Você está na página 1de 107

Jean-Baptiste Chautard

A alma de todo o

Apostolado
D. Jean-Baptiste Chautard

Abade de Sept-Fons

O.C.R
Índice
Proêmio...........................................................................................................

Parte I

Deus quer as obras e a vida interior............................................................

1. O que é o apostolado?.................................................................................

2. Deus quer que Jesus seja a vida das obras...................................................

3. O que é a vida interior?...............................................................................

4. Esta vida interior é muito pouco conhecida................................................

5. Resposta a uma primeira objeção: É ociosa a vida interior?.....................

6. Resposta a uma segunda objeção: É egoísta a vida interior?....................

7. Objeção decorrente da importância da salvação das almas.......................

Parte II

União da via ativa e da vida interior..........................................................

1. Prioridade da vida ativa sobre a vida interior............................................

2. As obras devem transbordar da vida interior...............................................

3. A base, o fim e os meios de uma obra devem estar impregnados de vida


interior.............................................................................................................

4. A vida interior e a vida ativa reclamam-se mutuamente...........................

5. Excelência desta união................................................................................

Parte III

A vida ativa, unida à vida interior, assegura o progresso na


virtude.............................................................................................................

1. As obras: meio de santificação, ou perigo para a salvação?.......................

a) Meio de santificação.............................................................................

b) Perigo para a salvação...........................................................................


2. Do apóstolo sem vida interior.....................................................................

3. A vida interior, base da santidade do apóstolo............................................

a) Acautela a alma contra os perigos do ministério exterior.....................

b) Repara as forças do apóstolo.................................................................

c) Multiplica as suas energias...................................................................

d) Dá-lhe alegrias e consolações...............................................................

e) Acrisola a sua pureza de intenções........................................................

f) É escudo contra o desânimo..................................................................

Parte IV

A vida interior é condição da fecundidade das obras................................

1. A vida interior atrai as bênçãos de Deus.....................................................

2. Torna o apóstolo santificador, pelo bom exemplo......................................

3. Produz no apóstolo uma irradiação sobrenatural........................................

4. Dá ao apóstolo a verdadeira eloqüência......................................................

5. A vida interior do apóstolo gera nas almas a vida interior..........................

6. Importância da formação das elites e da direção espiritual.......................

a) A verdadeira direção espiritual............................................................

b) Classificação útil para a direção espiritual..........................................

7. A vida eucarística resume a fecundidade do apostolado.............................

Parte V

Alguns princípios e advertências para a vida interior...............................

1. Convicções e princípios...............................................................................

2. A meditação, elemento indispensável do apostolado..................................

a) Fidelidade à meditação da manhã.........................................................


b) O que deve ser a meditação...................................................................

c) Como se faz a meditação......................................................................

3. A vida litúrgica, fonte de vida interior e de apostolado..............................

a) O que é a liturgia?.................................................................................

b) O que é a vida litúrgica?.......................................................................

c) Espírito litúrgico. Três princípios.........................................................

d) A vida litúrgica favorece a permanência do sobrenatural em todas as nossas


ações.........................................................................................

e) A vida litúrgica amolda a nossa vida interior à de Jesus Cristo............

f) A vida litúrgica faz-nos viver, já na Terra, a vida do Céu....................

g) Prática da vida litúrgica.........................................................................

A. Preparação remota.......................................................................

B. Preparação próxima....................................................................

C. Desempenho da função litúrgica.................................................

4. A guarda do coração, ponto capital da vida interior e, por conseguinte, do


apostolado...................................................................................................

a) Necessidade da guarda do coração........................................................

b) Presença de Deus, base da guarda do coração......................................

c) A devoção a Nossa Senhora facilita a guarda do coração.....................

d) Aprendizagem da guarda do coração....................................................

e) Condições da guarda do coração...........................................................

5. O apóstolo deve possuir uma ardente devoção a Nossa Senhora................

a) Para a vida interior pessoal...................................................................

b) Quanto à fecundidade do apostolado....................................................

Epílogo............................................................................................................
A alma de todo o apostolado
Autógrafo de S. S. Bento XV
Ao Nosso caríssimo filho, Dom Jean-Baptiste Chautard, Abade da Trapa de Nossa Senhora de
Sept-Fons, enviamos as nossas mais calorosas felicitações, por ter posto em evidência de maneira
admirável, no seu livro intitulado “A alma de todo o apostolado”, a necessidade da vida interior nos
homens de obras, para a verdadeira fecundidade do seu ministério.

Desejando que esta obra, onde se encontram reunidos os ensinamentos doutrinais e os


conselhos práticos acomodados às necessidades do nosso tempo, continue a difundir-se e a fazer bem,
concedemos de todo o coração ao seu piedoso autor uma afetuosa Bênção Apostólica.

Vaticano, 18 de Março de 1915.

Benedictus PP, XV.

Palavras do Cardeal Vico que acompanharam o envio da carta do Sumo Pontífice:

Apresso-me em fazer chegar às suas mãos o pergaminho apenso que S. S. o Papa Bento XV
houve por bem encarregar-me de remeter-lhe.

Certamente, lerá no augusto autógrafo os belos elogios que Sua Santidade faz ao
seu precioso livro “A alma de todo o apostolado”. O Santo Padre leu esse livro com
vivíssima satisfação.

Já o Papa Pio X, de santa memória, me tinha encarregado de transmitir as suas


vivas felicitações ao piedoso prelado espanhol, que traduziu a sua obra para a língua
castelhana.

Palavras de São Pio X, durante a visita ad limina dos bispos do Canadá, em 1914:

“Se quereis que Deus abençoe e torne fecundo o vosso apostolado, empreendido
para a sua glória, impregnai-vos bem do espírito de Jesus Cristo, procurando adquirir
uma intensa vida interior. Para este fim, não vos posso indicar melhor guia do que “A
alma de todo o apostolado” de Dom Chautard, abade cisterciense. Recomendo-vos,
calorosamente, esta obra, que estimo particularmente, e da qual fiz o meu próprio livro
de cabeceira”.

“Ex quo omnia, per quem omnia, in quo omnia”. 1


Ó Deus magnífico e bondosíssimo, como são admiráveis e deslumbrantes as verdades que a Fé
nos manifesta acerca da vossa inefável vida íntima!
Pai Santo, contemplais no Verbo Eterno a vossa perfeita imagem, e o Verbo
contempla enlevado a vossa adorável beleza. Do vosso êxtase comum ateia-se um
grande incêndio de amor: o Espírito Santo.

Só Vós, ó Trindade adorável, sois a vida interior perfeita, superabundante,


infinita!

Bondade sem limites, desejais difundir a vossa própria vida. Dizeis uma palavra:
e as obras irrompem do nada para manifestar as vossas perfeições e cantar a vossa
glória.

Existe um abismo entre Vós e as criaturas; o vosso Espírito de amor quer


preenchê-lo: satisfará, assim, a sua imensa necessidade de amar e de se dar. Decidis,
pois, por insondáveis desígnios, realizar a obra da nossa divinização: este pobre barro,
modelado pelas vossas mãos, poderá ser deificado e participar na felicidade eterna. O
vosso Verbo fez-se carne, para realizar esta obra.2

Contudo, ó Verbo Eterno, nunca abandonastes o seio do vosso Pai. Nele subsiste
a vossa vida essencial, e é dessa fonte divina que jorram as maravilhas do vosso
apostolado.

Ó Jesus, Emanuel, confiastes aos vossos apóstolos o Evangelho, a Cruz e a


Eucaristia, dando-lhes a missão de irem por toda a parte gerar, para o vosso Pai, filhos
de adoção.

Depois, voltastes para o Pai.

É a Vós, Espírito divino, que compete agora santificar e governar o Corpo


Místico do Homem-Deus.

A fim de fazer descer a vida divina da cabeça para os membros, quisestes


escolher colaboradores para a vossa obra. Abrasados pelo fogo do Pentecostes, partiram
eles para todo o mundo, a fim de semear nas inteligências o verbo que ilumina, e nos
corações a graça que inflama, comunicando aos homens essa vida divina, da qual sois a
plenitude.

***

Ó Fogo divino, excitai em todos aqueles que participam no vosso apostolado os


ardores que transformaram os felizes Apóstolos reunidos no Cenáculo! Eles deixarão de
ser simples pregadores do dogma e da moral, para se tornarem transfusores vivos do
sangue divino nas almas.
Espírito de luz, gravai esta verdade no espírito dos vossos apóstolos: o seu
apostolado só será eficaz na medida em que possuam essa vida sobrenatural interior, de
que Vós sois o princípio supremo, e Jesus Cristo a fonte.

Ó Caridade infinita!, incendiai as suas vontades num desejo ardente de vida


interior. Infundi nos seus corações o suave e intenso perfume da vossa graça e fazei-lhes
sentir que, neste mundo, a verdadeira felicidade só se encontra nessa vida interior, que é
uma participação na própria vida do Coração de Jesus, no seio do Pai de todas as
misericórdias e de todo o amor.

***

Ó Maria Imaculada, Rainha dos Apóstolos, dignai-vos abençoar estas modestas


páginas. Fazei compreender àqueles que as lerem, que, se Deus quiser servir-se deles
para difundir nas almas os seus bens celestes, só obterão resultados se a sua atividade,
de algum modo, participar na natureza do Ato divino. Ato que Vós contemplastes no
próprio Deus, quando no vosso seio virginal encarnou Aquele a quem devemos o
incomparável dom de poder chamar-vos nossa Mãe.
Parte I
Deus quer as obras e a vida interior

1. O que é o apostolado?
Deus é a bondade infinita. A bondade anseia difundir-se e comunicar generosamente os bens
que possui.

A vida terrena de Nosso Senhor Jesus Cristo foi uma contínua manifestação dessa inesgotável
liberalidade. O Evangelho mostra-nos o Redentor a semear pelos caminhos da terra os tesouros de
amor de um Coração desejoso de atrair os homens para a verdade e para a vida.

Jesus comunicou à sua Esposa mística esta chama de apostolado. Animada por esse fogo, a
Igreja —que é dádiva do seu amor, difusão da sua vida, manifestação da sua verdade, fulgor da sua
santidade— continua, no decurso dos séculos, a obra de apostolado do seu divino Modelo.

Desígnio admirável, lei universal estabelecida pela Providência! “É por meio do homem que o
homem deve conhecer o caminho da salvação”.3 Somente Jesus Cristo derramou o sangue que resgata
o mundo. Ele teria podido, se quisesse, aplicar a virtude desse sangue e agir imediatamente sobre as
almas, como faz na Eucaristia. Quis, porém, servir-se de colaboradores para distribuir os seus
benefícios. Porquê? Porque a majestade divina assim o exige. Mas não só: move-o também o seu
infinito amor por nós. Se os grandes monarcas governam por intermédio dos seus ministros, que
condescendência a de Deus, em querer associar pobres criaturas às suas lutas e à sua glória!

Nascida sobre o patíbulo da cruz, saída do lado trespassado do divino Salvador, a Igreja
perpetua, por meio do ministério apostólico, a ação amorosa e redentora do Homem-Deus.

Desejado por Jesus Cristo, torna-se este ministério o fator essencial da propagação dessa Igreja
pelas nações e o mais habitual instrumento das suas conquistas.

Na primeira linha o clero, que constitui a hierarquia do exército de Cristo. Clero ilustrado por
tantos bispos e sacerdotes santos, e tão gloriosamente honrado pela elevação do santo Cura de Ars às
honras dos altares.

Ao lado deste clero oficial, surgiram, desde as origens do cristianismo, numerosas companhias
de voluntários, verdadeiras milícias de escol, que são um dos fenômenos mais evidentes da vitalidade
da Igreja.

Logo nos primeiros séculos, aparecem as Ordens contemplativas, que tanto contribuíram, com
orações fervorosas e duras penitências, para a conversão dos gentios. Na Idade Média, surgem as
Ordens dos pregadores, as Ordens mendicantes, as Ordens militares, as Ordens votadas à heróica
missão de resgatar os cativos em poder dos infiéis. Enfim, os tempos modernos vêem nascer uma
enorme quantidade de congregações e institutos dedicados às missões, às obras de caridade e ao
ensino, cuja missão é espalhar o bem espiritual e corporal sob as mais diversas formas.

Por outro lado, em todas as épocas da sua história, a Igreja recebeu a preciosa colaboração dos
simples fiéis, que, unindo-se em grupos de trabalho, sacrificam com entusiasmo o seu tempo,
capacidades, fortuna, liberdade e, quantas vezes, o próprio sangue, para servir a nossa Mãe comum.
Como é admirável e consolador o florescimento providencial de todas essas obras, que nascem no
momento preciso e se adaptam maravilhosamente às circunstâncias! Nas necessidades novas, ou nos
perigos, a Igreja viu aparecer sempre a instituição certa para a finalidade certa.

Para responder aos grandes males que afligem a nossa época, vemos surgir uma multidão de
obras, que, ontem, ainda mal se conheciam: o catecismo de preparação para a primeira comunhão, o
catecismo de perseverança, o catecismo para as crianças abandonadas, congregações, confrarias,
reuniões e retiros para adultos e jovens, apostolados da oração, da imprensa e da caridade, as ligas para
a santificação dominical, os patronatos, os círculos católicos, as obras militares, as escolas, etc., enfim,
todas as formas de apostolado, suscitadas por esse espírito que inflamava a alma de S. Paulo, ansiosa
por difundir, em toda a parte, os benefícios do sangue de Cristo: “Quanto a mim, de muito boa
vontade, darei o que é meu e dar-me-ei a mim mesmo pelas vossas almas” (2 Cor 12, 15).

Possam estas humildes páginas ajudar os heróicos combatentes que se expõem, pelo próprio
exercício da sua nobre missão, ao perigo de perderem a sua vida interior, e que, por isso mesmo,
podem ser tentados —perante os conseqüentes fracassos, aparentemente inexplicáveis, ou perante
graves crises espirituais— a abandonarem a luta!

Os pensamentos contidos neste livro têm ajudado o autor destas linhas a preservar a sua vida
interior no meio das obras. Queira Deus que eles possam ajudar esses apóstolos, poupando-lhes
grandes desgostos, e orientando o seu zelo, de modo a compreenderem que o Deus das obras não deve
ser abandonado pelas obras de Deus; e que o brado de São Paulo, “Ai de mim se não evangelizar!” (1
Cor 9, 16), não nos concede o direito de esquecer a inquietante pergunta de Jesus: “Que aproveita ao
homem ganhar o mundo inteiro, se vier a perder a sua alma?” (Mt 16, 26).

Os pais e mães de família, para quem a “Introdução à vida devota” de São Francisco de Sales
não é um livro antiquado; os esposos cristãos, que se consideram obrigados —entre si e com os
filhos— a um apostolado que cultive o amor e a imitação do Salvador, podem, igualmente, aplicar os
ensinamentos destas modestas páginas. Poderão, assim, compreender que uma autêntica vida de
piedade tornará mais eficazes os seus esforços e perfumará o seu lar com o espírito de Jesus Cristo, e
com essa paz inalterável que, apesar das provações, há de ser sempre o apanágio das famílias
profundamente cristãs.

2. Deus quer que Jesus seja a vida das obras


A ciência proclama, e com razão, os seus imensos triunfos. Mas há uma coisa que nunca conseguirá:
criar a vida, formar um grão de trigo ou uma larva no laboratório de um químico. Deus reserva para Si o poder
de criar a vida.

Na ordem vegetal e animal, o Criador quis a contribuição dos seres vivos, que colaboram, e
podem interferir, no crescimento e multiplicação das espécies, embora a sua fecundidade se realize,
sempre, dentro das condições estabelecidas por Deus. Porém, quanto à criação da alma racional, Ele
reserva-a, unicamente, para Si.

Ora, existe um domínio no qual o Criador é ainda mais cioso: o domínio da vida sobrenatural.
A Encarnação e a Redenção constituíram Jesus como fonte —e fonte única— dessa vida divina, na
qual todos os homens são chamados a participar. A ação essencial da Igreja consiste em difundir essa
vida por meio dos sacramentos, da oração, da pregação e de todas as suas obras.
Deus tudo faz por meio do seu Filho. “Todas as coisas foram feitas por Ele; e nada do que foi
feito, foi feito sem Ele” (Jo 1, 3). Se isto é assim na ordem natural, quanto mais na ordem sobrenatural,
pela qual Ele comunica aos homens a sua própria natureza, e os torna Filhos de Deus.

“Eu vim para que tenham Vida, e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). “N’Ele estava a Vida,
e a Vida era a luz dos homens” (Jo 1, 4). “Eu sou a Vida” (Jo 14, 6). Que precisão nestas palavras! Que
luz na parábola da videira e dos sarmentos, onde o Mestre desenvolve esta verdade! Com que
insistência procura Ele gravar no espírito dos seus Apóstolos este princípio fundamental: só Jesus é a
vida; e esta conseqüência: para participar nessa Vida e comunicá-la aos outros, devemos ser
enxertados no Homem-Deus!

Os homens chamados para transmitir às almas a vida divina devem, portanto, considerar-se
como simples canais, por onde há de circular essa vida, que eles só poderão receber da única fonte, que
é Jesus.

Grosseiro erro teológico deixaria transparecer o apóstolo que ignorasse estes princípios, e
julgasse poder produzir o mais pequeno vestígio de vida sobrenatural, sem a haurir, unicamente, em
Jesus.

Desordem menor, mas também grave aos olhos de Deus, é a daquele, que, embora reconheça o
Redentor como fonte da vida divina, esquece, na prática, esta verdade e só conta com as suas próprias
forças.

Falamos aqui, somente, da desordem intelectual, que implica a negação de um princípio, ao


qual devemos aderir em espírito e conformar a nossa conduta; e não da desordem moral do homem de
obras, que reconhece o Salvador como fonte única da graça e espera d’Ele o êxito, mas tem o coração
em desacordo com o d’Ele, devido ao pecado ou à tibieza voluntária.

O Cardeal Mermillod qualificou como heresia das obras a atitude do apóstolo que, por
esquecer o seu papel secundário e subordinado, espera o êxito do seu apostolado, unicamente da sua
atividade pessoal e dos seus talentos.

“Heresia das obras”! A ação de Deus substituída pela atividade humana, orgulhosa e febril; a
vida sobrenatural, o poder da oração, a economia da Redenção desprezadas ou esquecidas! Neste
século de naturalismo é freqüente encontrarmos pessoas de obras que procedem como se o êxito
dependesse, principalmente, das suas engenhosas organizações. Na sua insensatez, parecem dizer:
“Meu Deus, não levanteis obstáculos à minha empresa, não prejudiqueis o seu funcionamento, que eu
encarrego-me de a levar a bom termo.”

Deus confunde esses falsos apóstolos —que julgam poder comunicar a fé, a vida sobrenatural,
a virtude, ou fazer cessar o pecado, sem atribuir esses efeitos, unicamente, ao sangue preciosíssimo de
Cristo— e as suas obras de orgulho acabam por fracassar ou apenas provocam miragens efêmeras.

Ressalvando tudo o que se opera nas almas ex opere operato, Deus nega ao apóstolo arrogante
as suas melhores bênçãos, para reservá-las ao ramo que, humildemente, reconhece só poder haurir a
sua seiva no tronco divino.
3. O que é a vida interior?

Quando empregamos as palavras vida de oração, contemplação, vida contemplativa —termos


que se encontram nos Padres da Igreja e nos escolásticos— a nossa intenção é sempre designar a vida
interior normal, acessível a todos, e não os estados pouco comuns de oração que a teologia mística
estuda, e a fortiori êxtases, visões, arroubamentos, etc.

Sairíamos do nosso plano, se nos demorássemos num estudo de ascetismo. Limitamo-nos a


recordar, em poucas palavras, o que todos os católicos devem aceitar como absolutamente certo, no
que diz respeito ao governo da sua alma.

1ª verdade. A vida sobrenatural é a vida do próprio Jesus Cristo em mim, pela fé, pela
esperança e pela caridade.

A presença de Nosso Senhor, por meio desta vida sobrenatural, não é a presença real, própria
da sagrada comunhão, mas uma presença de ação vital, como pode ser, no corpo humano, a ação da
cabeça ou do coração sobre os membros; ação íntima, que Deus, quase sempre, me oculta, tornando-a
insensível às minhas faculdades naturais, para aumentar o mérito da minha fé; ação divina que deixa
subsistir o meu livre arbítrio e utiliza as causas segundas —acontecimentos, pessoas e coisas— para
me fazer conhecer a vontade de Deus e aumentar a minha participação na vida divina.

Esta vida, iniciada no Baptismo, pelo estado de graça; aperfeiçoada pela Confirmação;
conservada e enriquecida pela Eucaristia, é a minha vida cristã.

2ª verdade. Jesus Cristo comunica-me o seu Espírito por meio desta vida, e torna-se, assim, o
princípio superior que me leva —caso não Lhe ponha obstáculos— a pensar, julgar, amar, querer,
sofrer e trabalhar com Ele, por Ele e n’Ele. As minhas acções exteriores tornam-se manifestações desta
vida de Jesus em mim, e começo a realizar o ideal de vida interior formulado por S. Paulo: “Já não sou
eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20).

A vida cristã, a piedade, a vida interior, a santidade não diferem essencialmente entre si; são os
diversos graus de um só e mesmo amor; são a aurora, a luz e o esplendor do mesmo sol.

A minha vida interior há de ser, pois, a minha vida cristã aperfeiçoada. O essencial da vida
cristã limita-se aos esforços necessários para conservar a graça santificante. A vida interior vai mais
além. Visa o desenvolvimento desta graça, procura atrair graças Atouais abundantes e corresponder a
elas. Posso, assim, defini-la como o estado de atividade da alma que regula as suas inclinações
naturais, e se esforça por adquirir o hábito de julgar e de se dirigir em tudo pela luz do Evangelho e os
exemplos de Nosso Senhor.

Portanto, dois movimentos. Em virtude do primeiro, a alma subtrai-se a tudo quanto as


criaturas possam ter de contrário à vida sobrenatural, e procura estar incessantemente presente a si
mesma: Aversio a creaturis. Em virtude do segundo, a alma tende para Deus e com Ele se une:
Conversio ad Deum.

Assim é que a alma quer ser fiel à graça que Nosso Senhor lhe oferece a cada momento. Em
suma, vive unida a Jesus e realiza a sua vontade: “O que permanece em Mim, e Eu nele, esse dá muito
fruto; porque sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15, 5).
3ª verdade. Privar-me-ia de um dos mais poderosos meios de adquirir esta vida interior, se me
não esforçasse por ter fé precisa e sólida nesta presença ativa de Jesus em mim, e, sobretudo, por
alcançar que essa presença se torne em mim uma realidade viva, vivíssima até, que vá penetrando,
cada vez mais, a atmosfera das minhas faculdades. Jesus tornar-se-á, assim, a minha luz, o meu ideal, o
meu conselho, o meu apoio, o meu recurso, a minha força, o meu médico, a minha consolação, a
minha alegria, o meu amor, numa palavra a minha vida. Adquirirei, deste modo, todas as virtudes.
Somente então poderei dizer, com toda a sinceridade, a admirável oração de S. Boaventura, que a
Igreja aconselha como ação de graças depois da missa: “Feri, dulcíssimo Jesus, o mais íntimo e
profundo do meu ser com o dardo suavíssimo e salutar do vosso amor...”

4ª verdade. A minha vida sobrenatural pode crescer, a cada instante, em proporção com a
intensidade do meu amor a Deus, por meio de nova infusão da graça da presença ativa de Jesus em
mim. Tal infusão é produzida através dos atos meritórios (virtude, trabalho, sofrimentos, oração,
Missa, etc.) e pelos sacramentos, sobretudo a Eucaristia.

É pois certo —e esta consequência esmaga-me com a sua grandeza, mas também me enche de
júbilo— que por meio de cada pessoa ou acontecimento, Jesus manifesta-se a mim, ocultando, sob
essas aparências, a sua sabedoria e amor.

É sempre Jesus que se apresenta à minha alma, por meio da graça do momento presente —
Missa, oração, leitura, atos de caridade, de renúncia, de luta, de confiança— solicitando sempre a
minha cooperação para aumentar em mim a sua vida. Ousarei esconder-me?

5ª verdade. A tríplice concupiscência, causada pelo pecado original, e aumentada por cada
pecado Atoual, gera em mim elementos de morte opostos à vida de Jesus. Ora, essas inclinações e
tentações diminuem esta vida e podem chegar a suprimi-la. Mas, se a minha vontade resistir, elas não
lhe causarão qualquer prejuízo. Pelo contrário, contribuirão, como qualquer elemento de combate
espiritual, para aumentá-la, conforme a medida do meu esforço.

6ª verdade. Sem o emprego fiel de certos meios, a inteligência obscurece-se e a vontade torna-
se fraca para cooperar com Jesus no aumento e conservação da sua vida em mim. A diminuição dessa
vida produz a tibieza da vontade. 4 A dissipação, a cobardia, a ilusão, fazem-me cair nos pecados
veniais. E estes põem em risco a minha salvação, porque dispõe a minha alma para o pecado mortal.

Se tiver a infelicidade de cair nesta tibieza (e a fortiori se ainda cair mais baixo), devo tentar
tudo para dela sair, reavivando o meu temor de Deus, pondo-me em presença do meu fim, da morte,
dos juízos de Deus, do inferno, da eternidade, do pecado, etc., e reacendendo o meu amor a Jesus,
pela consideração das suas chagas, da sua paixão e morte na cruz. Irei em espírito ao Calvário, onde
me prostrarei aos pés sacratíssimos do Redentor, a fim de que o seu sangue vivo, correndo pela minha
cabeça e pelo meu coração, dissipe a cegueira e o gelo da minha alma e galvanize a minha vontade.

7ª verdade. Se a minha sede de viver de Jesus deixar de aumentar, é porque não possuo o grau
de vida interior que Ele exige de mim. Tal sede há de dar-me o desejo de Lhe agradar em tudo e o
temor de Lhe desagradar. Também é indispensável o mínimo de recolhimento, que me permita, no
decurso das ocupações, conservar o coração numa pureza e generosidade suficientemente grandes para
não ser abafada a voz de Jesus. Ora, essa sede diminuirá, certamente, se não puser em prática certos
meios: oração da manhã, vida litúrgica, sacramentos, comunhões espirituais, exame de consciência,
leitura espiritual, etc., ou se, por culpa minha, esses meios já nada me dizem.
Sem vida interior e recolhimento, os pecados veniais hão-de multiplicar-se na minha vida, e
chegarei a não fazer caso deles. Para os ocultar e enganar-me a mim mesmo, servirão as aparências de
piedade, o zelo pelas obras, etc..

8ª verdade. A minha vida interior será o que for a minha guarda do coração: “Aplica-te com
todo o cuidado possível à guarda do teu coração, porque dele é que procede a vida” (Prov 4, 23).

Esta guarda do coração é a solicitude em preservar todos os meus atos, de tudo o que pode
viciar a sua causa motriz ou a sua prática. Solicitude tranquila, natural, mas também enérgica, pois
baseia-se no recurso filial a Deus.

É trabalho mais do coração e da vontade que do espírito, o qual deve ficar livre para a prática
dos seus deveres. Longe de embaraçar a ação, a guarda do coração aperfeiçoa-a, regulando-a pelo
espírito de Deus e acomodando-a aos deveres de estado.

Este exercício pratica-se a todo o momento. É uma observação, por meio do coração, das
acções presentes e das diversas partes de cada ação, à medida em que elas se realizam. É a observância
exAtoa do age quod agis. Como sentinela vigilante, a alma observa, atentamente, os movimentos do
seu coração, e vigia as suas inclinações, as paixões, as palavras e as acções.

A guarda do coração exige certo recolhimento; uma alma dissipada não consegue realizá-la.
Mas com a sua prática frequente, adquire-se o hábito.

Para onde vou? Que faria Jesus em meu lugar? O que me aconselharia? Que exige Ele de mim
neste momento? Tais são as interrogações que, espontaneamente, se apresentam à alma sedenta de vida
interior.

Para a alma que vai a Jesus, por meio de Maria, a guarda do coração reveste-se de um carácter ainda
mais afectivo, e o recurso a esta boa Mãe torna-se verdadeira necessidade para o seu coração.

9ª verdade. Quando uma alma procura imitar Jesus, em tudo e com todo o afecto, Ele reina
nela. Nesta imitação há dois graus: 1º A alma esforça-se por se tornar indiferente às criaturas,
consideradas em si mesmas, quer sejam conformes quer contrárias aos seus gostos. A exemplo de
Jesus, apenas procura a vontade de Deus: “Eu desci do céu, não para fazer a minha vontade, mas a
d’Aquele que Me enviou” (Jo 6, 38). 2º “Jesus Cristo não procurou o que lhe era agradável” (Rom 15,
3). A alma inclina-se de melhor vontade para o que a contraria e repugna à natureza. Realiza então o
agere contra (agir contra) de que fala Santo Inácio na sua célebre meditação do Reino de Cristo. É a
ação contra a natureza, a fim de se preferir o que imita a pobreza do Salvador e o seu amor pelos
sofrimentos e pelas humilhações. Segundo a expressão de S. Paulo, é, então, que a alma conhece,
verdadeiramente, a Cristo (Ef 4, 20).

10ª verdade. Seja qual for o meu estado, Jesus oferece-me, caso queira rezar e corresponder à
sua graça, todos os meios de regressar à vida interior. Então, a minha alma não cessará de possuir a
alegria, mesmo até no seio das provações, e nela se realizarão as palavras de Isaías: “Então a tua luz
surgirá como a aurora, e as tuas feridas não tardarão a cicatrizar-se; a tua justiça irá adiante de ti, e a
glória do Senhor atrás de ti. Então invocarás o Senhor e Ele te atenderá; clamarás e Ele dirá: Eis-me
aqui! (…) O Senhor te guiará constantemente, saciará a tua alma no árido deserto, dará vigor aos teus
ossos e serás como um jardim bem regado, como uma fonte de águas inesgotáveis” (Is 58, 8-9-11).
11ª verdade. Deus quer que eu me santifique e me dedique às obras de apostolado. Devo, pois, gravar
na minha alma esta convicção: Jesus quer ser a vida dessas obras. Os meus esforços, por si sós,
nada são: “Sem Mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5). Somente serão úteis e abençoados por Deus,
quando, por meio da verdadeira vida interior, estiverem unidos à ação vivificadora de Jesus. Tornar-se-
ão, assim, omnipotentes: “Tudo posso n’Aquele que me conforta” (Fil 4, 13). Se proviessem da
confiança orgulhosa nos meus talentos, seriam rejeitados por Deus. Porventura não seria sacrílega
loucura da minha parte querer arrebatar a Deus, para com ela me adornar, uma porção da sua glória?

Longe de gerar em mim a pusilanimidade, tal convicção será a minha força. Sentirei a necessidade da
oração para obter a humildade, que é um tesouro para a minha alma, a certeza do auxílio de Deus e o penhor do
êxito para as minhas obras!

Compenetrado da importância deste princípio, farei, durante os meus retiros, um sério exame
de consciência para saber: se estou convicto da nulidade da minha ação, e da sua força, quando unida à
ação de Jesus; se excluo, implacavelmente, qualquer vaidade, qualquer auto-contemplação, na minha
vida de apóstolo; se me mantenho numa desconfiança absoluta de mim mesmo; e se peço a Deus que
dê vida às minhas obras e me preserve do orgulho, primeiro e principal obstáculo para receber o seu
auxílio.

Este credo da vida interior, tornado a base da existência para a alma, assegura-lhe, já neste
mundo, uma participação da felicidade celeste.

Vida interior, vida dos predestinados.

Corresponde ao fim que Deus se propôs ao criar-nos. 5

Corresponde ao fim da Encarnação: “Deus enviou o seu Filho unigênito ao mundo, para que
nós vivamos por Ele” (1 Jo 4, 9).

“O fim da criatura humana —diz S. Tomás— é unir-se a Deus: toda a sua felicidade consiste
nisso”. Ao contrário das alegrias do mundo, se nessa vida há espinhos exteriores, dentro há rosas.
“Devemos lamentar os pobres mundanos —dizia o santo cura d’Ars— pesa-lhes sobre os ombros um
manto forrado de espinhos; não podem fazer um movimento sem se picarem; ao passo que os
verdadeiros cristãos têm um manto forrado de arminho”. “Vêem a cruz, mas não vêem a unção”, dizia
São Bernardo.

Estado celeste! A alma torna-se um céu vivo. 6

Como Santa Margarida Maria, ela canta:

“Possuo constantemente,

Acompanhando os passos meus,

O Deus do meu coração

E o coração do meu Deus”.

É o começo da bem-aventurança7. A graça é o céu na terra.


4. Esta vida interior é muito pouco conhecida
São Gregório Magno, tão hábil administrador e ardoroso apóstolo como grande contemplativo, falando
de São Bento —que, em Subiaco, lançava os fundamentos da sua Regra, tornada uma das mais poderosas
alavancas de apostolado de que Deus se tem servido na terra— carAtoeriza, em três palavras, o estado de alma
do patriarca dos monges do Ocidente: “vivia consigo mesmo”.

Da maioria dos nossos contemporâneos, podemos dizer, precisamente, o contrário.

Viver consigo mesmo; não se deixar governar pelas coisas exteriores; reduzir a imaginação, a
sensibilidade, a inteligência e a memória ao papel de servas da vontade. Conformar, constantemente,
esta vontade com a vontade de Deus, é um programa que se vai aceitando cada vez menos, neste
século de agitação, que viu nascer um ideal novo: o amor da ação pela ação.

Para frustrar a disciplina das faculdades, serve qualquer pretexto: negócios, família, saúde,
fama, amor da pátria, prestígio da corporação, pretensa glória de Deus; tudo nos fascina e nos impede
de viver em nós mesmos.

Surpreende, pois, que a vida interior seja desconhecida?

Desconhecida, é ainda dizer pouco; essa vida é amiúde desprezada e ridicularizada, até por
aqueles mesmos que mais deveriam apreciá-la. Veja-se a memorável carta dirigida por Leão XIII ao
Cardeal Gibbons, arcebispo de Baltimore, em que adverte os partidários do americanismo para o
perigo da admiração excessiva pelas obras.

Para furtar-se aos trabalhos da vida interior, certos homens da Igreja chegam a menosprezar a
vida eucarística. Relegam para segundo plano o essencial. Para eles, a igreja não é ainda um templo
protestante; o sacrário não está ainda vazio. Mas a vida eucarística, na sua opinião, quase não pode
adaptar-se, nem sobretudo bastar, às exigências da civilização moderna; e a vida interior que,
necessariamente, promana da vida eucarística, já passou da moda.

Para as numerosas pessoas imbuídas dessas teorias, a comunhão perdeu o sentido que teve para
os primeiros cristãos. Acreditam na Eucaristia, mas não a consideram o centro da sua vida e das suas
obras. Consideram a vida interior uma prática medieval ultrapassada.

Realmente, ao ouvi-los falar das suas obras, seríamos levados a pensar que o Omnipotente —
que criou os mundos sem esforço algum e perante quem o universo inteiro se reduz a poeira e nada—
não pode prescindir da sua colaboração! Ao prestarem tanto culto à ação, chegam a fazer dela uma
espécie de dogma, que os leva a entregarem-se, desenfreadamente, a uma vida fora de si mesmos. A
Igreja, a diocese, a paróquia, a congregação, a obra, carecem dos meus serviços... Gostariam até de
dizer: Deus precisa de mim! E, se não ousam dizê-lo, a sua presunção e falta de fé, leva-os a pensar
assim.

Os médicos prescrevem, por vezes, aos depressivos que se abstenham de todos os trabalhos,
por algum tempo. Remédio duro, porque essa doença provoca precisamente uma excitação febril, que
impele a pessoa a gastar forças e procurar comoções, que só lhe agravam o mal.
Assim sucede, precisamente, a certos homens de obras em relação à vida interior. Sentem
repugnância por ela, embora ela seja o remédio dos seus males. Preferem atordoar-se, cada vez mais,
numa avalanche de trabalhos, e afastam, desse modo, as possibilidades de cura.

O navio avança a todo o vapor, enquanto o piloto admira a velocidade da marcha. Para Deus,
no entanto, esse navio, por falta de um comandante prudente, corre à deriva e corre o perigo de
naufragar. Adoradores em espírito e verdade, eis o que Nosso Senhor exige, antes de mais. Iludem-se
os que pensam que contribuem para a maior glória de Deus, tendo em vista, principalmente, os
resultados exteriores.

Este estado de espírito explica o fato de, hoje, ainda serem aceites as escolas, os dispensários,
as missões, os hospitais, e, pelo contrário, se compreender cada vez menos os mosteiros
contemplativos. Muitos não se contentam apenas em chamar covardes e iluminados os que se
consagram à oração e penitência na solidão dos claustros, mas até ridiculizam aqueles que roubam
alguns instantes às suas ocupações, para purificar e inflamar o seu zelo junto do sacrário, e obter do
Hóspede divino maiores e melhores resultados para os seus trabalhos.

5. Resposta a uma primeira objecção: É ociosa a vida interior?

Este livro dirige-se, apenas, aos apóstolos que trabalham pela salvação das almas, mas que
correm o risco de negligenciar a vida interior e prejudicar, assim, os frutos das suas obras.

Estimular os apóstolos que prestam culto ao repouso; ou os que confundem ociosidade com
meio de favorecer a piedade; sacudir a indiferença dos indolentes e egoístas, que só aceitam as obras
se estas não lhes perturbarem a tranquilidade: tal não é o nosso fito. Essa tarefa exigiria uma obra
especial. Deixamos a outros o cuidado de chamarem à responsabilidade as almas apáticas, que Deus
queria ativas, mas que o demónio e a natureza tornam infecundas, por falta de zelo e de atividade.

Voltemos, pois, àqueles para quem, especialmente, escrevemos.

Nenhuma comparação pode exprimir bem a intensidade infinita de atividade que existe no seio
de Deus. A vida interior do Pai é tal, que ela gera uma Pessoa divina. Da vida interior do Pai e do Filho
procede o Espírito Santo.

A vida interior comunicada aos Apóstolos no Cenáculo inflamou o seu zelo.

A vida de oração é sempre, em si mesma, uma incomparável fonte de atividade. Nada mais
falso do que ver nela uma espécie de oásis, a servir de refúgio para os preguiçosos. Basta ser o
caminho que, mais diretamente, conduz ao reino dos céus, para que o texto: “O reino dos céus sofre
violência, e os que fazem violência são os que o arrebatam” (Mt 9, 12), lhe deva ser especialmente
aplicado.

D. Sebastião Wyart —que conheceu bem os trabalhos do asceta e as canseiras da vida militar, o
estudo esgotante e as duras responsabilidades de superior— costumava dizer que há três espécies de
trabalhos:

1º O trabalho, quase exclusivamente físico, daqueles que exercem uma profissão manual:
lavrador, operário, artista, soldado, etc. Este trabalho, afirmava ele, é o menos rude dos três;
2º O trabalho do intelectual e do sábio, procurando, por vezes tão arduamente, a verdade; o
trabalho do escritor e do professor, que envidam todos os esforços para fazer penetrar noutras
inteligências essa mesma verdade; o trabalho do diplomata, do negociante, do engenheiro, etc.; o
esforço intelectual do general, para prever os combates, dirigir e decidir. Estes trabalhos, diz ele, são
muito mais penosos que o primeiro

3º Enfim, o trabalho da vida interior. É, sem dúvida, o mais duro dos três, quando tomado a
sério. 8 Mas é, também, o que nos oferece maior número de consolações neste mundo. É, igualmente,
o mais importante. Constitui não já a profissão do homem, mas o próprio homem. Quantos se afanam,
nos dois primeiros géneros de trabalhos, para alcançarem a fortuna e o êxito, mas não passam de uns
preguiçosos e covardes, quando se trata do trabalho para a virtude!

Quem quiser obter a vida interior deve esforçar-se por adquirir domínio completo sobre si
próprio, para que todas as suas acções redundem em glória de Deus. Procurará conservar-se sempre
unido a Jesus Cristo, com os olhos fitos na meta a atingir e pesando tudo à luz do Evangelho. “Para
onde e a quem irei?”, repete, com Santo Inácio. Tudo nele — inteligência, vontade, memória,
sensibilidade, imaginação e sentidos— dependerá de um princípio. Mas quanto trabalho custa chegar a
este resultado! Quer se mortifique ou se entregue a um recreio lícito, quer reflicta ou Atoue, quer
trabalhe ou descanse, quer ame o bem ou rejeite o mal, deseje ou tema, esteja alegre ou triste, com
esperança ou temor, indignado ou tranquilo, mantém sempre o leme na direção da plena vontade
divina. Na oração, sobretudo junto da Eucaristia, isola-se dos objetos visíveis, a fim de chegar a falar
com Deus invisível como se O estivesse a ver. 9 No decurso dos seus trabalhos apostólicos, procura
realizar este ideal, que São Paulo admirava em Moisés.

Adversidades da vida, tormentas suscitadas pelas paixões, nada logra desviá-lo da linha de
conduta que se impôs. Se, porventura, fraqueja um momento, depressa recobra ânimo e continua, com
mais vigor, o seu caminho ascensional.

Não é difícil compreender que Deus recompense, já neste mundo, com alegrias especiais, quem
não recua perante este esforço.

Às vezes, preferimos passar longas horas numa ocupação fatigante do que meia hora a fazer
uma oração bem feita, a assistir à Missa, ou a rezar o ofício. 10 O Padre Faber verifica, com tristeza,
que, para alguns, “o quarto de hora que se segue à Comunhão é o quarto de hora mais enfadonho do
dia”. Tratando-se de um breve retiro de três dias, quanta relutância para outros! Separar-se por três dias
da vida fácil, embora ocupadíssima, para viver uma vida plenamente sobrenatural; contemplar tudo,
durante esse período, somente à luz da fé; esquecer tudo, para somente aspirar a Jesus e à sua vida;
analisar, implacavelmente, a nossa alma, para descobrir todas as suas fraquezas e doenças: eis uma
perspectiva que faz recuar grande número de pessoas, prontas, todavia, para grandes fadigas em
trabalhos puramente naturais.

E se três dias, assim ocupados, já parecem tão penosos, que pensar de uma vida inteira
gradualmente submetida ao regime da vida interior? E ainda há quem tenha a coragem de dizer que os
religiosos de vida contemplativa são ociosos!

É bem certo que, neste trabalho de desprendimento, a graça torna o jugo suave e o fardo leve.
Mas quantos esforços são necessários para a alma! É sempre penoso o regresso ao caminho recto e a
volta ao ideal de São Paulo: “A nossa conversação está no céu” (Fil 3, 20). São Tomás explica isto
perfeitamente: “O homem —diz ele— está colocado entre as coisas deste mundo e os bens espirituais,
nos quais reside a felicidade eterna. Quanto mais adere a uns, tanto mais se afasta dos outros, e vice
versa”.11 Numa balança, se um dos pratos desce, o outro eleva-se na mesma medida. O pecado
original, tendo transtornado a economia do nosso ser, tornou penoso este duplo movimento de adesão e
afastamento. Desde então, para restabelecer e conservar a ordem neste “pequeno mundo” que é o
homem, é indispensável a vida interior, obtida com trabalho e sacrifício. É como um edifício
desmoronado que se trata de reconstruir e, em seguida, preservar de nova ruína.

Arrancar aos pensamentos da terra, pela vigilância, renúncia e mortificação, este “coração
endurecido” (Sl 4, 3) com todo o peso da natureza corrompida; tornar o nosso carácter semelhante ao
de Nosso Senhor, pelo combate à dissipação, ao arrebatamento, à auto-complacência, às manifestações
de orgulho, ao naturalismo, ao egoísmo, à falta de bondade, etc.; renunciar aos prazeres sensíveis com
a esperança da felicidade espiritual, que somente se desfrutará após longa expectativa; desapegar-se de
tudo quanto é susceptível de lhe fazer amar o mundo e fazer de tudo isso um holocausto sem
reserva…, que tarefa!

E isto é só a parte negativa da vida interior. Depois deste combate sem tréguas contra um
inimigo sempre prestes a renascer —combate que fazia gemer São Paulo12 e que o Padre De Ravignan
exprimia assim: “Procurais o que fiz durante o meu noviciado? Éramos dois, atirei um pela janela fora
e fiquei eu sozinho”— é necessário proteger, contra as mínimas quedas, um coração já purificado pela
penitência, que deseja agora, ardentemente, reparar os ultrajes feitos a Deus, imitar as virtudes de Jesus
Cristo, e adquirir confiança absoluta na Providência; é este o lado positivo da vida interior. Quem não
advinha o campo ilimitado de trabalho que aqui se patenteia! 13

Trabalho íntimo, assíduo, constante. E, no entanto, precisamente por meio deste trabalho, a
alma adquire maravilhosa facilidade e surpreendente rapidez de execução nos trabalhos apostólicos. Só
a vida interior possui este segredo.

As obras imensas levadas a cabo por Santo Agostinho, São João Crisóstomo, São Bernardo,
São Tomás de Aquino, São Vicente de Paulo, e tantos outros santos, causam-nos assombro. Este
assombro cresce quando vemos esses homens, apesar dos trabalhos incessantes, das preocupações, ou
da falta de saúde, manterem-se na mais constante união com Deus. Apagando a sua sêde na Fonte da
Vida, pela contemplação, esses santos hauriam nela a sua inesgotável capacidade de trabalho.

Um dos nossos grandes bispos, sobrecarregado de afazeres, aconselhou certa vez um estadista,
também ele muito atarefado, que lhe perguntara o segredo da sua serenidade e dos resultados
admiráveis das suas obras: “A todas as suas ocupações, meu caro amigo, acrescente meia hora de
meditação todas as manhãs. Conseguirá despachar todos os assuntos e encontrará tempo para realizar
ainda mais.”

