Llego al sur
Como un destino del corazón
Soy del sur
Como los aires del bandoneón
Sueño el sur
Inmensa luna, cielo al revés
Busco el sur
El tiempo abierto y su después
Quiero el sur
Su buena gente, su dignidad
Siento el sur
Como tu cuerpo en la intimidad.

“Vuelvo al sur
Llego al sur
Te quiero.”
Astor Piazzolla e Fernado Solanas, Vuelvo al sur.

Talvez as melhores lembranças que guardo de minha infância e juventude


tenham sido vividas entre os gaúchos da fronteira rio-grandense. Naqueles anos, toda e
qualquer folga propiciada pelo calendário escolar era oportunidade para estar no Rincão
do Barreto, na casa de meus tios Edgar e Ilka, uma estância situada na encosta de uma
coxilha, em muito semelhante a outras tantas dessa região da Campanha, o pampa
brasileiro. Durante aqueles anos, foram muitas horas, por incontáveis dias, passadas no
lombo dos cavalos, atravessando os campos embranquecidos pela geada, envolto num
poncho de lã e agasalhado do frio vindo das latitudes antárticas, que, quando sopra
como vento, leva o nome das outrora temidas tropas de cavalaria dos índios puelches, o
minuano. Ou então, pisoteando a palha ressequida pela falta de chuva, medindo esforços
para poupar a montaria e os animais de criação, recorrendo campo ou parando rodeio
sob um tórrido sol de verão. Nesse convívio, aprendi um pouco do ofício secular da
criação do gado, do manejo dos cavalos, da esquila das ovelhas, do tiro de laço, das
reculutas rastreando animais desgarrados, da vida em meio à natureza, de seus perigos e
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suas maravilhas, um trabalho que, por vezes, é extremamente fatigante, mas também
tem seus momentos lúdicos e constantemente instiga o engenho e a poesia.

Muitos dos homens dessa época, e seu modo de vida, se foram. Sua cultura, seus
valores e sua recordação são uma parte da minha vida e de toda a sociedade do sul do
Brasil. Por muito tempo, pensamos que, apesar das animosidades fronteiriças, tínhamos
mais afinidades com os uruguaios e argentinos do que com os brasileiros do norte.
Tínhamos hábitos parecidos, os mesmos valores dessa cultura pastoril pampeana e, em
nosso linguajar campeiro, quase falávamos a mesma língua. Aqueles a quem o
imaginário social mais nacionalista, reverberando ecos das guerras que delimitaram as
fronteiras dos impérios coloniais ibéricos, identificava como inimigos, os castelhanos,
eram também os irmãos mais próximos, com quem repartíamos o telurismo e o apego
ao pampa ancestral. Éramos todos gaúchos.

Afora uma breve incursão pela área da economia rural, no início de minha
carreira profissional, foi logo de meu ingresso na FEE que pude me dedicar ao estudo
dessa região, da sina dos seus habitantes, dos gaúchos e sua terra, nos debates sobre
dependência e desenvolvimento que animavam a vida da instituição nos anos 80,
infelizmente interrompidos. O estudo da economia regional que desenvolvi depois foi
de forma menos sistemática, na militância política no Partido dos Trabalhadores, onde
tive oportunidade de exercitar o difícil encontro do interesse intelectual e da paixão pela
causa dos deserdados de minha terra. Parece irônico que a retomada desse tema, num
sentido tão radical como fiz neste trabalho, resultou de uma instigação vinda do outro
lado do mundo. Em 1995, havia terminado um trabalho sobre a acumulação de capital
na indústria brasileira com base na abordagem da regulação, o qual despertou interesse
de um grupo de pesquisadores da Wirtschaftsuniversität de Viena, com quem estabeleci
um contato profissional, que fluiu naturalmente para uma bela amizade. Por iniciativa
dos austríacos, formamos uma rede acadêmica, com a participação também de
uruguaios, argentinos, franceses e suecos, além dos brasileiros, para estudar a integração
econômica, comparando as experiências européia e sul-americana. Foi assim que o tema
do Mercosul se chegou a mim. Embora o projeto de pesquisa conjunto não tenha
avançado muito, apenas mexer com esse tema despertou-me um interesse que se somou
às minhas preocupações sobre o desenvolvimento brasileiro, logo revelado tão intenso
quanto a evocação dessas lembranças antigas e que acabou por se constituir no projeto
desta tese.
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Inicialmente, pensei em abordar o fenômeno da integração tendo como


referência a teoria da regulação, partindo dos conceitos de modo de desenvolvimento,
regime de acumulação, regulação e forma de adesão à ordem internacional. Na reflexão
que fui desenvolvendo, aos poucos ficaram evidenciadas algumas limitações dessa
abordagem. Na medida em que fui me aprofundando no objeto da pesquisa, firmei a
convicção de que o processo de integração só poderia ser compreendido como um
momento particular na trajetória dos sistemas econômicos que nele estavam envolvidos.
Em razão disso, cheguei à conclusão de que, para compreender o que estava se
passando, era necessário subsumir a visão da regulação em uma teoria dos sistemas. A
obra de Marx é, em meu entender, o ponto de partida único e fundamental para a
construção de uma teoria do sistema capitalista e, talvez, da história social como um
todo. Sua descoberta, no entanto, se inaugurou todo um programa de pesquisa nas
ciências sociais, por força própria em permanente desenvolvimento, em muito pode ser
enriquecida se abordarmos temas como os esquemas de reprodução, os automatismos do
mercado, a crise e a recuperação à luz de uma teoria dos sistemas. Nesse percurso,
travei conhecimento com uma contribuição originária do campo da biologia, a qual, a
partir do conceito de “autopoiese”, me deu um caminho para imaginar alguns marcos
referenciais de uma teoria da história e da evolução dos sistemas econômicos
capitalistas e aplicá-los ao objeto desta tese.

Sob essa perspectiva, pude tratar os fenômenos que materializavam o processo


de integração no Cone Sul — para além do crescimento do comércio, um imbricamento
cada vez maior de suas economias nacionais — como um episódio na história dos
sistemas capitalistas da região. É da natureza desses sistemas que seu desenvolvimento
siga uma trajetória irreversível e longe do equilíbrio, em permanente mudança. A
conclusão a que cheguei diz que a queda de barreiras, o esmaecimento das fronteiras,
cada vez ampliando mais as dimensões econômicas, são uma nova etapa na evolução do
capitalismo através da qual os antigos sistemas nacionais vão desaparecendo, fundindo-
-se em novas estruturas regionais. A explicação da integração precisava ser buscada na
transformação da dimensão espacial do capitalismo. Por isso o título desta obra tomado
emprestado do maravilhoso livro de Monteiro Lobato, outra lembrança de felizes
tempos passados.

A partir dessa convicção, o trabalho só pode evoluir alicerçado nas contribuições


de Braudel e Milton Santos sobre a dimensão espacial da sociedade mercantil. Ao
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mesmo tempo, foi preciso fazer uma, ainda que breve e arriscadamente seletiva,
releitura da história econômica dos quatro países formadores do Mercosul, para
compreender o desenvolvimento dos fatores presentes na determinação do processo de
integração. A maneira como foram se constituindo os sistemas econômicos nacionais,
sua evolução do modelo primário-exportador para o desenvolvimentismo da
substituição de importações, marcou a nova natureza desses sistemas no século XX, na
medida em que alcançaram a consolidação de uma estrutura urbano-industrial auto-
-referenciada. A crise e a interrupção dessa trajetória ao final do século conduziram e
deram os limites para o processo de aproximação entre os quatro parceiros.

O ambiente em que o processo de integração vem se desenrolando impõe uma


série de condicionantes também. Por um lado, há o impulso à extroversão dos sistemas
econômicos nacionais decorrente da mundialização do capital, das novas tecnologias de
informação e da hegemonia do capital dinheiro, que favorece a constituição de blocos
econômicos regionais. De outro lado, as mudanças em curso na ordem internacional
desde o fim da polarização leste-oeste e do início da tentativa norte-americana de
afirmar sua hegemonia assumindo a testa de um único império mundial, a postura ora
vacilante, ora adversária dos EUA por parte de Europa e Ásia e o novo papel dos
organismos multilaterais e, acima de tudo, a hegemonia ideológica do neoliberalismo e
suas conseqüências para a política econômica representam um obstáculo monumental ao
projeto de integração do Mercosul tal como foi traçado em seus princípios e objetivos
iniciais pelo Tratado de Assunção.

O processo de integração regional tem encontrado limites dados pelos


condicionantes e dificuldades advindos da fragilidade externa que afeta toda a América
Latina e tem sua origem na crise do endividamento nos anos 80, mas foi em muito
aprofundada pela adoção do decálogo do Consenso de Washington e sua principal
seqüela, o grande desequilíbrio na conta corrente do balanço de pagamentos. O
desdobramento dos efeitos da fragilidade financeira provocou uma crise do Mercosul,
evidente desde 1999, quando os regimes cambiais dos dois maiores parceiros se
tornaram contraditórios. O Brasil adotou a flutuação, enquanto a Argentina manteve sua
paridade fixa, fazendo a ausência de barreiras perder muito de seu significado. Em
seqüência, a Tarifa Externa Comum (TEC) foi recebendo exceções, e a própria
circulação de mercadorias ficou sujeita a restrições, inclusive tarifárias.
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A convicção que firmei ao concluir este trabalho faz a continuidade do projeto


de um mercado comum dependente de uma nova orientação da política econômica. A
perenidade do processo de integração passa por retomar e aprofundar a atenção às
assimetrias e ao esboço de políticas agrícola e industrial para as quais apontavam os
protocolos setoriais firmados inicialmente. Seria necessário, também, lançar novas bases
para a convergência macroeconômica, tendo como prioridade a construção de uma
política cambial harmonizada e relevando as metas fiscais e inflacionárias em vigor por
objetivos de crescimento e bem-estar. Assim como foi a opção política de aderir à
orientação econômica dos organismos multilaterais e do Tesouro norte-americano que
conduziu o Mercosul à crise atual, sua superação depende de um movimento também
político, que seja capaz de propor uma alternativa para o crescimento conjunto
sustentado dos quatro países.

No primeiro capítulo, abordei a dinâmica dos sistemas econômicos capitalistas


tendo em vista compreender seus mecanismos internos de transformação e auto-orga-
nização, o lugar das relações sociais e das instituições na determinação do movimento
do todo. Logo a seguir, no segundo capítulo, estudei a relação do sistema capitalista
com suas dimensões espacial e temporal, sua história e seu território; a configuração do
regime internacional na relação estabelecida entre os diversos sistemas nacionais e a
cena internacional sob o movimento de mundialização e integração regional em curso.
O terceiro capítulo fez uma visita à história econômica do Cone Sul, recolhendo em
seus episódios mais significativos a presença tanto da mudança em sua dimensão
espacial quanto do desenvolvimento das propriedades de auto-referência e autoprodução
e sua crise. No último capítulo, estudei o Mercosul, suas origens, seus princípios e sua
evolução nos 10 anos de existência, enfocando tanto seus resultados econômicos e
comerciais quanto institucionais, procurando identificar em que medida a integração em
marcha corresponde a um movimento de mudança na dimensão espacial das economias
da região em direção à formação de uma nova unidade em escala superior.

Na conclusão, procurei retomar os diversos passos do argumento central, tendo


em vista responder à pergunta de se, através da integração, o capitalismo do Cone Sul
poderia superar os entraves ao seu desenvolvimento e retomar o processo de afirmação
de sua autonomia, dando o passo à frente na história que se mostrara intransponível
nos limites das fronteiras nacionais de seus parceiros à época do nacional-
-desenvolvimentismo. Entretanto, além da geografia, um outro limite, talvez mais difícil
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de superar, permanece lançando seu desafio ao novo século, o limite da exclusão e da


desigualdade social. Até que ponto a continuidade do capitalismo no continente sul-
americano resiste a esse limite só o futuro poderá responder.
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1 - SOBRE A EVOLUÇÃO DOS SISTEMAS ECONÔMICOS


CAPITALISTAS

“Not only will our successors have to be far less


concern with... grand unifying theory... less frequent for them
[will be] the pleasures of theorems and proof. Instead the
uncertain embrace of history, sociology and biology.”
Frank Hahn

1.1 - As determinações da dinâmica histórica

O estudo que vou desenvolver nesta obra é um estudo de história, a história do


desenvolvimento das economias que formam o Cone Sul da América Latina em sua
trajetória recente, uma trajetória marcada por grandes percalços desde que, a partir da
segunda metade dos anos 70, uma profunda crise se abateu sobre a região. Um dos
poucos resultados dessa trajetória que se contabilizam no magro campo das conquistas
positivas é o meu objeto de análise, o processo de integração econômica materializado
no Mercosul. Esse fenômeno, a integração na América do Sul, só pode ser
compreendido nos marcos de um quadro teórico que dê conta da relação entre a
economia e seu espaço, pois, como argumentarei ao longo deste trabalho, a apreensão
do real significado dos processos de superação das fronteiras nacionais pelas relações
econômicas, um acontecimento que vem marcando as últimas décadas, só é possível a
partir de uma interpretação da mudança na relação entre as relações econômicas da
sociedade e seu território, mudança esta que é intrínseca à natureza da sociedade
humana, caracterizada por constante evolução.

Disse ser um estudo de história porque, em desacordo com o pensamento


neoclássico e seus modelos atemporais, não acredito que seja possível compreender a
evolução dos sistemas econômicos fora de uma perspectiva histórica. A dinâmica em
que seus movimentos podem ser compreendidos tem essa característica singular pela
qual seus processos são irreversíveis. O tempo em que seu desenvolvimento acontece
segue uma única direção, tem uma flecha, o que faz dele história. E é apenas nesse
domicílio da construção científica humana que os fenômenos sociais podem ter sua
causalidade desvendada, pois os sistemas dos quais são um episódio da existência
descrevem no espaço trajetórias irreversíveis e de não equilíbrio.
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Pensar o processo de integração como um momento na evolução dos sistemas


econômicos requer que se lance mão de uma teoria da dinâmica desses sistemas. É o
que vou fazer neste capítulo, começando por uma definição da natureza desses sistemas,
para a qual é decisiva uma distinção entre os conceitos de estabilidade — a continuidade
do sistema enquanto tal, embora atravessando diferentes estados — e equilíbrio,
normalmente usado pelos economistas com o mesmo significado que tem essa
expressão na mecânica clássica, como sinônimo de uma tendência do sistema a retornar
eternamente a um mesmo estado. Conforme o argumento que defendo aqui, em
contraposição a essa crença neoclássica, a existência real do sistema é uma eterna
mudança de estado. Um segundo ponto que necessariamente precisa ser esclarecido diz
respeito às determinações dessa eterna mudança de estado, o que leva a uma discussão
dos nexos de causalidade desses fenômenos, uma discussão da teoria da explicação. Em
terceiro lugar, é preciso considerar a natureza dos sistemas sociais, sua peculiar
condição de terem como unidade fundamental as relações entre indivíduos e a
circunstância de essas relações individuais formarem outros laços, de tal forma que as
estruturas sociais globais, cuja evolução pretendo interpretar em um de seus aspectos,
aquele de sua dimensão espacial, são constituídas por redes de estruturas intermediárias,
cujas trajetórias, de um lado, resultam das transformações das relações individuais e, de
outro, são tanto condicionantes dessas relações individuais quanto determinantes da
evolução do sistema em seu conjunto.

1.1.1 - A trajetória dos sistemas: estabilidade e equilíbrio

Desde que Newton formulou as leis da mecânica clássica, através das quais
acreditava subsumir a dinâmica da matéria, sua maneira de pensar vem tendo uma
avassaladora influência sobre a comunidade científica. Os paradigmas com que o
mundo vem sendo interpretado, em sua grande maioria, supõem que os sistemas
naturais, do microcosmo atômico à gravitação estelar, sigam trajetórias reversíveis de
equilíbrio. Dentre as ciências sociais, a Economia foi, desde seu nascimento, fortemente
influenciada por esse paradigma da dinâmica como trajetória em direção ao equilíbrio, o
que pode ser facilmente percebido na mão invisível de Smith ou no estado estacionário
de Ricardo. A formalização do marginalismo neoclássico através de Walras e Marshal,
por seu lado, ao reformular os fundamentos da economia com o intuito de transformá-la
em uma disciplina científica “pura”, completou a tarefa de submeter estreitamente seus
princípios ao paradigma da mecânica clássica (Vercelli, 1994).
20

Foi desde um ponto de vista distante do paradigma newtoniano, entretanto, que


alguns dos mais importantes avanços do conhecimento científico do século XIX se
tornaram possíveis. É o caso da biologia de Darwin e das ciências sociais de inspiração
hegeliana, como a economia política de Marx. Em qualquer desses casos, o que as
teorias descrevem é uma evolução dos sistemas analisados em trajetórias
necessariamente não convergentes para nenhuma posição de equilíbrio. No começo
deste século, a mecânica quântica veio abalar a expectativa de uma existência
equilibrada também para a matéria inanimada. Mesmo Einstein, um adepto do
determinismo clássico, precisou do artifício da constante cosmológica para
circunscrever o modelo relativista à condição de equilíbrio.

Ao longo do século XX, o pensamento científico foi se distanciando cada vez


mais do paradigma newtoniano na física, na química e em outras disciplinas.
Infelizmente, com exceção das correntes de pensamento que nunca aceitaram a teoria
neoclássica e apesar do peso da obra de Keynes, a ciência econômica manteve-se
obstinadamente apegada à idéia do equilíbrio. Mesmo o momentâneo interesse pelas
teorias da crise entre os anos 70 e 80 não chegou a comprometer a influência do
paradigma do equilíbrio, rapidamente reabilitado pela reação de monetaristas, novos
clássicos e novos keynesianos.

Em um trabalho anterior (Faria, 1997), discuti os determinantes das crises dos


sistemas econômicos seguindo uma sugestão de Ruelle (1993) a respeito da
aplicabilidade de modelos determinísticos. Naquela ocasião, pus acento numa distinção
quantitativa entre os sistemas sociais e a maior parte dos sistemas físicos, a qual se
fundamenta na divergência em relação ao seu grau de complexidade. Uma vez que
apenas sistemas dinâmicos simples ou moderadamente complexos podem sofrer um
tratamento determinístico formalizado em linguagem matemática, no qual sua trajetória
seja descrita por um sistema de equações, e os sistemas econômicos são muito
complexos, tal formalização, necessariamente, incorreria num viés de reducionismo.
Ainda lembrava uma observação de Ruelle, quando chamou atenção ao fato de os
sistemas econômicos terem um fundo de crescimento, o que os impede de retornarem às
condições iniciais, tornando impossível mesmo a utilização de modelos caóticos para
representá-los.1 Uma solução mais adequada a essa problemática deve dar conta de uma
21

diferença qualitativa entre um sistema social e um sistema mecânico clássico, sua


capacidade de auto-organizar-se e autoproduzir-se.

Para dar um passo à frente no sentido de levar em conta essa diferença, vou
lançar mão de uma contribuição à teoria dos sistemas surgida durante os anos 70, no
campo da biologia. Num desenvolvimento que buscava uma reconsideração da distinção
entre matéria viva e matéria inanimada, os chilenos Maturana e Varela desenvolveram
uma nova definição do que seja um sistema vivo, descrito com base em sua capacidade
de autoprodução. Sua teoria foi formalizada através da proposição de um novo conceito
com o fim de dar conta de uma característica específica desses sistemas, a qual
denominaram “autopoiesis”, um helenismo que significa autoprodução ou autocriação
(Maturana; Varela, 1987). De maneira geral, os sistemas muito complexos têm a
característica de serem homeostáticos, pois regulam seu funcionamento de forma a se
adequarem às modificações do ambiente. Um sistema autopoiético, na definição de
Maturana, é um sistema homeostático que tem sua própria organização como a variável
crítica fundamental que visa manter constante (Whitaker, 1996). Considerando que a
manutenção da própria organização é a característica essencial do organismo vivo,
organização entendida como a rede de relações que define o organismo como uma
unidade sistêmica, os organismos vivos podem, então, ser descritos como sistemas
autopoiéticos.

“An autopoietic system is organized (defined as a unity) as a network


of processes of production (transformation and destruction) of
components that produces the components that:

“1. through their interactions and transformations continously


regenerate and realize the network of processes (relations) that
produced them; and

“2. constitute it (the machine) as a concrete unity in the space in


which they [the components] exist by specifying the topological
domain of its realization as such a network.” (Varela apud Whitaker,
1996, p. 6).

Manter a própria organização requer o desenvolvimento pelo sistema da


capacidade de absorver informações e processá-las para, a partir disso, realizar as
adaptações necessárias à própria continuidade de sua existência. Ora, esta é a descrição
22

de um ato cognitivo. Os sistemas autopoiéticos têm, portanto, a propriedade da cognição


e, em razão dela, a capacidade de adotarem a conduta e de assumirem as mudanças que
melhor se adaptem a seus desígnios. Maturana e Varela representaram essa capacidade
através do conceito de enaction, cuja correspondência literal em português seria
atuação, no sentido em que esse termo descreveria uma conduta intencional e com
objetivo definido. Enaction é uma propriedade inscrita na natureza dos sistemas vivos e
que responde pela eficiência de suas pulsões ou instintos de autopreservação e
reprodução, isto é, as funções que têm por objetivo a continuidade de sua própria
existência.

Chamo atenção, entretanto, ao fato de que a intencionalidade e a característica


cognitiva desse processo de troca com o meio não têm a ver com a racionalidade
individual com que os economistas estão acostumados a tratar. Um sistema desse tipo
pode, eventualmente, confundir-se com um indivíduo, como acontece com os
organismos vivos, mas, nesse caso, o organismo é uma totalidade sistêmica e não pode
ser reduzido às características unitárias do conhecido indivíduo racional da teoria
econômica mainstream. O sistema é um conjunto de partes constitutivas e estrutura-se a
partir da inter-relação dessas partes, o que leva à possibilidade, inclusive, de
desenvolver contradições internas que impulsionem sua autotransformação. Ao
contrário, o indivíduo racional não tem nenhuma dimensão para dentro de si, é raso
como um pires, imutável em sua natureza e permanente em seu comportamento, mesmo
quando “adaptativo”.2

Para além disso, é também importante frisar que a propriedade homeostática


desses sistemas não significa tendência a uma condição de equilíbrio, mas, sim, a
continuidade da própria existência, como ressalta Varela. E essa continuidade da própria
existência só pode ser alcançada mediante uma constante transformação do sistema,
circunstância muito diferente da ocorrência dos fenômenos homeostáticos
eventualmente descritos no âmbito da mecânica clássica. 3 Maturana usa os conceitos de
organização e estrutura para dar conta dessa característica de os sistemas autopoiéticos
estarem em constante transformação. A organização é a relação entre os componentes
do sistema que o definem como uma unidade pertencente a um tipo determinado,
23

enquanto a noção de estrutura, usada, como ressalta Mingers (1995), de forma


incomum, descreve as relações e os componentes concretos do sistema, seu estado atual.
A organização é permanente, pelo menos até quando o sistema enquanto tal exista, ao
passo que a estrutura está em constante transformação. Neste trabalho, vou usar, no
lugar de organização, os conceitos mais usuais de sistema ou estrutura e, em lugar da
estrutura de Maturana, a noção de Estado.

O exemplo prototípico de sistema autopoiético é a célula viva. A célula é um


sistema identificável, separado do meio por uma membrana, mas que estabelece
relações com este através das quais obtém os elementos (substâncias químicas) que
utiliza por meio de seus próprios componentes (mitocôndrias, cromossomas) para a
produção desses mesmos componentes. Os compostos orgânicos que formam os
componentes celulares são produzidos pelo próprio metabolismo celular, portanto,
autoproduzidos. Os seres vivos multicelulares foram classificados como autopoiéticos
por Maturana e Varela com base na semelhança com a célula (identificação através de
uma fronteira, autoprodução de seus componentes, manutenção da própria organização).
Mingers (1995) classifica os organismos multicelulares como sistemas autopoiéticos de
segunda ordem, uma vez que entre seus elementos se encontram sistemas autopoiéticos
de primeira ordem, as células. Os sistemas sociais, por sua vez formados por sistemas
de segunda ordem, seriam sistemas autopoiéticos de terceira ordem, desde que
atendessem às características definidas.

Os sistemas sociais são uma manifestação da forma mais complexa e sofisticada


de vida já surgida em nosso mundo, a vida humana. Como constructos da vida, é
esperado que apresentem características dos organismos vivos como algumas de suas
propriedades constitutivas. Nesse sentido e ainda que a extensão do conceito de
“autopoiese”, a sistemas sociais seja polêmica, 4 autores como Luhmann e Teubner
propuseram interpretações dos sistemas sociais como auto-referenciados em um sentido
estrito, o que lhes conferiria as características de sistemas autopoiéticos. Mingers é mais
cauteloso, argumentando que “(…) applying autopoiesis in a strict sense, to include
notions of closure and boundaries, to social systems cannot be sustained, but the some
24

general idea of closure may well be applicable” (Mingers, 1995, p. 152). Na seção 2,
voltarei a essa discussão.

A posição que adoto aqui considera a aplicação do conceito de “autopoiese”


como um instrumento capaz de tornar possível a consideração de determinações dos
fenômenos sociais originadas no nível da estrutura, do sistema em seu conjunto,
portanto, irredutíveis ao plano individual, em contraste com a postura metodológica dos
neoclássicos, como demonstrado a seguir. Por outro lado, é uma ferramenta teórica, que
permite tratar das determinações sistêmicas que explicam a trajetória de sua estrutura de
uma forma mais consistente e realista do que a fracassada idéia de causalidade estrutural
defendida por algumas correntes do marxismo.

O importante por ora, entretanto, é a explicação que a abordagem autopoiética é


capaz de dar à aparente automaticidade de certos mecanismos ou subsistemas sociais, os
quais não se explicam por uma racionalidade intrínseca, mas são resultado do
desenvolvimento do sistema em direção à sua diferenciação e auto-referência, a qual
gera processos cognitivos de relação com o meio, através dos quais o sistema realiza sua
autopreservação e auto-reprodução. Tais processos prescindem de estruturas
psicológicas ou racionais que os dirijam — caso que os assemelharia a indivíduos, como
faz o reducionismo dos neoclássicos —, apenas resultam da evolução do sistema no
sentido de desenvolver propriedades autopoiéticas, propriedades presentes tanto nos
complexos sistemas sociais como em um singelo vírus. Isto é, no desenvolvimento
histórico das sociedades, determinados sistemas de relações sociais, como, por exemplo,
o direito ou o sistema econômico, alcançam um grau de diferenciação que os torna
sistemas auto-referenciados no sentido em que usa esse termo a teoria autopoiética.
Nesse processo, que é um processo de emergência, a regulação desses sistemas deixa de
ser externa, uma atribuição do centro de poder político da sociedade, e passa a ser uma
função interna do próprio sistema, que ganha, assim, sua autonomia. 5 Essa realidade é
apreendida equivocadamente pela teoria neoclássica através do conceito de equilíbrio,
visto como posição tendencial resultante do funcionamento do mecanismo de mercado.
Antes de proceder a uma discussão da teoria sistêmica, vou passar ao debate da
causalidade nas ciências sociais.
25

1.1.2 - Os nexos causais: explicação

No contencioso que a filiação intelectual desta tese tem com o mainstream da


teoria econômica há um segundo tópico de fundamental importância e que diz respeito
ao método através do qual se constroem as explicações dos fenômenos que se busca
analisar. Assim como em relação à noção de equilíbrio da mecânica clássica, há aqui
também uma estreita filiação a outro princípio científico equivocado, o individualismo
metodológico. Segundo essa concepção, o sistema econômico pode ser compreendido se
se fizer uma análise exclusivamente dos indivíduos que o compõem e suas
propriedades. É essa convicção que está por trás da busca incessante de
“microfundamentos”, tida como único percurso capaz de produzir explicações para os
fenômenos econômicos. Conforme essa crença, a ausência desses microfundamentos,
por exemplo, na macroeconomia, só produziria pseudo-explicações, as quais só são
aceitas enquanto não for possível se desvendar algum microfundamento.

A posição que adoto é outra e foi elaborada a partir da leitura de duas


contribuições às ciências sociais inspiradas em Marx e no marxismo. A primeira delas é
a da escola da regulação (Aglietta, 1976; 1997; Boyer, 1986; Boyer; Saillard, 1995;
Lipietz, 1985), a qual resultou do esforço em construir um arcabouço teórico capaz de
possibilitar a compreensão do desenvolvimento histórico dos sistemas econômicos
capitalistas. Em sua visão, as determinações desse desenvolvimento são interpretadas
como resultado de mudanças estruturais e institucionais, isto é, mudanças das relações
sociais. Um papel decisivo é reservado à trama de instituições que cumpre a função de
realizar a regulação de conjunto do sistema, trama esta cuja constante transformação,
resultado da natureza contraditória da vida social, se combina com as permanentes
mudanças na dinâmica das relações de produção para impulsionar a evolução do sistema
como um todo.

Uma segunda fonte de inspiração vem da elaboração de Wright, Levine e Sober


(Wright et alli, 1992)6 em seus ensaios sobre a explicação. A compreensão dos sistemas
sociais só é possível quando são levadas em consideração determinações originárias de
suas estruturas, que explicam uma parcela relevante de seu funcionamento e que são
irredutíveis ao plano dos indivíduos que os compõem e suas propriedades. Uma tal
26

abrangência do processo explicativo ultrapassa em muito o projeto do individualismo


metodológico, o qual é assim descrito pelos autores:

“O individualismo metodológico é uma reivindicação sobre o caráter da


explicação. Afirma que todos os fenômenos sociais são mais bem
explicados pelas propriedades dos indivíduos compreendidos no
fenômeno. Ou, de outra maneira, que toda a explicação que envolve
conceitos sociológicos de nível macro deveria, em princípio, ser reduzida
a explicações no plano micro dos indivíduos e suas propriedades”
(Wright et alii, 1992, p. 191).

Em razão disso, ao considerar que o plano macro guarda algum grau de


relevância explicativa, que existem determinações estruturais, sou necessariamente
levado à rejeição do individualismo metodológico pelo erro do reducionismo. Voltando
a Wright et alii, a crítica foi por eles assim expressa:

“Resumindo, o programa reducionista do individualismo metodológico


falha porque a ciência tem projetos explicativos que ultrapassam os casos
singulares. Além de indagar por que este organismo ou aquela firma
sobreviveram, também se quer explicar o que têm em comum diversos
objetos e processos. Quando as propriedades que respondem a essas
perguntas têm realizações múltiplas no plano micro, as explicações
macroteóricas não são, mesmo em princípio, redutíveis à
microexplicação” (Wright et alli, 1992, p. 207-8).

Para explicar este “o que têm em comum”, não basta reduzir os diversos objetos
e processos a tipos na forma dos conhecidos agentes representativos, cujo
comportamento seria a expressão completa de toda a realidade de um certo conjunto de
indivíduos com as mesmas características, como fazem os neoclássicos recorrendo às
figuras da firma, do trabalhador, do investidor, etc. Embora seja proveitoso o recurso a
tipos para a explicação científica, como forma de dar conta deste “o que têm em
comum” de diversos casos, a questão é a que podem ser reduzidos os tipos, se a meras
propriedades relacionais de indivíduos ou se existem tipos relacionados a entidades
sociais agregadas que sejam irredutíveis a indivíduos. Responder afirmativamente a esta
última indagação é negar o individualismo metodológico.
27

A verdadeira compreensão dos tipos na análise econômica só é possível quando


se considerar a possibilidade de um grande número deles corresponderem a sujeitos
coletivos — ou entidades sociais na terminologia de Wright et alii (1992) —, como
fizera Marx em suas análises sociopolíticas, nas quais as classes sociais aparecem como
os sujeitos mais relevantes dos processos de evolução e transformação das sociedades. 7
E esses sujeitos, embora sejam agregados de indivíduos, não podem ser reduzidos a
propriedades desses indivíduos, pois os tipos podem se realizar através de múltiplos
casos, no sentido de distintas trajetórias individuais conduzirem à situação de diversos
indivíduos mesmo se pertencerem a um mesmo tipo. Isso também não quer dizer que
alguns tipos não possam corresponder a características individuais, como o trabalhador
ou o burguês, mas apenas que estas não englobam a totalidade dos tipos.

Usando outras palavras, Aglietta discute a tese dos microfundamentos sob o


prisma da necessária suposição de homogeneidade do sistema para que a redução seja
possível, para que estruturas do plano macro possam, por exemplo, ser substituídas por
algum tipo de agente representativo. Ele afirma que não só é falsa qualquer suposição
de homogeneidade do sistema econômico como precisamente “[l]es avancées de la
pensé économique se sont faites contre le postulat d’homogénéité” (Aglietta, 1997,
p. 3). A característica heterogênea do sistema está, para Aglietta, na raiz da
irredutibilidade dos fenômenos macro, a qual se traduz na impossibilidade de se
postular uma lógica de coordenação uniforme para os dois planos da vida econômica, o
que, inclusive, não é uma característica exclusiva da economia.

“Dans les sciences de la matiére et dans les sciences de la vie, ont sait
que les phénomènes microscopiques et macroscopiques ne peuvent pas
êtres décrits à l’aide des mêmes outils formels de la pensé. Les
régularités macroscopiques ont leur autonomie. Cependant, en
économie, l’individualisme méthodologique a une virulence particulière.
L’attraction pour les fondemants microéconomiques de la
macroéconomie est telle que l’opinion dominante est de nier l’osbtacle,
donc de perpétuer le postulat d’homogénéité envers et contre tout.”
(ibidem).
28

Em resumo, existem relações causais dos fenômenos econômicos no plano


macro ou estrutural, o que nega qualquer tentativa de se atribuir homogeneidade ao
sistema. Em razão disso, a pretensão do individualismo metodológico de reduzir todas
as relações de causalidade ao plano dos indivíduos e suas propriedades deve ser
rejeitada.

De um outro lado, a posição que venho defendendo aqui leva também à rejeição
da posição que Wright, Levine e Sober chamaram de holismo radical, e que se pode
bem identificar em algumas das versões mais populares do marxismo. De um lado, a
concepção teleológica a favor do determinismo no processo histórico, visto como mera
resultante da contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e a forma das
relações de produção, posição que foi muito difundida pela Academia de Ciências da
antiga União Soviética. Discordando da posição teleológica dentro do pensamento
marxista, o estruturalismo encabeçado por Louis Althusser descrevia a História como
um processo sem sujeito nem fim. No entanto, não deixava de incorrer numa forma de
holismo mais que radical, ao definir os indivíduos como meros suportes das relações
sociais.8 Especificamente em relação ao método da economia, segundo sua
interpretação, os fenômenos econômicos devem ser definidos por seu conceito, o que
tem a seguinte implicação metodológica:

“Definir los fenómenos económicos por su concepto es definirlos por el


concepto de esa complejidad, es decir, por el concepto de la estructura
(global) del modo de producción en tanto que ella determina la
estructura (regional) que constituye los objetos económicos y determina
los fenómenos de esta región definida, situada en un lugar definido de la
estructura del todo” (Althusser; Balibar, 1967, p. 197-198).

Em sua visão, a economia, como uma parte subordinada à ciência da história,


teria suas explicações subsumidas ao princípio da “causalidade estrutural”, o qual
definiria o que consideraram um conceito epistemológico-chave, “(...) que precisamente
tiene por objeto designar este modo de presencia de la estructura en sus efectos”
(Althusser; Balibar, 1967, p. 203, grifos meus). Em outras palavras, os fenômenos
econômicos seriam resultado do movimento das estruturas, movimento através do qual a
estrutura se tornaria imanente a seus efeitos, no sentido de que “(...) toda la existencia
de la estructura sean sus proprios efectos” (idem, p. 204). A assertiva é algo obscura,
como boa parte das teses estruturalistas, mas suficientemente esclarecedora de um
29

equívoco do qual este trabalho guarda distância, a crença de que as ações dos indivíduos
não têm qualquer poder de determinação dos fenômenos sociais, são sempre efeitos ou
epifenômenos e nunca causa.

A posição que adoto nesta tese admite um horizonte um tanto mais alargado para
a construção da explicação nas ciências sociais, no qual os percursos possíveis
englobam tanto determinações individuais quanto sociais ou estruturais para os
fenômenos que são estudados. Wright e seus colaboradores admitem quatro caminhos
diferentes para a construção dos enunciados explicativos, mas argumentam que
causalidades estruturais só se efetivam através de um nexo explicativo que inclua,
necessariamente, a conduta e as propriedades dos indivíduos. Em suas palavras:

“Há quatro possíveis conexões explicativas entre os fenômenos sociais e


as propriedades individuais: primeiro, propriedades individuais podem
explicar fenômenos sociais; segundo, fenômenos sociais podem explicar
propriedades individuais; terceiro, propriedades individuais podem
explicar propriedades individuais; e quarto, fenômenos sociais podem
explicar fenômenos sociais. (...) [Entretanto] a quarta conexão só é
legítima quando a cadeia causal da explicação envolve combinações das
duas primeiras” (Wright et alii, 1992, p. 208).

Numa defesa dessa necessidade de uma fundamentação no plano micro das


determinações macroestruturais e em convergência com a posição adotada pelos
regulacionistas a que vou me referir mais adiante, os autores afirmam que:

“(...) fenômenos sociais somente explicam fenômenos sociais quando há


vínculos — mecanismos causais — que funcionam no plano
microindividual. As estruturas sociais explicam estruturas sociais através
dos modos pelos quais determinam as propriedades e as ações dos
indivíduos. Estas, por sua vez, determinam resultados socioestruturais. A
investigação dessas microtrilhas através das quais se efetivam as
determinações macroestruturais é o estudo dos microfundamentos”
(Wright et alii, 1992, p. 208-9).

Embora a concordância com a precisão do conteúdo, vou manter minhas


reservas em relação à expressão “microfundamentos” em razão do uso abusivo desse
termo por parte dos economistas filiados à escola neoclássica, em seu caso uma
30

manifestação do seu, como diz Aglietta, virulento apego ao individualismo


metodológico. No âmbito da Teoria da Regulação (TR), essa aproximação ao plano
micro é descrita como análise das configurações específicas das relações sociais (Boyer;
Saillard, 1995), terminologia que vou adotar aqui. Antes de passar à forma como os
regulacionistas apresentam a cadeia de nexos causais dos fenômenos econômicos,
entretanto, vou citar uma vez mais Wright, Levine e Sober e reproduzir seu argumento
de como a busca de fundamentação no plano micro para as análises macrossociais
aumenta não só a confiança nas teorias como aprofunda seu poder de explicação.

“Na medida em que se está aberto à possibilidade de múltiplos


fundamentos para uma dada explicação (e, portanto, para a não-
-redutibilidade de fenômenos macro a microfundamentos), a descoberta
de processos de nível micro, através dos quais se concretizam os
fenômenos maiores, enriquece a compreensão teórica.” (Wright et alii,
1992, p. 210).

Uma última observação. Na passagem dos Grundrisse, em que discute as


formações sociais pré-capitalistas, Marx (1857) mostra como as estruturas sociais agem
sobre o comportamento dos indivíduos, delimitando o horizonte de possibilidades de
suas ações numa determinada época e sob a vigência de determinadas relações sociais.
Seu pertencimento de classe delimita o espectro de atitudes possíveis em uma dada
situação.

1.1.3 - As microtrilhas da explicação: relações fundamentais e formas institucionais

A Teoria da Regulação desenvolveu um caminho, se não completamente


original, uma vez que recebeu uma forte influência da secular tradição marxista,
inegavelmente criativo e fecundo para dar conta da relação entre as trajetórias
individuais dos atores e os fenômenos que se manifestam no plano agregado dos
movimentos sociais. Através da análise da mediação das instituições, para a qual
criaram o conceito de formas institucionais da estrutura, os autores regulacionistas
puderam dar conta da relação entre a conduta dos indivíduos e as determinações
irredutíveis do plano macro.

A influência marxista a que me refiro trouxe uma decisiva contribuição à


metodologia das ciências sociais, que pode ser resumida pela conhecida frase com a
qual Marx contestou os economistas de seu tempo, que atribuíam ao capital um estatuto
31

de coisa, mera riqueza acumulada, uma quantidade de dinheiro ou um conjunto de


máquinas e equipamentos, dizendo: “o capital é uma relação social”. Da mesma forma,
no primeiro capítulo de O Capital, quando faz referência ao fato de toda a riqueza na
sociedade capitalista assumir a forma de um amontoado de mercadorias, lembra que,
para estudar as mercadorias enquanto coisas, seria preciso sair fora dos domínios da
economia política e adentrar outra disciplina científica, a qual apelidou de merceologia.
Nas palavras de um seguidor de Marx referido acima, Louis Althusser, essa posição de
Marx representa um “corte epistemológico”, pois funda uma nova abordagem para a
economia e para as demais ciências sociais com as quais trabalhou. Nessa abordagem, a
unidade última, indivisível e irredutível, a partir da qual se pode construir a cadeia de
causalidade dos fenômenos sociais, não é o indivíduo e os objetos que o circundam, mas
as relações entre os homens e as mulheres que formam a sociedade. Todos os conceitos
fundamentais da análise marxista, desde o já citado capital até a mais-valia, o dinheiro,
o trabalho, não representam de forma nenhuma coisas, muito menos os indivíduos
eventualmente proprietários dessas coisas, mas as relações sociais estabelecidas entre os
indivíduos ou grupos de indivíduos.9

Partindo das relações sociais entre homens e mulheres, a TR abriu um novo


campo de abordagem para a economia política, que incorpora à investigação das
relações de produção determinações do nível de análise considerado por Marx como
superestrutural, aquele das relações jurídicas e políticas. Para a TR, assim como para
toda uma tradição que por décadas foi marginalizada pelo mainstream acadêmico, sem
essas determinações institucionais não é possível compreender a dinâmica dos sistemas
econômicos. Entretanto, diferentemente das versões neoclássicas do institucionalismo,
as instituições não são vistas como “microfundamentos” para os fenômenos do plano
macro. Conforme mostra a Figura 1.1, os fenômenos micro exercem influência sobre o
funcionamento do sistema como um todo através da mediação das determinações que se
estabelecem no nível intermediário das instituições.

No plano microssocial, as motivações e os interesses dos agentes econômicos


(empresas, grupos de trabalhadores, associações ou mesmo indivíduos) vão produzir
conflitos localizados, quer na esfera das relações de trabalho (determinação dos salários,
duração da jornada, atribuições de competências e atribuições, etc.), quer na chamada
área social (saúde, assistências, educação, previdência ou segurança pública), quer na da
competição intercapitalista (conflitos de concorrência, poder de mercado e de
32

contratação). A solução desses conflitos exige a intervenção de uma outra esfera do


sistema social, na qual se fazem presentes o Estado e outras relações de poder que
definem a política econômica (juros, câmbio, política fiscal, etc.) e as demais políticas
públicas (políticas sociais, de meio ambiente, ciência e tecnologia, direitos da cidadania,
etc.), bem como iniciativas não-governamentais. Todo esse conjunto de instituições
conforma as cinco formas institucionais que descreve a TR, a forma do Estado, a
relação salarial, a restrição monetária, o padrão da concorrência e a inserção
internacional,10 cuja combinação recebeu o nome de modo de regulação. Além disso,
também faz parte desse arranjo institucional o paradigma tecnológico dominante,
embora na maior parte da literatura não seja tratado diretamente como uma instituição,
ao contrário do que fazem corretamente os evolucionistas (Coriat; Dosi, 1995; Amable,
1995; Villeval, 1995).

Por fim, para completar a trilha da regulação no desenvolvimento dessa


passagem que liga os fenômenos micro às determinações macro, ou estruturais, aparece
um terceiro plano, onde se apreende o funcionamento do sistema em seu conjunto. Aqui
a interação entre os agentes, condicionada pelo plano institucional, que define o que é
possível e desejável, estrutura as relações sociais. A arquitetura dessas relações forma o
modo de desenvolvimento, a combinação, como será visto mais adiante, de um modo de
regulação e um regime de acumulação, da qual resulta uma determinada distribuição da
renda e da riqueza. A situação dessa distribuição, por sua vez, vai rebater sobre o plano
microssocial, ao condicionar as motivações e os interesses dos agentes que presidem os
fenômenos naquele plano.
33

Figura 1.1

As instituições na mediação entre micro e macro

Plano microssocial Plano institucional Plano sistêmico

Motivação e Formas Interação dos


interesse dos institucionais agentes
agentes (relações sociais)

Paradigma Modo de
tecnológico desenvolvimento
Conflitos
localizados

Distribuição da renda
e da riqueza

Legenda:

Determinação
Condicionamento
34

Indo adiante na apropriação da produção teórica da TR, faço referência a Boyer


e Saillard (1995), segundo os quais a arquitetura geral da abordagem regulacionista está
configurada em três níveis de análise distintos, correspondentes a três graus diversos de
abstração.

O nível de análise mais geral, correspondente ao mais alto grau de abstração, dá


conta da análise dos modos de produção e de sua articulação. É nesse plano que a
filiação marxista da TR se mostra mais evidente, quando a análise faz uso das
determinações internas do modo de produção, suas tendências imanentes e suas leis de
movimento. Marx, hegelianamente, tratava esse plano de análise como o das relações
internas, onde as verdadeiras determinações dos fenômenos poderiam ser desvendadas
e, como oposto ao das relações aparentes, onde as verdadeiras relações de causalidade
estariam, muitas vezes, encobertas. Lipietz foi encontrar, em uma passagem das Teorias
da Mais-Valia, em que Marx estava discutindo a obra de Smith, a denominação de
esotérico para definir esse plano das relações internas (Lipietz, 1982; Faria, 1992).

É importante ressaltar, entretanto, que essa filiação se refere à obra do próprio


Marx e está em desacordo com as versões mais difundidas do marxismo no século XX.
Nesse sentido, a TR manteve-se distante do determinismo e do economicismo, operando
uma incorporação da teoria de Marx em suas melhores contribuições, a qual é assim
apresentada por Boyer e Saillard:

“La filiation aux rapports de production de Marx est nette, mais la


correspondence entre les rapports de production et l’état des forces
productives est abandonnée, de même que la dichotomie entre structure
économique et superstructure juridique et politique. Dans le mode de
production capitaliste, la forme des rapports de production et d’échange
impose le primat de la valeur d’échange sur la valeur d’usage et fait de
l’accumulation un impératif du système. La TR n’en infère pas cependant
l’existence d’une relation simple et invariante entre le mode de production
capitaliste et les formes de l’accumulation” (Boyer; Saillard, 1995, p. 60).

Entretanto, embora a ressalva sobre a existência de vários capitalismos, as


análises da TR têm sido capazes de buscar, na história do desenvolvimento do modo de
produção capitalista, a manifestação das tendências descritas por Marx tanto na “lei
geral da acumulação” quanto na “lei da queda tendencial da taxa de lucro” ou na “lei do
35

valor”. Por essa razão, Lipietz (1982) argumenta a favor da maior relevância explicativa
do plano esotérico.

As formas concretas da acumulação são tratadas em um segundo nível de


análise, em um menor grau de abstração, no qual as tendências contraditórias em
direção à crise ou à estabilidade do processo de acumulação podem ser compreendidas.
É nesse plano que se explicita mais claramente a distância entre a TR e qualquer
concepção determinista ou de equilíbrio. Como lembra Lipietz (1985), a descoberta de
certas regularidades do sistema não decorre de nenhuma tendência imanente, de
nenhuma “Besta do Apocalipse”, mas são um achado (trouvaille) resultado dos
desdobramentos das relações de cooperação e conflito entre seus elementos
constitutivos: classes sociais, frações de classes, associações de empresas, sindicatos,
etc. A estabilidade é alcançada a partir de um certo grau de institucionalização dessas
relações, materializado em um modo de regulação que garante a continuidade do regime
de acumulação, o processo de valorização do capital. A marca desse processo é a
permanente mudança do próprio sistema, em resposta ao interminável impulso
endógeno de transformação, de adaptação a novas circunstâncias que resultam da
interação de seus elementos constitutivos ou do ambiente que o circunda. Como será
tratado mais adiante, a semelhança com a descrição do organismo vivo como um
sistema autopoiético convida à incorporação daquele referencial teórico às análises.
Para marcar esse acento no caráter mutante do sistema, Boyer e Saillard polemizam:

“Là ou les néoclassiques et postkeynésiens cherchent un modèle général


et invariant, les régulationistes trouvent une variété de régimes
d’accumulation, selon la nature et l’intensité du changement technique,
le volume et la composition de la demande, le type de mode de vie
salarié. Les rapports capitalistes sont compatibles avec des régimes
d’accumulation qui se transforment dans le long terme, et qui sont donc
variables dans le temps mais aussi dans l’espace” (Boyer; Saillard, 1995,
p. 61).

