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CAPÍTULO 3 – EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA

No terceiro capítulo apresentaremos as concepções de educação


tecnológica, mostrando seus conceitos, caracteristicas e objetivos bem como
tal educação pode emancipar os sujeitos. Neste capítulo também será
apresentado os Cursos Superiores de Tecnologia, que são a referência mais
próxima brasileira para o ensino tecnológico.

3.1 AS CONCEPÇÕES DE EDUCAÇÃO TECNOLÓGICA

Como percebemos no capitulo anterior a tecnologia tem


representando cada vez mais o modo de vida da sociedade. Torna-se claro tal
afirmação ao analisarmos que a tecnologia está presente no desenvolvimento
social, econômico, cultural dos países; assuntos como internet, microeletrônica,
automação, nanotecnologia entre outros são constantes em nosso cotidiano
através do trabalho, do noticiário, do jornal e até mesmo na nossa diversão.
Sabe-se que a tecnologia não é boa e nem ruim, depende da
motivação com que se usa e em uma sociedade que se torna cada vez mais
tecnológica e informacional, discussões polêmicas advindas da tecnologia -
desastres ambientais, bombas nucleares e químicas, o uso de embriões em
pesquisas médica, a manipulação genética, a utilização desmedida de recursos
naturais, a tecnologia bélica, etc – devem ser tratadas por cidadãos
conscientes que entendem que as decisões tecnológicas devem proporcionar
bem estar a toda sociedade.
Nesse sentido a educação tem papel relevante, pois de certa
maneira, é ela que vai preparar o indivíduo para o convívio pacífico com a
tecnologia através de uma interação que possibilite a conciliação entre o
desenvolvimento tecnológico e o social.

(...) a tecnologia, apesar de seu enorme poder, em última


instância pode e deve ser controlada e usada com fins
pacíficos e socialmente proveitosos. Isto só é possível se a
tecnologia estiver nas mãos de pessoas verdadeiramente
educadas – homens e mulheres cuja moral e a capacidade
intelectual tenham sido desenvolvidas ao máximo. Na nossa
opinião, essa idéia resume, com autoridade, o grande objetivo
da Educação Tecnológica. (REIS, 1995, p.116 e 117)

Vislumbra-se a partir dessas questões apresentadas pela autora que


a educação tecnológica deve então formar cidadãos aptos a convirem de
maneira consciente com a tecnologia, pois o papel da educação tecnológica
não é transmitir o conhecimento através da técnica pela técnica e sim
possibilitar que as pessoas decidam através de uma analise crítica e
consciente qual a melhor escolha a se tomar dado determinado assunto.
A educação tecnológica deve ter como função primordial formar
cidadãos que entendam o papel da tecnologia no mundo e que percebam que
não são elas que nos dominam e sim o contrário e que as decisões sobre o uso
de determinada tecnologia podem afetar a sociedade de maneira trágica e por
isso tais decisões necessitam ser pautada por princípios éticos. O papel da
educação é que o individuo não somente aprenda, mas também saiba se
posicionar de maneira reflexiva e questionadora frente às questões da
realidade.
A educação é uma prática social de grande importância por atuar na
formação e proporcionar o desenvolvimento do potencial criativo do indivíduo.
Em uma sociedade marcada contradições e desafios, de uma tecnologia que
ao mesmo tempo em que beneficia a humanidade com inúmeras facilidades
também destrói e aliena. Não se pode mais conceber uma educação que se
preocupe em transmitir conhecimentos e sim que estabeleça princípios
orientativos a construção de uma humanidade mais justa. A educação não
pode perder de vista seu papel de “geradora de idéias, criadora de valores,
investigadora de conhecimentos e realizadora de ideais”. (GRINSPUN, 2001,
p.31 e36)
O conhecimento - na Sociedade contemporânea que se
convencionou chamar de Sociedade do Conhecimento – passa a ser o grande
capital da humanidade e a função da educação, nesse momento, é ser guia
oferecendo uma educação integral fugindo da educação baseada em apenas
ser útil ao mercado em obter resultados e chegar ao mundo do trabalho. É
dever da escola ser amante do conhecimento, ser promotora de mensagens e
não somente receptora e tudo isso de maneira que toda a sociedade tenha
acesso sem excluir ninguém, pois ela pode construir e reconstruir saberes que
é poder. A tecnologia contribui muito pouco para a emancipação dos excluídos
se não for associada ao exercício de cidadania. Nesse sentido os educadores
são imprescindíveis, pois são os responsáveis em não somente transformar a
informação em conhecimento e em consciência critica, mas também educar
pessoas. (GADOTTI, 2000)
Nesse sentido é que se torna cada vez mais necessário a educação
tecnológica na sociedade contemporânea, e compreender o que ela significa,
qual o seu objetivo é crucial para que ela possa ocorrer de fato e não fique
apenas no plano ideológico. Apresentamos a seguir alguns conceitos de
Educação Tecnológica:

