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Paradigma Positivista: As Diferentes Faces de um Ilustre Desconhecido.

Autoria: Angela Cristiane Santos Póvoa, Ricardo Quadros Gouvea, Walter Bataglia,
Maria Luisa Mendes Teixeira

Resumo: Este artigo propõe uma síntese da lógica positivista sob a perspectiva de seus
principais desdobramentos filosóficos, que deram origem a correntes distintas dentro do
mesmo paradigma epistêmico. Para tanto, são analisadas as principais correntes positivistas, a
saber: i) positivismo originário ou Comteano; ii) positivismo lógico ou do Círculo de Viena;
iii) positivismo crítico; e iv) pós-positivismo. A revisão sistemática da literatura permitiu
encontrar pressupostos distintos e até mesmo opostos atuando dentro do mesmo paradigma, o
que sinaliza a importância do reconhecimento de sua heterogeneidade bem como suas
implicações para a pesquisa científica.
Introdução

O objetivo deste artigo é explorar, em forma de síntese, a lógica positivista em suas principais
correntes derivadas, desde sua origem na tradição francesa com Auguste Comte, passando
pelo positivismo lógico do Círculo de Viena e pelo positivismo crítico de Karl Popper até
culminar com a mais recente corrente denominada pós-positivista.
O positivismo, enquanto paradigma epistêmico, herda seus traços fundamentais do
Iluminismo do século XVIII, sendo primeiramente sistematizado por Comte. Já o positivismo
lógico ou empiricismo lógico do Círculo de Viena diferenciou-se do positivismo Comteano
por oferecer novas propostas epistemológicas, sobretudo no uso da lógica na linguagem,
sofrendo grande influência de pensadores como Wittgenstein e Carnap. O positivismo crítico,
por sua vez, tem sua origem nas críticas de Popper ao positivismo lógico, e embora não
fizesse parte do Círculo de Viena, Popper mantinha uma relação muito próxima com os seus
membros. A filosofia Popperiana foi primeiramente sistematizada em 1934 com a publicação
da obra intitulada “Logic der Forschung”, e que se constituiu numa crítica ao positivismo do
Círculo de Viena. Nesta obra, Popper defendeu a concepção de que todo o conhecimento é
falível, corrigível e virtualmente provisório. Por fim, o pós-positivismo é marcado pelo
pensamento de autores como Thomas Kunh, Irme Lakatos e Paul Feyerabend que defenderam
idéias e pressupostos inaceitáveis na perspectiva do positivismo lógico e originário além de
tecerem críticas ao positivismo crítico, apontando suas incoerências (Kuhn) ou propondo seu
aperfeiçoamento (Lakatos).
Este artigo não tem a pretensão de oferecer uma descrição exaustiva e detalhada acerca de
cada corrente positivista, uma vez que tal empreendimento fugiria ao escopo desta proposta,
mas espera-se proporcionar uma visão generalista que permita ao leitor diferenciar cada
corrente positivista em seus aspectos principais, situando-o de forma a permitir uma melhor
compreensão acerca de um paradigma que, embora hegemônico no estudo das ciências em
geral, é ainda bastante mal compreendido e interpretado.
O título deste artigo faz alusão ao fato de o positivismo ser formado por diferentes correntes
de pensamento ou “faces”, não sendo possível seu conhecimento como um paradigma linear e
homogêneo. É chamado de “ilustre” em razão de ser o paradigma epistêmico ainda
predominante na pesquisa científica, mas é ao mesmo tempo “desconhecido” uma vez que,
em razão de ser pouco compreendido ou compreendido em partes, é freqüentemente associado
ao calculismo e a indiferença em relação aos aspectos cognitivos do indivíduo. Desta forma,
ao ser apresentado ao positivismo na perspectiva de suas distintas vertentes, o leitor será
convidado a refletir sobre o fato de que embora este paradigma esteja ancorado em
pressupostos que defendem a objetividade e a precisão, o próprio paradigma parece carecer
dela, o que o torna ironicamente paradoxal e especialmente interessante.
Para fins de elaboração deste artigo, foi utilizada a revisão sistemática como forma de planejar
a revisão da literatura. A revisão sistemática busca, por meio do uso de métodos explícitos e
sistemáticos, a identificação, seleção e avaliação crítica dos textos utilizados como fontes de
pesquisa. A escolha da revisão sistemática como método de pesquisa foi norteada por suas
características específicas como: a redução do viés do autor; ser replicável; ser atualizada; e
identificar lacunas no campo de pesquisa (FIALHO, BOTELHO e MACEDO, 2010). Assim,
a revisão sistemática deste artigo foi estruturada e formalizada por meio de um protocolo, que
estabeleceu regras que orientaram a busca por textos e a posterior análise de conteúdo, que foi
conduzida conforme proposta por Bardin (1977). Seguindo as orientações de Bardin (1977),
foi estabelecido um sistema de categorização definido a posteriori, sendo este classificado
como “milha” e aplicado a cada corrente positivista analisada. As categorias de análise que
nortearam a comparação entre as correntes positivistas analisadas foram: i) definição de teoria
válida; ii) definição de conhecimento científico; iii) lógica do método; iv) demarcação entre

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ciência e não-ciência; v) posicionamento em relação a metafísica; vi) forma de evolução do
conhecimento.
Este artigo está estruturado da seguinte forma: a primeira parte apresenta o referencial teórico
sobre o tema, apresentando cada corrente positivista em seus aspectos principais e gerais,
numa ordem cronológica; Na segunda parte, são apresentadas as categorizações e análise de
conteúdo, que mostram os pressupostos de cada corrente positivista para cada categoria de
análise; A terceira e última seção apresenta as considerações finais do artigo.

