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ROMANS, Mercè; PETRUS, Antoni; TRILLA, Jaume.

Profissão Educador Social. Tradução: Ernani Rosa.


Porto Alegre: Artmed, 2003. 206 p.

Dinora Tereza Zucchetti*

O livro editado pela Paidós, em 2000, sob o direitos individuais e coletivos, demandam práticas
título original De profesión: educador (a) social, pro- educativas. Assim, as leis, a organização das cida-
duzido em colaboração, reúne pesquisadores que des, o lazer, a cultura e a economia assumem valor
vêm discutindo, na Europa, a Pedagogia Social - pedagógico e, por vezes, incidem sobre os cidadãos
tema emergente no Brasil. Trilla, Petrus e Romans, de forma mais educativa do que a escola. Seguindo
da Universidade de Barcelona, direcionam a obra esse pensamento, o autor afirma que a educação
àqueles que exercem (ou desejam exercer) a profis- formal (escolar) não tem sido capaz de transformar-
são de educador social. Dividida em três capítulos, se no mesmo ritmo das mudanças que demandam
escritos respectivamente pelos autores, aborda: O educação (sentido genérico), porque se move lenta-
Universo da Educação Social, Novos Âmbitos em mente, comparativamente aos fenômenos sociais e
Educação Social, e Formação Continuada dos Pro- culturais. A educação, ao desejar ser patrimônio da
fissionais em Educação Social. De forma geral, os escola e da pedagogia, deixou de reconhecer que,
autores refletem sobre a Pedagogia Social, ressal- para além da necessidade de desenvolver compe-
tando-a como área de conhecimento em Educação tências voltadas para o mundo do trabalho, também
Especializada, Educação de Jovens e Adultos e precisa voltar-se à formação da cidadania e à par-
Educação Sociocultural. ticipação social. Portanto, não é possível atribuir à
Inicialmente, Trilla afirma que a Pedagogia educação caráter exclusivamente escolar diante de
Social nada mais é do que uma das ciências da sua essência político-social.
educação que tem por objeto a educação social de Violeta Núñez, em ‘Los nuevos sentidos de la
indivíduos. No entanto, é crítico quanto ao uso que tarea de enseñar. Más allá de la dicotomía enseñar
dela se faz enquanto processo educativo relaciona- vs. Asistir’, de 2003, afirma que esse começo de sé-
do exclusivamente à educação não formal e ao de- culo mostra, com crueldade, que a escola que forma
senvolvimento da sociabilidade de sujeitos em situ- as novas gerações não é suficiente frente às deman-
ação de conflito social. Com base nas constituições das que emergem de uma sociedade globalizada.
europeias, o autor reafirma as práticas de educação Estas pressupõem que a transmissão dos valores e
como direitos humanos, em que palavras como gru- a distribuição dos bens culturais sejam associadas
po, comunidade, participação, diálogo e território são às experiências de mobilidade e confrontação, o que
algumas das expressões que demonstram a dimen- só é possível na medida em que a escola se asso-
são política que a educação social vem adquirindo cie, em rede, a outras instituições.
na Europa.
É nesse contexto de críticas às instituições
Trilla defende a formação em nível de Gradu- escolares, enquanto espaço hegemônico de ensino-
ação, sendo que os diplomados em Educação So- aprendizagem, que a Pedagogia Social/Educação
cial são nomeados Educadores Sociais e intervêm Social vem se consolidando na Europa, em países
com sujeitos em situação de conflito, com adultos, como a Alemanha e a Espanha, entre outros. Nesse
com a terceira idade e com crianças e jovens. Se- sentido, segundo Petrus, é obrigação da educação
gundo o autor, a Pedagogia Social/Educação Social social propor uma ação intercultural a partir do res-
por muito tempo ocupou o lugar de parente pobre da peito à cultura de origem de cada indivíduo. Assim,
Pedagogia (escolar), situação que vem se alterando espaços que até a década de 90 não eram consi-
principalmente porque seus saberes, em princípio derados educativos passam a sê-lo, a exemplo da
artesanais, têm produzido conhecimento através política, da produção, da saúde, do ócio. Isso pres-
da investigação científica necessária diante da sua supõe uma nova visão para a Educação Social, que
crescente profissionalização. rompe com uma concepção associada à educação
Petrus, na segunda parte do livro, desta- especializada, emergida no pós-guerra, cujo objeti-
ca que, em uma sociedade em constante mudan- vo era ajudar as populações no enfrentamento às
ça, surgem diferentes necessidades educativas. mazelas sociais, aproximando-se demasiadamente
A proteção da família, da infância, o bem-estar da/ da prática do Serviço Social. Diante de uma nova
na terceira idade e a saúde, ao se converterem em concepção, o autor reflete sobre a violência como

*
Professora do Mestrado em Inclusão Social e Acessibilidade, da Universidade FEEVALE/RS. E-mail: dinora@feevale.br

