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Podem 2 mil anos de fé cristã estar errados?

Por Sha'ul Bentsion

I - Introdução

Dois dos argumentos mais comuns daqueles que se deparam com o


movimento de teshuvá, isto é, de retorno para a Torá e do abandonar de
práticas pagãs, são o argumento histórico e o argumento da quantidade.

Muitos alegam que "o Cristianismo existe há 2 mil anos" e que


portanto suas práticas não podem estar equivocadas. Outros alegam que "a
maioria das igrejas faz de certa forma", e que portanto novamente é difícil
supor que tanta gente esteja equivocada.

Embora esses não sejam exatamente argumentos bíblicos, não


podemos desprezar a importância psicológica e emocional dos mesmos. Pois
muitos ainda temem questionar sua fé em virtude desses elementos.

Tais argumentos baseiam-se em algumas premissas, que


analisaremos aqui, uma por uma.

II - A Prática Cristã têm 2 mil anos?

Esse argumento baseia-se numa meia-verdade: É verdade que


existem cristãos desde, pelo menos, o segundo século da era comum, já com
algumas importantes semelhanças para com os grupos modernos.

Porém, desde o princípio da religião cristã, havia divergências entre


convicções e práticas religiosas. Um exemplo disso é o Primeiro Concílio de
Nicéia.

O Primeiro Concílio de Nicéia foi o primeiro concílio ecumênico de


cristãos em toda a história, e só ocorreu no século IV. Mesmo nessa época,
havia uma enorme divergência entre uma série de correntes. Sob a liderança
do imperador Constantino I, o Primeiro Concílio de Nicéia excluiu todos os
seguidores judeus de Yeshua, deliberadamente, além de ter levado ao
ostracismo grupos que não criam na doutrina da trindade, que não eram
poucos. Sabe-se também, historicamente, que alguns grupos foram
igualmente compelidos a aceitar as crenças romanas, em prol da unidade,
por força política do imperador.

Nesse concílio, também ocorreu o debate de outros pontos


doutrinários importantes, como por exemplo a da datação do Pessach
("Páscoa"), que nos séculos anteriores tinha sido tema de grande
controvérsia, e assim permaneceu até a imposição romana posterior da
páscoa na data da festa da deusa da fertilidade.
Até Nicéia, portanto, havia uma grande pluralidade de crenças e
práticas, e não havia uma "Igreja" monolítica, que começou a se estabelecer
com Constantino, um imperador reconhecidamente pagão e adorador do
deus-sol.

Até essa época, além de comunidades com as mais variadas práticas,


havia ainda diversas comunidades judaicas de seguidores de Yeshua, que
foram posteriormente destruídas devido à perseguição romana. Sobre isso, a
Enciclopédia Católica afirma:

"Depois de meados do século 5o. [ie. aprox. 650 DC] os 'judeus cristãos'
desapareceram da história."

Além disso, mesmo depois dos tempos dos chamados "Concílios


Ecumênicos", divergências de teologia e de prática teológica sempre
continuaram a surgir. Ao longo dos séculos, vários cismas ocorreram. Nem
todos têm ciência disso, mas sequer existe uma única Igreja Católica. Há
várias, sendo Roma a mais importante de todas. Veremos mais sobre isso
mais adiante.

Mesmo dentro da Igreja Romana, crenças e práticas também foram


revisadas ao longo da história. Um dos exemplos é o uso de imagens. Em
431, a versão católica de Miriyam (Maria) foi declarada por Roma como "Mãe
do Eterno", crença até então desconhecida. Em 754, o Concílio de Hiéria
aboliu imagens e esculturas. Posteriormente, foi declarado inválido e
anulado. Em 1869, o Primeiro Concílio do Vaticano introduziu a infalibilidade
papal. Estas são apenas algumas das diversas mudanças de crenças e
posicionamentos da Igreja Romana ao longo dos séculos.

Conclusão sobre esta premissa

• As práticas cristãs só começaram a ganhar unidade, por força política,


a partir do século XV.
• Mesmo dentro desse organismo único, surgido a partir do século
quarto, historicamente muitas práticas foram revistas e crenças foram
reformuladas.
• Não há como estabelecer que existe "uma única prática que perdura
por 2 mil anos."