Positivismo Originário: O pensamento de Auguste Comte

O pensamento de Comte pode ser sintetizado a partir de três temas básicos: O primeiro tema
propõe uma filosofia da história que apresenta o positivismo como único conhecimento
verdadeiramente científico; O segundo tema aborda a classificação das ciências baseadas na
filosofia positiva; Por fim, o terceiro tema trata de uma sociologia que, determinando a
estrutura e os processos de modificação da sociedade, permite a reforma prática das
instituições.
Em relação ao primeiro tema, este serve de moldura para explicar “a verdadeira natureza e o
caráter próprio da filosofia positiva” e está relacionado à formulação de uma filosofia da
história que pode ser sintetizada na lei dos três estágios ou dos três métodos de filosofar
(COMTE, 1973, p.9). Para Comte (1973), a verdadeira natureza do conhecimento não pode
ser revelada sem uma perspectiva histórica de seu progresso. Assim, cada ramo do
conhecimento deve necessariamente passar por três estágios históricos diferentes e
mutuamente excludentes, a saber:
i) o estado teológico ou fictício, que é o ponto de partida necessário à inteligência humana e
que busca explicações para os fenômenos com base na atuação de agentes sobrenaturais ou
mágicos. É considerado como a infância do conhecimento;
ii) o estado metafísico ou abstrato constitui-se numa passagem intermediária no processo de
maturidade do conhecimento, e substitui os agentes sobrenaturais da primeira fase por forças
abstratas. É considerado como a juventude do conhecimento;
iii) o estado positivo ou científico, que é fixo e ocupa-se em descobrir leis e relações
invariáveis, e corresponde a maturidade do conhecimento. É o estágio que busca descobrir as
leis efetivas que regem os fenômenos por meio do uso combinado do raciocínio e da
observação. Segundo Comte (1973) esse estado positivo teria sido iniciado com os trabalhos
de Galileu, Bacon e Descartes.
O segundo tema da obra de Comte (1973) refere-se à classificação das ciências, propondo
uma hierarquia que tinha como ponto de partida o estudo dos fenômenos mais simples e
gerais em direção aos mais complexos e específicos, definindo a seguinte ordem: matemática,
astronomia, física, química, biologia e sociologia. A educação científica com base nesta
hierarquia era considerada necessária, pois sem ela, o ser humano não atingiria o estado
maduro da racionalidade positiva.
O terceiro tema básico da obra de Comte esta centrado na reforma da sociedade a partir de
uma reorganização intelectual, moral e política, nessa ordem. Comte atribui à filosofia
positiva o papel de restabelecer a ordem na sociedade capitalista industrial, que havia sido
quebrada pela Revolução Francesa. Comte (1973) defendia ainda a legitimidade da
exploração industrial e a estratificação da sociedade em classes sociais.

Só a filosofia positiva pode ser considerada a única base sólida da


reorganização social, que deve terminar o estado de crise no qual se encontram,
há tanto tempo, as nações mais civilizadas. (COMTE, 1973, p.17).

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Todas as ciências, segundo Comte, estavam destinadas a alcançar o estado positivo, sendo que
este uma vez alcançado, não mais retrocede e desta forma, promove-se o crescimento
contínuo do conhecimento a partir de novas observações. Revela-se, portanto, o caráter
progressista e cumulativo do conhecimento. Para Comte, os fenômenos sociais ainda estavam
nos estágios teológicos e metafísicos, o que explicaria o não estabelecimento de leis
universais.
Comte (1973) também defendia que a passagem pelos 3 estágios históricos constituía-se numa
lei exata que poderia ser observada de forma direta, tanto na esfera individual quanto geral, e
é neste contexto que Comte introduz a noção da observação, tão cara ao positivismo. Comte
(1973, p.11) dizia que “todos os bons espíritos repetem, desde Bacon, que somente são reais
os conhecimentos que repousam sobre fatos observados.” Ao introduzir a observação como
método empírico, Comte imediatamente remete a importância da teoria, como uma explicação
para os fatos que são observados:

(...) de um lado toda teoria positiva deve necessariamente fundar-se sobre


observações, (mas) é inegavelmente perceptível, de outro, que, para entregar-se
à observação, nosso espírito precisa duma teoria qualquer. (COMTE, 1973,
p.13).

Para Comte, todos os fenômenos estão sujeitos a leis naturais e invariáveis, que devem ser
reduzidas ao menor número possível, tendo em vista seu caráter generalista e objetivo.

o caráter fundamental da filosofia positiva é tomar todos os fenômenos como


sujeitos a leis naturais invariáveis, cuja descoberta precisa e cuja redução ao
menor número possível constituem o objetivo de todos os nossos esforços,
considerando como absolutamente inacessíveis e vazia de sentido para nós a
investigação das chamadas causas, sejam elas primeiras, sejam finais.
(COMTE, 1973, p.5).

Nesta citação, é possível observar, que embora ressalte que o objetivo científico não é o de
buscar causas iniciais e finais, Comte mostra-se preocupado em oferecer uma explicação
causal “mediante relações normais de sucessão e similitude”. A busca por leis gerais tinha o
propósito de permitir a previsão dos fenômenos. Para Comte, “o verdadeiro espírito positivo
consistia, sobretudo em ver para prever, estudar o que é, a fim de concluir disso o que será,
segundo o dogma geral da invariabilidade das leis naturais” (COMTE, 1973, p.56).
Dentre as principais características do positivismo Comteano estão: a noção de que a
realidade é constituída pela soma das partes; a realidade só existe a partir de fatos que podem
ser observados, sendo verdadeiro somente aquilo que pode ser empiricamente testado, e desta
forma, não admite a noção de conhecimento a priori ao mesmo tempo em que também exclui
questões metafísicas, que são consideradas inacessíveis em razão de não serem passíveis de
verificação.

Positivismo Lógico: O Círculo de Viena

O Círculo de Viena foi constituído no início do século XX por um grupo de intelectuais que
se propunham a estudar questões relativas à ciência, lógica e linguagem. Destacavam-se
dentre seus integrantes nomes como: Moritz Schlick, Hans Hahn, Otto Neurath, Hempel,
Rudolf Carnap, Wittgenstein entre outros. No documento que marca a criação do grupo,
chamado de “Manifesto do Círculo de Viena”, de 1929, Neurath, Carnap e Hahn mostravam-
se preocupados com o renascimento de idéias metafísicas que “ameaçavam repor em questão
o lugar que só a ciência ocupa e deve ocupar” (BARBEROUSSE et al, 2000, p.13). O