Enfim, o santo rei Luís IX encontrava, nas oito ou nove horas que habitualmente consagrava
aos exercícios da vida interior, o segredo e a força para se dedicar aos negócios de Estado e ao bem dos
seus súbditos, com tanta solicitude que —conforme chegou a confessar um orador socialista— nunca
em França se fez tanto a favor das classes operárias como sob o reinado daquele príncipe.

6. Resposta a uma segunda objeção: É egoísta a vida interior?


É falsa a piedade daqueles que fazem consistir a vida interior numa ociosidade agradável e preguiçosa, e
que procuram as consolações de Deus, mais do que o Deus das consolações. Contudo, está, igualmente, errado
quem considera egoísta a vida interior.
Já dissemos que esta vida é a fonte pura das mais generosas obras de caridade, que visa o alívio
dos sofrimentos deste mundo e o bem das almas. Examinemos a utilidade desta vida sob outro ponto
de vista.

Seria verdadeira blasfêmia chamar egoísta e estéril a vida interior de Nossa Senhora e de São
José! Contudo, nenhuma obra exterior lhes é atribuída. A irradiação sobre o mundo da sua intensíssima
vida interior, os frutos das suas orações e sacrifícios bastaram para constituir Maria, Rainha dos
Apóstolos, e José, Padroeiro da Igreja Católica.

“A minha irmã deixa-me sozinha a servir” (Lc 10, 40), diz, servindo-se das palavras de Marta,
o apóstolo vaidoso com o resultado das suas obras exteriores. A sua fatuidade não chega ao extremo de
julgar que Deus precisa, absolutamente, dele. Todavia, incapaz de apreciar a excelência da
contemplação de Madalena, repete ainda com Marta: “Diz-lhe, pois, que me venha ajudar!” (Lc 10,
40) e chega até a exclamar: “Para que foi este desperdício?” (Mt 26, 8), considerando, como tal, o
tempo que outros apóstolos reservam à vida interior na presença de Deus.

“Eu santifico-me por eles, a fim de que eles sejam também santificados na verdade” (Jo 17,
19), responde a alma que compreendeu todo o alcance deste “a fim de”, do Mestre: e, conhecendo o
valor da oração e do sacrifício, une às lágrimas e ao sangue do Redentor as lágrimas dos seus olhos e o
sangue de um coração que cada dia se vai purificando mais.

Com Jesus, a alma interior ouve o alarido dos crimes do mundo subir até ao céu e atrair sobre
os seus autores o castigo, mas suspende esse castigo, pela onipotência da sua súplica, capaz de deter a
própria mão de Deus.

Aqueles que rezam, dizia, depois da sua conversão, o eminente estadista Donoso Cortés, fazem
mais pelo mundo do que aqueles que combatem, e, se o mundo está cada vez pior, é porque há mais
batalhas que orações.

“As mãos erguidas —diz Bossuet— desbaratam mais batalhões do que as mãos que ferem.” E,
no meio dos seus desertos, os solitários da Tebaida tinham, muitas vezes, no coração o mesmo fogo
que animava São Francisco Xavier. Pareciam, diz Santo Agostinho, ter abandonado o mundo mais do
que seria razoável. Contudo, as suas orações, tornadas mais puras por esse grande afastamento do
mundo, eram de uma eficácia incomparável para esse mesmo mundo que eles tinham abandonado.

Normalmente, uma oração curta, mas fervorosa, contribui mais para apressar uma conversão,
do que longas discussões e excelentes discursos. Quem reza, trata com a Causa primeira; opera,
diretamente, sobre Ela; tem, assim, na mão as causas segundas, cuja eficácia depende desse princípio
superior. Por isso, o efeito desejado é, então, obtido com maior segurança e rapidez.

Dez mil protestantes —no dizer de uma revelação respeitável— foram convertidos por uma só
oração inflamada da seráfica Santa Teresa. Ardendo em amor de Cristo, ela não podia compreender
uma vida contemplativa, uma vida interior que não participasse no desejo ardente do Salvador pela
redenção das almas. “Aceitaria o purgatório —diz ela— até ao juízo final, para livrar uma só dessas
almas. E que me importaria a duração dos meus sofrimentos, se assim pudesse livrar uma só alma, e
sobretudo muitas, para a maior glória de Deus!” E dirigindo-se às suas religiosas: “Encaminhai, para
este fim inteiramente apostólico, minhas filhas, as vossas orações, as vossas disciplinas, os vossos
jejuns, os vossos desejos”.
Tal é, com efeito, a obra das carmelitas, das trapistas, das visitandinas e das clarissas. Vêde-as
acompanhar com fervorosas orações e penitências a caminhada dos apóstolos. O seu amor oculto, mas
ativo, abre por toda a parte, no mundo dos pecadores, os caminhos da misericórdia.

Ninguém conhece neste mundo o porquê dessas conversões longínquas de pagãos, da paciência
heróica dos cristãos perseguidos, da alegria celeste dos missionários martirizados. Tudo isso pode
estar, invisivelmente, ligado à oração de uma despretensiosa freira.14 Com os dedos sobre o teclado
dos perdões divinos e das luzes eternas, a sua alma silenciosa e solitária preside à salvação das almas e
às conquistas da Igreja em toda a extensão da Terra.

“Quero trapistas neste vicariato apostólico —dizia Mons. Favier, bispo de Pequim— desejo até
que eles se abstenham de qualquer ministério exterior, a fim de que nada os distraia do trabalho, da
oração, da penitência e dos santos estudos. Porque sei que será grande o auxílio prestado aos
missionários pela existência de um fervoroso mosteiro de contemplativos no meio dos nossos pobres
chineses.” E mais tarde: “Conseguimos, por fim, penetrar numa região até hoje inacessível. Atribuo
este fato aos nossos queridos trapistas.”

“Dez carmelitas a rezar, dizia um bispo da Cochinchina ao governador de Saigão, auxiliar-me-


ão muito mais do que vinte missionários a pregar.”

Os padres diocesanos, os religiosos e religiosas votados à vida ativa, mas sem perder a vida
interior, participam do mesmo poder sobre o coração de Deus que têm as almas do claustro. São João
Bosco é, disso, um frisante exemplo. A bem-aventurada Ana Maria Taigi, nas suas funções de porteira
e dona de casa, e tantos outros leigos humildes, mas abrasados no mesmo ardor, foram eficacíssimos
nas suas obras, porque possuíam uma intensa vida interior. E o general de Sonis, entre duas batalhas,
encontrava na união com Deus o segredo do seu apostolado.

Egoísta e estéril a vida de um Santo Cura d’Ars? Tal pergunta nem merece resposta. Todas as
pessoas retas que o conheceram atribuem, precisamente, o seu extraordinário zelo apostólico e os seus
enormes êxitos à sua grande intimidade com Deus. Tão contemplativo como um monge cartuxo,
embora com poucos dotes intelectuais, sentia uma sêde de almas, que a vida interior tornara
inextinguível, e recebeu de Nosso Senhor o poder de operar grandes conversões.

Infecunda, a sua vida interior? Suponhamos um São João Baptista Vianney em cada uma das
nossas dioceses, e, em menos de dez anos, a França estaria regenerada, mais profundamente do que por
multidões de obras —com grandes recursos humanos, talentos e dinheiro — mas insuficientemente
edificadas sobre a vida interior.

Não tenhamos dúvidas, a reconstrução da França, após a Revolução, deve-se atribuir a uma
plêiade de sacerdotes amadurecidos na vida interior, pela perseguição. Por meio deles, uma corrente de
vida divina veio reanimar uma geração que a apostasia e a indiferença pareciam ter votado a uma
morte que nenhum esforço humano lograria conjurar. Talvez em nenhuma outra época tenha havido
tantas almas tão ardentemente desejosas de viver unidas ao Coração de Jesus e de dilatar o seu reinado,
fazendo germinar à sua volta a vida interior. Dir-se-á: essas almas de escol são ínfima minoria. Talvez.
Mas que importa o número, se houver intensidade? Após cinqüenta anos de liberdade de ensino em
França, após esse meio século, que viu a eclosão de obras inumeráveis e durante o qual nos passou
pelas mãos toda a juventude francesa e logramos o apoio quase completo dos governantes, qual a razão
por que, a despeito de resultados aparentemente gloriosos, não pudemos formar uma maioria
profundamente cristã, capaz de restaurar a verdadeira França?
A decadência da vida litúrgica e o esmorecimento da sua irradiação sobre os fiéis contribuíram,
certamente, para esta impotência. A nossa espiritualidade tornou-se acanhada, árida, exterior e
sentimental, e já não possui a vitalidade cristã e o entusiasmo que a liturgia produz.

Mas não existirá outra causa no fato de nós, padres e educadores, por falta de intensa vida
interior, termos formado almas de piedade superficial, sem grandes ideais, nem convicções profundas?
Professores, não termos procurado mais o êxito das carreiras e o prestígio das obras, do que dar às
almas sólida instrução religiosa? Não termos descurado a formação das vontades, para gravar nelas,
em carAtoeres de rija têmpera, a imagem de Jesus Cristo? E essa mediocridade não resultará da
banalidade da nossa vida interior?

A sacerdote santo —houve quem dissesse— corresponde um povo fervoroso; a sacerdote fervoroso, um
povo piedoso; a sacerdote piedoso, um povo honesto; a sacerdote honesto, um povo ímpio. Sempre um grau de
vida a menos, naqueles que são gerados. Seria talvez exagero admitir esta proposição. Julgamos, contudo, que
as seguintes palavras de Santo Afonso Maria de Ligório explicam bem a atual situação:

“Os bons costumes e a salvação dos povos dependem dos bons pastores. Se, à frente de uma
paróquia, estiver um bom pároco, depressa nela se verá florescer a devoção, os sacramentos serão
freqüentados, a oração mental praticada. Daí o provérbio: ‘Tal padre, tal paróquia’, segundo esta
palavra do Eclesiástico (10, 2): ‘Qual o governador da cidade, tais os seus habitantes’”.

7. Objeção decorrente da importância da salvação das almas

Mas, dirá a alma exterior à procura de pretextos contra a vida interior: Como posso limitar as
minhas obras apostólicas? Tratando-se da salvação das almas, todos os esforços são poucos. Quem
trabalha, reza. O sacrifício avantaja-se à oração. E São Gregório não chama ao zelo das almas o mais
agradável sacrifício que se pode oferecer a Deus? “Nenhum sacrifício é mais agradável a Deus do que
o cuidado das almas”.15

Analisemos primeiramente o sentido desta frase de São Gregório, servindo-nos das palavras do
doutor angélico. “Oferecer espiritualmente um sacrifício a Deus —diz ele— é oferecer-lhe alguma
coisa que o glorifique. Ora, de todos os bens, o mais agradável que o homem pode oferecer ao Senhor
é, indubitavelmente, a salvação de uma alma. Mas antes de tudo, deve oferecer-Lhe a sua própria alma,
segundo o que diz a Escritura: ‘Quereis agradar a Deus, tende piedade da vossa alma’. Feito este
primeiro sacrifício, ser-nos-á então permitido ajudar os outros a alcançar uma felicidade semelhante.
Quanto mais estreitamente o homem unir a Deus a sua alma, primeiro, e depois a de outrem, tanto
mais favoravelmente será acolhido o seu sacrifício. Mas esta união íntima, generosa e humilde, apenas
se alcança pela oração. Dedicar-se, cuidadosamente, ou fazer que os outros se dediquem, à vida de
oração, agrada muito mais a Deus do que consagrar-se à ação. Por conseguinte —conclui São
Tomás— quando São Gregório afirma que o sacrifício mais agradável a Deus é a salvação das almas,
não quer dizer que a vida ativa é preferível à contemplação; mas, apenas, que oferecer a Deus uma só
alma, Lhe dá infinitamente mais glória, e, a nós, mais méritos, do que apresentar-Lhe o que de mais
precioso exista na terra”.16

A necessidade da vida interior não deve desviar das obras apostólicas as almas generosas,
fazendo-as desertar do campo de batalha, com o pretexto de chegar a uma união mais perfeita com
Deus. Seria uma ilusão e, em certos casos, a origem de verdadeiros perigos. “Ai de mim —diz São
Paulo— se não evangelizar!” (1 Cor 9, 16).
Feita esta ressalva, apressamo-nos a afirmar que consagrar-se alguém à conversão das almas,
esquecendo-se de si mesmo, origina uma ilusão mais grave. Deus quer que amemos o próximo como a
nós mesmos, mas nunca mais que a nós mesmos, isto é, nunca a ponto de prejudicar a nossa alma, o
que, na prática, equivale a exigir mais cuidados com ela do que com a alma alheia. O adágio Prima
sibi charitas 17 permanece perfeitamente teológico.

“Eu amo Jesus Cristo —dizia Santo Afonso de Ligório— e, por isso mesmo, ardo em desejos
de lhe dar almas; antes de mais, a minha, depois, um número incalculável de outras.” É o cumprimento
do “sê para ti mesmo, em toda a parte”,18 de S. Bernardo, ou ainda: “não é sábio quem o não é consigo
mesmo”.

O santo abade de Claraval, verdadeiro fenômeno de zelo apostólico, seguia esta ordem.
Godofredo, seu secretário, descreve-o assim: “Todo para si mesmo, primeiro, e, assim, todo para os
outros”.19

“Não vos digo —escreve esse mesmo santo ao papa Eugênio III— que coloqueis de parte as
ocupações temporais. Exorto-vos, apenas, a que não vos dediqueis, inteiramente, a elas. Se sois o
homem de todos, sede-o, também, de vós mesmo. De contrário, de que vos serviria ganhar os outros
todos, se viésseis a perder a vossa alma? Reservai, por conseguinte, alguma coisa para vós próprio, e,
se todos vêm beber à vossa fonte, vós mesmo não vos priveis de beber nela. Pois, só vós haveis de
ficar com sêde? Começai sempre por vos considerar a vós mesmo. Debalde vos consagraríeis a outros
cuidados, se chegásseis a tratar a vós mesmo com negligência. Todas as vossas reflexões devem,
portanto, começar por vós e terminar da mesma forma. Sede para vós o primeiro e o último, e lembrai-
vos que, no negócio da vossa salvação, ninguém tem maior parentesco convosco do que o filho único
da vossa mãe”. 20

Bastante sugestiva a seguinte nota de retiro de Mons. Dupanloup: “Tenho uma atividade
terrível, que me arruína a saúde, me perturba a piedade e de nada serve à minha ciência. Isto deve ser
regulado. Concedeu-me Deus a graça de reconhecer que a atividade natural e o incitamento das
ocupações são os principais obstáculos que vejo em mim para a conservação de uma vida interior,
tranqüila e frutuosa. Reconheci também que esta falta de vida interior é a origem de todas as minhas
faltas, das minhas perturbações, das minhas securas, das minhas repugnâncias, da minha falta de
saúde. Resolvi, por conseguinte, dirigir todos os meus esforços para a aquisição dessa vida interior que
me falta e, com esse fim, propus, mercê de Deus, os pontos seguintes:

“1º Reservarei sempre algum tempo, além do necessário, para fazer qualquer coisa: este é o
meio de nunca ter pressa, nem agitação.

“2º Como tenho, sempre, mais coisas a realizar do que tempo para as fazer, e como esta
perspectiva me preocupa e me perturba, não hei de pensar nas coisas que tenho para fazer, e sim no
tempo que devo consagrar-lhes. Hei de empregar esse tempo sem perder um minuto, começando pelas
coisas mais importantes, e, se algumas não puder fazer, nem por isso me hei de inquietar, etc., etc...”

A muitas safiras, prefere o joalheiro o mínimo fragmento de diamante. Da mesma forma,


consoante a ordem estabelecida por Deus, a nossa intimidade com Ele glorifica-O muito mais do que o
bem feito por nós a grande número de almas, mas com prejuízo do nosso progresso. O nosso Pai
celeste, que mais se aplica ao governo de um coração onde reina, do que ao governo natural de todo o
universo e ao governo civil de todos os impérios, 21 exige no nosso zelo essa harmonia. E, se vê que
uma obra impede o aumento da caridade na alma que dela se ocupa, prefere às vezes deixar
desaparecer essa obra.

Pelo contrário, Satanás não hesita em favorecer êxitos superficiais, caso possa, mediante esse
resultado, dificultar o progresso do apóstolo na vida interior, pois o seu ódio advinha onde estão os
verdadeiros tesouros aos olhos de Jesus Cristo. Para suprimir um diamante, não se importa de entregar
algumas safiras.

Parte II
União da vida ativa e da vida interior

1. Prioridade da vida interior sobre a vida ativa


Em Deus está a vida, toda a vida, Ele é a própria vida. Ora, não é nas obras exteriores, como a
Criação, que o Ser infinito manifesta essa vida do modo mais intenso, mas sim no que a teologia
chama operações ad intra: essa atividade inefável cujo termo é a geração perpétua do Filho e a
incessante processão do Espírito Santo. Essa é, por excelência, a sua obra essencial, eterna.

A vida terrena de Nosso Senhor Jesus Cristo foi a realização perfeita do plano divino. Trinta
anos de recolhimento, seguidos de quarenta dias de retiro e penitência, prepararam a sua curta carreira
evangélica; e, durante as suas jornadas apostólicas, quantas vezes ainda, O vemos retirar-se para as
montanhas ou para os desertos, a fim de orar: “Ele retirava-Se para lugares solitários e entregava-Se aí
à oração” (Lc 5, 16). Ou passar a noite a rezar: “Naqueles dias, Jesus foi para o monte a fim de fazer
oração, e passou a noite a orar a Deus” (Lc 6, 12). Rasgo ainda mais significativo: Marta deseja que o
Senhor, condenando a suposta ociosidade da sua irmã, proclame a superioridade da vida ativa; a
resposta de Jesus: “Maria escolheu a melhor parte” (Lc 10, 42), consagra a importância da vida
interior. Jesus quis, pois, fazer-nos ver, claramente, a preponderância da vida de oração sobre a vida
ativa.

Os Apóstolos, fiéis aos exemplos do Mestre, reservaram para si o ofício da oração e o


ministério da palavra, deixando as ocupações mais exteriores aos diáconos: “Quanto a nós, entregar-
nos-emos, assiduamente, à oração e ao exercício da palavra” (Ato 6, 4).

Os Papas, os santos doutores e os teólogos afirmam, por sua vez, que a vida interior é superior à vida
ativa.

Há alguns anos, uma mulher, de grande virtude e caráter —superiora geral de uma das mais
importantes congregações docentes do Aveyron— foi convidada pelos superiores eclesiásticos a
favorecer a secularização das suas religiosas.

Deveria sacrificar as obras à vida religiosa, ou abandonar esta para conservar aquelas?
Perplexa, querendo conhecer a vontade de Deus, partiu, secretamente, para Roma, obteve uma
audiência de Leão XIII, expôs-lhe as suas dúvidas e a pressão que sofrera a favor das obras.

Após alguns instantes de recolhimento, o Pontífice deu-lhe esta resposta peremptória: “A


conservação na vida religiosa das suas filhas, que tiverem o espírito do seu santo estado e o amor à
vida de oração, é preferível a qualquer obra. Se não conseguir conservá-las nesse espírito e nessa vida,
Deus suscitará em França outras vocações. A sua vida interior, orações e sacrifícios, serão mais úteis à
França se continuarem como verdadeiras religiosas, do que se forem privadas dos tesouros da sua
consagração a Deus”.

Numa carta dirigida a um importante instituto exclusivamente dedicado ao ensino, São Pio X
manifestou o seu pensamento com as palavras seguintes:

“Chegou ao Nosso conhecimento que começa a difundir-se uma opinião, segundo a qual vós deveríeis
considerar como prioritária a educação das crianças e, apenas em segundo lugar, a vossa profissão religiosa: que
assim o exigiriam o espírito e as necessidades dos tempos. De forma alguma queremos que tal opinião encontre
o mínimo crédito, seja da vossa parte, seja da parte dos demais institutos religiosos dedicados à educação, como
o vosso. Fique, portanto, bem assente, pelo que vos toca, que a vida religiosa é muitíssimo superior à vida
comum e que, se estais gravemente obrigados ao dever de ensinar o próximo, muito mais graves são as
obrigações que vos vinculam a Deus”.

Não é, porventura, a aquisição da vida interior o fim principal da vida religiosa?

“A vida contemplativa —diz o Doutor Angélico— é melhor que a vida ativa, e preferível a
ela”.

S. Boaventura acumula os superlativos, para mostrar a excelência desta vida interior: “Vida
mais sublime, mais segura, mais rica, mais suave, mais estável”.

“Vida mais sublime”. A vida ativa ocupa-se dos homens, a vida contemplativa faz-nos entrar
no domínio das mais altas verdades, sem desviar os olhos do próprio princípio da vida. Principium
quod Deus est quaeritur. Os seus horizontes são sublimes e o seu campo de ação incomparavelmente
amplo: “Marta, num só lugar, entregava-se a vários trabalhos físicos. Maria, pela caridade, trabalha em
muitos lugares e em numerosas obras. Contemplando e amando a Deus, tudo vê, tudo compreende e
abarca. Pode, pois, dizer-se que, em comparação com Maria, Marta tem poucas inquietações”. 22

“Vida mais segura”. Há menos perigos nesta vida. Na vida ativa, a alma agita-se, torna-se
febril, dispersa as suas energias e debilita-se. “Marta, Marta, andas inquieta —disse o Senhor— e
perturbada com muitas coisas; mas uma só é necessária” (Lc 10, 41-42). Há, pois, aqui um tríplice
defeito: “andas inquieta”: são as inquietações do pensamento; “perturbada”: são as perturbações
provenientes das afeições; enfim, “com muitas coisas”: são as múltiplas ocupações, que originam a
divisão de esforços. Ao invés, uma só causa se impõe para constituir a vida interior: a união com
Deus. O resto só pode ser secundário, e só se justifica se fortalecer tal união.

“Vida mais rica”. Com a contemplação, alcançam-se todos os bens: “Com ela me vieram
todos os bens” (Sab 7, 2). É a parte excelente: “Ela escolheu a melhor parte, que lhe não será tirada”
(Lc 10, 42). Recolhe mais méritos. Porquê? Porque fortifica a vontade e aumenta a graça santificante,
levando a alma a operar por um princípio de caridade.

“Vida mais suave”. A alma verdadeiramente interior abandona-se à vontade de Deus, aceita, com
inalterável paciência, tanto as coisas agradáveis como as penosas, e chega a mostrar-se alegre no meio das
aflições, feliz por carregar a sua cruz.

“Vida mais estável”. Por mais intensa que seja, a vida ativa tem o seu termo neste mundo: pregações,
ensinamentos, trabalhos, tudo isso cessa no limiar da eternidade. Mas a vida interior não conhece ocaso. Por
meio dela, a passagem por este mundo é uma contínua ascensão para a luz, ascensão que, após a morte, se torna,
incomparavelmente, mais rutilante e mais rápida.

Para resumir as excelências da vida interior, podem-se-lhe aplicar estas palavras de S.


Bernardo: “Nela, o homem vive com mais pureza, cai mais raramente, levanta-se mais depressa, anda
com mais cautela, é consolado pelo Céu com mais freqüência, descansa com mais segurança, morre
com mais confiança, é purificado mais depressa, e é premiado com mais abundância”.23

2. As obras devem transbordar da vida interior


“Sede, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celeste” (Mt 5, 48). Guardadas as devidas
proporções, o modo como Deus opera deve ser a regra da nossa vida interior e exterior.

Ora, já sabemos, por experiência, que o Criador é, naturalmente, generoso, e que, neste mundo,
espalha, com profusão, os seus benefícios sobre todos os seres, especialmente sobre a criatura humana.
O universo inteiro é, desde o princípio, objeto desta inesgotável prodigalidade. Com tudo isso, Deus
não fica mais pobre; essa munificência inexaurível de forma alguma pode diminuir, seja no que for, os
seus infinitos recursos.

Além de conceder aos homens incontáveis bens exteriores, Deus quis enviar-lhes o seu próprio
Verbo. Mas ainda aqui, nesta dádiva suprema, que é o dom de Si mesmo, Deus nada abandona —nada
pode abandonar— da integridade da sua natureza. Dando-nos o seu Filho, conserva-O sempre consigo.
“Tomai, para exemplo, o ilustre Soberano de todas as coisas, enviando a um tempo o seu Verbo e
retendo-O com Ele”.24

Por meio dos sacramentos, e especialmente da Eucaristia, Jesus Cristo vem enriquecer-nos com
graças superabundantes, porque Ele é como um oceano a derramar-se continuamente sobre nós:
“Todos nós participamos da sua plenitude” (Jo 1, 16).

Assim devemos ser, de algum modo, todos os que assumimos a nobre tarefa da santificação
alheia: “O vosso verbo é a vossa consideração: parta ele de vós sem de vós sair”;25 o nosso verbo é o
espírito interior que a graça infundiu na alma. Esse espírito deve dar vida a todas as manifestações do
nosso zelo apostólico; mas, como o despendemos em favor do próximo, devemos renová-lo,
continuamente, pelos meios que Jesus nos oferece. Seja, pois, a nossa vida interior como um tronco
robusto, no qual as obras estão sempre a florescer.

A alma do apóstolo deve ser a primeira a inundar-se de luz e de amor, para que possa esclarecer
e abrasar as outras almas. “O que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e
as nossas mãos apalparam (...) isso vos anunciamos” (1 Jo 1, 1). “A boca do apóstolo infundirá nos
corações a abundância das doçuras celestes”, diz S. Gregório.

Podemos agora deduzir o seguinte princípio: a vida ativa deve proceder da vida contemplativa,
traduzi-la, e continuá-la exteriormente, desligando-se dela o menos possível.

Os santos padres e os doutores proclamam à porfia esta doutrina.

“Antes de permitir à sua língua que fale —diz Santo Agostinho— o apóstolo deve elevar a
Deus a sua alma sequiosa, a fim de exalar o que tiver bebido e disseminar aquilo de que estiver
repleto.26
Para poder dar —diz o pseudo-Dionísio—27 é necessário receber. Os anjos superiores apenas
transmitem aos inferiores as luzes, cuja plenitude receberam. Nas coisas divinas, o Criador estabeleceu
esta ordem: aquele que tem a missão de distribuir as graças, deve primeiro encher-se com abundância
das graças que Deus quer dispensar às almas. Então, e só então, poderá comunicá-las aos outros.

“Se sois sábios, sede reservatórios, e não canais”.28 Quem desconhece este conselho de São
Bernardo a quem se dedica ao apostolado? O canal deixa correr a água recebida, sem guardar uma só
gota. Pelo contrário, o reservatório enche-se, primeiramente, e, depois, sem se esvaziar, derrama
torrentes, incessantemente renovadas, sobre os campos que fertiliza. Dos que se devotam às obras,
quantos há que são, apenas, canais, ficando sempre secos, mesmo quando procuram fecundar os
corações! “Há hoje, na Igreja, muitos canais, mas poucos reservatórios”,29 acrescentava, com tristeza,
o santo abade de Claraval.

A causa é, sempre, superior aos seus efeitos; logo, para aperfeiçoar os outros, requer-se uma
perfeição maior do que para aperfeiçoar-se a si mesmo 30. Como a mãe não pode amamentar o filho,
se ela própria se não alimentar, assim também, os confessores, os diretores de almas, os pregadores, os
catequistas, os professores devem, primeiramente, assimilar o alimento que há de nutrir, em seguida,
os filhos da Igreja.31 A verdade e o amor divino são o alimento da vida interior, que a torna capaz de
engendrar a vida.

3. A base, o fim e os meios de uma obra devem estar impregnados de vida interior
Falamos das obras que merecem tal nome. Porque algumas, nos nossos dias, mais parecem empresas
organizadas, sob o rótulo da piedade, para granjear os aplausos do público. Outras há que têm fins e meios
irrepreensíveis, mas, apesar de grandes esforços, os resultados são nulos, ou pouco menos, porque os seus
responsáveis têm pouca fé no poder da vida sobrenatural sobre as almas.

Para definir o que deve ser uma obra, cedo a palavra a um homem, que ilustrou uma região
inteira com o seu apostolado, e relembro a lição que dele recebi, logo no início do meu ministério
sacerdotal. Procurava, então, fundar um patronato para rapazes. Depois de ter visitado os círculos
católicos de Paris e de outras cidades francesas, as obras de Val-des-Bois, etc., fui estudar, em
Marselha, as obras para a juventude fundadas pelo santo padre Lallemant e pelo venerável cônego
Timon-David. Apraz-me recordar a intensa comoção do meu coração de jovem sacerdote, ao escutar as
palavras deste último:

– “Banda de música, teatro, projeções, ginástica, jogos, etc., nada disso censuro. A princípio, eu
também julgava indispensáveis esses meios; mas, afinal, não passam de muletas, utilizadas à falta de
melhor. Quanto mais avanço, tanto mais os meus fins e meios se sobrenaturalizam, porque vejo,
claramente, que as obras fundadas sobre coisas humanas estão destinadas a perecer e que a Providência
só abençoa as obras que, pela prática da vida interior, aproximam, verdadeiramente, os homens de
Deus.

– “Os instrumentos musicais, há muito, estão para aí arrumados, o teatro tornou-se inútil;
entretanto, a obra prospera como nunca. Porquê? Porque, mercê de Deus, compreendemos melhor as
coisas do que a princípio, e porque temos mais fé na ação da graça.

– “Procure, sem medo, os objectivos mais altos. Acredite nisto, e ficará surpreendido com os
resultados. Explico-me: Não pretenda, apenas, proporcionar aos rapazes algumas distrações honestas,
que os desviem de prazeres ilícitos e relações perigosas; não se contente em dar-lhes algumas
aparências de cristianismo, por meio da assistência rotineira à missa ou da recepção espaçada dos
sacramentos.

– Duc in altum, “Faz-te ao alto” (Luc 5, 4). Dos melhores, faça, antes de mais, cristãos
fervorosos, isto é, conduza-os à prática da meditação e da Missa diária, às leituras espirituais, e à
Comunhão freqüente. Consagre-se, com todo o empenho, a infundir neste rebanho escolhido o amor a
Jesus Cristo, o espírito de oração e de penitência, a vigilância, numa palavra, sólidas virtudes.
Desenvolva nas suas almas a sêde da Eucaristia. Anime esses jovens a fazerem apostolado com os seus
companheiros. Faça deles apóstolos francos, dedicados, ardentes, varonis, com bom senso, sem
devoções acanhadas e sem cair, sob pretextos de zelo, na triste extravagância de espiar os seus colegas.
Em menos de dois anos, já não precisará de instrumentos ou de peças teatrais para ter êxito.

– “Percebo, respondi eu; esse grupo dos melhores deve ser o fermento. Mas, como devo
proceder com aqueles que não consigam elevar-se até essas alturas, esses jovens de todas as idades,
esses homens casados que virão a pertencer ao círculo projetado?

– “Deverá infundir-lhes uma fé robusta, por meio de conferências preparadas com todo o
cuidado e que preencham muitos dos seus serões de Inverno. Os seus cristãos sairão delas esclarecidos,
não só para argumentar com os companheiros de trabalho, como para resistir à ação perniciosa dos
maus jornais e livros. Se conseguir que eles tenham firmes convicções, e que as saibam expor sem
respeito humano, já será bom; mas convém levá-los ainda mais longe, até à piedade: uma piedade
verdadeira, ardente e esclarecida.

– “Devo, logo no princípio, franquear a porta a qualquer um?

– “O número só é desejável, quando os elementos recrutados forem bem escolhidos. O


desenvolvimento do círculo deve resultar da ação do núcleo dos apóstolos, cujo centro deve ser Jesus,
Maria, e V. Rev.ª, como seu instrumento.

– “A sede é modesta; devo preocupar-me em arranjar outra melhor?

– “A princípio, as salas espaçosas e cômodas podem atrair atenções sobre uma obra incipiente.
Mas, volto a dizer, se a base da sua associação for uma vida cristã íntegra, ardente e apostólica, a sede
estritamente necessária bastará para que nela caibam as coisas que exige o funcionamento normal de
um círculo. Poderá, então, comprovar que o barulho pouco bem faz e que o bem faz pouco barulho! E
que o Evangelho, bem compreendido, faz diminuir as despesas sem prejudicar os resultados. Mas terá
de se dedicar, não tanto a preparar representações teatrais, sessões de ginástica ou outras, como a
acumular em si a vida de oração; porque, persuada-se bem disto, na medida em que for o primeiro a
viver no amor de Nosso Senhor, nessa proporção será também capaz de inflamar nesse amor os
corações alheios.

– “Em suma, baseia tudo na vida interior?

– “Sim, mil vezes sim, porque com ela, em vez de uma liga, obtém-se ouro puro. E o que digo
sobre as obras da juventude pode-se aplicar a qualquer outra obra: paróquias, seminários, catecismo,
escolas, círculos militares, etc.; acredite na minha velha experiência. Quanto bem não produz, numa
grande cidade, uma associação cristã a viver, verdadeiramente, a vida sobrenatural! Opera como
poderoso fermento e só os anjos podem dizer como ela é fecunda em frutos de salvação.
“Ah! se os sacerdotes, os religiosos, e as pessoas de obras, conhecessem a força da alavanca
que têm nas mãos e tomassem como ponto de apoio o Coração de Jesus e a vida em união com esse
Coração divino, seriam capazes de levantar a nossa França! E, com certeza, a levantariam, não
obstante os esforços de Satanás e dos seus partidários”.32

4. A vida interior e a vida ativa reclamam-se mutuamente

Como o amor de Deus se revela pelos atos da vida interior, assim o amor do próximo se
manifesta pelas operações da vida exterior. Conseqüentemente, não podendo o amor de Deus separar-
se do amor de próximo, daí resulta que essas duas formas de vida não podem, também, de maneira
alguma, subsistir uma sem a outra.33

De igual sorte, diz Suárez, “não pode existir estado correta e normalmente ordenado para
chegar à perfeição, sem que participe em certa medida da ação e da contemplação”.34

O ilustre jesuíta limita-se a comentar o ensinamento de São Tomás. Aqueles que são chamados
às obras da vida ativa, diz o Doutor Angélico, erram se julgam que este dever os dispensa da vida
contemplativa. Tal dever é um acréscimo desta vida e não lhe diminui a intensidade. Desta forma, as
duas vidas, longe de se excluírem, reclamam-se, supõem-se, misturam-se, completam-se mutuamente;
e, se, de alguma delas, se deve fazer um quinhão mais considerável, é, sem dúvida, da vida
contemplativa, por ser a mais perfeita e a mais necessária.35

A ação, para ser fecunda, carece da contemplação. Quando esta atinge um certo grau de
intensidade, difunde o seu excedente sobre a ação. Por meio da contemplação, a alma vai haurir,
diretamente, no Coração de Deus as graças que a ação se encarrega de distribuir.

Fundindo-se numa harmonia perfeita, a ação e a contemplação dão à vida dos santos uma
maravilhosa unidade. São Bernardo, por exemplo, foi o homem mais contemplativo, e ao mesmo
tempo mais ativo, do seu século. Um dos seus contemporâneos descreveu-o assim: “A contemplação e
a ação harmonizavam-se nele a tal ponto, que parecia inteiramente dedicado às obras exteriores e, ao
mesmo tempo, inteiramente absorvido na presença e no amor do seu Deus”.36

Comentando este texto da sagrada Escritura: “Põe-me como um selo sobre o teu coração, como
um selo sobre o teu braço” (Cant, 8, 6), o Padre Saint-Jure descreve, admiravelmente, as mútuas
relações entre as duas vidas. Vamos resumir as suas reflexões.

O coração significa a vida interior, contemplativa. O braço, a vida exterior, ativa.

O texto sagrado fala do coração e do braço para mostrar que as duas vidas se podem aliar e
harmonizar, perfeitamente, na mesma pessoa.

O coração é indicado em primeiro lugar, porque é um órgão mais nobre e necessário que o
braço. Da mesma forma, a contemplação é mais excelente e perfeita, e merece muito mais estima que a
ação.

Dia e noite, o coração palpita. Um só instante que este órgão essencial pare, e, logo, sobrevêm a
morte. O braço somente se move por intervalos. Do mesmo modo, devemos, por vezes, dar tréguas aos
nossos trabalhos exteriores; mas, nunca, afrouxar na aplicação às coisas espirituais.
O coração dá vida e força ao braço, por meio do sangue que lhe envia, e, sem este, o braço
morre. Assim, a vida contemplativa, vida de união com Deus, graças às luzes e à assistência que a
alma recebe desta sacra intimidade, vivifica as ocupações exteriores; só ela é capaz de lhes comunicar,
simultaneamente, caráter sobrenatural e real utilidade. Sem ela, tudo é estéril e imperfeito.

Infelizmente, o homem separa o que Deus uniu; por isso, é tão rara essa união. Para ser
realizada, são necessárias certas precauções: nada empreender que exceda as nossas forças; habituar-se
a ver, em tudo, a vontade de Deus; só trabalhar nas obras que Deus deseja de nós, e só por amor d’Ele;
oferecer a Deus o nosso trabalho, renovando amiúde a resolução de não trabalhar senão por Ele e para
Ele. Em suma, seja qual for a atenção requerida pelo trabalho, procurar conservar a paz, e o perfeito
domínio de nós mesmos. Quanto ao êxito, deixá-lo, somente, nas mãos de Deus, fugindo das
inquietações humanas para só procurar a Cristo. Tais são os conselhos dos mestres da vida espiritual
para chegarmos a essa união.

Por vezes, as ocupações são tantas, que exigem todas as nossas energias. Poderemos, assim,
ficar privados, por algum tempo, do gozo da união com Deus. Mas essa união só sofrerá algum dano se
nos habituarmos a esse estado. Somos fracos e inconstantes. Se descuidarmos a nossa vida espiritual,
depressa perdemos o gosto por ela. Absorvidos pelas ocupações materiais, acabamos por comprazer-
nos nelas. Pelo contrário, se a vida interior tem vitalidade, ela suspira e geme no meio das atividades
transbordantes, e o mérito da contemplação sacrificada contribui para cimentar a união da vida interior
com a vida ativa. Oprimida por essa sede de vida interior que não logra saciar, a alma volta com ardor,
logo que pode, à vida de oração. Nosso Senhor sempre lhe há de reservar alguns instantes de
entretenimento com Ele. Exige, porém, que a alma os não despreze e há de compensar-lhe com o
fervor a brevidade desses felizes momentos.

Os caminhos de Deus assinalam-se pela sabedoria e pela bondade. Que maravilhosa direção dá Ele às
almas, por meio da vida interior! Essa pena profunda de termos de consagrar tanto tempo às obras de Deus, e tão
pouco ao Deus das obras, tem a sua recompensa. Graças a ela, vencemos a dissipação, o amor próprio e os
apegos. Essa disposição da alma, longe de prejudicar a liberdade do espírito e a atividade, confere-lhes
equilíbrio. É a melhor forma de praticar o exercício da presença de Deus, porque a alma, na graça do momento
presente, encontra o próprio Jesus, oferecendo-lhe oculto sob a obra a realizar. Jesus trabalha junto dela e
ampara-a. Essa pena salutar bem compreendida, esse desejo, sempre sacrificado e sempre vivo, de ter mais
momentos livres para estar junto do sacrário, essas comunhões espirituais quase incessantes, são a verdadeira
causa da fecundidade da ação das pessoas que desempenham cargos, e, ao mesmo tempo, a salvaguarda das suas
almas e a causa dos seus progressos na virtude.

5. Excelência desta união


A união da vida contemplativa com a vida ativa, constitui o verdadeiro apostolado, “a obra
principal do cristianismo”, como diz São Tomás.37

O apostolado supõe almas capazes de abraçar, com entusiasmo, uma idéia e de se consagrar ao
triunfo de um princípio. Sobrenaturalize-se a realização desse ideal pelo espírito interior; animem-se
com o espírito de Jesus o fim, os motivos do zelo e a escolha dos meios, e teremos a vida mais perfeita,
a vida por excelência. Vida que os teólogos preferem mesmo à simples contemplação.

O apostolado do homem de oração é, diz São Boaventura, a palavra conquistadora com “o


mandato de Deus, o zelo das almas, a frutificação das conversões”. Ou, como diz Santo Ambrósio, o
“vapor da fé de emanações salutares”.
O apostolado do santo é a sementeira do mundo. O apóstolo lança às almas o grão de Deus.38 É
o amor em fogo que devora a terra, o incêndio do Pentecostes, irresistivelmente propagado através dos
povos: “Eu vim trazer fogo à terra” (Lc, 12, 49).

A sublimidade deste ministério consiste em zelar pela salvação de alguém, sem prejuízo para o
apóstolo; sublimatur ad hoc ut aliis provideat. Transmitir as verdades divinas às inteligências
humanas! Não é este, porventura, um ministério digno dos anjos?

Bom é contemplar a verdade; mas, melhor ainda, comunicá-la aos outros. Refletir a luz é algo
mais que recebê-la. Iluminar vale mais que luzir debaixo do alqueire. Pela contemplação, a alma
alimenta-se; pelo apostolado, dá-se.39

É esta união do apostolado cheio de zelo, e da contemplação mais sublime que produziu santos,
como São Dionísio, São Martinho, São Bernardo, São Domingos, São Francisco de Assis, São
Francisco Xavier, São Filipe de Néri, Santo Afonso Maria de Ligório, São João Bosco; todos eles
ardentes contemplativos e, ao mesmo tempo, apóstolos poderosos.

Vida interior e vida ativa! Santidade nas obras! União poderosa, união fecunda! Que
prodigiosas as conversões que ela opera! Meu Deus! concedei à vossa Igreja muitos apóstolos, mas
reacendei nos seus corações, devorados pelo desejo de se dar, uma sede ardente da vida de oração. Dai
aos vossos operários uma ação contemplativa e uma contemplação ativa: Então, a vossa obra realizar-
se-á, plenamente, e os vossos apóstolos alcançarão as vitórias que lhes anunciastes antes da vossa
Ascensão gloriosa.

Parte III

A vida ativa, unida à vida interior, assegura o progresso na virtude


1. As obras: meio de santificação, ou perigo para a salvação?

a) Meio de santificação – Nosso Senhor exige aos seus apóstolos, não só que se conservem na
virtude, mas que nela progridam. Podemos comprová-lo em cada página das Epístolas de São Paulo a
Tito e a Timóteo, e nas apóstrofes do Apocalipse aos bispos da Ásia.

Por outro lado, já o demonstrámos, as obras são desejadas por Deus. Assim, pois, ver nelas um
obstáculo à nossa santificação, seria uma injúria à Sabedoria divina.

Dilema inevitável: ou o apostolado é um meio de santificação —caso se exerça nas condições


requeridas por Deus— ou, então, ele justificaria a negligência do apóstolo em se santificar.

Ora, pela economia do plano divino, Deus deve a Si mesmo o conceder ao apóstolo as graças necessárias
para a sua salvação e santificação, no meio das absorventes ocupações apostólicas.

Os socorros que dispensou a São Bernardo ou a São Francisco Xavier, deve-os Deus ao mais
modesto dos apóstolos, ao mais humilde dos religiosos professores, à mais ignorada das irmãs
enfermeiras. Não duvidemos: é essa uma verdadeira dívida do Coração de Deus para com os
instrumentos que escolheu. E o apóstolo, caso cumpra as condições exigidas, pode ter a certeza de que
receberá as graças requeridas por um género de trabalhos que lhe hipotecam o tesouro infinito dos
auxílios divinos.

Aquele que se consagra às obras de caridade —diz Alvarez de Paz— não deve pensar que elas
impedem a contemplação. Pelo contrário, dispõe-no, admiravelmente, para ela. Estas verdades são-nos
ensinadas, não só pela razão e pela autoridade dos Padres da Igreja, como pela experiência quotidiana,
porque vemos certas almas que se dedicam às obras de caridade, confissões, pregações, catecismo,
visita aos doentes, etc., elevadas por Deus a um tão alto grau de contemplação que, com toda a razão,
se podem comparar aos antigos eremitas do deserto.40

Por esta frase “grau de contemplação”, o eminente jesuíta, como todos os mestres da vida
espiritual, designa o dom do espírito de oração, carAtoerizado pela exuberância de caridade na alma.

Os sacrifícios exigidos pela glória de Deus e pela santificação das almas têm tal valor
sobrenatural, que o apóstolo dedicado à vida ativa pode elevar-se a um alto grau de caridade e de união
com Deus; numa palavra, à santidade.

Certamente, quando haja perigo grave de pecado, especialmente contra a fé e a pureza, Deus
quer que nos afastemos das obras. Feita, porém, esta reserva, Deus preserva do pecado e faz progredir
na virtude os apóstolos que tenham vida interior. Distingamos, todavia, com cuidado em que consiste
este progresso. Uma frase surpreendente da tão arguta Santa Teresa de Ávila permite-nos precisar o
nosso pensamento: “Desde que sou prioresa, sobrecarregada de trabalhos e obrigada a freqüentes
viagens, cometo maior número de faltas. No entanto, como combato generosamente e só trabalho para
Deus, sinto que, cada vez mais, me aproximo d’Ele.” A santa confessa, sem se perturbar, que a sua
fragilidade se manifesta mais intensamente do que no repouso e no silêncio do claustro. A
generosidade, inteiramente sobrenatural, da sua dedicação e do seu combate espiritual, dão-lhe a
recompensa de vitórias que contrabalançam a sua fragilidade. A nossa união com Deus —diz S. João
da Cruz— reside na união da nossa vontade com a sua e mede-se unicamente por ela. Para Santa
Teresa, a união com Deus não existe, somente, na tranqüilidade e na solidão. Pelo contrário, a
atividade desejada por Deus e exercida nas condições por Ele requeridas, alimentando o espírito de
sacrifício, a humildade, a abnegação e a dedicação pelo Reino de Deus, aumenta a união da alma com
Nosso Senhor, que nela vive, animando os seus trabalhos e encaminhando-a para a santidade.