II - O Cristianismo tem 2 mil anos?

Um derivativo do argumento anterior é o de que "o Cristianismo tem 2


mil anos."

O primeiro problema disso é também o mais evidente: Muitos dos que


fazem tal afirmação vêm dos meios protestante e evangélico. E isso por si só
já é um problema. A Reforma Protestante é do século 16, e praticamente
todas as igrejas evangélicas da atualidade derivam sua teologia da reforma -
mesmo aquelas que, erroneamente, supõem serem derivadas de grupos
mais antigos.

Vejamos aqui alguns dos principais eventos do Cristianismo, e de seus


principais grupos. Ao leitor cristão, recomenda-se o seguinte exercício: tente
localizar a origem do grupo a que você pertence:

Alguns dos Principais Cismas Cristãos

Século 4: Primeiro Concílio Ecumênico, que forma uma "organismo único."


Os discordantes são marginalizados. Grupos judaicos são deliberadamente
excluídos.

Séculos 4 e 5: Concílios de Constantinopla I e Éfeso: Marginaliza grupos que


não criam na Trindade e em Maria como "Mãe do Eterno." Dá origem ao
cisma com a Igreja Assíria do Oriente. Grupos judaicos de seguidores de
Yeshua são levados praticamente à extinção por meio de perseguição.

Século 5: Divisão sobre a natureza de Yeshua leva ao cisma entre as Igrejas


do Ocidente, e as Igrejas do Oriente. A Igreja do Ocidente posteriormente se
dividiria novamente. A Igreja do Oriente é hoje conhecida como "Ortodoxa
Oriental." As Igrejas Ocidentais (inclusive posteriormente alguns protestantes)
negam o "Segundo Concílio de Éfeso" e reconhecem o "Concílio de
Calcedônia." Já as Igrejas Orientais consideram o último, e negam o primeiro.

Século 8: Contenda na Igreja Romana sobre o "Concílio de Hiera" e o


"Segundo Concílio de Nicéia", acerca do uso de imagens. O Catolicismo
Romano reconhece o segundo, e nega o primeiro. Já parte do Protestantismo
nega o segundo, e reconhece o primeiro.

Século 11: Racha entre a Igreja do Leste (hoje conhecida como Católica
Ortodoxa do Leste) e a Igreja do Ocidente (hoje conhecida apenas como
Católica Romana), devido a uma disputa entre a o Patriarca de
Constantinopla e o Papado Romano.

Séculos 12 a 15: Tentativas frustradas de reforma por parte dos Hussitas,


Lolardos, e Valdenses. Os últimos foram destruídos, os segundos e parte dos
primeiros foram incorporados pela Reforma do século 16, e parte dos
primeiros formou a igrejas Hussita que, como a igreja Anglicana, é um híbrido
de Catolicismo e Protestantismo.

Século 16: Reforma protestante. Início das igrejas Luterana, Anglicana,


Anabatista (hoje fundamentalmente Menoninta), e de outros movimentos
como o Calvinista.

Século 17: Origem da Igreja Batista, em racha com a Igreja Anglicana em


Amsterdã.
Século 18: Origem da Igreja Metodista, em racha com a Igreja Anglicana na
Inglaterra. Origem, na Escócia, da Igreja Presbiteriana, a partir do movimento
Calvinista e influenciada por outros reformadores.

Séculos 19 e 20 (início): Início do Pentecostalismo, que teve forte influência


wesleyana, e que afetou boa parte das igrejas protestantes. Nesta, originam-
se importantes denominações como a "Assembleia de Deus." Início do
movimento Adventista.

Século 20 (meados): Início do Movimento Carismático, cuja premissa era


renovar as igrejas protestantes. Deu origem às Igrejas Renovadas dentro das
diferentes linhas protestantes clássicas. Foi também o precursor do
"Catolicismo Romano Carismático."

Século 20 (final): Início do Movimento Neopentecostal, a partir de igrejas


norte-americanas. É responsável por boa parte das igrejas chamadas "não-
denominacionais" na atualidade, que se caracterizam por uma enorme
variedade de crenças e práticas.