O terceiro nível de análise trata da configuração específica das relações sociais


em um determinado tempo e lugar, sua regularidade e seu tecido institucional. Nesse
plano, são definidas as cinco formas institucionais que condicionam o comportamento
dos atores sociais numa direção coerente com a manutenção do funcionamento do
36

sistema. Por outro lado, é também nesse plano que, a partir da evolução do
conhecimento e das interações entre os agentes envolvidos, se configura o paradigma
tecnológico, o qual vai definir condicionantes e limites ao ritmo da cumulação. São as
relações aparentes, visíveis num nível concreto, para o qual Lipietz (1982), seguindo a
já referida passagem de Marx (1863), adotou a denominação de exotérico.
37

Figura 1.2

Os três níveis de análise e os principais conceitos da abordagem da regulação

Abstrato Abstrato/concreto Concreto

Paradigma
tecnológico
Modo de
desenvolvimento

Relações de produção Regime de


capitalistas acumulação
Apropriação Formas
Relação mercantil
institucionais
Assalariamento

Modo de regulação
Forma da
concorrência

Padrão monetário

Relação salarial

Tipo de Estado

Regime
internacional

Legenda:

Determinação

Condicionamento

Reciprocidade
38

A Figura 1.2 representa as relações de causalidade e condicionamento entre os


três níveis de análise. Como pode ser visto, a relação de causalidade vai das relações
sociais fundamentais do modo de produção capitalista até as formas institucionais e o
paradigma tecnológico que regulam o funcionamento do sistema e estabelecem o
formato e as possibilidades da estrutura produtiva. O percurso começa em Marx e vai
até a TR. Constituído esse tecido institucional, suas articulações formam as duas
instâncias de estabilização e reprodução do sistema, o modo de regulação e o regime de
acumulação, cuja combinação dá forma ao modo de desenvolvimento. Nesse nível
intermediário, as relações fundamentais do modo de produção capitalista agem como
condicionantes das possibilidades alternativas das formas que podem ser assumidas pelo
modo de desenvolvimento seguido por cada formação social específica. No vocabulário
da teoria autopoiética referenciado mais acima, as relações internas são a organização; e
o modo de desenvolvimento, a estrutura.

A compreensão desse diagrama ainda requer, para sua maior clareza, que seja
apresentada uma definição das categorias utilizadas. O ponto de partida desse
esclarecimento é a análise da gênese das formas institucionais, o conceito que liga os
diversos níveis da análise. Na obra fundadora da abordagem da regulação, Aglietta
(1976) adiantou o conceito de forma estrutural (o que depois passou a ser chamado de
forma institucional), definido como um “mode de cohésion des formes sociales issues
du développement d’un même rapport social fondamental” (Aglietta, 1976, p. 163). Em
outras palavras, uma certa forma de organização social, constituída a partir de algumas
relações sociais fundamentais, desenvolve-se e adquire maior complexidade num
percurso em que essas relações sociais dão origem a um conjunto de instituições que
estabilizam e dirigem o processo de manutenção e reprodução dessa sociedade. Alain
Lipietz produziu um desenvolvimento mais completo dessa problemática, como já
referido, a partir da distinção hegeliana, apropriada por Marx, entre aparência e
essência. Em Lipietz (1979) e depois em Lipietz (1982), ele vai estabelecer uma relação
dialética entre as relações fundamentais, constitutivas do plano interno da análise
(esotérico), a posse econômica — que aqui trato como relação de apropriação —, a
relação mercantil e o assalariamento e suas formas aparentes (exotéricas). Um retorno à
obra de Marx e a leitura de outros autores que também estudaram a história do
capitalismo, como Polanyi e Braudel, de certa forma antecessores da abordagem da
39

regulação, me abriram a possibilidade de conciliar a derivação abstrata das formas


institucionais realizada pela TR com a gênese histórica desse modo de produção.

Alguém que tenha estudado a obra de Marx não deixará de perceber a presença
de uma preocupação que buscava reiteradamente traçar um paralelo entre a derivação
lógica de um conceito e a gênese histórica da relação social por ele representada. Em O
Capital (Marx, 1867), ele afirma que o modo de produção especificamente capitalista
começa a existir com a introdução do trabalho assalariado na indústria manufatureira da
Europa. Isso só foi possível, entretanto, porque a existência de outras duas relações
sociais fundamentais haviam já criado o ambiente em que o uso do assalariamento
pudesse assumir sua forma capitalista. Essas outras relações foram a forma capitalista
de propriedade privada dos meios de produção — a relação de apropriação —, através
da qual esses mesmos meios de produção se transformam em capital, e a troca
intermediada por moeda — a relação mercantil —, através da qual é possível a
separação entre valor e valor de uso, base da acumulação capitalista da riqueza abstrata.

Da mesma forma, Braudel (1979) afirmou, ao fazer uma comparação entre as


sociedades mercantis orientais e as sociedades européias as quais estudava, que a
presença da troca e mesmo da moeda não eram suficientes para definir uma sociedade
como capitalista, pois esse modo de produção apenas existe a partir da instituição de
uma nova relação social em que o trabalho produtivo assume a forma de trabalho
assalariado.11 Em seu estudo sobre as origens da sociedade capitalista, Polanyi (1957)
mostra como o desenvolvimento do capitalismo só foi possível com a ação do Estado,
cuja intervenção foi decisiva para desenhar o formato final das relações sociais
fundamentais desse modo de produção. O processo é descrito com recurso à figura das
três “mercadorias fictícias” — a terra, o dinheiro e o trabalho —, criadas pelo
desenvolvimento das relações sociais com o decisivo concurso do Estado e que formam
os pilares da ordem econômica capitalista. O adjetivo fictícias visa ressaltar o fato de
não serem uma criação do trabalho produtivo, como as demais mercadorias, mas o
resultado da apropriação de recursos naturais, humanos ou simbólicos pela classe
dominante. Foi a ação regulatória do poder público que tornou possível essa
apropriação, ocorrida durante a fase de transição ao capitalismo, quando as amarras
feudais que as prendiam a relações pré-capitalistas foram desfeitas: a apropriação da
terra pela regulamentação de sua compra e venda; a apropriação do trabalho pelo fim da
40

servidão e a instituição de um mercado onde sua livre contratação ficou possível; e a


apropriação do dinheiro pela instituição do curso forçado.

Nos primeiros capítulos do Livro I de O Capital, Marx descreve as relações


sociais fundamentais do modo de produção capitalista e a norma jurídica que institui
cada uma delas. No capítulo sobre a mercadoria, ele apresenta a relação de
apropriação12 como a forma especificamente capitalista de posse de riqueza, regulada
pela norma jurídica da propriedade privada na forma que lhe deu o direito burguês 13.
Mais adiante, no capítulo sobre o dinheiro, cujo subtítulo é a circulação da mercadoria,
a relação mercantil é descrita junto com as funções da moeda, a mais importante das
quais é a norma social que regula as trocas, o princípio da equivalência. Por fim, surge a
terceira relação fundamental, nos capítulos sobre o processo de trabalho e a criação da
mais-valia (Capítulos IV a XX), a relação de assalariamento, definida a partir do
conceito de mais-valia, o qual é regido pela norma jurídica que regula a maneira
capitalista de exploração do trabalho, a extração do excedente na forma valor.

Como afirmei acima, a gênese das formas institucionais que formam o modo de
regulação são as relações fundamentais do modo de produção. Na linguagem de Lipietz,
o esotérico manifesta-se como determinação no exotérico. O caminho dessa gênese
começa com as relações fundamentais, a partir das quais se formam as normas jurídicas
que regulamentam as relações, as quais instituem as mercadorias fictícias expressões
dessas normas. Num último passo desse percurso, são constituídas as formas
institucionais que formam o modo de regulação, quando então o tecido institucional que
estabiliza a acumulação de capital encontra o melhor ambiente para seguir sua marcha.
A Figura 1.3 representa esse percurso.
41

Figura 1.3

A gênese das formas institucionais da regulação

Relação Mercadoria Forma


Norma
fundamental fictícia institucional

Forma da
Apropriação Propriedade Terra
concorrência

Relação Restrição
Equivalência Dinheiro
mercantil monetária

Relação
Assalariamento Exploração Trabalho
salarial
42

A relação de apropriação tem como fundamento jurídico o direito de


propriedade. A norma da propriedade privada teve sua origem na instituição de uma
proteção legal para a apropriação de uma parcela útil da natureza — a terra
cultivável — por uma classe privilegiada de membros da sociedade. Sob o capitalismo,
o monopólio da terra é ampliado para um monopólio de todos os meios de produção,
resultado do processo de despossessão de agricultores e artesãos no final da Idade
Média. Esses meios de produção assumem, por esse caminho, a forma de capital. Seu
emprego produtivo ocorre através da constituição de unidades de capital, as empresas
ou firmas, onde a combinação capital/trabalho acontece sob a direção do capitalista,
dando início ao processo de produção e valorização. A articulação dessas unidades de
capital cria uma rede de articulações entre empresas, que constitui o sistema econômico.
A garantia de um inter-relacionamento sistêmico dessas unidades de capital é função da
forma institucional da concorrência, a qual inibe a possibilidade de os comportamentos
individuais de cada unidade assumirem um perfil contraditório com a estabilidade de
conjunto do sistema econômico.

A relação mercantil supõe a apropriação, pois a troca só é possível entre


pessoas que disponham, como proprietários, das mercadorias postas à venda, de um
lado, e da mercadoria que, ao ser aceita na troca, permite a efetivação da compra
desejada, o acesso a um valor de uso específico. Entretanto, para que esse intercâmbio
pudesse ocorrer, foi preciso a instituição de uma norma, o princípio da equivalência e de
uma mercadoria especial que incorporasse esse princípio, o dinheiro, a qual possibilitou
a formação do sistema de preços baseado no valor dessa mercadoria fictícia. Seu
desdobramento no plano da regulação foi a criação da forma institucional da moeda, a
restrição monetária, a qual regula o nível de preços e a distribuição dos rendimentos
entre os agentes econômicos.

A relação de assalariamento resultou da definição de uma norma social de


exploração, de apropriação do excedente na forma de mais-valia, possibilitada pela
compra da força de trabalho por um valor menor do que o valor por ela criado na
produção. O preço da mercadoria fictícia trabalho, a taxa de salário, é o centro dessa
relação, regulada no plano institucional pela forma estrutural da regulação relação
salarial.

A TR desenvolveu, ainda, os conceitos de mais duas formas institucionais, as


quais não têm origem nas relações internas do modo de produção capitalista, mas no
43

ambiente social onde este se formou, a saber, a forma do Estado e a forma de adesão
ao regime internacional. A primeira tem origem na configuração do poder político e na
especificidade de sua relação com a vida econômica, ao passo que a segunda nasce do
tipo de articulação estabelecida entre uma determinada formação social nacional e o
sistema internacional no qual está inserida.

Em relação à adesão ao regime internacional, ela, em verdade, mais do que uma


forma institucional específica, corresponde à dimensão espacial da regulação. Em outras
palavras, assim como um determinado modo de regulação tem uma vigência temporal,
pertence a uma determinada época, tem também uma vigência espacial (Becker, 1999),
a qual define a presença de uma determinada relação social em um determinado
território, bem como define o pertencimento dessa relação a uma determinada estrutura
social, um sistema (Lipietz, 1977). Por essa razão, vou seguir Becker quando afirma:

“Il me paraît conceptuellement plus conséquent et plus prometteur de


traiter l’espace comme une dimension des toutes les formes structurelles
de la régulation. La territorialité des formes structurelles de la régulation
est articulé avec l’espace économique. La changeante articulation des ces
formes d’espace exerce une considerable influence sur les champs des
forces et est un enjeu central des luttes sociales et politiques. Le statut
méthodologique du temps revient à l’espace. Comment il y a une
articulation des temporalités que les historiens de l’école des Analles ont
élaboré, il y a une articulation multiforme des térritorialités” (Becker,
1999, p. 5).

Voltarei a esse ponto no Capítulo 2. Por ora, basta reter que a construção das
estruturas que dão forma ao sistema econômico, o regime de acumulação, as formas
institucionais e sua articulação em um modo de regulação, a combinação entre ambos na
definição do modo de desenvolvimento, tem uma dimensão espacial.

Uma última advertência em relação à versão mais corrente da TR diz respeito à


dimensão temporal. Sua materialidade expressa-se na sucessão de fases de estabilidade
e de crise ao longo da existência do sistema. Embora haja uma certa ênfase na
estabilidade quando as análises da TR se referem à operação dos mecanismos da
regulação, isso não quer dizer que não haja uma regulação da crise, sob pena da
incursão em um viés funcionalista. Isto é, se se entende, como aqui, a crise como um
momento da existência do sistema, a articulação regulação/acumulação, embora em
44

crise, permanece existindo. Entretanto, pela peculiaridade dessas fases, é uma existência
que vivencia, necessariamente, um processo de transformação mais acelerado do que
nas fases de estabilidade, pois, como já o sabia Camões, “(...) todo o mundo é composto
de mudanças, tomando sempre novas qualidades”, uma maneira de apreender a
dicotomia crise/estabilidade é reparando na velocidade das mudanças.

Uma vez constituídas suas estruturas, o movimento do sistema em sua totalidade


deixa de ser resultado unicamente das ações dos agentes econômicos e passa a
responder a determinações do plano agregado. Como agem essas determinações é o
tema que passo a tratar a seguir.

1.2 - A evolução das estruturas

Nesta tese, como disse acima, o processo de integração é interpretado como um


momento na vida dos sistemas econômicos, um momento particular em que se está
operando uma alteração profunda em uma de suas dimensões, aquela do espaço. Mais
ainda, embora esse processo tenha desdobramentos e determinações no plano micro,
como, por exemplo, a regionalização de cadeias produtivas e a definição de um só
mercado de todo bloco como horizonte do planejamento empresarial e da concorrência
intercapitalista, como vou demonstrar no Capítulo 2 do trabalho, é no plano sistêmico
que se estabelecem as determinações da integração, pois ela resulta de um movimento
da totalidade. Em outras palavras, é uma determinação estrutural. Por essa razão, venho
buscando, neste capítulo, esclarecer qual a perspectiva teórica a partir da qual é possível
compreender o funcionamento do sistema econômico, seu movimento de conjunto, sua
história.

O estudo da história econômica de uma sociedade é, de maneira geral,


empreendido como o estudo de suas mudanças estruturais. O que faz a história são essas
mudanças, pois o próprio processo histórico pode ser entendido como o processo de
evolução das estruturas econômicas. Nesse sentido, seu enfoque, necessariamente,
precisa fazer um recorte em termos dos níveis de análise de que tratei anteriormente,
deixando de lado, em larga medida, o plano micro e concentrando-se na abordagem das
cadeias de causalidade do plano macro, pois, se as determinações micro explicam a
gênese das relações sociais, no plano macro sua articulação produz as estruturas
institucionalizadas que dão forma ao sistema econômico. A explicação da dinâmica do
sistema em seu conjunto, necessariamente, está definida nesse nível, para o qual
45

fenômenos do plano micro têm relevância unicamente na medida em que


comportamentos individuais extrapolem os padrões de normalidade e desencadeiem
transformações das próprias relações sociais. Em outras palavras, o comportamento de
uma das partes só será significativo na medida em que repercuta na articulação de todas
as partes e implique uma mudança do todo.

1.2.1 - Instituições e estruturas

Compreender o movimento do sistema em seu conjunto foi uma tarefa


perseguida por Marx em seu trabalho, que teve como resultado a proposição das já
referidas leis gerais do modo de produção, como a lei do valor, a lei geral da
acumulação ou a lei da queda tendencial da taxa de lucro. Seu esforço monumental
ficou, entretanto, incompleto, não apenas em razão de a morte ter apanhado o autor de
O Capital antes da conclusão de sua obra, mas, principalmente, por uma não resolvida
ambigüidade metodológica presente em sua produção científica, o que a faz aparecer
ora como determinística, ora como subjetivista. É essa ambigüidade que explica o fato
de duas abordagens tão distantes como o individualismo metodológico da escola
analítica e o princípio da causalidade estrutural do althusserianismo se reivindicarem
marxistas.

Em razão disso, é preciso avançar alguns passos adiante da contribuição de Marx


e encontrar um meio termo entre essas posições extremadas, um meio termo que pode
ser percebido como uma questão, então sem resposta, mas já presente na própria
ambigüidade referida. Conforme a argumentação apresentada mais acima, inspirada em
Wright et alii (1992), a explicação nas ciências sociais deve percorrer um caminho
intermediário entre individualismo e estruturalismo, caminho onde as relações entre os
diversos subsistemas que compõem a totalidade da estrutura social são a causa do
movimento de conjunto do sistema.

Uma contribuição com origem fora da tradição marxista, mas que, como a TR,
busca se situar num meio caminho entre causalidade estrutural e individualismo
metodológico, é a apresentada pelos institucionalistas e evolucionários. Seu argumento
é inspirado num dilema metodológico que envolve as ciências da matéria, o qual tem
revelado a impossibilidade de um único sistema teórico dar conta de fenômenos tanto
do plano micro quanto do macro. 14 Embora a busca incessante pelos físicos de uma
resposta teórica capaz de produzir a Grande Unificação — movimento correspondente à
46

busca dos microfundamentos pelos economistas —, como argumentam autores como


Prigogine, a passagem de um plano ao outro implica uma diferença qualitativa, porque a
agregação de estruturas mais simples em sistemas mais complexos produz um
fenômeno novo, o surgimento de novas propriedades no sistema assim formado, que
não poderiam existir em suas partes constitutivas. O fenômeno chama-se emergência.
As ciências biológicas há já muito têm-se dado conta dessa realidade, ao se defrontarem
com as características dos organismos multicelulares. Esses organismos não podem ser
confundidos com uma mera agregação de células, como é o caso de um tecido, pois
possuem propriedades que não estão presentes no microcosmo celular. Também no
campo das ciências físicas, entretanto, a existência de sistemas complexos passou a ser
admitida a partir dos trabalhos de Prigogine e outros.

Evolucionários e institucionalistas apóiam-se na teoria dos sistemas complexos,


particularmente em sua propriedade de auto-organização, a idéia de ordem se formando
a partir do caos (Prigogine, 1996), e adaptam a noção de emergência para a economia,
através de uma argumentação que está sistematizada em Hodgson (1997). Para dizer de
forma muito breve, admitir que os sistemas econômicos tenham propriedades
emergentes é defender sua não-redutibilidade explicativa aos elementos que o compõem
no plano básico.

“The notions of emergence and downward causation are used in


critiques of methodological individualism and of the reductionist idea
that macroeconomics can only be built in terms on ‘sound
microfoudations’.(...) in explaining complex systems we may be forced to
rely on emergent properties at a macro level.” (Hodgeson, 1996, p. 10).

Num percurso que os aproxima muito da TR, os autores com essa filiação
teórica lançam mão do conceito de instituição para fazer uma passagem entre os níveis
micro e macro. O conceito de instituição guarda grande semelhança com as formas
institucionais na TR, abrangendo o conjunto de mecanismos que condiciona e dirige o
comportamento dos indivíduos, na forma de normas, regras e convenções, sejam
formalizadas como leis ou regulamentos, sejam informalmente como hábitos e valores
de conduta. Por sua estabilidade e relativa invariância e por perdurarem mais que os
indivíduos, as instituições formam, segundo Hodgson, a unidade última de análise
(bedrock unit). “Hence, institution is a ‘socially cosntructed invariance’. As a result,
47

institutions can be taken as the units and entities of analysis.” (Hodgson, 1996, p. 12).
Mais adiante, ele resume:

“The concept of institution connects the microeconomic world of


individual action, of habit and choice, with the macroeconomic sphere of
seemingly detached and impersonal structures. While analysis of each
level must remain consistent with each other, the macroeconomic level
has distinctive and emergent properties of its own” (Hodgson, 1996,
p. 12).

A mesma função é atribuída na TR ao conceito de formas institucionais. Está


fora dos propósitos deste trabalho fazer uma avaliação mais aprofundada da
contribuição institucionalista. Vou apenas ressaltar dois pontos. Primeiro, sua
preocupação central com a tecnologia produziu o importante aporte de tratá-la como
uma instituição e, portanto, endogeneizá-la no esquema de análise, para o que o
conceito de sistema nacional de inovação é central. Esse tratamento não existia nas
primeiras versões da TR e, se em seus trabalhos mais recentes a tecnologia tem recebido
uma nova consideração, isso se deve, em larga medida, ao diálogo entre as duas escolas.

O segundo ponto relevante é que, inegavelmente e apesar de sua mais breve


existência, a TR possui um arcabouço teórico mais robusto, o que lhe permitiu construir
uma visão da dinâmica econômica em que as formas institucionais estão tipificadas e
hierarquizadas, assim como a articulação do conjunto de instituições é realizada pelo
conceito de modo de regulação. Mais ainda, o motor da dinâmica do sistema em seu
conjunto é apreendido na dialética entre o regime de acumulação e o modo de
regulação. Além disso, desenvolveu uma teoria da crise a partir da qual a passagem da
estabilidade ao caos pode ser compreendida como um caso específico, com seus
determinantes próprios, mas que pertence a um tipo mais geral, a irrupção de uma
contradição entre acumulação e regulação. Em minha opinião, esse maior poder de
explicação da TR é devido à sua inspiração marxista, especificamente à incorporação da
idéia de que os processos sociais são resultado da ação de sujeitos coletivos e que a ação
desses sujeitos será sempre condicionada e terá seus limites materiais estabelecidos
pelas relações sociais em que estão inseridos.
48

1.2.2 - A teoria dos sistemas

Os sistemas sociais foram, por muito tempo, considerados ou idênticos aos


sistemas mecânicos clássicos — como fez a teoria neoclássica —, ou absolutamente
diferentes de qualquer sistema das ciências ditas naturais. A convicção que tenho e que
inspira esta tese é que existem duas ordens de diferenciação entre o objeto das ciências
sociais e um sistema simples como um sistema mecânico clássico. A primeira é sua
historicidade, o fato de sua dinâmica ter uma flecha do tempo, de seus estados serem
evolutivos e irreversíveis; e a segunda é sua complexidade, o fato de sua estrutura não
poder ser descrita por um sistema de equações que dê conta unicamente das
propriedades e dos parâmetros de seus elementos constitutivos, pois o sistema tem
propriedades emergentes.

Embora Frank Hahn tenha sua parcela de razão quando lembra que, em
comparação com o modelo científico preferido pelos economistas — a mecânica
clássica —, a História e a Biologia são ciências do incerto, especificamente esta última
trouxe uma relevante contribuição a uma maior segurança e, portanto, menor incerteza
na difícil tarefa enfrentada pela comunidade científica no tratamento de sistemas muito
complexos. Trata-se dos conceitos de fechamento organizacional e “autopoiesis”,
apropriados à compreensão do tipo de sistema muito complexo ao qual pertencem as
sociedades humanas, no qual se sobressaem as características de auto-referência e
autoprodução dos seus elementos constitutivos. Essas sociedades são aquelas mais
complexas, convencionalmente ditas desenvolvidas, que têm estruturas de regulação e
controle, as quais se foram diferenciando ao longo de sua evolução, no sentido de se
tornarem subsistemas auto-referenciados, em que as propriedades autopoiéticas se
desenvolveram.

Existe um razoável acervo bibliográfico com vistas a construir uma teoria


sociológica autopoiética cuja inspiração pioneira é a obra de Luhmann. Como já referi
em uma nota mais acima e explicitarei logo a seguir, a posição assumida neste trabalho
guarda uma diferença substancial em relação à teoria sociológica inspirada em
Habermas. Numa outra orientação, pode-se encontrar em Bruno Théret, um autor filiado
à TR, o desenvolvimento de um referencial teórico capaz de dar conta da propriedade de
auto-referência dos sistemas sociais. A partir do estudo da política econômica (Théret,
1998), esse autor propõe uma combinação da teoria autopoiética com uma elaboração
anterior sua, uma abordagem topológica do social (Théret, 1992), na qual dá conta
49

desses dois fenômenos presentes nas sociedades capitalistas, aos quais já fiz referência e
que são decisivos para sua compreensão: diferenciação e auto-referência.

Antes de avançar, melhor delimitar as diferenças. Um crítica à intenção de


Luhmann em descrever a sociedade como um sistema autopoiético (Mingers, 1995)
aponta duas diferenças importantes em relação ao conceito de Maturana e Varela: a
dificuldade de estabelecer as fronteiras do sistema e a também dificuldade de fixar a
comunicação como seu elemento constitutivo. 15 Os dois pontos são procedentes e
invalidariam a pretensão de Luhmann de uma ciência social autopoiética. Penso que o
problema está menos com a “autopoiese” do sistema social e mais com sua sociologia.
Tout court, as duas críticas revertem sobre o mesmo problema, a suposição de que o ato
comunicativo é o elemento constitutivo da sociedade. Mingers lembra, com razão, que a
comunicação pressupõe interação entre seres humanos, donde a dificuldade de
estabelecê-la como elemento último, uma vez que seria um produto de outra coisa (a
interação). Da mesma forma, se a unidade constitutiva do sistema social é a
comunicação, que elementos estabeleceriam a fronteira desse sistema, já que a interação
comunicativa com indivíduos de fora da sociedade tem o mesmo estatuto de uma
comunicação para dentro.

A solução dessa dificuldade é dada pelo retorno a Marx e sua teoria da relação
social como elemento constitutivo da sociedade. Ao contrário da comunicação, a
relação social é irredutível, pode haver comunicação sem sociedade, mas não pode
haver sociedade sem relação entre os indivíduos, assim como pode haver indivíduo fora
da sociedade (Os Robinsons de que tanto Marx fazia troça), mas só pode haver
sociedade se os indivíduos entrarem em relação uns com os outros. Da mesma forma, as
fronteiras do sistema são estabelecidas pelo tipo de relação entre os indivíduos. As
relações entre os indivíduos dentro de um sistema social são ou diretas, ou medidas por
instituições internas do sistema, elas também são relações sociais, ao passo que as
relações entre indivíduos pertencentes a sistemas sociais diferentes são mediadas pelos
próprios sistemas, por instituições criadas para essa tarefa específica, as quais são
diferenciadas para essa função específica. Quer dizer, são criadas para agirem como
fronteiras do sistema.

O sistema social pensado nos termos marxistas, como constituído pelas relações
sociais entre os indivíduos, pode ser interpretado como um sistema autopoiético, uma
vez que obedece a três características definidoras. Primeiro, é auto-referenciado, na
50

medida em que seu funcionamento resulta de mecanismos que lhe são internos (os
mecanismos “automáticos” de reprodução do regime de acumulação e as formas
institucionais da regulação dão conta de comandar o funcionamento do sistema);
segundo, produz os elementos que o compõem, uma vez que as relações sociais são
criadas pelas relações sociais (o conceito de reprodução do sistema de Marx); e,
terceiro, suas fronteiras são delimitadas por relações específicas, que dão conta de
distinguir o sistema de seu meio (a legislação sobre o contrabando, por exemplo, define
o que está dentro e fora de um sistema econômico).

A partir dessa constatação, pode-se argumentar a favor da existência de sistemas


autopoiéticos de terceira ordem (lembrando que a primeira ordem é a célula; e a
segunda, o indivíduo multicelular), os quais não são compostos pelos sistemas da ordem
inferior, mas por articulações específicas destes (os elementos constitutivos dos
organismos multicelulares são os tecidos, um determinado tipo de combinação de
células, e não estas isoladamente). Os sistemas sociais são um caso desse tipo, uma vez
que, mesmo os menos complexos, são auto-referenciados, têm fronteiras definidas e
produzem os elementos que as constituem.

O interessante para esta análise, e aqui volto a Théret (1998), é a constatação de


que alguns subsistemas da sociedade, como o Direito ou a Economia, em função da
complexificação da estrutura social, vão aos poucos se diferenciando até que deixam de
ser dirigidos por suas relações funcionais com o todo social. A partir desse momento,
realizam um take off autopoiético e passam a ser auto-referenciados. Para Théret, o
advento do trabalho assalariado e o ingresso do capital na esfera da produção, com a
constituição do circuito do capital produtivo (D  M  P  M’  D’) analisado por
Marx, representam esse momento. Da mesma forma, o advento do ordenamento jurídico
das sociedades constitucionais modernas, tal como é descrito na teoria pura do Direito
de Kelsen, é o ponto de inflexão na constituição de um sistema legal auto-referenciado.
Théret ainda argumenta que o Estado e a ordem política também percorrem um ciclo
auto-referenciado, o que faria deles também um subsistema autopoiético.

Para retornar à analogia biológica, nos seres vivos, órgãos e tecidos são
elementos do sistema e guardam com este uma relação funcional. São produzidos pelo
sistema e cumprem, para a continuidade dele, um determinado papel (os rins fazem a
filtragem do sangue, etc.), que é referenciado externamente na totalidade do sistema. Os
subsistemas sociais, políticos, religiosos ou econômicos nascem com essa referência
51

exterior de sua funcionalidade para com a ordem social, que tem um centro na
organização de sua totalidade e que subordina seus diversos subsistemas. Entretanto, no
caso em que a sociedade tenha passado por um processo de diferenciação no qual alguns
desses subsistemas tenham evoluído no sentido de se tornarem auto-referenciados,
estar-se-ia diante de dois novos problemas. Primeiro, a sociedade ter-se-ia tornado
policêntrica, seu funcionamento já não seria dirigido por uma estrutura de poder
unitária, comandada por seu arranjo de poder político; em lugar disso, seus diversos
subsistemas coexistiriam organizados em torno de centros próprios. Segundo, seria
preciso encontrar uma explicação para o fato de a coevolução desses sistemas seguir
uma trajetória que preserva a unidade do todo social que fosse além de uma explicação
trivial com o recurso do acaso ou de uma ordem resultante da adaptação do sistema na
busca de um menor ruído em sua relação com o ambiente.

Théret lembra, em relação ao primeiro ponto, a dificuldade da maior parte dos


autores ligados à TR em aceitar o conceito de auto-referência, justamente pela
incapacidade de admitir a ordem social como policentrada, incompatível com sua visão
política de herança marxista. Em relação ao segundo problema, fazendo referência a
Teubner, ele diz:

“Este autor, efetivamente, esforçou-se, em relação ao direito, a resolver a


questão de entender como, a despeito da ‘autopoiese’ dos sistemas
sociais, um sistema pode exercer sua influência sobre outro além da
coevolução cega que, no entanto, permanece o princípio básico de um
modelo de ordem pelo ruído. Daí o fato de ele ressaltar a ‘coevolução
regulada’ que acrescenta ao jogo das auto-regulações de cada subsistema
na coevolução cega uma hétero-regulação de suas interdependências
cognitivas” (Théret, 1998, p. 228).

A chave dessa hétero-regulação é a abertura cognitiva dos sistemas


autopoiéticos, sua capacidade de autotransformar-se para adaptar-se ao meio e aos
outros sistemas com os quais produzem relações de interdependência. O sistema
econômico é assim, e é essa característica, que fascinou os economistas desde Adam
Smith, a responsável por suas crenças no “equilíbrio”, no “mercado” ou na “mão
invisível”, fantasias que vêm sendo usadas há mais de dois séculos para preencher a
lacuna de uma teoria científica capaz de dar conta das propriedades de auto-referência,
autoprodução e cognição do sistema econômico.
52

1
Isso não significa que a modelização matemática seja inútil ou equivocada. Com certeza, alguns
aspectos do sistema econômico podem e são melhor compreendidos com o uso da linguagem
matemática. Entretanto minha convicção é que o sistema como um todo não pode ser tanto explicado
quanto predito por um modelo determinístico, seja linear ou não-linear.
2
Pois essa adaptação é um processo exterior, uma mera mudança de um comportamento que não perde
suas características “racionais”, apenas modifica suas relações com o meio, sem se transformar.
3
É interessante lembrar que o conceito de vida e morte de Freud ilustra uma concepção convergente com
a que defendo aqui. Freud associou à vida o conceito de crise, em função dessa característica de
transformação permanente através da qual os indivíduos percorrem todas as idades e etapas de sua
existência. Por oposição, à morte corresponde o equilíbrio de uma volta ao estado inanimado. A idéia
polêmica da pulsão de morte representaria o desejo de encontrar a estabilidade, de libertar-se do
estresse da transformação permanente, só possível com o fim da vida (Freud, 1920).
4
Varela (1981) não aceita a extensão do conceito, preferindo descrever os sistemas sociais como
autônomos, pois as interações sociais não poderiam ser descritas como “produção de componentes”,
como as reações químicas do organismo vivo. Suas relações internas seriam do tipo acordos
lingüísticos ou troca de instruções, as quais possibilitam sua permanência e adaptação às circunstâncias.
Minha discordância em relação a essa posição será apresentada mais adiante.
5
Esse ponto está desenvolvido na subseção 1.2.
6
Infelizmente, a edição brasileira citada apresenta problemas de revisão. Em razão disso, alguns erros de
português permaneceram, os quais tomei a liberdade de, nas citações aqui feitas, corrigir sem
especificar formalmente.
7
É esse o método que inspirou, por exemplo, o muito citado e brilhante ensaio sobre o golpe de Estado de
Luís Buonaparte que proclamou o Segundo Império na França, em 1852 (Marx, 1853).
8
É interessante fazer duas anotações aqui em relação a algumas das versões mais conhecidas do
marxismo, as quais vou descrever, usando um termo de Wright et al., como fundamentalistas. Uma
primeira em relação à crença na superação do capitalismo pela planificação centralizada, que incorre no
mesmo equívoco da teoria neoclássica de considerar a sociedade homogênea, ponto ressaltado por
Aglietta (1997) ao lembrar a posição de Oskar Lange no debate mercado versus plano. Naquela
discussão, Lange demonstrou a igualdade de ambos, desde que admitida uma suposição de
homogeneidade, no caso as expectativas racionais, em vista da qual tanto a concorrência quanto o
planejamento podem ser “perfeitos” e, assim, perfeitamente substituíveis na medida em que levariam à
mesma e necessariamente única alocação ótima. A segunda versão apóia-se na crença em uma
causalidade em última instância da luta de classes. As análises que explicam tudo pela contradição
capital-trabalho caem no mesmo reducionismo do individualismo metodológico, pois, ao fim e ao cabo,
toda a explicação é reduzida a propriedades relacionais dos indivíduos.
9
Como tratarei de demonstrar mais adiante, a contribuição de Marx, ao definir como elemento
fundamental do sistema a relação social, resolve uma dificuldade em que ficaram presos Luhmann e
outros autores que aplicaram a teoria autopoiética à sociedade e definiram como componente
fundamental a comunicação. Foge de propósito discutir Habermas aqui, mas, em minha opinião, a
comunicação é um instrumento, um suporte da relação social, ao qual esta não pode ser reduzida,
mesmo quando, eventualmente, uma relação social possa se resumir a um ato comunicativo.
10
Quanto a esta última, vou discutir mais adiante a dimensão espacial da regulação.
11
Não estou esquecendo aqui que Braudel também definiu o capitalismo a partir da relação entre dinheiro
e poder, mas, como procurarei deixar claro mais adiante, essas definições são complementares e não
excludentes.
12
Marx não usa o termo relação de apropriação, fazendo referência apenas à norma da propriedade. A
origem do termo foi inspirada em Charles Bettelheim (1970), onde essa relação é chamada de posse
econômica.
13
Era assim que Marx chamava o ordenamento jurídico dos regimes constitucionais que instituíram o
direito civil moderno.
53
14
É, por exemplo, o caso da física, onde persiste uma incompatibilidade entre a teoria quântica e a teoria
da relatividade.
15
Mingers (1995) levanta outras críticas ao uso do conceito de “autopoiese” por Luhmann, que, no
entanto, são menos importantes aqui.
54

2 - AS DIMENSÕES DA ECONOMIA

“Echo de polvo y tiempo,


El hombre dura menos que la liviana melodia,
Que solo es tiempo.”
Jorge Luis Borges, El Tango.

2.1 - A dinâmica econômica e suas dimensões

As diversas culturas humanas, nos vários momentos de sua história,


experimentaram diferentes formas de se relacionar com as dimensões do espaço e do
tempo. Muito no começo, quando a raça humana se organizava em grupos nômades, a
idéia de espaço estava bastante distante das demais dimensões da vida social.
Desenraizada por força de sua vida itinerante, a comunidade humana não estabelecia
nenhuma relação permanente com o espaço territorial que apenas eventualmente
ocupava. A geografia era apenas um cenário onde a existência transcorria. Naqueles
tempos, a vida era só tempo.

Quando o que chamamos de civilizações teve início, há mais ou menos 10 mil


anos, o evento econômico que está em sua origem, a invenção da agricultura, trouxe
uma nova dimensão para a vida humana, o espaço. Com sua sobrevivência então
dependente de uma gleba de terra que pudesse cultivar, o homem se reencontrou com
sua origem, descrita na poesia bíblica como argila ou pó. A partir de então, as formas da
existência humana não mais deixaram de ter um referencial no espaço. Mais ainda,
parece que essa inclusão da dimensão espacial na vida social implicou uma mudança em
sua relação com a dimensão do tempo. Desde esses 10 mil anos atrás, a velocidade da
passagem do tempo parece vir se acelerando. É como se, ao longo da História, em cada
uma de suas fases, o tempo viesse transcorrendo cada vez mais rápido, como se a flecha,
uma vez arremessada, ao invés de vir se desacelerando, como prevêem as leis da
cinética, ganhasse uma velocidade cada vez maior. Desde o reencontro com sua origem
na poeira do planeta, a velocidade da existência humana vem aumentando. Como ensina
Borges, enquanto a vida era só tempo, assim como a música, durava mais.

Neste capítulo, vou tratar da relação entre a sociedade e as dimensões do espaço


e do tempo, dessa angústia que provoca o tempo, a correr cada vez mais rápido, e o
55

espaço ficando cada vez mais próximo. Uma primeira característica dessa relação já foi
referida no capítulo anterior, quando argumentei a respeito da unidirecionalidade do
tempo nas relações sociais: o fato, trivial do ponto de vista do senso comum, de que os
fenômenos sociais são irreversíveis e dependentes de outros fenômenos que tenham
acontecido com anterioridade. Uma segunda característica dessa relação é o estar em
mudança permanentemente, mudança com um sentido no qual a velocidade do tempo é
sempre crescente, e as distâncias no espaço são cada vez maiores. Essa característica de
um tempo que passa cada vez mais rápido e de um espaço em que os lugares parecem
cada vez mais próximos foi descrita por Milton Santos (1994), através do conceito de
aceleração, e por Harvey (1989), pela noção de compressão do tempo-espaço.
Segundo esse autores, a idade moderna e a sociedade capitalista que lhe deu forma
operaram uma brutal intensificação do processo de ampliação do espaço e aceleração do
tempo, que vem mudando a relação da sociedade com essas duas grandezas.

A tese que quero demonstrar aqui vê os processos de integração, dos quais um


dos resultados é a formação de blocos econômicos como o Mercosul, como um novo
estado em direção ao qual tendem os sistemas econômicos, numa transição que tem
produzido uma mudança nas dimensões espacial e temporal do sistema. Suas
determinações são o assunto deste capítulo.

É preciso compreender, antes de mais nada, o enorme impulso que essa


aceleração, para usar o conceito de Milton Santos, adquire sob a vigência do modo de
produção capitalista. Se ela já estava inegavelmente incluída como uma das
características do que chamamos civilização — as formas de organização social das
sociedades sedentárias que se estruturaram economicamente a partir da invenção da
agricultura —, o advento das relações mercantis e do capitalismo, a partir do final da
Idade Média na Europa, veio representar um decisivo salto nessa tendência.

“Acelerações são momentos culminantes na História, como se abrigassem forças


concentradas, explodindo para criarem o novo.” (Santos, 1994, p. 29). Nesses momentos,
as relações da sociedade com as dimensões do tempo e do espaço alteram-se, a
velocidade do tempo aumenta, e os diversos lugares se aproximam. Em sua explicação,
Santos insiste no papel da técnica como determinante desse processo, embora ressalve
que esta não pode ser uma explicação da História. Em sua concepção, a toda ordem social
corresponde um sistema técnico. Combinados em uma totalidade que ele chama de lugar,
as relações sociais — sob forte determinação das relações de produção, que são um uso
56

das invenções técnicas — e o sistema técnico definem as dimensões espacial e temporal


da vida social. “Na aurora da história, havia tantos sistemas técnicos quantos eram os
lugares. A história humana é igualmente a da diminuição do número de sistemas técnicos,
movimento de unificação acelerado pelo capitalismo.” (Santos, 1994, p. 49).

Ao mesmo tempo, a história humana é também a história da aproximação dos


lugares, movimento também extremado pelo capitalismo em sua lógica de expansão
através da acumulação do valor abstrato e da apropriação e subordinação do trabalho. O
processo dá-se por saltos que correspondem às acelerações, como desenvolverei a
seguir.

Tendo por base uma análise da dinâmica capitalista, Harvey (1989) descreve
esse fenômeno através do que chamou de ciclos de compressão do espaço-tempo, por
meio dos quais as barreiras geográficas vão sendo superadas, com o que o espaço vai
ficando contínuo, os diferentes ritmos de passagem do tempo vão se aproximando e sua
marcha vai ficando sincrônica. Nesse processo, aquilo que Santos chama de lugares vai,
cada vez mais, desaparecendo através da incorporação de todas as formações sociais ao
sistema econômico capitalista.

A argumentação de Harvey é no sentido da objetividade do espaço e do tempo.


Ele faz uma crítica à concepção que interpreta a mudança da relação entre a sociedade,
o espaço e o tempo não como um dado da objetividade, mas como um fenômeno
circunscrito ao nível da percepção que se tem dessas dimensões, já que seus padrões
seriam imutáveis. Seu argumento em contrário é assim apresentado:

“A objetividade do espaço e do tempo advém (...) de práticas materiais de


reprodução social; e, na medida em que estas podem variar geográfica e
historicamente, verifica-se que o tempo social e o espaço social são
construídos diferencialmente. Em suma, cada modo distinto de produção
incorpora um agregado particular de práticas e conceitos de tempo e
espaço” (Harvey, 1989, p. 189).

Seu argumento é reforçado pelas concepções do espaço e do tempo da física


contemporânea. Como meras dimensões, serão sempre dimensões de alguma coisa,
razão pela qual não tinham existência ou significado anterior à matéria. Em razão disso,
argumenta Harvey, o significado do espaço e do tempo só pode ser compreendido se se
levarem em conta os processos materiais, e “(...) somente pela investigação destes
57

podemos fundamentar de maneira adequada nosso conceito daqueles” (Harvey, 1989, p.


189). Este é um ponto central para o meu argumento: não apenas as concepções, mas a
existência objetiva do tempo e do espaço são criação dos processos materiais que
realizam a reprodução da vida social.

Avançando um tanto mais, vou recorrer a outro autor, Fernand Braudel, para
identificar o processo material determinante das transformações nas dimensões do
espaço e do tempo sociais sob o capitalismo. Num estudo da história do capitalismo
(Braudel, 1979), ele vai mostrar por que o desenvolvimento da instituição do mercado é
a determinação fundamental das transformações nas dimensões do espaço e do tempo
desse modo de produção. Minha leitura de seu argumento é a que segue.

A hoje tão onipresente instituição do mercado é o resultado de um longo


processo histórico de evolução do ato social da troca. Embora, generalizadamente, o
senso comum confunda mercado com capitalismo, o surgimento da relação mercantil na
sociedade humana, unidade fundamental do mercado, precedeu em cerca de dois
milênios a constituição do modo de produção capitalista. Foi no século VI a. C., nas
cidades jônicas da antiga Grécia, com o surgimento de um elemento fundamental, a
moeda, que o ato da troca assumiu uma nova qualidade e se transformou em relação
mercantil. Essa passagem resultou da instituição da necessidade de uma mediação, cujo
agente é a moeda, para a troca. A mediação foi, desde o início, arbitrada socialmente
por imposição do Estado através de uma nova função então inaugurada, a emissão de
moeda, o que mudou radicalmente o conteúdo do ato de troca, que era, até então, um ato
absolutamente particular e passou a ser uma instituição social. O significado dessa
arbitragem social feita pelo Estado é a atribuição de uma comensurabilidade universal
aos objetos trocados, um princípio de equivalência que se sobrepõe às considerações
particulares dos indivíduos diretamente envolvidos.

Foi necessário, entretanto, esse interstício milenar para que a relação mercantil
alcançasse seu pleno desenvolvimento nos tempos modernos e se constituísse em uma
das relações sociais fundamentais sob a égide do capitalismo. O modo de produção hoje
dominante em todo o planeta resultou da evolução da relação mercantil, da
transformação de relação social — que é a relação de apropriação — e do surgimento de
mais uma relação fundamental, a relação de assalariamento. A apropriação é a base da
divisão da sociedade em classes, específica do capitalismo, fundada no monopólio da
propriedade dos meios de produção pela burguesia. A partir dessa condição desigual, a
58

classe dominante pôde impor outra relação aos trabalhadores, o assalariamento, uma vez
que, como proprietários apenas de sua força de trabalho, após perderem o acesso à terra,
precisavam submeter-se aos ditames de quem detinha os meios de produção para
garantir sua sobrevivência. Essa relação constituiu-se no mecanismo de exploração e
apropriação do excedente na sociedade, na forma da mais-valia criada pelo trabalho
produtivo. Mesmo que não faça sentido estabelecer uma hierarquia dessas três relações
fundamentais, a relação mercantil tem, indubitavelmente, um papel conformador da
sociabilidade capitalista, como já havia percebido a investigação de suas raízes levada a
cabo por Marx e desenvolvida com o rigor que lhe era próprio na teoria do fetichismo
da mercadoria.

A gênese do modo de produção capitalista resultou do desenvolvimento dessas


três relações fundamentais, processo que Polanyi (1957) descreve com recurso às suas
três mercadorias fictícias: o trabalho, a terra e o dinheiro. Como procurei mostrar no
Capítulo 1, a apropriação pelo capital de cada uma delas vai, por sua vez, dar origem a
cada uma das três relações fundamentais. A posse do dinheiro vai possibilitar, pelo
estabelecimento de um princípio social de equivalência, o desenvolvimento da forma
especificamente capitalista da troca, a relação mercantil, e instituir o princípio regulador
do mercado, a lei do valor; a posse da terra, respaldada na norma da propriedade, institui
a relação de apropriação a partir da qual se constituem as unidades de capital e se
estabelece a concorrência entre elas; e a apropriação do trabalho cria a relação de
assalariamento e a forma capitalista de exploração do trabalho através da extração de
mais-valia. Uma vez instituídas essas relações, o sistema alcança o estado maduro de
seu desenvolvimento, fixando suas fronteiras e internalizando seu mecanismo de
regulação.

“(...) acumulai, acumulai, assim mandam Moisés e os profetas!” Com essa frase,
Marx (1857) sintetiza a lógica do capital, o fim último da sociedade regida pelo
fetichismo da mercadoria: a acumulação do valor abstrato, da riqueza pela riqueza, pois
essa é a forma como se acumula poder no capitalismo. Na maior parte das formações
sociais que se seguiram ao surgimento da civilização, a acumulação de poder esteve,
geralmente, mais ligada à expansão territorial, argumento defendido por Arrighi, ao qual
voltarei adiante. Sob o capitalismo, entretanto, a submissão do espaço pelo capital
prescinde de sua conquista política ou militar, embora possa, eventualmente, se servir
dela. O espaço social é submetido pelo capital quando a relação mercantil se sobrepõe
59

às demais relações sociais e institui sua sociabilidade quando sua vida é subordinada à
lógica da mercadoria, quando a acumulação da riqueza abstrata é a fonte principal de
poder, quando o fetiche da mercadoria envolve com seu véu todas as formas da
existência social.

A gênese do capitalismo é descrita por Marx em duas etapas, a primeira das


quais ele batizou de acumulação primitiva. Nessa fase, o capital habitava a esfera da
circulação e, através de seu domínio sobre a moeda, impôs a lógica da mercadoria à
circulação da produção que comandava, impulsionando a generalização da relação
mercantil. Na próxima fase, que levou à Revolução Industrial, o capital adentrou a
esfera da produção, apropriando-se de seus meios e desenvolvendo o que Marx chamou
de modo de produção especificamente capitalista, por meio da utilização do trabalho
assalariado dentro da fábrica no processo de criação do valor. Essa história pode ser
descrita, também, como fez Polanyi, com recurso da análise da evolução da instituição
do mercado desde suas origens, regulamentado por costumes e ordenamentos políticos,
até sua conformação à lei do valor, transformado em lugar da concorrência
intercapitalista e regido por um mecanismo auto-regulado. Este último passo
corresponde ao take off autopoiético referido no capítulo anterior, uma mudança de
qualidade do sistema em que este se torna auto-referenciado ao endogeneizar seus
mecanismos de regulação. Esse foi o processo secular de desenvolvimento do modo de
produção capitalista.