A santidade reside, antes de tudo, na caridade. Uma obra de apostolado digna deste nome é a
caridade em ato: Probatio amoris, diz São Gregório, exhibitio est operis. O amor prova-se pelas obras
de abnegação, e Deus exige dos seus apóstolos essa prova de dedicação.

“Apascenta os meus cordeiros, apascenta as minhas ovelhas” (Jo 21, 15-16), tal é a forma de
caridade que Nosso Senhor exige do apóstolo, como prova da sinceridade do seu amor.

São Francisco de Assis julgava não poder dizer-se verdadeiro amigo de Jesus Cristo, enquanto
não se consagrasse à salvação das almas que Ele redimiu.41

E, se Nosso Senhor considera como feitas a Si mesmo as obras de misericórdia, mesmo


corporais, é porque, em cada uma delas, descobre uma irradiação da mesma caridade que anima
o missionário, ou sustenta o eremita do deserto, nas suas privações e combates.42
A vida ativa entrega-se às obras de apostolado; caminha pelos atalhos do sacrifício, em
seguimento do Bom Pastor, como missionário, taumaturgo, consolador e médico universal, para todos
os necessitados deste mundo.

A vida ativa lembra-se e vive destas palavras de Jesus: “Eu estou no meio de vós como um servo” (Lc 22,
27). “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir” (Mt 20, 28).

A vida ativa vai pelos caminhos da miséria humana, a dizer a palavra que ilumina, a semear
graças, e a distribuir benefícios. Pela clarividência da sua fé, pelas intuições do seu amor, descobre no
pior dos desgraçados, no mais desditoso dos abandonados, o Deus nu, lastimoso, desprezado por todos,
o grande leproso, o misterioso condenado, que a Justiça eterna persegue e acabrunha com os seus
golpes, o homem das dores, que Isaías viu erguer-se no luxo horroroso das suas chagas, na púrpura
trágica do seu sangue, de tal modo desfigurado e retalhado pelos cravos e pelos instrumentos de
flagelação, que mais parecia um verme do que um homem.

“Também nós o vimos e não o reconhecemos”, exclama o Profeta.43

A vida ativa, reconhece-O perfeitamente, e —de joelhos em terra, de olhos banhados em


lágrimas— serve-O nos pobres. A vida ativa eleva a humanidade; fecunda o mundo, com
generosidade, trabalho e amor, semeando méritos para o céu.

Vida santa, que Deus recompensa, abundantemente, porque dá o Paraíso ao apóstolo que deu o
copo de água ao pobre, que despendeu o seu saber, o seu suor e o seu sangue para salvar as almas
perdidas. No dia derradeiro, perante o céu e a terra reunidos, Deus canonizará todas as obras de
caridade.44

b) Perigo para a salvação – Quantas vezes, nos retiros que orientei, pude verificar que as obras —que
deveriam ser, sempre, meios de santificação— se tornavam instrumentos de ruína da vida espiritual.

Um homem de obras, convidado logo no início do retiro, a examinar a sua consciência e a


procurar a causa dominante do seu estado deplorável, fazia um juízo exato de si mesmo, dando-nos
esta resposta, à primeira vista, incompreensível: “Foi a dedicação que me perdeu! Sentia grande alegria
quando prestava algum serviço. Auxiliado pelo êxito aparente dos meus trabalhos, Satanás envidou
todos os esforços, durante anos, para me criar ilusões, excitar-me pelo delírio da ação, tornar
enfadonha a vida interior e, finalmente, atrair-me para o precipício.”

Este estado de alma anormal explica-se em poucas palavras. O operário de Deus, inteiramente
absorvido pela satisfação proporcionada pelas suas atividades naturais, deixara apagar-se a vida divina,
essa vida que tornava o seu apostolado fecundo e protegia a sua alma. Trabalhara muito, mas longe do
sol vivificante.

“Ostentação de forças, carreira rapidíssima, mas fora de caminho”.45 Por tal motivo, as obras,
embora santas, tinham-se voltado contra o apóstolo, como uma arma de dois gumes, que fere aquele
que não sabe servir-se dela.

Foi contra um perigo semelhante que São Bernardo quis acautelar o Papa Eugênio III, quando
lhe escreveu: “Temo que no meio das vossas ocupações inumeráveis, desesperando de lhes ver o fim,
deixeis endurecer a vossa alma. Andareis com mais prudência subtraindo-vos a essas ocupações, por
alguns instantes que seja, do que permitindo que elas vos dominem e que, pouco a pouco, mas
infalivelmente, vos arrastem para onde não quereis ir. Então para onde? Direis talvez. Para o
endurecimento do coração.

“Eis até onde vos podem levar essas malditas ocupações, se ainda continuais, como já a
princípio fizestes, a consagrar-vos inteiramente a elas, nada reservando para vós mesmo”.46

Que há de mais augusto, de mais santo, que o governo da Igreja? Haverá alguma coisa mais útil
para a glória de Deus e para o bem das almas? E contudo, “malditas ocupações”, exclama São
Bernardo, se elas hão de servir para impedir a vida interior daquele que a elas se dedica.

“Ocupações malditas”, que expressão! Vale por um livro inteiro, tanto ela choca e obriga a
refletir. E estaria a exigir um protesto, se não saísse da pena tão precisa de um doutor da Igreja, do
grande São Bernardo.

2. Do apóstolo sem vida interior


Uma palavra o carAtoeriza. Talvez ainda não seja, mas há de, fatalmente, tornar-se tíbio. Ora,
ser tíbio, não por sentimento ou fragilidade, mas por vontade, é pAtouar com a dissipação e
a negligência, habitualmente consentidas, pAtouar com o pecado venial deliberado e, por isso mesmo,
é tirar à alma a segurança da salvação eterna, conduzindo-a ao pecado mortal.47 Tal é, sobre a tibieza,
a doutrina de Santo Afonso, tão bem exposta e comentada pelo Padre Desurmont, seu discípulo.48

Por que razão o apóstolo sem vida interior cai, necessariamente, na tibieza? Respondo com as palavras
dirigidas por um bispo missionário aos seus sacerdotes, palavras tanto mais perturbadoras quanto provêm de um
coração frontalmente oposto ao quietismo: “É necessário —diz o cardeal Lavigerie— que nos persuadamos bem
disto: para um apóstolo não há meio termo entre a santidade completa (ao menos desejada e procurada com
fidelidade e coragem) e a perversão absoluta.”

Recordemos, em primeiro lugar, as más tendências da nossa natureza, a guerra sem tréguas que
nos fazem os nossos inimigos interiores e exteriores, os perigos que por todos os lados nos ameaçam.

Dito isto, procuremos traçar o quadro do que sucede a uma alma que se consagra ao apostolado,
sem estar suficientemente precavida e armada contra os seus perigos.

Um jovem apóstolo sente despertar o desejo de se dedicar às obras, mas carece de experiência.
O seu gosto pelo apostolado revela ardor, vivacidade de caráter, amor pela ação e até pela luta. É
correto, piedoso, mas a sua piedade é sentimental, é uma rotina piedosa. A sua oração, se é que a
pratica, é um devaneio, e as suas leituras espirituais, são mera curiosidade, sem influência na sua
conduta. Talvez até Satanás, iludindo-o com um senso artístico que ele toma por vida interior, o leve a
gostar de leituras que tratem das vias elevadas e extraordinárias da união com Deus, e a admirá-las
com entusiasmo. Tudo somado, pouca ou nenhuma vida interior, nessa alma que ainda conserva
hábitos bons, qualidades naturais e o desejo sincero, mas vago, de permanecer fiel a Deus.

Vai, pois, o nosso apóstolo consagrar-se com zelo a esse ministério tão novo para ele. A breve
trecho —precisamente, em virtude das circunstâncias que essas novas ocupações originam— deparam-
lhe mil circunstâncias para o fazer viver fora de si, mil engodos para a sua curiosidade ingênua, mil
ocasiões de quedas, contra as quais, até então, o tinham em parte protegido a atmosfera tranqüila da
família, do seminário, da comunidade, do noviciado, ou a tutela de um prudente diretor.
Não só a dissipação crescente ou a curiosidade perigosa, a impaciência ou a susceptibilidade, a
vaidade ou o ciúme, a presunção ou o abatimento, a parcialidade ou a difamação, como também a
fragilidade do coração e as formas mais ou menos subtis da sensualidade, vão obrigar a um combate
ininterrupto essa alma mal preparada para tão contínuos assaltos. Conseqüentemente, freqüentes são as
feridas.

Pensará acaso em resistir, estando ela tão absorvida em atividades que considera excelentes? De seu lado,
Satanás, bem longe de contrariar essa satisfação da vida ativa, excita-a o mais possível.

Certo dia, ela entrevê o perigo: o anjo da guarda fala, a consciência interpela-a. É preciso ter
mão em si; examinar-se no sossego de um retiro; tomar a resolução enérgica de seguir à risca um
regulamento, embora com prejuízo dessas ocupações tão afagadas. Mas já é tarde! A alma já saboreou
o prazer de ver os seus esforços coroados de êxito: amanhã, amanhã, exclama ela! Hoje é impossível;
falta-me tempo, porque devo continuar esta série de homilias, escrever este artigo, organizar este
sindicato, esta associação de caridade, preparar esta récita, fazer esta viagem, pôr em dia a minha
correspondência, etc... Como a tranqüilizam todos estes pretextos! Porque o simples pensamento de
encarar a sério a sua consciência já se lhe tornou insuportável. Chega o momento em que Satanás pode
trabalhar à vontade para acabar de arruinar um coração que se tornou seu cúmplice. O terreno está
preparado. A sua vítima apaixonara-se pela ação; pois bem: Satanás instila-lhe a febre da ação. A sua
vítima não consegue esquecer o tumulto dos negócios, nem suportar o recolhimento; o demônio
incute-lhe horror a tudo isso e lembra-lhe novos projetos, aos quais, habilmente, dá as aparências de
zelo pela glória de Deus e pela salvação das almas.

E esse homem, que, ainda há pouco, tinha hábitos virtuosos, deslizará de fraqueza em fraqueza,
sem conseguir deter a sua queda. Tendo uma vaga consciência de que essa agitação não é conforme ao
coração de Deus, atira-se, mais do que nunca, para o turbilhão dos trabalhos, a fim de sufocar os seus
remorsos. As faltas vão-se acumulando. O que outrora perturbava a sua consciência reta, agora é,
apenas, um vão escrúpulo que despreza. Proclama ser homem do seu tempo, que luta com armas iguais
às dos inimigos e defende as virtudes ativas, desprezando o que chama piedade doutras eras. Por outro
lado, as suas obras vão de vento em popa; o público aplaude-as. Cada dia vê novos êxitos. “Deus
abençoa a nossa obra”, exclama essa alma iludida, sobre a qual, amanhã talvez, devido às suas faltas
graves, chorem os anjos do céu.

Como caiu esta alma num estado tão lamentável? Inexperiência, vaidade, imprevidência e
relaxamento. Não calculando os seus fracos recursos espirituais, lançou-se à aventura. Esgotadas as
provisões de vida espiritual, vê-se na situação do nadador temerário que, já sem forças para lutar
contra a corrente, se deixa arrastar para o fundo. Detenhamo-nos um instante, para medir o caminho
percorrido e a profundidade do precipício. Procedamos ordenadamente e contemos as etapas.

Primeira etapa. A alma foi, progressivamente, perdendo, se é que as teve alguma vez, as
convicções sobre a vida sobrenatural e a economia do plano de Nosso Senhor, quanto à relação da vida
interior com as obras. Vê as obras através de um prisma enganador. A vaidade serve de pedestal subtil
às pretensas boas intenções: “Que querem, Deus concedeu-me o dom da palavra”, respondia aos
aduladores um pregador inteiramente exteriorizado. A alma, mais que a Deus, procura-se a si mesma.
A reputação, a glória, os interesses pessoais estão no primeiro plano. A afirmação de São Paulo: “Se
procurasse agradar aos homens, não seria servo de Cristo” (Gal 1, 10), torna-se para ela uma frase sem
sentido.
Sem falar da ignorância dos princípios, a ausência da base sobrenatural, que carAtoeriza esta
etapa, tem, ora como causa, ora como conseqüência imediata, a dissipação, o esquecimento da
presença de Deus, o abandono das orações jaculatórias, a perda da guarda do coração, a falta de
delicadeza de consciência e de regularidade de vida. A tibieza aproxima-se, se é que não começou já.

Segunda etapa. O homem sobrenatural é escravo do dever. Por isso, sabe distribuir,
ordenadamente, o tempo, e segue um regulamento de vida, fugindo de comodismos e caprichos.

O apóstolo sem vida sobrenatural, por falta de espírito de fé no emprego do tempo, põe de parte
as leituras espirituais, e, se ainda as lê, já não as estuda. Preparar, durante a semana inteira, a homilia
do domingo, era bom para os Padres da Igreja. A não ser que a vaidade esteja em jogo, prefere
improvisar, e sai-se sempre tão bem… pelo menos assim pensa. Aos livros, prefere as revistas.49
Abandona o método de vida; desperdiça as horas livres, só procura distrações para se furtar à lei do
trabalho, essa grande lei de preservação, moralização e penitência.

Considera teórico e enfadonho tudo o que estorva a sua liberdade de movimentos. Não lhe
chega o tempo para tantas obras e deveres sociais e até para o que julga necessário à saúde e à
distração. Realmente —diz-lhe Satanás— consagras tempo demais à meditação, ao ofício, à Missa e ao
teu ministério. É necessário cortar o supérfluo. E começa, invariavelmente, por abreviar a meditação,
por fazê-la irregularmente e acaba por deixá-la, de todo. Como está habituado a deitar-se tarde, vai
abandonando a condição indispensável para permanecer fiel à oração: levantar-se a uma hora certa.
Ora, na vida ativa, abandonar a meditação, ou reduzi-la a dez ou quinze minutos, equivale a render-se
ao inimigo. Algumas pessoas atribuem a Santa Teresa a seguinte afirmação: “Dai-me alguém que faça,
cada dia, um quarto de hora de oração, e eu lhe darei o céu.” Ignoramos até que ponto é autêntico esta
afirmação, mas a nossa experiência das almas sacerdotais ou religiosas consagradas às obras leva-nos a
crer que um apóstolo que não se obrigue a meia hora, pelo menos, de meditação metódica, concluída
com uma resolução leal —baseada na desconfiança de si mesmo e na confiança na oração— de
praticar nesse dia determinadas renúncias relativas a um vício a combater ou uma virtude a adquirir,
cai, fatalmente, na tibieza da vontade.

Os pecados veniais multiplicam-se. A falta da guarda do coração impede a alma de ver essas
faltas. Como poderá combater o que já não considera defeituoso? Esta é a conseqüência da segunda
etapa, carAtoerizada pelo abandono da meditação e da regra de vida.

Terceira etapa. O seu principal sintoma é a negligência na recitação do breviário. A oração da


Igreja, que devia dar alegria e força ao soldado de Cristo, torna-se encargo difícil de suportar. A vida
litúrgica, fonte de luz, alegria, força, méritos e graças, para si e para os fiéis, torna-se um dever
desagradável que de má vontade se cumpre. A virtude da religião está profundamente abalada.
Contribui para a estiolar a febre das obras. O culto de Deus já só lhe aparece ligado a manifestações
exteriores. O sacrifício pessoal e obscuro, mas afetuoso, de louvor, de súplica, de ação de graças, de
reparação, já nada lhe diz.

Não há muito, durante a recitação das suas orações vocais, ele ainda repetia, com legítima
altivez: “hei de cantar-vos na presença dos anjos” (Sl 132, 2). O santuário dessa alma, outrora
perfumado pela vida litúrgica, tornou-se uma praça pública, cheia de ruído e desordem. A dedicação
exagerada às obras e a dissipação encarregam-se de multiplicar as distrações, cada vez menos
combatidas. “Deus não está no meio da agitação” (1 Rs, 19, 11). A oração é rezada precipitadamente,
com interrupções, negligências, sonolências, atrasos, adiamentos para a última hora, com perigo de ser
vencido pelo sono…, e às vezes é mesmo omitida. O remédio transforma-se em veneno e o sacrifício
de louvor, em ladainha de pecados!

Quarta etapa. O abismo arrasta consigo outro abismo. Os sacramentos são recebidos ou
administrados como coisa respeitável, por certo, mas já não se sente palpitar a vida que eles encerram.
A presença de Jesus no sacrário ou no confessionário já não faz vibrar, até à medula da alma, todas as
energias da Fé. A própria Missa, o santo Sacrifício do Calvário, é um jardim fechado. A alma não
sente já o calor do sangue divino. As suas consagrações são frias e as suas comunhões tíbias,
distraídas, superficiais. A intimidade irreverente, a rotina e o tédio andam à espreita dessa alma.

O apóstolo, assim desfigurado, vive longe de Jesus, e já não é favorecido com aquelas palavras íntimas que
Jesus diz, apenas, aos seus verdadeiros amigos.

De vez em quando, o Amigo celeste faz chegar um remorso, uma luz, um apelo. Espera, bate,
pede, insistentemente, para entrar: Vem a mim, pobre alma ferida, vem, vem depressa, que Eu te
curarei: “Vinde a Mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e aliviar-vos-ei” (Mt 11, 28); porque
“o Filho do Homem veio procurar e salvar o que estava perdido” (Lc 19, 10). Esta voz tão doce, tão
terna, tão discreta, tão insistente, procura momentos de comoção para obter o arrependimento. Mas
como a porta do coração está fechada, Jesus não pode entrar, e esses bons movimentos da alma ficam
frustrados. A graça passa debalde. Na sua misericórdia, para não acumular razões de justiça, Jesus
talvez até deixe de lhe falar: Time Jesum transeuntem et non revertentem, “temei a Jesus que passa e
que não volta mais”...

Vamos agora mais longe, penetremos no interior dessa alma cuja fisionomia acabamos de esboçar.

Na vida sobrenatural, como na vida moral e intelectual, o papel dos pensamentos tem grande
preponderância. Que pensamentos preocupam essa alma? Terrenos, superficiais e egoístas, esses
pensamentos convergem, cada vez mais, para o eu, ou para as criaturas, e amiúde sob as aparências de
dedicação e sacrifício.

A esta desordem na inteligência corresponde o desregramento na imaginação. Nenhuma


potência carece de mais vigilância do que esta. Vendo-se de rédea solta, parte em galope desbocado.
Corre para todas as loucuras. A falta da mortificação da vista permite que a imaginação se torne
desenfreada.

Da inteligência e da imaginação, a desordem desce até aos afetos. O coração já só se alimenta


de quimeras. Que sucederá a esse coração dissipado, que já não dá importância à presença de Deus em
si e que se tornou insensível à voz da graça, à poesia sublime dos mistérios, às belezas severas da
liturgia, aos apelos e doçuras do Deus da Eucaristia, numa palavra, às influências do mundo
sobrenatural? Irá parar para analisar com severidade a sua consciência? Não, ele só quer emoções! Não
encontrando a felicidade em Deus, volta-se para as criaturas. Na primeira ocasião, lança-se para elas,
desatinadamente, esquecido dos compromissos mais sagrados, do interesse supremo da Igreja, e da
própria reputação. Ainda o perturba a perspectiva da apostasia; mas o escândalo das almas já não lhe
causa tanto temor.

Quem não vê que o tédio de Deus e a aceitação do prazer proibido pode levar o coração até às
piores desventuras? “O homem animal —diz São Paulo— não percebe aquelas coisas que são do
espírito de Deus, porque, para ele, são loucura, e não as pode entender, pois elas devem ser julgadas
espiritualmente” (I Cor 2, 14). Quem se deixou cair até aí, está a um passo daquilo que Jeremias
lamentava: “Os que comiam delicados manjares, perecem pelos caminhos. E os que foram educados
no fausto, abraçaram o esterco” (Lam 4, 5). A ilusão obstinada, a cegueira do espírito, o endurecimento
do coração vão progredindo. Tudo se pode esperar.

Para cúmulo, a vontade encontra-se reduzida a um estado de enorme indolência e fraqueza. Se lhe pedirem
um pequeno esforço, obterão um desanimador: “Não posso.” Ora a falta de vontade leva a todos os desastres.

Um famoso ímpio disse, certa vez, não acreditar na fidelidade aos votos e obrigações dos religiosos,
inseridos como estavam, pelas suas obras de apostolado, na vida do século. “Caminham —acrescentava ele—
por uma corda bamba. Hão de forçosamente cair.” A esta injúria a Deus, respondemos, sem hesitação, que tais
quedas, com toda a certeza, se evitam se nos soubermos servir da vida interior, mas que o abandono deste meio
conduz, infalivelmente, ao precipício.

O admirável jesuíta, Padre Lallemant, confirma, precisamente, isto, quando diz: “Muitos
homens apostólicos nada fazem puramente por Deus. Misturam o seu próprio interesse com a glória de
Deus, mesmo nos melhores empreendimentos. Misturam a natureza e a graça. Chega, por fim, a morte
e, só então, vêem a sua ilusão, e tremem ao avizinhar-se do terrível tribunal de Deus”.50

Longe da nossa intenção querer incluir no número dos apóstolos que se pregam a si mesmos, esse
dedicado missionário que foi o célebre Padre Combalot. Mas parece-nos oportuna a citação das suas palavras,
pronunciadas poucos momentos antes de morrer.

– “Tenha confiança, meu amigo —dizia-lhe um sacerdote após ter administrado os últimos
sacramentos— porque foi fiel à sua ordenação sacerdotal, e os seus milhares de sermões hão de atenuar, diante
de Deus, a insuficiência de vida interior de que me fala”.

– “Os meus sermões! Oh! como os vejo agora por um prisma diferente! Os meus sermões! Se Nosso
Senhor não for o primeiro a falar-me deles, não serei eu a começar.”

Perante os clarões da eternidade, esse venerável sacerdote, nas suas melhores obras de zelo, via
imperfeições que inquietavam a sua consciência, e que atribuía à falta de vida interior.

O Cardeal du Perron, à hora da morte, mostrava-se arrependido porque, durante a vida, dedicara-se mais
ao aperfeiçoamento da sua inteligência, pelas ciências, que ao da vontade, pelos exercícios da vida interior.51

Ó Jesus, Apóstolo por excelência!, houve, porventura, alguém que se dedicasse ao bem dos homens com
mais ardor do que Vós? Hoje ainda, continuais a entregar-Vos, no mundo inteiro, por meio da Eucaristia, sem
que por isso deixeis o seio do vosso Pai! Fazei que nunca esqueçamos que só desejais as obras que forem
animadas por espírito verdadeiramente sobrenatural e que mergulhem as suas raízes no vosso Coração adorável.

3. A vida interior, base da santidade do apóstolo


A santidade é a vida interior levada até à união da nossa vontade com a vontade de Deus. Salvo um
milagre da graça, a alma só atinge essa perfeição depois de ter percorrido, através de múltiplos esforços, todas
as etapas da vida purgativa e iluminativa. É lei da vida espiritual que, no decurso da santificação, a ação de Deus
e a da alma seguem caminhos inversos: as operações de Deus intensificam-se cada vez mais, enquanto a alma
vai operando cada vez menos.

A ação de Deus é diferente nos santos e naqueles que começam a caminhar para a santidade. Nestes, é
menos aparente: pede-lhes vigilância e oração para alcançarem as graças necessárias. Nos santos, Deus opera de
forma mais completa e às vezes só pede um simples consentimento para unir a alma à sua ação suprema.
O principiante, o tíbio ou o pecador, que o Senhor quer aproximar de Si, começam por se sentir
inclinados a procurar a Deus; depois, a querer agradar-Lhe; finalmente, a procurar todas as ocasiões de combater
o amor próprio, para que Jesus reine nas suas almas. A ação divina limita-se, aqui, a incitamentos e auxílios.

No santo, essa ação é muito mais poderosa e completa. No meio das fadigas, sofrimentos,
humilhações e doenças, ele abandona-se à ação divina, sem a qual não seria capaz de suportar as dores
que, por desígnio de Deus, devem completar o seu amadurecimento. Realiza-se nele, plenamente, o
texto seguinte: “Deus sujeitou a Ele todas as coisas, para que Deus seja tudo em todos” (1 Cor 15, 28).
Vive numa tal união com Jesus, que parece não viver por si mesmo, como o Apóstolo: “Vivo, mas já
não sou eu que vivo, é Cristo que vive em mim” (Gal 2, 20). É o espírito de Jesus que pensa, decide, e
opera nele. Certamente, a divinização está longe da intensidade que há de alcançar no Céu, mas este
estado já reflete os carAtoeres da união beatífica.

Assim não sucede com o principiante ou o tíbio, e até mesmo com o simples fervoroso. Esses estados
têm os seus próprios meios. O principiante, como qualquer aprendiz, avançará com lentidão e dificuldades. O
fervoroso, já mais adestrado, consegue maiores proveitos.

Mas, para qualquer categoria de apóstolos, Deus quer que as obras sejam sempre um meio de
santificação. Mas se, para a alma do santo, o apostolado não é um perigo sério, não lhe esgota as forças e até lhe
fornece ocasiões de crescer na virtude, esse apostolado pode causar a anemia espiritual e o recuo no caminho da
perfeição às pessoas fracamente unidas a Deus, com pouco gosto pela oração, sem espírito de sacrifício e,
sobretudo, sem a guarda habitual do coração.

Mas Deus concede a guarda do coração a quem reza com perseverança e que, com provas reiteradas de
fidelidade, vai transformando as suas faculdades, tornando-se dócil às inspirações divinas e capaz de aceitar,
alegremente, contrariedades e decepções.

Vejamos agora seis carAtoerísticas da vida interior, pelas quais a alma é dotada de verdadeira virtude.

a) Acautela a alma contra os perigos do ministério exterior

“É mais difícil viver bem quando se tem encargo de almas —diz São Tomás— por causa dos perigos
exteriores”.52 Falamos deste perigo no capítulo precedente.

Enquanto o apóstolo desprovido de espírito interior ignora os perigos a que as obras dão origem e se
assemelha a um viajante que atravessa desarmado uma floresta infestada de bandidos, o verdadeiro apóstolo
acautela-se desses perigos todos os dias, mediante o exame de consciência, que lhe faz descobrir os seus pontos
fracos.

Se outra vantagem não tivesse a vida interior, já esta contribuiria para nos preservar das surpresas da
jornada, pois que o perigo previsto está meio afastado. Mas a sua utilidade é muito superior. A vida interior
torna-se para o homem de obras, uma armadura completa: “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais
resistir às ciladas do demônio”;53 armadura divina que lhe permite: “resistir no dia mau e ficar de pé depois de
ter vencido em tudo”, santificando todos os seus atos.

A vida interior “cinge os rins” do apóstolo com a pureza de intenções. Os seus pensamentos, desejos e
afetos estão postos em Deus, e os prazeres e distrações não o afastam desse caminho.

Reveste-o da “couraça da justiça” que torna varonil o seu coração e o defende das seduções das
criaturas, do espírito do século e dos assaltos do demônio.
“Calça-o” com a discrição e o recato, fazendo-o aliar a simplicidade da pomba à prudência da serpente.

Satanás e o mundo procurarão incutir-lhe os sofismas da falsa doutrina, e relaxar os seus costumes. Ele,
porém, defende-se com o “escudo da fé”, que faz brilhar aos olhos da alma o esplendor do ideal divino.

Conhecimento do seu nada, solicitude pela própria salvação, convicção de que não conseguirá progredir
sem o socorro da graça e, por conseguinte, oração constante e fervorosa, tanto mais eficaz quanto mais
confiante, eis o “elmo da salvação” que defende a alma dos ataques do orgulho.

Assim armado, dos pés à cabeça, poderá o apóstolo entregar-se sem temor às obras, e o seu zelo,
inflamado pela meditação do Evangelho e fortificado pelo pão eucarístico, tornar-se-á uma “espada” que lhe
servirá para combater os inimigos da sua alma e conquistar incontáveis almas para Cristo.

b) Repara as forças do apóstolo

No meio de trabalhos e preocupações, e apesar do contato habitual com o mundo, o santo preserva o seu
espírito interior e dirige os seus pensamentos e intenções, unicamente, para Deus. A atividade exterior está nele
tão sobrenaturalizada e tão abrasada pelo amor que, longe de diminuir as suas forças, o faz crescer sempre em
graça.

Nas outras pessoas, mesmo fervorosas, ao cabo de certo tempo consagrado às ocupações exteriores, a
vida sobrenatural começa a sofrer algum prejuízo. Absorvidas com o bem a fazer ao próximo, movidas por uma
compaixão pouco sobrenatural pelas misérias a aliviar, o seu coração imperfeito dirige a Deus chamas menos
puras, escurecidas pelo fumo de numerosas imperfeições.

Deus não pune essa fraqueza com a diminuição da sua graça, e não trata com rigor esses
desfalecimentos, se a alma fizer esforços sérios de vigilância e oração durante o trabalho e se, após este, voltar
para junto d’Ele, a fim de reparar as forças. A contínua renovação de propósitos do apóstolo, mesmo nas quedas,
alegra o coração paternal de Deus.

Naqueles que lutam, essas imperfeições vão-se tornando cada dia menos freqüentes, à medida
que a alma aprende a recorrer a Jesus, que lhe diz: “Vem a Mim, pobre cervo ofegante, sequioso pelo
cumprimento da jornada. Vem encontrar nas águas vivas novas forças para outras carreiras. Aparta-te
um instante da multidão, que não te dará o alimento de que carecem as tuas forças esgotadas”.

“Vem aqui, à parte, a um lugar deserto e repousa um pouco” (Mc 6, 31). “No sossego e na paz
que encontras junto de Mim, recuperarás o teu primeiro vigor, e aprenderás a fazer mais com menor
dispêndio de forças. Elias, fatigado, desanimado, viu as suas energias reanimadas por um pão
misterioso. Procederei do mesmo modo contigo, não só com a minha palavra, que é vida, mas com a
minha graça, isto é, com o meu sangue, orientarei, de novo, o teu espírito para os horizontes eternos e
renovarei, entre o meu coração e o teu, um pato de intimidade. Vem, que Eu te consolarei das tristezas
e das decepções da viagem, e no fogo do meu amor, retemperarás o aço das tuas decisões”.

“Vinde a Mim todos os que estais fatigados e oprimidos, e Eu vos aliviarei” (Mt 11, 28).

c) Multiplica as suas energias e méritos

“Tu, pois, filho, fortifica-te na graça que está em Jesus Cristo” (2 Tim 2, 1). A graça é a participação na
vida do Homem-Deus. Jesus é a força por essência. N’Ele reside, em toda a plenitude, a força do Pai, a
onipotência da ação divina, e o seu Espírito é chamado Espírito de Força.
“Ó Jesus —exclama São Gregório de Nazianzo— somente em Vós reside toda a minha força”. “Fora de
Cristo —diz por sua vez São Jerônimo— eu sou de todo impotente”.

O Doutor seráfico, no 4º livro do seu Compêndio de Teologia, enumera os cinco carAtoeres principais
que em nós reveste a força de Jesus:

O primeiro é empreender coisas difíceis e enfrentar, resolutamente, os obstáculos: “Animai-vos e sede


fortes de coração” (Sl 30, 25).

O segundo é o desprezo das coisas da terra: “Por seu amor quis perder tudo, avaliando-o como esterco,
a fim de ganhar Cristo” (Fil 3, 8).

O terceiro, a paciência nas tribulações: “O amor é forte como a morte” (Cant 8, 6).

O quarto, a resistência às tentações: “O diabo anda em redor de vós como um leão furioso... resisti-lhe
fortes na fé” (1 Ped 5, 8-9).

O quinto é o martírio interior, o testemunho, não do sangue, mas da própria vida, que se consome no
desejo de pertencer a Jesus. Consiste em combater a concupiscência, dominar os vícios e trabalhar, com energia,
na aquisição das virtudes: “Combati o bom combate” (2 Tim 4, 7).

Enquanto o homem exterior confia nas suas forças naturais, o homem interior apenas vê nelas auxiliares
úteis, embora insuficientes. O conhecimento da sua fraqueza e a fé na onipotência de Deus dão-lhe, como a São
Paulo, a medida exata das suas forças. À vista dos obstáculos que se erguem diante dele, exclama com humilde
altivez: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2 Cor 12, 10).

Sem vida interior —diz São Pio X— faltarão as forças para agüentar com perseverança os
aborrecimentos que qualquer apostolado acarreta: a frieza e falta de apoio das próprias pessoas de bem, as
calúnias dos adversários, e, às vezes, até os ciúmes dos amigos, dos companheiros de armas... Só a virtude
paciente, fortalecida no bem e, ao mesmo tempo, suave e delicada, é capaz de remover ou diminuir tais
dificuldades.54

Mediante a vida de oração, como seiva que corre da cepa para os ramos, a força divina desce à alma do
apóstolo para lhe fortalecer a inteligência, comunicando-lhe uma fé mais viva. Então ele progride, porque essa
virtude alumia o seu caminho, e avança confiante, porque sabe para onde vai e como vai. A esta iluminação,
junta-se o fortalecimento sobrenatural da vontade, que torna os fracos capazes de atos heróicos.

Assim se realiza o “Permanecei em Mim” (Jo 15, 4). Esta união com Aquele que é o Leão de Judá, o
Pão dos fortes, o Imutável, explica a maravilhosa constância e a firmeza tão perfeita que, nesse admirável
apóstolo que foi São Francisco de Sales, se aliavam a uma incomparável doçura e humildade. O espírito e a
vontade fortificam-se com a vida interior, porque o amor se fortifica. Jesus vai, progressivamente, purificando,
dirigindo e aumentando esse amor. Torna-o participante nos sentimentos de compaixão e abnegação do seu
Coração adorável. Se esse amor se torna paixão, leva-o a por em ação todas as forças naturais e sobrenaturais.

A multiplicação das energias, pela vida de oração, aumenta, também, os méritos; basta lembrar que o
mérito consiste menos na dificuldade de praticar um ato, do que no grau de caridade com que tal ato se pratica.

d) Dá-lhe alegrias e consolações

Só o amor ardente e constante pode alegrar a existência, porque fortalece o coração, até no meio das
maiores aflições e trabalhos.
A vida do apóstolo é uma cadeia de sofrimentos e fadigas. Se ele não tem a firme convicção de que
Jesus o ama, terá muitíssimas horas tristes e sombrias, ainda que possua um caráter alegre. O demônio tentará
deslumbrá-lo com a miragem de consolações humanas e êxitos aparentes, a fim de o atrair. Só o Homem-Deus
pode fazer uma alma exclamar como o Apóstolo: “Estou inundado de alegria, no meio de todas as nossas
tribulações” (2 Cor 7, 4). A parte superior do seu ser, como a de Jesus em Getsemani, goza de uma felicidade
que, embora não seja perceptível pelos sentidos, é superior a todas as alegrias humanas.

No meio das provações, contradições, humilhações, perda de seres queridos ou de bens, a alma aceitará
estas cruzes com sentimentos inteiramente diversos dos que tinha logo após a sua primeira conversão.

Cresce, dia a dia, na caridade. Pouco importa que o seu amor não seja sensível; que o divino Mestre a
trate como alma forte, levando-a pelas vias de um aniquilamento cada vez mais profundo, ou pela senda austera
da expiação, por si e pelo mundo. Favorecida pelo recolhimento, alimentada na Eucaristia, o seu amor cresce
continuamente. Prova-o a generosidade paciente, compassiva e ardorosa com que se sacrifica à procura de
almas; generosidade que só se explica pela presença de Jesus na sua alma: “É Cristo quem vive em mim”.

O sacramento do amor deve ser o da alegria. Não tem vida interior a alma que não é eucarística e que
não experimenta a doçura inefável do dom de Deus.

A vida do apóstolo é uma vida de oração. “Vida de oração —diz o Santo Cura d’Ars— eis a grande
felicidade deste mundo. Oh vida admirável! Oh admirável união da alma com Nosso Senhor! A eternidade é
curta para se compreender essa felicidade (…). A vida interior é um banho de amor em que a alma se submerge
(…), e se afoga no amor (…). Deus ampara a alma interior como a mãe que pega no filho para o cobrir de beijos
e carícias.”

Contribuir para que o objeto do seu amor seja servido e honrado é também causa de alegria. O apóstolo
conhece todas essas felicidades.

Servindo-se das obras para aumentar o seu amor, sente, ao mesmo tempo, enorme consolação.
É um “caçador de almas”, que tem a felicidade de contribuir para a salvação daquelas que estão em
perigo de condenar-se eternamente, e a alegria de consolar o seu Deus, sabendo que se santifica e que
garante a sua glória eterna.

e) Acrisola a sua pureza de intenções

O homem de fé vê nas obras, não tanto as aparências, como o papel que elas desempenham nos
planos divinos e sabe avaliar os seus resultados sobrenaturais. Considerando-se como simples
instrumento, afasta da alma qualquer auto-complacência em relação às suas próprias qualidades, das
quais desconfia sempre, confiando, unicamente, no auxílio de Deus.

Que diferença entre esta atitude e a do apóstolo que não vive em Jesus! As dificuldades e
aflições só fortalecem a sua alma.

Por outro lado, o referido abandono não diminui o seu entusiasmo por qualquer
empreendimento. Trabalha — como gostava de dizer Santo Inácio— como se o êxito dependesse
unicamente da sua atividade, mas, na verdade, só o espera de Deus. Nada lhe custa subordinar todos os
seus projetos e esperanças aos desígnios incompreensíveis desse Deus que, para o bem das almas, se
serve mais vezes dos fracassos que dos triunfos.
Daí resulta, para essa alma, um estado de santa indiferença pelos êxitos ou fracassos das suas
empresas. “Vós, ó meu Deus —está ela sempre pronta a dizer— não quereis que se interrompa a obra
começada. Desejais que me limite a trabalhar com generosidade e em paz, deixando-vos decidir se o
êxito vos dará mais glória do que o ato de virtude que um revés me dará ocasião de praticar. Mil vezes
bendita seja a vossa santa e adorável vontade, tanto se os meus projetos tiverem êxito, sem que com
eles me envaideça, como se fracassarem, servindo-me, então, para humilhar-me.”

É certo que o coração do apóstolo sangra, quando contempla as tribulações da Igreja; mas a
maneira como ele sofre é completamente diferente da que experimenta o homem que não possui
espírito sobrenatural. Este entra numa atividade febril, na impaciência e no desespero, quando
sobrevêm as dificuldades. O verdadeiro apóstolo utiliza tanto os triunfos como os revezes para
aumentar a sua confiança na Providência. Qualquer acontecimento lhe serve de motivo para fazer atos
de fé. Qualquer momento do seu trabalho perseverante lhe fornece o ensejo de praticar atos de
caridade, porque, pelo exercício da guarda do coração, procede em tudo com uma pureza de intenções
cada dia mais perfeita, e, pela renúncia desinteressada, torna o seu ministério cada vez mais impessoal.

Deste modo, todas as ações do verdadeiro apóstolo se tornam cada dia mais santas e o seu amor
pelas almas purifica-se, amando-as unicamente por Jesus: “Filhinhos meus, por quem eu sinto de novo
as dores do parto, até que Jesus se forme em vós” (Gal 4, 19).

f) É escudo contra o desânimo

O apóstolo que não tenha vida interior achará incompreensível esta frase de Bossuet: “Quando
Deus quer que uma obra seja toda da sua mão, tudo reduz à impotência e ao nada e, só depois, opera”.

Nada ofende tanto a Deus como o orgulho. Ora, por falta de pureza de intenções na busca do
êxito, podemos acabar por nos erigir a nós próprios em princípio e fim das nossas obras. Deus tem
horror a essa espécie de idolatria. Por isso, quando vê que a atividade do apóstolo é interesseira, deixa,
às vezes, o campo livre às causas segundas, e o edifício não tarda em desmoronar-se.

Ativo, inteligente, dedicado, votou-se o operário ao trabalho com todo o entusiasmo. Conheceu
êxitos brilhantes, alegrou-se com eles, viu-os com complacência. É a sua obra. A sua! Tem vontade de
dizer, como Júlio César, veni, vidi, vici. “Cheguei, vi e venci”. Pouco depois, um acontecimento
permitido por Deus, uma ação direta do demônio ou do mundo atingem a obra ou a pessoa do apóstolo
e é a ruína total. A tristeza e o desânimo, desse esforçado de ontem, provocam uma enorme devastação
interior. À alegria exuberante, sucede um abatimento profundo!

Só Nosso Senhor poderia reparar essas ruínas. Mas o infeliz já não escuta a voz de Jesus. Tão
exteriorizado anda, que, para ouvi-lo, seria preciso um milagre da graça; mas ele, na sua pouca fé, já
não acredita em milagres. Só uma vaga convicção na onipotente misericórdia de Deus é que ainda
paira sobre a sua desolação, mas sem dissipar a profunda tristeza que o inunda.

Que diferente é a alma do apóstolo que procura identificar-se com Nosso Senhor! Para ele, os
dois grandes meios de ação — sobre o Coração de Deus e sobre o coração dos homens— são a oração
e a santidade. Trabalha com generosidade e dedicação, mas julga a miragem do êxito uma perspectiva
indigna para o verdadeiro apóstolo. Se vierem as borrascas e as ruínas, não se deixa abalar; como
trabalhou, apenas, por Nosso Senhor, esse apóstolo ouve ressoar no fundo do seu coração aquele “Não
tenhais medo!”, que outrora, durante a tempestade, restituiu a paz e a segurança aos discípulos
aterrorizados.
Um novo surto de amor pela Eucaristia, um aumento da devoção a Nossa Senhora, eis o
primeiro fruto que lhe traz a provação.

Em vez de se deixar esmagar, a alma desse apóstolo sai rejuvenescida da provação: “A tua
juventude renovada tem o vigor da águia” (Sl 102, 5). O segredo da atitude desse humilde triunfador,
perante a derrota, encontra-se na sua união confiante com Jesus, que faziam dizer a Santo Inácio: “Se a
Companhia chegasse a ser suprimida, sem qualquer culpa da minha parte, para recuperar o sossego e a
paz, bastar-me-ia um quarto de hora de recolhimento na presença de Deus”. “Como um rochedo no
meio do mar —dizia o Santo Cura d’Ars— assim é o coração das almas interiores no meio das
humilhações e dos sofrimentos”.55

É bem certo que o apóstolo sofre. Aquilo que arruinou os seus esforços e a sua obra, também
causa a perda das suas ovelhas. Tristeza amarga para esse bom pastor; mas tristeza incapaz de arrefecer
o ardor com que vai recomeçar a sua obra. Ele sabe que a redenção de uma alma é sempre uma obra
sublime, que se realiza, sobretudo, pelo sofrimento. Sabe, também, que as provações, generosamente
suportadas, aumentam a virtude e dão glória a Deus. Isto basta para lhe dar ânimo.

Sabe, igualmente, que poderão ser outros a recolher os frutos do seu apostolado, e até a
vangloriar-se com tais frutos. Deus, porém, conhece as autênticas causas do êxito, que por vezes estão
no trabalho ingrato, e aparentemente estéril, de um apóstolo desconhecido. “Eu enviei-vos a ceifar o
que vós não trabalhastes; outros trabalharam e vós recolheis o fruto dos seus trabalhos” (Jo 4, 38).

No decurso da sua vida pública, Nosso Senhor —verdadeiro autor dos êxitos dos seus
Apóstolos— lançou a semente da doutrina e do exemplo, mas predisse que eles haveriam de fazer
obras maiores que as suas: “Em verdade, em verdade vos digo, aquele que crê em Mim fará também as
obras que Eu faço. Fará outras ainda maiores, porque Eu vou para o Pai” (Jo, 14, 12).

O verdadeiro apóstolo não se deixa desanimar, nem influenciar pelas resoluções dos
pusilânimes. Não desiste, após os fracassos, porque a sua vida interior e a sua fé em Jesus Cristo não
lho permitem. Ele é como abelha infatigável que reconstrói com alegria novos favos na colméia
devastada.

Parte IV

A vida interior é condição da fecundidade das obras


Nas páginas seguintes, abstrairemos da razão de fecundidade das obras que os teólogos
denominam ex opere operato (da obra em si). Consideraremos apenas as que resultam ex opere
operantis (da obra de quem opera).

Para assegurar a fecundidade das obras desejadas por Deus, o apóstolo deve seguir o conselho de Jesus:
“Aquele que permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto” (Jo 15, 5). Perante a autoridade e a clareza
deste texto, limitar-me-ei a confirmá-lo com fatos.

Durante mais de trinta anos, pudemos seguir o andamento de dois orfanatos de meninas, dirigidos por
duas congregações diferentes. Ambos atravessaram —porque não dizê-lo?— um período de manifesta
decadência. De dezesseis órfãs recolhidas em condições idênticas e que, chegadas à maioridade, saíram desses
asilos, cinco caíram, logo a seguir, na pior degradação moral. Das outras onze, só uma se conservou
profundamente cristã; todas, entretanto, tinham sido colocadas, por ocasião da sua saída, em casas de famílias
honestas.

Um desses orfanatos, há cerca de onze anos, mudou de superiora. Seis meses depois, já se
verificava uma enorme transformação. A mesma transformação se verificou no outro orfanato, que
apenas mudou de capelão.

Ora, desde então, todas as meninas que saíram dos orfanatos, por terem atingido a maioridade,
se conservaram boas cristãs.