Nem chegamos perto de listar todos os cismas, discordâncias e rachas


existentes no Cristianismo, assim como a variedade de crenças e práticas. É
possível que às vezes o leitor tenha pouco contato com outras práticas, por
residir em uma região dominada por esta ou aquela prática, mas isso não
nega a existência global de uma série de variantes.

Como se pode ver, não existe "um Cristianismo." O termo é bastante


genérico, e aplicável a grupos com as crenças mais variadas possíveis e
imagináveis. Se compararmos um cristão ortodoxo do Oriente, com um
católico romano, um batista tradicional e um neopentecostal, eles terão muito
pouco em comum. Poderão ter, inclusive, divergências profundas em temas
fundamentais como salvação, natureza de Yeshua e imersão ("batismo").

Não há como, portanto, o leitor cristão dizer que "o Cristianismo tem 2
mil anos", porque não existe esse Cristianismo monolítico e único que essa
afirmação supõe. E como pode, ainda, o leitor cristão dizer que "o
Cristianismo Bíblico tem 2 mil anos", se a definição de "Cristianismo Bíblico"
varia de cristão para cristão. Se formos pela maioria denominacional, então
todos deveriam ser católicos romanos. Se formos pelas práticas ou doutrinas
mais difundidas, novamente estaremos mais próximos do catolicismo do que
do protestantismo. Mesmo dentro do protestantismo, há uma miríade de
diferenças de crenças e práticas.

Lembramos que estamos, neste estudo, analisando argumentos


externos à Bíblia. É claro que a resposta a muitas dessas questões é o voltar
para a Bíblia e analisá-la. Porém, muitos ao lerem as Escritura dizem: "Todos
interpretam desta forma." Se formos igualmente pensar na forma em que a
maioria lê a Bíblia, então novamente estaremos nos aproximando do
Catolicismo.
Há quem diga que, apesar disso, há 2 mil anos "existe uma igreja
invisível, composta dos verdadeiros seguidores de Yeshua." Não vamos
entrar no mérito desta frase, que não é o escopo deste artigo. Porém, não
existe nenhuma definição histórica das práticas dessa "igreja invisível."
Normalmente, quem usa essa frase parte da premissa de que a "igreja
invisível" tem práticas e interpretações teológicas semelhantes às suas
próprias. Mas como não há registro histórico da "igreja invisível" (por razões
óbvias), não há como dizer que essa "igreja invisível" tinha esta ou aquela
prática ou crença. Em outras palavras: Não é possível alegar a "igreja
invisível" para defender práticas, porque isso depende da subjetividade de
quem define a expressão.

Conclusões sobre esta premissa

• "O" Cristianismo não existe, porque não há uma definição única e


monolítica para todos. Nunca houve, desde os primórdios.
• É muito subjetivo afirmar que este ou aquele grupo tem "2 mil anos."
Na verdade, nenhum grupo cristão tem oficialmente 2 mil anos de
existência. E, em muitos casos, dependem de que lado a pessoa está
no momento do cisma.
• Não há como definir, com base nos grupos cristãos, um conjunto único
de dogmas de fé e de prática que sejam "um núcleo de 2 mil anos",
pois até temas fundamentais como salvação encontram divergências.

III - Obedecer à Lei do Eterno é um Novo Modismo?

Alguns argumentam que a idéia do obedecer à Torá (Lei) do Eterno só


começou a ser divulgada nos tempos atuais, por grupos "sectários" e que
portanto não pode ser levada em consideração, pois trata-se de um "novo
modismo" que jamais existiu anteriormente. Mais uma vez, esse é um
argumento equivocado.

Os grupos históricos mais tradicionais se escandalizariam


profundamente com a tendência moderna de se declarar que não há
necessidade de se cumprir "a Lei do Eterno." Vejamos aqui algumas
profissões de fé:

Reforma Protestante

Um dos principais documentos das igrejas reformadas era conhecido


como o Catecismo de Heidelberg (século 16), que afirma o seguinte:

"Mas o que são as boas obras? Somente aquelas que procedem da


verdadeira fé, e são realizadas segundo a Lei do Eterno, e para a Sua glória;
e não aquelas que são fundadas em nossas imaginações, ou nas instituições
de homens." (Pergunta 91)
A Confissão Batista (século 17) também afirma algo semelhante,
quando diz:

