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Ministério da Educação

UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ


Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Disciplina de
FUNDAMENTOS DA ÉTICA

Professora Maristela Rosso Walker

Santa Helena/PR

2015-2
Ministério da Educação
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula Data Tema / Atividade Tema / Atividade


01 12/08/15 O que é Ética Resenha

02 19/08/15 A essência das éticas antiga e moderna Resumo


03 26/08/15 A essência da ética contemporânea Texto Argumentativo
04 02/09/15 A dignidade humana Resenha

05 09/09/15 Divisões da ética Resenha

06 16/09/15 Ética e racionalidade Resenha

07 23/09/15 A questão da finalidade do agir Texto Argumentativo

08 30/09/15 Um dos temas anteriores 1ª Avaliação

09 07/10/15 Ética e moral Texto Argumentativo

10 14/10/15 Juízos de valor e de fato Resumo


11 21/10/15 A consciência ética Resenha

12 28/10/15 A educação ética dos indivíduos Resenha

13 04/11/15 Imperativo categórico Resumo


14 11/11/15 A ética do dever e autonomia (Kant) Texto Argumentativo

15 18/11/15 A liberdade e a responsabilidade em Sartre Resumo


16 25/11/15 A ética da responsabilidade (Weber) Resenha
17 02/12/15 Um dos temas anteriores 2ª Avaliação

18 09/12/15 A questão da bioética Resenha


Ministério da Educação
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 1 - Fundamentos da Ética


Conceito de Ética
O que é ética?
Para Aristóteles o homem deveria ser correto virtuoso e ético
A palavra ética é de srcem grega derivada de ethos, que diz respeito ao costume, aos hábitos
dos homens. Teria sido traduzida em latim por mos ou mores (no plural), sendo essa a origem
da palavra moral.
A palavra "ética" vem do grego ἠθικός (ethikos), e significa aquilo que pertence ao ἦθος1
(ethos), que significava "bom costume", "costume superior", ou "portador de caráter".
Uma das possíveis definições de ética seria a de que é uma parte da filosofia (e também
pertinente às ciências sociais) que lida com a compreensão das noções e dos princípios que
sustentam as bases da moralidade social e da vida individual. Em outras palavras, trata-se de
uma reflexão sobre o valor das ações sociais consideradas tanto no âmbito coletivo como no
âmbito individual.
Ética é o nome dado ao ramo da filosofia dedicado aos assuntos morais. A palavra ética é
derivada do grego, e significa aquilo que pertence ao caráter.
Diferencia-se da moral, pois, enquanto esta se fundamenta na obediência a costumes e hábitos
recebidos, a ética, ao contrário, busca fundamentar as ações morais exclusivamente pela
razão.
Na latim
do filosofia
mos,clássica,
mores),amas
éticabuscava
não se aresumia à moral (entendida
fundamentação teórica paracomo "costume",
encontrar ou "hábito",
o melhor modo de
viver e conviver, isto é, a busca do melhor estilo de vida, tanto na vida privada quanto em
público. A ética incluía a maioria dos campos de conhecimento que não eram abrangidos na
física, metafísica, estética, na lógica, na dialética e nem na retórica. Assim, a ética abrangia os
campos que atualmente são denominados antropologia, psicologia, sociologia, economia,
pedagogia, às vezes política, e até mesmo educação física e dietética, em suma, campos direta
ou indiretamente ligados ao que influi na maneira de viver ou estilo de vida. Um exemplo
desta visão clássica da ética pode ser encontrado na obra Ética, de Spinoza.
Porém, com a crescente profissionalização e especialização do conhecimento que se seguiu à
revolução industrial, a maioria dos campos que eram objeto de estudo da filosofia,
particularmente da ética, foram estabelecidos como disciplinas científicas independentes.
Assim, é comum que atualmente a ética seja definida como "a área da filosofia que se ocupa
do estudo das normas morais nas sociedades humanas" e busca explicar e justificar os
costumes de um determinado agrupamento humano, bem como fornecer subsídios para a
solução de seus dilemas mais comuns. Neste sentido, ética pode ser definida como a ciência
que estuda a conduta humana e a moral é a qualidade desta conduta, quando julga-se do ponto
de vista do Bem e do Mal.
A ética também não deve ser confundida com a lei, embora com certa frequência a lei tenha
como base princípios éticos. Ao contrário do que ocorre com a lei, nenhum indivíduo pode ser
compelido, pelo Estado ou por outros indivíduos, a cumprir as normas éticas, nem sofrer
qualquer sanção pela desobediência a estas; por outro lado, a lei pode ser omissa quanto a
questões abrangidas no escopo da ética.
O exercício de um pensamento crítico e reflexivo quanto aos valores e costumes vigentes tem
início, na cultura ocidental, na Antiguidade Clássica com os primeiros grandes filósofos, a
exemplo de Sócrates, Platão e Aristóteles. Questionadores que eram, propunham uma espécie
de “estudo” sobre o que de fato poderia ser compreendido como valores universais a todos os
homens, buscando dessa forma ser correto, virtuoso, ético. O pano de fundo ou o contexto
histórico nos qual estavam inseridos tais filósofos era o de uma Grécia voltada para a
preocupação com a pólis, com a política.
A ética seria uma reflexão acerca da influência que o código moral estabelecido exerce sobre
a nossa subjetividade, e acerca de como lidamos com essas prescrições de conduta, se
aceitamos de forma integral ou não esses valores normativos e, dessa forma, até que ponto
nós damos o efetivo valor a tais valores.
Segundo alguns filósofos, nossas vontades e nossos desejos poderiam ser vistos como um
barco à deriva, o qual flutuaria perdido no mar, o que sugere um caráter de inconstância. Essa
mesma inconstância tornaria a vida social impossível se nós não tivéssemos alguns valores
que permitissem nossa vida em comum, pois teríamos um verdadeiro caos. Logo, é
necessário educar nossa vontade, recebendo uma educação (formação) racional, para que
dessa forma possamos escolher de forma acertada entre o justo e o injusto, entre o certo e o
errado.
Assim, a priori, podemos dizer que a ética se dá pela educação da vontade. Segundo Marilena
Chauí em seu livro Convite à Filosofia (2008), a filosofia moral ou a disciplina denominada
ética nasce quando se passa a indagar o que são, de onde vêm e o que valem os costumes. Isto
é, nasce quando também se busca compreender o caráter de cada pessoa, isto é, o senso moral
e consciência moral individuais. Segundo Chauí, podemos dizer que o Senso Moral é a
maneira como avaliamos nossa situação e a dos outros segundo ideias como a de justiça,
injustiça, bom e mau. Trata-se dos sentimentos morais. Já com relação à Consciência Moral,
Chauí afirma que esta, por sua vez, não se trata apenas dos sentimentos morais, mas se refere
também a avaliações de conduta que nos levam a tomar decisões por nós mesmos, a agir em
conformidade com elas e a responder por elas perante os outros. Isso significa ser responsável
pelas consequências de nossos atos.
Assim, tanto o senso moral como a consciência moral vão ajudar no processo de educação de
nossa vontade. O senso moral e a consciência moral tem como pressuposto fundamental a
ideia de um agente moral, o qual é assumido por cada um de nós. Enquanto agente moral, o
indivíduo colocará em prática seu senso e consciência, pois são importantes para a vida em
grupo entre vários outros agentes morais.
Logo, o agente moral deve colocar em prática sua autonomia enquanto indivíduo, pois aquele
que possui uma postura de passividade apenas aceita influências de qualquer natureza. Assim,
consciência e responsabilidade são condições indispensáveis à vida ética ou moralmente
correta.
Num sentido menos filosófico e mais prático podemos compreender um pouco melhor esse
conceito examinando certas condutas do nosso dia a dia, quando nos referimos por exemplo,
ao comportamento de alguns profissionais tais como um médico, jornalista, advogado,
empresário, um político e até mesmo um professor. Para estes casos, é bastante comum ouvir
expressões como: ética médica, ética jornalística, ética empresarial e ética pública.
A ética pode ser confundida com lei, embora que, com certa frequência a lei tenha como base
princípios éticos. Porém, diferente da lei, nenhum indivíduo pode ser compelido, pelo Estado
ou por outrosa indivíduos
desobediência estas; mas aaleicumprir
pode serasomissa
normas éticas,
quanto nem sofrer
a questões qualquer
abrangidas pelasanção
ética. pela
A ética abrange uma vasta área, podendo ser aplicada à vertentente profissional. Existem
códigos de ética profissional, que indicam como um indivíduo deve se comportar no âmbito
da sua profissão. A ética e a cidadania são dois dos conceitos que constituem a base de uma
sociedade próspera.
Definição e objeto de estudo
 O estudo da ética dentro da filosofia, pode-se dividir em sub-ramos, após o advento da
filosofia analítica no séc XX, em contraste com a filosofia continental ou com a tradição
filosófica. Estas subdivisões são:
 Metaética, sobre a teoria da significação e da referencia dos termos e proposições morais e
como seus valores de verdade podem ser determinados
 Ética normativa, sobre os meios práticos de se determinar as ações morais
 Ética aplicada, sobre como a moral é aplicada em situações específicas
 Ética descritiva, também conhecido como ética comparativa, é o estudo das visões,
descrições e crenças que se tem acerca da moral
 Ética Moral, trata-se de uma reflexão sobre o valor das ações sociais consideradas tanto no
âmbito coletivo como no âmbito individual.
Termo
Em seu sentido mais abrangente, o termo "ética" implicaria um exame dos hábitos da espécie
humana e do seu caráter em geral, e envolveria até mesmo uma descrição ou história dos
hábitos humanos em sociedades específicas e em diferentes épocas. Um campo de estudos
assim seria obviamente muito vasto para poder ser investigado por qualquer ciência ou
filosofia particular. Além disso, porções desse campo já são ocupadas pela história, pela
antropologia e por algumas ciências naturais particulares (como, por exemplo, a fisiologia, a
anatomia e a biologia),se considerarmos que o pensamento e a realização artística são hábitos
humanos normais e elementos de seu caráter. No entanto, a ética, propriamente dita, restringe-
se ao campo particular do caráter e da conduta humana à medida que esses estão relacionados
a certos princípios – comumente chamados de "princípios morais". As pessoas geralmente
caracterizam a própria conduta e a de outras pessoas empregando adjetivos como "bom",
"mau", "certo" e "errado". A ética investiga justamente o significado e escopo desses
adjetivos tanto em relação à conduta humana como em seu sentido fundamental e absoluto.
Ética sofistica
Embora Sócrates tenha sido o primeiro a chegar a uma concepção adequada dos problemas da
conduta, a ideia geral não surgiu com ele. A reação natural contra o dogmatismo metafísico e
ético dos antigos pensadores havia alcançado o seu clímax com os sofistas. Górgias e
Protágoras
abandonar são apenas dois
a teorização representantes
dogmática do que, na
e estritamente verdade, foi
ontológica e a uma tendência
se refugiar nasuniversal
questõesa
práticas – especialmente, como era natural na cidade-estado grega, nas relações cívicas do
cidadão.
A educação oferecida pelos sofistas não tinha por objetivo nenhuma teoria geral da vida, mas
propunha-se ensinar a arte de lidar com os assuntos mundanos e administrar negócios
públicos. Em seu encômio às virtudes do cidadão, apontaram o caráter prudencial da justiça
como meio de obter prazer e evitar a dor. Na concepção grega de sociedade, a vida do cidadão
livre consistia principalmente em suas funções públicas, e, portanto, as declarações
pseudoéticas dos sofistas satisfaziam as expectativas da época. Não se considerava a ἀρετἠ
(virtude ou excelência) como uma qualidade única, dotada de valor intrínseco, mas como
virtude do cidadão, assim como tocar bem a flauta era a virtude do tocador de flauta. Percebe-
se aqui, assim como em outras atividades da época, a determinação de adquirir conhecimento
técnico e de aplicá-lo diretamente a assuntos práticos; assim como a música estava sendo
enriquecida por novos conhecimentos técnicos, a arquitetura por teorias modernas de
planejamento e réguas T (ver Hipódamo), o comando de soldados pelas novas técnicas da
"tática" e dos "hoplitas", do mesmo modo a cidadania deve ser analisada como inovação,
sistematizada e adaptada conforme exigências modernas. Os sofistas estudaram esses temas
superficialmente, é certo, mas abordaram-nos de maneira abrangente, e não é de se estranhar
que tenham lançado mão dos métodos que se mostraram bem-sucedidos na retórica e tenham-
nos aplicado à "ciência e arte" das virtudes cívicas.
O Protágoras de Platão alega, não sem razão, que ao ensinar a virtude eles simplesmente
faziam sistematicamente o que todos os outros faziam de modo caótico. Mas no verdadeiro
sentido da palavra, os sofistas não dispunham de um sistema ético, nem fizeram contribuições
substanciais, salvo por um contraste com a especulação ética. Simplesmente analisaram as
fórmulas convencionais, de maneira bem semelhante a de certos moralistas (assim chamados)
"científicos".
A essa arena de senso-comum e vagueza, Sócrates trouxe um novo espírito crítico, e mostrou
que esses conferencistas populares, a despeito de sua fértil eloquência, não podiam defender
suas suposições fundamentais nem sequer oferecerdefinições racionais do que alegavam
explicar. Não só eram assim "ignorantes" como também perenemente inconsistentes ao lidar
com casos particulares. Desse modo, com o auxílio de sua famosa "dialética", Sócrates
primeiramente chegou ao resultado negativo de que os pretensos mestres do povo eram tão
ignorantes quanto ele mesmo afirmava ser, e, em certa medida, justificou o encômio de
Aristóteles de ter prestado o serviço de "introduzir a indução e as definições" na filosofia. No
entanto, essa descrição de sua obra é muito técnica e muito positiva, se avaliada com base nos
primeiros diálogos de Platão, em que o verdadeiro Sócrates encontra-se menos alterado.
Sócrates sustentava que a sabedoria preeminente que o oráculo de Delfos lhe atribuiu
consistia numa consciência única da ignorância. No entanto, é igualmente claro, com base em
Platão, que houve um elemento positivo muito importante no ensinamento de Sócrates, que
justifica afirmar, junto com Alexander Bain, que "o primeiro nome importante na filosofia
ética antiga é Sócrates".
A união dos elementos positivo e negativo de sua obra tem causado alguma perplexidade
entre os historiadores, e a consistência do filósofo depende do reconhecimento de algumas
doutrinas a ele atribuídas por Xenofonte como meras tentativas provisórias. Ainda assim, as
posições de Sócrates mais importantes na história do pensamento ético são fáceis de
harmonizar com sua convicção de ignorância e tornam ainda mais fácil compreender sua
infatigável inquirição da opinião comum. Enquanto mostrava claramente a dificuldade de
adquirir conhecimento, Sócrates estava convencido de que somente o conhecimento poderia
ser a fonte de um sistema coerente da virtude, assim como o erro estava na srcem do mal.
Assim, Sócrates, pela primeira vez na história do pensamento, propõe uma lei científica
positiva de conduta: a virtude é conhecimento. Esse princípio envolvia o paradoxo de que a
pessoa que sabe o que é o bem não pratica o mal. Mas esse é um paradoxo derivado de seus
truísmos irretorquíveis: "Toda a pessoa deseja o seu próprio bem e obtê-lo-ia se pudesse" e
"Ninguém negaria que a justiça e a virtude em geral são bens; e entre todos, os melhores".
Todas as virtudes, portanto, estão sintetizadas no conhecimento do bem. Mas esse bem, para
Sócrates, não é um dever que se opõe ao interesse próprio. A força do paradoxo depende de
uma fusão do dever e do interesse numa única noção de bem, uma fusão que era prevalecente
no modo de pensar da época. Isso é o que forma o núcleo do pensamento positivo de Sócrates,
segundo Xenofonte. Ele não podia oferecer nenhuma abordagem satisfatória do Bem em
abstrato, e esquivava-se de qualquer questão sobre esse ponto dizendo que não conhecia
"nenhum bem que não fosse bom para alguma coisa em particular", mas esse bem particular é
consistente consigo mesmo. Quanto a si, estimava acima de todas as coisas a virtude da
sabedoria; e, no intuito de alcançá-la, enfrentava a penúria mais severa, sustentando que uma
vida assim seria mais rica em satisfação que uma vida de luxo. Essa visão multidimensional é
ilustrada pela curiosa mistura de sentimentos nobres e meramente utilitários em sua
abordagem sobre a amizade: um amigo que não nos traga benefícios não vale nada; no
entanto, o maior benefício
As características que um amigo
historicamente pode nos trazer
importantes de ésua
o aperfeiçoamento moral.
filosofia moral, tomando-se
conjuntamente seus ensinamentos e o seu caráter pessoal, podem ser sintetizados da seguinte
maneira: (1) uma busca apaixonada por um conhecimento que não está disponível em lugar
algum, mas que, se encontrado, aperfeiçoará a conduta humana; (2) simultaneamente, uma
exigência de que os homens deveriam agir na medida do possível conforme uma teoria
coerente; (3) uma adesão provisória à concepção recebida sobre o que é bom, com toda a sua
complexidade e incoerência, e uma prontidão permanente em sustentar a harmonia de seus
diversos elementos, e em demonstrar a superioridade da virtude mediante um apelo ao padrão
do interesse próprio; (4) firmeza pessoal em adotar essas convicções práticas. É só quando se
tem em vista todos esses pontos que se pode compreender como, das conversações socráticas,
brotaram as diferentes correntes do pensamento ético grego.
A ética tem sido aplicada na economia, política e ciência política, conduzindo a muitos
distintos e não-relacionados campos de ética aplicada, incluindo: ética nos negócios e
Marxismo.
Também tem sido aplicada à estrutura da família, à sexualidade, e como a sociedade vê o
papel dos indivíduos, conduzindo a campos da ética muito distintos e não-relacionados, como
o feminismo e a guerra, por exemplo.
A visão descritiva da ética é moderna e, de muitas maneiras, mais empírica sob a filosofia
Grega clássica, especialmente Aristóteles.
Inicialmente, é necessário definir uma sentença ética, também conhecido como uma
afirmativa normativa. Trata-se de um juízo positivo ou negativo (em termos morais) de
alguma coisa. Sentenças éticas são frases que usam palavras como bom, mau, certo, errado,
moral, imoral, etc.
Aqui vão alguns exemplos: “Salomão é uma boa pessoa” / “As pessoas não devem
roubar”/“A honestidade é uma virtude”. Em contraste, uma frase não-ética precisa ser uma
sentença que não serve para uma avaliação moral. Alguns exemplos são:
“Salomão é uma pessoa alta” /“As pessoas se deslocam nas ruas”/"João é o chefe".
Ética nas ciências - A principal lei ética na robótica é: Um robô jamais deve ser projetado
para machucar pessoas ou lhes fazer mal.
Na biologia: Um assunto que é bastante polémico é a clonagem: uma parte dos ativistas
considera que, pela ética e bom senso, a clonagem só deve ser usada, com seu devido
controle, em animais e plantas somente para estudos biológicos - nunca para clonar seres
humanos.
Na Programação: Nunca criar programas (softwares) para prejudicar as pessoas, como para
roubar ou espionar.

REFERÊNCIAS
BARTUSCHA, Wolfgang. Espinosa. Artmed, 2010.
BROCHARD, Victor. Os Céticos Gregos. Odysseus Editora, 2009.
DELEUZE, Gilles. Espinosa: Filosofia Prática. Editora Escuta. 2008.

Elaboração de RESENHA abordando o que estudamos na aula de hoje.


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Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 2 - Fundamentos da Ética


A essência das éticas antiga e moderna
Qual o conceito de ética na Grécia ant iga e a ética da interioridade
na sociedade medieval?
Partindo de ouma
humanidade, visãodefilosófica,
conceito ética está assim como
associado os grandes
ao estudo pensadores
fundamentado dos na história
valores da
morais
que orientam o comportamento humano em uma sociedade.
Contudo, a Ética no período grego, era direcionada a um foco diferente do da sociedade
medieval, moderna e pós-moderna. No período grego a Ethos, variava conforme seus
pensadores, Sócrates, por exemplo racionaliza a Ética e preconiza uma concepção do bem e
do mal e da virtude, Já com Platão, a Ética ganha fôlego na política a partir de uma concepção
metafísica e da sua doutrina da alma, por sua vez Aristóteles fala do homem político, social,
condenado a viver na pólis.
Com essas linhas de pensamento que moldaram por alguns séculos a ética da humanidade,
bem como a de muitos povos e civilizações futuras, percebesse que a ética na Grécia antiga se
fixava muito mais no caráter público individual de cada ser, bem como sua consciência moral
individual que era anexada de maneira livre e racional ao seu meio de viver naquele período.
Porem apos a decadência do universo grego e suas filosofias éticas, a reflexão da ética
filosófica toma novas direções: de uma moral da pólis para uma moral do universo. Isso
devido a grande influência da igreja e suas normas de convivência social que eram reguladas
pelo cristianismo.
Neste período a ética passa da dimensão de ação, no comportamento, no agir social para a
dimensão das boas intenções com o desejo de alcançar o bem para atender a vontade divina.
Mesmo que nesse período a filosofia estivesse a favor da teologia como se percebe com os
trabalhos de Agostinho e Tomás de Aquino as visões socráticas, platônicas e aristotélicas
eram usadas exclusivamente para cristianizar e não mais ser inspiradora da liberdade e
racionalidade individual.
A ética de Agostinho foi desenvolvida por uma ideia teológica nas categorias de ordem e de
fim, ordem essa atribuída com um significado ontológico e ético que se articula à ideia de fim
ser o condutor da plena realização. Já com Tomás de Aquino, que também recebeu influências
de Agostinho procurou desenvolver uma ideia de ética, pela qual se dá a perfeição do ser em
sua ordem, o que ele prescreve através de três marcos conceituais: a estrutura do agir ético, a
estrutura da vida ética e a realização histórica da vida ética.
Desse modo com estas duas influências filosóficas percebe-se a inegável influência deste tipo
de ética por toda a sociedade medieval e ainda nas sociedades modernas e pós-modernas,
mesmo que de modo mais sútil. Neste período da história medieval embebedada pelas visões
agostinianas e aquinianas a ideia de culpa pessoal pelo não cumprimento da ética com Deus,
criou um juiz no interior e na consciência de cada medievo o que fez com que se iniciasse um
movimento de rompimento do vinculo entre a ética e a política.
Considerações sobre a Ética Grega
Moral ou Ética - Há alguma diferença entre os significados de moral e de ética? Esta é a
primeira questão que surge quando nos aventuramos por estes caminhos da filosofia. O termo
moral deriva do latim mos, significa "costume", ao mesmo modo de ética, que se srcina do
grego ethos. Desta maneira podemos dizer que moral e ética significam a mesma coisa, ou
seja, são equivalentes. Isto é verdadeiro pelo menos quando nos referimos à filosofia antiga.
Contudo, atualmente se fazem algumas distinções entre moral e ética. Mas, pelo fato de nossa
pesquisa estar restrita à filosofia antiga podemos, sem maiores problemas, usar tanto o termo
ética quanto moral que isto não deve causar nenhum mal entendido. Particularmente, prefiro a
palavra ética por ter a sua srcem na língua grega (que é a língua utilizada por Platão). Porém,
estamos conscientes de que muitos autores hispânicos e franceses optam pelo termo moral.
Contudo, o problema não é tão simples, pois a palavra ética tanto pode vir do grego    
quanto de     . O primeiro termo realmente significa costume, hábito ou uso, como é
utilizado por Platão no Fédon, e o segundo, tem outro significado, quer dizer: disposição de
caráter; temperamento; disposição da alma; maneira de ser, pensar ou sentir, como, por
exemplo, é utilizado pelo próprio Platão no Fedro. Então, se queremos referir-nos à ética
nessa segunda acepção se faz conveniente e mais oportuno utilizar a palavra "ética" e não
"moral"; já que a primeira abrange os dois sentidos, enquanto que moral (do latim mos) só faz
referência ao sentido de costume.
Os primeiros passos da Ética - A ética grega surge com a especulação dos filósofos sobre os
costumes do seu tempo e das suas cidades, isto é, além das práticas habituais de conduta,
também as crenças de caráter religioso aí implicadas. Já nos pré-socráticos, encontramos
algumas reflexões com o intuito de descobrir as razões pelas quais os homens devem se
comportar de determinada maneira. Mais do que isto, o discurso ético procura definir uma
atitude reflexiva e racional para julgar as ações humanas (como exemplo, podemos citar
Demócrito). Porém, há, em filosofia, um certo consenso no que diz respeito ao pensador mais
representativo do início da ética antiga. Desde Aristóteles até nossos dias, atribui-se à figura
de Sócrates este papel. É claro que antes dele já houve quem falasse de normas de
comportamento, como é o caso dos chamados pré-socráticos, assim como alguns autores
trágicos e historiadores, sem esquecer os sofistas, contemporâneos de Sócrates. Porém, foi
Sócrates quem delimitou o domínio do estudo que trata das ações humanas, definiu uma
atitude reflexiva e crítica dos conceitos e argumentos necessários para a criação e
desenvolvimento da ética como parte integrante da filosofia antiga. Isto é, Sócrates não foi
quem inaugurou a reflexão ética, mas quem criou um estilo de pesquisa ética, analítica e
argumentativa. Seu pensamento irá influenciar as novas escolas, mesmo após a sua morte,
como é o caso dos cínicos e dos cirenaicos e também das escolas helenísticas (epicurismo,
ceticismo e estoicismo).
A filosofia ética da antiguidade se desenvolve por um período de mais de dez séculos.
Tradicionalmente é dividido em três grandes momentos: os pré-socráticos; Sócrates, Platão e
Aristóteles; e os helenistas. A rigor, nem todas as correntes de filosofia ética antiga podem ser
encaixadas nesta divisão. Por exemplo, temos o caso de Pirron e seu discípulo Timon,
pensadores do século III A. C., os quais trabalham com uma forma radical de ceticismo.
Igualmente temos o caso dos filósofos injustamente chamados de "socráticos menores", que
embora sejam contemporâneos de Platão, diferenciam-se tanto deste quanto de Aristóteles.
Também cabe ressaltar que nem sempre havia consenso dentro destes grupos. Assim,
Aristóteles faz severas criticas a Platão, e epicuristas, estoicistas e ceticistas não param de
debater entre eles.
Ética nos pré-socráticos - A literatura homérica nos deixou uma herança cultural
considerável.
desenvolvimento No dequeumdiz respeito
modelo que àtem
ética,
por encontramos nos poemas
finalidade a procura de Homero
do ideal heróico deo
afirmação de si. Aquiles ouve as recomendações do seu pai que lhe diz para "ser sempre o
primeiro, o melhor e superior aos outros". A possessão da virtude é a medida das façanhas
cumpridas. Esse ideal de afirmação de si que faz procurar o desafio e a competição é
associado a uma ética da vergonha ou da honra. No poema de Hesíodo, Os trabalhos e os
dias, encontramos o ideal de afirmação de si conjugado a uma ética fundada sobre o
constrangimento e a autolimitação. Em geral, podemos dizer que as grandes obras literárias
gregas que tratam das reflexões éticas são anteriores ou contemporâneas a Sócrates. Porém, a
essência da filosofia ética, como reflexão sobre a conduta humana, lhe é posterior.
Podemos constatar que os trabalhos dos pré-socráticos são muito mais preceitos de
moralidade (como é o caso dos fragmentos de Heráclito, 110, 111, 112) do que propriamente
reflexões éticas. Como exceção, temos a teoria heraclitiana da justiça e a concepção
democritiana do bem moral. A Dike (justiça) para Heráclito trabalha com as noções de erro e
reparação. Ela designa a punição ou a correção infligida a quem ultrapassa a medida e
perturba a ordem entre os elementos do mundo, pois a ordem do kosmos ou da physis tem um
caráter ético, político e estético.
Xenófanes é o primeiro pensador que tenta dissociar o estudo do mundo humano do mundo
divino. O mundo dos deuses e o cosmos só conhecem a justiça e a harmonia, diferente do
mundo humano onde também encontramos hostilidade, conflitos, injustiça e retribuição.
Assim, a conduta do homem deve ser entendida por princípios diferentes dos aplicados para
compreender o cosmos. Estas críticas à teologia ingênua de Homero e Hesíodo encontradas
nos fragmentos de Xenófanes provavelmente preparam o caminho para a emergência do
racionalismo ético que virá um século mais tarde.
Ética nos contemporâneos de Sócrates - Vemos em Demócrito a primeira formulação de
uma teoria convencionalista da legalidade. As leis ( nomos) são concebidas como
indispensáveis ao convívio humano e fazem parte das exigências éticas necessárias à proteção
mútua dos interesses. A qualidade ética da vida boa está associada a um bem fundamental e,
sobretudo, a um bem interior ao sujeito, isto é, um estado da alma. Este bem é designado
como euthymia (bom humor, tranqüilidade de espírito) e está associado ao euesto (bem-estar)
e à athambia (a capacidade de não se perturbar por nada). Este bem ético é objetivo e
universal e opõe-se ao prazer, bem relativo, subjetivo e variável. A tese socrática da justiça
como bem da alma dependente do exercício da razão, encontra-se aqui prefigurada. Para
Demócrito há uma superioridade dos prazeres intelectuais e espirituais sobre os outros
prazeres como a riqueza e a reputação.
Ética em Sócrates - A filosofia ética de Sócrates pode ser reconstituída a partir dos textos de
Xenofonte (Memoráveis, Banquete e Apologia de Sócrates) e dos primeiros diálogos de
Platão. Sócrates inova tanto no estilo da pesquisa ética quanto na compreensão da arete
(virtude). O elemento mais surpreendente do pensamento socrático é a sua convicção em
afirmar que a racionalidade, ou o saber, é um meio de progredir até a virtude. Um certo
processo de pesquisa racional, o elenchos (meio de prova, argumento, investigação), permite
estabelecer um conjunto de certezas que forma o conteúdo da Ética. Sem um exato saber não
é possível uma ação justa e sempre que há saber, a ação justa resulta automaticamente. O
saber é a raiz de toda ação ética, e a ignorância a fonte de todos os erros.
A noção de bem na ética grega - O pensamento deve ser capaz de imaginar um ideal do
"melhor agir" ou do "melhor ser", a respeito das relações dos homens entre si, do estatuto da
sua vida social. Para podermos ser capazes de determinar a natureza da noção de bem ético,
faremos um levantamento histórico tomando como base a obra de Léon Robin.
Nos poemas homéricos, mais do que uma justiça divina, encontramos em Zeus o poder de
realizar todos os seus caprichos, socorrer os seus favoritos, satisfazer as suas paixões. Os
deuses, a exemplo dos homens, sentem cólera e desejo de vingança, e estão longe de ser
portadores do direito. Isto causa um sentimento de incerteza com respeito à vida, que é bem
representado
que aparece apelo pessimismo
confiança, de Teógonis.
por parte Talvez
dos mortais, partir de Sólon e nas suas Elegias
seja adivina.
na justiça
A dicotomia entre physis e nomos - A filosofia começa com o assombro do homem perante
os fenômenos da natureza. Utilizando-se da razão, os primeiros filósofos tentam encontrar um
princípio último (arkhe) que dê conta dessa realidade. Todo esse processo de investigação
começa com os estudos sobre a physis feitos pelos pré-socráticos, continuados tanto nos
trabalhos de Platão com seu mundo das Ideias e a Ideia de Bem, quanto os de Aristóteles com
sua tese do Primeiro Motor imóvel. Foram a ordem, a harmonia, a regularidade e
superioridade desses fenômenos que fizeram com que os filósofos primeiro contemplassem,
depois se assombrassem, para que, em seguida, tentassem desvendar esses fenômenos,
perguntando-se pela sua causa e a sua essência. Assim nasce a filosofia, buscando desvendar a
natureza e procurando a verdadeira essência deste mundo.
O sentido da physis nos pré-socráticos - Provavelmente, foi Anaximandro o primeiro
pensador a deixar por escrito um trabalho sobre a natureza. Apesar de existirem dúvidas sobre
o título da sua obra Peri physeos, não podemos negar que o conteúdo seja a physis. E quem
primeiro utilizou a palavra physis foi Heráclito, ao afirmar que "a natureza ama ocultar-se".
Resumidamente, podemos dizer, tomando como base o artigo já citado de Gómez Muntán,
que a palavra physis pode assumir quatro sentidos diferentes entre os pré-socráticos:
No pensamento grego, a lei se opõe primeiro à arbitrariedade. Por isto que nomos substitui a
palavra thesmos, que, como themis, designa o comando autoritário de um superior, Deus, rei
ou legislador com poderes plenos.