A razão destes resultados é simples. Faltava uma direção com profunda vida interior, e isso bastava para
paralisar ou atenuar a ação da graça. A antiga superiora e o antigo capelão, ambos sinceramente piedosos, não
conseguiam exercer uma ação profunda e duradoura. Piedade sentimental e rotineira, crenças vagas, amor sem
entusiasmo, virtudes sem raízes... Piedade que servia para formar boas criaturas, incapazes de fazer mal a
alguém, mas sem força de caráter; criaturas à mercê da sensibilidade e da imaginação. Vida cristã sem
horizontes, incapaz de formar mulheres fortes, preparadas para a luta: vida cristã que, quando muito, conseguia
manter aquelas crianças dentro da “gaiola”, a suspirar pelo dia de poderem escapar.

Muda o espírito dessas duas comunidades. Tudo muda de aspecto. A oração torna-se intensa e fervorosa; os
sacramentos fecundos. Melhora a compostura na capela, no trabalho e no recreio. Que paz, que entusiasmo, que
amor à virtude! Nalgumas almas um desejo intenso de abraçar a vocação religiosa. A que atribuir tal
transformação? À profunda vida interior da superiora e do capelão.

Em grande número de colégios, externatos, hospitais, paróquias, comunidades e seminários, o


observador atento verá idênticos efeitos, produzidos pelas mesmas causas.

Ouçamos S. João da Cruz: “Reflitam durante alguns instantes —diz ele— esses homens devorados pelas
atividades e que pensam revolver o mundo com pregações e obras, e compreenderão que muito mais úteis
seriam à Igreja, e muito mais agradariam ao Senhor, se consagrassem mais tempo à oração e aos exercícios da
vida interior. Com uma só obra, e muito menos trabalho, fariam maior bem do que fazem com milhares de
outras a que dedicam toda a sua vida. A oração dar-lhes-ia a força espiritual de que necessitam. Sem ela, tudo se
reduz a muito ruído e pouco, ou nenhum, fruto, pois nada de bom se pode realizar sem a virtude de Deus.
Aquelas pessoas que abandonam a vida interior e aspiram a obras retumbantes, que dão fama e agradam a todos,
nada entendem do veio da água viva, e da fonte misteriosa que tudo faz frutificar”.56

Estas palavras de S. João da Cruz são tão veementes que fazem recordar a expressão, antes
citada, de S. Bernardo: “ocupações malditas”. Mas nada têm de exageradas, basta-nos recordar que as
qualidades que Bossuet mais admirava neste santo eram, precisamente, o bom senso e o rigor com que
exprimia os seus pensamentos.

Procuremos, agora, estudar algumas das causas da fecundidade da vida interior.

1. A vida interior atrai as bênçãos de Deus

“Inebriarei de gordura a alma dos sacerdotes, e o meu povo saciar-se-á dos meus bens” (Jer 31,
14). Notemos a conexão das duas partes deste texto bíblico. Deus não diz: Darei mais zelo, mais
talento aos meus sacerdotes, mas: “Inebriarei a sua alma”, isto é, comunicar-lhes-ei o meu espírito e as
minhas graças, e “o meu povo saciar-se-á dos meus bens”.
Poderia Deus ter distribuído a sua graça conforme quisesse, sem ter em conta a piedade do
apóstolo ou as disposições dos fiéis. Assim procede, por exemplo, no batismo das crianças. Consoante,
porém, a lei ordinária da sua Providência, esses dois elementos são a medida dos dons celestes.

“Sem Mim nada podeis fazer” (Jo 15, 5). Tal é o princípio. No Calvário correu o sangue
redentor. Como irá Deus assegurar a sua primeira fecundidade? Por meio de um milagre de difusão de
vida interior. Nada mais acanhado que a motivação dos apóstolos antes do Pentecostes. Ora, o Espírito
Santo transforma-os em homens de vida interior e a sua pregação começa, logo, a operar maravilhas.
Deus não voltou a renovar o prodígio do Cenáculo. Deixou as graças de santificação entregues à livre e
laboriosa correspondência dos fiéis. Mas, ao fazer do Pentecostes a data oficial do nascimento da
Igreja, deu-nos, claramente, a entender que os seus ministros devem considerar como prelúdio das suas
obras co-redentoras a sua santificação pessoal.

Por isso, os verdadeiros apóstolos confiam muito mais nos sacrifícios e orações do que no
exercício da sua atividade. Antes de subir os degraus do púlpito, o Padre Lacordaire rezava durante
muito tempo e, quando voltava à sua cela, disciplinava-se. O Padre Monsabré, antes de usar da
palavra, na Catedral de Paris, rezava de joelhos o seu rosário inteiro. “Tomo a minha última infusão”,
respondia ele a sorrir, a um amigo que o interrogava sobre este exercício. Ambos estes religiosos
seguiam o princípio enunciado por S. Boaventura: “O segredo do apostolado encontra-se aos pés do
crucifixo, e não na ostentação de qualidades brilhantes”. “Estas três coisas permanecem: a palavra, o
exemplo e a oração; mas a maior das três é a oração”, exclama São Bernardo. Comentário categórico
do santo à resolução tomada pelos Apóstolos de deixarem certas obras, para se poderem aplicar de
preferência à oração: “Quanto a nós, entregar-nos-emos assiduamente à oração” e, só depois, ao
“ministério da palavra” (Ato 6, 4).

O Salvador dá uma importância primordial ao espírito de oração. Lançando um olhar sobre o


mundo e sobre os séculos vindouros, e vendo a multidão de almas chamadas aos benefícios do
Evangelho, Jesus exclama entristecido: “A seara é grande, mas os trabalhadores são poucos” (Mt 9,
37). Que meio irá propor para difundir, rapidamente, a sua doutrina? Exigirá que os seus discípulos
freqüentem as escolas de Atenas ou estudem, junto dos césares de Roma, como se conquistam e
governam os impérios?… Escutai o Mestre, ó novos apóstolos! Ele indica-nos um programa luminoso:
“Rogai, pois, ao Senhor da seara que envie trabalhadores para a sua seara” (Mt 9, 38). Sábias
organizações, recursos a procurar, templos a erigir, escolas a construir: nada disto menciona. “Rogai,
pois”. A oração, o espírito de oração, eis a verdade fundamental que o Mestre não cessa de recordar. O
resto virá por acréscimo.

“Rogai, pois!” Se a humilde súplica de uma alma santa é mais capaz de suscitar legiões de
apóstolos que a voz eloqüente de um recrutador de vocações carente do espírito de Deus, que concluir
daqui, senão que o espírito de oração é a causa principal da fecundidade do trabalho do verdadeiro
apóstolo?

“Rogai, pois!” Orai antes de mais nada: só depois é que Nosso Senhor acrescenta: “Ide, pois,
ensinai... pregai” (Mt, 10, 7). Certamente, Deus quer utilizar este segundo meio; porém, as bênçãos
que tornam o ministério fecundo estão reservadas à prece do homem de oração, prece poderosa para
fazer sair do seio de Deus uma ação irresistível sobre as almas.

A voz autorizada de São Pio X corrobora a tese da nossa modesta obra: “Para instaurar todas as
coisas em Cristo pelo apostolado das obras, é preciso a graça divina e, para a receber, deve o apóstolo
estar sempre unido a Cristo. Somente depois de termos formado Jesus Cristo em nós mesmos, é que
poderemos facilmente restituí-l’O às famílias e às sociedades. Todos aqueles que tomam parte no
apostolado devem portanto revestir-se de uma verdadeira piedade”.57

E o que dizemos da oração aplica-se também ao outro elemento da vida interior: o sofrimento.

Pode-se sofrer como pagão, como condenado, ou como santo. Para sofrer com Jesus Cristo, é necessário
procurar sofrer como um santo. O sofrimento serve, então, para o nosso proveito pessoal e para a aplicação dos
méritos da Paixão às almas: “Completo na minha carne o que falta padecer a Jesus Cristo pelo seu corpo que é a
Igreja” (Col 1, 24). “Os sofrimentos de Cristo estavam completos, mas só na cabeça —diz Santo Agostinho,
comentando este texto— faltam ainda os sofrimentos de Cristo nos seus membros místicos”. Jesus Cristo sofreu
como cabeça. Agora é ao seu corpo místico que cumpre sofrer. Cada sacerdote, cada apóstolo, pode, pois, dizer:
– Esse corpo sou eu, sou membro de Cristo, e é necessário que eu complete, pelo seu corpo que é a Igreja, o que
falta aos sofrimentos de Cristo.

O sofrimento, diz o Padre Faber, é o maior dos sacramentos. Este grande teólogo demonstra a
necessidade do sofrimento e a glória que dele provém. A fecundidade das obras resulta, para o célebre
oratoriano, da união dos sacrifícios do apóstolo com o sacrifício redentor de Cristo, união que os torna
participantes na eficácia infinita do sangue divino.

2. Torna o apóstolo santificador, pelo bom exemplo

No sermão da montanha, o divino Mestre chama aos seus apóstolos o “sal da terra” e a “luz do
mundo” (Mt 5, 13-14).

Seremos “sal da terra” na medida em que formos santos. O sal insípido para que serve? “Que
pode sair de puro de uma fonte impura?” (Ecli 34, 4). Só presta para ser atirado aos caminhos e
calcado aos pés.

Verdadeiro “sal da terra”, pelo contrário, o apóstolo piedoso será um verdadeiro agente de conservação
da sociedade, no meio da corrupção humana. Farol que brilha durante a noite, o clarão do seu exemplo, mais
ainda do que da sua palavra, dissipará —como verdadeira “luz do mundo”— as trevas acumuladas pelo espírito
do mundo, e fará resplandecer o ideal da verdadeira felicidade, que Jesus traçou nas oito bem-aventuranças.

O que mais favorece a prática da vida cristã são, precisamente, as virtudes daqueles que têm a missão de
ensinar os fiéis. Pelo contrário, as suas fraquezas afastam as almas de Deus: “Por vossa causa o nome de Deus é
blasfemado entre os gentios” (Rom 2, 24). O apóstolo deve ter nas mãos a tocha do bom exemplo, mais do que
bonitas palavras nos lábios e, antes de pregar a virtude, deve praticá-la. “Aquele que tem a missão de dizer
coisas sublimes é, por isso mesmo, obrigado a traduzi-las na prática”, diz S. Gregório.58

Com toda a razão alguém observou que o médico do corpo pode tratar dos seus doentes sem que ele
próprio goze de saúde. Porém, o médico das almas deve ter a alma sã, porque dá alguma coisa de si mesmo. Os
homens têm o direito de ser exigentes com aqueles que pretendem reformá-los. Com efeito, se a moral com que
se orna o pregador mais não é do que um invólucro falaz, logo o descobrem e recusam-lhe a confiança.

O sacerdote terá grande poder para falar da oração, se o povo o vir frequentemente em colóquios
íntimos com o Hóspede do tabernáculo, tantas vezes abandonado. Será ouvido ao pregar o trabalho e a
penitência, se ele próprio for laborioso e mortificado. Ao fazer a apologia da caridade fraterna, encontrará
corações atentos, se difundir à sua volta o bom odor de Jesus Cristo, refletindo na sua conduta a doçura e a
humildade do divino Mestre, “como modelo do seu rebanho” (1 Ped 5, 3).
O professor sem vida interior julga ter cumprido o seu dever, cingindo-se exclusivamente ao programa
letivo. Se tiver vida interior, uma frase que lhe escape dos lábios, uma comoção que se lhe espelhe no rosto, um
gesto expressivo, a sua maneira de fazer o sinal da cruz, de dizer uma oração, antes ou depois da aula —mesmo
que seja de matemática— podem ser mais eficazes do que um sermão inteiro.

A religiosa, em serviço num hospital ou num asilo, tem poder e meios eficazes para fazer germinar nas
almas um amor profundo a Jesus Cristo e ao Evangelho. Falte-lhe a vida interior, e nem sequer dará por esse
poder, ou conseguirá, apenas, promover atos exteriores de piedade.

O cristianismo propagou-se menos pelos sermões e polêmicas, do que pelo espetáculo dos costumes
cristãos, tão opostos ao egoísmo, à injustiça e à corrupção dos pagãos. Na sua obra prima, “Fabíola”, o cardeal
Wiseman descreve bem o fascínio que o exemplo dos primeiros cristãos exerceu sobre as almas pagãs mais
carregadas de preconceitos contra a nova religião. Nessa belíssima narração, assistimos à ascensão de uma alma
para a luz. Os sentimentos nobres, as virtudes modestas ou heróicas, que a filha de Fábio descobre em certas
pessoas de todas as classes sociais, impõem-se à sua capacidade de admirar. Mas que revelação para a sua alma,
quando verifica que todos aqueles cuja caridade, dedicação, modéstia, doçura, moderação, culto da justiça e da
castidade ela admira, pertencem a essa “seita” que sempre lhe apresentaram como a mais execrável! Desde
aquele momento, torna-se cristã.

Como seria irresistível o apostolado dos católicos sobre os pagãos modernos, se possuíssem o esplendor
de vida cristã descrito pelo ilustre purpurado, e que afinal mais não é do que a fidelidade ao Evangelho! Muitas
vezes, contudo, a agressividade das nossas polêmicas, ou a maneira de reivindicar direitos, mais parece provir
do orgulho ferido que do desejo de defender os interesses de Jesus!

A irradiação exterior de uma alma unida a Deus é extraordinariamente poderosa. Foi ao ver o modo
como o Padre Passerat celebrava a santa Missa, que o jovem Desurmont decidiu entrar na Congregação do
Santíssimo Redentor, que tanto haveria de ilustrar.

O povo tem intuições que não falham. Pregue um homem de Deus e o povo acode em multidão. Cesse
porém a sua conduta de corresponder ao que se tinha o direito de esperar, e logo a obra fica comprometida e
ameaça ruína.

“Que vejam as vossas obras, e glorifiquem o vosso Pai, que está nos Céus” (Mt 5, 16), dizia Nosso
Senhor. S. Paulo recomenda, frequentemente, o bom exemplo aos seus dois discípulos Tito e Timóteo: “E tu
serve de exemplo em tudo pelo teu bom comportamento” ( Tit 2, 7). “Sê o exemplo dos fiéis: Na palavra, no
procedimento, na caridade, na fé e na castidade” (1 Tim 4, 12). Ele próprio exclama: “O que vistes em mim é o
que deveis praticar” (Fil 4, 9). “Sede imitadores meus, como eu o sou de Cristo” (1 Cor 11, 1). E a sua
linguagem de verdade apoia-se nessa segurança e nesse zelo que, de forma alguma, excluem a humildade e que
faziam dizer a Nosso Senhor: “Qual de vós me acusará de pecado?” (Jo 8, 46).

É tão somente quando seguir “as obras e os ensinamentos de Jesus” (Ato 1, 1), que o apóstolo se tornará
“um operário que não tem de que se envergonhar” (2 Tim 2, 15).

“Antes de tudo, caríssimos filhos —dizia Leão XIII— lembrai-vos de que a pureza e a santidade da vida
são a condição indispensável do verdadeiro zelo e o melhor penhor de vitória”.59

“Um homem perfeito e santo —diz Santa Teresa— faz maior bem às almas do que grande número de
outros, que apenas sejam bem instruídos e prendados”.

“Se o espírito não for regulado por uma conduta verdadeiramente cristã e santa —declara São Pio X—
difícil será levar os outros à prática do bem”. E acrescenta: “Aqueles que são chamados às obras católicas,
devem ser homens de vida tão ilibada que a todos sirvam de exemplo eficaz”. 60
3. Produz no apóstolo uma irradiação sobrenatural
O fato do nosso Deus ser um “Deus oculto” 61 é um dos grandes obstáculos para a conversão de uma alma.
Porém, na sua infinita bondade, Ele condescendeu manifestar-se por meio dos seus santos e das almas
fervorosas, que deixam transparecer alguma coisa do mistério divino.

O que é, pois, esta difusão do sobrenatural, este brilho da santidade? É o esplendor da graça santificante.
Ou melhor: o resultado da presença inefável das Pessoas divinas naqueles que por elas são santificados.

“Quando o Espírito Santo —diz S. Basílio— se une às almas que a sua graça purificou, é para
espiritualizá-las ainda mais. Como o sol torna mais rutilante o cristal que toca e penetra com os seus raios, assim
o Espírito santificador torna luminosas as almas onde habita e estas, devido a uma tal presença, tornam-se, por
sua vez, outros tantos focos que difundem à sua volta a graça e a caridade”. 62

O Homem-Deus manifesta-se nas almas dotadas de vida interior. As conversões maravilhosas, que
operaram certos santos, revelam o segredo do seu silencioso apostolado. Santo Antão povoou os desertos do
Oriente. São Bento fez surgir uma inumerável falange de santos religiosos que civilizaram a Europa inteira. São
Bernardo exerceu uma influência sem par sobre a Igreja, sobre os reis e os povos. São Vicente Ferrer excitou, à
sua passagem, um entusiasmo indescritível nas multidões e, o que é mais, provocou a sua sincera conversão. No
encalço de Santo Inácio, ergueu-se um exército de bravos, um dos quais, Francisco Xavier, trouxe para a luz da
fé uma incalculável quantidade de pagãos. A razão destes prodígios está na irradiação do poder do próprio Deus,
através de instrumentos humanos.

Que desgraça, quando não há almas verdadeiramente interiores à frente das obras importantes! O
sobrenatural parece eclipsar-se e é, então, como ensinam os santos, que os países declinam e que a Providência
dá aos obreiros da iniqüidade o poder de fazer grandes estragos.

As almas percebem, como que instintivamente, essa irradiação do sobrenatural na alma dos apóstolos. O
pecador vai prostrar-se, de bom grado, aos pés do sacerdote em quem reconhece o próprio Deus.

“Na verdade, João não fez milagre algum” (Jo 10, 41). Sem fazer milagres, João Baptista atraía as
multidões.

A voz do Santo Cura de Ars era fraca para se fazer ouvir pela multidão, mas a sua simples vista
subjugava completamente e convertia os assistentes, que viam nele uma custódia viva de Deus. Alguém
perguntou a um advogado o que vira em Ars. Ele respondeu: “Vi Deus num homem”.

Seja-nos permitido resumir tudo por meio do seguinte exemplo físico. Uma pessoa que lida com a
eletricidade fica, por vezes, carregada de um fluido poderoso. Se alguém lhe toca, recebe uma descarga que o
faz estremecer. Assim acontece com o homem interior. Uma vez desapegado das criaturas, estabelece-se entre
Jesus e ele uma corrente contínua. O apóstolo torna-se um acumulador de vida sobrenatural, que condensa em si
o fluido divino. “Saía dele uma virtude que a todos curava” (Lc 6, 19). As suas palavras e atos tornam-se então
eflúvios dessa força que derruba obstáculos, obtém conversões e aumenta o fervor.

Quanto mais as virtudes teologais existirem num coração, tanto mais esses eflúvios ajudarão a fazê-las
nascer nas almas dos outros.

Por meio da vida interior o apóstolo irradia a fé. – A presença de Deus nele patenteia-se às pessoas
que o ouvem. A exemplo de São Bernardo, o apóstolo consegue ficar interiormente isolado das outras pessoas;
mas logo se percebe que ele não está só: tem no coração um Hóspede misterioso, com o qual conversa a cada
momento, e, quando fala, segue os seus conselhos e ordens. Sente-se que é sustentado e guiado por esse
Hóspede, e que as palavras da sua boca são o eco fiel das que pronuncia esse Verbo interior: “Se alguém fala,
fale palavras de Deus” (1 Ped 4, 11). Então, a lógica e a força dos argumentos manifestam-se menos do que o
próprio Verbo interior, a falar por meio da sua criatura. “As palavras que Eu vos digo, não as digo de Mim
mesmo, mas o Pai, que está em Mim, é que faz as obras” (Jo 14, 10). Influência profunda e duradoura,
muitíssimo mais profunda que a admiração superficial ou a devoção passageira que o homem sem espírito
interior pode excitar. Este pode levar o auditório a dizer: Isto é verdadeiro e interessante. Mas não consegue dar
às almas uma fé sobrenatural, e fazê-las viver dessa fé.

Frei Gabriel, irmão leigo trapista,63 exercendo as funções de segundo hospedeiro, reavivava a fé de
numerosos visitantes muito melhor do que um douto sacerdote, cuja linguagem falasse mais ao espírito que ao
coração. O general Miribel ia, por vezes, conversar com o humilde frade e comprazia-se em dizer: – “Venho
retemperar a minha fé”.

Nunca se pregou tanto e se escreveram tantos tratados de apologética como nos nossos dias e, no
entanto, a fé está a esmorecer na grande maioria das almas. Muitas vezes, aqueles que têm a missão de ensinar
só vêem no ato de fé um ato de inteligência, quando ele depende também da vontade. Esquecem-se de que crer é
um dom sobrenatural, e que há um abismo entre a percepção dos motivos de credibilidade e o ato definitivo de
fé. Só Deus, e a boa vontade daquele que é ensinado, logram preencher esse abismo. Mas a santidade daquele
que ensina ajuda a preencher tal abismo.

Irradia esperança. – A fé do homem de oração dá-lhe a firme convicção de que a felicidade se


encontra somente em Deus. A sua conversação irradia a esperança do Céu e ele possui vastos recursos para
consolar as almas.

A cruz é apanágio de qualquer mortal; o segredo para nos fazermos ouvir pelos homens é saber ensiná-
los a descobrir as doçuras inefáveis da cruz. Ora, a Eucaristia e a esperança do céu encerram esse segredo.
Como é forte a palavra de consolação do homem que, sem mentir, pode dizer como o Apóstolo. “A nossa
conversação está nos Céus!” (Fil 3, 20). Qualquer outro, com mais frases e retórica, pode falar das alegrias da
pátria celeste; os seus discursos serão, porém, infrutuosos: ao passo que uma só palavra do primeiro bastará para
acalmar a perturbação, aliviar a tristeza, fazer aceitar com resignação a dor mais pungente. É que a virtude da
esperança passa, irresistivelmente, do homem interior para a alma que está para cair no desespero.

Irradia caridade. – A alma que quer santificar-se ambiciona, sobretudo, possuir a caridade.
“Permanecer em Jesus e Jesus nele”, eis o que pretende o homem verdadeiramente interior.

Os pregadores experientes são unânimes em reconhecer que, se as práticas sobre a morte, o juízo, o
inferno, são sempre salutares num retiro ou numa missão, a instrução sobre o amor de Deus produz, em geral,
efeito muito mais salutar. Dada por um verdadeiro apóstolo, capaz de fazer partilhar pelo auditório os
sentimentos que o animam, essa instrução assegura o êxito e determina as conversões.

Quer se trate de afastar a alma do pecado, quer de levá-la do fervor até à perfeição, o amor de Jesus é
sempre uma alavanca incomparável. O cristão atolado no lodo, que percebe esse amor no seu semelhante,
considera mais facilmente a fatuidade dos amores terrenos, e começa a sentir repugnância pelo pecado.
Descobre o imenso amor de Jesus por ele, sente dentro de si os suaves ecos da graça do baptismo e da primeira
comunhão. É que, na fisionomia e na voz do ministro de Deus que lhe fala, transparece um amor nobre, puro e
ardente, que sobreleva todo o amor das criaturas.

À medida que o Deus do Amor se manifesta por meio do seu arauto, a alma vai saindo do lodo onde se
atolava e torna-se capaz de todos os sacrifícios para adquirir o tesouro do amor divino, até então quase
desconhecido para ela.

Irradia bondade. – “Um zelo não caritativo —disse S. Francisco de Sales— procede de uma falsa
caridade”. As almas transformam-se, quando saboreiam, por meio da oração, a suavidade d’Aquele a quem a
Igreja chama “Oceano de bondade”.64 Mesmo que uma alma seja naturalmente inclinada ao egoísmo e à
dureza, esses defeitos vão desaparecendo, se ela se alimentar n’Aquele em quem “apareceu a bondade do
Salvador, nosso Deus, e o seu amor pelos homens” (Tit 3, 4).

Unindo-se Àquele que é a expressão do amor de Deus e a “imagem da sua bondade” (Sab 7, 26), o
apóstolo sente que o seu amor se torna “difusivo”, como o de Deus. Quanto mais se unir a Jesus Cristo, tanto
mais participará na sua indulgência, benevolência e compaixão. E a sua generosidade tanto mais caminha para a
imolação alegre e magnânima.

Transfigurado pelo amor divino, o apóstolo atrai a simpatia das almas: “Agradou por causa do seu zelo e
da sua bondade” (Ecli 45, 29). As suas palavras e atos exalam bondade; a bondade desinteressada, que não é
inspirada por desejo de popularidade ou egoísmo subtil.

“Deus determinou —escrevia Lacordaire— que para fazer bem aos homens fosse necessário amá-los e
que a insensibilidade fosse, para sempre, incapaz de lhes comunicar a luz e inspirar a virtude.”

Com efeito, o homem considera uma glória resistir ao que lhe é imposto pela força; uma questão de
honra, opor objeções à ciência que pretende ter sempre razão; mas não considera humilhação ser desarmado
pela bondade.

As Irmãzinhas dos Pobres, as Irmãzinhas da Assunção, as Irmãs da Caridade obtiveram inúmeras


conversões sem qualquer discussão, somente através de uma infatigável e heróica bondade.

“Deus está aqui —exclama o pecador perante a generosidade dessas irmãs— vejo-O realmente como o
‘Deus bom’. E bom tem de ser, para que a união com Ele torne seres tão egoístas, como são as criaturas
humanas, capazes de aniquilar o seu amor próprio e contrariar as repugnâncias mais legítimas da natureza!”

Esses anjos terrestres realizam, na prática, a seguinte definição do Padre Faber: “A bondade é a entrega
de si mesmo aos outros. Ser bom é pôr os outros no lugar de si mesmo. A bondade tem convertido mais
pecadores do que o zelo, a eloqüência ou a instrução, e estas três coisas não converteram pessoa alguma, sem
que a bondade nisso influa de algum modo (...). É a manifestação deste sentimento nos apóstolos que atrai os
pecadores e que concorre para a sua conversão”.

E acrescenta: “Por toda a parte, a bondade se mostra o melhor paladino do preciosíssimo sangue de
Cristo (…). É certo que o temor do Senhor é, frequentemente, o princípio dessa sabedoria que se chama
conversão; é, porém, necessário que ele seja acompanhado pela bondade, porque, doutro modo, o temor apenas
fará infiéis”.65 “Tende o coração de uma mãe —diz São Vicente Ferrer— quando preciseis de animar ou de
atemorizar. Mostrai entranhas de caridade para com todos; sinta o pecador que a vossa linguagem é inspirada
pela caridade. Se quereis ser úteis às almas, começai por recorrer a Deus, com todo o vosso coração, para que
Ele difunda em vós essa caridade que é a síntese de todas as virtudes, a fim de que, mediante ela, possais
alcançar eficazmente o fim proposto”. 66

A bondade natural, simples fruto do temperamento, dista tanto da bondade sobrenatural do verdadeiro
apóstolo, como o que é humano dista do que é divino. A primeira, fará nascer o respeito ou a simpatia pelo
apóstolo e pode desviar para a criatura uma afeição que apenas deveria ter Deus como objeto. Nunca
conseguirá, porém, determinar as almas a fazerem os sacrifícios necessários para regressarem ao seu Criador. Só
a bondade, que promana da união com Jesus, realizará esse efeito.

O amor ardente a Jesus e às almas dará ao apóstolo a audácia compatível com a prudência. A um leigo
eminente ouvimos contar, certa vez, o seguinte fato. Falando com o Santo Pontífice Pio X, tinha esse leigo, no
decurso da audiência, usado palavras ásperas para referir-se a um determinado inimigo da Igreja. “Meu Filho —
diz-lhe o Papa— não aprovo a sua linguagem. Como castigo, ouça esta história. Acabava de chegar à sua
primeira paróquia um sacerdote que eu conheci muito bem. Julgou ele do seu dever visitar todas as famílias.
Judeus, protestantes e até mações, ninguém foi excluído, e o pároco anunciou do púlpito que renovaria a sua
visita todos os anos. Tanto se admiraram disto os seus colegas que se queixaram ao bispo. Este mandou logo
chamar o acusado e repreendeu-o com veemência. ‘Monsenhor —respondeu-lhe modestamente o pároco—
Jesus, no Evangelho, ordena ao pastor que conduza ao aprisco todas as suas ovelhas: “Ainda tenho outras
ovelhas que não são deste aprisco e também tenho de as conduzir” (Jo 10, 16). Como atingir esse resultado sem
ir à procura delas? Por outro lado, eu nunca transijo nos princípios; limito-me a testemunhar o meu interesse e
caridade a todas as almas, mesmo às que andam desgarradas, mas que Deus me confiou. Anunciei essas visitas
do púlpito; e se é vosso desejo formal que eu deixe de as fazer, tende a bondade de me dar, por escrito, essa
proibição, a fim de que se saiba que eu apenas obedeço às ordens de V. Exª. Rvdma.’. Abalado pelo acerto
destas palavras, o bispo não insistiu. O futuro veio dar razão a esse sacerdote, que teve a alegria de converter
algumas dessas almas desgarradas e comunicou às outras um grande respeito pela nossa santa religião. O
humilde sacerdote veio a ser, por vontade de Deus, o Papa que agora lhe dá, meu filho, esta lição de caridade.
Seja, pois, inabalável nos princípios, mas estenda a sua caridade a todos os homens, mesmo que eles sejam os
piores inimigos da Igreja.”

Irradia humildade. – Facilmente se compreende que a bondade e a doçura de Jesus atraíssem as


multidões. Pode-se atribuir o mesmo poder à sua humildade? Sem sombra de dúvida.

“Sem Mim, nada podeis fazer” (Jo 15, 5). Elevado pelo Criador à dignidade de cooperador, o apóstolo
torna-se um agente de operações sobrenaturais, mas com a condição de que só Jesus apareça. Quanto mais ele
souber abater-se e tornar-se impessoal, tanto mais Jesus se manifestará. Sem esta impessoalidade, fruto da vida
interior, o apóstolo debalde plantará e regará; nada fará germinar.

A verdadeira humildade tem encantos especiais, cuja fonte está em Jesus. “É necessário que Ele cresça e
que eu diminua” (Jo 2, 30). Quanto mais o apóstolo se abate, tanto mais consegue conquistar os corações. A
humildade é um dos mais poderosos meios de ação sobre as almas. “Crede-me —dizia São Vicente de Paulo aos
seus sacerdotes— só realizaremos a obra de Deus se nos persuadirmos de que, por nós próprios, apenas,
estragamos tudo”.

Talvez alguém estranhe que repitamos, várias vezes, os mesmos pensamentos, mas a nossa intenção é
gravá-los profundamente no espírito dos nossos queridos leitores e, também, realçar a sua importância.

As maneiras arrogantes contribuem, muitas vezes, para a infecundidade das obras. O cristão “moderno”
preza muito a sua “independência”. Aceitará obedecer, mas só a Deus. Não gosta de receber ordens e conselhos
do ministro de Deus, se neles não perceber o sinete de Deus. Por isso, mais necessário do que nunca se torna que
o apóstolo saiba abater-se e desaparecer, pela humildade e pela vida interior, seguindo o conselho do divino
Mestre “Vós, porém, não queirais ser chamados mestres (...) nem permitais que vos tratem por doutores (...). O
maior de entre vós será o vosso servo. Quem se exaltar será humilhado, e quem se humilhar será exaltado” (Mt
23, 8-12).

O aspecto do homem interior torna-se um ensinamento da “ciência da vida”, isto é, da “ciência da


oração”, de que fala Santo Agostinho. Porquê? Porque a sua humildade reflecte a dependência de Deus. E a
dependência, em que tal alma se conserva, manifesta-se pelo hábito de recorrer sempre a Deus em todas as
dificuldades.

São Beda comenta assim as palavras pusillus grex, do Evangelho de São Lucas: “O Salvador —diz
ele— chama “pequenino” ao rebanho dos eleitos, já porque o compara à multidão dos réprobos, já, sobretudo,
pelo seu amor apaixonado à humildade, porquanto, por mais numerosa e dilatada que seja a sua Igreja, ele quer
vê-la crescer sempre, até ao fim do mundo, em humildade, para assim chegar ao Reino prometido”.67
Inspira-se este texto na enérgica lição que Nosso Senhor deu aos seus Apóstolos, quando pretendiam
alcançar vantagens pessoais e se mostravam cheios de ambições e ciúmes. “Disse-lhes Jesus: os reis das nações
imperam sobre elas e os que nelas exercem autoridade são chamados benfeitores. Convosco não deve ser assim;
que o maior entre vós seja como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve” (Lc 22, 25-26).

“Mas —diz Bourdaloue— com isto, não se está a enfraquecer a autoridade? Sempre haverá bastante
autoridade entre vós, se houver humildade; faltando esta, a autoridade tornar-se-á onerosa e insuportável”.

Sem humildade, o apóstolo cairá em excessivas tolerâncias ou, pelo contrário, no despotismo, sem
conseguir o equilíbrio entre os dois extremos. Será pusilânime, deixará degenerar em fraqueza o espírito de
caridade, fará concessões exageradas e opções minimalistas, alegando razões de prudência; ou então, dará livre
curso a susceptibilidades, ódios pessoais, rancores, ânsias de protagonismo, ciúmes, maledicências, para cair,
inevitavelmente, no autoritarismo.

As ofensas à glória de Deus e à Igreja, darão pretexto a reações destemperadas, em que o apóstolo mais
procurará afirmar a sua personalidade ou os privilégios da sua classe, do que os interesses do Criador.

A segurança de doutrina e de critérios não basta para preservá-lo desses desvios, já que, sem vida
interior, e por conseguinte sem verdadeira humildade, o apóstolo deixar-se-á influenciar pelas suas paixões. A
humildade dar-lhe-á rectidão de critérios, equilíbrio e estabilidade, devido à união com Deus, que o torna, por
assim dizer, participante na imutabilidade divina. Será como a hera frágil, que se torna forte, quando se liga ao
robusto tronco do carvalho, esse imponente rei das florestas.

Não hesitemos em reconhecê-lo; sem humildade, andaremos ao sabor das circunstâncias e das paixões, e
acabaremos por cair em numerosas faltas, pois, como diz S. Tomás: “O homem é um ser mutável; só é constante
na sua inconstância”. Se o apóstolo não for humilde, verá a sua autoridade desprezada, por ser pusilânime, ou,
então, despertará a desconfiança e o ódio contra a sua autoridade despótica, por não refletir o poder de Deus.

Irradia firmeza e doçura. – Os santos foram paladinos na luta contra o erro e a hipocrisia. São
Bernardo, o oráculo do seu século, pode ser citado como um dos santos cujo zelo irradiou mais firmeza. Mas ao
ler atentamente a vida deste homem de Deus, o leitor verifica maravilhado que a sua vida interior o torna
completamente desinteressado e impessoal. Só recorria a medidas drásticas, quando todos os outros meios se
revelavam ineficazes. No seu grande amor pelas almas, depois de defender, às vezes com santa indignação, os
princípios e exigido reparações e promessas, vemo-lo, logo de seguida, consagrar-se com entusiasmo à
conversão daqueles mesmos a quem a sua reta consciência tinha obrigado a combater. Inexorável, por exemplo,
com os erros de Abelardo, consegue tornar-se seu amigo, logo depois de o reduzir ao silêncio.

Quando não estavam em causa princípios, São Bernardo impedia que os homens da Igreja lançassem
mão de procedimentos violentos. Chega um dia ao seu conhecimento que se preparava uma perseguição e
massacre de judeus na Alemanha. Sem hesitar, abandona o seu mosteiro, para correr em sua defesa e pregar uma
cruzada de paz. O Beato Afonso Ratisbonna —ele próprio judeu— cita, na sua Vida de São Bernardo, um
documento em que o rabino-mor daquele país manifesta a sua admiração pelo monge de Claraval, “sem o qual
—diz ele— nenhum de nós estaria vivo na Alemanha”. E roga às gerações futuras dos israelitas que não
esqueçam a dívida de gratidão para com o santo abade. “Nós somos —dizia São Bernardo nessa ocasião— os
soldados da paz, somos o exército dos pacíficos. A persuasão, o exemplo e a dedicação: eis as únicas armas
dignas de um filho do Evangelho.”

O segredo da generosidade desinteressada, que sempre carAtoerizou a alma dos santos, encontra-se na
sua vida interior.

Na Suíça, os chefes protestantes preparavam-se para uma luta encarniçada. Queriam, nada menos, que
assassinar São Francisco de Sales, que era bispo de Genebra. Apresenta-se o santo, a irradiar doçura e
humildade; os protestantes vêem nele um homem no qual resplandece, maravilhosamente, o amor de Deus e do
próximo. A história aí está para contar os resultados fulgurantes produzidos pelo seu apostolado.

Mas ele mesmo, o doce São Francisco de Sales, soube mostrar também firmeza inexorável, quando se
tornou necessária. Não hesitou em invocar a força das leis humanas, para confirmar os resultados obtidos pela
suavidade da sua palavra e pelo exemplo das suas virtudes. Foi assim que o santo bispo aconselhou ao duque de
Sabóia medidas severas contra a heresia.

Os santos procuraram imitar o divino Mestre. O Salvador acolhia os pecadores com misericórdia, era
amigo de Zaqueu e dos publicanos, cheio de bondade para com os doentes, os aflitos e as crianças. Mas Ele, que
era todo doçura e mansidão, não hesitou em pegar no açoite para expulsar os vendilhões do Templo. E que
severidade, que força nas suas expressões, quando fala de Herodes, ou quando estigmatiza os vícios dos escribas
e fariseus hipócritas!

Somente depois de empregar em vão os demais meios, é que, com relutância, e para impedir o contágio,
portanto por caridade, o apóstolo pode recorrer a processos mais drásticos.

Excetuando estes casos, e quando não estão em jogo os princípios, a mansidão deve prevalecer na
conduta do apóstolo. “Apanham-se mais moscas —diz S. Francisco de Sales— com uma colher de mel do que
com pipas de vinagre”.

Lembremo-nos da censura feita por Jesus aos seus Apóstolos, quando estes, ofendidos e humilhados na
sua dignidade humana, e claramente movidos por amor-próprio, queriam recorrer à violência e pediam que o
fogo do céu descesse sobre a cidade da Samaria, que recusara recebê-los. O Evangelho diz-nos
expressivamente: “Mas Ele, voltando-se, repreendeu-os” (Lc 10, 55).

Um dos nossos bispos, cuja firmeza de princípios é bem conhecida, visitou as famílias enlutadas, da sua
diocese, em cujo seio a guerra que nos flagela68 tinha feito algumas vítimas. Encontrou-se, assim, com um
calvinista, que chorava, amargamente, um filho morto no campo de batalha, e procurou consolá-lo com palavras
cordiais e comovidas. Enternecido por este ato de caridade, o protestante exclamou, depois: “Parecia impossível
que um bispo, de nobre nascimento e instrução tão esmerada, se dignasse transpor a porta da minha modesta
casa, devido à diversidade das nossas crenças. E, no entanto, veio. O seu procedimento e as suas palavras
tocaram-me o coração.” Esse pastor de almas manifestou, verdadeiramente, a mansidão de Nosso Senhor. O
pobre pai viu, por assim dizer, diante dele o Salvador, e a sua alma foi tocada pela graça divina.

A vida interior mantém o espírito e a vontade ao serviço do Evangelho. A alma unida ao Coração de
Jesus não se deixa dominar pela indolência, nem pela violência injustificada. Só tem prudência e coragem,
quando movida por esse Coração adorável. Eis o segredo das suas vitórias. Pelo contrário, a falta de vida
interior é a razão de muitíssimas derrotas.

Irradia mortificação. – O espírito de mortificação é outro princípio fecundador das obras. Enquanto
não fizermos penetrar nas almas o mistério da cruz, apenas lograremos tocá-las superficialmente. Ora, a dor
repugna à natureza humana. Somente a aceita, verdadeiramente, aquele que puder dizer com o grande Apóstolo:
“Estou crucificado com Cristo!” (Gal 2, 19). Somente conseguimos suportar o sofrimento se “trouxermos no
nosso corpo os traços da morte de Jesus, para que também a vida de Jesus se manifeste no nosso corpo” (2 Cor,
4, 10). Mortificar-se é imitar Jesus Cristo que “não procurou o que Lhe era agradável” (Rom 15, 3), é renunciar
a si mesmo, é amar o que custa, é procurar ser uma vítima incessantemente imolada.

Sem vida interior, não conseguimos dominar as nossas paixões. O mundo está de tal modo
entrincheirado na vida de prazeres que, para difundir nas almas o espírito de penitência, de pouco valem os
argumentos comuns e até mesmo as grandiosas apóstrofes. A Paixão de Cristo há de tornar-se sensível aos fiéis
pela mortificação e desapego dos ministros de Deus. O pobrezinho de Assis, percorrendo em silêncio as ruas das
cidades, persuadia mais almas a abraçarem a cruz, do que a oratória do grande Bossuet, com as suas belíssimas
apóstrofes sobre o Calvário.

“Inimigos da cruz de Cristo”, diria São Paulo, são os cristãos que só vêem na religião uma forma de
“snobismo”, uma prática exterior legada pela tradição e cumprida periodicamente, mas sem influência na
emenda da vida e na luta contra as paixões. “Este povo honra-Me com os lábios —poderia dizer o Senhor— mas
o seu coração está longe de Mim” (Mt 15, 8).

“Inimigos da Cruz”, os cristãos que julgam indispensável rodearem-se de todas as comodidades,


cederem a todas as exigências do mundo, seguirem todas as modas, entregarem-se a prazeres ilícitos; os cristãos
que ficam chocados com estas palavras de Jesus: “Se não fizerdes penitência, todos perecereis da mesma
maneira” (Lc 13, 3-5). A cruz, segundo a expressão de S. Paulo, tornou-se para eles “um escândalo” (1 Cor 1,
23).

Uma numerosa assistência à Missa alegra o coração do verdadeiro sacerdote, mas não o satisfaz, se tal
afluência se deve apenas à rotina, à tradição familiar, embora respeitável, ao prazer de ouvir boa música,
contemplar uma bela ornamentação, ou escutar uma homilia eloqüente.

Nosso Senhor quer apenas o nosso coração. Foi para o conquistar, para possuir a nossa vontade e para
nos animar a segui-l’O pelo caminho da renúncia que veio revelar ao homem as verdades sublimes da fé.

O apóstolo que “se nega a si mesmo” (Mt 16, 24), terá poder suficiente para fazer nascer nas almas a
abnegação, que é o ponto de partida da santidade.

Ninguém dá o que não tem. O apóstolo, que não tiver a coragem de imitar Jesus crucificado, não
conseguirá convencer o povo a mover a guerra santa contra as paixões, para a qual Nosso Senhor nos convida.

Só o apóstolo desinteressado, humilde e casto, consegue arrastar as almas para a luta contra a cobiça, a
ambição e a impureza. Só quem conhece a ciência do crucifixo poderá conter o culto pelo prazer que ameaça
destruir, nos nossos dias, todas as famílias e nações.

Pregar Jesus crucificado, eis como São Paulo resume o seu apostolado. E porque vive de Jesus, e de
Jesus crucificado, consegue ensinar às almas o mistério da cruz e fazê-las saborear esse mistério. Hoje, falta
vida interior a muitos apóstolos para poder irradiar esse vivificante mistério; consideram na religião os lados
filosóficos, sociais ou estéticos, capazes de interessar as inteligências e excitar a sensibilidade; vêem nela uma
escola sublime de poesia e arte. Certamente, a Religião Católica possui essas qualidades; mas considerá-la
apenas sob tais aspectos secundários é desfigurar a economia do Evangelho, pondo como fim o que apenas é
meio. Fazer do Cristo de Getsémani, do Pretório e do Calvário, um Cristo “perfumado”, parece sacrilégio.
Depois do pecado, a penitência e o combate espiritual tornaram-se contingências indispensáveis da vida. Não
basta, pois, admirar o zelo do Verbo Encarnado pela glória do seu Pai, é preciso segui-l’O no caminho da cruz.

Bento XV, na sua Encíclica de 1 de Novembro de 1914, convida os católicos a arrancarem as almas ao
comodismo, aos maus costumes e ao esquecimento dos bens eternos. Por outras palavras, convida à vida interior
os ministros do divino Crucificado.

Deus, que tanto nos deu, exige que o cristão se una à Paixão de Jesus, fazendo os sacrifícios necessários
para observar as leis divinas. Ora, o fiel só conseguirá sacrificar bens, prazeres e honras, se o seu apóstolo der o
exemplo e possuir espírito de sacrifício.

De onde virá a salvação para a sociedade? Perguntam hoje muitos, perante as retumbantes vitórias da
impiedade. Quando chegará o dia em que a Igreja triunfe novamente? Respondo com o divino Mestre: “Esta
espécie de demônios só se expulsa à força de oração e de jejum” (Mt 17, 21).
Quando surgir uma nova plêiade de sacerdotes e religiosos mortificados que façam resplandecer no
mundo o mistério da Cruz, os povos compreenderão a Redenção pelo Sangue de Jesus Cristo. Então, o exército
do demônio recuará, e o Salvador ultrajado deixará de repetir a sua queixa dolorosa: “Procurei entre eles alguém
que reparasse a muralha e permanecesse na brecha diante de Mim, em favor do país, para evitar a destruição e
não encontrei ninguém” (Ez 22, 30).

O modo como o Padre Ravignan fazia o sinal da cruz, produzia efeitos admiráveis nas almas, até em
ateus que o ouviam por simples curiosidade. Todos concordavam que a vida interior e o espírito de penitência
do famoso pregador se manifestava de modo cativante nesse sinal da cruz unido ao mistério do Calvário.

4. Dá ao apóstolo a verdadeira eloqüência


Já falamos da verdadeira eloqüência do apóstolo, que é um canal da graça suficiente para converter as
almas e levá-las à virtude. Limitemo-nos, agora, a acrescentar alguns comentários.

