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O presente livro — As aventuras de Karl Marx contra o Baraéo de Minchhausen — trata de ideologia, isto é, do maior pro- blema com que se defrontam os autores que se dedicam 4s questées da sociologia do conhecimento. Michael Léwy comeca por examinar, pacientemente, os esforgos de autores co- mo o iluminista Condorcet, o socialista uto- pico Saint-Simagn, o filésofo Augusto Comte e 0 socidlogo Emile Durkheim no sentido de explicarem as relagoes entre a busca do conhecimento e a defesa de interesses par- ticulares, entre os seres humanos. Num segundo momento, nosso critico analisa a|- gumas caracteristicas das diversas linhas de pensamento adotadas em_relagao a questao da ideologia por Karl Popper, por Max Weber, por Karl Mannheim e pelos representantes do stalinismo. Para Michael pony © procedimento adotado por essa familia de tedricos é de tipo «positivista»: eles tentam fundar a sociologia do conhecimento sobre «fatos» e «dados», pretendem lidar com realidades humanas com a mesma isengao e a mesma objetividade com que observariam coisas, ou entdo se disp6em a exorcizar os «juizos de valor» no exame de quest6es em face das quais nunca podemos ser As Aventuras de Karl Marx contra o Bardo de Miinchhausen MARXISMO E POSITIVISMO- NA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO. Dados Internacionais de Cataloga¢ao na Publicagao (CIP) (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Lowy, Michael As aventuras de Karl Marx contra o Bario de Miinchhausen : marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento/ Michael Léwy ; [tradugao Juarez Guimaraes e Suzanne Felicie Léwy].—7. ed. ~ So Paulo, Cortez, 2000. Bibliografia ISBN 85-249-0518-2 1.Comunismo. 2. Politica Filosofia. 3. Positivismo 4. Sociologia do conhecimento 1. Titulo. IJ. Titulo : Marxismo ¢ positivismo na sociologia do conhecimento. 94-0388 CDD-306.42 indices para catélogo sistemético: 1. Conhecimento : Sociologia 306.42 2. Sociologia do conhecimento 306.42 MICHAEL LOWY As Aventuras de Karl Marx contra o Barao de Munchhausen MARXISMO E POSITIVISMO NA SOCIOLOGIA DO CONHECIMENTO 7 edigio CORTEZ S epirora Titulo original: Paysages de la Verité. Introduction & une sociologie critique de la connaissance. Capa: Carlos Clémen Traducdo: Juarez Guimaraes ¢ Suzanne Felicie Léwy Revisdo: Ana Paula Tadeu Massaro Composicao: Dany Editora Ltda. Coordenagao Editorial: Danilo A. Q. Morales Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou duplicada sem autorizagao expressa do autor € do editor. Direitos para esta edigao CORTEZ EDITORA Rua Bartira, 317 — Perdizes 05009-000 — Sao Paulo —- SP ‘Tel.: (Q--11) 864-0111 Fax: (O--11) 864-4290 E-mail: cortez @cortezeditora.com.br Impresso no Brasil — abril de 2000 Sumario IntrodugGo: Vis6es sociais de mundo, ideologias e utopias no conhecimento cientffico-social ...... . 7 O positivismo ou o principio do Bardo de Miinchhausen 15 A utopia positivista: Condorcet e Saint-Simon ...... 19 A ideologia positivista: de Comte até nossos dias ... . 22 Max Weber: a ciéncia livre de julgamentos de valor .. 33 Karl Popper e a objetividde institucional .... 2... 49 63 66 ies we ows eee wore ey 70 A sociologia do conhecimento de Karl Mannheim ... . 78 O marxismo ou o desafio do “principio da carruagem” . 97 Ideologia e ciéncia segundo Marx... 2.0.2.0... 100 Marxismo e positivismo no pensamento da Segunda Intemacional 6... 2. ee ee 115 O marxismo historicista (Lukdcs, Korsch, Gramsci, Goldmann) 2.2... eee eee 127 © marxismo racionalista da Escola de Frankfurt... . . 145 Ideologia estalinista e ciéncia .............0-- 167 Conclusdo: As paisagens da verdade e a alegoria do mirante (para uma sociologia critica do conhecimento) .....