REFERÊNCIAS
PLATÃO. Gorgias. Tradução de Alfred Croiset, revisão, introdução e notas de Jean-François
Pradeau, Paris, Les Belles Lettres, 1997.
PLATÃO. Obras completas. Tradução, introdução e notas de MIGUEZ, ARAUJO, YAGÜE,
GIL, RICO, HUESCAR e SAMARANCH. Segunda edición - tercera reimpresión. Madrid,
Aguilar S.A. de Ediciones, 1977.

Elaborar um RESUMO sobre o tema abordado na aula de hoje. Uma página.


Ministério da Educação
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 3 - Fundamentos da Ética


A essência da ética contemporânea
Idade Contemporânea: a ética do h omem concreto
A idade contemporânea é o período específico atual da história do mundo ocidental, iniciado
a partir da Revolução Francesa (1789 d.C.) é o nome dado ao conjunto de acontecimentos
que, entre 5 de maio de 1789 e 9 de novembro de 1799[1], alteraram o quadro político e social
da França.
encerra comEla começa
o golpe com do
de estado a convocação dos de
18 de Brumário Estados Gerais
Napoleão e a Queda da Bastilha e se
Bonaparte.
O seu início foi bastante marcado pela corrente filosófica iluminista, que elevava a
importância da razão. Havia um sentimento de que as ciências iriam sempre descobrindo
novas soluções para os problemas humanos e que a civilização humana progredia a cada ano
com os novos conhecimentos adquiridos. Com o evento das duas grandes guerras mundiais o
ceticismo imperou no mundo, com a percepção que nações consideradas tão avançadas e
instruídas eram capazes de cometer atrocidades dignas de bárbaros. Decorre daí o conceito de
que a classificação de nações mais desenvolvidas e nações menos desenvolvidas têm
limitações de aplicação.
Atualmente está havendo uma especulação a respeito de quando essa era irá acabar, e, por
tabela, a respeito da eficiência atual do modelo europeu da divisão histórica.
A história ou Idade contemporânea compreende o espaço de tempo que vai da revolução
francesa aos nossos dias. A idade contemporânea está marcada de maneira geral, pelo
desenvolvimento e consolidação do regime capitalista no ocidente e, consequentemente pelas
disputas das grandes potências europeias por territórios, matérias-primas e mercados
consumidos.
Para Marx, o Estado Alemão da sua época representava o passado dos povos modernos e a
luta contra sua opressão assinalaria o esforço de livrar a humanidade de todos os laços que a
alienam. Um de seus pensamentos é de que toda crítica permanece inócua se não atinge a raiz
do próprio homem, enquanto ser concreto e a sociedade no qual vive e se manifesta, e fala que
“Não é a consciência do homem que lhe determina o ser, mas, ao contrário, o seu ser social
que lhe determina a consciência”.
Ética Contemporânea
A ética contemporânea teve seu início em meados do século XIX, devido às mudanças que a
evolução da ciência provocou na humanidade, descobrindo até mesmo formas eficientes de
acabar com a vida humana.
Dessa forma, o novo pensamento ético que nasceu começou a contestar o racionalismo
absoluto, e assumir a existência de uma parte inconsciente em todos os homens.
As principais correntes dessa Ética Contemporânea são: O Existencialismo, o Pragmatismo, a
Psicanálise, o Marxismo, o Neopositivismo e a Filosofia Analítica. (Comentaremos sobre

cada
A umanadessas
ética idade correntes durantesea defronta
contemporânea construção desse
com umablog.)
enorme variedade de tendências morais
derivadas do pluralismo cultural existente. Dentro de uma mesma sociedade encontramos
correntes morais diferentes, que se formam a partir dos juízos de valores recebidos por cada
sujeito em seu ciclo de convivência. A imparcialidade exigida da ética faz com que nenhuma
dessas “vertentes” morais seja aceita como a melhor tendência.
Às correntes da ética contemporânea cabe criticar e analisar os diferentes hábitos e costumes
existentes nos dias atuais para que cheguemos a um ponto comum a ser aceito.
Há também um novo desafio imposto aos estudiosos que se dedicam à ética: o fato de que o
comportamento dos homens nem sempre são guiados pelos seus juízos sobre o valor dos atos.
Além da parte irracional já aceita e levada em consideração por essas correntes, o conceito
deturpado de felicidade pode fazer com que as pessoas se distanciem das virtudes éticas, da
justa medida citada por Aristóteles em seus estudos.
A nova filosofia de vida e a ética de manipulação favorecem ao imediatismo, à criação de
cidadãos altamente manipuláveis e à superação do individual sobre o coletivo. Tudo é feito
em nome de uma falsa liberdade, que está se confundindo com o conceito de libertinagem.
Analisar esses fatos de acordo com cada uma das correntes da ética contemporânea é o
objetivo dessa página em nosso blog.
Iniciaremos então a nossa discussão nos referenciando no Existencialismo, que tem como
principais filósofos Kierkgaard e Sartre.
O filosofo Johnson, cita e explica algumas características objetivastes do “eu”, são elas:
1- O eu é racional, essencial – para o objetivismo moral o agente moral deve ser um tipo de
quase objeto com uma natureza determina, fixa, assim é considerado como tendo uma
natureza imutável que partilha com todas as outras criaturas de sua espécie.
2- O eu é não histórico – como a essência do agente moral não é modificada por condições
históricas o “eu” permanece fixo, independentemente da cultura e do tempo.
3- O eu é universal – pelo fato de possuirmos razão prática os agentes morais são todos iguais,
pois agir moralmente é considerado como um problema, pois temos que sair de nossas
particularidades e nos dar conta da natureza racional universal partilhada em virtude da qual
constituímos uma comunidade moral universal.
4 – O eu é bifurcado em razão e desejo – estabelece que o eu consiste em entendimento e
desejo, sendo distintos um do outro, porém a máquina da mente, por si mesma, nada quer, e o
desejo sem o auxílio do entendimento, nada pode ver. Essa dupla natureza é a verdadeira
força motivacional do ser, pois nos empurram e determinam os objetos de nossos apetites ou
aversões.
5- O eu é individual e atômico – define assim por entender as pessoas como fontes de seus
próprios fins, já que a racionalidade e a liberdade são inerentes, propriedades essenciais das
pessoas individuais.
A Ética dos Falantes (Antônio Rogério da Silva)
A ideia de uma ética fundada na comunicação é das mais srcinais da história da filosofia. Em
geral, procura-se estabelecer princípios morais sobre um bem maior que deva ser perseguido,
numa noção de justiça distributiva, em sentimentos especiais, na razão, ou mesmo em
interesses particulares comuns a cada indivíduo, mas nunca numa discussão entre as pessoas.
Todas teorias morais, com exceção do contratualismo – talvez –, estão centradas na
constituição física ou cognitiva de um ser racional, sendo, portanto, subjetivas.
Entretanto, a ética do Discurso tenta fornecer critérios que possam validar normas ou leis
morais, não no sujeito, mas na atividade comunicativa exercida por ele, diante de seus
semelhantes. Essa característica intersubjetiva traz consequências importantes para a estrutura
política da sociedade, ao mesmo tempo em que tenta resolver um problema de
comprometimento na realização das ações morais, sem apelar para considerações metafísicas
do sujeito. Esse tipo de ética avalia o regime democrático como único apto a fomentar leis a
partir de um acordo extraído do debate público. Os argumentos desenrolados por meio da
comunicação
suficiente paraproduziriam umparticipantes
levar todos os consenso, cujo esclarecimento
a agirem conforme omútuo teria
que fora força
aceito coercitiva
como válido
por cada um dos envolvidos.
O Conceito de Discurso
A formulação de Habermas para a ética do Discurso evita alguns problemas de justificação
que a postura "apriorista" e transcendental de Apel tem de enfrentar. Habermas assume uma
posição mais fraca quanto a essas pretensões, sendo, contudo, melhor montada e
esclarecedora. Motivo pelo qual ela é a referência que a maioria dos críticos e comentadores
tem em mente.
Discurso é definido como uma relação entre duas ou mais pessoas estabelecida através de
conversação argumentativa, onde cada parte está disposta a defender suas opiniões frente aos
demais. O aspecto intersubjetivo da troca de justificações é constitutivo dos acordos acerca
dos enunciados com pretensões de validade problematizadas. Dos agentes, exige-se que sejam
falantes competentes de uma linguagem natural comum. Os temas tratados são retirados do
pano de fundo do mundo vivido. Porém, isso não é tudo.
Os discursos visam atingir a verdade, ou correção, de uma descrição, ou norma, de forma
cooperativa. Podem ser divididos em dois planos distintos: o discurso teórico, sobre asserções
ou afirmações descritivas; e o discurso prático, sobre imperativos, leis ou normas. No discurso
teórico, está em jogo o valor de verdade de uma constatação acerca das coisas no mundo. Por
verdade, entende-se a pretensão de validade implicada com atos de fala constatativos, ou seja,
descrições que são fundamentadas por meio de frases. As questões sobre a verdade das
asserções envolvidas surgem em contextos de ação, que abrangem informações obtidas sobre
objetos empíricos. Quando as asserções se tornam problemáticas e já não se acham deduções
lógicas, nem evidências em experiências decisivas, contra ou a favor à descrição dos fatos, se
faz necessário estabelecer uma troca de informações, a fim de encontrar motivações racionais
(argumentos) para aceitação ou rejeição de sua validade. O consenso que resulta dessa
discussão deve ser determinado pelos argumentos apresentados, que estão relacionados a uma
realidade exterior à linguagem utilizada.
Assim, o discurso teórico constitui-se em um processo gradual de autorreflexão dos
participantes. As descrições problemáticas, para serem consideradas válidas, entram em uma
discussão onde se exige explicações sobre seus argumentos teóricos. Em seguida, verifica-se a
adequação desse argumento ao contexto linguístico. Por fim, um acordo deve surgir para que
uma fundamentação ocorra livremente. Em outras palavras, em um discurso teórico empírico,
as asserções com pretensões de validade controvertidas buscam a aprovação de todos os
ouvintes, que, por sua vez, podem exigir explicações acerca de suas causas ou motivos, no
caso de acontecimentos ou ações. Os níveis de argumentação pelos quais a discussão se
desenrola requerem, como regras de inferência indutiva, que haja uniformidade empírica ou
hipóteses sustentadas pelas observações, pesquisas ou experimentos. Destarte, se chega a uma
teoria consensual da verdade, pelo discurso argumentativo.
Uma vez que a argumentação seja considerada suficiente para tomadas de decisão motivadas
racionalmente, o discurso é capaz de rever a adequação dos próprios sistemas linguísticos
adotados – sejam teóricos ou práticos. Nesse exame, o discurso proporciona a conscientização
dos indivíduos em relação ao processo de formação do conhecimento e das normas, pois
permite o trânsito livre e simétrico dos participantes através dos diversos níveis discursivos,
com apresentação de propostas, demandas por fundamentos, troca de papéis entre falantes e
ouvintes, em um engajamento pelo entendimento mútuo, sem o emprego da coerção física.
A Formação Moral dos Falantes
As características formais, universais e cognitivas ficam evidentes depois da descrição
do modelo de discurso habermasiano. Entretanto, a constituição moral da pessoa gera alguns
obstáculos ao aspecto cognitivo da teoria. As pessoas introduzem as normas e apresentam as
razões que as motivam adotar aquelas normas consideradas moralmente válidas. Para tanto,
faz-se
passadonecessário que, além de umamoral,
por um desenvolvimento capacidade comunicativa
durante o processo internalizada, os sujeitos tenham
natural de amadurecimento que
transforma a criança em adulto.
Influências
As influências de Immanuel Kant (1724-1804) são óbvias, mas também percebe-se a
preocupação com a distinção feita por Georg W. F. Hegel (1770-1831) entre eticidade e
moralidade – aquela relacionada a valores subjetivos, contextuais e históricos, esta a regras e
sistemas de conduta gerais. De George Herbert Mead (1863-1931), vem a ideia de
comunicação como uma interação entre indivíduos capazes de adotar o ponto de vista do
outro. Charles Sanders Peirce (1839-1914) contribuiu com a noção de pragmatismo e
falibilismo da razão. Sigmund Freud (1856-1939) fornece o modelo terapêutico do discurso,
pronto a esclarecer as distorções do ouvinte. De Karl Marx (1818-1883), é tirada a visão de
um mundo dominado pelas lutas de poder. John Rawls (1921-2002) inspira, com sua
construção da "posição srcinal", a situação ideal de fala de Habermas. Ao passo que são
notadas influências de Ludwig Wittgenstein (1889-1951) e Martin Heidegger (1889-1976),
especialmente, em Apel, além de uma série de outros nomes omitidos aqui.
Problemas
A despeito de tantas influências ilustres, da acolhida mundial e sua intuitiva
plausibilidade, a ética do Discurso não está imune a críticas. Ernst Tugendhat ( Lições sobre
Ética, 1993) apontou uma circularidade nas pressuposições constitutivas da situação ideal de
fala, por causa de um forte conteúdo moral nas condições igualitárias requeridas dos falantes.
Assim, a moral que precisaria ser fundada pelo consenso já estaria embutida em todo
procedimento argumentativo, previamente.
Os problemas de aplicação foram levantados por Albrecht Wellmer (Ethik und Dialog/
Ética e Diálogo, 1986). A fundamentação última, pretensão de Apel, é atacada por Charles
Taylor (As Fontes do Eu , 1989), motivo pelo qual Habermas se vê forçado a admitir um certo
falibilismo para sua variante, que é mantida enquanto a condição humana for inalterada. As
mudanças feitas por Kohlberg em sua teoria, inclusão do nível transacional entre os estágio 4
e 5, devido às críticas feministas, como as de Carol Gilligan, e contra-exemplos empíricos
aumentam ainda mais a desconfiança na possibilidade de seres humanos ascenderem aos
últimos estágios pós-convencionais.
As transformações feitas, no intuito de responder aos críticos, acabaram gerando uma
teoria partida em duas, onde os problemas de fundamentação são abordados por um lado,
ficando os de aplicação a cargo de princípios ad hoc de adequação, segundo K. Günther, e
reguladores da "parte B" do discurso, de acordo com Apel. Não obstante, a passagem do
discurso ideal para o real continua sendo uma questão aberta, sem resolução fácil, que
mantém a ética do Discurso como um projeto a ser mais trabalhado por seus simpatizantes.

Bibliografia
APEL, K.-O. La Ética del Discurso como Ética de la Responsabilidad , in APEL, K.-O.,
DUSSEL, E. & FORNET-BETANCOURT, R. Fundamentación de la Ética y Filosofía de
la Liberación; trad. Luis F. Segura. – México, D.F.: Siglo XXI, 1992.
HABERMAS, J. Teoría de la Acción Comunicativa: Complementos y estudios
previos;trad. Manuel J. Redondo. – Madrid: Cátedra, 1994.
LIMA, J. P. Linguagem e Ação. – Lisboa: Apáginastantas, 1983.
SEARLE, J. Os Atos de Fala; trad. Carlos Vogt. – Coimbra: Almedina, 1981.

Elaborar um TEXTO ARGUMENTATIVO de no máximo 1 página a respeito do tema da


aula de hoje.
Ministério da Educação
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 4 - Fundamentos da Ética


A dignidade humana
A ética e a dignidade da pessoa humana
Para que o sucesso de uma sociedade seja completo, é necessário contar com algumas
qualidades inerentes ao ser que a compõe, o ser humano que a habita e contribui para que esta
mesma melhore ou trace caminhos que pode levá-la ao fracasso. Dentre todas as qualidades
que Deus proporcionou aos interpretar
homens, sem dúvida, a mais importante podeousermás,
considerada o
discernimento para saber-se a diferenciação entre atitudes boas que podem
incentivar as pessoas ao redor, afinal, antes de propostas, o que o ser humano mais segue e
analisa são exemplos. À essa capacidade de discernimento dá-se o nome de ética, que aliada a
um sentimento inerente ao ser humano, a dignidade humana, pode contribuir com sua
evolução ou extinção.
Ao discorrer sobre a ética, é necessária uma análise etimológica do termo, que deriva do
grego ethos, cuja tradução é caráter, modo de ser de uma pessoa. Já a tradução da palavra
pode ser considerada como sua conceituação, visto que ética nada mais é do que um conjunto
de valores morais e princípios que norteiam a sociedade, fazendo com que o ser humano
busque dentro de si a valoração do que é bom ou mal, almejando assim atingir-se um
equilíbrio entre os dois, relacionando-se com o sentimento de justiça social.
Já a dignidade humana é um sentimento que vincula todos os cidadãos, ela surge como
exigência inalienável. Ao mesmo tempo que a sociedade evolui, evolui também o sentido de
ética cumulado ao desejo de proteção da dignidade da pessoa humana. Desejo este que surgiu
e ganhou força com o advento da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Certo é que o
conceito de dignidade humana aliado ao sentimento evoluiu com o tempo, essa noção de
dignidade deveria ser comum a todos os seres humanos, como sendo reconhecimento coletivo
de uma herança da civilização que já suportou tantas barbáries.
Após as grandes guerras mundiais, que deixaram explícitas os extremos que os humanos
podem chegar para defender territórios e dinheiro, a preocupação com o binômio ética-
dignidade evolui demasiadamente. Vários países adotaram como base constitucional a
proteção a este princípio, inclusive a Constituição Brasileira, que protege em seu corpo o
advento da Dignidade Humana.
Porém, o que se vê nos dias atuais, embora a luta continue por parte de algumas entidades, é
um crescente desrespeito às questões éticas, e como caminham juntas, à dignidade humana
também. Visto que o senso de ética não é uma virtude que caminha sozinha, acompanha a
sociedade, evolui conforme a mesma cresce, estando sujeita à decadência também.
No âmbito brasileiro, o desrespeito aos dois preceitos é gradativamente crescente e visível,
em todos os âmbitos da sociedade, na área da saúde vê-se instaurado o caos, por médicos que
não comparecem em plantões quando não deveriam sequer terem saído dos hospitais para
aguardarem
precariedade possível
extrema,surgimento de pacientespara
falta de acomodação em osuas residências;
crescimento na infraestrutura
desordenado uma
nas grandes
cidades, que leva cidadãos a habitarem locais passíveis de grandes desastres, que vitimam um
número cada vez maior de serres humanos.
Os investimentos que poderiam ser aplicados às melhorias nas áreas da saúde, educação e
moradia são direcionados muitas vezes à incentivos para atrair grandes empresas de outros
países, ou então direcionadas às opções de lazer, como ganhar a competição para hospedar a
Copa do Mundo de Futebol ou então Olimpíadas. Claro, a sociedade necessita de lazer, mas
tanto quanto necessita de melhores condições e melhorias de vida. Investimentos em ações
que tenham retorno para o próprio Brasil.
Nos meios de comunicação vemos o crescente desrespeito a virtudes e sentimentos que
seriam inerentes ao ser humano, com sua capacidade de discernimento pode elevar ou não o
senso de ética, que vêm decaindo cada vez mais. O ser humano não é um robô que segue
mandamentos, necessitando de exemplos a serem seguidos, exemplo este que não é
encontrado em um país onde o Ministro do STF, Marco Aurélio afirma que a “ditadura foi um
mal necessário”. Não existem padrões elevados a serem seguidos hodiernamente na sociedade
brasileira, estando esta demasiadamente focada no lucro e sucesso perante o exterior, sem
importar-se primeiro com o que ocorre dentro de si. É o velho dito popular, muitos têm forma,
mas não conteúdo.
Façamos então uma breve reflexão, sobre o destino da sociedade brasileira, só nós, os
habitantes desta mesma sociedade podemos contribuir para melhorá-la, a questão é, quanto
mais se pede, mas tem que se dar. Estaríamos dispostos a fazer tantas concessões com o fim
de alcançarmos uma sociedade melhor, mais comum e igualitária?
DA ÉTICA NA DIALOGICIDADE À DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA: O
NEOCONSTITUCIONALISMO COM VISTAS AO RECONHECIMENTO DA
ALTERIDADE NO ACESSO À JUSTIÇA
Afonso Soares de Oliveira Sobrinho
Raízes Históricas Da Pobreza: Do Medievo À Modernidade Excludente
No estudo da pobreza é importante recorrer à história enquanto contribuição dialética para
refletirmos sobre o presente. Nesse sentido, o historiador Georges Duby (1993) atenta para
algo que inquieta a espécie humana enquanto movimento cíclico no tocante à reflexão do
passado ao longo de quinhentos anos. Trata-se da referência à questão da pobreza enquanto
dilema existencial, o que o famoso historiador chama de segregação do pobre pelo corpo
social.
Georges Duby, (1993), já no limiar do ano 2000, chamava atenção para o dilema cotidiano de
povos famélicos migrando em busca da sobrevivência. Como exalta o referido autor, voltar ao
passado (evolução da sociedade na Europa no medievo) é relevante para refletirmos sobre o
presente: A Europa de 1 000 anos atrás não era menos exuberante que a de hoje nos países do
Terceiro Mundo. Nada a limitava, a não ser a castidade imposta a uma parcela considerável da
população masculina votada ao serviço de Deus. As práticas contraceptivas e abortivas não
eram desconhecidas, apenas de uso extremamente restrito e severamente condenadas pelas
instituições religiosas.
No entanto, essa exuberância era largamente corrigida pela alta mortalidade infantil, mais
devastadora nos meios sociais baixos, e por ondas periódicas de escassez alimentar e
epidemias. Devido a essa regulação natural, as taxas de crescimento demográfico mantinham
aquém de 0,6% ao ano. Isto é, muito abaixo das que se verificam nos países mais pobres de
hoje. Se os terrores do ano 1000 realmente existiram, o que duvido, é certo que não se
apoiavam na percepção de uma demografia galopante e perturbadora.
Sem a menor dúvida, esse crescimento comedido foi o principal fator do progresso material
contínuo que favoreceu a Europa daquele tempo. Pode-se afirmar que todas as conquistas da
civilização europeia, o impulso da ciência, o abandono da selvageria são frutos dele. Foi um
fator de progresso porque se operava em espaços onde a densidade de ocupação do solo era
pequena,
O aumento comparável à da África
de população negra de
encontrava hoje.
facilmente onde se espalhar, e aí está a principal
diferença da situação presente. O capital de que podiam dispor os homens se oferecia em
abundância: era a terra. No meio de uma economia essencialmente rural, em que a mão-de-
obra constituía o mais ativo agente de produção, o crescimento determinou a extensão do
espaço cultivado e o aumento dos rendimentos”. (DUBY, 1993, p. 230-231).
Nesse período a fome, a indigência e a caça aos pobres não tinha se estabelecido, segundo o
referido autor. Trata-se, no entanto, de uma sociedade camponesa que lidava com mecanismos
de compensação e de solidariedade. Sob a instituição do domínio senhorial, portanto, a
miséria não existia devido aos laços entre o senhor e os súditos.
Os direitos humanos fundamentais no século XXI e seus desafios: a pobreza, a negação
da diversidade e a crise global do centro à periferia do capitalismo.
Em pleno século XXI nos deparamos com um problema que parece ser ignorado pelas
potenciais mundiais: a fome, a indigência e, principalmente nas cidades, a pobreza em suas
diversas formas, em especial pela negação da cidadania e pelo preconceito.
Paralelamente ocorrem os dilemas econômicos, políticos e sociais relacionados a pessoas
desesperadas migrando em busca de abrigo, de comida, de emprego, enfim, de sobrevivência.
São, por exemplo, pessoas fugindo da guerra, da fome, refugiados políticos no continente
africano e no Oriente Médio devido às crises sociais denominadas de "primavera árabe". Mais
recentemente tem-se notícia do que parecia improvável, uma nova onda de multidões no
Velho Mundo saindo às ruas protestando por emprego, por previdência social, por justiça
social na periferia europeia.
Nascido há um ano para protestar contra a crise, os políticos e os excessos do capitalismo, o
movimento dos "indignados" volta às praças da Espanha neste sábado, no pontapé inicial de
quatro dias de mobilizações para demonstrar que seu espírito continua vivo.
Na segunda década do século XXI, o combate à pobreza se configura como algo marcante em
nossa sociedade globalizada. Nesse sentido, a história nos revela um dos maiores dilemas
humanos e que ganha novas dimensões na atualidade, a pobreza se configura na questão
central do espírito do próprio capitalismo em vigor, pela produção de riquezas em benefício
de poucos, ou seja, pela acumulação exponencial do sistema financeiro mundial, pela negação
da pluralidade cultural, pelo aumento das diferenças entre aqueles que estão dentro e fora dos
padrões morais e de consumo burgueses - padrões de consumo destrutivos e insustentáveis
ambientalmente (destruição das fontes primárias de recursos naturais, que leva ao
esgotamento da própria vida). Esse capitalismo se reflete econômica, política e socialmente
no mundo dito civilizado, que nega as liberdades e a dignidade humana para todos, sejam
ricos e pobres, em especial pelos contrastes sociais gritantes.
Essas considerações iniciais são essenciais para refletirmos sobre o tema da pobreza enquanto
questão social em suas múltiplas faces e diz respeito à afirmação histórica da dignidade
humana como dimensão dos direitos fundamentais no século XXI a partir da negação da
liberdade de viver dignamente aos mais vulneráveis econômica, cultural e socialmente.
Trata-se de “tempos líquidos” nas palavras de Zygmunt Bauman (2007). Nesse sentido, o
individualismo enfraquece os vínculos humanos e de solidariedade, traduzindo-se numa
globalização perversa:
“O novo individualismo, o enfraquecimento dos vínculos humanos e o definhamento da
solidariedade estão gravados num dos lados da moeda cuja outra face mostra os contornos
nebulosos da ‘globalização negativa’. Em sua forma atual, puramente negativa, a globalização
é um processo parasitário e predatório que se alimenta da energia sugada dos corpos dos
Estados-nações e de seus sujeitos”. [...]. (BAUMAN, 2007, p. 30).
André Berten (2011), em “Modernidade e Desencantamento”, aponta a subjetivação e
individualização dos seres humanos na modernidade europeia como elemento importante que
nos une no presente, mas nos separa historicamente da humanidade anterior aos tempos
modernos. Antes a existência humana e o poder para governá-la eram concebidos como de
srcem divina, edoassim
encerramento mundose justificava a religiãomudou
europeu medievo, como fundamento
e a relação dadosociedade.
homem com Isso,Deus
com ose
individualiza, interioriza-se:
“O traço mais característico deste desencantamento é a passagem de uma representação
transcendente para uma representação imanente daquilo que funda a sociedade, a passagem de
uma fundamentação externa para uma fundamentação interna. É o significado profundo da
ideia de democracia: uma sociedade que se funda sobre ela mesma. [...]”. (BERTEN, 2011).
Do ponto de vista moral, as reações sociais ao isolamento dos indivíduos que estão fora dos
padrões econômicos e de consumo social ou culturalmente aceitos acabam por gerar, muitas
vezes, um suicídio moral e social. Esse mesmo suicídio provoca, porém, no grupo social que
contribuiu para a sua realização uma dupla repulsa, por considerar que a vítima não contribuiu
para a autorrealização, sendo, portanto, o fracasso culpa do próprio indivíduo. Acerca do
suicídio, Durkheim (2008) observa: "O suicídio é, pois, reprovado porque revoga aquele culto
pela pessoa humana sobre o qual repousa toda a nossa moral [...]" (DURKHEIM, 2008, p.
123).
Da ética na dialogicidade à dignidade da pessoa humana: o neoconstitucionalismo como
reconhecimento da alteridade
A efetividade dos direitos humanos fundamentais se realiza mediante o reconhecimento das
relações dialógicas no pluralismo jurídico tendo diante da complexidade dos casos concretos a
dignidade da pessoa humana como princípio fundante com vistas ao acesso à justiça.
Ética na dialogicidade entre o sujeito e a alteridade em instituições justas e legítimas, portanto
ético-jurídico-políticas, como apresenta Paul Ricoeur (2008).
Pensar o neoconstitucionalismo do ponto de vista filosófico envolve o pensamento aristotélico
da ideia de justiça com equidade. Nesse sentido, ao intérprete na busca da ratio legis exige-se
um distanciamento necessário pelo juízo prudencial, deontológico e reflexivo exercido pelo
terceiro, representado pelo Estado enquanto instituição social. O justo numa perspectiva
cíclica visa o bem da vida que se traduz na felicidade do corpo social pelo pensamento plural
do bem comum.
Uma concepção de justiça identificada na ética do humano pela revelação da vulnerabilidade
existencial e que vai além da moral para o campo do viver bem em instituições legítimas
tendo o “ser” como o centro das decisões se aproxima da visão kantiana do homem como “um
fim em si mesmo”. Nesse sentido, para além da obrigação e da vinculação da norma, o sujeito
responsável exerce papel social pela participação política na tomada de decisões (consciência,
organização, reflexão e ação) na pólis com vistas à emancipação humana. A República diz
respeito ao governo que inclua a todos e visa o bem da coletividade para além de
determinados grupos e/ou clãs.
Os dilemas e os conflitos permeiam as histórias de vida. Valores e crenças muitas vezes são
frustrados por sentenças de apenação (ditadas pelo agente judiciário em nome do Estado) que
não fazem justiça, que não preveem o perdão, tampouco promovem a reabilitação, isso por
causa da impossibilidade de mensuração do bem que se perdeu. As relações sociais deveriam
ser permeadas pela ética do humano (ética aristotélica da virtude com equidade e ética
kantiana das obrigações vinculadas à garantia da dignidade humana). Assim, portanto, mais
que viver em instituições formalmente isonômicas, faz-se primordial o retorno ao “mito” na
compreensão filosófica do direito: a linguagem como espaço de comunicação do “eu” com o
“outro” pelo respeito à pluralidade cultural e social e pela formação de um campo da
legitimidade política como espaço de inclusão das diferenças com vistas ao bem comum.
Nesse sentido, as variáveis cíclicas rompem com as tradicionais relações patrimonialistas
egocêntricas calcadas na tradição, família e propriedade privada dos meios de produção como
centro de interesses e passa-se das relações do “ter” em direção às relações do “ser” na
valorização à pluralidade étnico-cultural e social.