No ofício de São João, lemos o seguinte responsório: “Este é João, o que na Última Ceia reclinou a
cabeça sobre o peito do Senhor. Feliz o Apóstolo a quem foram revelados os mistérios celestes. Do próprio
coração de Cristo bebeu as águas vivas do Evangelho” e “difundiu a graça do Verbo de Deus no mundo inteiro”.
Que lição nestas palavras, para todos aqueles que difundem a palavra divina como pregadores, escritores ou
catequistas! A Igreja indica nelas a fonte da verdadeira eloqüência.

Todos os Evangelistas são igualmente inspirados. Todos têm o seu fim providencial. No entanto, cada
um tem a sua eloqüência própria. São João dirige-se especialmente à vontade através do coração, onde difunde
“a graça do Verbo de Deus”. O seu Evangelho é, com as Epístolas de São Paulo, o livro preferido pelas almas
que buscam na união a Cristo o sentido para a vida.

De onde procede a cativante eloqüência de São João? Em que montanha se encontra a nascente desse
“grande rio, cujas águas benéficas regam o mundo inteiro”? “É um dos rios do Paraíso”, diz o texto litúrgico.

Para que servem tantas montanhas altíssimas e tantos picos cobertos de neve? Não seriam mais úteis,
dirá o ignorante, se fossem planícies? Sem esses píncaros elevados, as planícies e os vales tornar-se-iam estéreis
como desertos. As montanhas, com efeito, são os reservatórios dos rios que, por sua vez, dão fertilidade à terra.

Qual é esse cume elevado do Paraíso, donde brota a fonte que alimenta o Evangelho de São João? É o
Coração de Cristo. Foi por ter sentido, mediante a vida interior, as palpitações do Coração do Homem-Deus e a
imensidade do seu amor pelos homens, que a palavra do Evangelista se tornou canal da graça do Verbo divino.

As almas interiores são os rios do Paraíso. Não só vão buscar ao Céu, com súplicas e sacrifícios, as
águas vivas da graça, e desviam ou atenuam os castigos que o mundo merece, como também difundem
abundantemente a graça nas almas: Haurietis aquas de fontibus Salvatoris (Tirareis as águas das fontes do
Salvador). Chamados a proclamar a palavra de Deus, fazem-no com eloqüência adquirida na meditação, nas
visitas ao Santíssimo Sacramento, na Missa e, sobretudo, na sagrada Comunhão. Falam do Céu para a Terra.
Iluminam, abrasam, consolam, fortificam.

Pertenço eu, verdadeiramente, a esse número? Se não pertencer, posso ressoar solenemente como o
bronze, mas não sou canal do amor, esse amor que torna irresistível a eloqüência dos amigos de Deus.

A verdade cristã, exposta por um pregador erudito, mas de piedade medíocre, pode comover as almas,
aumentar mesmo a sua fé e aproximá-las de Deus. Mas para que progridam na virtude, devem saborear
primeiro, na meditação, o espírito do Evangelho e fazer dele a substância da sua vida.
Convém repetir: só o Espírito divino derrama as graças e opera as conversões que levam a abandonar o
vício e a praticar a virtude. A palavra do apóstolo, carregada da unção do Espírito santificador, torna-se canal
vivo da graça. Os apóstolos, antes do Pentecostes, já tinham pregado, mas quase sem resultados. Após dez dias
de retiro e vida interior, o Espírito de Deus vem a eles e transforma-os. Os seus primeiros ensaios de pregação
são verdadeiras pescas milagrosas de almas. Do mesmo modo acontece aos semeadores do Evangelho. Por meio
da vida interior, trazem Cristo consigo. Semeiam e regam eficazmente. A sua palavra é a semente que cai e a
chuva que fecunda. Jamais lhes faltará o sol do Espírito Santo, que incrementa e amadurece os frutos.

“O brilho, sem mais, é uma vaidade —dizia S. Bernardo— o calor, sem mais, é pouca coisa; a luz unida
ao calor é a perfeição”. E mais adiante: “É, sobretudo, aos apóstolos que foi dito: ‘Brilhe a vossa luz diante dos
homens’. Eles devem, com efeito, ser ardentes, muito ardentes”.

O apóstolo deve haurir a sua eloqüência na união com Jesus, mediante a meditação, a guarda de coração
e o estudo apaixonado da Sagrada Escritura. Cada palavra de Deus, cada expressão saída dos lábios adoráveis de
Jesus, é para tal apóstolo um diamante, cujas facetas admira à luz do dom da sabedoria que o Espírito Santo
infunde na sua alma. Só abre o livro inspirado depois de ter rezado. Assim, não se contenta em admirá-lo, mas
saboreia os seus ensinamentos, como se o Espírito Santo os tivesse ditado só para si. Por isso, que unção,
quando, na pregação, cita a palavra de Deus! E que diferença das engenhosas aplicações feitas por um pregador
com pouca fé, auxiliado, apenas, pelos recursos da razão! O primeiro mostra a verdade viva. O segundo fala
dela como se fosse uma fria equação algébrica. Deixa-a abstrata e, por assim dizer, no estado de simples
memorial, ou, quando muito, realça apenas o seu lado estético. “A majestade das Escrituras enche-me de
admiração. A simplicidade do Evangelho fala ao meu coração”, confessava o sentimental Rousseau. Mas que
importam à glória de Deus essas vagas e estéreis comoções! O verdadeiro apóstolo possui o segredo de
manifestar às almas o Evangelho, na sua verdade sempre atual e eficaz, porque divina. Sem perder tempo em
atingir o sentimento, esse apóstolo vai, por meio da palavra divina, direito à vontade em que reside a
correspondência à verdadeira vida. As convicções que ele produz geram amor e resolução. Só ele tem a
verdadeira eloqüência evangélica.

Não há, porém, vida interior completa, sem uma terna e incessante devoção a Maria Imaculada,
medianeira de todas as graças. São Bernardo não compreendia que um verdadeiro filho de Maria não recorresse
habitualmente a esta Mãe incomparável. O verdadeiro apóstolo sabe, pois, comunicar às almas a necessidade de
recorrerem, em qualquer dificuldade, à Rainha do Céu, e, por meio dela, ao Coração de Jesus.

5. A vida interior do apóstolo gera nas almas a vida interior


Este capítulo é dirigido, especialmente, ao coração dos sacerdotes.

Dissemos que as obras dependem, sobretudo, da vida interior do apóstolo. A falta de oração e de
meditação são a causa da esterilidade de certas obras. Convém insistir agora que uma obra não criará raízes
profundas e não se perpetuará, enquanto o apóstolo não gerar almas para a vida interior. Mas, não poderá gerá-
las, se ele mesmo não estiver fortemente impregnado dessa vida.

Já referimos69 os conselhos do cônego Timon-David, sobre a necessidade de se formar em


cada obra um núcleo de cristãos fervorosos que se tornem apóstolos dos seus semelhantes. Estes
colaboradores podem multiplicar o poder de ação do apóstolo.

Só o apóstolo com vida interior produz outros focos de vida fecunda.

Certas obras, por meio de convívios, camaradagens, ambições terrenas e rivalidades,


conseguem propagandistas e conquistam influência. Porém, suscitar apóstolos segundo o Coração de
Jesus Cristo, apóstolos que participem na sua doçura e humildade, na sua bondade desinteressada e no
seu zelo exclusivo pela glória do Pai, só é possível mediante a alavanca de uma vida interior intensa.
Enquanto uma obra não chegar a produzir este resultado, terá existência efêmera. Quase com certeza,
não conseguirá sobreviver ao seu fundador. Pelo contrário, se se perpetuar, é porque, nela, a vida
interior consegue gerar vida interior.

Citemos um exemplo: O Padre Louis Lallemant, morto em odor de santidade, fundou em


Marselha, antes da Revolução, a Obra dos Estudantes e Empregados. Esta obra para jovens conserva
ainda hoje o nome do seu fundador e, mais de um século depois, continua florescente. Todavia, esse
sacerdote, míope, tímido e desprovido de talentos oratórios, não possuía os dotes naturais exigidos pela
atividade prodigiosa do seu empreendimento. As feições desproporcionadas do seu rosto serviriam
para as zombarias dos jovens, se a beleza da sua alma não se refletisse no seu olhar e em toda a sua
atitude. Graças a ela, o homem de Deus tinha sobre os jovens grande ascendente, capaz de impor
respeito e estima até aos mais rebeldes. O Padre Lallemant quis basear tudo na vida interior e
conseguiu formar um grupo de jovens aos quais não hesitava pedir vida interior, guarda do coração,
meditação da manhã, etc., numa palavra, a vida cristã integral, tal como a compreendiam e praticavam
os cristãos dos primeiros séculos.

Esses jovens apóstolos têm continuado, ininterruptamente, em Marselha, a ser a verdadeira


alma dessa obra, que já deu à Igreja muitos bispos, padres, missionários e religiosos, além de milhares
de pais de família que auxiliam as obras paroquiais, formando uma plêiade de bons comerciantes,
industriais e profissionais liberais, que constituem também um exemplar foco de apostolado.

Pais de família, dissemos nós. Esta palavra evoca o que ouvimos por toda a parte: “O
apostolado com os jovens e com as mães de família é relativamente fácil, mas com os homens é quase
impossível. Contudo, se não conseguirmos tornar bons cristãos, e até apóstolos, os chefes de família, a
influência das mães cristãs será efêmera, e não chegaremos a estabelecer o reinado social de Jesus
Cristo. Ora, nesta paróquia, neste bairro, neste hospital, nesta fábrica, nada pudemos fazer para levar os
homens a serem autênticos cristãos.”

Confessando, assim, a nossa incapacidade, passamos uma certidão à insuficiência da nossa vida
interior, a única que nos fará descobrir os meios de impedir que tão grande número de homens
escapem à ação da Igreja. Aos trabalhos da preparação cuidadosa de homilias, capazes de convencer e
levar a resoluções profundas os homens, preferimos os fáceis triunfos oratórios diante de jovens ou de
mulheres. Só a vida interior nos poderá sustentar na sementeira obscura, árdua, e aparentemente
infrutuosa, e nos fará progredir na imitação de todas as virtudes de Jesus Cristo, multiplicando, desse
modo, a eficácia do nosso apostolado.

Causou-nos, inicialmente, surpresa o que nos contaram acerca duma obra militar na Normandia. Um
exemplo: iam muito mais soldados ao círculo quando havia uma longa vigília de adoração noturna, em
reparação das blasfêmias e pecados cometidos no quartel, do que quando lá se realizava um concerto ou uma
representação teatral. Findou a nossa surpresa quando nos disseram que o assistente espiritual desse círculo se
recolhia longamente diante do sacrário e que formava apóstolos devotos da Eucaristia.

Que pensar, então, de certos meios — como o cinema, o teatro e a ginástica — que certos
apóstolos consideram quase um quinto evangelho para a conversão dos povos? À falta de outros, o
emprego destes meios, para obter adeptos ou para conservar as pessoas longe do mal, poderá dar
alguns resultados. Deus nos livre de desanimar os apóstolos que não sabem empregar outros métodos,
e imaginam — como me sucedeu sendo jovem sacerdote — que os seus patronatos ficarão desertos se
consagrarem menos tempo a preparar esses divertimentos. Queremos apenas premuni-los contra o
perigo de darem demasiada importância a esses meios e desejar-lhes a graça de compreenderem os
conselhos que me deu o já citado cônego Timon-David.

Um dia, tinha eu apenas dois anos de sacerdócio, esse venerável padre disse-me afetuosamente,
não sem alguma compaixão: “Somente quando tiver avançado na vida interior me compreenderá
melhor. Já que não pode atualmente prescindir desses meios, empregue-os sem hesitar. Quanto a mim,
facilmente mantenho os meus jovens na nossa sede e atraio outros, embora só tenha esses
divertimentos antigos e sempre novos, que na sua simplicidade servem para distrair os jovens. Lembra-
se — acrescentou ele — que já lhe mostrei, ali arrumados num canto, os instrumentos musicais que eu
também, a princípio, julgava indispensáveis: a propósito, eis que se dirige para aqui a nossa banda: vai
poder apreciá-la.” Com efeito, começou a desfilar diante de nós um grupo de 40 a 50 rapazes de 12 a
17 anos. Que algazarra! Não reprimi uma gargalhada ao ver esse curioso batalhão, que o olhar risonho
do velho cônego contemplava com tanta satisfação. “Olhe —disse-me ele— observe aquele que
avança e recua à frente do grupo, agitando a sua grossa bengala à guisa de maestro e que a leva
comicamente à boca, como se fosse um clarinete; é um dos nossos mais ativos cooperadores. Sempre
que pode, comunga todos os dias, e nunca deixa de fazer a sua meia hora de oração mental. É a alma
de todos os divertimentos e tira proveito de todos os seus talentos, a fim de que os recreios dos rapazes
não esmoreçam. Como dispõe de inesgotáveis recursos para esse efeito, mantém o entusiasmo dos
jovens. Nada, porém, escapa ao seu olhar vigilante, nem ao seu coração de apóstolo”. Executavam
modinhas conhecidíssimas. O estribilho mudava, logo que o maestro dava o sinal. Cada um simulava
um instrumento: uns fingiam um trombone com as mãos; outros faziam vibrar entre os lábios uma
folha de papel; outros tocavam flauta; outro tambor numa velha lata de petróleo, etc... As caras
radiantes dos rapazes mostravam bem que a brincadeira os deliciava. “Sigamos a banda”, disse-me o
cônego. Ao fundo de uma alameda, erguia-se uma imagem de Nossa Senhora. “De joelhos, meus
amigos, disse o maestro. Um Ave Maris stella à nossa Mãe do céu e, depois, uma dezena do terço.”
Toda aquela rapaziada fica em silêncio durante alguns momentos, e depois reza, com piedade e
recolhimento, as Ave Marias. Alguns minutos antes, verdadeiros diabretes, aqueles jovens meridionais
transformam-se subitamente em anjos de Fra Angélico. “Não se esqueça —diz-me o meu guia— que o
termômetro da obra é reter, mediante divertimentos simples e animados, os nossos jovens e conseguir
que eles se entretenham com pouca coisa; chegar, sobretudo, a fazê-los rezar, mas verdadeiramente
rezar, mesmo no meio das brincadeiras. Todos os nossos responsáveis visam esse fim”. A banda
levanta-se para prosseguir com novas proezas artísticas, cujos ecos reboam pelo pátio fora. Minutos
depois, era o jogo da barra que estava no auge. Entretanto, notei que o oficial, ao erguer-se depois do
Ave Maris Stella, murmurou algumas palavras ao ouvido de dois ou três jovens, os quais,
imediatamente, foram deixar o calçado e os trajos próprios do jogo e se dirigiram à capela, a fim de lá
passarem um quarto de hora aos pés do divino Prisioneiro.

“A nossa ambição —acrescentou então o cônego Timon-David, com profunda convicção— é


formar dirigentes com suficiente amor de Deus para que, quando saírem do patronato e constituírem
família, sejam verdadeiros apóstolos e comuniquem ao maior número possível de almas os ardores da
sua caridade. Se o nosso apostolado —continuava aquele santo sacerdote— visasse apenas fazer bons
cristãos, seria medíocre. Devemos criar legiões de apóstolos para que a célula fundamental da
sociedade, que é a família, se torne um foco de apostolado. Ora, só uma vida de sacrifício e de
intimidade com Jesus nos dará a força e o segredo para realizar integralmente esse programa. Somente
assim, poderemos transformar a sociedade e cumprir a palavra do Mestre: “Eu vim lançar fogo à terra;
e que quero Eu senão que ele já se tenha ateado?” (Lc 12, 49).

Infelizmente, só muitos anos depois, soube compreender o alcance desta lição e comparar os resultados
dos diversos meios empregados. Esses meios podem servir para avaliar uma obra e os seus dirigentes.
O pequeno David avançou para Golias, contra o qual em vão combatiam, bem armados, os valentes de Israel.
Uma funda, um cajado, cinco pedras da torrente, nada mais pedia o rapaz. Mas o seu brado: “vou a ti em nome
do Senhor dos Exércitos” (1 Sam 17, 45) era o reflexo de uma alma capaz de chegar até à santidade.

Muito se fala hoje das atividades extra-escolares. O Estado põe à sua disposição enormes
somas de dinheiro, magníficas sedes, etc.. As obras extra-escolares da Igreja nada têm a temer com
aquela concorrência, se se basearem na vida interior. Se souberem despertar os verdadeiros ideais, hão
de conquistar o escol da juventude.

Terminemos com um último fato. Serve-nos para analisar o homem de obras que parece arrastar as
almas para Nosso Senhor, mas que, na realidade, apenas suscita entusiasmos nascidos da simpatia natural pela
sua pessoa e do fascínio que exerce. Ufanos, porque o vêem ocupar-se deles, os seus adeptos formam uma
espécie de corte à sua volta e, para o agradarem, até lhe obedecem.

Uma Congregação de admiráveis irmãs catequistas era dirigida por um religioso, cuja vida foi
escrita há pouco. “Minha Madre —disse um dia esse homem interior a uma superiora local— sou de
opinião que a Irmã X… deixe, pelo menos durante um ano, de ensinar o catecismo. – Mas, Senhor
Padre, talvez V. Rev.ª não tenha pensado que essa irmã é a melhor das catequistas. As crianças vêm de
todos os bairros da cidade, atraídas pelos seus métodos maravilhosos. Retirá-la do catecismo é
provocar a deserção da maior parte dessas crianças. – Assisti da tribuna ao seu catecismo, respondeu o
sacerdote. Ela deslumbra as crianças, mas de forma demasiadamente humana. Após um ano de novo
noviciado, melhor formada na vida interior, santificará a sua alma e as almas das crianças. Mas,
atualmente, ela é, sem saber, um obstáculo à ação direta de Nosso Senhor sobre essas almas que se
estão a preparar para a primeira comunhão. Vejo que a minha insistência a entristece. Pois bem: faço
uma concessão. Conheço a Irmã N…, alma de grande vida interior, mas sem grandes dotes de
inteligência. Peça à sua superiora geral que lha envie por algum tempo. A Irmã X... virá começar,
durante um quarto de hora, a aula de catecismo, precisamente para acalmar os seus temores de
deserção; depois, pouco a pouco, há de retirar-se completamente. Verá como as crianças rezarão
melhor e cantarão com mais devoção. O seu recolhimento e docilidade refletirão um caráter mais
sobrenatural. Esse será o termômetro.”

Quinze dias depois (a superiora pôde comprová-lo), a Irmã N… dava sozinha as lições, mas o
número de crianças já tinha aumentado. Podia-se dizer que era Jesus quem dava o catecismo por ela. O
olhar, a modéstia, a doçura, a bondade, a maneira de fazer o sinal da cruz, tudo nesta irmã falava de
Nosso Senhor. A Irmã X… conseguia explicar as coisas com mais talento e tornar interessantes as
coisas áridas. A Irmã N… fazia mais. Certamente, preparava com cuidado as suas aulas e procurava
expô-las com clareza, mas o seu segredo era a unção. E é por meio desta unção que as almas se põem
verdadeiramente em contato com Jesus.

No catecismo da Irmã N… não havia expansões ruidosas e olhares esgazeados, nem o fascínio
que provoca a conferência interessantíssima de um explorador ou a vibrante narração de uma batalha.

Pelo contrário, havia uma atmosfera de atenção recolhida. As crianças assistiam ao catecismo como se
estivessem na igreja. Nenhum meio humano se empregava para impedir a dissipação ou o cansaço. Qual era,
pois, a influência misteriosa que pairava sobre aquela assistência? Não nos iludamos, era a influência de Jesus
que ali, diretamente, se exercia. Porque uma alma com vida interior, a explicar as lições de catecismo, é uma lira
tocada pelos dedos do Artista divino. E nenhuma arte humana, por maravilhosa que seja, é comparável à ação de
Jesus.
6. Importância da formação das elites e da direção espiritual
Voltemos novamente à conversa, tão cheia de interesse, que tive com o cônego Timon-David.
Uma metáfora pitoresca que ele utilizou, as muletas, sintetizava o seu pensamento sobre o emprego de
certas diversões modernas (teatro, banda, cinema, jogos variados, etc.), para atrair os jovens.

Tais atrações excitam a imaginação e a sensibilidade, mas, muitas vezes, não favorecem a
saúde nem elevam a alma. Evidentemente, há jogos interessantes, embora simples, que repousam a
alma e fortificam o corpo. A tais jogos, que entretiveram tantas gerações cristãs, não se pode aplicar o
termo muletas.

Sem falar das obras destinadas a aliviar as misérias corporais, podemos dividir as outras obras
católicas em duas categorias: aquelas em que se pretende formar elites cristãs e as que se destinam a
toda a gente. Mesmo nestas, deve existir sempre a preocupação de formar elites, habilitadas a atuarem
sobre as outras almas e a conduzi-las a uma vida profundamente cristã.

Para atingir este fim, é que as referidas muletas são instrumentos secundários, e muitas vezes
até desnecessários.

A restauração da sociedade terá de passar, necessariamente, por uma intensa irradiação da


santidade da Igreja. Foi assim, e não através de conferências de apologética, que o cristianismo se
desenvolveu, tão rapidamente, nos primeiros séculos da sua história, apesar do poder e dos
preconceitos dos seus inimigos e da corrupção generalizada da sociedade.

Na verdade, não há notícia de que, naquela época, a Igreja tivesse necessidade de inventar
diversões capazes de afastar dos espetáculos pagãos as almas que devia conquistar. Poderemos
descobrir, por exemplo, nas vidas de Santo Ambrósio e Santo Agostinho, um só fato que os mostre a
organizar obras, com o fim de oferecer às suas ovelhas divertimentos capazes de os afastar dos
prazeres oferecidos pelo paganismo?

Para converter Roma, tão amolecida pelo espírito da Renascença, onde encontramos fatos que
provem que São Filipe de Néri teve necessidade de muletas?

Pelo contrário, entre a multidão dos seus fiéis, a Igreja primitiva soube organizar uma fervorosa elite, cujas
virtudes surpreendiam os pagãos e enchiam de admiração as almas retas, até mesmo as que possuíam os maiores
preconceitos contra a religião cristã. As conversões sucediam-se, continuamente, até nos meios onde os
sacerdotes não podiam entrar.

Perante estas lições do passado, pergunto se, no nosso século, não teremos uma confiança
excessiva, não só em diversões estonteantes, mas também em certos meios (peregrinações, festas,
congressos, discursos, publicações, sindicatos, ação política, etc.), que atualmente proliferam e que até
podem ser úteis, mas que, de todo em todo, é deplorável colocar em primeiro plano.

A pregação pelo exemplo será sempre a principal alavanca da Igreja. Só “os exemplos
arrastam”. As conferências, os bons livros, a imprensa cristã e as boas homilias deverão sempre
gravitar em torno deste programa fundamental: fazer com que o apostolado destinado ao povo se
exerça através do exemplo dos cristãos fervorosos.
Infelizmente, há muitos sacerdotes que se deixam absorver pelas funções do seu ministério,
esquecendo o dever de formar elites cristãs pela grande propaganda do bom exemplo. Não é, pois, de
estranhar que tantas nações católicas resvalem, rapidamente, para a indiferença e até para a impiedade,
e que a Igreja, embora ainda seja respeitada e considerada como uma entidade com interesse para a
sociedade, deixe de ser vista como a força propulsora da existência individual, o fecho de abóbada das
famílias e das nações e, acima de tudo, a mestra da verdade e da vida eterna.

“Que religião é esta, capaz de iluminar, fortificar e inflamar o coração humano?”, exclamavam
os pagãos extasiados com o maravilhoso exemplo dos primeiros cristãos.

A força de alma dos primeiros cristãos não provinha só do cumprimento do preceito divino: “Afasta-te do
mal” (Sl 36, 27). A abstenção dos atos condenados pela decálogo não teria sido capaz de gerar, só por si, a
admiração e o desejo de os imitar. É, antes de tudo, à prática do preceito seguinte: “E faz o bem” (Sl 36, 27), ou
seja, à força do exemplo, que se deve a sua poderosa capacidade de conduzir as almas a praticar a virtude.

“Se a Igreja —dizia-nos um estadista eminente, mas incrédulo— soubesse gravar, mais
profundamente, nos corações o testamento do seu Fundador: Amai-vos uns aos outros, tornar-se-ia a
grande potência indispensável às nações”. Não seria o caso de fazer a mesma reflexão a respeito de
várias outras virtudes?

Com o seu conhecimento profundo e extraordinariamente lúcido das necessidades da Igreja,


São Pio X perguntou, certa vez, a um grupo de cardeais: “Qual é, hoje, a obra que vos parece mais
necessária à salvação da sociedade? – Edificar escolas católicas, responde um deles. – Não. Multiplicar
as igrejas, continua outro. – Ainda não. – Fomentar as vocações sacerdotais, diz um terceiro. – Não,
não, replica São Pio X. O que, no momento presente, é mais necessário, é ter, em cada paróquia, um
grupo de leigos virtuoso, esclarecido, resoluto e apostólico”.70

Outros fatos, ainda, autorizam-nos a afirmar que este santo Papa esperava a conversão do
mundo, através da ação de apóstolos formados pelo clero, cujo apostolado se fizesse, sobretudo, por
meio do exemplo. Nas dioceses onde, antes de ser Papa, exerceu o munus episcopal, procurou sempre
formar cristãos de escol e, por isso, classificava os seus padres de acordo com os resultados que, neste
campo, tinham alcançado.

A opinião do santo Pontífice confirma que a única e verdadeira estratégia para agir sobre as multidões
consiste na formação de elites cristãs. É erro conservar nas obras católicas elementos que não se conseguirá
tornar fervorosos, quando se corre o risco de reduzir o fervor dos melhores.

Pode-se, é certo, argumentar a favor do emprego das muletas, alegando que são indispensáveis,
a fim de atrair para as obras católicas muitas almas que, de outro modo, se perderiam. Alegam, assim,
os defensores das muletas que, ao querer formar elites, se acaba por atrair um número reduzido,
deixando muitas almas na atmosfera deletéria em que, habitualmente, vivem. Seria injusto e cruel,
dizem eles, descuidar as multidões e pretender atingi-las somente pela irradiação da virtude dos
melhores, sem tentar atual, diretamente, sobre os medíocres, para impedir que eles caiam ainda mais
baixo.

Evidentemente, os meios a que chamamos muletas, podem ser úteis, a princípio, para atrair os
jovens, reuni-los e interessá-los por uma obra, onde poderão receber benefícios espirituais. E é com
muito respeito que tenho escutado a opinião de defensores destes meios, que, muitas vezes, são
diretores e diretoras de obras, com boa-fé e zelo incontestáveis.
Contudo, pensando nos ensinamentos do P. Lallemant e do cônego Timon-David, julgo que as
duas teses se poderiam harmonizar seguindo as suas diretrizes, do seguinte modo:

1º Descobrir entre as centenas de jovens cristãos que constituem uma obra, uma minoria, que
pode ser ínfima, mas que é capaz de desejar ardentemente e praticar, seriamente, a vida interior.

2º Cultivar com carinho muito especial estas almas, fazendo-as amar, apaixonadamente, Nosso
Senhor. Incutir nelas o ideal das virtudes cristãs. Isolá-las o mais possível dos outros jovens menos
fervorosos, enquanto não alcançarem o grau de vida interior que os torne imunes aos maus contágios;

3º Enfim, chegado o momento, infundir nestes jovens a sede de almas, animando-os a fazerem
apostolado com os seus companheiros. Para chegar a este ponto, é fundamental conduzi-los através de
uma sólida direção espiritual.

Depois da oração e do sacrifício, o meio mais eficaz para se obter de Deus o aparecimento de
verdadeiras elites cristãs, capazes de regenerar o mundo, é a ação do sacerdote pelo conjunto do seu
ministério, mas, especialmente, através da confissão —onde descobre e cura as feridas das almas— e
da direção espiritual, meio importantíssimo, através do qual o confessor inflama os corações no amor à
virtude.

Ninguém tem capacidade para se dirigir espiritualmente a si próprio.

Todos os homens têm fraquezas a vencer, inclinações a dominar, deveres a cumprir, riscos a
correr, perigos a evitar e dificuldades a resolver. Se, para tudo isso, é preciso o auxílio de guias, com
maior razão para trilhar o caminho da perfeição. O sacerdote faltaria gravemente à sua obrigação de
doutor e médico das almas, se, depois de as confessar, as privasse do grande propulsor da vida interior
que se chama direção espiritual. Umas breves exortações antes da absolvição não bastam. É
indispensável uma verdadeira direção espiritual para que a alma progrida na virtude.

Que lastimável sorte a das obras, cujos diretores, sempre com falta de tempo, antes da
absolvição, fazem uma vaga exortação, muitas vezes sempre a mesma, aos seus penitentes, em vez da
palavra certa que o médico das almas experiente escolhe para o estado patológico do seu doente.

Apesar da sua fé na eficácia do sacramento, o penitente pode começar a ver no sacerdote


apenas um “distribuidor automático”, semelhante a esses aparelhos que oferecem, mecanicamente, um
objeto de consumo.

Que diferente o confessor que conhece a arte da direção espiritual e a põe em prática! Ele
consegue que as almas vibrem por um ideal e se entreguem resolutamente aos exercícios da vida
interior.

Quantos pais e quantas mães de família têm visto a sua ação educativa sobre os filhos progredir
e dar melhores frutos, somente porque encontraram um bom confessor!

Quantos tesouros por explorar na alma de uma criança, ou de um adolescente! É o momento em


que a árvore se inclina, e muitas vezes definitivamente, para um lado ou para outro.

Quantas vocações sacerdotais e religiosas estão, nesse momento, a desabrochar!


Às vezes, numa paróquia, numa obra, ou numa missão, continua ao longo de muitas gerações o
impulso dado por um sacerdote cheio de zelo e prudência, que soube ser mais do que um simples
“distribuidor de absolvições”. Qual não foi a minha admiração, na viagem que fiz ao Japão, quando
tive a felicidade de entrar em contato com alguns membros de numerosas famílias cristãs, descobertas,
pouco tempo antes, perto de Nagasáqui. Fato extraordinário: cercados de pagãos, obrigados pelas
autoridades a esconder a sua religião, privados de sacerdotes, durante três séculos, esses fiéis de escol
tinham recebido dos seus antepassados, não só a fé católica, mas também um grande fervor. Qual foi o
poderoso impulso inicial que explica a força e a persistência de tão extraordinária transmissão?

A resposta é fácil. Os seus antepassados tiveram a felicidade de encontrar em São Francisco


Xavier um maravilhoso formador de elites cristãs.

Quem não terá notado o papel importante atribuído pelos hagiógrafos ao diretor espiritual da
maior parte dos santos?

Não seriam mais numerosos os santos na Igreja, se os sacerdotes, os religiosos e os leigos


consagrados ao apostolado recebessem sólida direção espiritual?

Sem a direção espiritual recebida pelos pais de Santa Teresinha do Menino Jesus e, mais tarde,
por ela mesma, teria hoje a terra essa “chuva de rosas” que a inunda?

O sacerdote que não estude a arte da direção espiritual, e não aceite o trabalho que a sua prática
exige é, até certo ponto, responsável pela mediocridade e até pela perda de muitas almas. Poderá ser
bom administrador, excelente pregador, ter carinho e solicitude pelos doentes e pelos pobres, mas
descuidou a grande táctica empregue pelo próprio Salvador: transformar a sociedade através dos mais
fervorosos.

O pequeno rebanho de discípulos que Jesus escolheu e formou pessoalmente e que, depois, o
Espírito Santo inflamou, bastou para começar a regeneração do mundo.

Saudemos com respeito os bispos, cada vez mais numerosos, que, seguindo o exemplo de São
Pio X, estimam que, nos seus seminários maiores, um curso de ascética ou de mística é de mais
utilidade do que conferências sobre temas sociológicos.

a) A verdadeira direção espiritual

Quantas erros e preconceitos circulam por aí a respeito da direção espiritual!

Se consultarmos os autores tidos na Igreja como mestres da vida espiritual, verificamos que a
direção espiritual não é uma escola de “beatice” e de sentimentalismo, mas consiste no conjunto
metódico e perseverante dos conselhos que uma pessoa —que tenha para isso graça de estado, ciência
e experiência (mormente o sacerdote)— dá a uma alma reta e generosa, para fazê-la progredir na
piedade e na perfeição.

É, antes de tudo, a educação da vontade, desta faculdade mestra na qual, em última análise,
reside a união com Nosso Senhor e a imitação das suas virtudes.

O diretor espiritual digno deste nome inteira-se, não somente das causas profundas das faltas,
mas ainda dos vários pendores da alma. Analisa as suas dificuldades e repugnâncias na luta espiritual.
Apresenta-lhe, em todo o seu esplendor, o ideal a seguir, e escolhe, experimenta e controla os meios de
o alcançar; assinala os escolhos e as ilusões; sacode a indolência; anima, repreende e consola, para
retemperar a vontade contra o desânimo e o desespero.

A direção espiritual prende-se, ordinariamente, à confissão, enquanto a alma, ainda apegada ao


pecado, continua na vida purgativa.

Quando a alma se vai orientando, seriamente, para a vida fervorosa, então, a direção pode
tornar-se distinta da confissão. É para evitar a confusão entre uma e outra que certos sacerdotes só a
dão depois da absolvição, e, uma vez por mês, aos que se confessam cada semana.

b) Classificação útil para a direção espiritual

Não pretendemos neste livro desenvolver o processo pelo qual se pratica a direção espiritual.71
Cada alma é um mundo à parte, com os seus matizes próprios. Entretanto, os cristãos podem ser
classificados em vários grupos. Por nos parecer útil, sobretudo para os diretores espirituais, damos a
seguir esta classificação, adotando como pedra de toque, de um lado, o pecado ou a imperfeição e, de
outro, a oração.

1. Empedernimento

Pecado mortal. – Estagnação neste pecado, por ignorância, ou conscientemente. Abafamento ou


ausência de remorsos.

Oração. – Supressão voluntária de qualquer recurso a Deus.

2. Verniz cristão

Pecado mortal. – Considerado como mal irrelevante e facilmente perdoado; a alma comete-o, sem
resistir às ocasiões e tentações. Confissões quase sem contrição.

Oração. – Maquinal, distraída e ditada, frequentemente, por interesses temporais. Concentrações raras
e superficiais.

3. Piedade medíocre

Pecado mortal. – Fracamente combatido. Fuga pouco freqüente das ocasiões, mas arrependimento
sério e confissões sinceras.

Pecado venial. – Pato com este pecado, considerado como mal insignificante; logo, tibieza da vontade.
Nada faz para o descobrir, prevenir e arrancar.

Oração. – De longe a longe, bem feita. Veleidades passageiras de fervor.

4. Piedade intermitente

Pecado mortal. – Lealmente combatido, fuga habitual das ocasiões. Profundo arrependimento.
Penitências para reparar.
Pecado venial. – Às vezes, deliberado. Combate fraco. Pesar superficial. Exame particular sem objeto
preciso, sem espírito de continuidade.

Oração. – Resolução insuficiente de fidelidade à meditação, que é abandonada se aparece a aridez ou


uma ocupação importante.

5. Piedade perseverante

Pecado mortal. – Nunca. Ou pecado repentino, e muitas vezes duvidoso, mas acompanhado sempre
de ardente compunção e penitência.

Pecado venial. – Vigilância para evitá-lo e combatê-lo. Raras vezes deliberado. Vivamente sentido,
mas pouco reparado. Fidelidade ao exame particular, visando apenas as fugas dos pecados veniais.

Imperfeições. – A alma evita descobri-las para não ter de combatê-las, ou arranja desculpas com
facilidade. A renúncia às imperfeições é admirada, desejada até, mas pouco praticada.

Oração. – Fidelidade constante à meditação, muitas vezes afetiva. Alternância de consolações e


aridezes suportadas com mágoa.

6. Fervor

Pecado venial. – Nunca deliberado. Às vezes, de surpresa ou sem advertência. Vivamente sentido e
seriamente reparado.

Imperfeições. – Reprovadas, vigiadas e combatidas com energia, para agradar a Deus. Às vezes,
talvez, aceites, mas logo rejeitadas. Freqüentes atos de renúncia. Exame particular visando o
aperfeiçoamento de uma virtude.

Oração. – Oração mental que se prolonga com gosto. Meditação, sobretudo afetiva e de simplicidade.
Alternâncias entre vivas consolações e provações cruciantes.

7. Perfeição relativa

Imperfeições. – Prevenidas com toda a energia e muito amor. Sobrevêm apenas com semi-
advertência.

Oração. – Vida habitual de oração, mesmo nas ocupações exteriores. Sede de renúncia, de
aniquilamento, de desapego, de amor divino. Fome da Eucaristia e desejo ardente do Céu. Graças de
oração infusa, em vários graus. Muitas vezes, purificações passivas.

8. Heroicidade

Imperfeições. – Só no primeiro movimento.

Oração. – Dons sobrenaturais de contemplação, às vezes acompanhados de fenômenos


extraordinários. Purificações passivas acentuadas. Humildade levada até ao esquecimento de si
mesmo. Preferência dada aos padecimentos sobre as alegrias.
9. Santidade consumada

Imperfeições. – Apenas aparentes.

Oração. – Quase sempre, união transformante. Matrimônio espiritual ou místico. Purificações de


amor. Sede ardente de sofrimentos e humilhações.

São muito poucas as almas de escol que atingem os três últimos estados. O pecado venial nelas é muito
raro. Por isso, compreende-se que os sacerdotes aguardem a ocasião de ter de dar direção espiritual a pessoas
assim para, só então, estudarem o que os melhores autores indicam para a direção prudente e segura.

Mas como desculpar o confessor que, sem zelo para aprender e aplicar o que se refere aos quatro graus
(piedade medíocre, piedade intermitente, piedade constante e fervor) deixe as almas estagnadas na tibieza, ou
num grau muito inferior àquele a que Deus as destina?

Quanto aos pontos sobre os quais convém insistir na direção espiritual dos principiantes,
parece-me que podem ser reduzidos a quatro:

1. Paz. – Examinar se a alma possui a verdadeira paz, não a que o mundo dá, ou que resulta da falta de
luta. Caso contrário, estabelecê-la numa paz relativa, apesar das suas dificuldades. Essa é a base de
qualquer direção. A calma, o recolhimento e a confiança ligam-se a este ponto.

2.Ideal. – Uma vez coligidos os elementos necessários à sua classificação e à determinação dos seus pontos
fracos, do seu gênio e temperamento, assim como o grau de perfeição, procurar os meios capazes de reavivar o
seu desejo de viver em união com Jesus Cristo, de derrubar as barreiras que se opõem à ação da graça. Numa
palavra, envidar esforços para que a alma aspire a ser melhor.

3. Oração. – Indagar o modo como a pessoa reza e, em particular, a fidelidade à meditação, o gênero
de meditação, os obstáculos que nela encontra e os frutos que dela colhe. Proveito que tira dos
sacramentos, da vida litúrgica, das devoções particulares, das orações jaculatórias e do exercício da
presença de Deus.

4. Renúncia. – Estudar o método e a matéria do exame particular; a maneira como se exerce a


renúncia, por ódio ao pecado ou por amor à virtude; a guarda do coração, ou seja, a vigilância e o
combate espiritual, em espírito de oração, no decorrer do dia.

Estes quatro pontos resumem o essencial da direção espiritual. Podem ser examinados todos os
quatro em cada mês, ou, alternativamente, um deles, para não parecer demasiadamente longo.

Combatendo nas almas os elementos de morte e reanimando nelas os germens de vida, o


sacerdote zeloso, cedo ou tarde, apaixona-se pelo exercício desta arte suprema, e o divino Espírito
Santo, de quem é instrumento fiel, não lhe poupa as inefáveis consolações que constituem, cá na terra,
uma das maiores alegrias do sacerdócio. Concede-lhas, na medida em que se dedica a aplicar às almas
os princípios que estudou. Quem mais do que São Paulo saboreou as alegrias do apostolado? Mas
também que ardores não lhe devoravam o coração para que deixasse escrito: “Durante três anos, de
noite e de dia, não cessei de exortar com lágrimas, cada um de vós” (Ato 20, 31).

A aplicação da ciência e o zelo apostólico recebem, certamente, as bênçãos de Deus. Mas estes dois fatores
adquirem força sobre-humana, quando o sacerdote que delas lança mão procura, verdadeiramente, a santidade.
Que transformação se verificaria se, em cada paróquia, em cada comunidade ou agrupamento católico, houvesse
verdadeiros diretores de almas!

Quem se dê ao trabalho de comparar as obras, conforme os seus resultados, há de,


forçosamente, chegar à seguinte conclusão: onde existir autêntica direção espiritual, não haverá
necessidade das famosas muletas para que a obra tenha êxito. O uso de muletas poderá, talvez,
disfarçar a falta de direção espiritual numa obra; nunca logrará, porém, atenuar a sua necessidade.
Quanto mais zelo tiverem os sacerdotes em se aperfeiçoarem na arte da direção espiritual, tanto mais
se atenuará aos seus olhos a necessidade das muletas —úteis a princípio para entrar em contato com os
fiéis, atraí-los, agrupá-los, interessá-los e mantê-los sob a influência da Igreja— e só se darão por
plenamente satisfeitos quando as almas se unirem plenamente a Cristo.

7. A vida eucarística resume a fecundidade do apostolado

O fim da Encarnação, e, conseqüentemente, do apostolado, é divinizar a humanidade, conforme as


palavras de Santo Agostinho: “Cristo encarnou-se para que o homem se tornasse Deus”.

“Querendo que nos tornássemos participantes na sua divindade, o Filho Unigênito de Deus assumiu a
nossa natureza, a fim de que, feito homem, fizesse dos homens deuses” 72. Ora, é na Eucaristia, ou melhor, é na
vida eucarística —isto é, na vida interior sólida, alimentada no banquete divino— que o apóstolo assimila a vida
divina. Aí está a peremptória palavra do Mestre, que não dá lugar a equívocos: “Se não comerdes a carne do
Filho do Homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós” (Jo 6, 53). A vida eucarística é a vida
de Nosso Senhor em nós, não só por meio do indispensável estado de graça, mas também por meio da
superabundância da sua ação. “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Se a vida
divina deve superabundar no apóstolo, a fim de que este a difunda pelos fiéis, e se apenas na Eucaristia se
encontra a fonte dessa vida, como supor a eficácia das obras sem a ação da Eucaristia sobre aqueles que, direta
ou indiretamente, devem ser os dispensadores dessa vida por meio das obras?

Impossível é meditarmos sobre as conseqüências do dogma da Presença real, do Sacrifício do altar, da


Comunhão, sem sermos levados a concluir que Nosso Senhor quis instituir este sacramento para fazer dele o
foco do apostolado verdadeiramente útil à Igreja. Se a Redenção se consumou pelo Sacrifício do Calvário, é do
altar que promanam as graças desse mistério. E o apóstolo, que não vive das graças do altar, terá uma palavra
morta, uma palavra que não salva.

Nosso Senhor, logo após a Última Ceia, explicou, com insistência e precisão, por meio da parábola da
videira, a inutilidade da ação que não for animada pelo espírito interior: “Como o ramo não pode dar fruto por si
mesmo se não estiver unida à videira, assim acontecerá convosco se não estiverdes em Mim” (Jo 15, 4).
Imediatamente depois, indicou o valor da ação exercida pelo apóstolo que possui vida interior, vida eucarística!
“O que permanece em Mim e Eu nele, esse dá muito fruto” (Jo 15, 5). Esse, mas só esse. É por meio dele que
Deus realiza as suas grandes obras. É que, diz Santo Atanásio, “tornámo-nos deuses pela carne de Cristo”.
Quando o coração do pregador, ou do catequista, é abrasado pelo mesmo fogo que consome o Coração
eucarístico de Jesus, a sua palavra inflama-se. Quando os que Deus escolheu para trabalhar numa escola, num
hospital, ou num asilo, reanimam o seu zelo na comunhão, esses passam a irradiar a presença de Jesus.

A Eucaristia defende o apóstolo contra os demônios que tratam de conservar as almas na ignorância, e
contra os espíritos soberbos e impuros que procuram embriagá-las no orgulho ou atolá-las na lama.

O amor aperfeiçoa-se por meio da Eucaristia. Esse memorial vivo da Paixão reanima no apóstolo o fogo
divino. Faz-lhe reviver o Getsémani, o Pretório, o Calvário e dá-lhe a ciência da dor e da humilhação.
O apóstolo fala aos aflitos uma língua capaz de os tornar participantes nas consolações hauridas nessa
sublime escola. Fala a linguagem das virtudes de Jesus, porque cada uma das suas palavras é como uma gota de
sangue eucarístico lançado sobre as almas.

Sem vida eucarística, a palavra do apóstolo pode chegar a impressionar, mas o coração dos ouvintes
continuará inexpugnável.

Conforme o grau de vida eucarística de uma alma, assim será a fecundidade do seu apostolado. O sinal
distintivo da eficácia de um apostolado é a sede eucarística despertada nas almas. Mas tal resultado só se obtém
se o apóstolo for um verdadeiro devoto da Eucaristia.

Tal como São Tomás de Aquino, que pousava a cabeça no sacrário para pedir a solução de alguma
dificuldade, o apóstolo confia tudo ao Hóspede divino, e a sua ação sobre as almas é a realização prática das
suas confidências ao Autor da vida. O nosso admirável Pontífice Pio X, o Papa da comunhão freqüente, é
também o Papa da vida interior. “Instaurar todas as coisas em Cristo” (Ef 1, 10), tal foi o seu primeiro conselho
a quem se dedica ao apostolado. É o programa de um apóstolo que vive da Eucaristia e espera a vitória da Igreja
dos progressos da vida eucarística nas almas.