"O Espírito do Messias subjuga a vontade do homem, e o permite


realizar livremente e com alegria aquilo que a vontade do Eterno, conforme
revelado na Lei, requer que seja feito." (19:7)

Catolicismo Romano

O Catecismo da Igreja Católica também afirma algo semelhante:

"A Lei do Eterno confiada à Igreja é ensinada aos fiéis como um


caminho de vida e de verdade." (2037)

Catolicismo Ortodoxo

Algo semelhante também pode ser encontrado no Catecismo de São


Filaret:

"Que forma temos de discernir boas obras das ruins? Pela lei interior
do Eterno, ou testemunho de nossa consciência, e pela lei exterior do
Eterno... Quando e como foi a lei exterior do Eterno dada aos homens?
Quando o povo hebreu, descendente de Abraão, foi milagrosamente liberto
da escravidão do Egito, no caminho da terra prometida, no deserto, no monte
Sinai, o Eterno manifestou sua presença em fogo e nuvens, e deu a eles a
Lei, pela mão de Moisés, seu líder."

A Mudança do Movimento Carismático

A idéia de que não haja qualquer necessidade de cumprimento da Lei


do Eterno surgiu com o movimento Carismático e foi herdada pelo
Neopentecostalismo. Essa idéia, que posteriormente acabou influenciando
outras igrejas, foi duramente criticada por seus antecessores. Por exemplo, o
pastor pentecostal (não-carismático) Bill Burket afirma:

"Os carismáticos indicam em seu ensinamento que a Lei do Eterno e


Seu amor são diamétricos, e que se você observa um, você não tem o outro,
e que esses representam dois tipos diferentes de dispensação de revelação,
e que estamos vivendo a dispensação do amor, e que portanto você está em
algum tipo de escravidão se viver pela Lei moral do Eterno. Mas a Bíblia
ensina que eles são a mesma coisa, e a Lei do Eterno é simplesmente o
Amor do Eterno em forma escrita." (Pentecostal But Not Charismatic)

Evidentemente que existe uma profunda divergência entre o que os


grupos supracitados consideram ser a "Lei do Eterno" e o que os que
defendem a observância total da Torá consideram para tal definição. Não
queremos de forma alguma negar essa diferença. Porém, o leitor precisa
igualmente compreender que esses grupos também divergem entre eles
sobre a definição do que é a "Lei do Eterno." Mas, à exceção dos grupos
mais modernos, todos concordam que a "Lei do Eterno" (seja qual for a sua
definição) deve ser cumprida, e que o simples cumprir a "Lei do Eterno" não
anula a fé nem a graça - desde que, claro, feita pelos motivos corretos, isto é,
como consequência da fé, e não como tentativa de se obter o "favor celestial"
por méritos.

Conclusões sobre esta premissa

• Historicamente, a idéia da necessidade do cumprimento da Lei sempre


acompanhou todas as ramificações do Cristianismo.
• Embora praticamente todos os grupos cristãos discordem entre eles
sobre o que é a "Lei do Eterno", a idéia de que essa Lei não deveria
ser cumprida é um desenvolvimento teológico mais recente.

IV - As Práticas da Torá são novo modismo?

Uma variação do argumento anterior é a afirmação de que as práticas


realizadas pelos grupos que defendem a Torá são práticas estranhas, e que
não são adotadas por nenhum outro grupo.

Novamente, é preciso que o leitor entenda que o seu universo pessoal


não representa nem 1% do Cristianismo, e que o fato de que determinada
prática não seja realizada nas comunidades próximas, ou nos grupos mais
modernos, não significa que tais práticas não sejam amplamente realizadas
em outros lugares.

O leitor pode se surpreender com a frase a seguir, mas o fato é que o


Cristianismo cumpre sim praticamente toda a Torá. Tenho ciência de que
essa frase controversa espantará tanto o leitor cristão quanto o israelita.
Todavia, peço a todos que deixem para tirar suas conclusões após verem os
argumentos.