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conjunto de idéias defendidas pelos filósofos do Círculo de Viena ficou conhecido como
positivismo lógico ou empirismo lógico.
A proposta dos membros do Círculo de Viena era promover a “purificação” do positivismo,
em resposta a repulsa destes pela Metafísica. Mesmo o positivismo Comteano era avaliado
como metafísico em certa medida, o que levou inclusive a rejeição do termo “positivista”
pelos membros do Círculo. Tal posicionamento mostrava a exaltação da lógica no discurso
científico, e por esta razão, tais pensadores ficaram conhecidos como positivistas lógicos.
Sobre isso Schlick afirmou: “Se alguém qualificar de positivista toda esta tese que nega a
possibilidade da Metafísica, nada se pode objetar. Neste sentido, deveria eu mesmo professar-
me um positivista convicto” (SCHLICK, 1975, p.46).
O objetivo do Círculo de Viena era lançar os fundamentos para a construção de uma ciência
unificada, que fosse capaz de reunir todos os conhecimentos proporcionados pelas diferentes
ciências. Para tanto, insistiam em imunizar a ciência de toda e qualquer “contaminação” de
teorias que tivessem como base vertentes filosóficas.
Assim posto, cabe questionar quais critérios poderiam distinguir um discurso dotado ou não
de sentido científico na perspectiva dos positivistas lógicos. Barberousse et al (2000)
esclarece que o positivismo lógico advogava a superioridade da ciência empírica
relativamente à busca da verdade, sendo esta sustentada pela observação, que garantia o
confronto com a realidade. A observação era “a única capaz de exercer um controle objetivo
nas hipóteses científicas e de servir de pedra de toque para a sua verdade ou falsidade”
(BARBEROUSSE et al 2000, p.14). Para os positivistas lógicos, o conhecimento se iniciava
com a observação, e por esta razão, rejeitavam a idéia Kantiana de conhecimento a priori.
Assim, uma proposição somente tinha sentido quando era dotada de enunciados empíricos
capazes de serem verificados pela experiência ou observação; não sendo empíricos, seriam
inadequados para uma discussão racional. Desta forma, esperava-se que o Princípio da
Verificação pudesse contribuir para a obtenção de um conhecimento seguro.
Neste ponto, residia uma das preocupações pontuais de Carnap (1975), pois ao defender que o
princípio que determina a verdade é o da verificação empírica, como lidar então com as
proposições epistemológicas, que não se referiam a fatos, mas às proposições? Seria a
epistemologia destituída de verdade?
Para responder a esta questão, Carnap (1975) defendeu que as proposições epistemológicas
são proposições dotadas de significado, que se referem não diretamente aos fatos, mas antes à
linguagem empregada para referir-se aos fatos. Neste sentido, a tarefa da filosofia era depurar
a linguagem científica de suas imprecisões, construindo linguagens que obedecessem ao rigor
de uma sintaxe lógica. Nesta perspectiva, surge então uma característica peculiar que estava
presente nos debates dos pensadores do Círculo: a reflexão em torno da linguagem. Em 1921,
a edição da obra Tractatus Logico-Philosophicus, de Wittgenstein (2001) influenciou
diretamente as reflexões dos participantes do Círculo, e este colocava, em síntese, que uma
sentença é uma figuração da realidade, como um quadro vivo, e não “como se fosse” a
realidade (Teoria da Figuração), de forma que uma teoria da realidade correspondia a uma
teoria da linguagem, numa relação paralela. Havia, portanto, uma correspondência entre
estrutura do mundo e estrutura da linguagem. Por este motivo, considerava a linguagem como
uma representação que projetava a realidade. Segundo Wittgenstein (2001), toda proposição é
significativa (ou tem sentido) quando diz algo a respeito do mundo, sendo portadora de uma
afirmação sobre a realidade. Esta afirmação transforma-se num enunciado, ou seja, numa
entidade lingüística que indica como são os fatos. Nesta perspectiva, delimitar o
conhecimento convertia-se numa tarefa de caracterizar a linguagem enunciativa. No entanto,
as regras gramaticais não seriam suficientes para separar proposições científicas das não
científicas. A gramática carecia de complemento, ou seja, de regras lógicas capazes de
determinar quais proposições poderiam ser significativas em termos científicos.

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Desta forma, era necessário desenvolver uma teoria lingüística que fosse capaz de fornecer os
instrumentos analíticos necessários para definir a significatividade de uma sentença, e em
grande parte esta tarefa coube a teoria proposta por Wittgenstein (2001).
Em 1931, Carnap publicou dois ensaios que buscavam precisar a idéia de uma junção
imediata entre a ciência enquanto sistema de enunciados e a experiência sensível
(BARBEROUSSE, 2000, p.15). Para Carnap, o sentido das palavras é determinado pelo
sentido dos enunciados em que figuram, e em consonância com Wittgenstein, Carnap
considerava que o significado dos enunciados complexos é determinado pelo sentido dos
enunciados elementares de que são compostos, e desta forma, o significado de um enunciado
é constituído pelas condições em que é verdadeiro, ao que Carnap acrescentou a tese
verificacionista do enunciado (BARBEROUSSE, et al, 2000). Quanto a isto, afirmou Carnap
(1975, p.105) que “Cumpre enfatizar que, quando falamos de verificabilidade, entendemos a
possibilidade lógica de verificação, e somente isso”. Assim, uma das principais teses
defendidas pelos pensadores do Círculo era a de ser possível elaborar, por meio de uma
construção lógica e experiencial, uma linguagem básica e fundamental que servisse como uma
fonte de ligação entre as várias ciências, da física à filosofia, da sociologia à biologia
(PETTERSEN, 2006). Nesta perspectiva, problemas semânticos assumiam a proporção de se
tornarem epistemológicos, uma vez que o significado de uma palavra consistia tanto em suas
relações intralingüísticas com outros termos ou enunciados como também sua relação com a
realidade extralingüística. Assim, é possível observar que o Positivismo Lógico e o
Comteano, embora partilhassem idéias bastante semelhantes, a epistemologia do Círculo de
Viena defendia que a base empírica da ciência poderia ser efetiva no plano lógico das
proposições. Tais reflexões causaram impacto sobre a ciência, uma vez que a linguagem
passou a ser parâmetro da cientificidade, algo até então não defendido.