A relação mercantil existiu de forma rudimentar em interstícios da sociedade, ao


abrigo de mercados locais ou regionais, até tornar-se dominante sob a égide dos
mercados nacionais que predominam até hoje. Essa evolução na direção de espaços
cada vez maiores ocupados por um mesmo mercado, ou, dizendo de outro modo, na
direção de uma interconexão crescente entre mercados vizinhos, é, em geral, apreendida
como uma progressão linear resultante de um impulso originário inscrito no próprio
processo de desenvolvimento das relações mercantis, desde o seu ressurgimento nas
feiras medievais até a consolidação dos mercados nacionais contemporâneos. Esse
processo teria recebido um segundo impulso do crescimento do comércio internacional
ou de longa distância e de entrepostos privilegiados, como os portos e as encruzilhadas,
que, de forma paulatina, foram rompendo as barreiras feudais e patrocinando a livre
circulação de mercadorias. Em contraste com essa visão de uma evolução “natural”, tão
ao gosto do pensamento neoclássico que imagina a lógica da mercadoria como inscrita
60

na natureza do ser humano, Polanyi e Braudel descrevem o processo de formação dos


mercados nacionais como resultante de determinações que ultrapassam, em muito, os
movimentos espontâneos do sistema econômico.

Para Polanyi, a origem do mercado nacional deve ser buscada no “deus ex


machina da intervenção estatal”, pois “(...) nem o comércio de longa distância, nem o
comércio local foi o pai do comércio interno dos tempos modernos” (Polanyi, 1957, p.
77). Sua argumentação tem dois aspectos, sendo o primeiro a constatação de que tanto o
comércio internacional como o comércio local se organizavam em mercados cujo
princípio organizador não era a concorrência, base da auto-regulação capitalista,8 a
exemplo das feiras ou concessões ultramarinhas, mas o monopólio. Em segundo lugar, o
comércio local e o comércio de longa distância viviam uma contradição que opunha
seus direitos de monopólio em esferas impenetráveis. Para que as relações mercantis
alcançassem sua forma atual e introjetassem seu mecanismo regulador, foi necessária,
para além do poder econômico, a concorrência de uma força externa, oriunda do poder
político. Nas palavras de Polanyi, “(...) [n]a Europa Ocidental, o comércio interno foi
criado, na verdade, por intervenção do Estado” (ib.).

A posição de Braudel é semelhante, como se pode ver na passagem a seguir.

“Passar do mercado regional ao mercado nacional costurando juntas


economias de raio bastante curto, quase autônomas e muitas vezes
fortemente individualizadas, não tem, portanto, nada de espontâneo. O
mercado nacional foi uma coerência imposta ao mesmo tempo pela
vontade política, nem sempre eficaz na matéria, e pelas tensões
capitalistas do comércio externo e à longa distância. Em geral, uma certa
expansão das trocas exteriores precedeu a unificação laboriosa do
mercado nacional.” (Braudel, 1979, p. 255; 257).

Quer dizer, o poder econômico em ascensão, impulsionado pela acumulação de


riqueza no comércio, principalmente no comércio internacional, não foi capaz de,
isoladamente, promover a evolução do mercado; precisou da aliança do poder político, o
encontro do dono do poder com o dono do dinheiro, como disse Braudel. A partir dessa

8
Marx desenvolveu o conceito de lei do valor para explicar o processo de auto-regulação do sistema
econômico capitalista através da concorrência.
61

aliança — a coalizão de poder típica do mercantilismo —, ficou possível a formação do


mercado capitalista nas dimensões nacionais, pois o governante tinha condições de
impor ao espaço sob sua jurisdição, através do poder de legislar e regulamentar, o uso
das relações mercantis e das formas de concorrência capitalistas aos atos de troca
praticados dentro das fronteiras de seu território.

A criação desse espaço de auto-regulação governado unicamente pela lei do


valor só foi possível através da superação das barreiras internas e dos monopólios, num
processo que precisou vencer a oposição não só das burguesias urbanas que
controlavam os mercados locais, mas, também, dos monopolistas do comércio à longa
distância. Essa tarefa foi levada a cabo pelo Estado.

“A ação deliberada do Estado nos séculos quinze e dezesseis impingiu o


sistema mercantil às cidades e municipalidades ferrenhamente
protecionistas. O mercantilismo destruiu o particularismo desgastado do
comércio local e intermunicipal, eliminando as barreiras que separavam
esses dois tipos de comércio não competitivo e, assim, abrindo caminho
para o mercado nacional, que passou a ignorar, cada vez mais, a distinção
entre cidade e campo, assim como as que existiam entre as várias cidades
e províncias.” (Polanyi, 1957, p. 79).

Nesse sentido, o mercantilismo, diferentemente do que se pensa comumente, foi


um movimento predominantemente para dentro de constituição do mercado nacional e
de imposição do princípio de auto-regulação capitalista, a lei do valor. Os espaços fora
do território nacional permanecem, até os dias de hoje e em que pese o aprofundamento
da internacionalização, um território regido de fora pela ação dos Estados nacionais e de
forças monopolistas que controlam ou se apropriam de diferenciais de custos de fatores,
câmbio e tributos. Suas relações econômicas não estão fundadas na vigência de um
sistema de preços único e na tendência à equalização da taxa de lucro.

Outra questão importante de chamar atenção aqui é esse movimento de


internalização do mecanismo de regulação pelo sistema econômico que vai criar a
possibilidade de sua mudança qualitativa no sentido de vir a ser autocentrado, uma
condição necessária ao seu take off autopoiético.

De momento, importa ver como o processo de desenvolvimento da instituição


mercantil provocou uma mudança da experiência do espaço econômico, que tendeu a ter
62

suas dimensões cada vez mais ampliadas, na medida em que a maior circulação de
mercadorias permitia romper com as limitações da duração do ciclo produtivo local, e,
também, como provocou uma mudança na experiência do tempo, na medida em que a
ampliação das dimensões do ciclo econômico permitiu um aumento concomitante do
fluxo de informações, proporcionando uma maior velocidade aos processos sociais e
políticos, acelerando o próprio curso da História.

2.2 - O espaço

O espaço sempre foi uma dimensão importante para a relação mercantil. Em


seus primórdios, o ato da troca surgiu como manifestação amigável no encontro de
homens que vinham de lugares diferentes, dando acesso a valores de uso ou culturais e
simbólicos estranhos a cada sociedade. Nessas primeiras formas, a troca representava
um passo além das fronteiras do sistema econômico, uma forma de acesso ao que não
podia ser produzido domesticamente, uma ampliação do espaço econômico, cuja
dimensão possível esteve sempre condicionada pelo desenvolvimento dos meios de
transporte e comunicação. O progresso técnico teve, pois, um papel decisivo no
desenvolvimento dessa relação social, desde os conhecimentos geográficos
rudimentares que permitiram a Marcopolo conduzir suas caravanas ou do
aprimoramento da arte da navegação pelo Infante Dom Henrique até o estabelecimento
de lojas virtuais na internet, possibilitando a ampliação cada vez maior do espaço que se
pode alcançar pela troca.9 Conforme foi argumentado no Capítulo 1, existe aqui uma
determinação do desenvolvimento tecnológico influenciando a evolução das relações
sociais.

Antes do advento do capitalismo, entretanto, o espaço da troca era dado pelos


processos de deslocamento e expansão territorial das sociedades. A ampliação do
espaço estava, então, sujeita a uma lógica de acumulação de poder proporcionada pela
conquista de mais território, um argumento central da tese de Arrighi (1994). Os

9
Mais do que isso, aparentemente, as transformações tecnológicas atualmente em curso estão abrindo a
possibilidade de uma mudança mais radical ainda da relação entre economia e espaço. Como sugere o
exemplo das compras pela internet, o espaço mesmo pode tornar-se virtual. As implicações de uma tal
transformação ainda são pouco claras, embora os arautos da globalização já tenham anunciado o fim das
distâncias. É certo que a possibilidade, já concreta para alguns setores, da produção à distância e do
funcionamento de mercados e processos em tempo real indica uma tendência de transformação das
relações sociais, cujos desdobramentos deverão ter um largo alcance.
63

limites geográficos eram as fronteiras do poder político, e a expansão econômica — a


acumulação de riquezas — surgia como resultante da expansão territorial. O capitalismo
modifica essa situação: sob sua égide, a ampliação do espaço vai ser resultado do
desenvolvimento do mercado, de seu crescimento.

O marxismo clássico representava a relação do capital com o espaço através da


tese do desenvolvimento desigual e combinado, desenvolvida por Lenin e Trotsky ao
longo dos debates sobre o imperialismo no começo do século XX. Nesses debates, a
tese de Rosa Luxemburgo sobre o papel das “terceiras pessoas” era uma tentativa de
teorizar essa faceta expansionista do modo de produção, vista como a necessidade, para
esse modo de produção, da existência de uma economia externa que propiciasse uma
saída para os excedentes de capital e mercadoria impossíveis de serem realizados
internamente ao sistema. As contribuições de Hilferding e Bukharin, dentre outros,
ajudaram a situar esse caráter expansivo do capitalismo não no rol de suas fraquezas,
mas, ao contrário, como um movimento de reprodução ampliada do sistema, penetrando
os demais sistemas econômicos e transformando-os à sua imagem e semelhança em
direção à universalização de suas relações sociais.

Após a interrupção dessa discussão pela II Guerra, o tema foi retomado pelas
teorias do subdesenvolvimento e da dependência. Em que pese sua importância, esse
debate, entretanto, esteve circunscrito à tentativa de compreender o lugar da periferia no
sistema econômico mundial. 10 Apenas mais recentemente, Braudel, Wallerstein ou
Hobsbawm puseram o enfoque dessa temática na perspectiva da compreensão do
capitalismo como sistema mundial que tem uma relação muito particular com a
dimensão espacial.

No volume de sua obra intitulado O Tempo do Mundo, Braudel (1979) traça


um percurso da relação entre o desenvolvimento das relações mercantis e a
diferenciação dos espaços econômicos, onde mostra como o espaço se vai ampliando na

10
Um avanço importante do debate sobre a dependência foi a crítica à visão determinista, que via o
imperialismo como uma força exterior a prevalecer sobre os lugares da periferia. Ao contrário, sua
visão do regime internacional desvenda uma lógica a posteriori, como resultado da justaposição dos
diversos sistemas nacionais encaixados numa rede de relação construída entre si. É claro que, sendo
seus pesos absolutamente desproporcionais, uns podem mais e impõem condições aos demais.
Entretanto, como enfatizou Lipietz (1985), na maior parte das situações, as determinações internas são
as decisivas.
64

medida em que os mercados locais vão desaparecendo, fundindo-se na formação do


mercado capitalista. Dando atenção à importância e ao papel condicionante que a
evolução das técnicas representa para a História, cujo estatuto teórico desenvolvi no
Capítulo 1, Braudel também mostra o papel do desenvolvimento dos meios de
transporte e comunicação nesse processo. Vou seguir o mesmo percurso das suas idéias,
levando em consideração, em primeiro lugar, as formas precursoras do mercado.

A primeira dessas formas foi o mercado local, uma unidade econômica formada
por um burgo e as aldeias circunvizinhas. O espaço era delimitado pela necessidade de
os aldeães poderem se deslocar até o mercado e retornar a suas casas no tempo de um
dia. O mercado do burgo, onde a população resolvia suas necessidades de troca, era
controlado pelos comerciantes locais e funcionava em obediência à regulamentação do
poder político a que estava submetido. Os participantes eram concessionários com
direitos de monopólio e exclusividade sobre as atividades de circulação, produção e
troca de bens e serviços.

Braudel segue descrevendo como, um passo acima e adiante no tempo, esses


mercados locais se reuniram em mercados regionais ou provinciais constituídos a partir
da conformação de um sistema hierarquizado de cidades em que uma delas exercia o
papel de pólo dominante. Esses mercados regionais tinham como centro a economia
urbana, sua regulamentação garantia direitos de exclusividade à burguesia das cidades
dominantes, e sua dinâmica econômica englobava um espaço mais amplo, cuja
acessibilidade era possível através do sistema de estradas mantido pelos postos de
pedágio e pelas aduanas regionais, que possibilitavam a concessão das permissões de
transporte e fornecimento de mercadorias emitidas pelo senhorio detentor dos poderes
de arbitragem e regulamentação.

Também esses mercados regionais tenderam à estagnação, e a continuidade do


progresso econômico, do desenvolvimento das relações mercantis, cobrou mais um
ciclo de ampliação dos espaços, o que, num primeiro momento, como lembra Braudel,
foi logrado pela abertura ao comércio de longa distância e à circulação de moedas
estrangeiras. Essa penetração do espaço econômico provincial, entretanto, veio
exacerbar o conflito com os grupos burgueses urbanos, o que só acelerou o processo de
ruptura do isolamento regional. Em suas palavras:

“(...) com o desenvolvimento da economia e das relações a grandes


distâncias, certamente está ultrapassada a hora das excelências
65

provinciais. Seu destino a longo prazo é fundir-se numa unidade


nacional, sejam quais forem suas resistências e suas aversões” (Braudel,
1979, p. 265).

Nessa passagem, tem origem o mercado capitalista moderno, e uma nova


dimensão de espaço econômico constitui-se. O desdobramento dessa ampliação do
espaço resulta de uma dialética de unidade e contradição entre o Estado, de um lado, o
lugar do poder, e a zona urbana, de outro, o lugar da riqueza. Num primeiro momento,
surgiram em lugares diferentes, pois, nos séculos XV e XVI, quando nasceram os
primeiros Estados modernos (Portugal, Espanha, Inglaterra, França), as zonas urbanas
onde se concentrava a acumulação da riqueza estavam no eixo Itália—Alemanha, que
só presenciou a formação de Estados nacionais muito tardiamente. “Será necessário o
novo impulso econômico do século XVIII para que o ferrolho se solte e a economia se
ponha sob o controle dos Estados e dos mercados nacionais.” (Braudel, 1979, p. 266). O
encontro desses dois “lugares” forma uma díade em que as cidades são submetidas ao
poder central do Estado. Ao longo dos séculos seguintes, a constituição das democracias
representativas e a adoção por estas de políticas de governo liberais fez a balança de
poder voltar a pender para o lado dos donos da riqueza.

É importante reter que a constituição dos mercados nacionais não é apenas um


movimento de eliminação das barreiras internas aos fluxos de mercadorias e dinheiro,
uma mera expansão quantitativa do espaço geográfico. Mais que isso, é um processo
qualitativo através do qual a economia nacional se constitui como uma nova totalidade.
A construção desse novo espaço econômico vai englobar três níveis. Primeiro, o
mercado nacional como espaço contínuo da circulação mercantil da produção, portanto,
de constituição de um sistema econômico articulado com seus diferentes setores:
agricultura, indústria, comércio e serviços; mas também, e principalmente, o recorte
entre bens de produção e bens de consumo, com o conseqüente estabelecimento de uma
dinâmica interna de reprodução do sistema, em que esses dois setores se retroalimentam
na forma dos esquemas estudados por Marx. Segundo, um espaço unificado de
fiscalidade, com uma fonte de arrecadação baseada na circulação da produção
mercantil. E, terceiro, um espaço monetário único, desobstruindo a ação da lei do valor,
o fluxo de comércio e a própria cobrança de impostos.

Nesse processo, é possível identificar o surgimento das características que


permitem identificar o sistema econômico capitalista como autopoiético. Suas fronteiras
66

são definidas com a formação do mercado nacional; o sistema passa a produzir os


elementos que o constituem através da internalização dos esquemas de reprodução; seu
funcionamento torna-se auto-referenciado pela instituição e vigência da lei do valor.

Giovanni Arrighi (1994) é seguidor da tese de Braudel que relaciona o


desenvolvimento da relação mercantil e a ampliação do espaço do sistema econômico.
Seu argumento parte de um ponto ao qual já me referi acima: sob o capitalismo, o poder
provém da acumulação da riqueza abstrata e não do controle político sobre o território e
seu povo. Tendo em vista essa característica do modo de produção, Arrighi faz uma
distinção entre duas lógicas de poder: a do “capitalismo” e a do “territorialismo”. Seu
ponto de partida é a análise dos efeitos recíprocos da competição capitalista entre as
empresas e da competição interestatal pelos territórios. São dois modos opostos de
exercício do poder, assim descritos:

“Os governantes territorialistas identificam o poder com a extensão e a


densidade populacional de seus domínios, concebendo a riqueza/o capital
como um meio ou um subproduto da busca de expansão territorial. Os
governantes capitalistas, ao contrário, identificam o poder com a
extensão de seu controle sobre os recursos escassos e consideram as
aquisições territoriais um meio e um subproduto da acumulação de
capital” (Arrighi, 1994, p. 33).

O sistema econômico do capitalismo europeu proporcionou uma singular


simbiose entre essas duas lógicas, de que resultou a expansão mundial do colonialismo e
do comércio europeus e onde se estabeleceu um predomínio da expansão capitalista, à
qual esteve subordinada a lógica territorial. Na lógica capitalista, o novo espaço
conquistado deixa de ser “exterior” num certo sentido, pois é incorporado ao sistema
econômico como pertencente a um mesmo contínuo de reprodução das relações
mercantis, num primeiro momento, e, a partir do século XIX, das relações de produção
mesmas.

2.3 - O tempo

Desde a segunda metade do século XIX, quando o paradigma da mecânica


clássica foi trazido para dentro da ciência econômica pelos criadores da teoria
marginalista, a dimensão do tempo vem sendo maltratada pela maioria dos economistas.
Considerado apenas um eixo ao longo do qual se ordenam os diferentes estados de um
67

sistema ou os diversos valores assumidos por uma variável, da mesma forma como no
cálculo, o tempo fica reduzido a um rótulo de variável, é apenas um subscrito t + x.
Nessa condição, o que já foi referido acima, o tempo perde sua característica mais
importante, a irreversibilidade, o princípio de que tem uma direção, uma flecha.
Recentemente, o manifesto irrealismo do postulado neoclássico em relação ao tempo
tem provocado reações mesmo dentro do mainstream e suscitado toda uma nova linha
de investigação que leva em consideração a “dependência do caminho”. Infelizmente, a
recuperação do significado do tempo nessa perspectiva tem um alcance muito reduzido,
admitindo tão-somente a circunstância em que a ocorrência de um determinado evento
reduz o leque de possibilidades dos novos eventos.

Levar em consideração o tempo como dimensão do sistema implica abandonar a


idéia de que seria uma unidade de medida com referência exterior e dar-lhe o
significado de uma grandeza endógena, cujo tamanho ou velocidade são determinados
pelo próprio sistema. Esse é o conceito do tempo na física contemporânea desde a teoria
da relatividade (Hawking, 1988) e que já havia sido antecipado por Santo Agostinho
quando afirmou que o tempo era uma propriedade do universo criado por Deus. Nesse
sentido, é importante precisar, o tempo de que estou tratando é o tempo do sistema
econômico, como a idade de um ser vivo é o seu tempo de vida; todos esses tempos
sistêmicos subsumidos no tempo do universo. Da mesma forma que o tempo de uma
vida se materializa em suas idades, o tempo do sistema econômico é a medida de sua
evolução, a história de sua existência. Essa é a idéia de dinâmica aqui adotada.

Assim, se a dinâmica do sistema econômico é sua história de vida, interpretá-la


cientificamente requer não apenas o passo inicial de classificar e medir, identificando,
assim, suas diferentes idades ou etapas de existência numa abordagem empírica, mas
também explicar o processo causal responsável pela transformação do sistema manifesta
na diferenciação dessas etapas. No referencial teórico deste trabalho, encontram-se duas
abordagens que buscam explicar a dinâmica histórica do capitalismo a partir de uma
releitura de Braudel, aquela da escola da regulação, e, mais recentemente, a de Giovanni
Arrighi.

Para a Teoria da Regulação, a história do capitalismo é um processo de


sucessivos estágios de desenvolvimento que resultam da combinação de um dado
68

regime de acumulação com um determinado modo de regulação. 11 Os processos pelos


quais essas duas estruturas são gestadas foi descrito no capítulo anterior. Importa reter
aqui a dinâmica que se cria pela inter-relação dessas duas estruturas: os ciclos de
ascensão, auge e declínio a que são submetidos tanto os diferentes regimes de
acumulação como os diversos modos de regulação produzem a sucessão dos diferentes
estágios de desenvolvimento. Em razão dessa transformação continuada, o papel
estabilizador do modo de regulação para um dado regime de acumulação, que propicia o
período áureo de cada modo de desenvolvimento, tem uma vigência relativamente
breve, de apenas algumas décadas.

A Figura 2.1 mostra como essa dinâmica vem acontecendo ao longo da história
do capitalismo; a partir do advento de um novo regime de acumulação, na sucessão de
uma crise,12 um novo estágio inaugura-se. A dinâmica entre o regime de acumulação
novo e o modo de regulação anterior acaba por produzir uma nova crise, a qual abre
espaço para a instituição de um novo modo de regulação, adequado ao regime de
acumulação vigente, propiciando uma nova fase de expansão. Essa nova fase de
expansão, por sua vez, proporciona um período de auge do modo de desenvolvimento,
no qual a combinação virtuosa entre regulação e acumulação possibilita uma expansão
do regime até seus limites. Alcançado esse ponto, sobrevém nova crise, só resolvida
pela formação de um regime de acumulação novo, inaugurando novo estágio que
perdura até as contradições entre a regulação antiga e o regime novo forçarem, através
de nova crise, a formação de uma nova regulação, e assim por diante.

Para descrever melhor esse processo, vou tomar como exemplo o período
correspondente ao último modo de desenvolvimento, o fordismo. Conforme mostra a
Figura 2.1, suas origens podem ser encontradas na crise iniciada nos anos 70 do século

11
Para uma descrição dessa periodização, ver Aglietta (1976), Boyer (1986) e Boyer e Saillard (1995).
Em outro trabalho (Faria, 1997), faço um apanhado dos determinantes da expansão e do declínio do
modo de desenvolvimento fordista, quer em sua versão central, quer na forma como existiu na periferia.
Especificamente em relação a uma análise da economia brasileira, ver Faria (1996) e Conceição
(1989b).
12
Refiro-me aqui ao que a Teoria da Regulação chama de grande crise, ou crise da regulação, e não às
pequenas crises, ou crises na regulação, as quais são resolvidas sem necessidade de mudança estrutural
do sistema (Conceição, 1989a; 1989b; Faria et al., 1989).
69

XIX, a qual marcou o fim do regime de acumulação extensiva, que começou a ser
substituído por um novo regime, o intensivo, constituído a partir do surto de inovações
de então, que acabaram por propiciar a criação da linha de montagem, o uso da energia
elétrica, do motor à explosão e da indústria automobilística. Durante suas primeiras
décadas de existência, o novo regime conviveu com as formas institucionais do modo de
regulação concorrencial, herdadas do estágio de desenvolvimento anterior, com suas
características liberais: Estado não-intervencionista, moeda de padrão ouro, forma da
concorrência livre, relação salarial concorrencial. Numa primeira fase, que perdurou até
a crise de 1929, o novo regime vivenciou um período de crescimento impulsionado
pelas energias liberadas pelas inovações na esfera da produção, seja de produto, seja de
processo. Entretanto a contradição entre o novo na acumulação com o velho na
regulação acabou por provocar a Grande Depressão e a crise internacional decorrente. O
final dessa etapa, na Figura 2.1 denominada pré-fordismo, foi produzido pelas
mudanças políticas e institucionais dos anos 30 e da II Guerra, que acabaram por gerar o
novo modo de regulação monopolista e suas formas institucionais adequadas a sustentar
a expansão do regime de acumulação fundamentalmente em razão de sua capacidade de
desatar o nó da insuficiência de demanda efetiva resultante do arranjo de regulação
anterior. Para tanto, foi decisiva a contribuição das novas formas institucionais,
principalmente a do Estado intervencionista ou keynesiano, e a da relação salarial
fordista.

Entre o final dos anos 60 e o começo dos 70, o regime de acumulação intensivo
começou a dar sinais de esgotamento, manifestos em redução do ritmo de crescimento
da produtividade, a variável mais importante para o desempenho do sistema, e em queda
da taxa de lucro, com efeitos depressivos sobre o investimento. De lá para cá, uma série
de mudanças têm afetado os sistemas econômicos individuais e o arranjo internacional
dos mesmos, mudanças estas ainda difíceis de serem compreendidas em seus resultados,
o que será tratado ao final deste capítulo e que explica as interrogações ao final da
Figura 2.1.

Cabe ressaltar, entretanto, a identificação de uma regularidade nessa


periodização histórica. Há uma nítida defasagem temporal entre regime de acumulação
e modo de regulação; a funcionalidade entre ambos é um dado a posteriori. Isso pode
ser explicado a partir do mecanismo da gênese destas apresentado no Capítulo 1: as
ações resultantes das motivações e dos interesses dos agentes geram contradições
70

localizadas que se acumulam até proporcionar a transformação do paradigma


tecnológico e das formas institucionais que, por sua vez, moldam o estágio de
desenvolvimento. O que estou discutindo aqui é que as mudanças técnicas nos
processos de produção têm precedido temporalmente as mudanças institucionais, o que
permite afirmar que a interação entre essas duas esferas constitutivas dos sistemas
econômicos guarda uma precedência da esfera da produção, o que está de acordo com a
visão que Marx tinha do capitalismo e é algo bem diferente das versões de
determinismo econômico ou tecnológico que lhe são equivocadamente atribuídas.

Figura 2.1
Os estágios de desenvolvimento e os ciclos sistêmicos de acumulação

REGIME DE MODO DE ESTÁGIO DE CICLO SISTÊMICO


ANOS ACUMULAÇÃO REGULAÇÃO DESENVOLVIMENTO DE ACUMULAÇÃO

1450

1560 Ciclo genovês

Acumulação
primitiva
Regulação
1630 antiga Mercantilismo

Ciclo holandês

1780
Acumulação
extensiva Liberalismo Ciclo inglês
Regulação
1870 concorrencial

Pré-fordismo
1930

Acumulação
intensiva

1945 Regulação Fordismo Ciclo norte-americano


monopolista
1971
Pós-fordismo?

2000 Acumulação
flexível? ? ?
71

Na Figura 2.1, está justaposto um esquema dos ciclos sistêmicos de acumulação


de Arrighi, onde aparece, mais nitidamente, a idéia de aceleração do tempo pela duração
cada vez menor daquilo que ele chama de “séculos longos”. Em sua visão, a dinâmica
desses ciclos envolve, por um lado, a constituição de um centro para o sistema mundial
e, por outro, um processo de expansão e crise que corresponde a uma mudança da
hegemonia econômica, dada, na fase ascendente, pelo predomínio dos circuitos do
capital-mercadoria e do capital produtivo e, na fase de declínio, pela preponderância do
capital-dinheiro. A fase final de um ciclo coincide com a fase inicial do outro, dando
lugar a um processo através do qual o ciclo nascente tira proveito da expansão
financeira do ciclo anterior e carreia esses recursos para financiar a fase de expansão
material subseqüente, compondo com o movimento de deslocamento do centro
geográfico da acumulação mundial. Cada um desses períodos de transição tem início
com uma crise, que Arrighi chama de sinalizadora, e se encerra com outra, a crise
terminal, quando então o regime anterior deixa completamente de existir, e o
deslocamento da hegemonia mundial configura uma nova metrópole do capitalismo
internacional.

Uma marcada diferença entre as duas abordagens, o que, a meu ver, as torna
ainda mais complementares, é que, enquanto Arrighi segue os passos de Braudel e
centra sua análise num plano mais geral, aquele da ordem mundial (a economia-
-mundo), a Teoria da Regulação enfoca os sistemas econômicos nacionais, para os quais
o resto do mundo aparece como um fator de redução dos graus de liberdade das
trajetórias nacionais, pois que são, necessariamente, condicionadas pelo que chamam de
regime internacional. A semelhança encontrada em algumas trajetórias seguidas por
sistemas nacionais com níveis similares de desenvolvimento, como pode ser constatado,
por exemplo, nos estudos históricos que interpretaram o modo de desenvolvimento
fordista, vigente na maior parte dos países da Europa Ocidental e da América do Norte
desde o final dos anos 40, deve-se, unicamente, às tendências originadas internamente a
seus sistemas econômicos, semelhança que decorre da natureza capitalista comum a
todos esses sistemas nacionais e da proximidade de seus níveis de amadurecimento.
Uma mesma parecença pode ser encontrada entre os países latino-americanos que
seguiram trajetórias desenvolvimentistas, tema tratado nos próximos capítulos. 13

13
Isso não exclui a possibilidade de trajetórias singulares, como mostra o exemplo da Argentina, que
“desembarcou” do fordismo na segunda metade dos anos 50.
72

Na perspectiva deste trabalho, a economia-mundo é uma configuração de


sistemas autocentrados que estabelecem relações externas entre si, perspectiva, aliás,
presente nas formulações de Braudel, para quem o mundo era uma articulação de
mercados locais em suas trajetórias de expansão tanto territorial — ampliação de seus
espaço — quanto do alcance de suas redes de relações exteriores — a expansão da
economia-mundo. Assim, o regime internacional pode ser tanto uma combinação de
sistemas regionais, como o Mediterrâneo estudado por Braudel, quanto uma
configuração de sistemas nacionais, como a ordem mundial do Ocidente capitalista
durante a Guerra Fria, com sua articulação hierarquizada de três tipos de sistemas
econômicos nacionais: no centro, os países industrializados; numa primeira periferia, os
de industrialização recente ou dependente; e, na extrema periferia, os primário-
-exportadores marginais. A partir desse ponto de vista, o estudo da relação entre o
sistema econômico e a dimensão do espaço necessariamente tem por escopo não o
regime internacional, mas a evolução desses sistemas, que, ao longo do século XX, se
confundiram com a unidade política sobre a qual se exerce a soberania nacional, o
Estado-Nação. Entretanto, como procuro demonstrar neste capítulo, assim como nos
primeiros séculos da história do capitalismo os sistemas econômicos tinham dimensões
territoriais inferiores às das nações, muito provavelmente estejamos vivenciando um
momento de transição em que o espaço do sistema econômico começa a transbordar as
fronteiras nacionais através da formação de blocos econômicos regionais e continentais.
É o que tratarei a seguir.

2.4 - Os sistemas econômicos e o regime internacional

No Capítulo 1, argumentei em favor da caracterização dos sistemas econômicos


como autopoiéticos. Duas propriedades desse tipo de sistema foram consideradas, e
procurei, então, mostrar que estão também presentes nos sistemas econômicos. Um
sistema desse tipo é autoproduzido e autocentrado, isto é, produz os elementos que o
constituem — essa característica já havia sido antecipada e analisada por Marx através
do conceito de reprodução — e tem seu mecanismo de regulação internalizado — o
mecanismo automático do mercado, também já analisado por Marx quando formulou
sua lei do valor. Além disso, tem seus limites perfeitamente estabelecidos na forma do
conjunto de relações que o definem como uma unidade sistêmica separada do meio em
que existe e está em constante transformação e adaptação ao meio e à sua própria
evolução, para assegurar a continuidade de sua existência.
73

É necessário fazer uma diferenciação importante sobre o conceito de sistema


econômico aqui empregado, que se distancia de duas outras utilizações do termo usuais
na literatura; uma primeira, abstrata, que tem como escopo a análise do capitalismo
enquanto tipo de organização econômica da sociedade, onde a noção de sistema
descreve uma determinada configuração de relações entre conceitos (capital, trabalho,
etc.); e uma segunda que, embora concreta, é utilizada para descrever a economia
mundial (o “sistema capitalista internacional”), o conjunto dos sistemas econômicos
individuais justapostos e articulados, conjunto que, entretanto, não forma um sistema tal
como uso o termo. No que diz respeito ao primeiro conceito, a distinção é relativamente
auto-evidente, uma vez que se trata da diferença entre os níveis abstrato e concreto da
análise; já em relação ao segundo conceito, é necessário fazer um esclarecimento.

Seguindo a tradição da regulação, utilizo o termo regime internacional como


equivalente ao conceito de Braudel de economia-mundo: a configuração das relações
hierarquizadas entre os sistemas econômicos. A ordem dessa hierarquia é estabelecida
pela relação entre um centro hegemônico e um conjunto de espaços subordinados,
noção presente tanto no conceito de ciclos sistêmicos de acumulação de Arrighi como
na teoria da estabilidade hegemônica proposta por autores como Kindleberger (1973),
Keohane (1984) e Gilpin (1987), onde a “ordem internacional liberal” seria garantida
pela liderança de uma nação, o oposto de uma ordem imperial onde predominaria a
submissão pela força. Gilpin faz referência explícita a Gramsci, no sentido de captar o
conceito de hegemonia do pensador italiano, o qual abrange tanto o aspecto da
coerção — a norma legal e o uso da violência — como, principalmente, o do
consenso — cultura e ideologia dominantes.

Robert Cox (1986) faz uma crítica dessa teoria dizendo que o domínio de um
Estado pode ser uma condição necessária, mas não suficiente para a hegemonia. Em
uma teorização mais aprofundada e abrangente, demonstra que mais importante é a
estabilidade do regime internacional, a qual, na sua opinião, depende da configuração de
uma certa ordem material (o sistema produtivo e o potencial de destruição), da
prevalência de certas idéias (uma imagem coletiva da ordem mundial e as razões
intersubjetivas que induzem comportamentos e ações) e de instituições que sejam
instrumento da manutenção e da perpetuação dessa ordem. A constituição desse sistema
de hegemonia é um processo bem mais complexo, bastante instável, e depende das
relações entre os Estados e das forças sociais que determinam a ação desses Estados.
74

Em outras palavras, tanto para Cox como para os teóricos da estabilidade hegemônica,
não existiria um regime internacional puramente econômico, pois em sua formação,
necessariamente interviriam outras relações sociais, políticas e ideológicas. A
articulação entre sistemas econômicos só se realiza com o concurso dessas outras
esferas da vida social. Esse é um primeiro argumento em favor de não considerar a
ordem econômica internacional um sistema econômico, uma vez que tem determinantes
políticos, sociais e ideológicos tão ou mais importantes que os econômicos.

Num mesmo sentido, os regulacionistas vêm ao encontro das idéias de Cox


quando, ao definirem a forma institucional da adesão ao regime internacional, 14 dizem
que o processo de sua determinação depende, fundamentalmente, da vontade e da
possibilidade de fazê-la prevalecer, das forças sociais que atuam no plano interno de
cada país, condicionadas, na medida de sua capacidade de influenciar as decisões
internas, pelas forças que atuam no plano internacional. Nesse sentido, descartam tanto
a teoria das vantagens comparativas, em que os atores são as forças de mercado, quanto
a visão determinista de uma relação de dominação centro-periferia. A teoria clássica do
comércio internacional de inspiração ricardiana foi o primeiro exemplo do fracasso de
uma teoria econômica das relações internacionais, não por acaso superada no campo
neoclássico pelos mais recentes avanços da chamada economia política internacional.
No campo heterodoxo, sob inspiração keynesiana e, principalmente, marxista, as teorias
do subdesenvolvimento e da dependência também esbarraram nos limites de restringir
as explicações ao plano econômico lançando mão do conceito de divisão internacional
do trabalho. Ora, a divisão do trabalho surge como resultado do funcionamento auto--
regulado da economia, da alocação dos fatores entre os diversos ramos como
conseqüência da ação da lei do valor. A transposição desse conceito para o plano
internacional pressupõe um sistema mundial e a vigência da lei do valor no plano
internacional, uma possibilidade inscrita na natureza do modo de produção capitalista,
na tendência à ampliação do espaço que estou analisando neste trabalho, mas que
permanece, no entanto, no plano das possibilidades ainda não realizadas.

Uma visão mais prudente da ordem econômica internacional, como a defendida


pelos regulacionistas, precisa ser crítica da versão mais “dura” da teoria da dependência

14
Remeto o leitor à crítica do conceito de forma institucional da adesão ao regime internacional feito
mais acima e inspirada por Becker (1999).
75

e propugnar a idéia da autonomia relativa das nações, da existência de mediações no


plano internacional e do papel ativo dessas nações para se inserirem na divisão
internacional do trabalho. Benko e Lipietz (1995) colocam-se

“(...) contre les visions estrutucturalistes des théories ‘dépendantiste’ de


la division internationale du travail que faisaient dépendre les caractères
d'une région ou d‘un pays de sa place dans un espace englobant, [au
contraire] on soulignait la fragilité des ‘configurations internationales’,
et les dificultés de leur régulations, et surtout l'autonomie des espaces
englobés, icis les États nationaux” (p. 294).

Mistral (1986) descarta, além do determinismo dependentista, também a idéia


neoclássica de que a coesão da economia mundial pudesse ser resultado de um processo
de otimização do uso de recursos, para o qual a liberdade de comércio pura e simples
seria suficiente para garantir o crescimento e a prosperidade, como propõe a teoria
mainstream da economia internacional em seu apego ao paradigma ricardiano. E
apresenta uma definição de regime internacional, como a seguir:

“On définira un régime international comme une configuration des


espaces économiques et des leurs connexions fondées sur l'existence de
complementarités fermements établies et garantissant la progressivité de
l'accumulation de capital” (Mistral, 1986, p. 172).

Mais adiante, diz que o regime internacional tem uma lógica integradora, no
sentido de dirigir e canalizar as energias de crescimento do sistema econômico:

“[Il] opère ainsi comme un principe dominant d'articulation des espaces


économiques vis-à-vis duquel s'inscrivent les modalités d'adhésion de
chaque économie. Au sein d'un tel régime, la différentiation des espaces
est organisatrice parce qu'elle engendre des complementarités
favourables à l'accumulation au lie de susciter des concurrances
destructices” (p. 174).

É da própria lógica desse regime que uma forte tendência à uniformização dos
espaços se faça presente, ao mesmo tempo em que a característica de
complementaridade entre esses diferentes espaços esteja calcada em suas peculiaridades
e especificidades. Por essa razão, Mistral completa sua definição com as seguintes
palavras:
76

“Finalement, un régime international est donc un mode de


transformation des rélations économiques à l'échelle mondiale qui
permette leur aproffondissement à la fois globalement – en développant
les complementarrités entre nations – et localement – en limitant les
spécificités nationales à des varietés tolerables (grifo nosso)” (Mistral,
1986, p. 174).

Segundo Lipietz (1985), tanto o regime internacional como o modo de


desenvolvimento de cada país são “achados” históricos, na medida em que resultam de
processos multideterminados em que os resultados podem ser também múltiplos. Ele
chega a lembrar uma brincadeira de Engels sobre as teorias evolucionistas pré--
darwinianas, em que dizia que, se o determinismo fosse uma lei da natureza, seria
preciso pedir desculpas ao ornitorrinco.

Resumindo, o regime internacional é resultado da inter-relação dos sistemas


econômicos individuais que formam uma determinada configuração hierárquica entre si,
para a qual, necessariamente, intervêm outras relações sociais em sua determinação.
Entretanto não forma um sistema autocentrado, pois o que faz as vezes de centro é o
sistema individual hegemônico que comanda o regime internacional. 15 Da mesma forma,
não é auto-regulado, pois sua regulação é dada pela combinação da direção do sistema
hegemônico com as instituições constituídas para esse fim. Mesmo suas fronteiras não
são perfeitamente definidas, pois os espaços econômicos individuais aderem a ele ou
dele se retiram, quer por iniciativa própria, quer por coerção, em geral, do sistema
hegemônico, mas também de parte de outro sistema que assim aja. Em razão disso,
considero o regime internacional um outro tipo de sistema, sem as características que
fazem de suas partes, os sistemas econômicos, sistemas autopoiéticos.

15
Se fosse buscar uma forma de organização comparável na natureza, seria a de uma manada de
cavalos — aliás, já merecedora da atenção de estudiosos dos mercados financeiros —; um agrupamento
de sistemas autopoiéticos hierarquizado, com um macho adulto e mais forte como líder e uma rede de
relações entre os demais membros do grupo com papéis definidos para cada um (fêmeas em idade
reprodutiva, jovens machos, filhotes, etc.), mas que não chega a formar um sistema.
77

2.5 - Espaço e economia na aurora do século XXI

2.5.1 - A economia mundializada

Uma análise da presente conjuntura mundial do capitalismo deve,


necessariamente, partir do momento em que o estágio de desenvolvimento caracterizado
pelo fordismo, com seu regime de acumulação intensivo e seu modo de regulação
monopolista, chegou ao seu final. Num texto recente, Lipietz (1997) aborda as
transformações do modo de desenvolvimento através das diferentes alternativas de
mudança das relações entre capital e trabalho que se estão desenrolando em vários
cantos do planeta, numa tentativa de encontrar indícios que permitam desvendar um
novo regime de acumulação em gestação. David Harvey (1989) é um tanto mais ousado
e já arrisca identificar os contornos de um novo regime de acumulação, o flexível, a
partir da descrição de uma série de transformações em curso mundo afora, tanto na
esfera da produção como no plano institucional. Já no esquema interpretativo de
Arrighi, essa descrição pode servir como um mapa dos diferentes regimes em disputa
para inaugurar um novo ciclo sistêmico de acumulação, aquele que iria caracterizar o
século XXI como longo. Uma comparação entre traços típicos do fordismo com
algumas características já visíveis do que, acompanhando Lipietz, se pode chamar de
pós-fordismo vai permitir lançar uma luz sobre como vem se modificando a experiência
do espaço e do tempo nesse momento.

Antes disso, convém lembrar que, da mesma forma que em ciclos de compressão
do espaço-tempo anteriores, um impulso tecnológico torna possível às sociedades que
lhe têm acesso vivenciar essa mudança de relação com suas dimensões espacial e
temporal,16 principalmente em função da revolução dos meios de transporte e
comunicação. Isso não é um argumento em favor de uma teoria de determinismo
tecnológico da mudança social, do tipo “o estribo criou a Idade Média”, pois a mudança
técnica é que é socialmente dirigida, mas, uma vez realizada, condiciona a mudança
social de então para adiante. É assim que se criam as bases de um novo regime de
acumulação no sentido que dão a esse conceito as teses da regulação. Mais ainda, e para
encerrar essa digressão, no capitalismo industrial, o progresso técnico é endógeno, é
uma necessidade sentida pelos agentes econômicos decisivos para incrementar sua

16
Repetindo uma analogia com a física, como faz Harvey: uma situação de alta energia causa uma
deformação do contínuo espaço-tempo que comprime as distâncias e abrevia o transcurso do tempo,
mudando a percepção que se tem das dimensões, das viagens e dos lugares visitados. No espaço e no
tempo da história social, é como se o progresso técnico causasse uma circunstância de alta energia e
transformasse essas dimensões de acordo com o que prevê a teoria da relatividade. Essa realidade é
descrita por Santos (1994) através do conceito de aceleração.
78

posição na hierarquia de poder,17 o que faz sua importância e seu peso sobre a estrutura
social serem crescentes.

Desde o final dos anos 60 do século XX, alguns acontecimentos vieram se


sucedendo no sentido de modificar as bases sobre as quais se alicerçara a estabilidade da
“Idade de Ouro” do fordismo, como chamaram Marglin e Schor (1990). Em primeiro
lugar, a redução dos ganhos de produtividade, que foram o mais importante elemento
dinâmico daquele período, quebrou o círculo virtuoso que possibilitava ao crescimento
dos salários reais representarem um incremento de demanda funcional à expansão da
produção resultante da melhora na produtividade. Na década seguinte, os salários foram
vistos, junto com o gasto público, como as causas do crescimento da inflação.

Em segundo lugar, a quebra da estabilidade monetária e cambial, com origem na


inconversibilidade do dólar em 1971 e agravada pela inflação, minou uma das formas
institucionais responsáveis pela regulação de conjunto do sistema. Era o segundo pilar
do modo de regulação a ruir, após a relação salarial. Mais ainda, tentativas de políticas
anticíclicas foram levadas a cabo ao longo dos anos 70 pelos governos social-
-democratas e assemelhados que chegavam ao poder, na Europa, na esteira de uma
crescente insatisfação com a crise econômica. Keynesianamente fundadas na expansão
do déficit público, essas políticas fracassaram em meio ao crescimento da inflação.
Diferentemente do que ocorrera nos anos 30, antes de provocar uma reação das
empresas no campo das quantidades, as ações do Estado tiveram resposta em aumentos
de preços, o que acabou por colocar a inflação no centro da discussão da política
econômica. Um terceiro pilar das formas institucionais da regulação, o Estado e sua
política econômica, também começava a ruir.

A crise do fordismo abriu espaço às mudanças políticas dos anos 80, que
resultaram no advento do neoliberalismo, primeiro na Inglaterra e nos EUA, depois
disseminado pelo mundo. Algumas das características do que veio a ser chamado de
globalização são resultado das decisões políticas tomadas nesse movimento, a mais
importante das quais foi a desregulamentação dos mercados financeiros e a liberalização
dos fluxos internacionais do capital-dinheiro (Tavares; Fiori, 1997). Isto é, antes de
resultar de um impulso espontâneo dos mercados, como quer fazer crer a historiografia
mainstream, foi, como disse Braudel, no andar de cima, onde se encontram o dono do

17
Penso, até certo ponto de forma semelhante a Lipietz (1983), que o progresso técnico não é resultado da
concorrência entre os capitais, mas, antes, da contradição fundamental entre capital e trabalho, pois é a
necessidade de ampliar seu controle e dominação sobre a força de trabalho que impõe à empresa a
necessidade de adotar a mudança tecnológica. A concorrência, embora seja, muitas vezes, a motivação
aparente para a inovação, ao fim e ao cabo, age como mecanismo de seleção a favor daqueles capitais
que desenvolveram maior capacidade de submeter o trabalho.
79

poder e o dono do dinheiro, que a história foi decidida. Essa circunstância veio se
combinar com o que acontecia na esfera da produção, onde a redução dos ganhos de
produtividade estreitara a oportunidade de novos investimentos18 e tornara possível o
inchaço do capital-dinheiro,19 criando uma saída para o excedente que não encontrava
aplicação como capital produtivo. Na esteira dessa internacionalização financeira, veio
não apenas um crescimento dos fluxos comerciais entre os países, mas, principalmente,
uma crescente internacionalização da propriedade do capital produtivo, esta muito
impulsionada pela avassaladora onda de privatizações e de fusões e incorporações e pela
internacionalização de importantes cadeias produtivas. Mesmo economias baseadas em
estruturas tão rígidas como a dos keiretsos japoneses ou a dos chaebols coreanos
sofreram forte impacto através de mudanças da propriedade do capital. Uma quarta
forma institucional da regulação sofreu o abalo desse vertiginoso processo de
transformação na hierarquia dos capitais, a forma da concorrência.

O processo apenas rascunhado acima tem vários desdobramentos possíveis,


seguindo-se as linhas evolutivas desenhadas na Figura 2.1. Não apenas em razão da já
mencionada redução dos ganhos de produtividade, são visíveis os indícios do
esgotamento do regime de acumulação intensiva e também as fortes evidências
reveladas pela onda de inovações em curso, com desdobramentos, seja sobre a
configuração da estrutura produtiva, no sentido em que novos produtos e setores a ela
estão sendo agregados, seja sobre o modo como se produz, em razão das mudanças de
gestão e organização que estão pondo novas relações de trabalho no lugar da linha de
montagem fordista. A combinação desses dois fenômenos pôs em andamento um
processo que deverá culminar com a substituição da acumulação intensiva por um novo
regime, ao qual Harvey já pôs o apelido de flexível.

Por outro lado, mesmo que seja razoável admitir os abalos nas formas
institucionais da regulação recém-referidos, não é improvável que alguns ajustes
possam dar-lhes uma sobrevida razoável. Se assim acontecer, uma vez mais a
regularidade assinalada mais acima, de a substituição do regime de acumulação ser
desencadeada por uma grande crise aberta pelo esgotamento do regime anterior
acontecer sob a vigência do mesmo modo de regulação que permanece, estará se
repetindo. Se for o caso, será necessário o decorrer de mais algumas décadas até que o

18
A onda de inovações que se iniciou então e persiste ainda, embora tenha oportunizado investimentos
localizados em diversos setores, ainda não foi capaz de fazer desaguar a imensa massa de capitais
retida na forma dinheiro.
19
Essa circunstância impulsionou o processo de financeirização da riqueza, como diz Braga (1997), uma
nova forma de relação entre capital produtivo e intermediação financeira que modifica a maneira de
gestão dos ativos, seu conteúdo e a forma de realização de seu valor.
80

modo de regulação se esgote, dando origem à nova crise, a qual, por sua vez, só se
resolverá pela constituição de novas formas institucionais articuladas em novo modo de
regulação, quando, então, uma idade de ouro da “acumulação flexível” terá seu tempo e
seu lugar.

