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PREFÁCIO Comentado [1]:

O livro Os jardins da academia é publicado em momento extremamente oportuno


em que urge refletirmos sobre o papel da educação e da Universidade para além de
paroquialismos políticos que cercam o cenário brasileiro. Fruto de anos de pesquisa
consolidados numa tese de doutoramento, trata-se de um empreendimento intelectual
muito bem fundamentado. Como parceiros acadêmicos e participantes de sua banca de
doutorado, assumimos conjuntamente o reconhecimento de que o trabalho de Alexandre
Reis nos proporcionou um grande aprendizado, de modo que a sua leitura nos foi
extremamente prazerosa e nela ainda encontramos diversas ressonâncias de nossos
próprios problemas como educadores, pesquisadores e membros de comitês de ética. De
fato, saímos desafiados e convencidos por essa tese que ganha agora a forma de livro.
Queremos inicialmente parabenizar Alexandre pela dedicação e intenso trabalho
dirigido à produção dessa tese-livro. E como o leitor poderá atestar, o resultado da
imersão de Alexandre é muito agradável. Fica bastante evidente como a pesquisa foi
produzida por meio de um longo acúmulo de leituras, reflexões e experiências desde sua
graduação e mestrado em filosofia, passando pelas atividades docentes e culminando,
também em grande medida, em sua presença no comitê de ética da Univasf, do qual foi
presidente por quatro anos. Sua argumentação evidencia também uma privilegiada
capacidade de convencimento e criatividade. Com isso, a dimensão autoral e inventiva
do texto dá ao seu estilo um charme cativante. Ademais, o texto é escrito com paixão,
com sangue. É possível vê-lo se posicionando e presente em cada argumento. Esse livro
pulsa sua vida intelectual ao longo de quase duas décadas de ensino e aprendizagem. E,
por isso mesmo, o escrito possui contornos de erudição e um aporte filosófico invejável.
Pois Alexandre foi capaz de retomar sua tradição preferida de filósofos e debates para
produzir uma crítica da atualidade, sem fazer do passado ou da tradição um modelo
almejado de forma meramente idealizada. Fica perceptível sua preocupação com a
educação e com o lugar da filosofia na formação política para a cidadania, da qual o Brasil
é extremamente carente.
Com isso, a sua pesquisa coloca uma questão que nos acossa muito
profundamente: qual é a finalidade da educação? E a sua leitura ainda nos conduz a
perceber e problematizar o sono dogmático tão presente nas instituições de ensino no
Brasil, e recomenda cautela e conhecimento histórico aos nossos políticos reformistas,
que não conseguem perceber a educação para além de interesses privados, e às vezes
espúrios. Por outro lado, ao se movimentar com a tradição, Alexandre remonta à relação
histórica entre ética e educação como forma de preparar sua crítica às formas de
esclarecimento presumido. Trata-se de uma elucidação implícita das técnicas e estratégias
que trabalham na contramão da educação, na medida em que promovem uma redução da
ética ao direito, mesmo quando imaginam estarem progredindo por meio do ensino das
técnicas e das ciências.
Para avançar em suas pretensões, e tendo a genealogia como uma inspiração
metodológica fundamental articulada com um caro rigor hermenêutico, o presente
trabalho de Alexandre H. Reis se institui a partir de uma leitura meditada e cuidadosa da
obra de Platão na sua relação com a constituição de sua Academia, que demonstra muito
claramente o caráter propedêutico da educação ética em sua relação com a política.
Orienta, também a leitura de Aristóteles e a sua relação com o seu Liceu, mais diretamente
no fabuloso Ética a Nicômacos em relação à formulação de uma ética teleológica que
orienta todas as práticas de educação. É muito pertinente como Alexandre consegue nos
fazer ver esses dois monumentos da Cultura Ocidental, fundamentalmente como
professores, e seus escritos exotéricos menos como parte de sistemas filosóficos do que
como uma didática – na acepção tradicional da palavra.
Também com sua questão teleológica de fundo, Alexandre coloca o problema da
criação das Universidades medievais à luz dos problemas filosóficos desse difícil período.
Ele também problematiza e traz à baila os inatuais métodos e temas que nortearam os
estudos medievais, além de demonstrar claramente que, ao contrário do que se imagina,
“a idade das trevas” produziu reflexão e debate com mais pujança do que no período atual
no Brasil.
Enfim, o texto de Alexandre ainda nos conduz ao período que representa o nosso
mais atual passado, quer dizer, ao quadro que ainda estamos envolvidos no que diz
respeito aos fins da educação: o período do Esclarecimento (ou Iluminismo). A análise
do debate alemão, mais especificamente através da letra de Kant e seus desdobramentos
em Nietzsche, permite pensar, segundo Alexandre, o lugar da razão para além do caráter
instrumental que parece orientar os estudos universitários atuais.
Alexandre acena com um debate sobre ética numa deliberada tentativa de fazer o
uso público da razão, e mesmo quando se afasta da ética deontológica, seu propósito é
kantiano. Trata-se de um ex-presidente de um comitê de ética que agora, longe do seu
serviço como membro do comitê, produz através de uma reflexão meditada, uma dura e,
em nossa opinião, acertada crítica aos comitês de ética e à sua tendência de produzir o
que nosso autor chama de redução deontológica: “fazer da ética uma antessala do
direito”, e ainda perscrutar os efeitos peremptórios na educação.
Por fim, o livro é uma bem-sucedida incursão na temática da educação e da
universidade, ao provocar, desafiar e levantar questões essenciais para pensarmos nosso
tempo. Trata-se, finalmente, de assumir que o projeto do Esclarecimento está inacabado,
e que recuperá-lo pode ser uma boa resolução diante do niilismo ético que configura a
política intelectual contemporânea. E Alexandre faz esse trabalho com maestria, ao
demonstrar a pobreza ética da atualidade e a tristeza política que ela representa. A
universidade precisa se exercitar nesse sentido, e nós precisamos reunir esforços para
recolocar seu papel e levá-lo adiante.
Resta-nos, portanto, registrar a gratidão pela possibilidade de leitura e aprendizado
proporcionado por esse trabalho. Ficamos imensamente gratos pela qualidade da pesquisa
e pela oportunidade de prefaciar o livro, que em nossa opinião tem muito a contribuir com
o debate público a respeito da educação: seus propósitos e seus desvios. A seriedade da
pesquisa e de sua condução são admiráveis. Ainda bem que muitos outros novos leitores
agora terão acesso a ela.
Gabriel Pugliese e Delcides Marques
KRISIS – Laboratório de Antropologia Crítica (UNIVASF)
Petrolina, PE, outono de 2017