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A Quaker e o Rebelde

Mary Ellis
Sinopse
A vida de Emily Harrison foi virada de cabeça para
baixo. No início da Guerra Civil, ela tentou bravamente
continuar o trabalho de seus pais como condutores no
Underground Railroad1 até que sua fazenda em Ohio foi
vendida por hipotecas. Agora sozinha, ela aceita a posição de
governanta da família de um médico na Virgínia escravagista.
Talvez possa continuar seus esforços de resgate de lá.
Alexander Hunt é o belo sobrinho do médico. Embora
não negue a atração crescente pela mais recente empregada
de seu tio, ele não pode perder tempo perseguindo Emily.
Alex não é nada do que parece ― rico, mimado e indolente.
Ele é o esquivo fantasma cinzento, um líder Quaker2 de
guerrilheiros rebeldes. Um homem das sombras, ele não
carrega nenhuma arma de fogo e acredita de todo o coração
nas convicções abolicionistas de Emily.
O caminho diante de Alex e Emily é complicado e às
vezes ameaça sua vida. A guerra traz traição, aprisionamento
e perigo para ambos. Em meio a seus crescentes sentimentos
um pelo outro, eles podem encontrar fé em Deus entre os
desafios que enfrentam e confiar na possibilidade de um
futuro brilhante juntos?
1O Underground Railroad era uma rede de rotas clandestinas existente nos Estados Unidos
durante o século XVIII, que era usada para a fuga de escravos africanos para os estados do norte
ou para o Canadá, que eram livres da escravidão, com a ajuda de abolicionistas. Outras rotas os
levaram para o México. É estimado que de 1810 a 1850 mais ou menos 30.000 a 100.000 negros
escravizados fugiram com a ajuda do Underground Railroad, mas o censo estadunidense
calcula somente 6.000. O Underground Railroad se transformou em um símbolo de liberdade e
é algo muito importante na história dos negros escravizados dos Estados Unidos da América.
2 Quaker: é o nome dado a vários grupos religiosos com origem comum num movimento

protestante britânico conhecidos pela defesa do pacifismo e simplicidade.\


A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 1

Verão 1861

Ilha Bennington, no rio Ohio

― Senhorita Harrison? ― perguntou uma voz suave. ―


Por favor, entre e sente-se.
Emily, examinando o teto boquiaberta, olhou espantada
na direção da voz. Ela pensou que tinha sido levada a um
quarto vazio para esperar, mas uma pequena mulher estava
sentada perto das janelas em uma cadeira de vime com
rodas. Ela correu para o lado da mulher, balançou a cabeça e
então dobrou o joelho em uma pequena reverência.
― Sra. Bennington ― disse ela. Em sua vida Emily
nunca tinha feito uma coisa dessas. Ela só tinha visto uma
reverência em apresentações de teatro, mas a surpreendente
elegância da casa parecia justificar uma.
― Oh. Que maneiras adoráveis você tem, ― disse a
mulher, batendo levemente em uma cadeira ao lado dela.
― Obrigada, madame. ― Disse Emily, pousando na
borda. Julgava que a sra. Bennington tinha em torno de
trinta e cinco anos, mais jovem do que sua mãe tinha sido,

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com uma testa sem rugas, olhos verdes e cabelos loiros


escuros. Delicada, assim mamãe a teria chamado.
― Suas cartas de referência da Sra. Ames e da senhorita
Turner brilharam com elogios por suas realizações. Meu
marido e eu estamos contentes por você ter vindo à nossa
ilha de remanso para polir as arestas ásperas de nossas
meninas. Ambas frequentaram a escola secundária em
Parkersburg durante seis meses do ano e nós tivemos tutores
aqui, mas agora elas precisam de refinamento. Elas ainda
correm soltas pelo jardim como selvagens. Annie,
especialmente, precisa aprender comportamento. ― A sra.
Bennington respirou fundo e suspirou. ― Estou ciente da sua
perda, senhorita Harrison. E com o tempo espero que venha
nos considerar como a sua família.
Surpresa pela declaração, Emily recuou da aristocrata
cheirando a lavanda. ― Como estou prestes a casar, receio
que a situação seja temporária, sra. Bennington. Quando
meu noivo retornar de Washington, devo voltar para casa em
Marietta.
Ela sabia que sua voz soou arrogante, mas não se
conteve. A partir do momento em que a barcaça virou,
contornou a curva e ela viu a plantação dos Bennington,
estava em um terreno desconhecido. Uma carruagem estava
esperando na doca para levá-la à mansão. Em seguida, um
senhor negro e idoso, com roupas mais finas do que as
usadas por seu pai, abriu a porta, curvou-se e conduziu-a a
um vestíbulo maior do que toda sua casa. Mármore rosa e
creme jaziam sob seus pés e um lustre de cristal suspenso

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projetava padrões arlequim nos degraus polidos para o


segundo andar. O mordomo teve que lutar com sua maleta
enquanto ela ficou boquiaberta olhando ao seu redor. O
mordomo falou o inglês da rainha perfeito, sem um traço de
gíria que ela esperaria de um escravo. Ele era um escravo, não
era? Ela seguiu-o pelo salão e aqui estava ela ―
comportando-se rudemente com sua nova empregadora, sem
outras opções para seu futuro.
― É claro, senhorita Harrison. Ficaremos felizes em tê-la
por tanto tempo quanto possível. Eu só queria dizer que
espero que você relaxe e encontre conforto conosco. ― O
sorriso da Sra. Bennington encheu seu rosto e não
desapareceu quando se dirigiu a um criado carregando chá.
― Obrigada, Lila. Esta é a senhorita Harrison. Ela será nossa
nova governanta.
A esbelta mulher negra balançou a cabeça e murmurou:
― Prazer em conhecê-la, senhorita. ― Lila recuou antes que
Emily pudesse responder, então ela se dirigiu à senhora
Bennington.
― Esse é outro assunto, Sra. Bennington. Minha família
não tolera a escravidão. Embora eu respeite a sua autoridade
aqui, eu não serei servida por ninguém. Eu lavarei minha
própria roupa e prepararei minha própria comida. ― Seu tom
desafiador chocou-se com a atmosfera rarefeita na sala. ―
Minha família é Quaker. ― Emily levantou o queixo.
Se sua bem-educada empregadora ficou chocada com a
explosão, o rosto não revelou nada. ― Claro, como você
desejar. Estamos dispostos a acomodá-la de qualquer forma.

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― Sua voz soou como uma flauta trinando, musical e


calmante. ― Vamos discutir o currículo. Pela manhã pensei
em literatura, poesia, caligrafia e francês. Meus favoritos são
Lord Byron e Tennyson. Matemática e quaisquer lições de
ciências que você ache necessário para jovens senhoras, após
o almoço. As meninas descansam no final da tarde e seu
jantar é servido na cozinha às seis. Você pode comer com elas
ou será bem-vinda a juntar-se a mim e a meu marido às sete
na sala de jantar. ― Com isso, a Sra. Bennington descansou
contra a cadeira com um ar indiferente.
― O currículo parece bom, madame. Eu acredito que
está bem dentro do meu conhecimento e habilidades. ―
Sentindo-se tola, Emily procurou em sua mente algo
reconciliador para dizer. Não recebendo uma resposta, ela
timidamente começou a retirar-se da sala.
― Oh, senhorita Harrison, temos algo em comum.
Emily parou na soleira da porta e virou-se.
― Eu também venho de família Quaker. De
Massachusetts, originalmente. Desde meu casamento, eu
adoro na igreja presbiteriana do meu marido na cidade, mas
minha irmã em Front Royal ainda é Quaker. Foi assim que
ela criou seu filho, Alexander, embora não tenha tido muita
sorte em converter meu cunhado. Alexander leva os preceitos
Quakers muito a sério e por essa razão ele não se juntou ao
exército confederado. ― Ela estudou Emily como se esperando
uma reação.
Emily arrastou os pés, insegura quanto à resposta
esperada. ― Sim, madame.

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― Você vai gostar de Alexander, eu acho. Ele é da sua


idade, tranquilo e estudioso. Ele sempre tem o nariz em um
livro e adora literatura clássica, o que me deixa cansada.
Você vai conhecê-lo esta noite se optar por jantar conosco.
Ele estará nos visitando por alguns dias. ― A Sra. Bennington
sorriu calorosamente.
Ele parecia insuportavelmente entediante. ― Será um
prazer, madame. ― Respondeu ela, desconfortável e quente
em seu vestido de viagem. Ela estava ansiosa para concluir a
entrevista.
― Eu tenho certeza que você está cansada. Joshua irá
mostrar-lhe o seu quarto. Você vai conhecer as meninas
amanhã depois do café da manhã. Boa tarde.
Emily limpou a garganta e parou de agitar as fitas em
seu vestido. ― Eu farei o meu melhor com suas filhas, Sra.
Bennington. Peço desculpas se eu a ofendi mais cedo. Estou
muito contente de ter este trabalho. ― Ela balançou a cabeça
e saiu quase derrubando o mordomo quando virou no
corredor.
Ele baixou seu nariz aquilino como se avaliando uma
potencial loucura. Aparentemente satisfeito que ela não
representava uma ameaça imediata, ele disse: ― Se você me
seguir, senhorita, eu a levarei para seu quarto o mais
rapidamente possível.
A face de Emily queimou de constrangimento até que
fechou a porta do quarto. Seu baú desgastado e sua bolsa
haviam sido deixados aos pés da cama. Ela estava sozinha,
felizmente. Tirando seu chapéu arranhado e desabotoando a

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parte superior do seu vestido de gola alta, ela abriu as portas


francesas para sua varanda e saiu. Ela respirou
profundamente, tanto pelo luxo da privacidade como pelo
aroma limpo e penetrante do rio. Com uma visão clara da
água e da margem distante, Ohio e a liberdade estavam a
poucos metros de distância.
Isto não faz com que os escravos anseiem nadar para o
outro lado? Estar tão perto, mas ainda tão longe?
― Não importa o quão agradável você seja, Sra.
Bennington, você ainda é uma escravagista. ― Murmurou
Emily baixinho.

Na luz esmorecidamente fraca do solário, Augusta


Bennington ponderou sobre a jovem mulher que ela acabara
de contratar. Ela sentiu compaixão e um toque de piedade
pela idealista de mente forte e coração terno. Emily a lembrou
de outra mulher franca que queria mudar tudo de errado com
a sociedade ― ela mesma. Mas agora Augusta era
complacente e fraca devido as enfermidades e simples tédio.
Uma abolicionista ardente vivendo em uma plantação
escravista? Esta era exatamente a influência que ela
procurava para suas filhas protegidas e isoladas. Mas
convencer seu marido da sabedoria de sua decisão seria
outra questão.

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― O que você está fazendo na minha cozinha? ― Uma


voz alta pegou Emily de surpresa. Ela deixou cair a toalha
que estava usando para espantar a fumaça da sala. A toalha
caiu perto do queimador do fogão e explodiu em chamas.
Emily saltou para trás assustada. ― Eu estava tentando fritar
ovos e batatas, mas a gordura ficou muito quente. ― Ela
olhou para sua refeição enegrecida presa à frigideira.
― Pelo amor de Deus! ― A mulher empurrou Emily para
fora de seu caminho. Ela pegou a toalha flamejante com a
ponta de um atiçador, atirou-a no chão de tijolos e extinguiu
as chamas com uma pá de areia de um balde próximo. Em
seguida, envolveu outra toalha ao redor da alça da panela,
puxou-a do queimador e cobriu-a com uma tampa pesada.
Então, com as mãos nos quadris, ela se virou para Emily. ―
Quem é você?
Emily limpou a garganta e endireitou as costas. ― Eu
sou a senhorita Emily Harrison, a nova governanta, minha
senhora. Estou muito feliz em conhecê-la, Sra. ...
A testa da mulher franziu-se em confusão. ― Tudo bem,
você é a senhorita Harrison, mas o que está fazendo na
minha cozinha? Você poderia ter queimado o lugar até o
chão.
Outra pessoa com quem eu comecei com o pé errado. ―
Eu estava preparando meu próprio jantar.

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A mulher arqueou uma sobrancelha. ― O jantar é


servido na sala de jantar às sete se você está comendo com o
Dr. e Sra. A Bennington e às seis na cozinha se você está
comendo com as meninas. Eu não sei por que ninguém lhe
disse isso. ― Balançando a cabeça, ela começou a limpar a
bagunça no fogão como se Emily já não estivesse lá.
― Não, minha senhora. Eu não comerei comida
preparada por mãos escravas. Vou cozinhar para mim mesma
enquanto estiver aqui. Eu acredito que... ― Sua voz vacilou. A
cozinheira parou de limpar e virou-se para ela. A expressão
no rosto da mulher fez com que Emily retrocedesse um passo.
― Meu nome é Matilde Amite. Você conheceu meu
marido, Joshua, esta tarde. Nós não somos escravos. Somos
pessoas de cor livres. Eu recebo um salário para cozinhar
aqui e esta é a minha cozinha. Não se engane sobre isso. Se
você quiser descascar suas próprias batatas ou debulhar
suas próprias ervilhas, isso não faz nenhuma diferença para
mim. Mas você vai fazer isso lá fora, não fazendo este tipo de
bagunça aqui dentro.
― Oh, eu pensei ... quero dizer... sinto muito, Sra.
Amite.
― Não importa. Não houve dano. ― Matilde voltou a
limpar seu fogão enquanto Emily escapuliu da cozinha. Ela
foi para a casa, mas não foi muito longe.
― Boa tarde, Srta. Você parece estar fugindo da cena de
um crime. ― Um homem alto apareceu do nada diretamente
em seu caminho.

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Emily olhou para os olhos cinza-estanhos colocados em


um rosto anguloso. Ele tinha os cabelos mais compridos que
já tinha visto em um homem. Usava botas de cano alto,
calças apertadas e nada mais. Seu peito tenso e musculoso
estava nu ― sem camisa, sem paletó. Ela arfou por sua quase
nudez, mas não conseguia desviar seus olhos.
― Desculpe minha aparência. Eu estou no meu caminho
de volta do banho no rio. Eu gosto dele em uma tarde quente,
você não? ― Como se isso explicasse o seu descaramento,
continuou. ― O que aconteceu? Será que eu ouvi
corretamente que você tentou incendiar a cozinha da
Matilde? Eu nunca ouvi seu tom tão aborrecido. ― Seu
sorriso gravou rugas profundas em torno dos seus olhos
como se ele estivesse apreciando a situação.
― Não, senhor. Foi apenas um mal-entendido. ― O foco
de Emily esvoaçou entre seu rosto e os músculos de seu
peito. ― Eu ficaria muito grata se você amavelmente se
cobrisse. ― Ela apontou para a protuberância de roupas
enfiadas debaixo do braço. ― Eu sou uma mulher prometida.
É altamente impróprio para mim te ver em tal estado de
nudez. ― Declarou precisamente, deixando seu olhar vagar
novamente.
Ele era mais alto e magro do que seu noivo, mas seus
membros musculosos o faziam parecer forte e poderoso.Emily
sentiu uma pontada de vergonha por estar comparando este
estranho com Matthew e até mesmo o achando levemente
deficiente.

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― Excelente! Você quer dizer que eu estou atrasado? Nós


apenas nos conhecemos, mas você já está prometida a outro?
Eu estou tendo a pior sequência de sorte. Que tipo de mal-
entendido teve com Matilde? ― Ele a obedeceu colocando seu
casaco, mas negligenciando em abotoá-lo. Pequenas gotas de
água agarravam-se ao peito dele e brilhavam em reflexo à luz.
Momentaneamente sem fala por seu sarcasmo, Emily
logo se recuperou. ― Eu mesma estava preparando algo para
comer no jantar.
― Você está dizendo que Matilde recusou-se a cozinhar
para você? O que você poderia ter feito para ofendê-la tão
rapidamente? ― Seu tom parecia horrorizado, mas seus olhos
cinzentos brilharam com diversão como se desfrutasse do seu
desconforto.
― Eu simplesmente disse que queria cozinhar para mim
e não servir-me da comida preparada por trabalho escravo.
Eu sou uma Quaker. ― Sua declaração ressoou com orgulho
e dignidade. ― Nós abominamos a prática de manter nosso
próximo como escravo.
― Eu assumi que você fosse uma Quaker por sua
pronúncia, mas Matilde não é uma escrava. De onde você
tirou essa ideia? Tenho certeza de que ela colocou-a a par
disto. ― Ele cruzou os braços musculosos sobre o peito
enquanto observava.
― Sim, a Sra. Amite corrigiu minha suposição incorreta.
Estou comprometida em falar como os Benningtons, mas às
vezes eu erro levemente quando fico nervosa. ― Ela corou,
sem saber para onde jogar seu olhar.

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― Peço desculpas por te deixar nervosa. Eu tinha


confundido você com a governanta que minha tia contratou
para domar minhas duas primas selvagens. ― Ele passou a
mão pelos cabelos úmidos. ― Você deve ser uma cozinheira
recém-contratada. Talvez treinada em Paris? Tenho certeza
que os Benningtons esperam ansiosos por sua culinária. ―
Ele correu os olhos sobre ela da cabeça aos pés. ― A julgar
pelo seu desempenho inicial e sua estrutura fina, eles não
devem ter medo de engordar na meia-idade.
Levou um momento para Emily reconhecer o ridículo da
situação. Mas quando o fez, ela respondeu com sua habitual
falta de equilíbrio. Com as bochechas flamejantes, ela
apertou os punhos e falou através dos dentes cerrados. ―
Minhas habilidades culinárias não são de sua preocupação,
eu te asseguro. Bom dia! ― Pegando sua saia, com um
movimento brusco ela passou por ele ... ou pelo menos
tentou. Precisamente no mesmo momento, ele ficou em seu
caminho. Ela se chocou sonoramente em seu peito nu. Emily
sibilou como um gato selvagem e manobrou para a esquerda.
Mas o homem horrível moveu-se em seu caminho
novamente. ― Eu imploro seu perdão.
Quando ela levantou o olhar, eles estavam a poucos
centímetros de distância. Sua saia soprou contra as pernas
de sua calça. Ela cambaleou e perdeu o equilíbrio nas lajes.
Ele estendeu a mão para firmá-la, seus dedos
espalmando sua cintura. Com uma inalação exagerada, ele
inspirou o cheiro persistente de seu sabão. ― Meu... você
cheira bem. Não como qualquer cozinheira que já tivemos.

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Elas sempre cheiram a cebola e alho. ― Ele cheirou seu


cabelo de uma forma barulhenta. ― Você cheira a mel e erva-
cidreira. ― Declarou com evidente satisfação.
Isso foi demais. Emily pulou para trás. ― Senhor, eu
devo insistir que você pare de me cheirar como um cachorro.
É muito inapropriado! ― Ela alisou as pregas de sua saia com
ambas as mãos. ― Eu não sou uma cozinheira. Eu sou a
governanta que sua ... tia ... contratou. Eu sou a senhorita
Emily Harrison, de Marietta. ― Ela enxugou a palma da mão
na saia antes de estender a mão.
Ele olhou por um momento. Então agarrou sua mão
firmemente, atraiu-a para sua boca e depositou um beijo na
pele sardenta de seus dedos. ― Que surpresa agradável.
Estou encantado em conhecê-la, senhorita Harrison.
Horrorizada, Emily puxou sua mão de volta. ― Isso é
muito inadequado, senhor, sem minhas luvas!
― Eu estava me perguntando onde suas luvas da tarde
estariam.
― Eu duvido que era isto o que você estava pensando.
Se você puder, por favor, desculpe-me. ― Emily deu um passo
para a esquerda ao mesmo tempo em que ele espelhava sua
ação.
― Eu imploro seu perdão. Parece que não estamos nos
entendendo. ― Ele recuou um centímetro.
Cruzando os braços sobre o peito, Emily fitou-o
diretamente nos olhos. Na escola para senhoras da senhorita
Turner ela tinha praticado este olhar no espelho para usar
com alunos indisciplinados. ― Devo insistir para que fique

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parado para que eu possa passar. ― Ela enunciou cada


palavra, não deixando qualquer dúvida quanto ao seu
desagrado.
Ele permaneceu inerte com os braços firmemente ao seu
lado. ― Certamente, mas eu quero apresentar-me
corretamente para que o nosso memorável primeiro encontro
não deixe você com a única impressão de impropriedade. ―
Ele se curvou profundamente, seu cabelo longo caindo sobre
a testa. ― Eu sou Alexander Wesley Hunt, de Hunt Farms.
― Prazer em conhecê-lo. ― Sacudindo a cabeça, Emily
correu dele enquanto tinha a chance.
― Do condado de Warren. Está fora de Front Royal. ―
Sua voz elevou-se com intensidade. ― Vivemos ao leste das
Montanhas Shenandoah. Talvez você já tenha ouvido falar de
nossa fazenda?
Emily correu pelo caminho, não parando até chegar à
segurança do pórtico. Então olhou por cima do ombro.
Ele ficou onde ela o deixou, balançando-se em
calcanhares em um ataque de riso descontrolado. Colocou as
mãos em volta da boca e gritou: ― Por favor, não se apresse
em um casamento impetuoso até que eu tenha a
oportunidade de me redimir.
Fervendo de fúria, Emily marchou para dentro da casa e
subiu a escada dos criados. Este homem arrogante era o
sobrinho, leitor ávido, do qual a sra. Bennington tinha
falado? Ele certamente não parecia sério e estudioso. Ele foi a
pessoa mais desagradável do mundo! Agora ela podia
adicioná-lo à lista crescente de pessoas que tinha ofendido

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desde sua chegada à ilha. Por que o homem impertinente e


meio vestido tinha conseguido irritá-la, ela não podia dizer.
Mas ela passeou por seu quarto durante a noite, relembrando
suas provocações e pensando nas respostas que desejava ter
pronunciado. Por que um sobrinho se banhava no rio, mas
agia como se fosse o dono do lugar? E por que ela não
conseguia tirá-lo da cabeça?
Naquela noite ficou em sua varanda e observou a água
calma e plana do rio Ohio. Ocasionalmente, uma barcaça
carregada deslizava corrente abaixo quebrando a superfície
lisa em seu caminho para o sul. Curiango e Caprimulgus
chamavam sua atenção dos salgueiros do pântano na
margem do rio. Seus gritos tristes aprofundaram sua
melancolia quase a consumindo. Exausta, ela rastejou para a
cama e aconchegou-se sob as cobertas sem qualquer jantar,
quer com os Benningtons ou suas filhas. Após os
acontecimentos do dia, ela descobriu que tinha pouco apetite.
― Eu vou fazer você se orgulhar, mamãe. ― Ela sussurrou na
escuridão. Emily adormeceu assim que sua cabeça bateu no
travesseiro de penas de ganso.
Eu vou fazer você se sentir orgulhosa.

Emily acordou com a luz do sol entrando no quarto,


uma brisa perfumada agitando as cortinas de renda e uma
batida na porta. Jogando um roupão sobre a camisola,
cruzou suavemente pelo tapete grosso. Um rosnado em seu
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estômago lembrou-lhe que tinha pulado o jantar. Cheirando a


comida através da porta fechada, ela respondeu à batida com
gratidão.
Alexander Hunt segurava uma bandeja de café
fumegante em suas mãos estendidas. ― Bom dia, senhorita
Harrison. Eu espero que você tenha dormido bem. ― Ele
aproximou a bandeja para sua inspeção. ― Aqui está o seu
café da manhã. Você deve estar faminta esta manhã. Matilde
disse que ela mesma cozinhou este alimento e que você deve
comer toda a refeição.
― Bom dia. ― Emily não se moveu. Ela olhou da bandeja
para ele e depois de volta para a bandeja.
― Posso entrar? ― Ele cutucou a porta aberta com o pé.
― Talvez eu possa colocar isto em sua varanda e compartilhar
uma xícara de café com você? Temos outra manhã
maravilhosa.
― Você certamente não pode, senhor. ― Emily
tardiamente recuperou seu juízo. ― Eu não estou vestida. ―
Ela dobrou seu roupão sobre si com mais segurança e
amarrou o cinto. Tolamente, ela respondeu a batida na porta
como se ainda morasse na fazenda com seus pais. Seus
olhares furtivos do pescoço até os dedos dos pés lembraram
os seus próprios olhares.
― Por favor, expresse o meu apreço a sra. Matilde. E
obrigada, sr. Hunt, por trazer meu café da manhã. ― Ela
pegou a bandeja e tentou fechar a porta com seu joelho, mas
sua bota foi mais rápida.

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Lembrei-me de suas convicções Quaker. Porque eu


sabia que você não comeria alimentos a menos que fosse
carregada por mãos livres, eu me ofereci para a tarefa. ―
Cruzando os braços sobre seu colete, ele descansou contra o
batente da porta. ― E posso garantir a você, eu não sou
escravo de nenhum homem... ou de qualquer mulher, de
ninguém. Pelo menos ainda não.
Emily olhou para ele incrédula. ― Você foi enviado pelo
diabo especificamente para me irritar, senhor Hunt? ― Ela
olhou para o corredor, não desejando que os Benningtons
ouvissem a pergunta.
Endireitando-se, ele inclinou-se para ela sem um pingo
de decoro. Uma mecha de cabelo caiu sobre sua têmpora. ―
Não. O diabo inicialmente enviou-me... para comprar cavalos.
― Ele piscou e caminhou lentamente pelo corredor com os
polegares enganchados nos bolsos.
Ela olhou para suas costas até que o cheiro da comida
despertou seus sentidos. Inalando o aroma do café e do
presunto frito, ela tragou quase tudo no prato: pão quente,
presunto em fatias finas, ovo cozido, creme de morangos e
um bule de café forte. Devorou cada pequeno pedaço de
comida em sua mesa na varanda. Graças a Deus a cozinheira
acabou por ser um empregado assalariado, porque Emily não
sabia quando ela tinha comido uma refeição tão deliciosa. A
maneira como suas roupas pendiam de seus ombros
denotavam que ela parecia estar lentamente morrendo de
fome, por culpa de sua própria culinária.

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Uma vez revitalizada e vestida para o dia, Emily desceu


as escadas e saiu pela porta da frente, felizmente ninguém
estava observando. Tulipeiras e gigantescas nogueiras negras
sombreavam o extenso gramado. De pé no terraço de laje, ela
examinou a mansão que seria sua casa, pelo menos nos
próximos meses. O edifício principal era em estilo georgiano,
de três andares com telhas de madeira pintadas e chaminés
de tijolo em ambas as extremidades. Uma grande janela
palladiana coroava a porta da frente e um belvedere aberto
cobria o terceiro andar como uma cúpula enorme. Um pórtico
coberto conectava duas alas separadas da casa ― a da direita
abrigava a cozinha e as despensas, mas a da esquerda estava
fechada e trancada. Tudo era equilibrado, simétrico e
arrumado, desde as colunas correspondentes até as
chaminés idênticas em cada ala. Ela recuou para erguer seu
pescoço em direção ao céu.
― Senhorita Harrison? ― Uma voz assustou Emily quase
derrubando-a.
Ela virou-se para ver uma mulher de pele cobre de cerca
de dezesseis anos, elegante e vestida ricamente,
aproximando-se do jardim de flores. ― Sim?
― Eu sou Lila, criada das senhoritas Margaret e Anne.
Você conheceu meus pais ontem, Matilde e Joshua. ― Sua
expressão não revelou nada. ― Se você me seguir, as meninas
estão ansiosas para conhecê-la. ― Sua voz era clara,
articulada e culta. Seu sotaque continha uma inflexão do sul,
talvez de New Orleans, e não era o que Emily esperava na
Virgínia.

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Prazer em conhecê-la. ― Apressando-se para


acompanhá-la, Emily seguiu a empregada jovem para o local
de sua entrevista inicial. Duas jovens senhoritas muito loiras
estavam de pé quando ela entrou na sala ensolarada. A mais
alta das duas estendeu a mão.
― Senhorita Harrison? Eu sou Margaret. Esta é Anne. E
vejo que você conheceu Lila. ― Disse educadamente. Ela
curvou-se na mais ínfima das reverências. ― Nós estamos tão
felizes que você veio para ser nossa professora. ― Seu sorriso
pareceu genuíno e Emily agradou-se dela imediatamente.
- Sim, nós odiávamos aquele velho e amargo Sr. Tate. ―
Disse a irmã mais nova.
― Eu acredito que o que minha irmã está tentando dizer
é que superamos seu currículo.
― Sim, isso e ele cheira mal. ― Anne interveio enquanto
juntava as mãos atrás das costas.
― Cheirava mal ― corrigiu Emily.
― Oh, você o conheceu também?
― Não, eu nunca o conheci, mas “cheira mal” indica que
algo estava errado com o nariz dele. ― Disse Emily enquanto
Margaret tentava esconder um sorriso.
― Algo estava errado com o nariz, senhorita Harrison. ―
concordou Anne. ― Era vermelho e bulboso. Uma vez ouvi
mamãe dizer ao papai que era porque ele era apaixonado por
Bourbon. ― Nesse momento Margaret irrompeu em
gargalhadas. Emily ouviu Lila rir também.

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Sim. Bem, vamos esquecer o Sr. Tate por enquanto.


Por favor, mostrem-me os livros que ele usava com vocês
duas em suas aulas.
― Com nós três, ― corrigiu Margaret ― Lila estuda
conosco.
― Você se importaria se eu me sentasse? ― perguntou a
jovem, encontrando os olhos da governanta.
― Importar? Deus, não. Estou contente, de fato. ― Emily
parou de divagar antes de dizer algo lamentável, como fez
com a mãe das meninas. ― Tudo bem, vamos sentar e dar
uma olhada em seus livros.
A manhã passou agradavelmente enquanto Emily media
suas proficiências. As meninas tinham bases sólidas na
gramática inglesa, dicção e caligrafia. Margaret e Lila
poderiam passar bem falando francês, mas não sabiam ler ou
escrever muito bem. Anne tinha progredido pouco além “s’il
vous plaît” e “merci”. Ela também exigiria um reforço corretivo
de matemática, enquanto as outras duas estavam prontas
para álgebra e geometria. Todas as três precisavam de uma
base mais ampla na literatura e ciência parecia ter sido
completamente negligenciada pelo Sr. Tate beberrão.
Depois de duas horas, Emily levantou-se e anunciou: ―
Amanhã à tarde começaremos uma unidade de ciência sobre
as plantas comestíveis em comparação com as plantas
indígenas venenosas desta área.
Elas estavam lendo de uma pilha de revistas da Senhora
Godey e olharam para cima com expressões zombeteiras. ―
Peço desculpas? ― disse Margaret.

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Você deve saber quais plantas são seguras para


escolher quando você está na floresta e quais coisas você
nunca deve colocar em sua boca. ― Explicou Emily, tentando
estimular o interesse em seu tópico.
― Mas Matilde normalmente embala um cesto de
refrescos sempre que passamos uma tarde no dique ou à
beira do lago. ― O tom de Margaret indicava confusão em
estudar tais matérias.
― Sim, mas e se você se perdesse ou fosse abandonada
nas montanhas? ― A pergunta de Emily pairou no ar
enquanto um conjuntos de três pares de olhos arregalavam-
se como pires. Então Lila riu atrás de uma palma levantada.
― Não importa. ― Disse Emily, levantando as mãos em sinal
de despedida. ― Vamos parar por hoje. Vou levar o resto da
tarde para planejar meu currículo e o curso de estudo.
― Boa tarde. ― Anne balançou a cabeça e voou para fora
da porta.
Margaret aproximou-se da mesa de carvalho onde Emily
se sentou.
― Boa tarde, senhorita Harrison. ― Com uma tentativa
recatada, ela colocou a mão sobre a de Emily. ― Estou tão
feliz por você ter vindo para nossa ilha. Eu espero que você
seja feliz aqui. ― Depois de um lampejo dos seus brilhantes
dentes brancos, ela também tinha ido embora, levando várias
revistas com ela.
Apenas Lila permaneceu, avaliando-a em silêncio. ― Eu
vou trazer-lhe uma bandeja com o almoço, senhorita, e se
você quiser, eu posso mostrar-lhe a ilha mais tarde.

23
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Obrigada, Lila. Eu gostaria de um sanduíche e


apreciaria muito um passeio. ― Emily refletiu mais sobre sua
impressão na empregada do que nas irmãs Bennington. Lila a
tinha observado toda manhã como se esperando algo perigoso
acontecer. Sua mãe provavelmente tinha repetido a história
da tentativa de Emily em cozinhar que quase queimou a
cozinha. ― Espero que possamos ser amigas, ― acrescentou.
― Sim, senhora. ― Disse Lila antes de desaparecer pela
porta sem olhar para trás.

Horas mais tarde, o passeio prometido revelou-se muito


para Emily. Plantação Bennington não era realmente só uma
plantação, mas mais uma elegante fazenda agrícola de
subsistência. Havia pomares de maçã e pêssego, campos
semeados com milho e aveia e uma horta substancial atrás
da cozinha. Mas nenhuma safra parecia grande o suficiente
para fornecer mais do que o necessário para o homem e os
animais na residência.
Lila parou a carruagem aberta perto do portão para um
prado gramado. Elegantes cavalos lustrosos pastavam e
brincavam com vários potros novos. Assim que a menina
puxou o freio, Emily pulou e correu com a saia e anáguas
apertadas no punho. Ela adorava correr apesar da insistência
de sua mãe sobre o comportamento de uma dama em todos
os momentos. Afinal, só Lila testemunharia e ela rapidamente

24
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

envolveu-se e superou Emily até a cerca. Sem fôlego, elas


subiram até o topo da cerca para uma melhor visualização.
― Esses são uns belos cavalos, Lila. Eles são puros-
sangues?
― Sim, minha senhora. Eles são o orgulho e a alegria do
Dr. Bennington.
― Ele compete com eles? Aposto que eles são muito
rápidos. Eu gostaria que Matthew, meu noivo, pudesse vê-los.
Ele é particularmente apaixonado por cavalos. ― Emily não
conseguiu conter sua excitação.
― Não, minha senhora, não há nenhum lugar na ilha
para corridas. O Dr. Bennington cria cavalos e exibe-os para
seus amigos. Mas ele se apega tanto, que raramente vende
um potro.
― Eu também me afeiçoaria. E não me chame de “minha
senhora” quando estamos apenas eu e você. Por favor,
chame-me de Emily.
Lila sacudiu a cabeça. ― Isso não seria certo, senhorita
Harrison. Eu não vou fazer isso.
― Certo. Enquanto você me chamar de senhorita
Harrison, vou tratá-la como senhorita Amite.
Lila parecia confusa e desconfiada enquanto
caminhavam de volta para a carruagem. ― Você pode me
chamar como preferir.
Emily respirou profundamente. ― Ah, o cheiro da erva
dos prados. Ela crescia em nosso melhor pasto. Apenas a
madressilva é mais doce. ― Emily subiu no carrinho e
assumiu as rédeas. Depois de um ruído de sua língua, o

25
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

cavalo partiu em um trote rápido para baixo na pista


sombreada.
― Você pode dirigir uma carruagem? ― Lila agarrou o
assento com ambas as mãos.
― Claro que eu posso. Eu não cresci em uma plantação
como esta. Eu vivia em uma pequena fazenda de solo pobre
onde eu aprendi a fazer quase tudo. ― O que não era
exatamente verdade considerando suas habilidades
culinárias. Emily apontou para um prédio baixo e caiado com
atividade movimentada. ― O acontece lá dentro?
― Essa é nossa leiteria. ― Disse Lila orgulhosamente. ―
Temos quatrocentas cabeças de vacas Jersey na ilha.
Fazemos nossa própria manteiga e queijo para vender na
cidade, junto com todo o leite que não precisamos.
― O Dr. Bennington tem tempo para dirigir um laticínio
além de sua prática médica?
― Não, os trabalhadores controlam e levam o queijo para
Parkersburg no dia do mercado. Eles dividem os lucros ao
meio com o Dr. Bennington.
Emily ficou boquiaberta. ― Esses homens são escravos?
― Sim, minha senhora. ― Lila estendeu a mão para
arrancar folhas baixas penduradas acima.
― Ele permite-lhes manter o dinheiro que ganham com o
seu leite?
― Sim, minha senhora. ― Lila olhou-a pelo canto do
olho.
― O que eles fazem com isso? ― As perguntas de Emily
estavam começando a soar estranhas até mesmo para ela.

26
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Eles compram sua liberdade depois que


economizaram o suficiente. Foi o que meus dois irmãos
fizeram no ano passado. ― Lila olhou para Emily com
orgulho.
― Eles ainda trabalham aqui? ― Emily puxou as rédeas
para retardar a carruagem.
― Não senhora. Ambos se mudaram para Cleveland para
trabalhar nos barcos de minério. Eles não gostam muito de
ser marinheiros pelo que nós entendemos a partir de suas
cartas. Meus irmãos não leem, nem escrevem bem, como eu.
Há um outro negócio na ilha também. O Dr. Bennington faz
uísque com os quinhentos hectares de milho cultivados aqui.
Ele leva o uísque até Cincinnati para vendê-lo duas vezes por
ano. Ele mantém todo esse dinheiro, no entanto. Ele diz que é
para os tempos de pobreza quando as pessoas não podem
pagar suas contas médicas. Mamãe diz que a sra. Bennington
não sabe nada sobre o uísque, sendo ela uma ex-Quaker e
tudo mais. Quakers não veem álcool com bons olhos.
― Estou bem ciente disso, pois sou uma Quaker. ―
Emily levou a carruagem para uma parada. ― Bebidas
alcoólicas são produzidas nesta ilha?
Lila respirou fundo e apertou os lábios. ― Eu errei ao
dizer isso, senhorita Harrison? Mamãe vai me esfolar viva se
este segredo chegar até a sra. Bennington. ― Ela parecia
desconfortável. ― Você disse que queria que fossemos amigas
― acrescentou.
Emily engoliu sua repulsa por ter uma destilaria em
estreita proximidade. ― Suas confidências estão seguras,

27
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

senhorita Amite. Não tenha medo. Como os Benningtons


dirigem suas vidas pessoais não me interessa. Eu sou uma
empregada aqui, nada mais, o mesmo que você.
― Sim, minha senhora. ― Lila relaxou contra o assento
novamente.
― Comprou sua liberdade, senhorita Amite?
― Meu pai comprou, há muito tempo. Eu não me lembro
de muita coisa. ― Lila sentou-se e pegou as rédeas que Emily
entregou a ela. ― É melhor voltarmos para a casa. Você
poderia querer descansar antes do jantar.
― Muito bem. Você respondeu a perguntas suficientes
por um dia. ― A verdade é que a ilha não era o que Emily
esperava nem os moradores os demônios que sua mãe
descrevera como os senhores de escravos seriam. Mas as
aparências podem ser enganosas, recordou-se.
― Você comerá na cozinha com as jovens senhoritas ou
jantará com os Benningtons? ― Os olhos brilhantes de Lila
revelavam uma terceira possibilidade não expressa.
― Se você está verificando se eu voltarei a tentar
cozinhar para mim, a resposta é não. Mas eu não vejo por
que eles não comem todos juntos. Minha família fazia assim.
As famílias que eu conheço comem juntas na hora das
refeições.
― Senhorita Margaret tem quatorze anos. Logo ela será
convidada a juntar-se regularmente a seus pais na mesa de
jantar, mas a senhorita Anne tem apenas onze anos. Ela é
muito jovem para se esperar que se comporte por muito

28
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

tempo. Ela janta com a família somente aos domingos e em


ocasiões especiais.
O jantar inaugural de Emily mais tarde naquela noite
explicou muito bem porque uma menina de onze anos de
idade não seria bem-vinda. Ninguém poderia esperar que
alguém tão jovem sentar-se-ia quieto para uma refeição de
três horas. Tendo decidido comer na cozinha com as
meninas, ela mudou de ideia após descobrir o cartão de
pergaminho pesado que tinha sido deslizado debaixo de sua
porta enquanto ela estava fora com a empregada.
Em uma escrita rebuscada, a senhora Bennington tinha
escrito: ― Por favor, junte-se a nós para o jantar. O Dr.
Bennington está ansioso para conhecê-la.
Como ela poderia recusar tal convocação de seu
empregador?

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 2

Usando seu melhor vestido ― de musselina pêssego com


um colar de renda e punhos ― Emily fez uma aparição no
andar de baixo prontamente às sete horas, mas não havia
nem uma alma lá. Entrando na linda sala de jantar, seus
olhos subiram até o teto alto. Rosetas artesanais de gesso
cercavam um magnífico lustre de cristal que segurava pelo
menos três dúzias de velas. Outras trinta centelhas
queimavam em candelabros de prata ao longo dos peitoris
das janelas, lançando luzes e sombras de dança pela sala. O
piso de pinho vermelho tinha sido polido e brilhava. Um
grosso tapete Aubusson estava debaixo da mesa Hepplewhite.
Emily pegou cautelosamente um pedaço de porcelana
Haviland, uma faixa de ouro decorava cada peça. Emily
ofegou, tendo visto tal opulência apenas em catálogos na
escola de Miss Turner.
― É um prato, senhorita Harrison. ― Alguém falou perto
das janelas.
Reconhecendo a voz zombadora, Emily tremeu em seus
sapatos.

30
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Eu sei o que é isso. Eu estava simplesmente


admirando o padrão. ― Ela manteve suas palavras suaves e
controladas.
Ela não tinha intenção de deixá-lo sob sua pele
novamente.
― Eu acredito que o padrão é chamado de "Noiva Nova"
ou "Donzela de Longo Sofrimento", algo assim. ― Alexander
aproximou-se rapidamente e ergueu-se sobre seu ombro. Ele
arrancou o prato de jantar de seus dedos para examinar mais
de perto. A respiração dele em seu pescoço arrepiou-lhe a
espinha, mas flanqueada por uma cadeira de encosto alto em
ambos os lados, Emily ficou encurralada.
― Você gosta de prender pessoas em passagens e entre
móveis pesados, Sr. Hunt?
― Ah, lembrou-se do meu nome de ontem, senhorita
Harrison. Faz o coração de um homem bom perceber que ele
não é... esquecível.
Ele curvou-se quando largou o prato, respirando sua
fragrância de uma maneira não muito sutil.
― Aquele padrão é chamado de Versailles, Alexander.
A sra. Bennington falou pela porta.
― Não fazia ideia de que você se interessasse por objetos
de porcelana. ― Ao olhar ironicamente para o sobrinho,
inclinou-se sobre uma bengala e o braço de um cavalheiro de
aparência distinta. Sua cadeira de rodas não estava à vista.
Joshua seguiu com vigilância atrás do casal.
― Boa noite, tia Augusta. ― Curvou-se profundamente.
― Você está linda esta noite, como sempre.

31
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

A sra. Bennington voltou sua atenção para Emily. ―


Perdoe nosso atraso, senhorita Harrison. ― Disse ela com um
sorriso gracioso. ― Estou feliz que você tenha decidido se
juntar a nós para o jantar.
Ela estava vestida impecavelmente em cetim esmeralda
com um pingente de joias pesado que brilhou à luz das velas.
― Obrigada pelo convite, senhora. ― Emily sacudiu a
cabeça educadamente. Uma vez sentada, a sra. Bennington
fez as apresentações.
― Senhorita Harrison, este é meu marido, Dr. Porter
Bennington. Meu caro, esta é a senhorita Emily Harrison,
anteriormente de Ohio.
Emily deixou sua contemplação do misterioso sobrinho
para olhar nos olhos azuis aquosos de seu patrão, seu
adversário ― um escravocrata. Ela tinha que admitir que ele
não parecia mal.
“Não deixe que as aparências a enganem“. Ela podia
ouvir as palavras de sua mãe soando em seus ouvidos,
mesmo quando estendeu os dedos para o homem gentil.
― Como vai, senhor ? – Murmurou Emily.
― Senhorita Harrison. ― O dr. Bennington assentiu e
apertou sua mão. ― É um prazer conhecê-la.
Com cabelos grisalhos e uma testa profundamente
arredondada, seu rosto estava muito desgastado para ser
bonito. No entanto, seus olhos brilhavam de compaixão,
especialmente quando ouvia sua esposa contar a lista de
atributos de Emily como governanta. Quando concluiu,
sorriu.

32
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Nossas filhas não escolarizadas caíram nas mãos


certas. Você terá seu trabalho voltado para que possa
prepará-las para serem recebidas na sociedade educada.
Receio que nossa pequena ilha isolada nos enganou, e nossas
meninas estarão em desvantagem no mundo.
Da terrina apresentada à sua esquerda, encheu uma
porção de sopa em sua tigela.
― Eu me junto à minha esposa em recebê-la e desejo
estender qualquer coisa que possa tornar a sua estadia mais
agradável.
― Obrigado, senhor ― disse Emily. Seria muito mais fácil
odiá-lo se ele não fosse tão malditamente agradável.
O Dr. Bennington olhou para o sobrinho. ― Boa noite,
Alexander. Confio que você se apresentou à nossa nova
governanta.
― Boa noite senhor. Sim, eu fiz boas apresentações no
caminho para a cozinha de verão ontem.
Quando Emily lembrou do peito nu de Alexander,
manchado de gotas de água até o cós de suas calças, sentiu
uma onda quente de calor rastejar por seu pescoço.
Adequado mesmo. Emily sentiu seu olhar enquanto ela
colocava uma sopa cremosa em sua tigela. Olhando para
cima, achou sua intuição correta.
― É um prazer vê-lo novamente, sr. Hunt.
― Garanto-lhe que o prazer é meu. Minha tia e meu tio
têm a sorte de ter alguém para esmagar qualquer calamidade
que surja.

33
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Emily ruborizou até a linha do cabelo, concentrou-se em


levar sopa para sua boca sem derramá-la em seu vestido.
― De que calamidades você está falando, Alexander? ―
Perguntou sua tia.
― Você não ouviu? A srta. Harrison apagou um fogo na
cozinha ontem, salvando o domínio de Matilde de uma certa
ruína.
A sopa na colher de Emily deslizou sobre a borda em
seu vestido.
― A cozinheira e eu lidamos com a situação juntas.
― Certamente, tenho certeza de que ela fez seu primeiro
amigo na ilha com Matilde.
Alexander sorriu para Emily e então focalizou sua
atenção em sua sopa. Emily afundou-se em sua cadeira.
― Isso é certo? ― Perguntou o dr. Bennington.
― Nossa cozinheira está conosco há muito tempo. Devo
dizer, primeiras impressões percorrem um longo caminho
com Matilde. Muito bem, senhorita Harrison.
― E sua nova governanta também é cozinheira, tio.
Acredito que ela estava trocando receitas com Matilde quando
o incêndio começou.
― Quando a chama estourou? ― A sra. Bennington soou
angustiada.
― Você está exagerando a história, sr. Hunt. Você está
fazendo soar como um inferno fora de controle.
Emily pousou sua colher. ― E eu não quero dar ao Dr. e
à sra. Bennington falsas expectativas.

34
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Absurdo. Tenho certeza que você está sendo modesta


sobre seus atributos e habilidades.
Os Bennington olharam perplexos um para o outro e
depois para Alexander. O rosto de sua tia registrou suspeita
quando ela estreitou os olhos para ele.
― Minha esposa me disse que você está noiva? ―
Perguntou o médico, mudando de assunto.
― Sim, de Matthew Norton, de Marietta. Ele está
servindo orgulhosamente com a infantaria voluntária de
Ohio. ― Emily endireitou suas costas. ― No exército federal ―
acrescentou desnecessariamente.
Um músculo se contraiu no pescoço de Alexander. Abriu
a boca para falar, mas a resposta de seu tio foi mais rápida.
―A maioria de nós aqui no Condado de Wood não ficou
satisfeita quando a Virgínia se separou da União, inclusive
eu. Há pouca razão para preservar a antiquada instituição da
escravidão, especialmente nestes condados ocidentais.
O dr. Bennington estudou sua nova funcionária.
“Mas você preserva. Você continua a possuir seres
humanos”. As palavras não verbalizadas de Emily pairavam
no ar como uma névoa.
Limpando a garganta, Joshua levantou uma tampa para
revelar um faisão elaboradamente decorado no aparador.
Uma cornucópia de frutas e vegetais cercou o pássaro
assado.
― Uma apresentação maravilhosa, Joshua, obrigada.
Você pode servir agora.

35
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

O elogio da sra. Bennington cortou o momento


desconfortável.
Emily deixou o assunto morrer e deu toda a atenção
para o curso da salada. Não seria despedida no segundo dia
de emprego.
― Eu peguei uma cópia do Richmond Ledger na cidade
hoje. ― Disse Alexander, dirigindo-se a seu tio. O Fantasma
Cinzento bateu de novo. Ele partiu com cem cavalos da
cavalaria principal com suas selas e tachinhas, além de
cinquenta vagões de comida, cobertores e remédios a
caminho do Exército da União acampado em Warrenton. Peço
desculpas, senhorita Harrison.
Ele balançou a cabeça em direção a Emily.
― O jornal diz que eles se disfarçaram como um
destacamento federal, entraram e saquearam a caravana sem
disparar um único tiro. Os suprimentos estão agora nas
mãos dos homens de Thomas Jackson no Shenandoah ―
concluiu com grande entusiasmo. – Peço perdão de novo,
senhorita Harrison.
Alexander voltou-se para Emily para uma reação, mas
ela estava concentrada em um biscoito. Ela espalhou
manteiga em cada canto e recanto com deliberação. Com um
encolher de ombros, passou a comer toda a perna de um
faisão.
― Joshua, por favor, dê meus cumprimentos a Matilde.
Este pássaro assado é soberbo.
O sorriso de Joshua revelou um dente de ouro.

36
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Obrigado, Sr. Hunt. ― Ele curvou-se ligeiramente e se


retirou da sala.
― Gostaria de tentar cozinhar, senhorita Harrison,
durante seu tempo livre? ― Alexander entregou-lhe uma
tigela de inhame cristalizado. ― Tenho certeza de que minha
tia e meu tio vão permitir que experimente o dia de folga de
Matilde. Devem enviar Margaret e Annie como suas
assistentes para desenvolver seus talentos domésticos.
Seu olhar permaneceu em Emily enquanto tomava um
longo gole de vinho. Emily sabia que ele estava zombando
dela, mas não podia dizer nada sem ofender seus patrões.
Então ela imaginou virar a tigela de inhame sobre sua
cabeça, junto com o prato de espinafre salteado. A imagem de
suco açucarado correndo por seu queixo e os verdes murchos
decorando sua camisa branca imaculada trouxe um sorriso
para seus lábios. Ela sorveu de seu copo de água.
― Espero ansiosamente, sr. Hunt, mas vou deixar a
ocasião para sua próxima visita para que possa desfrutar dos
frutos do meu trabalho.
Alexander ergueu o copo em um brinde.
― Devo derramar um pouco de vinho?
― Obrigada, não. Eu sou Quaker e não tomo bebidas
alcoólicas. Estou surpresa que você faz. Sua tia mencionou
que você era um amigo.
― Eu tenho falhado, eu receio.
Ele acenou em consideração à sua tia.

37
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Diga-me mais sobre este Fantasma Cinzento, Dr.


Bennington ― disse Emily, ansiosa por mudar de assunto. ―
Os jornais de Ohio não imprimem histórias sobre ele.
― Oh, ele é muito misterioso, minha querida. ― A Sra.
Bennington forneceu a explicação.
― Ele acredita-se ser um guarda-costas partidário, mas
ninguém sabe a sua verdadeira identidade. Seus homens se
referem a ele apenas como Coronel. Ele monta um garanhão
branco no meio da noite com sua capa escarlate alinhada
atrás dele. Muito arrojado, você não acha? De acordo com os
relatos, ele carrega apenas um sabre, recusando-se a possuir
uma arma de fogo.
Os olhos da sra. Bennington cintilaram no brilho da luz
da vela.
― Minha esposa ficou mais encantada com a intriga do
Fantasma do que Margaret. Eu rezo para que ele nunca passe
pela Plantação Bennington. Temo perder o amor da minha
vida se ela olhar para ele.
A sra. Bennington corou de leve ― Oh, Porter, como você
vai atuar a respeito?
Emily olhou de um para o outro, mas se recusou a olhar
para Alexander. Quem é este Fantasma Cinzento causando
estragos nas forças da União? Como ele se atreve a roubar
comida e remédios das mesmas tropas com as quais Matthew
serve? As veias de suas têmporas começaram a latejar
quando suas mãos ficaram úmidas. Ela não via o assunto tão
alegremente quanto os outros três. Sem dúvida, esta foi a
primeira de muitas diferenças de opinião que ela teria com o

38
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

dr. Bennington. Felizmente, o sr. Hunt logo retornaria para


sua casa. Ela não teria que lidar com sua atitude arrogante
ou seu comportamento audacioso. O homem tinha a
habilidade exasperante de reduzi-la a uma corça nervosa e
atrevida, com o estômago revolto a cada vez que seus olhares
se encontravam.
Finalmente, o interminável jantar chegou ao fim e ela
desejou a todos uma boa noite. Mas nem a complacente visão
da escravidão do dr. Bennington, nem as façanhas deste
Fantasma Cinzento nem mesmo o efeito de Hunt sobre sua
compostura era a principal preocupação de Emily quando
subiu a escada para seu quarto. Alguém tinha deslizado uma
carta debaixo de sua porta vinda do correio da noite. Levando
a carta para sua varanda, ela mal podia ver o endereço no
envelope sujo e esfarrapado: Miss Emily Harrison, c/ a
Fazenda Bennington , Parkersburg, Virgínia. Na luz escassa,
leu duas frases que mudariam sua vida para sempre:
Cara senhorita Harrison, lamento informar-lhe que Pvt.
Matthew Norton do OVI caiu na batalha em Virgínia perto da
batalha de Bull Run. Ele morreu como um herói, cobrindo-se
em glória no campo de batalha e na eternidade.
Ela lia as palavras repetidas vezes, enquanto suas
esperanças e sonhos se desmoronavam em pó. Uma única
lágrima caiu sobre a folha de pergaminho antes dela voar
para as lajes do pórtico abaixo. Emily contemplava os
gramados, os jardins e os campos da plantação. Na distância,
ela viu homens e mulheres marchando para trás dos campos

39
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

nos últimos raios de sol. A visão dos escravos salvou seu


espírito ferido, galvanizando sua determinação.
― Pelo menos eu sei o que fazer ― ela sussurrou na
escuridão úmida e envolvente. ― Meu dever para com Deus e
meu país é claro.

De sua posição bem escondida na folhagem, vinte


homens olhavam para a cidade adormecida, observando com
satisfação os soldados vestidos de azul, estavam montados e
em formação. Ninguém falou, mas eles seguraram suas
rédeas firmemente na mão para que seus cavalos não
chamassem atenção indevida. Quando o último de seus
adversários desapareceu em uma nuvem de poeira, os
homens se voltaram para seu líder.
Sentado no alto da sela, o coronel não moveu um
músculo até que o último yankee desapareceu na neblina e a
quietude retornou à aldeia. Então seus lábios formaram um
sorriso enquanto olhava para a esquerda e para a direita para
seus homens. ― Bem, rapazes, parece que Ellsworth
trabalhou sua magia novamente. – O riso quebrou o silêncio
assim como seu plano veio junto. Mas seu líder não esperou
por elogios ou retrocessos. Estimulando seu cavalo, galopou
em direção à estação de trem com um propósito singular e
seu segundo em comando logo atrás.
― Dawson, suba a pista até as bandeiras de sinalização
― ordenou o coronel. ― Coloque o vermelho para certificar-se
40
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

que o trem retarde o quanto antes. Jamison, você e Hobart


atirem no interruptor para virar o trem no desvio. Os outros
homens se posicionem entre essas árvores. Qualquer yankee
viajando com o trem ou estará no primeiro carro ou no
último, de modo que é onde você entra. Seja rápido, seja
decisivo. Cerque e crie destruição. Atire só se for preciso, mas
para ferir e não matar. Boggs, Turner, sigam-me.
Os homens reagiram com velocidade e proficiência.
Estes não eram recrutas verdes, nem jovens nervosos,
acionados por gatilho, ansiosos por se lançarem à batalha
sem pensar nem se importar. Esses profissionais experientes
eram a elite da cavalaria treinada, homens que haviam
nascido na sela e que manejavam armas com a mesma
precisão que suas montarias. Contudo, a cavalaria
confederada regular não era.
O coronel ordenou ao seu segundo comandante que
entrasse no compartimento dos passageiros enquanto dirigia
manobras de fora do trem. Se sua notoriedade desagradável
crescesse mais, os yankees iriam levá-lo para cima de sua
lista de prioridades. E isso só prejudicaria sua causa.
― Bom dia, senhoras e senhores. Sou o Capitão Nathan
Smith do Exército de Virgínia do Norte. Este trem será
atrasado por um breve intervalo. Por favor, sentem-se
quietos, e vocês ainda estarão vivos quando o trem puxar
para a estação. ― Embora o jovem oficial tenha inclinado a
ponta do seu chapéu ao entrar e sorrido durante sua
introdução, seus dois revólveres colt não deixaram dúvidas
sobre suas intenções. Rangers na outra extremidade do carro

41
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

nivelaram seus rifles Enfield com a mesma ameaça


silenciosa.
Homens de negócios bem vestidos, viajando de
Washington e as paradas a leste, olhavam com desprezo para
a intrusão, mas ninguém torceu um bigode. Suas esposas e
filhas não estavam tão compostas. Várias soluçaram em
lenços de renda, e algumas começaram a orar.
― O que você quer conosco, senhor? ― Perguntou uma
matrona de cabelos brancos com muita coragem enquanto o
capitão ia pelo corredor. Ela puxou sua sacola pesada do
chão para seu regaço. ― Você vai levar nosso dinheiro e joias?
― Não, madame, eu asseguro. ― O capitão Smith tirou o
chapéu e se curvou. ― Nós só estamos interessados nas
provisões em seu caminho para acampamentos yankees. ―
Seu sorriso revelou dentes perfeitamente retos. ― Você está
no Estado soberano da Virgínia, parte dos Estados
Confederados da América. Você não está mais em casa. Mas
asseguro-lhe, o coronel não tem nenhum desejo de
propriedade civil. ― Ele apontou para a janela com um floreio
de sua mão. Um homem alto, vestido com um manto negro e
chapéu de plumagem puxado para baixo, montado em um
majestoso cavalo branco. A névoa girou em torno do cavalo e
do cavaleiro, aumentando a aura da intriga.
Inclinando-se para o vidro, a mulher idosa ofegou. ―
Isso é o Fantasma Cinzento? Ele não parece mortal. Eu li
sobre ele nos jornais.

42
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Eu asseguro, madame, que ele é de carne e osso. O


capitão Smith recolocou o chapéu e saiu do carro, deixando
seus homens para se protegerem de possíveis heróis.
Os rangers rapidamente dominaram uma dúzia de
soldados da União, tirando-lhes suas armas e deixando-os
amarrados em um vagão vazio. Ao longo dos trilhos, o coronel
dirigiu a descarga do trem com eficiência bem afiada. Fiel à
palavra do capitão, os passageiros foram logo em seu
caminho. Em menos de trinta minutos, os rangers
descarregaram comida, remédios, armas e munições em
vagões escondidos na floresta. Nos últimos dois vagões
encontraram cinquenta belos cavalos com selas e tábuas
empilhadas ao longo da parede, além da recompensa
inesperada de uma folha de pagamento da União. Depois de
amarrar os cavalos em grupos de cinco, galoparam antes que
o sol subisse o suficiente para acabar com a névoa.
― Essas caixas contêm fuzis de repetição, Coronel ―
gritou o capitão Smith enquanto saíam da cidade. ― Meias de
lã, luvas de couro, botas de couro, selas gravadas, cabrestos,
freios ― esta expedição devia se destinar a uma brigada da
cavalaria, senhor.
O coronel olhou para Smith com diversão. Raramente a
pilhagem excitava o homem. ― É isso mesmo, Capitão. ― Ele
desacelerou o cavalo no caminho estreito, tirou o chapéu e
passou a mão pelos cabelos. ― Esta recompensa será para
Jeb Stuart, não para o General Jackson como tínhamos
planejado. A perda de Sheridan será o ganho de Stuart. ―
Acrescentou, coçando o queixo. Ele nunca iria se acostumar

43
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

com a barba eriçada que crescia antes de uma invasão. ― E


Jeff Davis vai apreciar essa folha de pagamento da União,
trinta mil dólares pela minha estimativa.
― Para outro ataque bem-sucedido e a diminuição do
Tesouro do Sr. Lincoln, senhor. ― Smith tirou um frasco de
prata do bolso e ofereceu um brinde ao seu oficial superior.
O coronel olhou fixamente para o balão
momentaneamente antes de tomar um gole. ― Estou apenas
contente por termos sido capazes de servir a nossa Causa
Gloriosa sem matar nenhum desses bobos yankees no
processo. ― Ele murmurou. ― Agora vamos organizar os
homens e enviar esta recompensa em seu caminho para
Richmond antes que os yankees descubram que nenhuma
divisão de infantaria está marchando para Winchester esta
manhã. – Os dois homens riram de seu engano bem-
sucedido. Os oficiais da União ferveriam quando
descobrissem que tinham sido enganados. O coronel esperava
que os cidadãos locais não sofressem por causa de suas
atividades, mas não podiam atacar em qualquer outro lugar.
As provisões federais, as notas de dólares, e os cavalos
pareciam ser ilimitados na área fértil entre o vale de
Shenandoah e Washington. Seus armazéns eram como
cerejas doces ― maduros e prontos para serem colhidos. E
sua amada Confederação precisava desesperadamente de
tudo o que podia oferecer.
Encontrando com seus homens, o coronel saboreou um
pouco da carne yankee assada no espeto. Alguém passou ao
redor uma cara garrafa de bourbon e outra de brandy. Ele

44
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

permitiu que seus homens desfrutassem dessa pequena


diversão no acampamento enquanto bebia só um café forte.
Um homem tocava uma gaita enquanto outro dançava um
gingado. A maioria de seus soldados experientes contou a
aventura do dia uma e outra vez até que se dirigiram a seus
sacos de dormir. Amanhã eles voltariam para casa ― para
seus pais ou esposas ou apenas para uma pousada solitária
em uma pequena cidade. Mas esta noite eles eram rangers ―
bravos, realizados e famosos. E seu líder estava orgulhoso de
todos eles.
Olhando para as chamas enquanto a umidade o atraía
para o fogo, o coronel pensou na menina maravilhosa e
espirituosa que conhecera na Ilha de Bennington. Emily
Harrison não era nada como as mulheres coquetes que
habitualmente aqueciam seu sangue e causou a seu coração
uma desabalada corrida. Ele achou sua peculiaridade
enervante, como se ela o tivesse aprisionado com um feitiço.
Quando ele escreveu para sua tia para perguntar sobre ela,
ele não podia manter a exuberância de suas palavras. Como
ele poderia ficar apaixonado depois de tão breve encontro?
Ele não era nenhum jovem experimentando uma atração por
uma garota bonita pela primeira vez.
Mas enquanto olhava para o fogo, a lembrança
espontânea de uma mulher diferente se arrastou à mente,
estragando seu doce devaneio. Com cabelos de ébano
lustrosos descendo pelas costas, cintura estreita, olhos
violetas profundos e pele de porcelana, Rosalyn era mais uma
visão do que uma criatura deste mundo. Mas ela tinha sido

45
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

real nas noites em que ela deu-se ansiosamente para ele. Ela
o enfeitiçou com os lábios macios e palavras ternas faladas
na paixão. Nunca questionando a incongruência de seus
encontros, nem seu curioso interesse em suas idas e vindas,
ele havia respondido a suas intermináveis perguntas,
vangloriando-se das façanhas de suas tropas com bravura
desavergonhada. Dolorosamente, lembrou-se de fornecer-lhe
informações que levaram quatro de seus homens para suas
sepulturas. Enquanto haviam ficado entrelaçados nos braços
um do outro, aquecidos por uma coberta de ganso e vinho
caro, ela colocou uma armadilha para suas tropas ― uma
emboscada da cavalaria federal. Porque ele tinha tolamente
confiado em uma mulher, esposas, filhos e pais foram
afligidos pelo que nunca poderia ser substituído. A lembrança
da decepção que foi Rosalyn e sua fraqueza por um rosto
bonito o seguiriam pelo resto de sua vida. Nunca mais
confiaria nas vozes femininas ou nos abraços quentes. Não se
podia confiar mais numa mulher do que numa cobra. Podia
sentir o desejo de um homem e reconhecê-lo pelo que era:
fraqueza.
Nunca mais, sussurrou na noite, tentando mais uma vez
esquecer seu passado vergonhoso. Seus pais o desejavam
casado e fornecendo um herdeiro para a Fazenda Hunt. Mas
o que seria deixado para herdar no fim da guerra? Ele tinha
visto plantações queimadas até ao chão ou vendidas para
liquidar dívidas. O que o fez pensar que sua família iria se
sair melhor? A guerra não era o momento de pensar em
casamento, filhos ou heranças. Nenhuma vida nova estaria

46
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

esperando por ele. O caminho dos Espectros foi forjado. O sul


estava morrendo de uma morte lenta e agonizante, e ele não
tinha escolha a não ser verificá-la. Ele não tinha nenhum
negócio pensando em qualquer mulher... menos ainda, uma
yankee.

Dois dias depois, um cansado e sujo Alexander seguiu


as estradas secundárias para sua casa. Não tendo dormido
nem tomado banho desde antes de partir e de ter comido
apenas o que tinha sido embalado em seus alforjes há dias,
não estava no melhor dos humores. Ele mal se assemelhava
ao coronel que se materializara na neblina e depois
desapareceu tão rapidamente. Seu uniforme com a
impressionante capa vermelha tinha sido empacotado. Não
iria ajudá-lo a cruzar as linhas inimigas para entregar o
precioso espólio ― ouro, notas de dólar e remédios ― aos
postos de comando confederados. O traje caseiro de um
fazendeiro com um chapéu de palha esfarrapado serviu
melhor ao seu propósito. Ninguém havia parado sua carroça
raquítica enquanto caminhava, vendendo velas de sebo e
facas afiadas com a sua roda. O coronel parecia ser um
homem simples tentando ganhar a vida, em vez do infame
Fantasma Cinzento transferindo uma fortuna para a Causa.
Mas o que incomodou Alexander durante os quilômetros
que diminuíam em direção a sua banheira de água quente e
cama macia não eram suas roupas arranhadas ou sapatos
47
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

mal ajustados. Mais uma vez, uma discussão acalorada se


seguiu quando ele tinha negado a seus homens o saque de
sua incursão. Uma pequena quantidade de pilhagem sempre
passava por ele. Ele não lutaria com Dawson por alguns
pedaços de chita para sua esposa. E certamente nenhum
ranger que precisasse de um cavalo novo ou de equipamento
adicional seria negado. Mas ele não podia suportar o ganho
pessoal de seus soldados enquanto o resto do Exército
Confederado sofria. Eles não eram ladrões. Eles não eram
mercenários. Mas às vezes convencer seus homens disso se
revelava impossível.
Perdido em pensamentos, quase passou pela pista
coberta de carvalho até sua casa. Porém seu cavalo, cansado
e faminto como seu dono, conhecia o caminho. Phantom
ergueu as orelhas e acelerou o passo, sabendo que a aveia e
uma boa massagem esperavam no final da viagem. Quando
eles entraram em um galope, ele puxou as rédeas e bateu no
flanco de Phantom.
― Whoa, menino. Não vamos acordar todos. ― No meio
da pista, ele deslizou silenciosamente do cavalo para andar a
distância restante. Quando passou, ele verificou a janela do
quarto onde seus pais dormiam para verificar sinais de
movimento.
― Ainda não levantaram, senhor. Uma voz emanou das
sombras escuras. Um jovem muito escuro e musculoso
entrou em um facho de luar.
― William, meu homem, é bom ver você. ― Alexander
deu um tapa no ombro do amigo de toda a vida ao entrarem

48
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

no celeiro cavernoso. Entregando a William as rédeas, ele


puxou a sela das costas de Phantom.
William levou a sela lisa para a mesa, colocando-a ao
lado dos gravados com a crista de prata esterlina da Fazenda
Hunt. ― Aposto que é. Eu tinha a sensação de que você
estaria de volta esta manhã. Beatrice já está acordada e
prepara o café da manhã. Ela vai ter tudo pronto.
― Não tenho certeza se posso ficar acordado para
levantar o garfo. ― Alexander amarrou o cavalo dentro de
uma barraca e começou a esfregá-lo.
― Cuide de seu próprio conforto. Eu cuidarei de
Phantom. ― William pegou uma segunda escova.
― Onde meus pais pensam que eu tenho estado nestes
últimos dois dias? ― A luz da lanterna solitária forneceu
pouca iluminação, mas Alexander viu um sorriso no rosto do
seu amigo e um clarão definido em seus olhos.
― Bem, senhor, digamos que eu falei que você estava um
pouco mais feliz com as senhoras de Chantilly do que com as
cartas da noite anterior.
― O quê? ― O rosto cansado do coronel apertou-se.
― Só falei desse assunto para o seu pai, é claro ―
acrescentou William apressadamente.
Alexander não foi pacificado. ― Pouco é mantido longe
dos ouvidos de minha mãe. Eu acredito que ela tem mais
espiões do que o Exército da União. Agora ela vai me dar uma
palestra sobre meus modos pecaminosos de jogar cartas e me
divertir por algum tempo. Não houve outra explicação que
você poderia ter conseguido?

49
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Nenhuma que eu pensasse soou confiável. ― William


abaixou a cabeça a tempo de perder um pincel voador.
― Vou me lembrar disso, William. Algum dia, quando
tiver uma bela jovem esposa, vou encontrar uma
oportunidade para colocar você na casinha de cachorro.
― Eu com uma esposa, senhor? Altamente improvável. ―
Os dois homens riram. Eles cresceram nesta fazenda e
chegaram à idade adulta juntos. Eram amigos, mesmo sendo
um o filho de um plantador e o outro, um empregado negro
livre. ― Vou terminar Phantom ― disse William, mantendo o
grande garanhão entre eles. ― Seu café da manhã
provavelmente já está pronto.
Com um aceno de gratidão, Alexander pegou a escova e
jogou-a na cesta. ― Enquanto você trabalha, por que não
pensa em possíveis desculpas que não envolvem beber, jogar
cartas ou farrear no prostíbulo? Minha mãe estará irritada
comigo o suficiente.
O exausto coronel foi para sua refeição e descanso tão
necessários. Depois do café da manhã e de um banho, ele
dormiu como os mortos por dez horas ― seu sono felizmente
vazio de sonhos.

Outono 1861

Nunca deixe que seja dito que o coração não é uma


coisa peculiar. Tão depressa quanto o dela tinha aumentado

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

com a promessa de um novo amor e antecipação do


casamento, o coração de Emily se contraiu até que não havia
dor nem emoção. Depois de receber a carta que acabou com
seu novo status de noiva, Emily passou por seus dias
metodicamente, como se nada tivesse acontecido. Seu
querido noivo, Matthew, estava morto, sua vitalidade
destruída em um piscar de olhos na margem de um riacho
chamado Bull Run.
No entanto, por ter sido pouco mais que um estranho,
Emily possuía poucas memórias reconfortantes. Um dia
Emily pegaria a espada de Matthew, mas por enquanto
lambeu suas feridas e ensinou suas lições. Suas duas alunas
eram ambas bem comportadas e ansiosas para aprender.
Embora ainda jovem, Margaret sentiu a perda profunda de
Emily e não pressionou para obter detalhes ou oferecer
conselhos não solicitados. Tentou distrair a professora da
melancolia com um sorriso caloroso ou uma poesia
interessante. Até a pequena Annie se comportou com
moderação durante as semanas seguintes.
Emily desempenhou suas funções como governanta com
dignidade e graça. No entanto, quando finalmente parou de
chorar antes de dormir à noite, a dormência a inundou como
uma névoa. Enquanto Margaret e Anne descansavam,
passava as tardes caminhando ao longo do rio ou pelo pomar
até que suas pernas se tornassem elásticas. Emily nunca
sentiu medo, não importava o quanto ela vagasse. Nada
poderia machucá-la agora. Encheu cada hora do dia com
atividade exaustiva para levá-la a dormir à noite. Comeu suas

51
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

refeições na cozinha com as meninas. Ou, se elas estavam a


jantar com os seus pais, Emily inventava desculpas para
comer com o pessoal, evitando assim os Benningtons sempre
que possível. Embora eles não fossem pessoalmente
responsáveis pela morte de Matthew, ela não podia olhar para
a sua riqueza e não ser lembrada de uma guerra travada para
preservar a instituição que a criou. Emily ignorou a
generosidade que o Dr. Bennington estendeu em sua prática
médica a pacientes negros e brancos. Recusou-se a
reconhecer a bondade que a Sra. Bennington prodigalizava a
todos os que encontrava. Como um animal ferido preso numa
armadilha, desejava que alguém fosse responsável por sua
dor e miséria.
Emily viu apenas um inimigo ― o Sul ― com sua
sociedade decadente e privilegiada. Ela lia relatos nos jornais
de batalhas, esperando privadamente as vitórias da União.
Ela seguiu com interesse as bizarras façanhas de um bando
de rangers. Quem era aquele homem que fazia tolos os da
cavalaria da União? Responsável por uma enorme perda
financeira para o esforço de guerra federal, ele não era nada
mais do que um bandido. Como se atrevia a roubar com
tanta impunidade? Eventualmente, este Robin Hood dos
últimos dias despertou sua raiva, puxando-a de sua paralisia
como nada tinha sido capaz de fazer.
O Fantasma Cinzento... seu ódio à Causa Gloriosa do
Sul agora tinha um nome.

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 3

― Adam, a vida é muito diferente lá. De maneira que


você não pode ver do outro lado do rio, mesmo nos dias mais
claros. ― Emily endireitou as costas de forma desafiadora,
mas manteve a voz baixa.
― Sim, senhora. Eu sei que não há escravidão em Ohio.
Eu penso nisso o tempo todo. ― Adam não olhava para a
professora da escola rural que tinha parado seu cavalo e
depois se aproximou dele como um enxame de vespas. Ele
continuou a reparar as cercas e substituir as ripas
apodrecidas ao longo do pasto norte.
― O decreto de 1787, estabeleceu o Território Noroeste
como o primeiro governo nascido livre em todo o mundo: “―
Aqui nenhuma bruxa foi queimada; nenhum herege molestado.
Aqui nenhum escravo nasceu ou habitou.”― Emily recitou a
ladainha ensinada a ela por seus pais com orgulho e
convicção.
Adam, um homem que ainda não tinha trinta anos,
largou as ferramentas e enfrentou Emily.
― Sim, senhora. Eu sei tudo sobre esse decreto, mas
também sei sobre a Lei de 1850 do Escravo Fugitivo. Isso
significa que eu não sou mais livre em Ohio do que sou aqui,
53
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

não enquanto caçadores de escravos com armas e cachorros


podem me perseguir como um animal. Eu não sou um animal
aqui, senhorita. Posso ser um escravo, mas eu posso
trabalhar na leiteria quando minhas tarefas estão feitas.
Quando economizar dinheiro suficiente, eu comprarei a
minha liberdade e a de minha esposa. Com cartas de alforria
assinadas, nenhum caçador de escravos e seus cães poderão
vir atrás de mim. ― Ele a olhou diretamente nos olhos e
segurou seu olhar.
― Eu entendo, Adam.
― Não, senhora, você não entende. Você pode achar que
sim, mas não entende nada. ― Selecionando a próxima ripa
de madeira para pregar no lugar, Adam afastou-se dela, não
rudemente, mas com o esforço concentrado de um homem
com um trabalho a fazer.
― Eu posso ajudar você e sua esposa a chegar a
Cleveland ou Fairport Harbor. ― Emily olhou em volta antes
de se aproximar. ― A partir daí, amigos vão colocá-los em um
barco para o Canadá. É por isto que os Quakers são
chamados de “Amigos” ― acrescentou seriamente. ― Vocês
estarão seguros no Canadá. ― Porque este homem está se
comportando assim? Tão distante e desinteressado. Ele não
confia em mim? ― Pegue o trem da liberdade, Adam. Você não
vai se arrepender.
― Ninguém pode dizer o que nós vamos ou não nos
arrepender durante nossa vida, mas pensarei nisso. Eu
pensarei muito nisto, você pode ter certeza disto. Você deve ir
agora. Estou grato pela oferta, mas você deve me deixar. Isso

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

não é algo que um homem decide no impulso do momento. ―


Com a discussão concluída de sua parte, Adam pegou suas
ferramentas e afastou-se sem olhar para trás.
Sozinha, Emily ficou observando-o arrastar-se
pesadamente na estrada empoeirada. Seria ela? Havia
alguma coisa nela que não inspirava confiança? Adam era o
terceiro escravo na plantação dos Bennington que não tinha
aproveitado a oportunidade de liberdade que ela estava
oferecendo. É verdade, depois de observar a vida na ilha nos
últimos meses, ela teve que admitir que os escravos não eram
abusados ali. Mas não havia liberdade senão para mais da
metade dos trabalhadores. Folhas mortas giraram em torno
de seus pés e uma brisa levantou a bainha de sua saia
enviando um arrepio por sua espinha. Com o outono
rapidamente se aproximando e sua mágoa empurrada para
um canto escondido de sua mente, ela estava ansiosa para
encontrar um propósito. No entanto, ela não encontrou
nenhum comprador para sua oferta de ajudar escravos a ir
para Ohio. E a razão continuava a escapar dela.
Emily frequentemente lia em voz alta para a Sra.
Bennington durante a tarde quando nenhuma delas
cochilava. Emily apreciou as recitações de Pickwick Papers3 e
David Copperfield4 tanto quanto sua empregadora. Um
vínculo incongruente se formou entre as duas mulheres

3Pickwick Papers ― O livro escrito pelo inglês Charles Dickens em 1836, narra as aventuras do
grupo de estudo do Clube Pickwick, composto pelo líder Sr. Pickwick e seus três pupilos: O Sr.
Tupman, o Sr. Snodgrass e o Sr. Winkle, que têm como função, observar descobertas científicas
e analisar as diversas variedades do comportamento humano.
4David Copperfield ― É um renomado mágico e ilusionista dos Estados Unidos. Conhecido

principalmente por sua combinação de ilusões espetaculares com a habilidade de contar


histórias.