A história do capitalismo mostra que, embora as características estruturais que


identificam o sistema permaneçam, cada grande crise do tipo mencionado aqui agrega
transformações profundas a essas economias. E sempre essas transformações
apresentam diversos aspectos, tecnológicos e econômicos strictu sensu, sociais,
políticos e institucionais; em alguns momentos predominam uns, ora, outros. Os
acontecimentos mais visíveis nessa conjuntura de mudança de século, que o senso
comum apreende sob o rótulo de globalização, compõem um processo de transformação
na maneira de existir do modo de produção capitalista que repica em todas as formações
sociais submetidas à sua influência, o que hoje quer dizer, quase literalmente, todo o
globo. A análise dessa realidade tem ocupado, como não poderia deixar de ser, um
grande número da autores e diz respeito ao objeto desta tese. Preservando a economia
de espaço e o interesse pelo objeto principal do trabalho, vou apenas referir,
esquematicamente, a linha de raciocínio que tem um ponto de partida em Braudel, passa
pela Teoria da Regulação (Aglietta, 1997) e chega até Arrighi, Tavares e Fiori (1997) e
Fiori (1999).20

Três são as direções em que o modo de produção capitalista está-se


transformando. Uma primeira situa-se no circuito do capital-dinheiro e pode ser descrita
como um inchaço do capital financeiro e como uma hegemonia do dinheiro sobre as
outras formas do capital no processo de valorização. A segunda tem lugar no ciclo do
capital produtivo, nas mudanças da relação entre o trabalho e o capital, e aparece sob a
forma de uma abstração do trabalho concreto e da eliminação do trabalho abstrato. Já a
terceira corresponde ao núcleo desta tese, a mudança da dimensão espacial do sistema
econômico.

2.5.2 - A mudança na dimensão espacial do sistema

O modo de desenvolvimento fordista, como já foi referido, foi formado pelo


regime de acumulação intensivo combinado com o modo de regulação monopolista e se
estruturou tendo por base o espaço econômico do mercado nacional. Uma vez que a
escala dos investimentos, principalmente no setor de bens de produção, que era o

20
Uma síntese da leitura desses autores e de outros mais com vistas a formular uma interpretação dos
aspectos mais importantes das mudanças em curso no cenário internacional está em Tauile e Faria
(1999).
81

segmento líder da estrutura produtiva nesse regime, foi, desde o início, muito grande,
apenas países também grandes lograram constituir sistemas econômicos integrados
dentro de suas fronteiras nacionais no sentido de realizar a quase-totalidade das relações
dinâmicas intersetoriais dentro de suas fronteiras. A industrialização de países pequenos
sempre esteve associada a um coeficiente elevado de abertura de suas economias,
indicando que uma parte das relações intersetoriais se realizava além fronteiras,
internacionalizando, ou melhor, regionalizando, assim, o circuito do capital produtivo
em processos de integração com vizinhos também industrializados. Essa circunstância,
ficou particularmente evidente na Europa do pós-guerra, em países como Bélgica ou
Holanda, mas também esteve presente em outras regiões industrializadas, como o Leste
da Ásia ou a América do Norte.21 Dessa circunstância, pode-se descrever a dimensão
espacial do fordismo como fundamentalmente nacional, como no regime extensivo, mas
com uma importante projeção regional. Essa projeção regional explica a precocidade do
processo de integração europeu como um produto ainda do fordismo.

Se, em relação à acumulação, já foi possível detectar um movimento de


alargamento do espaço econômico, muito menos é visível em relação à regulação, que
seguiu sempre tendo uma característica nacional, inclusive aprofundada pelo fordismo.
A dissolução dos impérios coloniais característicos do modo de desenvolvimento
anterior, que corresponde ao ciclo britânico de Arrighi, fez do Estado nacional a
unidade política e econômica por excelência dessa etapa histórica (Hobsbawm, 1994), o
que implicou, necessariamente, a nacionalização das formas institucionais que formam
os modos de regulação. O grau de desenvolvimento desses arranjos nacionais
permaneceu sempre muito variado, mas, na medida em que o objetivo de todos era
impulsionar o crescimento econômico, identificado com a adoção do padrão industrial
norte-americano, instituíram-se as formas institucionais próprias de modos de regulação
nacionais voltados para a estabilização dos processos de acumulação de capital de cada
economia. Se alguma transposição foi realizada, os achados permaneceram

21
No caso latino-americano, diferentemente das regiões citadas, essa internacionalização da estrutura
produtiva não se deu com os vizinhos, mas, reafirmando laços históricos de dependência, foi feita com
países do centro capitalista, mormente os EUA, em que pese a precocidade dos projetos de integração
regional que, entretanto, apenas na década de 90 começaram a ser efetivamente implementados. Nas
teses da CEPAL, a Associação Latino-Americana de Livre Comércio (ALALC), por exemplo, poderia
servir de base para a continuidade da industrialização por substituição de importações, justamente no
sentido aqui referido de propiciar escala suficiente para o desenvolvimento do setor de bens de
produção. O insuficiente desenvolvimento desse setor tem sido usado como característica principal do
subdesenvolvimento pela maior parte dos autores que se dedicam ao tema, sejam dependentistas,
marxistas ou estruturalistas.
82

fundamentalmente nacionais, resultado do jogo das forças políticas internas de cada


país.22

A ordem mundial instituída sob a hegemonia dos EUA patrocinou o ambiente


em que cada economia nacional constituía sua modalidade de adesão ao regime
internacional seguindo os padrões de paridades cambiais fixas, elevado grau de
proteção no comércio exterior, controle de organismos internacionais (FMI, BIRD)
sobre fluxos de capital financeiro — fundamentalmente estatais — e sobre o equilíbrio
dos balanços de pagamentos. Esse arranjo internacional reforçou o caráter nacional dos
modos de regulação. Tudo isso começou a ruir desde o começo dos anos 70, quando a
crise econômica e a desestruturação da ordem mundial marcaram, para os
regulacionistas, a crise final do fordismo e, para Arrighi, a crise sinalizadora que
anuncia a fase do declínio do ciclo da acumulação norte-americano.

No mundo do pós-fordismo, é perceptível um sentido no movimento de


transformação desse estado de coisas. Um cluster de inovações tecnológicas
(microeletrônica, novos materiais, novas formas de organizar o processo produtivo) e
um vertiginoso movimento de mudanças políticas (fim da URSS, fim do Welfare State)
dão lugar a um novo ciclo de compressão do espaço-tempo de Harvey. Para o que me
interessa aqui, dois desdobramentos são significativos. O primeiro deles é o
aprofundamento de uma tendência que já vinha se manifestando no fordismo, de
aumento da interdependência econômica regional, que está a indicar um processo de
crescente extroversão dos regimes de acumulação nacionais, o qual sinaliza para,
talvez, uma característica provável do novo regime, a perda de importância do mercado
de massa estável para a reprodução do sistema (Becker, 1997). Até que ponto essa
tendência vai se desenvolver no sentido da construção de regimes de acumulação de
base supranacional, transformando, definitivamente, a dimensão espacial dos sistemas
econômicos, ainda é uma questão em aberto. Sua resposta depende do próprio avanço
dos processos de integração em marcha, da pioneira União Européia até o bloco do
Pacífico, passando, inclusive, pelo Mercosul, bem como do próprio avanço das
transformações no mundo do trabalho e da produção que cheguem a construir um novo
sistema produtivo (Musacchio, 1997).

O segundo desdobramento dá-se no plano da regulação e foi caracterizado por


Becker (1997) como deslocamento dos níveis da regulação, na medida em que, seja

22
Apenas quando esse processo se completa e as estruturas da regulação passam a se auto-reproduzir,
completa-se o processo de mudança qualitativa dos sistemas e estabelece-se o conjunto de
características que permitem seu take off autopoiético. Seus processos fundamentais passam a ser auto-
referenciados e autoproduzidos.
83

através da criação de organismos supranacionais, como no caso da Europa, seja pela


pressão internacional, o modo de regulação passa a ser instituído de fora do espaço
nacional. Esse processo está ocorrendo em conjunto com um reordenamento hierárquico
das formas institucionais da estrutura, sendo, talvez, onde apareça uma distância maior
em relação ao fordismo. Os modos de regulação nacionais típicos desse modo de
desenvolvimento conformaram a tecitura de sua rede de instituições (Lipietz, 1985) sob
uma ordem hierárquica que foi determinada pela trajetória das lutas e dos conflitos
sociais de cada país independentemente, a cena internacional atuando unicamente como
um dado de restrição, com a intensidade correspondente à posição de cada país na
ordem internacional. Para alguns, a relação salarial ocupou o lugar central do modo de
regulação (EUA), para outros, foi a forma do Estado (França).

A integração econômica que se configura nos blocos regionais leva à


necessidade da criação de formas institucionais no nível regional também, sendo a
União Européia o exemplo até agora mais avançado. A mobilidade dos capitais cobra
um forma da concorrência uniforme; a relação salarial precisa adaptar-se às
necessidades de redistribuição geográfica dos postos de trabalho; a forma do Estado tem
de se adaptar às necessidades de uniformidade tributária, de regulamentação e de gasto;
a adesão ao regime internacional passa a ser mediada pela nova unidade geográfica; e,
por fim, a restrição monetária precisa ser capaz de viabilizar a ação da lei do valor no
novo espaço construído, propiciando a formação de um sistema de preços uniforme
regido por uma moeda única.

Um problema de difícil solução, no entanto, coloca-se, decorrente da dialética


capitalismo/territorialismo de que fala Arrighi: o processo de acumulação de poder
pelos governantes nas democracias representativas, ligado ao espaço da nação e
dependente dos pactos sociais que dão origem às formas institucionais, está em
contradição com a necessária redução de soberania do Estado nacional que esse
deslocamento dos níveis de regulação exige. O que se tem revelado, por enquanto, é que
as novas formas de regulação supranacionais em gestação, e o exemplo da Europa é
novamente significativo, têm sido constituídas com vistas a contemplar quase
exclusivamente os interesses dos donos do dinheiro, que são quem, ao longo da história
do capitalismo, tem maior liberdade de movimentos no plano internacional. A
representação dos interesses dos demais grupos sociais custou sempre mais a se fazer
presente todas as vezes em que a referência do espaço se reorganizou numa escala
maior. É por isso que a mudança de hierarquia entre as formas institucionais tem tido o
sentido de tornar predominante a moeda. A estabilidade política de um modo de
regulação assim tão excludente é duvidosa, pelo menos nos marcos da democracia
representativa. Como já mostrara Polanyi, o capitalismo, para ser viável historicamente,
não prescindiu de que se instituíssem sistemas de proteção social no sentido de impedir
84

a ação dos mecanismos autodestrutivos do mercado sobre a sociedade. Parafraseando o


Marx da Crítica ao Programa de Gotha, o capitalismo foi “rudemente educado pelo
povo”.

Voltando a Arrighi, esse predomínio da forma institucional da moeda também


pode ser lido como indicador daquela fase de expansão financeira que marcou
historicamente o ocaso dos ciclos sistêmicos de acumulação. Globalização e
financeirização, dois nomes da moda, não seriam mais do que as caras atuais de um
momento da existência do capitalismo que está se repetindo pela quarta vez na
História — um período em que a balança de poder se desloca do capital produtivo para
o capital-dinheiro — e significa, antes do seu triunfo, a eclosão de suas mais arraigadas
contradições e a reafirmação de seus mais profundos desígnios, a acumulação da
riqueza abstrata. Nesse caminho, e como nos outros momentos da História, a dimensão
espacial do sistema amplia-se em conseqüência de suas transformações internas.

Em seqüência, vou procurar mostrar como os sistemas econômicos do Cone Sul


da América Latina vêm experimentando essa mudança de sua dimensão espacial em
meio à crise que pôs fim ao modo de desenvolvimento que vinham seguindo desde os
anos 30. Esse modelo representou uma trajetória peculiar de transição desde uma
situação de economias primário-exportadoras extrovertidas, que não chegavam a se
constituir em sistemas auto-referenciados e autocentrados, até se transformarem, em
diferentes graus, em economias urbano-industriais, com um mecanismo de reprodução
internalizado centrado no mercado doméstico. Essa foi a forma peculiar de essas
economias seguirem os ventos de crescimento que, nos países centrais, tomou a forma
de fordismo e, no Continente, respondeu pelo nome de nacional-desenvolvimentismo.
Seu esgotamento foi seguido pelo processo de integração econômica regional iniciado
com a criação do Mercosul e segue à sombra da Área de Livre-Comércio das Américas
(ALCA), através do qual se compõe a dimensão espacial dessa trajetória de
transformação.
85

3 - O TEMPO E O ESPAÇO NO CONE SUL

“Hicieron una linea negra:


‘Aqui nosotros, porfiristas
de México,’caballeros’
de Chile, pitucos
del Jockey Club de Buenos Aires,
engomados filibusteros
del Uruguay, pisaverdes
ecuatorianos, clericales
señoritos de todas partes’.

“‘Allá vosotros, rotos, cholos,


pelados de México, gauchos,
amontonados en pocilgas,
desamparados, andrajosos,
piojentos, pililos, canalla,
desbaratados, miserables,
sucios, perezosos, pueblo’.

“Todo se edificó sobre la línea.”


Pablo Neruda, Canto General.

O descobrimento da América e a ocupação econômica de suas terras foi um


episódio da expansão comercial européia, uma resposta ao bloqueio de suas rotas
terrestres pelos turcos após a queda de Constantinopla. Essa afirmação aparece nas
primeiras linhas da Formação Econômica do Brasil, de Celso Furtado (1959), obra
que, em diversos sentidos, é inspiradora deste trabalho. As grandes viagens do
descobrimento, de que esse episódio fez parte, foram impulsionadas pelo surgimento
das relações sociais capitalistas que então apenas iniciavam a predominar naquele
continente. Representavam algo que, então, acontecia por primeira vez na História e era
a manifestação da uma tendência inerente a esse modo de produção — seria, na
linguagem de hoje, a chamada globalização —, a expansão internacional das relações de
produção. Esse movimento, num primeiro momento, articulou para, mais adiante,
incorporar sistemas econômicos e sociais independentes aos circuitos de reprodução
ampliada do capitalismo.

Os primeiros europeus aqui chegados vinham em busca de riquezas para


abastecer o crescente fluxo de mercadorias que fundava a acumulação primitiva do
86

capital. Para tanto, organizaram seus empreendimentos coloniais. Em razão da


aniquilação das civilizações pré-colombianas e do quase total desaparecimento de sua
herança, de fato, a história da América foi moldada quase exclusivamente pelo
capitalismo desde o descobrimento. Uma circunstância bem diversa viveu a Europa,
onde esse modo de produção foi uma invenção original nascida dentre os conflitos
sociais que emergiram durante a decadência do feudalismo. As novas relações de
produção foram sendo instituídas nos interstícios da ordem feudal por obra da invenção
de pessoas que, de alguma forma, alcançavam escapar da condição de servidão. Desde
então, e por séculos, os dois modos de produção conviveram naquele continente numa
relação que oscilou entre a sinergia e o antagonismo. Essa circunstância não se repetiu
no Novo Continente, onde a relação entre o capitalismo e outros modos de produção foi
muito diferente.

Enquanto, no Velho Continente, como mostrou Braudel (1979), as relações


sociais não capitalistas impunham barreiras à acumulação de capital, a exemplo da
cobrança de direitos de passagem onerando a circulação mercantil, na América, a
situação foi diversa. Tanto a escravidão brasileira quanto as encomiendas que
submetiam incas e astecas ao trabalho servil, embora diferentes do trabalho assalariado
típico das relações de produção capitalistas, foram criações do capital a este
subordinadas. Isto porque, como mostrou Furtado (1959), a empresa colonial lançou
mão dessas outras relações de trabalho não por qualquer perversão moral, mas em razão
de serem a forma mais econômica de suprir suas necessidades de mão-de-obra. A lição
que a História ensina desse período é que a hegemonia dos sistemas econômicos
americanos esteve nas mãos do capital desde o início da colonização.

Em razão dessa diferença do peso das relações sociais capitalistas no


desenvolvimento econômico americano, as duas tendências características da evolução
desse tipo de sistema social descritas nos capítulos precedentes necessariamente
deveriam marcar a trajetória das economias latino-americanas. Tanto a permanente
transformação da dimensão espacial no sentido da ampliação de sua base territorial
quanto a trajetória em direção ao desenvolvimento de propriedades autopoiéticas
estiveram presentes na história econômica da América desde suas origens. Da mesma
forma, a aceleração do tempo, característica da dinâmica histórica do capitalismo,
também se fez presente na América Latina, perceptível na duração decrescente de cada
um dos três grandes períodos de sua história analisados a seguir: colonial, primário-
87

-exportador e da industrialização por substituição de importações. Este capítulo vai


tratar de realizar um apanhado bastante pontual através da história dos países do Cone
Sul com vistas a identificar os momentos mais decisivos de sua trajetória e verificar
neles o desenrolar dessas tendências. 23

Sem sombra de dúvida, o que mais chama atenção nesse percurso da história
de nossos países são as semelhanças. De um lado a “linha negra” referida por
Neruda, o peso da desigualdade oprimindo quase dois séculos de independência e
cuja episódica contestação recebeu sempre a resposta violenta da intolerância. De
outro lado, uma trajetória em direção à modernidade e ao desenvolvimento, que
combinou sempre a criação do novo e a preservação do velho, a oligarquia rural
convivendo com a indústria, a democracia política com a exclusão social. A história
dos países do Cone Sul no século XX tem como ponto de partida uma situação
similar — uma base econômica primário-exportadora —, segue um mesmo caminho
de urbanização e industrialização — embora com graus diferentes de
desenvolvimento — e sofre um mesmo tipo de esgotamento e crise. Apenas os
tempos em que essas tendências foram se manifestando em cada formação social
nacional parecem divergir.

3.1 - Antecedentes

Portugal e Espanha esperaram décadas até que pudessem tomar posse da


América. No começo da epopéia do descobrimento, os dois países imaginavam estar

23
A redação deste capítulo só foi possível após uma opção que assumiu conscientemente um risco: ousar
realizar uma análise de um período tão longo da História deixando, deliberadamente, de aprofundar-se
e posicionar-se sobre a riqueza das diversas interpretações de seus episódios mais relevantes. Nessa
opção, realizei um conjunto de recortes em sua trajetória temporal, através dos quais circunscrevi a
análise ao único propósito de identificar em seu movimento de longa duração (como diria Braudel)
apenas aqueles fatos relevantes para a compreensão do percurso desses sistemas econômicos e sociais
no que concernia à evolução de um restrito conjunto de suas características, a saber: o eventual
desenvolvimento de propriedades autopoiéticas e a mudança em sua dimensão espacial. Como procurei
demonstrar, os sistemas econômicos do Cone Sul seguiram uma trajetória histórica em que podem ser
identificadas as mesmas duas tendências: de um lado, o desenvolvimento das propriedades de
individuação, auto-referência e autoprodução e, de outro, a mudança de sua dimensão espacial, num
percurso similar ao das economias capitalistas maduras. No mesmo sentido, deixei de fazer referências
que não fossem aquelas da bibliografia mais básica e consagrada.
88

alcançando a conquista de rotas mais curtas e seguras em direção aos tesouros de além-
-mar. Na medida em que a realidade foi sendo completamente percebida, os objetivos
da colonização tiveram que ser alterados no sentido da constituição de alguma forma de
empreendimento economicamente sustentado nas novas terras. O estabelecimento de
atividades econômicas locais vinculadas à circulação do valor na metrópole foi uma
construção demorada de décadas ou séculos, dependendo das circunstâncias temporais
ou geográficas encontradas pelos colonizadores. Como não poderia deixar de ser, os
primórdios dessa economia colonial americana vinculada ao circuito de valorização do
capital mercantil metropolitano envolveram uma diminuta fração do território
continental, as minas do Peru e do México, as plantações canavieiras do Brasil e alguns
entrepostos nas rotas do Caribe e do Prata.

A dimensão espacial e suas implicações no que respeita à dinâmica econômica


do processo de colonização foram agudamente percebidas por Furtado (1959), quando
estudou as diferenças entre as colônias de povoamento do Hemisfério Norte e as
colônias de exploração no Sul. Da mesma forma, esse autor incorporou uma visão da
natureza dos sistemas econômicos capitalistas que foi compartilhada com o grupo de
pensadores vinculados à CEPAL (Prebisch, 1949), que passou para a história do
pensamento econômico com o nome de estruturalismo e que identificava o reforço das
fronteiras e a construção de um mecanismo dinâmico endógeno como passos
necessários à continuidade do seu desenvolvimento. À luz das categorias teóricas
adotadas nesta tese, sua formulação pode ser interpretada num sentido muito específico:
os estágios de desenvolvimento superiores desses sistemas econômicos só poderiam ser
alcançados após um take off autopoiético. Uma preocupação que percorre a maior parte
da obra de Celso Furtado, assim como a de Raul Prebisch e dos demais formuladores do
pensamento da CEPAL em suas primeiras décadas, é a internalização dos circuitos de
reprodução e realização do valor nas economias latino-americanas. 24 Em outras
palavras, trata-se das propriedades autopoiéticas de autoprodução, auto-referência e
fronteiras.

24
Nesse sentido, a análise estruturalista converge com aquela de inspiração marxista que tratou do
chamado desenvolvimento desigual. Ver, a respeito, Mantega (1984) e Lipietz (1985), que discutem
essas teses, além dos originais, que vão desde Lenin, Hilferding e Bukharin até Samir Amin, Arghiri
Emanuel, Cardoso e Faletto ou Gunder Frank.
89

No primeiro caso, o das colônias de povoamento, formaram-se economias de


subsistência autocentradas, com um grau de dependência cada vez menor em relação a
fornecimentos das metrópoles. Sua trajetória prospectiva foi absolutamente diversa das
colônias de exploração, totalmente extrovertidas e dependentes de fornecimentos
metropolitanos para completar seu ciclo de reprodução. A trajetória dessas colônias de
povoamento foi, em larga medida, similar àquela das economias locais e regionais
européias descrita por Braudel (1979) no caminho da ampliação da dimensão espacial
de seus mercados, integrando as vizinhanças e incorporando novas áreas, conforme foi
visto no Capítulo 2.

Diferente foi o caso das áreas mais ao sul, onde o tipo de colonização foi o de
exploração, que as obrigou a estarem integradas ao circuito de valorização do capital da
metrópole. Por essa razão, tais economias, desde o início, tiveram uma dinâmica
dependente do movimento de um centro que lhes era externo. Embora tenham
estabelecido vínculos locais que parcialmente viabilizassem sua reprodução — como no
caso da economia canavieira do nordeste brasileiro, associada à pecuária do semi-árido,
ou da economia mineradora das Gerais e sua vinculação com a pecuária do sul
brasileiro —, em decorrência da realização no Exterior de uma parcela colossal de seu
valor,25 os sistemas econômicos instituídos pelas colônias de exploração americanas
nunca passaram de subsistemas absolutamente dependentes dos sistemas econômicos
metropolitanos, com escassas ramificações locais, desenvolvendo-se como ilhas ou
enclaves incrustados no Continente.

O processo de independência acabou reafirmando essas diferenças regionais, na


medida em que desfez o projeto bolivariano da unidade sul-americana e teve como
resultado a divisão da América espanhola em vários países. Mesmo no caso da América
portuguesa, ainda que o Império do Brasil tenha logrado com êxito construir uma
unidade política nacional às custas de muito sangue, no plano das relações econômicas,
essa unidade só foi surgir depois dos anos 30 do século XX. Até então, da mesma forma
que os vizinhos de fala castelhana, o Brasil fora um arquipélago de sistemas econômicos
regionais com uma dinâmica dependente do mercado externo e com frágeis vínculos de

25
Para o caso da economia canavieira nordestina, Furtado (1959) estimou em apenas 10% a fração do
valor realizada internamente à colônia, entre consumo intermediário e rendimentos de trabalho gastos
localmente.
90

integração local constituídos pelo fornecimento de uma parcela de seu consumo


intermediário ou da reprodução da força de trabalho pelas estruturas produtivas de
subsistência que lhes eram limítrofes. A reprodução desses sistemas exportadores
permaneceu sempre dependente da realização do valor no mercado internacional.
Mesmo no caso da reiteração de seus vínculos locais, esta dependia de uma capacidade
de pagamento unicamente obtida através das exportações.

A autonomia política conquistada com a libertação das colônias americanas teve


um significado econômico importante, mesmo que as relações de dependência e
extroversão das economias locais tenham permanecido. Além da eliminação do
entreposto colonial, como assinalam Furtado (1959) e Novais (1979), o que aumentou a
parcela do excedente apropriada pelos agentes econômicos nativos, mais importante foi
o estabelecimento da independência monetária pela criação de meios de pagamento
emitidos pelos Estados americanos. Sua importância foi assinalada por Mello (1982),
quando chamou atenção para o fato de que, desde então, os lucros dos empresários
exportadores eram realizados na moeda local, forçando a que, pelo menos uma parte
destes, fosse gasta dentro do país. Mais ainda, a nova circunstância da independência
monetária implicou o estabelecimento de um balanço de pagamentos e,
conseqüentemente, do histórico constrangimento cambial das economias latino-
-americanas.

A independência é um momento importante em relação a dois aspectos decisivos


para a análise levada adiante nesta tese sobre o processo de desenvolvimento dos
sistemas econômicos do Cone Sul da América. Primeiro, porque significou uma
definição do espaço político em relação ao qual as estruturas econômicas herdadas do
período colonial tiveram, necessariamente, que adequar suas dimensões territoriais.
Segundo e muito fortemente em função da instituição das moedas nacionais, os sistemas
econômicos locais começaram a estabelecer uma individuação delimitada por fronteiras.
Em outras palavras, o espaço dos mercados nacionais foi estabelecido pelos limites, de
um lado, da soberania política, a qual estabelece que atores sociais influenciam na
criação das instituições reguladoras da vida econômica, e, de outro lado, da soberania
monetária, o direito de estabelecer o curso forçado da moeda. Embora sua concretização
tenha demorado ainda mais de 100 anos para se consolidar desde aquelas primeiras
91

décadas do século XIX, em que o colonialismo ruiu em quase toda a América Latina, os
requisitos políticos e institucionais para tanto foram então lançados.

A etapa seguinte desse processo foi um movimento que se desdobrou


desigualmente nos países do Continente: a constituição de sistemas econômicos
nacionais autocentrados e auto-referenciados. Tais sistemas construíram-se com base na
internalização de esquemas de reprodução dentro dos limites da dimensão espacial do
território político das novas nações.

No que respeita à tendência à aceleração do tempo descrita no Capítulo 2, a


comparação entre a etapa colonial e sua duração de quase três séculos e o período
primário-exportador após a independência, em que se realizou a consolidação das
fronteiras dos sistemas econômicos nacionais e que teve a duração de pouco mais de um
século, mostra a repetição do fenômeno na região. Essa tendência persistiu no período
seguinte, como será visto mais adiante, período da industrialização e do nacional-
-desenvolvimentismo, que teve uma duração de pouco mais de meio século, ou nem
isso, nos países da região.

Diferentemente do Brasil, um caso típico de colônia de exploração, os três países


de língua espanhola assinantes do Tratado de Assunção, que criou o Mercosul —
Argentina, Paraguai e Uruguai — tiveram um passado colonial ligado aos interesses
estratégicos e logísticos da Coroa espanhola em garantir rotas de abastecimento e
escoamento para manutenção da colônia de exploração mineira nos Andes. 26 Não é
exatamente o caso de uma colonização de povoamento, embora algumas características
desse tipo possam ser vistas, principalmente, nos casos uruguaio e argentino. Entretanto,
com o declínio da mineração no final do século XVIII e principalmente em razão do
crescimento do comércio internacional impulsionado pela industrialização na Europa e
na América do Norte e sua crescente demanda por matérias-primas e alimentos, as
atividades exportadoras também se desenvolveram no Cone Sul: a produção de erva-
-mate, iniciada pelas missões guaraníticas no Paraguai, o couro, o charque e, mais tarde,
a lã nas economias pastoris de Argentina e Uruguai (Cano, 2000; Becker et al., 2000;
Caetano; Rilla; 1998; Rivarola, 1998; Romero, 1994; Halperin Donghi, 1987).

4
Apenas para referir ao primeiro, e muito em função de sua dimensão geográfica, a maior parte da
ocupação territorial e do povoamento por imigração foram realizados apenas após a independência,
92

Uma segunda importante influência para o desenvolvimento dos sistemas


econômicos do Cone Sul foram as diversas e intensas levas de imigração ao longo do
século XIX e da primeira metade do século XX. Em seus primeiros assentamentos, os
imigrantes vieram reforçar as atividades econômicas de subsistência, o que, inclusive,
acabou por permitir uma ampliação da pauta exportadora a partir dos excedentes dessas
atividades (principalmente o trigo). Entretanto, no período entre 1870 e 1929, uma
parcela cada vez maior desses fluxos migratórios fixou-se no meio urbano e deu uma
contribuição decisiva para o primeiro surto de industrialização da região, principalmente
como mão-de-obra com aptidão para o trabalho fabril, mas também com algum capital.

Após a independência, o segundo momento decisivo, tanto para o


desenvolvimento de propriedades autopoiéticas quanto para a conformação da dimensão
espacial dos sistemas econômicos do Cone Sul, foi o advento da indústria. Há uma
grande convergência entre os autores27 sobre a relação entre os ciclos da economia
exportadora, com seu ritmo de acumulação acelerado e suas recorrentes crises cambiais,
e o “vazamento” de capital de propriedade de empresários ligados às exportações no
sentido de uma diversificação de seus investimentos dirigidos para aplicações na
indústria, decisivo para o surgimento desse novo setor nos sistemas produtivos locais.
Nas fases ascendentes do ciclo, a expansão da produção era insuficiente para absorver
todo o excedente acumulado, ao mesmo tempo em que a elevada elasticidade-renda das
importações precipitava dificuldades para o balanço de pagamentos. A combinação
desses dois fatores acabava direcionando o capital excedente das atividades
exportadoras para investimentos na indústria. Essa foi a origem do capital industrial,
que encontrou, principalmente nos imigrantes europeus, o trabalho 28 com o qual pudesse
se combinar para realizar um novo e decisivo passo no desenvolvimento dos sistemas
econômicos regionais, a internalização da produção de bens de consumo industriais,

tendo como seu momento decisivo o episódio que entrou para a História como “la conquista del
desierto”, que realizou a incorporação das terras indígenas do sul à economia platense.
27
Desde os patronos, como Prebisch e Furtado, diversos autores têm estudado o papel dos excedentes das
exportações na acumulação originária do capital industrial latino-americano. Para citar alguns dos mais
importantes para esta tese, ver, por exemplo, Silva (1976), Bértola (1991), Cano (2000), Becker et al.
(2000) ou Mello (1982).
28
Como coadjuvantes, já mencionados acima, houve importantes investimentos estrangeiros,
principalmente em infra-estrutura (transportes, comunicações e obras urbanas), mas também da parte de
burgueses imigrantes na indústria de transformação.
93

alargando as fronteiras desses sistemas. Esse alargamento apresentava tanto um aspecto


qualitativo, a autoprodução de uma variedade maior de seus componentes de
reprodução, quanto quantitativo, a ampliação de suas fronteiras, quer na direção da
interiorização, quer na direção de uma maior densidade de valor, de população e das
relações sociais.

O processo de urbanização e industrialização derivado da acumulação de capital


a partir das exportações alcançou um desempenho extraordinário no caso da Argentina,
um pouco menos intenso no caso do Uruguai29 e, embora com uma enorme diferença em
termos de renda per capita, uma escala absoluta significativa no Brasil. O caso
notoriamente destoante é o do Paraguai. Após a tragédia histórica que foi a Guerra da
Tríplice Aliança (entre 1864 e 1870), que só teve fim após o genocídio de mais da
metade da população daquele país, o sistema econômico que se organizara após a
independência da antiga Nação guarani foi completamente arrasado, com a destruição
da indústria local e a mudança da estrutura agrária através da introdução do latifúndio e
do desmonte do setor produtivo estatal. Isso tudo aconteceu entre o fim da guerra e
1886, justamente às vésperas desse período de crescimento para a região de que vimos
falando (Rivarola, 1998). Depois desse episódio extremo, o Paraguai vegetou em uma
quase estagnação que perdurou por cerca de um século (Arce, 1990).

A dinâmica econômica, entretanto, e em que pese esse maior grau de


internalização da produção de seus esquemas de reprodução, permaneceu dependente do
mercado externo para os produtos de exportação. As oscilações dessa demanda, em
função tanto do ritmo de crescimento das economias centrais quanto de episódios como
as duas guerras mundiais, combinadas com a tendência à deterioração dos termos de
intercâmbio e com as diferenças de elasticidade entre importações e exportações, além
do também crônico problema do endividamento, produziram uma restrição cambial
permanente. A industrialização surgiu como saída para um crescimento econômico que

29
A diferença em relação ao Uruguai, que, para o demais, tem marcadas semelhanças com a Argentina,
resulta tanto da escala mais de uma dezena de vezes menor de sua economia em relação aos dois
grandes vizinhos do norte e do sul, quanto de não ter alcançado constituir sinergias de vizinhança que
lhe favorecessem, como aconteceu com vários pequenos países europeus (Becker et al., 2000; Caetano;
Rilla, 1998). Para que isso tivesse ocorrido, como será visto mais adiante, o processo de integração
latino-americano precisaria ter acontecido com décadas de antecedência, conforme vislumbrara
Prebisch (1963).
94

se vinha apresentando como inviável, problemática que aparece como ferida aberta na
crise de 1929 (CEPAL, 1949; Prebisch, 1963; Furtado, 1959; Oliveira, 1977).

3.2 - O sopro da modernidade

O período iniciado com a primeira década do século XX e que se seguiu até os


anos 30 foi marcado por mudanças institucionais e econômicas decisivas para
conformar o modo de desenvolvimento que predominou na região durante a maior parte
do século e que, como será visto adiante, guarda tanto grandes parecenças quanto
enormes diferenças em relação ao seu congênere predominante na Europa Ocidental e
na América do Norte, o que o fez merecer o apelido polêmico de “fordismo periférico”
(Lipietz, 1985; Conceição, 1989b; Faria, 1996a). O desenrolar dessas profundas
modificações teve uma dimensão jurídico-política de construção das formas
institucionais que iriam compor um novo modo de regulação para as economias da
região, a vigorar até os anos 70, e uma dimensão propriamente econômica, na qual o
movimento até então quase subterrâneo de urbanização e formação da indústria
conforma um novo regime de acumulação de bases endógenas, encerrando a etapa
primário-exportadora e abrindo a trilha da substituição de importações.30 Nos dois
diferentes planos, tratou-se da constituição de um regime de acumulação com
características muito semelhantes à acumulação intensiva dos países centrais e de um
modo de regulação com grande similitude em relação à regulação monopolista dos
países desenvolvidos. Além do significado econômico, que importa mais diretamente
aqui, as reformas desse período vão criar as primeiras instituições com conteúdo de
modernidade responsáveis pela transição das velhas repúblicas oligárquicas e
autoritárias para Estados democráticos de direito. Como se sabe, esse foi um longo
processo apenas consolidado nos anos 80.

A temporalidade dessas mudanças foi bastante diversa na região. O pioneirismo


ficou por conta do Uruguai, com as reformas da Era Batllista (1904-31), em especial da
relação salarial — a limitação da jornada de trabalho em oito horas e a inauguração do
sistema de seguridade social, a educação pública, etc. — e também das demais formas

30
A expressão substituição de importações já sofreu reservas de alguns pesquisadores, a exemplo de
Conceição Tavares (1972). Não vou usá-la em um sentido muito específico, mas como sinônimo do
estilo de desenvolvimento latino-americano engendrado pelo nacional-desenvolvimentismo e que
95

institucionais. A restrição monetária mudou em razão da nacionalização do Banco de la


República; a forma do Estado, através da estatização e da nacionalização de serviços
públicos e da infra-estrutura (ferrovias, energia); e a forma da concorrência, com a
restrição dos monopólios britânicos e a taxação dos latifúndios (Caetano; Rilla, 1998;
Becker et al., 2000).

Na Argentina, o marco das transformações foi o governo de Hipólito Yrigoyen,


iniciado em 1916, embora alguns avanços sejam anteriores (como o Departamento de
Trabajo, de 1904), que inaugurou uma era de governos radicais estendida até 1930.
Mesmo sem mudar muito a relação salarial, que permaneceu um “caso de polícia”,
inaugurou-se uma nova era para a forma da concorrência, com políticas de fomento
industrial e proteção aduaneira; nova era também para a forma do Estado, com a adoção
de uma atitude intervencionista em relação à economia. Após um interregno
conservador, o caminho das mudanças foi retomado em 1943, então sob a condução do
peronismo e tendo como foco central a relação salarial. Foi quando se iniciou o que os
conservadores de toda a América apelidaram de “república sindicalista”.

O Brasil, por seu turno, experimentou a onda reformista mais tarde, apenas após
a Revolução de 30. Mesmo que as condições políticas tenham se transformado naquele
ano, antes de seguir seu programa de mudanças, o novo governo precisou, primeiro,
articular a reação à crise instalada desde 1929, reação que, como mostrou Furtado
(1959), passou por um programa de sustentação da atividade exportadora com vistas a
recuperar o nível de renda da economia. Só depois da reversão do quadro econômico e
da consolidação da autoridade do novo governo, em 1937, é que as reformas foram
iniciadas. A forma do Estado modificou-se com o início do planejamento e a instituição
do setor produtivo estatal nas áreas de insumos básicos e infra-estrutura; mudou a forma
da concorrência com o início das políticas de fomento e proteção à indústria nacional; a
restrição monetária alterou-se com o abandono definitivo do padrão-ouro; e a relação
salarial foi fundada em novas bases e submetida à tutela do Estado a partir da instituição
do salário mínimo, da criação do Ministério do Trabalho e da Consolidação das Leis do
Trabalho.31

também recebeu o apelido de desarrollo hacia adentro. Embora concorde com as restrições referidas, o
termo acabou por se consagrar no sentido em que o emprego neste trabalho.
31
Como já foi referido, a trajetória do Paraguai foi bastante diversa. Após o “esvaziamento” que sucedeu
a Guerra da Tríplice Aliança, a reconstrução do Estado e da sociedade civil daquele país acabou por se
96

Todo esse período de mudanças sociais, econômicas e políticas proporcionou as


condições necessárias para uma transformação qualitativa dos sistemas econômicos da
região no sentido do desenvolvimento das propriedades de auto-referência e
autoprodução, seguindo os passos percorridos pelos sistemas capitalistas maduros ao
adquirirem suas características autopoiéticas. A partir do novo arranjo institucional
resultante do período de reformas, uma nova etapa do desenvolvimento econômico
inaugurou-se: o nacional-desenvolvimentismo e sua estratégia de industrialização por
substituição de importações.

Essa novidade, entretanto, como mostrou Furtado (1959), só pôde se afirmar


depois da crise da economia primário-exportadora provocada pela Grande Depressão de
1929. E isso em razão de, nos interstícios do sistema econômico herdado do período
colonial, uma alternativa estar se gestando na forma da atividade industrial, o que fez
possível a reação produtivista à abrupta queda da demanda pelas exportações do
Continente. A redução da capacidade de importar decorrente criou um ambiente
favorável à incipiente indústria local para ocupar o espaço vazio de oferta de bens de
consumo industrializados para o mercado interno. Foram esses os pressupostos do
período de crescimento acelerado que teve início em algum ponto da década de 30 e que
se estendeu até os anos 70 ou mais, conforme as peculiaridades de cada trajetória
nacional.

3.3 - O desenvolvimentismo e sua crise

3.3.1 - O novo padrão de desenvolvimento

Os países capitalistas mais desenvolvidos viveram uma idade de ouro de


crescimento acelerado entre o final da II Guerra Mundial e o início dos anos 70
(Marglin; Schor, 1990), fato que também se repetiu na América Latina mais ou menos
na mesma época. No Novo Continente, entretanto, e com o Brasil em primeiro lugar, o
desempenho medido nas taxas de crescimento das economias foi superior ao dos países
centrais. Além desse desempenho quantitativo, o período histórico que veio a ser
conhecido como do desenvolvimentismo ou da substituição de importações e que, em

cristalizar nas ditaduras militares surgidas a partir de 1936. Sua sustentação vinha de bases sociais um
tanto rarefeitas: as oligarquias estabelecidas após a derrota de 1870, beneficiárias das privatizações de
terras e bens públicos impostas pelos vencedores, e as massas populares “disponíveis” em razão de seu
único elemento de identidade, o sentimento da nacionalidade (Arce, 1990).
97

geral, aconteceu sob regimes políticos populistas32 abriu uma nova etapa — também no
que se refere ao aspecto qualitativo — para a vida dos sistemas econômicos da região.
Para resumir em uma palavra, essa mudança qualitativa aconteceu em razão do
deslocamento do elo dinâmico do sistema econômico de extrovertido para endógeno.

Como este é um ponto central em minha linha de raciocínio, vou discorrer um


pouco mais sobre ele, sempre ressalvando o nível de aprofundamento que o grau de
abstração em que venho desenvolvendo esta tese requer, isto é, efetuando recortes
pontuais que captem apenas os aspectos do desenvolvimento econômico da região mais
relevantes para o argumento. Na seção anterior, fiz referência ao conjunto de
transformações institucionais ocorrido desde o começo do século XX, que se desenrolou
até os anos 40 e dotou os sistemas econômicos regionais de um embrião, desenvolvido
subseqüentemente, das formas estruturais que garantiram a regulação de conjunto
responsável pela estabilidade do novo regime de acumulação vigente entre os anos 40 e
80 do século XX. Durante esse período, ocorreu uma aceleração do processo de
industrialização, consolidou-se a tendência de transição demográfica no sentido da
urbanização33 e empreendeu-se um novo ciclo de expansão econômica, no qual a
dinâmica passou a responder, predominantemente, aos movimentos da demanda interna.

A mudança da forma do Estado no centro das demais transformações


institucionais referidas foi decisiva para a consolidação da nova etapa de substituição de

32
O mainstream da ciência econômica promoveu um revisionismo desavisado e fundado em
generalizações apressadas da história latino-americana que tem como uma de suas pérolas o conceito
de “populismo econômico”, apelido de toda e qualquer condução da política econômica que não tenha
adotado uma imagem de confiabilidade diante dos investidores internacionais (leia-se austeridade
fiscal, redução da inflação e pagamento da dívida externa) como meta prioritária, especialmente
aplicado àquelas vigentes entre os anos 70 e 80 (Dornbusch; Edwards, 1991). Com isso, não apenas
mistura situações e intenções absolutamente díspares, como cria confusão com um conceito
absolutamente preciso construído pela ciência política latino-americana para a análise de fenômenos
históricos bem identificados, a saber: os regimes políticos promotores de um desenvolvimento
industrializante e de bases endógenas que reuniam as características de uma liderança carismática, um
ambiente de insuficiente desenvolvimento e fragilidade das instituições democráticas, a ascensão
política das classes populares urbanas e uma relação de subordinação destas à direção do Estado
(Weffort, 1978).
33
Argentina e Uruguai já vinham de um predomínio do modo de vida urbano herdado do notável nível de
renda per capita e complexidade social alcançado ainda durante a fase primário-exportadora de suas
economias. O Brasil atingiu essa condição mais tarde (década de 60), e o Paraguai, ainda depois.
98

importações, na medida em que intensificou a tendência à industrialização já em curso


com o recurso da ação estatal dotada de intencionalidade e planejamento. 34 Os regimes
políticos com traços mais ou menos populistas predominaram em ambientes também
oscilantes entre democráticos ou abertamente ditatoriais, vigentes no período, e
produziram uma característica de forte marca em toda a América Latina: a de patrocinar
o novo fazendo escassa ou nenhuma oposição ao velho. A economia primário-
-exportadora permaneceu protegida, principalmente pelo recurso da política cambial,
em razão tanto do peso político preservado pelas velhas oligarquias, quanto de sua
funcionalidade ao gerar capacidade de importar e abastecimento ao meio urbano
(CEPAL, 1949). Ao mesmo tempo, com proteção tarifária, taxa de câmbio especial para
suas importações e apoio da infra-estrutura dotada a bom preço pelo Estado, a nova
atividade industrial consolidava-se na liderança da estrutura econômica (Romero, 1994;
Caetano; Rilla, 1998; Furtado, 1959; Mantega, 1984).

A indústria, que nascera atendendo a um mercado de consumo preexistente,


encontrou, no período da II Guerra Mundial e nas décadas seguintes, um ambiente
internacional extremamente favorável. A redução da concorrência internacional em
função da guerra estendeu-se durante toda a reconstrução da Europa e do Japão. Mais
ainda, o novo modo de desenvolvimento que então se afirmava, o fordismo, reduziu o
grau de extroversão dos sistemas econômicos ao basear sua dinâmica no mercado
interno de massas garantido pela nova forma da relação salarial (Aglietta, 1976),
criando, assim, uma alternativa para a busca da expansão através da conquista de
mercados exteriores, que esteve na raiz do imperialismo clássico e das grandes guerras
mundiais. A disputa imperialista por novos mercados cedia lugar ao novo ambiente
internacional da Guerra Fria, em que as nações candidatas a potências internacionais
buscavam conquistar espaços e constituir sua hegemonia através de ações políticas das
quais faziam parte as ajudas ao desenvolvimento (Kindleberger, 1973; Cox, 1986).

A ascensão ao poder de novas forças políticas apoiadas em grupos sociais


urbanos emergentes — desde as camadas médias e a burguesia industrial até o

34
O mesmo tipo de revisionismo histórico que criou o conceito de “populismo econômico” tratou de
satanizar a política econômica voltada à substituição de importações (Franco, 1998). O descuido, a
falta de rigor e as conclusões apressadas são os mesmos, apenas acrescidos da falta de originalidade,
pois repetiu os mesmos argumentos já rebatidos por Roberto Simonsen no clássico debate dos anos 40,
em que contestou o mito da “vocação agrícola” do Brasil.
99

operariado e outros setores populares — e seus compromissos com as antigas


oligarquias engendraram uma segunda e importante característica do período
desenvolvimentista: uma relativa autonomia do Estado frente às contradições sociais, o
que lhe permitiu não apenas incorporar, como também se tornar o artífice principal do
novo projeto de desenvolvimento nacional. No campo da política externa, o novo
ambiente institucional propiciou a substituição do alinhamento aos Estados Unidos,
herdeiro da antiga dependência inglesa, por um pragmatismo que explorava as
contradições entre as grandes potências em proveito dos projetos nacionais. 35

O novo modo de desenvolvimento baseado na industrialização teve, na região,


graus diversos de aprofundamento da internalização dos esquemas de reprodução — em
termos autopoiéticos, a autoprodução —, uma das características centrais do padrão
industrial fordista então em vigor. Da mesma forma, como refiro a seguir, seus
mecanismos dinâmicos também foram diferenciados. Algumas tendências, entretanto,
se generalizaram, em especial o crescimento da participação do produto industrial no
PIB; a diversificação horizontal da indústria com a abertura de novos gêneros,
principalmente o metal-mecânico, o químico, o elétrico, o de material de transporte,
etc., além do crescimento de gêneros já presentes no período anterior, como o da
alimentação e o têxtil; a perda de participação relativa desses gêneros típicos do regime
anterior no conjunto do produto industrial e a conseqüente predominância dos
segmentos novos; a redução do coeficiente de abertura das economias e a diversificação
do setor serviços, especialmente nos segmentos financeiro, dos serviços públicos e da
infra-estrutura. Assim, as principais características do regime de acumulação intensiva
fizeram-se presentes nos sistemas econômicos mais importantes da região.36

35
O exemplo mais notório dessa nova política externa foi a ambigüidade, que levou as diplomacias
argentina e brasileira, durante a II Guerra, a estarem próximas, inclusive, de uma adesão ao Eixo, um
movimento que tinha o intuito de explorar vantagens econômicas em troca de suas alianças
internacionais.
36
Em um estudo dedicado ao caso brasileiro (Faria, 1996b), busquei demonstrar como a indústria, ao
mesmo tempo em que superava o peso da agropecuária na determinação da dinâmica econômica,
passava por uma profunda transformação interna, que lhe imprimiu características muito semelhantes
às do regime de acumulação intensiva vigente nos países de capitalismo maduro. Embora com um grau
de desenvolvimento inferior, o mesmo percurso foi seguido por Uruguai e Argentina (Becker et al.,
2000; Cano, 2000; Romero, 1994).
100

Sabidamente, o Brasil foi o país do antigo Terceiro Mundo que mais longe levou
a construção de uma estrutura econômica similar àquela do fordismo, com o
desenvolvimento de um setor de bens de produção bastante completo ao final dos anos
70.37 A Argentina, um sistema econômico com escala para seguir o mesmo caminho,
teve seu ritmo de crescimento reduzido desde o começo daquela década, o que resultou
num grau de completude de sua estrutura industrial no sentido fordista menor do que o
brasileiro, mormente no segmento de bens de capital (Cano, 2000). Já o Uruguai, além
de sofrer um ritmo desacelerado há mais tempo, ainda se confrontava com barreiras de
tamanho que o impediam de ir muito adiante (Becker et al., 2000), enquanto o Paraguai
apenas engatinhava na direção da industrialização, sem chegar a modificar sua
característica estrutural de uma economia predominantemente rural (Arce, 1990).