Elaborar uma RESENHA de no máximo 1 página a respeito do tema da aula de hoje.


Ministério da Educação
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 5 - Fundamentos da Ética


Divisões da ética: metaética, ética
normativa e ética aplicada
Metaética
Em filosofia, meta-ética é o ramo da ética que procura entender a natureza das propriedades
éticas, enunciados, atitudes e juízos. Meta-ética é um dos três ramos da ética geralmente
reconhecidos pelos filósofos. Os outros são a ética aplicada e a ética normativa, Teoria ética e
ética aplicada formam a ética normativa. A meta-ética tem recebido considerável atenção dos
filósofos acadêmicos nas últimas décadas.
Enquanto as éticas normativas formulam seguintes questões como “O que alguém deve
fazer?”, endossando assim alguns juízos éticos de valor e rejeitando outros, a meta-ética
formula questões como “O que é o bem?” e “Como podemos dizer o que é bom e o que é
mau?”, procurando entender a natureza das propriedades e avaliações dos enunciados éticos.
Algum teóricos afirmam que certas considerações metafísicas sobre a moral são necessárias
para uma correta avaliação de teorias morais atuais e para a tomada de decisões acerca da
moral prática. Outros argumentam com premissas contrárias, afirmando que nossas ideias
morais advêm de nossas intuições na tomada de decisão, antes de termos qualquer senso de
uma moralidade metafísica.
Questões da meta-ética
Segundo Richard Garner e Bernard Rosen,1 , há três tipos de problemas meta-éticos, ou três
questões gerais:
Qual o significado dos termos e juízos morais? / Qual a natureza dos juízos morais?
Como os juízos morais podem ser apoiados e defendidos?
Uma questão do primeiro tipo envolve questões como, “O que as palavras ‘bem’, ‘mal’,
‘certo’ e ‘errado’ significam?”. A segunda categoria inclui questões sobre se os julgamentos
morais são ou universais ou relativos, ou algum tipo de pluralismo de valorativo. Questões do
terceiro tipo indagam, por exemplo, como podemos saber que algo é certo ou errado. Garner e
Rosen dizem que as respostas a estas três perguntas básicas “não são dissociáveis, e algumas
vezes a resposta de uma compromete fortemente a resposta de outra”.
Ética normativa
Ética Normativa é a investigação racional, ou uma teoria, sobre os padrões do correto e
incorreto, do bom e do mau, com respeito ao carácter e à conduta, que uma classe de
indivíduos tem o dever de aceitar. Essa classe pode ser a humanidade em geral, mas podemos
também considerar que a ética médica, a ética empresarial, etc., são corpos de padrões que os
profissionais em questão devem aceitar e observar. Esse tipo de investigação e a teoria que daí
resulta (a ética kantiana e a utilitarista são exemplos amplamente conhecidos) não descrevem
o modo como as pessoas pensam ou se comportam; antes prescrevem o modo como as
pessoas devem pensar e comportar-se. Por isso se chama "ética normativa": o seu objetivo
principal é formular normas válidas de conduta e de avaliação do caráter. O estudo sobre que
normas e padrões gerais são de aplicar em situações-problema efectivos chama-se também
"ética aplicada". Recentemente, a expressão "teoria ética" é muitas vezes usada neste sentido.
Muito do que se chama filosofia moral é ética normativa ou aplicada.
Ética e moral
*Thomas Mautner* - Universidade Nacional da Austrália
A palavra "ética" relaciona-se com "ethos", que em grego significa hábito ou costume. A
palavra é usada em vários sentidos relacionados, que é necessário distinguir para evitar
confusões.
1. É a investigação racional, ou uma teoria, sobre os padrões do correto e incorreto, do bom e
do mau, com respeito ao carácter e à conduta, que uma classe de indivíduos tem o dever de
aceitar. Esta classe pode ser a humanidade em geral, mas podemos também considerar que a
ética médica, a ética empresarial, etc., são corpos de padrões que os profissionais em questão
devem aceitar e observar. Este tipo de investigação e a teoria que daí resulta (a ética kantiana
e a utilitarista são exemplos amplamente conhecidos) não descrevem o modo como as pessoas
pensam ou se comportam; antes prescrevem o modo como as pessoas devem pensar e
comportar-se. Por isso se chama "ética normativa": o seu objetivo principal é formular normas
válidas de conduta e de avaliação do carácter. O estudo sobre que normas e padrões gerais são
de aplicar em situações-problema efetivos chama-se também "ética aplicada". Recentemente,
a expressão "teoria ética" é muitas vezes usada neste sentido. Muito do que se chama filosofia
moral é ética normativa ou aplicada.
2. A ética social ou religiosa é um corpo de doutrina que diz respeito o que é correto e
incorreto, bom e mau, relativamente ao carácter e à conduta. Afirma implicitamente que lhe é
devida obediência geral. Neste sentido, há, por exemplo, uma ética confucionista, cristã, etc.
É semelhante à ética normativa filosófica ao afirmar a sua validade geral, mas difere dela
porque não pretende ser estabelecida unicamente com base na investigação racional.
3. A moralidade positiva é um corpo de doutrinas, a que um conjunto de indivíduos adere
geralmente, que dizem respeito ao que é correto e incorreto, bom e mau, com respeito ao
carácter e à conduta. Os indivíduos podem ser os membros de uma comunidade (por exemplo,
a ética dos índios Hopi), de uma profissão (certos códigos de honra) ou qualquer outro tipo de
grupo social. Pode-se contrastar a moralidade positiva com a moralidade crítica ou ideal. A
moralidade positiva de uma sociedade pode tolerar a escravatura, mas a escravatura pode ser
considerada intolerável à luz de uma teoria que supostamente terá a autoridade da razão (ética
normativa) ou à luz de uma doutrina que tem o apoio da tradição ou da religião (ética social
ou religiosa).
4. Ao estudo a partir do exterior, por assim dizer, de um sistema de crenças e práticas de um
grupo social também se chama ética, mais especificamente "ética descritiva", dado que um
dos seus objetivos principais é descrever a ética do grupo. Também se lhe chama por vezes
étnoética, e é parte das ciências sociais.
5. Chama-se "metaética" ou "ética analítica" a um tipo de investigação ou teoria filosófica que
se distingue da ética normativa. A metaética tem como objeto de investigação filosófica os
conceitos, proposições e sistemas de crenças éticos. Analisa os conceitos de correto e
incorreto, bom e mau, com respeito ao carácter e à conduta, assim como conceitos
relacionados com estes, como, por exemplo, a responsabilidade moral, a virtude, os direitos.
Inclui também a epistemologia moral: o modo como a verdade ética pode ser conhecida (se é
que o pode); e a ontologia moral: a questão de saber se há uma realidade moral que
corresponde às nossas crenças e outras atitudes morais. As questões de saber se a moral é
subjetiva ou objetiva, relativa ou absoluta, e em que sentido o é, pertencem à metaética.
O que é a ética?
Na sua acepção mais abrangente, a ética (ou filosofia moral) é o estudo do que faz a vida
boa — a "arte de viver". Era esta a acepção de ética dos filósofos gregos. Mais tarde, tornou-
se comum uma perspectiva mais restritiva da ética, segundo a qual esta estuda a questão de
saber como temos o dever de viver. Hoje em dia, a ética é quase sempre entendida neste
segundo sentido.
A ética divide-se em três subdisciplinas: metaética, ética normativa e ética aplicada.
Chama-se metaética à subdisciplina que estuda a natureza da própria ética. Eis dois exemplos
de problemas estudados nesta subdisciplina:
1) Serão os juízos éticos relativos à cultura? Quando dizemos que o assassínio de crianças
inocentes é incorreto, essa é uma verdade objetiva, ou meramente um costume social que
varia de cultura para cultura? Serão os princípios éticos preconceitos culturais?
2) Por que razão havemos de ser morais? Haverá boas razões para obedecer aos princípios
éticos? Se sim, quais são? Será que todas as razões para agir têm de ser razões de carácter
egoísta? Ou poderá haver razões altruístas para agir?
A ética normativa é o estudo dos princípios e fundamentos da vida ética. Eis dois exemplos de
problemas estudados nesta subdisciplina:
3) Qual é o bem último? Muitas coisas são bens em virtude de serem meios ou instrumentos
para outras coisas boas. O dinheiro, por exemplo, não é bom em si — mas é bom como meio
para podermos ter uma vida boa. Mas será que há algo que seja o bem último, ou seja, algo
em função do qual todos os outros bens sejam bens? Será o prazer? Ou a virtude? Ou a
vontade boa?
4) O que faz uma ação ser correta? Será que o Pedro fez uma coisa incorreta quando teve a
intenção de ajudar a Paula, mas acabou por magoá-la? Será que só conta a intenção, ou conta
também as consequências das nossas ações para saber se essas ações são corretas ou não?
A ética aplicada é o estudo dos problemas práticos da ética. Eis dois exemplos de problemas
desta subdisciplina:
1) Será incorreto fazer um aborto em qualquer circunstância? Será correcto uma mulher fazer
um aborto exclusivamente porque não deseja ter a criança? Ou terá de ter razões mais fortes,
como razões de saúde?
2) Será que temos o dever de ajudar os mais pobres? O dinheiro que nos países mais
desenvolvidos as pessoas da classe média gastam em pequenas coisas sem importância—
como um celular dos mais caros, quando podiam comprar um mais económico — seria
suficiente para salvar uma pessoa de morrer à fome nos países mais pobres. Teremos então o
dever de a ajudar, dando-lhe alguma da nossa riqueza?
As palavras «ética» e «moral» são geralmente usadas como sinónimas, dado que
srcin almente o termo latino “ moralis” foi criado por Cícero a partir do termo “mores” para
traduzir o termo grego “ethos”; e tanto “mores” como “ethos” significam «costumes».
Para dar os primeiros passos na ética normativa e na metaética, aconselho o livro Elementos
de Filosofia Moral, de James Rachels (Gradiva), pela sua clareza, simplicidade e precisão.
Para dar os primeiros passos na ética aplicada, aconselho o livro Ética Prática, de Peter
Singer (Gradiva), o livro que reativou esta área da ética e que é também muitíssimo claro,
simples e preciso. Finalmente, quem estiver interessado no problema mais específico do
aborto, a leitura obrigatória é A Ética do Aborto, org. de Pedro Galvão (Dinalivro), que reúne
seis ensaios filosóficos seminais desta área (três que defendem a permissibilidade do aborto e
três que a contestam), sendo ainda servido por uma informativa introdução do organizador.
Moral, Ética e Metaética
Hoje muito se fala em Ética. Ética empresarial, ética médica, ética advocatícia, Códigos de
Ética, entre tantos outros exemplos.
É também muito comum ouvir dizer que uma pessoa, um espetáculo ou um programa de TV é
algo que não tem moral, principalmente quando possui um apelo sexual ou uma atitude ou
opinião diferente do que determina uma crença religiosa.
Contudo, tecnicamente, percebe-se que, quase sempre o que se está a fazer é atribuir
significados equivocados a respeito da moral e da ética, arrogando a esses termos um campo
semântico que não lhes pertence. Isso porque se referem à ética enquanto, na verdade, o que
estão a dizer é algo sobre a moral, e quando classificam determinado objeto como moral ou
imoral estão a atribuir acepções pejorativas ao termo.
A Ética
Um dos filósofos mais respeitados da atualidade, Dr. Richard M. Hare conceitua a Ética de
forma clara e objetiva. Ele afirma que Ética é a Filosofia da Moral. Ela é o estudo da moral.
Isso quer dizer, conforme ressaltado anteriormente, que a Ética é uma ciência. É uma
disciplina autônoma da Filosofia, um ramo da Filosofia. Assim como a Metafísica, a Filosofia
da Linguagem, a Filosofia do Direito, a Filosofia Política, entre outras disciplinas filosóficas.
A ética é então, a parte da Filosofia responsável pela investigação dos princípios que
motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento humano, refletindo
especialmente a respeito da essência das normas, de suas causas motoras, eficientes e
teleológicas. É a investigação dos valores, prescrições e exortações presentes em qualquer
realidade social.
Em outras palavras é dizer que ela é o estudo dos significados e das propriedades lógicas das
palavras morais. E ela faz isso analisando se os argumentos morais são bons ou ruins a partir
da lógica dos discursos e da análise da definição das palavras e de seu significado.
O principal objetivo da Ética é a busca de justificativas para as regras propostas pela Moral. A
ética não estabelece regras. Ela julga as regras, dizendo se as mesmas têm ou não condições
lógicas de verdade.
Metaética
O termo meta anexado na palavra não tem aqui a mesma etimologia da palavra meta que
usamos no nosso dia a dia como um ponto a ser alcançado. Esta última srcina-se do latim
cujo significado mais indicado é marco. Inclusive era meta o nome do marco que indicava o
termo das corridas de cavalo na antiga Roma. Já Aquela que será tratada, srcina-se do grego,
cujo significado é a ideia de algo que está além, sobre ou mais adiante, assim como na palavra
metáfora, que é a frase cujo significado está além daquilo que se está materialmente a dizer,
ou ainda na metafísica, que trata a respeito daquilo que é suprassensível.
É neste ponto que a metaética está, ou seja, está sobre a ética, além da ética.
Isso porque enquanto as teorias éticas (também chamadas teorias de 1ª ordem) estão a
formular juízos éticos, as teorias metaéticas (teorias de 2ª ordem) realizam a reflexão dos
próprios juízos éticos, refletindo sobre os tipos de afirmações éticas que as teorias de 1ª ordem
estão a fazer.
A metaética nada julga, nada prescreve, nada afirma. Ela faz simplesmente uma verdadeira
taxonomia das reflexões éticas, ou seja, ela faz a identificação e a classificação das
prescrições éticas. Ela age como se fosse um espectador observando duas pessoas a debater,
por exemplo, sobre política, e analisando a linha de discurso usada por cada um, classifica se
esse ou aquele discurso é de esquerda ou de direita.

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Ministério da Educação
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 6 - Fundamentos da Ética


Ética fundada na racionalidade e ética fundada em princípios religiosos
Ética e racionalidade
Ética para a nova era
Nenhuma sociedade no passado ou no presente vive sem uma ética. Como seres sociais,
precisamos elaborar certos consensos, coibir certas ações e criar projetos coletivos que dão
sentido e rumo à história. Hoje, devido ao fato da globalização, constata-se o encontro de
muitos projetos éticos nem todos compatíveis entre si. Face à nova era da humanidade, agora
mundializada, sente-se a urgência de um patamar ético mínimo que possa ganhar o
consentimento de todos e assim viabilizar a convivência dos povos. Vejamos, suscintamente,
como na história se formularam as éticas.
Uma permanente fonte de ética são as religiões. Estas animam valores, ditam comportamentos
e dão significado à vida de grande parte da humanidade que, a despeito do processo de
secularização, se rege pela cosmovisão religiosa. Como as religiões são muitas e diferentes,
variam também as normas éticas. Dificilmente se pode fundar um consenso ético, baseado
somente no fator religioso. Qual religião tomar como referência? A ética fundada na religião
possui, entretanto, um valor inestimável por referi-la a um último fundamento que é o
Absoluto.
A segunda fonte é a razão. Foi mérito dos filósofos gregos terem construído uma
arquitetônica ética fundada em algo universal, exatamente na razão, presente em todos os

seres social
vida humanos. As normas
chamaram que regem
de politica . Pora isso,
vida pessoal chamaram
para eles, politica de ética e ética.
é sempre as queNão
presidem
existe,a
como entre nós, politica sem ética.
Esta ética racional é irrenunciável mas não recobre toda a vida humana, pois existem outras
dimensões que estão aquém da razão como a vida afetiva ou além como a estética e a
experiência espiritual.
A terceira fonte é o desejo. Somos seres, por essência, desejantes. O desejo possui uma
estrutura infinita. Não conhece limites e é indefinido por ser naturalmente difuso. Cabe ao ser
humano dar-lhe forma. Na maneira de realizar, limitar e direcionar o desejo, surgem normas e
valores. A ética do desejo se casa perfeitamente com a cultura moderna que surgiu do desejo
de conquistar o mundo. Ela ganhou uma forma particular no capitalismo no seu afã de realizar
todos os desejos. E o faz excitando de forma exacerbada todos os desejos. Pertence à
felicidade, a realização de desejos mas, atualmente, sem freios e controles, pode pôr em risco
a espécie e devastar o planeta. Precisamos incorporá-la em algo mais fundamental.
A quarta fonte é o cuidado, fundado na razão sensível e na sua expressão racional, a
responsabilidade. O cuidado está ligado essencialmente à vida, pois esta, sem o cuidado, não
persiste. Daidefine
Higino) que haver uma
o sertradição
humano filosófica que nos vemum
como essencialmente da ser
antiguidade (a fábula-mito
de cuidado. 220 de
A ética do cuidado
protege, potencia, preserva, cura e previne. Por sua natureza não é agressiva e quando
intervém na realidade o faz tomando em consideração as consequências benéficas ou
maléficas da intervenção. Vale dizer, se responsabiliza por todas as ações humanas. Cuidado e
responsabilidade andam sempre juntos.
Essa ética é hoje imperativa. O planeta, a natureza, a humanidade, os povos, o mundo da vida
(Lebenswelt) estão demandando cuidado e responsabilidade. Se não transformarmos estas
atitudes em valores normativos dificilmente evitaremos catástrofes em todos os níveis. Os
problemas do aquecimento global e o complexo das varias crises, só serão equacionados no
espírito de uma ética do cuidado e da responsabilidade coletiva. É a ética da nova era.
A ética do cuidado não invalida as demais éticas mas as obriga a servir à causa maior que é a
salvaguarda da vida e a preservação da Casa Comum para que continue habitável.
A justificação de proposições práticas
Como é que se justifica a linguagem ética? Como é possível a linguagem ética, afinal? Como
é que proposições práticas --sendo estruturadas e identificadas como tais-- tacitamente
exprimem uma relação determinável entre conceitos de ordem ética? Como podemos exprimir
o dever-ser com Rechtfertigung? Questões como estas não nos remeteriam a "condições de
verdade" (truth conditions) mas a "condições de justificação" ( justification conditions,
assertability conditions) que nos permitam dizer tal coisa em tal situação que qualificamos
como "ética". A epígrafe do chamado "segundo" Wittgenstein lembra-nos, com efeito, que
não seria questão aqui de reconstruir uma lógica de correspodência entre "fatos" ( Tatsachen) e
"proposições" (Sätze) de ordem ética. Afinal, de acordo com o Tractatus, não pode haver
proposições na ética (Darum kann es auch keine Sätze der Ethik geben, 6.42), pois a ética
ocupa-se não de fatos mas de valores, em particular, do valor absoluto associado à boa
vontade. A rejeição do logicismo da concepção da linguagem do Tractatus pelo autor das
Investigações é, neste sentido, um tanto instrutiva. Apesar de não ater-nos ao problema da
"linguagem privada" ou à concepção wittgensteiniana de "jogos de linguagem", introduzimos
o problema do presente ensaio em termos de suas dimensões lógico-filosóficas a fim de
enfocar a concepção de ética, em Kant e Hegel, em função de seus pressupostos conceituais
ao nível mesmo da fundamentação e da justificação de juízos morais. Ora, a questão da
justificação --tanto em Kant quanto em Hegel-- parece ser eclipsada pelo próprio princípio da
autonomia da razão prática, na medida em que a determinação de ações sobressai à
determinação de juízos. O problema da fundamentação da ética será, portanto, elaborado neste
capítulo a partir de deslocamentos semânticos que se operam dentro do próprio movimento
conhecido como "o idealismo alemão". Trata-se de investigar como a questão "o que é ética?"
pode ser reformulada hoje, graças às suas formulações normativas em Kant e Hegel. Partindo
da formulação da moralidade em Kant, fundada numa concepção de razão prática que
possibilita e se distingue do uso teórico da razão, procurar-se-á problematizar a solução
dialética proposta pela eticidade em Hegel, na sua tentativa de resgatar a unidade entre o
sujeito e o objeto, supostamente perdida na oposição kantiana entre uso teórico e uso prático
da Vernunft, entre o fundamento lógico-transcendental e a justificação ético-prática.
Estaremos lidando, assim, com duas concepções diferentes – embora aparentadas – da
racionalidade do agir humano.
Trata-se de revermos a fundamentação normativa da ética em Kant e Hegel, partindo da
leitura de um artigo de Jean-François Kervegan, de forma a contrastar o modelo kantiano de
fundamentação moral do político com o seu homólogo hegeliano, que visa a justificar o ético
em termos políticos através de uma concepção historicizada da subjetividade moderna. É com
o intuito de responder a algumas questões suscitadas nesse artigo que nos propomos a
reexaminar conceitos-chave da ética e da filosofia política em Kant e Hegel a fim de melhor
compreender o atual debate sobre a fundamentação e a justificação das proposições práticas.
Com efeito,) aque
(Sittlichkeit crítica de Hegelopõe
o primeiro a Kant, mais"moralidade"
a uma precisamente abstrata
a concepção concreta
( Moralität de segundo,
) no "eticidade"já
havia sido retomada e problematizada por outros autores contemporâneos, tais como Dieter
Henrich, Jürgen Habermas e Ernst Tugendhat, com o mesmo intuito específico de enfocar o
problema da fundamentação de proposições práticas.[4] A srcinalidade do ensaio de
Kervegan consiste, entretanto, em haver enfocado o aspecto fundamental desta problemática
enquanto princípio comum aos dois filósofos, a saber, o princípio da autonomia da vontade
racional ao nível da determinação da ação e de sua justificação. Ao mostrar os lugares comuns
e os pontos de divergência em ambos, Kervegan logra enfatizar a afinidade existente entre
uma fundamentação transcendental da filosofia prática em Kant e a dialética hegeliana que
visa superá-la (aufheben) pela objetivação histórica da ação moral. Hegel é redescoberto aqui
como "anti-kantiano" que desvela, pela própria negatividade de sua filosofia, o caráter
essencialmente "kantiano" do seu idealismo especulativo --o ato livre da auto fundamentação.
Sem negar a importância da leitura que faz da crítica de Hegel a Kant, pode-se demonstrar
que a problemática enunciada por Kervegan carece de um questionamento mais aprofundado
ao nível mesmo da sua fundamentação ético-filosófica. De maneira mais específica, o autor
parece apropriar-se da crítica de Hegel a Kant sem explorar os pressupostos filosóficos que
distinguem os dois projetos de fundamentação, sobretudo no que diz respeito ao uso de
termos lógico-transcendentais que Hegel apropria de Kant.
Sem dúvida, é somente com Hegel e a partir de seus críticos que as concepções modernas de
autoconsciência e autodeterminação podem ser concretamente formuladas, sendo histórica e
politicamente concebidas no engendramento e na sedimentação de valores morais através das
institutições sociais. Mas foi graças à revolução antropocêntrica operada pela filosofia prática
de Kant que a antropogênese hegeliana veio corroborar uma concepção doethos moderno
baseado na autonomia da liberdade humana e não na mera busca individual da felicidade.
Assim como o idealismo alemão fez do conceito da liberdade "a ideia central de toda
filosofia", como assinala Denis Rosenfield, foi Hegel quem elaborou uma concepção da
história enquanto "lugar de realização do Espírito", tanto para o êxito das figuras da liberdade
como para o "processo de figuração negativa da liberdade, ele mesmo constitutivo de seu
ser". Como lemos numa adição de Ganz ao texto de Hegel, "o princípio do mundo moderno é
a liberdade da subjetividade, o princípio de que todos os aspectos essenciais presentes na
totalidade espiritual alcancem o que é seu por direito, no seu desenvolvimento". Proponho-me
a mostrar ao longo deste paper que a concepção de uma eticidade que se revela objetiva pela
efetivação do princípio de subjetividade na constituição do Estado moderno deve pressupor,
antes de mais nada, que a lógica de fundamentação kantiana seja "realizável", no sentido de
sua efetividade [Wirklichkeit]. Assim, o problema maior de um formalismo que enuncia o
imperativo categórico não reside tanto no que é enunciado quanto na sua forma, isto é, na sua
formulação proposicional de fundamentação. Esta será, de resto, a tese central deste ensaio
que, para fins didáticos, foi dividido em três seções correspondentes aos três tópicos
anunciados no título, a saber, a moralidade em Kant, a eticidade em Hegel e a fundamentação
da ética.
A fundamentação moral do político em Kant
"O princípio fundador do idealismo alemão é o da independência e da autonomia da
razão".(PFE 33) Assim inicia Kervegan o seu rapprochement filosófico entre Kant e Hegel,
assinalando, logo de saída, o acordo assertivo do segundo em relação ao primeiro. Kervegan
remete-nos a lembrar-nos que, por um lado, o princípio da autonomia revela-se fundador
apenas no uso prático da razão, e por outro lado, o interesse fundamental da razão é
eminentemente prático. Contrastando com a análise kantiana que distingue os usos da razão, a
síntese hegeliana visa "reconciliar o interesse teórico e o interesse prático na unidade
especulativa da razão dialética".(PFE 33) É mister verificar como se justifica, no campo
prático-ético, tal princípio idealista da autonomia racional. Antes de aprofundar um exame da
crítica de Hegel a Kant, os dois aspectos que, paradoxalmente, aproximam e afastam os
projetos éticos
A ideia de umados dois filósofos podem
autodeterminação ser assim
racional resumidos.
da ética aparece como o ponto de convergência
entre Kant e Hegel, em oposição a concepções tradicionais que privilegiavam os fins da ação,
tomados empiricamente ou concebidos materialmente numa proposta de fundamentação
moral. Segundo Kant, o filósofo crítico não pode servir-se de "princípios empíricos" para
fundamentar sua doutrina moral (Sittenlehre) nem poderia ainda "pôr como fundamento
nenhuma intuição (de um puro número)", mas pode legitimamente acrescentar à "vontade
empiricamente afetada" a "lei moral". Apesar de não explicitar a questão da unidade
sistemática das três Críticas, Kervegan parece compartilhar uma "solução teleológica" na
leitura que faz dos §§ 76 e 77 da terceira Crítica.(PFE 38-40)[7] Em todo caso, a distinção
kantiana entre Verstand e Vernunft enquanto faculdades superiores do conhecimento,
invocada na KrV no campo teórico da primeira (natureza), deveria ser também pressuposta no
campo prático da liberdade, pela qual se articula o uso prático da razão pura. A lei moral pura
aparece, portanto, como o genuíno móbil da razão pura prática. Kervegan apenas menciona o
imperativo categórico como fórmula que "ilustra" o princípio de autonomia, quando na
verdade a KpV (§ 7) o apresenta como "lei fundamental da razão pura prática" [ Grundgesetz
der reinen praktischen Vernunft]:
"A regra prática é, pois, incondicionada, por conseguinte, apresentada a priori como
uma proposição categoricamente prática, mediante a qual a vontade é de um modo
absoluto e imediato objetivamente determinada (pela própria regra prática, que aqui
constitui, pois, uma lei). (...) A vontade é concebida como independente de condições
empíricas,
lei por conseguinte,
, e este princípio como vontade
de determinação é vistopura
como a condi-çãopela
determinada simplesdeforma
suprema todas da
as
máximas".(KpV 55/trad. 42-3)
A fim de reconstituir a problemática da fundamentação tal como ela aparece em Kant,
recapitulemos os três problemas seguintes, unindo as três grandes questões da filosofia moral
kantiana:
1. A primeira questão é de saber se há um princípio supremo da moralidade, se pode ser
conhecido, e como pode ser estabelecido. Trata-se portanto do primeiro problema da
fundamentação. Na Nota Final da Fundamentação (GMS III Schlussanmerkung), Kant
observa que o "uso especulativo da razão (Vernunft), com respeito à natureza, conduz à
absoluta necessidade de qualquer causa suprema do mundo; o uso prático da razão, com
respeito à liberdade, conduz também a uma necessidade absoluta, mas somente das leis das
ações de um ser racional (eines vernünftigen Wesens) como tal". O problema consiste em
conciliar liberdade empírica e liberdade transcendental, liberdade negativa e liberdade
positiva.
2. A segunda questão é a de justificar este princípio. No oitavo parágrafo da segunda Crítica,
Kant rechaça toda
materialmente tentativa
a razão teleológica
prática, (p. ex.,
estando todas eudaimonistas
as leis e utilitaristas)
morais e deveres de fundamentar
a ela conformes única e
exclusivamente fundadas no princípio supremo formal da autonomia da vontade. O problema
é de saber se podemos ou não manter, hoje, o argumento kantiano da fundamentação formal
da razão prática.
3. Finalmente, temos a questão de passarmos do princípio fundamental da moral a uma
metafísica dos costumes. A questão do reino dos fins (3a. versão do imperativo categórico, na
GMS), e suas implicações políticas e teleológicas, é retomada no escrito sobre a "Idéia de
uma História Universal". Assim, lemos na Proposição 4, "O meio de que a natureza se serve
para realizar o desenvolvimento de todas as suas disposições [i.e., do homem] é o
antagonismo das mesmas na sociedade, na medida em que ele se torna ao fim a causa de uma
ordem regulada por leis desta sociedade." Assumindo que Kant considerava o contrato social
como uma ideia a priori da razão prática pura, como é que a insociável sociabilidade que
caracteriza a saída do estado de natureza à sociedade civil, possibilita efetivamente o
progresso social que realiza na história o fato moral? Tratar-se-ia portanto de reconhecer tal
lei fundamental como "proposição sintética a priori", cuja consciência Kant denomina "fato
da razão" [Faktum der Vernunft], anterior à própria consciência da liberdade, e cuja
universalidade e necessidade --exigidas por uma lei válida para todos seres racionais, dotados
de uma vontade-- a constituem como "princípio da moralidade"