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

enquanto discutiam a visão sombria de Charles Dickens


sobre a sociedade. Emily ofereceu opiniões diretas com
crescente confiança, enquanto a Sra. Bennington adorava
transmitir princípios Quaker em cada debate. Embora
membros da mesma crença cristã, suas origens e
experiências tinham criado ideias bastante divergentes. Mas
ambas tinham abandonado os sombrios vestidos cinzentos e
as toucas de aba larga usadas pelas Quakers que lhes
obscureciam a face. A Sra. Bennington porque seu marido
insistiu que ela se vestisse como as mulheres elegantes de
sua classe e Emily porque depois de seu breve período de
luto, rebelou-se contra o constante lembrete de sua perda.
A gentileza da Sra. Bennington finalmente acabou com a
determinação de Emily de não se socializar com a família. Um
incentivo adicional para aceitar o convite para jantar no
grande salão naquela noite, foi porque seus serviços como
acompanhante foram solicitados. Margaret iria participar do
seu primeiro encontro com os adultos, enquanto Anne
serviria como monitora na vasilha do ponche até sua hora de
dormir. Os convidados de Louisville estavam chegando e
iriam ficar na mansão por vários dias. Seus vizinhos de
Parkersburg iriam navegar rio abaixo em barcos para
participar das festividades da noite. Lila explicou que os
convidados locais também passariam a noite e voltariam para
casa após o café da manhã.
― Por que estão fazendo este alvoroço sobre uma
refeição noturna? ― Perguntou Emily enquanto ela e Lila
estendiam as roupas que Margaret e Anne usariam. ― Como

56
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

as pessoas podem demorar cinco a seis horas em um jantar?


O que eles têm para falar por tanto tempo? ― Ela balançou a
cabeça. ― Minha família sempre jantava e retornava ao que
ainda precisava fazer naquele dia.
― E suponho que é algo com que você se acostume. ―
Lila separou chinelos delicados para ambas as meninas. ― E
uma vez que você veja o número de pratos, entenderá porque
o jantar demora tanto tempo. Apenas não coma muito de um
único alimento. ― Ela ergueu o novo vestido de seda amarela
de Emily. ― Você vai vestir este? Eu posso amarrar o seu
espartilho enquanto as meninas estão no banho.
Emily empalideceu.
― Eu não possuo uma roupa de baixo apropriada,
apenas camisolas simples.
Lila olhou incrédula.
― Que bom que você está tão magra como um pé de
feijão. Fique aqui. Eu já volto. ― Ela disparou pela porta
antes que Emily pudesse objetar.
Ela olhou para o vestido amarelo e para os três vestidos
diurnos, todos presentes da Sra. Bennington. Seus
empregadores ficaram satisfeitos com o progresso de suas
filhas. O comportamento de Margaret havia melhorado e seu
francês era praticamente fluente. A pequena Annie já não
desenhava pelos corredores superiores e parara de escorregar
de barriga pelo corrimão. Emily tinha inicialmente recusado a
oferta de vestidos novos, mas cedeu depois de ver seu
guarda-roupa escasso pendurado no varal. Devido a lavagens

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

frequentes a luz solar atravessava o tecido desbotado,


tornando o material quase transparente.
Emily tocou o vestido, nunca tendo tido nada parecido.
Ele era bem ajustado do corpete aos quadris, onde ondas de
renda em camadas caiam em cascata até o chão. Punhos
brancos delicados realçavam a sombra pálida do botão de
ouro e um laço de renda acentuava o decote profundo.
― Depressa, senhorita Harrison. Vista isto. ― Lila entrou
no quarto e empurrou um rígido espartilho para ela. ― A
senhorita Margaret cresceu excessivamente antes mesmo de
usá-lo. Eu vou virar-me de costas.
Emily estudou a roupa para determinar o topo da parte
inferior e colocou-a sobre os quadris. Apesar de seu corpo ser
magro como uma vara, ela teve que prender a respiração para
fechar os colchetes.
― Vire-se e eu vou amarrá-la. Então eu devo deixá-la
para ajudar a senhorita Margaret. Devo enviar outra
empregada? ― Perguntou Lila, já sabendo a resposta. Toda as
outras criadas eram escravas.
― Não, obrigada. ― Emily quase não conseguia respirar
enquanto Lila apertava o espartilho. ― Eu posso gerenciar.
Você pode ir quando terminar. E não se preocupe sobre eu
comer demais. Isso seria impossível vestindo isso. Não tenho
certeza se serei capaz de sentar.
Uma vez sozinha no quarto, Emily deslizou o vestido
pela cabeça e lutou para alcançar a linha de botões na parte
de trás. Em seguida, abaixou-se para o banco diante do
espelho e prendeu seu cabelo recém-lavado em um conjunto

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

de cachos no alto da cabeça. Cachos enrolados deslizavam


soltos emoldurando seu rosto. Suas bochechas queimadas
brilhavam, inadequadamente bronzeadas de seus passeios
sem chapéu. Emily espalhou carmim nos lábios, passou
bálsamo de limão5 em seus pulsos e puxou uma respiração
profunda.
No seu caminho para baixo, ela captou seu reflexo no
espelho. Ela não reconheceu a mulher que a olhava de volta.
― Senhorita Harrison, aí está você. Eu gostaria que você
conhecesse alguns dos meus convidados ― ressoou o Dr.
Bennington antes que ela alcançasse o patamar.
― Boa noite, dr. Bennington. ― Emily balançou a cabeça
educadamente. ― Talvez eu deva verificar Anne ou Margaret.
― Bobagem, elas vão ficar bem. Nós não temos
cerimônia na minha pequena ilha. Relaxe um pouco esta
noite. ― Ele tomou seu antebraço e praticamente arrastou-a
para a varanda. Um casal de idosos estavam em pé, sozinhos,
bebericando chá gelado.
― Senhorita Harrison, posso apresentar-lhe o sr. e a sra.
Hull, de Parkersburg? Edwina, Howard, esta é a senhorita
Emily Harrison, de Marietta.
― Como vão? ― Ela murmurou, recuando sua reverência
no último momento.
― Você ficará satisfeita ao descobrir que eles partilham
os seus pontos de vista sobre a escravidão, ― disse o dr.
Bennington. ― Eles sentem que a instituição deve ser abolida
e dizem frequentemente e em voz alta em todas as reuniões e

5 Bálsamo de limão ― Erva-cidreira/melissa officinalis.

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

fóruns públicos que frequentam. ― Seus olhos brilharam,


aparentemente satisfeito consigo mesmo. Então ele se curvou
para os Hulls e desapareceu na multidão de convidados.
Com relutância, Emily começou a conversar com eles.
― Tenho prazer em saber que há sentimentos
abolicionistas deste lado do rio também. ― Disse ao sr. Hull.
― Um sistema arcaico que coloca alguns plantadores
ricos no topo da sociedade enquanto o resto de nós luta para
ganhar a vida! ― Ele trovejou. ― Como pode um agricultor ou
comerciante competir com trabalho livre? ― O sr. Hull fez
pouca tentativa de modular sua voz. ― Os jovens são
duramente pressionados para encontrar empregos decentes
se não nasceram com uma colher de prata na boca.
Emily olhou em volta, desconfortável.
― Você fala de preocupações econômicas, mas quais são
as razões éticas para a abolição da instituição? ― Ela
perguntou.
O sr. Hull piscou como uma coruja e tomou um gole de
algo marrom em uma taça em forma de tigela. A sra. Hull
inclinou a cabeça em direção a ela.
― Eu não tenho certeza de quanta viagem você fez,
minha querida, mas poucas famílias nestes condados
ocidentais foram abençoadas com tanta … abundância como
nossos queridos anfitriões. ― Sorrindo, ela acenou com a
cabeça em direção à sra. Bennington. ― Eu asseguro,
plantações escravistas são raras nesta parte da Virgínia.
― Nós somos forçados a sofrer para manter as
concessões de terras do velho rei Charles há cem anos ―

60
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

interrompeu o sr. Hull. ― Essas concessões criaram alguns


homens muito ricos entre os amigos íntimos do rei. Sem
ofensa para com os nossos amigos, os Benningtons ―
acrescentou apressadamente.
Foi a vez de Emily piscar com descrença.
― O rei Charles deveria ter insistido que as colônias não
deveriam ter escravidão desde o início.
Ignorando seu comentário, o sr. Hull bebeu o conteúdo
de seu copo de forma estranha.
― Economias de lado, senhorita Harrison, e os
princípios dos direitos dos Estados. É disso que se trata esta
rebelião, pelo menos aqui no Condado de Wood. Por que
deveria algum yankee em Washington nos dizer como viver
nossas vidas?
Emily sentiu que a parte rígida de seu espartilho cortava
em suas costelas e respirou com alívio quando Joshua abriu
as portas francesas.
― Senhoras e senhores, o jantar está servido ― ele
anunciou com uma reverência profunda.
― Foi um prazer conhecê-los, senhor, senhora, mas eu
devo localizar as minhas pupilas. ― Ela balançou a cabeça e
afastou-se do cansativo casal.
Ela viu Margaret perto da porta da sala de jantar,
parecendo maravilhosa e encantadora em seu vestido novo.
― Graças a Deus, eu te encontrei, ― sussurrou Emily na
orelha de Margaret. ― Vamos encontrar dois assentos na
extremidade da mesa.

61
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Cara srta. Harrison. Devemos nos sentar onde os


cartões com nossos nomes foram colocados. E duvido que
estejam juntos. Deseje-me sorte na minha primeira festa. ―
Margaret apertou sua mão e depois entrou na sala sem
esperar pelos desejos de Emily, bons ou não.
Ela entrou em um ritmo menos entusiasmado, tentando
não demonstrar espanto com o ambiente. Pelo menos umas
centenas de velas muito estreitas iluminavam a linda mesa
Hepplewhite6. A prata brilhava e o cristal cintilava na luz das
velas, lembrando-a mais uma vez de sua educação modesta.
Como Margaret previu, a governanta e sua pupila foram
separadas. Margaret sentou-se entre dois jovens, um mais
sorridente que o outro. Emily encontrou o cartão com seu
nome em frente ao dr. Bennington e entre dois homens um
pouco mais velhos. Nenhum deles estava tão bem-vestido
como seu anfitrião. Durante a refeição, eles tentaram superar
um ao outro com histórias de bravatas em inúmeras
tentativas de impressioná-la. O dr. Bennington pareceu
divertir-se com a atenção que eles deram a Emily, mas ela
desejava estar em qualquer lugar menos ali, com esses
insípidos aristocratas do sul. Somente quando a conversa se
voltou para o Fantasma Cinzento, seu interesse despertou.
― Você vai ficar feliz em saber, senhorita Harrison,
sendo uma sindicalista, que o Fantasma Cinzento nunca
causa dano a um fio de cabelo de uma cabeça yankee, ―
disse o mais velho dos dois homens.

6Estilode móvel feito na época. George Hepplewhite (1727? ― 21 de junho de 1786) era um
marceneiro. Ele é considerado como tendo sido um dos "grandes três" fabricantes de móveis
ingleses do século XVIII.

62
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Por que ele nem sequer carrega uma arma de fogo. ―


Ele acenou com a cabeça, revelando um pedaço de couro
cabeludo brilhante e calvo.
― Ele carrega uma espada, mas eu entendo que ele a
usa exclusivamente para cortar os cordões da bolsa dos
empresários ricos, ― o mais jovem do par adicionou ao
grande entretenimento de todos.
― Mais vinho, senhorita Harrison?
― Não, obrigada. Eu não bebo. E eu não compreendo
como ser um ladrão pode ser uma ocupação nobre, senhores.
― Emily manteve sua voz baixa com grande esforço.
― Ah, a diferença é que o nosso misterioso Fantasma
rouba comida apenas para alimentar um exército com fome,
remédios para feridos em hospitais de campo e roupas para
manter nossos meninos no Shenandoah aquecidos.
― Eu entendo que ele também rouba dinheiro da folha
de pagamento do Exército Federal. ― A voz de Emily elevou-se
em agitação, apesar do desejo de não constranger os
Benningtons em sua festa jantar.
Mas seus companheiros de mesa não pareciam ter
objeção.
― É verdade, senhorita Harrison, mas muito do contido
no seu Tesouro Federal foi colocado lá pelos plantadores do
sul. Você não pode culpar o homem por querer redistribuir os
fundos de forma mais equitativa, ― concluiu o homem.
Todos ao alcance da voz assentiram com a cabeça de
acordo. Vários começaram a relatar histórias que tinham
ouvido falar das façanhas do fantasma. Todos, exceto Emily,

63
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

é claro. Com o rosto vermelho e zangada, ela tomou um gole


de seu suco de uva em um esforço para conter a língua.
Mesmo recusando a oferta constante de bebida, ela se viu
zonza antes que o prato principal fosse finalmente servido.
Então, felizmente, a conversa política mudou para
cumprimentos educados sobre a comida.
Emily escolheu a costela de carne bovina malcozida ―
tão malpassada que ainda sangrava ― e apreciou somente os
acompanhamentos. As maçãs temperadas e a abóbora cozida
lembraram-na de casa. No interior, ela observava indiferente
os comentários sobre um ladrão cavalheiro. Como se atrevem
a transformar seu comportamento pecaminoso em uma
Cruzada por uma Causa? As mulheres que idolatravam o
fantasma eram puras tolas. Se eu soubesse a identidade do
homem, eu o exporia às autoridades, ela pensou. Ele não
pareceria tão nobre balançando no final de um laço como um
ladrão comum. Alcançando sua taça, ela engoliu um pequeno
gole antes de perceber que alguém tinha enchido seu copo
vazio com vinho tinto. O vinho roçou amargamente em seu
estômago, mas não ousou desculpar-se na mesa. Bebendo
álcool ... graças a Deus que minha mãe não está aqui para ver
isso.
― Eu não posso culpá-lo nem um pouco, Porter. Vender
a Plantação dos Bennington a um criador de cavalos de Ohio
é provavelmente a coisa mais sábia que você pode fazer neste
momento. Desde que a Virgínia se separou, as condições
pioraram nesta área para os agricultores. Há inclusive uma
conversa entre a multidão, que esses municípios ocidentais

64
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

deveriam separar-se da Virgínia. Você poderia imaginar tal


ideia? Nada acontecerá, é claro, mas homens da nossa classe
serão mais bem-vindos no Oriente do que aqui. Embora eu
deva dizer, a cidade de Parkersburg vai se arrepender de
perder sua prática médica. ― O vozeirão do homem idoso
cortou o devaneio de Emily. Sua cabeça se voltou em atenção.
― Sim, o homem de Ohio ofereceu um preço justo. Não
consegui lucrar desde que herdei a plantação de meu pai,
então pensei que deveria vender. ― O Dr. Bennington
recostou-se na cadeira. ― Eu sou um médico e não um
fazendeiro.
― Isso é devido à sua natureza generosa, Porter. Você
não pressiona ninguém a pagar por seus serviços. Eu ouvi
você deixar seu povo manter os lucros de seus negócios, ―
disse uma mulher excessivamente composta. ― Você é muito
gentil para o seu próprio bem. ― Ela arrastou cada palavra
em ênfase sem tirar os olhos da sra. Bennington, sentada no
outro extremo da mesa.
― Porter é realmente um homem caridoso. ― Sua esposa
dirigiu um sorriso para ele. ― Eu não o teria de outra
maneira.
Ele levantou o copo numa saudação.
― Obrigado, minha querida. Minha esperança é que
fiquemos cercados por tantos amigos carinhosos em
Martinsburg como estamos aqui. ― Ele esvaziou seu copo e
estendeu-o para Joshua reabastecer.
Quando todos levantaram a taça para brindar, Emily
também levantou, esquecendo que sua taça já não continha

65
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

suco. O vinho começou a confundir seus pensamentos


enquanto ela tentava absorver as palavras do Dr.
Bennington.
― Martinsburg? ― Ela perguntou em voz baixa. ― Você
está movendo sua família para Martinsburg?
Cada cabeça girou em sua direção.
― Sim, senhorita Harrison, logo após o feriado natalino.
― Ele sorriu pacientemente para ela. ― Eu vendi a plantação
Bennington e vou clinicar lá.
― Você está se movendo para o leste porque as coisas
ficaram desconfortáveis para os escravagistas aqui?
A sala ficou tão quieta que poderia se ouvir a cera
gotejando dos castiçais.
― Não. ― Suas pálpebras pesadas caíram, tornando seus
olhos impossíveis de ler. ― Estou me mudando porque
médicos são desesperadamente necessários nessa área. A
maioria dos médicos do Leste juntaram-se a um ou outro
exército, deixando as cidades assustadoramente aquém dos
profissionais médicos. ― Vários convidados descansaram
suas taças e olharam para ela com indisfarçável hostilidade.
Emily não conseguiu se conter.
― Seu convidado acabou de dizer que plantadores são
mais bem-vindos nos municípios do Leste do que aqui, onde
a maioria das fazendas são administradas sem manter as
pessoas em cativeiro.
As senhoras reagiram à exibição de comportamento não
feminino de Emily com uma ingestão aguda de respiração.
Com certeza, nenhuma das pessoas ali presentes tinha

66
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

ouvido uma mulher falar com tanta audácia antes. O


cavalheiro ao lado direito de Emily cobriu a mão dela com a
sua e apertou, como se tentando trazê-la a razão. O homem
mais velho à sua esquerda limpou a garganta.
― Aqui, aqui, senhorita. Não fale de assuntos sobre os
quais você não tem conhecimento.
― Mas eu tenho conhecimento de tais assuntos, senhor.
Os Hull confirmaram minhas suspeitas sobre a escravidão
nesta área.
― Você está correta, senhorita Harrison, ― disse o Dr.
Bennington. ― Plantações escravistas são poucas e estão se
tornando cada vez mais impopulares aqui, mas essa não é
minha razão para sair.
― Porter, você não deve a esta jovem mal-educada uma
explicação, ― interrompeu o homem idoso. Seu nariz bulboso
tinha tornado-se mais rosa durante a refeição. ― Ela não é a
sua governanta? Ela deve ser enviada de volta para o berçário
para os seus encargos imediatamente, ou então, receber sua
notificação de demissão.
Mais de um convidado concordou com a cabeça. Exceto
Margaret. Ela olhou para Emily com terror nos olhos
arregalados. E também a senhora Bennington. Curiosamente,
ela assistiu a provação com os olhos marejados, torcendo as
mãos como se estivesse assustada com o resultado.
Bebendo seu vinho, o dr. Bennington permaneceu
imperturbável.

67
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Não, Walter. A senhorita Harrison é encorajada a dizer


o que pensa em minha casa. É assim que estamos criando
nossas filhas.
Emily recuperou a compostura e olhou diretamente para
ele.
― Eu reconheço que você é um senhor excepcionalmente
benevolente, Dr. Bennington, mas como pode ser justo
arrancar e mover seu povo milhas de distância contra a sua
vontade? ― Novamente a sala ficou tão silenciosa que ela
podia ouvir o relógio marcando a hora na cornija.
― Eu concordo com você, senhorita Harrison. É por isso
que eu assinei hoje as Cartas de Alforria para todos os meus
trabalhadores. Eles são homens e mulheres livres e podem ir
para o leste com a gente ... ou não. ― Ele tomou outro gole de
vinho, mas seu olhar nunca deixou sua jovem empregada. ―
Eu me reinstalarei em Martinsburg apenas com pessoal pago.
E eu pretendo enviar Margaret e Anne para a Europa até
estar confiante que a Virgínia esteja livre de hostilidades que
possam ameaçar sua segurança.
Finalmente, Emily estava sem palavras.

Primavera 1862

Alexander sempre tinha preferido uma vida ativa e


perigosa. Infelizmente isto veio com segredos, subterfúgios e
decepções. Desde os seus primeiros dias na Universidade da

68
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Virgínia, ele tinha contado a seus pais um fluxo constante de


mentiras simples, para protegê-los do escândalo de suas
brigas, jogos de azar e orgias com mulheres. Ele tinha sido
expulso depois de duelar com outro estudante por uma
senhora não tão virtuosa. Unicamente por sorte, o homem
recuperou-se de sua ferida e interveio para reintegrá-lo, após
pagamento de uma quantia exorbitante de dinheiro.
Seus pais tinham tudo, mas quase abandonaram a
esperança de filhos quando Alexander nasceu. Ele logo se
tornou o orgulho e alegria de seu pai e a menina dos olhos de
sua mãe. Mas quando ele se transformou em um adolescente
rebelde, James Hunt protegeu sua delicada esposa de seu
comportamento desordeiro. Agora que seu pai tinha
envelhecido e, perturbado por um coração enfraquecido, a
teia de mentiras de Alexander também o incluíam. No
entanto, já não era uma briga no pátio da escola que traria
vergonha para a reputação da família Hunt. Hoje em dia, ele
estava até o pescoço em algo que poderia enviá-lo para uma
prisão do Norte ... ou colocá-lo no fim do nó corredio de um
carrasco.
Sua mãe pediu-lhe que não se juntasse ao Exército
Confederado durante o chamado de Jefferson Davis por
voluntários. Ela insistiu que ele dirigisse a plantação devido à
pouca saúde de seu pai. Muitos de sua classe social
resistiram ao impulso de alistar-se e escolheram cumprir
seus deveres patrióticos de maneiras mais seguras. Alexander
não desejava o tédio da vida do acampamento ― os exercícios
sem fim, marchas para lugar nenhum e a rotina tediosa entre

69
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

as batalhas. Após a secessão, ele ansiava servir seu país


inexperiente, mas não dentro dos limites do exército regular.
Seu papel como partidário ranger ― um guerrilheiro ―
não tinha sido planejado. Durante um de seus passeios
frequentes, ele descobriu que um escritório telegráfico da
União havia sido montado atrás das linhas de batalha recém-
desenhadas. Depois de Alexander dominar e amarrar o
operador, seu amigo Daniel Ellsworth cortou o circuito
usando um fio-terra. A partir de mensagens interceptadas,
eles souberam do transporte de prisioneiros confederados
através do condado de Loudoun. Alexander respondeu as
mensagens para o agente yankee dando relatos falsos do
movimento das tropas para expulsar o inimigo e aumentando
o número de tropas Confederadas antes da próxima batalha.
Com o conhecimento de Ellsworth de linhas telegráficas e o
intelecto militar naval de Alexander, começaram uma série de
incursões clandestinas que eventualmente o tornariam
famoso. Nenhum escritório telegráfico no Vale Shenandoah
estava a salvo de suas artimanhas. Os jornais o chamavam
de Fantasma Cinzento devido ao seu domínio do disfarce e da
discrição. Comissionado em segredo pelo Secretário de
Guerra, o Coronel Alexander Hunt caminhou em uma linha
estreita, dando a seus homens escolhidos a dedo, a vantagem
de abastecimento necessária ao Exército da Virgínia do Norte.
Porque eles não seriam tão eficazes se sua identidade fosse
conhecida, ele e seus guardas retornavam às suas vidas
tranquilas entre os ataques. Mas a cada dia o subterfúgio
tornava-se mais difícil de manter.

70
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Seus pais frequentemente questionavam suas ausências


e estavam pouco satisfeitos com suas respostas evasivas.
Alexander invejava seus homens que voltavam para esposas e
filhos, mas apesar de sua atração pela governanta de cabelos
ruivos da casa de seu tio, duvidava que o casamento fosse
seu destino. Não que Emily Harrison seria uma esposa
adequada, do norte ou do sul. Coitado do pobre homem que
se casasse com aquela temperamental fazedora de problemas
de língua afiada.
Em uma linda tarde de primavera, quando os sapos
criavam um tumulto frenético na lagoa, Alexander não estava
com pressa de voltar à vida em Front Royal. Como seu pai
empregava instrutores, cavalariços e jockeys bem pagos, além
de supervisores e empregados para executar sua operação de
criação de cavalos, Alexander nunca se sentiu essencial na
Fazenda Hunt. Somente na sela e no sertão, sentiu-se parte
de algo significativo.
Ele cavalgava como um verdadeiro aristocrata do Sul
depois de muitos verões de corrida de obstáculo em sua
juventude. Ele e Phantom eram duas partes de um todo
poderoso. E essa capacidade de lidar com um cavalo salvou-o
em muitas fugas durante sua identidade atual.
Seu último ataque não rendeu o que ele esperava. O
trem da União de Alexandria continha apenas forragem de
grãos para o gado e uma quantidade limitada de provisões ―
sem armas ou munições e sem inteligência militar. Mas o
último vagão produziu um raro prazer ― caixas de laranjas,
limões, doces e peixe fresco. O peixe era escasso devido ao

71
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

bloqueio da União na costa. Seus rangers carregaram as


provisões para o acampamento por uma fritada de peixe.
Como crianças, eles pinoteavam em volta do fogo enquanto a
gordura respingava na panela, aguardando ansiosamente a
mudança para cozido.
Depois de dispersar suas tropas, o coronel passou o dia
explorando novos locais de encontro na área de Berryville.
Não seria prudente continuar nos esconderijos familiares. Ele
tinha ciência de um pequeno celeiro abandonado fora de
Berryville e, portanto, ficou surpreso ao notar um cavalo
amarrado no coxo de água. Pode ser um desertor, mas de que
lado? Alexander não carregava arma de fogo. As instruções de
sua mãe sobre o modo de vida dos Quakers haviam se
enraizado, não lhe dando vontade de tomar outra vida. Um
homem inteligente conhecia outras maneiras de ganhar o
controle. Usando as alças ao lado do celeiro, subiu a parede
até a janela do palheiro e pousou silenciosamente sobre a
porta, preparado para qualquer um que saísse do celeiro.
Isto é, para quase qualquer um. Quando a porta abriu
balançando, ele saltou para o desertor, aterrissando em um
monte de cabelos vermelhos flamejantes e um joelho enfiado
em seu intestino.
― Aiii! Saia de cima de mim, você é um idiota! Você é
algum tipo de animal selvagem?
Ouvindo uma voz feminina, Alexander esforçou-se para
abstrair-se da pessoa tanto feminina quanto bonita. Bela, isto
é, se alguém gosta de mulheres de rosto vermelho e
carrancudo, com folhas no cabelo e roupas bonitas

72
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

empoeiradas. No momento, ele gostou. Era Emily Harrison ―


a governanta que quase queimou a cozinha da Plantação dos
Bennington. A mesma mulher que exigiu que ele cobrisse seu
peito ainda que não conseguisse manter seus olhos longe de
sua pele nua. Ele riu do absurdo de encontrá-la no campo
afastado.
― Você! ― Ela cuspiu a palavra como se fosse um
bocado desagradável de óleo de rícino.
― Alexander Wesley Hunt, senhora, da Fazenda Hunt,
em Front Royal. ― Ele inclinou-se profundamente antes de
esticar a mão. ― Nós nos conhecemos no verão passado na
Plantação dos Bennington. Acredito que Matilde tinha
acabado de expulsá-la de sua cozinha.
Ela pulou para trás, olhando como se sua mão fosse
uma serpente.
― Lembro-me de você, sr. Hunt. Talvez você pudesse
explicar por que saltou sobre mim? ― Sua voz fervia com
veneno.
― Eu humildemente imploro seu perdão. ― Alexander
tirou o chapéu e passou uma mão pelos cabelos. Felizmente,
ele usava roupas de montar com seu uniforme embalado em
segurança no alforje. ― Eu pensei que você poderia ser um
desertor procurando um lugar para se esconder. Por favor
perdoe minha indiscrição, madame. Malandros tanto da
União como da Confederação viajam por este vale a caminho
de casa.
Enquanto Emily esfregava e tirava as folhas do cabelo,
Alexander avaliou sua aparência. Em vez de um traje de

73
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

montar, ela usava um conjunto de verão mais adequado para


uma caminhada no jardim. Seus olhos a examinaram
brevemente antes de voltar para o rosto dela.
― Senhora, onde está sua carruagem e motorista? Posso
ajudá-la de alguma maneira? Você está perdida ou a
carruagem perdeu uma roda e você enviou seu motorista
para obter ajuda?
― Pare de me chamar de “madame”, ― ela exigiu com
um bater do pé. ― Você sabe muito bem que eu sou solteira.
E eu não tenho um motorista, senhor.
― Então como você chegou aqui? ― Ele espiou ao redor
do celeiro confuso.
― Eu andei no meu cavalo, seu tolo.
― Nisso? ― Ele apontou para o vestido e a blusa de
algodão. ― Sem botas de couro ou um traje de montar? ―
Então, o impacto total de suas palavras o atingiu como um
golpe na cabeça.
― Grande Deus! Eu acredito que esta é a primeira vez na
minha vida que alguém me chamou de tolo.

74
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 4

Emily não poderia dizer se a expressão chocada do sr.


Hunt era devido à palavra insultuosa que ela acabara de usar
ou por seu traje inapropriado.
― Bem, isso sim me surpreende. E não é da sua conta o
que eu uso quando eu monto, sr. Alexander Wesley Hunt, de
Front Royal. Se você terminou de pular em cima de mim, eu
vou andando. ― Os perfumes masculinos de couro e bálsamo
de barbear flutuavam ao redor dela. Lembrou-se do encontro
com o sobrinho arrogante do patrão na ilha, mas não tinha
intenção de permitir que ele a intimidasse novamente. ― Eu
não sou um desertor procurando um lugar para me esconder.
― Ela passou por ele. Seu tom era desdenhoso, mas ele ainda
seguia em seus calcanhares, como um cachorrinho. ―
Verdadeiramente Sr. Hunt, eu não preciso de sua ajuda. Bom
dia para você.
Espionando sua nova égua castanha, ele disse, com sua
atenção voltada para o cavalo.
― Que beleza! Qual o nome dela? ― Ele passou a mão
pelo flanco brilhante.
― Miss Kitty. Ela foi um presente do Dr. e da sra.
Bennington. ― Emily puxou as rédeas soltas a partir do ramo,
75
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

desejando que não fosse sua primeira cavalgada na nova


Morgan. Embora fosse uma amazona experiente, ela sempre
andava montada como um menino e estava desconfortável
com a nova sela de amazona. Ela não precisava que essa
mula de homem a visse cair sobre seu traseiro.
― Por que um presente tão generoso? Será que você
serviu algumas de suas delícias culinárias em sua mesa de
jantar? ― Ele piscou maliciosamente.
― Você precisa continuar a se referir a um acidente
como se nenhum outro pensamento percorresse sua mente?
― Sua respiração deixou seus pulmões num acesso de raiva.
― A sra. Bennington ficou satisfeita por eu ter concordado em
acompanhá-los ao leste, apesar do fato de suas filhas terem
partido para a Europa.
― Com as meninas fora, por que minha tia ainda
precisaria de uma governanta?
― Ela deseja que eu permaneça no emprego como sua
assistente pessoal. Agora, como eu já respondi suas
perguntas, você pode continuar seu caminho.
Ele segurou as rédeas de Miss Kitty.
― Alegre-me com mais uma, senhorita Harrison. Como
você vai montar sem uma ajuda?
― Nem todas as mulheres são belas indefesas, sr. Hunt.
― Emily ergueu o pé no estribo, agarrou a sela e um punhado
de crina e levantou-se para cima. Infelizmente ela revelou
uma extensão da anágua de rendas delicadas e um pouco da
meia acima de seu sapato. Ela puxou a saia para baixo, mas

76
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

não antes que seus olhos praticamente saltassem de sua


cabeça.
― Eu me sentiria muito melhor se eu fosse com você,
senhorita Harrison, ― ele disse, deslizando o olhar de sua
perna para o seu rosto. ― Posso vê-la em segurança de volta
para a casa de meu tio?
― Você não pode. Agora, por favor, solte o meu cavalo,
senhor.
― Uma mulher não deveria estar aqui sozinha, ― ele
insistiu.
Com um olhar penetrante Emily inclinou-se na sela.
― E por que não, posso perguntar? ― Sua voz gotejava
desprezo; sua mandíbula determinada.
― Estes são tempos perigosos. Você não tem medo de
correr para o Fantasma Cinzento? Há rumores de que estas
matas são seu esconderijo habitual.
― Eu não tenho medo de nenhum fantasma, sr. Hunt.
Eu simplesmente atiraria nele com minha pistola Derringer
escondida. ― Ela rapidamente endireitou suas costas
enquanto a sela se movia precariamente.
― Sério, você anda pelo condado desacompanhada
carregando uma pistola escondida? ― O sorriso em seu rosto
desmentia sua afirmação. ― O que você está fazendo aqui? ―
Ele curvou o polegar em direção ao celeiro. ― Você está muito
longe de ... Martinsburg. Eu acredito que é para onde meu tio
mudou sua clínica médica.
Emily soltou um suspiro exasperado.

77
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Eu estava fora, andando neste dia agradável e fiquei


cansada. Avistei este celeiro velho e decidi descansar ali
dentro.
― Entendo. ― Novamente seu tom indicava pouca crença
na sua história. ― Você escolheu um celeiro infestado de
ratos e envolto de teias de aranha para o seu descanso?
Talvez fardos de palha velha e mofada como sua
espreguiçadeira? ― Ele sorriu, revelando dentes brancos em
contraste com seu rosto bronzeado e corado. Uma barba de
dois ou três dias, junto com cabelos longos soltos em volta
dos ombros, dava-lhe um olhar selvagem.
― Você esquece, sr. Hunt, que eu sou uma simples
garota de fazenda, desacostumada a sofás cobertos de
tapeçaria. O feno parecia fresco e eu não vi ratos. ― Emily
pegou as folhas na crina de Miss Kitty para manter seu foco
fora do seu paletó bem cortado e de sua camisa branca
desabotoada no pescoço. Um pouco de pele aparecia onde
sua camisa estava aberta. Apenas por um momento ela olhou
para seu peito musculoso. Então engoliu em seco e forçou
sua vista para cima. Encontrando seus olhos, seu estômago
torceu-se em um nó.
― Desculpe-me, senhorita Harrison. Eu esqueci que a
visão do peito de um homem é perturbadora para uma
donzela. ― Ele abotoou a camisa com um exagero deliberado.
― Perdoe minha imprudência.
― Eu já vi homens sem camisas. Não é isto o que eu
acho perturbador sobre você, ― disse Emily, muito consciente
de sua própria aparência desgrenhada. Ela não lembrava que

78
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

o sobrinho do Sr. Bennington fosse tão bonito... para um rico


aristocrático sulista. ― Peço-lhe novamente para liberar seu
controle sobre minha rédea.
― Eu estou relutante em deixá-la partir com o Fantasma
Cinzento rondando o vale. Você ficaria satisfeita ou
apavorada se ele cruzasse seu caminho?
― Se eu me encontrar com o Fantasma Cinzento, vou
atirar entre seus olhos e poupar o exército da União da
tarefa. Ele é um bandido assassino e até mesmo a forca é
muito boa para ele.
― Meu Deus, você atiraria em um homem desarmado,
sem o benefício de um julgamento? Você não é uma Quaker e
uma pacifista por natureza? ― Ele estalou a língua em
zombaria.
― Tempos de guerra exigem medidas extremas. Alguns
Quakers se alistaram no exército da União. De qualquer
forma, o Fantasma Cinzento provavelmente carrega uma
arma escondida. De que outra forma ele poderia realizar o
que eles dizem, com apenas truques e uma espada?
― Uma arma escondida, semelhante à sua pistola
escondida? ― Alexander coçou o queixo como se pensando na
ideia. ― As mulheres dizem que desfaleceriam de amor eterno
se o encontrassem, mas você parece imune ao seu mistério.
Ah, mas você é uma yankee.
Com as bochechas em chamas, Emily puxou as rédeas
de seu alcance.
― Eu não tenho mais tempo para conversa fiada. Bom
dia para você. ― Dando um pequeno pontapé nos flancos de

79
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Miss Kitty, ela saiu do celeiro empoeirado. A meio caminho do


trajeto, ela lançou um olhar por cima do ombro, incapaz de
deter-se. Alexander estava com ambas as mãos nos quadris,
rindo dela ... novamente.
Droga! Atirar no Fantasma Cinzento com a minha arma
escondida? De todas as coisas ridículas a dizer... Se eu tivesse
uma arma escondida, eu iria me matar. De todos os pontos
remotos e abandonados que tinha visto este, sem dúvida,
tinha sido o mais escondido. Agora, este homem idiota não só
tinha tropeçado em cima dele, mas sobre ela também.

Emily cavalgou por várias horas, parando duas vezes


para descansar seu cavalo. Ela precisava de tempo para
organizar seus pensamentos e colocar algum espaço entre ela
e o sobrinho do Dr. Bennington. Que falta de sorte esbarrar
nele!
― O que estou fazendo aqui, Miss Kitty? ― Ela
sussurrou para sua montaria. ― Uma área ainda mais leal à
causa sulista. ― Miss Kitty não tinha resposta enquanto
cavalgavam pelas ruas de tijolo de Martinsburg. Mas que
escolha ela tinha? Ela não poderia ter retornado para
Marietta porque agora outra família ocupava sua casa de
infância. Em sua última carta, o reverendo e a Sra. Ames
transbordaram alívio por ela não ter sido demitida quando os
Benningtons mudaram-se para o leste. Trabalhos eram
inexistentes no vale do rio Ohio e o casal de idosos não se
80
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

ofereceu para recebê-la em sua casa enquanto ela procurava


por trabalho.
Ela não era diferente de Lila, Joshua ou Matilde. Como
eles, ela era livre para ir onde quer que escolhesse, mas uma
barriga vazia ou pensamentos de noites frias sem abrigo a
deixaram disposta a se mudar para manter seu emprego. E
Lila e seus pais não pareciam nem um pouco infelizes em se
mudar. Porém, desde sua chegada, todos os Amite
borbulhavam de alegria de viver em uma cidade em vez de em
uma ilha isolada. Emily sabia que deveria contar suas
bênçãos. Ela não tinha ideia do porque o Dr. Bennington a
convidou para acompanhá-los após ter enviado as meninas
para a escola em Paris. A Sra. Bennington estava apreensiva
por suas filhas, mas o Dr. Bennington insistiu que as
meninas se beneficiariam com a rigorosa Maison Muguet. Por
causa de Margaret e especialmente pela precoce Annie, Emily
esperava que fosse apenas por um período, como seu pai
prometera.
O novo papel de Emily era de acompanhante da Sra.
Bennington, cuja saúde se deteriorou durante a viagem. Ela
raramente andava com sua bengala, preferindo a cadeira de
rodas para ir de uma sala a outra. Ela se cansava mais
facilmente agora e frequentemente descansava, então as
tarefas de Emily não eram muito extenuantes. Ela tomava o
café da manhã com a sra. Bennington depois que seu marido
saía para atender a sua prática médica e elas geralmente
partilhavam o almoço no belo jardim dos fundos. O único
dever de Emily era ler para a sra. Bennington no período da

81
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

tarde. Ela servia intermináveis xícaras de chá Darjeeling e lia


em voz alta por longos períodos de tempo. Mas isso não era
uma tarefa difícil porque ela gostava de ouvir as palavras de
Sir Walter Scott trazidas à vida.
Muitas vezes o reumatismo da sra. Bennington a
mantinha na cama por dias. Ela insistia em usar Matilde, Lila
e a menina irlandesa contratada para ajudar, recusando-se a
permitir que Emily a servisse. Nessas manhãs, Emily
trabalhava para o dr. Bennington em seu consultório.
Durante a tarde, ele sugeria que ela fizesse passeios pela
cidade para se familiarizar, de preferência acompanhada por
Lila. Mas muitas vezes Emily saía sozinha, se Lila tinha
outras incumbências. Seus passeios no campo provaram ser
úteis. Usando os mapas de seu pai trazidos de Ohio, ela
marcou todas as casas seguras de propriedade de amigos ou
outros lugares para esconder os fugitivos. Lentamente,
cuidadosamente, Emily encontrou cada um e apresentou-se
aos proprietários.
O Dr. Bennington continuava sendo um enigma para
ela. Do Sul até sua inclinação por pão de milho e Bourbon.
Ele libertou seus escravos e estendeu sua perícia médica para
as vítimas da União e da Confederação, tratando ambas com
igual bondade. Ambos os exércitos alternadamente cercavam
ou ocupavam a cidade de Martinsburg, mas nenhum impedia
o envio de medicamentos para o consultório do Dr.
Bennington. Ele pedia suprimentos de Nova York, Boston e
até mesmo do exterior, nunca seguro sobre o que aconteceria
no bloqueio. Cada dia mais grisalho, com linhas profundas ao

82
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

redor dos olhos e da boca, ele voltava para casa como um


homem cansado. No entanto, ele ainda tinha tempo para
compartilhar um jantar tardio com sua esposa ou sentar-se
ao lado de sua cama até ela cair no sono.
Emily ansiava por alguém para amá-la assim, mas com
sua língua afiada e temperamento explosivo, ela achou isto
improvável. Pela primeira vez desde que saiu de casa, sentiu-
se sozinha. Ela perdeu seus pais e Matthew. Ele estava se
tornando uma memória cada vez mais distante,
desaparecendo como um daguerreótipo difuso. Em alguns
dias, ela tinha que abrir o medalhão para recordar seus
traços. Mas mesmo assim, o perfil altivo do sobrinho da sra.
Bennington invadia seus pensamentos. Como ela podia
sentir-se atraída por alguém tão pouco tempo após a sua
perda? O que havia de tão especial sobre este homem que
podia roubar suas memórias preciosas?

― Emily? Você está bem, minha querida? ― A voz da sra.


Bennington rompeu seu devaneio. A cabeça de Emily voltou-
se à mesa do café da manhã.
― Sim, senhora. Eu estou bem. Apenas um pouco
cansada. ― Ela conseguiu dar um sorriso fraco e tomou outro
gole de café. Apenas um pouco cansada era um eufemismo de
proporções teatrais. Emily nunca estivera tão dolorida em sua
vida, todos os músculos doíam. Mesmo os músculos em
locais que ela não sabia que continham músculos. Sua
83
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

viagem à Berryville ontem custou-lhe muito caro. Agora ela


ficaria feliz em nunca mais montar Miss Kitty novamente.
― Eu ouso dizer que você deve estar cansada. Matilde
disse que estava quase escuro quando você retornou de seus
passeio e que mal conseguias manter a cabeça erguida
durante o jantar.
― Matilde adora exagerar. ― Ela tornou a encher a
xícara de café.
― Isso ela faz, ― concordou a sra. Bennington, deixando
morrer o assunto. ― Então hoje ambas vamos descansar,
porque viajaremos amanhã. Nós fomos convidados para um
grande baile e depois ficaremos uma semana para visitar.
― Uma viagem? ― Perguntou Emily espantada. ― Mas
nós nos estabelecemos há poucos meses e a senhora não está
se sentindo bem. E a clínica do Dr. Bennington? Ele não pode
sair e deixar seu trabalho, pode? ― Estavam esses sulistas
mimados tão cansados que abandonariam os doentes e
feridos por um baile durante o tempo de guerra?
― Você é tão doce por se preocupar tanto com os outros,
mas hoje eu me sinto mais forte. Mesmo que eu permaneça
em minha cadeira, adoraria uma mudança de cenário. E o
trabalho de Porter é a razão precisa pela qual estamos
fazendo esta jornada. Aparentemente houve uma batalha com
mais vítimas do que os cirurgiões do exército podem lidar.
Porter vai sair na primeira luz do dia para ajudar com os
feridos. Nós seguiremos na carruagem tão logo Joshua,
Matilde e Lila possam preparar as coisas. Os Amite têm
parentes na Fazenda dos Hunts ― acrescentou a sra.

84
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Bennington. Ela serviu-se de um biscoito e espalhou mel


sobre ele.
― Desculpe-me? ― Emily engasgou. Sua boca cheia de
café quase pulverizou sua empregadora.
― Eu disse que os Amite têm...
― Sim, senhora, eu ouvi essa parte. Qual é o nome do
lugar para onde estamos indo? ― A voz de Emily era pouco
mais que um rangido.
― Fazenda Hunt, a plantação do meu cunhado. É perto
de Front Royal. Claro, não é provável que a fama de uma
fazenda de puro sangue da Virgínia atinja aqueles que vivem
em Ohio, mas você lembra de conhecer Alexander na ilha,
não é? ― A sra. Bennington estudou secretamente sua jovem
companheira enquanto fazia a pergunta.
― Oh, a Fazenda Hunt. É claro. Eu pensei que tinha
entendido mal. ― Emily cortou o ovo frito em pequenos
pedaços, seu apetite desaparecendo.
A sra. Bennington borbulhava em entusiasmo.
― É bom estar tão perto da minha irmã e sua família.
Eu mal posso esperar para vê-los. Embale seus vestidos
novos, minha querida. Gostaria que tivéssemos tempo para
fazer alguns especiais. Todo mundo dentro de um raio de três
condados estará neste baile.
― Não acho apropriado acompanhá-la. Eu sou uma
empregada contratada e não uma convidada. Vou passar a
noite com Lila.
― Bobagem. Você não é uma governanta enquanto as
meninas estão na Europa. Como minha acompanhante

85
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

pessoal e minha amiga, você será bem-vinda em qualquer


baile que eu escolha participar. ― Sua declaração foi
impassível. A sra. Bennington levantou-se majestosamente e
empurrou a cadeira para trás da mesa. Quando ela
concentrou seus suaves olhos verdes sobre ela, Emily sabia
que o assunto estava encerrado.
Doce como ela era, Augusta Bennington sempre
conseguia o que queria.

A sra. Bennington não pode esperar até que a


carruagem parasse, antes de esticar o pescoço para fora da
janela.
― Rebecca! É tão bom ver você.
Emily espiou por cima do ombro da mulher para estudar
a mansão. Era uma visão bastante impressionante, ela teve
que admitir. A casa não era nada como a Plantação
Bennington na ilha. Totalmente emoldurada em madeira com
colunas altas e varandas no segundo andar, ela espalhava-se
para fora em várias alas e adições, mas toda a estrutura
tinha uma elegância acolhedora. Murta crepe, bouganvileas
em vasos e uma treliça cheia de glicínias trepadeiras davam à
casa uma aparência desenfreada e exagerada.
― Augusta, faz tanto tempo. ― Uma mulher desceu
correndo os degraus para cumprimentar a sra. Bennington,
deixando o dono da casa seguir atrás em um ritmo mais
vagaroso. Alta e ereta, Rebecca Hunt tinha cabelos prateados
86
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

e pele corada. Estrutura óssea fina e nariz curvo, ela não era
bonita como sua irmã, mas algo atraente irradiava de seu
sorriso.
Emily ajudou a sra. Bennington a descer da carruagem,
segurando seu braço com uma mão e sua bolsa firmemente
na outra.
― Boa tarde, senhora.
― Boa tarde e seja bem-vinda. ― A sra. Hunt sorriu
agradavelmente em sua direção e em seguida abraçou sua
irmã.
O cavalheiro deu um passo adiante.
― Eu sou James Hunt. Você deve ser a senhorita
Harrison. ― Ele estendeu uma mão suave que nunca havia se
envolvido em trabalho duro. ― Eu acredito que você já
conheceu nosso filho Alexander.
Ela curvou um joelho ligeiramente.
― Sim, senhor. Obrigada por sua amável hospitalidade.
― De modo algum. Deixe-me pegar isso. ― Ele puxou a
bolsa de seus dedos, entregou-a a um servo e virou-se para
cumprimentar sua cunhada.
Felizmente, o filho do dono não estava em nenhum lugar
para ser visto. Emily não gostou da maneira como seu
estômago apertava sempre que Alexander a olhava ou a forma
como ele torcia suas palavras. Ele a fazia sentir-se como uma
estudante inculta em vez de uma governanta treinada.
― Vamos, Emily, ― disse a sra. Bennington. ― Rebecca
nos dará um passeio pelas salas principais. Ela fez algumas
mudanças que eu estou ansiosa para ver. ― De braços dados,

87
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

as duas irmãs subiram os degraus tagarelando. Como a sra.


Bennington tinha recusado sua cadeira hoje, Emily seguiu
logo atrás, pronta para pegar a mulher se ela caísse.
Enquanto ela vagava pelos quartos ricamente decorados,
Emily lembrou-se de seu encontro inoportuno com Alexander
no celeiro abandonado, com um rubor desconfortável. Aquela
casa, no mais profundo da Confederação, era um lugar onde
ela poderia efetivamente começar a levar os escravos em seu
caminho para a liberdade. Ela esperava que o filho do dono
tivesse esquecido do seu lugar perfeito para esconder
fugitivos durante a noite.
Duas horas mais tarde, a sra. Hunt levantou as palmas
das mãos, concluindo sua longa explicação sobre
revestimentos de parede pintados à mão, tapeçarias
importadas e mobiliário europeu.
― Chega. Vamos desfrutar de um jantar informal no
terraço esta noite? Você provavelmente está exausta após a
viagem. ― Ela, no entanto, parecia tão fresca como uma
manhã de primavera.
― Eu acredito que vou retirar-me para o meu quarto, ―
disse a sra. Bennington. Ela parecia pronta para desmaiar. ―
Por favor, envie o jantar em uma bandeja mais tarde, algo
leve.
― Você vai juntar-se a nós esta noite senhorita
Harrison?
― Não, senhora. Obrigada pelo convite, mas eu também
prefiro relaxar. ― Ela passou o braço firmemente em torno da
cintura da sra. Bennington quando começaram a subir as

88
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

escadas. Com a inevitável refeição com os Hunts adiada, foi-


lhe concedida uma trégua. Depois de desembalar suas
roupas e descansar em seu quarto, ela desceu dois lances da
escada dos criados para o primeiro andar. A conversa cessou
e todos os olhos se voltaram para ela quando entrou na sala.
― Olá, senhorita Harrison. ― Lila levantou-se. Ela estava
sentada em uma longa mesa de cavalete na cozinha enorme,
parcialmente subterrânea. A sala era confortavelmente fresca,
mas a enorme lareira a tornaria aconchegante e confortável
durante o inverno.
― Posso me juntar a sua família para o jantar? ― Emily
dirigiu a pergunta para Matilde.
― Sim, se você prometer ficar longe do fogão. ― Matilde
mostrou seu sorriso magnífico. ― Sente-se ali, ao lado de
minha filha.
Emily cumpriu ambos os pedidos. Durante a hora
seguinte, Matilde apresentou Emily para toda a extensa
família Amite conforme os trabalhadores entravam para
comer e depois voltavam para as tarefas domésticas.
Relaxando no banco, ela jantou um guisado de coelho,
verduras refogadas, feijão verde, pão de milho, tomates
cozidos e torta de amora. Os Amite eram bem conhecidos e
amados pelos trabalhadores da Fazenda Hunt, escravos e
livres. Lila apresentou-a a seus primos, sobrinhos e
sobrinhas até Emily desistir de tentar se lembrar dos nomes.
Depois de comerem, Emily e Lila fizeram uma longa
caminhada enquanto o sol caía atrás das montanhas de
Shenandoah. Ali era tranquilo e bonito, contudo Emily estava

89
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

cheia de um estranho pressentimento, muito tempo depois de


dizer boa noite a Lila e arrastar-se debaixo da colcha macia
em sua cama. Tempestades e espectros encheram seus
sonhos enquanto ela agitava-se e virava-se no quarto perfeito,
no mundo perfeito da Plantação dos Hunt.

― Senhorita Harrison. Senhorita Harrison. ― Uma voz


penetrou seu sono agitado, fazendo com que Emily pulasse
com dificuldade da cama. ― A sra. Bennington deseja que
você se junte a ela para o café da manhã no terraço. ― Uma
voz chamou através da porta.
― Inferno! ― Ela murmurou. Em voz alta, ela disse: ―
Por favor, diga à sra. Bennington que acordei com uma fome
terrível e tomei o café da manhã na cozinha mais cedo.
A pessoa na porta parecia estar à espera de uma
desculpa melhor. Quando nenhuma veio, a empregada disse:
― Sim, senhorita. Vou dizer a ela.
Perdoe-me, Senhor, por mentir e quebrar o nono
Mandamento. Emily elevou sua oração penitente. Outro
adiamento, mas quanto tempo isso pode durar?
Infelizmente, não muito tempo, afinal. A sra. Bennington
enviou uma nota ao quarto de Emily, insistindo para que se
juntasse a ela para o almoço no terraço. Porque o baile seria
naquela noite, o almoço seria servido às duas. Emily chegou
prontamente no horário determinado para encontrar a sra.
Bennington sentada com sua irmã.
90
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Venha sentar-se, minha querida. Seremos apenas nós


mulheres para a refeição. Meu cunhado saiu para procurar
Porter no hospital de campo. Ele vai dar uma mão até a hora
de trazer Porter de volta para as festividades da noite.
― Quase pode-se esquecer que uma guerra está
acontecendo, ― Emily murmurou. A sra. Bennington
concordou com a cabeça, mas a sra. Hunt inclinou-se em
uma expressão estranha. Emily concentrou-se no almoço
enquanto as duas irmãs compartilhavam notícias e fofocas
sobre amigos em comum. Não houve absolutamente
nenhuma menção a Alexander durante a refeição. Talvez ele
estivesse afastado de sua família e não fizesse uma aparição.
Estranhamente, ela não encontrou nenhum alívio com o
pensamento. Embora ele não estivesse fisicamente presente,
os olhos risonhos e zombadores que a fizeram corar no celeiro
pareciam segui-la em torno de seu quarto. Não haveria como
escapar dele mesmo na sua ausência?
Finalmente a sra. Bennington levantou-se.
― Emily, vamos descansar até o tempo de nos
prepararmos para o baile?
Depois de ajudar sua empregadora a ir até o quarto,
Emily cochilou durante várias horas, algo inédito na fazenda
de seus pais. Revigorada, vestiu-se cuidadosamente para o
baile. Se era para ser usada, ela deveria estudar seus
adversários nesta região de colunas brancas e campos
cuidados por escravos. Os modos aristocráticos e a cordial
hospitalidade dos proprietários de escravos não podiam

91
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

mascarar seus corações maldosos e enegrecidos. Ela cresceu


pobre, mas também tinha crescido conhecendo a liberdade.
Porque Lila tinha a noite livre, Emily lutou sozinha com
suas roupas de baixo e o vestido de baile. A profunda cor de
safira acrescentou profundidade aos seus pálidos olhos azuis.
Com minúsculos botões de pérola na parte da frente e
centenas de pregas dobradas abaixo da cintura, o vestido
acentuava sua figura esguia. Calçando os sapatos de dança,
ela fixou os poucos grampos que escaparam do seu coque na
nuca. Recusou-se a ter seu cabelo feito por uma empregada
escrava.
Ninguém vai olhar para mim de qualquer maneira. Ela
viu o fluxo constante de carruagens durante a última hora,
entregando pelo menos uma mulher bela e, em alguns casos,
várias beldades nos braços de seus pais. Cada uma usava um
vestido mais requintado do que a última. Uma casa de moda
parisiense durante os shows da primavera não ofereceria
uma seleção tão linda. ― Olhai aos lírios do campo, como eles
crescem... Salomão em toda a sua glória não se vestiu como
qualquer um deles. ― Por alguma razão, a garantia da bíblia
de que os cristãos não deveriam se preocupar com a roupa
não conseguiu consolá-la. O ciúme encheu seu coração e
corroeu sua confiança. Apenas por uma vez Emily queria
sentir-se bonita, segura de si e despreocupada em vez de
rústica, sem sofisticação e pobre.
Não querendo ser anunciada na entrada, Emily subiu a
escada de serviço para o salão de baile no terceiro andar. O
espaço palaciano de pé-direito alto estava lotado de foliões.

92
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Ali, encontrou um ponto escuro atrás do vaso de hibisco para


assistir às festividades. Os casais giravam com confiança em
torno do chão de mármore polido, como se cada movimento
fluido fosse tão natural quanto respirar. A escola para
senhoritas da senhorita Turner não me preparou
completamente para isto, pensou amargamente.
Ao longo da parede, senhoras de cabelos prateados,
conservadoramente vestidas e aristocratas casualmente belos
estavam em pé bebendo de taças de hastes longas. De sua
posição atrás do hibisco, Emily espionou seu anfitrião através
do salão conversando com vários soldados vestidos com seu
uniforme Confederado. Como frequentemente acontece
quando se olha tempo suficiente, Emily fixou os olhos em
Alexander Hunt, que aparentemente não estava afastado de
sua família afinal. Ele parou de falar e sorriu de orelha a
orelha. Ela olhou para a esquerda e para a direita para ver
para quem se destinava o sorriso magnífico. Ninguém nunca
a tinha olhado de tal forma. Emily sentiu-se como um coelho
enlaçado quando Alexander fez uma reverência para os
soldados e atravessou a sala.
― Grande a Deus, é você senhorita Harrison. Pensei ter
visto este vaso de plantas se mover. Cheguei em casa há
pouco e não sabia que meus tios estavam nos visitando.
― Se você tivesse sido avisado, sr. Hunt, teria saltado
em cima de mim a partir da varanda?
Ele jogou a cabeça para trás e riu.
― No mínimo, senhorita Harrison. ― Sua voz chamou a
atenção de várias cabeças em sua direção.

93
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Você seria tão amável, senhor, de diminuir sua voz? ―


Ela sussurrou.
Ele franziu as sobrancelhas.
― Você tem medo que eu mencione que você foi montar
em um traje completamente impróprio mostrando suas
anáguas?
Emily mordeu o interior de sua bochecha.
― Não. Eu simplesmente não quero que a sra.
Bennington saiba que eu tinha... vagado tão longe da rota de
Martinsburg.
― Você estava definitivamente fora do alcance de um
passeio casual. Alguns poderiam estar curiosos sobre o que
você estava fazendo. Mas desde que as meninas estão em
Paris, eu suponho que você tem muito tempo livre em suas
mãos enquanto tia Augusta repousa. ― Mais uma vez ele riu
como se tudo fosse muito divertido.
O som estava começando a irritar seus nervos. Ela
mostrou sua carranca severa e de professora antiquada.
― Não se preocupe, senhorita Harrison. Seu segredo
está seguro comigo. Eu nunca vou dizer a nenhuma alma que
você deixou Martinsburg à tarde e de alguma forma acabou
em Berryville. ― Então ele adicionou, mais para o vaso de
hibisco do que para ela: ― Meu tio disse que você era uma
bola de fogo.
― Eu não devo impedi-lo de ver seus outros convidados
e, francamente, fiquei cansada dessa conversa. ― Ela torceu o
nariz, inalando e afastou-se.

94
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Mas ele era rápido demais para ela. Alexander


aprisionou-a contra um pilar atrás dela com as palmas das
mãos em ambos os lados de sua cabeça.
― Eu a irritei, senhorita Harrison? Ou talvez eu a tentei
a fazer algo espontâneo?
― Não, sr. Hunt, você não me irritou. Eu gosto que
minhas ações sejam bem pensadas ― ela retrucou, tentando
não respirar seu cheiro inebriante. Matthew não cheirava
diferente do que qualquer outro fazendeiro, não como esta
mistura exótica de bálsamo de barbear e pomada picantes.
Ela escorregou pelo pilar e rezou para que seus joelhos não se
curvassem de ansiedade. ― Este método geralmente funciona
para você? As mulheres normalmente acham esse tipo de
descaramento charmoso?
― Eu diria que mais frequentemente do que não achar.
― Então eu devo ser uma experiência nova para você. ―
Emily abaixou-se debaixo dos seus braços para escapar.
― Espere, por favor, ― ele implorou. ― Deixe-me pelo
menos assinar seu cartão de dança. Você não pode recusar
seu anfitrião.
― Eu não tenho um cartão de dança, senhor. Eu não
pretendo participar da dança.
― Porque devido as suas convicções religiosas Quaker,
você nunca aprendeu?
― Eu não disse isso. A senhorita Turner ensinou-me o
básico, mas eu optei por não participar da frivolidade
ridícula. ― Ela levantou sua saia volumosa, mas ele não seria
desencorajado tão facilmente.

95
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Ele pegou seu braço com um aperto firme, mas suave.


― Minha tia vai ficar desapontada quando descobrir que
você tratou seu anfitrião com uma hostilidade tão
injustificada. Você foi criada por uma matilha de lobos,
senhorita Harrison?
Essa foi a última gota. Emily levantou-se na ponta dos
pés para quase estar no nível dos olhos dele.
― Minha mãe criou-me para ter boas maneiras, não
diferentes de qualquer uma dessas beldades tolas da Virgínia.
― É mesmo? Mas uma senhora iria satisfazer seu
anfitrião em seu pedido simples...
― Tudo bem, vamos dançar. ― Disse Emily com os
dentes cerrados. Tomando seu braço com uma mão enluvada,
ela permitiu-se ser conduzida para a multidão. Uma vez no
salão, no entanto, não conseguiu dançar enquanto ele
tentava guiá-la. Ela encontrou-se tomando passos extras que
os tiravam do ritmo. Era como se suas pernas estivessem
mais curtas ou tivesse crescido um terceiro pé.
Quando ela olhou para seus pés pela quarta vez,
Alexander colocou um dedo sob seu queixo e levantou seu
rosto.
― Você está muito tensa e rígida. Eu sei que você pode
dançar, então permita-se relaxar. Eu prometo não te morder.
― Sua voz era suave e seu sorriso já não zombava.
Emily ficou fascinada por seus profundos olhos
cinzentos, hipnotizada por sua profundidade insondável.
Uma mulher mataria para ser abençoada com cílios como
aqueles. Mas com um maxilar forte, maçãs do rosto salientes

96
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

e um forte nariz aquilino, seu rosto não tinha nenhuma


suavidade. Seus traços tinham uma aparência de falcão,
suavizada apenas por seu cabelo caindo preguiçosamente
sobre sua testa. Matthew daria gargalhadas de suas roupas
afetadas. Tudo o que ele precisa é uma bengala para ser o
perfeito almofadinha.
― Um centavo pelos seus pensamentos, senhorita
Harrison.
― Eu estava apenas... admirando o seu traje, Sr. Hunt.
― Então você deve ter um excelente gosto por moda. Eu
vou a um camiseiro e alfaiate em Winchester que faz minhas
roupas antes de cada temporada. O homem é muito bom,
ficando a par de tudo o que acontece no continente. É preciso
ter cuidado para não se vestir como se ainda estivéssemos na
fronteira, você não acha?
― Oh, eu certamente acho. Com o país envolvido em
uma guerra, não devemos esquecer o estilo. ― Ele girou ao
redor da pista de dança sem esforço. Que tipo de pessoas
eram esses aristocratas? Mas com a distração da conversa
banal pelo menos sua dança melhorara. Sua rigidez e
autoconsciência desapareceram enquanto ele a segurava em
seus braços.
― Diga-me, sr. Hunt. Acredito que Warren County
tornou-se parte da Confederação, não é? Como é que você
não foi recrutado? ― Ou se ofereceu, pairou no ar por dizer,
no entanto, mesmo ela sabia o quão rude seria adicionar.
― Ah, sim, a causa gloriosa. Não pense que meu coração
não anseia lutar com os meus colegas de escola no campo de

97
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

batalha, mas o governo confederado reconhece a importância


da Fazenda Hunt. Nós fornecemos cavalos à cavalaria,
juntamente com um fluxo constante de grãos e capim para
forragem de cavalo. Foi-me dito para enviar um substituto
para o regimento local enquanto eu mantenho as coisas aqui
em casa. Meu pai não tem mais a força que tinha. Com
muitos do nosso povo fugindo... isto foi o mínimo que eu
podia fazer.
E muito mais seguro, eu poderia imaginar. Por que esses
sulistas insistem em chamar escravos de “seu povo”? Como
se suavizar o termo de posse pudesse mudar a natureza
corrupta e abominável da escravidão. Por que ela estaria com
raiva que um homem rico e indolente não se juntou aos
rebeldes traidores para lutar contra tudo o que ela
representava? No entanto, de alguma forma, sua evasão a
incomodava muito. Quando a valsa infinita terminou, ela
afastou-se de seu abraço.
― Obrigada, sr. Hunt.
― O prazer foi meu, senhorita Harrison. Eu lhe garanto.
Ela saiu tão rápido quanto a sua dignidade permitiu.
Ela tinha que se afastar dele... Ela tinha que pensar.

98
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 5

Alexander viu Emily partir apressada. Que enigma ela


era. Obviamente era a mulher que estava se escondendo em
um celeiro em Berryville, a governanta recalcitrante de sua
tia, com quem tinha dançado aquela noite, tinha o mesmo
cabelo vermelho flamejante e salpicos de sardas em seu nariz,
mas naquele vestido ele não tinha certeza de que elas eram a
mesma pessoa até que ela olhou para ele detrás do vaso de
plantas e desencadeou sua língua farpada. A mulher que o
fisgou na ilha de Bennington e depois pulou sobre o curral
perto de Berryville parecia mais uma galinha desnutrida do
que o cisne agradavelmente atraente que tinha agraciado o
salão de baile de seus pais.
Ele estava familiarizado com as mulheres que flertavam
― que encantavam o caminho nos corações e mentes dos
homens exercendo seus poderes femininos. Ultimamente
Alexander não queria ter nada com essas mulheres, porque
não confiava nelas... E porque não podia confiar em si
mesmo. Preferiu ficar longe de rostos bonitos e figuras
impressionantes, de mulheres cujo toque poderia derreter um
iceberg no inverno. Mas essa estranha criatura com seu
cabelo selvagem e pernas longas como um potro não era
99
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

como elas. Sem artifício e nem um pouco de sedução, não


conseguiria encantar um urso com uma colmeia. Forte e
obstinada especialmente em assuntos que não conhecia,
Emily Harrison possuía seu próprio senso de graça.
― Santo Deus ― ele gemeu. ― Se aquele potro magro
parece atraente, eu estive longe das senhoras de Belinda por
muito tempo.
Ele riu, percebendo que essa governanta que vivia na
casa de seu tio poderia ser útil. Seus pais haviam começado a
questioná-lo sobre suas idas e vindas. Eles se perguntavam
por que precisava passar tanto tempo longe da fazenda. A
última coisa que queria era causar preocupação a seus pais.
Se ele cortejasse a Senhorita Empertigada, teria uma
desculpa para estar ausente por dias. Martinsburg e Front
Royal não estavam exatamente ao virar a esquina um do
outro. Porque não havia chance de Miss Emily Harrison
enfeitiçá-lo com seus encantos, esta pequena yankee poderia
vir a calhar, na verdade.

Emily não desacelerou até que saiu da sala lotada de


pavões perfumados e surrados. À porta, um criado idoso
aproximou-se da sua posição designada.
― Posso trazer-lhe um casaco, senhorita?
― Não. Se eu quisesse um, conseguiria eu mesma ―
retrucou, mas lamentou suas palavras no momento em que
saíram de sua boca.
100
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

O pobre homem parecia ter sido esbofeteado.


― Eu imploro seu perdão. Não era isso que eu pretendia
dizer. Quis dizer que não quero ser atendida pelos escravos.
― Sim, senhorita ― disse ele, baixando o olhar para o
chão do vestíbulo. Sua expressão registrou sofrimento e
perplexidade. Emily sentiu vergonha. Ultimamente, não podia
controlar suas palavras ou seu temperamento. Oferecendo
um sorriso fraco, correu pela porta. Uma vez que estava na
varanda expansiva, inalou o ar fresco da noite e começou a
relaxar. Jasmim e madressilva ― dois de seus aromas
favoritos ― flutuavam na brisa. Fechou os olhos e imaginou-
se de volta para casa em Ohio, ouvindo as névoas dos barcos
a vapor que passavam pelo rio. As estirpes de outro rolo
flutuavam através das janelas abertas, mas ela concentrou-se
nas chamadas dos bisbilhoteiros e dos beberrões. Rãs de
árvore e grilos adicionados à sinfonia da noite, ela achou tão
reconfortante.
E precisava de algum conforto. Seu comportamento com
Alexander a deixou longe de calma e relaxada. Como poderia
gostar de dançar depois de ter sido criada como uma
Quaker? Como poderia gostar de estar presa nos braços de
outro homem tão logo após a morte de Mathew? Sem
vergonha, saboreou a atenção que recebeu no belo vestido de
baile, secretamente deliciando-se quando a cabeça de um
homem virou em sua direção. Inquieta e confusa, começou a
andar. Quando alcançou o comprimento da varanda,
descobriu que era larga em torno da casa. Virando a esquina,
procurou paz e sossego nas sombras frescas, longe da

101
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

convivência do salão de baile. Mas aqui a música noturna


não era o tumulto de insetos chamando companheiros ou o
riso tilintante de belas tímidas. Emily ouviu sons claramente
distintos e decididamente irritantes. Inclinou a cabeça para
concentrar sua atenção com cada nervo. Vozes emanando na
direção das cabanas de escravos enceraram e diminuíram.
Alguma alma infeliz estava recebendo uma intimação, disso
estava certa. Ouvindo o discurso verbal, a respiração de
Emily ficou presa em sua garganta enquanto seu estômago se
contraia. Não podia discernir as palavras odiosas, mas o
significado era claro... E muito mais assustador à noite do
que à luz do dia. Suas reflexões anteriores sobre a dança e
vestidos de baile bonitos desapareceram.
Uma lembrança mexeu insidiosamente com sua mente,
de outra noite quente de verão, há muito tempo ― uma
lembrança de homens encorajados pela escuridão e
alimentados pelo álcool. Ela fechou os olhos, tentando forçar
essa noite a voltar para o passado, onde não tinha nenhum
poder sobre ela. Embebida de suor, Emily ouviu alguém
gritar com uma voz clara:
― Vou ensinar-te a não desrespeitar seus superiores.
Ela ofegou, paralisada onde estava por vários
momentos.
― Vou ensinar-te a não desrespeitar seus superiores?
Não ousando respirar, ela esperou inquieta pela próxima
arenga. Mas não veio; não ouviu nada além do bater de seu
próprio coração. Logo os sons de grilos e sapos encheram o

102
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

ar. Dentro, os músicos tocaram os acordes da próxima dança


para os casais jovens e velhos.
Emily exalou um suspiro cansado. Não tinha vindo para
o sul para vestir vestidos de seda extravagantes com sapatos
bordados, ou beber champanhe sob lustres cintilantes, ou
recitar os sonetos de Shakespeare para sua empregadora
enquanto bebia xícaras de chá. E certamente não estava aqui
para ser mantida nos braços de um rico plantador da
Virgínia, não importava o quão bonito ele fosse. De repente, a
brisa ficou fria. Cruzando os braços sobre o peito, Emily
desejou ter aceitado a oferta do mordomo de pegar um casaco
para ela.
― Posso ser útil ― sussurrou. ― E você, Alexander Hunt,
também será útil. ― Emily sorriu.
Pelo menos não há nenhuma chance de eu me
apaixonar por você, sr. Hunt. Você não possui um pingo da
determinação ou convicção de Matthew Norton. Você pode
manter seus belos costumes, roupas caras e graciosas
danças. Eu posso ser tímida como os seus se for necessário,
mas uma vez que eu tenha você na palma da minha mão, vai
ser muito ferido para notar algumas pessoas ao seu redor.

― Bom-dia, senhorita Harrison. ― A voz de Alexander


soou através da porta aberta.
― Está faminta para o café da manhã? Você perdeu o
jantar à meia-noite.
103
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Emily esperara na cozinha até que a sra. Bennington


descesse as escadas, esperando evitar ficar sozinha com ele
naquela manhã. Ela assumiu que qualquer homem que
valesse a pena o seu sal, teria ido para suas preocupações de
negócios ou, pelo menos, para tarefas em torno da fazenda.
Mas deveria ter sabido melhor o que esperar de um
aristocrata preguiçoso para levantar cedo.
― Bom-dia. Não acredito que tenha fome.
― Emily, por favor, junte-se a nós ― convidou a sra.
Bennington da sala de jantar.
― Sim, senhora. ― Emily suspirou quando tentou passar
e Alexander bloqueou seu caminho.
― Você recusou o desjejum comigo, mas concordou com
minha tia? ― perguntou, franzindo a testa
― Eu não posso recusar meu empregador ou minha
anfitriã. Por favor, desculpe-me, sr. Hunt.
Alexander afastou-se e depois a seguiu até a sala de
jantar. Emily não podia acreditar que a sra. Bennington
estivesse acordada tão cedo. Era a mesma mulher que dormia
até às dez horas da manhã, tomava café numa bandeja e
nunca aparecia antes do meio-dia?
― Notei que sua cadeira de rodas ainda permanece na
parte de trás da carruagem. Você está indo bem com seus
dois bastões.
― Verdadeiramente, eu estou. A reunião com minha
irmã favorita fez maravilhas para minha saúde. ― A sra.
Bennington sorriu para a sra. Hunt. ― Eu sou sua única
irmã.

104
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

A sra. Hunt ergueu a xícara de porcelana. Emily olhou


para uma e depois para a outra enquanto seu coração
inchava. Havia um brilho nos olhos verdes da empregadora. A
idade não aparecia no seu rosto de conforto e facilidade de
Hunt Farms. Emily não tinha planejado gostar de Augusta
Bennington, mas não conseguiu evitar.
― O Dr. Bennington ficará satisfeito com sua saúde
melhorada quando voltar ― disse ela, saboreando pêssegos
fatiados em creme pesado.
― Eu não o vi ontem à noite no baile. Ele foi detido no
hospital de campo?
A sra. Hunt sacudiu a cabeça prateada.
― James não conseguiu persuadir Porter a comparecer.
― Homens estão morrendo aqui por falta de cuidado ― disse
ela, imitando a voz de Porter.
― E você quer que eu volte para casa, vista um terno de
pinguim e valse em torno de um salão de baile como se as
coisas fossem normais?
― James ofereceu-se para ajudar até que chegou a hora
de vestir-se para o baile. Porter encontrou muitas tarefas não
médicas para mantê-lo ocupado. ― A sra. Hunt franziu a
língua.
― Mesmo com a ajuda de soldados convalescentes, eles
ainda estão com escassez de pessoal. ― Ela mordiscou um
pedaço de torrada com doçura.
― O Dr. Bennington passou a noite em um campo de
batalha no hospital? ― Perguntou Emily.

105
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Ele dorme por algumas horas em uma cama no canto


da tenda de cirurgia. Ele não comeu corretamente ou dormiu
em uma cama decente em dias. ― A sra. Bennington deu esta
notícia em um sussurro.
― Espero que as baixas logo diminuam.
O Dr. Bennington continuou a confundir Emily. As
pessoas haviam sido mais simples no Vale do Rio Ohio ―
eram boas ou não. Sorvendo o chá, a sra. Bennington
estudou a companheira.
― Vamos mudar de assunto. Meu sobrinho gostaria de
levá-la para um passeio nesta manhã absolutamente linda.
Acho que é uma ideia maravilhosa. Isso daria tempo para
uma conversa com a minha irmã.
Ela pegou a mão da sra. Hunt.
― Terei de ver se tenho tempo. ― Emily não podia olhar
para Alexander, que tinha permanecido estranhamente
silencioso durante a refeição.
Segurando seu copo com ambas as mãos, ela olhou
fixamente em seu café como se os mistérios da vida
estivessem a ponto de serem revelados em suas profundezas.
― Vocês dois encontraram-se no baile ontem à noite,
minha querida?
― Certamente, tia Augusta ― disse Alexander antes que
Emily pudesse responder. ― A senhorita Harrison agraciou-
me com não uma, mas três danças, embora seu cartão de
danças estivesse praticamente cheio quando eu encontrei-a
escondida no hibisco.
Emily levantou a cabeça. Que mentiras flagrantes.