A Educação Tecnológica procura melhorar os indivíduos no


sentido em que estes conheçam melhor as suas
potencialidades e as suas fraquezas; tomem consciência de si
mesmos; desenvolvam a capacidade de investigação, a
autoconfiança e a independência; se tornem mais aptos a
levantar questões do que em as aceitar; e se preparem para
tomar decisões e aceitar a responsabilidade dessas mesmas
decisões. (...) promova o desenvolvimento de indivíduos
criativos, perspicazes, preocupados com o que os rodeia e
confiantes. Dessa forma, parece que a primeira finalidade da
Educação Tecnológica não é ensinar a usar a mais moderna
peça de hardware, mas em perguntar como e porque ela deve
ser usada. (REIS, 1995, p. 49)

(...) para que serve, então, uma educação tecnológica? (...)


para formar um individuo, na sua qualidade de pessoa humana,
mais critico e consciente para fazer a história do seu tempo
com possibilidade de construir novas tecnologias, fazer uso da
crítica e da reflexão sobre a sua utilização de forma mais
precisa e humana, e ter as condições de, convivendo com o
outro, participando da sociedade em que vive, transformar essa
sociedade em termos mais justos e humanos. (GRINSPUN,
2001, p. 29)

Chamamos Educação Tecnológica ao conjunto de situações de


ensino-aprendizagem que visam facilitar, nos educandos, a
análise de conjunturas, estruturais ou contigentes, em que a
técnica é o fator determinante; isto no intuito quer de lhes
ampliar e precisar a consciência do mundo, quer de neles
operacionalizar essa consciência, tendo em vista uma futura
participação ativa, bem sucedida, nos ambientes técnicos.
(BAPTISTA, 1997, p.17 apud IAROZINSK, 2000, p.45)
Percebemos através do exposto que a Educação Tecnológica
apesar das diferentes abordagens possui algumas características próprias, tais
como as sugeridas pela supracitada autora: (1) a educação tecnológica não
tem como objetivo ensinar novas tecnologias e sim promover a interpretação
das mesmas através de análises éticas e que contemplem todos os setores da
sociedade; (2) promove uma interação entre teoria e prática, entre ensino e
pesquisa “ressaltando a rede de conhecimentos advindos das teorias
existentes e da necessidade de se rever a prática pelo que a teoria sinalizou”;
(3) o ensino tecnológico deve ter como fundamentação o conjunto do saber-
fazer, saber-pensar e saber-criar que não acabam na escola, mas que
permaneçam para que o indivíduo pense e reflita em um mundo em constante
mudança.
Como já afirmado a tecnologia por si só não é capaz de emancipar o
homem, e nessa perspectiva Ciavatta (2006) em seu interessante artigo nos
leva a refletir que tipo de educação tecnológica estamos tendo no Brasil, se o
baseado na lógica da produção capitalista baseada no lucro, na exploração do
trabalho, na competitividade ou na lógica da educação baseada no diálogo, na
humanização, na emancipação das amarras da opressão e na socialização do
conhecimento. Pois ao nos depararmos com uma escola que fragmenta o
saber, se preocupa com a empregabilidade, em oferece cursos de rápida
duração com o intuito unicamente de favorecer o capital estamos nos
deparando com a educação baseada unicamente na lógica produtiva e o que
se almeja para a construção de um mundo consciente baseado nos conceitos
acima exposto de educação tecnológica pautadas na totalidade das relações
sociais permitindo então a emancipação do individuo e não somente a
reprodução pautadas nos fins mercadológicos e sim na formação humana,
com ética e seriedade.
O processo educativo, em sua mais ampla dimensão, deve trabalhar
a formação do homem como um todo e sua conscientização, numa relação
dialética entre teoria e prática, a partir de um contexto histórico, possibilitando
desta maneira a emancipação dos sujeitos.
3.2 OS CURSOS SUPERIORES DE TECNOLOGIA