REFERÊNCIAS
BOFF, Leonardo. Saber cuidar. Ética do humano, compaixão pela terra, Rj, Vozes. 2010.

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UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 7 - Fundamentos da Ética


A questão da finalidade do agir: Deus, a pessoa humana
Natureza humana
A natureza humana é um conjunto de características descritas pela filosofia, incluindo formas
de agir e pensar, que todos os seres humanos têm em comum. Vários são os ramos da ciência
que estudam a natureza humana, incluindo sociologia, sociobiologia, psicologia, dentre
outros.
De Filósofos
acordo com eoteólogos
conceitotambém
aceitofazem
pela pesquisas sobre o assunto.
ciência moderna, natureza humana é a parte do
comportamento humano que se acredita que seja normal e/ou invariável através de longos
períodos de tempo e de contextos culturais dos mais variados. Entretanto, esse entendimento é
equivocado, dado que a ciência não crê em natureza humana, pois tem essa um caráter
metafísico.
Metafísica e ética
Existem várias perspectivas em relação à natureza e à essência fundamentais dos seres
humanos. Estes são, de qualquer forma, mutuamente exclusivos. A seguinte lista não é de
forma alguma exaustiva:
Naturalismo filosófico, que inclui materialismo e racionalismo: Engloba um conjunto de
pontos de vista que os seres humanos são puramente fenômenos naturais; seres sofisticados
que evoluíram para o nosso atual estado através de mecanismos naturais, como a evolução.
Filósofos humanistas determinam o bem e o mal através do que seriam as "qualidades
humanas universais", mas outros naturalistas empregam esses termos como meros rótulos
colocados em quão bem o comportamento individual está em conformidade com às
expectativas da sociedade, e é o resultado da nossa psicologia e socialização.
Livre arbítrio e determinismo
A questão do livre arbítrio e determinismo toma conta de grande parte do debate sobre a
natureza humana. Livre arbítrio refere-se à capacidade do homem de fazer escolhas
verdadeiramente livres (em certo sentido). No que se refere aos seres humanos, a tese do
determinismo implica que as opções humanas são plenamente causadas por forças internas e
externas.
Incompatibilismo: sustenta que o determinismo e o livre arbítrio são contraditórios (ou ambos
são falsos). As visões incompatibilistas podem negar ou aceitar o livre arbítrio.
Visões incompatibilistas em favor do livre arbítrio incluem:
Libertarianismo entende que a percepção humana de livre escolha em ação é verdadeiro, em
vez de aparentemente verdadeira, dessa forma, as nossas ações são executadas sem que haja
qualquer coerção por forças internas ou externas.
Tomismo sustenta que os seres humanos têm uma verdadeira experiência de livre arbítrio, e
essa experiência é prova de um alma que transcende os meros componentes físicos do ser
humano.
Espiritual versus natural
Outro aspecto discutido muitas vezes da natureza humana é a existência da relação do corpo
físico com o espírito ou alma, que transcende os atributos físicos do homem, bem como a
existência de qualquer propósito transcendente. Nesta área, há três posições dominantes:
A visão filosófica naturalista: Posição em que os seres humanos são absolutamente naturais,
sem nenhum componente espiritual ou propósito transcendente. Subconjuntos da visão
naturalista incluem os materialistas e os fisicalistas, posições que consideram que os seres
humanos são totalmente físicos. No entanto, alguns naturalistas são também dualistas a cerca
da mente e do corpo. O naturalismo, combinado com as ciências naturais e sociais, veêm os
humanos como seres não planejados do produto da evolução, que operava em parte pela
seleção natural sobre mutação aleatória. Naturalistas filosóficos não acreditam numa
passagem sobrenatural. Enquanto o naturalismo filosófico é frequentemente abordado como
uma visão inaceitável da natureza humana, é promovido por muitos proeminentes filósofos e
pensadores. O naturalista filosófico frequentemente vai achar como semelhante a crença
religiosa e a superstição e como um mal produto de um pensamento mágico.
Em contraste com o materialismo, existem as posições platonistas ou idealistas. Isto pode ser
expresso de muitas formas, mas, na essência, a visão é que existe uma diferença entre a
aparência e a realidade, e o que vemos no mundo que nos rodeia é simplesmente um reflexo
de algo mais elevado, a existência divina, a qual a alma / mente ou espírito dos humanos (e
talvez até os animais) pode ser parcial. Em seu livro, Platão representa a humanidade como
prisioneiros presos desde o nascimento dentro de uma caverna subterrânea, incapazes de
mover a cabeça, e, portanto, capazes apenas de ver as sombras nas paredes que apareceram
por um incêndio ocorrido fora da caverna, sombras estas que, em sua ignorância, os
moradores da gruta tem uma visão errada da realidade. Para Platão, portanto, a alma é um
espírito que usa o corpo. Ela está em um estado não-natural de união, e espera por ser liberto
de sua prisão corporal (cf. República, X, 611).
Entre o materialismo e idealismo situa-se o pensamento de São Tomás de Aquino, cujo
sistema de pensamento é conhecido como Tomo mesmo. Seu pensamento é, em essência, uma
síntese da teologia cristã, bem como de uma releitura da filosofia de Aristóteles. Aristóteles
descreve o homem como um "animal racional", isto é, um sistema único e indiviso sendo que
é ao mesmo tempo animal (material) e racional (alma intelectual). Desenho do hylomorphism
aristotélico, a alma é vista como uma forma substancial do corpo (matéria). A alma, como a
forma substancial, é aquilo que é universal, ou comum, para toda a humanidade, e, portanto, é
indicativo da natureza humana, o que diferencia uma pessoa de outra é uma questão a qual
Aquino se refere como o princípio da individualização.
A moralidade
Há uma série de pontos de vista sobre a srcem e a natureza da moralidade humana:
Realismo moral ou objetivismo moral: diz que os códigos morais existem fora da parecer
humana - que certas coisas são certas ou erradas, independentemente da opinião do homem
sobre o assunto. A moralidade objetiva pode ser vista como decorrente da natureza intrínseca
da humanidade, de um comando divino, ou ambos.
Relativismo moral: diz que os códigos morais são uma função dos valores humanos e das
estruturas sociais, e não fazem sentido fora da convenção social.
Absolutismo moral: é de opinião que certos atos são certos ou errados, independentemente do
contexto.
Universalismo moral: tenta uma união entre o relativismo moral e o absolutismo moral e
sustenta que existe, ou deveria existir, um núcleo universal comum de moralidade.
Visões influentes da natureza humana
Muitas escolas influentes de pensamento têm defendido concepções particulares da natureza
humana, e integram nas suas concepções outras ideias. Entre eles estão oPlatonismo,
Marxismo e Freudianismo.
Platão
Platão
Sócratestomou uma concepção
e construiu de motivo como
tanto a metafísica, e a analisou a partir da
a antropologia emvida
tornoque ele Há
dela. aprendeu com
uma alma
intelectual residente na cabeça humana, e há um apetite animal residente na barriga e genitais.
O dever dos antigos é manter a última forma mansa para, com o tempo, receber a morte como
uma fuga a esta desconfortável coabitação.
Em um ou outro disfarce, o dualismo de Platão foi imensamente influente. Isto foi
profundamente insinuado na Teologia Cristã - um processo que começou, talvez, tão cedo
quanto o Evangelho de João. A famosa teoria de Descartes do contraste da alma que pensa e
do corpo ser a extensão da alma, é tomada de Platão, como é o contraste entre os fenômenos e
os aspectos da natureza humana de Kant.
O que todas estas visões têm em comum é a seguinte estrutura: "existe uma parte invariável
da natureza humana, e minha teoria a divulgará melhor do que outras teorias." Essa estrutura
permite o avanço na história - porque ao conhecer-nos melhor mais próximos estamos do
progresso. Mas a natureza humana em si, como o objeto desse conhecimento, é considerada
uma constante. De fato, na teoria de Kant, a natureza humana no verdadeiro sentido não pode
realmente dizer que muda porque mudança exige tempo, e o tempo é uma característica única
do mundo como fenômeno real.
Hegel representa um importante rompimento com esta hegemonia platônica. Tomando como
base o conceito de dialética, tudo é, por assim dizer, para agarrar-se: assim como homem tenta
conhecer-se melhor, o objeto do conhecimento necessariamente muda.
Aristóteles
O mais famoso estudante de Platão fez alguns das mais famosas e influentes declarações
sobre a natureza humana.
O homem é um animal conjugal (Nicomachean Ethics), o que significa que é um animal que
está a se acasalar quando adulto, assim, construir um lar (oikos) e, em casos mais bem
sucedidos, de um clã ou pequena aldeia que ainda existem por linhas patriarcais.
O homem é um animal político, o que significa que um animal com uma propensão inata a
desenvolver comunidades complexas do tamanho de uma cidade ou vila. Como um animal
político, em contraste com a sua família e vida no clã, o homem vive na sua racionalidade -
mais plenamente na criação de leis e tradições.
O homem é um animal mimético (Poética). Neste caso, Aristóteles enfatiza a razão humana
na sua forma mais pura. O homem ama utilizar sua imaginação, e não apenas fazer leis e
participar de reuniões.
É claro que, para Aristóteles, a razão não é apenas o que é mais estranho sobre a humanidade,
mas é também aquilo que era destinada a alcançar em seu melhor. Grande parte da posição
Aristotélica ainda deve ser considerada, mas deve ser mencionado que a ideia de que a
natureza humana era "significativa" ou éramos destinados a ser algo, tornou-se muito menos
popular nos tempos modernos.
Rousseau
O escrito de Jean Jacques Rousseau, antes da Revolução Francesa e muito antes de Darwin,
chocou o ocidente, propondo que os seres humanos haviam sido animais solitários, e depois
tinham aprendido a serem políticos. O ponto importante sobre isto foi a ideia de que a
natureza humana não foi fixada, ou pelo menos não da forma anteriormente sugerida pelos
filósofos. Os seres humanos são políticos agora, mas eles não eram srcinalmente. Isto
quebrou um terreno político importante e também perigoso para os acontecimentos políticos
do século XIX ao século XX, em que, para dar os exemplos mais chocantes, o totalitarismo e
a lavagem cerebral se desenvolviam.
Ele foi uma influência importante em Kant, Hegel e Marx, mas ele deixou claro que ele era
parte do desenvolvimento do pensamento de Thomas Hobbes.
Karl Marx
A concepção da natureza humana de Karl Marx tem sido objeto de grande incompreensão. É
frequentemente difundido que Marx negou que houvesse qualquer natureza humana, e disse
que os seres
depender humanos desãosuasimplesmente
inteiramente socialização uma "ardósia em
e experiência. branco",quecuja
É verdade personagem
Marx vai
colocou uma
enorme importância na perspectiva de que as pessoas são influenciadas e, em parte,
determinadas por seus ambientes. Mas, no entanto, ele teve uma forte noção de natureza
humana. Marx discutiu o conceito de "essência das espécies" (do alemão Gattungswesen, às
vezes também traduzida como "o ser das espécies. Ele acreditava que sob o capitalismo,
somos alienados - ou seja, divorciados de aspectos da nossa natureza humana. Ele previu a
possibilidade de sociedade seguindo o capitalismo que permitiria aos seres humanos a exercer
plenamente a sua natureza humana e a individualidade. Seu nome para esta sociedade era
comunismo. No entanto, vale a pena ter em mente que, desde os dias de Marx, este termo tem
sido utilizado com vários significados diferentes, não de todos os que foram compatíveis com
a utilização srcinal de Marx. A compreensão de Marx da natureza humana, não só
desempenha um papel na sua crítica ao capitalismo e, em sua convicção de que uma
sociedade melhor seria possível (como já indicado). Isto também instruiu sua Teoria da
História. A dinâmica subjacente da história, para Marx, é a expansão das forças produtivas.
Em "A Ideologia Alemã", Marx diz que dois ou três aspectos da atividade social que
fundamentam a história é a tendência das pessoas a agir de forma a satisfazer as suas
necessidades, e daí em diante, a tendência para gerar novas necessidades [2]. Esta tendência
humana, para Marx, é o que impulsiona a contínua expansão da capacidade produtiva na
civilização humana.
A escola austríaca
A escola austríaca de economia, em torno dos anos 1871-1940, desenvolveu a sua própria
opinião amplamente em oposição a Marx, e em oposição a um grupo de estudiosos
historicistas. No processo, eles desenvolveram uma visão diferente da natureza humana - em
termos estruturais, este ponto de vista retornou por pensadores mencionados neste inquérito
antes de Hegel. Tal como Descartes e Kant, esses pensadores acreditavam que existe uma
invariante da natureza humana, mas que o progresso é possível na história através da
compreensão mais completa da natureza. Eles conceberam que a natureza humana em termos
de racionalidade delimitada e do exercício de "utilidade marginal", e acreditavam que a posse
desta utilidade pelo mercado, criaria uma condição de ordem espontânea que seria mais
racional do que qualquer alternativa que possa ser planejada, dada a limitada racionalidade
dos eventuais planejadores.
Sigmund Freud
Durante o mesmo período de tempo, a Áustria também acolheu o desenvolvimento da
psicanálise. Seu fundador, Sigmund Freud, acreditava que os marxistas estavam certos em se
concentrar no que ele chamou de "a influência decisiva que as circunstâncias econômicas dos
homens têm sobre suas atitudes intelectuais, éticas e artísticas". Mas ele pensava que a visão
marxista da luta de classes era demasiadamente superficial, atribuindo aos últimos séculos
conflitos que foram, sim, primordiais. Atrás de luta de classes, de acordo com Freud, ergue-se
o conflito entre pai e filho, entre um clã estabelecido e um desafiador rebelde. Neste espírito,
Freud pesadamente criticou a União Soviética, escreveu em 1932 que os seus próprios líderes
se tornaram "inacessíveis a dúvida, sem sentimento em relação ao sofrimento dos outros
enquanto estão buscando suas próprias intenções".
Referências Bibliográficas
BERRY, Christopher J. Human Nature (MacMillan, 1986).
MILLER, Martin A. Freud e os Bolsheviks: Psicanálise Imperial na Rússia e na União
Soviética (New Haven, CT 1998).

Elaborar um TEXTO ARGUMENTATIVO de no máximo 1 página a respeito do tema da


aula de hoje.
Ministério da Educação
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 8 - Fundamentos da Ética


Avaliação
Ministério da Educação
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 9 - Fundamentos da Ética