--- 0-0-2 ee ee eee O modelo cientffico-natural de objetividade e @§ Ciacias socidis «60k eve ee mes eee O momento relativista da sociologia do conhecimento . . Paisagens da verdade e autonomia relativa da ciéncia 195 197 204 212 INTRODUCAO VisGes sociais de mundo, ideologias e utopias no conhecimento cientifico-social Quais so as condigées para tornar possfvel a objetividade nas ciéncias sociais? O modelo cientifico-natural de objetividade € operacional para as ciéncias histéricas? E concebivel uma ciéncia da sociedade livre de julgamentos de valor e pressupostos poli- tico-sociais? E possivel eliminar as ideologias do processo de conhecimento cientifico-social? Nao é, a ciéncia social, necessa- riamente “engajada”, isto é, ligada ao ponto de vista de uma classe ou grupo social? E, neste caso, seria possivel conciliar esse cardter partiddério cém o conhecimento objetivo da verdade? Essas questées est{o no centro do debate metodolégico e epistemolégico, no conjunto das ciéncias sociais modernas, de sua origem até os nossos dias. As tentativas de Ihes apresentar uma resposta coerente ligam-se de uma maneira ou de outra a trés grandes correntes de pensamento: 0 positivismo, 0 historicismo e © marxismo. O objeto deste livro é o exame dos dilemas, das contradi¢gées, dos limites, mas também das fecundas contribuigédes de cada uma destas perspectivas metodolégicas para a construgéo de um modelo de objetividade préprio das ciéncias humanas e para uma sociologia critica do conhecimento. O complexo cipoal de questGes envolvidas nessa busca é, muitas vezes, apresentado nos termos de uma oposigéo e/ou articulagao entre dois universos distintos e heterogéneos: ideologia e ciéncia. Ora, existem poucos conceitos na histéria da ciéncia 9 social moderna téo enigméticos e polissémicos quanto o de “ideologia”; este tornou-se, no decorrer dos tiltimos dois séculos, objeto de uma inacreditavel acumulacdo, fabulosa mesmo, de ambigilidades, paradoxos, arbitrariedades, contra-sensos e equivo- cos. Para demonstra-lo, basta um breve histdrico: 1. Em sua origem, 0 termo foi (literalmente) inventado por Destut de Tracy, que vai publicar, em 1801, um tratado, Elementos de ideologia, apresentando esta nova “‘ciéncia das idéias” como uma parte da zoologia... Logo, inscreve-se em uma perspectiva metodolégica de tipo empirista e cientffico-naturalista, isto é, positivista, Ora, alguns anos mais tarde, em polémica contra Destut de Tracy e seus amigos neo-enciclopedistas, Napoledo iré traté-los por “idedlogos”, termo que concebe como equivalente a metafisicos abstratos, fora da realidade. Este novo significado parece ter entrado no vocabuldrio corrente da primeira metade do século XIX, quando Karl Marx vai retomar, a seu modo, o termo. 2. Para Marx, a ideologia é uma forma de falsa consciéncia, correspondendo a interesses de classe: mais precisamente, ela designa o conjunto das idéias especulativas e ilus6rias (socialmente determinadas) que os homens formam sobre a realidade, através da moral, da religifio, da metaffsica, dos sistemas filosdficos, das doutrinas polfticas e econémicas etc. Ora, para muitos marxistas do século XX, a comegar por Lenin, a ideologia designa o conjunto das concepgées de mundo ligadas as classes sociais, incluindo o marxismo. E com esta significagio que o termo entrou na Ifngua corrente dos militantes marxistas (“luta ideolégica”, “ideologia revolucionaria”, “formagao ideolégica” etc.). 