A seguir, alguns exemplos dentre algumas das práticas da Torá que


mais se destacam para quem toma contato com ela:

1) Shabat

O Shabat, ou sábado, nunca deixou, ao longo da história, de ser


observado por grupos de cristãos, mesmo após a imposição do domingo por
parte da Igreja Romana. Agostinho, de Hipona, por exemplo confirma no
século IV:

"É claro que todas as igrejas orientais e a maior parte do mundo


observava o Shabat como festival. Os autores gregos são unânimes no seu
testemunho."

Ao longo da Idade Média, pelo menos dois grupos observavam o


Shabat: A Igreja Ortodoxa Etíope que, por sua distância física de Roma, é a
que mais se assemelha aos ritos dos antigos seguidores de Yeshua, algumas
Igrejas Ortodoxas Orientais, e também alguns grupos pré-Reforma, como por
exemplo alguns dentre os Valdenses. Depois da Reforma, vários outros
grupos sabatistas surgiram, sendo os mais importantes os Batistas do Sétimo
Dia e os Adventista. Portanto, uma parcela considerável da Cristandade
sempre observou o Shabat.

2) Circuncisão

Muitos podem se surpreender, mas a circuncisão também é praticada


dentro do Cristianismo, especialmente dentro da Ortodoxia. As Igrejas
Ortodoxa Copta, Ortodoxa Etíope e Ortodoxa da Eritréia, além de algumas
outras igrejas africanas, ainda praticam a circuncisão de seus filhos,
conforme a determinação bíblica.

Um documento da ONU, que delibera sobre a questão, afirma:

"Os cristãos coptas no Egito e os cristãos ortodoxos etíopes - duas


das formas mais antigas de Cristianismo sobreviventes - retêm muitos
aspectos do Cristianismo primitivo, inclusive a circuncisão de homens." (Male
Circumcision: context, criteria and culture)

Portanto, mais uma vez é uma prática que tem considerável adoção
dentro do Cristianismo, embora não seja muito conhecida na sociedade
ocidental.

3) Festas Bíblicas (Geral)

Além de terem sido celebradas nas comunidades primitivas, e


tornarem-se controvérsia com a Igreja Romana até, pelo menos, os idos do
século 7, há também registros da observância de festas bíblicas ao longo
inclusive da Idade Média.

O rabino-historiador Samuel Kohn também relata em sua obra


"Sabbatarians in Transylvania" registros históricos de comunidades sabatistas
no século 16 celebrando todas as festas bíblicas.

Ademais, recentemente, também temos visto um crescente interesse


de movimentos cristãos mais modernos, a partir do século 19, com crescente
interesse nas festas bíblicas.

Em outras palavras, a prática dentro do Cristianismo de festas bíblicas


sempre existiu, em maior ou menor grau, e perdura até hoje. Está muito
longe, portanto, de ser um modismo.

A seguir, veremos alguns exemplos de festas específicas:


3.1) Pessach/Chag haMatsot

Primeiramente, é preciso distinguir entre o "não praticar" e o "praticar


equivocadamente." Porque enquanto o primeiro pressupõe uma abolição da
prática, o segundo não. Esse é o caso do Pessach, ou "Páscoa." Todo o
mundo cristão a celebra, embora muitos o façam equivocadamente, sem se
darem conta de que a Igreja Romana adotou, para essa festividade, a data e
os costumes da festa da deusa da fertilidade, Ishtar. Todavia, ninguém
questiona a importância da data.

Ademais, como vimos, havia muitos grupos que praticavam a datação


e o costume correto não só do Pessach ("Páscoa") como também de Chag
haMatsot (Festa de Pães Ázimos.) Tais grupos eram chamados de
"quartodecimanos." Embora entre tais grupos, nem todos cumprissem a
festa de pães ázimos, uma parcela considerável (provavelmente a maioria) o
fazia. Sabe-se, por um registro do bispo de York, que os quartodecimanos
existiram até, pelo menos, o século 7. Depois da Reforma, alguns grupos
(embora não muito grandes) retornaram à prática quartodecimana.

Em outras palavras, essa é uma prática que, de uma forma ou de


outra, se mantém parcialmente em todo o Cristianismo; manteve-se em sua
totalidade por muitos séculos apesar de forte perseguição de Roma, e tem,
por fim, sido revisitada por movimentos mais modernos. Novamente, não se
pode considerar essa prática exclusiva ou modismo.