Ética ou Moral?
Ética e Moral
No contexto filosófico, ética e moral possuem diferentes significados. A ética está
associada
humano em ao sociedade,
estudo fundamentado
enquanto a dos
moralvalores
são osmorais que regras,
costumes, orientamtabus
o comportamento
e convenções
estabelecidas por cada sociedade.
Os termos possuem srcem etimológica distinta. A palavra “ética” vem do Grego “ethos” que
significa “modo de ser” ou “caráter”. Já a palavra “moral” tem srcem no termo latino
“morales” que significa “relativo aos costumes”.
Ética é um conjunto de conhecimentos extraídos da investigação do comportamento humano
ao tentar explicar as regras morais de forma racional, fundamentada, científica e teórica.
É uma reflexão sobre a moral.
Moral é o conjunto de regras aplicadas no cotidiano e usadas continuamente por cada
cidadão. Essas regras orientam cada indivíduo, norteando as suas ações e os seus julgamentos
sobre o que é moral ou imoral, certo ou errado, bom ou mau.
No sentido prático, a finalidade da ética e da moral é muito semelhante. São ambas
responsáveis por construir as bases que vão guiar a conduta do homem, determinando o seu
caráter, altruísmo e virtudes, e por ensinar a melhor forma de agir e de se comportar em
sociedade.
A diferença entre moral e ética
Se for pesquisar no dicionário Aurélio o significado da palavra moral, iremos encontrar a
seguinte definição: adj. De acor do com os bons costu mes. / Que épr ópr io par a favorecer os
bons costumes. / Relativo ao espírito; intelectual (por oposição ao físico, ao material). /
S.m. E stado de espí rito, disposição de ânimo. / S.f . A par te da f ilosofi a qu e trata dos
costumes, deveres e modo de proceder dos homens nas relações com seus semelhantes;
éti ca. / Cor po de preceitos e r egras para dir igir as ações do homem, segundo a justiça e a
equi dade natu r al. / A s leis da hones tidade e do pudor; mor ali dade .
Se for analisar, a moral não é algo individual, ela vem da cultura de uma sociedade. Um
exemplo no Brasil, a poligamia é algo imoral, pois temos uma herança cultural e moral
católica, do qual condena a poligamia. A moral estabelece limites, ela determina o que é
correto ou não para aquela sociedade e cada ao indivíduo decide seguir ou não.
A palavra moral vem do latim mores, que significa costume. Podemos descrever então que
moral são as normas de conduta de uma sociedade, para permitir um equilíbrio entre os
anseios individuais e os interesses da sociedade. Por isso do termo conduta moral, que é a
orientação
A ética tempara
umossignificado
atos segundo os valores
muito descritos
próximo ao dapela sociedade.
moral. Ética vem do grego ethos, que
também significa conduta, modo de agir, mas o que diferencia moral da ética é o sentido
etimológico, no qual a moral tem como propósito estabelecer um convívio social de acordo
com o que é bem quisto pela sociedade, já a ética é identificada como uma filosofia moral,
onde se busca entender os sentidos dos valores morais.
A ética busca avaliar os princípios em seu individual, onde cada grupo possuem seus próprios
valores, culturas e crenças. Ela constitui um sistema de argumentos dos quais os grupos ou as
pessoas justificam suas ações.
A configuração principal da ética é solucionar conflitos de interesses, baseando em
argumentos universais. A ética tem seu impasse, pois o que é considerado ético para um
grupo, não é para outro. Podemos ver nas redes sociais muita discursão sobre a
homossexualidade, se é ético e está dentro da moralidade o relacionamento homo afetivo e o
quanto a sociedade permite a exposição do mesmo. A verdade que impasse se dar devido o
brasileiro vir de uma cultura cristã que sempre impôs que o relacionamento tem como o
objetivo principal a procriação e como isso não acontece nos relacionamentos homo afetivos,
esses são consideramos por muito imorais e antiéticos.
A modernidade vem mudando muitos desses valores éticos, e hoje os indivíduos são
considerados pessoas livres, o que leva a um relativismo, do qual a ética pode contornar a
situação e conduzir a uma moralidade do qual os fins justificam os meios.
O sentido hoje da ética é estabelecer uma universalidade dos valores, sem considerar a
influência de uma ordem universal. Todos estão corretos e todos estão errados, vai de acordo
com o que é ético para o indivíduo.
Conceitos de Ética e Moral com base em filósofos: Distinção entre Ética e Moral
Os conceitos de moral e ética, embora sejam diferentes, são com freqüência usados como
sinônimos. Aliás, a etimologia dos termos é semelhante: moral vem do latim mos, moris, que
significa “maneira de se comportar regulada pelo uso”, daí “costume”, e de moralis, morale,
adjetivo usado para indicar o que é “relativo aos costumes”. Já ética vem do grego ethos, que
tem o mesmo significado de “costume”.
Segundo Adolfo Sánchez Vásquez, tanto ethos como mos indicam um tipo de comportamento
propriamente humano que não é natural, o homem não nasce com ele como se fosse um
instinto, mas que é “adquirido ou conquistado por hábito”.
Lembrando a afirmação de filósofos como Aristóteles, para o qual o homem é um animal por
natureza social, político, e Thomas Morus, que afirmava que “nenhum homem é uma ilha”,
podemos afirmar que a moral tem um papel social, afinal, é o conjunto de regras que
determinam como deve ser o comportamento dos indivíduos em grupo, mas, ademais, é
preciso ressaltar que ela também está relacionada com a livre e consciente aceitação das
normas. Dessa forma, o homem ocupa um papel ambíguo, de herdeiro e criador de cultura, só
conseguindo ter uma vida autenticamente moral quando, a partir da moral herdada, é capaz de
propor uma moral forjada em suas experiências de vida. Já a ética é a parte da filosofia que se
ocupa com a reflexão a respeito das noções e princípios que fundamentam a vida moral. Essa
reflexão pode seguir as mais diversas direções, dependendo da concepção de homem que se
toma como ponto de partida e, ao longo da história, filósofos foram responsáveis por diversas
concepções de vida moral, como veremos a seguir.
A concepção de ética e moral ao longo do tempo
No período clássico da filosofia grega, os sofistas rejeitam a tradição mítica ao considerar que
os princípios morais resultam de convenções humanas. Embora na mesma linha de oposição
aos fundamentos religiosos, Sócrates se contrapõe aos sofistas ao buscar aqueles princípios
não nas convenções, mas na natureza, o que se apreende em inúmeros diálogos de Platão, nos
quais são descritas as discussões socráticas a respeito das virtudes e da natureza do bem.
Resulta daí a convicção de que a virtude se identifica com a sabedoria e o vício com a
ignorância:
Platão, comoportanto, a virtude
Sócrates, combatenão pode ser aprendida.
o relativismo moral dos sofistas. Sócrates estava convencido
que os conceitos morais se podiam estabelecer racionalmente mediante definições rigorosas.
Estas definições seriam depois assumidas como valores morais de validade universal. Platão
atribui a estes conceitos ético-políticos o estatuto de Idéias (Justiça, Bondade, Bem, Beleza
etc.), pressupondo que os mesmos são eternos e estão inscritos na alma de todos os homens.
Para Platão a Justiça consiste no perfeito ordenamento das três almas e das respectivas
virtudes que lhe são próprias, guiadas sempre pela razão. A felicidade, portanto, consiste
neste equilíbrio. Herdeiro do pensamento de Platão, Aristóteles aprofunda a discussão a
respeito das questões éticas, mas, para ele, o homem busca a felicidade, que consiste na vida
teórica e contemplativa cuja plena realização coincide com o desenvolvimento da
racionalidade. O que há de comum no pensamento dos filósofos gregos é a concepção de que
a virtude resulta do trabalho reflexivo, da sabedoria, do controle racional dos desejos e
paixões.
Também do século XIX, Sartre afirma que:
“O conteúdo [da moral] é sempre concreto e, por conseguinte, imprevisível; há sempre
invenção. A única coisa que conta é saber se a invenção que se faz, se faz em nome da
liberdade”. A decorrência desse pensamento é a dificuldade em estabelecer os critérios para a
fundamentação da moral. Sartre prometeu e não conseguiu cumprir a elaboração de uma ética
que não sucumbisse ao individualismo e relativismo já que, segundo ele, “cada homem é
responsável por toda humanidade”.
No mundo contemporâneo, a situação da moral e da ética, em síntese, nos lança diante de um
impasse: de um lado prevalece a ordem subjetiva das vivências e emoções, a anarquia dos
princípios ou a simples ausência deles; de outro lado, a razão dominadora, instrumento de
repressão, como nos denuncia Marx e Nietzsche, entre outros.
Dessa forma, conclui-se que, apesar de serem etimologicamente semelhantes, a moral e a
ética são distintas, tendo a moral um caráter prático imediato e restrito, visto que corresponde
a um conjunto de normas que regem a vida do indivíduo e, consequentemente, da sociedade,
apontando o que é bom e o que é mal, influenciando os juízos de valores e as opiniões. Em
contrapartida, a ética caracteriza-se como uma reflexão filosófica de caráter universalista
sobre a moral, a fim de analisar os princípios, as causas, mas, também as consequências das
ações dos indivíduos para a sociedade.
Moral e Ética: Dois Conceitos de Uma Mesma Realidade
A confusão que acontece entre as palavras Moral e Ética existem há muitos séculos. A própria
etimologia destes termos gera confusão, sendo que Ética vem do grego “ethos” que significa
modo de ser, e Moral tem sua srcem no latim , que vem de “mores”, significando
costumes. Esta confusão pode ser resolvida com o esclarecimento dos dois temas, sendo que
Moral é um conjunto de normas que regulam o comportamento do homem em sociedade, e
estas normas são adquiridas pela educação, pela tradição e pelo cotidiano. Durkheim
explicava Moral como a “ciência dos costumes”, sendo algo anterior a própria sociedade. A
Moral tem caráter obrigatório.
Já a palavra Ética, Motta (1984) define como um “conjunto de valores que orientam o
comportamento do homem em relação aos outros homens na sociedade em que vive,
garantindo, outrossim, o bem-estar social”, ou seja, Ética é a forma que o homem deve se
comportar no seu meio social.
A Moral sempre existiu, pois todo ser humano possui a consciência Moral que o leva a
distinguir o bem do mal no contexto em que vive. Surgindo realmente quando o homem
passou a fazer parte de agrupamentos, isto é, surgiu nas sociedades primitivas, nas primeiras
tribos. A Ética teria surgido com Sócrates, pois se exigi maior grau de cultura. Ela investiga e
explica as normas morais, pois leva o homem a agir não só por tradição, educação ou hábito,
mas principalmente por convicção e inteligência. Vásquez (1998) aponta que a Ética é
teórica e reflexiva, enquanto a Moral é eminentemente prática. Uma completa a outra,
havendo um inter-relacionamento entre ambas, pois na ação humana, o conhecer e o agir são
indissociáveis.
Em nome da amizade, deve-se guardar silêncio diante do ato de um traidor? Em situações
como esta, os indivíduos se deparam com a necessidade de organizar o seu comportamento
por normas que se julgam mais apropriadas ou mais dignas de ser cumpridas. Tais normas são
aceitas como obrigatórias, e desta forma, as pessoas compreendem que têm o dever de agir
desta ou daquela maneira. Porém o comportamento é o resultado de normas já estabelecidas,
não sendo, então, uma decisão natural, pois todo comportamento sofrerá um julgamento. E a
diferença prática entre Moral e Ética é que esta é o juiz das morais, assim Ética é uma
espécie de legislação do comportamento Moral das pessoas. Mas a função fundamental é a
mesma de toda teoria: explorar, esclarecer ou investigar uma determinada realidade.
A Moral, afinal, não é somente um ato individual, pois as pessoas são, por natureza, seres
sociais, assim percebe-se que a Moral também é um empreendimento social. E esses atos
morais, quando realizados por livre participação da pessoa, são aceitas, voluntariamente.
Pois assim determina Vasquez (1998) ao citar Moral como um “sistema de normas, princípios
e valores, segundo o qual são regulamentadas as relações mútuas entre os indivíduos ou entre
estes e a comunidade, de tal maneira que estas normas, dotadas de um caráter histórico e
social, sejam acatadas livres e conscientemente, por uma convicção íntima, e não de uma
maneira mecânica, externa ou impessoal”.
Enfim, Ética e Moral são os maiores valores do homem livre. Ambos significam "respeitar e
venerar a vida".
destruindo,
O homem, com seu livre arbítrio, vai formando seu meio ambiente ou o
ou ele apóia a natureza e suas criaturas ou ele subjuga tudo que pode dominar, e
assim ele mesmo se torna no bem ou no mal deste planeta. Deste modo, Ética e a Moral se
formam numa mesma realidade.
Ética e Moral - Suas relações e diferenciações
Dentro do senso comum, existe uma constante confusão entre o conceito de ética e o de
moral. São tidos como sinônimos, podendo isso ser explicado por uma relação intrínseca entre
os dois. O texto a seguir busca, ao invés de propor definições absolutas, expor ideias diversas
que nos levam a perceber várias diferenças entre o conceito de ética e o de moral, junto com a
percepção da definição de ambas.
Deve-se dizer, no que tange ao conceito de ética, que o texto a seguir não consiste numa mera
explicação, ou somente um agregado de conhecimentos enciclopédicos sobre o significado da
palavra (embora isso esteja incluso), mas sim uma proposta sobre diversas propostas, uma
diferenciação a mais entre ética e moral. Uma dessas propostas seria a dos filósofos que
seguiram Kant, esses que hierarquizaram ética por sobre a moral: Schelling: “A moral em
geral coloca um imperativo que só se dirige ao indivíduo, e exige apenas a absoluta
personalidade do indivíduo; a Ética coloca um imperativo que supõe uma sociedade de seres
morais e assegura a personalidade de todos os indivíduos através daquilo que ela exige de
cada um deles.”, e para Hegel, a ética seria o reino da moralidade.*
Mais uma proposta a se seguir tange para o ideal de ética de H. Spencer: “que entende a Ética
como um fragmento de um todo de que ela é inseparável e que é o estudo da conduta
universal (Data of Ethics, cap. I).”*
A moral, dentre muitas outras coisas, está para a ética como um objeto de estudo (de acordo
com o parágrafo precedente). O conceito de moral define e é definido pelo comportamento
humano na sociedade, varia de acordo com a cultura em questão e o período sócio histórico.
Uma das características do conceito de ética também varia de acordo com a cultura e período
sócio histórico (e a diferença? Ninguém disse que isso ia ser fácil de entender!), vamos
chamar essa característica de “o ponto de vista social da ética”, ou, para ficar mais fácil,
"Moral social".
“(...) a ética exprime a maneira como uma cultura e uma s ociedade definem para si mesmas
o que julgam ser o mal e o vício, a violência e o crime e, como contrapartida, o que
consideram ser o bem e a virtude, a brandura e o mérito.”**
A moral pode muito bem influenciar na busca ética, uma vez que ela pode influenciar as
pessoas, e os estudiosos da moral são pessoas. Oras, se Fulano busca definir a moral perfeita,
mas ao mesmo tempo é influenciado pela moral específica da sua sociedade de srcem,
Fulano possivelmente irá acabar por definir uma moral diferente da moral que Ciclano, em
outro país e cultura, poderia definir. Daí parte uma qualidade do filósofo Bento de Espinosa,
considerado um dos poucos que fugiu da moral do contexto em que vivia para definir uma
Ética o mais absoluta e calculada o possível.
A ética não necessariamente influi na moral, uma vez que seu domínio depende muito do
comprometimento intelectual dos envolvidos no conhecimento ético, ou seja: Assim como o
antropólogo pode passar despercebido pelas linhas do tempo, a ética passa despercebida pelas
decisões políticas e sociais de uma nação.
Novamente, o ser que busca se guiar pela moral, não busca uma moral perfeita, mas sim agir
perfeitamente em termos de moralidade dentro do que é a moral na sociedade presente.
Busca-se ser o mais perfeito herói, e não definir o que é o heroísmo, uma vez que isso já está
definido. Já a ética busca criticar o herói, será que ele é mesmo um herói?
É por isso que a Moral social existe com tamanha força na política, ela vende seu produto de
acordo com o que já existe no coração do povo, e a ética é muitas vezes tão mal aceita, pois
ela busca criticar, racionalmente, muitas coisas que podem ser valorosas às paixões do povo.

REFERÊNCIAS
PORTAL EDUCAÇÃO: Ahttp://www.portaleducacao.com.br/administracao/artigos/43087/a-
diferenca-entre-moral-e#ixzz3RU6TWQLv
ARISTÓTELES. Ética a Nicômaco. 3ª ed. Trad. Mário da Gama Cury. Brasília:
Universidade de Brasília, 1992.
KORTE, Gustavo. Iniciação à Ética. São Paulo: Juarez Oliveira, 1999.

Elaborar um TEXTO ARGUMENTATIVO de no máximo uma página a respeito do tema da


aula de hoje.
Ministério da Educação
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 10 - Fundamentos da Ética


Juízos de fato e juízos de valor
Juízos de valor e de fato
Um juízo de valor é um juízo sobre a correção ou incorreção de algo, ou da utilidade de algo,
baseado num ponto de vista pessoal. Como generalização, um juízo de valor pode referir-se a
um julgamento baseado num conjunto particular de valores ou num sistema de valores
determinado. Um significado conexo de juízo de valor é o de um recurso de avaliação
baseado nas informações limitadas disponíveis, uma avaliação efetuada porque uma decisão
deve ser tomada independentemente de estar em função da utilidade, da estética, da moral, ou
de qualquer outro critério valorativo.
A expressão juízo de valor pode ser usada num sentido positivo; significando que um
julgamento deve ser feito levando em conta um sistema de valores, ou, num sentido
depreciativo, significando um julgamento feito de um ponto de vista pessoal, em vez de um
pensamento racional, objetivo.
Neste sentido positivo, a recomendação ao se fazer um juízo de valor, é que se considere
cuidadosamente para evitar arbitrariedades e impetuosidade, e buscar consonância com as
convicções mais profundas que se tenha.
Em seu sentido depreciativo, a expressão juízo de valor implica uma conclusão que é isolada,
parcial e não-objetiva — contrastando com julgamentos baseados em deliberação, equilíbrio e
racionalidade.
Juízo de valor também pode referir-se a uma tentativa de julgamento baseada numa avaliação
estudada das informações disponíveis, tomadas como sendo incompletas e em evolução; por
exemplo,
emergência ummédica.
juízo deNeste
valor sobre
caso, lançar ou nãodo
a qualidade umjulgamento
ataque militar ou porque
sofre como proceder numa
a informação
disponível é incompleta como resultado da urgência, em vez de ser resultante de limitações
culturais ou pessoais.
Julgamento pessoal - Julgamento pessoal é uma expressão descrevendo um átomo de
segundo uma decisão tomada entre alternativas que não são favoráveis claramente ao (pib), e
que assim deve ser tomada numa base pessoal.
Valor neutro – Valor neutro é um adjetivo conexo que sugere independência de um
sistema de valores. Por exemplo, a classificação de um objeto depende do contexto: ele é uma
ferramenta ou uma arma, um artefato ou um antecedente? O objeto em si pode ser
considerado de valor neutro, não sendo nem bom nem mau, nem útil nem inútil, nem
significativo nem trivial, até que seja colocado em algum contexto social. Para uma discussão
sobre o valor neutro da tecnologia, ver Martin e Schinzinger. Estranhamente, um item
também pode ter um valor que é neutro na medida em que sua utilidade ou importância são
evidentes, independentemente do contexto social; por exemplo, oxigênio.

Juízos
Alguns de valor e seus
argumentam que contextos
a objetividade verdadeira é impossível, e que mesmo as mais
rigorosas análises racionais fundamentam-se no conjunto dos valores aceitos no curso da
análise. Consequentemente, todas as conclusões são necessariamente juízos de valor (e logo,
talvez suspeitas). De fato, por todas as conclusões numa única categoria nada faz para
distinguir entre elas e é, portanto, um descritor inútil exceto como um dispositivo retórico
pensado para desacreditar uma posição através dum apelo a autoridade.
Julgar das coisas - O homem, por meio do seu intelecto e sua experiência, ou seja, das
formas de conhecer, forma juízos acerca da realidade, acerca das coisas. Julgar de algo é, ou
formar um juízo equivale a simplesmente afirmar, negar, juntar, separar propriedades de um
objeto.
Juízo de fato

Fonte: Web
…são aqueles que dizem que algo é ou existe, e que dizem o que as coisas são, como são e
por que são (CHAUI). Em outras palavras, juízos de fato são proposições que formamos com
base no material da realidade, ou seja, coisas que julgamos a respeito do que está posto ao
nosso redor, das coisas que existem, dos objetos materiais.
EX: O aço é um metal; / O hidrogênio é um elemento químico; / O revólver é uma arma. / O
panela é um utensílio doméstico. / O caderno tem folhas.
Juízos de valor

Fonte: Web

…são normativos e se referem ao que algo deve ser; Como devem ser os bons sentimentos, as
boas intenções, as boas ações, os nossos comportamentos decisões, etc . (Adaptado –
CHAUI). Neste caso, os juízos de valor não tratam de objetos materiais, mas sim de questões
relacionadas
como deve seràs ações
o bemhumanas, ou seja,
proceder a questõesMas
das pessoas. morais
elese não
éticas.
se São reflexões
limitam acerca dedo
às questões
comportamento humano, pois podem referir-se também a objetos materiais, no entanto, o
juízo tem um caráter diferente, veja o exemplo:
O oxigênio é bom; Ora, nós sabemos muitas coisas a respeito do hidrogênio, que ele é um
elemento químico, que pode ser encontrado na água, entre outras coisas, mas se ele é bom não
sabemos. Não se pode afirmar com certeza se ele é algo bom sem depender das circunstancias
e mesmo assim, a bondade em si não será uma propriedade do oxigênio.
Distinguir juízos de valor de juízos de fato: Quando descrevemos algo que aconteceu sem
qualquer interpretação ou apreciação por parte do sujeito, isto é, quando fazemos descrições
neutras e impessoais de acontecimentos reais naquilo que eles são em si mesmos, estamos a
emitir juízos de facto. Estes juízos referem-se a algo que existe e que pode ser verificado.
Têm valor de verdade e este em nada depende daquilo que pensa a pessoa que o faz. Se
descrevem corretamente a realidade e os factos em questão, são verdadeiros. Caso contrário,
são falsos. E a sua veracidade ou falsidade é objetiva, ou seja, é indiferente da perspectiva do
sujeito. A função básica destes juízos é fornecer informação.
Quando fazemos apreciações de acontecimentos, manifestando as nossas preferências, ou
seja, expressando uma avaliação acerca de certos aspectos da realidade, emitimos juízos de
valor. Estas interpretações feitas por parte do sujeito são parciais, isto é, cada pessoa tem a
sua, sendo cada uma delas parte de um todo; são relativas, o que quer dizer que se definem
por comparação com algo que é desejável ou digno de estima; e também são subjectivas, pois
diferem de pessoa para pessoa. Estes juízos são discutíveis uma vez que as suas avaliações
diferem de pessoa para pessoa, traduzindo, desta forma, opções de natureza efectiva e
emotiva. A função básica destes juízos é influenciar o comportamento dos outros e mostrar-
lhes como devem olhar para a realidade, o que significa que, pelo menos em parte, são
normativos.
Esclarecer a questão dos critérios valorativos (problema de natureza dos valores).
A questão dos critérios valorativos consiste em saber se ao fazer uma avaliação apresentamos
apenas as nossas emoções ou afirmamos algo que é objectivamente verdadeiro ou falso, ou
seja, consiste em saber se a nossa avaliação se baseia apenas nos factos ou se as nossas
crenças e emoções interferem nesta nossa avaliação.
A diferença entre os juízos de valor
Para Max Weber o juízo de valor é o ponto de partida da ação, existem juízos de valor
diferentes determinados pela razão ou pela emoção, cada individuo tem sua particularidade e
é necessário saber respeitar as particularidades de cada um. Pois o que é certo pra mim para o
outro pode ser errado e vice-versa, cada um tem uma maneira de enxergar o mundo, cada um
tem o seu juízo de valor.

REFERÊNCIAS
SCRIVEN, Michael. Philosophy of Science Association PSA: Boston studies. In The
philosophy of science, v. 20. Boston: Dordrecht:Reidel, 1974. p. p. 219 ff. ISBN 9027704082

Elaborar um RESUMO de no máximo 1 página a respeito do tema da aula de hoje.


Ministério da Educação
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 11 - Fundamentos da Ética


A formação da consciência ética
A Consciência Ética
Um juízo de valor é um juízo sobre a correção ou incorreção de algo, ou da utilidade de algo,
baseado num ponto de vista pessoal. Como generalização, um juízo de valor pode referir-se a
um julgamento baseado num conjunto particular de valores ou num sistema de valores
determinado. Um significado conexo de juízo de valor é o de um recurso de avaliação
baseado nas informações limitadas disponíveis, uma avaliação efetuada porque uma decisão
deve ser tomada independentemente de estar em função da utilidade, da estetica, da moral, ou
de qualquer outro critério valorativo.
Ethos designa costume ou moradia, o lugar onde se vive, o caráter, o modo de ser no mundo,
a srcem dos valores, as normas que estruturam uma civilização, um povo, um grupo social
ou simplesmente, de um indivíduo.
O ser humano, no seu dia-a-dia sente a necessidade de organizar a sua vida. Isto compreende
as relações fundamentais do indivíduo: a si mesmo, o outro o mundo e a transcendência. A
cada dia apresenta-se um novo e diferente desafio.
É do próprio ser humano buscar a resposta adequada conforme o lugar, o tempo, as tradições
e os costumes. Cada grupo cria um modo próprio habitual de compreender o mundo. O ser
humano demonstra consciência ética pela capacidade de conviver de forma respeitosa e
equilibrada no seu grupo social.
Olhando em torno de nós, verificamos de maneira prática, que a falta de diálogo entre as
pessoas, o desrespeito aos direitos alheios, a intolerância com as diferenças e a omissão no
exercício da cidadania,
Há, na verdade, mostramentre
uma ruptura a distância que nosque
o indivíduo, separa da consciência
se fecha ética. e a vida da
sobre si mesmo,
comunidade, com os seus valores, sobre os quais se ergue a sociedade. A identidade do grupo
organizado é enfraquecida, e prevalece a visão do ser humano como indivíduo independente,
sem compromisso com o outro. O ideal das pessoas projeta-se a partir de interesses
particulares, vulneráveis aos impulsos do momento.
Falta uma visão mais consistente e objetiva de uma ética partilhada pela sociedade, ou, ao
menos, pela comunidade definida.
O ser humano ao atingir a consciência ética pode ser identificado com a personalidade
elevada capaz de avaliar com isenção e profundidade as pessoas e os acontecimentos.
Reconhece suas limitações, age com equilíbrio e projeta o interesse das suas ações além do
benefício individual.
A formação ética: desafiando a prática educativa
Magda Santos Koerich / Alacoque Lorenzini Erdmann / Vivian Leyser da Rosa
As leituras, reflexões e momentos de diálogo compartilhados nos grupos de pesquisa e em
sala de aula de graduação e pós-graduação têm sido uma espécie de combustível que mantém
aceso e reforça o interesse das autoras pela temática da ética e pelo ensino de ética, tanto nas
ciências biológicas quanto nas ciências da saúde.
A partir da leitura de alguns textos de Lilian Valle e Pedro Goergen, ambos filósofos da
educação e estudiosos da ética, confirmou-se uma espécie de cumplicidade com esses dois
autores, especialmente por compartilharmos da mesma preocupação com as questões da ética
e da prática educativa, além de comungarmos de uma mesma dúvida, qual seja: é possível
ensinar ética?
Questões relacionadas à ética e ao ensino da ética, interligadas aos espaços educativos ou ao
agir dos profissionais da saúde, têm sido fonte de preocupação e constante inquietação das
autoras. Este texto não tem a menor pretensão de esgotar o assunto, nem se propõe a
aprofundar amplamente a temática; objetiva destacar a ética como campo de reflexão
filosófica e como atividade da prática educativa que acompanha a história do ocidente desde a
antiguidade e que emerge na atualidade como uma espécie de “ponte de salvação” do homem
na sociedade contemporânea (pós-moderna).
Tanto a educação como a reflexão ética apresentam um longo percurso através da história da
humanidade, iniciado na Filosofia grega antiga, passando por toda a Idade Média e pelos
pensadores da Modernidade, até a contemporaneidade ou período pós-moderno, percebido
como ambivalente e contingente. Esse será também o percurso seguido nesse texto,
apresentado de forma resumida, com limite no número de páginas e no aprofundamento
reflexivo.
Deixamos para os filósofos da educação e especialistas da área o maior aprofundamento do
tema, mantendo, propositadamente, as questões sem respostas como forma de provocação ao
leitor.
Um curto passeio pela filosofia, o berço que acolhe a ética
Para iniciar a reflexão, tomamos como base uma afirmação, constantemente proferida no
ambiente acadêmico, de que a filosofia se revelou um “saber inútil: não serve para nada”.
Uma inutilidade que “remete à recusa em servir a alguém ou a algo”, ou seja, “uma recusa a
toda limitação na produção do conhecimento e em sua difusão” (p. 221)
Para a filosofia, o ato de pensar constitui um instrumento de liberdade e de verdade. Mas
apenas pensar e ter ideias não é suficiente. O filósofo é alguém que se interroga sobre o ato de
saber, procura responder aos desafios e contradições de sua época e “precisa comunicar o que
tenta constituir sob forma de um saber” (p. 218)
O saber trava estreita relação com a liberdade, pois o conhecimento confere aos seus
portadores a sensação de liberdade. Platão entendia que o homem nasce na escravidão da
ignorância (agnosis) e só se torna livre ao se deixar governar pela inteligência (nous) e pela
razão (logos), ao alcançar o conhecimento, ao tomar consciência em relação ao mundo
circundante. Dessa forma estará em condições de cultivar a sabedoria e a busca pela verdade e
pelo ideal da junção do bem com o belo (kalogathia).
Platão era incisivo quando afirmava que o conhecimento do sábio deve ser compartilhado
com seus semelhantes, deve estar a serviço da cidade (sociedade). A sabedoria deve ser
partilhada. Um filósofo cheio de sabedoria que leva uma existência de eremita de nada serve.
A filosofia é, então, partilha. Uma obstinação em fazer uso do pensamento e oferecer, a quem
quiser ouvir, “algo para pensar”. O discurso filosófico exige um talento pedagógico, se coloca
como uma atividade corporal e prática e exige a exposição de si mesmo como sujeito falante,
visível e público.
Como discurso público com caráter pedagógico, a filosofia não tem objeto próprio; busca
pensar o seu tempo. Como invenção da razão, ela tenta responder perguntas comuns, feitas
por pessoas comuns, porém buscando uma argumentação, formulando conceitos, utilizando as
“ideias”.
Apreender a ideia é compreender/conhecer a essência. Remete ao alcance da sabedoria, ao
“sair da caverna”, na analogia de Platão. A sabedoria, cultivada pela construção do discurso,
torna-se pedagógica. “Pedagogia, etimologicamente, é o caminho que indicamos às crianças, a
estrada que lhes
conhecimento”. mostramos,
Assim, a filosoftomando-as pela de
ia assume a tarefa mão para conduzi-las
conduzir da ignorância
os homens-crianças ao
(apegados
apenas às percepções dos sentidos) a tornarem-se homens adultos, sabendo o que é o “ser”.
Um “saber-sabedoria que permite ao homem viver como convém a um homem” (p. 39).
Muito mais tarde, já na modernidade, chamada de Idade das Luzes ou Iluminismo na França,
ou do Esclarecimento pelos filósofos alemães, caracteriza-se pela decisão de se usar apenas a
“luz natural”, ou seja, uma oposição à “luz sobrenatural”, a toda e qualquer explicação
metafísica. Pretende, através dessa luz natural, esclarecer o destino da humanidade e libertar o
homem das trevas e da tirania; tirania dos costumes, das instituições arcaicas e dos poderes
Kant pertence a esse movimento e defende a ideia de que o homem pode aperfeiçoar-se.
Deixa-se envolver pela ideia de progresso que dominava sua época (século XVIII) e, em uma
de suas obras, a Crítica da Razão Prática, ele se preocupa com o problema moral, a conduta,
aquilo que ele chama de prática. Prescreve uma moral universal, válida para todos, quaisquer
que sejam as circunstâncias.
Destaca que o homem tem poder de escolha, tem autonomia. Constitui-se como sujeito livre,
que recusa a paixão. Afirma que é somente pelo ato (ação, atitude, conduta) que o homem
atinge o absoluto. Considerando esse passeio pelo pensamento de alguns filósofos e
pensadores, muito breve em palavras, mas imenso considerando-se o intervalo de tempo, a
“liberdade” se destaca como objeto de reflexão comum a todos. Liberdade para fazer escolhas
e assumir determinadas condutas como forma de exercício da autonomia. Assim, surge a
ética, a ciência do agir humano, do comportamento, da conduta, para permitir a convivência
das múltiplas individualidades e autonomias que constituem a cidade/sociedade.
Em sua significação grega, a palavra éthos, da qual srcinou-se a ética, relaciona-se à conduta,
hábito ou comportamento, mas também condensa os sentidos de: morada do homem (oikos),
seu gênio protetor (daímon) regido pelo logos; modo de proceder do homem como dono de
seus hábitos adquiridos pela repetição e não regidos pela natureza (physis); refere-se, ainda, à
liberdade sob a soberania da lei justa. “[...] Para os gregos, o éthos teria sido o corpo histórico
da liberdade e o bem próprio do homem, o de sua polis regido por leis justas, o bem universal
e racional” (p. 32)
No latim, o termo grego éthicos foi traduzido como moralis, reduzindo o termo éthos apenas
como usos e costumes. Os dois termos têm, portanto, sentidos diferentes, uma vez que a ética
tem uma abrangência maior, significa também propriedade do caráter. A reflexão ética
interroga sobre o que é a justiça, sobre o que devemos fazer e sobre o que pensamos que é
justo fazer. Tais como as questões filosóficas, as reflexões sobre a ética apresentam pontos de
vista variados e discussões que perpassam toda a história do mundo ocidental. Desde os
gregos, que criaram a ética da racionalidade, passando pelos pensadores medievais, com a
ética da santidade, seguindo com os modernos e sua ética da liberdade, até os contemporâneos
com a ética do consenso, da reciprocidade e da justiça.
A formação moral e ética na pós-modernidade
O campo particular da ética e da moral na atualidade reflete os mesmos posicionamentos mais
gerais do campo filosófico apresentados acima, ou seja, há entre os pensadores
contemporâneos posições distintas e divergentes ante a questão ética. Enquanto uns destacam
que a ética reencontrou seu espaço nobre, que está emergindo uma nova cultura marcada pela
utopia moral, outros falam em tom alarmista da falência dos valores, do império do
individualismo, do fim de toda a moral”.
O que se evidencia, no entanto, é a grande centralidade da ética nos vários campos da
atividade humana. Fala-se em ética profissional, ética médica, bioética, ética empresarial e
cibernética. “A nova centralidade do discurso ético não emerge da necessidade tópica do
comportamento individual ou coletivo, mas da necessidade fundamental de estabelecer limites
que preservem a vida (p. 50) A modernidade estabeleceu uma moral com base humana e
racional e que afirma os direitos dos indivíduos. A declaração universal dos direitos humanos
tem a funçãoo básica
modernos: de regular
indivíduo, as relações
cujo objetivo sociais
último é ae encarna o novo
busca pela valor absoluto
felicidade. dos tempos
No entanto, esses
direitos, afirmados como inalienáveis, se fizeram acompanhar de uma incondicional
obediência ao dever e respeito à autoridade do Estado.
A partir de meados do século XX, o espaço da ordem e da obediência foi sacudido pela
revolta contra a submissão ao dever e contra o autoritarismo familiar e institucional. Parece
estabelecer-se, assim, um paradoxo, em que a emergência de uma sociedade pós-moralista,
contestatória da submissão ao dever, se faz acompanhar do retorno, com força total, da
temática da ética no seio da democracia; uma nova ética, que estabelece o cultivo dos valores
individuais, dos direitos subjetivos, da qualidade de vida e da realização pessoal,
administrando as individualidades no coletivo.
Frente a isso, questiona-se qual seria essa nova ética? Como encontrar as novas formas de
limites e normatização de comportamentos, sem recorrer aos princípios anteriores, de modo a
viabilizar a convivência humana e sobrevivência da espécie? Outra questão, não menos
importante, que atravessa toda a história ocidental desde a antiguidade, é se a moral (e a ética)
pode ou não ser ensinada.
Como educar hoje? O papel da educação formal no ensino de ética
A discussão sobre modernidade e pós-modernidade tem importância vital para a educação,
uma vez que está intimamente relacionada com os demais campos da atividade humana e
passando pela mesma crise que acompanha o período destacado pelos pós-modernos como de
morte da razão e fim das metanarrativas. A contemporaneidade mostra um quadro de crise
epistêmica, ética e social, em que o modelo educativo precisa reconceituar e reconfigurar o
saber escolar. Estamos vivenciando um período de transformações e mudanças com
“evidentes reflexos sobre os valores que orientam a vida individual e as normas que regem a
convivência entre as pessoas” (p. 77) Mediante esse cenário de crise, transformações,
mudanças, polêmicas, incertezas e de futuro imprevisível no qual a educação está inserida,
busca-se as respostas sobre o que ensinar e como educar. É solicitado da educação que
contribua com a superação da crise, com mudanças não apenas nos conteúdos e métodos, mas
também e principalmente, por sua tarefa formativa com grande destaque ao papel da escola
como espaço educativo de aspectos racionais, éticos e estéticos.
A atividade educacional não se faz individualmente; é obra da comunidade. Cada sociedade
se cria, criando valores, normas, costumes, práticas e ideais que a regem e que se tornam um
verdadeiro cimento das sociedades. A autora acata uma posição, afirmada desde Aristóteles,
de que a formação ética dos cidadãos só pode ocorrer como prática, como socialização dos
valores já existentes na sociedade. Porém, aceita, também, a colocação de Platão, retomada na
modernidade pelos revolucionários franceses, de que é, ao mesmo tempo, o resultado de um
longo processo de aquisição racional. Entretanto, nossas sociedades modernas transformaram
a educação em um dever do Estado, fazendo surgir a escola pública, que não é uma espécie de
‘realidade natural’, mas a criação de um novo modelo de ação pública, que passa a interferir e
mesmo a monopolizar atividades que, desde o fim da Antiguidade, passaram a ser entendidas
como resolutivamente privadas.
Na Modernidade, a educação passa a ser entendida como uma ação especializada e direta,
cabendo-lhe também a formação cívica dos indivíduos para a criação de um equilíbrio social
em torno de valores de disciplina, ordem e confiança no progresso. Passa a ser, também,
atribuição sua a formação profissional, habilitando os cidadãos como trabalhadores eficazes.
A questão da formação ética, porém, permanece em aberto, já que a formação democrática
deve apoiar-se na autonomia, uma autonomia que ainda não existe, porque a sociedade é
heterônoma, mas também porque é uma impossibilidade “ajudar homens e mulheres a aceder
à autonomia, ao mesmo tempo em que absorvem e interiorizam as instituições existentes, ou
apesar disto”.
Compete à educação, então, conduzir as jovens gerações no sentido de sensibilizá-las para o
problema da ética
outros seres comoe fundamento
humanos da vidaMas
consigo mesmas. humana
não énasó.
suaÉrelação
precisocom
queaanatureza,
educaçãocom os a
ajude
formar as competências para que os jovens saibam participar ativamente desse seu processo
de formação.