3. Com a obra de Karl Mannheim, o sentido “leninista” do termo ganhou legitimidade na sociologia universitéria através do conceito de “ideologia total”, definida como a estrutura catego- rizada, a perspectiva global, o estilo do pensamento ligado a uma posigao social (Standortsverbundenheit). Entretanto, no mesmo livro (ideologia e utopia, 1929), Mannheim atribui uma outra significagao, bem mais restrita, ao mesmo termo: ideologia designa, nesta acep¢do, os sistemas de representagdo que se orientam na diregdo da estabilizagio e da reprodugdéo da ordem vigente — 10 em oposi¢gdo ao conceito de utopia, que define as representagées, aspiragdes e imagens-de-desejo (Wunschbilder) que se orientam na diregdo da ruptura da ordem estabelecida e que exercem uma fungdo subversiva (umwdilzende Funktion). Por outro lado, Man- nheim reuniu ideologia (neste sentido) e utopia sob a categoria comum de formas da falsa consciéncia, isto é, de “representagdes que transcendem a realidade”, em oposigdo as representagdes adequadas € compativeis-com-o-ser-social-real (Seinskongruenten), ou seja, formas “ideolégicas” no sentido marxista do termo, que Mannheim havia criticado como sendo muito parcial e estrito... Nota-se que a confusio e a ambivaléncia séo quase completas, nao apenas entre pensadores de diferentes correntes, mas no seio de uma sé e mesma tradigao te6rica e no interior de uma sé € mesma obra, considerada como um grande classico de sociologia do conhecimento moderno. A mesma palavra é encontrada, nao apenas como as mais diferentes significagdes, mas, algumas vezes, com significagdes diretamente contraditérias, sem uma Unica justificativa para estes habituais processos semanticos. Nao € surpreendente, nestas condi¢g6es, que a porta esteja totalmente aberta ao arbitrario; vé-se, assim, aparecerem socidlogos que se arrogam o direito de dar outra definigao, ad libitum, segundo seus préprios gostos ou inspiragéo. Por exemplo: “eu decido entender por ideologia os estados de consciéncia ligados @ agdo politica. Isto € uma decisao arbitraria...”' Acha-se, portanto, suprimida do dominio do ideolégico a maioria dos sistemas filoséficos, metafisicos, religiosos e éticos (em sua dimensio nao-politica) que constituiam, exatamente, para Marx, as formas mais tfpicas da ideologia. Logo, pode-se “decidir” que a ideologia € uma coisa ou o seu contrario a seu bel-prazer... Na tentativa de nos reencontrarmos neste magma semantico, parece-nos ser preciso tomar como ponto de partida a obra de Mannheim, que, apesar de suas contradigGes, constitui (depois de Marx) a tentativa mais séria de abordar de forma sistematica os problemas envolvidos pelo conceito de ideologia. A definig&éo da ideologia (em oposig4o 4 utopia) como uma forma de pensamento orientada para a reprodugdo da ordem estabelecida nos parece a mais apropriada porque ela conserva a dimensdo critica que o 11 termo tinha em sua origem (Marx). Como salienta, com razdo, Claude Lefort, na definigfo vaga e amorfa: “o conceito nao guarda vestigio da primeira acepcao, de onde recebia sua forca critica: a ideologia € reconduzida as idéias ‘defendidas’ para assegurar o triunfo de uma classe...” Quanto ao conceito de utopia, este € tomado aqui — como em Mannheim — no seu sentido mais amplo e mais “neutro”, conforme a etimologia grega da palavra: ou topos (em parte alguma). O pensamento utdpico € © que aspira a um estado ndo-existente das relagdes sociais, 0 que lhe dd, ao menos potencialmente, um carater critico, subversivo, ou mesmo explosivo. O sentido estreito e pejorativo do termo (utopia: sonho imaginario irrealizavel) nos parece inoperante, uma vez que apenas o futuro permite que se saiba qual aspiracdo era ou nao “irrealizivel”. Resta definir um conceito que possa clas- sificar ao mesmo tempo, as ideologias e as utopias. Utilizar, como o faz Mannheim, o termo “ideologia total” para esta fungdo conceitual s6 faz gerar confusao, na medida em que se vé atribuir & mesma palavra dois sentidos em nada idénticos. Quanto ao conceito de “falsa consciéncia”, este nos parece