106
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Eu estava observando, não me escondendo ― apenas


curiosa porque os Quakers não assistem aos bailes.
Quando ninguém falou, ela corrigiu seu comentário
irrefletido.
― Imploro seu perdão, eu quis dizer que os Quakers de
Ohio não dançam.
― Sem ofensa ― murmurou, fixando o olhar em seu
filho. Alexander sorriu com um sorriso mais gratificante.
― Agradeço que tenha baixado seus padrões por minha
causa, senhorita Harrison. De que servem as regras se elas
não podem ser quebradas?
As duas irmãs trocaram um olhar.
― Alexander costumava ser um Quaker praticante antes
de cair com a companhia errada durante seus anos de
faculdade.
Os olhos cinza de sua mãe cintilaram com travessura. ―
A Front Royal tem uma pequena Sociedade de Amigos, se
você gostar de assistir às reuniões, senhorita Harrison. Talvez
você possa convencer meu filho a se juntar a você.
Alexander se recostou na cadeira. ― Vou pensar nisso,
mãe, logo depois que a guerra acabar. ― Fixou Emily com
seus olhos acentuados.
― Alexander leva as convicções do pacifismo muito a
sério. ― disse a sra. Bennington.
― É por isso que ele se absteve de juntar-se à
Confederação.

107
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Pacifismo ou medo das balas do inimigo? Respirando


fundo para recuperar o controle de seu temperamento, Emily
concentrou-se em desintegrar um biscoito no prato.
― Você não está se sentindo bem, minha querida? ―
perguntou a sra. Bennington. ― Você mal disse meia dúzia de
palavras e comeu pouco mais do que migalhas de biscoito.
― Sinto-me bem, senhora. Um pouco cansada talvez.
Lembrando-se de seus costumes, ela sacudiu suas
opiniões pessoais. ― Obrigada, sra. Hunt, pelo seu gracioso
convite ao baile na noite passada. E obrigada, sr. Hunt, por
resgatar-me do vaso de planta. Gostei da nossa dança.
― Tenha certeza de que o prazer foi meu – tocando seu
queixo com o guardanapo, ele endireitou-se em sua cadeira.
― O que você diz sobre aquele passeio depois do café da
manhã, senhorita Harrison? Mas devo insistir que você use
roupas de equitação adequadas. Nós não somos a fronteira
selvagem aqui no condado de Warren. Não permitimos que as
senhoras montem seus próprios cavalos e trotem com
anáguas que voam e com flores de renda mostrando a
maneira que fazem em livros de dez centavos.
A sra. Hunt parou de comer e olhou para seu filho como
se ele tivesse enlouquecido.
― Alexander, o que aconteceu com você? Por que você
diria uma coisa dessas ou, na verdade, por que lê tal lixo
quando temos uma biblioteca repleta de clássicos? Pelo que
sei, você não conseguiu encadernar um bom livro em algum
tempo.

108
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Ela não parecia satisfeita com o tópico da conversa do


café da manhã.
― E eu tenho várias roupas de equitação que a senhorita
Harrison pode usar, caso tenha esquecido de trazer as suas.
Ou seja, se ela escolher andar com um homem grosseiro
como você.
Sorrindo para Emily, a sra. Hunt levantou-se da mesa e
ofereceu a seu filho um olhar de desaprovação tácita.
― Eu acredito que montarei esta manhã. Dar-me-á uma
oportunidade de exercitar Miss Kitty. E obrigada novamente
por seu generoso presente, sra. Bennington. ― Emily falou
com seu tom de voz mais gracioso. Ela tinha ouvido
suficientes gracejos ontem à noite para saber como as
senhoras da sociedade falavam.
― Sra. Hunt, obrigada pelo delicioso café da manhã e
pelo empréstimo de roupas de montaria. Eu vou trocar-me.
Levantou-se com toda dignidade que pode reunir e
caminhou para o quarto.
Infelizmente, o som do riso de Alexander a seguiu até a
metade da escada

Emily vestiu-se com um traje de equitação bastante


confortável, botas de couro altas, um chapéu de feltro verde
profundo e luvas de pelica. Antes de sair de seu quarto,
arrancou a ridícula pena que pendia da faixa do chapéu e a
deixou sobre a penteadeira, junto com o chicote de equitação.
109
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Nunca havia batido em um cavalo em sua vida, ela não


estava prestes a começar agora. Lá fora, nos degraus da
frente, viu dois homens descansando na sombra de um
carvalho vivo, cada um segurando as rédeas de um cavalo
selado. Emily caminhou em direção a eles sentindo-se alegre
em suas roupas emprestadas, nunca tendo possuído
qualquer coisa desta qualidade em sua vida. Só as botas
custariam um mês de salário.
― Eu estava começando a pensar que você tinha
mudado de ideia, senhorita Harrison. ― Alexander afastou-se
da árvore e inclinou-se. ― Devo dizer que você está
encantadora com as roupas da minha mãe.
Suas bochechas coraram.
― Você tem de ser tão irritante em um dia tão bonito
como este?
Esfregando o nariz de Miss Kitty, ela virou-se para o
homem alto e musculoso segurando suas rédeas.
― Sou a srta. Emily Harrison. Como vai?
― Muito bem, obrigado, senhora.
Ele tirou o chapéu da cabeça e curvou-se.
― Desculpe meus costumes ― disse Alexander.
― Senhorita Harrison, este é William meu braço direito e
amigo de confiança. William, esta é a companheira da tia
Augusta. A senhorita Harrison veio de Ohio, mas agora reside
na Virgínia, tornando Martinsburg uma cidade muito mais
justa.
― Senhora. ― William assentiu antes de recolocar o
chapéu.

110
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Você é um escravo, sr. Tyler? ― Emily perguntou sem


preâmbulo.
Momentaneamente confuso, William hesitou antes de
responder.
― Não, senhora, sou um homem de cor livre empregado
pelo Sr. Hunt. Mas pensando nisso, faz tanto tempo desde o
meu último aumento de salário que talvez eu devesse verificar
meus documentos para ter certeza de que li a letra miúda.
Os dois homens explodiram em gargalhadas. Emily não
conseguiu ver o humor, mas ela recusou-se a ser atraída
para exibir qualquer ajuste de temperamento.
― Eu posso montar sem ajuda, obrigada.
Ela levantou seu calcanhar no estribo e balançou-se
sem esforço para a sela. Alexander moveu-se atrás dela, para
o caso dela cair em sua parte traseira. Então ele montou seu
garanhão enorme, espirituoso em um movimento fluido e
girou o animal ao redor com o menor dos toques.
― Eu continuo dizendo, William. Assim que você parar
de desembarcar-me na casinha de cachorro falando com a
minha mãe sobre minhas ausências, aí falamos sobre
aumento de salário.
― Vamos embora, senhorita Harrison?
― Eu estou tão pronta quanto o senhor.
Enquanto eles percorriam o passeio de carvalho, ela não
podia deixar de notar que Alexander era uma presença
imponente na sela. Sua jaqueta bem-cortada e camisa de
linho engomada eram bastante conservadoras comparadas
com seu vestuário afetado da última noite.

111
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Você está admirando meu traje de montaria, senhorita


Harrison? ― Perguntou, percebendo sua observação.
― Sim, sr. Hunt. Você parece bem à vontade na sela. E
no que diz respeito à roupa, uma moça do campo como eu
prefere essas ocasiões menos formais.
Apontou um dedo enluvado para o estribo.
― Suas botas certamente receberam muito mais
desgaste do que eu esperaria de um cavalheiro fazendeiro.
― Você está certa. Estão desgastadas até as solas. Em
tempos de guerra poucos artigos de couro estão disponíveis
nas lojas, e eu certamente nunca privaria um cavaleiro
sulista de calçado. Além disso, eu não sou metade do
cavalheiro que você imagina que eu seja, senhorita Harrison.
Quando a caverna de Hunt Farms se alinhou com o pico
do condado, ele estimulou seu cavalo e correu a galope, sem
olhar para trás nenhuma vez. Alexander e seu garanhão logo
desapareceram de vista ao redor da curva.
Que grosseria! Mas Emily não perdeu o fôlego em
recriminações sem uma audiência. Pressionou o calcanhar
contra o flanco de Miss Kitty, e a égua saltou pelo caminho de
terra. No lado esquerdo, Emily não conseguia segurar as
coxas como o pai a ensinara tantos verões atrás. Curvou-se
na sela, agarrando as rédeas e agarrando-se firmemente ao
pescoço sedoso do animal. O calor irradiava da pele da besta
enquanto galopavam através de um campo aberto em busca
do garanhão. Macieiras esparsas e escarpadas indicavam que
esse havia sido um pomar, embora agora estivesse muito
além dos seus dias produtivos. Embora ela estivesse

112
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

galopando dependurada em Miss Kitty, Emily não fez


qualquer tentativa de retardar o seu cavalo. Era maravilhoso
ter o vento em seu rosto e seus cabelos fluindo atrás dela. O
chique chapéu Fedora da sra. Hunt batia contra suas costas,
com apenas as fitas atadas impedindo que se perdesse para
sempre. Emily prendeu a respiração quando Miss Kitty saltou
troncos caídos e riachos rasos. Seu estômago chegou uma ou
duas vezes em sua garganta, mas depois de um tempo ela
abandonou-se ao delicioso sabor da liberdade. Sem fôlego e
ruborizada, Emily e Miss Kitty finalmente alcançaram os dois
machos enquanto eles diminuíam o passo para uma
caminhada.
― Muito bem, senhorita Harrison. Phantom deu o seu
melhor para despistá-la, mas aparentemente nós já
conhecemos nossa partida.
Alexander escorregou de sua montaria e agarrou o freio
de Miss Kitty enquanto ela perambulava inquieta debaixo de
um cedro sombreado.
― Miss Kitty tem uma marcha suave e é muito sensível,
até mesmo a um cavaleiro desconhecido. Mas por que você
estendeu um convite se não queria andar comigo?
Ela bateu no pescoço do cavalo e mostrou uma
expressão ferida.
― Venha, minha pequena yankee, eu estava brincando.
Claro que eu queria andar com você.
Ofereceu a mão para Emily, que ignorou e deslizou sem
esforço para o chão.
― Mais uma vez, eu não acho seu humor divertido.

113
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Localizando um pequeno riacho sob um pique de


pinheiros, ela dirigiu-se nessa direção. Alexander amarrou
suas montarias em um galho baixo e rapidamente
aproximou-se dela.
― Não teve nenhum irmão malandro para provocar você
enquanto crescia?
Ele segurou o cotovelo de sua jaqueta.
― Por favor, não se aborreça comigo. Se fizer beicinho,
eu não vou compartilhar o lanche que eu trouxe.
Ele dançou ao redor como um estudante tentando
ganhar o favor com um bom tratamento.
Emily acomodou-se com recato em um tronco caído na
sombra.
― Não estou com fome, sr. Hunt.
Ela enxugou uma pequena gota de suor do lábio.
― Então você não precisa se preocupar com o fato de
compartilhar ou não o seu almoço. ― Sua voz era melódica e
refinada, embora por dentro ela desejasse poder apagar o
olhar presunçoso de seu rosto.
― E eu asseguro, não sou sua pequena yankee ou
qualquer outra coisa.
Alexander sentou-se na margem do rio e esticou as
longas pernas sobre a borda.
― Perdoe-me, senhorita Harrison. Minha mãe estava
certa no café da manhã ― eu sou um completo bronco,
incapaz de passar uma tarde com almas gentis. Minha avó
descreveu-me uma vez como "uma mula na armadura do
cavalo”.

114
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Parece que sua avó foi uma juíza astuta de caráter.


Seu riso enviou um bando de pássaros para um local
mais tranquilo.
― Ela era. Ainda sinto falta dela. ― Ele olhou para ela
por cima do ombro. ― Se você me der outra chance, eu
tentarei mudar.
Levantando-se, ele caminhou para ela com confiança
exasperante, arrancando um botão-de-ouro ao longo do
caminho.
― O que você diz? ― Ele ofereceu-o como um sinal de
paz. Emily olhou para a flor e depois para o homem.
― Vou te dar o resto da tarde.
Perto como eles estavam agora, ela o achava mais bonito
do que nunca. Verdade, seu nariz era muito proeminente e
seu queixo um pouco severo, no entanto seus olhos eram
fascinantes e seu sorriso iluminava seu rosto. Naturalmente,
as pessoas com abundância de riqueza tinham muito mais
motivos para sorrir. Ela aceitou a flor e cheirou-a.
― Eu não sei por que as pessoas cheiram flores
silvestres. Elas quase nunca têm muito cheiro. ― Emily jogou
o botão-de-ouro na grama alta.
― É uma reação natural. ― Ele abaixou-se até seu
tronco.
― Nós antecipamos uma fragrância doce, apesar de
nossas decepções anteriores.
De repente, parecia que o ar estava mais quente e
saturado sob o sombreado dos cedros e pinheiros.

115
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Diga-me como sua pele ficou tão bronzeada. ― Ela


perguntou, desesperada por uma conversa amena. ― Eu não
pensaria que você tivesse tantas tarefas ao ar livre em Hunt
Farms.
Ele aproximou-se mais.
― Você ficaria surpresa de quanto trabalho eu faço em
um dia todo.
De repente, ele segurou seu queixo.
― O que você tem em mente? ― Ela perguntou enquanto
sua respiração estava presa em sua garganta.
― Só isso. ― Alexander inclinou-se e beijou-a. Sem pedir
licença. Arrepios subiram pela sua espinha. Suas pernas
ficaram entorpecidas, suas mãos ficaram úmidas e seu
estômago virou uma cambalhota ― tudo uma reação de um
pequeno beijo. Ela poderia ter caído do tronco se ele não
estivesse segurando o rosto dela.
― O que você está fazendo?
― Estou beijando você, senhorita Harrison.
Seus lábios flutuaram a uma polegada de distância. O
espaço entre eles encheu-se de energia suficiente para mover
pedregulhos.
― Foi por isso que me trouxe aqui? Para me pegar
desprevenida e roubar um beijo?
― Não um beijo. Eu pretendo roubar vários.
Sua última palavra ficou abafada quando seus lábios
pressionaram os dela com intensidade.
Seu estômago tomou uma segunda queda até que ela
colocou uma mão em seu peito e o empurrou. Quando

116
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

levantou a cabeça, disse: ― Pare! É sua melhor tentativa de


comportamento civilizado?
Ela virou-se e endireitou a saia de uma maneira digna.
― Desculpe, senhorita Harrison, mas é o seu efeito em
mim. Você tem minhas desculpas sinceras.
Ele levantou-se, curvou-se, e então dirigiu-se para os
cavalos. Por um curto tempo Emily temeu que ele montasse
seu garanhão e a deixasse sozinha no banco do córrego. Ela
esperou, tentando não prender a respiração, enquanto ele
procurava em seus alforjes. Ele voltou carregando um saco de
pano.
― Eu prometi compartilhar o almoço e eu devo manter
minha palavra. Ou seja, se você me perdoou.
Ele abriu um pano xadrez, espalhou-o sobre a grama, e
então caiu de joelhos.
― Há coisas novas para perdoar a cada momento. Mas
sim, principalmente porque o meu apetite voltou.
― Eu tomarei qualquer graça que você possa estender.
Ele deitou fatias de queijo e presunto em um
guardanapo de linho, juntamente com um cacho de uvas e
um ovo em conserva para cada um deles. Puxando a rolha de
um frasco, Alexander ofereceu-lhe uma bebida.
― Não, obrigada. Eu não tomo bebidas alcoólicas.
Ele riu e tomou um longo gole.
― Não preocupe sua linda cabeça. Isto é apenas chá
sassafrás. Sua virtude está salva pelo resto da tarde.
Inclinando-se contra o tronco de uma árvore, ele comeu
uma fatia de queijo e presunto, os beijos que haviam

117
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

compartilhado estavam aparentemente esquecidos. Emily não


foi tão afortunada. O pedaço de queijo que ela engoliu ficou
preso em sua garganta seca.
― Posso beber isso, por favor? ― Pegou o frasco e bebeu
metade do seu conteúdo para lavar o queijo. Depois disso,
limitou-se ao ovo e às uvas porque engasgos não seriam
apropriados após um beijo. Seu primeiro desde a morte de
Matthew. Os beijos de Alexander não eram nada parecidos
com os poucos beijos desajeitados e embaraçosos que tinha
compartilhado com Matthew durante seu breve namoro.
Surpreendentemente, não sentia culpa ou remorso. Afinal,
isso era negócio. Bebeu mais chá e limpou a garganta.
― Obrigada pelo almoço. Estou feliz que você decidiu
compartilhar comigo.
― Você é bem-vinda ― Ele recostou-se em um cotovelo.
― Diga-me como você aprendeu a montar assim. Seu assento
é superior a qualquer mulher que eu conheço.
Emily considerou a resposta. ― Meu pai me ensinou. Ele
arranjou uma égua nova para que ela fosse gentil, e então ele
a deu para mim no meu quinto aniversário. Eu andei em pelo
até que meu pai pudesse ter recursos para um sela usada,
naturalmente, não de lado. As meninas não eram
mariquinhas onde eu cresci. Eventualmente, eu poderia bater
quase todos na cidade, meninos incluídos, eu poderia
acrescentar.
― Espantoso. Posso imaginá-la correndo pelos prados
com suas tranças voando.

118
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Sim, bem, esses dias se foram. Todos nós crescemos e


devemos colocar a infância atrás de nós. ― Emily levantou-se.
― Vamos continuar a nossa visita à propriedade, senhor? Em
um ritmo mais lento, se você não se importar.
Assombro registrou em seu rosto.
― Claro, mas estou surpreso que você ainda queira estar
em minha companhia depois dos meus avanços indesejados.
Ele varreu os restos de seu almoço de volta para o saco.
Seu tom era exasperantemente difícil de decifrar.
― Deveria ter dado um tapa no seu rosto com
indignação? É esse o comportamento feminino que você
antecipou? ― Emily escondeu suas mãos trêmulas atrás de
suas costas no caminho para Miss Kitty.
― Eu não consigo antecipar uma única coisa ao seu
lado. ― Ele segurou seu braço quando ela montou.
― Foi apenas um beijo, sr. Hunt. Não o meu primeiro e
certamente não o meu último. Mas vou pedir-lhe para abster-
se de futuros gestos ousados até estar certo que o afeto é
mútuo. ― Ela puxou rédeas e galopou, tentando ignorar o
efeito que seu toque tinha nela.
Para a tarde restante, eles cavalgaram a um ritmo
vagaroso. Ele apontou pastagens que continham a espécie de
cavalo mais bonita que Emily já tinha visto em sua vida. Além
da linhagem Thoroughbred, Hunt Farms possuía Árabes,
Standardbreds e Narragansett Pacers, além dos cavalos de
projeção necessários e Tennessees caminhantes para a
agricultura. Campos de feno, aveia e erva doce cobriam as
colinas e os vales, tanto quanto os olhos podiam ver. Atrás da

119
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

mansão, ele apresentou uma horta que a deixou sem fôlego.


Alguns vegetais que Emily conhecia e, muitos que ela nunca
tinha ouvido falar cresciam em linhas arrumadas, cercados
por cercas de malha para manter fora os coelhos. Não havia
uma erva daninha ou um inseto a ser encontrado. Ao redor
do outro lado da casa, ela descobriu um extenso jardim de
flores.
― Eu me perguntava de onde vinham todas as belas
flores. Não acho que estive em um quarto em que não tivesse
pelo menos um buquê perfumado.
Ela levantou-se nos estribos para ver centenas de rosas,
dálias gigantes, margaridas e árvores cheias de trepadeiras.
― Sr. Hunt. Pode-se fazer maravilhas em uma plantação
com uma enorme força de trabalho escravo. ― Disse,
rancorosa, lembrando-se de sua própria tentativa de
horticultura.
Alexander olhou para ela. Seus olhos cinzentos
magnéticos tornaram-se gelados.
― Tenho certeza de que é assim que parece, senhorita
Harrison. ― Ele falou com uma voz amarga. ― Mas metade de
nossos trabalhadores são livres e permanecem aqui por sua
própria escolha.
― Por que só metade? Por que não conceder a liberdade
para o resto? ― Emily mudou-se para o lado incômoda.
― Minha mãe e eu gostaríamos que fosse assim tão
simples. ― Ele se concentrou nas Montanhas Shenandoah à
distância. ― Meu pai herdou tudo que você vê de seu pai e
assim por diante, de volta a uma concessão original da terra

120
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

do rei Charles. Meu pai tem a honra da família Hunt a


defender, bem como as responsabilidades da propriedade.
Esta é a sua cultura ― a forma como ele foi criado ― da
mesma forma como você é um produto dos valores de seus
pais.
― Os valores dos meus pais nunca poderiam incluir
manter as pessoas em cativeiro.
― Nem para a minha mãe, aliás ― Alexander encontrou
o olho dela ― não podemos mudar a mente do meu pai da
noite para o dia, mas ele instituiu o plano do tio Porter
segundo o qual os escravos podem ganhar dinheiro para
comprar sua liberdade. É por isso que metade dos nossos
trabalhadores é livre. Também ensinamos nossos escravos a
ler para prepará-los para o futuro ― uma prática ilegal na
Virgínia .
― Por que os homens deveriam comprar algo que deveria
ser seu direito de primogenitura de Deus? ― A voz de Emily
elevou um nível.
Alexander ergueu o queixo e revirou os olhos. ― Eu
deveria ter sabido que você não faria nenhuma tentativa de
entender. Os ianques veem as coisas apenas de uma maneira
― à sua maneira. Vamos mudar de assunto, vamos? Basta
dizer que as coisas não são tão simples como a sua mente
pequena e estreita gostaria que fossem.
― Minha... pequena... estreita... mente? ― Ela repetiu
suas palavras enquanto seu rosto corava numa sombra
escarlate. Ele me acha densa e ignorante? Chutando o flanco
de Miss Kitty, Emily saiu em direção aos celeiros enquanto

121
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

seus olhos se encheram de lágrimas. Não parou até chegar ao


interior fresco do estábulo. Deslizando das costas do cavalo,
amarrou sua égua e arrastou a sela infernal de suas costas.
― Deixe-me escovar seu cavalo, senhorita. ― William
apareceu ao seu lado carregando um freio de couro caro com
fivelas de prata e guarnição de cabeça de prego.
― Não, obrigada, sr. Tyler. Estou acostumada a fazer
minhas próprias tarefas. Se pudesse me emprestar uma de
suas escovas, eu ficaria muito agradecida. ― Deu um tapinha
no flanco suado de seu cavalo.
O olhar de William examinou suas roupas de equitação
― ou melhor, aquelas pertencentes à sra. Hunt. Sua
expressão mudou para uma de mortificação quando ele
enganchou o arreio em um prego na parede do estábulo.
― As senhoras não fazem tarefas de celeiro em Hunt
Farms. Se alguém te visse, eu poderia perder meu emprego.
Exalando lentamente, Emily contemplou suas opções e
não encontrou nenhuma.
― Obrigada, William. Eu estou em dívida com você. ―
Recuou até que tropeçou sobre a sela que descartara
descaradamente. Ela bambeou desajeitadamente antes de
recuperar seu equilíbrio, e então saiu do celeiro antes de
Alexander entrar. Pelo menos o Senhor concedeu-lhe aquela
pequena bênção.
Uma vez que estava dentro dos limites privados de seu
quarto, Emily andou pelo chão tentando entender a tarde
dela. Por mais que tentasse, não podia negar que desfrutara
de seus beijos. Afinal, era uma mulher adulta e não uma

122
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

criança. Era normal ficar lisonjeada pelas atenções de um


homem, especialmente um homem atraente como Alexander
Hunt. Apesar de sua arrogância, achou atraente seu humor e
autoconfiança. Aparentemente, não estava mais imune aos
seus traços patrícios e ao seu poder viril do que as belas da
Virgínia. Emily tentou sentir culpa por sua ousadia, mas não
conseguiu. Matthew ficara confuso em sua mente. Ele era
uma memória agridoce, sua perda não mais provocando a dor
que uma vez sentiu.
Alexander forneceu uma entrada inestimável em seu
mundo. Se ele fosse seu namorado, ninguém a interrogaria.
Um pequeno namorico com o filho do senhor abriria portas
que nem mesmo seu relacionamento com os Bennington
poderia. E não teria medo de apaixonar-se como tinha feito
com Matthew. Como poderia respeitar um homem que tinha
pago alguém para tomar seu lugar no campo de batalha para
que pudesse ficar longe dos horrores da guerra? E sem
respeito, nunca poderia haver amor.
― Eu vou ensinar-te a dar o seu melhor. ― Cada vez que
se lembrava dessas palavras, era estimulada para a ação de
novo. Ajustaria sua mente pequena, estreita, Quaker em um
objetivo : convencer cada escravo que encontrasse a dar o
primeiro passo para a estrada da liberdade.

123
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 6

Alexander teria adorado engolir suas palavras no


momento em que as falou. Seu comentário desdenhoso tinha
rastejado sob sua pele e se instalado em seu estômago. Ela
tinha provocado. Mas perder a paciência com uma professora
abolicionista era a última coisa que queria ― especialmente
porque concordava com ela na maior parte das vezes. Como
ela poderia entender que seu pai, tão gentil e generoso como
qualquer homem, veio de outra era? E francamente, ele
estava cansado de yankees julgando. Será que eles pensavam
que Deus tinha reservado Sua Graça exclusivamente para
eles? Vira moradias de apartamentos e moradias de empresas
no Norte. A liberdade pode ficar muito fria durante o inverno.
Caindo em uma cadeira, Alexander decidiu não segui-la.
O que ele poderia dizer para desfazer o dano? É melhor dar à
mulher uma grande distância pelo resto do dia... e talvez pelo
resto da sua visita. Mas algo o advertiu que seria difícil de
fazer. Ele tinha visto suas lágrimas enquanto ela cavalgava,
evidência de que tinha ferido seus sentimentos. O que
aconteceu com a agitadora atrevida?
Emily Harrison não era como as outras mulheres que
conhecia. As senhoras no baile de ontem à noite eram
124
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

criaturas adoráveis, mas faziam jogos recatados para mover


pobres tolos ao redor como partes de um tabuleiro de xadrez.
As mulheres que conhecia simplesmente murmuravam:
"Meus Deus, está quente aqui dentro", se seus trajes
estivessem em chamas. Seus corações não continham uma
emoção genuína. Emily não possuía nem suas astúcias, nem
seus artifícios. Esta tarde, com as bochechas avermelhadas
pelo vento e os cabelos enrolados pelas costas, ela ainda
estava linda. Ao contrário de outras senhoras, Emily não se
preocupava indefinidamente sobre sua aparência. Que
pensamentos atravessavam sua mente de dia e o que ela
sonhava à noite? Alguma vez ela desejava ser mantida no
escuro? Alexander afastou esses pensamentos de sua mente.
A senhorita Harrison fora gentilmente educada, mesmo que
estivesse em uma cidade fronteiriça do Rio Ohio. Durante a
viagem, foi longe demais e ofendeu-a. Aparentemente, ele
passou muito tempo na sela com seus guardas e já não era
apto para companhia educada.
Sentindo-se inferior a um cão ladino, Alexander não
conseguia dormir naquela noite. Depois de jogar e virar em
seu quarto quente, finalmente rolou para fora da cama,
vestiu as calças, e caminhou no quarto sem ar para o bem-
vindo frio da varanda.
― Mulheres ― murmurou. ― Confusas. ― No entanto, ele
não conseguiu bloquear a memória de sua desagradável
despedida. Por que dois beijos na margem do rio criaram
tanto tormento? Ele tinha roubado mais do que beijos de
belas mulheres dispostas no passado. As damas de seu

125
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

círculo social esperavam certas liberdades e não sofreu dores


de culpa no dia seguinte. E as mulheres de Middleburg,
embora certamente não senhoras, gostavam de compartilhar
seus encantos com ele. Uma ou duas vezes, elas até
recusaram sua moeda. Mas hoje tinha sido diferente. Emily
reagiu como uma estudante de olhos arregalados. Tia
Augusta contara trechos de sua história passada. Quão bem
conhecera seu infeliz noivo antes dele morrer na batalha?
Será que seus pais tinham arranjado um compromisso entre
dois estranhos ― pessoas que só haviam compartilhado
olhares tímidos sobre um banco de igreja nos domingos de
manhã? Sua vida em Ohio deve ter sido difícil depois que
seus pais foram mortos. Por que o misterioso prometido não
se casara com ela antes de alistar-se no exército de Lincoln?
Emily era alegre, paciente enquanto cuidava de sua tia.
Tia Augusta falava da inteligência da jovem, mas, em sua
presença evitava olhá-lo e corava profusamente. Embora ela
se vestisse como uma colega de escola, Alexander suspeitava
que iria tirar seus sapatos de botão alto e correr descalça
através do prado, se ninguém estivesse por perto.
O sono agora seria mais evasivo do que nunca. Como
era inútil voltar para a cama, tomou as escadas para o jardim
para um passeio solitário. No entanto, mesmo as flores
lembraram-no de Emily. Passando sob sua janela escurecida,
jurou que cheirava verbena de limão flutuando no ar. À
medida que os primeiros raios da madrugada coloriram o
horizonte, transformou seus pensamentos em coisas mais
preocupantes. Tinha ouvido como ela havia questionando

126
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Beatrice e as criadas sobre sua vida em Hunt Farms. Ele a


ouvira perguntar à mãe sobre o passado religioso de seus
vizinhos. Por que ficara tão curiosa sobre a vida em uma
plantação ― a mesma coisa que ela tinha mostrado desprezo?
Dirigindo-se para os celeiros dos cavalos, Alexander
estava determinado a trabalhar fora de seu fascínio por uma
mulher tão evidentemente errada para ele. Emily era uma
Quaker teimosa, uma yankee que se julgava superior aos
sulistas dissipados. E isso nunca mudaria, não importava o
que ele dissesse ou fizesse.

Tendo dormido como um bebê, Emily despertou para


um novo dia sentindo-se revigorada. Seu aborrecimento com
Alexander tinha diminuído e então extinguido
completamente. Afinal, provavelmente era estreito de espírito,
mas absolutamente recusou-se a considerar o outro lado da
questão da escravidão.
Tinha perdido o jantar ontem à noite devido a uma dor
de cabeça fingida. Lila estava preocupada e encheu Emily
com perguntas.
― Por que você está tão chateada com o sr. Hunt? Sobre
o que vocês dois discutiram?
A jovem empregada converteu-se em sua primeira amiga
verdadeira. No entanto, Emily não podia explicar do que eles
discordavam. Ela esperava que pudessem superar os
comentários de ontem. Ela não poderia colocar Alexander
127
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

para um bom uso se seu romance fracassasse devido ao seu


temperamento quente.
Esta manhã, Emily vestiu-se rapidamente e depois
desceu correndo as escadas para chegar primeiro à sala de
jantar. Foi o que ela pensou.
Alexander estava de pé bebendo café pelas altas janelas.
― Bom-dia, senhorita Harrison. Eu mesmo colhi. ― Ele
estendeu um enorme buquê de lírios e laurel da montanha. ―
Eles crescem selvagens pelo campo. Por favor, perdoe a
minha irreflexão ontem. Se alguém pode ser pequeno de
espírito, sou eu.
― Não vamos mais falar sobre a nossa discussão. A sra.
Bennington provavelmente demitiria-me se soubesse como
comportei-me com você. ― Ela aceitou o buquê com um
sorriso. ― São lindos, sr. Hunt. Obrigada.
Servindo-se uma xícara de café, Emily lembrou-se do
conselho de sua avó: espalhe o mel em espessura, e depois
observe as abelhas em torno de você.
― Meus lábios estão selados, e você é bem-vinda. ― Ele
sentou-se e tomou seu café.
Colocando as flores no aparador para serem postas na
água mais tarde, ela sentou-se no lado oposto da mesa.
― Sua fazenda é linda. Eu queria falar isso ontem. É
uma homenagem ao trabalho duro e ao seu amor pela terra.
Ele acenou gentilmente. ― Fale-me de sua casa,
senhorita Harrison. Eu vi Ohio apenas nas margens da Ilha
de Bennington.

128
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Um vale fértil parece o mesmo em ambos os lados de


um rio. ― Ela cuidadosamente evitou a diferença essencial
entre os dois Estados.
― Meu pai cultivava cinquenta acres fora de Marietta,
plantados principalmente com milho e feno. Nós possuíamos
quatro vacas, uma dúzia de galinhas, dois cavalos e um par
de cabras, mas eu nunca descobri por quê ― ela sorriu para a
memória ― o macho era o mais ousado, e nossa fêmea nunca
produziu uma gota de leite.
― Conte-me sobre sua mãe ― ele inclinou-se para trás
da mesa.
― Minha mãe criou um enorme jardim e teve um
pequeno pomar. Ela colocou as melhores conservas de
pêssego no município, com fitas azuis da feira para provar
isso. Ela tomou o primeiro lugar na competição de torta de
maçã muitas vezes .
― Qual era o seu segredo? ― Alexander observou-a sob
as sobrancelhas abaixadas.
Emily olhou ao redor como se estivesse procurando por
intrusos.
― Ela pegava as maçãs um pouco mais cedo e depois as
adoçava com mel. Elas permaneciam firmes em vez de moles
como os de sua concorrência. Espero que você mantenha
esse segredo sob seu chapéu ― sussurrou.
― Eu prometo. ― Ele solenemente desenhou um X sobre
seu coração. ― Você compartilha a alegria de sua mãe na
cozinha?

129
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Receio que não. Eu não herdei uma fração de suas


habilidades. Uma vez eu assei um ganso, ficou carbonizado.
Infelizmente, irreconhecível.
― Você é jovem. Ainda há tempo para aprender. Admiro
a sua alta consideração pela sua mãe. Nenhuma mulher do
sul jamais admitiria habilidades domésticas inferiores,
mesmo que provavelmente possuam muito menos do que
você.
― Não vejo motivo para engano. Nós somos o que somos.
Você não concorda, sr. Hunt?
― Inquestionavelmente. ― Ele bebeu de sua xícara e
levantou a jarra para enchê-la de novo. ― Parece que você
teve uma infância feliz em Ohio.
Era uma declaração, não uma pergunta, mas Emily
sentiu-se obrigada a confirmar.
― Sim, eu gostei da minha infância. Eu subi em árvores,
esfolei meus joelhos, e montei meu cavalo sem rumo pelo
bosque. Minha mãe e eu colhemos amoras em julho, mas eu
comia mais da cesta do que num pedaço de uma torta. Meu
pai me ensinou a nadar no rio e como pular pedras.
Acenamos para os barcos de passagem e inventamos
histórias sobre viagens a lugares como St. Louis, Memphis ou
Nova Orleans.
― E o que você faria, Emily, se você visitasse um desses
lugares agora? ― Alexander pegou ovos fritos e bacon
crocante do prato oferecido por Nathaniel.

130
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Ela olhou-o, comendo uma pequena porção de comida.


Ontem, beijos roubados, e agora ele usou seu nome sem
permissão.
― O que eu faria? Primeiro, eu iria para uma loja onde
os vestidos já são feitos e experimentaria cada um. Estou
cansada de olhar para padrões e profusão de tecidos,
tentando imaginar como um vestido pode parecer. Em
seguida, eu ia sentar-me em um restaurante fino e pedir cada
prato que eu nunca ouvi falar. Então eu andaria por uma rua
de lindas casas e olharia pelas janelas para ver como eles
vivem.
Emily sentiu um rubor rastejar até seu pescoço. Deixou
o garfo para esconder as mãos trêmulas.
― Você olha para as janelas das pessoas?
― Isso é o que eu faço em Martinsburg sempre que vou
dar uma volta.
Ela fechou a boca, não sabendo por que tinha acabado
de mostrar sua alma a um filho da riqueza e do privilégio.
― Por quê? ― Ele parecia verdadeiramente perplexo.
― Eu não estou espionando eles. Eu gosto de ver a cor
de suas cortinas, que retratos penduram nas paredes ou que
mobiliário possuem.
Ela comeu os ovos com queijo derretido e tomates,
esperando ele rir.
Mas ele não o fez.
― Tenha certeza, essas pessoas não são mais felizes com
suas finas posses do que foi sua família. Eles só têm mais

131
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

poeira. ― Ele observou-a por cima da borda de sua xícara. ―


O que aconteceu com seus pais, Emily?
Embora estivesse gostando da refeição, colocou o garfo e
a faca no prato.
― Eles foram mortos em um acidente. Meu pai
costumava correr com seu cavalo pela estrada ao longo do
rio. Foi a única coisa imprudente que ele já fez. Um dia o eixo
quebrou e seu carrinho perdeu uma roda. Meus pais foram
jogados para a morte a poucos quilômetros de casa. ― Seus
olhos encheram-se de lágrimas, mas ela recusou-se a chorar.
― A fazenda tinha uma hipoteca, eu não tinha escolha, a não
ser vendê-la e procurar emprego. Os Bennington eram a
única família na área que podia pagar. ― Ela se recostou na
cadeira de damasco. ― Agora você conhece toda a triste
história da minha vida sem intercorrências. ― Seu tom
assumiu uma defensiva injustificada.
― Lúgubre, sim, mas não incomum. A morte nos
envolve. Ela permeia nossas vidas insidiosamente, forçando-
nos a tomar decisões e fazer coisas que normalmente não
faríamos. Você fez bem para si mesma desde a morte de seus
pais. Tenho certeza que eles estariam orgulhosos de você. –
Acabando seu café, Alexander jogou seu guardanapo no
prato.
― Como a morte permeou sua vida? ― Perguntou ela,
surpresa com sua declaração. Não era este o homem cuja
vida permaneceu inalterada enquanto a guerra corria toda
em torno dele? ― Que decisões lamentáveis você tomou?

132
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Não disse que lamentasse nada. ― Ele levantou-se e


empurrou a cadeira para trás. ― Vamos para a cidade, não é?
Aparentemente, o resto da família não estava com fome esta
manhã.
― Você esquece, sr. Hunt, que eu sou uma empregada
paga da sra. Bennington. Eu não compartilho com você a
liberdade de passar o dia como eu queira.
Levantando-se da mesa, ela sacudiu os vincos de sua
saia.
― Se você me desculpar, eu vou ver sua tia.
― Como quiser. ― Alexander se curvou profundamente
quando ela saiu.
Emily encontrou a sra. Bennington na varanda do lado
de fora do quarto. Uma bandeja com pratos vazios indicava
que nada estava errado com seu apetite.
― Bom-dia senhora. Como está se sentindo hoje?
― Estou me sentindo bem, querida, nunca estive
melhor. Eu estou pegando minha correspondência com as
meninas. ― A sra. Bennington sorriu de sua cadeira. ―
Rebecca e eu ouvimos que você e Alexander tiveram uma
rusga. Pensamos que seria melhor se déssemos tempo para
vocês consertarem as coisas.
Parecia conspiratória.
Os olhos de Emily tornaram-se redondos como pires.
― Nós não tivemos uma rusga, Mrs. Bennington, apenas
uma diferença de opinião. Espero não ter ultrapassado meus
limites discutindo com meu anfitrião. Você tem minhas

133
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

sinceras desculpas, senhora. Espero que estenda meus


arrependimentos à sra. Hunt.
― Absurdo. Nenhuma desculpa é necessária. Alexander
pode ser teimoso como uma mula e muito acostumado a
seguir o seu próprio caminho. As belas do vale de
Shenandoah não discordariam dele mesmo se dissesse que a
Terra era quadrada e Cristóvão Colombo era um louco.
― Você acha que ele prefere as mulheres que se
comportam assim? ― Emily perguntou com uma voz tímida.
A sra. Bennington refletiu um momento. ― Eu não sei.
Eu suspeito que é tudo o que ele já experimentou. Os homens
raramente dão às opiniões das mulheres muita importância,
a menos que sejam forçados a isso. É assim que acontece
com Porter, ou pelo menos como costumava ser ―
acrescentou com uma piscadela.
― Você e meu sobrinho brigam porque vocês dois são
iguais, teimosos, obstinados e opressivos. Mas você poderia
acalmá-lo e dar-lhe direção.
Emily olhou-a. ― Duvido que eu pudesse dar-lhe algo
além de indigestão. ― Mas por um momento imaginou estar
casada com ele. Em sua visão de sonho, ela estava segura no
braço dele, acarinhada e protegida, enquanto ele sussurrava
carícias incessantes em seu ouvido
― Falando em Porter ― disse a sra. Bennington, tirando
Emily de seu devaneio. ― Tenho um favor a pedir-lhe e a
Alexander. ― A expectativa brilhava em seus olhos verdes.
― Que tipo de favor? ― Emily ficou tensa, com uma
crescente sensação de desgraça.

134
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Porter não está em casa há dias. James disse que o


trabalho no hospital não está diminuindo. As baixas no
campo de batalha continuam a subir, enquanto a doença
contagiosa se espalha através das tropas. Ele já deve estar
sem roupas limpas. ― Ela endireitou-se na espreguiçadeira. ―
Eu gostaria que vocês dois fossem para o Front Royal com
roupas e comida preparada por Beatrice, além de uma caixa
de suprimentos médicos que chegaram de Alexandria. Eu não
tenho ideia do que Porter tem comido. Mas conhecendo ele, é
provavelmente a mesma sopa fina e biscoitos duros como os
soldados.
O pavor de Emily solidificou-se em um nó no estômago.
Ela não tinha nenhum desejo de passar mais tempo com
Alexander do que o necessário. Estavam se instalando ideias
que não tinham lugar na mente de uma mulher Quaker.
― Não poderia Alex, quer dizer, o sr. Hunt viajar
sozinho? Sinto que a negligenciei desde a nossa chegada, sra.
Bennington. Talvez pudéssemos ler esta tarde após o chá.
― Absurdo. Além disso, Alexander poderia perder o
caminho. Eu duvido que ele deixe Hunt Farms com muita
frequência. Eu sentiria-me melhor se você o acompanhasse.
Em seguida, você também pode fornecer uma descrição mais
precisa das condições hospitalares. Os relatórios do meu
cunhado destinam-se a poupar-me de preocupações com
Porter. Por favor, Emily?
Claro, ela não tinha escolha. Dentro de uma hora
colocou-se na roupa mais velha de viagem com a capa mais
simplória que possuía. Não havia nenhuma razão para usar

135
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

um bom vestido quando estaria saltando sobre estradas


ásperas.
Matilde e Beatrice estiveram ocupadas cozinhando e
assando toda a manhã uma variedade de alimentos nutritivos
para o hospital. Emily e Lila carregavam o cesto depois de
deixarem o carrinho junto com sacos de ataduras e caixas de
remédios embrulhados em marrom. Quando chegaram com
sua carga final, encontraram Alexander que enganchava dois
Percherons à carroça. Emily olhou para ele com interesse.
Suas calças estavam enfiadas dentro de botas altas e seu
casaco esquecido. O suor tornara sua camisa quase
transparente, o linho úmido esboçando cada músculo de
suas costas e ombros.
Infelizmente, Lila testemunhou sua observação.
― Dê-me aquela cesta antes de deixá-la cair na lama. ―
Ela sibilou no ouvido de Emily. ― Você é tão sutil quanto um
touro novo em um pasto de março.
Emily escondeu-se atrás de seu novo leque ― outro
presente da sra. Bennington.
― Senhorita Amite, não faço ideia do que quer dizer. Eu
estava me perguntando por que o sr. Hunt engatou cavalos
de tração em vez de cavalos comuns.
Mas a atenção de Lila não estava nos cavalos ou no sr.
Hunt. William tinha cavalgado no pátio do estábulo, parando
a centímetros de seu empregador, e inclinou a cabeça para
falar em voz baixa. Alto, robusto, Lila olhou-o sem mais
restrição do que Emily havia mostrado. Ela tinha visto Lila e
William trocarem olhares sorrateiros e sorrisos tímidos antes.

136
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Emily afastou o olhar dos homens o suficiente para virar-se


para o carro. Lila escolheu o mesmo preciso momento para
aumentar sua cesta de assados, acertando Emily
resolutamente na cabeça.
― Com licença, senhorita Emily. Peço desculpas ― disse
Lila.
― Com licença, Lila. A culpa foi minha.
― Não, senhorita, se eu não tivesse ...
― Com licença, senhoras ― interrompeu Alexander. Ele
bateu um pedaço de papel enrolado na palma de sua mão. ―
Receio que haja uma mudança de planos, senhorita Harrison.
Afinal, você não vai acompanhar-me ao hospital de campo.
― Mas a sra. Bennington insistiu para que eu fosse. ―
Emily protestou como se tivesse notado sua presença.
Alexander levantou uma mão enluvada para silenciá-la.
― Tia Augusta não tem nenhum conceito de linhas de
batalha ou atividades da tropa da União. Escaramuças em
torno de Winchester se espalharam para os arredores de
Front Royal. Não é seguro para você deixar a fazenda. Eu
simplesmente não vou permitir.
Seu tom não permitiu mais discussões. Seu jeito de
coquete, com batedores e brincadeiras, tinha desaparecido. O
rosto dele empalideceu, e minúsculas linhas ao redor de seus
olhos e boca estavam em evidência.
― Eu vou pedir a ambas e ao resto da família para
permanecer dentro de casa. Não passeie pela fazenda, Emily.
Não seria prudente. Por favor, assegure à minha tia que o tio
Porter receberá a comida e os suprimentos médicos.

137
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Vestindo sua jaqueta, ele tirou o cabelo da testa e


curvou-se sem sua habitual arrogância. Então caminhou até
seu garanhão, montou e galopou do pátio sem outra palavra.
William puxou o último cesto do punho de Lila. Então
subiu a bordo e conduziu a carroça carregada abaixo da pista
das Fazendas Hunt. As duas mulheres ficaram olhando
fixamente em silêncio por muito tempo depois que tinham
ido.
― Sobre o que supõe ser essa mensagem ? ― Perguntou
Lila. ― Parece ter abalado o estado de espírito do Sr. Hunt.
― Eu não sei, mas eu daria o pagamento do próximo
mês para descobrir.

138
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 7

Alexander enviou William para o hospital de campo para


entregar os suprimentos, enquanto ele montava firme em seu
cavalo para Millwood. Enquanto ele estava perdendo tempo
cortejando uma magra professora yankee, seus homens
aparentemente tinham se metido em alguma bagunça. “A
causa viva”, ele murmurou, puxando a nota enrolada de seu
bolso do peito. Ele guiou seu cavalo bruscamente e leu as
breves palavras mais uma vez. “Venha imediatamente para o
posto de pinheiro. Os vossos estão a caminho para o norte.
N.” Rasgando a folha em pequenos pedaços, ele espalhou-os
ao vento antes de estimular Phantom.
Campos de fazenda deram lugar a uma floresta na
margem oriental do rio Shenadoah. Sem ser notado pela
maioria dos transeuntes, um estranho conjunto de pinheiros
cresceu não muito longe da trilha, proporcionando a
Alexander um lugar seguro para esconder seus homens.
Encontrou Natham Smit esperando na sombra fresca e
parecendo muito nervoso.
― Capitão. ― Alexander dirigiu-se a Smith sem sorrir.
― Coronel. ― Smith fez sua saudação ao seu superior
antes de prosseguir com sua explicação. ― Eu não tinha
139
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

conhecimento disso, senhor. Dawson e alguns outros


entraram em acordo para fazerem um pouco por conta
própria.
― Vá em frente. ― Alexander disse rangendo os dentes
cerrados. Sua raiva e frustação aumentavam conforme a
história se desenrolava.
― Eles decidiram entrar em alguns armazéns em
Winchester na noite passada. Por alguma estúpida razão eles
não pensavam que os yankees estariam observando muito de
perto. Eles derrubaram alguns guardas e encheram seus
alforjes com tabaco de mascar, uísque, café ― o que quer que
pudessem colocar em suas mãos.
Uma veia pulsou no pescoço de Alexander, e suas mãos
involuntariamente apertaram as rédeas. Smith fez uma
pausa, como se estivesse inseguro de continuar.
― Continue, capitão. Dê-me a história completa.
― Então os homens decidiram encher uma carroça e se
afastar. Acredito, senhor, que planejavam vender os
suprimentos à nossa própria tropa.
A raiva pura percorreu suas veias, mas Alexander não
disse nada.
― Quando encontraram uma carroça e a carregaram,
todo o regimento da União cercou o depósito. Nossos homens
estavam tão ocupados com sua recompensa que não viram os
ianques até o momento de sair. Eles foram direto para uma
emboscada perfeita.
Alexander ergueu a mão ― Já ouvi o suficiente. Apenas
me dê os números.

140
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Três mortos, senhor, dois feridos, juntamente com


sete capturados.
― Doze homens cavalgaram sozinhos sem minhas
ordens? ― Perguntou Alexander, atordoado.
― Sim, senhor, mas poderíamos recuperá-los. Há pouco
tempo Ellworth bateu na linha do telégrafo no White Post. Ele
ouviu que nossos homens estarão no trem de Winchester e
Potomac para o Harper’s Ferry esta tarde. De lá, eles serão
transferidos para uma prisão dos yankees.
― Não é exatamente isso que eles merecem, capitão?
― Sim, senhor.
― Aquela dúzia de homens comportou-se como um fora-
da-lei comum, não como soldados que lutam pela Causa.
― Sim, senhor.
― Espera que eu comprometa o resto dos meus homens,
homens que seguem ordens, ao libertar nove que
perseguiram seus próprios interesses e não o da
Confederação?
― Sim, senhor. Quero dizer, não, senhor ― Smith
balbuciou.
Um silêncio desconfortável encheu o Vale.
― Mandou avisar os guardas?
― Sim, senhor, eu fiz ― os dois homens travaram
olhares por um longo momento. ― Eles parecem estar
chegando enquanto falamos. ― Eles podiam ouvir o som de
cavalos espirando através de águas rasas.
― Muito bem ― disse ele, devolvendo a saudação de seu
segundo-em-comando. Ele estimulou o Fantasma para o rio.

141
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Nenhuma discussão adicional foi necessária. O coronel não


teve escolha senão libertar os homens capturados.
Às três e meia, um solitário de roupas surradas entrou
na sonolenta estação de Charles Town. Deslizou-se de sua
garupa, sentou-se sobre os trilhos, e puxou uma bota para
esfregar os dedos dos pés através de buracos em sua meia.
Quando o despachante da estação caminhou para fora para
inquirir notícias, supôs que o homem era um fazendeiro que
espera o trem da tarde.
― Você não ouviu? ― Perguntou o fazendeiro, olhando
para o sol.
― Ouvi o quê, filho?
― Eles capturaram o Fantasma Cinzento fora de
Upperville.
― Não acredito! ― Exclamou o despachante ― Eu tenho
uma irmã vivendo em Upperville. Esse homem deveria ter
sido pendurado há muito tempo. Espero que o desgraçado
pegue sua recompensa agora ― Ele praticamente dançou
através da plataforma.
― Oh, tenho certeza que ele vai ― Concordando, o
agricultor cuidadosamente calçando sua bota, como se ele
tivesse todo o tempo do mundo.
Logo o operador de telégrafo perambulou lá fora para ver
por que o despachador estava andando por aí como um
idiota.
O coronel levantou-se dos trilhos, esticou-se até sua
altura impressionante, e tirou o casaco esfarrapado. Naquele
momento, Nathan Smith deu um passo em torno da esquina

142
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

da estação com seu revólver Colt nivelado para os dois


funcionários de Winchester e Potomac. Trinta dos melhores
homens do coronel cercaram e apoderaram-se da estação
sem disparar um único tiro. O resto era brincadeira de
criança. Com o operador de telégrafo amarrado e o expedidor
fazendo sua usual, mas forçada aparição na plataforma, o
trem desavisado entrou em Charles Town como um peixe em
um anzol. Os Rangers bloquearam as trilhas com tronco para
impedir que o trem saísse da estação ao contrário. Outros
homens subiram a bordo e rapidamente subjugaram o
engenheiro e o condutor. Os recrutas verdes da União que
guardavam os Rangers capturados tomaram a sábia decisão
de se render. O coronel libertou nove soldados que haviam
agido por conta própria, juntamente com seis mil dólares em
dinheiro do agente expresso.
― Não pegue nada dos civis ― disse Alexander aos seus
homens enquanto se movia através do vagão. ― Senhoras e
senhores, assim que recuperarmos o que nos pertence,
estaremos a caminho de Haper`s Ferry. Não tenham medo.
As senhoras ansiosas para escapar da batalha em fúria
em torno de Winchester compreendiam. A maioria dos
passageiros, a julgar pelos botões de lapela, eram leais a
União e outros leais a Confederação. ― Você gostaria de
examinar minha bolsa? ― Perguntou uma mulher de preto.
Ela manteve aberta sua bolsa de pano.
Alexander fez uma pausa para examinar seu rosto
jovem, uma viúva em uma idade tão tenra ― Não senhora. Eu
não tenho nenhum desejo de espreitar em bolsas de senhoras

143
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

ou examinar seus trocos. Um cavalheiro do sul nunca faria


tal coisa. E você certamente sacrificou o suficiente. ― Ele
inclinou o chapéu e então saltou para a plataforma. Um
jornalista sentado nas proximidades anotou notas em seu
caderno espiral, e assim a notoriedade do Fantasma Cinzento
continuou crescendo.
Mas a notoriedade era a última coisa na mente do
coronel. Uma vez em segurança, ele chamou suas tropas para
a formação antes de permitir que o fogo começasse a ser feito
ou a ceia fosse preparada. Com pouca consideração pelos
exercícios regulares e os procedimentos do exército, formar
filas era algo que raramente fazia. Mas isso era parte da razão
pela qual ele enfrentava essa situação agora.
― Capitão Smith ― ordenou ele ― chame os nomes dos
envolvidos no ataque não autorizado. Homens, caso seu
nome seja chamado, dê um passo à frente e ofereça
justificação para suas ações. ― Um gosto azedo rastejou até a
garganta de Alexander, mas ele engoliu em seco.
Alguns dos nove Rangers ofereceram desculpas fracas
para sua participação. Outros olhavam para o chão, talvez
envergonhados de seu comportamento. E olhavam para o
coronel com ódio inconfundível e mal disfarçado.
― Vocês, homens, desonram a honra de um soldado ―
disse Alexander. Estava tão tranquilo que se podia ouvir
pássaros plainando para dormir em ninhos. ― Não é minha
intenção, nem nunca será, que este regimento lucre com
nossos esforços para adquirir bens para a causa
Confederada. ― Ele enunciou cada palavra lentamente e

144
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

deliberadamente com sua raiva aumentando. ― Qualquer


homem que não concorda é livre para sair e juntar-se à
cavalaria regular ou à infantaria, ou tornar-se um proscrito
renegado se assim desejar. Mas não tolerarei atos de roubo
para benefícios pessoais.
Ele deu um passo à frente até estar a centímetros dos
homens alinhados diante dele. ― Eu liberei vocês de terem
destino em um campo de prisioneiros dos yankees por
reconhecimento pelo serviço passado, mas vocês estão
demitidos. Peguem suas armas pessoais, suas montadas, e
qualquer recompensa que ainda estejam em suas posses e
saiam da minha vista.
Nenhum homem escolheu ficar e explicar, pleitear seu
caso ou pedir reconsideração. Talvez porque a expressão do
coronel indicasse que ele poderia ignorar sua determinação
de não causar danos corporais ao outros.
Naquela noite, Alexander não teve apetite para o jantar
depois que os homens tinham partido. Ele sabia que a
maioria de seus homens eram bons soldados, seu
compromisso com o sul não era menor do que o seu. Ele
também sabia que estavam ansiosos para sair em outra
invasão. Certamente o exército de Lee da Virginia do norte
poderia usar fontes adicionais. Com seus patrulheiros já
reunindo informações, amanhã os levaria em uma incursão.
Mas esta noite sua alma estava perturbada. Doze homens
haviam desobedecido as ordens. Uma fina linha separava um
bando de ladrões de guardas partidários. Ele podia pensar
um pouco mais como ele montou o campo, selecionando seu

145
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

próximo alvo com seu segundo no comando. Nathan Smith o


conhecia melhor do que qualquer outro homem. O sucesso de
seu esforço para ajudar a confederação dependia do fato de o
Exército da União não focar demasiada atenção neles. E isso
certamente mudaria se uma missão se transformasse em um
banho de sangue.
Eles cavalgaram longo tempo em torno do Condado de
Clarke, iluminados pela lua para escolher seu próximo alvo.
O passeio fez maravilhas ao coronel, Alexander estava
começando a se sentir como ele novamente. Mas Smith ficou
cansado ― A menos que você esteja planejando dormir na
sela, sugiro que encontremos um lugar para dormir. Estou
esfarrapado. ― Ele esfregou o rosto com as mãos.
― Você está certo, mas estamos muito longe do
acampamento para retornar antes do amanhecer. ― Depois
de consultar seu mapa, Alexander esticou-se nos estribos ―
Estamos apenas fora de Berryville. Recentemente me deparei
com um celeiro abandonado durante um dos meus passeios.
Vamos descansar os cavalos e dormir lá. Isso também
permitirá que os homens tenham uma chance de folia sem
seus dois comandantes.
Encontraram o caminho estreito que conduzia ao velho
celeiro sem muita dificuldade. Antes de chegar ao curral,
Smith ergueu a mão enluvada e parou o cavalo. ― Uau. Há
alguém lá embaixo, Coronel.
Alexander guiou Phantom até a borda do bosque em
uma rédea apertada para não fazer barulho desnecessário.
Eles olharam para os riachos finos de luz amarela entre as

146
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

ripas resistidas do celeiro. Um único cavalo tinha sido


amarrado ao poste de engate. ― Não pode ser! ― Sibilou ele.
― O quê? ― Smith esforçou-se para ver na luz da lua
sombria.
― Preciso examinar aquele cavalo. ― Pela segunda vez
naquele dia, Alexander sentiu a pressão sanguínea subir.
Eles esconderam suas montadas e, em seguida, deslizou
silenciosamente para o bosque para um olhar mais atento.
Smith seguiu nos calcanhares do coronel com seu Colt
puxado.
Mesmo na fraca luz Alexander reconheceu as linhas
finas e a pelagem bem cuidada de Miss Kitty. ― Isso é
inconfundível ― Ele murmurou, movimentando Smith com ele
de volta para o bosque.
― O que é, Coronel?
― É o cavalo maldito de nossa hóspede Emily Harrison.
O capitão parecia completamente confuso.
― Você a conheceu, Nathan, na noite do baile. Ela era
aquela moça magrinha vestida de azul, com cabelos
vermelhos flamejantes. Quando eu dancei com ela, ela quase
me aleijou, pelo amor de Deus.
Smith olhou para ele como se tivesse desistido de seus
sentidos. ― Sim, eu me lembro... A governanta de sua tia.
Porque seu cavalo estaria aqui?
― Eu não sei, mas estou prestes a descobrir. ― A fúria
ficou maior quando Alexander caminhou.
Smith estendeu a mão e agarrou seu braço ― Espere
senhor. Vamos pensar nisso um momento.

147
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Ele olhou para Smith. ― Por que não perguntamos a ela


que estupidez ela está tramando?
― Você me disse que ela era de Ohio. Isso faz da senhora
uma yankee. Como você a conhece bem? Ela poderia até
estar fazendo mal à sua doce tia, e seus tios não são os mais
sábios. De qualquer maneira, se você vai marchar para o
celeiro vestido assim, ela não terá nenhuma dúvida sobre
quem você é.
Alexander olhou para o uniforme de Fantasma Cinzento,
sua bainha e espada, e sua capa escarlate. Ele odiava
admitir, mas Smith estava certo. Ela olharia para ele e sua
identidade não seria mais segredo. ― Talvez não seja a
senhorita Harrison. Talvez um desertor tenha roubado seu
cavalo do nosso celeiro. ― Seu coração ansiava por uma
explicação lógica. ― Vamos nos esconder na trilha.
O capitão Smith olhou-o interrogativamente, mas o
assunto logo ficou fora de suas mãos. Dentro, alguém apagou
a lanterna do celeiro. Então eles ouviram a porta se abrir e
fechar com um baque. Miss Kitty começou a empinar e o
cavaleiro lutou para chegar em suas costas. O cavaleiro,
envolto em uma capa com capuz, bateu no flanco do cavalo
antes de seguir o caminho. Por sorte, para o coronel, não
para a senhorita Emily Harrison, a lua emergiu das nuvens e
o vento soprou para trás seu capuz enquanto o cavaleiro
passava por sua posição escondida.
Nenhum dos dois tinha dúvidas quanto a identidade da
mulher de cabelos vermelhos, de pele clara, sentada na sela
do cavalo. No topo da colina ela estimulou seu cavalo em

148
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

direção a Front Royal e desapareceu nas sombras. Alexander


foi deixado olhando para a noite com uma mandíbula
apertada e ira emanando de seus olhos como faíscas de uma
fogueira.

Fiel a sua palavra, Porter Bennington voltou para Hunt


Farms na noite seguinte, desanimado e dez libras mais pobre.
Após sua chegada, ele foi direto para o lago da fazenda com
uma barra de sabão e esfregou-se até que sua pele estava
quase em carne viva. O criado de quarto do sr. Hunt correu
para lá com toalhas e roupas frescas, sem saber bem o que
fazer com alguém tomando banho na lagoa. O médico
instruiu o criado a queimar as roupas usadas no Front Royal
e a não contar a ninguém. Mais tarde ele juntou-se a sua
família na mesa de jantar, ansioso para ouvir sobre o que ele
tinha perdido no baile. Para os anos restantes que Augusta e
Porter passariam juntos, ele nunca falou de seus dias no
hospital após a batalha de Winchester, apesar de suas
tentativas de convencê-lo a falar. Isto permaneceu uma
experiência que nunca esqueceu. A carnificina indescritível
que ele testemunhou e tratou, as consequências do que os
homens fizeram na batalha permaneceria com ele para
sempre. Ele já não via a causa do Sul como gloriosa. Nenhum
dos lados poderia receber a graça de Deus com meninos tão
jovens morrendo no campo de batalha.

149
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

No entanto, o sobrinho de Porter não compareceu ao


jantar de reunião. Alexander desaparecera misteriosamente e
ainda não voltara para Hunt Farms. Ninguém parecia saber
para onde ele tinha ido. Emily também estava ausente. Ela
tinha reclamado de uma dor de cabeça penetrante e
desculpou-se pelo resto do dia. Porque a luz ou o som
tornava a dor pior, ela pedira para não ser perturbada por
ninguém.
Lila certamente não a perturbou porque sabia que Emily
não estava enclausurada em seu quarto com um pano frio
preso a testa. Ela não estava em casa. Lila não gostava de
mentir, não era como fora educada. Mas ela até quebraria o
mandamento sobre ter falso testemunho para ajudar Emily.
Lila passou o dia na cozinha do porão ajudando a mãe, a fim
de evitar andar com a sra. Bennington ou a sra. Hunt.
Naquela noite, ela sentou-se sozinha nos degraus de trás
escutando grilos e corujas, incapaz de dormir até Emily
retornar com segurança. Tantas coisas podiam dar errado.
Perto das linhas de frente, patrulhas armadas paravam e
questionavam todos. Ou Emily poderia simplesmente perder
seu caminho em estradas desconhecidas. Quando Lila
finalmente viu sua amiga subindo a cavalo, respirou com
alívio e correu para abrir a porta do estábulo.
Emily entrou silenciosamente no celeiro, desmontou e
puxou a sela das costas de Miss Kitty. Ela assustou-se ao
perceber Lila nas sombras. ― Estou tão feliz em ver você. ―
Emily abraçou Lila sem fôlego. ― Eu estava com tanto medo,
Lila. Eu não achava que seria tão escuro nas estradas. Eu sei

150
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

como isso soa absurdo, mas eu agradeço a Deus que Miss


Kitty foi capaz de encontrar o caminho para casa.
Lila abraçou-a com ferocidade. ― Não parece absurdo.
Claro que você estava com medo. Qualquer pessoa normal
estaria, mas estou orgulhosa do que você está fazendo.
Um cavalariço escorregou das sombras e
silenciosamente pegou a sela de Emily. Ele a colocou na
prateleira e começou a esfregar o cavalo suado. ― Obrigada,
Jake. ― Emily assentiu com a cabeça sua gratidão. ― A sra.
Bennington ou a sra. Hunt suspeitaram? ― Perguntou a Lila.
― Não, não que eu pudesse dizer. Hoje fiquei fora dos
seus caminhos.
― E o Alexander? Ele perguntou sobre mim? ― Sua voz
vacilou.
― Não, ele não está na casa de Front Royal ainda.
William voltou sozinho, com a carroça vazia.
― É assim? ― Emily não gostou dessa notícia, enquanto
deixava Miss Kitty nas mãos capazes de Jack. ― É melhor eu
ir lá em cima antes que alguém me veja. Boa noite, Lila.
Sonhos doces. ― Mas os sonhos de Emily foram qualquer
coisa, menos doce. Ela sacudiu e girou na cama a noite toda.
Na manhã seguinte, dormiu demais e encontrou seus patrões
na sala de jantar.
― Bom-dia, senhorita Harrison. ― Cumprimentou o dr.
Bennington.
― Bem-vindo a Front Royal, senhor. Tenho certeza que
você está feliz por estar em casa. Bom-dia, sra. Bennington,
sr. e sra. Hunt. ― Sorrindo educadamente, ela acenou com a

151
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

cabeça para os outros três. Quando notou que Alexander


ainda não tinha descido para o café da manhã, seu sorriso
desapareceu.
― Sim, senhorita Harrison, estou. ― Disse o dr.
Bennington ― Se estiver melhor de sua dor de cabeça, tenho
um favor a pedir.
Escondendo sua confusão, Emily encheu seu prato com
biscoitos e molho de salsicha. ― Sinto-me bem esta manhã.
Como posso ajudar?
― Preciso atravessar as fronteiras de Frederick para
comprar remédios. Nossos cirurgiões estão com o estoque de
láudano, quinina e clorofórmio espantosamente baixo. Ouvi
que os boticários de lá têm para a venda, e pelo fato de eu
tratar tanto soldados da União como Confederado, o povo de
Frederick não deve se importar de vender para mim.
― Oh, não, Porter ― interrompeu sua esposa ― você
acabou de voltar. Você não vai ser útil para os feridos se você
cair sobre eles, morto. ― Sua palavra forte refletiu sua
ansiedade.
― Não se preocupe, minha querida. ― Ele estendeu a
mão para acariciar a mão dela. ― Vou entregar os
suprimentos para o hospital de campo e depois voltar para
cá. Os médicos alistados têm a situação sob controle agora.
― Como posso ajudar? ― Perguntou Emily.
― Eu gostaria que você e Lila visitassem meu
consultório em Martinsburg e carregassem uma lista de
coisas. ― Ele pegou uma folha dobrada e colocou-a sobre a
mesa. ― Como Lila frequentemente ajudou-me na ilha, ela

152
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

deve estar familiarizada com a maioria dos itens. Mas eu não


quero que vocês duas viagem sozinhas. James, você pode
ceder alguém para acompanhá-las?
― Eu mandaria Alexander, mas ele está em um dos seus
passeios. ― O sr. Hunt sacudiu a cabeça. ― Vou mandar o
William. Ele pode conduzir as damas em segurança até
Martinsburg e de volta.
― Obrigado. Estou em dívida com você. ― O dr.
Bennington aproximou seu prato de café da manhã.
― Bobagem, e eu vou com você. Se os medicamentos
estão à venda em Frederick, serei eu quem os comprará. Eu
não posso deixar você ganhar todos os lucros enquanto eu
me sento em minha parte traseira. Como seria isso para
minha esposa?
― Nesse caso, não esqueça sua carteira. Vamos comprar
tudo o que estiver disponível. ― O dr. Bennington sorriu para
seu cunhado com apreço.
Emily terminou o café da manhã em silêncio, apenas
vagamente consciente da conversa na mesa. Ela jurou não
ajudar a causa do sul. Ela estava determinada a usar seu
emprego exclusivamente para seus propósitos da Ferrovia
Subterrânea. Mas como ela poderia recusar o pedido do dr.
Bennington, especialmente porque os suprimentos poderiam
tanto salvar a vida de um unionista leal como um rebelde?
Em seguida, seus lábios enrolaram em um sorriso quando
sua mente criou a solução perfeita. A mansão de Bennington
em Martinsbusg estaria vazia, exceto por alguns escravos.
Mas totalmente abastecida com alimentos para seu benefício

153
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

e em antecipação ao retorno da família. Quem iria dizer que a


viagem para o consultório dele não poderia incluir uma
parada no celeiro em Berryville? Emily não conseguia parar
de sorrir. Isso seria mais fácil do que ela esperava, com
apenas um problema. William não poderia ir como seu
condutor. Como criado de Alexander, William era leal a ele.
Ela não poderia confiar no homem para ficar calado sobre
coisas estranhas que ele pudesse ver. A julgar pelo
comportamento do garoto do estábulo na noite passada, Jack
seria uma escolha melhor. Ela esperaria até o último minuto
e insistiria nele, não dando a William nenhuma oportunidade
de discutir.
Não havia nada como um plano perfeito.

O plano de Emily, entretanto, estava longe de ser


perfeito. William colocou uma objeção quando ela escolheu
Jack em vez dele. ― Ele não conhece bem as ruas, senhorita
Harrison, porque raramente sai de Hunt Farms. E se você e
Lila se perderem? ― William cruzou e descruzou os braços. ―
O sr. Alexander não vai gostar disso. Não senhora. Ele não
vai gostar disso.
― Agradeço sua preocupação, William, mas insisto em
Jack. O sr. Hunt vai precisar de você quando ele voltar de
sua viagem. ― Emily recusou-se a se mover, embora William
continuasse murmurando enquanto ele se afastava.

154
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

O Sr. Alexander não tinha o que falar sobre o assunto.


Infelizmente, Lila também pensou que tomar Jack seria uma
má ideia.
― Porque William não pode ir? ― Ela implorou. ― Jack é
um homem idiota, não muito mais velho do que um dos
meninos. Do que adiantará se nos encontrarmos num mau
pedaço?
― Pare e pense sobre isso. ― Emily colocou sua valise no
carrinho. ― William provavelmente não vai gostar da ideia de
duas pessoas desaparecendo durante a ausência do sr. Hunt.
Ele é leal a ele. Ele vai tentar me parar, ou pelo menos dizer a
Alexander quando ele voltar. Isso é sério. Eu poderia ser
detida e presa.
― Sei que isso é sério. Eu poderia ter problemas apenas
por estar com você. Mas só porque William é livre, preto como
eu, não significa que ele não vai ajudar uma viúva e seu filho
a alcançar a liberdade. ― Lila cruzou os braços, imitando a
postura de William.
― Eu me decidi e me recuso a arriscar. ― Insistiu Emily
― Você só prefere a companhia de William porque você gosta
dele. Por favor, suba a bordo. Nós precisamos ir.
Enquanto Jack segurava as rédeas e Lila se enfurecia,
Emily planejou sua rota de Front Royal para Martinsburg via
Berryvill em seu mapa. Embora Jack parecesse um jovem
simpático, não sabia ler nem escrever e, de fato, não estava
familiarizado com as estradas. Mas, por outro lado, ele não
levantou uma sobrancelha enquanto uma mulher de vinte
anos e seu filho de um mês se arrastaram para dentro do

155
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

compartimento de armazenamento do carrinho. Antes do


amanhecer, Emily tinha verificado o espaço para ter certeza
de que continha rachaduras suficiente para o ar. Em seguida,
ela guardou a mulher e o filho dentro e deixou cantis de água
e uma cesta de alimentos sob uma lona.
Lila tinha ouvido do pessoal da cozinha o nome de um
provável candidato para sua primeira tentativa de libertar
alguém. Soube que na primavera anterior houve uma
epidemia de febre amarela, a mulher recusou-se a casar com
qualquer pretendente que se apresentou. Annabelle não tinha
pais ou irmãos em Hunt Farms, escravos ou livres, e poucos
amigos. Emily tinha se aproximado da mulher durante um de
seus passeios noturnos perto das cabanas de escravos.
Embora a princípio relutante em falar, Annabelle preocupou-
se em ser vendida para outra plantação e possivelmente
separada de seu filho. Possuía poucas habilidades para
ganhar dinheiro para comprar sua liberdade. Ser vendido
para outra plantação era um medo que ela compartilhava
com toda a população escrava.
― Eu não tenho nada me segurando aqui. ― Ela
sussurrou a Emily durante a reunião inicial. ― Eu ouvi que
os invernos no Norte são muito frios e o Canadá livre é nada
além de um deserto, mas eu não estou querendo dar uma
chance de acabar onde eles batem nas pessoas. A maioria
das plantações não funciona como esta. ― Annabelle fechou
os olhos. ― Tenho alguém por quem vale a pena viver...
mesmo que isso signifique morrer. Gabriel vai crescer livre. ―

156
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Ela abraçou o menino ao seu coração, e nesse momento seu


destino com Emily tinha sido decidido.
― Annabelle? ― Emily levantou a tampa e olhou para o
compartimento quando chegaram ao abrigo do celeiro pouco
antes do escurecer. ― É seguro sair.
A mulher, magra e alta, segurando seu precioso bebê,
lentamente desdobrou sua dura espinha. Mas ela não se
queixava de andar em uma caixa confinante. Ela desceu
sobre as pernas trêmulas e olhou ao redor como um coelho
assustado. ― Onde estamos?
― Estamos fora de Berryville. Nós trazemos muitos
alimentos. Vamos comer e depois dormir no sótão. Mas nós
não acenderemos uma fogueira, ela poderia atrair a atenção.
Vamos partir para Martinburg na primeira luz do dia.
Annabelle assentiu. ― Obrigada, senhora.
― Por favor, chame-me de Emily.
― Não, senhora. Não o farei. ― Seu desconforto
aumentou um pouco.
Lila deu um passo à frente. ― Minha mãe mandou um
saco de fraldas para seu filho. Amanhã vamos chegar à casa
Bennington em Martinsburg. Temos suprimentos para
empacotar lá, mas quando escurecer vamos levá-la a um
ponto sobre o Rio Potomac. Quakers irão levá-la a Maryland,
mas você não estará sozinha. Outros Quakers irão até o rio
Conocheague na Pensilvânia, um Estado livre.
Emily tirou um mapa de sua valise. ― Uma vez que você
estiver na Pensilvânia, siga isto para uma casa segura em
Chambesburg. Um casal presbiteriano abrigará você e dará

157
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

instruções para a próxima etapa da viagem. ― Ela pressionou


o papel na mão de Annabelle. ― Viaje à noite e siga a estrela
do norte se a noite estiver clara. Lembre-se, a alça da cabana
aponta para ele. Durma durante o dia, porque os rios são
patrulhados por escravos. Se precisar de ajuda aproxime-se
do presbítero metodista ou presbiteriano ou de um Quaker.
Não confie em mais ninguém, Annabelle. Estes são tempos
difíceis. Os povos recebem uma recompensa gorda para
entregar fugitivos.
À medida que ficava claro, Annabelle estudou o mapa e
rastreou a rota com o dedo. ― Eu sei o que está em jogo, mas
porque você está fazendo isso, ajudando escravos que você
nem conhece?
― Porque eu fui criada como uma Quaker. ― Emily sabia
que este não era o momento de aumento poético sobre sua
educação religiosa.
― Esta é a única chance que você e seu filho receberão.
― Lila acrescentou conselhos práticos enquanto ela e Emily
desempacotaram o carrinho. Jack soltou os cavalos da
carroça, e amarrou-os ao bebedouro. Levantando os cantis de
água, Emily conduziu o grupo para o celeiro, onde havia
fardos de palha limpa em todos os lugares.
― Você é livre? ― Perguntou Annabelle para Lila. Ela
olhou para a roupa elegante de Lila com desconfiança.
― Eu sou. Meu pai comprou minha liberdade e a da
minha mãe quando eu era pequena. ― Uma vez dentro, Lila
puxou sanduíches do cesto e passou-os ao redor.

158
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Eu nunca vi pessoas negras vestindo roupas assim. ―


Ela apontou um dedo desdenhoso para a roupa de Lila.
― Eu sou empregada de duas mulheres jovens. Como
elas nunca usam roupas mais do que uma temporada, elas
dão suas roupas velhas para mim. ― Lila passou as frutas e
pães doces do cesto.
Os olhos de Annabelle quase saltaram de sua cabeça. ―
Eles usam roupas menos de um ano e não a querem mais? ―
Seguindo o aceno de Lila, ela perguntou. ― Eles são aqueles
que te ensinaram a falar tão elegante?
― São eles. ― Lila mordeu delicadamente uma maçã.
― Não que possa ter tudo, o seu pai tendo dinheiro o
suficiente para comprar gente e você vestir-se como se tivesse
algum lugar para ir. ― Annabelle riu e, em seguida,
estabeleceu-se em um fardo de feno para alimentar seu filho,
virando as costas discretamente para as outras.
Mais tarde, enquanto o bebê dormia profundamente nos
braços de Annabelle, os quatro trocaram suas histórias entre
as pessoas de origens tão diversas. Apesar de Emily ter pouco
em comum com eles, ela compartilhou algumas de suas
próprias alegrias e tristezas. Em seguida, eles empacotaram
as sobras e foram dormir, cheios de esperança para o futuro.

