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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS

FACULDADE DE DIREITO DE ALAGOAS

ADRIANA CHIARANTANO LAVORATO

O MERCADOR DE VENEZA À LUZ DO DIREITO DAS OBRIGAÇÕES NO


DIREITO CIVIL BRASILEIRO

MACEIÓ
2016
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UNIVERSIDADE FEDERAL DE ALAGOAS

FACULDADE DE DIREITO DE ALAGOAS

ADRIANA CHIARANTANO LAVORATO

O MERCADOR DE VENEZA À LUZ DO DIREITO DAS OBRIGAÇÕES NO


DIREITO CIVIL BRASILEIRO

Trabalho apresentado à Faculdade de Direito de


Alagoas como requisito para obtenção da nota
complementar do primeiro bimestre da matéria
Direito das Obrigações.

Prof. Dr. José Barros Correia Júnior

MACEIÓ
2016

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1. Síntese do enredo.
A obra O Mercador de Veneza de Willian Shakespeare é ambientada no século XIV na cidade
de Veneza, na Itália, considerada, na época como uma das cidades mais prósperas do mundo
devido ao comércio. A trama tem início quando o jovem Bassânio, de origem nobre, porém
com poucas posses deseja casar-se com a herdeira Pórcia. Bassânio procura o amigo Antônio,
um os mais ricos comerciantes de Veneza e um homem muito bom. Antônio explica à Bassânio
que seu capital está investido, seus navios e bens estão no mar, mas compromete-se em ser
fiador de Bassânio.

O jovem contata o judeu Shylock, negociante que aceita ceder-lhe o empréstimo, em nome de
Antônio. O negociante porém odeia Antônio por seu antissemitismo e consede o empréstimo
com a intenção de vingar-se de Antônio assim faz uma proposta especial: se ele não for pago
até a data especificada, receberá uma libra da carne de Antônio, por cada mês de atraso no
cumprimento da obrigação. Bassânio não deseja pegar o dinheiro nessas condições, mas
Antônio consente e assina o contrato. Com os recursos em mãos, Bassânio viaja para Belmonte
a fim de conquistar Pórcia, após uma pequena prova o jovem enamorado alcança seu objetivo,
e recebe a mão de Pórcia em casamento.

Em Veneza Antônio descobre que seus navios perderam-se em alto-mar. Sem dinheiro para
pagar Shylock Antônio é preso e levado ao tribunal. Ao tomar conhecimento do problema de
Antônio, Bassânio parte imediatamente para Veneza; Pórcia, por sua vez, na tentativa de ajudar
ao marido e seu amigo, convoca seu primo advogado, Belário. No tribunal, Bassânio oferece a
Shylock o dobro do que havia pego emprestado, mas Shylock, com sede de vingança exige a
libra de carne de Antônio, e determina que seja tirada uma libra de carne do peito de Antônio.
Nesse momento surge um jovem dizendo ser “doutor em direito”. O jovem, na verdade é Pórcia
disfarçada. Primeiro, Pórcia pede misericórdia a Shylock, que não aceita o pedido. No momento
em que Shylock vai iniciar o procedimento para retirar a libra de carne do peito de Antônio,
Pórcia aponta uma particularidade do contrato: Shylock pode retirar uma libra da carne de
Antônio desde que não derrame uma gota sequer doo sangue de Antônio, pois a garantia do
contrato é a libra de carne, sem fazer menção ao sangue de Antônio.

Assim, se Shylock derramasse uma gota sequer do sangue de Antônio, pelas leis de Veneza
deveria ter suas terras e bens confiscados. Shylock reconhece sua derrota, aceitando o que lhe
foi proposto por Bassânio como pagamento, mas Pórcia argumenta que uma vez tendo recusado
o pagamento, ele não poderia mais aceitar a quantia ofertada.

2. Análise da obra de Shakespeare à luz do Direito da Obrigações no Direito Civil


Brasileiro.

A solução encontrada por Shakespeare para a trama foi baseada nos termos do contrato
celebrado entre Antônio e Shylock. Considerando o instrumento celebrado entre as partes como
válido e como sendo a lei da relação jurídica estabelecida entre Antônio e Shylock.