inadequado porque as ideologias e as utopias contém, nao apenas as orientagdes cognitivas, mas também um conjunto articulado de valores culturais, éticos e estéticos que nao substituem categorias do falso e do verdadeiro. Parece-nos que o melhor conceito para designar o que Mannheim chama de “a ideologia total”, quer dizer, a perspectiva de conjunto, a estrutura categorial, 0 estilo de pensamento so- cialmente condicionado — que pode ser ideolégico ou utdépico —, € 0 de visdo social de mundo. E permitido considerar arcaico, em desuso, “historicista”, “humanista”, maculado de idealismo hegeliano, de filosofia do sujeito ou de outras heresias maiores, © conceito de Welranschauung. Em nossa opiniao, ele constitui, em sua formulagéo “classica”, através do historicismo alemao (Dilthey), o instrumento conceitual mais apto a dar conta da tiqueza e da amplitude do fenédmeno sécio-cultural em questao. Contrariamente ao termo “‘ideologia total”, este nao contém ne- nhuma implicagao pejorativa e nenhuma ambigiiidade conceitual: © que ele designa nao é, por si s6, nem “verdadeiro” nem “falso”, nem “idealista” nem “materialista” (mesmo sendo possfvel que 12 tome uma ou outra destas formas), nem conservador nem revo- luciondrio. Ele circunscreve um conjunto organico, articulado e estruturado de valores, representagGes, idéias e orientagdes cog- nitivas, internamente unificado por uma perspectiva determinada, por um certo ponto de vista socialmente condicionado. Acrescentando 0 termo social — visao social de mundo —, queremos insistir em dois aspectos: a) trata-se da visio de mundo social, isto €, de um conjunto relativamente coerente de idéias sobre 0 homem, a sociedade, a histéria, e sua relagdo com a natureza (e nao sobre 0 cosmos ou a natureza enquanto tais); b) esta visio de mundo esta ligada a certas posigdes sociais (Standortgebundenheit) — 0 termo é de Mannheim —, isto é, aos interesses e a situagado de certos grupos e classes sociais. As visGes de mundo podem ser ideologias (um exemplo cldssico: © liberalismo burgués no século XIX) ou utopias (o quiliasmo de Thomas Miinzer) Elas podem combinar elementos ideolégicos e utdépicos: por exemplo, a filosofia do Iluminismo. Além do mais, uma mesma visdo de mundo pode ser concebida de modo ideolégico ou utépico: basta comparar o romantismo de Adam Miiller com o de Novalis. Enfim, a mesma visio de mundo pode ter um cardter ut6pico num dado momento histérico, para tornar-se, em seguida, numa etapa ulterior, uma ideologia (€ 0 caso do positivismo e de certas formas do marxismo, como veremos mais adiante). A questao que este livro examina é, portanto, a da relagéo entre visdes sociais de mundo (ideoldgicas ou utépicas) e conhe- cimento, no dominio das ciéncias sociais, a partir de uma discusséo critica das principais tentativas de elaboragao de um modelo de objetividade cientifica que surgiram no seio do positivismo, do historicismo ¢ do marxismo. Tentaremos mostrar, apoiando-nos em uma certa tradigéo historicista e nas idéias fundamentais do marxismo (mais precisamente: da interpretagado historicista do Marxismo), a0 mesmo tempo, que a objetividade nas ciéncias da sociedade nao pode consistir no estreito molde do modelo cien- tffico-natural e que, ao contrério do que pretende o positivismo em suas miltiplas variantes, todo conhecimento e interpretagéo da realidade social estao ligados, direta ou indiretamente, a uma 13 das grandes visdes sociais de mundo, a uma perspectiva global socialmente condicionada, isto é, 0 que Pierre Bourdieu denomina, numa expressio feliz, “as categorias de pensamento impensadas que delimitam o pensavel e predeterminam o pensamento”.? E que, por conseguinte, a verdade objetiva sobre a sociedade é antes concebida como uma paisagem pintada por uma artista e nao como uma imagem de espelho independente do sujeito; e que, finalmente, tanto mais verdadeira sera a paisagem, quanto mais elevado 0 observatério ou belvedere onde estar4 situado 0 pintor, permitindo-lhe uma vista mais ampla e de maior alcance do panorama irregular e acidentado da realidade social.