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REPERTÓRIO EM EXPANSÃO 1920-1030

A década de 20 foi excepcional no que concerne à expansão do repertório


violonístico. Isto ocorreu pelo fato dos recitalistas terem pedido a seus
compositores favoritos para que escrevessem algo para eles. Andrés Segóvia foi
pioneiro nesta atitude, fazendo um pedido a um compositor espanhol:

Então houve uma estreia na literatura violonística: pela primeira vez, um compositor não
violonista compôs uma peça para o instrumento. Foi Federico Moreno Torroba, cujo poema musical tinha
acabado de receber um premio da “Sinfônica Musical”, sob a direção do maestro Arbós.

Moreno Torroba foi apresentado a mim pelo primeiro violino da orquestra Señor Francés. Não
levou muito tempo para que nos tornássemos amigos, tampouco para o compositor ceder à minha sugestão:
ele comporia algo para violão? Em poucas semanas ele apareceu com uma leve, porém realmente bela
“Dança em Mi Maior”.1

Compor para violão tornou-se especialmente atrativo para os


compositores a medida que os recitais de Segóvia se estenderam pelos centros
musicais do mundo, com premières em Montevideo e Buenos Aires (1919-1920),
Cidade do México (1923), Paris (1924), Londres (1926), Copenhague (1927),
Nova York (1928), Tóquio (1929), Shangai (1929), etc..

Manuel Ponce, o eminente compositor mexicano, foi ao primeiro recital


de Segóvia na cidade do México em 1923 e foi prontamente convidado a escrever
algo para violão. Um pouco mais tarde, neste mesmo ano, Segóvia escreveu para
Ponce para externar “sua felicidade ao notar que os mais interessantes
compositores deste velho mundo estão colaborando com o meu entusiasmo pelo
violão”.

(PEÇAS DE MANUEL PONCE)


1 Andrés Segóvia, Segóvia: an Autobiography of the years 1893-1920 (New York: Macmillan, 1976), p. 194.
Sua lista provisória de compositores que promulgaram esta atividade
incluíram Roussel (que escreveu um pequeno, belo trabalho – Segóvia Op. 29),
Ravel, Schoenberg, Grovlez, Turina, Torroba e Falla.2

O fato de Schoenberg ter entrado na lista de Segóvia pode parecer bem


fora do comum, porém em 1923 o compositor vienense compôs a Serenata Op.
24 (para clarinete, clarinete baixo, violino, viola, violoncelo, bandolim, violão e
voz barítono).

Neste Opus 24, que está vinculado à alegre tradição vienense, Schoenberg tenta aplicar as novas
técnicas de composição sobre diversas formas antigas como o minueto e a marcha. No trabalho todo fica
claro que Schoenberg deseja imprimir os princípios dodecafónicos em cada aspecto da composição,
incluindo o vertical, i.e. nos acordes e figuras de acompanhamento.

A peculiaridade da Serenata reside no fato da sua complexidade, do ponto de vista de técnica de


composição, nunca atingir o ouvinte conscientemente. Este é envolvido neste espirituoso e alegre trabalho
pelos “ruídos de carro de bombeiros” (na cena de dança), suas improvisações em forma de pot-pourri (no
final da marcha), e os seus “chilreados ruídos mediterrâneos” evocados pelo violão e bandolim.

Não é senão até a partitura ser examinada que a quantidade de labor artístico e técnica soberana
empregados se tornam aparentes.3

O gosto musical de Segóvia era avesso aos estilos mais dissonantes e a


vanguarda pode ter sido muito bem consolidada por esta peça de Schoenberg.
Hoje em dia este trabalho pode ser considerado como simpático e agradável,
detentor de um certo humor. No entanto, o espírito irônico dos “ruídos de carro
de bombeiro” e dos “chilreados ruídos mediterrâneos” jamais seriam aceitos por
Segóvia. Assim a Serenade foi delegada para uma geração posterior de
violonistas.4

Vários outros compositores, compondo mais tradicionalmente,


contribuíram para a expansão do repertório de Segóvia. A frente estava Federico
Moreno Torroba (1891-1982), destinado à aclamação internacional através dos
recitais de Segóvia, junto a Joaquin Turina (1882-1949), um dos mais eminentes
compositores espanhóis, que escreveu obras perenes para violão como a
Sevillana, Op. 20 (1923) e Fandanguillo Op. 36 (1925).

2 Miguel Alcázar, ed. The Segóvia-Ponce Letters, trans. Peter Segal (Columbus, Ohio. Editions Orphée, 1989),

letter pf 1923, p.3.


3 H.H. Stuckenschmidt, Arnold Schoenberg (London: John Calder, 1959), pp. 87-88.
4 John Williams gravou a Serenata Op. 24 de Schoenberg, no LÓiseau-Lyre, SOL 250, 1962.
Compositores não espanhóis trabalhando para o engrandecimento do
repertório de Segóvia incluem Alexandre Tansman (1897-1986) da Polonia,
Gustave Samazevilh (1877-1967), compositor francês, que estudou com
Chansson, d’Indy e Dukas 5e Cyril Scott (1879-1970) da Inglaterra, cuja Reverie
Segóvia tocou no Teatro Odeón, em Buenos Aires em 23 de julho de 1928. 6

Por esta época Segóvia começa a transcrever peças de J.S. Bach para
violão. No centenário de morte de Bach em 1850, foi fundada a Bach –
Gesellschaft (Associação de Bach), dedicada a publicar sua obra completa. Entre
1851 e 1899, quarenta e seis volumes foram lançados. Em janeiro de 1900 a
Neue Bach Gesellschaft substituiu a original Bach – Gesellschaft, com a intenção
de apresentar a música de Bach em edições práticas. 7

Deste contexto surge a obra de Johann Sebastian Bach, Kompositionen für


die Laute (1921), editada por Hans Dagobert Bruger, que traz a coletânea ( em
notação referencial) das composições de Bach, que acredita-se terem sido
escritas para alaúde. Esta publicação foi fator vital para Segóvia seguir os passos
de seu predecessor Tárrega arranjando Bach para violão.

(BACH POR SEGÓVIA)

Recordings....

Publications 1924-1930...


5 Gustave Samazeuilh’s Serenade (Paris, Durand, 1926), gravado por Segóvia em Andrés Segóvia, The
Intimate Guitar 2, RCA ARLI-1323, 1976.
6 Domingo Prat, Diccionario de Guitarristas (Buenos aires: Romero e Fernandez, 1934, reimpresso por
Columbus, Ohio: Edições Orphee, 1986) p. 289. Um manuscrito de uma composição de Cyril Scott para
violão, uma Sonatina em três movimentos (tida como perdida), foi descoberta entre os documentos de
Segóvia em Linares por Angelo Gilardino em 2001 (“Reverie” era na verdade o primeiro movimento).
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