Enquanto os viajantes dormiam profundamente na


esteira de palha macia, fora alguém passava uma noite
agitada observando o celeiro. William os seguiu para saber
159
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

por que a senhorita Harrison o despediu a favor de Jack.


Alexander tinha dado ordens enfáticas para manter um olho
na senhorita Harrison e protegê-la em sua ausência.
Malandros e desertores de ambos os exércitos vagavam pela
área, farreando e roubando. Agora William perguntava se
havia outro motivo para o pedido. Alexander suspeitava de
alguma coisa da governanta? Nesta noite, William desejou
não ter seguido o carrinho. Ele não tinha razão para ser
indigno de confiança com os patrões. Apesar de suas
brincadeiras, Alexander pagava um salário muito bom,
permitindo-lhe comprar a liberdade de seus irmãos.
Além disso, Alexander era seu amigo desde que eram
meninos pequenos escalando árvores e começando nas
travessuras. Alexander confiava nele e o tratava com respeito
sincero e simples. William sentiu-se inquieto quando o
carrinho ajustou a barreira de Martinsburg em direção ao
leste. Não demorou muito para descobrir para onde eles
estavam indo. Alexander contou a história de tropeçar em
cima da senhorita Harrison em um celeiro abandonado e de
pular da porta de feno. Então ela tinha ido embora tremendo
com sua calça de babado a mostra. Os dois homens riram
das bizarras travessuras da mulher.
Como ele sabia que a yankee estava à altura de
qualquer coisa, William não se surpreendeu quando uma
mulher e uma criança subiram no compartimento atrás do
banco da frente. Também não se surpreendeu ao reconhecer
quem era a mulher. Annabelle estava tristemente infeliz em
Hunt Farms desde que seu marido morreu. Embora quisesse

160
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

ver Annabelle e seu filho livres, ele não gostava da senhorita


Harrison enganando os Hunts para obter essa liberdade.
Sabia que Alexander tornava-se cada vez mais afeiçoado à
governanta. William contemplou sua própria decepção se ele
voltasse e não dissesse nada.
Se alguma vez desejou ter ficado em casa e se importado
com seu próprio negócio, este era o momento.

161
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 8

Alexander não estava de bom humor. Primeiro, ele tinha


sido forçado a dispensar nove homens do serviço porque eles
agiram de forma inesperada e sem ordens. Então ele
observou Emily saindo de um celeiro abandonado no meio da
noite. O que isso poderia significar? Ela tinha um amante?
Sua tia proibira-a de ver algum pretendente desagradável e
assim ela fugiu para encontrá-lo enquanto os Bennington
dormiam? Se sim, então por que ela tinha aceitado os seus
beijos em seu piquenique e flertou durante o café da manhã,
se seu coração pertencia a outro?
E o que importava de qualquer maneira? Ele tinha um
bando de mulheres ansiosas para agradá-lo. Pelo menos meia
dúzia aceitaria sua mão em casamento se ele pedisse. Mas ele
não queria perguntar, não desde que esta áspera yankee
ficou sob sua pele. Ele podia fechar os olhos e ver os brilhos
dourados em seus cabelos, cheirar seu cheiro limpo e
picante, e quase sentir os fios sedosos entre seus dedos.
Adorava-lhe o riso gutural, diretamente do ventre, e adorava
como olhava para tia Augusta com compaixão e ternura. A
maneira que ela poderia olhar para mim algum dia, pensou.

162
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Sentindo os movimentos do desejo, ele balançou a


cabeça para esmagar o devaneio. Ele não tinha nenhuma
esperança de um relacionamento com ela. Era a governanta
de sua tia, uma mulher que montava a cavalo com suas
anáguas a mostra. Qualquer que fosse a razão que a levou ao
celeiro à noite, ela não tinha sido honesta com ele. Ele tinha
confiado em um rosto doce e toque suave antes e tinha sido
enganado. Agora ele viveria com o conhecimento de que os
homens morreram por causa dele para o resto de sua vida.
Ele não estava prestes a cometer esse erro novamente.
E quem teve tempo para cortejar? A vitória confederada
em Winchester não tinha sido o fim das hostilidades que eles
esperavam. As truncadas forças da União não tinham ido
para casa, deixando-as em paz. Eles recuaram para lamber
suas feridas e esperar por novos recrutas para preencher as
fileiras. E certamente viriam novos recrutas, enquanto o poço
sem fundo das provisões dos ianques nunca ficava seco.
Richmond, por outro lado, não poderia fornecer
adequadamente o exército de Stonewall Jackson do
Shenandoah Valley ou o exército de Lee no Norte da Virginia.
Os soldados precisavam de alimentos nutritivos, roupas
quentes e botas boas, bem como munição e cavalos para
substituir os mortos em batalhas. O sul atingiu o fundo há
muito tempo.
O Coronel e seu segundo no comando conduziram uma
companhia escolhida a dedo de cinquenta homens em uma
invasão de três dias aos armazéns da União. Ellsworth bateu
nos escritórios de telégrafos para denunciar falsamente os

163
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

guardas atacando os postos avançados, primeiro em


Alexandria e depois indo para a Pensilvânia. Em seguida, ele
relatou o Fantasma Cinzento causando estragos a oeste das
montanhas Shenandoah. Ele as colocou em todos os lugares,
exceto onde planejava estar. Os guardas libertaram centenas
de cavalos, uma grande quantidade de provisões e milhares
de dólares da União para o Tesouro Confederado. Eles
compensaram tanto que a cavalaria de Jeb Stuart teve que
ajudar a distribuir os despojos. Mas o coronel não viu o fim
da guerra à frente, nenhum dia em que as hostilidades
cessassem. Ele só podia fazer o seu dever à causa
confederada, aliviado por ter feito isso até agora sem matar
ninguém. Ele não havia quebrado o sexto mandamento, mas
havia quebrado muitos outros.
Tirando a coluna cansada, mas orgulhoso de sua
conquista e de seus homens, Alexander dirigiu-se para os
amados campos de Hunts Farms. Ele estava ansioso para
provar a culinária de Beatrice novamente, para molhar em
sua banheira de cobre até sua pele ficar enrugada como uma
ameixa, e dormir sob a colcha macia em sua própria cama.
Acima de tudo, ele antecipou uma reunião com a governanta
de sua tia. Por mais que tentasse, não conseguia tirá-la da
cabeça. O rosto de Emily foi a última coisa que ele viu
quando adormeceu à noite e seu cheiro de verbena de limão
parecia perdurar no ar quando acordava todas as manhãs.
Ela era desonesta pelo menos, e Alexander sabia o que vinha
a ser confiar em uma mulher enganosa. Talvez ela tivesse
uma explicação para o seu comportamento em Berryville mas

164
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

talvez não a fizesse. Mas não podia ficar longe dela se sua
vida dependesse disso.
Sorrindo com felicidade, Emily espreguiçou-se como um
gato em seu luxuoso quarto na mansão de Bennington.
”Espero que esteja orgulhosa de mim, mamãe.” Pela primeira
vez em muito tempo ela tinha conseguido algo. Depois que
chegaram em Martinsburg, mandaram as empregadas para a
cidade dar recados e esconderam Annabella e Gabriel no
sótão para descansar por algumas horas. Em seguida,
durante a noite, enquanto Jack e as empregadas dormiam,
Emily e Lila mudaram Annabelle para um desembarque
secreto no rio Potomac, conhecido apenas por aqueles na rota
da estrada de ferro subterrânea. Muito antes de amanhecer,
Annabelle abraçou desajeitadamente Emily e Lila, e então ela
embarcou em um barco dirigido rio acima para a liberdade.
Ela carregava sacos de panos e comida, roupa de reposição e
fraldas, um cantil de água e suas orações sinceras. Emily e
Lila ficaram na margem do rio até que o barco desapareceu
em redemoinhos de névoas e neblina. Uma escrava e seu filho
logo estariam seguros na Pensilvânia, protegidos por um
casal de Chambersburg, companheiros Quakers como seus
pais. As lágrimas da jovem mãe eram todas as graças que
Emily e Lila precisavam.
Mas Emily não perdeu tempo batendo nas costas. Ela
saltou da cama e vestiu-se rapidamente, permitindo que Lila
dormisse mais uma hora. Lá embaixo no consultório
arrumado do dr. Bennington, ela reuniu e empacotou os
suprimentos médicos de sua lista. Enquanto ela trabalhava,

165
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

pensamentos de traição se arrastaram à mente para arruinar


seu bom humor. Seus empregadores e anfitriões
considerariam suas ações roubo, o roubo de propriedade.
Mas que direitos tinham eles de possuir escravos? Ela não
roubara seu dinheiro nem um cavalo. Annabelle e Gabriel
eram seres humanos. Ela tinha sido ensinada que nenhum
cristão manteria outro em cativeiro. Contudo, os Hunts e os
Benningtons também consideravam-se cristãos devotos. E os
Benningtons confiavam nela, tratando-a mais como um
membro da família do que como empregada. Essa estranha
incongruência cochichou no fundo de sua mente enquanto
carregavam o carrinho e saiam de Martinsburg, indo em
direção ao Front Royal.
Quando Jack estalou os cavalos em uma marcha rápida,
Lila estendeu-se no banco de trás. Emily estudou o mapa,
dirigindo sua rota em estradas secundárias. Ela estava
ansiosa para entregar os suprimentos médicos para o
hospital e depois voltar para Hunt Farms. Pelo menos os
esforços humanitários do dr. Bennington salvaram vidas de
ambos os lados. Perguntou-se se Alexander notara que a
jovem e seu bebê estavam desaparecidos.Quanto contato ele
teve com seu povo? Ou ele só preocupava-se com a perda
financeira que representavam?
Mas não era por isso que ansiava vê-lo. Lembrou-se de
seu buquê de louros e lírios-de-dia. Ele tinha escolhido suas
flores favoritas e perguntou sobre sua família como se
realmente estivesse interessado em sua vida em Ohio. Por
alguma razão inexplicável, Emily queria que ele gostasse dela,

166
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

apesar de suas diferenças insuperáveis. Alexander era como


uma maçã brilhante fora do alcance. Ele também era tudo o
que seus pais desprezavam, rico, preguiçoso e sem valor. No
entanto, um olhar a fez tremer pela espinha. Poderia ele
ajudar já que havia nascido na riqueza e privilégio? Não mais
do que ela poderia ajudar sendo pobre. De um lado para o
outro, sua mente lutou até que uma dor de cabeça fosse a
única conclusão.
― Bem-vinda ao Front Royal ― disse Jack, quando o
carrinho apareceu em uma rua caótica. Homens a cavalo,
carruagens cheias até a capacidade e tábuas carregadas de
suprimentos arremessadas em todas as direções.
A via estava tão repleta de buracos que Emily teve que
ajustar a mandíbula para não chiar os dentes. Escovando um
pedaço de cabelo, ela tentou suavizar as rugas de sua saia. ―
Nós devemos ter batido todo o solavanco da estrada. Eu sinto
como se eu tivesse sido arrastada atrás do carrinho pela
estrada.
― Os dias não ficam muito mais quentes do que isso. ―
Lila enxugou gotas de suor de sua testa. Ela inclinou-se para
a frente para melhor visão.
― Jack, pare nessa hospedaria. ― Emily apontou para o
sinal balançando na brisa. ― Lila e eu precisamos nos lavar e
trocar de vestidos antes de procurar o hospital. ― Dez
minutos depois, as moças voltaram para o carrinho
empoeirado.
― Não teremos problemas em encontrar o hospital. ―
Jack inclinou a cabeça para uma fileira de ambulâncias que

167
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

se dirigiam para o norte na Main Street. Eles seguiram um


fluxo constante de feridos para um prédio improvisado na
beira da cidade. Fileiras de tendas brancas cobriam cada
centímetro do pátio lateral, enquanto homens
ensanguentados apoiavam-se contra uma cerca de piquete,
aguardando pacientemente sua vez.
― Eu vejo o dr. Bennington e o sr. Hunt. ― Lila apontou
para dois homens descarregando uma carroça. Soldados com
cabeças e braços enfaixados levavam feridos para a porta dos
fundos. Jack puxou o carrinho ao lado de uma fileira de
ambulâncias.
Emily pulou para baixo assim que as rodas pararam. ―
Dr. Bennington, estamos aqui.
― Louvem os santos! ― Exclamou ele. Ele transferiu seu
paciente para os braços de um ordenado. ― Houve outra
batalha. ― Ele começou a procurar nos cartões antes que
Jack pudesse descarregá-los. ― Vejo que você encontrou tudo
o que eu pedi. Obrigado, srta. Harrison. Os cirurgiões do
exército ficaram sem curativos de gaze, e o álcool de mercúrio
são com o estoque baixo. Com o remédio que compramos em
Frederick, os médicos devem ter o suficiente até que as
remessas possam chegar através das linhas. ― O dr.
Bennington puxou itens de embalagens como uma criança no
natal.
― Não fique aí de pé. ― O sr. Hunt disse para Lila e
Jack. ― Agarrem umas caixas e levem esses suprimentos
para dentro.

168
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Emily ajudou a descarregar também. Felizmente, os


funcionários os interceptaram na porta para aceitar os
suprimentos. Pelo que Emily viu e ouviu no pátio do hospital,
não desejava entrar. O cheiro de sangue cobria o ar,
enquanto os gritos pelas janelas faziam seu coração doer.
Homens feridos jaziam por toda parte, gemendo de dor ou
implorando por água. Sem espaço dentro do hospital, eles
esperavam sua vez com o cirurgião ao ar livre. Alguns
homens estavam tão quietos que Emily tinha certeza que
estavam mortos. Podia-se ver praticamente suas pobres
almas pairando antes de deixarem o mundo terreno para
sempre. Emily correu de volta para a carroça. Jack logo
encontrou um balde e água para acelerar o processo. Durante
horas ela e Lila foram de soldado em soldado para oferecer
bebidas frescas ou colocar panos de algodão sobre a testa
febril. Jack ajudou os soldados a descarregar os feridos, e
então ele transportou baldes sem fim do poço para Emily. Ao
pôr-do-sol, ela rastejou no carrinho para descansar com Lila
logo atrás dela. Nenhuma das duas falou, igualmente
perturbadas pelo que tinham visto.
Pouco depois, o dr. Bennington e James Hunt
chegaram. ― Terminamos aqui por hoje, senhorita Harrison.
O dr. Bennington falou suavemente, sua voz era um
sussurro, mas sua presença quase assustou a inteligência
dela.
― E o resto dos feridos, o que será deles? ― Emily
acenou com a mão sobre um mar de uniformes
ensanguentados.

169
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Outro grupo de médicos do exército chegou para


ajudar. O sr. Hunt e eu fomos liberados de nossos deveres.
Vamos jantar na estalagem antes de voltarmos para Hunt
Farms. ― Ele soou incrivelmente cansado enquanto dirigiam-
se para o canal para lavarem-se.
― Absolutamente não, senhor. ― Ela desceu do carrinho
para segui-lo. ― Eu não sou digna de jantar na cidade. Meu
único desejo é voltar para Hunt Farms e tomar um banho.
O dr. Bennington parecia temporariamente sem palavras
enquanto a água pingava de seu cabelo em sua camisa. O sr.
Hunt foi o primeiro a reagir, estourando em risos. ― Você não
disse isso. ― Ele disse sorrindo de orelha a orelha, Hunt
avaliou a aparência de Emily. ― Você não parece pior do que
qualquer outra pessoa. Isso é tempo de guerra senhorita
Harrison.
― Mesmo assim, senhor, estou com roupas frescas. ―
Emily olhou fixamente de um para o outro, perplexa quanto a
sua diversão.
― Como quiser, senhorita Harrison. Você pode voltar
para Hunt Farms. ― Disse o dr. Bennington. ― Diga à minha
esposa e à sra. Hunt que nós seguiremos logo. Vá direto para
a banheira. ― Acrescentou, rindo como se estivesse impotente
para conter-se.
Emily podia ouvir os risos dos homens por todo o
caminho de volta para a carroça. ― Receio que a tensão e a
fadiga tenham tornado-os histéricos. ― Murmurou para a
amiga.

170
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Não é por isso que eles estão rindo. ― Lila saltou ao


lado de Jack na frente, permitindo que Emily sentasse no
banco de trás.
― Então, o que, por que foi tão engraçado? ― Emily
esperou para perguntar até estarem bem longe dos terrenos
do hospital.
― Uma senhora nunca se refere a tomar banho na
presença de um cavalheiro que não seu marido. ― Lila
arqueou uma sobrancelha e falou como a uma criança.
― Oh, danação. ― Respondeu Emily.
― E uma senhora nunca admitiria que sua aparência
não era adequada para jantar na sociedade. ― Disse Lila.
― É assim? ― A voz de Emily levantou uma oitava.
― Sim, é assim. Mesmo que seja verdade, uma senhora
não chamaria atenção para o fato.
― Isso é simplesmente bobo. Estou quente e cansada e
não me importo com as regras da sociedade agora.
― E uma dama nunca diz Oh, danação... ― Lila
adicionou sob sua respiração
― Você terminou agora, senhorita Amite?
― Sim, senhorita Harrison. Acredito que sim. ― Lila
cruzou os braços sobre o peito e olhou para a frente.
Emily notou pequenas rugas formando em torno dos
olhos de Lila enquanto ela mordeu o lábio com determinação.
― Bem, maldição, senhorita Amite. Eu não sei nada sobre
isso, uma vez que eu sou apenas uma yankee rude do Norte.
― Sim senhorita, isso é muito aparente. ― As duas
mulheres riram então até seus olhos doerem e lágrimas

171
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

escorrerem de seus olhos. Depois de seu dia horrível, sentia-


se bem. E sentiu-se ainda melhor por estar indo para Hunt
Farms... por razões que não tinha nada a ver com banheiras.

― Entre. ― Uma batida na porta despertou Emily e seus


sentidos. Ela quase adormeceu, embalada pela água quente e
fumegante e um fogo quente na lareira. Ainda estava quente
demais para os fogos noturnos, mas a empregada insistiu
quando Emily decidiu tomar banho em seu quarto.
― Você está ainda na banheira? ― Lila entrou
carregando um copo de pé alto.
― Sim, eu nunca mais vou sair. ― Emily fechou os olhos
contra a intrusão.
― Isso pode fazê-la mudar de ideia. ― Lila colocou a
bebida em um banquinho ao lado da banheira. Ela segurava
apenas uma polegada de líquido amarelo pálido.
― O que é isso? ― Perguntou, intrigada pelas bolhas. ―
Você sabe que os Quakers não bebem nada de álcool.
― É champanhe, não álcool. Os franceses bebem como
água. Você não está nem um pouco curiosa? ― Lila colocou
uma pilha de toalhas ao lado do banquinho e começou a
classificar os vestidos no guarda-roupa.
― O champanhe é apenas um tipo de vinho fantasia. ―
Emily observou enquanto pequenas bolhas subiam para a
superfície e explodiam. Ela nunca tinha visto a bebida,
apenas lido sobre isso nos livros. Depois de um momento,
172
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

pegou o copo e tomou o conteúdo em um só gole. Um arroto


muito grosseiro seguiu o engolir.
― Meu Deus, senhorita Emily. Você não devia engolir as
coisas como soro de leite coalhado. ― Lila deixou cair o
vestido que estava inspecionando na cama. ― Você saboreia
um pouquinho de cada vez, especialmente porque este é um
champanhe muito bom. ― Ela demonstrou com a taça vazia.
― Como você sabe disso, Lila? ― Emily inclinou-se mais
fundo no banho de espuma. ― Foi aí que o resto se passou,
você tomou um gole no andar de cima?
Rindo, Lila estendeu a mão para dentro da banheira
para salpica-la. ― Não, eu não. Não havia o suficiente ou eu
poderia ter. Eu aprendi sobre vinhos no vinhedo de meu pai,
que foi treinado pelo dr. Bennington. Esta marca em
particular seria servida apenas para os hospedes ricos, não a
um vizinho parando para mastigar a gordura.
― O tipo é desperdiçado em mim desde que eu não
saberia a diferença. ― Mas Emily saboreou as últimas gotas
restantes em sua língua.
― O sr. Hunt disse que se você quiser mais, deve descer.
― O sr. James Hunt? ― Perguntou Emily. Ela lembrou
de seu comentário embaraçoso fora do hospital.
Lila puxou um envelope de pergaminho fino do bolso. ―
Não, o sr. Alexander. E você sabia muito bem qual sr. Hunt
eu quis dizer.
― Isso é para mim? ― Emily pegou a carta.
― Agora, são duas perguntas dos yankees até agora. ―
Ela segurou o envelope apenas além do alcance de Emily.

173
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Yankee, pergunta? Como você se atreve, seu pequeno


diabinho. ― Emily enviou uma onda de água sobre o lado da
banheira de cobre polido. Água e sabão formaram piscinas
pequenas no chão polido. ― Agora veja o que me fez fazer.
Lila saltou para trás. ― Deixarei a nota aqui para
apressá-la. ― Ela colocou o envelope no manto. ― Leia à sua
conveniência e me chame quando estiver pronta para eu
poder apertar seus cordões. ― Ela saiu em um ataque de
risos.
― Espere até que eu coloque minhas mãos yankee em
seu pescoço magro. ― Um momento depois, ela saiu do banho
e enrolou-se numa toalha grossa. Levou apenas três passos
para chegar ao envelope e menos de dois segundos para
extrair a nota.

Querida Emily:
Por favor, junte-se a mim para um jantar tardio no
terraço. Tenho perdido sua disposição ensolarada nos últimos
dias e desejo compensar minha ausência inoportuna.
Há também algo que eu preciso perguntar-lhe.

Emily releu três vezes sua caligrafia bem inclinada. Com


cada leitura seus batimentos cardíacos aceleraram. Ela voou
por trás da tela pintada para vestir seu espartilho e sua
camisa enquanto sua mente cambaleava com o que vestir, o
que dizer e como agir. Lila tinha escolhido um vestido que
Emily nunca usara, um presente da sra. Hunt. Très chic, a
sra. Hunt tinha declarado quando tirou o vestido da caixa.
Emily duvidava que tivesse suficiente elegância para usar

174
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

uma peça de alta costura. O vestido amarelo pálido com


sobreposição de renda branca revelava seus ombros. Depois
de lutar com seu espartilho, ela pediu ajuda.
Lila materializou-se como um fantasma. ― Eu me
perguntava quando você desistiria de tentar se atacar.
― Todo esse problema para um jantar no terraço. ―
Murmurou ela. ― Eu poderia facilmente comer um sanduíche
no meu quarto. ― No entanto, em meia hora Emily estava
vestida, empoada e perfumada.
Lila juntou seus cabelos úmidos em um grupo acima de
sua cabeça, tecendo uma fita amarela através dos cachos, e
tirou várias gavinhas para enquadrar seu rosto. ― Olhe para
isso. Estou ficando muito boa com seu cabelo grosso. ― Lila
pegou um pote de argila da gaveta.
— Pare. Cosméticos fariam minha mãe virar-se em seu
túmulo. ― Emily falou em um sussurro, embora elas
estivessem sozinhas no quarto.
― Ou ela diria que você está muito pálida para seu
próprio bem. ― Lila mergulhou seu dedo no frasco e tocou as
bochechas de Emily levemente, e então passou a verbena de
limão em seu pescoço e pulsos. ― Feito. Agora vá, antes que o
homem volte ao seu juízo. ― Lila puxou Emily para fora do
banquinho.
― Volte em seu juízo? ― Emily agarrou seu copo vazio e
mostrou a língua para Lila em seu caminho para a porta.
― Muito linda. Certifique-se de fazer isso esta noite. ―
Lila piscou impiedosamente.

175
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Ocupada conspirando vingança contra sua amiga, Emily


não considerou o que a esperava no terraço. Mas uma vez
que saiu, ela percebeu que Lila a tinha distraído
deliberadamente. Caso contrário, ela poderia ter fugido como
uma corça para as margens do rio Ohio.
Banhado no luar, o terraço parecia algo de um sonho de
infância. As taças de porcelana, a prata e o cristal cintilavam
como diamantes em uma pequena mesa de ferro forjado. Um
vaso de lírios brancos do vale estava sobre a mesa, enquanto
uma garrafa de champanhe e uma única taça esperavam nas
lajes. Essas coisas chamaram a atenção de Emily uma a
uma. Como uma criança incapaz de tomar todo o esplendor
de uma árvore de natal, ela concentrou-se em uma coisa de
cada vez. Deu um passo para o terraço e sentiu o olhar de
alguém sobre ela. Virando-se, Emily viu Alexander
descansando contra a balaustrada com as pernas cruzadas
nos tornozelos. Sua respiração ficou presa em sua garganta, e
um nó apertado formou-se em seu estômago.
― Estou feliz que você tenha escolhido juntar-se a mim
esta noite, senhorita Harrison. ― Descontraído e à vontade,
ele cruzou os braços sobre o peito e sorriu.
― Uma pessoa precisa comer, e os meus acompanhantes
ainda estão em Paris. ― Emily cruzou as lajes como se
andasse sobre brasas. ― Eu espero que as meninas voltem
logo. ― Ela colocou o copo sobre a mesa, contente por
lembrar-se de devolver a taça vazia.
― Você veio para enchê-la novamente? ― Ele diminuiu a
distância em alguns passos longos.

176
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Sim, eu vim. Eu não acho que uma única taça de


champanhe vai doer, embora meu pastor Quaker possa não
concordar. ― Ela forçou-se a olhar para ele.
― Vou escrever para Paris amanhã e pedir que uma
caixa de champanhe seja colocada a bordo no próximo navio
com destino a Virgínia. ― Ele encheu dois copos com o líquido
borbulhante. ― Além disso, a bíblia declara que só a
embriaguez é uma abominação ao Senhor.
― Eu não o tomei por um homem bem versado na
Escritura. ― Aceitando a taça, Emily tremia enquanto seus
dedos roçaram.
― Então você assumiu injustamente. Estudei teologia na
Universidade de Virgínia, além de linguagem retórica e
filosofia. No entanto, isso parece uma vida, quando eu era
mais jovem e um homem mais... idealista. Os últimos anos
teriam minado o mais resoluto dos crédulos.
Emily decidiu não perguntar como a guerra afetava
alguém que não servia ativamente. ― E o bloqueio federal no
litoral? Será que eles não interceptam quaisquer remessas do
exterior? ― Imediatamente ela lamentou a pergunta. Se seu
namoro era para mascarar suas atividades clandestinas,
talvez ela não devesse falar de guerra em tudo. E se ela fosse
sincera, desejava gozar uma noite sem pensar nas
circunstâncias atuais.
― Alguns dos meus melhores amigos possuem
corredores de bloqueios ágeis. Se esta safra é a seu gosto, seu
desejo é o meu comando. ― Ele levantou o copo em saudação
e depois bebeu metade do conteúdo.

177
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Não desperdice seu dinheiro. Eu não notaria a


diferença. ― Ela bebeu delicadamente, estudando-o sobre as
bolhas. Sua gravata amarrada pendia frouxamente sobre
uma camisa branca de linho, aberta no pescoço. Ele não
usava casaco, apenas um colete desabotoado. Os músculos
tensos do peito puxaram o tecido de sua camisa quando ele
apoiou uma palma sobre a mesa. Enervada por sua
proximidade, Emily tomou um gole longo da bebida e lutou
com um espirro da efervescência.
― Você está linda, Emily. ― Os olhos de Alexander não
saíram dos dela. ― Esse vestido é deslumbrante. Ou talvez o
vestido seja um pedaço de pano sem valor, mas encontrou a
redenção sendo usado por você. ― Ele terminou o resto de
sua taça.
Ela bebeu antes de responder. ― Sua observação
anterior está correta, sr. Hunt. O vestido é um presente de
sua mãe. Ela costuma fazer coisas assim?
― Fazer coisas como o que? ― Sem aviso, ele afastou
uma mecha de cabelo de sua bochecha.
Emily afastou-se do gesto íntimo, mas não se opôs. ―
Esbanjar presentes caros com um dos funcionários da sua
irmã? ― Mais uma vez ela levou o copo de ouro líquido aos
seus lábios.
― Eu suspeito que foi o seu relacionamento comigo que
ocasionou o presente.
Ela pestanejou várias vezes, mesmo que o sol se tivesse
posto há muito tempo. ― É isso mesmo? Eu não sabia que
tínhamos um relacionamento, sr. Hunt.

178
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Talvez tenha sido apenas o desejo de minha mãe... e o


meu. ― Chegando para o rosto de novo, ele acariciou suas
bochechas com as pontas dos dedos.
Emily saltou como um coelho assustado. ― Porque você
se comporta tão ousadamente, senhor? Pensei que tinha sido
convidada para jantar, não para minha sedução. Estou com
fome, com certeza. ― Sua voz permaneceu firme, fingindo
uma calma que não sentia. Parte dela queria colocar esse
galo presunçoso em seu lugar, enquanto outra parte desejava
que suas carícias nunca parassem.
― Eu imploro seu perdão. ― Alexander sorriu
preguiçosamente, reenchendo ambas as taças. ― Tenho
certeza que você está com fome. Foi uma longa viagem a
Front Royal e depois para casa. Meu tio está em dívida para
com você. ― Puxando a cadeira, ele fez um gesto para os
criados invisíveis.
Emily sentou-se na saia volumosa, em anáguas e no aro
pesado. Sua boca abriu-se quando os alimentos começaram a
chegar. Joshua materializou-se a sua direita com um prato
de carne assada, biscoitos com mel, feijões, maçãs assadas e
milho em creme doce. Emily encheu seu prato e
imediatamente arrependeu-se de pegar tanto. As senhoras da
sociedade de Virginia não carregavam seus pratos como os
fazendeiros de Ohio.
Alexander não pareceu notar, porque ele amontoou seu
prato ainda mais alto. Eles comeram em silêncio,
companheiros por alguns minutos, acalmados pelo som
familiar de grilos no campo além da varanda. Restaurada pela

179
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

comida e amolecida pelo champanhe, Emily relaxou pela


primeira vez em sua presença. Sua taça tinha sido
recarregada uma vez mais, então ela não ousou esvazia-la
novamente. Empurrou-a para além do alcance, para não ser
tentada pelas deliciosas bolhas. Alexander contou histórias
divertidas, contos caseiros de crescer em uma vasta
plantação. Algumas tribulações da infância permaneceram as
mesmas, independentemente de sua classe ou
circunstâncias. Porque cortejá-lo era uma parte integral de
seu estratagema, ela não se encolheu quando ele limpou o
mel de seus lábios com o dedo.
Mas quando ele limpou o dedo na boca e lambeu a
viscosidade, seu senso de propriedade retornou.
Enrubescendo, ela levantou o guardanapo para remover o
resto.
― Permita-me. ― Ele falou suavemente e depois
inclinou-se sobre a mesa para beijá-la. Mas como o destino
queria brincar, ele não conseguiu alcançá-la. Seus lábios
flutuavam a centímetros de distância um do outro.
O gesto a hipnotizou e Emily fez o que qualquer mulher
de sangue quente faria. Ela inclinou-se para a frente e fechou
os olhos. Seu esforço mínimo foi o suficiente. Seus lábios
cobriram os dela, e então sentiu sua língua traçar o contorno
de sua boca para retirar qualquer mel restante. Os
batimentos cardíacos de Emily se amplificaram até um rugido
em seus ouvidos. Apenas as palmas das mãos contra a mesa
impediram-na de cair da cadeira. Ela respirou seu cheiro e
saboreou o beijo como uma guloseima há muito negada.

180
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Agarre-se, pensou ela depois de um momento.


Recuando, endireitou as costas e olhou ao redor como se
acordasse de um sonho.
― Que tal um passeio, senhorita Harrison? ― Ele
perguntou em um lento sotaque sulista. ― Isto é, se você
terminou o jantar.
― Sim, vamos andar. Eu não poderia comer mais nada.
Espero que você não me considere grosseira, mas nunca
provei comida tão deliciosa.
― Eu nunca pensaria tal coisa. As mulheres devem ter
apetites saudáveis. Mas eu distrai você antes que colocasse
uma garfada em sua boca.
― Meu espartilho me agradecerá por ter ido embora. ―
Ela mordeu a língua, certa de que espartilho estava na lista
de Lila de tópicos de conversas inapropriadas.
A lua, logo acima das linhas das árvores, iluminava os
degraus até um caminho de seixos. Ele a guiou até um jardim
coberto de sombras, misterioso e estranhamente acolhedor.
Uma vez longe de casa, Emily sentiu a expectativa correndo
pelo sangue dela como tônico. Por que não deveria beijá-lo?
Matthew está morto e meus pais também. Para quem estou me
guardando? Ninguém ficará decepcionado comigo.
― O que você acha da nossa glicínia? ― Alexander
abaixou-se sob um teto formado por vinhas espessas e
arborizadas. ― Meu bisavô a plantou logo depois de construir
a casa com estacas que ele carregava de sua casa ancestral
em Hampishire. ― Grupos de flores roxas formavam um

181
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

dossel acima de suas cabeças, sua fragrância quase


intoxicante.
Emily inclinou a cabeça para trás e inalou
profundamente. ― Nunca vi nada tão lindo.
― Nem eu. ― Não esperando permissão, ele roçou seus
lábios com o mais suave beijo.
Ela ergueu-se na ponta dos pés e devolveu o beijo,
sentindo o calor irradiar de seu peito. Qualquer outro dia
teria se sentido mortificada por seu comportamento, mas não
hoje. Estes não eram como os beijos de pátio que ela tinha
compartilhado com Matthew. Enquanto suas entranhas se
agitavam com trepidações, um choque elétrico correu de sua
barriga até seus joelhos. Então ele envolveu seus braços em
volta dela e puxou sua cabeça para seu ombro. Deixou-se
abraçar enquanto sussurrava seu nome no tecido de sua
camisa.
― Alexander.

182
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 9

Alexander voltou a seus sentidos e recuou. ― Perdoe-me,


senhorita Harrison. Eu não quis faltar com respeito. Eu não
quero tirar proveito de sua situação, especialmente porque
estamos em guerra. ― Ele segurou-a no comprimento do
braço.
― Sem desrespeito, mas eu pensei que você estava me
chamando de Emily.
Ele levantou-lhe o queixo com um dedo. ― Você quer
que eu use seu primero nome?
― Sim, pelo menos quando estamos sozinhos... como
agora.
― Você está certa sobre isso? ― Ele não queria nenhum
mal-entendido.
― Sim, tenho certeza de que estamos sozinhos. ― Ela
sussurrou, sorrindo para ele.
― Não. ― Ele disse, nervoso. ― Está dizendo que aceita
meus avanços?
Ela olhou em volta com diversão. ― Não há ninguém
aqui além de você, Alexander. Você deve ter sido a pessoa que
me beijou.

183
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Maldição, Emily. Leve isso a sério. Eu não sou um


garoto de fazenda brincando.
― Parece que mudei minha opinião sobre você. É uma
prerrogativa feminina. ― Ela beijou-o completamente na boca.
― Talvez eu esteja me apaixonando por você.
― Apaixonada por mim? Na maioria dos dias você age
como se você não gostasse de mim. Deve ser a conversa do
champanhe, não a nossa senhorita Harrison. Amanhã você
vai se sentir diferente e lamentar tudo o que você disse ou fez
hoje à noite.
― Eu asseguro que não, mas devemos entrar antes de
sermos vistos.
Seu sorriso aqueceu seu coração. ― Ninguém está em
casa para nos ver. Minha mãe e minha tia Augusta foram
para a casa de um vizinho, e meu pai e o tio Porter não
voltaram do Front Royal.
― Estamos sozinhos? ― Ela parecia infantil, não como a
mulher beijável dos últimos minutos.
― Não tenha medo, Emily. ― Ele colocou um cacho atrás
de sua orelha.
― Eu não estou com medo. Mas se ninguém estiver em
casa, eu adoraria ver o resto da casa, não apenas as salas
públicas no primeiro andar. ― Ela apertou as mãos atrás das
costas. ― Estou curiosa quanto ao que você mantém atrás
das portas fechadas.
Ele riu, contagiado por seu entusiasmo. ― Vamos descer
as escadas para a galeria. Com sorte, os criados não nos
verão entrar furtivamente pelas portas francesas.

184
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― E diga à sra. Bennington. ― Ela sussurrou, já


saltando sobre o chão molhado de orvalho. Ela sorriu para ele
por cima do ombro. ― Eu não acho que eu poderia enfrentá-la
durante o café da manhã se ela soubesse que eu estava lá em
cima sozinha com você.
Alexander apressou-se a alcançá-la no caminho, e então
subiram os degraus do segundo andar sem fazer uma pausa.
Ele espiou pelo corredor em ambas as direções. ― Até agora
ninguém nos viu. Não haverá línguas abanando amanhã. ―
Ele abriu a porta de todos os quartos para que ela pudesse
olhar para dentro. Quando abriu as portas esculpidas e
duplas da última suíte, Emily percorreu com calma, igual um
dia morno de primavera.
― Minha nossa! ― Ela exclamou, girando no centro da
sala. ― Eu nunca vi um quarto maior ou mais espaçoso. ―
Ela estudou a mobília do quarto com reverência antes de ir
para varanda. ― Há até uma espreguiçadeira para dormir ao
ar livre em noites quentes, com uma mesa de café com vista
para metade do Vale Shenandoah.
― Venha Emily. ― Alexander juntou-se a ela na porta. ―
Certamente você já viu vestiários de senhoras mais luxuosos
do que isso.
― Eu asseguro que não. E esse é o pedaço de mobília
mais incrível que já vi. ― Ela apontou para a cama alta com
dossel e cercada por musselina fina para permitir a brisa
dentro e manter insetos voadores fora. A cama criou um
recanto fechado com travesseiros gordos, um cobertor
bordado, e uma coberta de penas macia. ― Como é que

185
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

alguém se mete nessa coisa? ― Sem esperar uma resposta,


ela deu um pulo e se jogou na cama.
― Meu pai comprou a antiguidade no exterior, na Itália,
acredito. ― Aproveitando sua ingenuidade exuberante,
Alexander permaneceu no centro da sala.
― Uma pessoa dormiria bem aqui. Não é nada como a
cama estreita e irregular que eu tinha em Ohio. ― Ela
esticou-se languidamente como um gato, seus braços acima
de sua cabeça.
― Realmente, mas há uma maneira convencional de
subir e descer. ― Ele deslizou uma plataforma de três
degraus debaixo da saia da cama.
Sentada, ela inclinou sobre a borda o suficiente para
cair. Ela ignorou os passos e saiu da cama com um baque.
Alexander a seguiu ao redor do quarto enquanto
continuava sua observação detalhada, oferecendo uma
história para explicar tudo o que ela tocou. Ele sentiu como
se tivesse visto a estante, os estofados, a poltrona, a mesa de
mogno e o lavabo pela primeira vez também.
― Havilland China. ― Emily bateu no jarro com o dedo.
― Eu reconheci o padrão dos livros da senhorita Turner.
Graças a Deus eu não sou uma camponesa totalmente
ignorante.
― O conhecimento de tais assuntos é atualmente
superestimado, especialmente em tempos de guerra.
― Não há um, mas dois armários juntamente com duas
cômodas altas. ― Ela caminhou até a lareira e passou uma
mão sobre o manto de mogno. ― E alguém acendeu o fogo

186
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

para a noite fria. Este deve ser o quarto reservado para um


convidado muito especial, uma pessoa que viaja com uma
enorme quantidade de roupas.
― O quarto não é para os hóspedes, Emily. Ele é meu. ―
Ele esperou por sua reação.
Ela girou sobre o tapete de lareira oriental, seu rosto
virando a cor de um tomate maduro. ― Meu Deus, Alexander!
Por que você não me disse antes? Eu nunca teria invadido
sua privacidade de tal maneira. ― Emily ficou imóvel, como se
estivesse paralisada.
― Você não invadiu nada. Tenho o prazer de mostrar
minha casa, eu agradeço a Deus por ter me concedido isto e
por poder enxergar através de seus olhos. ― Ele curvou-se até
a cintura. ― Eu não preciso de privacidade, inspecione tudo o
que você quiser. ― No momento que pronunciou as palavras,
ele percebeu a loucura de sua declaração.
Emily marchou para uma das cômodas altas e abriu as
portas esculpidas, sorrindo maliciosamente. ― Meu pai só
possuía um terno, um chapéu, dois pares de calças de
trabalho e meia dúzia de camisas. Vamos ver quantos você
tem. ― Seus olhos cresceram em torno do número de
casacos, jaquetas e coletes, com uma pilha de calças bem
presas em um lado e pilhas de camisas engomadas no outro.
Havia lençóis de inverno, algodões de verão, lençóis
engomados, lençóis incontáveis e pelo menos uma dúzia de
pares de chaves penduradas em pinos. ― Seu guarda roupa é
mais vasto do que a soma total do que meus pais e eu
possuímos em nossas vidas. ― Ela deu um passo atrás,

187
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

olhando fixamente. ― Como no mundo você escolhe o que


vestir todos os dias? ― Emily passou a mão por um longo
manto. ― E este requintado material, seda chinesa? Eu li
sobre o tecido.
― Meu ajudante me ajuda a fazer as seleções, e sim,
esse pano foi importado do Oriente.
Ela pressionou a suave seda em seu rosto. ― Eu ficaria
neste roupão o dia todo e recusaria vestir-me.
― Emily por que não vemos a arte na sala da manhã?
Há alguns...
― Por favor, deixe-me continuar. Eu estou fascinada por
seu guarda roupa. ― No outro armário eram roupas mais
práticas. Camisas de algodão, calções de couro, botas de
couro altas e uma coleção de chapéus de palha empoleirados
na prateleira superior. ― Ah, roupas úteis para um
cavalheiro. ― Ela estava prestes a fechar as portas quando
uma peça de vestuário chamou sua atenção, um longo casaco
de lã de nogueira do mato com dragonas douradas distintivas
adornando o ombro.
― Tem certeza de que se importaria com um pouco de
chá? A carne assada deixou-me sedento. ― Ele atravessou a
sala em três passos largos, tentando atrai-la de uma maneira
suave, mas deliberada.
Ela não se moveu. ― Este é um uniforme de oficial de
Confederação. ― Ela puxou a peça para um olhar melhor.
Alexander caminhou de volta para o armário com um
gosto azedo subindo por sua garganta. ― Era um presente de

188
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

um velho amigo, um ímpeto para induzir-me à causa


Gloriosa. Receio que não tenha funcionado.
― Eu li em algum lugar que Richmond é curto em
uniformes para soldados. Talvez o cavalheiro gostaria de tê-lo
de volta. ― Ela falou em voz suave.
― O ex-proprietário... Està morto, Emily. ― Alexander
fechou o guarda roupa e segurou-lhe a mão. ― Não vamos
falar dele, de tecidos ou roupas.
― Perdoe-me, sr. Hunt. ― De repente ela balançou a
cabeça como se acordando de uma sesta. ― Eu ultrapassei os
limites como uma governanta, junto à sua hospitalidade. Eu
vou voltar para meu quarto agora. ― Ela fez uma reverência
com a inocência de uma criança. ― Obrigada pela ceia.
― Você não tem porque se desculpar, mas por que não
adiamos para...
Mas ela já tinha deixado o quarto e desaparecido nos
degraus. Todos os pensamentos e beijos no jardim foram
aparentemente esquecidos.
Alexander fechou a porta do quarto enquanto as
memórias de Emily rastejando de um celeiro no meio da noite
retornavam. Com o exército federal acampado a não mais de
30 quilômetros de distância, ela teria se esgueirado para
encontrar um amante yankee? Envolta em seu manto,
sozinha, mas aparentemente sem medo, ela não parecia
tímida ou indefesa naquela noite. Ele deveria ter pedido para
ela explicar-se quando ele teve a chance em vez de cair preso
em sua doçura e beleza.

189
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Que trabalho, que atriz inteligente que você é, senhorita


Harrison, mas dois podem jogar seu pequeno jogo de intriga.
Seus lábios se diluíram em uma linha estreita quando
sua mandíbula apertou. Depois de percorrer o comprimento
da galeria por uma hora, ele ainda não conseguia entender.
Há muito tempo ele teria orado por orientação, enviando seus
problemas para o céu, mas ele havia desistido de esperar
ajuda de Deus. Com este enigma como com todos os outros,
ele estava sozinho.
Exausto, ele finalmente se arrastou para a cama por
uma hora de descanso. Mas seu sono perturbado pouco fez
para refrescar ou restaurar. Fantasmas encheram seus
sonhos, aqueles do passado e aqueles ainda por vir. E uma
ninfa de cabelos vermelhos, usando um manto escuro no
meio da noite, dançou através de todos eles.

Emily também não dormiu muito naquela noite. Ela


acordou na escuridão com um sobressalto,
momentaneamente confusa com o que a rodeava. Quando ela
lembrava cada doce beijo e toque suave, um rubor enchia
suas bochechas e calor se espalhava por sua barriga.
Puxando a colcha até o pescoço, ela saboreou a lembrança da
noite mais encantadora de sua vida. Alexander, de cabelos
longos, olhos de sonho e lábios de mel, um sonho que a tinha
arrastado e levado para longe. Emily riu do absurdo de beijá-
lo no jardim como se fossem personagens de um romance de
190
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

dez centavos. Mas Alexander não era um sonho ou um


personagem de livros de história. Ele era um homem de carne
e osso que ela considerara seu inimigo há não muito tempo.
Eu realmente disse que poderia estar me apaixonando por
ele? Lembrando-se de sua confissão no calor do momento, ela
puxou as cobertas sobre sua cabeça.
― Nunca mais bebo champanhe. ― Ela gemeu em voz
alta.
Então, ela lembrou algo estranho que ele havia dito
também: eu não quero me aproveitar da situação,
especialmente porque estamos em meio a uma guerra. Que
comentário estranho de alguém que criou cavalos longe dos
horrores do campo de batalha. Mathew nunca voltaria a fazer
dela sua noiva, para construir um lar para eles. Ela não era
mais uma mulher comprometida com um futuro. O fato de
estarem em guerra foi a razão pela qual ela procurou uma
noite de companheirismo humano.
Jogando de volta as cobertas, ela correu para acender a
lâmpada da chaminé. Mas, no meio do chão, ela parou
quando um relâmpago atravessou sua cabeça. Pressionando
seus dedos nas suas têmporas, caiu em uma cadeira, a dor
afiada um lembrete do champanhe. Surpreendentemente,
não sentiu nenhuma pontada de culpa por beijar Alexander
no jardim. Será que este comportamento ousado se tornaria
normal para ela depois de uma vida de decoro adequado?
Esperava que não, mas o homem parecia ter mudado tudo.
― Alexander. ― Ela sussurrou seu nome no quarto
escuro, como que testando o som dele pela primeira vez. ―

191
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Alexander Wesley Hunt. ― Disse com um traço sulista. ―


Alexander Wesley Hunt da linha distinta e remota de
Mayflower Wesley Hunts. ― Falou com um sotaque britânico,
fazendo as palavras soarem à maneira que Miss Turner teria
dito, e depois riu. Emily sabia que estava agindo como uma
garota com seu primeiro amor na escola, mas ela não se
sentiu assim com Matthew. Ela nunca tinha experimentado
essa emoção antes.
Envolvendo um xale em torno de sua camisola,
caminhou para a varanda. Ninguém se moveu ao ar livre, até
os criados estavam dormindo a esta hora. Ela subiu os
degraus até a galeria superior, pisando como um rato
passando por cada quarto escuro até chegar ao que ela sabia
ser o dele. As portas francesas estavam entreabertas para
apanhar a brisa da noite, e uma lâmpada de querosene tinha
sido deixada em chamas, com o pavio cortado. Com cuidado
para não fazer barulho, ela esgueirou-se até a porta para dar
uma espiada. Ela nunca tinha visto um homem adormecido
além do seu pai, que roncava alto o suficiente para acordar
vizinhos a uma milha de distância.
Mas uma visão de Alexander enrolado sob a coberta
bordada, envolto por musselina, não era para acontecer. Seu
quarto estava vazio. Apenas um emaranhado de lençóis de
cama, enrolados em uma bola, indicava que alguém tinha
estado ali mais cedo. Audaciosamente, Emily entrou no
quarto, sabendo que ela poderia ser descoberta e questionada
a qualquer momento. Então ela seria demitida e enviada de

192
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

volta para Ohio sem referências ou perspectivas de emprego.


No entanto, seu quarto a atraiu como uma traça à roupa.
É isso que o amor faz a uma pessoa – a faz ser
imprudente o suficiente para invadir o domínio privado de
outro sem convite? Ela olhou para as portas abertas com um
arrepio, mas não correu dessa vez. Em vez disso, levantou a
lâmpada da mesa e aproximou-se do armário onde tinha visto
a túnica oriental. O que sentiria tendo a seda em sua pele?
Ela seria corajosa o suficiente para experimentá-la? Mas
quando ela pegou a túnica, notou que o uniforme de cinza
com guarnição de bronze e borlas estava faltando. Emily
levantou a lâmpada e passou os cabides sem sucesso. O
presente de um amigo de infância morto, um ímpeto para se
juntar à Causa Gloriosa, sumiu.
Um estranho frisson de medo serpenteou pela sua
espinha. Ela voltou a lâmpada para a mesa e saiu correndo
do quarto. Fez uma pausa na varanda, escondida por baixo
das vinhas entrelaçadas, e agarrou seu xale firmemente ao
redor de seus ombros. A escuridão envolveu o mundo, o céu
do leste dando apenas um toque de madrugada. No jardim,
as corujas chamaram seus companheiros, quando os bastões
se lançaram em sua busca eterna pelos mosquitos. Emily
arrastou-se em direção ao topo dos degraus e depois congelou
ao som de um trinco raspante. Olhando de soslaio na direção
do barulho, Emily observou um homem alto, poderosamente
constituído, levar seu cavalo do celeiro. Vestido com roupas
escuras e botas altas, ele parou no bebedouro. Se ele não
tivesse permitido que seu cavalo bebesse, ela nunca teria

193
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

sabido a identidade do cavaleiro noturno. No luar, ela


reconheceu o perfil de Alexander e seu cavalo, Phantom.
Onde ele poderia estar indo a essa hora? Será que ele vai
para o leito de outra mulher, porque eu permiti apenas alguns
beijos?
Emily inclinou-se precariamente sobre o trilho e
vislumbrou o uniforme de cinza com botões de latão
brilhantes e um chapéu estranhamente emplumado. Se ela
não estivesse apaixonada e consumida pelo ciúme feminino,
ela poderia ter tirado uma conclusão diferente do seu traje.
Ela observou até que ele montou em seu cavalo e se afastou,
desaparecendo na noite escura. Então ela voltou para sua
própria acomodação modesta, não desejando permanecer no
quarto por mais um momento. Enquanto uma lágrima
escorria pelo rosto, sabia que tinha visto tudo o que precisava
ver. Quão tola tinha sido em acreditar que ele poderia amar
uma mulher como ela.
Eu vou instruí-lo na superioridade.
Você tem seus segredos, Alexander, e eu tenho o meu.
Agora eu não me sentirei tão culpada com o que eu planejo
fazer.

― Coronel, senhor! ― O capitão Smith soltou uma


saudação enquanto seu superior entrava em uma clareira
enevoada na floresta.

194
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Alexander estava atrasado. Ele tinha marcado o


encontro para a meia noite em sua última separação.
Enquanto ele dominava Phantom, quarenta rangers pararam
o que estavam fazendo e deram-lhe a sua atenção. Aqueles
reunidos eram os melhores e mais confiáveis. Desejava poder
cumprimentar pessoalmente cada homem, mas o tempo era
precioso. ― Cavalheiros, o amanhecer será dentro de uma
hora e há muito o que fazer, mas preciso de um momento
com o capitão Smith. ― Ele ofereceu a seus homens um
sorriso raro e depois assentiu com a cabeça para seu segundo
no comando. Desmontou do cavalo, entregou as rédeas ao
soldado mais próximo e caminhou para o fogo que ardia.
Nathan Smith seguiu-lhe os calcanhares. Os homens ao
redor do fogo recuaram para dar-lhes alguma privacidade.
― O que você descobriu, capitão?
Smith deu-lhe uma xícara de café. ― Nossos batedores
vêm reunindo informações nos últimos dias, senhor. O
exército de Meade mudou-se de Centerville e está acampado
fora de Warrenton.
Alexander sorriu ao ouvir a notícia. ― Eles estão muito
próximos. Os yankees estão vindo para nós desta vez.
― Eu acredito que eles estão planejando ficar por algum
tempo, senhor. Um trem de vagão deixou o depósito em
Gainesville e está vindo nesta direção. Os vagões de
abastecimento vêm descendo a Turnpike de Warrenton o dia
inteiro e a noite. ― Smith gesticulou para o oeste com a mão
enluvada.

195
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Você não confessa, mas não o vejo tão animado há


muito tempo. ― O coronel deu um tapa nas costas do
ajudante. ― Você me diz que nenhuma tropa protege esta
deliciosa fileira de vagões? ― Ele bebeu o café amargo e
fumegante.
― Receio que não tenhamos sorte, senhor. Eles
montaram uma tela de cavalaria para o perímetro dezesseis
quilômetros em torno de seu acampamento, e tem cavalaria
montando ao lado dos vagões com os guardas de infantaria
também.
― É assim mesmo? Parece que eles nos esperam,
capitão. ― Ele terminou o café com outro gole.
― Sim, acredito que sim. Por que não os enganamos e
subimos pela Avenida Pensilvânia em Whashington para
pagar ao velho um telefonema social? Duvido que nos
esperem lá.
Alexander arranhou a nova barba que crescia no queixo
como se ponderasse a ideia. ― Os nossos olheiros têm alguma
ideia do que há nos vagões? Nós vamos ficar bem
desacreditados se arriscarmos nossas vidas por mais pedaços
de chita.
O capitão Smith fez uma careta com a lembrança de um
de seus ataques fortuitos. ― Eles têm centenas de cavalos,
muita cavalaria em estoque e mulas, lotes de mulas. Além
disso, o que há dentro dos vagões cobertos.
― Quantos animais?
― Pelo menos uma centena. Talvez cento e cinquenta.

196
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Alexander atirou os grãos de café no fogo e caminhou do


anel de luz para o bosque denso. Smith sabia que era melhor
não segui-lo, mas não demorou muito a esperar. O notório
Fantasma Cinzento nunca levou muito tempo para traçar um
plano. Essa era uma das razões pelas quais Alexander era tão
bom no que fazia. Em poucos minutos ele emergiu e começou
a chutar a sujeira no fogo. ― Desmontar o acampamento,
capitão. Vamos para Salem. Nós vamos atingi-lo hoje à noite,
depois de escurecer.
Não foram necessárias outras explicações. O que quer
que eles precisassem saber ficaria claro na hora certa. Depois
que o último homem subiu em sua sela, eles seguiram seu
líder para o oeste com fé completa. Por várias horas os
guardas escolheram seu caminho através de espinheiros e
florestas, golpeando mosquitos, suando com o calor e a
umidade. Finalmente, quando o trajeto coberto juntou a uma
estrada de terra usada por fazendeiros locais, a conversação
tornou-se outra vez possível.
O capitão Smith trouxe seu cavalo para montar ao lado
do coronel, deixando os homens a uma curta distância. ―
Você perguntou a ela?
― Perguntei a quem, capitão? ― Alexander sabia o que
Smith perguntava, mas não queria discutir o assunto.
― Perguntou à governanta o que diabos ela estava
fazendo em Berryville? Ela estava muito longe de Hunt
Farms, mas talvez não tão longe de seus amigos ianques.
Alexander lançou um olhar de cautela. ― Não, eu não
fiz.

197
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Você está confundido, Alex, por que não? ― Seu


ajudante inclinou-se para a frente em sua sela, esperando
uma resposta.
― Deixe-a ir, Nathan. A mulher não é uma espiã. ―
Rosnou ele. Então ele suavizou o tom para o amigo mais
confiável. ― O assunto não surgiu porque estávamos
envolvidos em outras atividades.
Isso levou Smith, não tão rápido como Alexander, a
precisar de um momento para digerir. ― Bom sofrimento,
cara. Quer dizer que levou a ianque para a cama?
O braço de Alexander disparou para agarrar Smith pela
manga, quase puxando-o de seu cavalo. ― Cuidado com a
sua língua a respeito da senhorita Harrison ou eu vou te
bater aqui. Ela é uma dama, seja uma ianque ou não.
Smith endireitou-se na sela. ― Fácil, cara. Eu não quis
ser desrespeitoso. Eu estava apenas curioso sobre o que ela
estava fazendo naquele celeiro.
Alexander soltou seu aperto na manga de Smith ―
Lembre-se do que a curiosidade fez com o gato.
― O que está acontecendo com você? ― Smith olhou por
cima do ombro. ― Eu não vi você irritado desde que o
professor pegou você beijando Margaret O`Brien. Ela não te
fez sentar no lado das meninas do quarto por uma semana. ―
Ele controlou seu cavalo a um ritmo mais lento.
Alexander cerrou os dentes. ― Já não somos estudantes,
capitão. Vou descobrir por que ela estava em Berryville no
devido tempo. Entretanto, mantenha a sua língua longe de
assuntos relacionados com a senhorita Harrison. Agora desça

198
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

e viaje com os homens. ― Ele estimulou Phantom e avançou


para a estrada estreita.
Tinha muito em que pensar, o ataque que
empreenderiam naquela noite e aquela governanta de cabelos
vermelhos, aquela com a qual ele havia jurado manter
distância. Sua raiva era mais consigo mesmo do que com seu
ajudante inquisitivo. Eu perdi a cabeça? Sem fim para as
hostilidades à vista, ele não estava em posição de perder seu
coração para uma mulher. A derrota poderia vir a qualquer
momento a partir de informações defeituosas ou um simples
erro de cálculo da força inimiga. Suas tropas eram sempre
separadas em grupos. Somente suas táticas de surpresa,
subterfúgio e fugas rápidas lhes permitiram prevalecer até
agora. Se fosse capturado, seria enviado para uma prisão no
Norte ou para a forca. Ele não precisava de alguém para se
preocupar para além de seus pais idosos. Ele cerrou os
dentes por sua imprudente perda de controle. Por que ele a
beijara na ceia e novamente no jardim? A professor aQuaker
de Ohio fora simplesmente uma intimidação? Tinha se
tornado um canalha dissipado? Não. Ela tinha se infiltrado
em cada pensamento, acordado ou sonhando.
O fato era de que ela era uma ianque, criada em uma
casa onde a escravidão era uma abominação, não um mero
debate filosófico. Até onde ela iria se suas convicções
antiescravistas fossem tão fortes quanto seu amor pela Causa
Gloriosa?
Estaria disposta a sacrificar tanto quanto ele?
Estaria disposta a sacrificá-lo?

199
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Mais importante ainda, ele sacrificaria seus homens?


Alexander não tinha medo de sua própria morte, mas não iria
comprometer as vidas de seus guardas novamente. Uma
imagem da traidora Rosalyn afundava seu estômago, banindo
seus pensamentos agradáveis de Emily. Como ele foi
estúpido. Algumas mulheres diziam ou faziam qualquer coisa
para conseguir seu objetivo. Durante o resto da viagem para
Salem, uma única pergunta o atormentou. Sou um tolo para
confiar em uma mulher novamente?
O trem de vagão que se dirigia ao acampamento da
União do depósito de Gainesville demonstrou estar bem
guardado. No entanto, os batedores de Alexander relataram
tropas e artilharias principalmente na frente e na retaguarda,
deixando o centro relativamente desprotegido. O
empreendimento era agora possível, mas ainda não fácil.
Mesmo que atacassem de lado, os condutores que dirigiam os
vagões poderiam facilmente alertar os regimentos de tropas.
Mas o coronel conhecia apenas uma distração a usar. Ele
enviou Dawson e oito homens vestidos em uniformes federais
para se disfarçar como uma unidade de cavalaria em dever
preventivo. Os impostores prenderam os oficiais da União que
guardavam o meio e ordenaram que os vagões saíssem da
linha. Em seguida, os guardas rodearam os condutores,
amarraram os cavalos e as mulas e confiscaram vários vagões
de comida antes que o resto da caravana soubesse alguma
coisa. E sem ser disparado um único tiro. O coronel entregou
então os animais e as provisões às tropas confederadas nos
montes do Shenandoah.

200
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Quando as tropas do Fantasma Cinzento finalmente


retornaram a um de seus acampamentos secretos, tinham
muitos motivos para comemorar. Eles haviam aliviado o
exército federal de cerca de doze mil dólares na substituição
de montarias e fizeram uma festa de iguarias para seu jantar.
Naquela noite eles jantaram peixe defumado, laranjas frescas,
batatas doces, arroz e feijão em conserva. Passaram em torno
de uma garrafa de conhaque guardada da caixa entregue aos
oficiais confederados. Os álcool subiu entre os homens ao
redor da fogueira... menos em seu líder.
Alexander escolheu a sua comida. Quando o capitão
Smith passou-lhe a garrafa de brandy, ele se recusou a
beber. O álcool apenas enfraqueceria sua força de vontade e
reduziria suas inibições. Ele sabia muito bem o que acontecia
quando se entregava ao prazer. Não desejando comer, e não
ansioso para dormir por medo de que uma sereia de cabelos
escuros ou uma governanta de cabelos vermelhos
assombrasse seus sonhos, Alexander fez algo que não fazia
há muito tempo. Arrastou-se para a floresta, sentou-se de
joelhos e começou a orar.
Nenhuma vida havia sido perdida na missão de hoje. A
divina providência interveio novamente, poupando as vidas
de sua tropa e do inimigo. A divina providência havia
concedido graça a um homem que não tinha direito à graça.
O mínimo que podia fazer era expressar sua gratidão.

201
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 10

Nathan Smith não era um homem feliz também.


Normalmente tranquilo, ele foi criado como um cavalheiro.
Mesmo sua família não sendo próspera como a do coronel, a
ele pouco tinha sido negado enquanto crescia. E um
cavalheiro aprende a nunca mostrar raiva quando pode ser
evitado. Raramente qualquer homem alimentou sua raiva
como essa, e nunca tinha sido tão envaivecido por uma
mulher.
Pouco depois que Alexander entrou na floresta, Nathan
saiu do acampamento. Ele não esperou pela carne assada no
espeto, mesmo que o aroma desse água na boca. Ele embalou
feijões, carne de porco salgada, duas laranjas e uma garrafa
cheia de uísque em seus alforjes, apesar da aversão do
coronel a bebidas fortes no acampamento. ― O uísque faz
homens inteligentes fazerem coisas estúpidas ― era a
expressão favorita do coronel. Permitia apenas aguardente de
frutas ou um ocasional barril de vinho. Mas o que o coronel
não sabia não iria machucá-lo. E agora o coronel não era
exatamente a pessoa favorita de Nathan.
Ele não apreciou ser empurrado de sua sela e ameaçado
com uma surra. E se um dos atiradores tivesse subido e
202
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

ouvido a discussão deles? A última vez que ele e Alexander


recorreram a punhos durante um desacordo eles tinham
dezesseis anos de idade. Tinham lutado pelo afeto da mesma
menina em uma feira de verão. O resultado final de sua
altercação tinha sido dois narizes ensanguentados; um olho
enegrecido ― o dele, um lábio dividido ― o de Alexander; e
muita roupa rasgada que os colocou em apuros. E a garota
no fim compartilhou seu lanche com Jake Finley, jogando sal
em suas feridas.
Aquela mulher também era ruiva. O que há com as
mulheres de cabelos de cenoura, com sardas e Alex? A
governanta de Bennington era muito magra ― toda joelhos
nodosos e cotovelos ossudos, sem seios para se falar a
verdade. As mulheres devem ser macias e bem-arredondadas.
Tomando um gole de uísque, o capitão Smith esporeou o
cavalo para fora do acampamento para deixar as coisas se
refrescarem com o coronel. A incursão em Salem não poderia
ter ido melhor. Agora ele precisava tirar a imagem de Emily
Harrison de sua mente. Ele não podia permitir que ela se
interpusesse entre ele e a pessoa que mais respeitava. Como
poderia uma mulher causar tais problemas ― e uma yankee,
nada menos? Se as mulheres eram senhoras, elas deveriam
parecer bonitas, cheirar bem e não falar demais. Mas essa
governanta de Ohio não era nenhuma dama,
independentemente de quanta escolaridade possuía. Ela
vinha de uma fazenda rudimentar do lado errado do rio Ohio.
Seu pai Quaker, fazendeiro provavelmente, não tinha
guardado dois dólares durante toda a sua vida.

203
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Smith empurrou seu cavalo para um passeio e tomou


outro gole profundo de uísque. Não apenas uma ianque, mas
uma Quaker. Algo chacoalhou em sua mente encharcada de
licor, algo que ele ouviu em casa. Seu superintendente falou
de alguém instigando trabalhadores do campo com a
conversa de liberdade no Norte. Nenhum dos servos de sua
casa disse muito quando ele os questionou. Ele pensou que
era rumor. Agora ele não tinha tanta certeza.
― É isso que você está fazendo, senhorita Harrison? ―
Ele sussurrou para a escuridão envolvente. ― Mostrando aos
escravos o caminho para a Estrada da Liberdade? Porque
você, pequena causadora de problemas intrometida? Você
não sabe o que fazemos com quem faz isso aqui na Virgínia?
Eu a amarria feliz a uma árvore e daria as vinte chicotadas
eu mesmo. ― Smith apertou seus dentes, lembrando de Emily
esgueirando-se de um celeiro no final da noite.
Ele estimulou seu cavalo e cavalgou duro em direção a
Middleburg, ansioso para gastar parte de seu ouro e
comemorar. Enquanto o coronel estava ocupado, ele havia
tirado mil dólares de um sindicato da União. Não tinha
intenção de entregá-lo ao Tesouro Confederado. Ele iria
comprar tempo com a vivaz menina no Belinda ou jogar poker
no quarto, no andar de cima reservado para clientes
favorecidos. Seu amigo deveria estar com ele hoje à noite, em
vez de se chatear por aquela governanta. O coronel já tinha
gozado de um copo de bourbon bem envelhecido ou de um
jogo de cartas em Middleburg. Agora ele não ia perto do lugar
desde que aquela mulher de cabelos negros o enganara.

204
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Smith apertou sua mandíbula com a memória de


Rosalyn. Como ele teria gostado de colocar as mãos em volta
de seu pescoço cremoso, mas ela tinha deixado a cidade
antes que ele pudesse mostrar o que acontecia aos espiões
yankees. Ele mexeu-se em sua sela enquanto a sonolenta
cidade de Middleburg estava à vista. Empurrando o cavalo de
novo, cavalgou duro até a porta do Belinda, recém-pintado,
enquanto o uísque barato batia em seu ventre.
Talvez Emily Harrison fosse uma abolicionista que viera
incendiar os escravos com histórias da terra da abundância
no norte, e talvez não estivesse. Talvez ela fosse uma
enganadora como essa outra tentadora, Rosalyn.
― Cuidado com a sua língua a respeito da senhorita
Harrison ou eu o derrubarei aqui mesmo. ― As palavras de
Alexander ainda soavam em seus ouvidos. Ele precisava ter
certeza sobre esta yankee antes de lançar suspeita sobre ela.
Nathan não tinha muitos amigos. Os poucos que ele tinha
estavam mortos. Discutir com o coronel o irritara mais do que
queria admitir. Ele esperaria seu tempo. Ele tinha que ter
certeza. Aquela esquálida governanta já havia apanhado o
olho do coronel. Ele tinha de detê-la antes que ela abrisse
caminho em seu coração.
Vou descobrir o que está acontecendo, senhorita
Harrison. Você pode ter certeza disso.

205
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Emily despertou do sono ao som de cães ladrando e um


grito agudo e penetrante. Erguendo-se na cama, ela espiou ao
redor do quarto escuro, mas não conseguiu discernir nada
errado. Em uma noite sufocante de verão, as cortinas mal se
mexiam no ar quente. Então ela ouviu de novo ― um grito de
mulher ― e ela sabia com certeza que pertencia a sua mãe.
Emily se arrastou para a janela com vista para o quintal
e para o rio além. Com uma mão trêmula, separou a
musselina e olhou para baixo com horror que ela não
conseguia entender. Homens segurando paus ardentes bem
acima de suas cabeças entravam e saíam das sombras. Por
que eles não pegaram as lanternas do celeiro? Mais homens
chegaram a cavalo e pessoas pareciam correr em todas as
direções ao mesmo tempo. O vagabundo de um cavalo a
atraiu para a janela lateral, onde um cavaleiro pisoteava o
florido jardim de sua mãe. Quem no mundo tinha derrubado
sua cerca de piquete? E por que seus pais teriam uma festa
na noite anterior ao sábado?
Os dedos gelados de medo acariciaram seu pescoço
enquanto ela deixava cair a cortina no lugar. Isso não era
uma festa. Mas Emily não estava prestes a se esconder em
seu quarto como um bebê. Vestiu-se com a saia e blusa de
calicó que sua mãe tinha separado para a igreja e arrastou-se
escada abaixo até a sala de estar. ― Mamãe? ― chamou.
Encostando-se à janela da frente, chamou de novo. ―
Mamãe? ― Através do vidro ondulado vieram apenas os gritos
abafados dos homens e os relinchos de cavalos assustados.
Então ouviu a madeira estilhaçar-se quando algo caiu na

206
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

parte de trás da casa. Emily correu para a cozinha e


encontrou a porta bem aberta ― algo que sua mãe nunca
permitia. ― Você está deixando cada traça, mosquito, e grilo
ocupar a residência? ― A expressão favorita de sua mãe
percorreu sua cabeça quando Emily começou a tremer. Ver a
porta desaparecer das dobradiças a assustou mais do que os
homens dançando no quintal.
― Amante de escravos infernal, nojenta amante de
escravos. ― Da direção da fogueira, vozes altas atravessaram
a noite. Amante de escravos? Não havia escravos aqui. O
pregador da casa de reunião disse que nunca houve
escravidão em Ohio. Sobre o que esses homens estavam
falando?
Emily respirou fundo e entrou na varanda dos fundos.
Ouviu a voz de sua mãe, mas não pôde vê-la entre a fumaça.
Então ela viu seu pai junto ao celeiro com os braços
amarrados ao redor de uma árvore. Ele parecia dar um
grande abraço ao carvalho. Enquanto ela observava, um
homem gordo bateu em seu pai no lado de sua cabeça. O
homem usava um chapéu preto puxado para baixo na testa.
― Vamos mostrar-lhe o que acontece com os abolicionistas
amantes de escravos intrometidos ― ele gritou.
Bile subiu através da garganta de Emily enquanto o
homem sacou uma larga faca de caça. Ele iria esfaquear seu
pai? Ela olhou fixamente, temendo o que veria, mas incapaz
de desviar o olhar. O homem cortou a camisa de seu pai e
puxou-a para baixo em torno de sua cintura. Ele cortou as
alças segurando suas calças, também.

207
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Pare, eu te imploro ― As súplicas de sua mãe


atravessaram o barulho do quintal. ― Nós não queríamos
causar nenhum mal a vocês. Por favor, deixe-nos em paz.
― Não causar nenhum mal? ― Outro homem carregava
sua vara ardente em direção ao som de sua voz. Agora Emily
podia ver claramente a mãe. Ela ainda usava sua camisola,
com seus pés descalços saindo por debaixo da bainha.
Mamãe nunca deixava as pessoas verem seus pés descalços,
insistindo que eram grandes como uma mula.
― Não causar nenhum mal? ― Imitou o homem. ― Você
rouba a propriedade de alguém, propriedade que ele pagou
um bom dinheiro, e você diz que não causa nenhum mal? ―
Ele moveu a tocha mais perto de seu rosto.
― Entre na casa, Martha! ― Gritou seu pai com uma voz
mal reconhecível.
― Sim, entre na casa, Martha, a menos que você queira
um pouco disso também. ― O homem gordo acenou sua faca
no ar.
― Eu te imploro, somos apenas bons cristãos que estão
tentando ajudar os oprimidos ―, suplicou a mãe. ― Tenha
compaixão, senhor.
― Quakers me deixam doente. Você só derrama a
Escritura que lhe convém. ― O homem magro deslocou sua
tocha perto do rosto de sua mãe. Ela se afastou impotente
das chamas. ― O que aconteceu com 'Tu não roubarás'? E
quanto a ― ‘Não cobiçarás o que é do teu próximo’?
― Não cobiçamos escravos, senhor. A escravidão é uma
abominação perante o Senhor.

208
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Mesmo com sua pouca experiência, Emily sabia que não


era a coisa certa a dizer.
― Em nenhum lugar do Bom Livro a escravidão é
descrita como uma abominação! ― Ele gritou. ― Os escravos
devem obedecer a seus senhores. ― Ele aproximou-se de sua
mãe novamente com a tocha perigosamente próxima. Martha
Harrison não podia voltar atrás ― um círculo de homens se
fechara atrás dela.
― Marta, faça o que eu digo. Entre na casa! ― As
súplicas desesperadas de seu pai chegaram tarde demais.
O homem vestido de preto arrastou mamãe pelo braço
para a mesma árvore a qual papai estava amarrado. Emily
desejava gritar. Ela queria fazer os homens pararem, mas em
vez disso só podia assistir da varanda, estupefata.
― Vou ensinar-lhe, Marta, o que acontece com os
ladrões. Porque isso é tudo o que vocês dois são, ladrões
fedorentos.
― Por favor, senhor, vamos pagar pela sua perda. Diga-
nos o quanto esses escravos valiam e nós pagaremos.
O homem com a faca de caça avançou, mas o homem
magro não soltou a mão do braço de mamãe. ― Pagar pelo
que eles valem? ― Ele riu com cruel zombaria. Ele virou a
cabeça para olhar para a esquerda e para a direita. ― Olhe ao
redor, rapazes. Será que esta fazenda degradada parece ter
mil e quinhentos dólares sentados em uma lata de café na
prateleira? ― Vários homens riram e se bateram nas costas.
― Porque é isso que o jovem e sua esposa valem para o
homem que nos contratou. Mil para o homem e quinhentos

209
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

para a mulher ― mas se ela estava grávida, então você está


devendo mil e oitocentos dólares com certeza. ― Ele agarrou o
rosto de mamãe pelo queixo. ― Você tem essa quantia de
dinheiro em seu pote de biscoito, sua abolicionista ianque?
Soluçando histericamente, mamãe não fez nenhum
esforço para derrubar a mão do homem.
― Eu não penso assim. ― O homem magro zombou e
empurrou sua mãe para trás. Ela teria caído se a multidão
não a tivesse pressionado.
― Pare de empurrar a minha mãe! ― Uma voz subiu
acima do clamor criado por homens raivosos e cavalos
esquisitos. A voz pertencia a Emily. ― Pare com isso agora!
Por um momento eles pararam e se viraram para olhar.
Ninguém notou uma garotinha na varanda antes. Nenhuma
luz se afastava da casa para iluminar o local onde ela assistia
os terríveis acontecimentos. Mas Emily sabia que seu pai
estava em apuros e um homem horrível estava empurrando
sua mãe. Ninguém empurra mulheres adultas.
Todos olharam para a menina magrinha, de cabelos
vermelhos, e riram.
Então as coisas começaram a acontecer rápido. O anel
de homens separou-se enquanto o mais magro amarrava sua
mãe à árvore. Emily respirou com mais facilidade quando o
outro homem enfiou a faca de caça no cinto. Mas seu alívio
foi de curta duração. Um homem a cavalo entregou um
chicote, do tipo que nunca tinha visto antes. Então o homem
magro começou a chicotear seu pai. Emily ouviu a batida do
chicote e seu pai gritou. Nunca antes havia ouvido um som

210
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

tão lamentável. Uma e outra vez, ele gritava em agonia cada


vez que o chicote golpeava a pele nua. Ninguém tentou parar
o homem com o chapéu preto. Em vez disso, os espectadores
formaram um círculo e gritaram palavras de ódio.
Emily correu da varanda, em linha reta nos braços de
um homem corpulento vestindo um casaco longo. Ele a
levantou e colocou-a debaixo do braço como um saco de
comida. Seus pés descalços pendiam a um pé do chão
enquanto ele a levava de volta para a casa. Não importava
como ela implorava, soluçava ou batia, o homem a segurava
com força e a afastava da atividade diabólica na árvore. Nela
continuava ― seu pai gritando, sua mãe chorando, os homens
gritando, os cachorros latindo.
Não havia mais nada para Emily fazer senão gritar
também. Então foi isso que ela fez, até que nenhum outro
som saísse de sua garganta ...
― Senhorita Emily!
Alguém estava chamando seu nome e sacudindo-a como
uma boneca de pano.
― Senhorita Emily, acorde!
Ela abriu um olho, aterrorizada por ver o homem magro,
o homem gordo ou o homem de pesado casaco. Mas não era
nenhum deles ― era Lila. E ela estava sacudindo a mão dela.
― Pare, Lila. Estou acordada. ― Emily sentou-se na
cama, esfregando os olhos para afastar o horrível pesadelo.
― Deus, eu pensei que o diabo tinha você. Não
conseguia te despertar. ― Lila soltou os ombros de Emily e
começou a coçar a testa com um lenço.