No que respeita ao modo de regulação, enquanto o arranjo institucional


argentino e uruguaio punha em destaque a relação salarial (Aboites, et al., 1995; Miotti,
1997), o que os colocava mais próximos do fordismo central, no caso brasileiro, a
relação salarial nunca teve um papel decisivo na dinâmica econômica e na hierarquia
das formas institucionais. Por essa razão, o crescimento, que teve como fatores
dinâmicos, no caso do Brasil, a extensão da substituição de importações ao setor dos
bens de produção (Castro; Souza, 1985) e a urbanização (Cartier-Bresson, et al., 1987)
relativamente tardia em comparação com os vizinhos do sul, foi também impulsionado
pela demanda das classes trabalhadoras urbanas, ainda que atingissem padrões de
consumo muito inferiores aos dos dois vizinhos do sul.

A estratégia de substituição de importações necessariamente enfrentaria


problemas de escala quando começasse a se estender para o setor de bens de produção,
como já fora previsto pela CEPAL ao formular a proposta da integração latino-
-americana (CEPAL, 1940; Prebisch, 1963); mas, mesmo no que tange à dinâmica
interna de cada país, chocou-se com um obstáculo que se mostrou intransponível no
campo da política: a exigüidade dos mercados internos resultante da concentração da
renda. Nesse sentido, o mecanismo dinâmico da substituição de importações e mesmo a
ulterior iniciativa de integração econômica regional podem ser vistos como processos de
“fuga para a frente” (Faria, 1998b).

37
Em razão da crise dos anos 80, alguns autores passaram a apontar a Coréia como sucessora do Brasil
na condição de estrutura industrial mais desenvolvida da periferia. Uma análise dessa experiência
aparece em Medeiros (1998).
101

Os resultados alcançados nessa etapa foram no sentido da interiorização dos


esquemas de reprodução pela redução cada vez maior da necessidade de importação e
pela endogeneização do mecanismo dinâmico através do deslocamento da demanda em
direção ao mercado interno. Em decorrência desses dois movimentos, foram adquiridas,
em graus diversos, como já referido, as propriedades de autoprodução e auto-referência
pelos sistemas econômicos da região. Esses dois movimentos aconteceram internamente
em sistemas bem individualizados, cujas fronteiras já estavam estabelecidas pelo modo
de desenvolvimento vigente anteriormente. Por essa razão, é possível aceitar a idéia de
o desenvolvimento econômico no Cone Sul ter seguido, ainda que de forma incompleta,
o percurso geral dos sistemas capitalistas mais maduros no sentido da aquisição das
condições necessárias a um take off autopoiético.

Um balanço do período nacional-desenvolvimentista implica, necessariamente, a


constatação de seu desigual aprofundamento em cada país e da interrupção
relativamente precoce do processo, mas revela, também, o sentido que confirma as
hipóteses centrais desta tese. No caso brasileiro, a fase de substituição de importações
apresentou um desempenho em termos de crescimento superior ao do período anterior,
circunstância que não se repetiu no Uruguai e na Argentina (Bértola, 1996). De
qualquer maneira, a marca maior é, inegavelmente, a de sua incompletude, para a qual
podem ser apresentadas três razões explicativas. Em primeiro lugar, os limites de escala
que, necessariamente, só poderiam ter sido ultrapassados pelo processo de integração, o
qual só foi apresentar progressos tardiamente. Em segundo lugar, os limites postos pela
mudança da cena internacional, iniciada com a crise do fordismo e aprofundada pelas
novidades da revolução tecnológica e da internacionalização capitalista discutidas no
Capítulo 2. Em terceiro lugar, cabe mencionar os limites dinâmicos colocados pela
concentração da renda, que produziu, no aspecto que mais interessa aqui, não apenas
insuficiência de demanda efetiva, 38 mas também uma instabilidade política crônica em
razão tanto da pressão das classes populares por maior democracia econômica quanto da
intransigência das elites em ceder a uma maior participação dos trabalhadores na
distribuição da renda nacional.

38
O caso brasileiro está bem demonstrado em Tauile e Young (1991), embora sem a ênfase no conceito
de demanda efetiva que fiz aqui.
102

No Brasil, a disputa foi resolvida pelo golpe de 1964, que, diferentemente das
demais ditaduras militares do Cone Sul, perseverou no caminho do
desenvolvimentismo. No caso da Argentina e do Uruguai, os conflitos políticos
acabaram por produzir uma paralisia econômica precoce, tendo por causa o fenômeno
que Portantiero (1973) chamou el empate: as velhas oligarquias, aliadas à burguesia
urbana, intransigentes na manutenção de sua parcela da renda nacional, mediam forças
com as camadas populares, com o movimento sindical dos assalariados na vanguarda,
mobilizadas e aguerridamente dispostas a ascender economicamente. O equilíbrio de
poder que se originou perdurou por décadas e só foi resolvido, em favor das classes
dominantes, através da violência sanguinária das ditaduras militares que tomaram o
poder entre os anos 60 e 70.

No que respeita ao argumento desta tese, a hoje satanizada substituição de


importações percorreu um caminho difícil e original na constituição de sistemas
econômicos delimitados, auto-referenciados e capazes de produzir seus elementos
constituintes, seguindo, assim, os mesmos passos dos países capitalistas maduros na
construção das características autopoiéticas de suas economias. Essa trajetória,
entretanto, antes de se interromper por força dos limites de um suposto artificialismo,
como quer fazer crer o mainstream, esbarrou em limites internos, aos quais a mudança
da cena internacional nos anos 80 serviu como elemento de reforço. Foi a regressão da
trajetória em direção ao take off autopoiético que causou a vulnerabilidade externa
característica do período posterior.

3.3.2 - Esgotamento e crise

O encerramento do período nacional-desenvolvimentista resultou tanto do


esgotamento da estratégia de substituição de importações quanto da perda de dinamismo
do regime de acumulação intensiva que a América Latina buscava implantar. A crise
estrutural teve início no Uruguai, onde, desde os anos 50, o coeficiente de importações
não pôde mais ser reduzido (Bértola, 1998), e continuou na Argentina, quando este país
se defrontou com a impossibilidade de estender a substituição de importações ao setor
de bens de capital (Cano, 2000). No Brasil, o projeto foi mais longe, alcançando a
construção não apenas de um setor de bens intermediários, como nos vizinhos do sul,
mas também de um setor de bens de capital, o que favoreceu sua extensão também no
tempo, garantindo a continuidade do crescimento acelerado até 1980 (Castro; Souza,
103

1985). A partir de 1981, o esgotamento do modelo latino-americano, que já vinha sendo


percebido desde antes por muitos pesquisadores, através da análise de fenômenos não
evidenciáveis pelos indicadores de conjuntura usuais, ficou literalmente escancarado no
colapso do desempenho macroeconômico: crise do balanço de pagamentos, taxas
negativas de crescimento do PIB e inflação elevada.

Uma segunda determinação desse esgotamento veio da outra linha de argumento


central para esta tese, a dinâmica espacial do sistema. O processo de substituição de
importações recebeu um importante impulso da tendência imanente, descrita no
Capítulo 2, de ampliação da dimensão espacial do mercado. Após a independência, a
evolução dos sistemas econômicos pós-coloniais experimentou um estímulo dinâmico
significativo do que no Brasil se chamou de processo de integração nacional: a
unificação dos diversos subsistemas regionais em um único mercado nacional, com os
conseqüentes ganhos de escala e produtividade decorrentes. Esse processo, se teve um
significado maior no Brasil e na Argentina, em razão de sua proporções territoriais,
também ocorreu no Uruguai e no Paraguai (Cano, 2000; Becker et al., 2000; Arce,
1990) e corresponde àquela característica de expansão territorial do capitalismo
apontada por Braudel e Arrighi. Seu efeito dinâmico, entretanto, ficou necessariamente
limitado à expansão das fronteiras econômicas internas de cada país, limite este que só
poderia ser transponível pelo processo de integração regional ocorrido, no entanto,
muito depois.

O encerramento dessa etapa da história econômica regional ocorreu cerca de


meio século após sua deflagração em meio à crise dos anos 30, reafirmando a tendência
de aceleração do tempo, característica histórica do capitalismo. Comparado aos quase
300 anos da etapa colonial e ao século primário-exportador, o cinqüentenário do
desenvolvimentismo confirma o padrão de maior velocidade nas transformações
econômicas e sociais argumentado no Capítulo 2.

O fim do modelo de substituição de importações do fordismo periférico resultou


de uma dupla determinação. Por um lado, como já foi dito, pelo esgotamento de seu
mecanismo dinâmico relacionado à demanda efetiva, o esgotamento da possibilidade de
substituição de importações, confrontado com os limites dados pela distribuição de
renda e pelas fronteiras nacionais. A segunda determinação responde pela crise no lado
da oferta, uma característica do fim do fordismo nos países centrais originada da
redução dos ganhos de produtividade que compunham, ao lado do crescimento da renda
104

real dos trabalhadores garantido pela relação salarial e pela forma do Estado, o “círculo
virtuoso” daquele modo de desenvolvimento (Aglietta, 1976; Boyer, 1986; Marglin;
Schor, 1990). Essa crise se reproduziu na periferia. Estudos sobre indicadores de
variação da produtividade para as economias brasileira, argentina e uruguaia (Bértola,
1991; Faria, 1996b; Katz, 2000; Kosacoff, 2000) mostraram uma tendência de redução
desses incrementos que é compatível com os parâmetros apontados nas análises da crise
do modo de desenvolvimento fordista para os países do Primeiro Mundo.39

O resultado, previsível, foi a taxa de lucro tornar-se declinante, um fator


adicional a alimentar a instabilidade macroeconômica que tomou conta de quase toda a
América Latina nos anos 80. Como é sabido, essa instabilidade manifestou-se na
aceleração da crônica inflação latino-americana, além de responder pela redução de uma
parcela decisiva da demanda global — o investimento —, manifesta na redução
substancial da taxa de formação bruta de capital fixo. Mais ainda, a rigidez de estruturas
tributárias arcaicas e o peso do endividamento do setor público fizeram cair
drasticamente os gastos de capital do Estado, deprimindo mais ainda o investimento.
Todas as variáveis que se haviam combinado para impulsionar o crescimento no
nacional-desenvolvimentismo começaram a apresentar desempenho negativo. Foi o fim
de uma era.

3.4 - A crise dos anos 80 e a mudança da estratégia econômica

Os anos 80 viram surgir sucessivas crises cambiais em toda a América Latina e,


em especial, no Cone Sul, muitas das quais em circunstâncias dramáticas de confronto
com o sistema financeiro internacional; crises estas que podem ter suas raízes
explicadas no esgotamento do nacional-desenvolvimentismo e na alteração do padrão
financeiro internacional resultante da quebra do sistema de Bretton Woods e da
desregulamentação e internacionalização dos mercados financeiros, que deram origem
ao novo fenômeno da financeirização e internacionalização da riqueza, conforme já
discutido no Capítulo 2.

39
O caso das economias do Leste Asiático foi diferente. Ali o regime de acumulação intensiva teve uma
sobrevida em termos de produtividade em razão das inovações na organização do trabalho geralmente
conhecidas como métodos japoneses de gestão ou toyotismo (Coriat, 1993; Torres Filho, 1992;
Medeiros, 1998).
105

Entretanto uma pergunta a História deixou sem resposta. Será que, seja através
da distribuição da renda, seja através da integração regional, seja da combinação de
ambos, o desenvolvimento econômico da região poderia ter tido continuidade? Essas
alternativas vinham sendo defendidas por setores sociais representativos das classes
trabalhadoras, por movimentos populares, por intelectuais, pela própria CEPAL e por
partidos de esquerda na região desde o período de crescimento acelerado nas décadas de
50 e 60, mas foram rechaçadas e combatidas pelas elites econômicas e sociais
dominantes nos quatro países, como de resto em toda a América Latina, e,
posteriormente, silenciadas pela força bruta dos crimes, da tortura e dos assassinatos das
ditaduras militares.

Com a redemocratização nos anos 80, algumas dessas bandeiras que haviam sido
erguidas pelas forças de oposição às ditaduras foram assumidas pelos regimes civis
então chegados ao poder. As circunstâncias de desequilíbrio grave no balanço de
pagamentos, inflação acelerada e crise fiscal impunham limitações ao raio de manobra
da política econômica, às quais pode ser creditada uma parte do insucesso das medidas
então apelidadas de heterodoxas e que, de alguma forma, intentavam resgatar aquelas
propostas. Entretanto, como já percebera Fiori (1995) 40, também as formas institucionais
haviam encontrado os limites de sua eficácia naquele período, o que se manifestou,
então, na incapacidade de o Estado, hierarquicamente dominante no modo de regulação
vigente, preservar seu papel de indutor do crescimento econômico. Os rumos da política
econômica então implantada e que buscou fazer frente à crise teve essa condicionante
como fator decisivo em sua determinação.

3.4.1 - A crise da regulação

Na medida em que, naquele momento, estava em curso uma crise da regulação


e não uma crise na regulação, 41 os mecanismos de recuperação disponíveis não podiam

40
Esse trabalho, publicado em 1995, foi apresentado como tese de doutoramento na USP, em 1984.
41
Uma crise na regulação acontece quando o sistema é capaz de pôr em funcionamento, de forma
efetiva, mecanismos de recuperação “automáticos”, dando oportunidade a que um retorno do
crescimento possa ter lugar sem que nenhuma mudança institucional seja necessária. Já uma crise da
regulação ocorre quando a recuperação automática não é mais possível, sendo necessária uma
mudança institucional para que o desenvolvimento possa ser retomado (Boyer, 1986; Conceição,
1989a).
106

funcionar. Sob o ponto de vista da escola da regulação, as políticas ditas heterodoxas


foram tentativas heróicas de revigorar formas institucionais irremediavelmente
incapazes de funcionar, originárias de um modo de desenvolvimento já esgotado.

Na década de 80, a instabilidade macroeconômica passou a ser o tema


dominante no debate econômico latino-americano, com o fenômeno inflacionário
ocupando cada vez mais o seu centro, chegando a secundarizar as dificuldades do
balanço de pagamentos. Nesse debate, a antiga clivagem histórica do pensamento
econômico continental, que dividia ortodoxos e estruturalistas, foi bastante atenuada por
um quase consenso em torno da idéia de que o arranjo institucional (forma da restrição
monetária) de alguma maneira endogeneizara a oferta de moeda, tornando os
instrumentos usuais da política monetária inócuos, o que exigia transformações
profundas das instituições para se poder combater a inflação com efetividade. 42 A safra
de planos de estabilização daquela década, dos quais o austral argentino e o cruzado
brasileiro são as experiências mais significativas, combinava intervenções na forma de
funcionar dos mercados monetário e financeiro (congelamento de depósitos, proibição
da indexação, suspensão de algumas modalidades de operações financeiras) com
intervenção no mecanismo de formação de preços (congelamento). Algumas iniciativas
adicionais em relação à dívida externa (moratória) também foram acionadas quando se
identificava um mecanismo de alimentação da “ciranda financeira” relacionado ao
constrangimento externo (Faria, 1995).

De toda essa vasta experiência teórica e prática, vou reter como contribuição ao
argumento desta tese a já mencionada idéia de crise da regulação, idéia que aponta uma
limitação àquelas tentativas de política econômica e que não foi percebida por seus
implementadores: a falência do modo de regulação desaguava, necessariamente, na
impossibilidade de sua restauração na medida em que o regime de acumulação
estava esgotado. Para os neoclássicos, essa problemática não tem estatuto teórico, na
medida em que sua teoria do crescimento incorpora como variáveis relevantes apenas os
fatores de produção (mobilização e uso, produtividade, etc.), ficando as questões
institucionais, quando admitidas relevantes, circunscritas ao nível da macroeconomia

42
Discuti mais profundamente essa questão em Faria (1995), onde citei alguns exemplos dessa
convergência, como as análises de Brandão (1991) e de Fraga Neto (1987), dois autores de formação
ortodoxa que, naqueles trabalhos, transferiam para um distante longo prazo a efetividade dos modelos
macroeconômicos neoclássicos.
107

strictu senso (estabilidade de curto prazo). Por seu lado, para os heterodoxos, e
principalmente aqueles herdeiros da tradição estruturalista — embora dessem estatuto
teórico à problemática institucional quando abordavam o crescimento —, o esgotamento
da substituição de importações e do Estado desenvolvimentista não estava posto de
forma definitiva (Fiori, 1995).

Conforme vimos argumentando, a grande crise dos anos 80 tem duas dimensões:
o esgotamento do regime de acumulação intensivo — cuja versão no Cone Sul foi a
industrialização por substituição de importações — e a crise do modo de regulação
monopolista, que teve como expressão latino-americana o arranjo institucional
desenvolvimentista. Uma vez que o esgotamento da substituição de importações já foi
tratado, visto que fez parte da conjuntura dos anos 70, falta abordar a crise desse modo
de regulação peculiar ao desenvolvimentismo, e que se expressou com toda sua
intensidade na agonia da moeda e na inflação.

A análise dessa crise ressalta uma diferença entre, de um lado, o Brasil e, de


outro, o Uruguai e a Argentina no que diz respeito ao papel da relação salarial na
regulação de conjunto do sistema. A maior extensão da influência política dos
trabalhadores nos países do sul não só trouxe a relação salarial a um posto de
centralidade na hierarquia das formas institucionais (Aboites, et al., 1995; Miotti, 1997)
como foi responsável pelo “empate” que esteve na raiz da crise ainda nos anos 60
(Romero, 1994; Becker et al., 2000). Tanto a pressão da parcela do capital variável na
renda como a instabilidade política decorrente da ascensão da mobilização dos
trabalhadores erodiram a funcionalidade sistêmica da relação salarial. Entretanto o
efeito da redução do crescimento da produtividade teve, para além da secular
intransigência oligárquica do empresariado, um papel decisivo na deterioração do
ambiente institucional, na medida em que foi acompanhado pela queda das ditaduras
nos anos 80, produzindo, da perspectiva capitalista, mais instabilidade, uma vez que
proporcionava maior poder de pressão às organizações sindicais dos trabalhadores numa
conjuntura de redução da taxa de lucro. A disfuncionalidade dessa forma institucional
criou um obstáculo então intransponível para a continuidade do regime de acumulação.
Os efêmeros espasmos de crescimento durante as ditaduras respondiam ao movimento
de recuperação dos lucros em razão da quebra da relação salarial.

Por outro lado, um processo que adquiriu centralidade principalmente no Brasil,


em razão da secundariedade da relação salarial no País, fazia o Estado
108

desenvolvimentista entrar em agonia, num primeiro momento, como crise fiscal e


financeira na esteira do endividamento externo e da deterioração da restrição monetária
e, logo em seguida, como crise de governabilidade decorrente da erosão de sua
legitimidade na medida em que avançava a redemocratização do Continente. A virtual
paralisia do setor público que se instalou em razão tanto do peso considerável do setor
produtivo estatal nos sistemas econômicos nacionais quanto da importância do
dirigismo governamental sobre o setor privado produziu um forte efeito depressivo nos
sistemas econômicos da região. Na medida em que, apesar da reconquista da
legitimidade política pelo retorno da democracia, a crise fiscal reduzia o raio de
manobra dos Estados nacionais e a credibilidade face à comunidade financeira, 43 a
regulação de conjunto, que tinha nessa forma institucional seu alicerce mais sólido, não
mais podia operar.

Ao mesmo tempo, a forma da concorrência que se estruturara ao redor dos


conglomerados monopolistas e de suas redes de fornecedores e clientes protegidos pelas
políticas industrial, agrícola, fiscal e financeira dirigidas pelo Estado e com o suporte
decisivo das barreiras aduaneiras típicas da substituição de importações entrava em
contradição com a onda mundial de inovação tecnológica que, então, começava a
desenhar um novo regime de acumulação sucessor do fordismo. No ambiente
institucional vigente, as firmas reagiam ampliando a ociosidade dos mesmos sistemas
produtivos — aumentando a defasagem de produtividade em relação ao centro — e
elevando suas margens, alimentando a instabilidade inflacionária.

3.4.2 - A crise da acumulação

A longa crise dos anos 80, que veio interromper a trajetória de desenvolvimento
anterior e que foi provocada pelo esgotamento da industrialização por substituição de
importações, teve também como resultado afetar algumas das características do sistema
econômico mais relevantes para o argumento desta tese. Em primeiro lugar, o
esgotamento da substituição de importações impediu os sistemas econômicos da região
de levarem mais adiante o desenvolvimento da propriedade autopoiética da
autoprodução, o que se manifestou na interrupção de seus processos de reprodução
ampliada, traduzida na estagnação dos índices de crescimento (Bértola, 1996). Por outro

43
Nessa circunstância, o fenômeno da hegemonia do capital-dinheiro no contexto da mundialização do
capitalismo, referido no Capítulo 2, fragilizava de modo definitivo a forma institucional do Estado.
109

lado, a fragilidade internacional, mormente financeira, e o peso do endividamento


externo reduziram a efetividade das fronteiras nacionais, alterando a dimensão espacial
do sistema e enfraquecendo suas propriedades de auto-referência. A trajetória evolutiva
dos sistemas foi definitivamente modificada.

Os fenômenos e episódios históricos explicativos desse desempenho têm


recebido a atenção de vários dos melhores quadros da ciência econômica internacional
interessados nos problemas latino-americanos, os quais produziram uma extensa e fértil
bibliografia, da qual recortei tão-somente as contribuições mais diretamente
relacionadas com a linha de argumento que venho desenvolvendo nesta tese. 44 A
primeira delas diz respeito ao papel desestabilizador desempenhado pela dívida externa,
que acabou inviabilizando a reprodução dos sistemas na medida em que não apenas
desviou para o Exterior uma fração significativa da poupança nacional, como
comprometeu estruturalmente a estabilidade do balanço de pagamentos dos países da
região com pesados lançamentos devedores tanto na conta de serviços (juros) como na
conta de capital (amortizações).

Essa circunstância implicou uma alteração significativa da dimensão espacial do


sistema: a restrição externa acrescentava um constrangimento a mais para a
continuidade da substituição de importações, tanto pela redução da capacidade de
importar quanto pela queda das taxas de investimento, principalmente do Estado, em
razão da transferência de uma parte da poupança interna para o Exterior. Além disso e o
mais importante, a trajetória em direção ao desenvolvimento da propriedade de auto-
-referência foi interrompida, e o desempenho dinâmico dos sistemas passou a responder,
principalmente, a determinações exteriores. Esse movimento pode ser creditado apenas
parcialmente às transformações do modo de produção capitalista em escala mundial,
discutidas no Capítulo 2. Toda uma abundante bibliografia 45 mostra como essas
transformações se manifestam de forma diferente na diversidade dos sistemas
econômicos nacionais, pois, enquanto alguns países reforçaram sua autodeterminação e

44
Minha gratidão para com todos esses autores, de quem muito aprendi, tanto em minha formação
profissional quanto no trabalho de elaboração desta tese, é representada de forma bastante incompleta
nas referências bibliográficas usuais ao final do trabalho. Nesse caso, com certeza, a justiça não é
contemplada pelas regras acadêmicas.
45
Cito como exemplo, dentre muitos de mesma qualidade e rigor científico, Tavares e Fiori (1998), Fiori
(1999), Boyer (1999), Cano (2000) e Miotti, Quenan e Ricouer-Nicalaï (1999).
110

suas redes de influência sobre outros — exemplo mais notório são os EUA —, outros
sofreram uma drástica redução de sua soberania econômica, grupo em que se inclui
quase toda a América Latina entre os anos 80 e 90.

Da mesma forma e seguindo a já referida tendência característica de todos os


sistemas econômicos capitalistas, a dimensão temporal também sofreu mudança nessa
crise. O esgotamento da etapa desenvolvimentista ocorreu num prazo menor do que a
metade da etapa anterior, a primário-exportadora. No primeiro caso, cerca de 50 anos
(entre 1930 e 1980) e, no outro, mais de um século (do começo do século XIX —
independência — à crise de 1929).

Especificamente no caso latino-americano, os maus resultados obtidos pelas


tentativas de enfrentamento soberano à crise nos anos 80, a adoção de medidas de
política econômica não alinhadas com as recomendações ortodoxas do FMI e do
Consenso de Washington abriu espaço à guinada da década seguinte. Se uma parte da
explicação desse fenômeno está no argumento de Fiori (1995) acerca da impossibilidade
de um relançamento do regime de acumulação anterior, a pergunta sem resposta
mencionada mais acima aponta a intransigência e o poder político das elites como
decisivas para impedir uma tentativa de ampliar o horizonte da acumulação intensiva
latino-americana no caminho da construção de um Welfare State similar ao da Europa
Ocidental e ao da América do Norte, no qual o crescimento do consumo da massa
sustentasse a dinâmica econômica por mais um ciclo de crescimento.

3.5 - A capitulação nos anos 90

A grande novidade para os sistemas econômicos da região nos anos 90 foi a


perda da soberania latino-americana no campo da política econômica. Os insucessos das
tentativas de estabilização heterodoxas forjadas pelos economistas nativos 46 abriu
caminho à capitulação diante das pressões dos bancos credores externos, do FMI e do
Governo norte-americano para a adoção do receituário do Consenso de Washington. Se
o Brasil foi o último a aderir a essa onda avassaladora que varreu o Continente, a
Argentina esteve entre os primeiros, ao passo que Uruguai e Paraguai, por
peculiaridades políticas internas e em razão de não terem sofrido crises inflacionárias

46
Nos extensos debates dos anos 80 sobre inflação, muitos economistas que pouco depois acabaram por
aderir ao Consenso de Washington afirmavam envaidecidos diante das platéias de encontros
acadêmicos e até na mídia serem os maiores especialistas em inflação do planeta.
111

tão agudas, nunca chegaram a adotar o receituário completo. 47 Entretanto o


cumprimento in totum do ajuste neoliberal por parte das duas grandes economias do
Cone Sul acabou decidindo o destino da região como um todo.

Brevemente, o conjunto de medidas incluiu: (a) um acordo como os bancos


credores para regularizar os pagamentos da dívida externa; (b) uma abrupta abertura
comercial para quebrar a capacidade de formação de preços das empresas nacionais;
(c) as privatizações, seja para incentivar o fluxo de capitais externos, seja para amenizar
o desequilíbrio fiscal do Estado; e (d) a adoção de um regime cambial com paridade fixa
ou estreita margem de flutuação para ancorar o novo padrão monetário ao dólar,
secundada por uma política monetária dura de redução da liquidez e juros elevados
(Fiori, 1994; Faria, 1998b; Cano, 2000). A adoção desse novo padrão de política
econômica operou uma transformação no modo de regulação no sentido de uma
mudança na hierarquia das formas institucionais, guindando a moeda à posição
dominante (Aboites, et al., 1995; Miotti, 1997). Esse movimento estava em consonância
com as transformações do capitalismo em escala mundial referidas no Capítulo 2, onde
a financeirização da riqueza cobrava centralidade à forma da moeda e prioridade a
políticas deflacionistas como requisito à preservação do valor do capital em sua forma
dominante, a monetária.

Além disso, a natureza de cada uma das formas institucionais foi alterada. A
forma da concorrência resolveu sua contradição com a mudança tecnológica em curso
sob a pressão da abertura comercial. As conseqüências foram, de um lado, a retomada
dos ganhos de produtividade do trabalho e a redução dos diferenciais desta em relação
aos Estados Unidos (Katz, 2000), principalmente na primeira metade da década, e, de
outro, o desmonte de ramos inteiros da estrutura produtiva — cujo exemplo mais
extremo é o caso argentino 48 —, a desnacionalização e um processo de concentração e
centralização do capital em grande escala (Tavares; Miranda, 1999; Kosacoff, 2000).

47
O caso uruguaio traz um exemplo interessante em relação a um dos itens do programa neoliberal: as
privatizações. A Frente Ampla, agrupamento de partidos de esquerda de grande expressão política e
eleitoral, fez submeter o projeto de desestatização a referendo popular, no qual o mesmo foi rejeitado.
48
Talvez mais correto fosse chamar de caos a situação da indústria argentina nos anos 90, marcada por
uma forte redução de sua participação no emprego e na geração de renda e uma regressão na
composição do produto em direção aos setores tradicionais, de baixo conteúdo tecnológico e
112

A relação salarial também se modificou. Depois de alguns tímidos passos no


sentido da recuperação ou da construção de alguns elementos de bem-estar, da
institucionalização das negociações salariais via sindicatos e da ampliação da
seguridade social garantida pelo Estado, realizados na esteira da redemocratização, o
quadro mudou no período subseqüente. Aumento da pobreza, concentração da renda e
aumento do trabalho informal (CEPAL, 1997) surgiram como resultado das políticas de
desregulamentação do mercado de trabalho e das reformas constitucionais nos campos
da seguridade social, da tributação e da ordem econômica e do trabalho. 49 Além disso, o
processo que vinha sendo chamado de reestruturação produtiva — um de cujos aspectos
é a mudança da forma da concorrência, mas que tem também um componente na
própria alteração do regime de acumulação —, ao produzir baixo crescimento e um
grande aumento do desemprego, reforçou a deterioração da relação salarial. O efeito
renda provocado pela queda da inflação em todos os países foi apenas passageiro,
embora alguns desavisados tivessem visto o começo de um novo ciclo de crescimento
sustentado.50

A forma do Estado, em larga medida, está no centro das mudanças da regulação,


quer pela perda de centralidade, quer porque as transformações institucionais,
necessariamente, têm de passar por ela. O sentido geral foi o desmonte do Estado
desenvolvimentista e sua substituição por um arranjo, ainda pouco definido, de corte
liberal. Para tanto, o setor produtivo e de infra-estrutura estatal foi vendido nas
privatizações; o crédito público, drasticamente reduzido, restando quase apenas os
instrumentos monetários e fiscais, de alcance limitado em razão da condução ortodoxa

produtores de commodities, tendência também presente, embora em menor grau, no Brasil (Teubal,
1999; Cano, 2000; Kosacoff, 2000).
49
As reformas constitucionais brasileiras são um exemplo significativo dessa tendência. Apenas inscritas
no texto maior do País pela Constituinte de 1988, muitas garantias sociais e trabalhistas das quais os
vizinhos do sul se beneficiavam há décadas não só não chegaram sequer a ser regulamentadas para
entrar em vigor, como foram revogadas em poucos anos.
50
Um estudo patrocinado pelo Banco Central da Argentina (Lanteri, 1999) é exemplar desse tipo de
miopia, da mesma forma que os argumentos de Franco (1998). A combinação de credibilidade externa
(leia-se ingresso de capital especulativo), baixa inflação e crescimento do consumo interno foi vista
como suficiente para sustentar um projeto de crescimento de mais longo prazo. Sobre a deterioração do
balanço de pagamentos, a incapacidade de sistema de crédito financiar a atividade produtiva, a baixa
taxa de investimento doméstico e o encilhamento financeiro do setor público, nenhuma palavra. É uma
macroeconomia unidimensional.
113

da política econômica; as políticas industrial, agrícola e de comércio exterior foram


reduzidas a, no máximo, ações reativas e pontuais; além de se instituir um encilhamento
fiscal sem precedentes, com redução das despesas de investimento e com os serviços
propriamente ditos,51 esforço necessário para fazer frente aos custos financeiros do
endividamento público. A mudança nas prioridades da política econômica, do
crescimento para a estabilização, combinando um endividamento já elevado com juros
reais altos, acabou por produzir, como será visto mais abaixo, o oposto do que era
desejado, mais instabilidade.

Por fim, mas em primeiro lugar, mudou a forma da restrição monetária, não
apenas ao assumir um papel central na regulação, subordinando as demais formas
institucionais e deixando a posição apenas acomodadora que a moeda tivera no
desenvolvimentismo, como adquirindo o novo papel de fulcro da estabilidade
macroeconômica. Nessa transformação, a ductilidade do valor da moeda 52, que fora uma
válvula de escape dos desajustes durante o desenvolvimentismo, após ter chegado ao
seu extremo no limiar da hiperinflação, foi radicalmente abandonada em troca de um
padrão monetário submetido a uma fantasia de estabilidade proporcionada pela âncora
cambial. Mas como o domínio do capital dinheiro é o reinado extremo do fetiche do
valor em sua forma mais abstrata, por algum tempo essa fantasia sustentou as relações
econômicas.53 Sua instabilidade veio a ser revelada pela fragilidade financeira externa,

51
A única exceção nesse encolhimento do setor público foi algum avanço nos gastos sociais, na década
(CEPAL, 1997), pequeno no Brasil e na Argentina e maior no Uruguai e no Paraguai, variando,
respectivamente, de 19,0%, 17,7%, 18,7% e 3,0% para 19,8%, 17,9%, 22,5% e 7,9% em relação ao
PIB entre 1990-91 e 1996-97 (Notas de la CEPAL, 2000b). O agravamento da situação
macroeconômica no final da década tendeu a reverter essa pequena melhora.
52
Estou fazendo referência ao regime monetário vigente em toda a América Latina (e também no
Primeiro Mundo, à exceção dos EUA antes de 1971), onde o valor da moeda é determinado pelo seu
poder de compra em relação ao Produto Nacional Bruto, relação esta, em larga medida, determinada
pela combinação entre taxa de câmbio e política alfandegária. Nessa situação, a variação do valor da
moeda (inflação) funciona como variável acomodadora.
53
Entretanto, como afirmou Sir Dennis Robertson (1935), “(...) o valor de um metal amarelo,
originalmente escolhido para dinheiro porque estimulava a fantasia dos selvagens, é, evidentemente,
algo inseguro e impróprio para servir de base ao nosso dinheiro e à estabilidade de nosso sistema
industrial”. Os indicadores de rating adotados pelos investidores internacionais, em que pese a
aparente cientificidade, são a forma moderna de gerar o mesmo tipo de crença no valor da moeda
114

característica crítica das relações exteriores que estão a transformar a dimensão espacial
dos sistemas econômicos na região (Gonçalves, 1999; Miotti; Quenan; Ricouer-Nicolaï,
1999).

O vendaval que varreu as formas institucionais da regulação acompanhou um


movimento, ainda parcial e inconcluso, de mudança do regime de acumulação. Face às
dificuldades para a continuidade da acumulação intensiva, confrontada com o bloqueio
da reprodução ampliada em razão das já referidas limitações da demanda e da queda da
taxa de lucro, os agentes decisivos (a burguesia empresarial e os gestores da política
econômica) puseram em marcha o já referido processo de mudança no sistema
econômico, que se tornou conhecido como reestruturação produtiva. Um dos aspectos
mais importantes desse movimento foi a substituição de fornecedores locais de bens de
consumo duráveis, de bens intermediários e, principalmente, de bens de produção por
importações, o que, ao lado do acordo com os credores, foi causa de um crescente
desequilíbrio dos balanços de pagamentos regionais. A isso se somou um forte
movimento de desnacionalização da propriedade do capital na indústria e em serviços,
com iguais conseqüências negativas sobre as contas externas pelo crescimento das
remessas de serviços de fatores (Gonçalves, 1999).

Essa chamada reestruturação produtiva, ou transformação produtiva, como disse


a CEPAL (1994), envolveu muitos aspectos. Entretanto, para o argumento desta tese,
vou enfocar apenas aqueles mais relevantes. Em primeiro lugar, a volta dos ganhos de
produtividade resultaram quase exclusivamente de rearranjos gerenciais e na
organização do trabalho, com pouco impacto de novas tecnologias (Ferraz et al., 1995;
Fligenspan, 1995), os investimentos seguiram baixos e o desemprego elevado, o que
contrastou com taxas de crescimento maiores do que as dos anos 80 nos países do Cone
Sul, as quais alcançaram desempenho um pouco superior à média continental (Est.
Econom. AL Caribe, 2000).

A influência mais importante nesse processo de transformação produtiva veio da


mudança na dimensão espacial dos sistemas, na esteira da abertura comercial e da
desnacionalização. O enfraquecimento das fronteiras reduziu seu grau de autoprodução
na medida em que remeteu para o Exterior a fabricação de itens indispensáveis à

nacional, produzindo, como vários episódios recentes têm demonstrado, o mesmo tipo de insegurança
causado pelo ouro no começo do século XX (Aglietta; Orléan, 1990; Boyer, 1999).
115

reprodução e à continuidade das estruturas econômicas nacionais, o que acabou se


traduzindo na redução da participação da indústria no PIB (Cano, 2000; Kosakoff,
2000).54 Em decorrência, ao longo dos anos 90 realizou-se uma marcha à ré no
desenvolvimento dessa característica autopoiética dos sistemas econômicos regionais.

Além da regressão da autoprodução e do aumento da porosidade das fronteiras,


outra característica autopoiética que se vinha desenvolvendo sofreu notável retrocesso.
O desmantelamento do Estado desenvolvimentista, a mudança do padrão monetário e a
fragilidade financeira externa corroeram os elementos de auto-referência dos sistemas
regionais, num processo de perda de soberania econômica (Medeiros, 1998; Gonçalves,
1999; Cano, 2000; Fiori, 2000). Para além do recuo na direção de um possível take off
autopoiético, a perda da auto-referência deu-se em função de uma trajetória econômica
que vinha se mostrando insustentável justamente por implicar um agravamento da
fragilidade externa que desestabiliza as economias da região.

Se a raiz dessa fragilidade se assentou no endividamento externo, o pequeno


crescimento das exportações55 para fora do Continente, associado, por sua vez, ao
enorme crescimento das importações resultante da liberalização comercial, produziram
déficits comerciais crescentes, que se somavam aos déficits da conta serviços
resultantes, principalmente, dos pagamentos de juros da dívida. Os sistemas econômicos
da região passaram a depender do errático afluxo do capital especulativo, característico
dessa fase de mundialização capitalista (Chesnais, 1997), como forma de compensar os
continuados déficits em transações correntes. Essa é a raiz da fragilidade financeira
externa das economias latino-americanas (Miotti; Quenan; Ricouer-Nicolaï, 1999).

54
Uma vez que a parcela da agropecuária também se reduziu, uma vista apressada poderia confundir essa
situação com o que alguns autores têm definido como o conceito de sociedades pós-industriais,
aplicado a alguns casos do Primeiro Mundo. Entretanto a semelhança é meramente das estatísticas,
pois o peso relativamente maior de serviços é muito mais fruto do fenômeno descrito como inchaço do
Terciário, típico do subdesenvolvimento, conforme a literatura sobre crescimento o tem descrito, e que
tem como causa a expansão do trabalho informal no meio urbano.
55
Como será visto no Capítulo 4, houve um notável crescimento comercial no mercado continental sul-
-americano nos anos 90, crescimento que, entretanto, resultou mais da substituição de mercados
externos pelo comércio intra-regional do que de um aumento significativo do total da exportações. De
qualquer maneira, como os problemas cambiais de todos os países decorrem da relação com o dólar, o
comércio regional pode, nas circunstâncias atuais, no máximo favorecer eventualmente um país em
detrimento de outros. Esse foi o caso da Argentina entre 1995 e 1998, em razão da sobrevalorização do
real brasileiro.
116

O processo de integração regional que vem avançando no âmbito do Mercosul e


que foi impulsionado por um significativo crescimento dos fluxos de comércio no
subcontinente teve em sua origem a intenção de afirmar a independência de seus
participantes em relação à hegemonia mundial dos Estados Unidos. Hoje, entretanto,
está condicionado pelas limitações criadas pela adoção de políticas macroeconômicas
inspiradas no Consenso de Washington. As peças fundamentais das políticas de
estabilização adotadas, combinando rigidez do câmbio, juros elevados, abertura
comercial e compromissos pesados com os pagamentos da dívida externa geraram uma
dependência de todos os países em relação aos fluxos financeiros externos, que, por sua
natureza, acabam por produzir o seu contrário, mais instabilidade.

O processo de integração, assunto do próximo capítulo, veio trazer uma nova


perspectiva, quer para a dimensão espacial, quer para a retomada da evolução em
direção ao take off autopoiético dos sistemas econômicos da região. A profundidade da
crise econômica, entretanto, indica que o sonho bolivariano de uma América unificada
exercendo sua soberania em par de igualdade com as “grandes nações” continua tão ou
mais distante do que quando foi sonhado há quase 200 anos.
117

4 - O PROCESSO DE INTEGRAÇÃO E O MERCOSUL

“Solo un imenso mar pudo detener su geografia


incomensurable. Un límite de barrancas profundas, de
duras rocas golpeadas por oleajes sin tregua. Altas
peñas margullando siglos de soledad azul y furias
blancas. Todo eso fué necesário para fijar la frontera de
esa llanura infinita que los criollos llamamos con el
nombre más indiano y más hermoso: Pampa.”
Atahualpa Yupanqui, Elogio de la Pampa.

As linhas de fronteira que separam os quatro países signatários do Tratado de


Assunção têm seu traçado marcado por um impressionante fenômeno natural: “el cielo
azul que anda” dos rios que brotam do Aqüífero Guarani e deslizam pela paisagem do
Pampa em direção ao mar, onde deságuam no Rio da Prata. Essa geografia das águas foi
tão significativa na formação histórica da região que dois dos países tiveram seus nomes
emprestados aos rios, Uruguai e Paraguai. Mais ainda, no plano geopolítico, esses
grandes cursos d’água condicionaram a delimitação das fronteiras e acabaram por
cumprir um papel similar ao das extensas planícies pampeanas no âmbito da formação
econômica da região. Foi o abundante recurso natural das exuberantes pastagens
cobrindo uma larga porção desse território que propiciou o desenvolvimento da
pecuária, à época sua primeira atividade produtiva. Ainda que fortemente condicionada
por esses obstáculos naturais ao exercício da força militar de então e pela qual se
buscava recorrentemente a solução de litígios, por muitos séculos de história colonial
essa fronteira permaneceu incertamente traçada e palco de disputa sangrenta entre as
coroas de Espanha e Portugal. Mesmo após o movimento de independência, a
demarcação exata das divisas permaneceu com indefinições até o século XX.

Se a animosidade entre vizinhos foi originalmente provocada pela fidelidade


devida aos reis ibéricos, a liberdade conquistada em princípios do século XIX não foi
capaz de eliminar os conflitos. Num primeiro momento, em virtude da firme
determinação de uruguaios e paraguaios ao resistirem às tentativas de incorporação por
seus vizinhos maiores e, logo mais adiante, pelas circunstâncias de guerras civis quase
endêmicas (Romero, 1994), através das quais se forjaram as identidades nacionais de
118

cada um dos países. A freqüente interferência e tentativa de tirar proveito por parte dos
vizinhos nesses conflitos internos reforçou o distanciamento e a animosidade herdados
do período colonial. Esse sentimento teve, na carnificina da Guerra da Tríplice Aliança
contra o Paraguai, um forte motivo para ser aumentado. Seu final trágico, no qual as
tropas vencedoras da Argentina, do Brasil e do Uruguai se deram as costas e se
retiraram do teatro de operações, deixando atrás de si um povo quase exterminado e
uma nação devastada, definiu o ambiente das relações entre os quatro vizinhos para as
décadas seguintes: ressentimento, desconfiança e rivalidade.

No século XX, durante o estágio nacional-desenvolvimentista de sua história,


pelas próprias características desse modo de crescimento — com sua forte inclinação
endógena e a manutenção, embora em novos termos, de uma relação externa
privilegiada com as nações do centro capitalista —, o distanciamento e a rivalidade
tiveram continuidade. Apenas após o esgotamento dessa etapa, ao final dos anos 70, o
ambiente diplomático regional mudou substancialmente. A profundidade da crise
econômica dos anos 80 combinou-se com a conjuntura política altamente instável de
encerramento do cinzento ciclo das ditaduras militares. A dificuldade de afirmação das
democracias recém-inauguradas, especialmente na Argentina de inúmeras rebeliões
militares, e a instabilidade de suas economias, em razão do desequilíbrio no balanço de
pagamentos causado pela dívida externa e da inflação elevada, acabaram por dar uma
nova dimensão às relações internacionais no Cone Sul: a solidariedade em vista de
dificuldades comuns. 56

Foi por essa razão que o processo de integração recebeu seu impulso decisivo na
iniciativa dos dois primeiros presidentes civis nos recém-redemocratizados Brasil e
Argentina, José Sarney e Raul Alfonsin, que assinaram a Declaração de Iguaçu em 30
de novembro de 1985. Entretanto foi na última década do século XX que a integração
no subcontinente avançou a partir da constituição do Mercosul, impulsionada por um
notável crescimento do comércio dentro do bloco, pela inauguração de estratégias
regionais por parte de multinacionais e de grandes empresas, pela interpenetração de

56
Nos anos 70, durante as ditaduras, um tipo sinistro de aproximação e colaboração
estabelecera-se entre os vizinhos, a integração entre forças policiais e militares para a perpetração de
seqüestros, “desaparecimentos”, torturas e assassinatos de supostos opositores. Para além da infâmia
desses crimes, cujo espectro ainda assombra as democracias em afirmação, nenhuma correspondência
dessa integração sanguinária chegou sequer a se esboçar nos planos social ou econômico.
119

cadeias produtivas e pelo desenvolvimento do comércio intra-industrial. Ao passo


desses desdobramentos econômicos, nos planos político e institucional o bloco regional
também alcançou alguns êxitos, como as negociações diplomáticas com a União
Européia ou a oposição à proposta norte-americana sobre a formação da Área de Livre-
-Comércio das Américas.

Como é recorrente na História, esse processo vem tendo suas contradições,


manifestas em algumas condicionantes de seu desenvolvimento, que agem como forças
antagônicas à integração. São o caso da incompatibilidade entre as políticas cambiais da
Argentina — onde uma espécie de padrão ouro foi reinventada na forma da paridade
fixa com o dólar — e a dos demais países, com suas taxas flutuantes, completamente
livres ou em regime de banda; da fragilidade financeira externa de seus membros,
dependentes do ingresso de capitais de curto prazo para equilibrar o balanço de
pagamentos; e do ambiente internacional hostil a iniciativas diplomáticas que se
desenvolvam independentes das proposições, das agendas e dos interesses dos países
mais ricos, Estados Unidos à frente.

A análise feita no capítulo anterior apontava para a presença, no


desenvolvimento dos sistemas econômicos do Cone Sul, de características típicas da
evolução histórica do capitalismo em suas regiões pioneiras do norte. A aceleração da
passagem de seu tempo, a ampliação de sua dimensão espacial e o desenvolvimento das
propriedades autopoiéticas de auto-referência e autoprodução também se fizeram
presentes, em maior ou menor grau, dependendo do país, na Argentina, no Brasil, no
Paraguai e no Uruguai. Também foi visto naquele capítulo que a crise que se gestou nos
anos 70 e assumiu sua forma mais aguda na chamada “década perdida” dos 80, se, de
um lado, acelerou as mudanças nas dimensões espacial e temporal dos sistemas,
também interrompeu o desenvolvimento das propriedades autopoiéticas,
fundamentalmente em razão do enfraquecimento de sua capacidade de auto-referência.