Por que razão as obras do nosso tempo não regeneram a sociedade? Por que não evitam que a
impiedade, em proporções aterradoras, assole o campo do pai de família. Porquê? Porque não estão
suficientemente fundamentadas na vida interior, na vida eucarística, na vida litúrgica bem compreendida. Por
isso, não podem comunicar esse calor que move as vontades.

Os seminários e os noviciados não produzem multidões de sacerdotes, religiosos e religiosas inebriados


no vinho eucarístico. O fogo que, por meio dessas almas escolhidas, se devia difundir pelos leigos votados à
obras, ficou em estado latente. Têm dado à Igreja apóstolos piedosos, mas não lhe deram, senão raramente,
apóstolos que, mediante uma intensa vida eucarística, tenham uma piedade integral, ardente, ativa, generosa e
prática, que se chama vida interior.

Às vezes ouve-se qualificar como boa, ou até excelente, uma freguesia porque os paroquianos
cumprimentam amavelmente o sacerdote, e lhe prestam, quando necessário, algum serviço, mas onde o maior
número abandona a assistência à Missa ao domingo, os sacramentos são esquecidos, reinam a ignorância da
religião, a intemperança e a blasfêmia, e a moral deixa bastante a desejar. Paróquia excelente? Podemos chamar
cristãos a essas pessoas de vida inteiramente pagã?

Como é que nós, que deploramos essa situação, não vamos com mais freqüência a essa escola onde o
Verbo ensina os pregadores! Porque não haurimos, em colóquios íntimos com o Deus da Eucaristia, as palavras
da vida? Deus não fala pela nossa boca. É fatal.

Mas não nos admiremos. É que não somos um reflexo de Jesus e da sua vida na Igreja. Para que o povo
cresse em nós, seria necessário que a nossa fronte brilhasse, de algum modo, como a de Moisés quando,
descendo do Sinai, voltou para o meio dos israelitas. Aos olhos dos hebreus esse brilho era um testemunho da
intimidade do enviado com Aquele que o enviara. Os nossos resultados têm sido imperfeitos, porque não
refletimos a intimidade com o Deus vivo a quem nada resiste.

Todos os homens desejam ser felizes. Se as nossas obras fracassaram, não será porque eles não viram
em nós a irradiação da felicidade eterna e infinita de Deus? Se estivéssemos unidos Àquele que é a alegria da
corte celeste, irradiaríamos essa felicidade.

O Mestre, não esqueceu esse alimento de alegria, indispensável aos seus Apóstolos. “Digo-vos estas
coisas para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa” (Jo 15, 11), afirmou Ele, logo
depois da Última Ceia, para recordar até que ponto a Eucaristia há de ser a fonte de todas as grandes alegrias
deste mundo.

Ministros do Senhor, para quem é mudo o sacrário, fria a pedra de ara, inerte a santa Hóstia, deixamos
de fazer bem às almas e não as conseguimos tirar do lodo!

Porquê? Porque não soubemos saciar a nossa sede nas águas vivas do Cordeiro, não soubemos falar-lhes
dessas alegrias inefáveis, cujo desejo teria quebrado as cadeias da tríplice concupiscência, com muito maior
eficácia que as palavras terríveis sobre o Inferno. Por meio de nós, as almas viram em Deus —que é todo
Amor— sobretudo um legislador austero, um juiz inexorável nas suas sentenças e rigoroso nos seus castigos. Os
nossos lábios não souberam falar a linguagem do Coração d’Aquele que ama os homens, porque os nossos
entretenimentos com esse Coração eram poucos e distantes.

Não rejeitemos as culpas sobre o estado de desmoralização profunda em que se encontra a sociedade,
porque, se quiséssemos, poderíamos mudar tudo. Com efeito, em paróquias quase descristianizadas, houve
sacerdotes criteriosos e dedicados, que, haurindo forças no fogo do tabernáculo, souberam dar aos fiéis uma tal
têmpera que todos os demônios conjurados têm sido incapazes de vencer.

A sua oração junto do altar não foi estéril, porque compreenderam esta verdade, ensinada por São
Francisco de Assis: “A oração é a fonte da graça. A pregação é o canal que distribui as graças que tivermos
recebido do Céu. Os ministros da palavra de Deus são os escolhidos pelo grande Rei para levar aos povos o que
eles próprios aprenderem e receberem da sua boca, sobretudo junto do sacrário”.

Parte V

Alguns princípios e advertências para a vida interior

1. Convicções e princípios
Convicções:

•€ O verdadeiro Apóstolo é Jesus Cristo; nós apenas somos seus instrumentos.

•€ Jesus Cristo não abençoa as obras em que o apóstolo só confia nos seus próprios meios.

•€ Jesus Cristo não abençoa as obras mantidas por atividade meramente natural.

•€ Jesus Cristo não abençoa as obras em que o amor próprio se sobrepõe ao amor de Deus.

•€ Ai daquele que rejeita a obra para a qual Deus o chama!

•€ Ai daquele que empreende as obras sem estar certo da vontade de Deus!

•€ Ai daquele que, nas obras, quer mandar sem depender de Deus!

•€ Ai daquele que, nas obras, não põe os meios para conservar ou recuperar a vida interior!

•€ Ai daquele que não ordena a vida interior e a vida ativa, de tal modo que esta não prejudique aquela!

Princípios:
1º princípio. – Não começar as obras por mera atividade natural, mas procurar sempre conhecer a vontade de
Deus, para ter a certeza moral de que se procede inspirado pela graça.

2º princípio. – É imprudente entregar-se muito tempo a ocupações excessivas, incompatíveis com os exercícios
essenciais da vida interior. É, então, o caso, sobretudo para os sacerdotes e religiosos, de aplicar, até ao trabalho
mais santo, o conselho do Senhor: “arranca-o e lança-o fora” (Mt 5, 29), ou a expressão, já citada, de São
Bernardo: “ocupações malditas”.

3º princípio. – Estabelecer, custe o que custar, um regulamento que determine o emprego do tempo, feito sob a
orientação de um sacerdote esclarecido, experiente e com vida interior.

4º princípio. – Antes de tudo, cultivar a vida interior. Quanto mais ocupado se estiver, tanto maior é a
necessidade desta vida, e maior sede se deve ter dela.

5º princípio. – Quando o apóstolo se encontra muito ocupado por vontade de Deus, e se vê obrigado a reduzir
os exercícios de piedade, possui um termômetro infalível que lhe indica o seu grau de fervor: Se tiver sede de
vida interior, e aproveitar todas as ocasiões para cumprir as suas práticas essenciais, pode estar certo de que
Deus continuará a ajudá-lo a progredir na vida espiritual.

6º princípio. – Enquanto o apóstolo não permanecer recolhido e na dependência da graça, a sua vida interior é
insuficiente. Pelo grau de recolhimento, sabemos se a ação depende, verdadeiramente, de Jesus.

Advertências práticas:

1º O regulamento e a vontade firme de o cumprir, especialmente a hora certa de levantar, são condições
insubstituíveis da vida interior.

2º A meditação da manhã é a base da vida interior. “Aquele —diz Santa Teresa— que está firmemente
decidido a fazer, a todo o custo, a meia hora de meditação pela manhã, andou já metade do caminho”. Sem a
meditação, o dia será, quase forçosamente, de tibieza.

3º Missa, comunhão, recitação do breviário, funções litúrgicas, terço, são minas incomparáveis de vida
interior e devem ser exploradas, todos os dias, com fé e fervor crescentes.

4º O exame particular e o exame geral, bem como a meditação e a vida litúrgica, devem cuidar muito a
guarda do coração — ou seja, o conselho de Jesus: “vigiai e orai, para não cairdes em tentação”. O apóstolo
atento ao que se passa no seu interior, e à presença da Santíssima Trindade na sua alma, adquire o instinto de
recorrer a Jesus em todas as circunstâncias, sobretudo quando entrevê o perigo de se dissipar ou esmorecer.

5º Por isso, incessantes comunhões espirituais e orações jaculatórias nos perigos, dificuldades, fadiga,
decepções, etc.

6º Para os sacerdotes, estudo diário, quanto possível, da Sagrada Escritura, sobretudo do Novo
Testamento. O espírito tem necessidade de ser posto em presença das verdades sobrenaturais, geradoras da
piedade e de sérias resoluções morais.

7º A confissão semanal — para a qual a guarda de coração muito pode contribuir— deverá ter contrição
sincera, dor verdadeira e firme propósito de emenda.

8º O retiro anual é utilíssimo, mas insuficiente. O retiro mensal (um dia inteiro ou pelo menos meio dia)
é quase indispensável para o equilíbrio de alma do apóstolo.
2. A meditação, elemento indispensável do apostolado
Nenhum resultado terá um desejo vago de possuir a vida interior, concebido após a rápida leitura de um
livro. É preciso ter, ainda, uma resolução precisa, ardente e prática.

Pessoas dedicadas ao apostolado pediram-me que lhes indicasse certas resoluções úteis para a vida
interior. A resposta a este desejo, que dou com o maior gosto, tornou-se uma espécie de apêndice a este livro.

Contudo, não tirará proveito da leitura destas páginas quem não se dispuser, realmente, a consagrar,
cada manhã, alguns momentos à oração mental. Quanto aos sacerdotes, se quiserem progredir na vida interior,
não podem descuidar, também, a vida litúrgica nem a guarda do coração.

Não temos a pretensão de oferecer um novo método de oração; procuramos, apenas, basear-nos nos
melhores métodos, que apresentamos sob a forma de resolução pessoal.

a) Fidelidade à meditação da manhã

No retiro que precedeu a minha ordenação sacerdotal, ouvi estas graves palavras: Sacerdos alter
Christus (O sacerdote é outro Cristo). Compreendi, então, que devia viver em união com Jesus, para ser um
sacerdote segundo o seu Coração. “Já não vos chamo servos (...) chamei-vos amigos” (Jo 15, 15).

Mas a minha vida com Jesus somente se desenvolverá, na medida em que Ele for a luz da minha razão e
dos meus atos, o amor que rege os afetos do meu coração, a minha força nas provações e nas lutas, o alimento
sobrenatural, que me torna participante na própria vida de Deus.

Ora, sem meditação, esta vida com Jesus é moralmente impossível.

A meditação reveste-me de uma armadura invulnerável. Sem meditação, cairei numa multidão de faltas.

“Meditação, ou risco gravíssimo de condenação para o sacerdote em contato com o mundo”, dizia o
Padre Desurmont, experiente pregador de retiros sacerdotais.

Cada sacerdote pode aplicar à sua meditação a palavra que o Espírito Santo inspirou ao salmista: “Se
não meditasse com prazer a vossa Lei, já teria perecido na minha miséria” (Sl 118, 92). Ora, esta Lei obriga o
sacerdote a reproduzir em si o espírito de Nosso Senhor.

Um sacerdote vale o que vale a sua meditação. Só em casos raríssimos de força maior, o sacerdote deve
adiar —para outra meia hora da manhã, e nada mais— a sua meditação. Deve empenhar-se, seriamente, em
obter bons resultados na meditação, que é, evidentemente, distinta da ação de graças depois da missa, ou de
qualquer leitura espiritual, e, a fortiori, da preparação de uma homilia.

A meditação leva o sacerdote a desejar, eficazmente, a santidade; mas se adia, desleixa, ou omite a
meditação, acaba por embotar a consciência, torna-se escravo de ilusões, mais ou menos subtis… ou seja, entra
no caminho escorregadio da tibieza, que conduz ao abismo. A santa missa e a comunhão deixam de dar frutos
pessoais e poderão chegar a ser, até mesmo, ocasiões de pecado. A recitação do breviário torna-se penosa e
quase mecânica. Desaparecem a vigilância, o recolhimento, as orações jaculatórias, as leituras espirituais, o
exame das faltas e o exame particular. As confissões passam a ser rotineiras, ou duvidosas, quando não
sacrílegas. O apostolado deixa de ser fecundo.

A cidadela, cada vez menos defendida, fica à mercê dos assaltos dos inimigos, e acabará por cair em
ruínas.
b) O que deve ser a meditação

É a ascensão do espírito até Deus. “Subir deste modo —diz São Tomás— como é um ato da razão não
especulativa, mas prática supõe atos da vontade.” Conseqüência:

Verdadeiro trabalho. A oração mental é um verdadeiro trabalho, sobretudo para os principiantes.


Trabalho, para se afastar, um instante, das criaturas e elevar-se até Deus. Trabalho, para ficar, durante uma meia
hora, fixo em Deus, e adquirir novo impulso para o bem. Trabalho penoso, a princípio, mas que se deve desejar,
generosamente. Trabalho que é coroado, em pouco tempo, pela maior consolação deste mundo: a paz, na
amizade e união com Jesus.

“A oração —diz Santa Teresa— é apenas um trato de amizade, em que a alma fala intimamente com
Aquele que a ama”.

Trato cordial. Deus convida-nos, com amor, para este trato, mas também nos dá forças para fazermos a
meditação. Convida-nos a escutar a sua palavra, conversar filialmente com Ele, e abrir-Lhe o coração, falando
—para usar a feliz expressão de Bossuet— a linguagem da fé, da esperança e da caridade.

Trato simples. Falarei a Deus, tal como sou, isto é, como tíbio, como pecador, ou como fervoroso. Com
a ingenuidade e franqueza de uma criança, revelarei a Deus o verdadeiro estado da minha alma.

Trato prático. O ferreiro põe o ferro ao fogo, não para torná-lo brilhante, mas para o moldar. Assim,
também, a meditação ilumina a inteligência e aquece o coração, para tornar a alma flexível, tirar as faltas, ou a
forma, do velho homem, e dar-lhe as virtudes e a forma de Jesus Cristo. Por conseguinte, a meditação eleva a
alma até à santidade de Jesus, para que Ele a afeiçoe, à sua imagem.

Tu, Domine, Jesu, tu ipse, manu mitissima, misericordissima, sed tamen fortissima formans ac
pertrAtoans cor meum. (Vós, Senhor Jesus, Vós mesmo, com a vossa mão dulcíssima, misericordiosíssima, mas
também fortíssima, formareis e amassareis o meu coração — Santo Agostinho).

c) Como se faz a meditação

Seguirei este caminho lógico: Coloco-me diante de Nosso Senhor que me ensina uma verdade ou uma
virtude. Excito em mim —pela razão, pela fé, e com todo o meu coração— a sede de harmonizar a minha alma
com esse ideal. Deploro tudo quanto, em mim, lhe for contrário. Decido combater os obstáculos, persuadido de
que nada conseguirei sozinho e que tudo poderei obter pela oração.

Como peregrino exausto, procuro matar a minha sede… Enfim, video: vejo uma fonte, mas ela brota
num rochedo escarpado… Sitio: tenho sede. Quanto mais contemplo essa água límpida, que me permitirá
prosseguir o caminho, mais sede tenho. Volo: quero, a todo o custo, chegar a essa fonte e esforçar-me por
atingi-la. Mas conheço a minha fraqueza. Volo tecum: quero convosco. Aparece um guia. Quer ajudar-me, e só
espera o meu pedido. Conduz-me pelas passagens mais difíceis e, em breve, consigo saciar a minha sede, nas
águas vivas da graça, que brotam do Coração de Jesus.

A leitura espiritual da tarde, elemento tão precioso de vida interior, reavivou o desejo de fazer a
meditação na manhã do dia seguinte… Antes de dormir, escolho, de modo sumário mas definido, o assunto da
meditação 73 e os frutos a tirar dela, excitando diante de Deus o desejo de obter tais frutos.

No momento da meditação.74 Esforço-me por trazer ao espírito uma cena muito expressiva, que
substitua as minhas preocupações e distrações.75 Cena capaz de me empolgar e de me colocar na presença de
Deus, que, no seu amor infinito, quer ser o meu interlocutor.76 Imediatamente depois, impõe-se um ato de
adoração profunda. Humilho-me, profundamente, diante de Deus, faço um ato sincero de contrição, e uma
oração humilde e confiante para que Deus abençoe esta meditação.77

Video. Empolgado pela vossa presença viva, ó meu Jesus, e, assim, desembaraçado das distrações
naturais, começo a minha meditação pela linguagem da fé, mais fecunda que os discursos da razão. Com este
objetivo, leio ou recordo, cuidadosamente, o ponto a meditar. Resumo-o, e concentro nele a minha atenção.

Sois vós, ó meu Jesus, que me falais e ensinais esta verdade. Quero reavivar e aumentar a minha fé
naquilo que me ensinais. Não cesso, pois, de repetir: creio. Repito-o muitas vezes, como uma criança que estuda
a lição, aderindo a esta doutrina e às suas conseqüências para toda a eternidade.78

Ó meu Jesus, isto é verdadeiro, absolutamente verdadeiro. Creio-o firmemente. Quero que este raio do
sol da Revelação seja o farol do meu dia. Tornai a minha fé mais ardente. Inspirai-me um desejo veemente de
viver para este ideal e uma santa repulsa contra tudo o que se lhe opuser. Quero alimentar-me na vossa verdade
e assimilá-la.

Se, após alguns minutos, continuar inerte perante a verdade que me é apresentada, não insistirei. Direi,
filialmente, ao bom Mestre, que não tenho forças e pedirei a sua ajuda.

Sitio. A fé faz-me participar na própria inteligência divina. Da freqüência e, sobretudo, da energia dos
meus atos de fé nasce a linguagem da caridade afetiva. Nascem —espontaneamente, ou excitados pela
vontade— os afetos, que são flores que a minha alma oferece a Jesus, como se fosse uma criança: De um lado,
adoração, gratidão, amor, alegria, apego à vontade divina. De outro, desapego de tudo o mais, com sentimentos
de aversão, temor, esperança, abandono. O meu coração escolhe um, ou muitos, destes sentimentos,
compenetra-se deles, e repete-os, muitas vezes, a Jesus, com ternura, lealdade e simplicidade.

A ajuda da sensibilidade pode ser útil, mas não é indispensável. Um afeto calmo e profundo, é mais
fecundo que as comoções superficiais. Estas últimas não dependem de mim e não são o termômetro da
meditação verdadeira e frutuosa. O que é verdadeiramente importante é o esforço para sacudir o torpor do meu
coração e fazer-lhe dizer: Meu Deus, quero unir-me a Vós. Quero aniquilar-me perante Vós. Quero cantar a
minha gratidão e a minha alegria por cumprir a vossa vontade. Nunca mais quero mentir, quando digo que Vos
amo, ou que detesto tudo o que Vos ofende, etc..

Embora me esforce, posso ter dificuldade em expressar os meus afetos. Humilho-me, então, com
simplicidade, diante de Jesus, e exponho-Lhe o meu desejo. Queixo-me, insistentemente, da minha aridez, certo
de que Ele não deixará de me unir aos afetos do seu divino Coração.

Como é belo e perfeito, ó Jesus, o vosso Ideal. Estará, porventura, a minha vida em harmonia com ele?
Faço este inquérito sob o vosso olhar, agora cheio de misericórdia, mas que, um dia, me julgará com justiça,
perscrutando os motivos secretos dos meus atos. Se, neste momento, morresse, não estaria a minha conduta em
contradição com esse Ideal?

Ajudai-me, Senhor, a descobrir os obstáculos que me impedem de Vos imitar, e as causas internas ou
externas das minhas faltas. “Quero agradar a Deus em todas as coisas”.79

A consideração das minhas misérias, na presença do meu Redentor, traduz-se em atos de humildade e
dor profunda, no desejo de ser melhor e na resolução de nada recusar a Deus.

Volo. Faço mais um progresso na escola do querer. É a linguagem da caridade efetiva. Os afetos
fizeram nascer em mim o desejo de me corrigir. Vi os obstáculos; agora quero removê-los. A força deste quero
depende do meu fervor em repetir: creio, amo, arrependo-me dos meus defeitos, detesto-os.
Se este querer não brotar com a energia que desejo, deploro esta fraqueza da minha vontade e, sem
perder a coragem, não me cansarei de repetir que desejo ser generoso no serviço do Pai do Céu.

À minha resolução de trabalhar para salvar-me e amar mais a Deus, juntarei a resolução de aplicar a
minha meditação às dificuldades, tentações e perigos daquele dia. Sobretudo, procurarei forjar de novo, com
amor mais vivo, a resolução,80 objeto do meu exame particular (falta a combater ou virtude a praticar). Hei-de
fortalecê-la, com motivos hauridos no Coração do Mestre, escolherei os meios de a executar, prever as ocasiões
e preparar-me para a luta.

Se prevejo ocasiões de dissipação, humilhação, tentação, decisões graves, etc., fico vigilante e,
sobretudo, rezo a Jesus, por meio de Maria.

Se, apesar disso, ainda cair, será uma queda de surpresa, muito diferente das outras. Não desanimarei,
pois sei que Deus quer que eu não desista, que peça forças e me torne resoluto e vigilante. Só assim. conseguirei
vencer.

Volo Tecum. “Obrigar um coxo a andar bem é menos difícil do que querer realizar bem qualquer
empreendimento sem Vós, ó meu Salvador”, dizia Santo Agostinho. Se as minhas resoluções têm ficado estéreis
é porque o “tudo posso” não se tem apoiado “n’Aquele que me conforta” (Fil 4, 13). Chego pois ao ponto, sob
certo aspecto, mais importante da minha meditação: a súplica ou linguagem da esperança.

Sem a vossa graça, ó meu Jesus, nada posso. Bem sei que não a mereço, mas sei que acolheis
benignamente as minhas súplicas, se elas refletirem a minha sede de ser vosso, a desconfiança em mim mesmo e
a confiança ilimitada no vosso Coração. Tal como fez a mulher Cananéia, prostro-me aos vossos pés, e, com
constância humilde e cheia de esperança, peço-Vos, não só as migalhas, mas a participação nessa festa, da qual
dissestes: “O meu alimento é fazer a vontade do meu Pai”.

Tornado, pela graça, membro do vosso Corpo Místico, participo na vossa Vida e nos vossos méritos e
rezo confiado na vossa mediação, ó Jesus! Ó Pai Santo, eu invoco o sangue divino que clama misericórdia:
Podereis rejeitar a minha oração? É a súplica do mendigo que eu profiro aos vossos pés, ó riqueza inesgotável:
“Ouve-me, porque sou pobre e miserável (Sl 85, 1). Revesti-me da vossa força e glorificai o vosso poder na
minha fraqueza. A vossa bondade, as vossas promessas e os vossos méritos, ó meu Jesus, a minha miséria e a
minha confiança, são os únicos títulos que a minha súplica possui para obter, em união convosco, a guarda do
coração e forças para este dia.

Levarei comigo um texto ou um pensamento para recordar as minhas resoluções, quando surja a
tentação, obstáculo, ou sacrifício; e suplicarei, então, com ardor filial. Este hábito é um dos principais frutos da
minha meditação: “Pelos frutos, pois, os conhecereis” (Mt 7, 20).

Só quando chegar a viver da fé e da sede habitual de Deus, é que o trabalho do video será às vezes
supresso; o sitio e o volo brotarão, logo desde o princípio da meditação, que se passará a produzir afetos e
oferecimentos, em afirmar a minha vontade resoluta; e em suplicar, diretamente, a Jesus, ou por meio de
Maria Imaculada, dos anjos ou dos santos, uma união íntima e constante com a vontade divina.

Espera-me agora o santo Sacrifício. A meditação preparou-me para ele. A minha participação no
Calvário, em nome da Igreja, e a comunhão são a continuação da minha meditação.81 Na ação de graças,
estenderei as minhas súplicas aos interesses da Igreja, às almas que estão a meu encargo, aos defuntos, às
minhas obras, parentes, amigos, benfeitores, inimigos, etc..

Recitação das diversas horas do breviário em união com a Igreja. Freqüentes orações jaculatórias,
comunhões espirituais, exame particular, visita ao Santíssimo Sacramento, leitura espiritual, terço, exame geral,
etc., Tudo isso reavivará as minhas forças e me conservará unido, durante o dia, a Nosso Senhor. O recurso
habitual a Jesus, diretamente ou por intermédio de sua Mãe, fará cessar as contradições entre a minha admiração
pela sua doutrina e a minha vida de emancipação, entre a minha fé e a minha conduta.

Para abreviar este volume, não falaremos aqui da resolução do exame particular. Todavia, da leitura
de Cassiano, de muitos Padres da Igreja, bem como de Santo Inácio, de São Francisco de Sales e de São Vicente
de Paulo, ressalta claramente que o exame particular e o exame geral são corolários obrigatórios da
meditação, e estão ligados à guarda do coração.

De acordo com o diretor espiritual, a alma decidiu combater tal falta ou favorecer tal virtude, na
meditação e no decurso do dia. A análise cuidadosa da alma, mediante o exame particular, para verificar se
houve progresso, retrocesso, ou estagnação nalgum ponto bem escolhido, é elemento fundamental da guarda do
coração.

3. A vida litúrgica, fonte de vida interior e de apostolado


Por meio da missa, do breviário e das outras funções litúrgicas, quero unir-me à vida da Igreja, como
seu membro ou embaixador, revestindo-me, cada vez mais, de Jesus crucificado, sobretudo se for sacerdote.

a) O que é a liturgia?

Ó Jesus, sois Vós quem eu adoro como centro da liturgia. Sois Vós quem dais unidade à liturgia, isto é,
ao conjunto dos meios consignados pela Igreja, especialmente no missal, no ritual e no breviário, dos quais ela
se serve para exprimir a sua religião para com a Santíssima Trindade, e também para instruir e santificar as
almas.

É no próprio seio da Santíssima Trindade que a minha alma deve contemplar a eterna liturgia, pela qual
as três Pessoas cantam uma à outra a vida divina e a santidade infinita, nesse hino inefável da geração do Verbo
e da processão do Espírito Santo. “Assim como era no princípio...”

Deus quis, porém, ser louvado fora d’Ele. Criou os anjos, e, logo, as suas aclamações reboaram pelo
céu: “Santo, Santo, Santo”. Criou o mundo visível, e, logo, este fez resplandecer a sua onipotência: “Os Céus
proclamam a glória de Deus”.

Adão aparece, e logo começa, em nome de toda a criação, um hino de louvor, que é o eco da eterna
liturgia. Abel, Noé, Melquisedeque, Abraão, Moisés, o povo de Deus, David, e todos os santos da antiga Lei,
cantam à porfia esse hino. A Páscoa israelita, os sacrifícios e os holocaustos, o culto solene prestado a Iavé no
seu Templo, dão-lhe uma forma oficial. Hino imperfeito, sobretudo depois da queda, porque: “O louvor não tem
beleza na boca do pecador” (Ecli 15, 9).

Só Vós, ó Jesus, somente Vós, sois o hino perfeito, porque sois a verdadeira glória do Pai. Ninguém
pode, dignamente, glorificar o vosso Pai, senão por Vós. Per Ipsum, et cum Ipso, et in Ipso est tibi Deo Patri
omnipotenti, in unitate Spiritus Sancti, omnis honor et gloria.82 Vós sois o traço de união entre a liturgia da
terra e a liturgia do céu, à qual associais, mais diretamente, os vossos eleitos. A vossa Encarnação veio unir, de
maneira substancial e viva, a humanidade e a criação inteira à liturgia divina. É um Deus que louva a Deus.
Louvor completo e perfeito, que tem o seu apogeu no Sacrifício do Calvário.

Antes de deixar a terra, ó divino Salvador, instituístes o Sacrifício da nova Lei para renovar a vossa
imolação. Instituístes, também, os sacramentos, a fim de comunicar a vossa vida às almas. Deixastes, porém, à
vossa Igreja o cuidado de rodear esse Sacrifício e esses sacramentos de símbolos, cerimônias, exortações e
orações, para que ela honre o mistério da Redenção, ajude os seus filhos a tirarem dele proveito, compreendam
o seu significado, e, adquirindo nas suas almas um temor reverencial, cresçam, verdadeiramente, no amor de
Deus.
A esta mesma Igreja, destes, também, a missão de continuar, até a consumação dos séculos, a oração e o
louvor que não cessastes de fazer subir ao Pai, durante a vossa vida mortal, tal como fazeis no sacrário e nos
esplendores da glória celeste.

Com o amor de Esposa que ela nutre por Vós, com a solicitude de Mãe que o vosso Coração nela depôs
por nós, desempenhou-se a Igreja dessa dupla tarefa. Assim se formaram as maravilhosas colecções que
encerram os tesouros da liturgia. Desde então, a Igreja une-se ao louvor que os anjos e os seus filhos escolhidos
tributam a Deus no Céu. Preludia, assim, a sua ocupação eterna. Unindo-se ao louvor do Homem-Deus, o louvor
e a oração da Igreja divinizam-se, e a liturgia da terra vai fundir-se com a liturgia das hierarquias celestes no
Coração de Jesus, para se tornar eco desse louvor eterno, o qual brota do foco de amor infinito que é a
Santíssima Trindade.

b) O que é a vida litúrgica?

Estritamente, só exigis de mim, Senhor, a observância fiel dos ritos e a repetição exata das palavras.
Mas quereis mais. Quereis que o meu coração tire proveito das riquezas ocultas na liturgia, para que se una,
plenamente, à vossa Igreja e, por ela, a Vós.

Determinado pelo exemplo dos vossos servos mais fiéis, eu quero, meu bom Mestre, solicitamente,
participar no banquete a que a Igreja me convida, certíssimo de encontrar no ofício divino, nas fórmulas,
cerimônias, coletas, epístolas, evangelhos, etc., que acompanham o augusto sacrifício da missa e a
administração dos sacramentos, alimento benéfico e abundante para o desenvolvimento da minha vida interior.

Algumas reflexões sobre o pensamento dominante que encadeia os elementos litúrgicos, e sobre os
frutos pelos quais reconhecerei os meus progressos, evitarão que me iluda. Cada rito sagrado pode-se comparar
a uma pedra preciosa, e o maravilhoso conjunto, chamado ciclo litúrgico,83 realça o seu brilho e valor. Cada
período litúrgico alimenta a nossa alma com as coisas mais instrutivas que, a respeito de determinado mistério,
se encontram na Escritura e na Tradição. A liturgia ajuda a alma a saborear e aproveitar a graça especial, que
Deus reserva para cada ciclo. O mistério penetra em nós, não apenas como verdade abstrato que se assimila pela
meditação, mas cativa também todo o nosso ser, e apela para as faculdades sensíveis, a fim de excitar o nosso
coração e determinar a nossa vontade. Não se trata de simples lembrança do passado, um simples aniversário,
mas um fato com caráter de acontecimento presente, de que a Igreja faz uma aplicação Atual, e no qual,
realmente, participa.

No tempo do Natal, por exemplo, festejando junto do altar a vinda do Deus Menino, a minha alma pode
repetir: “Hoje nasceu Jesus Cristo, hoje apareceu o Salvador, hoje os anjos cantam na terra” (Ofício de Natal).
Em cada período do ciclo litúrgico, o missal e o breviário patenteiam-me um novo aspecto do amor d’Aquele
que é ao mesmo tempo Rei, Doutor, Médico, Consolador, Salvador e Amigo. No altar, como em Belém, em
Nazaré, ou nas margens do lago de Tiberíades, Jesus aparece cheio de luz, ternura e misericórdia. Ele é o Amor
personificado, porque é o Sofrimento personificado, o Agonizante de Getsémani e o Reparador do Calvário.

Deste modo, a liturgia faz desabrochar a vida eucarística; faz-nos assistir a todos os mistérios da vida
oculta, pública, paciente e gloriosa de Jesus; por seu intermédio, Deus torna-se visível em Jesus e eu recolho os
frutos da vida adorável do Salvador.

Além disso, as festas periódicas de Nossa Senhora e dos santos que melhor imitaram a vida
interior de Jesus, pondo-me os seus exemplos diante dos olhos, ajudam-me a imitar as suas virtudes e a
imprimir na alma dos fiéis o espírito do Evangelho.

Como posso realizar no meu apostolado o anseio de São Pio X? Como podem os fiéis participar
nos santos mistérios e na oração pública e solene da Igreja — que é, diz o Papa, fonte primária e
indispensável do verdadeiro espírito cristão — se eu próprio for insensível aos tesouros da liturgia?
Para dar unidade à minha vida espiritual e unir-me à vida da Igreja, procurarei relacionar com a
liturgia os outros exercícios de piedade. Por exemplo, escolherei de preferência os assuntos de
meditação que se relacionem com o período ou a festa do ciclo litúrgico; nas minhas visitas ao
Santíssimo Sacramento, procurarei ter colóquios, segundo o tempo do ano, com Jesus menino, Jesus
glorificado, Jesus vivo na sua Igreja, etc. Leituras particulares sobre o mistério ou sobre a vida do
santo, cuja memória se honra, hão de concorrer também para este plano de espiritualidade litúrgica.

Mestre adorável, preservai-me das adulterações da vida litúrgica. São elas prejudiciais à vida
interior, sobretudo porque atenuam o combate espiritual. Preservai-me de certa piedade que faz
consistir a vida litúrgica em alegrias poéticas, ou numa espécie de arqueologia religiosa. Não permitais
que me incline para o quietismo e, com ele, para o enfraquecimento de tudo o que dá força à vida
interior: o temor, a esperança, o desejo de salvação e de perfeição, a luta contra os defeitos e o trabalho
para adquirir a virtude.

Dai-me a convicção de que, neste século de ocupações absorventes e perigosas, a vida litúrgica,
por mais perfeita que seja, de modo algum dispensa a meditação da manhã.

Afastai de mim o sentimentalismo e o “pietismo” que fazem consistir a vida litúrgica em


sensações, e que escravizam a vontade à imaginação e à sensibilidade. Certamente não quereis que me
torne insensível às belezas e à poesia que a liturgia encerra. Por meio dos seus cantos e cerimônias, a
vossa Igreja dirige-se precisamente às faculdades sensitivas, com o fim de mobilizar as almas dos seus
filhos e elevá-las para Deus. Posso, por conseguinte, saborear a frescura inalterável e benéfica dos
dogmas postos em relevo pela liturgia, deixar-me comover perante o espetáculo cheio de majestade de
uma missa cantada, apreciar as orações da absolvição ou os ritos tão tocantes do batismo, da extrema-
unção e dos outros sacramentos. Mas não devo perder de vista que todos os recursos da liturgia são
apenas meios para chegar à vida interior: Fazer morrer o homem velho, a fim de que Jesus possa reinar
em seu lugar.

Só terei verdadeira vida litúrgica quando utilizar a missa, as orações e os ritos oficiais para
aumentar a minha união com a Igreja e a participação na vida interior de Jesus Cristo e, portanto, das
suas virtudes, refletindo-as melhor aos olhos dos fiéis.

c) Espírito litúrgico. Três princípios

Esta vida litúrgica, ó meu Jesus, supõe uma atração especial por tudo o que se relaciona com o culto.
Algumas pessoas já receberam de Vós essa atração, outras não; mas, se rezarem e recorrerem ao estudo e à
reflexão, hão de por certo obtê-la.

A meditação sobre as vantagens da vida litúrgica aumentará a minha sede de adquirir, a todo o
custo, essa atração. Por agora, fixo o meu espírito nos caracteres que distinguem esta vida e lhe dão um
lugar importantíssimo na espiritualidade.

Unir-se, com a Igreja, ao vosso sacrifício, ó meu Jesus! Fundir a nossa oração, em pensamento
e intenção, com a oração oficial e incessante da vossa Igreja, como isto é sublime! O coração do
batizado voa, com segurança, para Deus, assim levado pelos vossos louvores, adorações, ações de
graças, reparações e súplicas 84.

“Tomar parte ativa” —são as próprias palavras de São Pio X— e cooperar nos sagrados
mistérios e na oração pública numa atitude piedosa e esclarecida, com avidez em tirar proveito das
cerimônias, respondendo, ou prestando o concurso próprio à recitação ou ao canto dos ofícios, não é,
porventura, o meio de entrar em comunicação mais direta com o pensamento da Igreja, e de haurir, na
fonte, o verdadeiro espírito cristão?85

Que sublime missão a do sacerdote: apresentar-se, cada dia, unido aos anjos e aos eleitos, como
embaixador perante o trono de Deus, para recitar a oração oficial! E mais, incomparavelmente mais:
tornar-se outro Cristo, pela administração dos sacramentos e, sobretudo, pela celebração do santo
sacrifício!

1º Princípio: Quando, como cristão, tomo parte numa cerimônia litúrgica, estou unido a toda a
Igreja, não só pela comunhão dos santos, mas também em virtude da cooperação ativa num ato de
religião que a Igreja, corpo místico de Jesus Cristo, oferece a Deus. Mediante esta união, também a
Igreja favorece, maternalmente, a formação das virtudes cristãs na minha alma.86

A vossa Igreja, ó meu Jesus, forma uma sociedade perfeita, cujos membros, estreitamente
unidos entre si, estão destinados a constituir uma sociedade, ainda mais perfeita e mais santa, no Céu.
Como cristão, sou membro desse corpo, cuja cabeça e cuja vida sois Vós. Sou uma das ovelhas desse
redil de que sois o único Pastor, e que, na sua unidade, encerra todos os meus irmãos da Igreja
militante, purgante e triunfante.

O vosso Apóstolo ensina-me essa doutrina que me entusiasma e rasga horizontes à minha
espiritualidade. “Assim —diz ele— como num só corpo temos muitos membros, e nem todos os
membros têm a mesma função, assim nós, que somos muitos, constituímos um só corpo em Cristo, e
todos, reciprocamente, somos membros uns dos outros” (Rom 12, 4-5). “Assim como o corpo é um só
—diz ele noutra parte— e tem muitos membros, e todos os membros do corpo, embora sejam muitos,
constituem um só corpo, assim também Cristo” (1 Cor 12, 12).

Nisto consiste a unidade da vossa Igreja, indivisível no seu todo e nas suas partes, toda inteira
no todo e toda inteira em cada uma das suas partes,87 unida no Espírito Santo, unida a Vós, ó meu
Jesus, e, mediante essa união, introduzida na única e eterna sociedade do Pai, do Filho e do Espírito
Santo.88

A Igreja é a assembléia dos fiéis que, sob o governo da mesma autoridade, estão unidos pela
mesma fé e pela mesma caridade e tendem para o mesmo fim, isto é, para a incorporação a Cristo,
pelos mesmos meios, os quais se resumem na graça, cujos canais ordinários são a oração e os
sacramentos.

A grande oração, canal preferido da graça, é a oração litúrgica, a oração da própria Igreja, mais
poderosa que a oração dos particulares.89

Incorporado à verdadeira Igreja, filho de Deus e membro de Cristo pelo sacramento do batismo,
eu adquiro o direito de participar nos sacramentos, nos ofícios divinos, nos frutos da Missa, nas
indulgências e nas orações da Igreja. Podendo lucrar todas as graças e todos os méritos dos meus
irmãos.

Pelo batismo, estou marcado com um “caráter indelével que me insere no culto de Deus
segundo o rito da religião cristã”.90 Pela consagração batismal, torno-me membro do Reino de Deus e
faço parte da “raça escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo resgatado” (1 Ped 2, 9). Por
conseguinte, como cristão, participo do ministério sagrado, embora de maneira remota e indireta, pelas
minhas orações, pela minha parte de oblação, pelo meu concurso no sacrifício da missa e nos ofícios
litúrgicos, multiplicado “por meio de um sacerdócio santo —como São Pedro recomenda— cujo fim é
oferecer sacrifícios espirituais que serão agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (1 Ped 2, 5). É isto que a
santa Igreja me faz compreender, quando, pela boca do sacerdote, diz aos fiéis: “Orai irmãos, para que
este sacrifício, meu e vosso, seja aceite por Deus Pai todo-poderoso”, ou quando diz, no cânon:
“Lembrai-vos, Senhor, dos vossos servos e servas... e de todos aqueles que aqui estão presentes (…).
Por eles Vos oferecemos, ou eles próprios Vos oferecem, este sacrifício de louvor”. E mais adiante:
“Recebei, Senhor, com bondade, nós Vos pedimos, esta oblação, que nós, vossos servos, e toda a vossa
família Vos oferecemos”.

A santa liturgia é obra comum de toda a Igreja, isto é, do sacerdócio e do povo. O mistério
dessa unidade está presente nela pela força indestrutível da comunhão dos santos, proposta à nossa fé
no símbolo dos Apóstolos. Na celebração do ofício divino e da santa Missa toda a Igreja está
misteriosamente presente.91 Por isso, na liturgia, tudo se faz em nome de todos e para proveito de
todos. As suas orações são, geralmente, no plural.

Desse laço íntimo que une os católicos entre si pela mesma fé e pela participação nos mesmos
sacramentos, nasce nas almas a caridade fraterna, sinal distintivo daqueles que querem ser imitadores
de Jesus Cristo: “É por isto que todos saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos
outros” (Jo 13, 35).

Ó santa Igreja de Deus, amo-vos de todo o meu coração! Sou um dos vossos membros; sou um
membro de Cristo! Amo todos os cristãos, porque são meus irmãos e todos somos um, em Cristo! Amo
de todo o meu coração o meu divino Chefe, Jesus Cristo! Nada do que vos diz respeito me deixa
indiferente. Fico triste, se, ó Igreja, vos vejo perseguida, e rejubilo-me com as vossas conquistas e
triunfos.

Que alegria ao pensar que, santificando-me, contribuo para aumentar a vossa beleza e a
santidade de todos os filhos da Igreja meus irmãos, e para a salvação da grande família humana!

Ó santa Igreja de Deus, tanto quanto de mim depende, quero que vos torneis mais bela, mais
santa e mais numerosa, pela perfeição de cada um dos vossos filhos, unidos nessa caridade íntima que
foi o pensamento dominante de Jesus na última ceia: “Para que todos sejam um só (...) para que eles
sejam perfeitos na unidade” (Jo 17, 21, 23).

Amo a vossa oração litúrgica, ó Igreja, minha mãe! Uma gota de água nada vale. Unida ao
oceano, porém, participa do seu poder e da sua imensidade. Assim acontece com a minha oração unida
à vossa. Aos olhos de Deus —que vê o passado, o presente e o futuro— ela está unida a esse concerto
universal de louvores que, desde o princípio e até ao fim dos tempos, fazeis subir para o trono de
Eterno.

Quereis, meu Jesus, que reze pelos meus interesses. Mas também me ensinastes, no Pai Nosso,
que a minha piedade deve, antes de mais, consagrar-se ao louvor de Deus 92, e que longe de ser
egoísta, peça por todas as necessidades dos meus irmãos, pelas almas e por todas as solicitudes da
Igreja.

A missão da santa Igreja é gerar, incessantemente, novos filhos para Cristo e educá-los “à
medida da estatura completa de Cristo” (Ef 4, 13). É pela liturgia que ela nos inicia no louvor divino e
desenvolve os nossos progressos espirituais.
Durante a sua vida pública, Jesus “falava como quem possui autoridade” (Mt 7, 29). Assim
também fala a santa Igreja, minha Mãe. Depositária dos tesouros da verdade, dispensadora do sangue
redentor. Pela liturgia, expressão autêntica dos seus pensamentos e sentimentos, guia-nos e forma-nos,
verdadeiramente, no espírito do Redentor.

Ó Igreja santa, convosco hei de alegrar-me, gemer, louvar, implorar misericórdia, esperar e
amar. Associar-me-ei, com ardor, às petições que formulais nas vossas orações, a fim de que as
comoções salutares que fazeis brotar das palavras e dos ritos sagrados penetrem, profundamente, no
meu coração, o abram à ação do Espírito Santo e unam a minha vontade à de Deus.

2º princípio: Quando, numa função litúrgica, opero como representante da Igreja,93 Deus quer
que eu exprima a virtude da religião, consciente do mandato oficial de que estou investido, e que, em
nome da Igreja e de todos os seus filhos, ofereça, incessantemente, a Deus por meio de Jesus, um
sacrifício de louvor e de súplica, tornando-me, na bela expressão de S. Bernardino de Sena, “a voz de
toda a Igreja”.94

Um embaixador, na vida privada, é um simples particular. Quando, porém, se reveste das


insígnias do seu cargo e fala em nome do seu soberano, torna-se, no mesmo instante, o representante e,
até certo ponto, a própria pessoa do soberano. Assim sucede ao sacerdote ou ao religioso, quando
desempenham as funções litúrgicas. Ao seu ser individual, junta-se uma dignidade que os reveste de
um mandato público, e os torna deputados oficiais de toda a Igreja. Quando rezam o ofício, mesmo em
particular, não o fazem apenas em nome próprio. As fórmulas que empregam não foram escolhidas por
eles. É a Igreja que lhas põe nos lábios. Por conseguinte, é a Igreja que ora pela sua boca, que fala e
opera por seu intermédio, como o rei fala e opera por intermédio do seu embaixador. Eles são, segundo
a bela expressão de S. Pedro Damião, “pela unidade da fé, a Igreja inteira”.95 Por seu intermédio, a
Igreja une-se à divina religião de Jesus Cristo e dirige à Santíssima Trindade a adoração, a ação de
graças, a reparação e a súplica.

Por conseguinte, se tenho alguma consciência da minha dignidade, como poderei, por exemplo,
começar o meu breviário, sem me elevar acima do curso natural dos meus pensamentos, para me
lançar em cheio na convicção de que sou “um mediador entre o Céu e a terra”? 96

Que desgraça se chegasse a esquecer-me destas verdades! Os santos estavam compenetrados


delas.97 Viviam delas. Deus quer que eu também as recorde quando exerço uma função. A Igreja,
mediante a vida litúrgica, ajuda-me a não perder de vista que sou seu representante, e Deus exige que a
minha vida seja exemplar.98

3º princípio: Quando o sacerdote consagra a Eucaristia ou administra os sacramentos, deve


reavivar a convicção de que é ministro de Jesus Cristo, isto é, outro Cristo; dele depende encontrar, no
exercício das suas funções, graças especiais para adquirir as virtudes exigidas pelo seu sacerdócio.99

Os membros da Igreja formam um só corpo, mas neste corpo, “nem todos os membros têm a
mesma função” (Rom 12, 4). “Há, pois, diversidade de dons, mas o Espírito é o mesmo” (1 Cor 12, 4).