211
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Um sonho muito ruim ― ela respondeu. Emily espiou


ao redor do quarto. Cinco rostos negros e dois brancos
estavam olhando para ela ― todos muito preocupados.
― Foi só um pesadelo, senhorita Harrison. ― A voz
serena da sra. Bennington chamou sua atenção. Ela deu um
passo à frente e tocou o antebraço de Emily. ― Você está
bem, minha querida? Seus gritos assustaram toda a casa.
― Parecia que você estava sendo assassinada em sua
cama ― acrescentou a sra. Hunt.
― Os pesadelos podem ser bastante vivos ― disse a sra.
Bennington, olhando para a irmã com um olhar irônico.
― Eu peço desculpas por criar tal confusão. ― Emily
puxou a colcha para o queixo dela.
― Quer que lhe tragam uma xícara de chá, ou talvez um
conhaque para acalmar os nervos? ― perguntou a sra. Hunt.
― Eu estou bem, realmente. Foi apenas um sonho ruim.
E não para o brandy, sra. Hunt, mas obrigada mesmo assim.
― Ela lentamente recuperou seus modos, juntamente com
sua compostura.
Os criados a olharam com uma curiosidade peculiar
antes de sair da sala. Envergonhada, Emily só podia imaginar
que ela estava delirando. Lágrimas encheram seus olhos. O
sonho tinha sido tão vivo, tão real, como se aquela horrível
noite de verão em Marietta estivesse acontecendo de novo.
Ela não tinha sofrido esse pesadelo em anos e tinha rezado
para nunca mais voltar a fazê-lo.
A sra. Bennington alisou o cabelo de Emily para longe
do rosto, como provavelmente fizera com suas filhas ao longo

212
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

dos anos. ― Eu vou mandar Lila ficar o resto da noite com


você. Estarei no corredor se precisar de mim.
Quem deveria cuidar de quem? Emily sorriu para a sra.
Bennington.
― Obrigada, senhora, mas eu vou ficar bem. Foi apenas
um sonho ruim.
Depois de mais murmúrios de conforto, as senhoras
voltaram para seus quartos. Lila permaneceu, fechando a
porta depois que todos saíram. ― Deus, você pode fazer muito
barulho para uma garota magra. ― Ela sentou na beira da
cama de Emily.
Emily não queria voltar a dormir. ― É quase de manhã.
Vamos levar nossos travesseiros e colchas para a varanda
para ver o nascer do sol.
Amontoadas juntas, sem falar, esperaram a aparição
das primeiras faixas avermelhadas, seguidas de faixas cor-de-
rosa e laranja brilhante. O sol glorioso subiu acima das
pastagens, anunciando outro dia perfeito em Virgínia
ocidental. Emily estava contente de ver o amanhecer, porque
as assombrações e os fantasmas ficariam presos na baía. Lila
não a pressionou para falar sobre o pesadelo.
Enquanto sua amiga cochilava no ar quente da manhã
com a cabeça no ombro de Emily, Emily teve tempo de pensar
... sobre o sonho e sobre seu comportamento ontem à noite.
Ela praticamente se jogou para Alexander. Ele era um
escravagista ― não diferente dos homens que haviam
açoitado seu pai e deixado-o inconsciente aos pés de sua mãe
histérica. Aqueles caçadores de recompensas haviam

213
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

destruído cercas, pisoteado o cultivo de vegetais, ateado fogo


ao celeiro, e então cavalgaram para o rio Ford vaiando e
gritando.
Martha Harrison não sabia o que devia fazer em
primeiro lugar, se era tentar apagar o fogo do celeiro,
confortar sua filha de oito anos que acabava de testemunhar
aquela brutalidade depravada, ou cuidar das costas
dilaceradas do marido. Os pais de Emily nunca falaram sobre
os caçadores de recompensas e proibiram-na de falar deles.
Com as ervas e os bálsamos de sua esposa, as costas de
Robert Harrison finalmente se curaram, mas ele nunca mais
trabalhou em seus campos sem camisa ou nadara no rio
novamente, não importava o quão quente fosse o dia.
Ninguém daria testemunho de sua vergonha. Depois daquela
noite, ele era um homem mudado até o dia em que ele
morreu.
Os pensamentos de Emily divagavam entre a provação
de seus pais para sua noite fatídica com Alexander. Os dois
eventos, separados por anos e circunstâncias sem paralelo,
de algum modo pareciam conectados. Sentia-se
envergonhada, como se tivesse traído seus pais. Estariam
orgulhosos de uma filha sendo mantida nos braços de um
homem sem honra? Ela corou quando se lembrou de seu
sorriso, seu toque na mesa de jantar, e seus beijos na
varanda. Ele não era o homem para ela, não importava o
quão especial ele a fazia sentir-se. Ele tinha saído no meio da
noite, vestido com o uniforme de um soldado morto, quem

214
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

sabe para onde. Isso era tudo um jogo para ele, um que ela
nunca poderia ganhar.
As belas da Virgínia poderiam ter tempo livre para
refletir sobre os flertes e indiscrições, mas Emily tinha
trabalho a fazer. Ela afastou-se suavemente de sua amiga
que estava dormindo e marchou para o banho para esfregar
cada centímetro de sua pele até quase ficar em carne viva.
Em seguida, vestiu uma saia preta lisa com uma blusa
branca e arrumou o cabelo em um coque severo. Quando ela
saiu do seu quarto, Lila tinha desaparecido.
― Bom-dia, sra. Bennington ― disse Emily, sentando-se
na poltrona diante da empregadora, na sala de jantar. ―
Perdoe meu atraso, senhora.
― Eu não sabia que você já estava acordada. O café da
manhã parece ser servido a todas as horas da manhã. ― A
sra. Bennington serviu uma xícara de café e passou a jarra
para Emily.
― Onde estão o sr. e a sra. Hunt? Ainda não estão
acordados?
― Eles acordaram e saíram. Um pequeno acidente, pode-
se dizer. Duas de suas pessoas parecem ter desaparecido. ―
A sra. Bennington estudou Emily sobre a borda de seu copo,
sua expressão nunca vacilante.
Emily quase pulverizou a mesa com café. Ela engoliu o
bocado e olhou corajosamente a mulher nos olhos. ― Estão
faltando duas pessoas? Quem são eles?

215
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Uma jovem viúva e seu filho. A mulher trabalhou


como uma mão de campo, então duvido que você tenha
conhecido ela.
Eu sou tão sutil como um homem faminto em um
banquete. Talvez meu próximo trabalho deva ser um jogador
de pôquer profissional em um barco a vapor. Emily olhou para
a porta, esperando que o próprio Robert E. Lee aparecesse e
arrastasse-a para a prisão ... ou caçadores de escravos como
aqueles que haviam atravessado o rio Ohio para amarrá-la à
árvore mais próxima. ― Uma moça e uma criança? Talvez eles
estejam em uma missão para uma plantação vizinha. Talvez
estejam entregando produtos de jardim ou assados da
cozinha.
― Tenho certeza que é algo assim. Rebecca perguntou
aos criados se tinham alguma ideia. Ela está preocupada com
a jovem mulher. Houve arruaças na área, com desertores de
ambos os lados vagando pelo campo. ― A sra. Bennington fez
uma pausa, como se estivesse esperando alguma reação, mas
Emily não respondeu.
― Aparentemente, a mulher ficou infeliz desde que seu
marido morreu na primavera passada. Se ela fugiu, ela
poderia cruzar o caminho com perigosos caçadores de
recompensas. Quem sabe que tipo de pessoas desagradáveis
estão lá fora?
― Tenho certeza de que ela aparecerá. ― Emily pegou
um biscoito, forçando-se a engolir um pequeno pedaço.
― Você acha? Algo me diz que os Hunt nunca mais verão
Annabelle e o pequeno Gabriel. Nós só podemos orar para

216
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

que ela esteja em um lugar seguro. ― A sra. Bennington


tomou seu café e colocou a xícara na mesa com um barulho,
examinando Emily com seus lindos olhos verdes.
Emily pousou o biscoito e dobrou as mãos em seu colo,
incapaz de encontrar o olhar da mulher que a tinha
protegido, confiado nela e feito amizade com ela. Se a sra.
Bennington tivesse sequer um pingo de dúvida, não o fez
mais.
― Talvez tenhamos danificado a casa de Hunt o
suficiente. ― Ela colocou o garfo no lado do prato. ― Nós não
devemos prolongar nossa estadia. Além disso, estou ansiosa
para Porter voltar para casa, onde ele vai manter as horas
regulares. Haverá muito para ele fazer em Martinsburg com
os médicos que correm para se juntar ao exército. ― A sra.
Bennington levantou-se da mesa e colocou sua pequena mão
branca no ombro de Emily. ― Você vai me ajudar a arrumar
as minhas coisas?
― É claro. ― Emily tomou seu café e lutou para ficar de
pé.
― Antes de você subir, por favor informe os Amites de
nossos planos de sair o mais rápido possível. Já enviei uma
mensagem para Porter no hospital.
Emily olhou para o rosto imperturbável da mulher e
forçou um sorriso. ― Sim, senhora. Vou dizer a Matilde e
depois acompanhá-la à sua suíte.
― Obrigada. ― Ela saiu da sala, deixando uma nuvem de
lavanda para trás.

217
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Eu não mereço a bondade e a proteção desta mulher.


Rebecca Hunt é sua irmã, sua parente de sangue, enquanto eu
sou apenas uma empregada. Nem que fosse a última coisa
que fizesse, Emily encontraria uma maneira de fazer o certo
com sua empregadora.
Ela sabia que a sra. Bennington estava ciente de que
levava um ladrão de volta a Martinsburg. Por isso Emily
estava grata, mas não podia esperar para ir embora de Hunt
Farms.

― Eles estão fora procurando por Annabelle e Gabriel.


Assustada, Emily se virou para encontrar Lila bem atrás
dela. Ela tinha estado tão preocupada com o empacotamento
das coisas que ela não a tinha ouvido entrar. ― Eu sei, ― ela
disse calmamente. ― Bem, eles não vão encontrá-los.
― Não, eles não vão, mas o sr. Hunt está espumando.
― Ele tem muitos outros escravos. ― Ela se concentrou
em dobrar roupas íntimas e colocá-las no porta-malas.
― Ele está espumando porque o jovem Mr. Hunt foi
embora novamente. ― Ele nunca está por perto quando
precisa dele ―, ouvi-o dizer a William. Ele procurou Annabelle
o dia inteiro ontem. William disse que o sr. Hunt não vai
contratar escravos porque ele não pode confiar neles.
Emily bufou. ― Talvez você e eu não devêssemos nos
preocupar tanto com os feitos dessa fazenda. Vamos embora
hoje. A propósito, você viu meu medalhão de ouro? Eu não
218
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

consigo me lembrar quando eu o tirei, e eu não consigo


encontrá-lo em nenhum lugar.
― Não, eu não vi. ― Lila não seria colocada de lado tão
facilmente. ― William sabe o que fizemos ― sussurrou.
― O quê? ― A voz de Emily rachou, traindo seus nervos
extenuados. William era o empregado pessoal e de confiança
de Alexander.
― William sabe o que você, eu e Jack fizemos no
caminho para Martinsburg. ― Ela explicou como se Emily
fosse uma simplória.
― Como você sabe disso, Lila?
― Porque ele me disse. ― Lila começou a dobrar as saias
e blusas que Emily espalhara pela cama.
Emily teve o suficiente da evasiva de Lila e agarrou-a
pelos ombros. ― Diga-me o que você sabe.
Lila sentou-se na cama e cruzou os braços. ― William
nos seguiu quando saímos daqui. Ele nos viu tomar o desvio
para Berryville.
― Por que ele faria isso? ― Emily caiu em uma cadeira,
achando difícil respirar.
― Porque você escolheu Jack em vez dele, e ele não
confia naquele patife. E porque... ― A voz de Lila vacilou ao
perder uma parte de sua autoconfiança exasperante. ―
William olhou para mim desde... bem, sempre. ― Lila olhou
para uma flor no papel de parede, mastigando seu lábio.
― É isso mesmo? Há algo errado com o homem? Você
sabe, não exatamente certo? ― Ela batia na têmpora com o
dedo indicador.

219
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Lila lançou-lhe um olhar malicioso. ― Ele provavelmente


foi picado pelo mesmo inseto que picou o sr. Hunt. ― Ela
esperou que Emily entendesse seu significado.
Mas Emily não disse nada enquanto voltava para as
gavetas do escritório.
Lila seguiu-lhe os calcanhares. ― O sr. Hunt disse a
William para cuidar de você enquanto ele estivesse fora. Essa
é a outra razão pela qual ele nos seguiu. E ele me contou
sobre o seu jantar no terraço e depois um passeio à luz da
lua no jardim com o sr. Hunt.
― Como ele poderia saber disso? ― perguntou Emily.
― Eu perguntei isso a ele. William disse que não havia
muita coisa sobre a qual ele não soubesse. Lila puxou a pilha
de suportes das mãos de Emily. ― Por que não me contou
sobre o sr. Hunt? Eu não sabia que você era doce com ele.
Pensei que o odiasse. Você certamente me enganou. ― Ela
deu um rápido olhar para Emily.
― Aparentemente eu me enganei, mas não mude de
assunto. E William? Ele nos ajudará a ajudar fugitivos?
Poderíamos aterrissar em um monte de problemas.
― Não ― Lila respondeu sem hesitar. ― Ele disse que
sentiu pena de Annabelle porque ela estava muito infeliz. Mas
ele não quer ver mais pessoas desaparecendo. Ele disse que
os Hunts são boas pessoas, e você deve fazer seu trabalho em
qualquer lugar, exceto aqui. ― Fechando a tampa do baú, Lila
colocou as mãos nos quadris dela.
― Isso não será um problema. Vamos embora.

220
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Eu disse a ele que não iria ajudá-la em Hunt Farms.


Ele disse que era o suficiente. ― Então Lila começou a valsar
pelo quarto como se estivesse em um baile. ― Beatrice disse
que ele faz perguntas sobre mim sempre que está na cozinha.
Ele foi muito legal com minha mãe, e Beatrice o viu falando
com meu pai. ― Lila segurou sua mão para parar de andar.
― Ora, Lila Amite. Se eu não soubesse melhor, eu
pensaria que você está apaixonada por William. ― Emily
fingiu um traço sulista.
― Talvez eu seja um pouco... curiosa. Mas não vai me
fazer bem, porque vamos voltar para Martinsburg hoje. Não
sei quando vou vê-lo de novo. ― Ela sentou-se na cama e
deixou cair a cabeça em suas mãos.
Emily sentou ao lado dela e colocou seu braço em volta
de seus ombros. Não sei quando voltarei a ver Alexander,
pensou ela. E de alguma forma, ela não estava tão feliz por
deixar Hunt Farms.

221
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 11

O fim do verão 1862

O infame Fantasma Cinzento e seus Rangers eram um


terror perfeito para os yankees. Moviam-se silenciosamente
sob a cobertura da noite, golpeavam rapidamente e
geralmente tomavam apenas o que podiam transportar. Eles
alimentaram o Tesouro Confederado com um fluxo constante
de ouro e dólar, e a cavalaria com cavalos de reposição para
aqueles mortos em batalha.
Eles conheciam o Vale Shenandoah e as planícies a leste
como as palmas de suas mãos. Os rangers estavam
familiarizados com todas as rotas, trilhos de frisos, rastros de
fazenda, pontes, rios e ponto de observação em um raio de
seis condados. Os homens cresceram nesses vales remotos,
caçando e pescando nas margens e lagoas isoladas.
Eles poderiam se arrastar em um campo inimigo,
escutar uma conversa e sair com a informação sem que os
piquetes ouvissem mais do que um sussurro de folhas.
A imprensa adorava sua reputação. Os jornais do norte
os descreviam como malandros operando dentro dos limites
da sociedade decente.

222
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Os rangers se estenderam, mas não quebraram os


códigos e as tradições de guerra, ao contrário dos
Bushhwhackers7 de Missouri, cujos atos bárbaros foram
descritos em detalhes em todo o país.
Mesmo os nortistas os viam mais como Robin Hoods
românticos do que perigosos como os seus homólogos
ocidentais. As mulheres admiravam suas façanhas sem
sangue.
Os jornais do sul os retratavam como cavalgantes
correntes, vidas vivas cheias de intriga romântica. Muitas
moças adormeceram sonhando com o notório Fantasma
Cinzento levando-as em seu magnífico cavalo branco.
Os habitantes locais voluntariamente alimentaram e
abrigaram os guardas florestais, considerando seu dever para
o esforço de guerra na mesma linha que meias de tricô ou
bandagens eram entregues para os hospitais.
Antes da guerra, muitos ricos rangers não conseguiram
desenvolver qualquer autodisciplina. Como os escravos
faziam a maior parte do trabalho, esses senhores honestos
cresceram para viver com tempo e dinheiro em suas mãos. Os
pais raramente franziam a testa para a indolência. Foi aceito
que esses cavalheiros da classe alta passassem seus dias

7 Bushwhacking era uma forma de guerra de guerrilha comum durante a Guerra


Revolucionária Americana, a Guerra Civil Americana e outros conflitos em que havia grandes
áreas de terra contestada e poucos recursos governamentais para controlar esses caminhos. Isso
foi particularmente prevalente nas áreas rurais durante a Guerra Civil, onde houve divisões
acentuadas entre os que favorecem a União e a Confederação no conflito. O termo
"bushwhacker" entrou em grande uso durante a Guerra Civil Americana (1861-1865): tornou-se
particularmente associado aos guerrilheiros confederados do Missouri, onde essa guerra foi
mais intensa. A guerra de guerrilha também invadiu Kentucky, Tennessee, norte da Geórgia,
Arkansas e norte da Virgínia, entre outros locais. Dois bandos operaram na Califórnia em 1864.

223
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

bebendo, correndo a cavalo, perseguindo mulheres e


gastando dinheiro generosamente.
Embora a maioria dos homens frequentassem a igreja,
seu comportamentos teriam chocado a maioria dos cristãos
do norte.
O jogo foi amplamente aceito entre os colegas de
Alexander. Eles apostavam de tudo, desde palmas de
palmeiras até o resultado de uma eleição para quem seria
nomeado o próximo comandante ianque. Quase todas as
tabernas forneceram jogos de cartas e bilhar em que dívidas
de milhares de dólares foram acumuladas em uma única
noite. Jogadores profissionais passaram por cidades do sul
despojando mais de um herdeiro de plantação de uma parte
significativa de sua fortuna.
Embora a maioria das igrejas tenha desaprovado a
bebida, os pastores muitas vezes ignoravam a indulgência
dos ricos.
Alguns senhores de plantação bebiam algo até o pôr-do-
sol, permanecendo em um borrão suavemente inebriado. A
aristocracia de sangue azul também tinha permissão para
atividades românticas. Esperava-se que as mulheres
continuassem virtuosas até o casamento, mas os homens
não. Os bordéis podiam ser encontrados na maioria das
cidades do sul, inéditos nas aldeias da Nova Inglaterra.
Os rangers da floresta, muitos das famílias
aristocráticas, levaram seus caminhos indisciplinados para a
sua marca de cavalaria. Enquanto o exército confederado
regular batalhava por terrenos, aborrecidos da vida no

224
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

acampamento, os rangers poderiam perseguir seu inimigo,


atacar um transporte desprotegido e ainda ficar perto de
casa. Eles gozavam de aventura e glória, evitando o tédio da
vida no campo. Somente o Fantasma Cinzento impediu-os de
desintegrarem-se em uma multidão de saqueadores.
A forte educação Quaker de Rebecca Hunt não permitiu
o comportamento dissipado na casa Hunt. Embora ela
servisse bebidas alcoólicas em jantares ou festas com a
insistência de James, a embriaguez não era tolerada. Nem
jogos, nem palavrões visitavam casas elegantes.
Alexander não teve muitos problemas para crescer sob
suas regras. Embora as notícias de jornal descrevessem o
Fantasma Cinzento como o líder de um bando de libertinos,
nada estava mais longe da verdade. Seu objetivo era simples:
ajude a confederação sitiada com o melhor de suas
habilidades.
Ele assediou o Exército da União ao interromper as
comunicações e assim dividiu suas forças antes de uma
batalha. Ele pretendia apropriar todas as provisões que
pudesse de suas ferrovias e fornecer vagões sem avanço
pessoal ou lucro financeiro.
Mas a cada dia tornava-se mais difícil manter a
disciplina entre suas tropas. Cada vez com mais frequência,
ele notava soldados com roupas elegantes, novas armas caras
e contar notas de banco em torno da fogueira.
Neste dia de verão, Alexander não era um homem feliz.
Ultimamente, sua satisfação em servir a Confederação ficou
emaranhada com emoções conflitantes. Não ajudou que ele

225
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

estivesse apaixonado por uma unionista. Ele finalmente


reconheceu a si mesmo que havia sido atingido por uma
professora yankee de Ohio ― uma que podia ter roubado para
encontrar outro homem em Berryville. Por que ela tinha
respondido seus beijos se amava outro? Idiota. Ele era um
tolo estúpido.
Alexander sabia muito bem que uma mulher podia fingir
uma paixão que ela não sentia. Rosalyn tinha professado
amor por ele ao planear a morte de seus soldados.
Recusando-se a ouvir os avisos de Nathan, Alexander queria
desesperadamente acreditar que Emily não era como
Rosalyn. No entanto, em seu coração, ele sabia a verdade. Por
que ele permitiu-se ficar preso em sua teia de engano?
Alexander trincou os dentes.
Uma vez que ele voltasse para o Front Royal, ele exigiria
saber quem ela conheceu naquela noite em Berryville. Ele
daria uma chance para ela explicar seu comportamento. Mas
uma coisa era certa ― ela nunca deveria saber sobre sua
identidade secreta ou o que ele fazia quando saia de Hunt
Farms.
Ele nunca arriscaria a segurança de seus rangers
novamente. Ele procurou duro para encontrar Smith e
Ellsworth em uma pequena fazenda fora de Warrenton. A
reunião foi bem, seu argumento com Nathan há muito
esquecido. Como seus patrulheiros atraíram tanta atenção
ultimamente, Alexandre demitiu suas tropas para esta saída
particular.

226
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Armados com relatórios de batedores bem pagos, eles


tinham informações confiáveis sobre o movimento das tropas
inimigas no Vale Shenandoah. Usando uniformes federais
adquiridos em sua última incursão, os três homens
atravessaram as linhas da União dirigindo-se para o
escritório de telégrafo no depósito ferroviário.
― Boa tarde senhor. Que notícias você já ouviu? ―
perguntou o coronel, disfarçando seu sotaque do sul.
― Não muito, senhor. ― O operador de telégrafo mal
olhou para as chaves. ― Somente aquele que confundiu os
saqueadores do Fantasma Cinzento neste lado das
montanhas com uma cavalaria de duzentos.
― Você não fala sério. ― Sorrindo, o coronel afundou na
cadeira oposta. Smith e Ellsworth descansaram contra uma
parede no escritório pequeno e apertado.
― Eu falo, senhor. Esse louco está cortando linhas,
rasgando trilhos de trem, queimando pontes e tomando
reféns enquanto falamos. Ele não é senão um guerrilheiro
implacável. Se ele estivesse aqui agora, eu lhe mostraria o
que fazemos aos guerrilheiros como ele e Quantrill8. ― Em
um surpreendente espetáculo de bravura, o operador
barulhento tirou um Colt de cano longo de sua gaveta. Ele
floresceu ante o nariz do curioso oficial barbudo.
― Ele está tomando reféns? Você tem certeza sobre isso,
senhor? ― O coronel sabia que a notoriedade dele ia longe,
mas falsas denúncias de insensibilidade levantavam sua ira
como nada mais.
8William Clarke Quantrill (31 de julho de 1837 - 6 de junho de 1865) foi um líder confederado
durante a Guerra Civil Americana.

227
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Sim senhor. Ele parou um trem de soldados inválidos


e comerciantes civis com mulheres e crianças. Ele segurou o
trem cativo durante horas até que os resgates pudessem ser
pagos pelo lançamento dos passageiros. Um músculo se
contraiu no maxilar do coronel, mas manteve a voz firme.
― Quando aconteceu isso?
― Ontem. O Fantasma Cinzento libertou o trem apenas
esta manhã depois que ele pagou o dinheiro do seu sangue.
― Isso é assim? ― O coronel se aproximou do barril do
revólver. Então, mais rápido do que o operador poderia
piscar, Alexander tirou a arma de sua mão, girou-a e colocou-
a em seu cinto.
― Se eu estivesse em Winchester esta manhã, como eu
poderia estar aqui em Warrenton conversando com você
agora? ― O operador ponderou por um momento e então
empalideceu consideravelmente. Ele respirou com
dificuldade.
― Vejo o seu ponto de vista, senhor. Não quis
desrespeitar.
― Então eu sugiro que você não repita essas histórias
para completos estranhos. ― Baixando a voz para um
sussurro, Alexander apareceu a centímetros do rosto do
homem.
― Enquanto isso, entregue gentilmente seu livro de
códigos e despachos recentes para o meu associado. ― Ele
assentiu na direção de Ellsworth.
Paralisado de medo, o operador olhou em silêncio para o
lendário rebelde. Smith e Ellsworth levavam seus revólveres.

228
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Você não ouviu o homem? ― Vociferou Smith.


― Sim, senhor. ― O operador saiu do transe e forneceu a
Ellsworth tudo o que era necessário para transmitir
informações erradas aos escritórios de telégrafo em todas as
direções.
Os três patrulheiros, sem disparar, enviaram o exército
da União a uma perseguição de proporções épicas. Foi um
bom dia de trabalho, mas agora não dava mais prazer a
Alexander.

― Lentamente, srta. Emily. ― implorou Lila, pendurada


firmemente ao lado da carroça.
― Se diminuirmos a velocidade, nunca chegaremos a
Berryville. ― Emily não tirou a atenção do forte cavalo de
carga que atravessava a estrada estreita a uma velocidade
vertiginosa.
― E eu não tenho vontade de passar uma noite sem lua
nestas florestas. ― Ela balançou a cabeça em direção ao
pântano coberto, cheio de cobras e insetos de todos os
tamanhos e formas. ― Isso não seria uma noite confortável.
Não conseguimos nos mover dez pés para esses pinheiros
rabiscados, espinhosos arbustos.
Lila olhou para os ramos densos e pendurados de
musgo e assentiu. ― Eu concordo, mas se perdermos uma
roda, teremos dificuldade em explicar por que estamos presas
aqui. Esta não é a estrada de Harper's Ferry .
229
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Emily puxou as rédeas, retardando o ritmo.


― Você está certa. Estou com vontade de terminar logo
com isso. O dr. Bennington disse que o Exército da União
tomou Winchester e está acampado ao redor. Isso não está
longe daqui. ― Um tremor correu de seus ombros para seus
pés.
Lila deu um olhar estranho. ― Por que você está tão
preocupada com o destino dos yankees? Eu pensei que você
fosse uma yankee.
― Eu não desejo encontrar soldados de qualquer lado.
Ambos exigiriam explicações sobre o que estamos fazendo
aqui. E quanto menos falar sobre isso, melhor.
― Nós não enganaríamos ninguém que você é uma
senhora com sua empregada pessoal, ― bufou Lila. ― Não
quando você insiste em dirigir a carroça você mesma.
Nenhuma dama jamais faria tal coisa.
― Esse é outro motivo para terminar e voltar para
Martinsburg, mas você tem um ponto. ― Emily levantou as
rédeas para Lila. Não era a possibilidade de entrar em
piquetes da União ou encontrar bstedores confederados que
preocupavam Emily. Seu fluxo constante de mentiras para
Porter e Augusta Bennington começavam a fazer seu pedágio.
Ela também preocupou-se em envolver Lila em sua
missão pessoal e que a quantidade de comida que elas deram
aos fugitivos não fosse adequada para a viagem para o norte.
Quando a carroça arredondou a curva final e começou a
descida íngreme no curral, Emily suspirou aliviada. Ambas as
mulheres estavam tão cansadas que não perceberam ervas

230
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

daninhas pisoteadas ou impressões de cascos frescos na


sujeira. Emily saltou da carroça e correu para o celeiro,
deixando a porta entreaberta para ver.
― Olá? Olá? ― Ela repetiu. ― Eu sou s senhorita
Harrison de Martinsburg. Recebi uma mensagem do sr. e da
sra. Brent. ― Com o nome da casa anterior seguro, ela ouviu
um leve sussurro no escuro. Emily apertou os olhos,
tentando se concentrar na luz fraca. Para sua surpresa, um
homem negro com cabelos brancos e um rosto
profundamente enrugado pisou atrás dos fardos.
― Sim, sou Jacob e esta é minha esposa, Ruth. ― O
homem devia ter uns oitenta anos. ― Como você faz? ― Emily
observou, enquanto ele ajudava uma mulher igualmente
velha a se levantar. Seus dedos artríticos se enrolaram em
torno de uma bengala e uma membrana branca cobriu seu
olho direito. Raramente os escravos de sua idade desejavam
fazer a viagem para uma nova vida em uma terra
desconhecida. A mulher olhou para Emily por um longo
momento.
Como se estivesse lendo sua mente, Jacob explicou: ―
Eles querem nos separar. Enviar-me a Richmond para ser o
motorista da filha e não deixar minha esposa vir comigo. ―
Ele deu um tapinha na mão de Ruth com ternura.
― Ninguém nos separará, diz o Senhor que só na morte.
E isso será por um curto período de tempo. ― Quando a porta
do celeiro se abriu, Jacob moveu-se protetoramente para a
frente de Ruth.
Lila levou o cavalo para dentro.

231
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Parece chuva. ― Ele pode se soltar e ficar furioso se


trovejar. ― Lila olhou de soslaio para o casal quando ela
cruzou com o cavalo e abriu dois fardos de feno.
O casal admirava a mulher negra bem vestida.
― Certo, vocês não viram muitas pessoas de cor livres.
De onde vocês são? ― Lila usou o dialeto do país para tentar
colocá-los à vontade.
― Nós vimos pessoas livres, mas ninguém se pareceu
com você. ― Jacob esfregou o queixo eriçado.
― Nós escapamos de uma fazenda de tabaco nas
Carolinas.
Emily ainda não sabia o que dizer nessas situações.
Seus pais nunca a prepararam para encontros presenciais.
― Esta é a minha ajudante e amiga, Senhorita Amite.
Nós duas viemos, recentemente de Martinsburg, mas
anteriormente de Parkersburg, nos condados ocidentais da
Virgínia. ― O casal voltou sua atenção de Lila para ela, suas
expressões cada vez mais ansiosas.
― Agora que você fez as apresentações adequadas, todos
podemos preencher nossas cartas de dança para o baile mais
tarde. ― Lila sussurrou em voz baixa para Emily e revirou os
olhos. ― Enquanto isso, vou encher os baldes de água.
Emily enrugou o rosto em uma careta.
― Falando nisso, é melhor eu começar o jantar. ― Ela
dirigiu-se para a carroça com Lila nos calcanhares.
― Vou arrumar o jantar depois de ter água. Você pode
tornar nossos convidados confortáveis para a noite. ― Lila
colocou os baldes e recuperou o carrinho da carroça.

232
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Não seja boba, Lila. Você já mudou e alimentou o


cavalo, então é meu trabalho cozinhar. Nós dividimos o
trabalho pelo meio, lembra? ― Emily puxou o cesto da mão de
Lila.
― O cavalo não teve problemas. Eu insisto que você me
deixe fazer a ceia. ― Lila bufou irritada.
― O que eles vão pensar se eu deixar você fazer todo o
trabalho? ― Emily falou suavemente para que os fugitivos não
ouvissem.
― Será melhor se eles achassem que uma mulher
branca estava tentando envenená-los? ― Lila puxou as alças
com ambas as mãos.
― Envenenar eles? Eu posso cozinhar tão bem quanto
você. ― Emily endireitou sua espinha para ser metade de
uma cabeça mais alta do que Lila, ganhando assim uma
vantagem ilusória.
― Você certamente não pode cozinhar melhor do que eu.
Você quase queimou a cozinha da minha mãe na ilha
Bennington.
― Eu não queimei a cozinha da sua mãe... ― A voz de
Emily parou quando notou o casal na entrada. Eles pareciam
estar de frente para duas mulheres loucas.
Então Ruth deu uma risada, revelando uma boca com
poucos dentes inferiores.
― Por que não me deixam fazer o jantar, afinal eu tenho
mais prática? ― Ela caminhou até Emily e estendeu a mão.
― Obrigada, Ruth. ― Emily deu à mulher o cesto.

233
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Avaliando a roupa de moda de Lila mais uma vez, Ruth


fez outro som como cacarejo ao cruzar o curral em direção ao
marido. Jacob já havia descoberto uma fogueira e coxeava
para encontrar a iluminação.
― Se não tivermos cuidado, eles vão fugir de nós. ―
Disse Emily a Lila enquanto cada uma pegava um balde de
água. Logo, eles reuniram galhos e ramos suficientes para
um fogo bom para cozinhar.
Ruth provou ser a melhor escolha para chef. Em pouco
tempo, cortou uma cebola para o pote de feijão que ficou de
molho o dia todo. Jacob pegou uma cesta de vegetais atrás do
celeiro, que Ruth cozinhou no topo da panela dos feijões
enquanto eles começaram a ferver. Lila reuniu maçãs
inesperadas sob uma árvore, enquanto Emily pegava uma
jarra de chá doce do cesto.
Uma hora depois, Jacob carregou o pote para dentro do
celeiro e eles acomodaram-se no chão.
Jacob inclinou a cabeça. ― Senhor, obrigado por morrer
por nós e pela refeição que estamos a ponto de provar.
Depois que todos murmuraram ― Amém. ―, Lila encheu
os pratos com os feijões fumegantes. Emily observou o casal
enquanto eles comiam lentamente devido aos dentes
estragados. Eles falavam pouco, tremendo nervosamente
cada vez que um pássaro se agitava em um ninho ou o vento
assobiava através de rachaduras entre as tábuas.
Emily desistiu de tentar iniciar uma conversa e comeu
em silêncio. Ela tinha sido uma mulher tola e ingênua em

234
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

pensar que os fugitivos que haviam vivido vidas muito


diferentes, encontrariam um terreno comum com ela.
Quando a lua apareceu baixa no céu oriental, Jacob
acendeu o fogo, Lila lavou os pratos de estanho e Emily
empacotou a carroça.
Então Jacob ajudou Ruth com os fardos de feno e a
cobriu com uma colcha de retalhos esfarrapada. ― Deus te
abençoe, senhorita. ― Disse ele a Emily.
― E você, durma bem, Jacob. Você está seguro aqui.
Ele encontrou o olho dela com os olhos amarelados de
sua idade.
― Ninguém está seguro neste mundo. Nosso futuro está
nas mãos de Deus, mas agradeço-lhe mesmo assim. ― Ele
rastejou ao lado de sua esposa, apoiou seu saco de roupas
para fazer de travesseiro e logo adormeceu.
Palavras verdadeiras nunca foram faladas. Emily ouviu
seus roncos abafados durante a noite, invejosa da confiança e
do amor que eles compartilhavam. Eles tomaram uma
decisão irrevogável. Eles avançariam, arriscando tudo para
ficar juntos. A sabedoria deve vir com a idade. Este casal não
tinha necessidade de mentir ou enganar-se mutuamente. Não
era necessário ser outra coisa senão o que eram. Sem
conhecer o futuro ou seu destino, eles confiaram no Senhor e
descansaram no doce abrigo do amor do outro. Nada mais no
mundo parecia tão precioso quanto isso.

235
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

À primeira luz, Lila alimentou os cavalos, Emily engatou


a carroça, e os quatro deixaram o celeiro de Berryville.
Emily sentiu-se estranhamente tranquila, como se o
casal já estivesse seguro na Pensilvânia e ela estivesse em
casa na cama. Sua serenidade estava equivocada, na melhor
das hipóteses, porque o criado de Alexander sabia sobre essa
localização.
De repente, um cavalo e um cavaleiro apareceram
quando o caminho íngreme do celeiro se juntou à estrada. O
Puro-Sangue empinou assustado pelo enorme Percheron.
O homem lutou para parar o cavalo.
― Você é a senhorita Harrison? Que surpresa. Eu estive
de olho neste lugar na esperança de pegar alguns desertores
ianques.
― Eu sou, senhor. ― Ela replicou. ― Mas eu tenho receio
que você me tenha em desvantagem. ― Emily não conseguiu
identificar o homem vestido com botas equestres altas. Como
ele aparentemente a conhecia, ela rezou para fazer a conexão
antes de dizer algo tolo.
― Capitão Nathan Smith de Red Oak, vinte quilômetros
a oeste. Minha família tem uma plantação fora de
Winchester. ― Ele tirou o chapéu, revelando uma grossa
cabeleira loira amarrada em volta com um cordão de couro.
Com ombros largos, uma barba curta e um bigode bem
cortado, ele usava a expressão de um homem satisfeito
consigo mesmo.
― Um prazer em vê-la novamente, senhorita Harrison.

236
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Emily lembrou vagamente o conhecimento deles. ―


Poderia ter sido no mês de junho em Hunt Farms, onde nos
conhecemos, senhor? ― Ela tentou parecer relaxada, mesmo
quando seu coração se apertou. Esse homem era um dos
amigos ricos e escravagistas de Alexander.
Amontoados na caixa de armazenamento atrás do
assento, havia dois escravos fugitivos, e potes e potes de
cozinha saltaram na parte de trás da carroça. Esse fato
sozinho poderia chamar a atenção do Capitão Smith.
― De fato, foi. ― Smith olhou para Lila por um longo
momento antes de olhar novamente para Emily. ― Sim, no
mês de junho. Estou certo disso. Eu acredito que você não
tenha me concedido uma dança, senhorita Harrison. ―
Inclinando-se da sela, Smith esticou a mão dele. ― Você deve
prometer retificar isso na próxima ocasião.
Emily olhou para a mão até Lila cutucá-la com um pé. ―
Claro, sr. Smith. ― Emily inclinou-se para cumprimentá-lo.
Em vez de menear sua mão, ele beijou a parte de trás de seus
dedos enluvados.
― Estou ansiosa para aquela dança e me sustentarei na
sua promessa. Você deve ser um amigo do sr. Hunt. ― Emily
puxou a mão para trás.
― Sim, por muito tempo. Desde que éramos jovens. ―
Embora Smith sorrisse, seus olhos permaneciam frios. ― Há
pouca ocorrência na vida de Alex de que não sou parte ou
pelo menos ciente. ― Emily corou, mas recusou-se a deixar
que ele a provocasse.

237
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― É assim mesmo? Na verdade, eu pensaria que um


homem teria muito em sua própria vida para ocupar sua
atenção. ― Novamente, o pé de Lila tocou o dela em
advertência, mas Emily não prestou atenção. Sua risada
parecia um resmungo.
― Claro, eu só quis dizer que tínhamos muito em
comum e nos entregávamos em confidências. ― Smith firmou
seu foco em Lila mais uma vez.
― Diga-me, srta. Harrison. Por que você está dirigindo a
carroça enquanto sua escrava se sente à vontade para
assistir a paisagem? ― Lila encolheu-se no banco ao lado
dela.
― Miss Amite não é minha escrava, sr. Smith. ― Disse
Emily. ― Ela é uma mulher de cor livre. Eu nunca teria um
escravo. ― Emily não tentou esconder sua repugnância
― Ah, está certo. Lembro-me de Alexander mencionando
que você era do Norte. ― Ele pronunciou a última palavra
como se cuspisse veneno. ― Ora, diga-me o que uma mulher
ianque está fazendo em uma estrada lateral no condado de
Clarke, com o exército da União acampado nem a dezesseis
quilômetros de distância? ― O brilho de seus olhos era
assustador. Todas as pretensões cordiais haviam
desaparecido. Emily endureceu com alarme. Ele suspeitava
de espionagem? Se ele a achasse uma espiã da União, ele
poderia procurar na carroça e descobrir o casal de idosos.
Claro, as pessoas que ajudavam os fugitivos eram multadas
em mil dólares e presas por seis meses, mas espiões eram
enforcados.

238
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Esse pensamento cruzou sua mente nos segundos que


se seguiram à insinuação de Smith. Mas ela não podia deixar
que ele enviasse Jacob e Ruth de volta à escravidão.
― Não sei nada sobre o paradeiro dos campos da União,
senhor. Estou fazendo recados para o dr. Porter Bennington
de Martinsburg. Nós viemos do depósito Harper's Ferry, onde
pegamos suprimentos médicos. Agora estamos no caminho
para o hospital de Front Royal. Nós passamos a noite aqui
porque estávamos perdidas e não chegamos ao nosso destino
ao anoitecer. Talvez você não esteja ciente, mas o dr.
Bennington é médico.
― Eu sei quem é Porter Bennington, ― ele retrucou com
impaciência. ― Eu simplesmente não posso acreditar que ele
enviaria sua governanta e uma criada para entregar qualquer
coisa perto das linhas inimigas.
Ele estava certo. O dr. Bennington nunca faria isso.
Agora que Winchester tinha caído no controle federal, ele não
permitiria que ela fosse para perto da luta armada. ― Não
tenho certeza de que ele percebe. Você conhece o dr.
Bennington. Tudo em que ele pensa é em seus pacientes. É
por isso que a senhorita Amite e eu nos oferecemos para
pegar o envio. ― Emily deu um sorriso e rezou para que não
parecesse tão falso quanto sentia.
― Sim, bem... ― Ele balbuciou. ― Porque este é um dia
para boas ações, eu acompanharei você até o Front Royal
para garantir sua segurança.
― Mas você está vestido como soldado confederado,
senhor. Você será baleado pelos piquetes da União. Nós

239
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

temos as blusas brancas da Comissão Sanitária. ― Emily


cavou na valise pelos pés e tirou uma peça de roupa. ― Nós
seremos capazes de cruzar as linhas sem impedimentos ao
usá-las. ― Ela ofereceu outro sorriso brilhante.
Smith demorou muito para refletir sobre isso. ― Bem,
srta. Harrison, eu seria negligente à luz de sua amizade com
Alexander se eu não acompanhá-la pelo menos por parte do
caminho. ― Ele agarrou o arreio do seu cavalo quando a
carroça começou a avançar, e então ele puxou as rédeas de
suas mãos.
Emily corou, uma sombra de escarlate. Alexander
discutiu com esse pavão, talvez com um charuto noturno? ―
Como você deseja, senhor. ― Seu novo romance levantou
rumores depois de alguns beijos no jardim? Ela usaria isso
para sua vantagem.
Depois de vários quilômetros, o Capitão Smith lançou as
rédeas do Percheron para Lila. ― Bom-dia para você, srta.
Harrison. Estou ansioso para a nossa próxima reunião. ― Ele
inclinou o chapéu, empurrou o cavalo e saiu em uma nuvem
de poeira.
Lila exalou um suspiro audível. ― Bem, com certeza você
tem o dom da mentira. Esse homem estava muito confuso
com sua história para não acreditar em você. Mas não gostei
da maneira como ele olhou para você ou para mim, ― ela
acrescentou com uma voz suave. ― Eu sei o que isso
significa. Minha mãe me avisou sobre as más intenções antes
mesmo que eu soubesse o que acontece entre homens e
mulheres. É melhor manter distância deste dandy.

240
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Eu não tenho certeza do quanto ele acreditou. ― Emily


passou um lenço na testa, enquanto um arrepio percorreu
sua espinha e retomou as rédeas. ― Mas não se preocupe.
Pretendo ficar longe de Nathan Smith da Red Oak Plantation .
Logo seus pensamentos dirigiram-se para um homem
alto com olhos cinza, mãos fortes e lábios quentes que ela
nunca esqueceria. Sua ceia iluminada pela lua no terraço
significava algo para ela. Ela tinha fantasiado sobre uma
nova vida na qual ela era apreciada e amada. Ela estava
irremediavelmente equivocada ― sem esperança e
desamparada para fazer qualquer coisa sobre isso.
Se ela não estivesse ansiosa por amor e romance, nunca
teria virado para o norte na encruzilhada em direção a
Charles Town. De acordo com o conto que ela havia
produzido, ela deveria ter se dirigido a Front Royal até ter
certeza absoluta de que o audaz capitão já havia
desaparecido. Mas a mente de Emily tinha estado em
Alexander e pouca coisa mais.
O vigilante oficial confederado, a cavalo, seguiu as duas
mulheres durante vários quilômetros. Ele não sabia o que
fazer da situação. Ele não acreditou em uma palavra que
Emily havia dito, mas se por acaso, ela estivesse falando a
verdade, qualquer afronta chegaria rapidamente ao coronel.
Quando sua carroça virou o norte em vez do sul em
direção a Front Royal, ele cuspiu no chão. ― Você está me
enganando ianque. ― Seguiu-a.

241
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Eu vou gostar de vê-la ajoelhada, senhorita Harrison,


junto com sua amiga negra que se imagina uma senhora.
Isso pode ser bastante interessante, de fato.

242
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 12

Outono 1862

― Tia Augusta? Tia Augusta!


A sra. Bennington acordou em sua espreguiçadeira no
alpendre traseiro.
― Alexander, que prazer te ver em Martinsburg, ― disse
ela. Sentada, estendeu os braços para ele.
― O prazer é meu, querida tia. ― Ele beijou sua
bochecha e esfregou as mãos entre as dele.
― Onde estão James e Rebecca? ― Ela olhou por cima
de seu ombro. ― Seus pais estão com você?
― Não, senhora. Eu subi sozinho só para te ver.
― Você acha que pode me enganar com tanta facilidade?
― Augusta levantou-se e tocou o sino para chamar a criada.
― Eu acredito que você veio ver a srta. Harrison. ― Ela
bateu um dedo elegante contra sua bochecha. ― Mas eu
sempre estou feliz em vê-lo. Vamos tomar chá enquanto você
me conta as novidades.
Alexander sentou-se numa cadeira perto dela e esticou
as longas pernas. ― Você me conhece muito bem.

243
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Eu duvido disso, sobrinho. De qualquer forma, Emily


caminhou até a cidade com alguns recados e para pegar ar. A
pobrezinha leu para mim toda a tarde, até eu bocejar
rudemente no meio do livro. ― Seu sorriso apagou anos de
seu rosto.
― Desde que estivemos em casa, ela me ensinou o jogo
de corações e eu a ensinei a jogar twist. Não sei o que faria
sem ela. Porter insiste em manter as meninas na Europa até
que este assunto seja resolvido.
― Este assunto é uma guerra, querida tia. O tio Porter é
sábio ao proteger suas filhas. Eu tive que desviar de várias
patrulhas da União no meu caminho até aqui. Isso é parte da
razão pela qual eu vim. Martinsburg em breve estará no
controle federal. Não há como contorná-lo. Nem Robert E. Lee
nem ninguém pode poupar as tropas para proteger a cidade .
― Mas a ferrovia é como nós conseguimos suprimentos
médicos para a prática de Porter. ― Augusta torceu as mãos.
― É exatamente por isso que os yankes querem essa área. E
não há muito o que possamos fazer para detê-los,
considerando sentimentos locais. ― Augusta balançou a
cabeça com gravidade.
― Ouvi as mesmas notícias de Porter. Muitos dos
moradores da cidade mostram lealdades à União. Nas
fazendas periféricas, mais da metade das famílias querem
retornar à União. Eles são muito pobres para terem possuído
escravos. Como as lavouras estão sendo destruídas por
escaramuças constantes, sua sobrevivência depende da
restauração da paz.

244
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Ouvi dizer que uma votação em breve será tomada na


Casa do Estado. Se os rumores são verdadeiros, os condados
a oeste dos Alleghenies e aqui ao longo do Potomac sairão da
Confederação. ― Alexander não conseguiu esconder sua
tristeza, Augusta caiu sobre a espreguiçadeira.
― Isso é o que está sendo relatado nos jornais. Esses
condados se separarão da Virgínia e formarão um novo
estado da União, Virgínia Ocidental. ― Alexander começou a
andar na sala.
― Se isso acontecer, você e o tio Porter não podem
permanecer em Martinsburg. Você não estará a salvo das
represálias dos yankees. Você deve ir para Hunt Farms
durante a guerra. Na verdade, meus pais insistem que você
não espere mais. ― Ele atravessou a sala e segurou as mãos
de Augusta. ― Volte comigo agora e fique até o Natal. Então
podemos ver o que acontece após a votação.
― E quanto ao Parkersburg e nossa querida ilhazinha?
Eles também voltarão para a União?
― Com certeza, se os outros estsdos ocidentais votarem
pela separação.
― Eu devo conversar sobre isso com seu tio. Porter
ficará com o coração partido. ― Ela fechou os olhos, lutando
contra as lágrimas.
― Eu parei em seu consultório primeiro e já falei com
ele. Tio Porter está empacotando seu equipamento. Ele me
pediu para ser o primeiro a dizer-lhe.
― Então está decidido. ― A voz de Augusta vacilou
quando ela se levantou. ― Agora, devo ver sobre o jantar. Não

245
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

fará mal servir batatas fritas e batatas cozidas quando o meu


sobrinho favorito veio me salvar. ― Ela parecia normal, mas
sua marcha sugeria que a notícia a afligia com severidade. Na
porta, ela fez uma pausa.
― Não consigo entender isso, Alexander. O mundo
parece estar ficando fora de controle. Quando finalmente
acabar a guerra, nada mais será igual. ― Ele assentiu
solenemente.
― Não vou insultá-la dizendo que tudo estará bem.
Somente Deus conhece o futuro. Devemos deixá-lo em suas
mãos capazes. ― Um pequeno sorriso levantou os cantos de
sua boca.
― É bom ouvir você dizer isso, sobrinho. Ultimamente,
temi que você tivesse perdido sua fé. ― Ela desapareceu pelo
corredor até a cozinha. Andando até o aparador, Alexander
viu o decantador de conhaque. Em vez disso, ele escolheu
despejar um copo de limonada de um jarro que estaba ao
lado. Ele afundou na cadeira próxima à lareira com a bebida
para refletir sobre o futuro. Aquecido e hipnotizado pelo fogo,
ele não ouviu a porta do salão abrir e fechar até que uma voz
familiar quebrou seu devaneio.
― Esse não é o cavalo dele, Lila. Só porque um garanhão
branco está aqui não significa que seja do sr. Hunt. ―
Ouvindo a voz de Emily, o coração de Alexander saltou. Ele
sorriu com a lembrança de cabelos selvagens voando em volta
da cabeça e laços de veludo espreitando sob a bainha.
― É o mesmo, Emily. Esse é exatamente o cavalo que
vimos em Hunt Farms, e agora está amarrado aqui na frente.

246
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Eu apenas espero que William esteja com ele. ― Ele deslizou


mais baixo na cadeira de espaldar, reconhecendo a voz
distinta de Lila Amite e seu perfeito inglês da rainha. Lila
Amite e William? Esta era uma notícia interessante.
― O que ele faria aqui? ― Perguntou Emily. ― Existem
tropas federais em todos os lugares. Ele não é insensato o
suficiente para cruzar as linhas da União.
― Oh, posso te assegurar, senhorita Harrison, eu sou. ―
Alexander levantou-se, parando as duas mulheres em suas
trilhas. Elas se viraram para ele simultaneamente, suas
bocas pendendo abertas.
― Você gostaria de se aquecer no fogo? Há um pouco de
frio no ar hoje, você não acha? ― Ele tomou o resto de sua
limonada em um longo gole.
― É bastante grosseiro ouvir as conversas, sr. Hunt. ― O
tom de Emily era decidido enquanto ela entrava na sala de
estar.
― Eu pensei que a esta altura você já teria aprendido
boas maneiras.
― A tentativa de espionagem não era minha intenção.
Eu estava apreciando o fogo quando ouvi vozes no corredor. É
um prazer vê-la novamente, senhorita Harrison. Boa tarde,
senhorita Amite. ― Ele acrescentou com um aceno de cabeça
para Lila.
― Boa tarde, senhor. Talvez você possa esquecer o que
eu falei sobre William? ― Ela tirou o casaco de Emily de suas
mãos e desapareceu pelo corredor.
― Obrigada, Lila. ― Emily disse para ela, recuando.

247
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Você parece estar diante de um executor com os olhos


vendados, senhorita Harrison.
― Eu não tenho nem um pouco de medo de você. ―
Emily deu um passo em sua direção. ― O que o trás a
Martinsburg?
― Eu vim te ver, é claro. Naquela noite, nós
compartilhamos o jantar e mudou o curso dos planetas para
mim.
Emily olhou por cima do ombro para a porta. ― Por
favor, não traga à luz tais assuntos, especialmente se
podemos ser ouvidos.
― Não estou acendendo nada, asseguro-lhe. ― Ele
fechou a distância entre eles e segurou seu queixo. ― Fiquei
desapontado por não encontrar você quando eu voltei para
casa. Você saiu sem a mais breve carta de explicação.
― É você quem me deve uma explicação. ― Ela puxou-se
de seu aperto e deu uma volta na cadeira, como para colocar
uma barreira entre eles. ― Eu não conseguia dormir depois
do nosso passeio movimentado no jardim. Passei a andar na
varanda e assisti você sair na noite. Talvez para visitar outra
pessoa?
― Eu não a deixei ir para estar com outra mulher, se é o
que você está insinuando. ― Ele colocou o copo no aparador.
― Eu tinha negócios a resolver logo cedo e estava a uma boa
distância. Você me toma como um homem de lazer, mas Hunt
Farms precisa de renda para sobreviver. ― Alexander ofereceu
um copo para ela.

248
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Emily balançou a cabeça. ― Absolutamente não. O


álcool é a razão pela qual acabei indo com você ao jardim. E
se alguém nos tivesse visto beijando tão indiscretamente
naquela noite? Eu teria sido demitida.
― Não, você não teria sido. Minha família conhece meu
carinho por você, Emily. ― Ele caminhou até ela, recostou-se
sobre a cadeira e beijou sua testa.
― Então eles estão cientes de algo que eu não estou. ―
Ela ergueu a mão para impedir a interrupção. ― E de algo
que eu não desejo encorajar. Meu comportamento foi um
erro, um lapso de julgamento que não será repetido. Eu não
acho o romance um passatempo casual, da maneira que você
e seus compatriotas fazem.
― Meus compatriotas? Que escolha estranha de
palavras.
― Vocês sulistas transformam o amor em um evento
esportivo. Por que, eu aposto que você e seus amigos apostam
em conquistas românticas .
― Você é a única a fazer uma aposta no amor, Emily.
Um rubor subiu pelo pescoço dela. ― Essa foi uma
escolha desafortunada de palavras, nada mais.
― Para uma mulher que passou pouco tempo no Sul,
você certamente tem fortes opiniões sobre como vivemos
nossas vidas. ― A agitação de Alexander cresceu no
momento.
― Eu acredito ter visto o suficiente para formar uma
opinião. Não é necessário revirar no baú. Uma pessoa
geralmente percebe a ideia geral de um cheiro e um olhar.

249
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Ele jogou a cabeça para trás e riu. ― É assim que você


vê nossa vida em Hunt Farms... dos meus pais e minha...
como os porcos revirando na lama?
Emily respirou estranhamente e baixou os olhos. ― Eu
imploro seu perdão. Não tenho vontade de insultar seus pais,
senhor. Eles não me mostraram nada além de gentileza
durante minha visita .
― Então seu único desejo foi me insultar?
― Sim. Eu quero dizer, não. Mais uma vez eu escolhi
mal minhas palavras. O que eu estou tentando dizer é que
nossas vidas divergentes tornam impossível a possibilidade
de uma ligação.
― Hei, isso foi um golpe! Você realmente é uma artista
em trocar as mãos pelos pés. ― Alexander tomou o resto de
sua limonada. ― Eu não tenho certeza se entendi. Você quer
dizer que me achou desagradável?
― Não, sr. Hunt. Eu...
― Que você pensou que nosso jantar no terraço foi um
aborrecimento esmagador?
― Não mas...
― Talvez você ache minha família horrível, totalmente
inapropriada para uma mulher com suas ternas
sensibilidades e os queira repelir de todas as formas.
― Sr. Hunt, permita-me falar por mim mesma! ― Ela
sibilou. Então, respirando profundamente, disse: ― Eu acho
sua família encantadora, o jantar com você foi mais agradável
do que eu poderia ter imaginado, e você é... razoavelmente
atraente.

250
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Então, o que parece ser o problema?


― Só que, quando estou na sua presença, não consigo
entender uma palavra. Isso não faria um relacionamento
satisfatório! ― A voz de Emily estava perto de um rugido.
De repente, ouviram alguém aclarar a garganta na
entrada. A sra. Bennington inclinou-se contra o batente da
porta para obter apoio. Com a mão sobre a boca, ela pareceu
dar uma risada sufocante.
― Perdoe-me, senhora. ― Murmurou Emily. ― Não
queria aumentar minha voz em sua casa.
― Não pense nisso. Alexander geralmente afeta as
pessoas desse jeito. Eu percebi isso em várias ocasiões antes.
― Endireitando no batente da porta, a sra. Bennington
inclinou-se pesadamente sobre a bengala. Emily apressou-se
para pegar seu braço.
― Por favor, deixe-me ajudá-la.
― Eu só queria deixar você saber que o Porter voltou e o
jantar está prestes a ser servido. ― Ela se afastou do apoio de
Emily. ― Obrigada, minha querida, mas hoje sinto-me forte.
― Ela entrou no corredor e depois parou para olhar para trás.
― Alexander, escolte a senhorita Harrison para a mesa
se você puder prometer ficar no seu melhor comportamento.
Pare de atormentá-la. Você realmente pode ser um espinho
no pé.
Ele sorriu. ― Eu vou fazer um esforço extraordinário
para ser educado, apesar da minha predisposição natural. ―
Ele estendeu o antebraço para uma Emily muito mais pálida.

251
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Sob esses termos, posso ter a honra de escoltá-la para


a sala de jantar?
Emily esperou até garantir que sua empregadora
estivesse fora do alcance do ouvido antes de falar. ― Como
você pode falar isso? Ela nos ouviu discutir. Estou
mortificada, nenhuma outra palavra descreve isso. Agora ela
conhece nosso flerte. Eu poderia simplesmente morrer de
vergonha aqui mesmo no local. ― Na verdade, seu rosto
tomara uma palidez mortal.
― É uma coisa natural duas pessoas se apaixonarem.
Isso acontece o tempo todo. Minha tia está ciente das
inclinações humanas. Ela tem duas boas filhas.
― Pare de mudar o assunto. ― Emily pisou o pé. ― Eu
não desejo perder minha posição por conta da sua loucura.
Esse tipo de coisa não acontece o tempo todo comigo .
― Isso poderia ser o que está causando seu desconforto.
Tomar passeios iluminados pela lua, braço no braço, beijar
em alcovas escondidas, e se esgueirar para ficar sozinha é
como cavalgar um cavalo. Se você for jogada, a melhor
atitude é subir de volta e fazer outra tentativa. ― Ele pegou
sua mão, colocou-a no antebraço e apertou sua mão com
segurança sobre ela.
― Vamos nos apressar? Meu estômago ressoa por
sustento.
― Isso não acontece comigo porque eu não aceito isso. ―
Emily falou como se falasse com uma criança pequena. ― E
eu certamente não voltarei a esse cavalo em particular.

252
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Nós vamos apenas ver sobre isso. ― Quando eles


estavam a alguns passos da sala de jantar, ele parou e
ergueu o queixo dela com um dedo. ― Em breve será inseguro
que minha tia e meu tio permaneçam em Martinsburg. Se
você ficar no seu emprego, e certamente espero que você faça,
você estará se mudando para Hunt Farms. Talvez então você
obtenha uma melhor compreensão de nossas vidas e verá as
coisas de forma mais objetiva.
Quando ela tentou se afastar, ele apertou sua mão e
seus olhos ficaram sérios. ― E se você vier, senhorita
Harrison, espero que você devolva a hospitalidade de meus
pais com um comportamento semelhante e não faça nada que
possa causar a sua ruína. ― Ele soltou o rosto dela e eles
entraram na sala de jantar pelo que provou ser uma refeição
interminável ― o último dos Benningtons em Martinsburg.
Alexander teve muito a pensar durante o seu longo
passeio de volta a Front Royal. Viajando no meio da noite
para conhecer alguém? Ela pensou que ele tinha ido para
outra mulher. Que tipo de alma depravada ela pensou que ele
era? Ele nunca poderia fazer tal coisa, não desde a sua
reunião. Ele odiava todas as mentiras e decepções, primeiro a
seus pais e agora a Emily. Mas que escolha tinha? Ele não
podia dizer a verdade. Por mais doce que fosse seu rosto ou
quão macio fossem seus lábios, ela era uma ianque, nascida
e criada. E essa ianque estava preparada para algo. A
lembrança dela emergindo desse celeiro em Berryville estava
embutida em sua mente. No entanto, ele ainda não havia

253
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

exigido uma explicação para o comportamento dela. Uma


parte dele, profunda e escondida, não queria saber.

Emily nunca tinha ido a uma festa de colheita, nem


nada remotamente parecido. Como muitos convidados
haviam vindo de longe, o evento seria um dia inteiro e seria
levado para o próximo dia também.
Um piquenique para a tarde foi planejado no gramado,
com jogos configurados para senhoras e senhores. Barcos
pequenos, pipas e patos entreteriam os jovens convidados sob
os olhos atentos de suas babás. Servidores silenciosos e
uniformizados montavam longas mesas de cavalete na
sombra e colocavam delícias sobre elas ao longo do dia.
Os hóspedes podiam pegar alimentos e bebidas sempre
que quisessem. As senhoras geralmente dormiam no final da
tarde, enquanto os senhores encontravam café e conhaque no
interior da biblioteca do sr. Hunt. Uma ceia leve seria
colocada no alpendre traseiro para qualquer pessoa com
fome, e então a festa começaria às nove horas. Um jantar
formal seria servido no salão de jantar à meia-noite.
Posteriormente, os foliões poderiam dançar até o
amanhecer, se refrescar nos quartos de hóspedes se
desejassem, antes de começarem sua jornada para casa. Uma
refeição seria servida ao meio dia na sala de jantar para os
hóspedes que ficaram durante a noite.

254
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Com espanto, Emily assistiu as famílias chegarem em


caleças bonitas durante a manhã, enquanto homens jovens
cavalgavam em belos corcéis. Os vagões seguiam atrás
levando casais, valetes e criadas pessoais, juntamente com os
baús de vestuário formal para as festas e iguarias e vinhos
para seus anfitriões. Os vizinhos que chegavam à casa de
Emily haviam usado a roupa durante todo o dia, e o presente
para seus pais era geralmente uma tigela de feijão.
Quando os convidados pararam nos degraus da frente,
Emily cumprimentou os recém-chegados e depois levou
comida para a cozinha fresca e subterrânea. Maids organizou
pastéis e canapés em bandejas de prata, que tinham sido
enfeitadas com flores frescas ou folhas de samambaias. As
bandejas seriam levadas para o almoço apropriado, o jantar
após a festa ou o café da manhã.
― Como essas mulheres conseguem manter figuras tão
finas, considerando o número de refeições servidas durante
os eventos sociais? ― Ela sussurrou para Lila enquanto
levavam outro bolo de rum.
Lila revirou os olhos. ― Essas senhoras não comem
muito, Emily. Elas escolhem um pouco disso ou um pouco
daquilo. ― Lila demonstrou usando dois dedos e um alimento
imaginário. ― Eles nunca comem até ficarem cheios.
― O que acontece se provarem algo que realmente
gostam? ― Emily tirou uma torta de morango de uma
bandeja. Ela quebrou em dois, passou a metade na boca e
depois estendeu a outra metade.

255
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Lila olhou ao redor para se certificar de que ninguém


estava assistindo e depois colocou em sua boca.
― Não faz diferença se acharem que o gosto é o próprio
céu. Elas nunca comeriam muito e arriscariam-se a ser
consideradas pessoas comuns. ― Lila pressionou as costas de
seus dedos em sua boca. ― Eu não quis fazer nenhuma
ofensa.
― Nenhuma. Isso parece um desperdício para mim,
colocando uma variedade de comida para as pessoas apenas
empurrarem seus pratos com um garfo. Não é o que o Senhor
pretendia. ― Emily tirou uma pequena torta de novo da
bandeja. Desta vez, ela não teve tanta sorte.
― E o bom Senhor não pretendia que vocês duas
estivessem engolindo doces aqui embaixo. ― A voz crescente
de Beatrice quase as tirou de seus sapatos. ― Xô, srta.
Harrison. O piquenique está acontecendo no gramado. Lila,
sua mãe precisa de ajuda nas mesas. ― A cozinheira sacudiu
seu longo avental branco com uma careta.
― Não incomoda a você que trabalhe hoje, enquanto eu
tenho permissão para me comportar como convidada? ―
Perguntou Emily, subindo os degraus. ― Nós duas somos
funcionárias pagas.
Lila puxou o pequeno doce dos dedos de sua amiga e
devorou-o em duas mordidas.
― Nem um pouco. ― Ela saltou em direção ao buffet.
Mas incomodou Emily. Mesmo que este tivesse sido o
dia de folga de Lila, ela não teria permissão para se misturar
entre os convidados e curtir as festividades.

256
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Depois de uma breve pesquisa, Emily encontrou a sra.


Bennington caminhando pelo gramado com uma mulher
vestindo um chapéu ultrajante. Era de abas largas com uma
tonalidade de azul e tinha várias penas de avestruz coladas
na fita. Levando dois copos de limonada de uma bandeja do
garçom, Emily os levou para as senhoras.
― Você está com sede? ― Ela murmurou em um tom
musical.
― Ah, Emily, aí está você. Vamos sentar em algum lugar
à sombra. ― A sra. Bennington apontou para o jardim de
rosas.
Emily esperou até que ambas as senhoras estivessem
sentadas em um banco antes de entregar suas bebidas. Como
o banco era apenas grande o suficiente para dois, ela
abaixou-se na grama aos seus pés, notou suas expressões
chocadas muito tarde. A parte de trás do aro rígido de Emily
pegou embaixo dela, fazendo com que a frente se inclinasse e
exibisse suas anáguas e o fundo de suas calças. A sra.
Bennington simplesmente riu, mas a senhora com aquela
monstruosidade de chapéu quase desmaiou. Como o vestido
era muito desconfortável, Emily estava presa no chão,
incapaz de tirar o aro de debaixo dela.
Então, sem aviso prévio, duas mãos fortes se
engancharam sob seus braços para a levantar de sua
posição.
― Lá vai você, senhorita Harrison. Você perdeu seu
equilíbrio e caiu? Você realmente não pode se sentar neles,
você pode? ― Alexander firmou-se com uma mão e escovou a

257
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

grama de sua parte de trás com a outra, aumentando o


choque da sra. Ostrich Feathers.
― Obrigada, sr. Hunt, por me ajudar. ― Emily deu uma
palmada na mão dele longe de seu vestido. ― Sim, perdi o
equilíbrio, mas agora estou bem. ― Ela tentou
desesperadamente recuperar sua dignidade. Ele estava tão
perto que podia sentir o cheiro de seu sabão de barbear.
Alexander apoiou a mão nas pequenas costas de Emily.
― Não foi um ianque que inventou o aro, tia Augusta?
― Não, eu acredito que o cavalheiro era um parisiense.
Por favor, leve a srta. Harrison para obter algo refrescante
para beber. Ela parece um pouco nervosa. E lembre-se do
que eu falei sobre atormentar as pessoas. ― Sua tia sorriu
com carinho para ele.
― Seria um prazer. ― Ele piscou para ela e depois
curvou-se para a outra mulher.
― Com licença, por favor, senhora. ― Perdendo, Emily
balançou a cabeça e recuou para a casa com Alexander nos
calcanhares.
― Emily, aguarde lá antes de tomar outra queda. É
melhor gastar o restante do piquenique na minha companhia.
Dessa forma, posso ter certeza de que você não se jogará no
trevo e não poderá se levantar. Esse novo vestido veio de
Paris, não foi? ― Ele pareceu bastante divertido consigo
mesmo.
Ela parou e olhou para o seu traje, ainda pontilhado
com pedaços de grama. ― Sua mãe comprou esse vestido na

258
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

França? Estou chocada com um presente tão caro. Eu não


fazia ideia.
― Sim. Ela respeita seu desejo de não usar nada feito
por mãos escravas, mesmo que a maioria da nossa ajuda
doméstica seja agora de trabalhadores livres.
― Por que ela faria tal coisa e pagaria um preço tão caro
por um presente para a governanta da sua irmã?
― Talvez porque suspeite que você é mais para mim do
que a governanta da sua irmã. ― Alexander se inclinou e a
beijou levemente na boca.
Seu beijo foi mais como uma carícia do que como um
beijo, mas deu um nó no seu estômago do mesmo jeito.
― Por favor... alguém poderia nos ver. ― Emily olhou ao
redor. Com certeza, várias mulheres jovens que estavam
passeando entre a casa e a lagoa testemunharam o beijo. Um
casal de meia idade parou em seu caminho e olhou-os
abertamente.
― E se alguém o fizer? Eu sou seu anfitrião. O meu
comportamento está acima de tudo.
― Eu esqueci que você teve mais experiência com esses
tipos de performances teatrais. ― Ele cruzou os braços.
― Eu não sou um ator. Esse beijo foi uma expressão
sincera do meu carinho por você.
― Mas você chocou os convidados com seu
comportamento direto. Os beijos no gramado sem o benefício
de um guarda-sol para a privacidade devem ser reduzidos. ―
Emily tentou infundir alegria em suas palavras. Alexander

259
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

olhou para o lago e depois para a casa. Ele viu as mulheres


observando-os e sussurrando atrás de seus leques.
― Eu vejo o que você quer dizer, Emily. Você capturou a
atenção da concorrência. Em breve, teremos senhoras se
lançando no gramado em grande número na esperança de
serem resgatadas pelo anfitrião. ― Ele riu de diversão.
― Então elas se enganariam, porque eu não sou mais
nada para você do que a governanta da sua tia. E eu lhe
asseguro, sr. Hunt, que é tudo o que eu sempre serei. ― Suas
bochechas coraram quando lembrou seu comportamento há
alguns minutos atrás.
Ela então afastou-se com uma rapidez que desmentia o
problema de sua roupa. Ela se perdeu num mar de
convidados, pisando nos degraus do pórtico no gramado. Por
alguma razão inexplicável, ela teria dado qualquer coisa para
não parecer boba na frente de seus amigos refinados. Como
ela percebeu, esses aristocratas que não se importavam antes
com ela estavam importando-se muito agora. Seus joelhos
sentiram-se fracos e as lágrimas picavam, mas ela as reteve.
A última coisa que precisava era começar a chorar.

― E eu asseguro, Emily Harrison, você se tornará muito


mais do que isso, e talvez antes que esta noite termine. ―
Alexander murmurou em voz baixa.
Por que ele continuou perseguindo uma mulher que
continuou a desprezá-lo, permaneceu como um dos mistérios
260
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

da vida. Ele tinha riqueza, sucesso nos negócios e respeito


pelos homens do mais alto nível da Confederação. Quase
todas as presentes na festa receberiam suas atenções e
ficariam felizes em permitir que ele as cortejasse. Mas era a
estima desta yankee orgulhosa que ele cobiçava e não
conseguia ganhar.
Ela permaneceu um mistério indescritível, além do
alcance dele, um que poderia muito bem levar à sua
destruição.

Certamente, Emily adorara o novo presente da sra.


Hunt.
De volta ao refúgio do seu quarto, tirou o vestido para
retirar o capim e esfregou uma pequena mancha com um
pano úmido. A roupa linda era uma confecção de organza
branca pontilhada com flores azuis, com um colar branco
largo no decote e uma faixa coincidente na cintura bem
ajustada. Foi o aro descarado que causara problemas.
Emily pendurou o vestido de volta em seu guarda-roupa
magro e esticou-se na espreguiçadeira pela janela aberta.
Sentia-se estranha em voltar para Hunt Farms. Eles
empacotaram seus pertences e o equipamento médico do dr.
Bennington em dois vagões e na carruagem e deixaram
Martinsburg após dois dias da visita de Alexander.
Ele tinha ido imediatamente após o jantar agonizante,
de acordo com o relatório da espiã autodenominada, Lila.
261
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Alexander notou que Lila pegava as cortinas e acenou


um adeus. Ele tinha colocado o chapéu e falou: ― Tenho
certeza de que William se juntará a nós para receber seu
retorno a Hunt Farms.
Por sua vez, ela ficou sem palavras, e Emily deu uma
boa risada às suas custas. No início, ambas ficaram felizes
por voltar para os Hunts, mas agora Emily não tinha tanta
certeza. Ela não era forte como sua mãe. Ela poderia
facilmente ser presa pelas atenções de Alexander. Embora ela
soubesse que nunca poderia dizer nada para ele, ela estava
atraída por ele como uma abelha para o néctar. Aqui, em sua
fazenda em Front Royal, sentia-se como uma convidada, não
uma empregada. E a sra. Bennington, por algum motivo
estranho, parecia encorajar isso. Ela raramente deixava
Emily ler para ela ou ajudá-la a vestir-se ou a dar uma mão
com a correspondência pessoal. Com tão pouco para ela
fazer, implorou ao dr. Bennington que permitisse que suas
filhas retornassem da Europa. Sua correspondência recente
indicou que elas sentiram bastante o afastamento de seus
pais. E as cartas cativantes que elas enviaram em sua
atenção fizeram com que seu coração se dilatasse com
alegria. Ela precisava de algo para ocupar seu tempo quando
não ajudava os escravos refugiados ao longo do caminho da
liberdade. Muito tempo em suas mãos permitiu apenas uma
coisa: sonhar acordada sobre Alexander, um homem que
nunca poderia ser seu marido, não importava o quão macio
fosse seu beijo ou a sensação de seu toque.

262
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― O que você está fazendo por aí em suas anáguas? ―


Lila entrou no quarto entregando seu vestido de baile recém-
passado.
― Crescendo inquieta e vorazmente com fome. Eu
pretendo carregar meu prato com toda delicadeza, como nós
estávamos fazendo na cozinha. ― Emily entrou na sala.
Abrindo as portas francesas, Lila puxou as cortinas de
musselina para a privacidade.
― Por que você não comeu no piquenique? ― Ela
arqueou uma sobrancelha.
― Depois de entregar bebidas à sra. Bennington e a sua
amiga, sentei-me na grama e não conseguia voltar. Eu tinha
esquecido do aro e tive que ser levantada pelo sr. Hunt. ―
Sua garganta apertou com a lembrança de sua humilhação.
― Te suplico, diga que você está me provocando. ― Lila
olhou com olhos redondos e incrédulos.
Ela balançou a cabeça. ― Eu fiz um espetáculo de mim
mesma e pior, fugi do piquenique sem um único bocado para
comer.
― Isso é tão parecido com você, preocupando-se com seu
estômago em vez de sua dignidade. ― Lila revirou os olhos
como desapontada com uma criança travessa. ― Eu vou te
preparar um banho.
― Eu estava com vergonha, é verdade, mas eu me
recuso a permitir que a opinião de qualquer um de mim
interfira em obter boas vindas. ― Rindo, Emily sentiu a
tensão da tarde escorrer. ― Eu pretendo dançar na festa esta
noite e ter um tempo delicioso. ― Ela balançou no quarto com

263
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

um parceiro invisível. ― Vou comer de tudo o que eu quero.