* A perspectiva deste ensaio é, pois, a de uma introducdo @ sociologia do conhecimento, isto é, ao estudo das relagdes entre classes ou categorias so e conhecimento cientifico da socie- dade. NOTAS 1, Jean Baechler. Qu'est-ce que l'idéologie? Idées Gallimard, 1976, p. 21 (sublinhado no original) 2. C. Lefort. Les formes de Uhistoire, Gallimard, 1975, p. 283. 3. P. Bourdieu. Legon sur la legon, Minuit, Paris, p. 10. 4, Esta obra retoma, aprofunda e, as vezes, supera as idéias que esbocamos em um ensaio intitulado “Ponto de vista de classe e objetividade nas ciéncias sociais”, publicado na revista Critique de l'Economie Politique, em 1970, e, em seguida, reeditado em nossa coletinea de artigos Dialectique et Révolution, Editions Anthropos, 1973. 14 O positivismo ou o principio do Barao de Miinchhausen Nosso objeto, neste capitulo, nao é a filosofia positivista enquanto tal, mas as concepgdes positivistas no dom{fnio das ciéncias sociais, e, em particular, a doutrina da neutralidade axiolégica do saber. O positivismo — em sua figuragao “ideal-tipica” — esté fundamentado num certo numero de premissas que estruturam um “sistema” coerente e operacional: 1. A sociedade é regida por leis naturais, isto é, leis invaridveis, independentes da vontade e da agio humanas; na vida social, reina uma harmonia natural. 2. A sociedade pode, portanto, ser epistemologicamente assimilada pela natureza (0 que classificaremos como “naturalismo positivista”) e ser estudada pelos mesmos métodos, démarches* processos empregados pelas ciéncias da natureza. 3. As ciéncias da sociedade, assim como as da natureza, devem limitar-se 4 observagiio e a explicagdo causal dos fendmenos, de forma objetiva, neutra, livre de julgamentos de valor ou ideologias, descartando previamente todas as prenogées e precon- ceitos. * Optamos por utilizar a palavra démarche no original francés, de uso relativamente corrente no Brasil. O sentido aproximado em que é usada aqui é 0 de método, modo de evolugio, trajetéria. (N. do T.) 17 A influéncia destas idéias — particularmente o postulado de uma ciéncia axiologicamente neutra — ultrapassa o quadro do positivismo no sentido estrito e se manifesta, pelo menos em parte, em autores consideravelmente afastados do positivismo classico (como Max Weber) e até mesmo no seio do marxismo. Quando um ou outro destes trés axiomas esta integrado em uma investigagao metodolégica distinta do positivismo, pode-se falar de uma dimensdo positivista. Tentaremos examinar como 0 positivismo surge, em fins do século XVIII-principio do século XIX, como uma utopia critico- revoluciondria da burguesia antiabsolutista, para tornar-se, no decorrer do século XIX, até os nossos dias, uma ideologia conservadora identificada com a ordem (industrial/burguesa) es- tabelecida. Essa “mudanga de cor” do positivismo nao deixa de lembrar o que Marx assinalava a propdsito da economia politica: sua passagem, sobretudo depois de 1830 — isto é, depois da ascensao da burguesia ao poder nos principais paises europeus —, de economia “cldssica” 4 economia “vulgar”. O axioma da neutralidade valorativa das ciéncias sociais conduz, logicamente, 0 positivismo, a negar — ou melhor, a ignorar — o condicionamento histérico-social do conhecimento. A prépria questéo da relagio entre conhecimento cientifico e classes sociais geralmente nao € colocada: €é uma problemiatica que escapa ao campo conceitual e