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Sob o ponto de vista legislação vigente em Veneza, na época da celebração do contrato, as
cláusulas devem ser cumpridas, exatamente como dispostas. A astúcia de Pórcia, no entanto,
traz à luz um empecilho ao cumprimento do pagamento da garantia, de forma que, mesmo
válido o contato seu cumprimento torna-se impossível, pela impossibilidade do objeto.

À luz do Direito Civil Brasileiro, no entanto, os elementos a serem analisados para a validade
do contrato devem obedecer aos limites estabelecidos pela legislação, mesmo tratando-se de
um contrato celebrado entre particulares, em que o princípio da livre negociação deve ser
respeitado, deve-se observar se o contrato estabeleceu lei entre as partes.

Dessa forma ao debruçar-nos sobre o negócio jurídico celebrado entre Antônio, Bassânio e
Shylock à luz da legislação brasileira e, em específico do Código Civil, é necessário levantar
alguns pontos, o artigo 104 do Código Civil trata da validade dos negócios jurídicos, e traz a
seguinte redação:

Art. 104. A validade do negócio jurídico requer:

I - agente capaz;

II - objeto lícito, possível, determinado ou determinável;

III - forma prescrita ou não defesa em lei.

Portanto, de acordo com o Código Civil são pressupostos da validade do contratoalém de agente
capaz e forma prescrita ou não defesa em lei a licitude e possibilidade do objeto. No acordo
firmado entre as partes são preenchidos apenas dois dos requisitos para a validade do contrato.
Apesar do objeto principal, a dívida monetária contraída por Bassânio, na qual Antônio
configura como fiador, ser lícito os juros estipulados não o são, tornando, assim, nula a cláusula
contratual que trata do pagamento dos juros da dívida, do objeto acessório do contrato,
conforme dispõe o artigo 92 do Código Civil:

Art. 92. Principal é o bem que existe sobre si, abstrata ou concretamente; acessório, aquele cuja
existência supõe a do principal.

2.1 Da ilicitude do objeto acessório.

De acordo com a legislação brasileira torna-se evidente que o objeto da prestação deve ser lícito,
possível, determinado ou minimamente determinável, ora, uma breve análise quanto a licitude
do objeto determinado como pagamento pelo atraso no cumprimento da obrigação revela sua
ilicitude, uma vez que O direito à vida situa-se entre os direitos indisponíveis, isto é, aqueles
direitos dos quais os titulares não podem abrir mão. O direito ao corpo é indisponível, uma vez
que diz respeito à integridade física do indivíduo. A legislação permite, de forma excepcional,
em algumas poucas situações, que o indivíduo disponha do próprio corpo, como no caso de

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doação de órgãos, ou com a finalidade da promoção de pesquisas científicas. Tal entendimento
tem sua fonte na própria Constituição Federal, em seu artigo 1º:

Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e
Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como
fundamentos:

III - a dignidade da pessoa humana;

Ademais, o próprio Código Civil traz, acerca dos contrato, em seus artigos 421 e 422 o
princípio da boa-fé:

Art. 421. A liberdade de contratar será exercida em razão e nos limites da função social do
contrato.

Art. 422. Os contratantes são obrigados a guardar, assim na conclusão do contrato, como em
sua execução, os princípios de probidade e boa-fé.

3. Conclusão
O exame isolado de qualquer um dos dispositivos legais mencionados, por si só, já tornaria nulo
a cláusula do negócio firmado entre Antônio e Shylock, a qual trata o pagamento dos juros da
dívida contraída. Do ponto de vista da ilicitude do objeto acessório nota-se que, a nulidade recai
tanto sobre sua licitude, quanto sobre a possibilidade de seu cumprimento. Portanto é correto
afirmar que mesmo o contrato tendo criado lei entre as partes, o mesmo não ocorre com o
acessório. Dessa forma o pagamento dos juros da dívida é, portanto nulo.

Uma vez que a garantia imposta pelo negociante ultrapassa os limites da boa-fé, infringindo os
dispositivos estabelecidos à função social do contrato, infringido, ademais, princípio
constitucional basilar estabelecido pela Constituição Federal não resta outra alternativa senão a
anulação do contrato acessório. Fica, porém válido o contrato principal, uma vez que o seu não
cumprimento violaria o princípio à vedação do enriquecimento ilícito, já que a dívida foi
contraída.

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