Tendo querido deixar, de modo visível, o seu Sacrifício à Igreja, Jesus criou o sacerdócio, cujo
fim principal é continuar a sua imolação sobre o altar, distribuir o seu sangue, por meio dos
sacramentos, e santificar o seu Corpo Místico, difundindo nele a sua vida divina.
Ó meu Jesus, sacerdote supremo, desde toda a eternidade, decidistes escolher-me e consagrar-
me para vosso ministro, para exercerdes o vosso sacerdócio, por meu intermédio. Comunicastes-me os
vossos poderes, a fim de realizar, como “cooperador de Deus” (1 Cor 3, 9) uma obra maior que a
criação do universo: o milagre da transubstanciação.

Compreendo, agora, as expressões de entusiasmo dos Santos Padres sobre a grandeza da


dignidade sacerdotal! 100 Jesus identifica-se comigo e a sua Pessoa une-se à minha, quando faz suas
estas palavras que eu pronuncio: Hoc est Corpus meum, Hic est calix Sanguinis mei.

Empresto-vos, Senhor, os meus lábios, pois, sem mentir, posso dizer: O meu corpo, o meu
sangue. Basta que eu queira consagrar, para que Vós também queirais. No ato maior que podeis fazer
sobre a terra, a vossa alma está unida à minha. Empresto-vos o que mais me pertence, a minha
vontade. E a vossa vontade, imediatamente, une-se à minha. De tal modo sois Vós quem operais, por
meu intermédio, que se eu ousasse dizer: Este é o Corpo de Jesus Cristo, em vez de: Este é o meu
Corpo, a consagração seria inválida.

Vós sois a Eucaristia, ó meu bom Jesus, sob as aparências do pão. E cada Missa vem recordar-
me que o sacerdote sois Vós, ó Sacerdote único, sob as aparências de um homem que escolhestes para
vosso ministro.

Alter Christus! Todas as vezes que administro os sacramentos, sou levado a pensar nestas
palavras. Só vós podeis dizer na qualidade de Redentor: “Eu te batizo, Eu te absolvo”, e exercer,
assim, um poder tão divino como o de criar. Eu também profiro essas palavras. E os anjos estão mais
atentos a elas do que ao Fiat que tirou os seres do nada, pois tais palavras são capazes de comunicar a
vida divina a uma alma e produzir um filho de Deus. “É maior obra fazer de um ímpio um justo —
disse Santo Agostinho— do que criar o Céu e a Terra”.

Como poderia, pois, Deus tolerar que, tendo feito de mim um “outro Cristo”, viva eu “sem
Cristo” ou até “contra Cristo”, tornando-me, pelo pecado, uma espécie de anti-Cristo?

Absit. Podes contar com a minha misericórdia, quando está em jogo apenas a fragilidade
humana nas tuas faltas lamentadas e reparadas. Mas aceitar, friamente, um caminho decidido de
infidelidades, e voltar sem remorsos às tuas funções sublimes, o mesmo é que excitar, seguramente, a
minha cólera.

Entre as tuas funções e as dos sacerdotes da antiga Lei há um abismo. E, entretanto, se já os


meus profetas ameaçavam Sião por causa dos pecados do povo ou dos seus governantes, ouve o que
resultava da prevaricação dos sacerdotes: “O Senhor saciou o seu furor e derramou o ardor da sua
indignação, acendendo um fogo em Sião que devorou os seus alicerces (...) por causa das iniqüidades
dos seus sacerdotes” (Lam 4, 11-13).

Pondera, também, com que rigor a minha Igreja proíbe ao sacerdote que suba ao altar, ou
administre os sacramentos, quando na sua consciência existir uma só falta mortal!

Inspirada por Mim, ela vai mais além. Nas palavras e cerimônias sagradas, obriga o sacerdote a
pedir o espírito de compunção pelas suas faltas, portanto, guarda do coração; espírito de adoração,
portanto, de recolhimento; espírito de fé, esperança e caridade, portanto, direção sobrenatural da
conduta exterior e das obras. Assim, ele tem de decidir entre a piedade ou a impostura. Ou decide ter
vida interior, ou, então, exprime, do princípio ao fim da Missa, o que não pensa, e pede o que não
deseja.

Compreendo agora, ó meu Jesus, que revestir-me dos paramentos sagrados sem estar resolvido
a esforçar-me por adquirir as virtudes que eles simbolizam, é uma hipocrisia.

Apodere-se, pois, de mim um santo temor, cada vez que me aproxime dos vossos mistérios e
me revista dos paramentos litúrgicos. Que as orações com que acompanho esses atos, que as fórmulas,
tão repassadas de unção e de força, do missal e do ritual, me convidem a examinar, cuidadosamente, o
meu coração para ver se ele está em harmonia com o vosso, mediante o desejo leal de Vos imitar pela
minha vida interior.

Ai de mim, se não souber aproveitar-me das minhas funções para conhecer as vossas
exigências, ou se ficar surdo à voz dos objetos santos que me rodeiam: altar, confessionário, pias
batismais, vasos, roupas e paramentos sagrados! Pois, cada uma daquelas funções é ocasião de graças
Atuais, que Vós me ofereceis para modelar à minha alma à vossa imagem e semelhança.

É a Igreja que solicita esta graça. É o seu coração, desejoso de corresponder à vossa
expectativa, que me trata como a menina dos seus olhos. É Ela que, antes da minha ordenação, me pôs
em destaque as graves conseqüências da minha identificação convosco.

“Colocai, Senhor, na minha cabeça o elmo da salvação (...). Cingi-me com o cíngulo da pureza
(...) Livrai-me de todas as minhas iniqüidades e de todos os males; fazei que eu seja sempre fiel
cumpridor dos vossos mandamentos e não permitais que me afaste de Vós...” Já não sou só eu que faço
estas súplicas por mim. São todos os verdadeiros fiéis, todas as almas fervorosas a vós consagradas,
todos os membros da hierarquia eclesiástica, que fazem da minha pobre oração a sua própria oração. O
seu grito eleva-se até ao vosso trono. É a voz da vossa Esposa que vós escutais. E quando, resolvidos a
procurar a vida interior, os vossos ministros harmonizam o seu coração com as suas funções litúrgicas,
sempre atendeis favoravelmente estas súplicas.

Em lugar de me excluir, por negligência voluntária, dos sufrágios que dirijo ao vosso Pai pelo
conjunto dos fiéis, por ocasião da Missa ou dos sacramentos, quero aproveitar-me dessas graças, ó meu
Jesus! Na prática de cada ato sacerdotal, abrirei o meu coração à vossa ação. Lançareis, então, nele as
luzes, as consolações e as energias necessárias para que os meus juízos, afeições e vontade se
identifiquem com os vossos, ó Sacerdote eterno!

Resumo dos três princípios do espírito litúrgico:

Cum Eclesia. Quando me uno à Igreja como simples cristão, esta união convida-me a identificar-me
com os seus sentimentos.

Eclesia. Quando procedo como embaixador da própria Igreja, perante o trono de Deus, sou
ainda mais fortemente incitado a fazer minhas as suas aspirações, para me tornar menos indigno de me
dirigir à majestade três vezes santa, e exercer, por meio da oração oficial, um apostolado mais fecundo.

Christus. Mas quando, pela participação no sacerdócio de Cristo, eu sou “outro Cristo”, que
palavras poderão traduzir os vossos apelos, ó Jesus, para que cada vez mais me assemelhe a Vós, para
que, com esta semelhança, me manifeste aos fiéis e por meio do apostolado do exemplo os conduza
para Vós!
d) A vida litúrgica favorece a permanência do sobrenatural em todas as nossas ações

Muitas vezes, ao longo do dia, a pureza de intenções, que torna meritórias as ações e fecundo o
apostolado, vicia-se, por falta de vigilância. Só um esforço contínuo me permitirá obter as graças necessárias
para dirigir todos os meus atos, unicamente, para Deus. Ora, para esse esforço, a meditação é indispensável.
Mas, que diferença, quando ele se exerce no seio da vida litúrgica! A meditação e a vida litúrgica são duas irmãs
que mutuamente se auxiliam. A meditação que precede a Missa e a leitura do breviário introduzem-me no
sobrenatural. A vida litúrgica dá-me o meio de fazer passar a meditação para o dia inteiro.101

Na vossa escola, ó Igreja santa, é fácil adquirir o hábito de render ao Criador e Pai o culto que
lhe é devido. Ó Esposa d’Aquele que é a Adoração, a Ação de graças, a Reparação e a Mediação por
excelência, vós, por meio da liturgia, comunicais-me essa sede que Jesus tinha de glorificar o Pai.

A liturgia cativa todo o meu ser. Por meio de um conjunto de cerimônias, de genuflexões, de
inclinações, de símbolos, de cantos, de textos que se dirigem aos olhos, aos ouvidos, à imaginação, à
inteligência e ao coração, ela orienta-me todo para Deus.

Na liturgia tudo me fala de Deus; tudo me leva a Deus; tudo me conduz à santidade. A liturgia
põe-me a falar com Deus e a manifestar-Lhe a minha religião por variadíssimas formas.

Se me aplicar, cuidadosamente, à formação litúrgica, adquirirei hábitos de alma e progredirei


na vida interior.

A liturgia é uma escola da presença de Deus. Ela explica-nos as diversas manifestações da vida
de Jesus Cristo entre nós. Conserva-nos numa atmosfera sobrenatural e divina, na qual acompanhamos
a vida de Nosso Senhor, e em que Ele nos manifesta o amor do seu Coração.

Sois Vós mesmo, ó Jesus, que, por meio da liturgia, continuais a ensinar-nos e a manifestar-nos
o vosso amor. Contemplo-vos, não como poderia conhecer-Vos um arqueólogo, um historiador, ou um
teólogo, através de árduas pesquisas e especulações. Vós estais a meu lado; sois o Emanuel, Deus
conosco; estais com a vossa Igreja e, por conseguinte, também comigo.

Por meio do ciclo das festas e das lições escolhidas no vosso Evangelho e nos escritos dos
Apóstolos, por meio dos sacramentos e da eucaristia, a Igreja faz viver no meio de nós o vosso
Sagrado Coração, e faz-nos ouvir as suas palpitações de amor por nós. Crer que Jesus vive em mim e
quer operar em mim, se eu não levantar obstáculos, que estímulo para a vida sobrenatural!

Esta maneira de me apresentar Jesus, assim vivo e sempre presente, dá força e generosidade à
minha vida interior. Os sofrimentos, as injúrias, os combates espirituais e as virtudes perdem o seu
lado doloroso ou repugnante, porque em lugar da cruz despida, vejo nela cravado o meu Salvador.

A liturgia dá-me, por outro lado, um apoio precioso, mostrando-me que não estou só na luta
contra o naturalismo que, incessantemente, me procura arrastar. A Igreja segue-me, maternalmente,
partilha comigo os méritos de milhões de almas com as quais estou em comunhão e que falam a
mesma língua de amor que eu, e dá-me a certeza de que o Céu inteiro e o Purgatório me acompanham,
para me animar e me assistir.
Nada ajuda tanto a dirigir as nossas ações para Deus, como a lembrança da eternidade. Na
liturgia, tudo me recorda os novíssimos. As referências à vida eterna, ao Céu, ao Inferno, ao
Purgatório, à morte, e outras equivalentes, encontram-se nela a cada passo.

Os sufrágios e ofícios pelos defuntos põem-me diante dos olhos a morte, o juízo, as
recompensas e os castigos eternos, o valor do tempo, e as purificações indispensáveis, neste mundo ou
no Purgatório, para entrar no Céu. As festas dos santos falam-me da glória dos que me precederam
neste mundo e da coroa que me está reservada, se seguir os seus passos e exemplos.

Por meio destas lições, a Igreja clama sem cessar: Alma querida contempla os séculos eternos a
fim de seres fiel à tua divisa: Deus em tudo, sempre, e por toda a parte.

Divina liturgia, para reconhecer todos os benefícios que te devo, deveria falar de todas as
virtudes. Graças aos textos escolhidos da Sagrada Escritura, que fazes passar sob os meus olhos, graças
aos ritos e símbolos que traduzem os divinos mistérios, a minha alma vê-se constantemente erguida da
terra e orientada, ora para a virtude, a confiança e a alegria espiritual, ora para o temor de Deus, o
horror ao pecado e ao espírito do mundo.

e) A vida litúrgica amolda a nossa vida interior à de Jesus Cristo

Três sentimentos dominam o Coração de Jesus: a humildade perfeita, a caridade ardente e o


espírito de sacrifício.

Humildade perfeita. Ao entrar neste mundo dissestes: “Pai, eis-Me aqui para fazer a vossa
vontade” (Heb 10, 5-7). Amiúde dizíeis: “Eu sempre faço o que é do seu agrado” (Jo 8, 29). Vós sois
Aquele “que Se humilhou a Si mesmo, fazendo-se obediente até à morte e morte de cruz” (Fil 2, 8).
Agora ainda, obedeceis aos vossos sacerdotes. À sua voz, desceis à terra: “O Senhor obedeceu à voz de
um homem” (Jos 10, 14).

A liturgia convida-me a imitar a vossa sujeição, dominando o meu entendimento e a minha


vontade, sempre inclinados a rejeitar o exemplo fundamental que nos destes ao fazer sempre a vontade
divina.

Cada vez que obrigo a minha personalidade a abater-se para obedecer à Igreja, e, por
conseguinte, a Vós, a minha alma faz um precioso exercício. “Quem é fiel no pouco também é fiel no
muito” (Lc 16, 10). Que admiráveis efeitos produz esta fidelidade às mínimas prescrições das rubricas,
quando trato de obrigar o meu orgulho a dobrar-se nas circunstâncias difíceis.

Mas há mais. Recordando-me a certeza da vossa vida em mim, e a necessidade da vossa


graça para tirar fruto até de um simples pensamento, a liturgia combate a presunção que poderia
destruir, completamente, a minha vida interior. O “Por Nosso Senhor Jesus Cristo...”, que serve de
conclusão a quase todas as orações da liturgia, lembra-me que eu, sozinho, nada posso. Tudo me
compenetra da necessidade de recorrer frequentemente a Vós.

A Igreja, mediante a liturgia, insiste, solicitamente, na necessidade da súplica. Desta liturgia ela
faz verdadeiramente a Escola de Oração, por conseguinte, da humildade. Por meio das suas fórmulas,
sacramentos e sacramentais, ensina-me que tudo me é concedido pelo vosso precioso sangue, mas que,
para tirar frutos desse sangue, devo unir-me, em oração humilde, ao vosso vivíssimo desejo de no-lo
aplicar.
Caridade universal. O vosso Coração, ó meu Jesus, estendeu a todos os homens a sua missão
redentora. O brado que destes, pouco antes de morrer na Cruz: “Tenho sede!” ecoa no altar, no sacrário
e até no seio da vossa glória, num apelo lancinante para que todos os cristãos tenham sede de almas e
trabalhem com ardor pela salvação de todos os homens.

Essa sede de almas deve consumir, especialmente, os vossos ministros. Eles têm a missão de
Vos levar às almas. Eles são aqueles co-redentores e mediadores, de quem o profeta disse: “Chorem os
sacerdotes, ministros do Senhor, entre o pórtico e o altar” (Jl 2, 17) pelos pecados do mundo. Eles
devem santificar-se, para poderem santificar os homens; devem instruir, guiar e comunicar às almas a
vossa vida. “Eu santifico-me a mim próprio —diz São João— para eles serem também santificados”
(Jo 17, 19).

A vida litúrgica aumenta o meu amor filial pela santa Igreja e pelo Pai comum dos fiéis; torna-
me dedicado e submisso aos meus superiores hierárquicos e faz minhas as suas preocupações; ajuda-
me a não esquecer que Jesus vive naqueles com quem estou em contato diário, e a ser manso e
paciente para com eles; recorda-me que só a cruz me pode levar ao Céu e que os meus louvores,
adorações e sacrifícios só têm valor pelo sangue de Jesus.

Espírito de sacrifício. Ó meu bom Jesus, para salvar a humanidade, fizestes da vossa vida
terrena uma imolação contínua.

Como sacerdote, identificado convosco, quando celebro a Missa, ó divino Crucificado,


convosco também quero ser hóstia: Em Vós, tudo gravita à roda da cruz. Ela será, pois, o Sol dos
meus dias, como o vosso Sacrifício é o ato central da liturgia.

Fazendo-me recordar, incessantemente, o Sacrifício do Calvário, a liturgia é a escola do espírito


de sacrifício. Comunicando-me os sentimentos da vossa Igreja, comunica-me os vossos, ó Jesus, e
assim realizarei a palavra de S. Paulo: “Tende entre vós os mesmos sentimentos que havia em Cristo
Jesus” (Fil 2, 5).

O missal, o ritual e o breviário, dos mais variados modos, começando pelo sinal da cruz,
recordam-me que, depois do pecado, o sacrifício se tornou a lei da humanidade, e que esse sacrifício só
tem valor se estiver unido ao vosso. Farei de mim mesmo uma imolação total, unida à vossa imolação
realizada no Calvário e renovada nas Missas que se sucedem no mundo inteiro. A liturgia facilitará
esta oblação e “completará na minha carne o que falta aos sofrimentos de Cristo pelo seu corpo, que é
a Igreja” (Col 2, 24).

Contribuirei com a minha parte para essa grande hóstia feita dos “sacrifícios de todos os
cristãos”.102 Essa hóstia há de subir ao Céu para expiar os pecados do mundo e fazer descer sobre a
Igreja militante e purgante os frutos da vossa Redenção.

Assim terei a verdadeira vida litúrgica. Assim tornar-me-ei uma dessas pedras vivas e
escolhidas, as quais, brunidas pela provação, se destinam a entrar na construção da Jerusalém celeste.

f) A vida litúrgica faz-nos viver, já na Terra, a vida do Céu

“Nós somos cidadãos do Céu” (Fil 4, 20), dizia S. Paulo. Onde aprenderei melhor a viver
como cidadão do Céu do que na liturgia? A liturgia da terra imita a liturgia celeste, que São João, o
discípulo predileto, descreveu no Apocalipse. Quando canto ou rezo o ofício, uno-me à adoração dos
anjos diante do trono do Eterno.

As festas dos santos fazem-me viver na presença dos meus irmãos do Paraíso, que me protegem
e oram por mim. As festas da Santíssima Virgem recordam-me que tenho no céu uma Mãe, cheia de
poder e bondade, que não terá descanso, enquanto me não vir em segurança no Reino do seu Filho.
Será possível que a liturgia das festas do meu doce Salvador — o Natal, a Páscoa, a Ascensão...— não
me causem as saudades do Céu que S. Gregório considera um penhor de predestinação?

g) Prática da vida litúrgica

As exigências do ministério sacerdotal podem servir, por vezes, de pretexto para nos
subtrairmos à prática da vida litúrgica. Ora, desempenhar bem as funções litúrgicas não requer mais
tempo que desempenhá-las maquinalmente. Os santos, onerados por numerosas e absorventes
ocupações, foram almas litúrgicas de primeira grandeza.

A. Preparação remota

Dai-me, bom Salvador, grande espírito de fé em tudo quanto se relaciona com o culto divino.

Os vossos anjos e santos contemplam-Vos face a face. Nada consegue distrair o seu espírito das
augustas funções que constituem um dos elementos da sua indescritível felicidade. Mas eu, sujeito
como estou a todas as fraquezas da humana natureza, como hei de manter-me na vossa presença, se
não tiver espírito de fé?

Dai-me, pois, uma fé viva, que fortaleça a minha vontade, ao considerar com entusiasmo a
sublimidade dos atos litúrgicos. Não permitais que considere as funções litúrgicas com desmazelo, ou
como uma tarefa a terminar depressa, ou a suportar porque me dá certo lucro. Não quero que sirva de
escândalo o que deve servir de edificação. Todavia, estou certo de que cairei, se perder o espírito de fé.

Não o terei perdido, se perdi o zelo de conhecer e observar as rubricas? Os mais belos
pensamentos sobre a liturgia não desculpariam a minha negligência.

Se não sentir atrativo para fazer esse esforço, pouco importa; basta-me que Vos agrade a minha
obediência e que eu saiba quanto me será proveitosa. Quando fizer um retiro espiritual, nunca deixarei
de examinar-me sobre este ponto, relativo ao missal, ao ritual e ao breviário.

A Santa Igreja valeu-se, principalmente, das riquezas dos salmos para o seu culto. Tenha eu
espírito litúrgico, e a minha alma descobrirá nas riquezas dos salmos os sentimentos que o Coração de
Jesus dirigia ao Pai, durante a sua vida mortal, encontrando, ali, maravilhosamente sintetizados, os
principais ensinamentos do Evangelho.

Sob os mesmos véus, ouvirei a voz da Igreja, continuando a vossa vida de provações e
manifestando a Deus, nos sofrimentos e triunfos, os seus sentimentos modelados em Jesus.

Pela leitura da Sagrada Escritura, procurarei desenvolver o meu gosto pela liturgia e facilitar a
minha atenção às palavras.
A reflexão ensinar-me-á a descobrir, em qualquer ato litúrgico, uma idéia central, em redor da
qual gravitam os diversos ensinamentos, o que me ajudará a lutar contra a mobilidade da minha
imaginação.

Por outro lado, a Igreja emprega símbolos que falam aos sentidos uma linguagem cativante,
tornando sensíveis as verdades representadas. Tudo na Igreja — cerimônias, paramentos, objetos
sagrados— tem significado. Como conseguirei iluminar a inteligência e atingir o coração dos fiéis, que
a Igreja quer cativar por meio dessa linguagem simples e grandiosa, se eu próprio não possuir a chave
dessa pregação?

B. Preparação próxima

“Antes da oração, prepara a tua alma” (Ecli 18, 23). Imediatamente antes de celebrar a Missa,
ou recitar o breviário, devo procurar recolher-me, esquecendo tudo o que não se refere a Deus e
fixando n’Ele a minha atenção. É com Deus que vou falar.

Mas ele também é meu Pai. Ao temor reverencial, que a própria Rainha dos Anjos tem perante
a majestade infinita do seu Filho, unirei a confiança filial e ingênua de uma criança. Terei a convicção
de estar unido a Jesus Cristo e de representar toda a Igreja, não obstante a minha indignidade. Não
estarei só: “Na presença dos anjos cantarei os vossos louvores” (Sl 137, 1).

Com a simplicidade e ingenuidade de uma criança, receberei da santa Igreja tudo o que me
apresentar para alimento da minha fé; aproveitarei os tesouros da liturgia e deixar-me-ei cativar pela
poesia que dela brota. Será mais fácil, então, entrar em adoração e conservar-me nela durante a função
litúrgica. Disso depende, em grande parte, não só o proveito e o mérito do ato litúrgico em si, mas
também as consolações que me devem amparar nos trabalhos apostólicos.

Quero, por conseguinte, adorar. Quero unir-me às adorações do Homem-Deus, a fim de render
ao Pai esta homenagem. Mas quero que ela seja um impulso do coração, e não um esforço da cabeça.
Pedirei esta graça, por exemplo, ao rezar, pausadamente, as orações iniciais do breviário e da santa
Missa.

É esta vontade filial e afetuosa, forte e humilde, unida a um vivo desejo do vosso auxílio, que
exigis de mim.

Se a minha inteligência conseguir rasgar horizontes à minha fé, ou a sensibilidade oferecer


qualquer comoção piedosa, a vontade aproveitá-lo-á para mais facilmente adorar. Se, porém,
permanecer na aridez e na escuridão, lembrar-me-ei que a união com Deus reside na parte superior da
alma, na vontade, que terá, então, de voar, contando somente com o apoio da fé, alcançando, assim,
maiores méritos.

C. Desempenho da função litúrgica

Desempenhar bem as funções litúrgicas é dom da vossa munificência, ó meu Deus!


Dignai-vos conceder-me esse dom. Quero ser um verdadeiro adorador, durante todo o ato
litúrgico. Esta expressão resume todo o método.
A minha vontade lançou, e mantém, o meu coração na presença da majestade de Deus. O seu
trabalho pode resumir-se nas três palavras, “digna, atenta e devotamente”, da oração inicial do ofício
divino, que exprimem com precisão qual deva ser a atitude do corpo, da inteligência e do coração.

Dignamente. Pela atitude respeitosa, pronúncia exato das palavras (mais lenta nas partes
principais), cuidadosa observância das rubricas, tom da voz, maneira de fazer o sinal da cruz, as
genuflexões, etc., o meu corpo há de manifestar que sei a Quem estou a falar, que sei o que digo, que
conheço o apostolado que estou a exercer juntos dos fiéis 103, e, também, que é com o coração que
estou a operar.

Na corte dos reis da terra, até os simples criados consideram grandes os cargos pequenos, e
assumem, naturalmente, ares solenes e majestosos. Eu, que faço parte da guarda de honra do Rei dos
reis e do Deus de toda a majestade, não deverei ter essa distinção, que se manifesta na atitude de alma
e na dignidade do porte?

Atentamente. Procurarei tirar proveito de tudo quanto possa servir de alimento, nas palavras e
ritos sagrados, ao meu coração. Umas vezes, aplicarei a atenção ao sentido literal dos textos. Quer siga
cada frase, quer medite sobre uma palavra que me impressionou, procurarei seguir o conselho de São
Bento: “Esteja o pensamento de acordo com a voz”. Outras vezes, meditarei sobre o mistério do dia ou
sobre a idéia principal do tempo litúrgico.

Mas o papel da inteligência é secundário, comparado com o da vontade, pois aquela apenas
ajuda esta a manter-se em adoração ou a regressar a essa atitude. Por isso, se me distrair, procurarei
regressar, sem impaciência nem precipitação, mas com calma e firme decisão, ao ato adorador.

Devotamente. É o ponto capital. Tudo deve tender a fazer do ofício ou outra função
litúrgica, um exercício de piedade, por conseguinte, um ato do coração.

“A precipitação é a morte da devoção.” Falando do breviário, e a fortiori da missa, S.


Francisco de Sales apresenta esta máxima como um princípio. Devo, portanto, consagrar cerca
de meia hora à minha Missa, a fim de que não só o cânone, mas toda ela, seja rezada com
piedade. Porei de lado todos os pretextos para celebrar apressadamente este ato central do meu
dia. Se estiver habituado a truncar certas palavras ou cerimônias, hei de aplicar-me, mesmo
exagerando durante algum tempo, em rezar muito devagar essas passagens defeituosas.

Guardadas as proporções, estenderei essa resolução a todos os outros atos litúrgicos:


sacramentos, bênçãos, enterros, etc.

Quanto ao breviário, terei o cuidado de prever as horas em que o deverei rezar. Chegado esse
tempo, obrigar-me-ei, custe o que custar, a pôr tudo de parte. Quero que essa prece seja verdadeira
oração do coração. Dai-me, Senhor, o horror à precipitação quando desempenhar o vosso lugar, ou
proceder em nome da Igreja. Dai-me a persuasão de que a precipitação paralisa o grande sacramental
da liturgia, e impede o espírito de oração, sem o qual, sob as aparências de um sacerdote muito zeloso,
serei tíbio aos vossos olhos, ou menos ainda. Gravai na minha consciência estas palavras de Jeremias:
“Maldito o que faz com negligência a obra do Senhor” (Jer 48, 10).

Umas vezes, com um impulso do coração, abraçarei, numa síntese de fé, o sentido geral do
mistério recordado pelo ciclo litúrgico, e, com ele, alimentarei a minha alma; outras vezes, saborearei,
longamente, os atos de fé, de esperança, de desejo, de pesar, ou de amor; outras vezes, ainda, um
simples olhar bastará. Olhar íntimo e demorado sobre um mistério, sobre uma perfeição de Deus, sobre
a Igreja, sobre as minhas misérias e necessidades, ou, ainda, sobre a minha dignidade de cristão, de
sacerdote, de religioso. Olhar inteiramente diferente do ato da inteligência durante um estudo
teológico. Olhar que aumente a minha fé, e o meu amor; olhar que seja um reflexo pálido da visão
beatífica, mas que realize, já neste mundo, o que Jesus prometeu às almas puras: “Bem-aventurados os
puros de coração, porque verão a Deus” (Mt 5, 8).

Longe de serem um serviço pesado, as funções litúrgicas serão uma das maiores consolações da
minha vida; uma verdadeira respiração da minha alma, que as ocupações tendiam a asfixiar.

E como poderia ser de outra forma? A lembrança de que sou filho e embaixador da Igreja,
membro e ministro de Jesus Cristo, revestir-me-á, cada vez mais, d’Aquele que é a Alegria dos eleitos.
Pela união com Ele, aprenderei a tirar proveito das cruzes desta vida para semear a messe da minha
felicidade eterna, e pela vida litúrgica, mais eficaz do que qualquer apostolado, arrastarei após mim
outras almas, pelos caminhos da salvação e da santidade.

4. A guarda do coração, ponto capital da vida interior e, por conseguinte, do apostolado

Quero, meu Jesus, ser vigilante, para preservar o meu coração de todos os defeitos, e uni-lo,
cada vez mais, ao vosso.

O elemento negativo desta resolução faz-me repudiar toda e qualquer mancha nos motivos e na
prática da ação.104

O elemento positivo leva-me a querer intensificar a fé, a esperança e a caridade, que animam
essa ação.

A resolução da guarda do coração é o verdadeiro termômetro do valor prático das duas


precedentes, pois nela se resume a vida interior, no exercício do apostolado.

A meditação e a vida litúrgica dão-me o impulso para me unir a Deus. Porém, a guarda do
coração é que vai permitir manter-me sempre nas boas disposições iniciais.

Já sei em que consiste esta guarda do coração 105 que realiza, verdadeiramente, o “Permanecei
em Mim e Eu permanecerei em vós” (Jo 15, 4).

Por seu intermédio, a minha união indireta a Deus, pelas suas obras, isto é, pelas relações que,
consoante a sua vontade, tenho com as criaturas, torna-se conseqüência da minha união direta com Ele,
pela oração, pela vida litúrgica e pelos sacramentos. Em ambos os casos, a união procede da fé e da
caridade e realiza-se sob a influência da graça. Na união direta, sois, Vós mesmo, ó meu Deus, o
objeto da minha intenção. Na indireta, aplico-me a outros objetos. Mas, como faço isso para Vos
obedecer, esses atos tornam-se meios de me unir a Vós. Deixo-Vos, para Vos voltar a encontrar. Sois
sempre Vós que eu procuro, e com desejo igual, mas, fazendo a vossa vontade. E esta divina vontade é
o único farol que a guarda do coração me faz, incessantemente, fixar, a fim de me orientar no vosso
serviço. Em ambos os casos, posso, por conseguinte, dizer: “Para mim, a felicidade é estar junto de
Deus” (Sl 72, 28).

É erro julgar que, para me unir a Vós, devo adiar a ação ou esperar que ela termine. É erro supor que os
trabalhos prolongados tornam impossível a minha união convosco. Quereis que eu permaneça livre, e que a ação
não me chegue a dominar. Quereis que eu seja o senhor, e não o seu escravo. E, com esse fim, ofereceis-me a
vossa graça, caso seja fiel à guarda do coração.

Portanto, se o meu senso sobrenatural, mediante a experiência, me faz discernir que certa ação
é da vontade de Deus, não me subtrairei a ela, mas também não a farei por amor próprio. Devo
empreendê-la e continuá-la, só para fazer a divina vontade. Porque o amor próprio viciar-lhe-ia o valor
e diminuiria o seu mérito.

a) Necessidade da guarda do coração

Meu Deus, vós sois a santidade, e, neste mundo, só admitis uma alma à vossa intimidade, na medida em
que ela se aplique a destruir ou a evitar tudo o que a pode manchar. Preguiça espiritual de elevar o coração até
vós; amor desordenado pelas criaturas; modos bruscos e impaciências; rancor, caprichos, moleza, dissipação,
tagarelice, juízos vãos e temerários acerca do próximo, auto-complacência, desprezo dos outros, presunção,
teimosia, ciúme, falta de respeito à autoridade, murmurações; falta de mortificação no beber e no comer, etc.,
que multidão de pecados veniais, ou de imperfeições voluntárias, me poderá invadir, se deixo de estar vigilante,
privando-me, assim, das graças que me quereis dar!

Sim, se a meditação e a vida litúrgica não levarem, progressivamente, a minha alma a conservar-se
vigilante, até contra as faltas devidas à fragilidade humana, a erguer-se com prontidão, mal a vontade comece a
afrouxar, e até a impor-se penitências, posso paralisar e tornar estéril a ação de Jesus em mim. “O Reino dos
Céus exige violência e os violentos apoderam-se dele à força” (Mt 11, 12), se eu não for desses violentos, logo
Satanás procurará sem descanso surpreender o meu coração.

Não te iludas, minha alma. Certas quedas, que qualificas como de pura fragilidade, talvez não o sejam
aos olhos de Deus, pois não praticas o exercício da guarda do coração e Jesus não é o motivo de cada uma das
tuas ações.

b) Presença de Deus, base da guarda do coração

Trindade Santíssima, se eu, como espero, estou em estado de graça, Vós habitais no meu coração, com
toda a vossa glória, com todas as vossas perfeições infinitas, enfim, tal como habitais no Céu.

Se a vossa vida em mim fosse o centro da minha atenção, porventura estaria eu tanto tempo sem pensar
nela? Não será esta falta de atenção a causa dos fracassos das minhas tentativas de guarda do coração? Se as
orações jaculatórias se sucedessem, regularmente, pelo dia adiante, ter-me-iam recordado a presença, cheia de
amor, do meu Deus em mim.

Tenho norteado, assim, a minha vida, ao menos uma vez em cada hora? Tenho aproveitado a meditação
quotidiana e a vida litúrgica para visitar o santuário íntimo do meu coração, para adorar aí a Beleza infinita, a
Imensidade, a Onipotência, a Santidade, a Vida, o Amor, numa palavra, o Bem supremo e perfeito, que lá se
digna residir e que é o meu Princípio e o meu Fim?

Que lugar ocupam no meu dia as comunhões espirituais? E, entretanto, posso fazê-las, a cada momento,
não só para recordar a vida da Santíssima Trindade em mim, mas também para aumentar essa vida, por nova
infusão do Sangue redentor na minha alma!

Que caso tenho feito desses tesouros, postos à minha disposição? Como estou longe das almas que, sem
deixar o trabalho, voltam, milhares de vezes por dia, ao seu hóspede divino! Contraíram esse hábito, e o seu
coração nunca mais abandonou o seu tesouro.
c) A devoção a Nossa Senhora facilita a guarda do coração

Ó Maria Imaculada, a palavra do vosso Filho, no Calvário, constituiu-me filho vosso, para que me
ajudeis a conservar o coração unido ao de Jesus. Peço-Vos, pois, a guarda do coração que purifique as minhas
tendências, desejos e afetos. Quantas vezes, durante as minhas ocupações, falais à minha consciência, pedindo,
maternalmente, que o meu coração só deseje a glória de Deus! Quantas vezes, porém, me torno surdo à vossa
doce voz!

Minha Mãe, de hoje em diante, prestarei ouvidos às advertências do vosso Coração e procurarei
corresponder-lhes com energia. Perguntarei a mim mesmo: Para quem é a ação presente? Como procederia
Jesus em meu lugar? Estas interrogações íntimas, transformadas em hábito, constituem a guarda do coração, que
me conservará na dependência completa de Deus, que vive na minha alma.

d) Aprendizagem da guarda do coração

Lamento ter ficado tanto tempo longe da presença de Deus. Lamento comprovar que nesse tempo me
escapam numerosas faltas. Quero, pois, remediar isso, desde já, exercitando a guarda do coração.

De manhã, durante a meditação, determinarei, com precisão, o momento do meu trabalho, no qual —
sem deixar de me aplicar com ardor à obra desejada por Deus— me esforçarei por aperfeiçoar a vida interior.
Começarei por cinco minutos, ou até menos, de manhã, e outros cinco à noite.106 Procurarei aperfeiçoar mais
este exercício, do que aumentar a sua duração. E farei como teria procedido Jesus, se tivesse que o
desempenhar.

Será uma aprendizagem prática de vida interior e uma lição contra o meu hábito de dissipação. Amo a
Deus. Desejo o seu reinado. Quero que, durante as ocupações exteriores, continue em mim esse reinado. Não
quero que a minha alma esteja exposta a todos os ventos da dispersão, que a impedem de viver unida a Deus.

Durante breves momentos, ponderarei, com calma, mas atentamente, as diversas intenções da minha
alma. Não pouparei esforços para viver uma vida perfeita durante esse curto intervalo. Recorrerei,
frequentemente, a Nosso Senhor, pedindo-Lhe que mantenha o meu coração nesse ensaio de santidade.

Este exercício deve ser cordial e alegre. É certo que a mortificação e a vigilância serão necessárias para
me conservar na presença de Deus. Mas não me contentarei só com este lado negativo. Procurarei, sobretudo,
praticar este exercício com grande amor e esmero, aplicando o “age quod agis”,107 primeiro, pela pureza de
intenções e, depois, com ardor, desinteresse e generosidade sempre crescentes.

À noite, no exame geral (ou no particular, se tiver como objeto este exercício), farei uma análise
rigorosa do que foram esses minutos de guarda do coração, perto de Jesus. Se verificar que não fui bastante
vigilante, fervoroso e suplicante, durante essa tentativa de guarda de coração, escolherei uma pequena
penitência, por exemplo, a privação de um pouco de vinho ou da sobremesa, ou uma curta oração com os braços
em cruz. Este exercício produzirá resultados admiráveis. Em pouco tempo, começarei a descobrir pecados e
imperfeições, cuja existência nem suspeitava.

Começarei a desejar prolongar esses benditos instantes. Contudo, não deverei fazê-lo, enquanto não
aperfeiçoar, ao máximo, aqueles momentos de recolhimento. Contrairei, assim, o hábito deste exercício, que
tornará pura a minha alma e, verdadeiramente, unida a Jesus.

e) Condições da guarda do coração

Vigilância enérgica, calma, doce e leal; grande desconfiança de mim mesmo e das criaturas; renovação
freqüente da minha resolução; recomeçar incansavelmente, cheio de confiança na misericórdia de Jesus; certeza
de que não combato sozinho, mas unido a Jesus, a Nossa Senhora, ao meu anjo da guarda e aos santos;
convicção de que esses poderosos aliados me assistirão a todo o momento, contanto que procure a guarda do
coração, e não me afaste da sua assistência; enfim, recurso cordial e freqüente a todos esses auxílios divinos
para que me ajudem a fazer “o que Deus quer, como quer, e porque quer”.

Se guardar o meu coração unido a Jesus, a minha vida ficará completamente transformada. A
inteligência poderá estar absorvida na ação presente, mas a respiração do meu coração estará em Cristo.

A respiração da minha alma nessa atmosfera de amor que Vós sois, meu bom Jesus, longe de diminuir a
liberdade de ação necessária às minhas faculdades, para o desempenho dos deveres de estado, concorrerá para
tornar a minha vida límpida, alegre, enérgica e serena.

Em lugar de ser escravo das paixões e das impressões, tornar-me-ei, cada dia, mais livre. E da minha
liberdade, assim aperfeiçoada, poderei, meu Deus, prestar-vos freqüentes homenagens de dependência,
reparação e amor, em união com Jesus Cristo, o qual, durante a sua vida mortal, pôs em prática esse espírito de
dependência, transformado, agora, numa glória infinita e eterna: “Por isso é que Deus O exaltou e Lhe deu um
nome que está a cima de todo o nome” (Fil 2, 9).

5. O apóstolo deve possuir uma ardente devoção a Nossa Senhora

Sendo membro da Ordem de Cister e filho de São Bernardo, não posso deixar de dizer que o santo
Abade de Claraval atribuía a Maria todos os seus progressos na união com Jesus e todas as suas vitórias no
apostolado.

Todos sabem o que foi o apostolado do mais ilustre dos filhos do patriarca São Bento, sobre os povos,
os reis, os concílios, e até sobre o coração dos Papas. Todos exaltam a santidade, o gênio, a ciência e a unção
dos escritos do último dos Padres da Igreja. Porém, o que, sobretudo, sintetiza a admiração dos séculos pelo
santo doutor, é o título de “cantor de Maria”, que lhe foi outorgado.

Este incomparável apóstolo da Europa, não foi excedido por nenhum outro daqueles que celebraram as
glórias da Mãe de Deus. Grandes santos, como São Bernardino de Sena, São Francisco de Sales, Santo Afonso
de Ligório, São Luís de Montfort, e outros, não deixaram de ir beber os tesouros de São Bernardo, quando
quiseram falar da Virgem Maria.

“Vejamos, meus irmãos —diz o santo doutor— quais os sentimentos de devoção, com que Deus quis
que honrássemos Maria, Ele que pôs n’Ela toda a plenitude dos seus bens. Se, em nós, existe qualquer
esperança, qualquer graça, qualquer penhor de salvação, reconheçamos que tudo isso jorra sobre nós d’Aquela
que está cumulada de delícias (…) Tirai esse sol que alumia o mundo, e deixará de haver dia. Tirai Maria, essa
estrela do mar, do nosso grande e imenso mar, e que fica senão profunda escuridão, sombras de morte e trevas
espessas? É, pois, do fundo dos nossos corações e das nossas entranhas, e com os nossos melhores anseios que
devemos honrar a Virgem Maria; pois tal é a vontade d’Aquele que quis que tudo tivéssemos por meio
d’Ela”.108

Apoiados nesta doutrina, não hesitamos em dizer que, se a atividade do apóstolo não se fundar numa
especialíssima devoção a Nossa Senhora, arrisca-se, seriamente, a construir sobre a areia.

a) Para a vida interior pessoal.

O apóstolo será insuficientemente devoto de Nossa Senhora, se não tiver confiança filial e amorosa na
Mãe de Deus, ou se apenas for exterior o culto que lhe prestar. Para sermos seus verdadeiros filhos, o nosso
amor deve corresponder ao dela; devemos estar firmemente convencidos das grandezas, privilégios e funções da
Mãe de Deus e dos homens; devemos estar compenetrados de que a luta contra as faltas, a aquisição das
virtudes, o reinado de Jesus Cristo nas almas, dependem do grau de devoção que tivermos a Maria;109 devemos
estar compenetrados de que a vida interior é mais segura, mais suave e mais rápida, quando se opera com
Maria;110 devemos transbordar de confiança filial e de amor pela Medianeira de todas as graças.111

Todos estes sentimentos se encontravam em alto grau no coração do exemplar apóstolo que foi São
Bernardo. Quem não conhece as palavras que brotaram da alma deste santo abade, quando, ao explicar aos seus
monges o Evangelho Missus est, exclamou:

“Ó tu que compreendes que, no fluxo e refluxo deste mundo, flutuas entre ressacas e tempestades e não
caminhas em terra firme, fixa os teus olhos sobre essa estrela, para não pereceres na tormenta. Se os ventos das
tentações se desencadearem, se fores de encontro aos escolhos das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria!
Se te vires sacudido pelas ondas do orgulho, da ambição, da maledicência, da inveja; olha para a estrela, invoca
Maria! Se a cólera, a avareza, ou a cobiça assaltarem a frágil barquinha da tua alma, ergue os olhos para Maria!
Se, acabrunhado pela enormidade das tuas faltas, confundido pelas hediondas chagas da tua consciência,
horrorizado pelo pavor do juízo, começares a ser absorvido pelos abismos da tristeza e do desespero, pensa em
Maria! Nos perigos, nas angústias, nas dúvidas, pensa em Maria, invoca Maria! Jamais saia Maria dos teus
lábios; jamais fique Maria longe do teu coração; e, para obteres o bom despacho das tuas preces, não olvides o
exemplo da sua vida. Seguindo-a, não te desviarás; invocando-a, não desesperarás; contemplando-a, não errarás.
Por ela amparado, nunca cairás; sob a sua proteção, nada te causará temor; guiado por ela, nunca te cansarás; se
ela te for propícia, chegarás, certamente, ao bom porto.”

Não querendo alongar-me, mas desejando facultar aos apóstolos um resumo dos conselhos de São
Bernardo, para quem quiser ser verdadeiro filho de Maria, aconselho-os, fraternalmente, a lerem com atenção o
precioso livro: “La vie spirituelle, à l’école du Bienheureux Grignion de Montfort”, escrito pelo Padre
Lhoumeau, superior geral dos Monfortinos.112

Esta obra sólida, do ponto de vista teológico, mas, ao mesmo tempo, prática e cheia de unção, reflete,
maravilhosamente, o pensamento de São Bernardo. Nada lhe falta para alcançar os resultados tão desejados pelo
abade de Claraval: afeiçoar o coração dos seus filhos à imagem do seu e dar-lhes o caráter dominante dos
autores cistercienses: a necessidade do recurso habitual a Maria e a vida de união com ela.

Terminemos com as palavras consoladoras que a admirável cisterciense Santa Gertrudes ouviu dos
lábios da Santíssima Virgem: “Não se diga que o meu dulcíssimo Jesus é meu Filho único, mas meu
primogênito. Foi Ele quem eu concebi primeiro, no meu seio, mas, por Ele, concebi, depois, a todos vós para
serdes seus irmãos e meus filhos, adotando-vos no seio do meu amor maternal”.

b) Quanto à fecundidade do apostolado.

Como diz São Paulo, quando o apóstolo tira as almas do pecado e as faz crescer na virtude, está a gerar
nelas o próprio Cristo. Por conseguinte, se Jesus Cristo veio ao mundo por meio da Santíssima Virgem, também
é por meio dela que Ele deve ser gerado nas almas dos seus filhos.