Elaborar uma RESENHA de no máximo 1 página a respeito do tema da aula de hoje.


Ministério da Educação
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 12 - Fundamentos da Ética


A educação ética dos indivíduos.
A crise ética na pós-modernidade e seus reflexos sobre a educação jurídica
Helvécio Damis de Oliveira Cunha
Só existe uma única e indivisível ética. (Thomas Jefferson)
Se existe uma palavra que nunca sai de moda, independentemente do momento histórico que
se está vivendo, esta sem dúvida é o substantivo “crise”. Dentro de muitas vertentes em que a
expressão “crise” pode ser enquadrada, daremos enfoque à sua possível intervenção no
processo de formação intelectual que é a Educação. Porém, para que possamos compreendê-la
em toda a sua complexidade, consideramos ser cabível fazer um corte temporal, apreciando
como esta “crise” vem intervindo na educação (geral e jurídica) no atual período histórico,
cultural, econômico e social denominado de pós-modernidade.
Mas, afinal de contas o que é pós-modernidade? Precisamos primariamente esclarecer, que
não temos pretensão de conceituá-la de forma universal, vez que inúmeras podem ser as
acepções que para ela se pode conferir. A pós-modernidade não é simplesmente um período
histórico desgarrado de qualquer sentido que se iniciou posteriormente à chamada
modernidade. Como ponto de partida desta discussão, podemos afirmar que ela é sobretudo
uma crítica à modernidade. Por isso, definimo-la como um ciclo que modifica os paradigmas
de diversos níveis da realidade intelectual, econômica, política, social e interrelacional,
encerrando os conceitos universais e perenes elaborados na modernidade, substituindo-os por
definições fragmentadas e polivalentes.
Feitas essas indagações preliminares sobre a pós-modernidade, retomamos à discussão a
respeito da existência
modernidade retiraram de
da uma crise ética
humanidade na atualidade.
o esteio Aspolítico
filosófico, mudanças dos que
e ético paradigmas
orientoudao
pensamento científico e comum durante mais de dois séculos. Porém, entendemos que a
mudança de concepção não é um simples resultado de alguns eventos catastróficos ocorridos
durante a modernidade (p. ex.: as duas Grandes Guerras), e do consequente novo olhar em
que o homem passou a encarar a si mesmo e suas relações. Os valores pós-modernos são
frutos do processo de relativização que têm dirigido os objetivos e as concepções do
capitalismo globalizado. Isto significa, que essa realidade instável é construída para a
perpetuação do sistema econômico, como pode ser visto, por exemplo, através da liquidez,
superficialidade ou indiferença pelo outro que vem se empregando nas relações humanas.
Por isso, a partir da nossa particular visão da realidade, entendemos que existe sim uma crise
ética na “modernidade líquida”, e esta vem se refletindo de forma perniciosa em vários
aspectos dentro do processo educativo.
Para expor essa conjuntura ética perigosa, dividimos nosso texto em cinco partes assim
sistematicamente abordadas: No primeiro capítulo aprofundaremos a discussão da crise ética
que permeia a pós-modernidade. No segundo momento, traremos sobre as importantes
contribuições de Immanuel Kant no campo da pedagogia e a sua preocupação com a formação
ética do indivíduo. No capítulo três, nos dedicaremos a uma abordagem sobre a relevância da
educação ética, como mecanismo de construção de uma mentalidade autorreflexiva e crítica
nos alunos.
1 APONTAMENTOS SOBRE O PROBLEMA ÉTICO NA PÓS-MODERNIDADE
Em nosso introito, verificamos que um dos maiores problemas que a humanidade passa é por
uma crise de ética. Entendemos que todos os demais problemas enfrentados pelo homem, isto
é, econômicos, sociais, políticos e culturais são decorrentes da ausência de formação de
preceitos éticos nas relações humanas. A violência em todas as suas instâncias (familiar e
social), a exclusão dos desprivilegiados, o egoísmo e a ausência de amor pelo próximo[3]
expressam claramente a inexistência, ou melhor dizendo, a despreocupação de um
comportamento ético por parte dos indivíduos nas suas relações intersubjetivas. Nalini (2004,
p. 26) faz uma afirmação que é perfeita para explicitar as dificuldades atuais da humanidade
no plano da ética: “de nada vale reconhecer a dignidade da pessoa, se a conduta pessoal não
se pautar por ela” (grifo no srcinal). E o autor está coberto de razão, pois o que adianta para a
sociedade discursar a respeito de proteção de direitos humanos se existe uma massa de
excluídos vagando pelas periferias das cidades? Se o respeito e o amor no ambiente familiar
estão sendo substituídos pela violência moral e física? E se as pessoas no ambiente de
trabalho passam por cima umas das outras para obter promoções e maiores vantagens
econômicas?
Entendemos que a crise ética existente é grandemente influenciada pelo capitalismo, por seu
processo de coisificação e mercantilização dos seres humanos e das relações humanas. De
maneira mais radical, Lombardi (2005) defende a ideia de que não há uma crise ética, pois
essa inexiste no capitalismo: “é falsa a ética que condena a violência in abstrato e tolera a
violência estrutural inerente ao próprio sistema capitalista”. Entretanto, sem adotarmos uma
postura tão radical, consideramos que, além da influência marcante do capitalismo na vida das
pessoas, há outros motivos que conduziram o ser humano ao momento atual de crise.
Os principais modelos éticos estabelecidos da idade média até o século XIX foram marcados
pela rigidez e absolutismo, isto é, a sociedade trabalhava com sistemas éticos cujo
fundamento era a existência de uma moral universal objetiva, pela qual todos os seres
humanos eram dotados de uma sensibilidade natural e intuitivamente conseguiam discernir o
certo e o errado. Ocorre que esses modelos rígidos foram substituídos por uma pluralidade de
éticas, que têm a relativização como sua premissa principal. Essa alteração de paradigma
transformou a ideia de que tudo é “preto ou branco” pelo “cinza” e suas inúmeras nuances.
O grande problema é que a “morte” da ética tradicional trouxe consequências inesperadas,
conduzindo-a para uma situação de descrédito e passando a ser tratada como algo
ultrapassado. Para Bittar (2004, p. 18), “A ética tornou-se assunto démodé, sobretudo nas
sociedades contemporâneas fortemente imiscuídas num modelo utilitarista, burguês e
capitalista de vida, sugadas que estão pelas noções de valor econômico e de lucro”. As
relações intersubjetivas ficaram relegadas ao segundo plano, se transformando em fugazes e
voláteis, ou, como diz Gilles Lipovetsky (2009, p. 16), sendo dominadas pelo “império do
efêmero”. Marilena Chauí (apud, Bittar, 2004, p. 56) ilustra bem esses tempos de
transitoriedade das relações humanas:
"O pós-modernismo faz a opção pela contingência. E, com ela, opta pelo fragmentado,
efêmero, volátil, fugaz, pelo acidental e descentrado, pelo presente sem passado e sem futuro,
pelos micropoderes, microdesejos, microtextos, pelos signos sem significados, pelas imagens
sem referentes, numa palavra, pela indeterminação que se torna, assim, a definição e o modo
da liberdade. Esta deixa de ser a conquista da autonomia no seio da necessidade e contra a
adversidade para tornar-se jogo, figura mais alta e sublime da contingência. Mas essa
definição da liberdade ainda não nos foi oferecida pelo pós-modernismo; está apenas sugerida
por ele, pois definir seria cair nas armadilhas da razão, do universal, do logocentrismo
falocrático ou de qualquer outro monstro que esteja em voga. Donde o sentimento de que
vivemos uma crise
As palavras dos valores
de Chauí morais (eopolíticos)".
demonstram quanto o homem perdeu seus padrões éticos,
transformando a vida em uma existência de riscos. Esse novo período no qual a ética se torna
relativizada alterou profundamente quatro grupos fundamentais de relações humanas: as
relações intersubjetivas, sociais e familiares; as relações econômicas; as relações políticas; e,
também, as relações jurídico-sociais.
No plano das relações intersubjetivas, sociais e familiares, constata-se o surgimento de um
período de marcante indiferença pelo outro indivíduo, no qual as pessoas não conseguem
orientar claramente suas vidas e seguir valores. A verdade passa a ser relativizada, assim
como a convivência familiar perde espaço para os instrumentos tecnológicos (ex.: televisão e
internet). A imagem feminina é vulgarizada para satisfazer a libido masculina. As pessoas
passam a assimilar conceitos e pensamentos preestabelecidos e massificados, sem a adequada
meditação. Artistas e indivíduos ligados à mídia são mitificados e idolatrados. As relações
humanas são marcadas pela intolerância às diferenças e a sociedade se torna imediatista, pois
as pessoas dão mais valor para os bens perecíveis ou de pouca duração (ex.: drogas, álcool,
culto ao corpo etc.).
No plano das relações econômicas, a relativização da ética, oriunda principalmente dos
efeitos causados pelo capitalismo, estabeleceu a mercantilização dos prazeres (ex.: sexual,
diversão e outros), assim como também as coisas e as pessoas passaram a ser mensuradas pelo
que elas valem materialmente. O fetiche capitalista apontado por Marx se intensifica, pois o
consumo cresce cada vez mais e faz com que as pessoas tenham “necessidades imaginárias”,
além de criar uma sensação de “vazio” que só pode ser preenchido gastando dinheiro e
adquirindo ilimitadamente bens e serviços.
Nas relações políticas percebe-se uma desideologização dos partidos políticos e o
fortalecimento da imagem dos políticos, ao invés de se valorizar as ideias e os planos
partidários. Os candidatos a cargos públicos deixam para o plano secundário a discussão
ideológica, dando preferência ao engrandecimento de suas próprias “virtudes”, como, por
exemplo, a sua honestidade, credibilidade, inteligência e carisma.
Por fim, no aspecto das relações jurídico-sociais, a crise ética trouxe consigo a corrupção no
serviço público; o uso da “máquina” pública para atender a interesses pessoais e políticos; o
enfraquecimento do sistema judicial e legislativo, gerando a sensação de impunidade; o uso
da educação como instrumento político, não existindo um interesse de fato na sua melhoria.
Um exemplo dessa situação é a condição salarial dos docentes brasileiros atuantes na esfera
pública. Torna-se evidente, portanto, que a criação de leis não consegue substituir a formação
ou o vazio que a relativização da ética cria.
A percepção dessa nova realidade evidencia o quanto será difícil para a humanidade
2 A VISÃO KANTIANA DA EDUCAÇÃO ÉTICA
Após as observações feitas, precisamos nos aprofundar na compreensão dessa crise ética que
tem marcado a pós-modernidade, e nas suas possíveis soluções. Para isto, consideramos
imprescindível tratarmos de alguns conceitos propostos por alguns pensadores dos séculos
XIX e XX. Como ponto de partida de nossa análise, devemos compreender a concepção
kantiana de educação. Na ciência jurídica, Kant é considerado como um dos principais
pensadores da Teoria do Direito, influenciando a pesquisa de importantes autores que o
seguiram (p. ex.: Kelsen e Bobbio). O que muitos desconhecem na seara jurídica, é que
Immanuel Kant também foi um estudioso da construção do processo educativo.
A instrução, que é a terceira etapa do desenvolvimento educacional, compreendida como a
sua parte positiva, compõe-se de três elementos: a cultura, a prudência e a moralidade. A
cultura é formada por meio do ensino, que consiste na habilidade, isto é, na posse de uma
faculdade pela qual o homem pode atingir os fins propostos. A prudência conduz o indivíduo
à adaptação social, em que o exercício principal é o das boas maneiras, permitindo que tenha
o afeto das pessoas e influência social. O terceiro elemento da instrução é a moralização. De
nada adianta ao ser humano ter a habilidade de atingir os fins a que se propõe se ele não
possui as condições
ruins. Por para deve-se
boa finalidade saber escolher entre estes
compreender toda fins,
aquelaistoque
é, équais são os
benéfica ao bons e quaismas
indivíduo, os
que ao mesmo tempo serve para todos.
A formação moral, por essa razão, tem papel fundamental na educação. Somente se pode
afirmar que o homem adquire uma educação completa quando tiver liberdade e autonomia
para agir conforme a máxima moral universal, encontrada no imperativo categórico. A
liberdade e a autonomia são elementos essenciais na formação ética e pedagógica, segundo a
filosofia kantiana. Por isso, deve-se ter claro que a ação livre e autônoma é necessariamente
praticada por dever, excluindo-se as influências da inclinação ou de interesses pessoais, pois o
indivíduo deve agir por puro respeito à lei prática, ainda que essa lhe seja prejudicial no
sentido particular.
3 POR QUE A EDUCAÇÃO ÉTICA É NECESSÁRIA
O questionamento sobre a necessidade da educação com fins éticos para a formação do
indivíduo traz consigo imediatamente a repulsa daqueles – como se demonstrou em Kant –
que pensam ser inimaginável a sua ausência como instrumento de construção do ser humano,
do profissional e do cidadão. Ocorre que não se pode ter uma visão acrítica sobre ela, pois, da
mesma forma que a educação prepara e direciona o homem para o desenvolvimento de
habilidades e competências, ela pode também se converter em instrumento de atrofia da
personalidade e caráter humano, quando é dotada de conteúdo opressivo e discriminatório. O
sistema educacional na atualidade, no qual também incluímos o ensino do Direito, utiliza-se
exclusivamente de instrumentos de formação coletiva ou massiva, impedindo que os
estudantes desenvolvam sua autonomia e sua capacidade crítica/reflexiva.
Adorno (1967, p. 111) no texto La educación después de Auschwitz, demonstra sua
preocupação com a massificação cultural e educativa, pois, através dela, o Estado Nazista
disseminou sua ideologia e conseguiu produzir uma massa de indivíduos seguidores
inescrupulosos e imorais. Para combater os erros do passado, ele alerta sobre a necessidade de
uma educação criadora de uma formação autônoma, transformando o homem num ser
reflexivo, independente e capaz de não se deixar enganar pelo jogo equivocado de outras
pessoas. Também explicita que a ausência de identificação com o outro e do amor ao próximo
influenciaram nas barbáries cometidas pelos nazistas. Por fim, Adorno compreende que a
educação somente tem sentido se for uma educação voltada para a autorreflexão crítica do ser
humano.
A partir da exigência de uma educação autorreflexiva e autônoma demonstrada por Adorno,
Bittar (2009) defende a criação de uma ética da resistência como mecanismo de combate às
forças econômicas e culturais produzidas pela sociedade pós-moderna e a globalização.
Vejamos:
“O recomeço com relação a toda forma de heteronomia forte demanda também um forte
esforço de recuperação da subjetividade como foi o caso do holocausto, que demandava
também uma forte reflexão por parte da filosofia da educação. Adorno, em A educação contra
a barbárie, afirma: "Eu começaria dizendo algo terrivelmente simples: que a tentativa de
superar a barbárie é decisiva para a sobrevivência da humanidade." Em nosso contexto, a
recuperação da subjetividade depende sobretudo de um fortalecimento da autonomia do
indivíduo, plenamente tragado para dentro das exigências da Sociedade de controle, da
sociedade pós-moderna. No lugar de promover a adaptação, a reação somente pode vir das
mentes capazes de articular a resistência. Por isso, deve-se repetir o que se lê em Educação
para quê?: "Eu diria que hoje o indivíduo só sobrevive enquanto núcleo impulsionador da
resistência." Aqui está o gérmen da mudança, somente possível se fundada em uma
perspectiva semelhante à incentivada por Michel Foucault, em seus últimos escritos sobre
ética, de criação de uma ética da resistência como forma de enfrentamento da microfísica do
poder”.
4 UMA EDUCAÇÃO ÉTICA PARA A AUTONOMIA
O que discutimos
processo atécom
educativo, o presente momento
o objetivo é a imprescindibilidade
de modificar a atual situaçãodedeuma transformação
formação massivadoe
acrítica, para um modelo de educação para a autonomia, como instrumento de resistência e
construção de uma sociedade mais solidária e cidadã. Ocorre que esse processo não é tão
simples, e encontra pelo caminho inúmeras dificuldades, principalmente aquelas que são
impostas pelo sistema econômico capitalista, que visa justamente à manutenção do status quo.
Analisando com frieza, o ensino geral e jurídico que se preconiza hoje, seguindo uma lógica
mercadológica, fortalece a cultura do “cada um por si” e da competitividade sem limites,
impedindo que preceitos verdadeiramente ético-humanos sejam inseridos no processo
educativo. O que se observa na prática é que esse modelo de darwinismo social atua contra
dois objetivos fundamentais da educação, que são o de educar para a cidadania e o educar
eticamente. Outro empecilho também presente atuando em desfavor da educação autônoma,
crítica e livre é a dificuldade que o processo educativo tem de competir contra os meios de
comunicação em massa (ex.: televisão e internet) e os fortes ideais capitalistas difundidos,
como, por exemplo, o consumismo, o individualismo e a moda.
5 A RELEVÂNCIA DA ÉTICA NA EDUCAÇÃO JURÍDICA
Após tudo o que se discutiu, torna-se evidente que uma análise concernente à formação ética
do ser humano envolve obrigatoriamente elementos vinculados à educação, pois, a todo o
momento em que o educador, numa realidade concreta, se encontra com o aluno no espaço de
sala de aula ou fora dele, haverá trocas de experiências e de conhecimentos. Como disse Paulo
Freire (1996), “quem ensina aprende ao ensinar e quem aprende ensina ao aprender”. O
conteúdo explícito (ministrado) e o conteúdo implícito (oculto) que será fornecido aos
estudantes sempre terá uma carga fortemente ética.
O processo educativo, seja ele o jurídico ou de qualquer outra natureza, forma o indivíduo
intelectual e moralmente. Por isso é imprescindível a participação estatal na difusão e
elaboração de estratégias educacionais inovadoras para a sociedade, pois desta maneira ela
conseguirá atingir uma dupla finalidade, que é a de construir homens e mulheres na sua
completude intelectual e moral.
Como exemplo expresso dessa preocupação por parte do Estado brasileiro, encontramos no
art. 35, inciso III na Lei de Diretrizes e Bases da Educação, a exigência da formação ética do
indivíduo: o aprimoramento do educando como pessoa humana, incluindo a formação ética e
o desenvolvimento da autonomia intelectual e do pensamento crítico.
A presença da exigência da formação ética do ser humano expressa, pelo menos sob o ponto
de vista legislativo, e já é um grande começo, a inquietude do Estado brasileiro em relação à
construção da cidadania em sua população.
No entendimento de Bittar (2004), com o qual concordamos plenamente, educar para a
cidadania não é só um direito de todos os indivíduos, mas uma conquista de uma sociedade
que pretende se emancipar, sendo mais justa, solidária e democrática. A educação ética e
cidadã assegura para todos os indivíduos a estabilidade de seu sistema democrático e a
proteção dos direitos humanos, mas também permite a sua independência cultural, social e
econômica.
Que a educação ética é uma exigência do ensino no momento da formação intelectual do
jovem não resta a menor dúvida. A questão, entretanto, passa a ser discutível quando se refere
à necessidade dela no plano do ensino superior. Como foi alertado na introdução, atualmente
vivemos uma crise ética que atinge todas as esferas de relações humanas, políticas, sociais,
econômicas e profissionais. Se o comportamento ético é reclamado no exercício profissional,
mister se faz que, dentro das instituições de ensino superior, esse seja um conteúdo
obrigatório (expresso ou implícito).

REFERÊNCIAS
ADORNO, T. W. La educación después de Auschwitz. Conferencia propalada por la Radio
de Hesse en 18 de abril de 1966; se publicó en Znm Bildungsbegriffdes Gegemvart, Frankfort,
1967, pág. 111 Y sigs.

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Ministério da Educação
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 13 - Fundamentos da Ética