Ao debruçar-me sobre o processo de integração do Mercosul, neste capítulo,


quero verificar a possibilidade de uma retomada da trajetória de afirmação dessas
tendências através da consolidação do bloco regional como um sistema econômico
unificado. Se a delimitação de novas fronteiras econômicas, a recuperação da auto-
-referência e da capacidade de autoprodução, o alargamento da dimensão espacial e a
aceleração de sua história estão no horizonte das possibilidades desse processo, o que
irá acontecer está sendo decidido nas circunstâncias e restrições postas pela vida real.
120

É preciso lembrar que o ambiente internacional em que o processo de integração


vem se desenvolvendo apresenta condicionantes importantes. Embora a análise deste
capítulo tenha seu foco nas determinações internas aos quatro países, a cena mundial,
para além do estímulo representado pelo que, num plano abstrato, é compreendido como
transformação da dimensão espacial do capitalismo, apresenta um conjunto de restrições
originadas a partir do episódio que Conceição Tavares (1985) chamou de “retomada da
hegemonia norte-americana”.

Para este trabalho, são relevantes três aspectos desse processo. Primeiro, a
vitória dos EUA na corrida armamentista fez desmoronar o regime soviético e impôs a
força militar daquele país como instrumento de um exercício quase ilimitado de poder,
eliminando da agenda política dos países do sul a possibilidade de explorar
diplomaticamente em proveito próprio as divergências leste-oeste. Segundo, a
desregulamentação e a internacionalização do capital dinheiro consolidaram a
dominação do grande capital estadunidense sobre todos os espaços de acumulação do
Planeta. Finalmente, e mais importante, a maneira como os Estados Unidos vêm
experimentando a mudança na dimensão espacial de seu sistema econômico nacional
implicou um movimento de, num primeiro momento, incorporação das economias dos
seus vizinhos imediatos através do Tratado de Livre-Comércio da América do Norte
(NAFTA), para, logo mais adiante, se estender a todo o continente através da ALCA.
Esse movimento tem em vista a instauração de um espaço ampliado e homogêneo para a
ação de suas empresas — a criação de um mercado reservado e unificado para o grande
capital —, retaguarda decisiva para enfrentar os desafios porventura lançados pela
Europa ou pela Ásia na disputa do poder mundial.

Para a continuidade do Mercosul, o movimento de retomada da hegemonia


americana representa a força contrária mais poderosa por duas razões. Em primeiro
lugar, o sucesso das pressões exercidas para forçar a adoção do padrão de política
econômica recomendado pelo Consenso de Washington criou obstáculos sérios à
continuidade da integração, como será visto mais ao final deste capítulo. Em segundo
lugar, as pressões contra a união aduaneira e sua Tarifa Externa Comum em favor de um
livre mercado estendido do Alaska à Terra do Fogo, como vislumbrado no projeto da
ALCA, se bem-sucedidas, tornarão o Mercado Comum do Sul sem sentido. A
possibilidade de uma trajetória autônoma do bloco regional, representando a retomada
de sua auto-referência e de uma nova etapa de desenvolvimento em outra dimensão
121

espacial e com uma trajetória em direção ao take off autopoiético desapareceria, o bloco
regional seria subsumido na zona de livre-comércio continental como um espaço local
para o capital globalizado. Essa restrição externa será referida pontualmente ao longo
deste capítulo.

Cabe lembrar, ainda, que nesta análise deixei de lado a abordagem teórica mais
comumente usada no estudo do fenômeno da integração econômica, a qual tem como
referência principal o trabalho de Vinner (1950). O ponto de partida desse autor, a teoria
pura do comércio internacional neoclássica, reduz sobremaneira o alcance de seu
referencial, limitando-o ao tratamento dos fluxos comerciais. Mais ainda, o uso atual de
sua contribuição pelo mainstream empobreceu sobremaneira a abordagem. 57 Numa
démarche tão ao gosto da ortodoxia, um fenômeno de grande complexidade é
circunscrito à constatação da existência ou não de “desvio de comércio” e “criação de
comércio” e medido pela sua distância de um ponto ótimo. A compreensão do
fenômeno da integração econômica exige um referencial teórico como o adotado aqui,
capaz de dar conta de sua complexidade, em relação à qual o redirecionamento dos
fluxos de comércio é um episódio apenas.

Partindo da trajetória da integração regional, analisando seus aspectos


econômicos, políticos e diplomáticos, vou buscar, em primeiro lugar, dar conta de suas
origens e pressupostos e de sua evolução ao longo do tempo. Numa segunda seção,
tratarei de aprofundar a análise de seu desenvolvimento no plano econômico, desde o
sucesso comercial aos aspectos qualitativos das relações de produção e circulação
dentro do bloco, chegando, inclusive, a verificar os condicionantes que resultam tanto
da política econômica adotada por cada país quanto das relações com o resto do mundo.
Ao final do capítulo, serão levantadas as condições e os requisitos que possam propiciar
a inauguração de um novo modo de desenvolvimento na região a partir da
transformação da dimensão espacial que a própria integração pôs em marcha.

57
O ambiente em que Vinner concebeu sua teoria, no imediato pós-guerra, era o da afirmação da
revolução keynesiana e de relativo descrédito na capacidade de os automatismos de mercado induzirem
situações ótimas e de equilíbrio.
122

4.1 - A formação do Mercosul

4.1.1 - Origens

Embora as iniciativas de integração latino-americana sejam quase tão antigas


quanto a da União Européia (a ALALC) é de 1960, enquanto a Comunidade Econômica
Européia foi fundada em 1957, sua efetividade, no sentido de uma evolução do
processo que tenha significado econômico e social, só veio a se materializar nos anos
90. Como mencionado acima, o movimento integracionista que formou o Mercosul
resultou da iniciativa de aproximação argentina e brasileira de meados dos anos 80 e se
concretizou em 1991, quando, com a adesão do Paraguai e do Uruguai, foi firmado o
Tratado de Assunção.58

O movimento de aproximação dos vizinhos teve seus antecedentes nos anos 60


do século XX, motivado pela necessidade de cooperação para o aproveitamento dos
imensos recursos hídricos que a exuberante geografia das águas propiciava. Foi então
firmado o Tratado da Bacia do Prata entre Argentina, Bolívia, Brasil, Paraguai e
Uruguai em 1969. Seu resultado mais concreto foi a Declaração de Assunção, de 1971,
sobre o aproveitamento dos rios internacionais. Em 1973, Brasil e Paraguai criaram a
empresa Itaipu Binacional, para operar a hidroelétrica do mesmo nome no rio Paraná,
decisiva para suprir as necessidades de geração elétrica para a economia brasileira,
então em crescimento bastante acelerado. Nesse mesmo ano, Paraguai e Argentina
assinaram o Tratado de Yaciretá, com o objetivo semelhante de construir uma usina
hidrelétrica binacional. Após negociações difíceis, em 1979 é firmado um acordo
tripartite entre Brasil, Paraguai e Argentina, o que permitiu a esta última viabilizar as
usinas de Corpus e Yaciretá, a jusante do curso das águas, a partir do estabelecimento
de uma quota para Itaipu (Rapoport; Madrid, 1998). Pela primeira vez, os vínculos entre
os países tinham um escopo que ia além da simples travessia de uma ponte.

A crise econômica do início dos anos 80 foi acompanhada pelo fim das ditaduras
militares. O ambiente de declínio do poder das forças armadas sobre a vida política na
região acabou favorecendo a inclusão na pauta da aproximação entre os vizinhos do

58
A cronologia do processo de integração está descrita, dentre outros, em Faria (1993), Ferrer
(1997), Ginesta (1999), MRE (2001), Baumann (2001) e Almeida (2001).
123

tema da paz.59 Nesse novo ambiente de fim da histórica rivalidade militar, Brasil e
Argentina firmam um pacto de renúncia ao uso militar da energia atômica e
impulsionam a criação de uma Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul, aprovada
em resolução da ONU sugerida pelo Brasil. 60 A aproximação ganha um decisivo
impulso em 1986, com a iniciativa brasileira e argentina de iniciar um processo de
integração econômica e cooperação nuclear e aprofunda-se com a assinatura do Tratado
de Assunção, com o objetivo de constituir um mercado comum entre seus signatários e
outros países que venham a aderir ao Mercosul. O primeiro passo na direção desse
objetivo foi o estabelecimento de uma união aduaneira que, embora incompleta, mas
bastante abrangente em relação às pautas comerciais dos participantes, entrou em vigor
em 1º de janeiro de 1995, menos de 10 anos após a assinatura da Declaração de Iguaçu
por Alfonsin e Sarney. A exigüidade do tempo decorrido fez-se surpreendente. Como
lembrou Aldo Ferrer (1997): “(...) observado en una perspectiva histórica, la rapidez y
la profundidad del acercamiento de Argentina y Brasil es un acontecimiento
sorprendente”(p. 58).

Cada um dos passos desse processo foi dado em ritmo bastante acelerado. A
Declaração de Iguaçu foi emitida em 30 de novembro de 1985, logo seguida pela Ata
para a Integração Argentino-Brasileira, em julho de 1986, a qual institucionalizou a
aproximação entre os dois países através do Programa de Integração e Cooperação
Econômica (PICE). Esse programa previa um processo de integração setorial via
incremento do comércio intra-industrial com base em protocolos nos segmentos nuclear,
transporte, bens de capital, energia, trigo, siderurgia e finanças. Os princípios e as

59
Apesar de sua sinistra colaboração na repressão a seus opositores, enquanto estiveram no
poder, os militares mantiveram ativa a rivalidade entre os vizinhos, mormente entre Brasil e Argentina.
As esparsas iniciativas de aproximação e cooperação estiveram restritas quase que exclusivamente ao
campo da atividade de polícia política.
60
Para compreender melhor esse processo, é necessário lembrar que a conjuntura do início dos
anos 80 é marcada pela retomada da hegemonia norte-americana, como chamou Conceição Tavares
(1985). A desmilitarização da América do Sul foi estimulada pelos EUA no bojo de um movimento de
reafirmação de sua preponderância armada sobre o hemisfério. A crise e virtual extinção da indústria
bélica brasileira, a destruição do poder ofensivo argentino no desastre das Malvinas, o corte dos gastos e
a retomada dos acordos de cooperação militar com os EUA compõem o quadro de declínio da
capacidade de ação militar autônoma do Sul, em que se insere o protocolo nuclear Brasil-Argentina.
Assim como a moeda, a força é elemento essencial da soberania. Não é por acaso que os EUA venham
recomendando à América Latina a renúncia a ambas.
124

características definidores desse processo foram o gradualismo, a flexibilidade, a


simetria, o equilíbrio, o tratamento preferencial frente a terceiros, a harmonização
progressiva das políticas e a participação do empresariado (Ferrer, 1997). 61 O Tratado de
Integração, Cooperação e Desenvolvimento foi assinado em novembro de 1988,
reafirmando os mesmos princípios e incluindo 24 protocolos em diferentes áreas, da
indústria automotiva à biotecnologia, ampliando um pouco a pauta inicial, além de
instituir uma Comissão Parlamentar Conjunta, com vistas a dar celeridade à apreciação
legislativa dos acordos. Ficou estabelecida no tratado uma primeira etapa, com prazo
máximo de 10 anos. A Ata de Buenos Aires, de 6 de julho de 1990, encurta esses
prazos, fixando a vigência da união aduaneira para 1º de janeiro de 1995.

O processo bilateral, com tal ritmo e aprofundamento, “(...) despierta la


preocupación inmediata del Uruguay, temiendo verse excluido del proceso de
integración y llegar a perder las ventajas conquistadas en los mercados brasileños y
argentinos” (Ginesta, 1999, p. 74). Da mesma forma, o Paraguai, sócio de menor
desenvolvimento no processo e que vinha já amadurecendo uma pauta de revisão de
suas relações de dependência com o Brasil, fundadas no monopsônio da energia
produzida em Itaipu, também age diplomaticamente para participar da integração.62
Assim, em 26 de março de 1991, é assinado o Tratado de Assunção, que criou o
Mercosul, num primeiro momento como uma união aduaneira, a partir do
estabelecimento de uma TEC, que, após alguns passos de adaptação, entrou em vigor
em 1995 e seguiu os princípios, o formato e o ritmo estabelecidos na aproximação
bilateral argentino-brasileira.

As condições estabelecidas para a integração no Cone Sul são interpretadas por


um autor uruguaio como francamente favoráveis ao Brasil. Esse autor diz textualmente:

“En el mensage que el Poder Ejecutivo del Uruguay envió a la

Asamblea General solicitando aprobación legislativa del Tratado

61
Esses princípios norteiam todo o processo de integração e serão comentados mais adiante.
62
De certa forma, as negociações diplomáticas envolvendo o uso dos recursos hídricos da
Bacia do Rio Paraná entre Brasil, Argentina e Paraguai tiveram algum significado para o processo de
integração. Seu escopo e as obrigações decorrentes, entretanto, produziram um alcance limitado ao
campo da cooperação na geração e no uso de hidroeletricidade.
125

de Asunción, se justificaba la aceptación de las condiciones

estabelecidas en el mismo, argumentando que el Mercosur era un

acontecimiento histórico de suma importancia y que no debía

dejarse pasar la oportunidad del mismo por buscar soluciones

maximalistas, agregándose que, según se constava a los asesores

políticos, el país había obtenido el mejor tratado posible en las

circunstancias” (Ginesta, 1999, p. 88).

Certamente, a desproporção que se criou entre as economias do Brasil e da


Argentina na segunda metade do século XX responde por esse viés do processo. Em
razão do diferencial das taxas de crescimento ao longo daquele século (Bértola, 1996), o
tamanho da economia argentina, em 1900 bem maior que o da brasileira, 63 sofre uma
mudança relativa significativa, a ponto de, no final do século, seu PIB beirar cerca da
metade do brasileiro apenas.64 Diante dessa desproporção e de suas conseqüências no
plano da diplomacia, a estratégia de negociação argentina optou por garantir a posição
de alguns setores tradicionais e detentores de maior poder político em detrimento da
busca de avanços mais significativos, enquanto o Brasil sentia-se mais à vontade para
forçar a aceitação de seus interesses. No decorrer do processo, muitos políticos,
empresários e formadores de opinião daquele país chegaram a fazer menção a uma
Brasil-dependência da economia argentina, apontando para os riscos de o Mercosul
transformar-se numa forma de subordinar ou até incorporar a economia argentina à
brasileira. Nessa perspectiva, a situação dos dois pequenos países é ainda mais delicada.
Como mostram casos similares na História, o problema das assimetrias, que será
retomado mais adiante, é de difícil equacionamento.

63
Segundo as estimativas de Bértola (2000), o PIB real per capita argentino, em 1900, era 5,6
vezes maior do que o brasileiro. Aplicando essa estimativa aos dados populacionais dos países, chega-se
a um valor para o PIB real global argentino 3,04 vezes maior do que o brasileiro naquele ano.
64
Essa comparação sofre os efeitos da defasagem cambial entre os dois países, resultado da
política monetária de convertibilidade e paridade fixa com o dólar adotada pelo vizinho austral, que
acaba por superestimar relativamente o seu PIB.
126

Após a vigência da TEC, o crescimento da corrente de comércio dentro do


bloco, que já vinha sendo intenso desde o começo dos anos 90, acelerou-se mais ainda.
Da mesma forma, os movimentos de capitais também se intensificaram, através de
investimentos, trocas de ativos e de fusões e incorporações. Esse ritmo vigoroso veio a
sofrer um forte revés quando o Brasil foi forçado a alterar sua política cambial em
janeiro de 1999. Num movimento que a teoria econômica mainstream não é capaz de
alcançar, os “sólidos fundamentos macroeconômicos” das políticas inspiradas no
Consenso de Washington, adotadas com nuanças por Brasil e Argentina desde o começo
daquela década, entravam o processo de integração e liberalização comercial em curso,
o qual, presumivelmente, deveriam incentivar. Como procurarei demonstrar adiante,
uma vez que as opções da política econômica aprofundaram a fragilidade externa dos
países e geraram as crises cambiais e de liquidez responsáveis pelo refluxo do comércio
regional a partir de 1998, é por essa causa e não por acaso que assim se sucedeu.

4.1.2 - Objetivos e meios

O desenho final do processo de integração, traçado no Tratado de Assunção e no


formato que este deu ao Mercosul, seguiu os princípios, os objetivos, as finalidades e o
ritmo definidos na aproximação Brasil-Argentina. A celeridade com que o movimento
veio acontecendo, sem dúvida, é devida a uma percepção das diplomacias dos quatro
parceiros de que, numa conjuntura de internacionalização econômica acentuada, ou de
mundialização do capital (Chenais, 1997), a janela de tempo para a consolidação de um
bloco regional e, portanto, para poder usufruir das vantagens por ele propiciadas na
busca de uma mudança de inserção internacional, era exígua. 65 Para o referencial teórico
desta tese, esse foi mais um episódio da aceleração da passagem do tempo que vem
caracterizando o capitalismo em sua história. Da mesma forma, a menção à inserção
internacional alerta para o fenômeno de alargamento da dimensão espacial dos sistemas
econômicos, também sofrendo um ciclo de mudança nessa conjuntura. 66

65
A posição dos EUA, que partiu da atitude apenas retórica da Iniciativa para as Américas do Presidente
Bush (o pai), na década de 80, para uma posição extremamente agressiva de tentar a imposição
acelerada de uma Área de Livre-Comércio das Américas na virada do século, atesta o realismo daquela
percepção.
66
A consciência do fenômeno da mudança da dimensão espacial do capitalismo está claramente expressa
no preâmbulo do Tratado de Assunção, onde é mencionada a “evolução dos acontecimentos
internacionais, em especial a consolidação de grandes espaços econômicos”.
127

A integração econômica entre os Estados-partes é o objeto do Tratado de


Assunção, o qual prevê sua realização através da constituição de um mercado comum,
ali denominado Mercosul. As implicações do mercado comum enunciadas no tratado
elucidam o alcance do processo de integração por ele instituído:

“A livre circulação de bens, serviços e fatores produtivos entre os países,

através, entre outros, da eliminação dos direitos alfandegários e restrições

não tarifárias à circulação de mercadorias e de qualquer outra medida

equivalente; o estabelecimento de uma tarifa externa comum e a adoção

de uma política comercial comum em relação a terceiros Estados (...); a

coordenação de políticas macroeconômicas e setoriais (...); e o

compromisso dos Estados-Partes de harmonizar suas legislações, nas

áreas pertinentes, para lograr o fortalecimento do processo de integração”

(Artigo 1º).

Para a consecução desses objetivos, o processo de integração vem seguindo um


conjunto de princípios reveladores da natureza de seus procedimentos (Faria, 1993),
quais sejam a gradualidade, a flexibilidade, o equilíbrio e a reciprocidade. Esses
princípios já vinham sendo mencionados nos instrumentos jurídicos da aproximação
argentino-brasileira e foram incorporados ao Mercosul. Os três primeiros são
mencionados no preâmbulo do Tratado de Assunção, enquanto a reciprocidade mereceu
uma disposição específica no corpo do tratado. Uma vez que o escopo do processo
então definido era não apenas muito profundo, mas de grande complexidade, o princípio
da gradualidade responde pela necessidade do estabelecimento de etapas e metas
parciais para sua consecução, de forma que um próximo passo só pudesse ser dado
depois de a etapa anterior haver sido cumprida. O princípio da flexibilidade dá conta de
uma característica dessa integração muito própria da tradição diplomática latino-
-americana. Desde a Ata para a Integração Argentino-Brasileira até o Tratado de
Assunção, os instrumentos básicos foram redigidos em termos bastante genéricos e
vagos, ficando as definições mais precisas, tanto em relação ao alcance quanto aos
128

prazos do processo, para os protocolos sobre temas específicos (Faria, 1993). A própria
estrutura orgânica do Mercosul, onde quase não há delegação de soberania dos Estados-
-Partes a suas instâncias supranacionais — diferentemente do caso da União Européia,
que já é quase um Estado — está conforme a esse princípio. As decisões só são tomadas
por consenso, e a forma e o prazo de seu cumprimento deixam uma boa margem de
arbítrio para cada membro. Mesmo que algumas de suas disposições materiais sejam
“claramente vinculantes”, podem receber alguma forma de “interpretação flexível”
(Faria, 1993, p. 9).

Os protocolos e os acordos setoriais sobre temas específicos que vêm dando


materialidade ao Mercosul são objeto da aplicação de outro princípio do processo, o
equilíbrio. Numa disposição claramente anti-ricardiana, já na Ata de 1986 foi acordado
que a natureza setorial da integração deveria evitar a especialização das economias em
setores específicos, tendo o equilíbrio sido definido como um princípio com vistas a
estimular a integração intra-setorial no sentido de se alcançar o “equilíbrio progressivo,
quantitativo e qualitativo, do intercâmbio por grandes setores e por segmentos, através
da expansão do comércio” (apud Faria, 1993, p. 13). No âmbito do Tratado de
Assunção, o princípio do equilíbrio foi materializado pela adoção de cláusulas de
salvaguarda durante o período de transição.67 O princípio da reciprocidade,
diferentemente dos demais e como já mencionado, tem a força de uma disposição
material e foi objeto de controvérsia na elaboração do texto.68 Sua existência não apenas
cria um instrumento para o controle da execução do próprio tratado e um parâmetro para
os mecanismos de solução de controvérsias por ele instituídos, como também estabelece
diretrizes para a implementação do mesmo pelos seus mecanismos próprios, no sentido
de que os resultados da aplicação de seus instrumentos tenham efeitos econômica e

67
José A. Faria (1993) mencionou o risco que correria o processo de integração, caso a adoção de
salvaguardas fosse estendida para além do período de transição. O agravamento da crise argentina no
começo de 2001 e a atitude do Ministro Cavallo ao modificar a TEC para alguns itens da pauta de bens
de capital e insumos comprovam os prejuízos inerentes ao recurso a salvaguardas. Melhor seria a
alternativa de medidas compensatórias, como faz a Europa, para o que, entretanto, recursos políticos e
materiais precisariam estar reservados, a exemplo dos fundos europeus para regiões menos
desenvolvidas ou para a agropecuária.
68
O Poder Executivo da República Oriental do Uruguai, na mensagem à Assembléia Geral em que
encaminhou o Tratado de Assunção para aprovação daquele Legislativo, fez menção explícita à recusa
129

socialmente iguais nos países-membros, em outras palavras, que os benefícios da


integração sejam recíprocos.

A estrutura institucional do Mercosul foi estabelecida pelo Protocolo de Ouro


Preto, em dezembro de 1994, mantendo a característica intergovernamental originária
do processo. O órgão superior é o Conselho do Mercado Comum (CMC), formado pelos
Ministros de Relações Exteriores e de Economia, com a atribuição de adotar as decisões
que governam o bloco e definem sua estrutura institucional. 69 Para a tomada dessas
decisões, são convocadas reuniões de ministros das pastas correspondentes ao assunto
em pauta (Agricultura, Saúde, Educação, etc.). O Conselho é assistido por um órgão
executivo, o Grupo do Mercado Comum (GMC), cujas resoluções dirigem o processo
de integração a partir das negociações levadas adiante nos 14 subgrupos de trabalho
específicos de diferentes áreas (comunicação, indústria, meio ambiente, investimento,
etc.) e mais os grupos ad hoc (compras governamentais, açúcar, concessões e
relacionamento externo) e as reuniões especializadas (mulher, ciência e tecnologia,
turismo, municípios ou intendências, etc.). O órgão executivo é assessorado pela
Comissão de Comércio do Mercosul (CCM) e conta com uma Secretaria Executiva
(SAM), além de sete comitês técnicos (assuntos aduaneiros, defesa do consumidor,
automotivo, têxtil, etc.). Há, ainda, a já mencionada Comissão Parlamentar Conjunta e o
Foro Consultivo Econômico e Social, através do qual sindicatos, consumidores e
organizações da sociedade civil encaminham demandas e propostas.

Em que pese o processo de integração do Mercosul ter finalidades muito


semelhantes às da União Européia, sua ordem institucional diferenciou-se daquela
criada pelo Tratado de Roma em um aspecto fundamental, na medida em que se
constituiu “preservando os espaços de soberania nacional alocados aos Estados-
-membros” (Almeida, 2001, p. 15; 16). Conforme esse autor, “(...) qualquer ‘salto
supranacional’ nessa fase preliminar de implantação da união aduaneira poderia (...)
alterar o delicado equilíbrio entre competências nacionais e atribuições decisórias
coletivas” (idem, p. 16). O mesmo Almeida (2001) faz referência à dificuldade da
instituição de uma instância de poder supranacional em face das desigualdades entre os

de Argentina e Brasil à sua tentativa de ampliar a abrangência do princípio de reciprocidade à


consideração dos resultados.
69
A última alteração institucional do Mercosul foi realizada pela XIX Reunião Ordinária do CMC em
dezembro de 2000, em Florianópolis.
130

Estados-membros, em razão das quais algum mecanismo de ponderação de seu peso nas
decisões do bloco precisaria ser criado. 70

Como também assinalou Ferrer (1997), “(...) en el Mercosur la responsabilidad


de disenãr los rumbos de la integración y de adminsitrarla descansó, desde el principio,
en la cooperación de las adminsitraciones nacionales de los países” (p. 104). Tratando
tal fato como a abordagem possível diante das eventuais tensões que surgiriam entre um
organismo supranacional e as administrações nacionais, esse autor defende a posição de
que os órgãos comunitários indispensáveis ao avanço da integração devam referir-se a
questões concretas, como a solução de controvérsias e a aplicação do direito
comunitário. Mais adiante, assinala que essa necessidade de cooperação entre as
administrações nacionais

“(...) fué induciendo en las burocracias nacionales, progresivamente, un

espíritu solidario. De este modo, el proceso fué ganando, al interior de

las burocracias nacionales, funcionarios que comenzaran a incorporar

la dimensión comunitaria en la percepción de los intereses propios de

sus respectivos países. Este es uno de los logros que conviene preservar

(...)” (Ferrer, 1997, p. 104).

Entretanto, como assinala Faria (1993), a profundidade do processo de


integração pretendido pelo Tratado de Assunção não prescinde da delegação de
soberania dos Estados participantes à personalidade jurídica supranacional em que se
constitui o Mercosul num amplo espectro de suas atribuições de exercício de poder, que
vai da política comercial aos direitos e garantias individuais, passando pela moeda e o
câmbio, pela seguridade social e indo até a segurança nacional. Voltarei a esse assunto
mais adiante. Por enquanto, é bom deixar assinalado que, se uma construção de tal
magnitude requer uma perspectiva temporal alargada, para a qual, sem dúvida, o ritmo
de institucionalização do Mercosul contribui, os passos dessa trajetória precisam
continuar sendo trilhados. Essa necessidade, no entanto, permanece tendo expressão
principalmente em declarações de caráter meramente retórico, como elemento dos

70
Basta lembrar que a população do Brasil é mais de 50 vezes maior do que a do Uruguai e cinco vezes
131

processos de negociação dentro do bloco, com escassa intenção verdadeiramente


propositiva.71 Dessa forma, a existência efetiva do Mercosul permanece dependente de
iniciativas apenas adotadas com a concordância da unanimidade dos Estados-membros.

4.1.3 - O desenvolvimento da integração

O ambiente da política econômica na época em que foi assinado o Tratado de


Assunção era muito diverso daquele que prevalecia durante a primeira fase da
integração, a aproximação Brasil-Argentina. As administrações “populistas” (sic) de
Alfonsin e Sarney buscavam a combinação de suas políticas de estabilização com o
relançamento do desenvolvimento fundado em um centro dinâmico endógeno, o que se
combinava com a estratégia setorial do Mercosul de fortalecimento de algumas cadeias
produtivas regionais através das economias de escala propiciadas pela integração e da
unificação de esforços nas áreas estratégicas de infra-estrutura e pesquisa e
desenvolvimento. O novo cenário político criado com as posses de Collor de Mello e
Menem e sua adesão ao fundamentalismo de mercado do Consenso de Washington
acabaram por desviar a ênfase do processo de integração para a liberalização comercial,
abandonando ou relegando muitos dos protocolos e iniciativas decisivos para a
viabilização de uma estratégia de desenvolvimento autocentrado, como nas áreas de
energia nuclear, tecnologia aeroespacial ou regulação do mercado financeiro. A política
setorial remanescente resultou mais das pressões de interesses atingidos, como no caso
do açúcar, do que de um projeto compartilhado e coerente de desenvolvimento.

Se, como lembra Ferrer (1997), no caso argentino,

“(...) prevalece, en efecto, un ‘realismo periférico’ según el cual sólo

queda espacio para acomodarse a fuerzas exógenas inmanejables. Desde

esa perspectiva, no existe capacidad de resistir a presiones externas a

posturas autocentardas en questiones claves como, por ejemplo, el

régimen de propriedad intelectual, (...) o tecnologias críticas (...). En

maior do que a da Argentina.


71
É o caso da moeda única, lembrada em mais de uma oportunidade pelo ex-Presidente Menem como
balão de ensaio ou elemento de propaganda diante da agudização da fragilidade cambial daquele país,
agravada pela contradição entre a sua política monetária e a brasileira.
132

Brasil se observan enfoques y propuestas contradictórios sobre estas

questiones” (p. 76).

Também Almeida (2001) chama atenção para a mudança no próprio caráter do


processo de integração então sob coordenação de Menem e Collor de Mello, ao referir
que a Ata de Buenos Aires, em julho de 1990, não mudou apenas o ritmo, mas “(...) o
caráter do processo de integração. Em lugar da abordagem ‘dirigista e flexível’ do
esquema anterior, a integração assumiu uma natureza livre-cambista e o
desmantelamento das barreiras existentes passou a ocorrer de forma automática” (p. 6).

Sem embargo, os rumos da política econômica brasileira foram cada vez mais se
adequando ao fundamentalismo, o que está na raiz da crise do Mercosul, como será
visto ao final deste capítulo. A proposição que defendo aqui diz que a integração só faz
sentido para um projeto de desenvolvimento que tenha como eixo a reafirmação do
local e a retomada da construção de características autopoiéticas dos sistemas
econômicos em sua convergência para a unificação. A alternativa que resultaria da
adoção do projeto arquitetado pela diplomacia dos EUA para a região resultaria na
instauração de uma nova identidade territorial fundada na diluição de suas fronteiras e
na desintegração de seus sistemas produtivos para a instituição de espaços locais
submetidos ao capital globalizado (Santos, 1994). Essa nova dimensão espacial já é
visível no NAFTA e seria ampliada para todo o continente se a proposta norte-
-americana fosse vitoriosa nas negociações para a ALCA: a instauração de um espaço
homogêneo para a atuação dos capitais originários da nova região econômica. Lembrar
que a nacionalidade desses capitais seria majoritariamente dos EUA é quase um
pleonasmo.

A história do Mercosul pode ser dividida, seguindo Almeida (2001), em três


períodos, que se iniciam com a assinatura do Tratado de Assunção em 1991. O primeiro
deles responde pela fase de transição acordada no Tratado, um período de adaptação das
políticas comerciais nacionais em direção à vigência da TEC a partir de 1995. Essa
etapa foi baseada em dois instrumentos: de um lado, o cronograma de convergência e
equalização de alíquotas para a entrada em vigor da TEC; e, de outro, as listas nacionais
de exclusão, com seus prazos de validade definidos e com maiores garantias para os
dois países pequenos, beneficiados com um prazo de um ano a mais para completar sua
133

adaptação. Esse período é marcado por um forte crescimento da corrente de comércio


dentro do bloco, como será visto adiante.

O segundo período inicia-se com a vigência da TEC em 1995 e encerra-se com a


crise cambial brasileira iniciada em 1998 e que levou à desvalorização do real em 1999,
sendo acompanhado da continuidade do crescimento da corrente de comércio
intrabloco. O terceiro período é marcado por uma profunda crise do processo de
integração, iniciada com o virtual colapso da política cambial brasileira, modificada em
janeiro de 1999, desdobra-se no declínio do comércio regional e na agudização das
dificuldades da Argentina, que vinha enfrentando um processo de estagnação e
deflação — determinado pela armadilha cambial a que o país está submetido pelo
regime de paridade — e, em sua proporção, também no abalo causado pela mudança
cambial brasileira para o Uruguai, cuja moeda também foi empurrada a uma posição de
valorização relativa.72

A fase de transição, até 1995, buscou adaptar o padrão comercial intrabloco à


nova orientação da política econômica, de cunho livre-cambista, além de construir e pôr
em marcha a estrutura institucional prevista no tratado. Para tanto, as instituições
reguladoras do comércio administrado, e seus acordos setoriais, originárias da
aproximação argentino-brasileira, foram sendo modificadas em favor de uma adesão às
regras da OMC, com uma sobrevida maior para alguns compromissos específicos, em
especial para o regime automotivo, cujo acordo setorial só foi alterado em dezembro de
2000.73 O canto de cisne da ideologia desenvolvimentista do contraditório governo de
Itamar Franco no Brasil, que combinava uma retomada do nacionalismo via suspensão
das privatizações com a continuidade ainda que mitigada da liberalização comercial,
não chegou a alterar essa tendência de hegemonia das posições neoliberais sobre a
política econômica dentro do bloco.

72
No que respeita ao Paraguai, a desvalorização brasileira incentivou uma retomada de seu setor
informal, historicamente ligado ao contrabando.
73
Não deixa de ser exemplar o papel da indústria automobilística em relação à nova orientação de cunho
liberal do Mercosul. Seguindo a antiga máxima de que “livre mercado bom é o do vizinho”, esse setor,
composto exclusivamente por empresas multinacionais européias e norte-americanas e alguns (poucos)
fornecedores locais, agarrou-se ferrenhamente ao paradigma do comércio administrado e ainda
mantém uma TEC especial, com alíquota duas vezes maior do que a média.
134

Na segunda fase do processo, já em vigor a TEC, a política aduaneira comum,


inegavelmente o aspecto mais desenvolvido do processo de integração, passou por
alguns ajustes em razão das vicissitudes da conjuntura internacional decorrentes das
sucessivas crises financeiras provocadas por recorrentes ataques especulativos nos
chamados “mercados emergentes” da Ásia, Europa do Leste e América Latina. Os
demais aspectos de uma política comercial, como a questão dos subsídios ou de
políticas “antidumping” e medidas compensatórias, permaneceram sem acordo
(Almeida, 2001). Da mesma forma, o próprio cronograma estabelecido inicialmente
para a vigência das listas nacionais de exceções, bem como seu conteúdo e respectivas
tarifas diferenciadas foram repactuados junto com a própria TEC em 1997, ao mesmo
tempo em que se firmava um acordo-quadro sobre serviços.

Importante nessa fase foi a adesão de Chile e Bolívia ao Mercosul, até o


momento com um estatuto diverso, pelo qual permanecem fora da união aduaneira, mas
participantes e vinculados a outras iniciativas do bloco, mais de caráter político. Entre
estas, a participação conjunta em fóruns internacionais e os acordos de integração
cultural e nas áreas fitossanitárias, aduaneira, de circulação de pessoas e regulatória. Da
mesma forma, foi firmado um acordo com a Comunidade Andina de Nações com vistas
a uma zona de livre comércio entre os dois blocos.

Nesse que foi o mais prolífico período do Mercosul, uma série de avanços
institucionais em áreas não econômicas tiveram lugar, o mais importante dos quais foi o
Compromisso Democrático no Mercosul, firmado na Declaração Presidencial de 1996.
Em julho de 1998, através do Protocolo de Ushuaia, o Mercosul mais Chile e Bolívia
aprofundaram a cláusula democrática transformando-a em condição necessária para
participar dos compromissos do bloco sob pena de exclusão.74 No mesmo ano, o
Conselho do Mercado Comum reunido no Rio de Janeiro reafirmou os compromissos
em torno dos direitos humanos e liberdades fundamentais, ao mesmo tempo em que deu
continuidade às negociações com a Comunidade Andina com vistas à ampliação da
integração para o restante da América do Sul e assinou a Declaração Sociolaboral do
Mercosul, um passo a mais no sentido da livre circulação da força de trabalho e da
construção de um regime de reciprocidade no campo dos direitos trabalhistas e da
seguridade social.

74
Essa iniciativa foi determinante para a preservação da frágil democracia paraguaia.
135

O último período, como já frisado, é marcado pela crise resultante da fragilidade


financeira externa das economias da região, responsável pelo episódio de
desvalorização da moeda brasileira em 1999, o qual desfez a ainda que precária
acomodação cambial entre os países. A reação argentina foi imediata, com o governo
aquiescendo aos reclamos do setor privado e adotando medidas protecionistas contra
diversos produtos brasileiros (têxteis, avícolas, siderúrgicos, calçadistas, de papel), que
iam até a barreiras por alegação sanitária. Em resposta, o Brasil apelou ao mecanismo
de solução de controvérsias do Mercosul e ameaçou com um pleito junto à OMC
(Almeida, 2001). Num desdobramento da grande assimetria cambial então gerada, o
Presidente Menem ameaçou com o fantasma da dolarização e defendeu a tese da moeda
única no Mercosul, obtendo, como resultado, a disposição brasileira de discutir a
harmonização das políticas monetárias e cambiais.

A par das dificuldades econômicas, nos planos político e institucional o processo


de integração aprofundou-se75 na área trabalhista com a criação da Comissão
Sociolaboral, um marco nesse sentido foi a assinatura, em abril de 1999, do primeiro
contrato coletivo de trabalho dentro do bloco entre a Wolksvagen e os sindicatos de
metalúrgicos do Brasil e da Argentina. Foram obtidos avanços também nas áreas do
reconhecimento de títulos e graus universitários, coordenação e cooperação em
segurança pública, supervisão da atividade de seguradoras e coordenação
macroeconômica. Esta última teve como resultado o acordo que fixou metas para a
dívida pública e a inflação em outubro de 2000. Nesse ano, numa tentativa de superar a
crise, o novo governo argentino, presidido por Fernando de la Rua, adere ao plano
brasileiro de relançamento do Mercosul, embora persista o contencioso sobre o açúcar, e
um acordo para o setor automotivo só seja alcançado em dezembro. No mesmo mês, a
reunião do Conselho do Mercado Comum em Florianópolis firmou um acordo-quadro
para o livre-comércio com a África do Sul. Além disso, mais alguns passos foram dados
nessa reunião, abrangendo a cooperação entre bancos centrais em relação à coibição de
ativos ilícitos, direitos do consumidor, regime de origem do Mercosul, revisão da TEC,
etc. Chile e Bolívia formalizaram sua adesão às metas macroeconômicas baseadas em
estatísticas harmonizadas.

75
A descrição desse processo de aprofundamento da integração em meio à crise econômica e seus
acontecimentos mais importantes foram sistematizados por Almeida (2001).
136

Um balanço institucional do Mercosul no início de 2001 estava diante de uma


situação contraditória em que se manifestavam tanto forças centrífugas que tensionavam
pela ruptura do processo de integração — como a fragilidade externa manifesta na crise
econômica argentina; a pressão internacional contra a TEC e o protecionismo regional,
cuja expressão maior é a tentativa dos EUA de imposição da ALCA; os interesses
conflitantes em diversos setores econômicos, políticos e da sociedade civil; e os efeitos
deletérios das políticas econômicas neoliberais — quanto forças centrípetas que
mantinham esse processo em marcha. Por estas últimas responde um movimento no
plano ideológico que inscreveu a integração na cultura popular da região, dando-lhe um
significado de destino de seus povos.76 Esse movimento tem feito avançar a arquitetura
institucional do Mercosul.

O deslocamento dos níveis de regulação do plano nacional para o regional está


materializado, nessa etapa do processo, em formas embrionárias de instituições estatais
regionais tornadas possíveis pela assunção de uma personalidade jurídica do Mercosul.
O Conselho do Mercado Comum assume crescentemente funções legislativas, o Grupo
do Mercado Comum é um executivo, enquanto o mecanismo de solução de
controvérsias é um esboço de corte de justiça. Em virtude de Comissão Parlamentar
Conjunta ter um status meramente consultivo, um déficit democrático semelhante ao da
União Européia está em vistas de se formar também no Cone Sul. Na Europa, a maior
parte das decisões do bloco são tomadas pelas reuniões de ministros, redundando em
que as funções legislativas de interesse para o processo de integração sejam levadas
adiante por representantes dos Poderes Executivos dos países-membros sem a
participação do Poder Legislativo supranacional (Musacchio; Rapoport, 1993).

4.2 - A economia do Mercosul

O fato mais destacado em relação à integração no Cone Sul foi seu grande
sucesso comercial. O desenvolvimento do comércio dentro do bloco, que foi notável,
não ocorreu às expensas das relações com o resto do mundo, pois a corrente de

76
A força dessa idéia foi incorporada no discurso oficial dos negociadores brasileiros na ALCA, que
fazem um contraponto da integração ao Mercosul como um destino para o Brasil com a adesão à zona
de livre comércio com a América do Norte como uma opção.
137

comércio para fora do bloco também cresceu. 77 Mais ainda, um intenso movimento de
fusões e incorporações e de crescimento das trocas intra-industriais, bem como o
movimento dos investimentos diretos representam indícios de um processo que
caminha, e é o argumento que defendo aqui, para a fusão das economias nacionais num
sistema regional unificado.

Esse processo, segundo a tendência seguida até agora, parece inexorável em


razão da mudança do papel da dimensão espacial no horizonte de cálculo dos agentes
econômicos relevantes, todos cada vez mais voltados ao mercado regional. A questão
que está em aberto é o estatuto, a característica maior desse sistema econômico regional
em formação, se será mantido autônomo e continuará a trajetória seguida até
recentemente pelos sistemas nacionais envolvidos em sua formação, desenvolvendo
propriedades autopoiéticas de auto-referência e autoprodução, ou se abandonará esse
percurso, rompendo a unidade de suas cadeias produtivas. Nesse caso, o caminho a ser
aberto é o da transformação de alguns de seus subsistemas que permanecerem
dinâmicos em elos de cadeias produtivas internacionalizadas, vinculadas à reprodução
ampliada das economias centrais, ficando o restante de suas estruturas produtivas, que
não tenham capacidade de estabelecer vínculos internacionais, estagnado ou decadente.
Exemplo dessa opção é o Plano Plurianual 2000-2003 do Governo Federal brasileiro,
Avança Brasil, o qual tem claramente essa perspectiva, ao enfatizar a dotação de infra-
-estrutura aos setores “dinâmicos” nos “eixos nacionais de desenvolvimento”. A sorte
reservada aos demais setores sequer é mencionada, o que faz desse plano um verdadeiro
projeto de desintegração nacional. Voltarei a essa questão mais adiante. Por enquanto,
cabe ressaltar que lançar um olhar um pouco mais próximo dos fatos econômicos da
integração vai elucidar melhor as perspectivas dessa mudança em curso na dimensão
espacial dos sistemas econômicos do Cone Sul.

77
Esse fato, por si só, representa um desmentido aos ataques livre-cambistas à união aduaneira, que a
vêem como um instrumento “artificial” e gerador de desvio de comércio. Uma resposta a essa crítica
pode ser encontrada em SREI (Ar. SREI, 1996), embora seus argumentos ainda se situem no campo do
mainstream. A posição ali contestada tinha como ponto de partida a suposição de que toda união
aduaneira gera desvio de comércio, o qual seria um mal em si mesmo. Ao fazer a referência, não estou
aceitando o debate nesse campo teórico, até porque não concordo com a hipótese parettiana de ótimo
social que está por trás da condenação do desvio de comércio. A escolha de parcerias, mesmo que
meramente comerciais, envolve outras considerações relativas ao bem-estar das nações, que vão muito
além da mera eficiência econômica.
138

4.2.1 - O comércio e o crescimento econômico no Mercosul

O indicador mais expressivo do desempenho econômico do Mercosul é o


crescimento da corrente de comércio dentro do bloco. Uma vista de olhos nos dados
mostra só as exportações se ampliando de US$ 4,1 bilhões em 1990 para US$ 20,6
bilhões em 1997, declinando um pouco desde então, na esteira da crise dos chamados
“mercados emergentes”. Fazendo menção especificamente à situação do Brasil, suas
exportações para os demais países do bloco multiplicaram-se quase por 10 entre 1985,
quando se iniciou a aproximação com a Argentina, e 1997, ano de auge das trocas
regionais. 78 Esse crescimento modificou a participação das relações comerciais entre os
parceiros no comércio exterior total dos quatro países, conforme pode ser visto na
Tabela 4.1. A mesma tendência foi verificada nos blocos econômicos que envolvem os
países mais desenvolvidos, dentre os quais apenas a União Européia teve seu coeficiente
de comércio interno reduzido, ao contrário do Sudeste Asiático e, principalmente, da
América do Norte, que ampliaram o grau de internalização de suas relações comerciais.
Em acordo com a hipótese defendida neste trabalho, esses dados podem ser
interpretados como um aspecto de afirmação da tendência à integração regional,
elemento central da transformação da dimensão espacial do capitalismo ora em curso.79
Tabela 4.1
Participação do comércio intrabloco no comércio exterior total do Mercosul — 1991-1999
(%)
ANOS IMPORTAÇÕES EXPORTAÇÕES
1991 6,0 11,1
1993 20,3 18,6
1995 18,4 20,5
1997 20,7 24,3
1999 19,2 20,4
FONTE: INDICADORES Macroeconómicos del Mercosur. Disponível em:
http://www.mercosur.org.uy

78
As exportações brasileiras para os três parceiros eram de US$ 990 milhões em 1985 e alcançaram mais
de US$ 9 bilhões em 1997, enquanto as importações subiram de US$ 683 milhões para US$ 9,5
bilhões no mesmo período. O declínio posterior, que chegou a um piso de US$ 6,8 e US$ 6,7 bilhões
em exportações e importações, respectivamente, em 1999, começou a ser revertido em 2000, quando as
exportações alcançaram US$ 7,7 e as importações US$ 7,8 bilhões, segundo a Secretaria de Comércio
Exterior do Governo Federal.
79
Mesmo a realidade aparentemente contraditória da União Européia não nega a tendência, na medida em
que representa, antes de um refluxo no plano comercial do processo de integração, sua expansão em
direção ao leste do continente, mensurado como relações externas ao bloco pelas estatísticas.
139

A mudança foi mais significativa no lado das importações, o que indica a


internalização de uma parcela dos fornecimentos externos de suas economias para
dentro do bloco, um fenômeno resultante da interpenetração de algumas cadeias
produtivas na região, a exemplo do setor automotivo. Em vista disso, pode-se dizer que
a integração abriu espaço a um processo de substituição das importações de fora do
Mercosul.

Olhando mais especificamente o caso brasileiro, as importações dos três


vizinhos, que alcançavam metade do valor das exportações no começo dos anos 80,
passaram a ser maiores do que estas a partir de 1995. Esse déficit comercial foi
decorrente, principalmente, do intercâmbio com a Argentina, pois, em relação ao
Paraguai, houve sempre superávit, e, no que toca ao Uruguai, oscilaram sempre déficits
e superávits, mas de não muito grande expressão. O déficit brasileiro também explica,
pelo efeito demanda agregada, além de outras razões internas, 80 o fato de o crescimento
da economia argentina nos anos 90 ter sido superior ao da dos demais parceiros.