Esquecer Maria no apostolado seria desconhecer uma parte essencial do plano divino. “Todos os
predestinados —diz Santo Agostinho— estão neste mundo ocultos no seio da Santíssima Virgem, onde crescem,
são guardados e alimentados por esta boa Mãe, até nascerem para a glória, depois da morte.”

“Após a Encarnação —conclui justamente São Bernardino de Sena— Maria adquiriu uma espécie de
jurisdição sobre a missão temporal do Espírito Santo, de tal modo que as criaturas só recebem graças pelas mãos
d’Ela”. Por sua vez, o verdadeiro devoto de Maria torna-se onipotente sobre o Coração da sua Mãe. O seu
apostolado é eficacíssimo, pois dispõe da onipotência de Maria sobre o sangue infinitamente precioso do
Redentor. Por isso, todos os grandes conquistadores de almas têm extraordinária devoção à Santíssima Virgem.
A força com que conseguem persuadir as almas a abandonar o pecado, e a abraçarem a virtude, vem-lhes do
horror ao mal e o amor à pureza daquela que a si mesma se chamou Imaculada Conceição.

Ao ouvir a dulcíssima voz de Maria, São João Baptista reconheceu a presença de Jesus, e exultou de
alegria no seio de Santa Isabel. Os verdadeiros filhos de Nossa Senhora sabem, também, encontrar as palavras
capazes de tocarem os corações mais empedernidos e abri-los para Jesus; sabem encontrar, com o auxílio da
Mãe de Misericórdia, a palavra que salva do desespero e abre as almas para as vias da confiança; sabem colocar
os pecadores nas mãos daquela que é o seu Refúgio seguro e a sua verdadeira Mãe.

São João Baptista Vianney encontrou, por vezes, pecadores que se escudavam em práticas exteriores de
devoção à Santíssima Virgem, para calarem a própria consciência, pecarem mais facilmente e não temerem a
justiça de Deus. A palavra incisiva do santo pároco de Ars revelava-lhes, contudo, a injúria que estavam a fazer
à Mãe de Misericórdia, e levava-os a servirem-se dessas mesmas práticas de devoção para implorarem e, assim,
obterem a graça da conversão.

Em caso igual, um apóstolo pouco devoto de Maria, poderia facilmente levar o pobre náufrago a
abandonar tais práticas que talvez fossem a sua única tábua de salvação.

Se Maria viver no coração do apóstolo, ele conseguirá ter a eloqüência maternal que toque as almas
mais duras. Dir-se-ia que, por uma delicadeza admirável, Nosso Senhor reserva para a sua Mãe as conquistas
mais difíceis e só as concede aos verdadeiros devotos de Maria. O verdadeiro filho de Nossa Senhora nunca
carecerá de argumentos, meios e expedientes, quando haja de animar os fracos e consolar os inconsoláveis.

O decreto pontifício que acrescentou à Ladainha Lauretana a invocação: “Mãe do bom conselho”,
funda-se nos títulos de “Tesoureira das graças celestes” e “Consoladora universal” que Maria merece.

É aos seus verdadeiros devotos que a “Mãe do bom conselho” faculta, como em Caná, o segredo de
obterem, para distribuir, o vinho da força e da alegria. Mas, sobretudo, quando é preciso falar do amor de Deus
às almas, é que a “Raptora dos corações”, Raptrix cordium, conforme expressão de São Bernardo, a Esposa do
Amor substancial, põe nos lábios dos seus filhos as palavras de fogo que ateiam o amor de Jesus e, por meio
desse amor, fazem germinar todas as virtudes.

O verdadeiro apóstolo deve amar, apaixonadamente, aquela a quem Pio IV chamou Virgo sacerdos, cuja
dignidade ultrapassa a de todos os sacerdotes e pontífices. E este amor dar-lhe-á o direito de nunca considerar
perdida uma obra, se a começou com Maria e se com Ela a quer consolidar. Maria, com efeito, está na base e no
topo de tudo quanto interessa ao Reino de Cristo.

Mas trabalhar com Ela não é, apenas, erguer-lhe altares ou entoar cânticos em sua honra. O que Ela
quer, verdadeiramente, é que vivamos unidos a Ela, que as nossas afeições passem pelo seu Coração e que
recorramos ao seu conselho e auxílio. Sobretudo, espera de nós a imitação das suas virtudes e a entrega total nas
suas mãos, para que nos possa revestir do seu divino Filho.

Se recorrermos habitualmente a Maria, imitaremos aquele general do Povo de Deus que, antes de
avançar contra o inimigo, dizia a Débora: “Se fores comigo, eu irei; mas, se não fores, não irei” (Jz 4, 8), e
faremos, então, verdadeiramente, todas as nossas obras com Ela. E Ela entrará, não só nas decisões principais,
mas também em todos os casos imprevistos e em todos os pormenores da execução da obra.

Unidos àquela, cuja invocação de Nossa Senhora do Sagrado Coração, resume, em nossa opinião, todos
os outros títulos, não correremos o risco de desvirtuar as obras, permitindo que elas prejudiquem a vida interior
e se tornem um perigo para as nossas almas. Pelo contrário, por meio dessas mesmas obras, progrediremos na
vida interior, em união com aquela que nos assegura a posse do seu divino Filho durante toda a eternidade.
Epílogo
Depomos este modesto trabalho aos pés de Maria Imaculada.

O perfeito ideal do apostolado é o Coração da Santíssima Virgem, tal como aparece na gravura
bizantina, do século VI, reproduzida neste livro.113 Parece-nos a própria imagem da vida interior. A Virgem
tem no peito o Verbo Encarnado. Como o Pai Eterno, conserva sempre em si o Verbo que deu ao mundo. Jesus
vive n’Ela.

O Menino Jesus aparece, porém, dentro do seu Coração no ato de exercer o seu apostolado. O seu porte,
o rolo do Evangelho que tem na mão esquerda, o gesto da mão direita, o seu olhar: tudo indica que está a
ensinar. E a Virgem une-se à sua palavra. A expressão do seu rosto parece dizer que quer também falar. Os seus
olhos grandes abertos procuram almas às quais possa comunicar o seu Filho: imagem perfeita da vida ativa, pela
pregação e pelo ensino.

As suas mãos estendidas —como as dos orantes das catacumbas, ou as do sacerdote que oferece a
Vítima santa sobre o altar— recordam-nos que é, sobretudo, pela oração e pela união ao sacrifício de Jesus que
a nossa vida interior será profunda e o nosso apostolado dará fruto.

Ela vive da vida de Jesus, do seu amor, do seu sacrifício, e Jesus fala nela e por ela. Jesus é a sua vida e
ela é o porta-voz, a custódia de Jesus. Assim deve ser a alma dedicada ao apostolado, deve viver de Deus, para
poder falar eficazmente d’Ele, já que a vida ativa é apenas a vida interior a transbordar da alma.

Rainha dos Apóstolos


Salve, Virgem Mãe, receptáculo vivo do Coração de Jesus! Desta divina fonte haurimos, por vosso
intermédio, o espírito de sacrifício e de oração.

––––

1 “De Quem tudo, por Quem tudo, com Quem tudo” (Liturgia).

2 “E Ele fez-se homem, para que nós nos tornássemos deuses” (Santo Agostinho, serm. 9 de Nativ.)

3 Carta de Leão XIII, de 22 de Janeiro de 1899, ao Cardeal Gibbons.

4 Esta tibieza é diferente da secura ou repugnância que, às vezes, mesmo sem culpa, sentem os
fervorosos. Os pecados veniais que escapam à fragilidade e são combatidos e imediatamente
detestados, apenas cometidos, também não manifestam a tibieza da vontade. A alma tíbia tem duas
vontades diversas, boa uma e má a outra; uma ardente e a outra fria. Por um lado, quer a salvação e
por isso evita os pecados mortais; por outro lado, não quer as exigências do amor de Deus e prefere
uma vida livre e fácil, cometendo pecados veniais deliberados… Quando a tibieza não é combatida, o
fato mesmo de o não ser mostra que na alma existe má vontade, não total, mas parcial; isto é, que há
uma parte da vontade que diz a Deus: “Neste ou naquele ponto, não quero deixar de Vos
desagradar.” (P. Achille Desurmont, C.SS. R. Le retour continuel à Dieu, par la vraie oraison et la
vraie pénitence, Nancy, 1884).

5 “Certamente, o homem foi criado para contemplar o seu Criador, a fim de procurar sempre o seu
rosto e habitar na solidez desse amor” (São Gregório Magno, Moralia, c. XII).
6 “Sempre te hás-de lembrar de Deus. Assim, a tua mente chega ao Céu” (Santo Efrém). “A mente é o
paraíso da alma. Enquanto medita as coisas celestes, deleita-se num paraíso de felicidade” (Hugo de
São Victor).

7 São Tomás de Aquino, Suma Teológica, 2ª 2ªe, q. 180, a. 4.

8 “Há maior trabalho em resistir aos vícios e paixões do que suar nos trabalhos corporais” (São
Gregório).

9 “Mostrando-se firme como se contemplasse o Invisível” (Heb 11, 27).

10 Palavras de D. Festugière O.S.B.: “Sejam quais forem as dificuldades da vida ativa, só os


inexperientes é que ousam negar as provações da vida interior. Muitos Atoivos, apesar de
sinceramente piedosos, confessam que, muitas vezes, o que mais lhes custa na vida, não é a ação, mas
a parte obrigatória da oração. Quando chega o momento da ação sentem-se como que aliviados.”

11 São Tomás de Aquino, Suma Teológica, 1a 2ae, q. 108, a. 4.

12 “Sinto prazer na lei de Deus, de acordo com o homem interior. Mas vejo outra lei nos meus
membros a lutar contra a lei da minha razão e a reter-me cativo na lei do pecado, que se encontra nos
meus membros. Que desditoso homem que eu sou! Quem me há de libertar deste corpo de morte?”
(Rom 7, 22-24).

13 “(O homem pode viver) de outro modo, quando se une totalmente às coisas divinas. Desta forma,
coloca-se acima do homem” (São Tomás de Aquino, Suma Teológica, 2a 2ae, q. 188, a. 8. ad. 5).

14 N.T. Vale a pena lembrar aqui, neste sentido, o exemplo admirável dado pela humilde religiosa
contemplativa que foi Santa Teresinha do Menino Jesus, padroeira das Missões. No silêncio do
claustro, ela rezava e sofria pelos missionários que, na longínqua Cochinchina e não só, obtinham a
conversão de incontáveis pagãos.

15 São Gregório, Homilia 12 in Ezechielem prophetam.

16 São Tomás de Aquino, Suma Teológica, 2a 2ae, q. 182, a. 2, ad 3.

17 “Caridade, primeiro para consigo mesmo”.

18 São Bernardo, I. II. De Consideratione libri quinque ad Eugenium III, c. III).

19 Godofredo, Vida de São Bernardo.

20 São Bernardo, I. II, op. cit., c. III).

21 P. Pierre Champion, La vie et la doctrine spirituelle du Père Louis Lallemant, S. J., Paris, 1694.

22 Ricardo de S. Victor, in Cant., 8.

23 São Bernardo, Hom. Simile est… bom. neg.


24 São Bernardo, 1. II, de Consideratione, III.

25 São Bernardo, II, op. cit., III).

26 Santo Agostinho, Doct. Crist., 1, IV).

27 Pseudo-Dionísio, Coel. hier., c. III.

28 São Bernardo, Serm. 18. in Cant.

29 São Bernardo, idem ibidem.

30 “É sabido, porém, que se requer maior perfeição naquele que comunique a perfeição a outros, do
que naquele que seja perfeito só em si mesmo; como vale mais poder fazer que alguém seja perfeito do
que sê-lo simplesmente, pois toda a causa é superior ao seu efeito” (São Tomás de Aquino, Opúsculo
sobre a perfeição da vida religiosa).

31 “É preciso que o pregador se deixe primeiro impregnar com a doçura da doutrina, para depois
propor a verdade cristã aos outros” (São Boaventura, Illus. Eccl., serm. 17).

32 O cônego cujas palavras inolvidáveis aqui transcrevo, desenvolveu o mesmo pensamento nalgumas
das suas obras. Vejam-se: Joseph-Marie Timon David, Méthode de direction des oeuvres de jeunesse,
2 vol., 1865 – Traité de la confession des enfants et des jeunes gens, 3 vol., 1865 – Souvenirs de
l’œuvre, ou vie et mort de quelques Congréganistes. 1859 (Mignar Frères, Paris).

33 “Como na contemplação se deve amar a Deus e também na vida Atoual se deve amar o próximo,
por isso, como não podemos existir sem as duas vidas, assim também não podemos existir, de nenhum
modo, sem estes dois amores” (S. Isidoro, Different., livro II, XXXIV, n. 135).

34 Suarez, I De Religione, 1.I, c.v, n. 5.

35 “Quando alguém é chamado da vida contemplativa para a vida ativa, isto não se faz à maneira de
subtração, mas à maneira de adição” (S. Tomás de Aquino, Suma Teológica, 2, 2ae, q. 182, a. I).

36 “Gozava de certa solidão interior, em qualquer parte por onde ele próprio se movesse. E como no
exterior se aplicava todo ao trabalho, também no seu interior se dedicava todo a Deus” (Godofredo,
Vida de São Bernardo, 1. I, c.v, e 1. III).

37 São Tomás de Aquino, Suma Teológica, 3ª p.q. 67, a.2, ad Ium.

38 P. Léon, O.F.M. Cap., Passim, op. cit.

39 São Tomás de Aquino, Suma Teológica, 2ª 2ae, q. 188, a.6.

40 Tomo III, livro V.

41 São Boaventura, Vida de São Francisco, c.IX.


42 “Todas as vezes que vós fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequenos a Mim o fizestes” (Mt
25, 40).

43 “Não tinha graça nem beleza para atrair o nosso olhar, e o seu aspecto não podia cativar-nos. Era
desprezado, era a escória da humanidade, homem das dores, experimentado nos sofrimentos; como
aqueles diante dos quais se tapa o rosto, era menosprezado, nenhum caso fazíamos dele” (Is 53, 2-3).

44 Padre Léon, O.F.M. Cap., Lumière et flamme, Note-se bem que nesta citação se trata de uma vida
ativa cheia de espírito de fé, fecundada pela caridade e por uma vida interior intensa.

45 Santo Agostinho, in Psalm., XXXI.

46 São Bernardo, De Consideratione, 1. II, c. II.

47 Dos ensinamentos de São Tomás infere-se que, quando a alma, em estado de graça, pratica um ato,
em si bom, mas sem o grau de fervor que Deus tem o direito de esperar dela, esse ato diminui nela o
grau de caridade que possui. Os textos, Maldito aquele que faz a obra de Deus com negligência e
Porque tu és tíbio… começo a expelir-te da minha boca, assim se explicam. Por outro lado, cada
pecado venial, sem privar do estado de graça, diminui o fervor e dispõe para o pecado mortal. Ora,
sem uma vida interior séria, a alma dissipada, que cessou de viver o “vigiai e orai”, cai em
numerosos pecados veniais não combatidos, muitas vezes até não percebidos. Assim se encontra em
São Tomás o sentido da expressão “ocupações malditas”, da página precedente, e de tudo o que se
explana no presente capítulo.

48 Cfr. P. Achille Desurmont C. SS. R., op. cit.

49 N.T.: Hoje, seria preciso acrescentar: a televisão.

50 P. Louis Lallemant, op. cit..

51 Idem, ibidem.

52 São Tomás de Aquino, Suma Teológica, 2a 2ae, q. 184, a. 18.

53 “Revesti-vos da armadura de Deus, para que possais resistir às ciladas do demónio (…), para que
possais resistir no dia mau, e ficar de pé depois de ter vencido em tudo. Estai, pois, firmes, tendo os
vossos rins cingidos com a verdade, vestindo a couraça da justiça, tendo os pés calçados, prontos
para ir anunciar o Evangelho da paz; sobretudo tomai o escudo da fé, com que possais apagar todos
os dardos inflamados do Maligno. Tomai também o elmo da salvação e a espada do Espírito, que é a
palavra de Deus” (Ef 6, 11-17).

54 Encíclica de São Pio X, de 11 de Junho de 1905, aos bispos da Itália.

55 Sentimentos admiráveis revelou o General de Sonis nesta oração quotidiana, relatada pelo autor
da sua “Vida”:

“Meu Deus! Eis-me aqui na vossa presença, pobre, pequenino, desprovido de tudo.
“Estou a vossos pés, abismado no meu nada.

“Desejaria possuir alguma coisa para vos oferecer; mas nada mais sou que miséria. Só Vós sois o
meu tudo, a minha riqueza.

“Meu Deus, agradeço-vos o terdes querido que eu fosse um pequeno nada diante de Vós. Amo a
minha humilhação, o meu nada. Agradeço-vos o terdes afastado de mim certas satisfações do amor
próprio, certas consolações de coração. Agradeço-vos as decepções, as ingratidões, as humilhações.
Reconheço que precisei de tudo isso e que esses bens poderiam ter-me conservado longe de vós.

“Bendito sejais, meu Deus, quando me enviais provações. Gosto de ser acabrunhado, esmagado,
reduzido a nada por Vós. Aniquilai-me, pois, cada vez mais. Fazei que eu seja, não como a pedra de
um edifício, lavrada e polida pela mão do operário, mas como o obscuro grãozinho de areia, tirado do
pó do caminho.

“Meu Deus, agradeço-vos terdes-me deixado entrever a doçura das vossas consolações e agradeço-
vos o terdes-me privado delas. Justo e bom é tudo quanto fazeis. Bendigo-vos no meio da minha
indigência e só lamento o não vos ter amado ainda mais. Só desejo que seja feita a vossa vontade.

“Vós sois o meu Senhor e eu a vossa propriedade. Disponde e tornai a dispor de mim quanto
quiserdes. Destruí-me e atormentai-me. Quero ser reduzido a nada por vosso amor.

“Como a vossa mão é bondosa, o Jesus, mesmo no auge das provações. Permiti que eu seja
crucificado, mas crucificado por Vós. Assim seja.”

56 Cântico Espiritual, estrofe 29

57 Encíclica de São Pio X aos bispos de Itália, 11 de Junho de 1905.

58 São Gregório Magno, Pastor, 2 p, c. III).

59 Encíclica de Leão XIII, de 8 de Setembro de 1899.

60 Encíclica de São Pio X, aos bispos de Itália, de 11 de Junho de 1905.

61 « Na verdade um Deus Se esconde na tua casa, o Deus de Israel, Salvador » (Is 45, 15).

62 De Sp. Sancto, c. IX, nº 23.

63 A vida deste capitão de dragões, o qual, em 1870, durante a batalha de Gravelotte, fez o voto de se
fazer trapista e que na Trapa apenas quis ser irmão leigo, vem narrada no excelente livro: Du champ
de bataille à la Trappe (Perrin e Cª, Paris).

64 Ladainha do Coração de Jesus.

65 Conf. espir.

66 Tratado da vida espiritual, IIª p. c. x.


67 Hom. do Venerável Beda, liv. IV, cap. LIV sobre São Lucas, 12, 32.

68 N. T.: O autor refere-se à 1ª Guerra Mundial (1914-18).

69 No n.º 3 da II parte.

70 L’Ami du Clergé, 20 de Janeiro de 1921. Quando comparamos certas passagens da primeira


encíclica de São Pio X com palavras por ele mais tarde proferidas, compreende-se que, na conversa a
que acabamos de aludir, é do fervor dos sacerdotes que ele espera a formação das elites cristãs, e é
delas que espera o aumento do número dos verdadeiros fiéis. Conseguido este resultado, asseguradas
estão as vocações sacerdotais e a multiplicação das escolas e das igrejas. Quando a quantidade não é
consequência da qualidade, corre-se o grave perigo de cair numa religiosidade vã, enganadora e
dissipada.

71 Referimos aqui algumas das melhores obras publicadas sobre este assunto: Directoire spirituel,
pelo V. P. François-Marie Libermann, Oeuvres de Saint Paul, Paris, 1910; L’Esprit d’un directeur
des âmes, M. Olier, De Gigord, Paris; La Charité sacerdotale, pelo P. Achille Desurmont, Sainte
Famille, Paris, 1879; Les degrés de la vie spirituelle, pelo P. Auguste Saudreau, Grassin et Richou,
Angers, 1896 ; La pratique progressive de la confession et de la direction e diversos outros volumes
do mesmo autor sobre a formação moral e religiosa (Lib. Saint Paul, Paris); Pratique de l’éducation
chrétienne, por Antoine Monfat, Téqui, Paris, 1878-1889; L’éducateur apôtre, por Joseph de Guibert,
De Gigord, Paris. Eis mais alguns autores que trataram da direção espiritual: Cassiano, São
Gregório Magno, São Bernardo, São Boaventura, São Vicente de Ferrer, Santa Teresa, São Francisco
de Sales, São Vicente de Paulo, Santo Afonso de Ligório.

72 São Tomás de Aquino, ofício da festa do Corpo de Deus.

73 Quase sempre é indispensável um livro de meditação para impedir a divagação do espírito. Deve
utilizar-se um bom livro de meditação e não só de leitura espiritual. Cada ponto encerra uma verdade
empolgante apresentada com clareza, que favorece a reflexão e traz consigo o entretenimento
afectuoso e prático com Deus. Um só ponto basta para uma meia hora, e esse ponto deve ser um texto
bíblico ou litúrgico, ou uma ideia principal adaptada ao estado de cada um. Antes de tudo, escolher os
fins últimos do homem, ou o pecado, ao menos uma vez por mês; depois, a vocação, os deveres de
estado, os pecados capitais, as virtudes principais, os atributos de Deus, os mistérios do rosário, ou
outra qualquer cena do Evangelho, sobretudo da Paixão. Nas festas litúrgicas, o assunto está
naturalmente indicado.

74 Deve-se preferir, para fazer a meditação, um “lugar afastado”, onde se esteja mais à vontade:
igreja, quarto, jardim, etc.

75 Por exemplo: Nosso Senhor a mostrar o seu Sagrado Coração e a dizer: “Eu sou a Ressureição e a
Vida” – ou “Eis o Coração que tanto amou os homens” – ou ainda uma cena da sua vida: Belém,
Tabor, Calvário, etc… Se, após um esforço leal e curto, não se conseguir esta representação, passe-se
adiante; Deus suprirá.

76 O êxito da oração depende muito do cuidado que se tiver em considerar o Interlocutor divino como
presente e vivo, e em deixar de O tratar como se fosse quase uma abstração.
77 Devemos persuadir-nos, firmemente, de que Deus só exige de nós a boa vontade, na meditação.
Uma alma, importunada pelas distracções, que se volta, cada dia, paciente e fielmente, para o seu
divino Interlocutor faz uma excelente meditação - Deus supre a tudo.

78 Assim se radicam as convicções fortes e se adquire fé viva e intuição sobrenatural.

79 Com estas palavras, resume Suarez o fruto de todos os tratados ascéticos.

80 Convém que a mesma resolução dure meses inteiros, ou de um retiro até ao outro. O exame
particular, em forma de curto entretenimento com Nosso Senhor, completa a meditação e, fazendo
verificar avanços ou retrocessos, facilita, extraordinariamente, o nosso progresso.

81 A meditação é o braseiro que revigora a guarda do coração. Mediante a fidelidade a esta


meditação, todos os exercícios de piedade serão vivificados. A alma irá, aos poucos, adquirindo a
vigilância e o espírito de oração, isto é, o hábito de recorrer, continuamente, a Deus. A meditação
gerará uma união íntima com Ele, mesmo durante as ocupações mais absorventes. Vivendo a alma
assim unida a Nosso Senhor pela guarda do coração, atrairá a si os dons do Espírito Santo e as
virtudes infusas, e poderá ser chamada por Deus a um grau mais elevado de oração. O excelente
livro: As vias da oração mental, de D. Vital Lehodey (Ed. Lecoffre), define bem o que se requer para a
ascensão da alma pelos diversos graus de oração, e dá as regras para discernir se uma oração
superior é, verdadeiramente, um dom de Deus ou um fruto da ilusão. Antes de falar da oração afetiva,
primeiro grau das orações mais elevadas às quais Deus, ordinariamente, só chama as almas que
adquiriram a guarda do coração mediante a meditação, o P. Rigoleuc S. J. indica, no seu livro Obras
espirituais, dez maneiras de falar com Deus, quando, após tentativas sérias, alguém se encontra na
impossibilidade moral de fazer a meditação sobre o assunto preparado de véspera. Resumamos este
piedoso autor.

1ª Maneira: Tomar um livro espiritual (Novo Testamento ou Imitação de Cristo) – ler algumas linhas
com intervalos – meditar um pouco no que se leu, procurar entender o seu significado e gravá-lo no
espírito. – Tirar daí qualquer afeto santo, amor ou penitência, etc., e propor praticar uma virtude que
mais agrade. Não ler muito, nem meditar muito. – Demorar-se em cada pausa, enquanto o espírito
nela encontrar entretenimento agradável e útil.

2ª Maneira: Tomar qualquer expressão da Sagrada Escritura, ou qualquer oração vocal: Pai Nosso,
Ave Maria, Credo, por exemplo, pronunciá-la, demorar-se em cada palavra, tirar dela diversos
sentimentos de piedade, nos quais se demore, enquanto nele se achar gosto. No fim, pedir a Deus
alguma graça ou virtude, conforme o assunto meditado. Não se demorar numa palavra, quando nela
já não se encontrar com que deleitar-se. Passar serenamente para outra. – Quando se sentir tocado
por algum sentimento bom, demorar-se enquanto ele dura, sem querer passar adiante. Não é
necessário fazer sempre atos novos, basta algumas vezes conservar-se perante Deus, saboreando em
silêncio as palavras já meditadas, ou os sentimentos que elas produziram no coração.

3ª Maneira: Quando o assunto preparado não fornece entretenimento suficiente, fazer atos de fé,
adoração, ação de graças, esperança, amor, etc., dando-lhes a extensão que se quiser, e demorando-
se, um pouco, em cada um para o saborear.

4ª Maneira: Quando não se conseguir meditar, nem produzir afetos (impotência e esterilidade),
afirmar diante de Deus que se tem a intenção de fazer tantos atos de contrição, por exemplo, quantas
vezes se respirar, se fizerem passar as contas de terço entre os dedos ou se pronunciar com a boca
qualquer oração curta. Renovar, de quando em quando, este propósito. Se Deus der outro qualquer
bom sentimento, recebê-lo com humildade e demorar-se nele.

5ª Maneira: Nas penas e aridezes, abandonar-se, generosamente, ao sofrimento sem se inquietar nem
fazer esforço para sair dele, sem fazer outros atos senão este abandono de si mesmo nas mãos de
Deus para sofrer essa provação e todas aquelas que a Ele aprouver. Ou então, unir-se à Agonia de
Nosso Senhor no Horto e ao seu desamparo na Cruz. Persuadindo-se que nela se está cravado com o
próprio Salvador e, com o seu exemplo, desejando conservar-se lá e sofrer até à morte.

6ª Maneira: Exame interior. – Reconhecer as próprias faltas, paixões, fraquezas, enfermidades,


impotência, misérias, nada. – Adorar os juízos de Deus acerca do estado em que a pessoa se encontra.
– Submeter-se à sua santa vontade. – Bendizê-lo, igualmente, tanto pelos castigos da sua justiça como
pelos favores da sua misericórdia. – Humilhar-se perante a sua suprema Majestade. – Confessar-lhe,
sinceramente, as nossas infidelidades e pecados, e pedir-lhe perdão. – Detestar todo o mal que se fez
e propor corrigir-se para o futuro. Esta oração é livre e recebe toda a espécie de afetos; pode-se fazer
em qualquer ocasião, sobretudo, após uma queda inesperada, para se submeter aos castigos da
justiça de Deus, ou após o embaraço da ação, para voltar ao recolhimento.

7ª Maneira: Meditação sobre os fins últimos. Considerar-se na agonia, entre o tempo e a eternidade –
entre a vida passada e o julgamento de Deus. – Que queria ter feito? – Como queria ter vivido? –
Recordar-se dos pecados, desregramentos, abuso das graças. – Lamentar o mal feito. Propor
remediar o que cause motivos de temor. Imaginar-se no cemitério, esquecido de todos, – diante do
Tribunal de Jesus Cristo, no Purgatório, no Inferno. Quanto mais viva for a representação, tanto mais
proveitosa a meditação. É necessária esta morte mística para descarnar a alma e ressuscitá-la, isto é,
libertá-la da corrupção do vício. É preciso passar por este purgatório para se chegar ao gozo de Deus
nesta vida.

8ª Maneira: Aplicação do espírito a Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento. Saudar Nosso Senhor,
com todo o respeito que a presença real exige, unir-se a Ele e a todas as suas divinas operações na
eucaristia, onde, como Vítima, não cessa de adorar, louvar e amar o Pai, em nome de todos os
homens. Pensar no seu recolhimento, vida oculta, obediência, humildade, etc. – Excitar o desejo
dessas virtudes.

Oferecer Jesus Cristo ao Pai Eterno, como única vítima digna d’Ele, e pela qual podemos render-Lhe
homenagem, reconhecer os seus benefícios, satisfazer a sua justiça e obter misericórdia. Oferecer-se a
si mesmo para lhe sacrificar o ser, vida, empregos. Apresentar-lhe um ato de virtude que se proponha
fazer, uma mortificação a praticar, pelos mesmos fins pelos quais Nosso Senhor se imola no
Santíssimo Sacramento. – Fazer esta oblação com um desejo ardente de aumentar, tanto quanto se for
capaz, a glória que Ele presta a seu Pai neste augusto mistério. Terminar fazendo a comunhão
espiritual. Tornar freqüentes estas visitas, porque a nossa felicidade nesta vida depende da nossa
união a Jesus Cristo no Santíssimo Sacramento.

9ª Maneira: Faz-se em nome de Jesus Cristo. – Aumenta a nossa confiança em Deus e faz-nos entrar
no espírito e nos sentimentos de Nosso Senhor. Funda-se na nossa aliança com o Filho de Deus, em
sermos seus irmãos, membros do seu corpo místico; no fato de Ele nos ceder todos os seus méritos e
nos legar todas as recompensas que o seu Pai lhe deve pelos seus trabalhos e morte. É isto que nos
torna capazes de honrar a Deus com um culto digno de Deus e nos dá o direito de tratar com Deus e
de exigir, de algum modo, as suas graças como por justiça. – Não temos esse direito como criaturas,
menos ainda como pecadores, porque há desproporção infinita entre Deus e a criatura e oposição
infinita entre Deus e o pecador. Mas na qualidade de aliados do Verbo Encarnado, de seus irmãos, de
seus membros, podemos aparecer diante de Deus com confiança, tratar familiarmente com Ele e
obrigá-lo a escutar-nos, favoravelmente, a ouvir as nossas súplicas e a conceder-nos as suas graças,
devido à aliança e à união que temos com o seu Filho. Portanto, aparecer perante Deus, para O
adorar, amar, ou louvar, por intermédio de Jesus Cristo, operando em nós como a Cabeça nos seus
membros e elevando-nos, pelo seu espírito, a um estado todo divino; ou para pedir qualquer favor, em
virtude dos méritos do seu Filho. E, com este fim, apresentar-Lhe os serviços que o seu Filho Lhe
prestou, a sua vida, a sua morte, os seus sofrimentos. Neste espírito, recitar o ofício divino.

10ª Maneira: Simples atenção à presença de Deus e meditação. Antes de se aplicar em meditar o
assunto preparado, pôr-se na presença de Deus, afastando qualquer pensamento distinto, e excitando
o respeito e amor a Deus que a sua presença inspira. – Conservar-se, assim, diante de Deus, em
silêncio, neste simples repouso de espírito enquanto nele se encontrar gosto. – Em seguida, meditar
segundo a maneira ordinária. Bom é começar, assim, todas as meditações, e útil o fazê-lo depois de
cada ponto. – Repousar nesta simples atenção a Deus ajuda a estabelecer o recolhimento interior. – O
espírito fixa-se em Deus e prepara-se para a contemplação. – Mas não se deve conservar assim por
pura preguiça e para não se ter o trabalho de meditar.

82 “Por Ele, com Ele e n’Ele, a Vós, Deus Pai onipotente, na unidade do Espírito Santo, é dada toda a
honra e glória” (Cânone da Missa).

83 “A Igreja, inspirada por Deus e instruída pelos santos Apóstolos, dispôs de tal sorte a ano que, a
par da vida, dos mistérios, da pregação e da doutrina de Jesus Cristo, nele se encontra o verdadeiro
fruto de tudo isso nas admiráveis virtudes dos seus servos e nos exemplos dos seus santos, e também
uma misteriosa síntese do Antigo e do Novo Testamento e de toda a história eclesiástica. Devido a
isso, todas as estações são frutuosas para os cristãos: tudo ali está cheio de Jesus Cristo (…) Nessa
variedade, que vai toda terminar na unidade tão recomendada por Jesus Cristo, a alma inocente e
piedosa, além das alegrias celestes, encontra ainda um alimento sólido e uma renovação perpétua do
seu fervor” (J. Bénigne Bossuet, Oração fúnebre de Maria Teresa de Áustria).

84 O unir-se à oração de outrem pode levar a uma oração muito perfeita. Certo camponês ofereceu-se
para levar as bagagens de Santo Inácio e dos seus companheiros. Vendo que os Padres, ao chegar a
uma estalagem, procuravam qualquer recanto tranquilo para se recolherem diante de Deus, fazia o
mesmo, e, como eles, ajoelhava-se. Os Padres, um dia, perguntaram-lhe o que fazia, quando assim se
recolhia: “Nada mais faço —respondeu— do que dizer: Senhor, estes são santos e eu sou o seu animal
de carga; o que eles fazem, quero eu também fazer: eis o que eu ofereço, então, a Deus” (Cf.
Rodrigues, Perfeição cristã, Iª parte, trat. 5º, cap. XIX). Se esse homem, mediante este exercício,
chegou a um grau eminente de oração e de espiritualidade, a fortiori até o analfabeto, unindo-se à
vida litúrgica da Igreja, pode tirar grandes proveitos dela.

Um Irmão Leigo de Claraval guardava ovelhas durante a noite da Assunção. Uniu-se como pôde,
sobretudo por meio da reza da saudação angélica, às matinas que os monges cantavam, e cujos ecos
longínquos chegavam até ele. Deus revelou a São Bernardo que a sua devoção, tão humilde e tão
simples, de tal modo tinha agradado a Nossa Senhora que esta a havia preferido à oração dos
religiosos, embora fervorosos como eram. (Exordium magnum Ord. Cisterc. Distinc. 4ª, c. XIII.).

85 Moto próprio de São Pio X, de 22 de Novembro de 1903.


86 Compreenderemos melhor a eficácia da liturgia para nos fazer viver da graça e nos facilitar a vida
interior, se nos lembrarmos de que as orações oficiais e as cerimônias instituídas pela Igreja possuem
um poder de impetração de si mesmo irresistível. Aqui, o poder posto em execução para obter tal
graça não é apenas o gesto individual, a oração isolada de uma alma, mesmo excelentemente
disposta; é, também, o gesto da Igreja, tornando-se suplicante conosco, é a voz da Esposa muito
amada, que alegra sempre o Coração de Deus e que é sempre ouvida. Resumindo isto em duas
palavras, diremos que o poder de impetração da oração litúrgica é constituído por dois elementos: o
opus operantis da alma que se utiliza do grande sacramental da liturgia e o opus operantis Ecclesiae.
As duas ações: a da alma e a da Igreja, são como duas forças que se combinam e que, num mesmo
impulso, são levadas para Deus.

87 São Pedro Damião, Opusc. XI, cap. X. – Pat. lat., t. CXLV, col. 239.

88 São Pedro Damião, citado por Dom Gréa: La Sainte Liturgie, p. 51.

89 Santo Afonso de Ligório preferia uma oração do breviário a cem orações privadas.

90 Cardeal Billot, De Ecclesiae Sacram., t. I, thes. 2.

91 São Pedro Damião, citado por Dom Gréa, no seu livro La Sainte Liturgie, p.51.

92 O nosso fim é o serviço de Nosso Senhor e é para melhor o servir que devemos corrigir as nossas
faltas e adquirir as virtudes; a santidade é o melhor meio de servir (São Pedro Julião Eymard).

93 São deste modo delegados da Igreja os clérigos e os religiosos obrigados ao breviário, mesmo
quando o rezam privadamente. Da mesma forma, nas suas Igrejas canonicamente eretas, aqueles que
estão obrigados ao ofício do coro e às missas capitulares ou conventuais. E até aqueles que, embora
não tenham recebido as ordens, desempenham funções delas, como, por exemplo, os que ajudam à
missa.

94 Sermão XX.

95 São Pedro Damião, Opusc. XI, cap. X. – Patr. lat., t. CXLV, col. 239.

96 São João Crisóstomo, Hom.V, n.1, in illud: Vidi Dominum.

97 Diz São Pedro Damião: “Por que diz o sacerdote ao rezar o breviário, mesmo quando está só:
Dominus vobiscum? E porque responde: Et cum spiritu tuo, em vez de responder: Et cum spiritu meo?
Não, diz S. Pedro Damião, o sacerdote não está só. Quando celebra ou reza, tem diante de si toda a
Igreja misteriosamente presente, e é ela que o sacerdote saúda, dizendo-lhe: Dominus vobiscum.
Depois, como ele representa a Igreja, esta responde-lhe pela própria boca dele: Et cum spiritu tuo”
(cf. São Pedro Damião, 1. Dom. Vob., c. 6, 10, etc.).

98 “Louvai o Senhor! Mas que esse louvor saia de vós, isto é, que não sejais apenas vós e a vossa
língua a louvar a Deus, mas também a vossa consciência, a vossa vida, as vossas ações” (Santo
Agostinho, Comentário aos Salmos, Sl 148, 2). – Assim como os homens exigem de vós a santidade
quando vos apresentais como embaixador de Deus junto deles, assim também Deus a exige de vós
quando, diante d’Ele, apareceis como intercessor dos homens. Um intercessor é um parlamentário da
miséria terrestre delegado ante a Justiça divina. Ora, para que um parlamentário seja favoravelmente
acolhido, diz São Tomás, duas condições são necessárias. A primeira é ser um digno representante do
povo que o envia; a segunda é ser amigo do príncipe para junto do qual é enviado: Um sacerdote sem
qualquer estima pela sua santidade, será, porventura, um digno representante do povo cristão,
quando não exprime as virtudes cristãs? Será amigo de Deus, quando nem chega a ser um seu servo
fiel? (Padre Caussette, Manrèze du Prêtre, 1er jour, 2e discours).

99 O que dizemos do sacerdote aplica-se também, guardadas as proporções, ao diácono e sub-


diácono.

100 Ao falarem da dignidade do sacerdote, os Santos Padres parecem ter esgotado a sua eloqüência.
O seu pensamento pode-se resumir nestas palavras: Esta dignidade sobrepuja tudo o que foi criado:
só Deus é maior. – “Nada se pode comparar à sublimidade do sacerdócio” (Santo Ambrósio, lib. de
Dign. Sacerd., cap. II). “A palavra sacerdote sugere um homem divino” (São Dionísio Areopagita).
“Pôs-vos à frente de reis e imperadores, pôs a vossa Ordem à frente de todas as ordens; mas, para
melhor dizer, pôs-vos à frente dos anjos e dos arcanjos, dos tronos e das dominações” (São Bernardo,
Sermão aos Pastores em Sínodo, entre as obras apócrifas, na “Patrologia Latina”, tomo CLXXXIV,
col. 1086). – “É evidente que a função daqueles sacerdotes é a maior que se possa excogitar. Com
razão, por isso, eles não só são chamados anjos, mas também deuses, porque junto de nós têm a força
e a potência do Deus imortal” (Catecismo Romano, A Ordem, 1).

101 Faço bem a meditação para celebrar bem a Missa; e celebro a Missa e rezo piedosamente o
breviário para, no dia seguinte, fazer bem a meditação (Padre Olivaint).

102 “Toda esta cidade resgatada, isto é, a assembléia e a sociedade dos santos, é oferecida a Deus
como um sacrifício universal pelo Magno Sacerdote que, para de nós fazer o corpo de uma tal cabeça,
a Si mesmo se ofereceu por nós na sua Paixão, sob a forma de escravo (…). Por isso nos exortou o
Apóstolo a que ofereçamos os nossos corpos como hóstia viva, santa, agradável a Deus, como
homenagem racional (...). Tal é o sacrifício dos cristãos: muitos somos um só corpo em Cristo. E este
sacrifício a Igreja não cessa de o reproduzir no Sacramento do altar bem conhecido dos fiéis: nele se
mostra que ela própria é oferecida no que oferece” (Santo Agostinho, A Cidade de Deus, Vol. II, livro
X, cap. VI, Ed. da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa, 1993).

103 Apostolado ou escândalo: Uma homilia feita por um sacerdote relaxado é muito menos eficaz que
o apostolado do verdadeiro sacerdote cuja fé e piedade irradiam por ocasião de um batizado, um
enterro e, sobretudo, de uma Missa. Palavras e ritos são flechas capazes de excitar os corações. A
liturgia assim vivida reflete-lhes a realidade do mistério, e convida-os a invocarem esse Jesus, quase
desconhecido para elas, mas com o qual sentem que esse sacerdote está em íntima comunicação.

Pelo contrário, a fé atenua-se ou perde-se de todo, quando elas exclamam desanimadas: “Não, não é
possível que este sacerdote acredite que há um Deus e o tema, pelo modo como celebra, batiza, reza e
faz as cerimônias”. Que responsabilidade! E quem ousará sustentar que escândalos tais não serão
objeto de um julgamento rigoroso?

Que grande influência exerce sobre os fiéis a manifestação do temor reverencial ou pelo contrário, o
desmazelo nas funções sagradas!

Sendo estudante numa Universidade, e subtraído a qualquer influência clerical, tive ensejo de ver,
sem que ele o notasse, um sacerdote a rezar o seu breviário. Foi uma revelação para mim a sua
atitude, cheia de respeito e recolhimento, e senti, desde então, manifestar-se em mim a necessidade de
imitar esse sacerdote. A Igreja aparecia-me como que concretizada nesse digno ministro em
comunicação com o seu Deus.

“Ao invés —confessava-nos ultimamente uma alma leal, vendo a rapidez com que o seu pároco
despachava a missa— fiquei perturbado e persuadido de que ele não tinha fé. Desde então, deixei de
rezar, e até de crer, e a repugnância de ver esse sacerdote a celebrar, afasta-me, desde então, da
igreja.”

104 P. Como se adquire a pureza de intenções?

R. Adquire-se por meio de uma grande atenção sobre nós mesmos, no começo e, sobretudo, no
progresso das nossas ações.

P. Porque é necessária tal atenção, no começo das nossas ações?

R. Porque, se essas ações forem agradáveis, úteis e conformes às inclinações da natureza, logo essa
atenção, espontaneamente, se dirige para elas, em virtude desse prazer e interesse. Ora, que domínio
não é necessário termos sobre nós mesmos, para impedir que a vontade seja logo arrastada pela
impressão dos motivos naturais que a lisonjeiam e deslumbram?

P. Porque é necessária tal atenção durante o progresso das nossas ações?

R. Porque, mesmo que se tenha a força de renunciar, logo no princípio, a qualquer atrativo lisonjeiro
para os sentidos e para o amor próprio, para seguir somente a fé, por meio de intenções puras, se, na
continuação, deixarmos de nos observar de perto, o gozo Atual ou o interesse, vêm sempre causar
novas impressões, o coração amolece-se, e a natureza, mesmo mortificada pelas primeiras renúncias,
desperta e retoma o seu ascendente; em pouco tempo, o amor próprio introduz em nós, subtilmente e
quase sem darmos por isso, as suas inclinações interesseiras, pondo-as em lugar dos motivos bons,
pelos quais empreendêramos as nossas ações: daqui vem, em muitos casos, o que diz São Paulo: que,
depois de se ter começado pelo espírito, acaba-se pela carne, isto é, com vistas baixas, terrenas ou
interesseiras. (Padre Caussade).

105 Veja-se atrás, pág. 19.

106 É o que Bossuet chama “momento de solidão afetuosa, que devemos procurar, a todo o custo, pelo
dia adiante”. É, também, o que, instantemente, aconselhava São Francisco de Sales, sob o nome de
retiros espirituais. “É neste exercício do retiro espiritual e das orações jaculatórias que consiste a
grande obra da devoção. Este exercício pode suprir a falta de todas as outras orações, mas a falta
dele, quase sempre, não pode ser reparada por outro qualquer meio. Sem ele, a vida ativa será mal
orientada (…) e o trabalho será apenas um embaraço… (São Francisco de Sales, Introdução à vida
devota, 2ª parte, c. III).

107 “Faz o que tens a fazer”, isto é, aplica-te, inteiramente, à ação presente.

108 São Bernardo, Serm. in Nat. B. M. V. alias de Aquaeductu.

109 “Ninguém recebe o dom de Deus senão por vós, ó cheia de graça” (São Germano). “A santidade
cresce, em razão da devoção que se professa a Maria” (Padre Faber).
110 “Com Maria, fazem-se mais progressos no amor de Jesus num só mês, do que em vários anos
vivendo-se menos unidos a esta boa Mãe” (São Luís de Montfort).

111 “Meus filhos, ela é a base da minha confiança e a razão da minha esperança” (São Bernardo).

112 Livraria Oudin, Paris.

113 A imagem que aqui reproduzimos representa a “Panaghia Parthenos”, uma das mais célebres e
antigas imagens da Mãe de Deus. O original, dádiva da imperatriz Pulquéria (450-453), encontrava-
se numa das mais belas e ricas igrejas de Constantinopla, e ainda aí se conservava nos fins do século
XIV. Encontram-se, com bastante freqüência, reproduções desta célebre pintura na Rússia, por
exemplo em Kiev, Novgorod e Moscovo, bem como na Grécia.