O Positivismo Crítico de Karl Popper

Karl Popper distingue-se dos demais filósofos em razão de seu posicionamento firme e muitas
vezes polêmico, que afrontou o pensamento positivista até então estabelecido. O método
científico proposto por Popper buscou enfrentar o que ele considerava dois dos principais
problemas da teoria do conhecimento: O primeiro foi o problema da indução e o segundo, o
problema da demarcação (SILVA, 1995). No que se refere ao problema da indução, este
estava associado ao método indutivo, defendido pelos pensadores do Círculo de Viena, e
trazia em si problemas de ordem lógica que foram levantados por David Hume, sendo esta
argumentação conhecida como “A crítica de Hume”.
A crítica de Hume, brevemente aqui exposta, pode ser sintetizada partindo-se do princípio de
que realizamos inferências causais supondo a conexão entre fatos presentes e futuros, ou seja,
espero que o sol nasça hoje porque isto já ocorreu centenas de outras vezes. Tais inferências
causais são, portanto, relacionadas à experiência passada e, segundo Hume, não há condições
para estabelecer leis universais e atemporais com base na experiência passada, pois quem
pode garantir, com base no passado, a ocorrência de eventos futuros? Em outras palavras,
quem pode garantir que o Sol nascerá amanhã? O que há resume-se apenas numa expectativa
da repetição de um fenômeno. “Mas se todo o conhecimento vem da experiência (como
defendem os empiristas) e da experiência não se podem retirar conclusões universais e
atemporais, como resolver esta contradição? (SILVA, 1995, p.20). Tomando como base esta
argumentação, Hume conclui que uma vez que a razão desempenha um papel menor, o
fundamento da ciência seria irracional.
Sobre esta questão, Popper (1982) argumentou que a lógica indutivista é falha, pois não é
possível justificar enunciados universais a partir de experiências e observações particulares,

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pois isto seria mais do que a experiência ou a observação nos autoriza. Não importa quantos
resultados ou observações se tenha sobre um enunciado, não é possível torná-lo universal, e
nisto Popper concordava com Hume. Popper (1982) buscou responder à crítica de Hume a
partir do conceito de Falsificação como o procedimento que tanto resolve o problema da
indução como também define a demarcação entre atividade científica e não
científica. “Um enunciado ou teoria é falsificável segundo o meu critério, se e só se
existir pelo menos um falsificador potencial” (POPPER, 1987, p.20). Pelo critério da
falsificação, se não é possível justificar um enunciado universal, dado sua
impossibilidade de ser confirmado por meios empíricos, então somente é possível
confrontá-lo com enunciados particulares que são passíveis de teste e podem negar
as assertivas do enunciado universal, ou seja, podem torná-lo refutável.
Popper (1982) propõe o seguinte exemplo: supondo um enunciado universal “todos
os cisnes são brancos”, a verificação empírica de todos os cisnes na totalidade
espaço-temporal existente é impossível. Mas a observação de um único cisne preto
é capaz de falsificar o enunciado universal. Neste caso, o dado de observação pode
ser apresentado como um enunciado particular que nega a afirmação do enunciado
universal, justificando-o como falso. Desta forma, uma única observação basta para
falsificar toda uma teoria. Para Popper, o princípio da falseabilidade também permite
demarcar o que é ou não ciência a partir da possibilidade do conhecimento ser
submetido a testes empíricos e ser eventualmente falsificado (SILVA, 1995). Todo
conhecimento que não pode ser falsificado, não pode ser considerado científico, pois
é dogmático. Assim, a solução apresentada ao problema da indução é homogênea a solução
da demarcação entre ciência e não-ciência. É importante ressaltar que para Popper, era
necessário que um enunciado fosse testado empiricamente não em razão de sua
verificabilidade, mas pela sua falseabilidade. Dessa forma, Popper propunha o abandono da
crença na verdade científica absoluta, sobretudo pela insuficiência de seus métodos, e
defendia que as soluções científicas eram apenas provisórias.
Para Popper (1982), uma teoria científica é sempre uma conjectura ou hipótese, ou seja, algo
que é passível de refutação. Uma teoria pode ser corroborada quando é validada por testes
empíricos, mas por mais que seja testada, ainda assim não haverá garantias de sua
irrefutabilidade. Isso porque a “corroboração não atribui um valor de verdade” (SILVA, 1995,
p.50). Por outro lado, também são conjecturais as falsificações das teorias, pois “todo
conhecimento é conjectural, inclusive as falsificações da teoria (...), e nenhuma teoria pode
ser dada como definitivamente ou terminantemente falsificada” (POPPER, 1987, p.22). Desta
forma, não é possível verificar uma teoria, pois estas são conjecturas provisórias e nunca
podem ser dadas como definitivamente verdadeiras (SILVA, 1995).
O pensamento de Popper a respeito da teoria pode ser resumido na seguinte frase: “Não
sabemos, só podemos conjecturar” (POPPER, 1982, p.218). Desta forma, as teorias científicas
são propostas como hipóteses, e são substituídas por novas hipóteses quando são falsificadas.
A filosofia de Popper pode ser considerada oposta ao positivismo lógico no que se refere à
origem da teoria. Popper não acreditava que existisse um caminho estritamento lógico e
racional capaz de levar a formulação de novas teorias, mas estas podiam ter como pontos de
partida a imaginação, a intuição, a criatividade... “as teorias podem ser vistas como livres de
criações da nossa mente, o resultado de uma intuição quase poética, da tentativa de
compreender intuitivamente as leis da natureza” (POPPER, 1982, p.218). Assim, Popper
mostrava-se favorável a metafísica, inclusive atribuía a ela a origem de várias teorias.
“Nossas conjecturas são orientadas por fé não científica, metafísica (embora biologicamente
explicável), em leis, em regularidades que podemos desvelar” (POPPER, 1975, p.306).
Desta forma, Popper afirmava que é mais correto logicamente concluir pela falsidade de uma
teoria do que pela sua verdade. Isto porque as teorias devem ser compreendidas como

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tentativas humanas de descrever e entender a realidade, uma vez que “as teorias são nossas
invenções, nossas idéias e não se impõe a nós (POPPER, 1982, p.144).
Popper também acreditava que “todo conhecimento é impregnado de teoria, inclusive nossas
observações” (POPPER, 1975, p.75), ou seja, não existem dados puros ou livres de teoria,
pois todas as observações são sempre realizadas à luz de pressupostos e teorias prévias que o
cientista traz consigo. Nesta perspectiva, o trabalho do cientista é elaborar teorias e colocá-las
à prova. "Ora, eu sustento que as teorias científicas nunca são inteiramente justificáveis ou
verificáveis, mas que, não obstante, são suscetíveis de se serem submetidas à prova”.
(POPPER, 1993 p.46) Desta forma, a objetividade dos enunciados científicos residia na
condição deles poderem ser submetidos a teste.
Por fim, na concepção epistemológica Popperiana, a Ciência pode ser compreendida como um
“jogo interminável”, no qual uma teoria é submetida à prova e tendo suas qualidades
comprovadas não será facilmente superada a não ser que outra teoria resista melhor às provas
ou ocorra o falseamento da teoria anterior.