O crescimento do comércio dentro do bloco resultou tanto da redução de


barreiras quanto da vigência da TEC. Entretanto, e em que pese a opinião dos adeptos
do livre-cambismo, não causou desvio de comércio, como mostram os dados da Tabela
4.2. As relações comerciais do Mercosul não só cresceram no cômputo do total das
trocas mundiais — o que poderia ser um mero resultado estatístico em função do
incremento do comércio regional — como também mostraram avanços em direção aos
três maiores blocos econômicos do mundo: América do Norte, Europa e Ásia. O aspecto
negativo da balança comercial dos países é o déficit que se forma em função da abertura
comercial posta em marcha principalmente por Brasil e Argentina desde 1990. Naquele
ano, enquanto as exportações do bloco eram US$ 46,4 bilhões, as importações
alcançavam apenas US$ 29,3 bilhões; já em 1999, as exportações atingiram US$ 74,3
bilhões contra US$ 82,5 bilhões das importações, depois de terem estado no patamar de
US$ 83,3 bilhões e US$ 102,6 bilhões, respectivamente, em 1997. Em 2000, essa
tendência alterou-se um pouco em razão da redução das importações. O déficit
comercial é um tópico decisivo para o destino das economias regionais e será abordado

80
O fenômeno “bolha de consumo” que acompanha os processos de queda brusca da inflação pelo efeito
renda gerado foi, no caso argentino, estendido no tempo pela ampliação do crédito. O endividamento
das famílias resultante é um forte obstáculo para que possa ser superado o problema da rigidez
cambial.
140

mais adiante.81 Nas relações internas do bloco, a balança comercial tem trazido uma
contribuição positiva ao seu desenvolvimento.
Tabela 4.2
Intercâmbio comercial do Mercosul com o mundo e regiões selecionadas — 1991-1999
(%)
ANOS NAFTA UNIÃO EUROPÉIA SUDESTE DA ÁSIA MUNDO
1991 6,22 2,62 13,46 1,14
1993 6,88 3,54 13,23 1,36
1995 8,04 3,90 13,19 1,44
1997 8,55 4,50 15,27 1,67
1999 6,18 3,58 14,34 1,36
FONTE: INDICADORES Macroeconómicos del Mercosur. Disponível em:
http://www.mercosur.org.uy

No que diz respeito ao conteúdo do comércio exterior do Mercosul, sua pauta


exportadora tende a se concentrar em produtos de intensidade tecnológica média alta,
segundo a classificação da OCDE, em função de suas taxas de crescimento (a
participação ficou em 16% em 1996), embora os produtos com conteúdo tecnológico
baixo ainda sejam predominantes na pauta (66,5% em 1996), sem tendência à redução.
Os produtos de tecnologia média baixa e alta declinaram sua participação na pauta do
bloco. Já em relação às importações, a alteração de sua composição foi causada pelo
declínio dos bens de baixa tecnologia, tendo crescido todos os demais itens, em
primeiro lugar os de alta tecnologia. Com essa performance, o grupo de média alta
tecnologia passou a ter o maior peso na pauta importadora do bloco (Guimarães, 2001).
Essa composição do comércio regional aponta para a formação de um déficit
tecnológico, na média em que indica uma especialização em bens com um menor
requisito em pesquisa e desenvolvimento. A absorção e a difusão de tecnologia ficam,
assim, dependentes do que pode ser conseguido através de importações de fora do
bloco. Os efeitos dinâmicos da tecnologia sobre o sistema econômico perdem
importância, e a dependência aprofunda-se.

81
A ALADI calculou um índice de quantum das exportações do Mercosul que vai de 78 em 1990 e chega
a 136 em 2000, enquanto o mesmo índice das importações parte de 29 em 1990, atinge meteóricos 136
em 1998, para recuar um pouco: 118 em 2000. Os efeitos sobre a balança comercial só não foram
piores porque os termos de troca evoluíram de um índice de 68 em 1990 para 92 em 2000
(www.aladi.org acessado em abril de 2001).
141

Numa análise das tendências à concentração ou à dispersão da pauta comercial,


Guimarães (2001) verificou que há um processo em curso de concentração por produto
dentro do Mercosul, enquanto, nas relações do bloco com o resto do mundo, vêm sendo
crescentes a dispersão e a diversificação da gama de produtos nela presente. Embora
esse autor chegue à conclusão de que tais resultados corroborem a tese cepalina em
favor da integração como passo em direção ao propugnado “regionalismo aberto”, creio
ser o caráter negativo representado pelo referido déficit tecnológico do comércio
externo do Mercosul uma razão decisiva a explicar essa tendência à concentração de sua
trocas internas em uma pauta restrita. O avanço da integração, na perspectiva adotada
por esta tese, não prescinde de uma crescente diversificação de suas trocas internas.
Para evitar uma interrupção do processo decorrente da concentração comercial em um
conjunto restrito de bens, seria necessária uma combinação de políticas industrial,
comercial e tecnológica para viabilizar a continuidade e o aprofundamento do Mercosul,
o que contraria a orientação global da política econômica neoliberal seguida pelos
principais parceiros.

O desempenho econômico dos quatro países pode ser sintetizado nas taxas de
crescimento do PIB que aparecem na Tabela 4.3. A periodização da Tabela 4.3 foi
proposta pela CEPAL (1985; Notas de la CEPAL, 2001) e é útil para, além de um
enriquecimento da análise histórica desenvolvida no Capítulo 3, avançar na
compreensão do processo de integração. Se, em relação aos anos 80, a década passada
foi melhor para todos os países, aquele de melhor desempenho no período de vigência
do Tratado de Assunção foi a Argentina, ficando, inclusive, acima da média calculada
pela CEPAL para toda a América Latina e Caribe (3,2%), seguida de perto pelo
Uruguai, igual à média. Na década anterior, por oposição, ambos tinham tido
desempenho inferior à média latino-americana e à caribenha (1,0%), ao contrário de
Brasil e Paraguai, que estiveram acima daquele índice.

Dos quatro países, apenas o Paraguai não teve um crescimento superior ao da


“década perdida” após o começo da integração. Mais ainda, para a Argentina e, em
menor grau, para o Uruguai, para quem foi o segundo, esse foi o melhor período em
toda a segunda metade do século XX. Numa análise de longo prazo, em que compara a
taxa média de crescimento do produto de 1990 a 1999 com a de 1945 a 1980, a CEPAL
(Notas de la CEPAL, 2001) mostra que Paraguai (2,1% contra cerca de 5%) e Brasil
(2,5% contra 7%) tiveram médias menos do que a metade menores nos anos 90 em
142

relação às do período anterior, enquanto o Uruguai teve uma taxa ligeiramente maior
(3,2% contra menos de 3%), e a Argentina atingiu uma performance muito superior
(4,7% contra cerca de 3,5%).

Tabela 4.3
Taxas anuais de crescimento do PIB nos países do Mercosul — 1950-99
(%)
PAÍSES 1950-65 1965-74 1974-80 1980-89 1990-99
Argentina........................ 3,1 4,4 1,8 -0,7 4,7
Brasil.............................. 6,4 10,0 6,1 1,3 2,5
Paraguai.......................... 3,2 5,3 10,2 3,0 2,1
Uruguai........................... 2,1 1,5 4,9 0,0 3,2
FONTE: CEPAL.

O desempenho superior das duas economias “temporonas” do Cone Sul traz uma
evidência em favor do potencial dinâmico da integração. Desembarcados precocemente
do bonde do desenvolvimentismo, tanto em razão de suas dificuldades políticas quanto,
principalmente no que interessa aqui, em função dos limites à continuidade da
industrialização e à complementação de sua estrutura produtiva postos pela relativa
exigüidade de seus mercados internos, o acesso ao mercado dos vizinhos representou
para esses países um deslocamento considerável em sua curva de demanda agregada. 82
Entretanto os fatos econômicos da integração não se resumem ao crescimento do
montante global das importações e exportações, mas incluem o aspecto qualitativo
dessas trocas e os movimentos do capital nas suas duas outras formas, além da
mercadoria, capital dinheiro e capital produtivo.

4.2.2 - Os movimentos do capital

Muito de acordo com as características dessa fase do capitalismo, os


movimentos do capital nas suas formas dinheiro ou produtiva foram ainda mais intensos
do que aqueles realizados na forma mercadoria. Desde a entrada em vigor do Tratado,
as exportações totais do bloco evoluíram de US$ 70,1 bilhões em 1995 para um pico de
US$ 82,6 bilhões em 1997, declinando para US$ 74,3 bilhões em 1999 (Notas de la
CEPAL, 2001), voltando a crescer em 2000, como indicam os dados do Brasil referidos

82
Estou aqui propositadamente minimizando o efeito renda da redução da inflação sobre a demanda
interna nos anos 90, especialmente importante na Argentina, após a lei da convertibilidade. Isto
porque, como corrobora a experiência brasileira, sua atuação é limitada no tempo, podendo ser mais
(como no caso argentino) ou menos alargada em função da disponibilidade de crédito.
143

acima. De igual modo, mas num ritmo bem mais intenso, os investimentos diretos
estrangeiros na região aumentaram de US$ 9,9 bilhões para US$ 55,3 bilhões entre
1995 e 1999 (Inf. Mercosur, 2000).83 Por certo, alguns fatores conjunturais que não têm
a ver com o processo de integração, como a aceleração das privatizações no Brasil,
contribuíram para esse resultado. Entretanto a verificação da origem e destino dessa
movimentação de capitais, bem como da redistribuição da propriedade dos ativos
econômicos na região — verificada nos movimentos de fusões e aquisições —, ajuda a
compreender, junto com uma interpretação do conteúdo das relações comerciais —
especialmente no que concerne ao crescimento do comércio intra-industrial — e das
estratégias empresariais, o significado econômico do processo de integração. Nos
termos da hipótese que estrutura esta tese, a análise desses aspectos das relações entre
os países da região permite que se verifique se a integração pôs em marcha um processo
de interpenetração das cadeias produtivas e, portanto, de fusão dos sistemas econômicos
nacionais em um sistema unificado e regional.

Para além do impulso dado pelo fenômeno da integração, os movimentos do


capital dinheiro 84 seguem a tendência dessa fase de financeirização ou monetarização da
riqueza que responde pelo ocaso do fordismo e de seu regime de acumulação
intensiva — o ciclo sistêmico norte-americano no esquema de Arrighi — e prepara uma
nova fase de expansão para a qual essa movimentação e redistribuição geográfica do
capital é decisiva. Mais ainda, esse movimento só foi possível ser feito em tal
magnitude porque a desregulamentação financeira promovida pelos governos
responsáveis pelas grandes praças de Nova Iorque e Londres, ainda nos anos 80,
facilitou ao capital a metamorfose em sua forma líquida por excelência, o dinheiro. Não

83
Numa outra estimativa, a ALADI calcula que as exportações variaram de US$ 46,4 bilhões em 1990,
alcançaram US$ 83,3 bilhões em 1997, para cair um pouco até US$ 74,3 bilhões em 1999, enquanto o
IDE cresceu de US$ 2,9 bilhões em 1990 para US$ 50,8 bilhões em 1999 (www.aladi.org acessada em
abril de 2001).
84
Os dados analisados dizem respeito a movimentos do capital realizados, quase exclusivamente, em sua
forma dinheiro. E não por acaso, pois esta tem sido a forma pela qual o capital produtivo encontra
mobilidade internacional nesse período. Já se vão muitas décadas das taxas de câmbio múltiplas que
apoiavam a transferência de máquinas e equipamentos do centro para a periferia, o que fazia a
transferência de capital produtivo per se relevante. Na medida em que passaram a ter o mesmo
tratamento das demais mercadorias, a não ser por eventuais tarifas diferenciadas, seu deslocamento
passou a ser feito como contrapartida do capital dinheiro.
144

é por acaso que a liberalização dos fluxos de capitais ultrapassou e teve um alcance
mais profundo que a dos fluxos de mercadorias. Novamente voltando a Arrighi, o
retorno do capital excedente, jogado para fora da esfera da produção pela crise do
regime de acumulação esgotado, só pode ser realizado através de sua metamorfose na
forma dinheiro, o que lhe permite o deslocamento, tanto espacial quanto temporal ou
setorial, para que possa retornar à esfera da produção em um novo momento, um novo
lugar e um novo ramo da estrutura produtiva, em um novo regime de acumulação.

A análise da movimentação de capitais no âmbito do Cone Sul indica claramente


uma opção da estratégia empresarial que buscou tirar proveito das oportunidades de
escala abertas pela vigência do mercado comum (Bonelli, 2000). E isso não foi um
resultado espontâneo dos mercados, mas um objetivo buscado e alcançado pela
condução política do processo ainda em sua fase bilateral durante os anos 80, através da
tática dos protocolos setoriais. Em seu trabalho sobre as fusões e aquisições no
Mercosul, Bonelli identifica como market seeking o tipo de estratégia predominante na
ação das empresas, isto é, seu objetivo central é conquistar ou preservar o mercado
interno da região. Em menor grau, também foram identificados em sua análise casos de
asset seeking, principalmente em relação a recursos naturais, como jazidas minerais, gás
e petróleo, florestas e terras produtivas. Uma terceira estratégia identificada por aquele
autor foi a de efficiency seeking, caso em que se sobressaem a indústria automobilística
e seus encadeamentos para frente e para trás, 85 com vistas à obtenção de “(...) economias
de escala e especialização dentro da empresa ou do grupo — isto é, a realização e o
aproveitamento de sinergias” (Bonelli, 2000, p. 7).

Uma intensa reestruturação produtiva perseguida pelas empresas industriais e de


serviços acompanhou o desenvolvimento do Mercosul nos anos 90 e serviu-se muito das
oportunidades criadas pela integração. Esse ajuste teve como elemento central a adoção
de novas técnicas de organização, secundadas pela difusão das tecnologias de
automação, processo em larga medida levado a cabo através de fusões e aquisições e de
associações empresariais ou joint ventures, nas quais o investimento direto estrangeiro

85
A indústria automobilística tem sido responsável por cerca de um quarto do comércio no Mercosul e foi
referida pela maior parte dos autores citados como um caso exemplar dentro do processo de integração
e merecendo um tratamento à parte. Ela foi protagonista central da integração, o que lhe garantiu que
sua liderança na estrutura produtiva regional permanecesse inconteste. E isto é, também, antes de uma
exceção, uma semelhança com relação às demais economias industrializadas desse porte.
145

teve papel significativo (Katz, 2000; Kossacoff, 2000; Ferraz et al., 1995). Como já fiz
referência no capítulo anterior, uma decorrência importante da reestruturação foi o
declínio da indústria de bens de capital pela substituição da produção doméstica por
importações com novo conteúdo tecnológico, facilitada pela abertura comercial. O
ponto mais relevante para o argumento deste trabalho em relação às transformações
qualitativas do comércio exterior na região, além de seu crescimento intrabloco, é o
desenvolvimento da modalidade intra-industrial, um indicador da interpenetração das
cadeias produtivas no Mercosul. 86

Estimativas do comércio intra-industrial no Mercosul indicam seu crescimento


como uma tendência que acompanha o processo de integração desde o período da
aproximação argentino-brasileira nos anos 80. Num estudo realizado por Baumann
(1998), o cálculo de um indicador para o comércio intra-indústria entre o Brasil e o
Mercosul parte de um valor de 0,27 em 1980 para alcançar 0,42 em 1985, caindo um
pouco no começo dos anos 90, ao redor de 0,37, mas voltando a crescer em seguida,
atingindo 0,5 em 1996. Mais ainda, a estimativa realizada no mesmo estudo para a
relação bilateral Brasil-Argentina vai de 0,38 a 0,56 no mesmo período. Como nessa
estimativa o índice varia de zero à unidade, o nível atingido é bastante significativo e
muito maior do que o estimado para o comércio com outros parceiros, embora, nesses
casos, também apresente uma tendência semelhante de crescimento.87 Uma estimativa
realizada por Bello (2000) com outra metodologia encontrou, num intervalo de 0 a 100,
um índice de 45,9 para o comércio Brasil-Argentina em 1998, com também uma
tendência de crescimento do índice calculado apenas para a economia do Rio Grande do
Sul em relação à Argentina, de 17,56 em 1994 para 28,58 em 1998. Uma terceira

86
O comércio intra-industrial é um indicador da complementaridade entre sistemas econômicos. Sua
existência decorre da estratégia de diferenciação de produtos e especialização das firmas nacionais
voltadas para o mercado regional. O fenômeno ocorre em países de nível de desenvolvimento
semelhante e renda elevada, o que implica um padrão de consumo capaz de comportar o grau de
diferenciação de produtos indutor das trocas intra-industriais.
87
O índice relativo aos EUA é o terceiro maior, após Argentina e Mercosul, mas num patamar que varia
de 0,22 a 0,32 entre 1980 e 1996. A tendência de crescimento só está ausente na relação nipo-
brasileira, onde o cálculo indica uma oscilação entre 0,17 e 0,09 no período (Baumann, 1998). Sem
dúvida, esse índice tão reduzido é razão do predomínio, na relação comercial entre os dois, de uma
pauta “clássica” em termos de uma visão centro-periferia, de troca de produtos primários por produtos
industrializados.
146

estimativa do comércio intra-industrial no Mercosul foi realizada por Guimarães (2001),


que encontrou um índice para o Brasil variando de 14,28% em 1986, início da
aproximação com a Argentina, para 26,11% em 1991, começo da fase de adaptação à
união aduaneira, atingindo 26,7% em 1996, quando já estava em vigor a TEC. O índice
argentino inicialmente foi de 21,94% em 1986, subiu para 30,72% em 1991 e atingiu
34,93% em 1996.

A abertura dessas análises para um corte setorial no comércio intra-industrial


aponta o setor automotivo como respondendo pela quase-totalidade do índice,
aparecendo também as indústrias do gênero química, de máquinas e equipamentos e de
carnes e derivados, mas com contribuições modestas (Baumann, 1998; Bello, 2000).
Para uma análise setorial que verificasse a validade da hipótese aqui defendida sobre a
integração, seria necessário distinguir a parcela relacionada a flutuações de preços
relativos — no caso do Mercosul, fortemente condicionadas pelas diferenças de regimes
cambiais — daquela reveladora de um processo de interpenetração das cadeias
produtivas e efetiva unificação dos mercados de consumo.

Nesse sentido, é importante fazer uma comparação das análises que indicam os
setores preponderantes no comércio intra-indústria com os movimentos de realocação
do capital na produção. Uma sinalização desse movimento aparece nos processos de
fusões e aquisições analisados por Bonelli (2000). Em seu estudo, os segmentos
químico e de alimentação sobressaem-se como sofrendo um processo bastante intenso
de transferências patrimoniais. Embora com um número de operações menor, o setor
automotivo, dominado por empresas transnacionais, não deixou de se fazer presente,
mormente no tipo de fusão e aquisição classificado como cross border, em que filiais de
um país são adquiridas por outras do país vizinho.88 Como lembra Baumann, esse
movimento representa uma mudança significativa no conteúdo dos investimentos entre
os vizinhos. “Até 1986, ¾ dos investimentos entre o Brasil, a Argentina e o Uruguai
estavam concentrados no setor de serviços, sobretudo bancos comerciais.” (Baumann,
2001, p. 40). Os investimentos além-fronteiras só atingiram o setor produtivo e a
indústria após o começo da integração.

88
Os intermediários financeiros foram os líderes de fusões e aquisições na região, principalmente em
função da reestruturação radical do setor no Brasil, após a abertura. Nos demais parceiros, onde os
bancos já estavam internacionalizados há mais tempo, o impacto foi menor (Bonelli, 2000).
147

Essas análises revelam que o Mercosul pôs em marcha um processo de


integração produtiva no plano regional no qual tanto os empreendimentos preexistentes
quanto os novos investimentos buscam ocupar espaço no mercado regional. Seu alcance
ainda é limitado,89 mas indica claramente uma tendência verificada também em outros
blocos regionais formados entre países com um grau de industrialização tão ou mais
avançado do que o das duas maiores economias do Cone Sul. Para que esse processo
tivesse lugar, o formato definido para o mercado comum, com seus protocolos setoriais,
a TEC, a convergência em algumas áreas regulatórias e na política comercial, foi
decisivo até o momento. A continuidade da condução política de uma ação deliberada
nesse sentido é condição necessária para o avanço da integração.

Como chama a atenção Aldo Ferrer:

“La división regional del trabajo intraindustrial, al nivel de productos y

no de ramas, en las actividades manufactureras y, también, en múltiples

productos primarios (e. g. alimentos) y servicios es una condición

necesaria del crecimiento futuro del Mercosur” (Ferrer, 1998, p. 85).

O autor, em seguida, aponta três dificuldades a serem superadas para que a


integração siga esse caminho. Em primeiro lugar, o peso relativamente menor das
manufaturas nas exportações argentinas causa uma assimetria importante. Em segundo
lugar, o desequilíbrio, entre os dois parceiros mais industrializados, da pauta de bens
diferenciados e de maior base tecnológica, que são os mais dinâmicos, em relação às
commodities industriais, mais sujeitas a flutuações e choques nos mercados externos. E,
em terceiro lugar, a importância maior do comércio administrado para a Argentina (e,
na sua proporção, para o Uruguai), enquanto a arma mais eficaz do Brasil tem sido o
predomínio de sua competitividade, principalmente pelas óbvias razões de escala. Por
esse motivo, considera, acertadamente, que os efeitos industrializantes do Mercosul se
fazem sentir, desequilibradamente, mais em favor do Brasil.

89
Um outro aspecto dessa limitação é que o processo de integração de estruturas produtivas tem sido
levado exclusivamente por deslocamentos do fator capital. Como lembra Baumann (2001), os
deslocamentos da força de trabalho são ainda irrisórios, muito em decorrência de os padrões salariais e
principalmente de seguridade social do Brasil, que, por razões puramente econômicas, deveria ser um
pólo de atração de trabalhadores, serem inferiores aos dos demais países.
148

Esse obstáculo cobra a necessidade de uma política industrial comum, uma


dificuldade quando essas políticas deixaram de existir no plano nacional, uma vez que
foram postas para fora da agenda pela adoção do pacote fundamentalista do Consenso
de Washington. Isso conduz a um aspecto central na pauta da integração regional, as
vicissitudes das políticas econômicas seguidas pelos parceiros.

4.2.3 - A desintegração da política econômica

Argumentei mais acima que a política econômica neoliberal, inspirada pelo


Consenso de Washington, criava um obstáculo de difícil transposição para a retomada
do desenvolvimento econômico. Aplaudidas como promotoras de uma estabilidade
nunca antes conhecida pelas economias latino-americanas,90 essas estratégias de política
econômica, se alcançaram reduzir a inflação para níveis poucas vezes verificados na
segunda metade do século XX, por outro lado, produziram um grau de instabilidade
poucas vezes conhecido. Sua implementação acabou por destruir todos os fundamentos
do, ainda que precário, efetivo equilíbrio macroeconômico das economias.

O fulcro dessa instabilidade, conforme analisada por diversos autores (Cano,


1999; Fiori, 1999; Gonçalves, 1999; Miotti; Quenan; Ricouer-Nicolaï, 1999; Tavares,
1999), foi a fragilidade financeira externa. Para além da desindustrialização argentina,
da ruptura das cadeias produtivas brasileiras, do baixo crescimento e do desemprego,
esse foi o resultado mais deletério da aplicação do “decálogo fundamentalista”, como
apelidou Aldo Ferrer (1997). Aliás, como lembrou esse autor, a única diferença em
relação às recomendações do Consenso de Washington presente na política econômica
dos dois maiores membros do Mercosul foi a apreciação da taxa de câmbio, principal
instrumento da também única conquista no sentido da estabilidade alcançada pelo
neoliberalismo no Cone Sul, o controle da inflação.91

90
Talvez “nunca” seja excessivo, pois os apologistas (e. g. Franco, 1998), muitas vezes, deixaram
entender que vêem a economia primário-exportadora do século XIX como um outro momento de
estabilidade. Em seu maniqueísmo simplório, instabilidade faz dupla com o “populismo econômico”
da “artificial” industrialização por substituição de importações e do desenvolvimentismo. Pensando
assim, esquecem tanto a funcionalidade da inflação para aquele modo de desenvolvimento quanto a
instabilidade cambial permanente da economia agroexportadora (Oliveira, 1977).
91
Essa constatação leva à conclusão de que uma aplicação in totum do Consenso de Washington, além de
todos os efeitos negativos e desestabilizadores causados ao balanço de pagamentos, às contas públicas,
ao nível de investimento, ao emprego e ao crescimento, não teria sucesso nem na redução da inflação.
149

Em relação à integração, a guinada da política econômica desde o começo dos


anos 90 não apenas mudou o conteúdo do processo, de uma direção produtivista setorial
e administrada, a da aproximação bilateral anterior, para o livre-cambismo linear de
após o Tratado de Assunção, a que já fiz referência acima. Esses novos rumos também
provocaram uma série de desequilíbrios, que se somaram à situação estrutural de crise
do modo de desenvolvimento, criando diversos obstáculos à continuidade do Mercosul.

Os dois grandes desequilíbrios macroeconômicos causados pelas políticas


antiinflacionárias adotadas desde então afetaram, em primeiro lugar, o balanço de
pagamentos, com efeito mais direto sobre as relações inter-regionais, mas também as
contas do governo, com as óbvias implicações sobre a taxa de juros e o crescimento.

O desequilíbrio nas contas externas dos países resultou de dois componentes


intencionais e desejados da política adotada, a abertura comercial, com conseqüente
crescimento das importações, e a abertura do mercado de capitais, com o também
conseqüente crescimento da dívida externa e das remessas de lucros, juros e outros
pagamentos. Assim, o déficit da balança comercial veio crescendo em conseqüência,
algo novo para economias nas quais a combinação de uma vocação exportadora secular
com a substituição de importações havia criado as condições para um resultado positivo
perene na balança comercial. Da mesma sorte, o histórico déficit na conta serviços foi
acrescido, para além dos serviços da dívida externa, por si só enormemente majorada, 92
pela liberação da remessa de lucros, dividendos e pagamentos de direitos de propriedade
decorrentes tanto da ampliação da participação do capital externo na economia local
quanto da adesão à OMC e à aceitação de outros mecanismos de proteção à propriedade
estrangeira, em grande parte decorrentes da cessão a pressões dos EUA.

A soma dos déficits na balança comercial e nos serviços criou uma necessidade
premente de grandes superávits na conta de capital para financiar esse desequilíbrio nas
transações correntes. O ingresso líquido de capitais passou a ser uma necessidade vital
das economias, e, na medida em que os acordos de renegociação das dívidas externas
“antigas”93 implicaram um aumento das amortizações, a atração de montantes cada vez

92
Segundo a ALADI, a dívida externa total dos quatro países do Mercosul passou de US$ 192 bilhões em
1990 para US$ 390 bilhões em 2000 (www.aladi.org acessada em abril de 2001).
93
Nessa classificação, estou englobando as dívidas criadas, principalmente, entre os anos 70 e 80 e que
foram objeto de renegociação ao final desta última década.
150

maiores de investimento externo passou a comandar as decisões da política econômica.


Como conseqüência, a criação e a manutenção de um ambiente “amigável aos
mercados” tornou-se a verdadeira meta das políticas governamentais. O enorme afluxo
de capital dinheiro assim criado não apenas fez crescer a dívida externa, como também
a dívida interna, uma vez que, além das privatizações e, em menor grau, das aquisições
de empresas da região ou o investimento produtivo propriamente dito (formação bruta
de capital fixo), boa parte desses ingressos foi aplicada em títulos públicos. 94

Mais ainda, os demais determinantes da política monetária já haviam colocado


os juros em níveis muito elevados no lançamento dos programas de estabilização,
seguindo a estratégia de “taxas à lua” como definiu um diretor do Banco Central do
Brasil à época do Plano Real. Recuar muito desse patamar inicial elevado diante da
premência de atrair capitais de fora mostrou-se impossível ou incompatível com um
ambiente “amigável aos mercados”. Com esse nível de taxas de juros, a dívida pública
não pára de crescer e de criar dificuldades cada vez maiores para a gestão das finanças
públicas. A armadilha da política econômica neoliberal fecha-se de vez. Necessidades
de financiamento e endividamento externo crescentes, necessidades de financiamento e
endividamento do setor público crescentes levam a prêmios de risco também crescentes,
com novos efeitos ainda mais negativos sobre os déficits público e do balanço de
pagamentos.

Presas à manutenção do único oásis de estabilidade em meio a essa turbulência,


a inflação baixa, as autoridades monetárias mantêm-se, por muito tempo, atadas a uma
segunda armadilha, o câmbio rígido e valorizado.95 Encantados com os efeitos sobre o
nível de preços causados pela combinação câmbio valorizado e abertura comercial, que
quebrou o mecanismo de formação de preços tipo mark-up herdado do modo de
desenvolvimento anterior,96 os formuladores da política econômica minimizaram a

94
Muitas vezes, o ingresso de capital com vistas a inversões no setor privado também produz aumento da
dívida pública, operando um mecanismo existente desde as origens da crise inflacionária dos anos 80.
De olho nas metas monetárias de controle da liquidez, o ingresso de divisas é convertido em títulos e
não em moeda.
95
No caso da Argentina, mais que rígido, fixo por lei até hoje.
96
O sistema de preços vigente no desenvolvimentismo permitia às empresas nacionais um elevado grau
de controle de seus mercados, através do qual a inescapável defasagem em termos de produtividade e
escala, que redundava em custos maiores, era compensada por preços também maiores. Foi uma opção
151

fragilidade financeira externa decorrente. Seus resultados deletérios eram e ainda são
tidos como temporários e solucionáveis pelo recurso ao ambiente “amigável aos
mercados”, que não apenas financiaria o desequilíbrio no balanço de pagamentos, como
geraria uma corrente de investimentos externos impulsionadora de um novo ciclo de
crescimento.

A história mostrou quão ilusória foi essa expectativa. O fluxo de capitais criado,
ao qual os mexicanos deram o apelido de golondrina — assim como chega, parte —, foi
predominantemente especulativo, gerando um grau de volatilidade e incerteza crescente
nos mercados financeiros da região. 97 Durante os anos 1993-94 e 1998, no entanto, uma
certa convergência alcançada entre taxas de inflação e câmbio foi importante para o
crescimento do fluxo de comércio no Mercosul, alimentando as ilusões sobre a política
de estabilização neoliberal. A calmaria, entretanto, foi não apenas temporária,
abruptamente interrompida pela desvalorização do real em janeiro de 1999, como não
foi acompanhada de nenhum mecanismo de coordenação monetária e cambial, a
exemplo da União Européia (Pereira, 1996).

A crise que se instala no Mercosul após a mudança cambial brasileira responde


pela manifestação da contradição entre a política econômica e o processo de integração.
Após aparentemente favorecer o processo, propiciando o crescimento tanto da corrente
de comércio quanto das exportações argentinas e uruguaias para o Brasil, a âncora
cambial do real ruiu sob um avassalador ataque especulativo, que evaporou as reservas
internacionais do País. Foi uma repetição da sina dos chamados “mercados
emergentes”, os quais não são mais do que praças financeiras do capitalismo periférico,
onde a desregulamentação e a abertura ao Exterior criaram um terreno fértil para a ação
dos especuladores internacionalizados.98 Até a posse da administração de George W.

por menor bem-estar presente em troca de maior bem-estar para as gerações futuras, que seriam as
beneficiárias do estilo de vida urbano-industrial assim construído.
97
Mais vã ainda foi a esperança de que o investimento estrangeiro fizesse crescer a formação bruta de
capital fixo. A parcela empregada produtivamente dirigiu-se às privatizações e aquisições de empresas
nacionais, meras trocas patrimoniais, além de serem submetidas a processos de “enxugamento” pelos
novos donos, que representaram destruição de capital. O único setor com ampliação de capacidade
significativa foi o de comunicações, na esteira da revolução tecnológica em marcha mundo afora.
98
Nunca é demais lembrar que abertura e desregulamentação se fizeram sob pressão dos EUA, sede da
maior parte dos capitais que dela se beneficiaram em suas jogadas de curto prazo, as quais vêm
152

Bush (o filho), operações de socorro internacional patrocinadas pelos EUA e


monitoradas pelo FMI davam conta da emergência, ao mesmo tempo em que
asseguravam a adesão ao “decálogo fundamentalista”. Desde então, haja vista as
reservas em relação à crise Argentina, um refinanciamento das posições internacionais
do País parece difícil, tornando a crise de liquidez crônica. 99

Desde a implantação desse modelo, as economias que a ele aderiram, Mercosul


inclusive, em razão da vulnerabilidade externa decorrente, passam a ser dirigidas por
impulsos vindos de fora, perdendo a característica de auto-referência aqui vista como
necessária ao desenvolvimento dos sistemas capitalistas autônomos. No que respeita às
necessidades de aprofundamento do processo de integração, assunto retomado logo a
seguir, é como esperar do cavalo atrelado à atafona que escolha seu itinerário.

4.3 - Desenvolvimento no Mercosul

O argumento central desta tese vê o processo de integração econômica em curso


no Cone Sul da América Latina como uma manifestação de um ciclo de expansão da
dimensão espacial do capitalismo em curso em todo o Planeta. Esposei aqui as teses de
Braudel e Arrighi, as quais são tributárias de uma antecessora postulação de Marx sobre
o caráter expansionsita do capital, que vêem este momento de virada do século como
expressivo da manifestação da tendência característica desse modo de produção de
mudança em sua dimensão espacial. Como é da própria natureza desses sistemas
econômicos, suas tendências manifestam-se por impulsos cíclicos e em todos os lugares
onde a forma de sociabilidade dominante é a capitalista. Seguindo essa lei de
movimento, os sistemas econômicos dessa região meridional da América expressaram à
sua maneira a tendência à mudança de sua dimensão espacial na constituição do
Mercosul.

Os mecanismos aparentemente automáticos das economias capitalistas,


comandados por suas propriedades de auto-referência e autoprodução, deram um tom de

deixando um número crescente de vítimas ao largo do seu caminho, México, Indonésia, Rússia, Brasil,
Turquia, Argentina... e os próximos.
99
Na verdade, a posição da administração presidida por George W. Bush privatizou as operações de
socorro, como foi o caso da Argentina em junho de 2001, com o conseqüente aumento de seus custos.
O problema é apenas aumentado e empurrado para o futuro.
153

inexorabilidade e inevitabilidade a esse processo. Saber que está acontecendo,


entretanto, não diz da forma e do modo com que esse fenômeno terá no futuro.
Pensando como Milton Santos (1997), é possível vislumbrar dois caminhos para essa
transformação, caminhos que põem em pólos opostos uma inclinação pelo global e
outra pelo local.

Pelo primeiro caminho respondem os acontecimentos e os desdobramentos do


processo de integração sul-continental até o presente, especialmente nos anos 90, após a
assinatura do Tratado de Assunção, na fase aqui chamada livre-cambista. A
liberalização comercial horizontal, o desinteresse por regulações que não fossem
aquelas imediatamente relacionadas ao comércio e ao movimento de capitais, como as
financeiras, de normatização ou de solução de controvérsias, a pactuação de políticas
industriais e comerciais exclusivamente ad hoc, caso do açúcar ou da indústria
automotiva, e assim por diante, fazem contraponto ao pouco desenvolvimento
institucional do Mercosul, à sua evolução relativamente muito inferior nas esferas social
e política (educação, seguridade social, representação política). Tudo isso traça os
contornos de um certo tipo de integração que, ao arrepio do espírito do Tratado,100
assume essa face livre-cambista e se associa ao movimento global de transformação dos
espaços locais em territórios submetidos ao capital globalizado (Santos, 1997).

Essa vertente, como foi visto, tem alcançado resultados significativos, expressos
no crescimento da corrente de comércio, no crescimento do movimento de capitais e na
consolidação de empreendimentos e cadeias produtivas transfronteiras, através do
comércio intra-industrial e dos processos de fusões e aquisições. O avanço desse tipo de
integração, entretanto, não contribui para a formação de um sistema econômico regional
unificado, que venha a representar uma nova dimensão espacial integrada para a
economia da região. Ao contrário, e é o que defendo aqui, significará, uma vez
consolidado, um retorno ao estágio pré-independência dos sistemas econômicos sul-
-americanos, no qual um arquipélago de enclaves produtivos localizados em diferentes
lugares do continente mantinha escassos vínculos internos e se relacionava
primordialmente com os sistemas econômicos colonizadores da Europa. Sua reprodução

100
Nesse sentido, o Tratado é paradoxal, pois reafirma um projeto de integração econômica, social e
política, circulação de pessoas, mercadorias e empreendimentos, políticas industrial, comercial, etc.,
comuns, tudo contra o livre-cambismo dos governos que o implementaram desde então. A preservação
desses princípios é decisiva para a afirmação de um projeto de integração alternativo.
154

e os referenciais de sua organização eram determinados a partir dessa relação


privilegiada com o Exterior, mediada fundamentalmente não por suas representações
políticas (no período colonial quase completamente inexistentes), mas por quem dirigia
os empreendimentos econômicos aqui situados. 101 Nessa perspectiva de uma integração
dependente, identidade nacional e representação política são vistas não como condição
necessária, como mostrou Braudel a respeito do alvorecer da Idade Moderna, mas como
entraves ao desenvolvimento dos mercados. E isso não apenas pelas elites dirigentes das
empresas transnacionais sediadas na região, mas mesmo por empresários nativos que
vislumbram alguma chance de afirmação em um novo território local desintegrado.102

Um outro caminho, entretanto, é possível. Como venho argumentando neste


trabalho, a retomada do processo pelo qual os sistemas econômicos regionais vinham
desenvolvendo propriedades autopoiéticas, estabelecendo suas fronteiras e mecanismos
de autoprodução e auto-referência, numa outra dimensão espacial, é não apenas uma
possibilidade teórica, mas o caminho que está sendo trilhado pelos sistemas econômicos
capitalistas mais desenvolvidos. É esse o significado tanto do NAFTA e da Asean,
exemplos de mudança nas dimensões espaciais dos sistemas econômicos através de
processos de integração assimétricos,103 quanto da União Européia, que vem
diligentemente realizando esforços no sentido de desenvolver uma integração que
supere as assimetrias originárias de suas unidades nacionais constituintes. Neste final de

101
A expressão dessa condição como objetivo de um projeto político é clara no Plano Plurianual Avança
Brasil, diretriz de planejamento econômico do País entre 2000 e 2003. Nesse projeto, o
desenvolvimento está alicerçado na constituição de eixos “nacionais” formados por pólos dinâmicos,
capazes de estabelecer vínculos com a economia mundial, para os quais as ações programadas no
Plano devem construir as condições necessárias. O restante do território só merece menção no capítulo
das políticas sociais, não explicitamente admitidas como meramente compensatórias.
102
A imprensa tem divulgado inúmeras manifestações de dirigentes empresariais locais, que, em coro às
recomendações de consultores que valem mais pelos honorários do que por conhecimento, revelam o
objetivo estratégico de situar seus negócios em um espaço “globalizado” em detrimento de vínculos e
compromissos locais.
103
A vigência dessas assimetrias faz com que o processo de integração resulte em uma incorporação de
alguns espaços exteriores desgarrados de seus vínculos econômicos locais à economia da nação
dominante, no caso EUA e Japão. Os demais espaços nacionais ficam esvaziados economicamente e
excluídos do processo, como mostra o exemplo de Chiapas no México.
155

capítulo, vou tratar dos requisitos e possibilidades de um desdobramento independente


do processo de integração do Cone Sul.

4.3.1 - A acumulação em escala regional

O Mercosul pode, dependendo dos rumos que venha a tomar o processo de


integração, abrir passo para a constituição de um novo espaço econômico regional
independente. Para que essa possibilidade se materialize, é necessário que os
desdobramentos futuros da integração atendam a alguns pressupostos, uma parte deles
no âmbito estritamente político e social, dos quais vou tratar mais adiante, e outra, mais
importante, no campo econômico. A independência e a soberania do novo espaço
regional criado pelo processo de integração só serão possíveis com o deslocamento das
construções sociais regime de acumulação e modo de regulação para uma escala
regional.

A instituição de um regime de acumulação em escala regional implicaria a


realização da totalidade dos objetivos do Tratado de Assunção, na medida em que só
poderia ser alcançada pela unificação quase completa dos esquemas de reprodução
nacionais em um único sistema regional. Quer dizer, a unificação — ressalvadas, mas
tratadas e resolvidas, as assimetrias nacionais — das cadeias produtivas em uma única
matriz regional de insumo-produto, de forma que, para expressar em termos estatísticos,
a medida de variância de um país para o outro seja menor ou igual àquela interna aos
países participantes. Da mesma forma, cobra a instituição de formas estruturais que
regulem e estabilizem o regime de acumulação em sua nova dimensão espacial. Vou
tratar disso brevemente a seguir da única forma em que pode ser feito, arriscadamente
especulativa. Nesse percurso, tanto quanto possível, procurarei fugir de uma inevitável
tentação normativa, embora a dificuldade de evitá-la.

A interpenetração das estruturas produtivas nacionais no bloco subcontinental é


visível nas estatísticas econômicas e está em marcha desde os anos 80, como resultado
tanto da aproximação brasileiro-argentina como de iniciativas das próprias empresas,
basta lembrar o exemplo da associação entre Wolksvagen e Ford na formação da
Autolatina. Entretanto os fluxos de comércio e de capitais, deixados ao sabor das regras
de mercado, têm como resultado um padrão de integração que reproduz e amplia as
assimetrias e desigualdades entre os participantes, criando obstáculos potenciais à
integração.
156

No estudo de Bonelli (2000), é visível uma mudança na direção dos fluxos de


capitais e no movimento de aquisições de empresas em 1990-97 e 1998-00. No primeiro
período, houve um movimento entre equilibrado e ligeiramente favorável à Argentina,
ao passo que, no segundo, tanto as aquisições brasileiras na Argentina se tornam
majoritárias, quanto, mais importante, o fluxo de capitais se inverte em direção ao Brasil
de forma muito intensa. Mesmo diante de possíveis problemas metodológicos e de
amostragem e, principalmente, da mudança cambial do Brasil, apontados pelo autor,
creio que o gradual abandono dos protocolos setoriais e de investimentos decorrentes da
guinada livre-cambista do Mercosul é a mais importante explicação desse fenômeno. A
força gravitacional da economia brasileira sendo exercida sem nenhum contrapeso
aprofunda o processo de desindustrialização da Argentina e cristaliza o atraso relativo
do Uruguai e, mais ainda, do Paraguai.

Por outro lado, a superação do esgotamento do regime de acumulação intensivo


na forma como foi implementado aqui pelo modelo desenvolvimentista cobra a
continuidade do processo de reestruturação produtiva em marcha, com seus efeitos
sobre a produtividade e a composição da malha produtiva regional. Os rumos desse
processo, entretanto, dependem de uma definição decidida no campo da política, a
distribuição da renda. Como argumentei no capítulo anterior, a crise do modo de
desenvolvimento antecedente tem como um de seus elementos principais a exigüidade
do mercado interno decorrente da concentração da renda. Uma estrutura produtiva
similar à do fordismo requereria um mercado de consumo de massas impossível de se
realizar numa estrutura social tão desigual como a da América Latina, Brasil à frente.

A integração orientada pelo mercado, que tem dirigido o processo recentemente


do ponto de vista das estratégias empresariais, pode representar uma tentativa de superar
o problema da demanda. Entretanto seus efeitos sobre o conjunto das economias
envolvidas pode ser de soma zero, na medida em que represente apenas o deslocamento
de um concorrente menos competitivo pela ocupação de espaço nos mercados
unificados, antes nacionalmente divididos. A resultante dinâmica pode ser não apenas
desprezível, como negativa, se implicar aumento do desemprego.

A constituição de um regime de acumulação em escala regional estável requer o


tratamento tanto das desigualdades de renda como das desigualdades entre as nações e,
dentro destas, de uma retomada das preocupações com suas províncias mais atrasadas.
A preservação de um processo de acumulação de capital autocentrado na região
157

pressupõe a expansão do mercado interno tanto num ritmo adequado como com uma
composição da demanda condizente com a estrutura da oferta.104 A redistribuição, tanto
social quanto geográfica, da renda é necessária.

Deixado ao sabor das tendências de mercado, o processo de concentração dos


capitais em direção ao Brasil e a seu eixo sul-sudeste só será revertido no distante futuro
em que deseconomias de aglomeração se manifestem. É pouco crível que argentinos e
uruguaios assistam ao esvaziamento econômico de seus países inertes. Da mesma
forma, o aumento da exclusão social vem sendo aprofundado pela desarticulação de
algumas cadeias produtivas, causada pela internacionalização das economias, que faz
crescer o desemprego e desloca as referências do sistema econômico para suas
vinculações com o Exterior. Também da mesma forma, é pouco provável que um grau
crescente de exclusão social possa se sustentar na vigência de regimes democráticos.

Aldo Ferrer (1997) adverte que a formação de um pólo industrial e tecnológico


hegemônico no Brasil reproduziria uma relação centro-periferia no Mercosul, contrária
aos interesses dos outros sócios. Em sua visão, o desenvolvimento do mercado comum
só pode vir a ser sustentado através do aprofundamento de uma divisão regional do
trabalho intra-industrial. Em sua perspectiva, um pré-requisito é necessário.

“El futuro del Mercosur depende fundamentalmente de la

transformación simultánea de sus dos principales socios y del avance en

torno de estos ejes de Paraguay y Uruguay. La reindustrialización de

Argentina constiuye, en efecto, la clave para el desarrollo futuro del

mercado subregional.” (Ferrer, 1997, p. 85).

Como essa não é a tendência “espontânea” da orientação do mercado, um


movimento que se sobreponha às iniciativas das empresas e capitais será necessário.
Esse movimento responde pelo nome de planejamento e abre duas ordens de questões.
De um lado, cobra a necessidade de reverter o processo de desmonte do aparelho de
Estado no sentido de recompor sua capacidade de ingerência sobre o desempenho e a
direção dos movimentos da estrutura produtiva. Para isso, há experiência e memória

104
Mais ainda, um crescimento sustentado requer um ajuste fino entre necessidades sociais de consumo,
distribuição da renda — e, portanto, poder de compra — e estrutura produtiva.
158

acumuladas. Entretanto, de outro lado, será preciso efetivar um deslocamento dos níveis
de regulação para dotar o novo espaço econômico em formação das formas
institucionais que lhe propiciem estabilidade.

De qualquer forma, pela linha de argumentação aqui desenvolvida, o novo


regime de acumulação de dimensão regional prescinde de uma revolução produtiva em
larga escala. Como a História tem mostrado, as inovações produtivas, antes de
ocuparem o espaço deixado vazio por estruturas arcaicas desaparecidas, têm um
comportamento que se poderia definir como “sedimentar”, organizando-se em espaços
novos ou sobrepondo-se a estruturas preexistentes. Por essa razão, um novo regime de
acumulação “pós-fordista” teria como fronteiras de crescimento não apenas o incerto e
até hoje pouco dinâmico espaço das novas tecnologias e novos produtos, mas,
principalmente, o “déficit” de demanda do regime anterior, a ser preenchido com a
incorporação de uma massa de novos consumidores em potencial ao mercado através da
elevação de sua renda. O nível da renda per capita, o grau de urbanização, assim como
o padrão de consumo monetário da quase-totalidade da população dos países membros
abrem uma perspectiva promissora nesse sentido.

4.3.2 - Instituições e integração

A estabilização de um novo regime de crescimento ou modo de desenvolvimento


com essa nova dimensão espacial do regime de acumulação requer a adequação de um
também novo modo de regulação a essa nova dimensão. Um deslocamento dos níveis de
regulação é necessário (Becker, 1997). Se a interação dos agentes que traça os
contornos do novo regime de acumulação cobra algumas mediações das esferas social e
política, a construção de novas formas institucionais é mais ainda dependente de
fenômenos políticos e sociais. A instituição de um modo de regulação regional é um
processo eivado de contradições, na medida em que o deslocamento de competências
para o plano do mercado comum cria restrições à ação das formas nacionais de
regulação, ao mesmo tempo em que não as substitui completamente, pelo menos
durante algum tempo, como mostra o exemplo da União Européia (Mazier, 1995).

Começando por aquele que tem sido o elo mais frágil da institucionalidade na
região, nesses anos de neoliberalismo, a relação salarial, são significativas tanto as
transformações em curso como as iniciativas em direção a uma unificação dos mercados
de trabalho no âmbito do Mercosul, tema de um subgrupo de trabalho específico em sua
159

estrutura institucional (o SGT 10). Nesse aspecto, os avanços no âmbito do mercado


comum contrastam com o que vem sendo implementado internamente pelos países no
sentido da desconstituição de direitos e da flexibilização das normas laborais. Embora
persistam diferenças de remuneração e de direitos significativas entre os países, essas
diferenças são menos nacionais e mais setoriais, abrangendo categorias específicas. De
certa forma, houve um “abrasileiramento” dos direitos trabalhistas no bloco.

No que respeita à alternativa de um modo de desenvolvimento autocentrado,


uma nova relação salarial será necessária para viabilizar um amplo processo de
redistribuição de renda. Política salarial, seguridade social, gasto público como salário
indireto, toda uma nova pactuação do lugar do trabalho na sociedade precisará ser
construída, para que, a exemplo do fordismo nos países centrais, coloque essa forma
institucional numa posição hierárquica superior.

A forma da concorrência sofreu uma transformação radical com a abertura,


embora no âmbito do Mercosul o instrumento mais importante no modo anterior, o
protecionismo, tenha sido garantido na forma da TEC. Sua preservação, para a qual será
preciso suportar as pressões externas, principalmente dos EUA, será decisiva para traçar
os contornos dessa forma institucional no futuro. Da mesma forma, a virtual extinção do
setor produtivo estatal e o desmantelamento de instrumentos de planejamento, de
políticas industrial, comercial, agrícola ou de infra-estrutura produziram, além de um
vácuo regulatório, dificuldades de coordenação de ações e incerteza sobre os rumos
futuros, impossíveis de serem resolvidas nos marcos da “eficiência” dos mercados.