A essência da ética e a questão do imperativo categórico kantiano.
Imperativo Categórico
Imperativo categórico é um dos principais conceitos da filosofia de Immanuel Kant. Sua ética
tem como conceito esse sistema. Para o filósofo alemão, imperativo categórico é o dever de
toda pessoa doar conforme os princípios que ela quer que todos os seres humanos sigam, se
ela quer que seja uma lei da natureza humana, ela deverá confrontar-se realizando para si
mesmo o que deseja para o amigo. Em suas obras Kant afirma que é necessário tomar
decisões como um ato moral, ou seja, sem agredir ou afetar outras pessoas.
O imperativo categórico é enunciado com três diferentes fórmulas (e suas variantes), são
estas:
1)Lei Universal: "Age como se a máxima de tua ação devesse tornar-se, através da tua
vontade, uma lei universal." a)Variante: "Age como se a máxima da tua ação fosse para ser
transformada, através da tua vontade, em uma lei universal da natureza."
2)Fim em si mesmo: "Age de tal forma que uses a humanidade, tanto na tua pessoa, como na
pessoa de qualquer outro, sempre e ao mesmo tempo como fim e nunca simplesmente como
meio".
3)Legislador Universal(ou da Autonomia): "Age de tal maneira que tua vontade possa encarar
a si mesma, ao mesmo tempo, como um legislador universal através de suas máximas."
a)Variante: "Age como se fosses, através de suas máximas, sempre um membro legislador no
reino universal dos fins."
O Imperativo Categórico de Kant e sua importância para uma Ética Ambiental
O maior desafio do ser humano no século XXI é internalizar Haide Maria Hupffer e Roberto
o princípio Naime
da equidade
intergeracional, ou seja, confiar o meio ambiente para as presentes e futuras gerações em
condições semelhantes ou melhores do que as recebeu de seus antepassados. O impacto do
simples fato gerado pela existência já é um desafio para a sustentabilidade global.
Nesta fase da reflexão é preciso resgatar filósofos clássicos na fundamentação dos princípios
fundamentais do direito. Immanuel Kant com sua magnífica obra Fundamentação da
Metafísica dos Costumes, fundamenta o princípio supremo da moralidade partindo do
conceito de boa vontade. Para que a ação possa ser considerada boa ela deve ser motivada
pela boa vontade. Para Kant, a vontade é a fonte absoluta do ato moral. Ela é o momento mais
interior e central alcançada por sua filosofia.
Francis Bacon, filósofo e político da Inglaterra, estabeleceu um princípio fundamental para os
naturalistas atuais: “a natureza para ser comandada precisa ser obedecida”. Esta assertiva
singela denota que para podermos viver temos que nos submeter às características naturais
dos meios físico e biológico e em compatibilidade com estes caracteres construir nossa
civilização.
Para construir este mundo civilizado em conformidade com os ditames naturais, o
fundamento da boa vontade em Kant está na primeira fórmula do seu imperativo categórico:
“age de maneira que a máxima de tua ação possa converter -se em lei universal da natureza”.
Com isso o filósofo quer dizer que não é necessária grande perspicácia para saber que meu
agir é moralmente bom. A pergunta fundamental que ele instiga o ser humano a fazer é:
“podes querer que também tua máxima se converta em lei universal?”. Se a resposta a esta
questão não for positiva, a máxima deve ser rejeitada pelo fato de a mesma não poder ser
admitida como princípio de uma possível legislação universal.
Esta legislação universal nada mais é do que as características do que atualmente se denomina
meio ambiente em todas as suas dimensões e no qual se constrói a civilização humana.
O que é viver com consciência ambiental para que essa máxima de Kant possa ser convertida
em lei universal? Uma definição nada fácil. Para Kant é no íntimo do nosso ser, na nossa
essência, que está a resposta. O ser humano pode sentir a condição de uma vontade boa em si.
Os efeitos desse senso de dever para com as futuras gerações só são eficazes se forem
determinados por um profundo sentimento de respeito pela dignidade da pessoa humana. Ou
seja, enquanto a motivação para preservar o meio ambiente foi decorrente de incentivos
externos e modismos, dificilmente a humanidade avançará responsavelmente em sua relação
com a natureza. Por isso, Kant com seu imperativo categórico estabelece a necessidade de um
nexo entre o ato livre e a universalização do mesmo.
Crítica ao Imperativo Categórico Kantiano
Para Kant, a vontade humana só é livre quando abdica de seguir suas inclinações e de se
render às circunstâncias para se guiar conforme a razão, mais precisamente quando segue o
imperativo categórico, buscando adotar um comportamento universalizável.
Eis um dos enunciados do imperativo categórico:
“Age de tal modo que a máxima da tua vontade possa valer sempre ao mesmo tempo como
princípio de uma legislação universal.”
1. Liberdade - Pergunta-se: por que só é livre a vontade quando segue o imperativo
categórico? Não seria igualmente livre qualquer escolha isenta de injunções, ainda que
voltada para uma finalidade? Ter a razão como critério da moralidade já representa uma
escolha moral. E esta, pergunte-se, foi feita com base em qual critério?
2. Diversidade de sujeitos - Com sua perspectiva de universalização de condutas, o imperativo
categórico prescreve ações iguais para pessoas diferentes. Assim, despreza as diferenças
subjetivas, excluindo especificidades que levem a um destino individualizado. Pergunta-se:
Jesus teria expulsado os vendilhões do templo ou se deixado crucificar se pautasse sua
conduta pelo imperativo categórico? Sócrates teria tomado cicuta? A moral kantiana é
insatisfatória para ações e homens extraordinários.
3. Diversidade de objetos - Uma vez que a conduta prescrita pelo imperativo categórico vale
por si mesma, despreza-se o resultado efetivo que dela possa advir. Isso pode acarretar
resultados equivocados e até mesmo desastrosos, pois o rígido raciocínio kantiano se dá com
base numa elaboração artificial, qual seja, antecipar o que ocorreria se todos agissem
conforme a lei universal.
Lancemos mão de um exemplo. Dar esmolas a um pedinte está conforme o imperativo
categórico? Se todos os que tivessem renda dessem esmola, seria possível para muitos viver
sem trabalhar, ainda que fossem fortes e potencialmente produtivos, o que contrariaria a
razão. Assim, a melhor conclusão é a de incompatibilidade dessa conduta com o preceito
kantiano. Entretanto, o fato de eu dar esmola em um momento específico não fará com que
outras pessoas, como regra, passem a fazê-lo. Assim, na verdade eu poderia me sentir livre
para dar esmola de vez em quando, sem medo de que o resultado pernicioso (renda sem
trabalho) viesse a ocorrer.
4. Alteridade - O imperativo categórico não considera o outro concretamente. O outro é pura
abstração, presente na reflexão acerca da possibilidade de universalizar a conduta. Portanto, a
ética kantiana desconhece a compaixão, a solidariedade, o afeto, tratando próximos e
distantes, vítimas
Considerando e algozesdo
o exemplo daitem
mesma forma.para quem agisse conforme o preceito kantiano
anterior,
pouco importaria a boa-fé ou as verdadeiras necessidades do pedinte. Ainda que este estivesse
prestes a morrer de fome, a solução seria a mesma.
Os imperativos da razão
Os imperativos da razão podem ser hipotéticos ou categóricos. Os imperativos se exprimem
pelo verbo dever (sollen), e mostram assim a relação de uma lei objetiva da razão para uma
vontade. Os imperativos afirmam se seria bom ou não deixar de praticar qualquer coisa. Os
imperativos hipotéticos e categóricos são distintos.
KANT (1974, p. 218) menciona em que consiste o imperativo hipotético e categórico: “Os
imperativos hipotéticos representam a necessidade de uma ação possível como meio de
alcançar outra coisa que se quer. O imperativo categórico seria aquele que nos representa uma
ação como objetivamente necessária, por si mesma, sem relação com qualquer finalidade”.
Os imperativos são fórmulas da determinação da ação que é necessária segundo um princípio
de uma vontade boa. Se a ação é boa apenas como meio para outra coisa, então o imperativo é
hipotético. Porém se ação é boa em si, e é uma vontade conforme a razão, então o imperativo
é categórico. O imperativo mostra que a ação é boa em vista de qualquer intenção sendo ela
possível ou real. O imperativo categórico independe de qualquer intenção, mas a ação é
necessária em si, e por isso também que é válido como princípio prático.
O imperativo categórico pode também ser chamado de imperativo da moralidade, porque esse
não se relaciona com a matéria da ação, mas com a forma, e também porque a ação é boa em
si, na sua disposição. Para que a moralidade não seja vã, é preciso demonstrar que é
necessário o imperativo categórico e a autonomia da vontade.
KANT (1974, p. 223) afirma que há apenas um imperativo categórico: “Age apenas segundo
uma máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal”. É desse
imperativo que provêm os imperativos de dever, e também a lei moral. Em todas as ações
praticadas pelo homem tal imperativo deve estar presente, para assim estabelecer critérios. Se
a ação praticada é possível que seja tomada como universal. Há ações praticadas pelo homem
que são contrárias as leis da razão e por isso não podem ser universalizáveis, e essas ações só
são possíveis porque o homem age pela liberdade. Evidencia-se assim que o conceito de dever
é um conceito que possui um significado, e contêm uma legislação para as ações do homem,
exprimindo-se no imperativo categórico. Então se questiona: é possível esse imperativo
categórico?
A possibilidade do imperativo categórico
A justificação do imperativo categórico está ligada à distinção de dois mundos, que são
propostos por Kant. O mundo sensível, que são os fenômenos, e o mundo inteligível, que é o
noumeno. KANT (1974, p. 248) ressalta: “O ser racional, como inteligência, conta-se como
pertencente ao mundo inteligível, e só chama vontade sua causalidade como causa eficiente
que pertence ao mundo inteligível. Por outro lado tem consciência de si mesmo como parte do
mundo sensível, no qual suas ações se encontram como meros fenômenos daquela
causalidade”. Logo, pode-se somente conhecer as coisas na medida em que aparecem no
âmbito do espaço e tempo, ou seja, como fenômenos, e não como noumenos. A questão que
se levanta com esse fato é se é possível conhecer a coisa-em-si, ou seja, o noumenon. Não se
pode conhecer a coisa-em-si, mas ela é possível de ser pensada, pois o noumenon é o
fundamento dos fenômenos. KANT (1974, p. 249) menciona:
Porque o mundo inteligível contém o fundamento do mundo sensível, e, portanto das suas
leis, sendo assim, com respeito a minha vontade, (que pertence ao mundo inteligível),
imediatamente legislador e devendo também ser pensado como tal, resulta daqui que, posto
por um lado me conheça como ser pertencente ao mundo sensível, terei, como inteligência, de
reconhecer-me à lei do mundo inteligível, isto é, a razão, que na ideia de liberdade contém a
lei desse mundo, e, portanto a autonomia da vontade; por conseguinte terei de considerar as
leis
comododeveres.
mundo inteligível como imperativos para mim e as ações conforme este princípio
Somente assim são possíveis os imperativos categóricos, porque a ideia de liberdade faz com
que o homem seja membro do mundo inteligível.
Se não houvesse distinção entre fenômenos e noumenos, não se poderia dizer que, enquanto
age-se sob as leis da natureza não se é livre, e ao mesmo tempo se a ação praticada pela lei é
livre. Sendo assim, é possível pensar a liberdade como condição da moralidade dos atos. A
vontade tida como fenômeno, é submetida às leis da natureza e não é livre, mas a vontade
pensada como coisa-em-si, ou seja, como vontade autônoma, é livre. Então se percebe que a
liberdade como ideia da razão ainda que não seja conhecida é possível ser pensada.
Enquanto o homem dá-se a si mesmo a lei moral, enquanto o homem está submetido à lei que
ele mesmo criou, enquanto participante do mundo inteligível, ele é livre. Isso é autonomia da
vontade. E só assim é possível o imperativo categórico. Kant mostra que a liberdade é
plausível de ser pensada mesmo que não seja conhecida.
A autonomia da vontade como princípio da moralidade
A autonomia da vontade é a capacidade dela ser lei para si mesma. O princípio que norteia a
autonomia da vontade é o de não escolher senão máximas que possam ser consideradas como
leis universais. Portanto, esse princípio é um imperativo categórico. O conceito de autonomia
é o princípio da moral. KANT (1974) afirma: “A vontade é uma espécie de causalidade dos
seres vivos, enquanto racionais, e liberdade seria a propriedade desta causalidade, pela qual
ela pode ser eficiente, independente de causas estranhas que a determinem”. Conceber o
conceito de liberdade como causalidade na filosofia de Kant é importante porque não é
possível o conceito de causalidade desprovido de lei. Esse conceito de liberdade que Kant
propõe é negativa, mas é desse conceitoque decorre o conceito positivo de liberdade. A
liberdade é um tipo de causalidade, a qual se define positivamente, como capacidade de ser lei
para si mesma, logo ela não pode agir senão por máximas universalizáveis, ou seja, leis. Se
essa agisse por leis empíricas, não seria lei para si mesma.
KANT (1974, p. 243), afirma:
Liberdade e moral
A busca incondicionada no uso do entendimento é uma determinação natural da razão, e,
também encontra-se na base do conceito transcendental de liberdade. A liberdade
transcendental quando analisada sob sentido cosmológico significa independência de causas
naturais. Então, faz-se necessário distinguir uma espontaneidade no sentido de busca da
completude e uma espontaneidade no sentido da própria concepção das faculdades da mente,
entendimento e razão. Trata-se, portanto, da espontaneidade do entendimento que se
manifesta nas ideias da razão. Na espontaneidade é necessária a ideia de liberdade para que a
atividade do entendimento e da razão possam dar regras à natureza e não a natureza dar as
regras.
A liberdade e a responsabilidade moral
A relação que existe entre liberdade e responsabilidade moral é uma relação de
complementaridade, em que estão ligados entre si. Sendo assim, pode-se questionar sobre os
atos humanos, acerca de sua moralidade e sobre a responsabilidade do homem por seus atos.
LECLERQ (1967, p. 376) afirma que: “[…] os atos só têm caráter moral na medida em que
nele intervém a liberdade; e seu caráter moral diminui na proporção que diminui a intervenção
do livre-arbítrio”. Logo, a moralidade dos atos consiste em fazer o uso da liberdade. Quando a
liberdade é privada, não há responsabilidade moral. Portanto, o homem é responsável pelos
atos que pratica com liberdade.

REFERÊNCIAS
ALMEIDA, G. Moralidade e racionalidade na teoria moral kantiana . Porto Alegre:
UFRGS/ Goethe/ CBA, 1992, p. 94. 1996.

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Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 14 - Fundamentos da Ética


A ética do dever e autonomia (Kant)
Kant e a moralidade como resultado de nossa autonomia
O iluminismo kantiano pode nos mostrar conflitos insolúveis entre a felicidade e o dever,
acentua Jerome B. Schneewind. Para Kant, a autonomia sempre supera a heteronomia e
questões práticas jamais imaginadas pelo pensador hoje exigem a atenção e podem ser
pensadas a partir da perspectiva do imperativo categórico.
A obra de Immanuel Kant e o conceito de autonomia são indissociáveis. Seu sistema moral
“incide de muitas formas sobre sua filosofia moral. Entretanto, a maioria dos comentadores e
teóricos tenta desvincular os escritos éticos de Kant das complexidades do sistema”. A
afirmação é do filósofo norte-americano Jerome B. Schneewind, autor do clássico The
Invention of Autonomy: A History of Modern Moral Philosophy (New York: Cambridge
University Press, 1998), publicado em português como A invenção da autonomia (São
Leopoldo: Unisinos, 2001). Na entrevista exclusiva que concedeu por e-mail à IHU On-Line,
Schneewind disse que na perspectiva kantiana “ser autônomo é ser livre no sentido
moralmente relevante, e a liberdade moral se expressa ou se torna evidente na ação
autônoma”. O filósofo de Königsberg insistia que as pessoas podem, sim, ser autônomas:
“Podemos estar motivados a cumprir nosso dever simplesmente porque é nosso dever. E ele
argumentou extensamente para mostrar que o egoísmo moral não podia explicar
adequadamente o que todos nós achamos que é a moralidade nem oferecer uma orientação
adequada para a ação. Ele sustentava que o imperativo categórico podia fazer as duas coisas”.
Schneewind pontua que “somos autônomos quando obedecemos a uma lei que damos a nós
mesmos. É nossa própria
expressa dando-nos razão
uma lei – oque nos dá acategórico
imperativo lei. Mais precisamente, nossareajamos
– que exige que razão prática se
a nossos
desejos e sentimentos de uma maneira específica. Para Kant, a moralidade é o resultado de
nossa autonomia”.
Jerome B. Schneewind é filósofo e professor emérito da Universidade John Hopkins, nos
Estados Unidos. Formou-se na Universidade Cornell, e cursou o seu doutorado na
Universidade Princeton. Lecionou nas Universidades de Chicago, Princeton, Yale, Pittsburgh
e Hunter College, da Universidade da Cidade de Nova York. Fora dos EUA, lecionou na
Universidade de Leicester, Stanford e Helsinki. Ministrou cursos sobre a história da ética,
tipos de teoria ética, empiristas britânicos, ética kantiana e pensamento utópico. Já foi
presidente da divisão leste da American Philosophical Association, e é membro da American
Academy of Arts and Sciences.
PARCIAL DA ENTREVISTA COM JEROME SCHNEEWIND
IHU On-Line – Qual é a atualidade de Kant frente aos desafios da moral no século XXI?
Jerome B. Schneewind – A filosofia moral de Kant é altamente relevante para as
preocupações atuais, tanto práticas quanto teóricas. Conhecemos as recusas, horrorosas e
amplamente difundidas, de tratar todos os seres humanos como merecedores de dignidade que
assolaram o século XX e têm continuidade no presente. A asserção desse valor por parte de
Kant representa uma repreensão permanente de nossa inumanidade uns para com os outros e
uma convocação para agir melhor. Questões práticas que Kant jamais imaginou exigem nossa
atenção hoje: as necessidades de nosso meio ambiente e o casamento entre pessoas do mesmo
sexo são apenas duas delas, a título de exemplo. Os kantianos estão tentando mostrar como a
filosofia moral de Kant pode oferecer orientação nesses casos e podem ir além de Kant em
questões como, por exemplo, o tratamento apropriado dos animais.
O raciocínio baseado em meios e fins como única orientação em todos os assuntos práticos é
adotado pela maioria dos economistas e por muitas pessoas que estão envolvidas nos
chamados “estudos sobre a felicidade” (veja Dierdre N. McCloskey, “Happyism”. The New
Republic, 28 jun. 2012). Kant oferece outros padrões de raciocínio prático. Os kantianos
acham que os resultados decorrentes de se permitir que o raciocínio baseado em meios e fins
tome conta de tudo seriam desastrosos. Essa é uma questão teórica e prática também.
Um equívoco de Kant?
Tem havido um reavivamento marcante do cristianismo nos Estados Unidos. O Islã, pregado
com grande vigor em países predominantemente muçulmanos e, muitas vezes, vinculado a
concepções antiocidentais, está sendo disseminado em muitas partes da Europa e dos EUA.
Há versões dessas duas doutrinas religiosas que adotam a concepção de que a vontade
desimpedida de Deus é a fonte da moralidade. A reação de Kant ao voluntarismo de sua
época, particularmente o de Pufendorf , oferece material importante para as pessoas que se
opõem a essa compreensão de moralidade.
As teorias que colocam a virtude e as virtudes no centro aumentaram de modo marcante no
Ocidente em anos recentes. Consequentemente, o trabalho de Kant sobre a virtude, nas Lições
de ética e na Metafísica dos costumes, receberam mais atenção do que em qualquer época
anterior.
A maioria dos esforços para avaliar a filosofia moral de Kant seguem seus textos e discutem
sobre leituras específicas das muitas passagens controvertidas contidas neles. Duas obras
recentes tentam entender a ética kantiana não só em seus detalhes, mas num contexto muito
amplo. No volume 3 da obra The Development of Ethics, Terence Irwin dedica 172 páginas a
um estudo abrangente – e muito crítico – da filosofia moral de Kant. A explicação de Irwin é,
até certo ponto, distorcida por sua própria convicção de que o eudemonismo é a concepção
correta, de modo que Kant tem de estar equivocado. Mas é uma exposição perceptiva e
impressionante, da extensão de um livro inteiro, que trata a ética de Kant sistematicamente e a
associa a obras anteriores. Em seu tratado On What Matters, de dois volumes, Derek Parfit
sustenta que a ética de Kant é uma parte da verdade a respeito da moralidade, e que a melhor
maneira de entendê-la é ver como ela e as principais concepções concorrentes – como o
utilitarismo, por exemplo – se combinam formando uma única visão da vida moral.
IHU On-Line – Qual é a importância desse filósofo e seu sistema na filosofia moral hoje?
Jerome B. Schneewind – O sistema de Kant incide de muitas formas sobre sua filosofia
moral. Entretanto, a maioria dos comentadores e teóricos tenta desvincular os escritos éticos
de Kant das complexidades do sistema. As limitações que ele impõe ao conhecimento teórico
abrem o caminho para seus argumentos práticos em favor da crença na existência de Deus e
da imortalidade, assim como, é claro, em favor da liberdade. Mas os argumentos kantianos
sobre Deus e a imortalidade recebem muito menos atenção na literatura recente do que suas
concepções de liberdade. As duas primeiras partes da Fundamentação são discutidas com
muito mais frequência do que a Parte III. Mas essa parte está começando a atrair mais atenção
do que costumava acontecer. As concepções de Kant a respeito do mal estão recebendo maior
atenção, mas creio que há poucos defensores de suas concepções religiosas de modo geral.
Depois de uma negligência prolongada, ambas as partes da Metafísica dos costumes estão
sendo estudadas com esmero, assim como as Lições de ética. Todas essas discussões e
exposições pressupõem que o leitor e a leitora estejam familiarizados com uma certa porção
do
IHUpensamento
On-Line –deEmKant fora aspectos
quais da ética. autonomia e liberdade estão imbricadas a partir do
pensamento de Kant?
Jerome B. Schneewind – A autonomia e a liberdade estão essencialmente vinculadas na
concepção de Kant. Ser autônomo é ser livre no sentido moralmente relevante, e a liberdade
moral se expressa ou se torna evidente na ação autônoma.
IHU On-Line – Kant queria refutar a lei moral baseada na heteronomia. Como podemos
compreender essa concepção tendo em vista os ideais do iluminismo e a ideia que se
tinha da humanidade naquele tempo?
Jerome B. Schneewind – Muitos pensadores iluministas sustentavam, como os iniciantes na
filosofia e muitos economistas ainda o fazem, que toda ação humana deliberada visa
beneficiar somente o agente. Com base nessa concepção, toda ação é heterônoma por ser
guiada por motivos que nos são simplesmente dados por nossos desejos. Kant insistia, pelo
contrário, que as pessoas podem ser autônomas. Podemos estar motivados a cumprir nosso
dever simplesmente porque é nosso dever. E ele argumentou extensamente para mostrar que o
egoísmo moral não podia explicar adequadamente o que todos nós achamos que é a
moralidade nem oferecer uma orientação adequada para a ação. Ele sustentava que o
imperativo categórico podia fazer as duas coisas.
Kant se opunha ao otimismo simplório muitas vezes associado com o iluminismo. Ele
acreditava que nós deveríamos de fato tentar satisfazer nossos próprios desejos e os das outras
pessoas, mas tão somente dentro dos limites fixados pelo imperativo categórico. E a
orientação do imperativo categórico bem que poderia não nos levar a produzir o máximo de
felicidade para todos os envolvidos.
Ser esclarecido, sustenta Kant, é pensar por conta própria, não seguir o interesse próprio ou
egoísmo, nem diretivas convencionais ou religiosas, a menos que se possa perceber que o
imperativo categórico as aprovaria. Portanto, o iluminismo kantiano pode nos mostrar
conflitos insolúveis entre a felicidade e o dever. E, para ele, a autonomia sempre supera a
heteronomia.
A moral do dever em Kant
Neiva da Silva Martinelli
A doutrina moral de Kant é independente de qualquer sentido religioso. Sua moral exclui a
noção de intenção como elemento de uma alma pura, e o dever não é uma obrigação a ser
seguida em virtude de um ente superior. Intenção e dever (em Kant) dependem do sujeito
epistemológico (eu transcendental) e não do eu psicológico (indivíduo). Para Kant, o sujeito
transcendental trata-se de uma maquinaria (aparelho cognitivo) subjetiva, universal e
necessária (presente em todos os homens, em todos os tempos e em todos os lugares). Assim,
todo ser saudável possui tal aparato, formado por três campos: a razão, o entendimento
(categorias) e a sensibilidade (formas puras da intuição-espaço e tempo).
Em Kant, a razão (faculdade das idéias) é que preserva os princípios que articulam intenção e
dever conforme a autonomia do sujeito. Desse modo segue-se que tais princípios não podem
ser negados sem autocontradição. Daí deriva a idéia de liberdade kantiana, de um caráter
sintético a priori, sendo que sem liberdade não pode haver nenhum ato moral; para sermos
livres, precisamos ser obrigados pelo dever de sermos livres.
O comando moral que faz com que nossas ações sejam moralmente boas, se expressa no
imperativo categórico: “age só segundo máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que
ela se torne lei universal” (FMC, 2004, p.51). Essa lei está atada à razão pura prática. Todo
sujeito é racional (tem raciocínio lógico), por isso tem condição de sujeito moral, dotado de
normas. Exercer uma ação contrária levaria ao absurdo. O exemplo que Kant nos dá (FMC) a
respeito da mentira é o mais conhecido. Poderia alguém mentir em benefício próprio, de um
ente querido, ou mesmo em favor da humanidade? Kant, nos diz não, pois a mentira jamais
poderia ser universalizada sem autocontradição:

(...) pois,
inútil segundo
afirmar essa lei,
a minha não poderia
vontade quantohaver propriamente
a minhas futuras promessa alguma,
ações, pois já que seria
as pessoas não
acreditariam em meu fingimento, ou, se precipitadamente o fizessem, pagar-me-iam na
mesma moeda. Portanto, a minha máxima, uma vez arvorada em lei universal, destruir-se-ia a
si mesma necessariamente (Kant, FMC, 2004, p.31).
Desse modo, cada sujeito, tem um alarme acionado na sua consciência moral (com a razão
pura prática funcionando), que evidencia essa contradição, alertando que essa ação deve ser
refutada, visto que essa ação não pode servir para todos. Assim, consultando a razão pura
prática (como deveria alguém agir na minha situação?), constataremos que se todos se
utilizassem dessa ação, o mundo seria um verdadeiro caos.
O imperativo categórico em Kant é uma forma a priori, pura, independente do útil ou
prejudicial. É uma escolha voluntária racional, por finalidade e não causalidade. Superam-se
os interesses e impõe-se o ser moral, o dever. O dever é o princípio supremo de toda a
moralidade (moral deontológica). Dessa forma uma ação é certa quando realizada por um
sentimento de dever. A razão é a condição a priori da vontade, por isso independe da
experiência.
Diferenças entre os imperativos
Todos os imperativos ordenam, e são fórmulas para exprimir as relações entre as leis
objetivas do querer em geral, e a discordância subjetiva da vontade humana.
Imperativo é hipotético: no caso de a ação ser apenas boa como meio para qualquer outra
coisa, ou seja, em vista de algum propósito possível ou real.
A habilidade na escolha dos meios para atingir o maior bem-estar próprio pode-se chamar
sagacidade. Por exemplo, a escolha dos meios para alcançar a própria felicidade (não é um
ideal da razão, mas da imaginação), continua sendo um imperativo hipotético (considerados
mais como conselhos).
Imperativo Categórico: não é limitado a nenhuma condição, é um mandamento absoluto
(necessário), vale como princípio apodíctico-prático (da razão).
Segue-se que somente o imperativo categórico equivale a uma lei prática, e os outros
imperativos podem ser denominados de princípios da vontade, mas não leis. Pois, conforme
nos diz Kant “o mandamento incondicional não deixa à vontade nenhum arbí trio acerca do
que ordena, só ele tendo, portanto, em si, aquela necessidade que exigimos na lei” (FMC,
2004, p. 50).
A liberdade humana é o fundamento de nossas ações e princípios de vida, fazendo parte
essencial na prática moral.
Não havendo determinação imediata da razão, no valor moral da ação, o próprio conceito de
razão prática é questionável. Pois, se ela não é imediata, não é pura, admitindo inclinações.
Para que as leis existam, a vontade deve estar fundada na razão, do contrário só teremos
princípios práticos baseados na subjetividade.
REFERÊNCIAS
KANT, Immanuel. Fundamentação da Metafísica dos Costumes e Outros Escritos. São
Paulo: Martin Claret: 2004.

Elaborar um TEXTO ARGUMENTATIVO de no máximo 1 página a respeito do tema da


aula de hoje.
Ministério da Educação
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 15 - Fundamentos da Ética


A liberdade e a responsabilidade em Sartre.
Jean-Paul Sartre
Jean-Paul Charles Aymard Sartre (Paris, 21 de Junho de 1905 — Paris, 15 de Abril de 1980)
foi um filósofo, escritor e crítico francês, conhecido como representante do existencialismo.
Acreditava que os intelectuais têm de desempenhar um papel ativo na sociedade. Era um
artista militante, e apoiou causas políticas de esquerda com a sua vida e a sua obra.
Repeliu as distinções e as funções oficiais e, por estes motivos, se recusou a receber o Nobel
de Literatura de 1964.1 Sua filosofia dizia que no caso humano (e só no caso humano) a
existência precede a essência, pois o homem primeiro existe, depois se define, enquanto todas
as outras coisas são o que são, sem se definir, e por isso sem ter uma "essência" que suceda à
existência.
1905 a 1918: a formação do filosofo - Jean-Paul Sartre era filho de Jean-Baptiste Marie
Eymard Sartre, oficial da marinha francesa3 e de Anne-Marie Sartre (Nascida Anne Marie
Schweitzer). Quando seu filho nasceu, Jean-Baptiste tinha uma doença crônica adquirida em
uma missão na Cochinchina. Após o nascimento de Jean-Paul, ele sofreu uma recaída e
retirou-se com a família para Thiviers, sua terra natal, onde morreu em 21 de setembro de
1906.4 Jean-Paul, órfão de pai, e então com 15 meses, muda-se para Meudon com sua mãe,
onde passam a viver na casa de seus avós maternos. O avô de Sartre, Charles Schweitzer
nasceu em uma tradicional família protestante alsaciana da qual faz. parte, entre outros, o
famoso missionário Albert Schweitzer, sobrinho de Charles. Ao fim da guerra franco-
prussiana, Charles optou pela cidadania francesa e tornou-se professor de alemão em Mâcon
onde
filhos,conheceu e casou-se
George, Émile com Louise Guillemin, de srcem grega, com quem teve sete
e Ana-Maria.5
Após o regresso de Anne-Marie, os quatro viveram em Meudon até 1911. O pequeno
"Poulou", como Jean-Paul era chamado, dividia o quarto com a mãe. Em seu romance
autobiográfico "As Palavras" (Les Mots) confessa que desde cedo a considerava mais como
uma irmã mais velha do que como mãe. De sua infância ao fim da adolescência, Sartre vive
uma vida tipicamente burguesa, cercado de mimos e proteção.7 Até os 10 anos foi educado
em casa por seu avô e por alguns preceptores contratados. Com pouco contato com outras
crianças, o menino tornou-se, em suas próprias palavras, um "cabotino" e aprendeu a usar a
representação para atrair a atenção dos adultos com sua precocidade.
Em 1911, a família Sartre mudou-se para Nobres. Passa a ter acesso à biblioteca de obras
clássicas francesas e alemãs pertencente ao seu avô. Após aprender a ler, Jean-Paul alterna a
leitura de Victor Hugo, Flaubert, Mallarmé, Corneille, Maupassant e Goethe, com os
quadrinhos e romances de aventura que sua mãe comprava semanalmente às escondidas do
avô. Sartre considerava serem essas suas "verdadeiras leituras", uma vez que a leitura dos
clássicos era feita por obrigação educacional.11 A essas influências, junta-se o cinema, que
frequentava com sua mãe e que se tornaria mais tarde um de seus maiores interesses. Sartre
conta em "As Palavras" que escrevia histórias na infância também como uma forma de
mostrar-se precoce. Suas primeiras histórias eram cópias de romances de aventura, em que
apenas alguns nomes eram alterados, mas ainda assim faziam sucesso entre os familiares. Era
incentivado pela mãe, pela avó, pelo tio (que o presenteou com uma máquina de escrever) e
por uma professora, a Sra. Picard, que via nele a vocação de escritor profissional. Aos poucos,
o jovem Sartre passou a encontrar sua verdadeira vocação na escrita.
Apenas seu avô o desencorajava da escrita e o incentivava a seguir carreira de professor de
letras. Sem enxergar nele o talento que os demais viam, mas conformado com o fato de que
seu neto "tinha a bossa da literatura", incentivou Sartre a tornar-se professor por profissão e
escrever apenas como segunda atividade. Assim, Sartre atribui ao avô a consolidação de sua
vocação de escritor: "Perdido, aceitei, para obedecer a Karl, a carreira de escritor menor. Em
suma, ele me atirou na literatura pelo cuidado que desprendeu em desviar-me dela".
Em 14 de abril de 1917 sua mãe casa-se novamente, com Joseph Mancy, que passa a ser co-
tutor de Sartre. Livre da dependência dos pais, Anne-Marie muda-se com Sartre para a casa de
Mancy em La Rochelle. Nesta cidade litorânea, Sartre toma contato pela primeira vez com
imigrantes árabes, chineses e negros. Mais tarde ele reconheceria esse período como a raiz de
seu anticolonialismo e o início do abandono dos valores burgueses.
1921 a 1936: a formação do filósofo
Em 1921 retorna ao Liceu Henri IV, agora como interno. Encontra Paul Nizan e os dois
tornam-se amigos inseparáveis. De 1922 a 1924, ambos estudam no curso preparatório do
liceu Louis-le-Grand, onde se preparam para o concurso da École Normale Superieure. Nessa
época despertou seu interesse pela filosofia. Sua primeira influência importante foi a obra de
Henri Bergson.
1939 a 1945: a gênese do intelectual engajado
Em 1939 Sartre volta ao exército francês, servindo na Segunda Guerra Mundial como
meteorologista. Em Nancy é aprisionado no ano de 1940 pelos alemães, e permanece na
prisão até abril de 1941. De volta a Paris, alia-se à Resistência Francesa, onde conhece e se
torna amigo de Albert Camus (do qual já conhecia a obra e sobre quem já havia escrito um
ensaio elogioso a respeito do livro O Estrangeiro). A amizade entre Sartre e Camus perdurará
até 1952, quando os dois rompem a relação publicamente devido à publicação do livro do
Camus O Homem Revoltado no qual Camus ataca criticamente o Stalinismo. Sartre defendia
uma relação de colaboração critica com o regime da URSS e permitiu a publicação de uma
crítica desastrosa sobre o livro do Camus em sua revista Les Temps Modernes (crítica esta
que Camus respondeu de maneira extremamente dura) e que foi a gota d´água para o fim da
relação de amizade). Mas até o final da vida Sartre admirará Camus, como ele mesmo
expressa nas entrevistas que teve com Simone de Beauvoir em 1974 - e que ela publicou
postumamente.
Considerado por muitos o símbolo do intelectual engajado, Sartre adaptava sempre sua ação
às suas ideias, e o fazia sempre como ato político. Em 1963 Sartre escreve Les Mots (As
palavras, lançado em 1964), relato autobiográfico que seria sua despedida da literatura. Após
dezenas de obras literárias, ele conclui que a literatura funcionava como um substituto para o
real comprometimento com o mundo. Em 1964 a Academia Sueca lhe agracia com o Nobel
de Literatura, que ele no entanto recusa, pois segundo ele "nenhum escritor pode ser
transformado em instituição". O caso se tornou um escândalo, que poderia ter sido evitado
pela Academia Sueca, visto que Sartre teria descoberto antecipadamente que seu nome estava
entre os indicados, e por isso enviou uma carta a Academia avisando que recusaria o prêmio
caso fosse o escolhido para recebe-lo, a carta, no entanto, só chegou a mão dos Acadêmicos
responsáveis pela escolha do vencedor do prêmio, dias depois de Sartre ter sido escolhido
para recebe-lo.30 Morre em 15 de abril de 1980 no Hospital Broussais (em Paris). Seu funeral
foi acompanhado por mais de 50 000 pessoas. Está enterrado no

REFERÊNCIAS
SARTRE, Jean-Paul. As Palavras. Tradução de J. Guinsburg. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 2005. ISBN 85-209-1072-6

Elaborar um RESUMO de no máximo uma página a respeito do tema da aula de hoje.