A Educação Tecnológica no Brasil está relacionado com educação


Profissional que inicia-se na década de 70, sendo marcada como ensino
destinado a formação da classe mais pobre. Nasce da necessidade do
mercado de mão de obra mais qualificada e diante disso o governo propõe
através da Lei Federal nº 5.540 a instalação e funcionamento de cursos de
curta duração destinados a proporcionar habilitações intermediárias de nível
superior a serem ministrados em universidades ou estabelecimentos de ensino
superior. Assim em 1978 nascem os primeiros centros de educação tecnológica
no Brasil.
Em 1994 com a lei nº 8.984 é criado no Brasil o Sistema Nacional de
Educação Tecnológica que tinha como medida tornar as Escolas Técnicas
Federais em Centros Federais de Educação Tecnológica – CEFET, a primeira
mudança ocorreu mesmo somente em 1999. Em 1996 a Lei de Diretrizes e
Bases (LDB) é aprovada, mas não traz a caracterização dos cursos
tecnológicos e profissionais então em 1997 é aprovado o Decreto nº 2.208 que
regulamentam especificamente sobre a educação profissional.
Em 2001, o Parecer CNE/CES 436 (CONSELHO NACIONAL DE
EDUCAÇÃO, 2001) definiu os Cursos Superiores de Tecnologia, com
características especiais, distintos dos tradicionais. Segundo o Parecer, todos
os cursos de nível tecnológico são cursos de graduação, e seus concluintes
ficam aptos a prosseguir seus estudos em nível de pós-graduação. Este
Parecer argumenta a favor do ensino tecnológico afirmando que o impacto das
novas tecnologias exige a formação de profissionais polivalentes. A educação
profissional então deve ser fundamentada para que o indivíduo tenha acessso
as conquistas científicas e tecnológicas da sociedade e não mais instrumento
da política assistencialista ou como ajuste da demanda do mercado.

A educação profissional requer, além do domínio operacional


de um determinado fazer, a compreensão global do processo
produtivo com a apreensão do saber tecnológico, a valorização
da cultura do trabalho e a mobilização dos valores necessários
à tomada de decisões. (PARECER CNE/CES 436/2001)
No ano de 2002 a Resolução CNE/CP institui as diretrizes para a
organização e o funcionamento dos cursos superiores de tecnologia onde é
apresentado algumas caracteisticas que devem ser adquiridas ao término
dessa modalidade de ensino tais como: capacidade empreendedora;
compreensão tanto da causa quanto do efeito do processo tecnológico;
competências para gestão de processos de bens e serviços; compreensão e
avaliação dos impactos sociais, econômicos e ambientais resultante do uso da
tecnologia; compreender a necessidade da educação contínua bem como
adotar a flexibilidade, a interdisciplinaridade e atualização permanente. Esse
parecer também define que os docentes para atuar na graduação tecnológica
deve possuir a formação acadêmica exigida nos termos do artigo 66 da Lei
9.394.
Em 2003 há a modificação do Decreto 2.208/97 pelo 5.154/04
eliminando assim algumas restrições que havia para que se ofertassem cursos
técnicos e tecnológicos. Com o novo Decreto nº 5.154 de 23 de julho de 2004 a
educação profissional passa a ser constituída em três níveis: “I - formação
inicial e continuada de trabalhadores; II - educação profissional técnica de nível
médio; e III - educação profissional tecnológica de graduação e de pós-
graduação”. (TAKAHASHI e AMORIN, 2008)
Os Cursos Superiores de Tecnologia são então definidos pelo
Catálago Nacional como:

É um curso de graduação, que abrange métodos e teorias orientadas


a investigações, avaliações e aperfeiçoamentos tecnológicos com
foco nas aplicações dos conhecimentos a processos, produtos e
serviços. Desenvolve competências profissionais, fundamentadas na
ciência, na tecnologia, na cultura e na ética, com vistas ao
desempenho profissional responsável, consciente, criativo e crítico. É
aberto, como todo curso superior, a candidatos que tenham concluído
o ensino médio ou equivalente e tenham sido classificados em
processo seletivo. Os graduados nos cursos superiores de tecnologia
denominam-se tecnólogos e são profissionais de nível superior com
formação para a produção e a inovação científico-tecnológica e para
a gestão de processos de produção de bens e serviços e estão aptos
à continuidade de estudos em nível de pós-graduação. (CATÁLAGO
NACIONAL DE CURSOS SUPERIORES DE TECNOLOGIA, 2010).
Houve um aumento considerável de cursos tecnológicos no período
de 2000 a 2002 – crescimento de 74%, passando de 364 para 636 cursos -
principalmente na rede particular que respondia por 70% da oferta dessa
modalidade de curso. Na rede pública, a oferta de cursos de tecnologia cresceu
93,3% entre 2003 e 2004. Tal aumento se deve em grande parte pelo
crescimento significativo dos concluintes do ensino médio que passam a
considerar os cursos superiores de tecnologia como uma opção dos seus
estudos visto que ele é um curso superior.
Outro motivo para expansão dessa modalidade de ensino é a
expansão da rede federal de ensino tecnológico, iniciada em 2005 com
alteração da lei que vedava a expansão da rede federal e com a criação da Lei
11.892 de 29/12/2008 que cria os Institutos Federais de Educação, Ciência e
Tecnologia que em seu artigo 2º afirma que os Institutos Federais são
instituições de educação superior, básica e profissional, pluricurriculares e
multicampi, especializados na oferta de educação profissional e tecnológica
nas diferentes modalidades de ensino, com base na conjugação de
conhecimentos técnicos e tecnológicos com as suas práticas pedagógicas. Os
Institutos Federais são equiparados às universidades federais.