O Pós-Positivismo: Kuhn, Lakatos e Feyerabend

A definição do que é o pensamento “pós-positivista” é, até o momento, tema de certo debate e


controvérsia. Não há uma definição clara sobre seus pressupostos, sendo esta corrente muitas
vezes associada à pensadores pós-modernos como Focault, Latour, Derrida entre outros. No
entanto, para fins deste artigo, foi utilizada a orientação proporcionada pelo dicionário de
filosofia de Abbagnano (1982) que coloca que a epistemologia positivista é representada pelo
conjunto de idéias desenvolvidas pelos pensadores Thomas Kuhn, Irme Lakatos e Paul
Feyerabend. Tendo em vista que esses autores defendem diferentes perspectivas quanto à
ciência e sua epistemologia, suas idéias serão apresentadas separadamente em forma de
síntese.

Thomas Kuhn distingue-se dos demais pensadores por desenvolver sua epistemologia em
contato estreito com a história das ciências. Para ele, a ciência é um empreendimento cujo
progresso se efetiva na articulação entre ciência normal e revoluções da ciência (SILVA,
1995, p.68). Dessa forma, o progresso da ciência não pode ser visto como uma linha reta, mas
como uma alternância entre linhas e saltos. As linhas representam o desenvolvimento da
ciência normal enquanto os saltos representam as revoluções científicas.
Durante o período da ciência normal, os cientistas contribuem para o progresso do
conhecimento por meio da exploração intensiva de um domínio de fenômenos. “Essa
demarcação do domínio a explorar e o estabelecimento de orientações acerca das modalidades
dessa exploração é tarefa de um paradigma, que governa cada fase da ciência normal”
(SILVA, 1995, p.69). Assim, o período de ciência normal é governado pelo paradigma e tem
o objetivo de montar “quebra-cabeças” ou desvendar enigmas dentro da estrutura fornecida
pelo paradigma, sem expectativas de novas descobertas. O paradigma é portanto, uma
estrutura mental ou um modelo que os cientistas seguem, num determinado período histórico,
e que é constituído por teorias, formas de procedimentos, métodos e certos princípios
metafísicos que oferecem as condições para a resolução de enigmas e “quebra-cabeças”
(KUHN, 2000).
No período de ciência normal, os cientistas avançam de forma acumulativa e contínua, à
medida que acrescentam melhorias às teorias já existentes, mas tais melhoramentos são
restritos, pois os cientistas somente enxergam aquilo que o paradigma permite detectar.
Assim, “um paradigma pode até mesmo afastar uma comunidade daqueles problemas sociais
relevantes que não são redutíveis à forma de um quebra-cabeça, pois são incompatíveis com o
paradigma” (KUHN, 2000 p.60). As anomalias surgem quando o paradigma não consegue

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resolver um problema ou dificuldade que surge no processo de investigação. A persistência de
certas anomalias pode provocar uma crise que pode culminar com uma mudança no
paradigma, ou seja, ocorre uma revolução científica. Esse processo não é linear, mas ocorre
na forma de saltos. É importante ter em vista que não se trata de passar de um período de
ignorância para outro de “saber”, mas de uma transição, “um processo em que escolha
depende em última instância do assentimento dado por um grupo científico após um processo
de argumentação persuasiva” (SILVA, 1995, p.75).
O período de revolução científica é, neste sentido, um período de mudança de paradigmas e o
que muda é a maneira de olhar o mundo. Os diferentes paradigmas irão considerar diferentes
tipos de questões como legítimas ou significativas. “O nascimento de uma nova teoria rompe
com a tradição da prática científica e introduz uma nova, o que se leva a cabo com regras
diferentes e dentro de um universo de razões também diferentes” (KUHN, 2000, p.142). Neste
contexto, a divergência na forma como os cientistas passam a enxergar o mundo levanta a
questão da incomensurabilidade entre os paradigmas, ou seja, os paradigmas não são passíveis
de serem comparados, uma vez que partem de premissas distintas.
Para Kuhn (2000) a verdade de cada teoria funciona apenas dentro de cada paradigma. Desta
forma, não há verdade absoluta. A verdade é intra-paradigmática. Em síntese, Kuhn propõe
que o progresso se faz mediante a revolução, sendo esta uma alternativa ao progresso
cumulativo, que caracterizou a explicação indutivista da ciência.

Irme Lakatos propõe a metodologia dos programas de investigação científica como proposta
para resolver problemas que Popper e Kuhn não puderam solucionar. Para tanto, parte do
princípio de que a ciência não é um conjunto de conjecturas ou refutações que são sujeitos a
tentativa e erro, mas que a ciência é formada por um conjunto de programas de pesquisa,
sendo ela mesma um grande programa (LAKATOS, 1978).
Os programas são definidos como “estruturas teóricas que proporcionam um quadro racional
de desenvolvimento de idéias fecundas, fazendo progredir o conhecimento por via da
competição multifacetada entre si” (SILVA, 1995, p.111). O programa de investigação
científica pode ser compreendido como uma série de estruturas de teorias em
desenvolvimento e de regras metodológicas que orientam a investigação, sendo tais
programas formados por um núcleo duro e por seu cinturão de proteção.
O núcleo duro é constituído por um enunciado universal ou um conjunto deles que expressam
a conjectura fundamental do programa sendo irrefutável (LAKATOS, 1978). Este núcleo duro
“é defendido da refutação por uma vasta cinta protetora formada por hipóteses auxiliares
(LAKATOS, 1978, p.16).
Isso quer dizer, que para Lakatos a “heurística negativa” do programa protege o núcleo duro
diante de problemas como refutação ou anomalia, que poderiam declará-lo como falso, uma
vez que a falsidade incidirá sobre alguma(s) hipótese (s) auxiliar(es) do cinturão protetor, e
desta forma, compete ao cinturão de proteção suportar a pressão dos testes aos quais o
programa é submetido por meio de ajustes que permitam anular qualquer tentativa de
falsificação (SILVA, 1995, p.112). Por outro lado, a heurística positiva orienta as
modificações que devem ser feitas no cinturão protetor quando é observada uma
incompatibilidade entre previsões teóricas e os fatos.
“A heurística positiva consiste num conjunto parcialmente articulado de sugestões ou palpites
sobre como mudar e desenvolver as variantes refutáveis do programa de pesquisa, e sobre
como modificar e sofisticar o cinto de proteção refutável” (LAKATOS, 1979; p. 165).
Assim, a “heurística positiva” impede que os cientistas se confundam, indicando caminhos
que poderão, lentamente, explicá-las e transformá-las em corroborações. Desta forma, sempre
é possível ajustar “cinturão protetor” para explicar qualquer anomalia.