Práxis Educativa, Ponta Grossa, v.5, n.1, p. 109-110 , jan.-jun. 2010. Disponível em <http://www.periodicos.uepg.br>
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fenômeno social e problema educativo, a educação No que se refere ao contexto brasileiro relati-
para a terceira idade, o lazer e seu componente so- vo às práticas de educação não escolar (preferimos
cializador, entre outros temas. não recorrer ao conceito de Pedagogia Social), per-
cebemos a existência de movimentos distintos que
Por último, na terceira parte da obra, Romans
delineiam um vasto campo de dispersão que associa
se pergunta sobre as funções e as competências do
práticas de educação externas à escola voltadas a
educador social e, detalhadamente, as descreve. En-
sujeitos previamente determinados. Nesse sentido,
tre as primeiras destaca: reeducar os indivíduos em
nos sítios de universidades brasileiras, identificamos
seu sentido mais amplo, promover atividades socio-
linhas de pesquisas, grupos de estudos, disciplinas
culturais, informar e orientar relações institucionais
de cursos de formação de professores (na gradua-
que se desenvolvem no âmbito familiar, nas comu-
ção e pós-graduação), projetos de pesquisa e even-
nidades, com pessoas, individualmente, e nas insti-
tos científicos que abordam práticas de educação
tuições. Quanto às competências (está consciente
não escolar, geralmente tratadas como educação
quanto à dificuldade de estabelecer uma definição
não formal/informal e isoladas como temáticas es-
única para o termo), além de conhecimentos de ge-
peciais.
neralidades próprias à formação acadêmica, dada
por diferentes currículos, destaca que o educador Tais experiências evidenciam que, mesmo
social deve desenvolver a capacidade de intervir no diante de negativas como a defendida por Trilla,
plano educativo, trabalhar em equipe, gerir recursos estamos diante de uma oposição entre a Educação
e realizar formação continuada. Considera impres- Escolar e a Não Escolar, uma Pedagogia (escolar) e
cindível ao exercício da profissão o conhecimento uma Pedagogia Social. Isso permite afirmar que, no
que emerge das mudanças sociais, da população, caso brasileiro, mesmo com o alargamento do con-
da cultura, do trabalho, ou que deles derivam. ceito de educação propiciado pela Lei de Diretrizes e
Bases, de 1996, com a emergência de práticas edu-
O saber fazer refere-se às estratégias e dinâ-
cativas oriundas do Terceiro Setor e com a prolifera-
micas que potencializam os coletivos com o propó-
ção de Organizações Não Governamentais e suas
sito de otimizar uma prática educativa. Entre elas,
ações socioeducativas, em geral, estas não são sis-
Romans destaca fóruns de debates, supervisões, in-
tematizadas como práticas de educação. Tampouco,
tercâmbios, elaboração de revistas e convocatórias
inúmeras experiências que advêm do campo social
para discutir temas emergentes. Na sequência, o au-
parecem resgatar e incorporar os estudos de Paulo
tor chama a atenção para a prática do “profissional
Freire e da Educação Popular como base episte-
[que] resolve as questões que o outro, a pessoa a
mológica para uma práxis no campo educacional. É
que se pretende ensinar, teria que aprender a ques-
o caráter assistencial que se vê, sobremaneira, re-
tionar, a fazer, a produzir” (p. 254), reconhecendo-a
forçado.
como equivocada. Pretende com essa questão re-
ferenciar o exercício de uma profissão que, mesmo Outrossim, diante do crescimento dessas
sem receitas prontas, pode desenvolver um proto- intervenções, cabe também perguntar: quem é o
colo de intervenções que oportunize a integração de educador social em nosso país? Certamente, não
grupos e que estimule o grau de responsabilidade é o líder comunitário de outrora, nem o cuidador em
de cada um com si mesmo e com o meio. tempos de Código de Menores (1979), legislação
que antecedeu o Estatuto da Criança e do Adoles-
De outros estudos sobre o tema, destacam-
cente (1990), nem tampouco o professor com uma
se Agustín Morón Marchena, Juan Saez Carreras e
formação acadêmica centrada na prática escolar.
José Antonio Caride como importantes autores que
São muitos os que se nomeiam educadores sociais,
produziram um quadro teórico-metodológico deta-
mas, em geral, eles não possuem formação acadê-
lhado sobre a Pedagogia Social/Educação Social e
mica, alguns sequer concluíram o Ensino Médio, en-
que também referenciam que a profissão precisa dar
quanto outros atuam com base na própria experiên-
respostas educativas aos desafios sociais, econômi-
cia ou na de familiares engajados que lhes servem
cos e culturais emergentes.
de modelo.
Essa aproximação entre autores permite
Na medida da urgência que a temática de-
apontar, como um consenso entre os que estudam
manda e das crescentes experiências que emergem
a Pedagogia Social, sua gênese generalista. No en-
de um cotidiano em ebulição, sobram questões a se-
tanto, as bases teóricas dessa área de conhecimen-
rem respondidas nesse campo de conhecimento.
to, bem como os recursos metodológicos descritos
por diferentes autores, evidenciam uma educação
com fronteiras pouco definidas voltada a segmentos
muito específicos da população, uma vez que trata
de sujeitos com alguma desvantagem social. Neste
sentido, a Pedagogia Social busca uma formação
versátil.

Práxis Educativa, Ponta Grossa, v.5, n.1, p. 109-110, jan.-jun. 2010. Disponível em <http://www.periodicos.uepg.br>

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