Mesmo o horizonte do mercado regional não pode ser dado como definitivo para
a estratégia empresarial. Conforme o resultado das negociações sobre a ALCA, tudo
poderá mudar outra vez. A transformação dessa forma institucional está na dependência
dos rumos que vai assumir a relação Estado-economia no futuro.

Antes disso, entretanto, é preciso fazer referência à forma da moeda. Colocada


em primeiro lugar na hierarquia das formas institucionais pela adoção da política
macroeconômica “fundamentalista”, a política monetária vem produzindo uma
instabilidade sem precedente no regime cambial que se apresenta como o principal
obstáculo à continuidade da integração. Além de uma mudança de conteúdo que
colocasse a gestão da moeda a serviço do crescimento, a estabilidade sendo decorrência
e não pressuposto, faz-se necessária uma coordenação diferente das vazias metas fiscais
e monetárias stricto sensu em vigor. Mais importante ainda, uma coordenação das
160

decisivas paridades cambiais é imprescindível para a continuidade do Mercosul.


Embora o tema da moeda única seja recorrente no debate público há vários anos,
nenhum esforço de coordenação na área cambial foi tentado até o presente. Um
mecanismo similar à serpente monetária européia poderia ser um passo importante
nesse sentido, embora as posições em contrário de alguns autores (Pereira, 2001,
Lavanga; Giambiagi, 1999).

Finalmente, e no centro de todas as mudanças na regulação requeridas pela


integração, está a forma do Estado. O desmonte do Estado desenvolvimentista, a
extinção dos mecanismos de planejamento e de decisão e execução de políticas
públicas pró-desenvolvimento econômico cobra seu preço sobre o Mercosul. No
entanto, e a prevalecer o espírito do Tratado de Assunção, sua reconstrução num plano
regional é uma possibilidade e também uma condição necessária para que o sistema
econômico regional possa demarcar suas fronteiras e desenvolver as propriedades de
auto-referência e autoprodução inerentes à evolução dos sistemas capitalistas maduros.
Para isso, entretanto, é imprescindível uma reconstrução dos instrumentos nacionais de
intervenção econômica dotados de uma nova orientação, social e regionalmente
integradora.

A construção dessa nova dimensão material das relações sociais, o espaço


(Benko; Lipetz, 2000), requer também a construção de novas relações sociais.
Vencendo o obstáculo criado pela hegemonia do neoliberalismo, a integração
econômica pode avançar e transformar-se numa verdadeira integração dos povos. Um
árduo caminho precisa ser percorrido, entretanto, tão longo quanto os milhares de
quilômetros percorridos pelas abundantes águas que formam o curso incessante
daqueles grandes rios, nomeados com tanta graça pelos índios guaranis. Paraná,
Paraguai, Uruguai, os rios que aproximavam os antigos habitantes do Pampa e
posteriormente serviram para separar os povos do Cone Sul desde a chegada dos
colonizadores, persistentemente correm para se encontrar, empurrados pela força natural
que os atrai silenciosamente em direção ao oceano, desaguando no Mar do Prata. Um
dia, a mão do homem poderá, construindo a comunidade dessas nações que têm um
destino em comum, fazer, como disse Fernando Pessoa, “que o mar unisse, já não
separasse”.
161

5 - CONCLUSÃO: INTEGRAÇÃO, RELAÇÕES SOCIAIS


E ESPAÇO NO MERCOSUL

“Parece que os astros são anjos perdidos


Das frouxas neblinas da abóbada azul,
Que miram, que adoram ardentes, perdidos,
A filha morena dos pampas do sul.
(...)
“Ó pátria, desperta... Não curves a fronte
Que enxuga-te os prantos o Sol do Equador.
Não miras na fímbria do vasto horizonte
A luz da alvorada de um dia melhor?”
Castro Alves, América.

As idéias

O objetivo deste trabalho foi interpretar o processo de integração envolvendo os


quatro países do Cone Sul da América — Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai —,
materializado no projeto de construção do Mercado Comum do Sul, o Mercosul.
Argumentei, inicialmente, que esse fenômeno só podia ser compreendido em uma
perspectiva histórica, porque a história das sociedades é a sucessão encadeada de suas
mudanças, e a natureza do processo de integração só pode ser interpretada como um
desdobramento das transformações do sistema econômico. Por essa razão, a teoria
econômica do mainstream é inútil para a compreensão desse fenômeno, pois, em seu
corpo doutrinário, a mudança do sistema não tem estatuto teórico.

Um dos aspectos centrais dessa mudança está acontecendo na dimensão espacial


do capitalismo, e é na transformação dessa dimensão que deve ser procurada a raiz dos
processos de integração regional como o Mercosul. Para verificar essa hipótese, o
primeiro passo percorrido foi a realização de uma discussão sobre a natureza dos
sistemas capitalistas, sua permanente mudança de estado e, ao mesmo tempo, sua
capacidade de preservar estabilidade no decorrer dessas mudanças. Incapazes de
compreender o mecanismo dessa estabilidade, os neoclássicos recorreram a fantasias
estilizadas, como a mão invisível de Smith ou o leiloeiro walrasiano, e buscaram
formalizá-las importando o conceito de equilíbrio da mecânica clássica. Para além da
inconsistência interna da teoria, revelada cristalinamente por Sraffa e seus seguidores
em seu minucioso trabalho de demolição de toda a construção teórica marginalista,
162

equilíbrio é tudo o que não existe na vida dos sistemas econômicos organizados pelas
relações sociais capitalistas. A questão que precisa ser respondida é, na ausência de
equilíbrio, que outro tipo de ordem interna assegura a continuidade da existência do
sistema. A compreensão da natureza instável do capitalismo tem mobilizado os esforços
do pensamento heterodoxo desde seus fundadores, a começar por Marx e seguindo,
durante o século XX, na obra de Schumpeter, de Keynes e de tantos outros.

A visão do sistema capitalista que compartilho, em sua existência de eterna


mudança, foi apresentada no Capítulo 1 e decorre de um percurso teórico que se iniciou
com a atualização que a Teoria da Regulação deu à economia política marxista, recebeu
a contribuição dos debates entre esta e os institucionalistas e se completou com a
incorporação de uma tese originária do campo da Biologia, o desenvolvimento do
conceito de “autopoiese”. Esse conceito diz que, em alguns sistemas homeostáticos, a
capacidade de auto-organização sofre um desenvolvimento superior e atinge as
características de autoprodução e auto-referência (Maturana; Varela, 1987).
Argumentei, neste trabalho, que essa contribuição teórica recepciona a concepção
formulada originalmente por Marx a respeito dos mecanismos de regulação e
reprodução do capitalismo e sua tendência a se revolucionar permanentemente.

Nessa concepção, os sistemas econômicos capitalistas evoluiriam num processo


de diferenciação em relação a outros sistemas sociais e, assim como o Direito, ir-se-iam
tornando cada vez mais autocentrados, no sentido de que teriam as determinações de sua
evolução e da própria continuidade de sua existência definidas internamente ao sistema
e não mais dependentes de determinantes externos produzidos no sistema político ou
em ouras esferas da vida social. Esse processo se desdobraria até o ponto de atingirem
um grau de auto-referência e autoprodução similar ao dos seres vivos, tornando-se,
também, sistemas autopoiéticos.

Argumentei, também, que esse recurso teórico contribuía de forma decisiva para
elaborar a difícil mediação entre os planos micro e macro da análise, superando tanto o
reducionismo do individualismo metodológico e seus agentes representativos quanto a
inconsistência da causalidade estrutural de alguns marxistas. Isto porque dá abrigo à
tese de Marx da relação social como unidade irredutível e fundadora dos sistemas
sociais, sendo o sistema econômico sua base estrutural. As relações sociais são os
elementos constituintes desses sistemas, ao mesmo tempo em que são por eles
produzidas, à semelhança dos aminoácidos nas células vivas. Ora, na medida em que a
163

reprodução das relações sociais econômicas começa a ser feita de forma automática,
dirigida pelos mecanismos reguladores do capitalismo, o que vulgarmente se conhece
como automatismo de mercado, esses sistemas sociais podem ser descritos como
sistemas autopoiéticos.

Fiz também uma articulação entre o conceito de “autopoiese” e a forma como é


explicada a relação micro-macro na Teoria da Regulação. No plano micro, as
motivações e os interesses dos agentes levam à sua interação, a partir da qual se
constroem as relações sociais. No plano macro, as relações sociais aglutinam-se em
estruturas complexas, situação que dá lugar à emersão de novas propriedades e ao
estabelecimento de um novo conjunto de relações cujas determinações influenciam a
evolução do sistema como um todo, bem como condicionam o comportamento dos
agentes no plano micro, numa forma de retroalimentação. O foco da análise no plano
macro vê a reprodução ampliada do sistema, como chamou Marx, como resultante das
relações sociais, que são, por sua vez, o resultado do processo ao mesmo tempo em que
o dirigem. Ou seja, o sistema só pode ter esta natureza em razão de suas características
de auto-referência e autoprodução, por ser autopoiético.

Essa contribuição teórica foi verificada em sua validade ao longo desta tese, na
medida em que tratei o fenômeno da integração entre sistemas econômicos na História
como um resultado de sua evolução. Entretanto a abordagem histórica, ao longo de todo
o trabalho, sofreu um recorte no sentido de um aspecto dos sistemas apenas ter sido
sistematicamente tratado, sua dimensão espacial. A validade do conceito de
“autopoiese”, para ser testada em toda sua extensão, necessitaria de uma análise
totalizante da evolução histórica do capitalismo, à semelhança do que fez Arrighi (1994)
ao propor o conceito de ciclo sistêmico de acumulação. Ao mesmo tempo, o
aprofundamento de uma perspectiva epistemológica também falta ser feito. Embora o
relevante trabalho de Luhmann (1984), um avanço teórico nesse sentido, como
argumentei, requer um ponto de partida diferente: no lugar da ação comunicativa, a
relação social, tal como formulado originalmente por Marx.

Um passo adiante no cercamento do objeto desta tese foi o estudo da relação do


capitalismo com suas dimensões temporal e espacial, realizado no Capítulo 2. Para a
consideração dessas duas dimensões dos sistemas econômicos, mais uma vez considerei
a teoria econômica tradicional como sem serventia. Primeiro, porque não admite que o
capitalismo tenha fronteiras, portanto, alguma dimensão espacial. Se estas existem no
164

mundo real, são artificialismos impostos pela política, estranhos à natureza da


economia. Segundo, porque o estatuto teórico do tempo é idêntico ao da mecânica
newtoniana, apenas uma sucessão de estados do sistema, sem um sentido e reversíveis.
Compreender a natureza do capitalismo é dar conta de sua permanente transformação,
transformação que abarca suas dimensões espacial e temporal. E esse processo é
irreversível num sentido forte, mais que uma mera dependência de caminho ou
hipersensibilidade às condições iniciais. No espaço, as fronteiras em permanente
expansão são fixadas pelas relações de produção, como definiram Benko e Lipietz
(2000), assim como a velocidade da flecha do tempo (Prigogine, 1996) resulta da
dinâmica dessas relações. Tempo e espaço, nessa concepção, são escalas endógenas ao
sistema, dependentes de seus processos internos para a definição de suas grandezas,
velocidade ou tamanho.

O percurso teórico que realizei partiu da interpretação da história do capitalismo


realizada por Braudel (1979), que via a evolução desse modo de produção se realizando
em ciclos de ampliação do espaço dos mercados e de aceleração do tempo dos
acontecimentos decisivos para essa evolução. A noção de um tempo que passa cada vez
mais rápido e de lugares que ficam cada vez mais próximos foi traduzida por Santos
(1994), no conceito de aceleração, e por Harvey (1989), através da idéia de ciclos de
compressão do espaço-tempo.

Se a melhor forma de compreender a natureza é a mecânica relativista, para a


qual a mecânica clássica é apenas um caso particular em situações de baixa energia, da
mesma forma, a sociedade tem seus movimentos definidos por leis diversas daquelas
dos modelos de equilíbrio da teoria neoclássica — que também só têm validade como
casos particulares —, as leis de uma teoria da dinâmica irreversível e de não equilíbrio.
Há todo um caminho que ainda precisa ser percorrido para que a economia política
possa construir essa teoria.

O tratamento teórico da dimensão espacial dos sistemas econômicos tem


precedentes em Marx e em seus seguidores mais diretos, como Lenin ou Rosa
Luxemburgo, que interpretaram a tendência à expansão territorial como uma
necessidade decorrente do movimento de reprodução ampliada do capital. Partindo do
trabalho de Braudel, Arrighi (1994) interpreta a ampliação da dimensão espacial do
sistema como um desdobramento de uma busca pela ampliação de poder através da
combinação de duas lógicas, acumulação da riqueza e expansão do território.
165

Ao focalizar o mesmo objeto, a Teoria da Regulação introduziu o conceito de


regime internacional, em larga medida coincidente com a noção de ordem mundial de
Cox (1986), mas tratado como uma forma institucional. A correção realizada por Becker
(1999), resgatando a noção de dimensão espacial, avança uma solução que, no entanto,
ainda deixa em aberto uma segunda característica dessa dimensão. Além de responder
pelo tamanho do sistema, a dimensão espacial configura também sua articulação com os
demais, o que repõe na ordem do dia a reconstituição necessária de um percurso teórico
que seja capaz de combinar as noções de imperialismo, dependência e ordem mundial.
Entre a análise concreta de cada situação e a explicação dos destinos de cada nação por
uma suposta lógica mundial, há um caminho a ser melhor compreendido, além das
respostas simples desses dois extremos, e que combine as novas abordagens do espaço
pela TR (Lipietz, 1985; Benko; Lipietz, 2000) com o tratamento mais rigoroso da
multideterminação da ordem mundial proposto por Cox.

A problemática do tempo parece menos difícil de resolver. A periodização da


história capitalista, seja com recurso à sucessão de diferentes modos de
desenvolvimento, como na TR, seja com recurso aos ciclos sistêmicos de acumulação
de Arrighi, é verificável empiricamente. Entretanto suas ênfases são opostas. Na TR, um
estágio da História é definido pela estabilidade da relação entre regime de acumulação e
modo de regulação, seu fim sendo resultado do esgotamento da capacidade de o modo
de regulação resolver as contradições do regime de acumulação. Já Arrighi põe ênfase
na crise como realizando duas operações necessárias à dinâmica histórica. Primeiro,
sinalizando as novas características do ciclo que está por vir e, segundo, encerrando o
ciclo já esgotado para dar lugar ao novo.

Embora essas idéias representem avanços significativos, uma teoria da mudança


sob o capitalismo ainda está por ser construída. Nesse sentido, a explicação da
estabilidade pela TR é mais bem amarrada, inclusive com a incorporação de
determinações dos planos micro e estrutural. Entretanto ainda falta a proposição de uma
teoria da crise que seja menos ad hoc.105 Embora as experiências históricas recomendem
cautela em generalizações, uma síntese entre a lei da tendência à queda da taxa de lucro
e a lei geral da acumulação — os limites internos da ordem econômica capitalista, como

105
Em outra oportunidade (Faria et al., 1989) defendi, também, uma visão ad hoc da teoria das crises.
166

formulou Marx há 150 anos — está por ser feita e pode abrir caminho à formulação de
uma teoria da crise capitalista.

Os acontecimentos

O último quartel do século XX e este começo de século XXI são marcados pela
presença do fenômeno que Milton Santos chamou de aceleração. Uma onda de
inovações tecnológicas, de novos produtos, novos processos e novas relações sociais
criou uma situação de “alta energia” nas sociedades por ela afetadas, deformando o
espaço-tempo e mudando a percepção das distâncias e dos prazos dos seus sistemas
econômicos.

O regime de acumulação intensiva, característico do fordismo nas economias


maduras e do fordismo periférico latino-americano, esgotou seu potencial de
crescimento, ao mesmo tempo em que o modo de regulação monopolista e sua
contraface desenvolvimentista no sul perderam a capacidade de estabilizar o sistema.
Enquanto isso e por causa disso, tanto novos produtos e processos modificavam a
estrutura material da produção, quanto novos arranjos institucionais alteravam as
superestruturas encarregadas da estabilidade do sistema. Começava a se criar uma nova
cena internacional, o mundo do pós-fordismo (Lipietz, 1997), cujas características ainda
permanecem, em larga medida, indefinidas.

Dentre o conjunto de transformações em marcha, algumas tendências são


perceptíveis. Na esfera da produção, o desenvolvimento da microeletrônica, das
telecomunicações e das técnicas de manipulação genética apontam para um novo ciclo
de produtos a inaugurar um novo regime de acumulação. É importante lembrar que
ainda está por ser feita uma revolução no campo da energia aplicada, a exemplo do
emprego do vapor na Revolução Industrial ou do motor à explosão e da eletricidade no
final do século XIX. Fica a questão de se um novo regime de acumulação pode ser
definido sem necessariamente inaugurar um novo paradigma energético.

Ainda, no chão-de-fábrica, uma nova forma de relação de trabalho vem sendo


introduzida e aparentemente inverte a tendência à cada vez maior alienação do
trabalhador no processo de produção. A generalização de novos métodos de gestão da
força de trabalho inicialmente introduzidos no Japão cobra um cada vez maior
envolvimento de quem produz na definição de como e em que ritmo o processo de
167

trabalho terá lugar. A classe operária passa a ser responsável por sua própria taxa de
exploração!

No campo da regulação, não apenas a disfuncionalidade de algumas de suas


formas estruturais ficou manifesta com a crise do Estado de Bem-Estar, a inflação e os
fracassos do planejamento econômico, como uma mudança de sua hierarquia teve lugar
através do triunfo da política econômica monetarista e da flexibilização do trabalho. O
novo arranjo regulatório, no entanto, não parece ter condições de estabilizar um ciclo de
crescimento sustentado, ao mesmo tempo em que o impulso das inovações na esfera
produtiva não parece ser capaz de inaugurar um novo regime de acumulação com um
potencial de crescimento endógeno passível de elidir os limites dados pela estrutura
institucional.

O desempenho das principais economias capitalistas, desde os anos 80, mostra,


de um lado, Europa e Japão numa situação quase defensiva, enquanto um ciclo
relativamente longo de crescimento tinha lugar nos EUA, inicialmente puxado pelo
militarismo da administração Reagan e sua bem-sucedida estratégia de levar a União
Soviética à capitulação via exacerbação da corrida armamentista, depois levado mais
adiante pelo estímulo fiscal ao consumo. Embora os avanços em direção à modificação
das formas institucionais alcançados pela hegemonia do neoliberalismo, para quem esse
seria o grande entrave a um crescimento sustentado e duradouro, os indicadores
econômicos permaneceram sempre medíocres. Fora alguns bons resultados localizados
setorialmente, a produtividade cresceu muito menos do que nos “anos dourados”, as
taxas de formação bruta de capital fixo não se recuperaram, apesar de haver altos níveis
de poupança, tudo isso resultando em baixas taxas de crescimento. No plano
institucional, a volatilidade das finanças internacionalizadas, a rigidez da política
monetária e a desregulamentação não têm se mostrado capazes de alargar os horizontes
para o crescimento econômico.

A tendência inequivocamente mais clara nesse processo de mudança está


localizada na dimensão espacial dos sistemas econômicos e responde pelos diversos
movimentos de integração e formação de blocos regionais. União Européia, NAFTA,
Asean e Mercosul são materializações desse impulso de expansão do mercado, que,
como mostrou Braudel, ciclicamente afeta os sistemas econômicos capitalistas. Um
processo de extroversão vem afetando os sistemas econômicos nacionais desde então,
uma forma de resposta à insuficiência de demanda efetiva dos mercados internos,
168

sinalizando uma possível perda de importância de um mercado de massa estável para a


continuidade da reprodução ampliada do sistema. Se é assim, uma questão permanece,
saber até que ponto essa expansão territorial significou, da mesma forma como as
mudanças no modo de regulação, apenas uma fuga para a frente em relação a uma
alternativa real. A consolidação de uma nova dimensão espacial dos sistemas
econômicos requer o estabelecimento de uma também nova proporcionalidade entre
produção, consumo e acumulação.

Uma nova escala espacial do regime de acumulação e do modo de regulação na


forma dos blocos regionais requer não só a interpenetração das cadeias produtivas antes
nacionalizadas, como o deslocamento dos níveis de regulação. Nesse sentido, dois
modelos estão em marcha, um dos quais é o de uma integração assimétrica, como a do
NAFTA, em que uma economia grande captura espaços em seu entorno para incorporá-
-los a seus esquemas de reprodução, ao mesmo tempo em que transborda suas formas
estruturais da regulação e subordina as instituições dos parceiros dependentes. Por outro
lado, há o modelo europeu, inspirador do Mercosul em muitos aspectos, que se propôs
ao tratamento das assimetrias em favor dos países menores através de diversos
mecanismos de compensação, regras de transição e fórmulas de adesão diferenciadas.

A análise dos acontecimentos, nesta tese, deteve-se em realizar uma incursão,


num certo sentido arriscada, pela formação econômica da América do Sul, na medida
em que recorreu a inúmeras décadas de sua história, enfocando apenas os aspectos que
interessavam ao argumento: a mudança na dimensão espacial e o desenvolvimento de
propriedades de auto-referência e autoprodução. No plano espacial, o desenvolvimento
econômico sul-americano realizou, num primeiro momento de sua independência
política, um movimento de aproximação dos lugares e de incorporação dos vazios. Os
diferentes subsistemas regionais foram se articulando para a formação das
economias nacionais — o nordeste e o sul do Brasil ligados ao sudeste; o interior
argentino, à região de Buenos Aires —, assim como os vazios territoriais foram sendo
ocupados — o oeste e o norte do Brasil, o deserto argentino, o norte do Uruguai —,
conformando mercados nacionais razoavelmente unificados, mas a dinâmica e a
reprodução dos sistemas permaneceram dependentes do Exterior.

Desde os anos 30 do século XX, um novo período começou a se abrir a partir do


movimento de endogeneização da dinâmica econômica então iniciado. A crise de 1929
abriu espaço ao novo, na medida em que, ao bloquear o setor primário-exportador,
169

deixou aberto o caminho para que a indústria, criada nos interstícios da economia
extrovertida, surgisse como alternativa de desenvolvimento. O eixo dinâmico desviou-
-se para dentro dos sistemas nacionais, as economias foram pouco a pouco reduzindo
seus coeficientes de abertura e começaram, cada vez mais, a ser auto-referenciadas e a
internalizar seus esquemas de reprodução — em termos autopoiéticos,
autoproduzirem-se.

O percurso de cada um dos quatro parceiros do Mercosul na etapa


desenvolvimentista foi muito diferenciado, sendo o Brasil o que foi mais longe no
desenvolvimento do paradigma fordista de uma estrutura industrial completa e voltada
para seu mercado interno. O grau de complexidade das estruturas produtivas foi
condicionado pelas limitações de escala e renda per capita de cada um, numa
combinação da herança do período anterior com a dimensão espacial alcançada. Não
por acaso, o esgotamento dessa etapa, ou a incapacidade de avançar alguns passos mais,
vieram antes para a Argentina e para o Uruguai.

Como frisei no Capítulo 3, a escassez da demanda interna teve uma dimensão


social que lhe foi decisiva, a concentração da renda. Mesmo os vizinhos do sul, para os
quais a evolução das relações sociais foi impulsionada por um nível de renda muito
elevado na fase exportadora e que, em decorrência, estabeleceram uma relação salarial
de certa forma similar à dos países desenvolvidos do Ocidente, experimentaram uma
escassez relativa do mercado interno. Assim, além de um impulso que está inscrito na
natureza expansionista das relações de produção hegemônicas, o processo de integração
regional do Mercosul representou também uma tentativa de ultrapassar os limites à
acumulação de capital pela conquista de mercados exteriores. Essa assertiva deixa uma
pergunta a ser respondida sobre o potencial dinâmico e a funcionalidade de um processo
de redistribuição da renda para sustentar um novo ciclo de crescimento, dúvida que só
fica aumentada se for levada em consideração a absorção do progresso técnico.

Em 26 de março de 1991, foi assinado o Tratado de Assunção, que criou o


Mercosul e consolidou os rumos do processo de integração econômica que vinha se
desenvolvendo entre os vizinhos do Cone Sul desde meados dos anos 80. Na
interpretação que desenvolvi no Capítulo 4 argumentei que a integração nessa latitude
sul respondia a dois impulsos concorrentes. Em primeiro lugar, fazia parte de um ciclo
de mudança da dimensão espacial das relações sociais capitalistas, o qual cobrava um
limite geográfico maior para a articulação dos sistemas organizados sob sua égide. Em
170

segundo lugar, representava uma reação ao esgotamento da etapa de crescimento


anterior, que encontrou, para além da redução dos ganhos de produtividade e do
encurtamento do horizonte de investimento — barreiras à continuidade do crescimento
com base no paradigma industrial fordista —, limites próprios representados pela
estreiteza de seus mercados internos em razão da combinação de concentração de renda
e baixa densidade geoeconômica de seus territórios nacionais.

O processo de integração resultou da aproximação argentino-brasileira, que


buscava, ainda nos anos 80 e através de uma postura independente, uma recuperação do
desenvolvimentismo, que foi responsável pela consolidação da industrialização no
Continente. Os acordos bilaterais então assinados tinham por objetivo um processo de
integração administrado, respondendo a necessidades setoriais e capaz de dar conta
tanto da complementação e da complementaridade das estruturas produtivas regionais
quanto da absorção e do desenvolvimento tecnológicos próprios. Paradoxalmente,
foram os governos neoliberais de Collor e Menem que ratificaram o processo e
mantiveram suas principais características, tidas pelo ideário livre-cambista como
protecionistas. A marca de suas convicções ideológicas, entretanto, não deixou de ser
sentida, na medida em que, fora compromissos já consolidados (setor automotivo,
açúcar, etc.), a adequação à TEC e a queda das barreiras internas no bloco foram
tornadas lineares e automáticas.

O objetivo do tratado foi a criação de um mercado comum com livre circulação


de bens, serviços e fatores produtivos, tendo como princípios o gradualismo, a
flexibilidade, o equilíbrio e a reciprocidade. Em seu escopo, há uma aproximação com o
exemplo da União Européia, que aponta para uma confederação de nações e, nas suas
características, uma atenção às necessidades de adaptação dos participantes, de atenção
às diferenças na aplicação de suas normas, de evitar as desvantagens de uma
especialização assimétrica e de garantir vantagens iguais a todos os sócios. A
hegemonia neoliberal, consolidada depois da adoção do Plano Real no Brasil, afastou o
processo de integração desses princípios, tornando-o mais linear e menos administrado,
a não ser por resistências de interesses setoriais ou nacionais específicos, a exemplo do
setor açucareiro argentino.

O sucesso comercial do Mercosul foi, como salientado, enorme, tornando em


poucos anos, seus membros os principais parceiros uns dos outros. Além disso, o
ambiente de estabilidade de preços e de crescimento econômico um pouco superior ao
171

dos anos 80, além da adoção e do cumprimento do tipo de política macroeconômica


“amigável aos mercados” sugerido pelo Tesouro dos EUA e implementado através dos
programas monitorados pelo FMI (estabilidade cambial, privatizações,
desregulamentação financeira e juros internos elevados) tornaram o Cone Sul um lugar
atrativo ao investimento direto estrangeiro. Fusões, incorporações e movimento de
capital transfronteiras somavam para a formação de um ambiente “dourado”, propiciado
pela combinação do processo de integração com as políticas de ajuste macroeconômico
em vigor.

Como procurei mostrar, há uma contradição entre a natureza do processo de


integração em curso e as políticas econômicas do tipo Consenso de Washington. Os
dados apresentados mostram que os setores a liderar o crescimento da corrente de
comércio e do movimento de capitais dentro do bloco foram aqueles dirigidos por
regulamentações específicas (indústria automotiva à frente), contrariando a prescrição
do “decálogo fundamentalista” em contrário ao comércio administrado. A premissa
menor desse raciocínio aponta para uma provável reversão do processo de integração,
caso venha a ocorrer uma consolidação da linha livre-cambista, como indicam os
desdobramentos da crise Argentina em 2001.

Entretanto um levantamento da opinião de lideranças empresariais ou políticas


dos países participantes, afora algumas manifestações de cunho imediatista, em função
de interesses setoriais ou políticos, mostra uma adesão muito grande ao Mercosul. E
isso se comprova nos estudos acerca das estratégias das empresas que atuam na região
citados neste trabalho (Bonelli, 2000; Katz, 2000; Kosacoff, 2000). Mesmo entre
aquelas com presença em terceiros mercados, a consolidação de sua posição no mercado
regional é tida como condição necessária ao sucesso competitivo no Exterior. De modo
semelhante, nos planos político e social, a idéia da integração deixou de ser um recurso
retórico e passou a orientar a prática tanto das burocracias estatais quanto das
organizações não-governamentais e dos movimentos sociais. Apesar das conseqüências
da crise cambial brasileira de 1999 e de seus reflexos negativos sobre o comércio
intrabloco, nos planos político e institucional o processo de integração continuou em
marcha.

Procurei demonstrar que a natureza do processo de integração vai além do


crescimento comercial e se desdobra na interpenetração das estruturas produtivas dos
países participantes. O ponto de chegada dessa trilha seguida até aqui seria a
172

constituição de um sistema econômico unificado em escala regional, através do qual a


“construção interrompida”, como chamou Furtado (1992), pudesse retomar seu caminho
de desenvolvimento de um capitalismo autônomo num novo sistema de fronteiras
ampliadas, auto-referenciado e capaz de se autoproduzir. Se é certo o que defendi ao
longo desta tese, isto é, se o curso seguido pelos sistemas capitalistas em direção à sua
maturidade é o do desenvolvimento de sua “autopoiese”, a continuidade do
desenvolvimento capitalista no Cone Sul só seria possível se seguisse esse sentido.
Qualquer outro caminho levaria à estagnação ou a desintegração dos sistemas
econômicos da região, ou, então, requereria a construção de uma alternativa não
capitalista.

A possibilidade da retomada de um desenvolvimento capitalista autônomo no


Cone Sul, no entanto, enfrenta dois obstáculos difíceis. Em primeiro lugar, a adoção do
padrão de política econômica “fundamentalista”, como chamou Ferrer (1997), não
apenas entrava o desenvolvimento da auto-referência e da capacidade de autoprodução,
como as faz retroceder através da desconstrução de seus pressupostos, tanto
institucionais, na forma dos mecanismos de regulação, quanto estruturais, na forma da
desmontagem de setores e encadeamentos do tecido produtivo. Para que a integração
pudesse avançar, o que deveria estar em marcha era exatamente o contrário, uma
aceleração do desenvolvimento institucional e da estrutura produtiva para proporcionar,
tanto ao regime de acumulação quanto ao modo de regulação, sua transformação e seu
deslocamento para o plano regional.

Sobre esse tópico, um conjunto de indagações permanece em aberto e deve


responder pela potencialidade dinâmica da ampliação da dimensão espacial do sistema e
de sua relação com a distribuição da renda e a absorção do progresso técnico. Os pontos
levantados no Capítulo 4 em relação ao potencial de uma expansão horizontal da
estrutura produtiva herdada do fordismo, da ocupação dos vazios geoeconômicos e da
perequação das assimetrias regionais são sugestivos apenas. Igualmente, a investigação
sobre um possível deslocamento dos níveis de regulação em adequação à nova
dimensão espacial do sistema requer também a consideração do que já foi mudado nas
formas institucionais pelas reformas neoliberais, além dos requisitos para um modo de
regulação no plano regional.

O segundo obstáculo é uma causalidade externa ao Mercosul, o ambiente


internacional em que está operando e, dentro deste, os desígnios do ator hegemônico, os
173

Estados Unidos. A abordagem do processo de integração, no Capítulo 4, privilegiou


uma perspectiva endógena, fazendo apenas referência aos condicionantes externos do
processo, o que deixa em aberto um tratamento sistemático dos limites criados pelo
regime internacional e pela ação das economias hegemônicas, principalmente dos EUA.
A mencionada retomada da hegemonia norte-americana implicou uma nova atitude
daquele país em relação a seus vizinhos continentais, na qual a percepção da
necessidade de consolidação de uma dominação econômica hemisférica fez parte de
uma estratégia extremamente agressiva de recuperação de sua liderança mundial,
abalada nos anos 70.

Em razão disso, o Mercosul, que fora tido como uma iniciativa de menor
importância e até visto com simpatia, na medida em que possibilitava a ampliação dos
negócios de empresas estadunidenses (caso da indústria automotiva), passou a merecer
uma atenção distinta, tido como elemento catalisador para a formação de um pólo de
poder regional cuja afirmação poderia implicar a tomada de posições eventualmente
antagônicas aos interesses nacionais dos EUA. A materialização de uma vaga “iniciativa
para as Américas”, na proposta concreta da ALCA, e com um cronograma tão encurtado
dá a dimensão dessa nova postura, que visa garantir um mercado ampliado como base
para a disputa econômica e comercial com a Europa e a Ásia, já que, nos planos militar
e financeiro, sua hegemonia não pode ser desafiada ainda. O papel dos EUA nesse
processo precisaria ser melhor analisado.

Quis, neste trabalho, compreender, no processo de integração econômica que


deu origem ao Mercosul, o desdobramento de um movimento de larga duração, a
modificação da dimensão espacial dos sistemas econômicos capitalistas e o
desenvolvimento de algumas propriedades específicas desses sistemas ao atingirem os
estágios mais avançados de sua evolução. O tempo passa mais rápido, o espaço ganha
mais amplidão, e a natureza do sistema alcança níveis cada vez maiores de auto-
-referência e autoprodução. Essas tendências desenvolveram o capitalismo até o estágio
que pode ser visto em suas formas mais desenvolvidas: os sistemas industrializados
maduros do norte. Mas essas tendências também presidiram o desenvolvimento do
capitalismo dependente do sul, dando lugar, inclusive, a que alguns desses sistemas
mudassem seu lugar na hierarquia do regime internacional, a exemplo da Oceania.
Outros, desafortunados, tiveram sua construção interrompida, como a América Latina,
174

onde mesmo economias com níveis de renda per capita similares aos da Europa no
começo do século XX não alcançaram adentrar o círculo dos desenvolvidos.

Discuti aqui alguns dos limites que forjaram essa sorte adversa. Talvez o mais
emblemático dentre eles não tenha suas determinações enraizadas na esfera do
econômico, mas na iniqüidade da estrutura social mais desigual do planeta. A
urbanização e a monetarização da subsistência foram impulso suficiente para a
afirmação do crescimento industrial nas regiões mais avançadas do norte no século
XIX, mas sua continuidade, sob o paradigma fordista, só foi possível após a formação
de um mercado de consumo de massa resultante da desconcentração da renda ao longo
do século XX. Aqui no Cone Sul, convidado tardio ao estilo de vida industrial, os
fatores dinâmicos que impulsionaram a primeira onda de industrialização no norte
serviram para internalizar as estruturas produtivas fordistas na época do nacional-
-desenvolvimentismo, um exercício efêmero que se esgotou em poucas décadas, incapaz
de ultrapassar a “linha negra” da desigualdade. Para a continuidade dessa estrutura
social tão perversamente injusta, o processo de integração representou a tentativa de
alargar um pouco seus limites econômicos. Mas, para aqueles que desejariam ver uma
mudança desse quadro de segregação social, uma integração que retome os espírito do
Tratado de Assunção, inclusiva e com eqüidade, poderia abrir passo à retomada do
desenvolvimento e dar uma resposta positiva à indagação do poeta de se seria possível
vislumbrar “na fímbria do vasto horizonte a luz da alvorada de um dia melhor”.

A sorte

Este trabalho ficou pronto num momento em que o Mercosul e os países


parceiros, com um acento com todas as cores de tragédia, no caso da Argentina,
passavam por uma crise que, muito provavelmente, represente o momento terminal do
modelo inspirado pelo Consenso de Washington. Os sinais da insustentabilidade desse
projeto ficaram visíveis desde as primeiras crises de liquidez internacional que abalaram
as chamadas economias emergentes nos anos 90, mas foram soberbamente ignorados
pelos responsáveis pela condução da política econômica desses países. Neste momento,
a História está a abrir um leque de opções, mas a busca das melhores oportunidades
dentre as possíveis depende das escolhas que forem feitas pelas forças políticas e
sociais que tiverem a capacidade de fazê-las, o que está na dependência das disputas
pelo poder que ocorrerão no próximo período. Tanto no Brasil como no Uruguai, uma
175

oposição antagônica ao neoliberalismo, defensora de uma radical mudança do projeto de


desenvolvimento e de um aprofundamento da integração regional, mostra possibilidade
de vir a se impor como uma alternativa real de poder num futuro próximo, o que
possibilitaria um alargamento significativo das oportunidades históricas. Entretanto, se a
atual correlação de forças lograr manter-se no poder, essa crise, antes de abrir espaço a
uma mudança positiva para as sociedades deste sul da América, pode representar a
realização de um desígnio sombrio, o virtual desaparecimento de sua soberania e
independência.

O foco de toda a análise aqui empreendida foi dirigido às determinações internas


que condicionaram a evolução dos sistemas econômicos e sociais participantes do
projeto de integração regional do Mercosul. Esse recorte analítico responde pela versão
explicativa assumida como mais relevante para o trabalho, a idéia de que esses
fenômenos resultaram do movimento de mudança da dimensão espacial dos sistemas
econômicos, em razão do que as determinações resultantes da interação entre
sistemas — o regime internacional — foram tratadas como o meio em que as trajetórias
autodeterminadas dos diversos sistemas têm lugar.

Um fenômeno apenas mencionado no decorrer desta análise, que se inscreve, do


ponto de vista analítico, no plano do regime internacional e que tem uma incidência
muito importante na crise do Mercosul, merece ser melhor considerado: as pressões da
ordem mundial que se traduzem na atuação dos capitais estrangeiros, na intervenção dos
organismos multilaterais, como o FMI ou a OMC, e na ação econômica, política e
militar dos países mais desenvolvidos, especialmente dos EUA. A mudança da cena
internacional discutida no Capítulo 2 criou um ambiente completamente diverso para o
exercício da autodeterminação das sociedades.

O processo de retomada da hegemonia norte-americana, referido anteriormente e


tão agudamente percebido por Conceição Tavares (1985), constituiu-se em um ponto de
inflexão decisivo para o destino dos povos americanos desde os anos 80. Daquela
época, a forma truculenta com que a diplomacia dos EUA historicamente interferiu nos
assuntos latino-americanos, lançando mão de chantagens e pressões de toda a ordem, foi
retomada de uma nova maneira. Deixando de lado as conspirações e as ações ilegais e
secretas que fazem parte da narrativa de muitos golpes militares, ou do irresoluto apoio
a ditaduras as mais sanguinárias, os EUA mudaram sua forma de agir em relação à
América Latina. Essa nova forma passou a ser exercida pela influência dos organismos
176

multilaterais, como o FMI, o GATT e, depois, a OMC, e pela hegemonia ideológica que
assumiram sobre a burguesia, sobre a imprensa e demais formadores de opinião e, muito
especialmente, sobre os economistas dos meios acadêmicos, em apoio às ações
políticas, diplomáticas e militares diretas, o que deu aos EUA uma capacidade de dirigir
e condicionar as decisões dos governos latino-americanos de uma forma que nunca teve
precedente.

Desde a formulação do receituário de política econômica apelidado de Consenso


de Washington, logo adotado como diretriz a ser cobrada de todos os governos da
região por sua diplomacia e pelos organismos multilaterais, passando pela Iniciativa
para as Américas, pela pressão para a militarização da luta contra o narcotráfico —
apressadamente associado às guerrilhas e às oposições armadas —, pela também
pressão em prol da formação da ALCA e pela consideração do que chamam “segurança
hemisférica”, os EUA vêm realizando uma verdadeira escalada em direção ao sul do
continente americano para a imposição de seus interesses nacionais. 106 Nesse contexto, a
fragilização dos sistemas econômicos formadores do Mercosul, resultante da guinada
neoliberal dos anos 90, cumpriu um papel central: o de deixar as economias da região
dependentes de recursos externos para financiar o desequilíbrio de seu balanço de
pagamentos, seja na forma do investimento estrangeiro direto, seja na forma de
operações de socorro financeiro patrocinadas pelo Tesouro americano e monitoradas
pelo FMI. Essa dependência pagou o preço da renúncia à soberania em matéria de
política econômica, pois o afluxo de capital foi sempre condicionado aos ditos “sólidos
fundamentos macroeconômicos” e à manutenção de um ambiente “amigável aos
mercados”.

A situação limite a que chegou a Argentina, assim como o desequilíbrio sem


solução das contas externas brasileiras, decorrentes das opções de política econômica
assumidas no início dos anos 90, trazem lições e advertências. Em primeiro lugar, ficou
evidenciada a inviabilidade do livre-cambismo como estratégia de desenvolvimento de
um sistema econômico que percorre um caminho em direção à independência e à auto-

106
A concentração de esforços na área da segurança e dirigidos ao combate ao terrorismo de alguns
grupos islâmicos após os acontecimentos de 11 de setembro, embora traga uma mudança no ritmo dos
processos e uma inversão das prioridades de sua pauta, em detrimento da questão comercial, não muda,
qualitativamente, a relação dos EUA com a América Latina.
177

-referência. 107 Ao contrário, a substituição de importações, a busca de equilíbrio na conta


corrente do balanço de pagamentos e a seletividade dos investimentos estrangeiros
diretos no sentido da ampliação e diversificação da estrutura produtiva, das exportações
e da absorção de tecnologia permanecem sendo três condições necessárias a um
crescimento sustentado. Em segundo lugar, o caminho que fica aberto para a inexorável
mudança da dimensão espacial dos sistemas econômicos em função da adoção do
fundamentalismo de mercado é o de uma integração regional assimétrica ao estilo do
NAFTA, a qual implica a desintegração dos sistemas econômicos nacionais e a
vinculação de partes destes ao sistema nacional hegemônico. Um processo já em curso
nesse sentido é visível no México, na contradição entre o subsistema das maquiladoras
na fronteira norte, vinculado à economia dos EUA, e a estagnação e o retrocesso no sul,
que não pode mais contar com um centro dinâmico com o qual pudesse manter um
vínculo virtuoso. A revolta de Chiapas só pode ser compreendida como uma
manifestação de inconformidade frente ao processo de instauração de uma sociedade a
duas velocidades.

A aceitação passiva, pela maior parte da elite econômica e política dos países da
região, do caminho da integração assimétrica, vulgarizado como uma “inevitabilidade
da globalização”, denúncia sua falência enquanto classes dirigentes, a incapacidade de
propor um projeto original. Se uma situação semelhante foi vivida na primeira metade
do século XX, quando da crise do modelo primário-exportador, então a contribuição das
classes médias e dos intelectuais na elaboração de propostas nacionais pôde resolver, a
partir do Estado, a ausência de direção política na sociedade civil, dominada pela
ideologia liberal das oligarquias rurais.

Ao final do século, essa possibilidade foi minuciosamente neutralizada pelo


bem-sucedido programa de doutrinação de formadores de opinião, principalmente
economistas, empreendido pelo stablishment norte-americano. Durante décadas,
milhares de intelectuais latino-americanos foram sistematicamente acolhidos em cursos
de pós-graduação de universidades norte-americanas, onde sofreram uma verdadeira

107
Como lembram Fiori (1997) e Tavares (1999), o país que detém a hegemonia do regime internacional,
como a Inglaterra no século XIX e os EUA no século XX, é o único para quem o livre-cambismo pode
representar uma opção de desenvolvimento, uma vez que, antes de ter a necessidade de desenvolver sua
estrutura produtiva própria, tarefa já realizada, sua política está voltada para o acesso a novos mercados
e à apropriação de novas parcelas de excedente.
178

catequese no credo neoliberal, em seqüência posto em prática quando, ao seu retorno,


assumiram funções executivas como intelectuais orgânicos na função pública e nas
empresas. A inexplicável falta de engenho e arte com que sucessivos ministros e
dirigentes de Bancos Centrais têm passivamente assistido à deterioração de suas
economias, da qual a permanência da convertibilidade cambial na Argentina é exemplo
eloqüente, para além da manifestação de interesses específicos beneficiados com sua
política econômica, resulta dessa espécie de colonização intelectual realizada de forma
tão bem-sucedida pelo pensamento mainstream da academia norte-americana.

Duas possibilidades aparecem como alternativa frente à crise do projeto de


integração regional e dos seus sistemas econômicos constituintes. Mesmo que a forma
nacional com que o ideário neoliberal vem sendo adotado se confirme insustentável, o
projeto de integração assimétrica, tal como preconizado pelos EUA e aceito por uma
parcela considerável da burguesia autóctone, tem possibilidade de prosperar na forma de
um processo de construção de vínculos entre algumas frações da estrutura produtiva
local ou do mercado regional com os circuitos de reprodução e valorização do capital no
plano hemisférico. Nessa hipótese, tanto os sistemas econômicos nacionais deixariam de
existir, quanto o processo de integração do Mercosul seria completamente alterado. Por
um lado, o movimento já em curso de desestruturação de cadeias e mesmo de extinção
de alguns setores produtivos seria intensificado, ampliando as importações e
estimulando a relocalização, e, por outro lado, a integração ficaria restrita à pauta da
liberalização comercial e do acesso a mercados.

A proposta de integração latino-americana que está esboçada no Tratado de


Assunção e que ganhou corações e mentes entre os povos do Cone Sul também por ser
uma tradução que se mostrou viável do antigo sonho bolivariano é a outra possibilidade.
Embora qualquer análise minimamente objetiva que levasse em conta a dimensão dos
sistemas econômicos envolvidos, seu grau de desenvolvimento, sua dotação de fatores e
a diversificação de suas estruturas produtivas forçosamente indicasse um caminho de
desenvolvimento auto-referenciado, de ampliação de sua capacidade de autoprodução
como a melhor alternativa para um crescimento sustentado, sua construção é,
paradoxalmente, mais difícil. A escassa crença da burguesia e das elites intelectuais
numa alternativa nacional autônoma, que garantiu a adesão ao desenvolvimentismo no
século XX, quase desapareceu sob a avassaladora maré neoliberal. Esse discurso
político é, hoje, quase uma exclusividade dos partidos de esquerda e das organizações
179

sindicais e populares, cuja possibilidade de chegar ao poder e, principalmente, de


alcançar exercê-lo efetivamente é uma incógnita histórica.

Por impensável que parecesse há bem poucos anos, talvez a América Latina
venha, neste começo do século XXI, a trilhar o destino que acomete o continente
africano desde o final do século passado. Aquele território ancestral sobre o qual
caminharam os primeiros seres humanos foi jogado para fora dos circuitos de
valorização capitalista. Assim como na época colonial fora circunavegado por
portugueses que se dirigiam a lugares mais abastados e apenas aportavam para caçar
escravos, a partir das últimas décadas do século XX, a África foi alijada do processo de
desenvolvimento econômico e reduzida à condição de mero espaço de rapina de seus
recursos naturais, com o agravante de que, hoje, sua população não representa mais uma
fonte de riqueza, tendo sido abandonada à dizimação de guerras tribais fratricidas e
epidemias.

Esse terrível resultado do desmonte de estruturas sociais e econômicas que


destruiu e depauperou os meios de produção e transformou em excedente inútil uma
enorme parcela da população já é visível na maior parte dos países latino-americanos,
em maior ou menor grau, dependendo da extensão com que o neoliberalismo foi
aplicado. É um pouco menos evidente no Brasil, onde a industrialização mais avançou,
tornando mais difícil seu desmonte, ou no Uruguai, que, apesar de empobrecido,
ofereceu resistência política à adoção in totum do decálogo fundamentalista. Entretanto
a tensão social resultante da trajetória recente na Argentina — que tem origem no
processo de desindustrialização, seguiu adiante com a renúncia a um elemento central
de soberania no capitalismo que é a moeda e está no limiar de abandonar as políticas
públicas e a fiscalidade — aponta para uma perspectiva sombria quanto à própria
sobrevivência de uma nação que não pode oferecer a esperança de um porvir digno para
a maior parte de seus filhos. Se, de alguma forma, os rumos atuais não forem mudados,
a fratura social em toda a região chegará ao extremo da marginalização, da injustiça e
do silêncio aos reclamos dos excluídos. Que sons vão ecoar quando os sem-vez e os
deserdados levantarem sua voz, apenas os ouvidos do futuro conhecerão.
180

Referências
ABOITES, J. et al. Les approches régulationnistes et l'accumulation en Amérique
latine. In: BOYER, R,; SAYLARD, Y. (Orgs.). Théorie de la régulation: l'état des
savoirs. Paris: La Découverte, 1995.
AGLIETTA, M. Le capitalisme au tournant du Siècle: la théorie de la régulation à
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