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Mas como distinguir um programa científico de outro pseudocientífico ou degenerativo?
Contrariamente a Popper, a diferença não pode consistir no fato de uns terem sido refutados e
outros não. Num programa considerado progressivo, a teoria conduz a novas descobertas. Nos
programas degenerativos, as teorias são fabricadas meramente para enquadrar os fatos
conhecidos. Desta forma, o programa newtoniano pode ser considerado científico, já o
programa marxista é degenerativo, pois as profecias de Marx, nunca se realizaram, ou seja, a
teoria não acompanhou os fatos.
Um programa está “regredindo” ou “degenerando” se “seu crescimento teórico se atrasa com
relação ao seu crescimento empírico; isto é, se somente oferece explicações post-hoc de
descobertas casuais ou de fatos antecipados e descobertos por um programa rival”
(LAKATOS, 1979; p. 117).
O progresso do conhecimento depende da existência de programas concorrentes, sendo que o
abandono de um programa deve-se a existência de um programa melhor, e esse embate pode
levar décadas. Assim, para Lakatos, não há experimentos cruciais que sejam capazes de
acabar com um programa de pesquisa, uma vez que o cinturão protetor é capaz de absorver
fatos novos ou problemáticos e a falsificação das teorias tem, portanto, um caráter histórico.

Paul Feyerabend, em sua obra intitulada “Contra o Método” (1977), defende uma posição
em favor daquilo que ele chama de anarquismo epistemológico, e que se traduz na defesa de
um pluralismo metodológico.
O anarquismo defendido por Feyerabend tem o significado de oposição a um princípio único,
absoluto e imutável, o que não quer dizer que este pensador seja avesso a qualquer
procedimento metodológico, numa espécie de “vale-tudo”. A argumentação de Feyerabend
busca mostrar que a proposição de regras muito gerais por parte de filósofos da ciência, postas
como capazes de orientar a investigação científica, não oferecem sustentação nem para a
prática efetiva dos cientistas nem são desejáveis do ponto de vista metodológico. Feyerabend
(1977) insiste que as regras do método podem e é desejável que sejam desrespeitadas, sendo
isso absolutamente necessário para o desenvolvimento da ciência, uma vez que todas as
metodologias, mesmo as mais óbvias tem seus limites e algumas regras, ainda que
consagradas, são irracionais.
Feyerabend rechaça aquilo que chama de anarquismo ingênuo, que consiste em crer que todas
as regras são desprovidas de interesse e devem ser abandonadas, mas coloca que “qualquer
regra tem seus limites e pode sempre deparar-se-nos uma situação em que ela tenha de ser
violada” (SILVA, 1995, p.297). Para Feyerabend, embora as regras sejam falíveis, também
proporcionam sucessos e ajudam o cientista em sua investigação. O que Feyerabend defende
é que todas as regras têm seus limites, o que não significa que se deve proceder sem regras.
Sua intenção é mostrar que, na prática concreta da investigação, a validade e utilidade das
regras metodológicas estão elas próprias, postas à prova.

Defendo uma abordagem contextual, mas as regras contextuais não são para
substituir as regras absolutas, são para as complementar. Não pretendi eliminar
regras (...) mas pelo contrário, expandir o inventário de regras, bem como
sugerir um novo uso para todas elas. (FEYERABEND, 1977, p.164)

Na perspectiva de Feyerabend, tentar antecipar todas as regras e procedimentos que irão servir
a uma pratica concreta de investigação equivale a não fazer justiça à riqueza e complexidade
do processo (SILVA, 1995, p.298). Problemas novos geram novas abordagens e não há
método que possa antecipar a emergência de todas as novas modalidades de ataque a uma
situação nova.

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O suposto princípio anarquista de Feyerabend não é mais do que a expressão desta crítica à
tentativa de determinar regras que sejam aplicáveis a todos os casos da investigação concreta
e recusa a idéia de método universal e adequado a todas as circunstâncias.

Se queres padrões universais, se não podes viver sem princípios que se


apliquem independentemente da situação, da forma do mundo, das exigências
da investigação, das peculiaridades do temperamento, então eu dou-te tal
principio. Será vazio, inútil e ridículo – mas será um principio. Será o principio
do vale-tudo. (FEYERABEND, 1977, p.188)

Para Feyerabend (1977), o avanço da ciência ocorre em razão de substituir, quando


necessário, os modos de proceder considerados próprios do contexto da justificação por
modos de proceder considerados próprios do contexto da descoberta. Silva (1995, p.302)
coloca que a proposta de Feyerabend mostra-se especialmente relevante por “libertar a
reflexão acerca do método científico de uma forte associação método/algoritmo,
aproximando-a mais da associação método/estratégia.” O conceito de estratégia não fornece
uma indicação particularizada dos atos a cumprir, mas somente do espírito dentro do qual a
decisão deve ser tomada e do esquema global no qual as ações devem ocorrer. Feyerabend
(1977) contribui no sentido de apontar que o método científico deve privilegiar a ação
estratégica em detrimento da ação tática.
Em síntese, a filosofia da ciência de Feyerabend é captada em seu sentido mais profundo se
for encarada como um alargamento do falibilismo: não só as teorias científicas são sempre
suscetíveis de serem comprovadas como verdadeiras, mas também os métodos da ciência
mudam com o tempo e circunstâncias (SILVA, 1995).

Categorização e análise de conteúdo

A etapa da categorização e análise de conteúdo buscou mostrar como cada corrente positivista
posicionava-se em relação a um mesmo tema proposto. Assim, a primeira categoria de análise
teve como objetivo definir o conceito de uma teoria válida na perspectiva das diferentes
correntes positivistas. Os resultados foram sintetizados na forma de figura, de forma a
ressaltar os elementos de divergência, semelhança e oposição em cada corrente positivista
analisada. O mesmo procedimento foi aplicado às demais categorias propostas, e que foram
definidas no protocolo da pesquisa.