3.2) Shavu'ot

Esta é uma festa que se mantém até hoje, embora tenha mais
importância dentro dos ritos católicos do que do Protestantismo. Trata-se da
famosa festa de "Pentecostes", ou "Festa das Semanas", como é conhecida
biblicamente. Como essa festa possui relação cronológica com Pessach/
Chag haMatsot, e tendo a Igreja Romana revisado a data da sua "Páscoa",
evidentemente que a data acaba não coincidindo com a verdadeira data
bíblica de Shavu'ot. Porém, a prática permanece apesar desse erro. É claro
que os ritos modernos já trazem diferenças para com a prática bíblica, mas o
importante é ressaltar que Shavuot, mesmo com muitos erros, não é
considerada uma prática abolida, e é realizada por boa parte do Cristianismo.
Novamente, não é um modismo.

3.3) Yom Teruá

Como já afirmamos, a chamada "Festa da Trombeta" é mais um


exemplo de uma festa bíblica que tem sido mais recentemente igualmente
revisitada por grupos cristãos modernos. Porém, mais importante do que isso
é o fato de que inúmeros teólogos cristãos apontam corretamente para Yom
Teruá como diretamente associado ao dia do retorno de Yeshua. Sendo
assim, mesmo a data não sido praticada pela vasta maioria, muitos sãos os
teólogos que a consideram fundamental, teologicamente.
3.4) Yom Kipur

O Yom Kipur ("Dia da Expiação") se caracterizava por dois principais


elementos: Um deles dizia respeito ao rito do Cohen HaGadol (Sumo
Sacerdote), que derramava o sangue sobre o propiciatório do Aron HaBrit
(Arca da Aliança.) O outro aspecto era o "afligir de almas", eufemismo bíblico
para o jejum.

Poucos sabem, mas até hoje a Igreja Ortodoxa Etíope mantém a


prática de derramar um cálice de vinho (representando o sangue de Yeshua)
sobre o propiciatório do Aron HaBrit (Arca da Aliança). A Igreja Etíope alega
ter posse do Aron HaBrit (Arca da Aliança), embora muitos especulem que
seja uma réplica, possivelmente enviada por Shlomo (Salomão) à rainha de
Sabá, e preservada pelos Beta Israel, a comunidade judaica etíope até os
primórdios do Cristianismo.

Sem entrar no mérito teológico da questão, o Yom Kipur é também


considerado uma data importante dentro da teologia Adventista, que o
considera como uma data especial de cumprimento de parte da expiação de
Yeshua nas regiões celestiais. Portanto, mais uma vez o Yom Kipur não é
uma prática "nova" ou mesmo sem similar nas práticas cristãs.

3.5) Sukot

Além de ser uma das festas com registros históricos sobre sua
observância ao longo dos séculos, e do interesse moderno na mesma, esta é
uma festa que a Bíblia diz explicitamente que será celebrada no Milênio, por
todas as nações, em Zechariyah/Zacarias 14:16-19. Com isto, muitos
teólogos não negam sua importância, e afirmam que a mesma esteve
vigente, e será vigente, não estando vigente unicamente no momento
presente da "Igreja" - o que não é difícil de perceber como pretexto teológico
para não observá-la atualmente.

4) Kashrut

As chamadas "leis alimentícias" também têm sido observadas ao longo


dos séculos por diversos grupos cristãos. Dentre os grupos católicos, mais
antigos, podemos destacar a Igreja Ortodoxa Etíope, que até hoje mantém as
leis alimentícias bíblicas em sua prática de fé. Outras Igrejas Ortodoxas, tanto
Orientais quanto Ocidentais, embora não enfatizem tais leis da mesma forma
que a Igreja Etíope, também desencorajam seus seguidores a seguirem uma
alimentação não bíblica.

Semelhantemente, após a Reforma, temos como principal grupo


praticante das leis alimentícias o movimento Adventista. Há também grupos
mais modernos que têm praticado tais leis. Sendo assim, podemos perceber
que as leis alimentícias igualmente não podem ser chamadas de "modismo"
ou descartadas como uma nova invenção, mas vêm sendo praticadas desde
os primórdios do Cristianismo.
Estes são apenas alguns exemplos de inúmeras práticas da Torá que,
em maior ou menor escala, com maiores ou menores alterações, podem ser
encontradas nas diversas vertentes do Cristianismo. E servem para
demonstrar que a pregação da Torá, e do retorno à obediência à Lei do
Eterno não é algo novo.

