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O Mundo Psi no Brasil - Jane Russo

O livro trata do surgimento e desenvolvimento do mundo da psicologia no Brasil que, como


pontua a autora, teve como principal cenário o eixo Rio-São Paulo. O Rio na década de 60,
ainda capital federal.

A psicologia, a psiquiatria e a psicanálise andaram juntas durante todo o relato . De um lado a


psicologia e a psiquiatria como profissões oficiais que exigiam um diploma e por outro a
psicanálise, transmitida de forma artesanal por pequenos grupos de iniciados.

A psiquiatria aponta como pioneira no que se refere ao surgimento do hospício e da


medicalização da loucura. Em 1841, D. Pedro assina decreto para criação do que viria a ser o
Hospício Pedro II, inaugurado em 1852 na Praia Vermelha, Rio de Janeiro. Logo surgiram
críticas ao modo como os doentes eram tratados. Problemas como superlotação e mal preparo
dos enfermeiros. Somente após 40 anos de sua fundação tornou se uma instituição
eminentemente médica. Destaca se a participação do médico José Carlos Teixeira Brandão
como um dos principais críticos e futuro diretor da instituição, substituído por Juliano Moreira
quando se caracteriza um movimento da moderna psiquiatria no panorama institucional
brasileiro, quando fora adotado o método diagnóstico kraepeliano.

Com a publicação da interpretação dos sonhos (1900), a psicanálise viria a tornar se grande
objeto de estudo em todo o mundo ocidental. As relações da psicanálise e da medicina
permaneceriam ambíguas desde o início. As idéias de Freud já eram mencionadas na
Faculdade de Medicina da Bahia, por Juliano Moreira, já em 1899. No Rio de Janeiro, os
grandes nomes que compunham o establishment psiquiátrico em vias de constituição já se
interessaram pela nova doutrina Freudiana.

A psicanálise logo ultrapassou as fronteiras da Academia, surgindo diversos livros e mesmo


programas radiofônicos que difundiam as novas propostas desenvolvidas por Freud. Nos anos
20 as idéias psicanalíticas freqüentavam as rodas do modernismo, Oswald e Mario de Andrade
assimilaram suas idéias em meior ou menor grau.

Logo a psicanálise viria a ser introduzida como disciplina em cursos de graduação. Em 1948
chegaram psicanalistas enviados pela IPA para das início a formação de psicanalistas
brasileiros. As sociedades paulistas e cariocas tinham suas diferenças e se desenvolveram com
suas particularidades. Surgem as formações, no Rio de Janeiro, por haver um maior numero de
psiquiatras ligados aos grupo, logo se exigiu o diploma de medicina para ingresso.
Em 1953 surge o primeiro curso de psicologia do país, na PUC. Apenas em 1962 a lei que
reconhecia a profissão de psicólogo fora promulgada, pelo então presidente João Goulard.

A década de 70 caracteriza se pelo boom psicanalítico. Psicanalistas lideram as primeiras


tentativas de humanização dos hospícios. Surgem novos cursos de psicologia nas faculdades
particulares do Rio de Janeiro, o números de profissionais formados cresce exponencialmente.

Percebe se o diverso campo de influências que a autora trás na formação da história e do


desenvolvimento da psicologia, psiquiatria e psicanálise brasileiras. Grupos de estrangeiros
influentes e as diferenças do eixo Rio e São Paulo dariam norte a sociedades diversas.

Surge mais uma força no entrelaçamento de contextos, o lacanismo. Idéias propagadas pelos
seguidores de Lacan. A aproximação com filósofos, literatos e lingüistas é a marca registrada
do movimento lacaniano e viria a ser uma importante arma contra a vinculação da psicanálise
a medicina brasileira. Os jogos de palavras, os duplos sentidos e outras figuras de linguagem
são a tônica do texto lacaniano. Lacan afirma que “o analista se autoriza por si mesmo”.

Nos anos 80 difunde se as práticas favorecidas por uma certa cultura alternativa, medicinas
paralelas; florais de Bach, acumpultura, shiatsu, do in e outras terapias corporais que
acreditavam ser possível o tratamento também pelo viés do corpo. Estas estão ligadas em
maior ou menos grau a teoria reichiana, formulada por Wilhelm Reich, dissidente da
psicanálise, que postulou a existência de uma energia vital (o orgônio) presente em todo o
universo, responsável pelo adoecimento e pelo bem estar de todos os organismos. Salvador foi
um importante centro irradiador do movimento graças ao casal argentino Martha Berlin e
Emílio Rodrigué.

Aproximando se dos anos 90 surge a psiquiatrização ou talvez psicanalisação da psiquiatria. A


idéia da somatização, para qual a doença seria calsada pela degeneração do sistema nervoso
ganha muitos adeptos. Implanta se duas vertentes morais da psiquiatria, de um lado a
psicanálise com sua visão psicológica da perturbação mental e de outro o movimento
antipsiquiátrico, com sua visão psico-política-social. Nos dois casos o afastamento como
doença psicológica é total. No entanto a vertente somaticista somasse ao desenvolvimento
avassalados da indústria farmacêutica. Os medicamentos que iam pouco a pouco surgindo
transformavam pacientes ate então inabordáveis em pacientes tratáveis. Ainda que os
medicamentos, como todos de um modo geral, tratem os sintomas, mas não as causa, que só
seriam acessíveis pela psicanálise. Tudo podia ser muito mais simples, nada de anos e anos no
divã, uma pequena pílula três vezes ao dia e o problema estaria resolvido
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

RUSSO, Jane. O Mundo Psi no Brasil / Jane Russo. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,2002

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