Afinal, não dou a mínima para o que os sulistas pensam de
mim .
― Quem você está tentando convencer, eu ou você? ―
Perguntou Lila, voltando para a sala. ― E com quem você está
dançando? Você enlouqueceu com o calor?
― Eu estou dançando comigo mesma. E não tenha medo
da minha sanidade. Eu sinto isso retornando enquanto
falamos. ― Ela girou em torno de Lila várias vezes.
Lila ergueu uma sobrancelha suspeita. ― O que está
acontecendo?
― Nada, mas estou morrendo de fome. O que eu uso
para participar da ceia no terraço? Eu permaneço em um
vestido de dia ou coloco meu vestido de noite? Como o sol
está começando a se pôr, talvez eu deva começar no vestido
do dia e depois volte para o andar de cima e mude no
momento em que o sol deslizar abaixo do horizonte. Esses
aristocratas certamente têm regras complicadas ditando a
progressão do sol .
Lila olhou ao redor da sala. ― Vocês andaram bebendo?
Deixe-me cheirar sua respiração. ― Ela agarrou os pulsos de
Emily, inclinou-se e inalou profundamente.
Emily bufou. ― Lila, eu estou sóbria como um pregador
Quaker, que nunca aprovaria esse vestido. ― Ela colocou as
mãos desafiadoramente em seus quadris.
― Mas você deve usar o vestido de baile para jantar. Não
se preocupe com a localização do sol quando você fizer a sua
entrada. Apenas tente não cair na tigela de ponche, porque

264
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

estarei muito ocupada para puxá-la para fora e secá-la. ― Ela


virou as costas para Emily para sacudir os pregas do vestido.
Emily agarrou-a pela caixa torácica e apertou.
― Por que você estará ocupada? Diga-me, diga-me. ― Ela
sacudiu Lila como uma boneca de pano quando a menina
permaneceu muda.
Finalmente, Lila a encarou. ― É que hoje é o dia de folga
de William, e depois que eu terminar de ajudar com a ceia,
vamos fazer um passeio de charrete e um piquenique ao lado
do rio, só ele e eu.
― Apenas ele e eu vamos fazer um piquenique ― corrigiu
Emily, curtindo cada minuto disso. ― Sua mãe sabe?
― Não, mas papai sim, porque William pediu sua
permissão. ― O rosto de Lila brilhava na luz da lâmpada,
irradiando alegria.
Emily abraçou-a novamente. ― Isso parece sério. Vê se
não foge e fique comprometida antes de voltar da festa.
Lila riu como uma estudante, mas ficou séria. ― Rápido,
pule na banheira que enchi para você. Eu quero ajudá-la com
este vestido, depois ir para a cozinha, e depois sair com
William antes que ele mude de ideia. ― Ambas as meninas
começaram a rir.
Emily ficou muito satisfeita com a amiga. Pelo menos
uma delas teria um futuro brilhante.
Tão bonito como o vestido do piquenique, o vestido de
baile era de tirar o fôlego. Era um brocado de pêssego pálido
em relevo com pequenos botões de rosa na cor creme. Uma
cintura caída formou um V na frente com um drapeado na

265
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

parte de trás com camadas de seda. O corpete bem ajustado


tornou o espartilho uma necessidade. A saia fluiu de uma
centena de pregas pequenas na cintura, com um aro pequeno
e discreto. Um belo conjunto de rosas de tecido acentuou o
decote e as luvas de renda, alinhadas com seda de pêssego,
terminavam em pontos nos pulsos.
Sentiu-se como uma princesa quando Lila colocou-a no
vestido. Embora tenha custado uma fortuna, ela não
considerou recusar o presente em nenhum momento. O
orgulho era um dos pecados mais mortíferos. Emily sacudiu a
cabeça para esquecer o aviso de seu pregador. Só para hoje à
noite, eu quero me sentir bonita. Dentro da caixa do vestido
havia chinelos coloridos de cobre e fitas para enfeitar os
cabelos. Lila pegou algumas mexas do cabelo espesso de
Emily arrumou em um cacho sobre a cabeça e depois deixou
o restante cair em cascata nas costas. Esta não era a moda,
não era o estilo aceito, mas Emily gostou do efeito quando
olhou-se no espelho. Ela colocou um toque de vermelho
castanho em seus lábios e bochechas e quase não
reconheceu seu reflexo.
A menina magrinha e rabugenta com os cabelos
emaranhados e a testa suada tinha desaparecido.
A pessoa que a olhava era uma mulher e, pelo menos
por uma noite... uma dama.

266
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 13

― Alexander! Alexander, aqui!


Alexander procurou a voz grigante ao redor de um mar
de mesas postas ao longo do gramado. Ele avistou Quincy
Daniels e sorriu. Quincy, um amigo de longa data de seu pai,
era proprietário e treinador de cavalos de corrida e um
excelente cliente de novilhos da Fazenda Hunt. Mas quando
Alexandre viu a filha de Quincy, Samantha, sentada com ele,
seu sorriso desapareceu. Segurando seu prato de jantar no
alto, ele navegou entre a multidão, muitos dos quais
cumprimentavam atenciosamente o filho de seu anfitrião.
― Boa noite, Quincy, Samantha. ― ele curvou-se para o
cavalheiro e aceitou a mão estendida da senhorita Daniels,
roçando um beijo na parte de trás de sua luva.
― Boa noite. Sente-se conosco, meu rapaz. Que
surpreendentes abundâncias de alimentos colocaram para o
jantar. Mal posso esperar para ver o que irão servir para o
banquete da meia-noite. ― Disse Quincy. Sua circunferência
indicava que o homem robusto gostava muito de suas
refeições.
― Pai, por favor não fale assim. O sr. Hunt vai pensar
que nós viemos até aqui apenas pela comida. ― A voz baixa
267
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

de Samantha arrastou-se com uma doçura enjoativa. Ela


sorriu, exibindo dentes grandes que trouxeram à sua mente
uma raça de éguas rústicas que uma vez ele teve na
propriedade. Alexander também observou que a senhorita
Daniels provavelmente carregava seu prato generosamente na
privacidade de sua casa, a julgar pelo ajuste de seu vestido.
Embora ela fosse uma mulher atraente, ele sempre se sentia
desconfortável em sua presença, como um coelho sob o olhar
afiado de um falcão.
― De maneira nenhuma, senhorita Daniels. Dá grande
prazer a minha família quando nossos convidados desfrutam
da refeição. ― Sorrindo para Quincy, Alexander atracou-se
com seu próprio prato de presunto frio fatiado, ovos em
conserva e verduras frescas fatiadas.
Samantha levou uma garfada delicada a sua boca.
― Mmm, eu acredito que este é o presunto mais
delicioso que eu já provei. Você acha que Beatrice
compartilharia a receita da cobertura com a nossa Maggie? ―
Ela agitou os longos cílios escuros.
― Claro. ― Ele respondeu, espantado por ela ter
lembrado o nome de sua cozinheira. Ele tinha que ter
cuidado com essa moça. Não era segredo que Quincy Daniels,
um viúvo, procurava um marido para sua filha. Alexander
comeu várias outras garfadas do jantar enquanto olhava para
os recém-chegados. Ele procurava Emily na multidão, algo
que estava fazendo desde que ela desaparecera naquela
tarde.

268
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Não se preocupe, minha querida. O sr. Hunt sabe a


verdadeira razão pela qual estou aqui. ― Quincy tirou três
taças de champanhe da bandeja de um garçom para eles. ―
Eu gostaria de comprar todo o estoque de cavalos que esteja
à venda antes que os yankees confisquem cada um no Vale
de Shenandoah. ― Daniels levantou seu copo numa saudação
antes de virar metade do conteúdo. ― Ouvi dizer que eles
retomaram Winchester. ― Sua voz elevou-se em raiva.
Alexander colocou seu copo fora de alcance.
― É verdade. Sei por fonte segura que uma brigada da
União acampou a menos de trinta e dois quilômetros daqui. ―
Ele afastou seu prato também, o apetite desaparecendo.
Samantha levantou o copo.
― Cavalheiros, não vamos falar de acampamentos
militares. Estamos aqui para celebrar uma boa colheita. ―
Ela moveu-se para tilintar as taças com Alexander e então
franziu as sobrancelhas: ― Há algo de errado com o seu
champanhe?
― Perdi o gosto pelas coisas. ― Ele levantou-se. ― Mas
você está absolutamente certa. Não deveríamos aborrecê-la
com questões como cavalos ou a guerra. Quincy, por que não
vamos dar um passeio até o estábulo? Eu tenho vários
cavalos para te mostrar. ― Lembrando-se de suas maneiras,
ele inclinou-se em sua direção. ― Eu espero que me honre
com uma dança esta noite, senhorita Daniels.
― Seria indelicado negar ao meu anfitrião, senhor.
Alexander e Quincy nunca alcançaram os estábulos.
Eles foram parados por um número interminável de

269
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

convidados, todos ansiosos para compartilhar uma história


ou oferecer um brinde aos dois homens ricos. A maioria dos
outros homens não se saíra tão bem. Suas sedas desbotadas
e punhos desgastados contavam histórias de fortunas
desaparecidas e perda de posição social. Ninguém poderia
ter proporcionado um baile tão generoso. Na verdade, muitos
estavam perto da falência em suas vastas propriedades de
terra. Colheitas devastadas pela guerra, a perda da mão de
obra devido à fuga dos escravos e a constante desvalorização
da moeda confederada criaram dificuldades na maioria dos
lares. Talvez ver Quincy Daniels e os Hunts renovasse suas
esperanças para o futuro, depois que os yankees desistissem
e fossem para casa. Naquela noite, os foliões consumiram
muita comida e beberam qualquer álcool disponível para
mascarar sua inquietação. Todos os presentes estavam
profundamente cientes do enorme exército de Potomac, do
General Grants, esperando a apenas dezenove quilômetros a
oeste.
― Perdoe-me, senhor. ― Um servo interrompeu o
lamento de um casal pelo gado desaparecido. ― Seus pais
solicitam sua presença na área de recepção.
― Se vocês me derem licença. ― Alexander fez uma
reverência para o par e afastou-se. A conversa com eles havia
começado a irritá-lo. E ele não tinha visto Emily desde aquela
tarde. Por que ela o incomodava, ele não poderia dizer. Ela
nunca se encaixaria em seu mundo, mas ultimamente
parecia que ele também não se encaixava em seu mundo
mais. Somente com seus rangers ele tinha o sentimento de

270
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

pertença. Com seus homens encontrou um propósito ― uma


causa maior do que ele.
Alexander permaneceu na interminável área de recepção
até que o último convidado passou. Então ele lançou-se em
um turbilhão de hospitalidade, dançando da mesma forma
com mulheres belas e mães de família, cada uma mais
agradável e dócil do que a anterior.
“Ninguém precisa chafurdar-se na baixaria”.
Uma beleza de cabelo escuro roçara-se contra ele várias
vezes durante a valsa, molhando o lábio superior enquanto
dançavam. Quando ele devolveu a jovem à mesa de seus pais,
seus dedos demoraram muito tempo em seu braço, seus
olhos falando coisas que não deveriam.
“Uma pessoa geralmente percebe a ideia geral através de
um cheiro e um olhar”.
Não importava com qual mulher ele dançasse, não
conseguia evitar que as palavras de Emily perturbassem seus
pensamentos. Algo estava errado com ele e não sabia o que
era até dançar com Samantha Daniels.
― Você certamente é o assunto da conversa atrás dos
leques das senhoras esta noite, Alexander. ― Samantha falou
pausadamente, perto de seu ouvido.
― É mesmo, senhorita Daniels? Porque seria isso? Eu
pisei em alguma coisa perto do celeiro? ― Ele cheirou seu
perfume forte e enjoativo e ansiou por uma lufada de ar
fresco.
Ela pareceu chocada, mas se recuperou rapidamente. ―
Não, eu não acredito nisso. Foi o beijo que você concedeu

271
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

àquela tutora ou quem quer que seja a mulher, que deixou as


senhoras neste estado de agitação. ― Ela sussurrou
conspiratoriamente.
― Realmente? Não foi um beijo tão grande assim para
que gerasse tanto interesse.
― Eu não pensei assim também. ― Ela concordou
ansiosamente. ― Eu disse às senhoras que você
simplesmente sentiu pena da menina. ― Samantha abriu um
sorriso doce quando eles giraram ao redor do salão.
― Por que eu sentiria pena da senhorita Harrison? ―
Finalmente ela tinha toda sua atenção.
― Porque ela fez um espetáculo tão lamentável de si
mesma, é claro. Eu disse a elas que você era um cavalheiro
que nunca permitiria que alguém se envergonhasse tão
completamente sem tentar atenuar sua aflição. ― Ela parecia
satisfeita com sua generosidade. ― Mesmo se a pessoa fosse
uma criada.
Sem saber como reagir a isso de uma maneira que não
fizesse seus pais desmaiarem ou Quincy Daniels exigir um
duelo, Alexander jogou a cabeça para trás e riu.
― Eu asseguro, senhorita Daniels, eu nunca beijo por
pena. ― Lembrou-se de Emily em um monte de anáguas no
gramado, e não havia nada lamentável sobre a imagem. Ela
pareceu mais atraente em desordem do que qualquer mulher
mimada ali presente. ― Desculpe-me. ― Ele murmurou no
momento em que a valsa terminou. ― Vejo alguém a quem
devo cumprimentar.

272
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Ele curvou-se e desceu as escadas para o escritório de


seu pai. Dentro, uma dúzia de homens moviam-se em
confusão, fumando charutos e bebendo algo mais forte do
que o champanhe. Alexander ainda não vira a criada em
questão, apesar de ter mantido seus olhos na escada para os
quartos do andar de cima. Emily provavelmente estava em
seu caminho para o acampamento Federal para uma
incursão noturna.
― Bebida senhor? ― Um garçom ofereceu uma bandeja
com conhaques.
― Não, obrigado. Por favor, traga-me um copo de
limonada. ― Este era outro efeito que a yankee tinha sobre
ele. Ele tinha perdido o gosto por álcool com a volta de uma
Quaker em sua vida.

A yankee em questão tinha seus próprios problemas. No


momento em que ela lutava com o espartilho, o vestido e os
acessórios necessários, a maioria dos convidados tinha
deixado a mesa da ceia e feito o seu caminho para dentro da
casa em direção ao salão de baile. No entanto, seu estômago
roncando exigia que ela não perdesse outra refeição. Ela
arrumou um prato no bufê e encontrou uma mesa solitária
sob as estrelas emergentes e a luz ardente de Vênus. Um
garçom agradável trouxe-lhe um copo de água da nascente
quando ela recusou o champanhe. Enquanto ela comia e
bebia na solidão, uma centena de pessoas competia para ser
273
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

vista e ouvida a poucos metros de distância. Emily degustou


cada mordida do delicioso presunto e dos vegetais frescos da
horta. Esta noite a comida estava muito mais agradável ao
seu paladar do que os habituais pratos pesados dos Hunt.
Além do terraço, sons noturnos dos campos e do rio
começaram a aumentar sua intensidade competindo com os
primeiros acordes da orquestra dentro da casa grande.
Não beba champanhe esta noite. Você sabe o que
aconteceu da última vez que cedeu. Emily tentou banir os
pensamentos daquela noite, mas a lembrança dos beijos de
Alexander insidiosamente rastejava de volta. ― Você não se
arrumou toda para sentar aqui e ficar ansiando por um
homem. ― Murmurou para si mesma. Então ela levantou-se e
caminhou em direção a casa, suas emoções travando uma
guerra de contradições. Ela estava excitada, mas cautelosa.
Ela não pertencia ao mundo dos foliões, mas uma parte dela
queria pertencer. Acima de tudo, Emily ansiava ver
Alexander.
A maciça porta da frente estava entreaberta, permitindo
que a música flutuasse na noite, enquanto as pessoas
aglomeravam-se dentro. Ela parou no limiar, paralisada pela
multidão. Eles moviam-se para dentro e para fora de cada
sala no andar principal e revestiam toda a grande escadaria.
De onde vieram todas essas pessoas? As joias e os vestidos
eram magníficos, embora poucos vestidos parecessem novos
como o dela. Alguns estilos podiam estar ultrapassados, mas
cada vestido destacou os encantos especiais da usuária.
Glamour e opulência irradiavam do chão ao teto.

274
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Nos encontramos novamente, senhorita Harrison. ―


Retornando de sua cuidadosa observação da moda, Emily
encontrou-se cara a cara com Nathan Smith.
― Sr. Smith, que prazer vê-lo novamente. ― Sorrindo
polidamente para o amigo de Alexander, ela tentou passar
por ele em direção à escada.
― O prazer é meu. ― Ele bloqueou seu caminho. ― Por
favor, permita-me acompanhá-la até o salão de baile. Eu
acredito que você me prometeu uma dança durante nosso
último encontro. ― Seus olhos voltaram para baixo em seu
vestido, parando rudemente em uma extensão do seu decote.
Ela sentia-se como um cavalo tendo seus dentes
examinados por um potencial comprador. Sem uma réplica
rápida para tal comportamento audacioso, ela achou difícil
olhar nos olhos dele.
― Eu não me esqueci, senhor. ― Emily olhou para uma
flor no papel de parede atrás dele.
― Talvez você me honre com a primeira dança. ― Ele
ofereceu o braço.
― Como quiser. ― Ela corou, agarrou seu braço e subiu
dois lances de escada para o salão de baile no terceiro andar.
Eles pararam na porta para recuperar o fôlego. Centenas de
velas em lustres, arandelas e candelabros dos peitoris das
janelas lançavam luz e sombra sobre o chão de mogno
altamente polido. Pequenas mesas com cadeiras delicadas
alinhavam-se junto as paredes, onde os convidados poderiam
descansar entre as danças e tomar pequenos goles de ponche
ou champanhe. Garçons entediados reabasteciam os copos,

275
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

enquanto as crianças pequenas abanavam leques de penas


de pavão para aliviar o calor fora do comum. Infelizmente,
com o término há muito tempo da recepção aos convidados,
os Hunt não estavam à vista. Quando Emily e Nathan
entraram no grande salão de baile, já estava lotado de
dançarinos, a orquestra começou a tocar.
― Uma dança escocesa. Minha favorita. ― Disse Emily.
― Vamos dançar esta, sr. Smith. ― Uma dança escocesa
permitiria que ela o estudasse a uma distância confortável.
Embora não muito atraente, ele possuía uma aparência
libertina, como um jogador que apostou sua fortuna em um
jogo de cartas desonesto.
― Espero que a sua incumbência para com o dr.
Bennington tenha corrido bem. ― Ele disse quando a dança
os aproximou. ― Eu não gostei de deixá-la em um território
desconhecido, especialmente porque você não estava
familiarizada com as estradas naquela área. ― Ele apertou
sua mão com mais força do que o necessário.
Ela ergueu o queixo.
― Você não precisava ter se preocupado, senhor.
Encontramos nosso caminho e chegamos de volta à
Martinsburg ao anoitecer.
― Não diga! Então eu devo parar de correr com os puro-
sangue Thoroughbreds, senhorita Harrison, e começar a
colocar meu dinheiro nos cavalos Percheron.
Seu riso falso gelou seu sangue. Ele aparentemente não
tinha acreditado em sua história naquela noite, mas por
alguma razão ele não a estava confrontando. Por que ele se

276
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

interessava tanto por ela, Emily não conseguia entender.


Então lembrou-se do encontro deles na estrada Berryville. Ela
estava certa de que Nathan Smith usava um uniforme de
oficial confederado, ainda que esta noite ele usasse trajes
formais. Os soldados rebeldes inválidos que frequentavam o
baile usavam orgulhosamente uniformes. Emily supôs que
Smith, assim como os outros aristocratas, tinha pago um
substituto para servir em seu lugar. Talvez ela não fosse a
única pessoa mentindo esta noite. Este homem poderia vir a
ser perigoso, afinal.
― Obrigada, senhor. ― Ela murmurou quando a dança
terminou. Ela sacudiu a cabeça e soltou-se de seu aperto.
Quaisquer que fossem seus comentários de despedida, ela
não ouviu pois casais barulhentos separavam-se e
encontravam novos parceiros. A meio caminho de cruzar a
pista de dança, Emily olhou de volta para ele. Ele permanecia
imóvel onde ela o tinha deixado, olhando para ela com má
intenção.
― Senhorita Harrison, você tem espaço no seu cartão de
dança para alegrar um velho cavalheiro?
Ela gratamente agradeceu a seu empregador.
― Eu ficaria honrada, dr. Bennington, contanto que o
senhor prometa não reter o meu envelope de pagamento se
eu pisar em seus pés. ― A luz das velas brilhou em seus
olhos azuis pálidos, vermelhos por longas horas de pouco
sono e por tê-los forçado ao ler sem seus óculos. Vendo-o na
roupa de noite imaculada, ela podia imaginar a pessoa por
quem a sra. Bennington tinha se apaixonado. Emily estava

277
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

cheia de compaixão filial pelo homem que a tinha levado para


sua casa.
― Pise o quanto quiser. ― Disse ele. Um sorriso levantou
suas habituais feições atormentadas. ― Seu salário está
garantido.
Dr. Bennington valsou com ela ao redor do salão com
graça e facilidade. Ele compartilhou descrições charmosas de
seus anos como médico de uma pequena cidade, tratando
pacientes irritados de cem anos de idade e uma vez o porco
de estimação de Margaret.
Emily ria com abandono.
― Parece que você sente falta de suas filhas.
― Sim, de fato. Eu tenho escrito para elas duas vezes
por semana, todas as semanas desde que elas saíram para a
escola em Paris. Eu não tenho ideia de quantas cartas
conseguiram passar pelo bloqueio. Talvez elas não tenham
visto uma única palavra, mas ainda acalma a minha alma
escrever para elas. ― Seus olhos lacrimejantes desviaram-se.
Lembranças doces de seu próprio pai fizeram o coração
de Emily doer por Porter Bennington. Mas antes que ela
pudesse formular uma resposta adequada, James Hunt
impeliu-a para longe.
― Eu acredito que esta dança deve ser minha, senhorita
Harrison. ― O sr. Hunt puxou-a para um desconhecido passo
que a deixou sem fôlego e desesperada por algo para beber.
― Permita-me salvá-la de meu pai antes que você
desmaie. ― Alexander apareceu segurando um copo de
ponche.

278
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Obrigada ― Disse ela, aceitando-o com apreço.


― Vamos sair do caminho. ― Ele a conduziu em direção
a um vaso de plantas. ― Eu acredito que você está bem
familiarizada com este hibisco.
― Ah, meu esconderijo favorito. ― Sorvendo
vagarosamente a bebida fresca, ela estudou-o por cima da
borda do copo. Em seu traje formal, Alexander era mais
bonito do que qualquer outro homem no lugar. Seus olhos
cinza esfumaçados contrastavam com o brilho dourado de
suas bochechas. Barbeado, ele parecia um canalha dos
romances de dez dólares que a senhorita Turner desdenhava.
Até uma mecha de cabelo tinha caído sobre sua testa,
aumentando seu charme de cavalheiro. Ao seu lado, ela
sentia-se como uma fazendeira de Ohio em roupas
emprestadas e ar afetado ― exatamente o que ela era.
― Um centavo por seus pensamentos, Emily. ― Ele
inclinou um ombro contra um pilar.
― Eu estava pensando em como você está bonito esta
noite. Isto é apropriado? ― Ela piscou várias vezes. ― Será
que alguma destas mulheres belas da Virginia fazem menção
a isto? ― A voz de Emily continha uma nota de cinismo.
― Obrigado pelo elogio. E eu não dou uma crina de
cavalo para qualquer coisa que digam estas mulheres. ― Ele
levantou sua mão enluvada para seus lábios para um beijo. ―
Eu me importo exclusivamente com a sua opinião. ― Seu
segundo beijo pousou em sua testa. ― E enquanto estamos
no tema das aparências, a sua, tira o meu fôlego. Eu vi você
dançar com o Nathan e tio Porter e então com meu pai,

279
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

fervendo de ciúme. Eu não quero que você dance com mais


ninguém pelo resto da noite. ― Seus lábios encontraram seu
alvo nos dela, sufocando seus protestos.
Emily empurrou seu peito com força e deu um passo
para trás, atordoada por sua ousadia.
― Por favor, sr. Hunt, não na frente de seus pais e seus
convidados.
― Do que você tem medo, Emily? ― Suas palavras
suaves cortaram profundamente.
― De nada. De tudo. Eu não sei, mas não tenho mais
vontade de dançar. ― Oprimida com a insegurança, ela saiu
correndo da sala como uma criança. Ela não poderia explicar
seu comportamento imaturo se sua vida dependesse disso.
Ela estivera tão ansiosa para vê-lo. Agora ela tinha que ir
embora. Emily não diminuiu seu ritmo até que desceu dois
lances de escadas e saiu da mansão. Sem fôlego, com o
coração pronto para explodir, ela parou em um caminho
estreito que atravessava o jardim. Por vários minutos
respirou profundamente. Quando seus olhos se adaptaram à
escuridão, ela reconheceu a fileira de cabanas dos escravos
onde conhecera Annabelle e seu filho. Isso parecia há tanto
tempo. Escolhendo seu caminho entre os sulcos, ela não
ouviu vozes levantadas em conversação ou música através
das janelas abertas. As cabanas eram escuras ou continham
uma única vela acesa em um frasco de vidro.
Quando Emily aproximou-se do fim da pista, os rumores
de um canto chamaram sua atenção. Ela correu até a cerca
do pasto, que continha um campo aberto de grama e árvores

280
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

de maçã despidas de suas frutas. Ela viu ao longe o cercado


de pastagens para cavalo da Fazenda dos Hunt. Atrás dela
dois gatos sibilaram entre as cabanas dos escravos, irritados
com sua intrusão. Por um momento, Emily ponderou correr
atabalhoadamente de volta para o baile até que ouviu o som
do riso que flutuava no ar. Inalando profundamente, ela
passou por cima das grades da cerca derrubada e escolheu
seu caminho entre as roseiras-bravas.
À frente vários homens tocavam músicas em flautas de
junco, enquanto outros mantinham o ritmo batendo palitos
juntos. As velhas sentavam-se de pernas cruzadas no
perímetro do círculo batendo com colheres em baldes
revirados. Eles criaram um barulho que surpreendentemente
acrescentou profundidade para a música estranha. Homens e
mulheres dançavam dentro do círculo e as crianças
brincavam de pega-pega, entrando e saindo entre os adultos.
O coração de Emily começou a bater acompanhando o ritmo
com a batida da música. Três tochas acesas, presas na lama,
proporcionavam iluminação. A visão das tochas deixou seu
estômago enjoado, ressuscitando as lembranças dolorosas de
Ohio.
Eu não pertenço a este lugar.
Mas quando ela se virou para ir, duas meninas
sorridentes a pararam. Uma estendeu a mão, surreal na luz
trêmula do fogo, mas Emily alcançou-a. A mão era macia e
pegajosa, como a de qualquer criança.
― Não tenha medo, senhorita. Ninguém vai mordê-la ―
disse a menina.

281
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Emily riu quando foi puxada para o círculo de luz.


Balançando as cabeças e agitando os braços, os dançarinos
moviam-se com despreocupado abandono. Não danças
arregimentadas ou valsas delicadas onde um passo em falso
significava um dedo do pé machucado. Eles não dançavam
em casais nem sozinhos ― as pessoas pareciam estar
dançando com todo o grupo como corpos entrelaçados, saias
balançando e anáguas agitando-se no ar quente da noite.
Alguns dançarinos tinham os olhos fechados, cantando e
balançando-se como se estivessem em algum tipo de transe.
A dança das duas meninas assemelhava-se a um jogo de
amarelinha.
Emily aproximou-se do fogo, onde poderia assistir a folia
despercebida. Sob as árvores estavam mesas carregadas de
travessas de espiga de milho, batatas assadas, queijos
diversos e cestas de pão de milho. Um pequeno porco
espetado assava sob o fogo de chão. Pessoas moviam-se
confusamente em torno do bufê vestindo uma ampla
variedade de trajes. Várias jovens senhoras estavam
elegantemente vestidas, talvez as criadas ou babás dos
convidados cujas crianças já estavam dormindo. Emily viu o
uniforme de cocheiros e criados de quarto junto com o traje
de treinadores de cavalos e padrinhos. Algumas pessoas
estavam descalças nas roupas simples e ásperas do campo
que usavam para cuidar da lavoura ou das grandes hortas.
Movendo-se em torno dos bancos de madeira, chegando e
saindo como se os deveres assim ditassem, os foliões
possuíam uma camaradagem contagiosa.

282
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Com uma música diferente de qualquer outra que ela já


tivesse ouvido, os quadris de Emily começaram a mover-se
por conta própria. Quando um banjo acrescentou um som
forte a melodia, ela fechou os olhos e balançou-se,
completamente hipnotizada pela batida. Já não se sentia
muito quente, muito desajeitada, muito acanhada ou
qualquer outra coisa.
― Senhorita Emily Harrison, você veio participar de uma
dança real? ― A voz cortou seu estupor hipnotizado.
Os olhos de Emily se abriram. Usando seu melhor
vestido, Lila estava diante dela com William. Seu braço estava
envolto levemente em volta dos ombros da jovem.
― O que você está fazendo aqui? ― Emily perguntou.
Lila riu.
― Olhe ao seu redor. O que você está fazendo aqui?
― Eu fiquei entediada com a festa dentro da casa e
pensei em dar uma olhada por aqui. ― Emily fingiu um
sotaque não muito convincente. ― Eu pensei que vocês dois
tivessem ido fazer um piquenique.
― Fomos e já voltamos. É hora de dançar. ― Lila sacudiu
a cabeça. ― Oh, desculpe minhas maneiras. Você se lembra
de William, senhorita Harrison?
― Sim, lembro. Como está, William? A senhorita Amite
fez você gastar o salário de uma semana comendo fora? ― Ela
brincou.
William não sabia como responder a sua pergunta.

283
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Estou bem, minha senhora. E não, a senhorita Amite


comeu apenas uma quantidade normal de comida. ― Ele
olhou de uma mulher para a outra.
Lila estreitou os olhos e colocou suas mãos nos quadris.
― Você veio aqui fora porque exagerou no ponche? ― A
cabeça de Lila girou da esquerda para a direita avaliando o
vestido de Emily.
― Não, eu fiquei longe da tigela de ponche para não
correr nenhum risco. ― Emily estendeu sua saia para
inspeção.
― Beatrice te perseguiu com uma vassoura por comer
todo o bufê? ― Lila arqueou uma sobrancelha.
Ela balançou a cabeça.
― Absolutamente não. Eu comi como um pássaro
delicado.
Após murmurar um “humph” , Lila pegou Emily pela
mão.
― Vamos lá, vamos dançar. Você não vai ficar parada
aqui também.
Emily obedeceu, sabendo que não poderia resistir a
formidável vontade de Lila, uma vez que a mente dela tinha
decidido. E verdade seja dita, ela queria dançar ― não nas
sombras, mas com todo mundo, ― experimentando a
plenitude da vida. Sem hesitar Lila puxou-a para o centro do
círculo onde os dançarinos moviam-se para dentro e para
fora sob a luz das tochas. Primeiramente Emily balançou-se
ao som das flautas, inclinando os ombros, enquanto seus
quadris balançavam ligeiramente. Enquanto dançava, a

284
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

música parecia enchê-la de energia. Sentia a cabeça leve e a


boca seca. Quando abriu os olhos, Lila dançava não mais que
dois pés de distância com os joelhos dobrados para baixo,
balançando seu corpo esbelto. William pairava perto com os
braços cruzados sobre o peito enorme. Ele não dançava nem
cantava, mas observava as duas como uma sentinela para se
certificar de que ninguém chegasse perto demais.
Se alguém achou o único rosto branco estranho ou
perturbador, não fizeram nenhuma menção a isso. Emily
relaxou à luz das tochas, pisando em um padrão quadrado
como se inventasse sua própria valsa.
― Eu pensei que você não queria mais dançar, senhorita
Harrison. ― A voz inconfundível de Alexander cortou o ar
quente da noite.
Emily voltou-se em direção ao som.
― Eu mudei de ideia. ― Ela tentou espiar através da
fumaça, protegendo os olhos das faíscas.
Ele estava encostado contra uma das antigas árvores de
maçã, com o colarinho aberto e a gravata desfeita.
― Talvez tenha sido só eu que você não queria como
parceiro.
Lila também parou abruptamente, como se Matilde
tivesse-lhe pego roubando biscoitos.
― Boa noite, sr. Hunt. ― Lila escondeu-se atrás do
grande tamanho de William. Todo mundo continuou a
dançar, mas abriram um caminho para o filho do senhor.

285
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Você está me espionando, sr. Hunt? ― Perguntou


Emily. Ela marchou para a árvore com os punhos das mãos
fechados.
― Eu estou, mas por favor, não me deixe interromper.
Estou feliz que você esteja se divertindo no meu festival.
― Seu festival? Esta é sua festa também? ― Ela olhou
para ele perplexa.
― Claro que é. Nós temos um festival para os nossos
amigos e vizinhos e outro para os nossos trabalhadores.
Queremos que todos celebrem o culminar de um ano bom e
deem graças pela colheita.
― Até mesmo os escravos, sr. Hunt? ― Ela sussurrou as
palavras para não ser ouvida.
― Sim, os escravos também e até mesmo... as
governantas. ― Quando ele se afastou da árvore, a luz do fogo
refletiu em seus olhos escuros. ― Eu te segui para ter certeza
de que você estava a salvo. E porque eu estava curioso para
saber o que você planejava fazer. Eu amei ver você dançar,
por sinal. ― Suspirou profundamente. ― Mas como de
costume, você vê os motivos da minha família como algo
maligno. Tenho certeza que você pode encontrar o caminho
de volta para a casa, senhorita Harrison. Você encontrou seu
caminho até aqui facilmente. ― Com isso, ele desapareceu
nas sombras.
Emily ficou sem palavras. Então correu atrás dele. Ela
circulou em torno dos dançarinos, longe das tochas
esfumaçadas e dos espectadores curiosos e seguiu o caminho

286
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

entre as cabanas. Como ela havia esperado, ele saiu do mato


logo à frente dela no caminho.
― Onde você está indo, Alexander? Eu pensei que você
tivesse vindo para dançar. ― Emily pegou o seu braço quando
o alcançou.
― Não, eu tive o suficiente de dança para o resto da
temporada. Eu vim por você, mas esse foi meu erro. ― Deu de
ombros e seguiu em direção ao jardim à frente.
Emily, com as pernas consideravelmente mais curtas,
teve que correr para acompanhar seus passos largos.
― Por favor, não se apresse tanto. Eu não consigo
acompanhar.
Ele girou no local.
― Como você gosta, senhorita Harrison. Eu aprendi o
pequeno truque rude de fugir com você.
Ela colidiu em seu peito duro. Lutando para não arfar
como um cão, ela firmou-se com ambas as mãos.
― Eu não me importo com isso agora que o sapato está
no outro pé. ― Emily apertou uma mão em sua garganta,
desejando que seu coração desacelerasse. ― Eu peço
desculpas por meu comportamento anterior e prometo...
não... fazer... isso... de novo. ― As palavras saíram aos
trancos e barrancos, conforme ela respirava com dificuldade.
Deus, seu espartilho estava apertado.
Suas feições suavizaram.
― Por favor, não desmaie em mim. Várias senhoras já o
fizeram esta noite. E eu estou farto do cheiro de sais. ―
Apoiando seu cotovelo, Alexander levou-a até um banco perto

287
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

de um trecho repleto de azaleias e extremosas. ― Sente-se e


recupere o fôlego. Tenho certeza de que você vai continuar me
desprezando assim que seu juízo retornar.
Emily sentou-se no banco de pedra e abanou-se com
seu leque novo ― outro presente da sra. Bennington.
― Não o desprezo, Alexander. Agora mesmo, reservo essa
emoção para mim. Eu realmente sinto muito pela maneira
como me comportei. Sentia-me sozinha e fora de lugar, e
descarreguei minha insegurança em você.
Ele sentou-se ao lado dela e passou a mão pelo cabelo.
― Justo quando eu pensei que finalmente descobri...
Tudo o que ele pretendia dizer foi perdido. Emily
envolveu seus braços firmemente em volta de seu pescoço,
interrompendo seu diálogo. Então ela beijou-o na boca
quando uma onda de calor disparou através de suas veias.
― Obrigada por me seguir, Alexander. Eu esperava
secretamente que você o fizesse. ― Suas palavras eram um
sussurro contra seus lábios, embora estivessem sozinhos.
Ele afastou-se um pouco para estudá-la.
― Por que você insiste em ver minha família como
demônios? Na verdade, muitos proprietários de escravos são,
mas eu garanto que meu pai está tentando lidar com a terra e
as pessoas que herdou da melhor maneira que pode. Eu
concordo que ninguém deve ser propriedade de outra pessoa,
mas ele é apenas um homem, sem chifres ou cauda.
― Eu estou começando a perceber que a vida pode não
ser tão simples como eu cresci acreditando. ― Ela soltou-o,
mas aconchegou-se contra o seu lado, sentindo o calor

288
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

irradiar entre eles. ― Mas hoje à noite eu não desejo discutir


a dependência do Sul à escravidão ou gracejar sobre as
regras ridículas de etiqueta da sociedade. ― Emily correu os
dedos pelos músculos de seu peito onde sua camisa
agarrava-se a sua pele
― Se você não quer discutir, o que você gostaria de fazer,
minha pequena yankee? ― Ele puxou uma grama e fez
cócegas em seu nariz.
Sufocando um espirro, Emily fechou os olhos.
― Deixe-me pensar. ― O cheiro de chuva pairava no ar
junto com o doce aroma de buganvílias. Relâmpagos claros
riscavam o céu à distância e o estrondo de um trovão
anunciava uma tempestade. ― O que eu deveria fazer é subir
os degraus detrás para o meu quarto. Eu perdi meus
grampos e fitas, por isso o meu cabelo caiu para baixo em um
emaranhado incorrigível. Meu penteado está bastante
impróprio para um baile, não? ― Ela piscou enquanto se
sentava para passar os dedos pelos longos cabelos.
Ele puxou sua mão para seus lábios e beijou seus
dedos.
― Você está linda com seu cabelo sobre os ombros.
Agora me diga, o que você deseja fazer?
Emily sentou-se à luz fraca das estrelas distantes e
ouviu as notas de uma valsa que flutuava através das janelas
do salão de baile.
― Eu gostaria de dançar, aqui fora no jardim, com você.
― Ela levantou-se com um majestoso comportamento
aprendido com a sra. Bennington.

289
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Alexander inclinou-se e ofereceu sua mão.


― Então é isso o que vamos fazer. Nós devemos dançar
pelo resto da noite ou pelo resto de nossas vidas, se você
preferir. Eu te amo, Emily Harrison. ― Seu murmúrio foi
transportado pela brisa enquanto um relâmpago iluminava o
céu.
Mas ela o ouviu claro e fielmente. Ela sabia que era uma
declaração honesta, não falada em um momento de paixão,
mas vindo de um lugar escondido dentro dele.

290
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 14

Nathan Smith bebeu o conteúdo do seu copo e o encheu


novamente no decantador que estava no aparador. O uísque
não conseguiu aliviar seu mau humor, como normalmente
fazia. Nada tinha dado certo naquela noite.
A insípida jovem Daniels o abandonou depois de apenas
alguns beijos. Depois de duas valsas intermináveis,
Samantha o tinha seguido de bom grado quando ele a levou
para longe do salão e subiu as escadas. Ela riu quando eles
entraram num quarto de hóspedes no fim do corredor. Mas
quando ele tentou levantar sua saia, ela bateu para afastar a
sua mão como se fosse um mosquito irritante.
― Senhor, eu acredito que ocorreu um mal-entendido. ―
Ela retirou-se de seu abraço e saiu indignada pela porta do
quarto abafado.
Suas tentativas de seduzir duas jovens, as mais belas e
ingênuas jovens rendeu o mesmo resultado insatisfatório. Em
um caso, o pai da jovem, e no outro, o irmão, manteve os
olhos abertos neles para ter certeza que a sua reputação
permaneceria imaculada. Até mesmo uma empregada
irlandesa magricela de Fredericksburg o desprezou, delirando
que ― ‘seu prometido noivo não gostaria de sua garota
291
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

enroscada com o senhor’ ― quando ele pediu a ela para


passearem no jardim. Sua sorte não havia sido tão ruim há
muito tempo.
O senhor alto e poderoso da fazenda Hunt mal tinha
falado com ele durante toda a noite, exceto para definir a
hora e o local de seu próximo ataque. Que gostaria de fazer
com sua eficiência habitual, certificando-se que os rangers
estivessem bem informados sobre o plano e expectativas.
Alexander tinha sido amigável, mas muito preocupado para
compartilhar um conhaque com ele após a conclusão do
negócio. Quando ele tinha se tornado um abstêmio? Smith
sabia quem os olhos de Alex procuravam pelo salão lotado.
Mas a sincera preceptora tinha desaparecido depois de suas
danças obrigatórias com Bennington, Porter e James Hunt.
Ela não poderia ter se afastado de Alexander logo, isso estava
claro.
Smith jogou de volta seu uísque quando ele olhou para
fora da janela da biblioteca. Ele podia ver a dança da luz do
fogo do festival dos escravos à distância. Um movimento no
jardim além do pórtico chamou sua atenção. Cerrando os
olhos através do vidro ondulado, ele testemunhou um beijo
entre William, criado pessoal de Alexander, e aquela dama
dos Benningtons. Que doce seus beijos ― breve, casto, terno.
Qual era seu nome ― Linda ou Leia? Seu nome não
importava, mas ele recordou o corpo maduro preenchendo
seu vestido no dia que ela correu para a ianque. Em seguida,
William tirou o chapéu, curvou-se para a empregada e
desapareceu no caminho.

292
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

William é um cavalheiro, Smith refletiu. Mas você não


precisa de um cavalheiro, menina. O que você precisa é de
alguém para apresentá-la aos prazeres da vida. Largando seu
copo vazio, ele moveu-se rapidamente para fora pela porta da
frente e desceu os degraus. Quando Lila virou-se do pórtico
para entrar na casa, Smith a interceptou. Ele agarrou-a pelos
pulsos. ― Boa noite, senhorita. Perdoe-me, mas parece que
eu esqueci do seu nome. Nós nos encontramos no caminho
para Front Royal, ou para onde quer que você e a srta.
Harrison se dirigiam naquele dia.
Lila recuou, talvez pelo cheiro de uísque. ― É Lila,
senhor. Lila Amite. ― Ela tentou uma meia reverência, difícil
com os pulsos presos. ― Agora, se me der licença, meus pais
devem estar se perguntando por que eu ainda não entrei. ―
Ela manteve sua voz uniforme e calma.
― Para que tanta pressa? Estou feliz em vê-la, Lila. Você
não está um pouco contente de me ver também? ― Ele ouviu
a calúnia em suas palavras.
― Sim, senhor, é um prazer vê-lo novamente. Mas devo
voltar aos meus aposentos antes de eu causar preocupação
indevida ao meu pai.
Smith apaziguou sua irritação porque uma empregada
possuía melhores habilidades linguísticas do que ele no
momento. ― Bem, se é um prazer ver-me como você diz, você
não se importaria em dar-me um pequeno beijo. ― Ele cobriu
seus lábios com os seus antes que ela tivesse chance de
responder.

293
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Recuando do bafo de uísque – ou talvez do seu beijo ―


ela tentou se afastar. Mas ele a deteve com duas mãos fortes
que prenderam os seus ombros na parede, e então a beijou
novamente. ― Isso não foi tão ruim, foi? Se você apenas
relaxar, você pode achar isto agradável. ― Seu olhar passou
sobre ela da cabeça aos pés. ― Você é uma mulher bonita,
Lila. Devemos nos conhecer melhor enquanto você está na
Fazenda Hunt.
Sem aviso, ela pisou no peito do seu pé. ― Ai! ―
Chorando de dor, ele liberou-a do seu aperto.
― Lila, é você? ― A porta da cozinha no primeiro andar
abriu. Joshua Amite saiu em sua longa camisola.
― Sim, papai, sou eu. O senhor Smith estava
perguntando sobre comida, então eu expliquei onde poderia
encontrar uma refeição tão tarde da noite. ― Com isso, Lila
disparou para os degraus da cozinha e nem dispensou um
olhar para trás.
Joshua olhou para o homem antes de dar-lhe uma
cortada, ― Boa noite então, senhor. ― O mordomo fez uma
reverência profunda e fechou a porta na cara dele.
Smith foi deixado no escuro, sentindo-se mais irritado
do que há muito tempo.

Lila não diminuiu a velocidade até que estava no


corredor dos quartos reservados para os empregados
domésticos. Milagrosamente, a cozinha estava vazia, raro
294
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

numa plantação ativa como aquela durante o festival da


colheita. Ela lutou para se recompor antes de seu pai
alcançá-la. Seu coração batia tão forte que ela temeu que
pudesse ser ouvido.
― Por que você está sem fôlego, menina? ― Joshua
pareceu simultaneamente preocupado e exasperado.
Ela fitou seus suaves olhos castanhos. Mesmo com os
pés descalços e com seu cabelo grisalho despenteado, seu pai
ainda mantinha a total dignidade. ― Estava correndo, papai.
Tivemos uma corrida de volta para a casa desde a fogueira. ―
Ela odiava mentir para ele, mas o que mais ela poderia dizer?
― Lila, você está muito velha para corridas. Você não vê
sua mãe levantando as saias e galopando pelo jardim, não é?
Na verdade, ela tinha visto sua mãe fazer exatamente
isto mais do que uma vez na Ilha Bennington. Mas seu pai
parecia tão cansado, Lila simplesmente balançou a cabeça. ―
Não, papai. Amanhã eu prometo ser uma dama perfeita. ―
Ela inclinou-se para beijar a sua bochecha grisalha.
― Vejo que você é. Boa noite, filha. Durma com doces
sonhos. ― Joshua entrou no quarto onde sua mãe já estava
roncando e fechou a porta.
Lila estava sozinha ― sozinha para recuperar o fôlego e
organizar seus pensamentos. E ela tinha muito em que
pensar. Como no mundo ela poderia evitar um amigo do sr.
Hunt em todo o tempo que ela estivesse ali? Entrando no
quarto que partilhava com a empregada da senhora Hunt,
despiu-se, sem acender a vela e vestiu a sua camisola. Ela
esticou-se na cama e fechou os olhos, mas o sono não vinha.

295
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Um mau pressentimento se arrastou até sua espinha, não


importava como ela virava ou sacudia.

Alexander ficou por vários minutos do lado de fora da


janela do quarto, observando Emily dormir tão
tranquilamente como uma criança. Seu cabelo espalhado
sobre o travesseiro como um xale de cobre, quase
obscurecendo suas feições suaves. Ela dormia de lado, com
os joelhos dobrados. Uma mão agarrada na colcha, e a outra
embalava seu doce rosto. Quando ele entrou no seu quarto e
beijou sua testa, ela não se mexeu. Alexander não conseguia
lembrar de uma noite que não tivesse que olhar para o teto
por horas. Embora ele pudesse dar metade de sua fortuna
para dormir tão profundamente, seus doces sonhos
terminaram quando ele tornou-se um ranger. E esta noite
não foi exceção quando saiu do seu quarto. De volta à galeria,
andava de um lado para o outro planejando sua próxima
missão. Mas não era o seu próximo ataque a um trem de
abastecimento da União que o confundia. Era a mulher que
estava um pouco além das portas francesas ― aquela que
ocupava um lugar cada vez maior em seu coração. Ele sabia
muito bem que era um tolo por deixar as emoções
controlarem suas ações.
Mas Emily não era Rosalyn. Criada por pais Quaker, ela
podia não ter crescido culta e refinada, mas ela aprendeu
sobre honra e confiança. Será que ela me ama ou eu estou
296
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

somente me enganando? Quando ele fez sua sincera


declaração no jardim, ela não pronunciou nada em retorno.
Ele teria dado qualquer coisa para ouvir aquelas três palavras
dela. Ela pareceu surpresa com sua confissão, mas então
devolveu o seu beijo com um fervor para igualar com o seu
próprio. Não era no que as mulheres se destacavam ―
representação? Não era o seu charme, seu caminho para
armários repletos de vestidos novos, grandes mansões e
excursões no exterior? Mulheres bonitas rapidamente
aprendem que o caminho para o coração de um homem não
era através de seu estômago.
Parando na balaustrada, ele olhou sobre os enluarados
campos de trigo recentemente colhidos. As cabeças de alguns
feixes perdidos acenavam na brisa morna da noite. Deu um
nó na garganta de Alexander. Não havia nada mais bonito do
que a terra no fértil vale Shenandoah. Ele amava o bosque
cheio de diversões e pássaros que cantam, os pastos cobertos
de flores silvestres na primavera, e a majestosa montanha
Blue Ridge a oeste. Esta plantação, comprada pelo seu avô
com a fortuna herdada, ficava mais querida para ele a cada
dia. A fortuna da família Hunt tinha diminuido ao longo dos
anos, porque dirigir um negócio para o lucro nunca tinha
interessado a seu pai. Agora a guerra certamente levaria o
pouco que James Hunt tinha deixado. A causa gloriosa sem
dúvida exigiu todo o tempo de Alexander e a maior parte do
seu dinheiro. O dever tornou-se a sua única motivação na
vida, exigindo todos os momentos... até ele conhecer Emily.

297
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Agora ele estava apaixonado por uma mulher que


escondia alguma coisa, uma mulher cujos sentimentos
corriam do frio para o quente e então voltavam novamente,
uma mulher que discordava com tudo o que ele falava e se
aborrecia com tudo o que ele fazia. Emily Harrison não era
alguém que podia ser confiável, e ainda observando seu sono,
mexia com algo primitivo dentro dele. A atração por sua
vulnerabilidade foi avassaladora. Ele estava impotentemente
apaixonado e essa percepção proporcionou muito mais noites
sem o sono vir.
Mas, no momento, Emily Harrison não era o principal
problema do Fantasma Cinzento.
A vários quilômetros de distância, cinco casas de civis
estavam em chamas enquanto os seus ocupantes assistiam
impotentes do lado de fora. Embora não estivesse claro de
onde tinha vindo originalmente a ordem, um regimento da
cavalaria da União queimava as fazendas das famílias
suspeitas de abrigar ou auxiliar o Fantasma Cinzento e seus
soldados rebeldes.
Embora o General Philip Sheridan não aprovasse a
queima das casas, ele havia instituído um plano para
destruir as colheitas e o gado que sustentava os soldados em
Shenandoah e alimentava o exército rebelde em geral.
Sheridan também havia ordenado a prisão de todos os
homens saudáveis com menos de cinquenta anos de idade
suspeitos de serem guerrilheiros. Ele tinha enviado uma
unidade de cavalaria para a área de Berryville, onde encheu
vinte carroças com civis e encarcerou-os em Charles Town.

298
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Organizou uma comitiva com os seus melhores soldados para


perseguir o Fantasma Cinzento. Os homens de Sheridan
tinham desenvolvido amizades com cidadãos leais à União.
Eles contavam com crianças e escravos para fornecer
orientações e servir como guias. Soldados da União vestidos
com uniformes dos aliados tentaram se infiltrar na área e
coletar informações. Mas mesmo quando eles prendiam um
soldado, não conseguiam descobrir o paradeiro do Fantasma
Cinzento. Não importava o quanto eles ameaçavam, ninguém
iria revelar a identidade de seu venerado herói.
Durante o verão, à medida que aumentavam as
atividades de contrapeso da União, o Fantasma Cinzento
tinha mudado a maneira de conduzir os negócios. Ele nunca
revelava seus planos até imediatamente antes do saque. Ele e
seus homens dormiam ao ar livre sob as estrelas, assim não
comprometiam as casas dos seus apoiantes. Apesar de seu
tremendo esforço, a cavalaria da União falhou em apanhar
sua presa. Isto é, até Charles Mimms entrar no quartel
general do General George Meade e anunciar: ― Eu sei onde
você pode encontrar o Fantasma.
Charles Mimms tinha nascido na Virgínia e viveu toda a
sua vida na pequena cidade de Aldie. Recrutado pelos filhos
dos ricos plantadores que tinham sido seus amigos de
infância, Mimms estava orgulhoso de cavalgar com os
rangers. Mas a ganância pelos despojos da guerra acabou por
substituir o orgulho como sua motivação. Ele não via
nenhuma necessidade de entregar tudo o que eles
confiscavam para o Exército Confederado, não quando ele

299
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

arriscou sua vida para obtê-lo. No início, Mimms escondeu


pequenos itens ou uma sela extra ou arma para vender para
vivandeiros confederados. Então as malas de correios
americanas tornaram-se um cobiçado prêmio, porque
frequentemente continham dólares federais. Seu amor pela
Confederação empalideceu ao lado de sua cobiça por
dinheiro. Com cada novo saque, Mimms montou com as
tropas unicamente pela recompensa.
Isto é, até que ele foi demitido numa vergonhosa noite
fora de Winchester.
Com oito outros em fila como estudantes travessos, o
arrogante coronel tinha humilhado aqueles que participaram
do malfadado ataque em um depósito da União. É claro, o
filho de um rico fazendeiro poderia ter recursos para entregar
tudo para a gloriosa causa. Ele nunca tinha ido para a cama
com fome ou crescido em um barraco alugado com um pai
que bebia o tempo todo. Sua mãe não teve que costurar para
colocar comida na mesa.
Era tão fácil para um rico homem ser nobre.
Pelo menos, o coronel tinha saltado com eles do trem no
limite de uma prisão ianque. Mas, para demiti-los sem uma
segunda chance? Isso não era algo que Charles Mimms
poderia esquecer. Depois de ser expulso dos rangers, ele não
teve vontade de se juntar à infantaria regular ou cavalaria.
Seu salário de seis dólares por mês era ridículo. Além disso,
recebeu ordens o suficiente para durar uma vida, e agora
possuía apenas um objetivo: acabar com o invencível
Fantasma Cinzento.

300
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Mimms tinha encontrado um público bem receptivo, um


comandante das forças da União.

Na manhã após o baile, Emily acordou com o som de


bater. Sentando-se, ela esticou-se preguiçosamente até o som
de seu nome cortar a névoa sonolenta.
― Emily. ― Uma voz masculina repetia em um tom
abafado.
Então ela pulou da cama e puxou um robe sobre sua
camisa de dormir. ― Alexander? ― Perguntou ela, apertando o
cinto em volta da cintura. Ela abriu a porta uma polegada,
como se tivesse medo do que se escondia do outro lado.
― Bom-dia, minha pequena ianque. Acredito que você
dormiu bem. ― Ele encostou-se na porta, já vestido com
calças apertadas, botas de cano alto, uma camisa de linho
engomada, e um colete ajustado. Apenas a gravata
permanecia solta em volta da sua garganta.
Emily abriu a porta e olhou para o corredor em ambas
as direções. ― Aqui, deixe-me ajudá-lo. ― Ela alcançou sua
gravata, mas, infelizmente, criou um nó que não soltaria não
importava como ela puxava ou torcia.
― Não importa. Volte a dormir, meu amor. Estou com
pressa. Eu terei William para amarrá-lo no caminho para o
celeiro. ― Ele beijou-lhe a testa com ternura. ― Espero voltar
ao anoitecer. Tente não se esquecer de mim enquanto eu
estiver fora. ― Então ele virou e desapareceu pelas escadas.
301
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Espere. ― Ela sussurrou. ― Eu tenho algo para lhe


dizer. ― Ela deu dois passos no corredor, mas era tarde
demais. O homem já tinha ido.
Emily virou-se e voltou para o seu quarto, fechou a
porta e sentou-se na borda da cama. O vazio a preencheu,
um vazio que ela nunca experimentou antes. Onde estava a
mulher auto-confiante que dançou com os trabalhadores,
enquanto os convidados participavam de um luxuoso baile na
casa? Onde estava a mulher que tinha perseguido o filho dos
anfitriões ― e então dançado com ele e o beijado nas
primeiras horas da madrugada? Aquela mulher tinha
desaparecido com o amanhecer, e ela não se importava nem
um pouco com a pessoa fraca deixada para trás.
Minha pequena ianque, certamente.
Emily andou com cautela até a janela, na esperança de
não ver ninguém por um longo tempo. Mas a sorte não estava
do seu lado.
Lila sentou-se na varanda, lendo o jornal na pequena
mesa. ― Graças a Deus. Eu pensei que você nunca iria
acordar. ― Sua voz tinha uma nota de ressentimento. ―
Venha tomar café. ― Lila encheu duas xícaras com uma
expressão severa.
― Obrigada. ― Disse Emily, saboreando a bebida forte.
― Bem? ― Exigiu Lila.
― Bem, o que? Eu agradeci a você pelo café.
― Você sabe muito bem o quê. O que aconteceu depois
que você deixou a fogueira?

302
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Lila, você é muito jovem para atuar como a minha


mãe. Mas talvez eu vá favorecer você apenas esta vez. ―
Emily tornou a encher sua xícara da garrafa sobre a mesa. ―
Eu alcancei o senhor Hunt no jardim, pedi desculpas por
meu comportamento, e então nós dançamos ao luar. ― Emily
tentou não sorrir.
― Somente vocês dois dançando lá fora? ― Os olhos de
Lila se arregalaram. ― E se a senhora Bennington tivesse
visto você?
― Talvez não acontecesse nada ou talvez eu tivesse sido
demitida. ― Emily respondeu com pouca preocupação.
― Mas por quê? Achei que você nem sequer gostasse
dele. ― Lila olhou para ela como se fosse alguma estranha
criatura.
― Eu não sei, mas parece que eu me apaixonei por ele. ―
Ela sorriu por cima da borda da xícara de café.
Sua amiga revirou os olhos em descrença. ― Você
mudou de ideia num instante. Eu estou levando o seu vestido
para a lavandaria antes que as manchas de grama sequem.
Eu sei que você deve ter caído uma ou duas vezes. ― Lila
ficou de pé. ― E seria melhor você tomar banho e descer para
o terraço. A sra Bennington já perguntou por você esta
manhã. Aquela banheira de água está fria porque você
dormiu até tarde. ― Lila saiu da sala balançando a cabeça.
― Obrigada por preparar o meu banho. ― Emily a seguiu
através do quarto e entrou na banheira assim que Lila deixou
a sala. Água fria poderia ajudá-la a pensar, experimentando,
ela permaneceu até sua pele ficar enrugada e seus lábios

303
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

ficarem azuis. Como poderia explicar o seu estranho


comportamento a Lila quando ela mesma não entendia? No
momento que se secou, a única coisa que tinha certeza era do
seu amor por Alexander Hunt, apesar de cada impulso
prevenindo contra isto. Ele tinha confessado seu amor por
ela. Tinha falado as palavras que as mulheres ansiavam por
ouvir.
Então por que era tão difícil acreditar que ele poderia
amar uma mulher como ela? E ele ainda me amaria se
descobrisse a verdade?
O restante do dia se arrastou interminavelmente.
Primeiro, ela teve que aguentar um almoço formal no terraço,
com os hóspedes que tinham ficado durante a noite. Pelo
menos a sra. Bennington sentou-se ao seu lado, mas
continuou lançando olhares curiosos para ela.
― Minha senhora, há manteiga no meu nariz ou
qualquer outra coisa errada? ― Perguntou Emily no ouvido da
sra. Bennington. ― Eu gostaria de causar uma impressão
melhor do que ontem no jardim.
Sua patroa riu. ― Seu nariz está bem, querida. E não se
preocupe com a impressão que você causou. Você parece ter
acumulado mais ciúmes do que uma mulher pode lidar para
um baile de colheita. ― Ela sussurrou conspiratoriamente,
enquanto sorria como um gato.
Emily congelou. ― Eu não entendo o que você quer
dizer.
A sra Bennington balançou a cabeça para o outro lado.

304
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Emily olhou para a mesa e viu Samantha Daniels


franzindo a sobrancelha. As duas jovens damas sentadas com
ela olhavam furiosamente, como se seus sapatos estivessem
muito apertados. Emily abriu seu leque para esconder-se
atrás. Finalmente, essa coisa boba serviu a um propósito. ―
Eu não me lembro dessas mulheres, sra. Bennington. Eu não
acredito que eu fiz alguma coisa para ofendê-las.
― Claro que você não fez. Não lhes dê outro pensamento.
― A sra. Bennington afagou-lhe a mão e, em seguida, cortou
seu filé de peixe. ― Coma seu almoço, Emily. Você precisa
para manter sua força o resto do dia. ― Ela acenou com a
cabeça para as mulheres na outra ponta.
Os conselhos da sra. Bennington provaram serer
sensatos, de fato. Houve passeios nos jardins ― vegetais,
flores e ervas – seguido por passeios de carruagem ao redor
da propriedade e, em seguida, um chá à sombra dos
carvalhos. Os convidados estavam, aparentemente, sem
nenhuma pressa para ir embora. Finalmente, quando a sra.
Bennington retirou-se para o seu quarto para uma sesta,
Emily foi para o seu, para se esconder. Ela aguentou o dia
inteiro sem ver Alexander.
O jantar foi igualmente irritante. Por que essas pessoas
levavam três horas para comer a comida? Se essa era a vida
da aristocracia endinheirada, ela não tinha nenhum desejo de
ganhar entrada. Sentada ao lado de um cavalheiro idoso com
pouca audição, ela tentou manter uma conversa animada.
Ela finalmente desistiu de tentar se fazer entender e sorria
docemente para tudo o que ele falava. À sua direita sentou

305
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

um jovem de dezessete anos que tentava impressioná-la com


seus contos de equitação.
Alexander chegou com seu pai após o primeiro prato ter
sido servido e sentou-se no outro lado com vários visitantes
criadores de cavalos. Exceto por receber um sorriso caloroso
em sua direção, ela não teve nenhum contato com ele.
Depois, os homens dirigiram-se à biblioteca para charutos e
conhaque, enquanto as damas retiraram-se à sala para a
sobremesa. Emily não poderia comer outro pedaço de comida,
nem gastar mais um minuto na companhia dessas mulheres.
Desculpando-se, quase correu para o quarto.
Andando, ela tentou inventar uma desculpa para
interromper Alexander com os seus sócios. Infelizmente, nada
racional lhe ocorreu. Em vez disso, coisas que ela deveria ter
dito no jardim fluiram através de sua mente como um rio.
Teve tantas chances de ser honesta e não aproveitou
nenhuma. Exausta, escorregou para a cama com sua terna
confissão soando em seus ouvidos. Eu amo você, Emily.
Quando acabou se deixando levar pelo sono, seus sonhos não
ofereceram trégua. Imaginou Alexander caminhando por um
caminho nebuloso com ela numa inútil perseguição. Claro
que, até mesmo no sonho ela era incapaz de falar o que
pensava porque o Fantasma permanecia apenas fora do
alcance. Acordando com um sobressalto, jogou para o lado a
colcha e voltou à varanda para outro passeio. Nesse ritmo as
solas do seu chinelo estariam gastas como papel fino até o
Natal.

306
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Da varanda, Emily viu Alexander marchando em direção


ao celeiro, entrando e saindo da névoa. Ele era real ou apenas
outro fantasma? Pingos de chuva em seu nariz e bochechas
contribuiram para ela acordar totalmente. Isto não era um
sonho. O homem com quem precisava desesperadamente
falar estava felizmente sozinho. Sem perder tempo, saiu em
disparada pelas escadas da varanda, despreocupada, com
apenas um xale a protegê-la da chuva. A chuva rapidamente
encharcou a sua camisola e embaraçou os seus cabelos
emaranhados nas suas costas, mas ela deslizou através das
poças que gelavam suas pernas nuas e arruinavam a bainha
da sua camisola. Como em seu sonho, suas pernas pareciam
pesadas, como se movesse debaixo de água. Nunca a
distância até o celeiro pareceu tão longa.
Ela tinha que lhe dizer que não era um ogro, mas o
homem mais atraente que tinha conhecido.
Talvez também poderia mencionar que havia sido
intolerante e preconceituosa.
Poderia até ter a coragem de dizer a verdade, que ela o
amava.
Com o sangue pulsando em seus ouvidos, tentou abrir a
porta pesada. Mal se moveu duas polegadas, mas era o
suficiente para ver lá dentro. A única lanterna pendurada em
uma viga baixa fornecia uma má iluminação. Alexander não
estava sozinho, afinal de contas, mas numa profunda
conversa com seu amigo de confiança e criado, William.
Nenhum dos homens tinha ouvido a porta se abrir.

307
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Medo avançou por sua espinha enquanto ela esticava o


pescoço para ouvir. Tremendo quando seu xale molhado pela
chuva abraçou seu corpo, Emily não pôde ouvir uma palavra
do que eles disseram. Mas o que ela viu foi revelador.
Enquanto ele falava, Alexander vestiu o casaco do uniforme
de um oficial ― a lembrança de um amigo de sua infância
morto há muito tempo, com sua dupla fileira de botões de
ouro, listras nas mangas, e estrelas na gola. Em seguida,
prendeu uma espada e a bainha e vestiu longas luvas de
camurça. A compreensão a atingiu como o coice de uma
mula. Alexander era um coronel da cavalaria confederada,
não um cavalheiro agricultor que permanecia seguro
enquanto seus amigos e vizinhos marchavam para lutar e
morrer. No entanto, a maior surpresa ainda estava por vir.
Enquanto a chuva fria cobria os beirais do celeiro e corria por
suas costas, Emily observou William abrir uma capa
escarlate para Alexander e então entregar-lhe um chapéu de
abas largas emplumado. Quando ele montou um enorme
garanhão branco, ela viu que ele não usava coldre ou pistola.
Alexander não era apenas um oficial rebelde, mas o
notório Fantasma Cinzento. Este era o homem que tinha
frustrado inúmeras manobras da União para entregar
roupas, alimentos e suprimentos médicos para o exército de
Shenandoah. Ele foi aquele que forneceu à infantaria
confederada sapatos e cobertores desesperadamente
necessários para se separarem do solo frio. Este homem tinha
transferido milhares de dólares da União para o Tesouro
Confederado sem mesmo carregar uma arma de fogo. Esta

308
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

informação deveria ter deixado uma convicta ianque muito


irritada, mas de alguma forma o conhecimento fez Emily
amá-lo ainda mais.
Ela pulou para trás assim que a porta do celeiro se
abriu. Alexander cavalgou e desapareceu na noite chuvosa.
Felizmente, nenhum dos homens reparou nela atrás da porta
segurando o xale, tentando não tremer até a morte. Nenhum
deles suspeitou que uma unionista tinha descoberto a
verdade. Emily esperou até se assegurar que William tinha
retornado ao seu aposento antes de voltar para o seu.
O sono não viria mais fácil agora. Ela não tinha feito o
que tinha planejado fazer, não tinha feito confissões tarde da
noite para o homem que amava. E o conhecimento da
verdadeira identidade de Alexander não mudou o seu
coração. Ambos estavam vivendo vidas falsas.

309
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 15

Emily, acorde. ― Lila sacudiu-a delicadamente. ―


Porque é que a sua camisola está molhada? ― Ela pegou a
peça de vestuário do chão.
― Eu caí no rio. Vá embora, Lila. Não pode ser a hora de
levantar ainda. ― Emily enterrou a cabeça mais fundo sob a
colcha para proteger seus olhos da luz do sol.
― O rio? Você percorreu todo o caminho até o rio
Shenandoah em camisola? Você perdeu a cabeça?
― Sim. Se é isso que você veio me perguntar, você tem
sua resposta. ― Emily agarrou a borda do cobertor
firmemente enquanto Lila a puxava do fundo da cama.
― Eu já sabia disso. A razão porque eu vim é para
acordar você. Eu pensei que era suposto serem os ianques os
trabalhadores, enquanto nós sulistas os preguiçosos.
― Você ouviu errado e entendeu mal. ― As palavras de
Emily soaram abafadas debaixo do travesseiro de penas.
Lila olhou para a forma irregular sob as mantas com as
mãos nos quadris. ― Eu estou sem insultos para aumentar a
sua raiva, então eu vou tentar uma abordagem diferente. ―
Ela sentou-se na cama. ― Se você me disser o que você fez
com o senhor Hunt após o baile, eu falarei para você sobre o
310
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

beijo que eu recebi do senhor William. ― Lila saltou para cima


e para baixo na beira.
Emily afastou o travesseiro e sentou-se, não satisfeita
no mínimo. ― Lila Amite, eu não tenho nenhuma vontade de
admitir o que fizemos naquela noite. Uma dama não discute
assuntos delicados. Você vai ter que descobrir por si mesma
quando crescer.
― Quando estarei crescida como você? Foi por isso que
você foi procurá-lo na noite passada e caiu no rio? ― Lila
saltitou para fora da cama com exagerado drama.
― Como você sabe que eu procurei por ele na noite
passada? Lila, você tem que prometer que não vai falar da
minha saída às escondidas. Nem para William, nem para
ninguém. ― Ela pulou da cama e pegou a jovem pelos
ombros. ― É de extrema importância.
― Sua reputação está a salvo de minha língua afiada.
Agora desça para o café da manhã. ― Lila bateu em seu nariz
com um dedo, como se lembrando de algo. ― O senhor
Alexander vai estar lá. Eu o vi retornando esta manhã
enquanto ajudava na cozinha.
Emily voou para o guarda-roupa. ― Por que você não
disse isso antes, sua tonta?
― Talvez eu tivesse alguma coisa, ou alguém, em minha
mente. ― Lila encheu uma xícara de porcelana com café da
jarra que estava na bandeja. ― Vou deixar isto próximo da
banheira e voltarei mais tarde para ajudá-la a se vestir.

311
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Não se preocupe. Eu não vou vestir um espartilho


hoje ou qualquer outra coisa para ser amarrado. Já é o
suficiente.
― Faça como quiser. Pelo menos você ainda é magra. ―
Lila saiu sacudindo sua cabeça com a camisola úmida na
mão.
Emily tomou banho, vestiu o vestido de chita pêssego, e
em trinta minutos estava lá embaixo, um tempo recorde para
ela. ― Bom-dia a todos. ― Ela sorriu quando entrou na sala
de jantar. ― Por favor, perdoem meu atraso.
O dr. Bennington, o sr. Hunt e Alexander levantaram
enquanto ela alcançava a mesa. A sra. Hunt e a sra.
Bennington já estavam em seus lugares habituais.
Felizmente, os convidados remanescentes finalmente tinham
ido para casa.
― Você não está atrasada, minha querida. ― Disse a sra.
Bennington. ― Nós acabamos de começar. Estava uma boa
manhã para dormir.
― Espero que tenha dormido bem, senhorita Harrison. ―
Disse Alexander com uma piscadela. Linhas profundas
vincavam sua testa, e manchas preto-azuladas debaixo dos
seus olhos indicavam que ele não tinha descansado na noite
anterior. O seu cabelo desalinhado precisava de um corte,
enquanto uma barba de dois dias escurecia seu rosto.
Estudando-o sobre a borda da xícara, Emily achou que
ele estava maravilhoso. Uma onda de eletricidade serpenteou
por sua coluna, mesmo quando seu estômago revirava. Com
um rosto tão elegantemente bonito, ela ansiava se inclinar

312
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

sobre a mesa e beijá-lo na frente dos Benningtons e seus


pais. Somente o medo de derrubar um candelabro e queimar
a casa a mantinha sentada. ― Eu dormi muito bem. ―
Mentiu.
― Café da manhã, senhorita Harrison? ― Joshua
apresentou dois pratos ao seu lado.
― Tudo parece maravilhoso, obrigada. ― Apesar da
abundante variedade, ela pegou apenas uma pequena
quantidade de ovos, uma fatia de presunto, e um pedaço de
torrada. Ela recusou as batatas com cebolas, tomates fritos, e
peras pochê.
― Há algo de errado, senhorita Harrison? ― Alexander
perguntou. ― Você não está se sentindo bem?
― Estou me sentindo muito bem, senhor. Por que
pergunta? ― Ela comeu uma saborosa garfada de ovos.
― Estou preocupado com a sua insignificante
quantidade de alimento nesta manhã. A coisa que eu aprecio
sobre mulheres ianques é que elas sabem como desfrutar de
uma boa refeição. ― Alexander sorriu para ela.
Seu tio e seu pai riram, sua mãe franziu a sobrancelha,
e tia Augusta falou em tom de censura. ― Alexander, você já
está irritando Emily? ― A sra. Bennington tinha assumido o
papel formidável de protetora de Emily na terra estrangeira.
― Eu estou, tia Augusta. Ela teve a coragem de escapar
durante o baile sem me dar um único beijo de boa noite.
Depois de ter prometido. ― Ele sorriu como se tivesse
terminado o último dos bombons.

313
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Emily quase se engasgou com sua torrada. Como ele


poderia provocá-la depois de terem compartilhado muitos
beijos no jardim, especialmente na frente de seus pais? Ela
lançou-lhe um olhar penetrante que teve pouco efeito.
― Por que Emily iria querer beijá-lo? Ela me pareceu ter
muito mais senso do que isso. ― A sra. Hunt ergueu sua
xícara de café em saudação.
Alexander empurrou seu prato. ― Uma promessa é uma
promessa, e eu pretendo manter a da senhorita Harrison.
― Chega de conversa de beijos. ― Disse o senhor Hunt.
― Aquele corretor de cavalos de Fredericksburg me deu uma
cópia do Correio de Washington ontem. Ouça este
maravilhoso artigo sobre o Fantasma Cinzento. Descreve os
seus soldados como “esses demônios intangíveis e diabos que
quando se espalham para as montanhas, as pegadas de seus
cavalos desaparecem na névoa”. ― Ele riu ironicamente. ― Os
ianques estão aterrorizados com o homem. Uma notícia
relatou que ele jantou com correspondentes de guerra na
Casa de Henry em Alexandria vestindo um disfarce. Ele
supostamente pagou a refeição de todos, em seguida, deu
para cada um deles uma caixa de charutos. Uma outra
história diz que ele estava no mesmo dia em Culpeper
cortando a ferrovia Warrenton.
― Talvez ele seja mesmo um fantasma, se ele é capaz de
estar em dois lugares ao mesmo tempo. ― Refletiu a sra.
Hunt.
― Quem sabe, minha querida. Numa terceira história ele
está causando estragos em outro local. Eles relataram que ele

314
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

invadiu Mercersburg, Pensilvânia, onde capturou várias


centenas de gado e levou-os de volta para a Virgínia como se
isto fosse as grandes planícies. ― Todo mundo desatou a rir.
Isso é, menos Emily.
― Parece que o Fantasma está planejando um grande
churrasco. ― Pronunciou a senhora Hunt. ― Espero receber
um convite.
Emily espiou Alexander. Uma expressão de diversão
tinha levantado os cantos de sua boca. Ele não parecia nem
um pouco desconfortável com o tema da conversa.
― Oh, eles vão apanhá-lo eventualmente. ― James
retirou mais ovos da travessa para o seu prato. ― E quando o
fizerem, eles o enforcarão. Considerando o que os rangers
roubaram, a cavalaria da União está furiosa como vespa. O
Fantasma fez os generais ianques parecerem muito tolos em
mais de uma ocasião.
― Enforcá-lo? ― Emily foi incapaz de ficar quieta mais
um momento. ― Por que fariam isso? Eu li que ele nunca
tirou uma vida, e ele nem sequer carrega uma arma. Quando
ele confiscou um trem de Washington, as senhoras a bordo
declararam que se comportou como um verdadeiro
cavalheiro. ― Inspirando o ar, ela manteve a boca fechada.
Os três Hunt e os dois Bennington estavam todos
olhando para ela.
― Se eu não a conhecesse bem, ― disse o doutor
Bennington com muita alegria ― eu poderia jurar que nossa
senhorita Harrison ficou apaixonada pelo lendário Fantasma.

315
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― O Norte poderia muito bem admitir a derrota agora se


suas mulheres começarem a cair aos pés do homem. É ruim
o suficiente que as damas do sul adormeçam com visões de
um cavaleiro com capa escarlate atacando seus quartos à
noite. ― O senhor Hunt agitou seus braços em forma de
morcego.
― James, isto não é verdade. Eu nunca poderia tolerar
um homem que ataca. ― Sua esposa gentilmente acariciou
sua mão.
O senhor Hunt sorriu para ela com carinho. ― Por
enquanto o meu lugar no seu coração está garantido.
Emily não podia esquecer o assunto. ― Mas seu objetivo
é somente alimentar e vestir o exército faminto de
Shenandoah e fornecer medicamentos aos hospitais de
campo. Com o bloqueio dos portos pela União, pouco
conseguiu passar. Pacientes e soldados estão sofrendo
desesperadamente.
― Está tudo muito certo, senhorita Harrison, mas eles
ainda vão enforcá-lo se tiverem a oportunidade. Este artigo
relata que ele rendeu um correio ianque com 173.000 em
dólares e repassou o dinheiro para Jefferson Davis. Isso é
bem diferente de alimentos e medicamentos. Se eles não o
enforcarem, certamente o enviarão para a pior prisão no
Norte. Eles encomendaram unidades especiais de cavalaria
para fazer nada mais além do que caçar o Fantasma e seus
rangers. Parece ser apenas uma questão de tempo. ― O
senhor Hunt dobrou o jornal e o deixou de lado.

316
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Você o considera um Robin Hood americano, Emily? ―


Alexander perguntou, juntando-se a conversa. ― Não admira
que você tenha fugido sem me dar um único beijo. Você está
apaixonada por um fantasma. Tenho certeza que se você
conhecer o homem, você o acharia indecente e totalmente
desonroso. ― Ele recostou-se na cadeira e observou-a do
outro lado da mesa. ― Eu li que ele está infestado de piolhos.
― Alexander, isso é o suficiente! ― Sua mãe o
repreendeu. ― O que deu em você? Você atormenta a pobre
senhorita Harrison impiedosamente. Por que ela não iria se
apaixonar por um fantasma quando os homens de sua idade
se comportam como cafajestes? Piolhos...
Emily ouviu o suficiente do tema e levantou-se
cambaleante. ― Eu garanto a vocês que não estou
apaixonada por nenhum fantasma. ― Sua voz falhou. ― Se
todos me derem licença, eu preciso pegar minha
correspondência. ― Ela balançou a cabeça educadamente
para os Bennington e saiu da sala com as pernas trêmulas.
Ela tão desesperadamente queria dizer: Eu estou
apaixonada por seu filho, sra. Hunt.
Mas não disse. Outra oportunidade perdida. Agora
nunca teria outra chance novamente. Ele tinha saído ontem à
noite em uma de suas incursões tarde da noite. Agora os seus
longos períodos de ausência faziam sentido. Não havia outra
mulher. A grande Causa do Sul foi a concorrência de Emily, e
Ela poderia exigir o maior sacrifício de todos. Alexander havia
dito a Emily que ele a amava, mas o que isso significava
durante uma guerra que se recusava a acabar? Segundo os

317
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

jornais, uma rede estava caindo sobre os soldados do Vale de


Shenandoah. O poderoso exército da União, o mesmo pelo
qual Matttew havia morrido, estava se aproximando do
homem responsável pelo abastecimento dos rebeldes. O
mesmo homem por quem ela estava apaixonada. E não havia
nada que ela pudesse fazer, apenas aguardar a melhor
ocasião.