A grande diferença entre tais práticas e a prática dos grupos atuais que
propõem a observância da Torá é apenas uma: Enquanto a maioria dos
grupos supracitados cumpre esta ou aquela observância e ignora outras,
nossa proposta é a de que TODA a Bíblia é fonte de instrução de práticas de
vida.

A observância seletiva dos grupos supracitados também prova com


absoluta clareza que as igrejas cristãs têm uma atitude dúbia para com a Lei
do Eterno, pois ao se julgarem capazes de determinar que preceitos da
Palavra Imutável foram abolidos, e que preceitos devem ser cumpridos, os
grupos acabam discordando entre eles próprios, e cada qual tem práticas
distintas, pois pouquíssimos são os que observam a totalidade.

Conclusões sobre esta premissa

• As práticas da Torá (Lei) do Eterno não são modismo moderno, e a


maior parte dela pode ser encontradas ao longo inclusive de toda a
história do Cristianismo.
• As igrejas cristãs divergem consideravelmente sobre que elementos
da Torá (Lei) devem ser cumpridos hoje.
• O que propomos não é invenção de homens, mas uma premissa
simples: TODAS as recomendações do Eterno são fonte de instrução
para a humanidade.

V - Seguindo a Maioria?

Outro argumento bastante utilizado é o de que "todo mundo pensa ou


age de uma certa forma." Recentemente ouvi o caso de uma pessoa que
deixou uma igreja sabatista porque "todo mundo pregava de outra forma."

Existem alguns erros básicos nessa premissa. O primeiro é acerca da


maioria: Normalmente, as pessoas se referem à maioria dentro da região
onde mora. Contudo, isso é bastante relativo, pois há diversas regiões onde
impera esta ou aquela denominação religiosa. Uma pessoa que viva no Egito
terá como maioria predominante as igrejas Copta e Oriental. Alguém que viva
na Itália terá como maioria predominante o Catolicismo Romano, e assim por
diante. Portanto, a "maioria regional" não é sinônimo de doutrina correta, e
simplesmente reflete um desejo da pessoa de colocar o social acima da fé.

Caso consideremos a "maioria global", todos deveriam ser católicos


romanos. Porém, boa parte dos demais cristãos os consideram uma das
denominações mais distantes da Bíblia em termos de fé e prática. E mesmo
os católicos romanos representam apenas cerca de 50% do mundo cristão -
o que significa que igualmente teriam problemas em afirmar que todo o
restante está equivocado, por força unicamente numérica.

Além disso, esse argumento apresenta dois pesos e duas medidas,


quando apresentado por um evangélico ou protestante. Porque se Lutero,
Zwingli ou Calvino tivessem pensado dessa forma, as igrejas protestantes
possivelmente não existiriam hoje. Na época desses homens, não havia
variedade de igrejas numa mesma região. Se a região fosse dominada por
Roma, todos seriam católicos romanos. Isto significa que esses homens
tiveram que aceitar ficarem inicialmente sozinhos, e não seguiram a maioria.

Nem é preciso recordar que a Bíblia em diversos pontos adverte que


não devemos nem seguir a maioria, muito menos ceder a pressões sociais
(ou mesmo familiares), como por exemplo nos versos abaixo:

"Entretanto, Elohim não se agradou da maioria deles, razão por que ficaram
prostrados no deserto." (Curintayah Alef/1 Coríntios 10:5)

"Se alguém vier a mim, e não deixar a pai e mãe, a mulher e filhos, a irmãos
e irmãs, e ainda também à própria vida, não pode ser meu talmid."
(Lucas 14:26)

Conclusões sobre essa premissa

• Esta premissa é baseada em estatísticas locais e, portanto,


equivocadas.
• Se a maioria for a voz da razão, deveriam todos serem Católicos
Romanos.
• A Bíblia não se preocupa com números, e sim com a verdade.
• Trata-se de um pretexto por causa do desconforto social ou familiar.

VI - O Eterno permitiu que fosse dessa forma?