Conceito de teoria válida para cada corrente positivista


Originário Uma teoria é um corpo teórico que proporciona explicações para os fatos observados, sendo
comprovada pela observação e experiência.
Lógico As teorias são explicações e sistematizações a partir de uma linguagem lógica de cunho
axiomático.
Crítico Uma teoria científica é sempre uma conjectura ou hipótese, ou seja, algo que é passível de
refutação. Uma teoria é verdadeira até que seja falseada pela experiência empírica, mas este
falseamento não a descarta, apenas mostra que está mais longe da verdade em relação à outra
que não foi falseada.
Pós A teoria define-se a partir dos pressupostos adotados pelo paradigma no qual o conhecimento
se desenvolve, sendo portanto restrita ao paradigma (Kuhn).

Figura 1: Recorte das unidades de registro referentes à definição de teoria.


Fonte: Os autores (com base nos resultados da pesquisa)

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Nesta primeira categorização, observa-se que a definição acerca de uma teoria válida é
bastante semelhante para os positivismos originário e lógico, sendo esta reduzida a uma
explicação para os fenômenos observados, ainda que o positivismo lógico introduza a
importância da lógica na linguagem para a formulação da teoria. Já a perspectiva crítica
introduz uma nova dinâmica ao papel da teoria no processo de construção do conhecimento,
sendo esta identificada como uma conjectura passível de refutação. No pós-positivismo a
teoria deixa de ter seu papel pré-definido, sendo este dependente do paradigma no qual se
insere.

O que define um conhecimento científico em cada corrente positivista?

Originário É aquele que pode ser empiricamente testado pela observação ou experiência e que conduz a
leis gerais e invariantes sobre os fenômenos naturais, com o objetivo de permitir a previsão dos
fenômenos.
Lógico Um conhecimento válido é atestado pelo Princípio da Verificação. Somente é verdadeiro o
conhecimento passível de ser verificado. Mesmo as proposições epistemológicas são
reconhecidas como válidas por meio da verificação lógica de seus enunciados.
Crítico Um conhecimento é científico quando pode ser refutado ou enquanto não refutado. Todo
conhecimento dogmático não pode ser científico.
Pós Quando oferece uma explicação coerente com o paradigma metateórico, sendo válido dentro
do paradigma. É incomensurável com outro paradigma. (Kuhn)

Figura 2: Recorte das unidades de registro referentes à definição de conhecimento científico.


Fonte: Os autores (com base nos resultados da pesquisa)

A segunda categoria de análise mostrou que a definição de um conhecimento científico está


fortemente ligada ao empirismo, quando se trata da corrente originária e lógica. Tais correntes
esperavam que o empirismo as conduzisse ao encontro de um conhecimento “seguro”. Este
pensamento não é partilhado pelo positivismo crítico, que reconhece a impossibilidade da
universalização do conhecimento com base na experimentação, sendo que a esta cabe apenas
a tarefa de refutar um conhecimento que se pretenda válido. Já o pós-positivismo desvincula
qualquer relação entre empirismo e conhecimento científico, a menos que tal relação seja
válida dentro do paradigma no qual se atua.

Qual o lógica do método?

Originário Indução, dedução e construção. “Induzir para deduzir a fim de construir”.


Lógico Indução por repetição ou eliminação. Dedução apenas para juízos analíticos a priori. Indução
para juízos sintéticos a posteriori.
Crítico Hipotético-dedutivo.
Pós A lógica do método não pode ser pré-definida pois depende da complexidade do fenômeno em
investigação. O método se constitui na investigação (Feyerabend). A lógica do método é
intraparadigmática, sendo definida e restrita pelo paradigma em que se atua (Kuhn)

Figura 3: Recorte das unidades de registro referentes à definição de lógica do método.


Fonte: Os autores (com base nos resultados da pesquisa)

Ao longo do processo de evolução do paradigma positivista, observa-se o abandono da lógica


da indução, passando pela forma hipotético-dedutiva, até culminar com a idéia de que o
método bem como sua lógica não podem ser definidos a priori, mas estão sujeitos as
complexidades e contexto da descoberta ou ao paradigma que orienta a investigação.

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Quais os critérios de demarcação entre ciência e não ciência?

Originário Somente são científicas as proposições passíveis de serem observadas ou experimentadas. Esse
pressuposto exclui a possibilidade da metafísica ser compreendida como ciência.
Lógico Princípio da verificação empírica com base no método indutivo é característica da ciência,
enquanto que os métodos especulativos caracterizam as não-ciências.
Crítico Falseabilidade como critério de demarcação. Somente são científicas as proposições que
podem ser falsificadas. Todo conhecimento que não pode ser falsificado, não pode ser
considerado científico.
Pós Não é científica toda afirmação que se pretenda universal e absoluta. A ciência não estabelece
dogmas, mas reconhece a conexão entre teoria e metateoria.

Figura 4: Recorte das unidades de registro referentes à demarcação entre ciência e não ciência.
Fonte: Os autores (com base nos resultados da pesquisa)

A demarcação das fronteiras entre ciência e não ciência, na perspectiva do positivismo


originário e lógico, é definida por meio da verificação empírica. No positivismo crítico, o
empirismo ainda assume este papel, mas numa outra perspectiva, sendo considerada como
“ciência” todo conhecimento capaz de ser falsificado por meio do teste empírico. Esta noção
é abandonada no pós-positivismo, que não reconhece nem o dogma nem o empirismo.

Qual o posicionamento de cada corrente positivista em relação à metafísica?


Originário Considerada uma filosofia inicial, é transitória e serve de passagem para alcance do estágio
positivista. Não pode ser científica por não ser passível de verificação empírica.
Lógico Completa repulsa. A verdadeira ciência não se apóia em pressupostos metafísicos.
Crítico É considerada necessária ao desenvolvimento ciência, sendo também uma possível origem para
a teoria.
Pós Reconhece a incontornabilidade da metafísica na ciência. A ciência não pode dissociar-se da
metafísica.
Figura 5: Recorte das unidades de registro referentes ao posicionamento em relação à metafísica.
Fonte: Os autores (com base nos resultados da pesquisa)

A relação entre o positivismo e a metafísica sofre profundas mudanças ao longo da evolução


do paradigma, partindo de uma posição de completa repulsa ao reconhecimento de sua
incontornabilidade na ciência. A repulsa à metafísica foi, inclusive, uma das motivações para
a formação do Círculo de Viena e pode ser considerada como um pressuposto que opõe
fortemente o positivismo originário e lógico ao positivismo crítico e pós-positivismo.

Como o conhecimento pode evoluir na perspectiva de cada corrente positivista?