― Psiu, senhorita Harrison! ― Uma voz chamou da


árvore rugosa na beirada da varanda superior. Emily
levantou, mas não viu ninguém. Deixada com seu livro e chá,
tinha adormecido na cadeira após a sra. Bennington e a sra.
Hunt retirarem-se para seus quartos para suas sestas
costumeiras.
― Senhorita Harrison. ― A pequena voz de uma criança
se aproximava. Um menino muito escuro tinha subido pela
murta e agarrava precariamente um fino galho espinhoso. Ele
não poderia ter mais do que oito anos, com o cabelo curto
cortado e os olhos negros luminosos.
― Você vai quebrar seu pescoço, meu jovem. O que você
está fazendo aí em cima?
― Eu tenho uma mensagem para você, senhorita. Não
deve contar a mais ninguém. ― As folhas de cera espessas e
ramos brilhantes de amoras escondiam sua localização de
qualquer um que passasse abaixo.

318
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Emily ouviu o galho rangendo ameaçadoramente. ― Que


mensagem? Diga-me rapidamente e então desça antes de
cair.
― O vento sopra do sul hoje. Você deve vir para
Upperville para a Fazenda Thompson em Little River
Turnpike, assim que puder. Hoje à noite é o melhor,
senhorita.
Ela sabia instintivamente o que isso significava e
estremeceu. Depois do que ela acabou de descobrir, precisava
de tempo para resolver as coisas. ― Deve ser hoje à noite? ―
Emily perguntou-se o quanto essa criança sabia sobre seu
envolvimento na Estrada de Ferro Subterrânea.
Ele acenou com a cabeça. ― O que você diz? Eu tenho
que voltar para minha mãe. Ela está entregando mel para a
senhorita Beatrice. ― O galho rangeu novamente sob o seu
peso.
Ela sabia que não havia tempo para interrogá-lo ainda
mais. ― Diga à sua mãe que eu irei.
A criança desceu e desapareceu na cozinha subterrânea
fria. Emily ficou por vários momentos refletindo sobre seu
plano de ação. Preciso encontrar Lila. Ela saberá o que fazer.
Infelizmente, ela não sabia. Lila não estava ansiosa para
dar conselhos que poderiam colocar Emily em perigo. Lila
tinha ouvido dizer que uma fugitiva grávida estava escondida
no celeiro Thompson, que ficava a sessenta e cinco
quilômetros da fronteira estadual da Pensilvânia. A mulher
tinha deixado o senhor que passava seus dias em uma névoa
alcoólica depois que sua esposa e crianças morreram de

319
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

cólera na primavera passada. O resto dos escravos já haviam


fugido, mas sua gravidez a tinha impedido de juntar-se a
eles. Agora, o senhor descarregava sua raiva sobre os poucos
escravos deixados na fazenda em ruínas. Ela não tinha
escolha senão partir para proteger a vida de seu futuro filho.
O coração de Lila doía por causa da mulher, mas seu coração
nos dias de hoje pertencia a William. E ele era totalmente
contra Lila ajudar na estrada de ferro subterrânea. As
autoridades tratariam uma mulher negra livre mais
severamente do que uma branca ianque se ela fosse pega.
Para seu alívio, William observou suas idas e vindas como um
falcão desde o encontro infeliz com Nathan Smith.
― O que você vai fazer? ― Perguntou Lila enquanto as
duas mulheres caminhavam em direção ao Rio Shenandoah
na brisa fresca do final da tarde.
― Eu devo ir e ajudá-la. ― Emily respondeu sem muito
entusiasmo. ― A mulher deseja dar à luz onde o seu filho
nascerá livre. Nós não vamos deixá-la ser capturada e
devolvida a um senhor cruel após ela ter vindo de longe. Vou
escapar esta noite e levá-la ao Potomac, onde ela poderá
atravessar para Maryland. Ela vai ficar muito mais perto da
Pennsylvania. ― Detalhes surgiram em sua mente, um por
um. ― Mas eu não consigo pensar em uma razão para ir a
uma visita social em Upperville. É muito perto das fronteiras
federais. Os Hunt nunca iriam me deixar ir.
Alexander... Ele ainda professaria seu amor se soubesse
o que ela estava fazendo?

320
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Se você vai, então eu também vou. ― Lila falou com


determinação.
― Não, você não vai. ― O tom de Emily não admitia
discussão. ― Eu vou para a fazenda Thompson com um
cavalo extra e um de seus vestidos para a fugitiva. Nós temos
que alcançar a travessia ao amanhecer. Se formos paradas,
eu vou dizer que ela é minha empregada e estamos indo
buscar o médico para a senhora Thompson. Como eu poderia
explicar tendo duas empregadas junto comigo? Então eu vou
cavalgar de volta para cá e rezar para eu não ser vista
voltando àquela hora, com um cavalo extra, ainda por cima.
― O plano, qualquer que seja o seu valor, foi tricotado em
conjunto enquanto elas caminhavam à luz do sol
desaparecendo.
― Deixe os cavalos no galpão. Vou mandar Jack trazê-
los de volta para o celeiro principal mais tarde. E eu vou
cuidar de distrair a família com uma pequena ajuda de
William.
― Obrigada. ― Emily colocou os braços em volta dos
ombros de Lila. ― Faça uma oração para a fugitiva e outra
para mim.
Lila abraçou-a longa e duramente. ― Eu vou fazer mais
do que uma. Você pode contar com isso.
Emily jantou com os Hunts e os Benningtons naquela
noite como de costume. Alexander estava ausente. Por esta
pequena graça, ela estava agradecida. Considerando a
conversa do café da manhã, seus pais não sabiam nada sobre
as atividades de Alexander tarde da noite. E com a sua

321
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

missão de resgatar uma fugitiva grávida à frente dela, Emily


tinha receio de falar, com medo de revelar um de seus muitos
segredos. ― É uma teia emaranhada esta que tecemos quando
primeiro praticamos para enganar. ― Uma das expressões de
estimação de sua mãe percorreu sua mente repetidamente.
Que esperança o amor deles tinha quando as vidas foram
construídas sobre mentiras e enganos? Com o coração
pesado de vergonha, Emily tentou concentrar-se na conversa
do jantar.
― Eles dizem que a votação terá lugar em breve na
legislatura da Virgínia. ― Disse o senhor Hunt, muito agitado.
― Muitos dos condados ocidentais não querem ter nada mais
a ver com esta guerra ou a Confederação. Se apresentado
sem alternativa, eles deixarão a Comunidade da Virgínia.
― Talvez sejam apenas os delírios de alguns exaltados. ―
Disse a mulher num tom suave. ― Mentes mais frias, mais
racionais podem prevalecer, e a Virgínia pode permanecer
intacta.
A sra. Bennington sacudiu a cabeça. ― Eu não tenho
tanta certeza, Rebecca. Lembro-me dos sentimentos de
nossos antigos vizinhos em Parkersburg. Este barril de
pólvora está fervendo por um longo tempo.
― Você não pode esperar que as pessoas lutem e
morram pela escravidão, quando pouco existe a oeste das
Montanhas Shenandoah. ― O dr. Bennington esfregou as
mãos pelo rosto.
A jovem governanta prestou pouca atenção para a sua
política enquanto empurrava a comida ao redor de seu prato.

322
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Minha querida, há algo de errado com o seu jantar?


Ou nós a incomodamos com a nossa conversa? ― A senhora
Hunt perguntou quando virou o rosto preocupado em direção
a Emily.
― Nenhum dos dois, senhora, mas tenho pouco apetite
hoje. Eu estive cuidando de uma dor de cabeça durante todo
o dia. Se vocês não se importarem, vou retirar-me para o meu
quarto. ― Ela empurrou sua cadeira para trás.
― Claro. Eu mandarei Lila enviar um chá de casca de
salgueiro branco. ― A senhora Bennington bateu levemente
no seu braço enquanto Emily passava por ela.
Junto com o chá, Lila entregou um pacote de comida da
cozinha e um dos seus vestidos mais frouxos antes que ela
desaparecesse de volta para a cozinha. Não havia mais nada
para Emily fazer senão esperar. Esperar e se preocupar. E
pensar sobre Alexander. Eles eram tão diferentes? Ele
alimentava, vestia e cuidava dos soldados do Sul. Será que
ele entenderia sua necessidade de diminuir o sofrimento dos
escravos fugitivos?
Finalmente, a casa ficou em silêncio quando a escuridão
caiu. As irmãs estavam muito provavelmente bordando junto
à lareira, enquanto seus maridos continuavam seu debate
sobre a Virginia durante o brandy no escritório. A maioria dos
trabalhadores, tanto escravos quanto livres, haviam
completado as suas tarefas e estavam desfrutando de um
jantar na cozinha lá embaixo ou em cabanas na parte de trás.
Emily vestiu-se com cores escuras e, em seguida, trançou seu
cabelo antes de dobrá-lo sob um chapéu de equitação.

323
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Rastejando pela casa, ela não teve problemas para alcançar o


celeiro sem ser vista. Amarrou o saco de pano de comida e o
vestido extra na sela, junto com as rédeas da outra égua, e
montou Miss Kitty. Evitou montar sentada de lado porque
teria que cavalgar com força e rapidez para chegar a
Upperville em pouco mais de duas horas. Com a lua para
iluminar o caminho, e os sons de grilos e pios para confortar
seus ouvidos, o passeio estimulava Emily.
Ela chegou na fazenda Thompson pouco depois das dez
horas, agradecida pela suavidade da viagem até agora. Esta
era uma casa segura na estrada de ferro subterrânea ―
pessoas generosas, dedicadas a ajudar escravos a encontrar o
caminho para a liberdade. Mas a visão de três puro-sangue
amarrados no poste quase parou o coração de Emily. As selas
tinham as insígnias da cavalaria americana. Emily escondeu
Miss Kitty e o cavalo extra no celeiro e bateu timidamente na
porta da cozinha.
― Senhora Thompson? É a senhorita Harrison. ― Ela
sussurrou com o estômago enjoado.
― Entre, entre, senhorita Harrison. Estou apenas
tomando uma xícara de café. ― A mulher segurou a porta
aberta. ― Meu marido tem convidados na sala de estar, três
oficiais federais. ― Ela acrescentou com grande orgulho. ―
Aqueles são os seus cavalos amarrados do lado de fora. ― Ela
transmitiu esta informação sem um momento de hesitação.
Afinal, Emily não era apenas uma ianque, mas uma
condutora da estrada de ferro subterrânea. Certamente, era
de confiança.

324
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

A serenidade que Emily experimentara durante o


passeio desapareceu. Ela não tinha pensado muito sobre os
Thompsons ― eles eram simplesmente cristãos
antiescravagistas que ajudavam fugitivos a alcançar o Norte.
A percepção de que também eram simpatizantes da União,
auxiliando ativamente o Exército Federal acampado nas
proximidades, a atingiu como um raio. Uma coisa era ajudar
uma grávida fugir da escravidão, mas outra muito diferente
era estar em uma casa de informantes. Enquanto tomava
café na cozinha confortável da sra. Thompson, sentia-se
envergonhada pelo amor e confiança recebidos dos
Bennington e Hunt. Quando seus pensamentos voltaram
para Alexander, um rubor profundo subiu por seu pescoço.
Exatamente quem sou eu? Mas enquanto olhava fixamente
para o fundo da sua xícara, nenhuma resposta fácil veio.
― Você é uma Quaker, senhorita Harrison? ― Perguntou
a Sra. Thompson, reabastecendo suas xícaras com café
fresco.
― Sim, senhora, eu sou. ― Emily olhou em todos os
lugares da sala, menos no rosto de sua anfitriã.
― Nós somos metodistas. Eu não poderia tolerar
nenhuma música de órgão ou cantar na igreja, como os
Quakers, mas você é muito corajosa por estar fazendo isto,
senhorita, e em uma idade tão nova. Você terá a sua justa
recompensa.
― Sim, senhora, eu estou muito certa disso, mas estou
surpresa que ainda haja tal necessidade depois da
proclamação do senhor Lincoln.

325
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

A sra. Thompson estalou. ― Só entra em vigor em


janeiro. Além disso, você acha que esses escravos da Geórgia
vão prestar muita atenção?
Emily afastou um frisson de ansiedade. Ela não
conseguia evitar olhar para a sala de estar. Dois oficiais da
União andavam de um lado para o outro, enquanto um
terceiro sentou com o sr. Thompson diante da lareira.
― Não se preocupe com eles. Não vão incomodá-la. Os
soldados estão aqui para discutir assuntos importantes com
o sr. Thompson.
Emily ficava mais desconfortável a cada minuto. Sentia-
se como uma traidora. Como isso era possível? Era uma
sindicalista do núcleo que odiava a instituição da escravidão,
apesar de por quem se apaixonou. ― Eu trouxe um vestido
extra. ― Disse, despertando-se para a tarefa. Emily tirou o
vestido de Lila de sua bolsa.
A hospitaleira sra. Thompson colocou um prato de bolos
na frente dela. ― Tire um momento para refrescar-se, minha
querida. Você ainda tem uma grande noite à sua frente. Vou
preparar a nossa refugiada para ir. ― Pegou o vestido e
dirigiu-se para a porta.
Emily deu um suspiro de alívio quando a mulher
desapareceu, deixando-a sozinha. A tensão de vozes
masculinas flutuava a partir do salão. Não faria mal ouvir por
um minuto. Afinal de contas, eu sou uma ianque, não sou? Ela
rastejou silenciosamente para a entrada.

326
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Não teremos que nos preocupar com ele por muito


mais tempo. ― As palavras de um soldado flutuavam
enquanto ela se escondia junto ao batente da porta.
― Está certo? Ele tem atravessado este condado e outros
ao redor durante toda a guerra. O que faz vocês pensarem
que podem pegá-lo agora? ― A voz retumbante veio de um
homem corpulento identificado por sua esposa como seu
anfitrião. O senhor Thompson era de meia-idade, de ombros
encurvados e careca. Emily teve uma ilógica e imediata
aversão por ele.
― Parece que ele fez um inimigo. ― Disse um oficial de
bigode, inclinando-se para trás na sua cadeira. ―
Aparentemente, ele dispensou vários soldados por encher
seus bolsos com os saques em vez de entregá-los para a
Confederação. O Fantasma Cinzento é um homem de
princípios fortes. ― Acrescentou sarcasticamente. Os outros
dois romperam em risadas.
― Eu não consigo ver a graça. ― Disse o senhor
Thompson.
― Um dos homens dispensados apareceu na sede do
general Meade. Ele tinha montado com o Fantasma desde o
início. ― O oficial fez uma pausa, sorrindo para os outros. ―
Por um pequeno preço, ele descreveu os esconderijos e os
hábitos do homem. Este misterioso Fantasma é reservado e
tem poucos vícios, mas ele gosta de um jogo de pôquer uma
vez por mês na casa de Thaddeus Marshall em Middleburg.
Há algum tempo que estamos de olho nessa cidade. Esses
cidadãos são muito leais à Causa. Eles mentiriam para o

327
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

próprio Criador para salvar os rangers. Aparentemente, o sr.


Marshall é o tio do Fantasma e, pelo que pudemos reunir,
Marshall tem apenas um sobrinho ― o senhor Alexander
Hunt da fazenda Hunt, Front Royal.
― Isso não é possível. ― Thompson balançou sua cabeça
como uma mula. ― Essa família é a mais rica da região. Por
que o filho de um aristocrata como o próprio James Hunt se
envolveria com saques? Você acha que este ex-ranger pode
ser confiável?
O coração de Emily batia tão forte que ela temia que
fosse ouvido.
― Sim, nós acreditamos que ele está dizendo a verdade.
Estes aristocratas de sangue azul tem um barril de honra. ―
Ele cuspiu a palavra como algo vergonhoso. ― Nós vamos
manter o homem na cadeia enquanto se aguarda o resultado.
Ele será pago de uma forma ou de outra, dependendo da
confiabilidade de suas informações. Ele estava louco como
uma galinha molhada quando eles o prenderam. ― Os outros
oficiais pararam de andar o tempo suficiente para encher
seus copos no aparador.
― Assim, sabemos de fonte segura que o Fantasma
Cinzento estará em Middleburg amanhã à noite. ― O oficial
terminou sua própria bebida. ― Ele não vai escapar
novamente. Uma vez que ele seja capturado, o ataque aos
nossos trens e carroças na região irão cessar. Se pudermos
impedi-lo de abastecer o Exército Rebelde, podemos acabar
com esta guerra muito mais cedo.

328
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Amanhã. A palavra transformou o mundo inteiro de


Emily de cabeça para baixo. Alexander tinha um tio vivendo
em Middleburg. Ela tinha ouvido ele brincar com o seu pai
como o tio Thad podia blefar no pôquer melhor do que um
charlatão de barco. Com a cavalaria ianque esperando por
ele, Alexander estaria caminhando para uma armadilha. Ela
ficou de pé com sua cabeça no batente da porta, incapaz de
se mover por alguns momentos. Então sacudiu sua paralisia
e saiu da cozinha aquecida.
Momentos depois, localizou a sra. Thompson e se
apresentou à escrava grávida e assustada, ansiosa para estar
fora da Virginia. Vestindo a roupa de Lila, a mulher subiu no
cavalo. Emily montou Miss Kitty e então aceitou uma sacola
de provisões da sra. Thompson. Se alguém dissesse a ela há
um mês atrás que sentiria raiva em relação a um
companheiro membro da Estrada de Ferro Subterrânea, ela
nunca teria acreditado. Mas Emily não tinha tempo para
refletir sobre sua mudança de atitude, tinha que entregar
esta mulher em segurança nas mãos do próximo condutor e
regressar para Front Royal.
E rezar para que ela não chegasse muito tarde para
avisar Alexander.

Como a maioria das cidades nas treze colônias originais,


Middleburg tinha sido disposta em um padrão de grade
simétrica com blocos relativamente do mesmo tamanho.
329
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

A casa opulenta de Thaddeus Marshall ocupava quase


todo um quarteirão, com um pequeno hotel em uma esquina
e a Igreja Episcopal de frente para a rua de trás. Convidados
chegando, desceram de suas carruagens no portão
requintado e, em seguida, passearam pelos jardins formais
para a porta da frente dos Marshalls. ― O caminho de pedra
serpenteava através de plantas bem cuidadas, caramanchões
de clematis e hera, juntamente com árvores de pêssego e
peras. Seu jardim e pequeno pomar criavam um verdadeiro
éden dentro da cidade. A mansão, construída na linha
traseira da propriedade, assemelhava-se a uma mansão
irlandesa com chaminés duplas em ambas as extremidades e
janelas altas e simétricas. Circulando até três andares, uma
escadaria esculpida de nogueira dominava o impressionante
vestíbulo. Os Marshalls usaram o salão principal para seus
esplêndidos bailes e recepções, preferindo não subir para o
terceiro andar. À direita do salão estavam a sala de jantar e o
escritório do sr. Marshall.
Alexander e os soldados chegaram na casa Marshall
para o seu amado jogo de pôquer. Normalmente Alexander
aceitava a hospitalidade de sua tia e tio e passava a noite. Os
quartos de hóspedes e quartos para o pessoal da casa
poderiam ser encontrados no terceiro andar. Não era
incomum que seus oficiais compartilhassem quartos na casa
depois de seus jogos de cartas, enquanto outra dúzia de
soldados subiam ao sótão do estábulo ou em outras
dependências. Nas noites quentes de verão, alguns homens
espalhavam os seus sacos de dormir sob as árvores frutíferas

330
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

ou na parreira, onde podiam inalar uma fragrância doce à


medida que dormiam.
Tal foi o caso, nesta noite quente no final do outono. Os
jogos de pôquer, apostas na sala de estar e as mais altas na
biblioteca acabaram perto da meia-noite. Alexander, Nathan,
e vários outros oficiais se banqueteavam com frango frito frio
e milho doce com o sr. e a sra. Marshall na cozinha. Com
sanduíches na mão, os outros rangers cantavam em seu
caminho para seus sacos de dormir no jardim. Alexander
sentiu-se excepcionalmente satisfeito com o mundo nesta
noite de novembro. Após um flush de corações na mão final,
sua carteira estava mais rica por dez dólares. Seus homens
estavam prontos para montar para Culpeper de madrugada
para pegar um trem de suprimentos de alimentação para
cavalos. E ele tinha acabado de terminar uma refeição
deliciosa com sua tia e tio, que nunca perdiam uma
oportunidade para atormentá-lo sobre seu status de solteiro.
― Se você esperar mais tempo, sobrinho, as únicas
mulheres que ficarão com você terão a minha idade. ― Sua
tia sacudiu o dedo em advertência.
― Se ela for tão amável como você, eu serei um noivo
feliz. ― Sua resposta habitual trouxe um rubor para as
bochechas de sua tia.
― Você vá para cima agora. Você já está falando
bobagens. ― A sra. Marshall embrulhou o último pedaço de
torta de nozes e colocou-o em seu alforje.
Observando-a, Alexander sentiu uma estranha onda de
emoção. Tudo na vida desta mulher tinha mudado

331
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

drasticamente, mas ela ainda estava preocupada se ele se


casaria com uma garota amável.
Emily Harrison era uma garota amável, apesar de ter
nascido ao norte da linha Mason-Dixon. Suas palavras no
café da manhã de ontem não saíam de sua mente,
proporcionando outra medida de contentamento. Na verdade,
ela tinha defendido ele – defendido o Fantasma, de qualquer
forma. ― Seu objetivo é apenas alimentar e vestir o faminto
exército de Shenandoah e fornecer medicamentos aos
hospitais do campo. ― Quando ele confiscou um trem de
Washington, as senhoras a bordo declararam que ele se
comportou como um verdadeiro cavalheiro. ― Um verdadeiro
cavalheiro. Ele sorriu para a conclusão de Emily. Ela estaria
tão ansiosa para salvar o Fantasma do laço do carrasco se
conhecesse sua verdadeira identidade?
Alexander beijou a bochecha de sua tia, apertou a mão
de seu tio, e depois subiu as escadas até o terceiro andar.
Depois de esticar-se na sua cama estreita, ouviu a
brincadeira dos homens através da janela aberta. Logo o
jardim abaixo e o corredor de quartos sossegou enquanto os
homens caiam em um profundo e há muito esperado sono.
Mas ele não conseguia afastar os pensamentos de Emily de
sua mente.
Você deu o seu coração para o inimigo, senhorita
Harrison.
Mas por outro lado, eu também.

332
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 16

Emily não teve sonhos na noite em que retornou dos


Thompsons, agradáveis ou não. A viagem do Rio Ford onde a
jovem mulher atravessou para Maryland havia sido tortuosa.
Sem lua para iluminar seu caminho, ela havia se perdido
duas vezes e não havia retornado à Fazenda Hunt até tarde
da manhã. Deixou os dois cavalos no estábulo, como
instruída a fazê-lo e caminhou a distância para a casa
dolorida e faminta.
― Aí está você! Eu pensei que nunca retornaria. ― Lila
apareceu na sebe9 do caminho de Emily com seu usual
entusiasmo. Eu tive que contar tantas mentiras sobre o
porquê de você não estar no café da manhã. Eu não gosto de
dar suporte a falso testemunho.
― Sinto muito, Lila. Eu fiz um retorno errado e terminei
em Bluemont. Deixe-me descansar por umas poucas horas.
Estou muito exausta para conversar. ― Rodeando sua amiga,
ela entrou na cozinha acolhedora.
― Não, primeiro você precisa comer. ― Lila puxou um
guardanapo de linho que cobria um prato de sanduíches na
mesa.
9 Sebe é uma cerca de plantas ou de arbustos e ramos secos para proteger vinhas e quintais.

333
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Eu levarei um para o meu quarto, mas não me deixe


dormir mais que duas horas. Um bocejo abafou suas
palavras. Emily foi para a escada dos fundos comendo seu
sanduíche com pálpebras que se recusavam a permanecer
abertas. Dentro de seu quarto, despiu seu vestido suado e o
jogou no chão. Deslizando entre seus lençóis de seda, ela
instantaneamente dormiu. Quando acordou, demorou muitos
momentos para perceber onde estava. Alguém havia fechado
as cortinas e deixado uma bacia de água fresca e uma pilha
de toalhas.
Pulando da cama, Emily jogou água em seu corpo até
que seu senso retornasse. Depois esfregou todo traço de
sujeira da estrada de sua face e de seus braços.
Sem bater, Lila entrou dentro do quarto com outro jarro
de água. ― Eu estava quase acordando você. ― Espreitando a
água suja, Lila jogou-a pela janela e tornou a encher a bacia
de sua jarra.
― Porquê você não conferiu se alguém estava parado em
baixo no gramado? ― Emily abaixou seu rosto na água fresca.
― Ninguém está fora a essa hora do dia. ― Lila apoiou o
quadril na cama. ― Quando você me contará o que
aconteceu?
― O que eu contarei a você é quão maravilhosa é essa
sensação. ― Emily pressionou uma toalha macia em sua face.
Depois contou uma versão abreviada da fuga da senhora
Thompson e da grávida, incluindo o complô para capturar o
Fantasma em uma armadilha. ― Agora eu devo encontrar
Alexander. O tempo é essencial.

334
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Lila enfiou suas mãos dentro dos bolsos de seu avental.


― O sr. Hunt não está aqui. Eu o vi sair a cavalo há algumas
horas atrás
Demorou um momento para que Emily absorvesse as
notícias. Depois seus joelhos dobraram e ela desmoronou no
piso polido do quarto. Sem hesitação, Lila a reergueu. ― Oh,
Lila, o quanto você me deixou dormir? ― Emily terminou de
se secar e jogou a toalha em direção ao cesto. ― Se eu não o
impedir, Alexander caminhará direto para uma armadilha.
― Aquele William... ele nunca falou uma palavra sobre
isso. Ele sempre ajuda o sr. Hunt a cobrir suas pistas. ― Lila
puxou um vestido limpo do guarda-roupa.
Emily colocou roupas limpas sem importar-se com um
espartilho. ― Eu tenho que encontrar a casa do sr. Marshall
em Middleburg para avisá-lo.
Lila enfurecia enquanto caminhava vagarosamente. ―
William sabe o caminho. Ele foi lá muitas vezes com o sr.
Hunt.
― Eu preciso ver William imediatamente. ― Emily calçou
suas botas e correu em direção à porta da varanda.
―O que eu devo dizer à sra. Bennington? ― Perguntou
Lila, seguindo-a de perto.
― Invente qualquer história depois que eu tiver ido. Você
deve estar ficando boa nisso agora.

335
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Embora William tentasse tudo ao seu alcance para


dissuadi-la, Emily recusou-se a escutar. Ambos cavalgaram
duramente para Middleburg, chegando um pouco depois da
meia noite. Enquanto estavam na rua atrás da mansão dos
Marshall, segurando as rédeas de seus cavalos cansados, eles
consideraram seu próximo movimento. A quietude da
vizinhança ofereceu esperança de que ela não estivesse muito
atrasada. ― Obrigada, William, por me acompanhar. Eu
nunca teria encontrado a casa do sr. Marshall por mim
mesma.
― O sr. Alexander não ficará feliz por você ter vindo.
― Deixe a mim preocupar-me com o sr. Alexander. Ele e
seus homens estão em perigo. Uma cavalaria da União sabe
sobre esta casa.
― Eu falarei com ele enquanto você espera aqui. Nós não
sabemos o que encontraremos atrás daquele portão.
― Não, eu farei isto. Alexander perguntará como eu
cheguei a essa informação. Eu devo dizer a ele a verdade.
Devo contar tudo a ele.
― Sim, senhorita, eu diria que é a hora. ― A
preocupação vincou a fronte de William. ― Você irá contar a
ele o que estava fazendo em Upperville?
Emily virou a cabeça. ― O quê você sabe sobre
Upperville?
― Eu sei o que você estava fazendo lá. Lila me contou
tudo sobre a estrada de trem subterrânea.
―Lila contou a você? Quanto mais pessoas souberem,
menos segura a rota ficará.

336
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

William cruzou os braços. ― Você pensa que eu falarei


sobre isso? Eu não dei a Lila muitas escolhas. Quando vi você
partir com um cavalo extra, eu estava pronto para segui-la.
Ela me parou e contou aonde você estava indo. Quando as
pessoas são apaixonadas como eu e Lila, elas contam um ao
outro a verdade.
A implicação era tão sutil como um chapéu vermelho em
uma mula. ― Eu sei disso... ou ao menos estou
compreendendo agora. Por isso é que eu entrarei lá, portanto
vamos parar de discutir.
― Não há necessidade de discutir. Nós dois estamos
indo, srta. Harrison. ― Depois de William prender seus
cavalos no outro lado da rua, eles entraram no jardim por um
portão em arco. Emily permaneceu próxima a ele, tentando
não fazer barulho no caminho de pedras. Porém, eles não
haviam dado dez passos quando o click de uma arma
apontada para eles os congelou. Com armas engatilhadas, os
soldados confederados rapidamente os cercaram. Outros que
estavam dormindo embaixo das árvores saíram cambaleando
de seus sacos de dormir.
― Bem, veja quem temos aqui. O que se supõe que uma
professora ianque está fazendo aqui?
Emily congelou ao ouvir a voz de Nathan Smith.
Não notado até então, William deu um passo para a luz
do luar. ― Sou eu, Capitão Smith, William, valete do sr.
Alexander. Eu preciso falar com ele imediatamente.

337
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Eu sei quem você é. ― Interrompeu Smith. ― Sobre o


que é isso? Por quê você trouxe esta mulher aqui? ― Ele
encarou Emily com um dissimulado desprezo.
― É mais como se ela tivesse me trazido, senhor. ―
William acrescentou uma risada desconfortável. ― Ela quer
falar com o sr. Alexander. Diz ser de natureza pessoal. ―
Segurando Emily pelo cotovelo, ele tentou guia-la para fora
do círculo de soldados.
― Espere aí. Como você ousa virar as costas para mim?
Diga qual o assunto. Depois eu decidirei se é importante o
suficiente para falar ao Coronel Hunt a esta hora da manhã.
― O tom gélido de sua voz não admitia mais discussões.
― Peço perdão, senhor. Se me der um minuto para
explicar. ― William aproximou-se um passo de Smith,
intervindo perigosamente.
Aproveitando a oportunidade, Emily fugiu caminho
abaixo e desapareceu na escuridão.
― Pare aquela mulher e a traga para mim! ― Gritou
Smith.
Com uma coragem surpreendente, ela disparou antes
que os soldados pudessem sair em sua perseguição. Uma vez
dentro da casa, ela esbarrou contra um criado ancião com
uma barba branca cheia e uma cabeça completamente
careca.
― Ouff. Quem é você, senhorita? Por que está chamando
à casa dos Marshall a essa hora? ― Com indignação, o
mordomo puxou para baixo a bainha de seu colete.

338
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Eu sou Emily Harrison. ― Ela rapidamente


respondeu, sabendo que seu nome nada significaria para ele.
― Eu preciso falar com o sr. Alexander Hunt imediatamente.
O velho homem a encarou, perplexo. ― Por quê você
entrou pela porta dos fundos, srta. Harrison, e em uma hora
tão indecente? Se você retornar amanhã às oito horas, poderá
falar com os Marshalls e o sr. Hunt no café da manhã.
Exasperada, ela sacudiu os ombros finos do mordomo.
― Isto é urgente. Onde está o sr. Hunt? ― Falou olhando
acima de sua cabeça. Ela ouviu pessoas se movimentando
como se tivessem sido acordadas.
O mordomo recuou. Uma estranha mulher branca
colocando suas mãos nele era mais do que ele podia
suportar. ― O amo Hunt dorme no terceiro pavimento, o
primeiro quarto no topo das escadas.
― Feche a porta. Não deixe aqueles soldados entrarem.
― Emily correu precipitadamente pela casa e escadas acima
como se estivesse familiarizada com a mansão. Botas pesadas
soaram na varanda junto com vozes masculinas furiosas. Ela
não desacelerou até alcançar o topo do terceiro lance, embora
sentisse como se sua lateral fosse abrir. Quando escancarou
a primeira porta à esquerda, ela ouviu o disparo de uma
arma pela segunda vez naquela noite.
― Emily! O quê em nome dos céus você está fazendo
aqui? ― Alexander pulou da cama. Com seus suspensórios
abaixados e seu peito nu, ele parou em frente a um soldado
que cochilava em uma cadeira.

339
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Ponha isso para lá. ― Ele empurrou o cano da arma


para o lado.
― Como queira, Coronel ― Disse o guarda, se erguendo
desajeitadamente. Ele enfiou a arma dentro do cós de suas
calças.
― Você poderia ter sido baleada irrompendo em meu
quarto assim. ― Alexander agarrou Emily pelos braços.
― Eu pensei que os casacas cinzas não precisassem de
armas de fogo. ― Ela desviou os olhos de seu peito,
momentaneamente atordoada em um aposento fedendo a
fumaça antiga de cigarro.
― É uma guerra, srta. Harrison. Meus soldados
carregam armas mesmo que eu escolha não fazê-lo. ― Ele a
sacudiu como uma criança desobediente. ― Responda-me.
Por que você veio? Você poderia ter sido morta pelos piquetes
da União ou pelos guardas que vigiam esta casa. ― Ele
abaixou seu tom de voz mas não diminuiu seu aperto. ― Eu
não posso acreditar que você viajou desde o Front Royal
sozinha. ― Estranhamente, ele não mencionou sua referência
ao Fantasma.
― Eu não estou sozinha. Eu viajei com William. ― Sem
outro lugar para olhar, Emily olhou para seus olhos
acinzentados.
― William? Eu o esfolarei vivo por trazê-la aqui. Não é
seguro.
― William não me trouxe aqui ― ela interrompeu. ― Eu
vim porque tinha que falar com você.

340
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― O que quer que você tivesse a dizer poderia ter


esperado até o meu retorno. Você está em grande perigo tão
próxima das linhas confederadas. ― Ele alisou seu cabelo
para trás de seu rosto e esfregou uma mancha de sujeira de
seu nariz.
― Não, Alexander, não poderia ter esperado porque você
é quem está em perigo – você e seus homens. ― Emily tentou
enfiar a mecha de seu cabelo dentro de sua trança. Pela
janela aberta eles ouviram o retumbar de cascos de cavalos
se aproximando. Então ela gritou quando a porta do quarto
bateu contra a parede.
Nathan Smith e seis rangers entraram com as armas
apontadas. Alexander se colocou à frente de Emily
protetoramente. ― Do que se trata, Capitão?
― Os yankees nos cercaram! Essa mulher os guiou até
aqui. ― Encarando Emily, Smith apontou seu Colt de cano
largo.
― Coloque sua arma no coldre, Capitão Smith. ―
Alexander andou a passos largos para a janela do canto e
ergueu a cortina. No jardim abaixo, soldados de casacas
azuis marchavam pelo caminho como em uma parada do
regimento, enquanto cavalos relinchavam e homens gritavam
na rua.
― Eu não fiz tal coisa. ― Ela disse, não tão
energicamente como gostaria.
― Alguém contou a eles que nós estávamos aqui. ― Toda
gota de sangue sumiu de seu rosto enquanto o Coronel vestia
seu casaco e prendia sua espada e bainha.

341
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Então estalos de tiros atravessaram a noite. ― O que


está acontecendo? ― Ela gritou, tentando espiar por sobre
seus ombros.
― Homens estão morrendo, é o que está acontecendo.
Meus soldados estão sendo baleados como cães. ― Alexander
cuspiu as palavras como se tivessem um gosto amargo.
― Deus, tenha piedade. ― Emily olhou o ranger erguer
seu revólver para um Casaca Azul magro que não tinha mais
que vinte anos. Sem um tiro ter sido disparado o garoto
desmoronou no chão.
― A morte choca suas sensibilidades pacifistas? ― Smith
desdenhou. ― Este sangue está em suas mãos, Quaker.
― Nós temos que sair daqui. ― Alexander puxou Emily
da janela. Com uma mão firme em volta de sua cintura, a
empurrou em direção à porta. ― Dawson, para as escadas
dos fundos.
Smith bloqueou a saída deles. ― Ela virá conosco?
Depois de nos ter traído e guiado os yankees para a casa de
seu tio? ― Seus olhos se estreitaram enquanto a saliva se
juntava no canto de sua boca.
Emily reuniu todo bocado de força que ainda tinha. ―
Não! Eu vim avisá-lo.
― Avisá-lo? Como você poderia saber sobre a emboscada
se não os tivesse avisado em primeiro lugar? ― Smith
apontou o cano de seu Colt na direção do coração de Emily.
Sacando sua espada, Alexander gritou. ― Se você
apontar sua arma novamente para ela, eu arrancarei seu
braço. Nós resolveremos isto depois. Agora se mova, Capitão!

342
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Ele empurrou Emily pela porta com Smith os seguindo


enfurecido.
Eles desceram os três lances de escada tão rapidamente
que Emily tropeçou várias vezes. A cada vez Alexander a
pegava com um aperto mais forte. No fundo encontraram-se
no corredor que os criados usavam para chegar à sala de
jantar, com os outros soldados que estavam dormindo na
casa. Nenhum deles parecia saber para aonde ir. Gritos
podiam ser ouvidos na cozinha, enquanto alguma coisa
golpeava a porta da frente.
― Por aqui. ― Sussurrou Alexander. ― Para dentro da
cozinha de inverno. ― Ele abriu um alçapão que era usado
pelos criados para trazer comida. Degraus íngremes desciam
para dentro da escuridão, mas os rangeres correram para
baixo sem hesitar. Alexander pressionou Emily para seguir o
último homem e depois puxou o alçapão fechando-o. Eles
paralisaram seus passos quando vozes no corredor soaram
acima deles. No topo soldados se aglomeravam, esperando
seus olhos se ajustarem à escuridão.
― Nossa única esperança está lá. ― Alexander apontou
para um estreito raio de luz entrando pelos empoeirados
vidros da janela. ― A base do porão do lado de fora da porta.
― Rápido, homens, deslizem pelo jardim um por vez. Os
arbustos são densos lá. Se vocês não fizerem som algum
talvez não sejam vistos. ― Ele direcionou o primeiro homem
degraus acima.
Emily agachou-se na sujeira na escuridão, observando
os homens se revezarem.

343
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Eu fui um tolo. ― Ele falou suavemente apenas para


ela. ― Eu pensei que poderia fazer a diferença suprindo
nossas tropas desesperadas de seu gigantesco exército. Foi
como tirar doces de uma criança até a ganância entrar no
caminho. Agora nós temos sangue em nossas mãos como
qualquer outro soldado. ― Alexander olhava para todos os
lados exceto para ela.
― Você é um homem que valorizou a vida humana e
tentou servir à sua Causa sem derramamento de sangue. Isto
não faz de você um tolo. ― Emily tocou seu braço levemente.
― Aquele tipo de homem que não tem lugar em uma
guerra. ― Ele livrou-se de seu toque. ― Meu avô lutou ao lado
do Rei Charles para libertar a Virginia da tirania da
Inglaterra. Como eu poderia encarar meu pai se eu ficasse
sentado inutilmente e nada fizesse? Como eu olharia para
mim mesmo? ― A dor irradiava de seu rosto enquanto seu
último soldado desaparecia de vista. ― É hora de irmos, não
hora de discutir os méritos de minha conduta. ―
Murmurando uma promessa, Alexander segurou seu braço e
a içou acima dos degraus musgosos para dentro do ar de
novembro.
Havia um silêncio desconfortável nesse lado da casa dos
Marshall, enquanto eles serpenteavam seu caminho pelo
jardim. ― Eu juro que não o trai. ― Ela sussurrou.
― Nós não temos tempo para discutir seu
comportamento também. ― Ele apertou seu pulso enquanto
eles mergulhavam e se sacudiam a caminho do estábulo.

344
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Uma vez atravessando a porta e entrando no interior


escuro, Emily soltou um suspiro de alívio, William apareceu
detrás da parede de um estábulo com as rédeas de seus
cavalos firmes em sua mão. ― Eu não posso acreditar que
vocês dois estão a salvo. ― William disse, o choque evidente
em seu rosto.
― Ninguém está a salvo ainda. ― Alexander sem
cerimônia suspendeu Emily no dorso de Miss Kitty como um
saco de grãos. ― Leve a srta. Harrison e saiam daqui.
― Sim, senhor. ― William montou em seu próprio cavalo,
sem perder tempo. Ele enrolou a rédea de Miss Kitty em volta
de sua sela.
Apoiando-se precariamente em sua sela, Emily pegou
uma ponta do casaco de Alexander e a agarrou firmemente. ―
Por que você não acredita em mim?
Ele removeu sua mão como a rebarba de um cardo e a
empurrou de volta para sua cela. ― Meus homens estão
cercados pela União, portanto eu estou muito ocupado para
decidir qual a sua parte nisso. Mas você mentiu para mim
desde o início. Por quê eu acreditaria que você está dizendo a
verdade agora?
Sua expressão deixou Emily sem fala. Ela tinha mesmo
mentido uma vez após a outra. Mas nunca havia importado
antes porque... porque ela não o amava.
O quê ela poderia dizer? Eu sinto muito? Eu nunca
mentirei para você novamente? Eu o amo? Quão incoerente
estas palavras soavam agora.

345
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

O Capitão Smith apareceu na porta do estábulo,


guiando Phantom por suas rédeas. Smith não tirava os olhos
dela, o ódio a atingindo como agulhas. Com um movimento
fluido, o Coronel montou o enorme cavalo. Emily abriu sua
boca para falar, mas Alexander bateu no flanco de Miss Kitty.
A égua fugiu pela porta com sua cavaleira agarrada à sua
crina. Enquanto o Fantasma Cinzento se misturava na noite
sem luar, Emily e William voaram pelas ruas de Middleburg
para a estação de trem. No depósito, eles seguiram os trilhos
na direção principal de Hunt Farms, os tiros esmaecendo a
cada quilômetro.
Nenhum deles falou até que os horríveis sons
desapareceram atrás deles. Qualquer dessas balas poderia
ter acertado o Coronel, que todos agora sabiam ser Alexander
Hunt. Eles viajaram noite adentro, cochilando
intermitentemente na sela até que uma chuva fria começou a
cair. Então Emily acordou de repente, e olhou em volta para
um mundo não familiar – um no qual ela não tinha lugar.
Com pouco além para ocupar seu tempo, ela orou por todo o
caminho de volta a Front Royal. Ela orou para que Alexander
não houvesse sido ferido e tivesse escapado com segurança
de Middleburg. Ela orou para que os soldsdos da União não
queimassem a casa dos Marshall.
Mas se ele tivesse escapado, então o quê? Ela havia visto
sua expressão quando ele estapeou Miss Kitty para mandá-
los embora. Não era o olhar de um homem apaixonado.

346
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 17

― Alexander, você não dará ouvidos à razão? ― A voz de


Smith se levantou no fresco ar do início da manhã.
Eles tinham cavalgado duramente e acampado
quilômetros longe do banho de sangue de Middleburg. Alguns
dos rangers que haviam conseguido escapar, encontrando-os
na estrada. Eles agora estavam dormindo próximos ao fogo,
exaustos da luta e do “vôo”. O Coronel não tinha ideia do que
havia acontecido ao resto de seus homens. Ele temia que
houvessem sido capturados ou mortos nos imaculados e bem
cuidados jardins da casa de seu tio.
― Eu estou ouvindo, Nathan, mas você não tem certeza
de nada.
― Alguém contou à cavalaria yankee quem você era e
onde você estaria. Pelo amor de Deus, aquela governanta os
guiou diretamente até nós.
― Como ela teria sabido onde eu estaria na noite
passada? Eu não contei a ela.
― Ela apareceu com aquele seu criado negro. Ele deve
ter contado a ela e então a trazido a Middleburg depois de
mandarem uma mensagem aos yankees.

347
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Alexander chutou um tronco caído para dentro do fogo.


― Você está errado. William morreria antes de me trair, e eu a
ele.
― Você é muito ingênuo. ― Smith silvou entre os dentes.
― Nosso regimento inteiro se estilhaçou por causa daquela
ruiva ardilosa e seu criado. William é um homem negro, um
ex-escravo. Você realmente pensa que ele deseja ver o Sul
vencer esta guerra?
― William jamais colocaria minha vida em risco ou as
vidas de meus soldados! ― Alexander gritou, detestando o
modo que seu capitão estava se dirigindo a ele. Eles haviam
sido amigos antes da guerra. Agora circulavam um ao outro
com punhos cerrados e dentes à mostra, nenhum dos dois
recuando.
― Como você pode estar tão certo que a mulher não o
entregaria? Você alguma vez se importou em perguntar o que
ela estava fazendo naquela noite em Berryville? Ou você está
tão apaixonado que isso escapou da sua mente? Ela o
enfeitiçou para seus próprios propósitos.
― Cale sua boca, Capitão. Você tem se deitado com
prostitutas por tanto tempo que coloca toda mulher nessa
categoria. ― Alexander começou a repensar sua promessa de
não machucar outro homem.
― Pense racionalmente por um minuto, Coronel. É tudo
o que eu peço. ― Sentando-se em um tronco, Smith passou
uma mão por seu longo cabelo. ― Se você está correto sobre
William não ter traído você, e poderia estar, então considere

348
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

isto. Eu vi a srta. Harrison e sua criada deixando aquele


mesmo celeiro há umas poucas semanas atrás.
Alexander sentiu o sangue pulsar contra suas têmporas.
De acordo com os rumores entre os homens, Smith tinha
uma propensão a infligir dor a mulheres. Ele odiou o
pensamento dele em algum lugar próximo a Emily. ― Você
esteve observando a srta. Harrison pelas minhas costas? ―
Perguntou, afastando-se do fogo. ― Você ousou falar com ela?
Smith acenou com a cabeça. ― Quando eu
acidentalmente as descobri enquanto patrulhava, eu
perguntei o que estavam fazendo. A srta. Harrison disse que
elas estavam trazendo medicamentos do Front Royal para o
depósito na ferrovia Harper. E que havia escurecido e elas
haviam se abrigado no celeiro até amanhecer.
― O que isso prova? Tio Porter frequentemente enviava a
srta. Harrison e Lila em tais tarefas até eu convencê-lo de que
não era seguro. ― Alexander encarou o seu segundo em
comando com um mal disfarçado desprezo.
― Deixe-me terminar. Eu me ofereci para escoltá-las
para o Front Royal, mas elas recusaram. Então eu as segui
por algum tempo para garantir a segurança delas. ― Smith
evitou encarar seu comandante com as mãos levantadas. ―
Quando as damas chegaram ao entroncamento, a carroça
delas se dirigiu para o norte na direção de Boyce, não para
Front Royal, ao sul. A srta. Harrison mentiu sobre suas
intenções.
Alexander ponderou a informação sem uma centelha de
emoção cruzar seu rosto.

349
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Smith falou, gesticulando como um louco. ― Ela dirigiu-


se para o quartel general do Segundo Agrupamento,
acampado a menos de dezesseis quilômetros de lá.
― Ela pode ter mudado sua rota para Boyce por medo de
um ou outro lado confiscar seus suprimentos. ― Alexander
ofereceu uma explicação alternativa para suas ações em um
tom frio, prático.
― Ela é uma espiã, uma informante que provavelmente
aqueceu muitas camas yankees enquanto ria de você pelas
costas. Eu deveria tê-la obrigado a contar a verdade quando
tive a chance em Berryville.
O Coronel cobriu a distância entre eles em dois passos.
Antes que Smith pudesse reagir, o punho de Alexander
acertou seu rosto. Sangue jorrou por toda a parte, como se o
soco tivesse quebrado o nariz de Smith. Alexander recuou
para acertá-lo novamente, mas dois de seus soldados
contiveram seu braço. Smith o atingiu com um golpe antes de
os soldados o segurarem também. O Coronel mal sentiu o
impacto em seu peito. Toda sua frustração sobre a mal
sucedida missão deles, junto com a guerra interminável,
havia sido despejada naquele soco. Ele poderia ter matado
Smith se seus gritos não tivessem despertado seus rangers a
intervirem. E ainda assim, o que isso teria mudado?
― Fique longe dela ou eu o matarei. ― Ele gritou, se
livrando das mãos dos soldados. ― Você me ouviu, Capitão?
Se você se aproximar dela...
Ele respirou fundo e tentou se acalmar um pouco.
Improvável que alguém, em oito quilômetros, não tenha

350
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

ouvido. Se as patrulhas da União estivessem procurando


pelos rangers dispersos, seu tumulto os alertaria com certeza.
O Coronel olhou para seus homens, que se mantinham
agrupados a uma distância segura. ― Montem. Nós temos
que desmontar acampamento e nos separar. Dawson, apague
o fogo e leve metade dos homens para as colinas pelas
estradas do sul. Fiquem fora de vista por muitos meses. Nem
pensem em ir para casa até que isso tudo termine. Patrulhas
dos Federados estarão de olho nas estradas. Como eles
sabem quem eu sou, descobrirão rapidamente quem a
maioria de vocês é.
― Sim, senhor. ― Saudando-o, Dawson começou a jogar
terra no fogo.
Alexander se voltou para Smith, ainda contido por dois
homens. Seu olho já havia começado a inchar e se fechar, e o
sangue brilhante manchava sua camisa branca. ― Capitão
Smith, você levará a outra metade diretamente para o oeste.
Se qualquer de vocês for capturado comigo, com certeza será
enforcado. Vocês terão sua melhor chance de sobrevivência
se eu não estiver no comando direto. Vocês, homens, lutaram
bravamente essa noite e me deixaram orgulhoso. Vocês têm
sido um mérito para a Confederação. Que Deus os mantenha
a salvo até que estejamos reunidos novamente. ― Ele ofereceu
uma continência final para os soldados que, até aquela noite,
tinham-no servido sem derramamento de sangue.
O Capitão Smith não retornou sua continência como os
outros soldados fizeram, mas pelo menos ele montou e fez
como havia sido ordenado. Ninguém questionou para onde o

351
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Coronel se dirigiria ou quando ele poderia chamar seu


regimento de volta. Ninguém ousou.
Uma vez desmontado o acampamento, Alexander partiu
nas primeiras horas da madrugada. Ele havia tido o
suficiente dessa guerra. Depois dessa luta com Smith, não
mais reconhecia o homem no qual havia se tornado.
Caminhando para as profundezas das Montanhas
Shenandoah, ele parou somente o suficiente para que seu
cavalo descansasse. Ele não dormia há dois dias e não o faria
essa noite. A estrada em que viajava finalmente convergiu em
uma estreita trilha na montanha, que ele sabia que nenhuma
cavalaria da União poderia encontrar. Somente os locais
sabiam sobre ela e usavam esses caminhos para caçar ou
visitar seus parentes. Todas as estradas levavam a lugar
nenhum – exatamente onde o Fantasma Cinzento queria
estar.
Alexander encontrou um abeto frutífero próximo a um
remendo de grama de outono tardio. Após ter dado água a
seu cavalo e o amarrado com uma corda longa para que
pastasse, ele enrolou-se em seu cobertor e imediatamente
caiu no sono até o próximo meio-dia. Sonhou com rangers de
olhos selvagens e brilhantes disparando no vácuo contra a
cavalaria da União e com seus homens morrendo na terra
manchada de sangue de seu tio Thaddeu.
Seus sonhos também foram preenchidos com uma
mulher de cabelos vermelhos cuja risada ainda ecoava em
seus ouvidos. Em seu sonho Emily o procurava e chamava
seu nome, seu cheiro era como um bálsamo de limão

352
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

calmante, um elixir. Com seus cabelos derramando por sobre


os ombros como a juba de um leão, ela chapinhava em um
riacho raso com pés descalços e sua camisa grudada em um
dos seios. Quando acenava, a mulher emitia um brilho
ofuscante em seu mundo escuro de morte. Ele a seguiu a
uma gruta secreta na qual só a luz natural podia penetrar.
Ele queria agarrar-se a ela, mas ela permanecia além de seu
alcance. Como um homem que se afogasse em um rio
turbulento, ele se debateu. Então ela desapareceu com a
bruma da manhã.
Alexander acordou emaranhado em seu cobertor. Se
desfazendo da lã pesada, passou as mãos pelo rosto para
livrar a si mesmo do sonho. Infelizmente, não podia esquecer
as memórias de Emily tão facilmente. Ela assombraria seus
pensamentos acordado também. Ela e William teriam
chegado a Front Royal a salvo? Teria sido para lá que haviam
se dirigido? Ou as acusações de Smith eram corretas – ela
teria guiado a cavalaria yankee direto a Middleburg? Seu
coração doeu com preocupação e frustração. Tão difícil como
acender o fogo em madeira úmida, Alexander se recusava a
acreditar que Emily trairia a ele e a seus homens. Ele a havia
observado pegar borboletas para libertá-las ao ar livre antes
que morressem nas chamas de uma vela. Se ela tinha tal
compaixão para com a menor das criaturas de Deus, poderia
pensar tão pouco de suas maiores? Não, apesar de suas
convicções políticas e de sua vontade obstinada, ele estava
certo que Emily nunca causaria a perda de tantas vidas.

353
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Alexander havia prometido, muito tempo atrás, nunca


mais acreditar em uma mulher. Seus homens olhavam para
ele buscando mais que ordens durante um conflito. Eles
esperavam que seu comandante não os colocasse
desnecessariamente em risco em áreas onde as linhas de
batalha mudavam frequentemente. Se ele houvesse se
enganado com sua confiança em Emily, então ele seria o
responsável pelo fracasso em Middleburg.

Os meses seguintes passaram rapidamente. Alexander


usou seu tempo na atividade estúpida de construir um abrigo
– um que ele sabia que logo abandonaria ― somente para se
manter ocupado. Trabalhava por longos dias moldando uma
proteção de pequenas árvores, tecendo ramos de pinho bem
apertados para o teto. O tapete o manteve a salvo de tudo,
exceto das chuvas mais pesadas. Buscou por milho para seu
cavalo em um círculo amplo, retornando a seu acampamento
todas as noites. Os suprimentos que carregava em seus
alforges haviam minguado rapidamente e a comida para si
mesmo era escassa. Mas era seu coração vazio, não seu
estômago, que o atormentava. Frequentemente quando o
sono se recusava a chegar, ele ficava junto à fogueira
lembrando de algo que Emily havia dito, ou de como ela
jogava seu cabelo, ou da batida petulante de seu pé. E de
suas palavras? Mais que isso, das palavras que ela não havia
dito no baile da colheita. Ele havia, sinceramente, confessado
354
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

seu amor, e ela o olhou com seus olhos verdes de gato e nada
disse. Apesar de suas boas intenções, e da promessa que
havia feito há tanto tempo, naquela noite ele percebeu que
estava apaixonado... desesperadamente, irrevogavelmente,
apaixonado.
Emily poderia amar um sulista como ela havia amado
seu prometido? Um coisa sobre os mortos ― as lembranças
sobre eles aumentavam com o passar do tempo.
E quanto às acusações de Smith? Simplesmente não era
possível que ela fosse uma espiã. Ela não podia sequer se
lembrar de colocar um chapéu de sol para evitar que seu
nariz ficasse queimado. Emily havia arriscado sua própria
vida para salvá-lo em Middleburg. Ela havia cavalgado para
dentro de um vespeiro de soldados com armas engatilhadas
de ambos os lados. Se desejasse traí-lo, poderia ter dado sua
localização aos yankees e permanecido longe, ao largo das
consequências. Não, ele não acreditava na afirmação
repugnante de Smith, mas ele nunca saberia a verdade
escondendo-se nas montanhas. Ele poderia ponderar e supor
do nascer ao pôr do sol sem ninguém para ouvir suas
incoerências exceto os pássaros e ocasionais corças curiosas.
Com a cavalaria da União ainda o procurando, deveria
esperar seu tempo. Então a encontraria face a face, ouviria
sua versão sobre o que aconteceu em Middleburg aquela
noite, além de suas duas viagens misteriosas para Berryville.
E orar para que seu coração confiante não houvesse
sido feito de tolo novamente.

355
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

As notícias da emboscada ao Fantasma Cinzento e seus


rangers espalharam-se pelo oeste da Virgínia quase antes que
William e Emily retornassem de Middleburg. Naquela noite
fatídica, Emily saltou de seu cavalo para dentro dos braços
amorosos de Lila, mais exausta do que nunca antes em sua
vida. Ela não se lembrava de ter subido as escadas para seu
quarto, ou se despido ou deslizado por entre os frescos
lençóis em seu quarto na Hunt Farms. Ela não se lembrava
de nada até acordar ao meio dia do dia seguinte, com Lila
pairando sobre ela e a comoção por toda a casa.
― Acorde. ― Exigiu Lila, puxando para trás o lençol de
cima dela. ― Você tem que empacotar suas coisas e depois
ajudar a sra. Bennington a empacotar as dela. Eu preciso
ajudar a empacotar a cozinha e a despensa.
Emily esfregou o sono de seus olhos e se pôs em pé. ―
Onde nós vamos? ― Agradecida, ela alcançou a xícara de café
em sua mesa de cabeceira.
― Ambos, o sr. Hunt e o dr. Bennington estão mudando
com suas famílias de Hunt Farms para uma área mais
segura. Não há tempo a perder. ― Lila voou em volta do
quarto abrindo gavetas e portas de armários. ― Como todos
agora sabem a identidade do Fantasma Cinzento, os yankees
em breve estarão aqui procurando por ele. Nós não estamos
tão longe do campo Federado. O dr. Bennington disse que os
yankees poderão retaliar se não encontrarem o sr. Alexander

356
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

ou seus rangers. ― Lila despejou uma pilha de guloseimas na


cama.
Emily cambaleou em direção ao seu guarda-roupa,
pressionando as pontas de seus dedos nas têmporas. ― Como
podemos empacotar uma casa tão grande?
Lila puxou o baú de Emily do armário. ― Não podemos.
Todos devem levar apenas suas posses mais queridas, além
de todas as provisões do celeiro que caibam nas carroças. O
sr. Hunt já partiu com um tirante de cavalos para retornar
para a cavalaria Confederada. Ele está mantendo apenas seu
gado premiado e poucas éguas prenhas. ― Sua expressão se
tornou simpática em relação ao dono da plantação. ― Ele
poderá começar de novo algum dia.
Emily lavou seu rosto e vestiu-se rapidamente. ― E os
trabalhadores, Lila, escravos e livres? O decreto do sr. Lincoln
não terá validade até janeiro.
Lila virou uma gaveta dentro do baú. ― O sr. Hunt
convidou os empregados livres de sua casa para se mudarem
para Richmond. Beatrice, Jack e alguns poucos outros
aceitaram. Além de William, é claro. ― Ela deu um sorriso
forçado na direção de Emily. ― Ele está deixando os escravos
com comida e uma pequena provisão em dinheiro. Ele deu a
cada um dos trabalhadores do estábulo um cavalo para
fazerem seu caminho para o norte.
Emily puxou vestidos do armário. ― Eles irão para o
norte com uma batalha violenta ao nosso redor?
― A maioria irá. Eles tentarão a sorte. Mas alguns têm
famílias na área, então eles provavelmente ainda estarão aqui

357
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

quando os Hunts retornarem, não importa quanto tempo


leve.
Emily parou de empacotar suas coisas para buscar a
mão de Lila. ― Richmond é o coração da Confederação. Por
quê não Martinsburg? E quanto à sua família?
Ela encolheu os ombros. ― Meus pais ganham bons
salários. Eles se mudarão para aonde seus empregos forem.
O dr. Bennington disse que sua casa em Martinsburg está
provavelmente invadida por soldados, agora que o Condado
de Berkeley se separou do Estado da Virginia e reingressou
aos Estados Unidos.
― E que tal a Ilha Bennington? Sua mãe amava morar
lá.
― Ela não teria emprego na Ilha Bennington. Quem sabe
como o novo pessoal é? Talvez eles cozinhem para si mesmos
ou talvez aquela casa tenha sido queimada. ― Lila sacudiu
seus ombros. ― Mamãe não gosta de viver em uma cidade
barulhenta e cheia, mas ela gostaria ainda menos de se
juntar a escravos libertos e morar em tendas. Tudo está
mudando. Agora, por favor, Emily, precisamos nos apressar.
Tudo mudou para Emily também. Dentro de doze horas
eles deixaram Front Royal em uma lenta caravana de
charretes, carroças e cavalos amarrados e viajaram para
Richmond por estradas arruinadas pelo movimento constante
de tropas e artilharia. Dificultada por um tempo horrível, a
viagem demorou semanas enquanto eles se juntavam a
centenas, entrando em uma cidade já no seu limite com
negros libertos e brancos sem teto, cujas fazendas haviam

358
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

sido destruídas pelo avanço do exército Federado. Richmond


também transbordava com soldados inválidos e desertores do
exército rebelde.
Uma chuva fria estava caindo nas escorregadias ruas
calçadas de Richmond quando eles finalmente chegaram
naquele sombrio dia de dezembro. A viúva de James Hunt ―
Tia Harriet ― amavelmente os abrigou, abrindo sua mansão
decadente para ambas as famílias, juntamente com sua
criadagem. Harriet Cabot tinha pouco a repartir com seus
convidados. O bloqueio federado do porto efetivamente
interrompeu todas as remessas para a cidade. E o pouco que
ainda crescia nas fazendas vizinhas tinha que alimentar
muitas bocas famintas. A comida era escassa em Richmond,
e o que podia se encontrar, custava muito caro. Longas filas
se formavam a cada manhã em frente à padaria e aos
quitandeiros. Matilde juntava-se à fila todos os dias para
barganhar com algo que eles haviam trazido da Fazenda
Hunt.

Primavera 1863

Emily olhou pela janela do salão para uma desoladora


cidade de privações. A primavera parecia ter passado ao largo
dessa parte do mundo, não importava o que dissesse o
calendário. Ainda assim, os Benningtons e os Hunts foram
cuidar de seus negócios com a mesma retidão que sempre

359
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

agraciou suas vidas. O dr. Bennington chegava ao espaçoso


Hospital Chimborazo, nos arredores de Richmond, antes do
amanhecer todos os dias. Um hospital maior nunca existiu
no mundo, ainda assim, se mostrou inadequado para o fluxo
constante de doentes e feridos, tanto Confederados quanto
yankees. O sr. Hunt transportou seu estoque valioso de
cavalos para um estábulo alugado no Rio James, onde
continuou a comprar e vender em bases limitadas. A digna
sra. Hunt e a refinada sra. Bennington deram forma,
transformando a decaída residência em um confortável lar
para as duas famílias transplantadas. Com uma mansão de
três andares cheia de quartos na rua Franklin, a sra. Cabot
apreciou mais a atenção que recebeu do que a ajuda física
com as tarefas domésticas. Todos, menos um de seus
escravos, partiram logo após à data efetiva da Proclamação de
Emancipação. A empregada leal que permaneceu não
conseguia fazer mais que cozinhar cardápios simples para
duas senhoras idosas e lavar seus vestidos desgastados em
um tonel no terraço. Elas agiam mais como irmãs que como
patroa e empregada, se inquietando com as dores e
alimentação uma da outra.
Emily estava perturbada com os ajustes de uma cidade
em turbulência. Memórias recriminadoras de ações passadas
a seguiam pela casa como o gato malhado da sra. Cabot. Ela
não era a mesma abolicionista ferrenha que havia deixado
Ohio há dois anos. Sua convicção de que a escravidão era um
mal que nunca devia ter chegado ao Novo Mundo permanecia
a mesma, mas agora que ela havia sido abolida, ela viu que

360
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

os novos libertos tinham poucas chances abertas para eles.


Muitos juntaram-se aos acampamentos de tendas dos
refugiados das fazendas vizinhas. O primeiro passo havia sido
dado, mas uma solução permanente no arrebatado Sul
estava, obviamente, muitos anos além.
Não, o que mudou para Emily havia estado fermentando
por muito tempo. Ela estava apaixonada por Alexander. Disso
ela estava certa. Ninguém nunca havia tocado seu coração
como ele, nem mesmo Matthew. Ela havia julgado que ele era
um aristocrata superficial e insípido e tinha negligenciado
sua bondade e integridade. Alexander e sua família não eram
como outros da classe privilegiada com dinheiro, terras e
poder herdados, mesmo que ela tivesse julgado os Hunts com
seus vieses preconceituosos. Vergonha sobre suas mentiras
do passado encheu-a de tristeza. Ela havia dividido ao menos
uma conversa honesta com Alexander? Talvez uma mulher
sem honra não pudesse reconhecer isso nos outros.
Como havia sido estúpida. Ele pode não ter se
importado com sua falta de sofisticação, mas quem poderia
não se importar com manipulação e trapaça? Dizendo a si
mesma que os fins justificavam os meios, Emily havia se
utilizado de falsos testemunhos diversas vezes. Havia
roubado dele e de sua família. Alexander teria libertado seus
escravos se eles fossem dele para fazê-lo. Ele poderia ter dado
a ela o que ela queria, se houvesse pedido. Mas nunca deu a
ele uma chance. Agora era muito tarde. O olhar que deu a ela
dentro do estábulo da casa Marshall dizia tudo. Eu não

361
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

confio em você. E eu nunca poderei amar uma mulher em


quem não posso confiar.

362
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 18

Verão 1863

A chuva tinha diminuído para um chuvisco quando


Alexander, cansado além da medida e ostentando uma barba
pesada, cavalgou para dentro do estábulo da Fazenda Hunt.
Viajando à noite com apenas o luar para guiá-lo, ele tinha
circulado em torno de Front Royal para o leste, no caso das
patrulhas da cavalaria ainda observarem as estradas das
montanhas. Não tendo visto um jornal ou ouvido relatórios
militares em vários meses, ele não sabia se as tropas da
União tinham encontrado assuntos mais importantes para se
ocuparem. Mas ele não podia ficar longe de casa nem um
momento mais, mesmo se a cavalaria yankee acampasse nos
pomares e os oficiais da União jantassem na mesa
Hepplewhite de sua mãe. Ele também não poderia ficar longe
de Emily por mais tempo. Ele precisava falar com ela, para
ouvir o que ela tinha a dizer. Ele devia isso a ela. Mesmo que
deixasse seu amado Vale Shenandoah pelo que restasse da
guerra, tinha que olhar em seu rosto doce uma última vez.
Ele devia isso a si mesmo.

363
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Guiando Phantom com as rédeas a uma parada fora do


maior celeiro de cavalo deles, Alexander sentiu uma
inquietação pairando no ar como uma névoa. Nada parecia
como deveria. As portas do estábulo balançavam-se para
frente e para trás com a brisa, batendo a cada vez em cima de
um ferrolho enferrujado. Folhas mortas rodopiavam de lado a
lado no celeiro que ninguém tinha varrido nas últimas
semanas. Enxugando a chuva de seus olhos, ele olhou em
direção à casa que tinha sido seu lar desde o nascimento. Ele
tinha ouvido histórias de vingança yankee de queimar as
casas e os negócios de pessoas suspeitas de ajudar os
rangers. Que preço pagaram seus pais por terem gerado o
Fantasma? Mas quando a lua rompeu a cobertura de nuvens,
o contorno da casa apareceu diante dele incólume.
Alexander desmontou para inspecionar o estábulo e os
celeiros primeiro. Todos os cavalos, mulas, vacas e galinhas
poedeiras tinham desaparecido. O Exército da União havia
confiscado cada peça de equipamento e acessório utilizado
nos cavalos que podiam carregar ― a vida de trabalho duro de
seu pai. Em seu caminho para casa, ele notou que o jardim
de flores tinha sido pisoteado e as hortas colhidas e limpas.
Não restou um repolho, abóbora ou cenoura. Mas a ausência
de qualquer vida humana era o sentimento mais sinistro.
Ninguém mais parecia viver ou trabalhar na Fazenda Hunt.
Alexander entrou na casa pela porta da frente, tirou seu
chapéu ridiculamente por hábito e então caminhou através
de um quarto empoeirado após o outro. A maior parte do
mobiliário pesado e maciço permanecia, mas as cadeiras,

364
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

pinturas, prata, cristal ― qualquer coisa valiosa e facilmente


transportada para ser revendida ― tinha desaparecido.
Onde estavam seus pais e os Benningtons? E onde
estava Emily? Ele rezou para que ela tivesse voltado de
Middleburg com William e estivesse com sua família.
Alexander abriu a porta no final do corredor central para
contemplar os pastos e campos abandonados de seu pai. Em
todas as direções, a terra outrora fértil tinha sido devastada e
batida. Nem mesmo um corvo empoleirava-se nos ramos
abandonados entre as refeições de grãos de milho caídos.
De repente, o som característico de uma cadeira
raspando a madeira levantou os pelos de sua nuca. Alguém
estava na casa, diretamente abaixo dele na cozinha de
inverno. Sacando a Colt de cano longo de seu cinto, ele
silenciosamente fez o seu caminho descendo os degraus
estreitos. Caminhar sem uma arma de fogo em suas
incursões como ranger era uma coisa — ele não ameaçava
ninguém além de si mesmo. Mas retornar à Fazenda Hunt
sem uma arma, à casa infame do Fantasma Cinzento, era
impensável. Ele não teria como proteger seus pais... ou
Emily.
No fim dos degraus escuros, sua bota prendeu-se no
piso quebrado e o fez voar. Alguém pulou de um colchão de
palha perto do fogo escasso. Outros se agitaram e lutaram
para se livrar de seus cobertores. Os desertores estavam
vivendo no porão de sua casa? ― Identifique-se e diga o que
quer! ― Gritou. Então ele apontou a arma para o homem que
se aproximava.

365
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Sr. Hunt? ― Disse uma voz frágil no escuro.


Alexander riscou um fósforo para dar um rosto à voz
familiar. Alguém perto do canto do fogão acendeu uma vela
de sebo. A luz tremulante revelou a face envelhecida do seu
melhor treinador de cavalos.
― Ephraim? ― Ele perguntou colocando a arma de volta
no cinto.
― Sim, senhor, sou eu. Nós estamos vivendo aqui
embaixo para cuidar das coisas o melhor que podemos. ― O
rosto da esposa de Ephraim, a costureira de sua mãe, entrou
no foco amarelado de luz. Um por um, os quatro filhos
levantaram do chão para se juntar a seu lado.
― Olá, sr. Alex ― disse Fanny. Ela levantou a criança
menor em seu quadril.
Ele olhou para um e depois para o outro. ― Onde estão
todos? Onde está minha família?
― Eles foram embora, senhor, foram à Richmond, para a
casa de sua tia Harriet. Seu pai disse que eu deveria dizer-lhe
isso, mas para ninguém mais. Até agora, você foi o primeiro
que perguntou. Nós nos escondemos quando aqueles
soldados vieram. Eles fizeram uma algazarra terrível.
― E uma bagunça também. ― Acrescentou Fanny. ― Eu
limpei o melhor que pude, mas não consegui consertar o que
estava quebrado. ― A mulher que ele tinha conhecido a maior
parte de sua vida sorriu-lhe timidamente.
― Obrigado. Eu vou garantir que você seja paga por seu
trabalho. Eu só não tenho certeza quando será isso. ― Sem

366
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

saber o que fazer, Alexander desajeitadamente estendeu a


mão para Efraim.
O ex-escravo sacudiu-o cordialmente. ― Sente-se perto
fogo, senhor, enquanto minha esposa arruma alguma coisa
para você comer. Não é muito, mas o que tivermos nós
compartilharemos.
― Muito obrigado. ― Disse Alexander, sentindo-se como
um hóspede em sua própria casa. ― Diga-me tudo o que sabe
Ephraim. Não deixe nada de fora. ― Ele passou uma mão
pelos cabelos na altura dos ombros.
― Não há muito a dizer, senhor. O sr. Hunt e o dr.
Bennington empacotaram tudo o que puderam carregar nas
carroças. Em seguida, o seu pai amarrou a maior parte de
seus melhores cavalos e deu o restante. Ele deu-me aquela
Morgan pintada, mas os soldados a levaram. ― Sua boca
puxou-se em uma carranca. ― O sr. Hunt nos disse que
estava indo para Richmond, onde seria mais seguro para as
mulheres. ― Efraim esperou que isto fosse absorvido.
Alexander suspirou. ― Então minha família não foi
presa pelos yankees.
― Um par de homens livres que haviam sido pagos foi
para Richmond. Quase todo mundo que tinha sido escravo
simplesmente fugiu. Sua mãe deu-lhes um pouco de dinheiro
e disse-lhes para levarem comida e tudo o que seus bolsos
pudessem carregar. ― Efraim baixou sua voz para um
sussurro. ― Alguns ainda estão aqui, escondendo-se do
exército na floresta. Eles estão com medo que os yankees irão
forçá-los a juntarem-se a eles. Eles não querem levar um tiro.

367
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Fanny entregou-lhe uma xícara do mais fraco chá de


chicória que ele já provara, mas acenou em apreciação. ―
Meu pai devia ter assinado os papéis dando liberdade ao povo
há muito tempo. ― Disse Alexander calmamente.
― Sim, senhor, ele deveria. ― Ephraim serviu-se de uma
xícara da chaleira no fogão. ― Mas ele deu quase tantos
cavalos quanto levou, além de comida e roupas também.
― Sua mãe deu às mulheres cobertores, panelas, todo o
tipo de coisas. ― Fanny interveio, cortando um pedaço de pão
escuro e amassado. ― Ela dividiu o dinheiro que tinha na
bolsa entre as mulheres também.
Alexander forçou-se a encontrar o olhar da mulher ―
uma mulher que sua família tinha mantido em cativeiro.
Vergonha encheu seu estômago vazio. Vergonha e
arrependimento. ― Para onde foi todo o nosso povo?
― Eles não são mais o seu povo. ― Disse Ephraim com
orgulho. ― A maioria foi para o norte para tentar encontrar os
parentes. Alguns disseram que iam para o oeste. Alguns
ainda estão vivendo em suas velhas cabanas até decidirem
para onde irão. Eles fazem alguma coisa para comer e
escondem-se dos soldados.
― Por que você ainda está aqui, Ephraim? ― Alexander
perguntou suavemente. ― Você é livre. Você poderia ter
partido a qualquer momento.
Ephraim puxou sua barba com sabedoria. ― Oh, nós
iremos um dia desses, mas eu não tenho um lugar em mente
agora. Até eu descobrir isso, posso muito bem ficar e cuidar
das coisas por um tempo.

368
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Entregando-lhe o pão e algumas fatias de queijo, Fanny


concordou com a cabeça.
Uma pergunta ainda permanecia. Alexander engoliu em
seco antes de perguntar. ― E quanto à governanta de minha
tia Augusta? A senhorita Harrison acompanhou minha
família para Richmond?
Tendo pouco contato com a equipe da casa, Ephraim
parecia confuso. ― Não posso dizer que sim ou que não,
senhor. Eu estava carregando as carroças de alimentação
antes deles partirem. ― Ele olhou para sua esposa, que
simplesmente deu de ombros.
― Obrigado, Ephraim, Fanny. Fiquem o tempo que
quiserem. ― Dar-lhes permissão para algo que tinham feito
durante meses parecia ridículo. Ele rapidamente terminou
sua refeição, bebeu o resto de seu chá e então disse: ― Vou
subir para dormir no meu quarto, se a cama ainda estiver lá.
― Oh, ela ainda está lá, mas você não vai encontrar um
lençol ou um cobertor em nenhum lugar. Melhor dormir
vestido. ― Fanny olhou com curiosidade para sua roupa, que
obviamente tinha sido usada para dormir por algum tempo,
enquanto entregava-lhe um toco de vela de sebo.
Enquanto ele vagava para cima de dois em dois degraus,
cansado além da conta, sua casa parecia desolada e
estranha, mas pelo menos ninguém tinha tomado uma tocha
e a queimado até o chão. ― Obrigado Deus, ― ele sussurrou
na escuridão. Estendendo-se em sua cama, ele envolveu-se
no mesmo cobertor esfarrapado que levara nas montanhas,
mas o sono recusou-se a vir. Questões preocupantes o

369
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

atormentaram até o amanhecer. Por que Emily iria com os


Benningtons para Richmond? Não teria ela solicitado uma
passagem segura de volta para o norte com a ajuda do
Exército yankee? Se ela fosse uma espiã, ela não mais
necessitaria do subterfúgio de ser uma governanta. E ela não
precisava mais dele.
De qualquer maneira, ela deveria odiá-lo conhecendo a
sua verdadeira identidade ― um homem que causou estragos
em seu amado Exército da União. Sozinho em seu quarto frio
e úmido, Alexander tinha apenas a memória de alguns beijos
roubados para mantê-lo aquecido. Amanhã ele iria para
Richmond. E ele não descansaria até saber a verdade.