Alguns afirmam que "o Eterno está no comando das igrejas" e que se
Ele permitiu que assim fossem, isso significa que Ele está satisfeito com elas.

Alguns problemas se apresentam a partir dessa premissa. O primeiro


deles, já evidenciado anteriormente é: De que igreja o Eterno está no
comando? E, se de fato esse comando existe da forma como as pessoas
argumentam, por que tantas igrejas igualmente bem-intencionadas chegam a
conclusões distintas sobre o direcionamento dEle?

Na realidade, o que acontece é que o Eterno é paciente. E as pessoas


confundem a paciência do Eterno com ter o seu agrado. Vejamos um
exemplo nas Escrituras sobre isso:
"E acharam escrito na Torá que YHWH ordenara, pelo ministério de Moshe,
que os filhos de Israel habitassem em cabanas, na solenidade da festa, no
sétimo mês... E toda a congregação dos que voltaram do cativeiro fizeram
cabanas, e habitaram nas cabanas, porque nunca fizeram assim os filhos de
Israel, desde os dias de Yahushua Ben Nun, até àquele dia; e houve mui
grande alegria." (Nehemiyah/Neemias 8:14,17)

Repare no que a Bíblia diz aqui: O povo de Israel passou quase mil
anos negligenciando uma mitsvá (mandamento) do Eterno! E nem por isso o
Eterno deixou de amar ou de ser paciente com o povo de Israel. O povo
estava no erro, mas o Eterno foi longânimo devido à ignorância do povo.

Da mesma forma, a restauração da fé não teve seu fim em Lutero: Ela


teve seu início nele, mas precisa prosseguir. É preciso que todos deixem as
práticas pagãs incorporadas pela Igreja de Roma, e voltem às práticas
bíblicas.

A misericórdia do Eterno não deve ser pretexto para deixarmos de nos


voltarmos para a verdade. E assim como o Eterno se relacionou com Israel
apesar de sua desobediência, sem aprová-la, muitas vezes o Eterno se
relaciona com pessoas que estão em sistemas religiosos de engano, sem
com isso significar que Ele aprove todos os seus hábitos, comportamentos ou
crenças.

Conclusões sobre esta premissa

• Não devemos confundir a paciência do Eterno com aceitação.


• O Eterno se relaciona misericordiosamente com o ser humano, apesar
dos seus erros.
• Mesmo assim, devemos buscar a verdade, pois o Eterno tem nos
levado no sentido da restauração.

VII - Conclusões

A partir deste estudo, podemos tirar algumas conclusões importantes:

• As práticas cristãs da atualidade não têm 2 mil anos.


• Não existe um "Cristianismo" ou uma "Igreja" de 2 mil anos. Essa
definição depende da subjetividade de cada um.
• Diferentes grupos cristãos têm diferentes crenças sobre assuntos até
fundamentais na fé.
• Até recentemente, a idéia de obedecer à Lei do Eterno sempre
acompanhou os que dizem seguir Yeshua, com variações apenas na
definição sobre o que é "Lei."
• Não há unanimidade no meio do Cristianismo sobre o que é a "Lei do
Eterno."
• As práticas da Torá (Lei) do Eterno não são novidade, e boa parte
delas pode ser encontradas nos mais variados grupos cristãos.
• A Torá (Lei) não é unicamente praticada por um pequeno bando de
loucos do século 21. Ela foi praticada ao longo de toda história.
• É ilusão achar que estar em uma denominação cristã é "seguir a
maioria."
• É ilusão achar que "seguir uma suposta maioria" é positivo,
biblicamente.
• A tolerância do Eterno com o Cristianismo não significa que Ele aprove
todas as suas crenças, ou práticas.
• Todos esses argumentos são de fundo unicamente emocional, e não
têm base nem histórica, nem teológica e muito menos bíblica.

Sendo assim, a resposta para a pergunta "Onde está a verdade?"


deve ser respondida unicamente nas Escrituras, independentemente de que
denominação a pratica, ou de quantas pessoas praticam a verdade.

Lembremos que não era raro que os profetas da antiguidade se


sentissem sozinhos, ao perceberem que a maioria do povo não seguia a
totalidade das Escrituras.