Originário Quando a ciência atinge seu estado positivo, novas observações levam a novas descobertas, que
permitem seu progresso contínuo por acumulação.
Lógico Por acumulação e descobrimento de leis gerais a partir de fenômenos particulares.
Crítico Pela corroboração e falseamento de teorias, que são conjecturas e traduzem um conhecimento
provisório. A superação de uma teoria pela outra promove a evolução do conhecimento.
Pós Para Kuhn, o progresso se efetiva na articulação entre ciência normal e revoluções da ciência,
que ocorre por meio de evoluções e saltos transparadigmáticos. Para Lakatos, o progresso do
conhecimento depende da substituição e concorrência entre programas de pesquisa científica.

Figura 6: Recorte das unidades de registro referentes à forma de acumulação do conhecimento.


Fonte: Os autores (com base nos resultados da pesquisa)

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O processo de evolução do conhecimento é outro pressuposto que sofre importantes
mudanças no paradigma positivista. Primeiramente, a evolução é vista como ocorrendo a
partir de sua acumulação, sendo esta visão substituída pela idéia de corroboração e
falseamento defendida no positivismo crítico, até ganhar diferentes contornos no pós-
positivismo.

Considerações Finais

Este artigo permitiu observar que o paradigma positivista valeu-se da crítica como
instrumento para seu aperfeiçoamento contínuo. Assim, o positivismo lógico surgiu a partir da
crítica ao positivismo originário, mais especificamente em relação ao posicionamento deste
diante da metafísica, que era compreendida como o conhecimento em sua juventude. O
positivismo lógico alcançou o mérito de introduzir inovações pelo uso da lógica na
linguagem, algo até então inédito, aperfeiçoando o paradigma. Já o positivismo crítico de
Popper surgiu a partir da crítica ao positivismo lógico, buscando mostrar a incoerência do uso
do método indutivista. É interessante notar que ao propor o método hipotético-dedutivo,
Popper também estabeleceu critérios de demarcação entre ciência e não ciência. O pós-
positivismo, por sua vez, surgiu a partir da crítica ao positivismo crítico de Popper. Lakatos
buscou aperfeiçoar as idéias de Popper enquanto Kuhn buscou mostrar suas incoerências.
Soma-se a isso a contribuição de Feyerabend e seu anarquismo epistêmico que pregava a não
definição apriorística do método.
Assim, observa-se que este paradigma obteve o mérito de reinventar-se a partir das críticas
recebidas por cada corrente. Esta capacidade de reinvenção pode ser uma das explicações
possíveis para a hegemonia deste paradigma no desenvolvimento da ciência até os dias de
hoje.
A capacidade de reinventar-se também pode trazer uma conseqüência negativa, que é a perda
da identidade ou da essencialidade do paradigma. No entanto, se há algo que congrega todas
as correntes positivistas aqui demonstradas é a existência de um ethos comum: a
racionalidade. A racionalidade está presente em qualquer uma das correntes positivistas
examinadas. É fato que nas correntes originária e lógica, esta racionalidade está centralizada,
mas tal racionalidade vai gradativamente cedendo espaço, assumindo uma posição
descentralizada à medida que o paradigma avança para o positivismo crítico e pós-
positivismo. No entanto, embora descentralizada, a racionalidade está sempre presente,
mesmo no pós-positivismo, por vezes acusado de ser irracional. A tese da irracionalidade no
pós-positivismo não pode ser tomada como verdadeira, pois tanto Kuhn quanto Lakatos
defendiam a presença da racionalidade, seja na lógica do paradigma ou no programa de
pesquisa, respectivamente. Mesmo Feyerabend, acusado de ser irracional em razão de
defender uma anarquia epistêmica, foi mal interpretado, uma vez que este defendia que o
método devia ser definido em consonância com o problema investigado, respeitando suas
complexidades e natureza, o que demonstra o caráter racional da escolha do método.
Também é notório observar que o desenvolvimento do paradigma positivista implicou no
surgimento de correntes de pensamento que adotavam pressupostos distintos e até mesmo
opostos entre si, o que traz importantes implicações para a pesquisa científica pois uma vez
que se desenvolve uma pesquisa sob o orientação do paradigma positivista, é importante ter
em vista qual a corrente de pensamento que orienta a condução da pesquisa. A
heterogeneidade do paradigma está, portanto, expressa nas diferenças entre os pressupostos
básicos de cada corrente analisada. Um exemplo desta heterogeneidade é a perspectiva
positivista em relação à metafísica que muda radicalmente ao longo da evolução do
paradigma. O inverso ocorre em relação ao empirismo, que ocupava uma função central nos
positivismos originário e lógico, e passa a perder gradativamente seu espaço no positivismo

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crítico, acentuando-se essa perda no pós-positivismo. É possível afirmar que os pressupostos
acerca da teoria, definição de conhecimento científico, método e acumulação de
conhecimento também sofrem transformações ao longo da evolução do paradigma, conforme
demonstrado nas figuras propostas, que ressaltam a heterogeneidade do paradigma positivista
e seus aspectos distintivos.
Assim, o desenvolvimento do paradigma positivista ao longo do tempo caminhou no sentido
de abandonar pressupostos pré-definidores para os papéis desempenhados pela teoria e pelo
método, que tinham como objetivo o alcance de uma verdade universal e incontestável. É
notório observar que à medida que o paradigma positivista evoluía, favorecia-se uma maior
“liberdade” para o desenvolvimento da ciência, que foi desistindo de buscar leis invariantes
de causa e efeito (positivismos originário e lógico), passando a ocupar-se em conhecer e
descobrir os fenômenos, tendo em vista o contexto e as complexidades envolvidas no
processo de investigação científica, incluindo o reconhecimento da existência de aspectos
subjetivos do pesquisador e sua interferência nos resultados da pesquisa. Nesta perspectiva,
observa-se que o desenvolvimento do pensamento positivista tende a caminhar no sentido de,
em última instância, considerar os aspectos cognitivos da mente humana no processo
investigativo. Este movimento deverá forçar uma nova reinvenção da tradição positivista que
deverá culminar na compreensão da epistemologia como uma ciência natural, ocupada em
desvendar os mecanismos de funcionamento da mente humana. Quine (1969) foi o primeiro
filósofo a defender esse movimento da epistemologia positiva em direção a uma
epistemologia naturalizada. Assim, se as conclusões de Quine (1969) estiverem corretas, os
próximos passos do positivismo tenderão a caminhar no sentido de favorecer a compreensão
da epistemologia como uma ciência natural.

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