Ministério da Educação
UNIVERSIDADE TECNOLÓGICA FEDERAL DO PARANÁ
Campus de Santa Helena
Professora Maristela Rosso Walker

Aula 16 - Fundamentos da Ética


A ética da responsabilidade (Weber).
Homem, cidadão: ética e modernidade em Weber
A questão ética moderna para Max Weber remete a uma redefinição radical da noção de
sujeito moral. A progressiva subjetivação da questão moral no mundo moderno, como
resultado de um longo processo de aprendizado no sentido de uma crescente reflexividade e
autoconsciência das aporias da vida prática, leva a uma redefinição radical da relação do
indivíduo moderno com seus semelhantes e, por extensão, com a vida institucional em sentido
amplo, assim como na sua relação com sua própria natureza interior. A importância dessas
transformações para a discussão da especificidade dos dilemas da vida política e moral
contemporânea salta aos olhos. Gostaria de defender, neste ensaio, a tese de que Max Weber
ainda nos tem muito mais a dizer a respeito disso do que é comumente admitido.
As duas transformações a que me referi acima: a primeira, relativa ao mundo social, à relação
do indivíduo com seus semelhantes, que podemos qualificar como a dimensão política do
problema moral; e a segunda, relativa à própria natureza ou universo interior, a qual
poderíamos nos referir, à falta de melhor termo, como a dimensão psicológica e existencial da
questão moral, podem ser tratadas como as dimensões complementares do "cidadão", por um
lado, e do "homem", por outro.
A cidadania — esse produto especificamente ocidental — tem certamente muitas causas. O
fenômeno que lhe empresta o nome, a cidade, teve no próprio Max Weber um dos mais
atentos observadores.
A evolução das formas de consciência religiosa — ou a racionalização da esfera religiosa,
como preferia Weber
a religiosidade — é percebida
ética estrito senso; c)pora Max Webernão
produção emintencional
três momentos: a) a ética
de uma ética mágica; b)
secular do
mundo desencantado. Esse nível só é atingido por uma revolução da consciência que inaugura
toda a singularidade da cultura ocidental: trata-se do advento de uma ética da convicção,
como decorrência da teodicéia do judaísmo antigo. A ética da convicção significa que, pela
primeira vez na história, os homens libertam-se do "jardim mágico" em que viviam. Uma
nova forma de consciência é engendrada na medida em que um mínimo de convencimento
íntimo é demandado ao fiel para a obediência às regras religiosas, levando ao advento de uma
primeira forma de consciência moral em sentido estrito. Essa "revolução da consciência"
instaura uma incipiente autonomia da esfera moral, livrando-a da dependência irrestrita aos
imperativos das esferas mundanas, especialmente de ordem econômica, como ocorria no
contexto da ética mágica.
É esse reino da moralidade em sentido estrito que, radicalizada na teodicéia do protestantismo
ascético, irá levar às últimas consequências a oposição entre uma ética religiosa autonomizada
e as demais esferas mundanas. Como se sabe, é precisamente essa peculiaridade da ética
protestante, de ter radicalizado o potencial de tensão entre a mensagem ética religiosa e a
lógica das esferas seculares, que já estava latente na concepção judaica da divindade enquanto
um ente transcendental e pessoal que se opõe às esferas mundanas (ao contrário de outras
interpretações do cristianismo, como a católica e a luterana, que escolheram o caminho do
compromisso) que justifica para Weber sua extraordinária significação cultural para a
construção da especificidade da modernidade ocidental (Weber, 1947:94-5).
Em relação a todas as formas de éticas da convicção, sejam elas de fundo religioso ou secular
— podendo-se enquadrar dentro dessa última definição a ética kantiana — a ética da
responsabilidade distingue-se fundamentalmente pela exigência de dois pressupostos: um
ético e um outro pragmático. Este último legitima-se a partir da aceitação da irracionalidade
ética do mundo, ou seja, do postulado de que o mal pode advir do bem. Isso significa que
também a ação ética deve levar em conta os efeitos, as consequências da ação, ou seja, o seu
sucesso passa a ser um dado fundamental.
Isso não implica a confusão dessa ética com a racionalidade instrumental, com acontece de
forma tão comum. O ético por responsabilidade tem que agir simultaneamente com dever, que
Weber define como dedicação apaixonada a uma causa supra pessoal, e com conhecimento da
realidade na qual a atitude ética deverá objetivar-se. Uma responsabilidade dupla, portanto,
pela consideração adicional dos efeitos.
Para Weber, a fruição tornada consciente nos campos da estética e do erotismo permite novas
possibilidades da experiência, que passam a formar o núcleo do desenvolvimento interno
dessas esferas. Ambas as esferas são, dessa forma, produto do processo maior de
conscientização por sublimação de valores culturais. Nesse sentido, considero admissível
supor o artista, e o consumidor instruído da obra de arte, assim como o amante, no sentido
acima definido, como exemplos de uma fruição refinada (também espiritual) do mundo das
emoções, sem dúvida cada qual em relação ao seu campo específico de ação, que não se
confundem um com o outro.
Trata-se aqui, para Weber, unicamente de um processo de abertura de possibilidades, cuja
atualização na realidade, está longe de ser não problemática, como iremos ver a seguir. Desse
modo, apenas com importantes reservas seria possível falar de um progresso. Da mesma
forma como acontece com relação à arte, a progressão das formas de fruição das vivências
eróticas do mundo das emoções permite meramente a abertura de chances, chances do
"aumento do grau de consciência da experiência ou da possibilidade de expressão e
comunicabilidade" (Weber, 1922).
O movimento contrário pode acontecer, no entanto, com diminuição, ao invés de aumento,
das possibilidades de fruição. Precisamente isto lamentava Weber nos seus contemporâneos,
ao deplorar "a caça à vivência e à emoção" como uma perda da capacidade de resistência ao
cotidiano (Weber, 1922: 481). Assim sendo, não temos de forma alguma em Weber o
defensor de uma sexualidade sem barreiras, utilizável em qualquer momento como forma de
consolo ou diversão. Numa sociedade construída sobre a base do consumo e da satisfação
rápida e sem substância, o hedonista, facilmente estimulável através de pequenos estímulos, é
o tipo social conforme à ordem. Esse tipo corresponderia, precisamente, ao homem do prazer
sem coração para Max Weber, na medida em que o libertinismo sexual perde, nas sociedades
industriais, seu potencial emancipatório.
É importante notar a relevância dessa articulação entre essas duas dimensões da personalidade
moderna — a "cidadania" e a "humanidade" — para uma consideração adequada dos dilemas
políticos e morais do nosso tempo. Jurgen Habermas, que dedicou toda sua vida ao estudo das
pré-condições de uma democracia enfática hodierna, já em 1962 reconstruía a genealogia das
categorias de "homem" e de "cidadão" como a grande revolução da consciência moderna,
enfatizando a relação de reciprocidade entre os dois termos (Habermas, 1975).
A política como vocação
A política como vocação (em alemão Politik als Beruf) foi uma conferência feita por Max
Weber, um economista e sociólogo alemão, a estudantes da Universidade de Munique em
janeiro de 1919 e publicada em outubro do mesmo ano.
“A Política
como como vocação”
uma profissão foi a segunda
", apresentada em 28 depalestra
Janeiroem
de uma
1919série sobre o trabalho
na Universidade intelectual
de Munique. O
texto deste trabalho foi publicado em julho de 1919 e logo tornou-se um clássico da ciência
política contemporânea por expor diversas questões de primeira importância para o a vida
política de sua época e que, ainda hoje, podem subsidiar análises de nossa política
contemporânea. A política como uma profissão se tornou um clássico da ciência política.
O Estado como detentor do monopólio da violência
Weber compreende como “política” qualquer tipo de liderança independente em ação. Por se
tratar de um termo que abarca uma grande gama de relações humanas, para fins de sua
palestra, limita o uso do termo ao tipo de liderança exercida pelas associações políticas e,
mais recentemente, pelo Estado.
Ele reconhece que o uso da força é um meio específico de atuação do Estado: “O Estado é
uma comunidade humana que pretende, com êxito, o monopólio do uso legítimo da força
física dentro de um determinado território”. Essa entidade assume-se como a única fonte do
direito de usufruto da violência.
Formas de legitimação da dominação.
São três os tipos de justificações e legitimações básicas da dominação:
Dominação tradicional: exercida pelo patriarca e pelo príncipe patrimonial de outrora. Dá-se
pela crença na santidade de quem dá a ordem e de suas ordenações, como na manifestação da
autoridade patriarcal, em que o senhor ordena e os súditos obedecem. O ordenamento é fixado
pela tradição e sua violação seria uma afronta à legitimidade da autoridade.
Viver “da” e “para” a política
Weber discorre sobre o processo de formação do Estado Moderno (resultado da
monopolização dos meios de gestão da violência), destacando como ele foi acompanhado
com o surgimento de uma figura muito peculiar no Ocidente: o político profissional.
Ele diferencia dois tipos essenciais do políticos: os que vivem para a política e os que vivem
da política. O político que vive da política é aquele que não possui recursos materiais para a
sua subsistência para além dos recursos provindos da própria atividade política. Sua atuação
pública se confunde com uma luta não apenas por ideais comuns ou interesses de classes, mas
também pela conquista de meios de conseguir renda, o que de alguma forma prejudica a
capacidade de distanciamento para a análise racional dos problemas de seu cotidiano
enquanto profissional da política.
Ética e política - Ética da responsabilidade e das últimas finalidades pensamento de Max
Weber-viver pela politica ou para a politica?
Weber sustenta que o resultado final da ação política mantém com frequência, e às vezes
regularmente, uma relação totalmente inadequada e por vezes até mesmo paradoxal com o seu
sentido srcinal. A abordagem ética da política apresentaria uma série de peculiaridades. Ele
sustentava que, na política, muitas vezes o “bem” pode gerar o “mal”.
Weber distingue duas éticas da ação política, a ética das últimas finalidade (ou ética da
convicção) e ética da responsabilidade. A primeira, a ética da convicção, corresponde às ações
de um indivíduo que coloca em primeiro plano as crenças e objetivos que juga irrenunciáveis.
Atributos de um político vocacionado - A raiz da “vocação” está intimamente ligada do tipo
de dominação carismática. A este tipo de dominação que Weber se dedica no decorrer do
texto. Os homens não obedecem ao líder carismático em virtude da tradição ou da lei, mas
porque acreditam nele.
Há três qualidades que fazem o político vocacionado:
Paixão: dedicação apaixonada a uma causa. Isso não significa uma sentimento movido por
uma excitação estéril, mas pela clareza e conduta responsável em torno de ideais e utopias;
Senso de responsabilidade: como guia de ação;
Senso de proporções: capacidade de deixar que as coisas atuem sobre mantendo-se com uma
calma íntima. O político deve ser capaz de conseguir distancia-se dos problemas e analisá-los
com
Webera gravidade e sobriedade.
afirma que um dos desafios do político vocacionado é o de superar um inimigo
bastante comum e demasiado humano: a vaidade vulgar.

REFERÊNCIAS
HABERMAS, Jurgen. Strukturwandel der Offentlichkeit. Berlin, 1975.

Elaborar uma RESENHA de no máximo uma página a respeito do tema da aula de hoje.
Ministério da Educação
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Professora Maristela Rosso Walker

Aula 17 - Fundamentos da Ética


2ª Avaliação
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Professora Maristela Rosso Walker

Aula 18 - Fundamentos da Ética


A questão da bioética.
Bioética da vida cotidiana
Claudio Cohen e Gisele Gobbetti
Entendemos que nós seres humanos não nascemos nem éticos e nem competentes para as
nossas funções sociais, pois tanto uma como outra serão incorporadas no processo de
humanização por meio da elaboração do pacto edípico. Entendemos, também, que exercer a
eticidade seja a possibilidade de pensar a ética e a moral. Esse pensamento não deve conter
apenas os conflitos entre a emoção e a razão mas, também, permitir que o indivíduo se
relacione com os mundos interno e externo. Lidar com tais conflitos causa-nos um mal estar,
que é inerente à inserção na cultura e ao desenvolvimento humano.
O ser bioético deve lidar com o outro, devendo integrar sua biologia com sua biografia, que o
tornará competente para exercer sua cidadania.
A bioética da vida cotidiana visa pensar as questões mais simples do nosso dia a dia, ou seja,
uma reflexão ética das relações, para não ter que pensar apenas nas grandes questões da
bioética que implicam em mudança de valores, como por exemplo a eutanásia, fertilização in
vitro, os transgênicos, alocação de recursos em saúde etc.
DESENVOLVIMENTO HUMANO – A humanidade tende a repetir suas experiências,
porém delas o ser humano aprende muito pouco. Para exemplificar, retomaremos o
movimento artístico e científico conhecido como Renascimento dos séculos XV e XVI que
pode ser caracterizado pelo renascer da cultura grega clássica. Essa cultura caracterizou-se
pela sua visão antropocêntrica do mundo, ou seja, ela entendia que o ser humano era o fator
central
Com o ou, pelo menos,
renascer o mais significativo
dessa compreensão do universo.
humanista, existe a retomada de uma ética orientada para
o ser humano, para o desenvolvimento das suas faculdades criadoras e para o máximo
proveito dos recursos naturais.
Devido ao salto qualitativo proveniente do atual conhecimento em espaço, tempo e cultura,
entendo que estamos experimentando um período revolucionário, que posso compará-lo ao
período renascentista. Porém, como no passado, os conflitos éticos que esse tipo de
conhecimento nos traz são inúmeros, e é por este motivo que entendo que devamos retomar
uma ética que esteja vinculada a valores humanistas, pois foi ela quem ajudou a lidar com
estes conflitos, durante o período do Renascimento.
O novo conhecimento científico coloca uma questão ética central: o que é a "vida"?. A
questão pode ser subdividida em o que deva a ser considerado "estar vivo", como, por
exemplo, os embriões congelados ou o genoma mínimo, e o que venha a ser considerado "ser
vivo", por exemplo, o que fazer com os seres e plantas transgênicas.
O ressurgimento desse pensamento renascentista pode ser observado através de certas
equivalências históricas, como o que ocorreu na divulgação do conhecimento. Gutemberg,
inventor do tipógrafo, em 1440 imprimiu o primeiro livro, a Bíblia, permitindo que as pessoas
comuns pudessem ter acesso a esse conhecimento humano. Mantidas as proporções, é fácil de
se observar a semelhança existente no que o Bill Gates nos oferece com seus softwares ou na
velocidade da divulgação do conhecimento que a internet nos proporciona.
Se pensarmos nos espaços geográficos, em 1492, Cristóvão Colombo, graças ao patrocínio da
rainha da Espanha, descobre as Américas. Atualmente, graças ao patrocínio dos Estados
Unidos, o ser humano pisou na Lua, chegamos a Marte e se for confirmada a presença de água
lá, seguramente ela poderá ser colonizada por nós, terráqueos. Espero que, dessa vez,
possamos utilizar as experiências passadas e não cometer, novamente, as mesmas
imprudências que os antigos colonizadores realizaram com suas colônias.
Também existe uma certa analogia frente ao conhecimento biológico que temos atualmente,
ao do período renascentista: a descoberta da anatomia do corpo humano, realizada por
Leonardo da Vinci (1452-1519), foi obtida através da dissecação de cadáveres e considerada
antiética; o atual mapeamento do genoma humano também está sendo encarado por algumas
pessoas de forma similar aos métodos do gênio renascentista. Essa desconfiança surge da
ideia de que iremos fazer um mau uso do nosso conhecimento, pois estamos prontos a
modificar a seleção natural, o que poderá ter consequências catastróficas. Posso dizer que as
descobertas renascentistas não trouxeram.
Finalmente, podemos observar o fio condutor desse pensamento humanista através de nossa
história, em Sófocles (cultura grega clássica) que escreve a tragédia de Édipo, em
Shakespeare (renascentista) que retoma essa tragédia edipiana em Hamlet. Sendo revisto por
Freud (contemporâneo) quando identifica a universalidade desse desejo nas pessoas, e o
denomina de Complexo de Édipo.
Atualmente, será a bioética, a ética da vida, quem irá se ocupar do que venha ser certo ou
errado frente aos conflitos provocados pela nossa evolução científica, pois será esta ética que
nos permitirá pensar certos conceitos propostos pela ciência como, por exemplo, o que é
morte. A ciência nos trouxe o conceito de morte cerebral, que foi internacionalmente aceito,
mas que surgiu como uma necessidade para poder realizar os transplantes.
Assim sendo, devemos pensar nas questões bioéticas provocadas pela biotecnologia, como a
clonagem de seres humanos ou outros avanços genômicos, e as questões bioéticas provocadas
pela "bioeconomia", tais como o patenteamento de genes ou do genoma e a sua possível
comercialização.
O físico italiano Galileu Galilei (1564-1642), iniciador do método científico, também foi
considerado herético por defender o sistema Copérnico, que afirmava ser a Terra quem girava
em torno do Sol. Atualmente, devemos entender que Galileu foi tão revolucionário quanto
Einstein, com sua teoria da relatividade, ou tão transformador quanto a descoberta da
mecânica quântica para a física.
Os cientistas que estão pesquisando o genoma humano poderão ser considerados heréticos por
algumas pessoas, mas também poderão ser vistos como renascentistas por outras. A ciência
não deve se tornar a nova religião dizendo o que venha ser herético ou não. Será a sociedade,
como um todo e de forma democrática, quem deverá discutir essas questões bioéticas.
Gostaríamos de salientar que o conhecimento da anatomia humana não nos permitiu localizar
qual é a parte do corpo onde se localiza a nossa alma. Do mesmo modo, não será o
mapeamento do genoma que nos transformará em diabos ou deuses, pois estas questões
humanas são muito complexas pela sua subjetividade. Dificilmente qualquer método
científico dará conta da subjetividade humana.
BIOÉTICA DAS RELAÇÕES – Seguramente, a ética é anterior aos gregos, mas devemos a
este povo a sua denominação enquanto uma filosofia do bem e do mal. Acreditamos, porém,
que, desde os primeiros ancestrais humanos, já existia uma ética para as relações humanas,
assim como já existiam leis para regulamentar o comportamento humano antes da criação de
códigos.
Nós, seres humanos, criamos os problemas éticos, pois eles emergem justamente das relações
psicossociais,
cultura. ou seja, da percepção dos conflitos causados pela inserção do indivíduo na
Notamos que a bioética, teoria com princípios (autonomia, beneficência e justiça), acaba
sendo uma ética moralista, pois tenta encaixar os indivíduos em pressupostos sociais, que nem
sempre abarcam os valores individuais.
Enquanto a ciência traz o conhecimento, a bioética traz a reflexão sobre a utilização do
conhecimento na prática. O que propomos neste trabalho é justamente a prática da bioética,
que denominaremos de bioética das relações.
Embora, diferentemente da moral, a ética seja individual, na perspectiva da bioética das
relações, ela só pode surgir no confronto e no reconhecimento do outro. Dentro dessa
perspectiva, a autonomia do indivíduo só pode ser pensada na relação, ou seja, nenhum
indivíduo é totalmente autônomo, pois o limite de sua liberdade se dará no contexto das
relações com os mundos externo e interno.
Por outro lado, a autonomia do indivíduo traz uma outra angústia: a liberdade de poder decidir
por sua própria vida. Com o suporte de uma ética moralista (paternalista) ou moral religiosa, o
indivíduo não tinha que lidar com os conflitos frente à própria vida; as questões eram sempre
decididas por terceiros, como Deus ou a sociedade.
Assim, acreditamos que a Declaração Universal dos Direitos do Homem traz esta nova
percepção ética das relações humanas, que é o reconhecimento da dignidade inerente a todos
os indivíduos.
BIOÉTICA DA VIDA COTIDIANA – A bioética tem se ocupado de questões fundamentais
da humanidade que, seguramente, modificaram nossa sociedade e o seu futuro, e que
influenciam o comportamento do indivíduo. Por exemplo, como lidar eticamente com as
novas definições de início e de fim da vida humana ou da qualidade de vida humana, o que
pode ser realizado do ponto de vista ético em experimentos científicos, como lidar eticamente
com o meio ambiente. Porém, entendo que a bioética dá pouca atenção ao cotidiano da vida.
A psicanálise, por sua vez, também lida com questões fundamentais da humanidade só que
desde o vértice do indivíduo, mas que seguramente modificaram a sociedade. Por exemplo, a
definição de inconsciente, do conceito de pulsões diferenciando-as dos instintos ou do
conceito de pulsão de morte. Considero, no entanto, que a psicanálise dedicou pouca atenção
a questões sociais.
Tanto a bioética quanto a psicanálise revolucionaram a humanidade; a primeira partindo de
uma percepção externa do ser humano e a outra, de sua percepção interna. O que tentaremos
elaborar neste artigo é uma integração da bioética com a psicanálise, pois seguramente ambas
tem em comum a preocupação ética das relações humanas e são valorizadas a partir do vértice
subjetivo.
Neste esforço, poderá se pensar o indivíduo e a sociedade de uma forma única, desde seu
componente externo ou moral e de seu componente interno ou ético.
A psicanálise surgiu como uma possibilidade de se entender o indivíduo, com suas
características comuns, mas também com suas características próprias. O indivíduo em seu
eterno conflito, entre o retorno do reprimido e a sua necessidade de elaboração das pulsões
para o convívio social, deverá processar esse mal-estar da cultura.
A psicanálise mostra-nos a importância das funções familiares (pai, mãe) na estruturação
psicossocial do indivíduo, mostrando o quanto tais funções psíquicas permeiam as funções
biológicas. Assim, o desejo incestuoso, presente em todo ser humano, tem a função, através
da mãe, de erotizar a criança. O limite a esta erotização deve ser dado através da função do
pai, que, no âmbito mental, é o representante da Lei (proibição do incesto). Será graças a esta
primeira proibição social que a criança irá apreender o significado de limites, possibilitando
estruturar seu funcionamento mental e seu ingresso ético na cultura.
Como o indivíduo pode apreender a cultura e as pulsões para se conhecer e lidar com os
limites sociais? A proibição do incesto funciona como o organizador mental e social quando
propõe limites às pulsões, permitindo que o indivíduo se relacione de outra forma frente ao
mundo,
organizardeixando de ser ações.
suas próprias dominado pormodo,
Desse seus impulsos e passando
a repressão a serincestuosas
das pulsões um sujeito permite
capaz dea
formação de uma estrutura mental com id, ego e superego, que possibilita a introjeção de
funções psicossociais e o respeito ao outro, que são os fundamentos da bioética.
Tendo este conflito entre as instâncias do aparelho mental como base do desenvolvimento e
do funcionamento humanizado, pensamos na reflexão bioética como a extensão deste conflito
para as relações sociais. Esse processo, que se repetirá em cada indivíduo e deverá ser
elaborado durante toda a vida, é o desafio da bioética.
Sabemos que a compreensão do funcionamento mental do ser humano surgiu a partir da
tentativa de identificação e compreensão do funcionamento psicopatológico. Assim, Freud
elaborou uma teoria e uma prática do funcionamento humano; através do melhor
conhecimento dos sintomas de perturbações mentais, ele pode compreender os
"comportamentos sintomáticos" presentes na vida cotidiana, como os lapsos de memória, os
sonhos, atos falhos, desenvolvimento da sexualidade etc...
Percebemos que a bioética surgiu da necessidade de compreender e repensar os "sintomas" da
sociedade moderna. A reflexão bioética surgiu através da percepção das mudanças das
relações psicossociais ocasionadas pelos grandes avanços científicos e tecnológicos, fazendo
renascer o conflito entre ciências biológicas e as ciências humanas.
Isto pode ser observado, atualmente, quando se relaciona a bioética à reflexão sobre temas
como eutanásia, abortamento, reprodução assistida, clonagem e terapias gênicas. Tais temas
provocam conflitos em valores pré-estabelecidos socialmente, com mudanças bruscas, como
por exemplo, nas definições de vida, saúde e morte. Tais valores, por serem novos,
necessitam da criação de parâmetros para serem incorporados na vida social e uma elaboração
individual.
Podemos pensar que tais temas são equivalentes aos sintomas das doenças mentais e que, da
mesma forma, a discussão e a reflexão sobre estes podem trazer luz à discussão bioética das
situações do cotidiano.
Muitas pessoas nunca terão um contato próximo com situações como eutanásia, clonagem e
transfusão de sangue em testemunhas de Jeová, e as discussões sobre esses temas passam a ter
para tais pessoas um cunho extremamente teórico. Mas, com certeza, os aspectos bioéticos
centrais dos temas estarão presentes em todas as relações humanas, como o reconhecimento e
o respeito à autonomia do outro e a noção dos limites e funções humanas e sociais.

REFERÊNCIAS
COHEN, C. O incesto um desejo. São Paulo, Casa do Psicólogo,1993.
COHEN, C. Entre o belo narciso e o amor humano. In. Rev. Ide, Sociedade Brasileira de
Psicanálise de São Paulo, 1998.

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