Outono 1863

A luz do sol aquecia sua pele já superaquecida quando


Nathan Smith voltou para sua pensão. No entanto, seu
espírito necessitava um pouco de encorajamento. Depois de
muitos meses evitando as patrulhas yankees decididas a
capturar os lendários rebeldes Rangers, ele finalmente sentia-
se seguro para caminhar pelas ruas da nova capital do seu
país ― Richmond. Sua visita ao Departamento de Guerra
Confederado correu bem. O secretário de guerra não só o
recebeu como ouviu atentamente como uma yankee tinha se
insinuado na vida dos Benningtons e dos Hunts. As pessoas
de sua classe jamais teriam suspeitado de alguém como ela.

370
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Possuindo elevados padrões morais, eles assumiram que


todos os outros eram do mesmo tipo.
Nathan aumentou apenas umas pequenas partes do seu
relatório, exagerando um pouco aqui e embelezando um
pouco lá para responsabilizar a moça de cabelo vermelho pelo
fiasco em Middleburg. É verdade que ele não tinha provas de
que a senhorita Harrison relatou o movimento das tropas
confederadas através do Shenandoah juntamente com o
número de sua força para os yankees, mas ela não estava
fazendo nada de bom. Ele tinha certeza de que ela tinha
levado o inimigo para a casa Marshall naquela noite terrível.
Muitos de seus compatriotas, seus amigos de toda vida,
estavam apodrecendo em suas sepulturas em vez de montar
ao lado dele.
O fato de que o Coronel Hunt a tivesse protegido irritava
Nathan intensamente. Mas ele não podia culpar Alex ― o
homem era um bebê na floresta quando se tratava de
mulheres. Esta não foi a primeira vez que uma fêmea
infiltrou-se em seu coração e ganhou uma posição. Nathan
também desfrutava de uma brincadeira entre os lençóis, mas
Alex falhou em reconhecer que as mulheres não podiam ser
confiáveis. Elas diriam qualquer coisa para realizar seus
desejos. Então, ele tinha cozinhado seu aborrecimento no
Departamento de Guerra e, em seguida, soltou a governanta
magra na panela. Agora Emily Harrison receberia sua justa
recompensa.
Graças a ela, o governo da União sabia a identidade do
Fantasma Cinzento. Os jornais do sul o retrataram como um

371
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

herói, apontando que sua posição social não o impediu de


servir a “Causa”. Alguns dos Rangers que escaparam da
armadilha em Middleburg juntaram-se à cavalaria regular,
elogiando seu ex-comandante a quem quisesse ouvir. O resto
dispersou ela nunca deveria saber sobre sua identidade
secreta ou o que ele já não podia deslizar através das linhas
inimigas para assaltar estoques de cavalos ou confiscar um
comboio de suprimentos, desaparecendo na floresta como
névoa. A pilhagem que Nathan obteve como recompensa,
recolhida dos vagões dos sutlers10, enquanto o coronel estava
ocupado, foi totalmente perdida por sua família. Suas
plantações não rendiam lucros desde muito antes da guerra.
Com seu empreendimento de risco perdido, Nathan sentiu o
aperto financeiro. Os envelopes de pagamento confederados
eram muito pequenos e infrequentes para sustentar aqueles
com apetites saudáveis. A comissão que lhe tinha sido
oferecida na cavalaria regular teve pouco apelo. A
remuneração dos oficiais era pouco mais do que a de um
soldado raso. E um posto de capitão colocava um homem no
local perfeito para ser baleado durante a batalha. Não era
uma proposta atraente. Sua glória derivou de ser um Ranger,
não de morrer pela “Causa Gloriosa”.
Tudo isso por causa de uma mulher.
Perder o respeito e amizade do coronel tinha sido o mais
difícil de suportar. Emily Harrison tinha destruído tudo para
Nathan. Ele gostaria de vê-la balançar-se em uma corda fora

1010Um sutler é um comerciante civil que vende provisões a um exército no campo ou no quarto.
Sutlers vendiam mercadorias da parte de trás de um vagão ou de uma tenda temporária,
viajando com um exército ou com remotos postos militares.

372
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

do Castelo Thunder ― o preço pela traição. Quando ela


confessasse seus crimes para poupar o pescoço da forca,
Alexander iria agradecê-lo por sua diligência. Com os homens
da Guarda Doméstica a caminho da Rua Franklin, a
governanta yankee não estaria sentada em tão alta posição e
poder por muito mais tempo.

― Foi muito difícil no começo, senhorita Harrison, nos


fazermos entender. ― Margaret Bennington explicou em sua
voz culta. ― As freiras e outros estudantes nunca tinham
ouvido francês falado com um sotaque do sul antes. Quando
pedimos a alguém na mesa para, por favor, passar o pão, eles
ficavam olhando e ponderando sobre a questão. Então eles
passavam a geleia. ― Acrescentou com uma risadinha.
― Quando eu solicitei um novo pedaço de sabão, recebi
uma toalha extra. ― Disse Annie. Sentada no braço da
poltrona de sua irmã, ela estava ansiosa para preencher com
detalhes sua estadia em Paris.
Emily olhou de uma para outra com alegria pelo recente
retorno. Ela tinha sentido falta do espírito manso de Margaret
junto com o entusiasmo destemido de Annie. Ela não era boa
em tomar chá ou fazer passeios tranquilos no jardim uma vez
que ficaram sem os materiais para reparo da mansão.
Enquanto no exterior, Margaret amadureceu tornando-se
uma jovem encantadora e já não mais exigia uma governanta.
Em breve, esse seria o caso da filha mais nova dos
373
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Bennington também. Sacudindo suas mágoas, Emily


inclinou-se para frente em sua cadeira de encosto reto. ―
Conte-me mais. Não deixe nada de fora.
Margaret alisou uma pequena ruga de sua saia. ― Uma
vez, quando eu disse aos meus colegas que eu iria encontrá-
los na Champs Elysees às três e meia, eles foram lá
pontualmente ao meio-dia para esperar. Aparentemente eu
falhei em minha pronúncia. ― Margaret pegou a mão de
Emily. ― Como eu gostaria que você pudesse ver a Rua de
Rivoli ― tantas lojas encantadoras. E a Catedral de Notre
Dame tirou o meu fôlego.
― Talvez algum dia eu vá. Agora eu estou tão feliz que
vocês estão em casa... e que vocês nos encontraram em
Richmond na sua tia-avó.
Annie entrou na narrativa. ― Papai escreveu para dizer
que era hora de voltamos para Virginia. Ele disse que
estaríamos seguras na capital da Confederação, então ele
enviou dinheiro para a escola e documentos lacrados com
selos oficiais. A irmã Maddy levou-nos de trem até o porto e
colocou-nos em um navio com destino a Baltimore.
Poderíamos atravessar o bloqueio lá. Nós fomos atrasadas
duas vezes durante a viagem de trem para o sul. ― Ela sorriu
com orgulho sobre a inteligência de seu pai.
― Mamãe está feliz por ter-nos em casa. ― Disse
Margaret. ― Ela e tia Rebecca planejam restaurar a casa de
tia Harriet à sua antiga beleza. Eu nunca a vi com tanta
energia. ― Olhando por cima do seu ombro, baixou a voz para
sussurrar. ― Você acha que estamos seguros em Richmond,

374
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

senhorita Harrison? Nós vimos algumas coisas repugnantes


próximas da estação de trem.
― De acordo com os jornais, o Exército da Virgínia do
Norte está próximo. Robert E. Lee promete que nunca deixará
Richmond cair em mãos inimigas. ― Emily estremeceu com
suas palavras. Como ela poderia se referir ao presidente
Lincoln e ao Exército da União como o inimigo? ― Vamos
confiar nosso futuro ao Senhor e não nos preocupar. Agora,
diga-me seus planos, Margaret. Você ainda fará sua estreia
neste inverno, apesar da guerra?
O sorriso da jovem vacilou. ― Por que se incomodar?
Que tipo de temporada social haverá com os homens na
guerra?
― Ou mortos. ― Annie declarou o fato óbvio que todo
mundo estava pensando.
― Silêncio, agora. Não falemos dessas coisas. ― Emily
admoestou, retomando seu papel como governanta.
― Ela tem razão, senhorita Harrison. Quem foi deixado
para um dia pedir ao papai minha mão? Eu vou morrer uma
solteirona, talvez morando em um dos quartos no sótão. ―
Margaret apontou em direção ao teto.
Por um breve momento, Emily não podia evitar, mas
compadeceu-se da menina. Apesar da pobreza e sofrimento
em todos os lugares, uma vez Margaret tinha ansiado por sua
primeira temporada social sem outras preocupações além de
encontrar vestidos adequados para cada baile. Ou talvez para
onde seu futuro marido a levaria para viver ― uma casa na
cidade ou uma casa de campo?

375
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

A voz de Margaret quebrou o devaneio de Emily, ―


...aqui estou falando sem parar quando nós trouxemos-lhe
presentes de Paris.
Annie correu para o corredor e voltou logo com duas
caixas cobertas com papel de seda.
― Vocês não deveriam ter feito tal coisa. O dinheiro está
escasso nestes dias e não deve ser desperdiçado. ― Quando o
sorriso de Margaret desapareceu novamente, Emily
rapidamente emendou sua resposta. ― Mas já que vocês
fizeram, eu mal posso esperar para ver o que atravessou o
oceano.
― Abra o meu primeiro. ― Annie entregou-lhe a menor
das caixas.
Emily arrancou os embrulhos e extraiu um frasco de
cristal. ― Um frasco de perfume! ― Ela tirou a tampa
prateada e cheirou a rolha. ― Oh, meu Deus. É divino. ―
Emily tocou os pontos do pulso como a senhorita Turner
tinha-lhe ensinado.
― Abra o meu presente. ― Disse Margaret, seu rosto
iluminando-se em antecipação a felicidade de sua
governanta.
Emily desfez as fitas e puxou camadas de papel de seda.
― Livros. ― Disse ela enquanto sua garganta obstruía-se com
emoção. ― As últimas obras de Alexandre Dumas. Vou
entesourar estes. ― Ela levantou um para inspecionar e em
seguida apertou-o contra o peito. Havia seis volumes de couro
em alto relevo, impresso em papel Velum11 da melhor

11 Vellum – Pergaminho ― Papel de escrita de alta qualidade

376
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

qualidade. ― Agradeço a ambas. Eu nunca recebi presentes


mais bonitos.
Margaret apertou sua mão. ― Talvez você possa ler em
voz alta para nós nas tardes, do jeito que você fazia na ilha
Bennington.
― Eu lerei, sempre que eu não for necessária em outro
lugar. ― Emily piscou para conter as lágrimas. ― Digam-me
mais sobre os franceses, porque provavelmente eu nunca irei
para a Europa.
Alegremente Margaret o fez. ― Eles foram muito
agradáveis, mas estranhos em alguns aspectos. Eles ignoram
a maioria dos legumes, mas comem doces em grandes
quantidades. Eles bebem vinho tinto em todas as refeições,
exceto no café da manhã e tomam café forte em xícaras
minúsculas. ― Seus dedos indicaram um tamanho diminuto.
Annie balançou a cabeça, fazendo seus longos cachos
voarem. ― Um dia eu perguntei à Madame por que ela não
comprava uma xícara de verdade ― uma que pudesse encher
mais. Ela disse que simplesmente não eram feitas.
― Talvez você possa enviar-lhe uma das nossas como
um sinal de sua apreciação. ― A sugestão de Emily fez a mais
jovem Bennington sair correndo da sala.
Após vê-la sair, Margaret voltou-se para Emily com uma
expressão sombria. ― Estou tão feliz que você veio para
Richmond com meus pais. Eu sentiria muito a sua falta se
você tivesse voltado para Ohio.
Emily inspirou profundamente para acalmar os nervos.
― Eu sentiria falta de vocês duas também, mas um dia eu

377
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

devo voltar. Ohio é a minha casa. É onde eu pertenço. ― As


palavras ecoaram falsas em seus ouvidos. O que foi deixado
para ela lá? Ela não tinha amigos, nem família, nem mesmo
seus ideais hipócritas para arrumar na valise com seus
trapos quando ela flutuasse através do rio. Ela tinha mudado
e agora não se encaixava em nenhum lugar e não pertencia a
ninguém. Ela nunca poderia ser uma sulista, mas graças à
influência de Alexander, ela já não se sentia como uma
yankee.
Margaret graciosamente mudou de assunto. ― Você
gostaria de ver os tecidos que trouxemos da França? Cada
uma de nós pode ter um vestido novo mesmo se tivermos que
costurá-los nós mesmas.
― É claro que eu gostaria. ― Emily forçou para fora de
sua mente a autopiedade e concentrou-se nas meninas, de
quem tanta falta sentiu. Pelo menos isto permitiria pensar
menos tempo sobre Alexander. Nada no mundo poderia
ajudar nessa situação particular.
― Chá, senhoras? ― Lila carregava uma bandeja com
um bule e xícaras e depois ela permaneceu durante o resto
da tarde. As quatro riram e compartilharam para preencher
as lacunas em suas vidas. Emily contou sobre dançar sob as
estrelas no festival da colheita ao ar livre. Quando Lila
forneceu uma pantomima divertida da dança de Emily, as
meninas Bennington riram até que lágrimas escorreram por
suas bochechas. Emily não se importou que Lila lembrou de
seu constrangimento. Mas em troca, ela forneceu um quadro
digno do desmaio de Lila sobre o indomável William.

378
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― O criado do primo Alexander? ― Margaret gritou com


prazer. ― Oh, diga. Eu gosto de ouvir histórias de romance.
Tal conversa era estritamente proibida na escola do convento.
― Margaret inclinou-se conspiratoriamente em direção ao
grupo. ― Um dia a diretora encontrou menção de um único
beijo em um poema e jogou o livro no fogo.
Annie providenciou o som de uma beijoca com seus
lábios.
Embora ela não tenha transmitido nenhum detalhe
adicional de primeiros beijos ou olhares tristes através da
sala, Emily sabia onde estava o coração de Lila. Na ausência
de Alexander, William trabalhou como criado tanto para o sr.
Hunt como para o dr. Bennington.
Nenhuma lição, recitação ou peça musical foi realizada
na sala de estar naquela tarde. Quatro corações tomaram-se
de simples alegria em recordar o passado e reconectar-se no
presente. O futuro, por mais incerto que fosse para todas
elas, podia esperar.

As jovens, tão absortas em suas memórias, não notaram


de pronto quando Alexander entrou na sala. Então Lila o viu
e engasgou, seguida por Annie, que jogou para baixo a
costura e correu em direção à porta. ― Alexander! É
realmente você? Eu senti tanto a sua falta! ― Ela chorou,
envolvendo os braços em sua cintura.

379
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Alexander levantou sua prima mais nova do chão,


balançando-a em torno de um arco amplo. Ela gritou de
prazer. ― E eu senti sua falta.
Margaret aproximou-se quando os pés de sua irmã já
não eram mais um perigo. ― Bem-vindo ao lar, primo. Um
ano se passou e apenas algumas cartas para assegurar a tia
Rebecca que você permanecia entre os vivos? Ela terá que te
dar uma chibatada, apesar de seu tamanho e reputação. ―
Ela ergueu-se na ponta dos pés para beijar seu rosto
recatadamente.
― Eu receio que não poderia ser evitado. Meus homens
precisavam misturar-se tranquilamente de volta em suas
vidas. Eu não poderia voltar para casa até que todos tivessem
feito isso.
Até mesmo Lila deixou cair sua agulha para sacudir sua
mão com entusiasmo. ― Estou muito feliz que você está
seguro, sr. Hunt.
Emily empalideceu até a cor do leite, mas permaneceu
em sua cadeira. Ela sentou-se imóvel como uma estátua.
Uma vez que os cumprimentos estavam completos, todos os
olhos se voltaram para ela.
― Senhorita Harrison, você não vai dar as boas vindas
ao nosso primo Alexander em Richmond? ― perguntou
Margaret.
― Você não gostaria de vir dar um abraço? ― Annie
perguntou travessa.
― Você virou pedra? ― Lila perguntou.

380
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Com seus olhos fixos no chão, Emily lutou para


encontrar algo para dizer.
― Por que não vemos uma jarra de chá fresco enquanto
vocês dois se reaproximam? ― Margaret moveu-se
suavemente em direção a porta com Lila seguindo-a com a
bandeja. Mas Annie permaneceu em sua cadeira,
determinada a ver o que poderia acontecer entre seu primo e
a governanta.
― Annie, Lila precisa da ajuda de nós duas. ― Trinando
como o canto de um pássaro, Margaret arrastou sua irmã da
sala pelo braço.
― Estou surpreso de ver você, senhorita Harrison. ―
Alexander esperou para falar até que eles estivessem
sozinhos.
― Por que você estaria surpreso? ― A voz de Emily soou
estranha aos seus ouvidos. ― Até agora, eu não fui demitida
pela sra. Bennington.
Alexander virou as costas para ela e olhou pela janela
para a rua abaixo. ― Sim, mas o seu trabalho aqui não foi
feito? A proclamação do sr. Lincoln entrou em vigor em
janeiro passado, libertando todos os escravos presos em
cativeiro nos Estados em rebelião. Qualquer um que ainda
não tenha fugido certamente o fará. Sua estrada de ferro já
não tem muito propósito. ― Ele a encarrou com olhos
ilegíveis.
― Sim, sr. Hunt. O decreto do presidente deu-me grande
alegria.

381
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Não era disso que se tratava tudo isso? ― Sua mão


agitou-se em torno do salão outrora elegante. ― Não é sobre
isso que nós estávamos falando? Você entrou em nossa casa
como empregada da minha tia para libertar os nossos
escravos da escravidão.
― Bem, sim... no começo. Eu vim sob o falso pretexto e
enganei os Benningtons e seus pais. ― Sua boca e garganta
de repente secaram.
Alexander tirou um maço de papéis de seu casaco e
jogou-os sobre a mesa entre eles. ― Eu tinha rascunhado
isto, mas esperei muito tempo. Eu desejava fornecer-lhes
dinheiro suficiente para viajar, mas nunca parecia ser o
suficiente.
Vacilante, ela levantou-se e caminhou até a mesa cheia
de um inexplicável sentimento de pavor. Soltando a fita,
Emily começou a ler a primeira de dezenas de folhas. ― Pelos
poderes investidos a mim pelo povo da Virgínia, dou
provimento à alforria completa e irrevogável dos escravos a
seguir nominados. A partir deste dia e para sempre, ele será
livre, de todos e de qualquer.... ― A voz dela sumiu quando
ela olhou para ele. ― Cartas de alforria. Você libertou os
escravos da Fazenda Hunt?
― Demorou um pouco para que meu pai concordasse
comigo. Isto deveria ter sido feito há anos. ― Ele caminhou de
volta para a janela, onde a chuva batia firmemente contra a
vidraça. ― Se você só tivesse me perguntado, eu teria dado
isso. E qualquer outra coisa que você quisesse neste mundo.

382
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Emily abriu a boca para falar, mas ele levantou a mão


para silenciá-la. ― Ah, eu quase esqueci. Eu tenho outra
coisa para você. ― Alexander tirou do bolso uma fina corrente
de ouro com um medalhão polido. Ele balançou por um
momento diante de seus olhos como um pêndulo de um
hipnotizador.
― Meu medalhão! ― Emily tentou arrancá-lo de seus
dedos. ― Onde você o encontrou?
― No tapete do meu quarto. Você deve ter deixado cair
quando veio bisbilhotar. Este era o seu talismã, sua
motivação para o trabalho secreto? O que permitia a você
dizer palavras que não queria dizer?
― Claro que não! Por que você diz uma coisa dessas? ―
Com as mãos nos quadris, ela o encarou desafiadoramente.
Ele abriu o medalhão para revelar um daguerreótipo12
desbotado de Matthew, seu ex-noivo. Ela ficou boquiaberta
com o rosto jovem que mal conseguia se lembrar. Seu
coração apertou-se no peito, não por Matthew, mas pela
implicação.
― Então, por que você usou isto quando veio ao meu
quarto para me encontrar?
― Foi um presente dos meus pais em minha formatura
na Escola da Senhora Turner para moças. Eu o usava para
lembrar-me deles, não de Matthew. Eu não o tinha aberto
desde que deixei a ilha Bennington. ― Ela soava como uma
criança fraca e indefesa.

12O daguerreótipo foi o primeiro processo fotográfico a ser anunciado e comercializado ao


grande público. Uma fotografia tirada por um processo fotográfico precoce empregando uma
placa prateada sensibilizada com iodo e vapor de mercúrio.

383
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Você não serviu à sua causa abolicionista em


memória de Matthew? Você não veio para o sul determinada
a não deixar que nada nem ninguém ficasse no seu caminho?
Lágrimas de vergonha encheram seus olhos, mas ela
recusou-se a contar mais mentiras. ― Sim, isso era verdade
quando eu cheguei. ― Ela juntou-se a ele na janela. Abaixo
na rua, um carroção de fazenda espirrou em um infeliz
pedestre da cabeça aos pés. Ela sentia-se tão miserável. ―
Mas depois que te conheci, o medalhão tornou-se nada mais
do que um presente dos meus pais. ― Soando trêmula e
incerta, ela forçou-se a continuar. ― Lamento ter enganado
sua família em vista de sua bondade para comigo. Mais do
que isso, lamento as mentiras que eu disse a você. Mas em
meu coração, eu garanto que eu me importo com você.
Apesar de como nossa situação começou, eu te amo,
Alexander. ― Emily exalou com alívio. Ela finalmente tinha
expressado as palavras que tinha retido por muito tempo. O
homem que ela queria estava diante dela em toda a sua
glória. Ela ansiava acariciar seu queixo com a barba rala,
correr os dedos por seu cabelo e beijar a fadiga em volta dos
seus olhos.
Mas alguém batendo na porta da frente exatamente
neste momento estava fazendo barulho suficiente para
acordar os mortos.
― Meu Deus! Quem estaria chamando tia Harriet na
hora do jantar? ― Alexander atravessou a sala em direção ao
tumulto no corredor.

384
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Emily congelou no lugar, parcialmente obscurecido pela


pesada cortina, com um mau pressentimento apertando seu
estômago. Ela saltou quando a porta da sala se abriu,
batendo forte contra o batente. Três soldados uniformizados
marcharam audaciosamente, seguidos de uma perturbada
sra. Hunt e uma quase prostrada sra. Cabot.
Um jovem oficial, vestido de cinza confederado,
examinou a sala até que seu olhar a encontrou. ― Senhorita
Emily Harrison? ― Perguntou friamente. Ele não notou
Alexander imediatamente, parcialmente escondido pela porta.
Emily endireitou suas costas com toda a dignidade que
pôde reunir. ― Sim, senhor. Sou eu.
― Do que se trata, Tenente? ― Em três passos Alexander
colocou-se entre Emily e os soldados.
― Senhor! ― O tenente fez uma saudação rápida ao
oficial superior. Os outros seguiram o exemplo. ― Eu sou o
Tenente Rose, da Guarda Doméstica de Richmond. Peço
desculpas por introduzir-me em sua casa esta tarde. Tenho
ordens assinadas pelo próprio Secretário de Guerra, senhor.
― Ele entregou a Alexander um pergaminho enrolado com o
selo do Secretário Seddon estampado na cera.
As senhoras, ladeando os outros dois soldados,
ofereceram protestos indignados. Alexander quebrou o selo e
começou a ler o documento. Margaret, Annie e Lila entraram
na sala, encolhendo-se contra a parede como gatinhos
abandonados.
Sem esperar o coronel examinar o documento, o tenente
Rose deu um passo em torno dele. ― Senhorita Emily

385
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Harrison, você foi acusada de espionagem e traição contra os


Estados Confederados da América. Estamos colocando você
na prisão.
― Vocês decididamente não estão! ― Alexander
desembainhou sua espada em um movimento fluido.
Mas o tenente tinha antecipado tal resposta. Puxando
uma Colt de cano longo do coldre, ele apontou ligeiramente
para a esquerda. ― Lamento profundamente coronel Hunt, à
luz do seu extraordinário serviço à Causa, mas devo pedir-lhe
que recue senhor. ― Ele pronunciou cada palavra para que
ninguém entendesse mal suas intenções. ― Tenho certeza que
você não deseja mais afligir sua família. ― Com a mão
enluvada, fez um gesto para os rostos assustados das cinco
mulheres que esperavam.
Alexander não vacilou. ― Então eu sugiro que você vá
embora imediatamente. A senhorita Harrison permanecerá
comigo.
O Tenente Rose apontou o cano da arma no centro do
seu peito. ― Você pode discutir o assunto com o secretário
Seddon, senhor, mas eu pretendo seguir as minhas ordens.
Um silêncio horrível encheu a sala enquanto Margaret
Bennington circulava ao redor para ficar ao lado de Emily. ―
Deve haver algum engano. Eu posso atestar que essa mulher
nunca faria tais coisas. ― Ela corajosamente passou o braço
ao redor da cintura de Emily. Contra a parede, Annie
começou a chorar.
― Não há erro, senhorita. ― O tenente ofereceu uma
ligeira reverência sem baixar a arma. ― Sua governanta é

386
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

responsável por expor o Fantasma Cinzento e reduzir sua


obra vital. Infelizmente, o coronel Hunt caiu sob o encanto de
uma sereia. A prisão vai ser muito boa para esta Dalila13. ―
Os dois soldados apontaram suas armas para Alexander
enquanto o tenente aproximava-se de Emily. ― Senhorita
Harrison, se você der sua palavra que nos acompanhará sem
incidentes, vamos renunciar ao uso de restrições. ― Ele olhou
para ela com desprezo mal disfarçado.
― Você tem a minha palavra. ― Com as pernas bambas,
Emily caminhou até a porta com o Tenente Rose ao seu lado.
― Eu exijo saber para onde você a está levando. ―
Embainhando a espada, Alexander avançou para segui-la.
O mais entroncado dos dois guardas colocou o cano de
sua arma por baixo da mandíbula do coronel. ― Você e eu
vamos esperar aqui até que a carruagem deles saia, mas não
é nenhum segredo para onde ela está indo. Ela está a
caminho do Castelo Thunder, onde todos os espiões da União
são enforcados.

13Dalila – personagem bíblica que traiu Sansão, revelando que o segredo de sua força estava
nos seus cabelos

387
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 19

― Eu vou perguntar de novo, senhorita Harrison. Como


chegou até você a informação de que o Fantasma estaria na
casa de seu tio em Middleburg?
O magro chefe da polícia militar estava tão perto que
Emily podia ver claramente as manchas de tabaco em seus
dentes e sentir o cheiro da pomada de seus cabelos. Ela
inclinou-se tanto para trás quanto a cadeira permitia.
― Eu já disse, senhor. Eu tomei conhecimento da
informação de uma forma inocente e não por conluio com o
governo da União. ― Emily falou com uma voz áspera e seca.
Os últimos dias estavam começando a cobrar seu preço.
Ela foi levada na carruagem da sra. Cabot para um armazém
de tabaco, atualmente utilizado como prisão para soldados
confederados sentenciados por um tribunal militar. Castle
Thunder também prendia desertores rebeldes e os acusados
de serem inimigos da Confederação, incluindo espiões.
Raramente eles encarceravam soldados da União. Eles
enviavam esses homens para a notória prisão de Libby. Os
guardas a trancaram num quarto pequeno e austero, onde o
cheiro do tabaco ainda permeava o ar. Sua cela continha uma
cama portátil com um colchão sujo, um lavatório com um
388
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

jarro, uma bacia e uma cadeira. Emily tinha jogado o


cobertor puído em um canto por medo de criaturas
rastejantes desejarem uma mudança de residência.
O chefe da polícia militar espalmou suas mãos sobre a
mesa.
― Você gostaria que acreditássemos que essa importante
informação foi discutida nos chás e visitas sociais à tarde? ―
Seu escárnio não esperava nenhuma resposta. ― Poucos em
nosso governo sabiam a identidade do Fantasma para sua
proteção, no entanto, uma governanta yankee estava a par
disto?
― Eu soube de sua identidade acidentalmente enquanto
era hóspede na Fazenda Hunt, senhor. Eu era empregada
como acompanhante da sra. Porter Bennington, irmã da sra.
James Hunt.
―Sim, eu sei disso. ― Ele percorreu os documentos para
localizar um relatório anterior. ― Você era governanta dos
Benningtons de Martinsburg. Isso está correto?
Ela assentiu com a cabeça em resposta.
―Por favor, fale senhorita Harrison. ― Depois de seu
murmúrio afirmativo ele continuou. ― Os Benningtons
mandaram suas filhas para serem educadas na Europa e
depois eles se mudaram de Parkersburg. Não é verdade?
― Sim, senhor, isso é verdade. ― Disse ela com crescente
apreensão.
― Por que então você escolheria se mudar para os
confins da Confederação quando os seus serviços já não eram
mais necessários? Suas pupilas nem sequer estavam no país.

389
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Por que não voltar para sua casa em Ohio, onde as pessoas
compartilhavam seus sentimentos políticos? ― Com um
sorriso presunçoso, o jovem jogou os papéis sobre a mesa.
Emily pressionou as pontas dos dedos nas têmporas
para conter uma dor de cabeça latejante. Como ela poderia
explicar por que acompanhara os Benningtons sem revelar
seu trabalho na Underground Railroad? Ajudar escravos a
alcançar a liberdade na Virgínia era considerado roubo e
também um crime grave. Ela não poderia expor os
condutores que forneciam comida e abrigo para aqueles que
faziam seu caminho para o norte.
― Eu tinha me afeiçoado a sra. Bennington e aceitado
sua oferta para continuar a fazer parte de sua família.
― Depois de tão breve período de emprego? Você não
sentiu falta de sua própria família?
― Eu não tinha mais família em Ohio, senhor. Meus pais
morreram em um acidente e nossa fazenda foi vendida para
liquidar uma hipoteca. O dr. Bennington e sua esposa
forneceram a única casa disponível para mim. ― Emily
esperava que sua dolorosa situação pudesse despertar
simpatia entre os oficiais.
O chefe da policia militar bufou com desprezo.
― Quando você foi contratada, não estava prestes a se
casar com um soldado da União?
― Sim senhor, está correto.
― O que aconteceu com este soldado?
Um nó formou-se em sua garganta.

390
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Mattew foi morto em Bull Run. Eu acredito que vocês


se referem à batalha como a Primeira Manassas. ― O bigode
do homem se contraiu.
― Eu posso imaginar uma única razão para uma yankee
mover-se para o centro de Dixie enquanto lamenta a perda de
seu noivo ― vingar a sua morte. Você insinuou-se nos lares
dos Bennington e dos Hunt e aproveitou-se de sua bondade.
Como você não estava ensinando ninguém, você gastava seu
tempo observando o Exército da Virgínia do Norte e em
seguida relatando os movimentos das tropas de volta ao
acampamento da União em Winchester. ― Ele olhou para ela
com ódio frio.
― Eu não fiz isso, senhor. Eu juro sobre isto. ― Sua voz
falhou enquanto seus nervos desgastavam-se.
― Senhorita Harrison, nós temos o testemunho de uma
fonte confiável que viu você e sua criada em Berryville várias
vezes, a menos de oito quilômetros da sede da União. Você se
importa de explicar seus passeios noturnos misteriosos?
Emily baixou a cabeça. Nathan Smith. Ele era o único
que poderia ter feito tal relatório. Memórias do rosto corado e
dos olhos frios do capitão inundaram-na. Ele era um inimigo
que ela desejava nunca ter feito.
― Não, senhor. ― Ela disse em uma voz quase inaudível.
― Vou perguntar de novo. Depois que você soube que
Alexander Hunt era o Fantasma Cinzento, como você
descobriu que ele e seus homens estariam na casa de seu tio
naquela noite?

391
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

O medo roia seu estômago vazio. Eles tinham-lhe dado


pouco para comer e apenas chá fraco para beber desde sua
prisão. Recordando dos Thompsons de Upperville, Emily
desejava nunca ter posto os olhos sobre eles, mas ela não iria
expor seus trabalhos. Isto poderia desvendar o labirinto das
casas, causando danos incalculáveis para os envolvidos.
― Eu não posso dizer, senhor.
Olhando ameaçadoramente, o jovem se inclinou sobre a
mesa.
― A quem você deu essa informação no acampamento
da União? Quem foi o yankee a quem você denunciou o
Coronel Hunt?
Ela olhou fixamente em seus olhos escuros com fingida
bravura.
― Eu não levei informações a ninguém. Eu cavalguei
para Middleburg exclusivamente para avisar Alexander da
armadilha.
Assim que as palavras saíram ela percebeu seu erro. Ela
tinha acabado de admitir que sabia sobre a armadilha, além
de sua identidade. Seu estômago agitado revisou-se
desagradavelmente.
Um sorriso espalhou-se pelo rosto do oficial.
― Por que você faria isso, senhorita Harrison? Por que
você avisaria o homem responsável por aliviar o Tesouro
Federal de uma fortuna?
Como ela poderia dizer-lhe que se apaixonara por um
rebelde Ranger após a morte de seu noivo? Parecia
escandaloso até mesmo para ela e este soldado impiedoso

392
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

provavelmente não acreditaria nela de qualquer maneira.


Concentrando seu olhar sobre uma mancha na parede, Emily
ficou muda e imóvel.
O oficial chutou a perna de sua cadeira fazendo a voar.
― Tenente Loomis. ― A voz de um homem do outro lado
da sala dirigiu-se ao oficial. ― Você poderia, por favor, trazer
para a senhorita Harrison outra xícara de chá? Nós não
queremos que nossa falta de hospitalidade chegue a
Washington.
Emily não tinha prestado muita atenção aos oficiais
sentados contra a parede durante o seu interrogatório. Agora
um deles, aparentemente o superior do chefe da polícia
militar, aproximou-se da mesa, mancando decididamente.
Ela percebeu que parte de sua perna estava faltando.
― Senhorita Harrison, sou o Capitão Reynard,
comandante desta prisão. ― Ele endireitou a cadeira chateado
com o tenente, mas não se sentou.
― Capitão Reynard. ― Ela balançou a cabeça
educadamente.
― Eu acho que você não compreende a gravidade dos
crimes que lhe foram imputados. ― O Capitão Reynard
apoiou um pouco de seu peso nas costas da cadeira. ― Você
foi acusada de traição contra os Estados Confederados da
América. Sua punição, se condenada, será a morte por
enforcamento. Francamente, com base nas provas, eu não
vejo qualquer outro resultado possível. Sua sentença será
dada a critério do juiz militar do tribunal. Isto está totalmente
fora de nossas mãos. Os tribunais militares não veem com

393
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

bons olhos os espiões, nem mesmo as jovens mulheres. ―


Não havia nenhuma suavidade nas ameaças do capitão. ― Se
você está protegendo os outros por alguma lealdade
equivocada, eu sugiro que você nos diga o que sabe e não
demore. Talvez o juiz militar seja misericordioso se você foi
enganada por agentes yanques que se aproveitaram de você.
Não havia como confundir o brilho maligno em seus
olhos. Este soldado ferido e de fala mansa assustou Emily
mais do que o tenente tempestuoso.
― Não, senhor. Eu não estou protegendo ninguém. Não
tenho mais nada a dizer.
O Capitão Reynard afastou o cabelo da testa, revelando
uma cicatriz desagradável.
― Muito bem, senhorita Harrison, você teve sua chance.
Iremos levar o seu caso para julgamento e esperamos que
suas acomodações aqui sejam satisfatórias até então. ―
Houve uma onda de risos dos soldados ao longo da parede
enquanto o capitão mancava em direção à porta.
O Tenente Loomis ofereceu um último olhar enquanto
seguia seu superior para fora da sala. Ela foi provavelmente a
primeira espiã que ele já conhecera. Emily teria muitas
oportunidades para considerar sua raiva e ressentimento
uma vez que a supervisora a levou para a cela. Ela tinha
pouco mais para ocupar seu tempo.

394
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Os músculos dos ombros e das costas de Alexander


doíam, mas ele não descansaria até que tivesse algumas
respostas. Desde que Emily fora levada para Castle Thunder,
não havia razão para permanecer na casa de tia Harriet.
Ninguém na sua família tinha qualquer informação. Hora
após hora ele esperava por uma audiência com o Secretário
Seddon no Departamento de Guerra em Richmond.
Infelizmente, o Secretário de Guerra estava no acampamento
em Petersburg e ninguém parecia saber quando ele voltaria.
Depois de dois dias, Alexander decidiu cavalgar até
Petersburg e rastrear o homem que ordenou a prisão de
Emily. Paciência nunca tinha sido sua virtude.
Com as instruções de seu pai, encontrou o estábulo
onde os cavalos restantes dos Hunt haviam sido guardados.
O que ele não esperava encontrar era seu amigo de infância e
criado de confiança.
― Grande Deus, William! É bom ver você. ― Alexander
escorregou da sela e amarrou as rédeas de Phantom ao poste.
William pulou com a súbita interrupção de suas tarefas.
― Não tão feliz quanto eu em vê-lo, senhor. Eu tinha
certeza de que você estava a caminho de uma prisão yankee.
Com o inverno chegando, não esperava nada menos.
Os dois homens se abraçaram desajeitadamente no
estábulo empoeirado.
― Não se preocupe, eu posso ultrapassar um yankee
mesmo em uma mula. ― Ele olhou em volta do estábulo
marcado com a insígnia de sua família.

395
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Você conseguiu conduzir nossas melhores éguas


através das linhas federais? Estou impressionado. Se eu não
estivesse tão sem dinheiro, eu recomendaria um aumento de
salário para você. ― Ele apertou seu braço em volta do
pescoço de William. ― Eu temia que todos nossos cavalos
tivessem caído nas mãos da União.
William enfiou a escova no bolso traseiro.
― Vamos escrever essa parte sobre um aumento,
senhor. Eu vou guardar até quando a guerra acabar.
― Eu já voltei atrás na minha palavra, William? ―
Alexander bateu em seu peito com o punho.
― Não, eu não posso dizer isto e nós nos conhecemos há
muito tempo. ― William olhou seu empregador no olho. ―
Você já esteve na casa de sua tia na Rua Franklin? Você já
viu sua família e a senhorita Harrison?
A alegria de Alexander ao encontrar William seguro
desvaneceu-se com a menção do nome de Emily. Ele começou
a andar entre as baias como um animal enjaulado.
― Sim, eu a vi. Mal tivemos tempo para nossa primeira
discussão quando ela foi presa pela guarda doméstica. Presa
por traição contra os Estados Confederados, de todas as
ideias ridículas. ― Ele chutou um balde de água vazio pelo
chão. ― Eu cavalguei até o Departamento de Guerra para
falar com o Secretário Seddon, mas não o vi. Emily precisa
explicar como ela descobriu sobre o ataque a Middleburg e
então eu poderei esclarecer este absurdo.
William desviou os olhos para o chão cheio de grãos
esparramados e palha suja.

396
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Você sabe alguma coisa sobre isso? ― Alexander


parou de andar quando os cabelos na parte de trás do seu
pescoço se ergueram.
― Primeiro, deixe-me perguntar uma coisa, senhor. A
senhorita Amite estava na casa de sua tia quando os guardas
vieram? Eles a prenderam também?
― Senhorita Amite?
― Senhorita Lila Amite. Ela e seus pais trabalham para
o dr. e a sra. Bennington. Onde quer que eles vão, Lila vai
também. ― O homem grande arrastou sua bota na poeira.
― Eu sei quem ela é. ― Alexander estalou, sua paciência
esgotando-se. ― O que eu não entendo é por que você está
perguntando sobre ela.
― Bem, a senhorita Amite concordou em ser minha
esposa.
Alexander olhou para ele, tentando acalmar seu
temperamento.
― Você não está se fazendo entender, homem. Estou
feliz que Lila concordou em casar com você, mas o que isso
tem a ver com a srta. Harrison?
― Eu deveria ter lhe dito há muito tempo, senhor. Estou
envergonhado por não ter feito isto. ― William tirou o chapéu
de feltro da cabeça.
Rapidamente perdendo o controle, Alexander agarrou
seu amigo pelas lapelas de seu casaco.
― Fora com isto, tudo isso! O que você sabe sobre a
senhorita Harrison que eu não sei?

397
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Eu sei o que ela estava fazendo no dia que você foi


para Middleburg. Era a mesma coisa que ela estava fazendo
em Berryville e um bom tempo antes disso. Ela estava
ajudando escravos a encontrar o caminho para a estrada da
liberdade. E você precisa saber que Lila a ajudou desde que
elas vieram daquela ilha no rio Ohio.
Alexander liberou seu aperto no casaco de William,
enquanto as peças do quebra-cabeça se encaixavam em sua
mente.
― De quem eram os escravos ― de meu pai?
― Um casal era seu, mas principalmente fugitivos das
Carolinas e da Georgia. ― William olhou como se preferisse
rastejar em um buraco do que admitir sua parte no engano.
Alexander confiava nele sem reservas.
De repente, as portas do celeiro se abriram, quebrando o
impasse desconfortável entre amigos. O dr. Bennington
cavalgou para dentro em um cavalo de montaria que
espumava.
― Oh, graças a Deus, sobrinho. Você está vivo e bem.
Faz tanto tempo. Seus pais não sabiam para onde você tinha
ido após deixar a casa de Harriett.
Alexander agarrou a rédea do cavalo de Porter.
― Desculpe por eu não esperar até que você chegasse
em casa, tio Porter, mas eu tinha que investigar sobre as
acusações ridículas contra Emily.
O dr. Bennington estendeu a mão quando desmontou,
sua expressão preocupada se aprofundando.

398
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Então é verdade. Ela foi presa. Diga-me o que eu


posso fazer para ajudar.
― O Departamento de Guerra está um caos com
Petersburg sitiada. Eu estou indo para lá agora. A melhor
coisa que você pode fazer é orar.

Primavera de 1864

Quando Emily acordou de madrugada na cela úmida e


mofada, seu nariz começava a escorrer, seu couro cabeludo
coçava e ela necessitava urgentemente de um banho. A
refeição da noite anterior consistiu-se de bacon rançoso e
frio, que transformou seu estômago em uma maçã enrugada.
Quando ela involuntariamente torceu o nariz com o cheiro
pútrido da carne, a supervisora repreendeu-a severamente.
― A comida não é do seu agrado, senhorita? Talvez você
possa dizer ao seu amigo Ulysses S. Grant para levantar o
bloqueio do porto para que possamos obter algo decente para
comer. ― A mulher colocou o prato por baixo fazendo barulho
e franziu as sobrancelhas enquanto saía da cela.
― Desculpe, eu nunca conheci o cavalheiro. ― Emily
respondeu à porta fechada. Hoje a supervisora entregou um
pão de milho coberto de farinha e chá fraco. Mas pelo menos
ela voltou pouco tempo depois com uma bacia de água
morna, um pedaço de sabão e uma toalha esfarrapada. Ela
também trouxe algo limpo para Emily vestir. Caindo em uma

399
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

linha reta dos ombros até os tornozelos, a roupa parecia ter


sido feita a partir de sacos de ração. Outra mulher poderia
caber com ela entre as costuras laterais, mas pelo menos o
vestido estava limpo e livre de parasitas. Meses de
confinamento a tinham reduzido à mera pele e ossos, longe
de sua figura.
Inicialmente seu humor melhorou após o banho de
esponja até que ela ouviu a cacofonia no pátio da prisão. De
pé sobre uma cadeira para alcançar a janela suja, viu três
homens serrando e martelando diligentemente. Na leve garoa,
eles erguiam no lugar viga após vigas de madeira de pinho
frescas. Embora seu projeto estivesse longe de estar pronto,
Emily percebeu que eles estavam construindo uma forca. É
para mim? Ou eles têm outro espião encarcerado responsável
pela exposição do maior ativo Confederado por trás da perda
de muitas vidas rangers?
A enormidade de suas ações afundaram-se com cada
golpe do martelo. Descendo da cadeira, Emily cobriu o rosto
com as mãos e chorou pela primeira vez desde sua prisão.
Ela soluçava não por seu futuro sombrio, mas pela maneira
como tinha tratado as pessoas que haviam confiado nela e a
amado. Como os Bennington deviam desprezá-la.
Armada com seus ideais Quaker, ela mudou para a
Virgínia com a intenção de enganar e fraudar. Suas
motivações podem ter sido nobres, mas esses sulistas a
consideravam uma ladra ordinária e inimiga.
E o que dizer de Alexander? A torrente de mentiras que
ela contou percorreu sua mente como um rio em movimento

400
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

rápido. Ela nunca deveria ter se apaixonado. Talvez fosse


bom ela ser enforcada por seus crimes, porque então ela
nunca veria o ódio e a repulsa em seus olhos. Ela devia ter-
lhe dito a verdade há muito tempo ― sobre seu trabalho
abolicionista e o fato de que ela o amava. Agora era muito
tarde. Todo o amor do mundo empilhado em um prato não
iria convencê-lo de que seu coração era verdadeiro. Alexander
seria seu único arrependimento em seu caminho para a
forca. E ela não tinha ninguém para culpar além de si
mesma.
Emily tinha pouco tempo para se preocupar com os
erros do passado. Minutos após a supervisora ter levado a
bacia e a toalha molhada, soldados chegaram à porta de sua
cela. Eles amarraram seus pulsos com uma corda e a
conduziram pela prisão como um cordeiro pronto para o
abate. Alguns prisioneiros zombavam, alguns sussurravam
palavras de encorajamento e um homem idoso baixou a
cabeça e chorou. A supervisora envolveu um xale sobre seus
ombros magros quando eles saíram ao ar livre em um vento
cortante. Um soldado corpulento a empurrou para cima nos
degraus de uma carruagem.
― Para onde eu vou? ― Ela perguntou timidamente,
olhando ao redor do interior miserável. Um soldado juntou-se
a elas no interior do veículo escuro. Ele olhou para fora da
janela como se mesmo um olhar de seus olhos traiçoeiros
pudesse prendê-lo fascinado.
― Para o seu julgamento perante um tribunal militar. ―
A mulher limpou o nariz com um lenço encharcado. ― Dê

401
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

uma olhada na linda cidade de Richmond. Pode ser a última


vez que você coloca os olhos sobre ela.
Emily concordou obedientemente enquanto passavam
por ruas e vielas deploráveis. Os refugiados pareciam ter
acampado em todas as entradas ou passagens subterrâneas.
A visão de tantos rostos sujos e enfraquecidos quebrou o
coração de Emily, embora sua situação atual não fosse
menos sombria. Agulhas geladas de vento sopravam através
das rachaduras da carruagem, fazendo seus dentes
rangerem.
― Qual é o problema querida? Você está com frio? ― A
pergunta da mulher não continha nenhum toque de bondade.
― Se eu soubesse, poderia ter pedido algo quente de Par-ree14.
― Ela cacarejou com diversão, enquanto o guarda deslocava-
se desconfortavelmente no assento.
Brevemente considerando o nariz bulboso e vermelho da
supervisora, a pele rachada de suas mãos e o vestido
descolorido pelas muitas lavagens, Emily não pôde convocar
uma onça15 de animosidade. O que ela pensou em vez disso,
durante o passeio acidentado, foi em sua casa em Marietta.
Por que ela tinha ido embora? Ela poderia ter dormido nos
degraus da igreja até que alguém a acolhesse. Ela poderia ter
continuado seu trabalho em Ohio, nunca se aventurando em
uma terra estranha de vozes cadenciadas e comportamento
educado, que muitas vezes desmentia naturezas cruéis. Mas
ela tinha vindo para o sul e selado seu destino.

14Aqui a personagem faz um gracejo com a capital da França, Paris.


15Uma onça é uma medida equivalente a 28,38g. Nesse caso ela quis dizer que não dá um
grama de animosidade.

402
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Pararam tão abruptamente na frente de um edifício


imponente que Emily deslizou do assento para o chão. Em
um movimento suave, o guarda puxou-a para cima como se
não pesasse mais do que uma mochila e então gesticulou
para a supervisora sair primeiro pela porta.
― Você precisa usar o banheiro antes de entrar? ― Ele
perguntou, corado, uma vez que deixou a carruagem.
Emily empalideceu diante de uma pergunta tão
insolente de um completo estranho.
― Não, obrigada.
Segurando a corda que prendia suas mãos, o guarda
desceu à rua enlameada. Com pernas firmes e pouca
coragem, Emily os seguiu subindo os degraus de pedra para
um corredor esfumaçado onde as pessoas ficaram
boquiabertas com suas roupas. Asseguro-lhes, senhoras e
senhores, que os vestidos de sacos de ração são o furor da
estação no Continente. De fadiga e ansiedade, a mente de
Emily vagava do rídiculo da indignação para um dia de verão
em uma margem do rio na Fazenda Hunt. Foi a primeira vez
que Alexander a beijou. Nada na vida tinha provado ser tão
doce, e nada seria novamente.
Quando chegaram ao final do corredor, o guarda e a
supervisora pararam diante de portas duplas esculpidas e
bateram. Emily ficou boquiaberta com seu reflexo quase
irreconhecível em um espelho dourado na parede. Seu osso
malar salientava-se na pele quase transparente, seus braços
pendurados no saco grosseiro como meros bastões e seu
cabelo estava em um emaranhado nas costas. A pessoa

403
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

desamparada no reflexo era uma sombra da mulher que viera


a Virgínia, cheia de vida e cheia de energia, como sua avó
diria. Quando as portas do tribunal se abriram, o medo e a
apreensão de Emily desapareceram. Vamos apenas acabar
com isso.
Ela sentiu o peso de dezenas de pares de olhos
enquanto era empurrada até uma grade na frente da sala,
além da qual, cinco homens de rosto sombrio, fumantes,
estavam sentados em uma longa mesa. Cada um a
considerava como se fosse um verme que tivesse rastejado de
uma maçã meio comida.
― Emily Harrison, eu sou o juiz militar que vai ouvir o
seu caso. ― Disse o mais alto dos homens. ― Então farei uma
recomendação ao tribunal militar que você vê à minha
esquerda e direita. Você foi acusada de traição contra os
Estados Confederados da América.
Emily endireitou as costas, mas não conseguiu olhar
para o imponente juiz.
― Como você se declara?
Ela abriu a boca para falar, mas não emitiu nenhum
som.
― Como você se declara diante desta ofensa gravíssima?
― Ele trovejou alto o suficiente para ser ouvido na rua.
― Inocente! ― Ela disse depois de umedecer os lábios
com a língua.
― Muito bem, sente-se. ― O juiz apontou para uma
pequena mesa e cadeira com um soldado armado. ―

404
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Começaremos com o testemunho assinado enviado ao


tribunal.
Em seu caminho para a mesa, ela olhou em volta para
seus acusadores, mas em vez disso encontrou os rostos
cansados do dr. e da sra. Bennington. Os olhos de Augusta
estavam arregalados como pires, enquanto Porter parecia
como se não tivesse dormido por dias. Os Hunt sentavam
atrás deles na segunda fileira. A sra. Hunt ergueu uma mão
enluvada em um aceno como se tivesse visto Emily no outro
lado da sala em um baile, em vez de ir para a forca. Emily
devolveu o sorriso. Então seu foco caiu sobre Alexander. Ele
estava estudando um maço de documentos em seu colo,
inexpressivo. Vestido com um casaco caro, camisa engomada
e gravata elegante, ele parecia em cada detalhe com o filho de
um fazendeiro rico, não o lendário Fantasma Cinzento. A
batida forte de um martelo empurrou sua atenção de volta ao
banco.
― Senhorita Harrison, acusações sérias foram feitas
contra você, mas aparentemente você não está sem amigos
na Confederação. ― Vestido com um uniforme de general, o
juiz militar olhou fixamente para ela.
Seu estômago embrulhou-se e seus joelhos
enfraqueceram, mas ela não se atreveu a sentar. Ela apoiou
seu peso com uma mão sobre a mesa.
― O dr. Porter Bennington apresentou uma declaração
assinada, testemunhando em seu favor. Sua esposa, a sra.
Augusta Bennington, também apresentou uma segunda
declaração juramentada. Você parece ter feito um grande

405
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

impacto durante seu trabalho. Eu espero que essas pessoas


boas não se arrependam de estender a misericórdia cristã a
alguém tão astuta e desonesta. ― Não havia dúvida quanto a
opinião do juiz sobre ela. ― O Coronel Alexander Hunt
também prestou testemunho juramentado sobre suas
atividades na Virgínia, minha jovem. O coronel testemunhou
que você era condutora na denominada Underground
Railroad enquanto estava em Ohio e continuou seu trabalho
aqui. ― Seus lábios se contraíram. ― Ele jurou solenemente
que você limitou seus crimes conduzindo mulheres e crianças
escravas através do rio Potomac, ordenada por sua educação
religiosa e sua herança Quaker.
Emily ofegou, sem se atrever a virar-se para olhar para
ele. Como ele sabia? Teria Lila a traído ou ela simplesmente
não era tão inteligente quanto pensava? E o que importava
isso agora?
― O Coronel Hunt refutou as acusações do capitão
Nathan Smith, insistindo que você não cometeu nenhum ato
de traição e espionagem. Ele acrescentou que apostaria sua
vida nesse fato. ― Pausando, o juiz olhou para os membros
do tribunal à esquerda e à direita. Eles murmuravam entre si
com grande agitação.
― Eu não sou uma espiã, Excelência, nem nunca fui. ―
Emily falou com toda a coragem que pôde reunir.
― Eu devo destacar que não tratamos aqui a questão da
ajuda e auxílio a escravos fugitivos. ― Todos os homens do
tribunal a olhavam com desdém mal disfarçado. ― Não
importa quais sejam suas opiniões pessoais, religiosas ou

406
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

não, os escravos são considerados propriedade neste Estado e


suas ações equivalem a roubo, essencialmente. Não é
diferente do que se alguém fosse à fazenda do seu pai e
roubasse seus cavalos ou sua carroça.
Emily sentiu sua espinha endurecer.
― Senhor, não se pode comparar um ser humano a uma
carroça, ou...
O juiz a interrompeu, não lhe dando nenhuma
oportunidade para se manifestar.
― No entanto, senhorita Harrison, à luz do fato de que o
Coronel Hunt localizou e pagou vários proprietários por sua
perda e promete buscar os restantes, nós não
recomendaremos o julgamento pelos tribunais da Virgínia
pelo auxílio aos escravos fugitivos. Este é um tribunal militar.
Nossas preocupações são crimes contra a Confederação.
Emily levantou o queixo para encontrar o olhar do juiz.
― Você não vai me enforcar?
― Hoje não, senhorita Harrison, mas também não estou
inclinado a soltá-la. Isto servirá como exemplo para outros
que possam estar ponderando usar nossas casas com o
propósito de roubar.
Nesse momento, o dr. Bennington levantou-se.
― Senhor, se me permite dirigir-me ao tribunal. Fui eu
quem trouxe a senhorita Harrison de Marietta, sabendo que
seu povo era Quaker abolicionista. Fui eu quem a enviou com
a incumbência de recolher material médico e não coloquei
qualquer oposição quanto ao tempo que essas incumbências
tomaram. Não era difícil deduzir o que a senhorita Harrison

407
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

estava tramando. Como uma ex-Quaker, minha esposa


pediu-me para fechar os olhos. Eu assumo total
responsabilidade por seu comportamento na Virgínia. Se você
libertar a senhorita Harrison sob meus cuidados, eu cuidarei
para que ela não cause mais danos.
O juiz bateu o martelo sobre a mesa, tentando restaurar
a ordem da galeria indisciplinada.
― Sinto muito, dr. Bennington, mas pretendo manter a
senhorita Harrison em Castle Thunder por um período
indefinido até que outras provas possam ser coletadas. Não
estou convencido de que ela não teve nenhum envolvimento
durante a emboscada de Middleburg. Além de expor e
frustrar o trabalho do Fantasma Cinzento, muitos soldados
bons perderam a vida. ― Ele acenou com deferência para o
coronel, causando outra agitação.
Quando o tribunal ficou em silêncio, Alexander se
levantou.
― Senhor, eu posso me dirigir ao tribunal?
Cada par de olhos virou-se em sua direção. Mais de uma
mulher abriu a boca de espanto para o homem “maior do que
a vida”, cujas façanhas haviam sido bem narradas nos
jornais. Agora elas tinham um rosto bonito para adicionar à
narrativa. Várias jovens senhoras agitaram seus leques,
tentando atrair sua atenção.
O juiz acenou com a cabeça.
― Em agradecimento por seu serviço Coronel Hunt, vou
permitir. Mas não permitirei que esses procedimentos se
transformem em um circo público.

408
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Alexander inclinou-se profundamente.


― Obrigado, senhor. Embora eu aprecie sua oferta, não
é necessário que o dr. Bennington ateste pelo comportamento
futuro da senhorita Harrison. ― Ele acenou com a cabeça na
direção de seu tio.
― Assumo total responsabilidade por suas ações ―
passado, presente e futuro. Eu sou obrigado ao dever pelo
sacramento cristão. ― Ele lançou um olhar fulminante a
Emily pela primeira vez naquela tarde. ― Afinal ― ele
continuou ― ela é minha esposa.

409
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Capítulo 20

Primavera de 1865

Fazenda Hunt, Front Royal, Virgínia


― Pare de se mexer, Lila. Eu preciso trançar essas flores
através do seu cabelo antes que as hastes murchem. ― Emily
bateu em sua amiga no ombro.
― Eu não consigo ficar parada.
― Com o que você está preocupada? Você tem medo que
William descubra a sua falta de cooperação ou quão
desagradável você é pela manhã e se recuse a casar com
você?
― Não, ele já sabe e está disposto a se casar comigo de
qualquer maneira.
― Um homem corajoso, este William, marchando para o
seu destino com um coração forte. ― Emily inseria a última
flor quando uma batida chamou sua atenção. ― Fique onde
está. ― Emily pressionou Lila de volta para a cadeira antes de
atender a porta.
― Matilde mandou isso para Lila, senhorita. ― A
lavadeira estendeu um vestido enquanto oferecia uma
reverência.

410
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Obrigada. ― Aceitando o vestido, Emily segurou-o alto


para admirar. Ela virou para a amiga. ― Você será uma linda
noiva Lila.
― Assim como você Emily.
― Assim como eu? Os porcos vão voar antes que eu
encontre um homem estúpido o suficiente para se casar
comigo.
― Coisas mais estranhas do que isso já aconteceram.
Agora você vai tomar seu banho enquanto eu coloco isso. Eu
já enchi a banheira. ― Lila abraçou-a timidamente e
desapareceu atrás do biombo com seu vestido.
Emily sentiu um rubor subindo até a linha do seu
cabelo enquanto se dirigia para o quarto de banho. Ela nunca
teve uma amiga de verdade, nem se encheu com tanta alegria
como hoje. Os últimos seis meses desde a sua libertação do
Castelo Thunder pareciam com um conto de fadas. Depois
que ela resignou-se a permanecer presa até o final da guerra,
o dr. Bennington chegou em uma manhã triste de outubro
para trazê-la para casa. Ele continuou a defender seu caso
como se ela fosse um membro de sua família. Emily seria
sempre grata a ele e a sra. Bennington.
Mas foi Alexander quem levou à cena Charles Mimms,
um ex-ranger descontente, junto com recibos e declarações
assinadas por aqueles que tinham perdido escravos devido a
seu trabalho. Ela nunca saberia por que Mimms
testemunhou que ele tinha sido o único em conluio com o
Exército da União. O poder de persuasão do Coronel era tão

411
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

misterioso quanto a sua capacidade de escapar dos yankees


durante todos esses anos.
De acordo com a sra. Bennington, Emily tinha
desmaiado após o anúncio de Alexander de que ela era sua
esposa. Isso tinha sido uma bênção. Caso contrário, ela podia
ter minado seu plano de salvá-la da forca. Mais uma vez ela
tinha subestimado o poder persuasivo do Fantasma Cinzento.
O tribunal militar ficou chocado com a sua confissão, mas
ninguém iria questionar a palavra do herói mais famoso do
Sul. Por que alguém diria ser seu marido a menos que fosse
verdade? De acordo com a sra. Bennington, o juiz olhou
fixamente para Emily enquanto ela estava prostrada no chão
e respondeu:
― Nesse caso, você tem a minha simpatia por sua
desgraça, senhor.
Alexander curvou-se profundamente e respondeu:
― Nós todos temos nossas cruzes para carregar. Eu
prometo que ela não causará mais problemas.
Mas o juiz ainda se recusou a liberar Emily sob a
custódia de Alexander, apesar de seu testemunho e
declarações assinadas. Emily foi levada inconsciente da sala
do tribunal, enquanto a galeria explodia em gritos. Ela
recuperou seus sentidos na carruagem ao lado da
desagradável face da matrona.
Ela ainda teve que esperar alguns meses a mais em sua
cela antes que fosse finalmente liberada, mas pelo menos o
seu sofrimento foi aliviado. À sra. Bennington e à sra. Hunt

412
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

havia sido permitido visitas ocasionais e elas trouxeram


comida boa, livros para ler, cobertores e roupas quentes.
Quando Emily foi finalmente posta em liberdade, os
Bennington a levaram de volta para a casa da sra. Cabot,
onde Margaret e Anne ocuparam-se dela, insistindo para ela
comer todas as horas como se estivesse morrendo de fome.
Considerando seu engano, seus empregadores poderiam ter
fornecido uma passagem de trem e a enviado de volta para
Ohio. Mesmo se eles preferissem não vê-la ser enforcada, eles
não tinham que permitir que uma mentirosa e ladra
permanecesse em sua casa.
Alexander tinha ficado conspicuamente ausente durante
estes longos meses, desaparecendo logo após o tribunal
militar. Por mais gentil que fosse sua família, ninguém
respondia a nenhuma pergunta sobre ele. Emily não
conseguia entender a verdade até que um dia esteve sozinha
com Margaret. A menina compadeceu-se e disse que sabia
somente que ele tinha se juntado à cavalaria regular e
presumia-se que estava em algum lugar a oeste de
Petersburg, preparando uma barreira para a infantaria
durante sua retirada. Sua mãe e sua tia não queriam que
Emily se preocupasse enquanto estava trancada e incapaz de
fazer qualquer coisa além de se preocupar.
Isso já fazia meses. Tudo mudou quando os jornais
anunciaram o que todos haviam antecipado ― e os sulistas
temiam: a rendição de Robert E. Lee no Tribunal de
Appomattox para Ulysses S. Grant. Finalmente a guerra
acabou. Naquela primavera, quando a rendição parecia

413
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

inevitável, os Bennington voltaram para Front Royal para


ajudar os Hunt a restaurar o que restava da Fazenda Hunt.
Com poucas alternativas, Emily tinha seguido junto como a
rebarba presa a bainha de um vestido.
Emergindo do vestiário banhada e revigorada, Emily
ouviu uma segunda batida na porta.
― Quer que eu atenda? ― Perguntou ela.
Lila apareceu usando seu belo vestido.
― Não, eu atendo a porta. Você espera atrás do biombo.
Emily deu um passo em torno dela.
― Você não deve ser vista no dia do seu casamento.
― Somente por William e este homem sabe muito bem
que não deve me espreitar antes do tempo. Você também não
pode abrir a porta vestida em suas roupa de baixo. ― Lila
disparou na frente de Emily, bloqueando seu caminho com as
mãos nos quadris.
― Provavelmente é outra empregada com uma bandeja
de café…
― Deixe-me trabalhar no meu último dia como
empregada de uma senhora. ― Lila insistiu. ― Amanhã eu
serei a esposa de um treinador de cavalos.
― O céu ajude aquele homem se ele passar por isso.
― O céu irá.
― Como você deseja.
Emily cedeu enquanto o golpe se tornava mais
insistente.

414
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Alguém abra essa porta maldita. ― Uma voz furiosa


permeou o carvalho maciço. ― Quero falar com a senhorita
Harrison.
Reconhecendo a voz, Emily congelou onde estava no
grosso tapete oriental.
― Eu receio que isso não seja possível, senhor. ― Lila
soou doce como açúcar.
― Eu preciso vê-la e não vou embora.
― Mas ela está indisposta, sr. Hunt.
― As acusações de espionagem foram descartadas
baseadas em minha palavra de que a senhorita Harrison não
causará mais prejuízo ao Sul. Ela pode ter saído por uma
janela e estar a meio caminho de Ulysses S. Grant, uma vez
que ela me viu subir. ― Alexander mudou de voz para
combinar com o tom de Lila.
Isto era demais. Emily voou para a porta como uma
vespa zangada.
― Mesmo em Front Royal, nós recebemos a notícia de
que a guerra terminou. ― Emily empurrou Lila para o lado e
abriu a ampla porta. ― O General Lee assinou as cláusulas
da rendição com o General Grant em Appomattox.
Os olhos de Alexander vaguearam dos pés descalços de
Emily até seus cachos úmidos em desordem ao redor de seus
ombros.
― Meu Deus, senhorita Harrison. Onde estão suas
roupas?

415
A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Percebendo que ela usava apenas uma camisa e


ceroulas, Emily tentou bater a porta, mas sua bota foi mais
rápida.
― Por favor, sr. Hunt. Você não tem nenhum direito no
dormitório de uma senhora. ― Ela pegou o longo roupão que
Lila estava segurando e atou-o firmemente em torno de sua
cintura.
― Nem mesmo quando a senhora é minha esposa? ―
Alexander empurrou-se para dentro da sala.
Recuperando um pouco de sua compostura, Emily
respondeu com sua melhor voz aprendida na escola.
― Sim, eu não tive a oportunidade de agradecê-lo por
seu estratagema no tribunal. Se não fosse por você eu teria
sido enforcada ou ainda estaria naquele lugar repugnante. Eu
estou verdadeiramente agradecida. ― Ela estendeu a mão
educadamente.
Alexander olhou para sua mão, mas balançou a cabeça.
― Somente um agradecimento não basta, senhorita
Harrison. Do jeito que eu vejo isto, você tem que se casar
comigo ou eu serei um mentiroso. Todos naquele tribunal
ouviram meu testemunho. E graças a um repórter na galeria,
todos que podem ler um jornal na Virgínia acreditam que
você é minha esposa. Eu não desejo dar testemunho falso de
maneira tão pública.
Perplexa, Emily permaneceu muda por vários
momentos.

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Mas a guerra acabou. Um tribunal militar confederado


não tem poder para reintegrar acusações contra mim. A
União será restaurada.
― Você acha que está tudo bem se eu parecer um
mentiroso agora que seu pescoço lindo foi salvo? ― Ele
ergueu o queixo enquanto colocava uma mão sobre o coração.
― E a minha honra?
Ela engoliu sofregamente, movendo-se para aumentar a
distância entre eles.
― Sim, há sua famosa honra do sul, mas eu tenho
certeza de que uma pequena mancha seria infinitamente
melhor do que ser amarrado a uma yankee infiltrada e
mentirosa como esposa.
Ele arqueou uma sobrancelha.
― Talvez, mas não seria uma leve mancha agora que eu
voltei para o rebanho cristão. Eu estaria quebrando um
mandamento e eu preferiria não o fazer. Então em vez disso,
eu vou ficar com a infiltrada e mentirosa yankee, se você não
se importa. ― Alexander piscou para ela antes de um sorriso
abranger seu rosto.
― Eu tomei uma decisão sobre o meu futuro esta
manhã. ― Ela encontrou seus olhos diretamente. ― Eu não
posso abusar da hospitalidade dos Bennington para sempre.
Como suas filhas estão velhas demais para precisar de uma
governanta, eu escrevi para diversas academias femininas
para possíveis posições. Então por favor, Alexander, não me
provoque. ― Sentindo a cor inundar seu rosto, ela olhou para
seus pés descalços. ― Eu devo muito a você e à sua família,

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

inclusive minha vida. Você exigirá minha humilhação em


troca? A dor de deixar aqueles que eu comecei a amar deveria
ser castigo suficiente.
― Eu não provocaria você sobre um assunto tão
importante. ― Ele fechou a distância entre eles e gentilmente
a puxou contra seu peito. ― Nada mudou para mim desde a
noite que eu disse que te amava. ― Ele levantou o queixo dela
para encontrar o seu olhar.
Afastando-se, Emily caminhou até as portas francesas
abertas. Trabalhadores, não mais escravos, estavam
erguendo uma tenda no jardim dos fundos, ao lado da cerca
do pasto. Embora os Hunt gostassem muito de Lila, criar algo
tão extravagante para o casamento de um empregado
surpreendeu Emily.
― Isso foi há muito tempo. Muita coisa aconteceu desde
então. ― Ela não se virou mesmo quando o sentiu atrás dela.
― Eu não quero que você se case comigo por algum senso
equivocado de honra.
― Maldição, Emily! Você realmente acha que eu me
casaria com você para me proteger do que as pessoas pensam
de mim?
Não se atrevendo a responder, ela olhou para o chão
com os olhos inundados de lágrimas.
― Deixe-me fazer três perguntas e você deve dizer a
verdade. Você me deve isso.
―O que eu já não confessei?
― Você fingiu paixão por mim no jardim durante o baile?
― Certamente que não. Eu não poderia fingir algo assim.

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Você veio a Middleburg naquela noite para avisar-me


de algo que você não fazia parte?
― Por minha honra, eu nunca faria mal a você ou a sua
família. ― Emily mordeu o lábio inferior para impedi-lo de
tremer.
Infelizmente, sua terceira pergunta não foi formulada,
pois Margaret e Anne marcharam para dentro do quarto com
exuberância juvenil. Margaret carregava no braço um vestido
drapeado e Anne agitava um par de sapatilhas bordadas.
― O que é tudo isso? ― Perguntou Emily apontando para
o vestuário.
― É o seu vestido de casamento, é claro. ― Margaret
respondeu à sua governanta como se ela tivesse perdido seu
juízo.
― Lila vai se casar, não eu. Se você olhar, verá que ela já
tem um vestido. ― Emily agitou uma mão para Lila, que
estava silenciosamente em pé enquanto ela observava o
procedimento em seu vestido extravagante.
― Você está linda, Lila. Felicidades para você. ―
Margaret sorriu para sua ex-criada antes de se voltar para
Emily. ― Não, senhorita Harrison. Vocês duas irão se casar
hoje.
― Papai disse que ele quer “livrar-se dos dois espinhos
em seu pé de uma só vez.” Implorando seu perdão, senhorita
Harrison. ― Annie acrescentou uma recatada meia mesura.
― Dois espinhos em seu…

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Por favor, pare de se preocupar e deleite seus olhos


com a costura que mamãe encomendou há seis meses. ―
Margaret levantou o vestido mais magnífico que Emily já vira.
― Encomendou há seis meses? ― O quarto parecia
excessivamente quente enquanto Emily olhava espantada.
Feito de cetim com uma sobreposição de rendas, tinha um
corpete apertado, um decote em forma de coração, mangas
ajustadas para coincidir com a sobreposição de renda e uma
saia cheia. Um movimento elaborado acentuava a cauda de
renda e cetim em um grande efeito.
― Ele chegou há poucos momentos. ― Margaret ignorou
a perplexidade de Emily. ― Olhe para todas as pérolas
delicadas que a costureira adicionou.
― É de tirar o fôlego, mas certamente não é para mim.
De onde você tirou esta ideia, além do que seu pai disse? Eu
não posso culpá-lo por estar zangado comigo.
― Oh, ele não está bravo com você, senhorita Harrison.
Ele está feliz da vida. Ele pretende levá-la até o altar, se você
permitir.
Emily não estava conseguindo acompanhá-la. Margaret
deve ter descoberto os romances baratos enquanto esteve na
França, que encheram sua cabeça com disparates
românticos. Ela virou-se para Lila.
― Isto faz sentido para você?
― Claro. Eu tenho meu pai para me acompanhar. Você
não pode enfrentar o corredor sozinha. ― Lila sorriu
docemente.

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Ele teve a ideia por mim. ― Alexander respondeu com


uma voz tranquila.
Emily virou-se para encará-lo como se algo estivesse
preso em sua garganta.
― É melhor explicar-se, senhor.
Ele tinha se encostado à parede durante a discussão,
como um espectador.
― Eu pedi a meus pais e a tia Augusta para organizar
um casamento assim que eu chegasse em casa. Como
William já tinha me dito seus planos, eu pensei, por que não
ir para o nosso destino certo juntos? De acordo com minha
mãe, todos os convidados chegaram. Até mesmo sua ex-
professora, a senhorita Turner, o Reverendo e a sra. Ames de
Marietta estão lá embaixo. Como o bloqueio foi levantado, eu
vou organizar uma viagem de casamento a Paris, para que
você possa ver por si mesma se a Torre Eiffel valeu o dinheiro
gasto. A imprensa diz que não valeu. E você certamente não
pode culpar tio Porter por esperar que eu leve-a para longe.
Será uma pessoa a menos em seu registro de pagamento.
Meus cozinheiros bem pagos prepararam a festa e minhas
primas estão ansiosas para serem damas de honra para as
duas lindas noivas. ― Anne e Margaret concordaram com a
cabeça.
Então ele respirou fundo e disse:
― Como você pode ver, nenhum detalhe foi esquecido.
― Exceto pelo fato de que eu nunca concordei em casar
com ninguém, principalmente porque ninguém se preocupou

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

em me perguntar. Talvez as minhas acomodações no Castelo


Thunder ainda estejam disponíveis.
― Alexander, quer dizer que você nunca propôs
corretamente? ― Repreendeu Margaret. Ela bateu seu braço
com o leque.
― Que mulher não gostaria de se casar com um bom
partido como eu? Agora, se nos derem licença por alguns
minutos, eu tenho certeza que podemos resolver isto. ―
Alexandre falou com polidez exagerada, como se fosse um
simples mal-entendido. As três mulheres saíram, cada uma
lançando olhares simpáticos para Emily.
― Ninguém pode ser tão arrogante. ― Emily protestou no
momento em que elas saíram. ― Nem mesmo você, um filho
de sangue azul de aristocratas da Virgínia, com sua
concessão de terras diretamente provenientes do rei Charles.
― Você manteria a herança da minha família contra
mim? Você se recusaria a casar-se comigo por causa das
circunstâncias do meu nascimento?
― Não, claro que não. ― Emily bateu o pé com
exasperação.
― Então qual é a sua razão? Todos os nossos escravos
estão livres. Aqueles que escolheram permanecer, são pagos
de forma justa pelo seu trabalho. Eu não estou mais no
exército confederado. E a comunidade da Virgínia foi
restaurada para a União. ― Ele fechou a distância entre eles e
agarrou seus braços. ― Eu te amo mais do que qualquer
coisa no mundo. Eu vou honrá-la e amá-la para sempre se
você concordar em se tornar minha esposa.

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

Ela engoliu em seco enquanto seu rosto ficava sério,


todas as suas réplicas inteligentes e petulantes
desaparecendo.
― Você não fez sua terceira pergunta.
― O quê?
― Antes de sermos interrompidos você disse que eu
deveria responder a três perguntas.
― Você está absolutamente certa. ― Ele enredou seus
dedos em seus cabelos. ― Você me ama, Emily? Eu preciso
saber se você me ama.
A pergunta não era o que ela esperava. Mas era aquela
que ela valorizaria o resto de sua vida.
― Sim, eu te amo, Alexander. ― Emily colocou os braços
em volta do seu pescoço. ― E considerando que alguém se
esforçou muito para fazer este vestido e as pessoas
apareceram esperando uma grande festa, acho que vou casar
com você. ― Emily ouviu uma risadinha junto à porta aberta,
onde três mulheres estavam a observá-los sem vergonha. ―
Além disso, eu preciso estar lá para me certificar de que
William não retome o juízo e saia correndo no último minuto.
― Esplêndido! Uma excelente escolha ― uma que eu vou
fazer que você nunca se arrepender. ― Quando ele se inclinou
para beijá-la, seus olhos captaram o brilho de algo de ouro.
Curioso, ele tirou a delicada corrente de baixo de seu roupão.
― Vejo que você ainda usa o seu medalhão. ― Murmurou. ―
O presente de seus pais após sua formatura na escola da
senhorita Turner.

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A Quaker e o Rebelde ― Mary Ellis

― Bem, por que eu não faria isso? É verdadeiramente


uma bela relíquia de família, não acha? ― Tirando o
medalhão de sua mão, Emily pressionou-o nos lábios. ― Mas
eu não sou mais uma mulher de subterfúgio. ― Ela abriu o
fecho para exibir o interior do medalhão.
Alexander olhou para baixo em sua própria imagem.
― Esse sou eu.
― Eu pedi um daguerreótipo a sua mãe. Eu preferiria
um em seu uniforme e chapéu de plumagem arrojado em vez
deste monótono terno, mas infelizmente este era o único que
ela tinha do tamanho certo.
Fechando o medalhão, Emily o beijou brevemente e
então disse:
― Agora se apresse e troque de roupa. Eu quero me
certificar de que você não tenha tempo de recuperar o juízo.

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