teérico do positivismo. Ele sé analisa os fundamentos sociais do pensamento pré-cientifico: pensamento magico etc.; mas a prépria ciéncia social nele aparece soberanamente livre de vinculos sociais. Em outras palavras: uma sociologia do conhecimento (cientifico), uma andlise da relagio entre o saber e as classes sociais sdo contraditérias com 0 quadro metodolégico fundamental do positivismo. Para compreender a significagdo especifica e as implicagdes da doutrina positivista sobre a objetividade/neutralidade cientifi- co-social, € preciso examinar, por um lado, a sua génese histérica e o seu desenvolvimento e, por outro, a sua relagéo com o conjunto da problematica positivista enquanto visio de mundo coerente, da qual esta doutrina é apenas um aspecto. O mesmo é vdlido para as outras duas correntes que iremos discutir e que 18 seréo abordadas sob o Angulo histérico e por intermédio da categoria metodolégica da totalidade. A utopia positivista: Condorcet e Saint-Simon A idéia de leis naturais da vida social e de uma ciéncia da sociedade formada segundo 0 modelo das ciéncias da natureza é, na sua origem, inseparével do combate intelectual do Terceiro Estado contra a ordem feudal-absolutista. Tanto a doutrina do direito natural quanto a de uma ciéncia natural da sociedade possuem uma dimensao utdpico-revolucionaria, critica (as duas esto estreitamente, alias, ligadas ao século XVIII). O positivismo moderno nasceu como um legitimo descendente da filosofia do Tuminismo. De todos os Enciclopedistas, é, sem divida, Condorcet quem contribuiu da maneira mais direta e imediata na génese da nova corrente. Préximo dos fisiocratas (especialmente Turgot) e dos classicos ingleses (A. Smith), Condorcet pensa que a economia politica pode estar submetida 4 “preciso do cdlculo” e ao método das ciéncias da natureza. Mas nao se limita aos fatos econémicos e passa a generalizar esta démarche: 0 conjunto dos fendmenos sociais estd submetido “As leis gerais... necessdrias e constantes” parecidas com as que regem as operagdes de natureza. Dai, a idéia de uma ciéncia natural da sociedade ou de uma “matematica social” baseada no c4lculo das probabilidades. O estudo dos fatos sociais foi, por muito tempo, ‘“abandonado ao acaso, a avidez dos governos, 4 astticia dos charlataes, aos preconceitos ou aos interesses de todas as classes poderosas”; aplicando o novo método a moral, @ politica e a economia ptiblica, pode-se “seguir nas ciéncias um caminho quase tao seguro quanto o das ciéncias naturais”. Alias, as ciéncias da sociedade procuram incessantemente aproximar-se deste “caminho das ciéncias ffsicas que o interesse e€ as paixdes nado vém perturbar”.! Este ideal de ciéncia neutra, tao imune aos “interesses e paixGes”, quanto a fisica ou a matemiatica, estar no coragao da problematica positivista durante dois séculos. Mas, ha ainda em Condorcet uma significagao utdpico-critica: seu objetivo confesso 19 € o de emancipar 0 conhecimento social dos “interesses e paixdes” das classes dominantes. O cienticismo positivista é aqui um instrumento de luta contra 0 obscurantismo clerical, as doutrinas teolégicas, os argumentos de autoridade, os axiomas a priori da Igreja, os dogmas imutdveis da doutrina social e politica feudal. E neste sentido que € preciso compreender 0 apelo ao modelo cientifico-natural em Condorcet: “Galileu... fundou, para as ciéncias a primeira escola onde elas eram cultivadas sem nenhuma mistura de superstigéo, seja em relagdo aos preconceitos, seja em relagao a autoridade; onde se rejeitou com uma severidade filos6fica qualquer outro meio que nao fosse o da experiéncia ou do cAlculo”. Contudo, Condorcet censura Galileu por limitar-s¢ “ex- clusivamente as ciéncias fisicas e matemAticas”; trata-se agora de ampliar esta atitude — apoiando-se no método de Bacon e de Descartes — para as ciéncias econémicas e politicas. O combate a ciéncia social livre de “paixdes” é, portanto, insepardvel da luta revolucionaria dos Enciclopedistas e de toda a filosofia do Iluminismo contra os preconceitos, isto €, contra a ideologia tradicionalista (principalmente clerical) do Antigo Regime. Acha-se em O esbogo de um quadro histérico dos progressos do espirito humano a intuigao de que o desenvolvimento no terreno dos fatos sociais choca-se com os interesses de classe: “quanto mais os objetos submetidos 4 razdo tocarem os interesses religiosos e politicos, tanto mais lentos os progressos do espifrito humano”’; mas, trata-se, para Condorcet, de um fendmeno do passado relacionado com os interesses clericais ou aristocraticos. A idéia de que a nova ciéncia econémica e polftica, representada pelos fisiocratas, A. Smith e pelos préprios Enciclopedistas, esta ci€éncia racional, precisa e experimental pudesse estar, ela também, ligada a interesses sociais, escapa ao campo de visibilidade de Condorcet e dos positivistas em geral. Discipulo de Condorcet, S. Simon vé no grande Enciclopedista © pensador ao qual “a ciéncia do homem deve seu tiltimo passo importante”3 Esta ciéncia do homem, apresentada como um ramo ora da fisica, ora da fisiologia, deve-se tornar positiva — S. Simon € o primeiro a empregar este termo —, quer dizer, utilizar os métodos das ciéncias naturais, “pois nao existe fendmeno que 20 no possa ser observado do ponto de vista da fisica dos corpos brutos ou do ponto de vista da fisica dos corpos organizados, que é a fisiologia”. A prépria politica “tornar-se-4 uma ciéncia positiva quando os que cultivam este importante ramo dos co- nhecimentos humanos aprenderem a fisiologia e quando eles nao mais considerarem os problemas a resolver apenas como questdes de higiene”.* Com toda essa fé ingénua do pensador do Iluminismo, S. Simon cré que esta ciéncia politica positiva poderd ser neutra e objetiva, ultrapassando os diferentes pontos de vista, as diversas “formas de ver” contraditérias: “até aqui, o método da ciéncia da observagao nao foi introduzido nas questdes politicas; cada um trouxe a sua maneira de ver, de raciocinar, de julgar, e resulta daf que ainda nao se obteve nem precisdes nas solugdes, nem generalidades nos resultados. Chegou a hora de acabar esta infancia da ciéncia...”5 Veremos como esta queixa sobre “a imaturidade” da ciéncia social, sobre o seu “atraso” para comegar a ser como as outras (isto é, as ciéncias da natureza), seguida de exigéncia de que ela se curve enfim ao método cientffico (natural), retornaré constantemente sob pena dos autores positivistas (século XX, inclusive). S. Simon fala freqiientemente do “corpo social” e define a ciéncia da sociedade como uma “filosofia social”, “constitufda pelos fatos materiais que derivam da observagdo direta da socie- dade”. Mas é importante sublinhar que esta “naturalizagio” da sociedade e da ciéncia social, esta utilizagao abusiva da analogia “organica” nao tem neste autor — como terd nos positivistas posteriores —- uma significagéo apologética conservadora em relagZo & ordem estabelecida; muito pelo contrdrio, ela tem uma fungao eminentemente critica e contestadora. Apesar das repetidas garantias de S. Simon sobre o cardter “organizador” e ndo-reco- lucionério de seus escritos, sua dimensao subversiva é inegavel e nao deixou de chamar a atengio das autoridades. Assim, € em nome das leis fisiol6gicas do organismo social e de sua “higiene” que ele apela abertamente pelo fim do absolutismo e por uma “mudanga de regime” na Franga: “uma vez que a natureza inspirou aos homens, em cada época, a forma de governo mais conveniente, 21