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Bem vindo ao módulo I do curso de “Psicoterapia Fenomenológico-Existencial – dos

fundamentos à prática”!

Neste módulo desenvolveremos as ideias e conceitos que constituem a Fenomenologia, desde


o seu surgimento, situando o contexto histórico no qual se inseriu e os pontos mais
significativos desse método.

Ele será apresentado da seguinte maneira:

A Fenomenologia

1. Aproximando-se da Fenomenologia...

2. O surgimento da Fenomenologia

3. Contexto Histórico – da metafísica ao pensar fenomenológico

4. Husserl – o pai da Fenomenologia

5. Noções Centrais da Fenomenologia


• O que significa fenomenologia?
• Lema da fenomenologia: “voltar às coisas mesmas”
• Intencionalidade
• Compreensão
• Método
• Os dois modos de apreensão: “o que” e o “como”
• Relatividade do conhecimento

6. Conclusões

7. Roteiro de leitura

8. Avaliação

Você deverá se guiar por esse material para a realização do curso. Ao longo da leitura, algumas
propostas serão oferecidas (vídeos, indicação de livros, filmes, links de sites), para que
incremente seu estudo.

A Fenomenologia

1. Aproximando-se da Fenomenologia...

1
É notável um interesse cada vez maior pelo estudo da Fenomenologia. Esse tema
começa a ganhar espaço nas faculdades de Psicologia, ainda que discretamente. A busca por
cursos de formação, grupos de estudo e supervisão nessa abordagem vem crescendo aos
poucos. É comum escutar alunos de Psicologia dizendo que não se identificam com os
postulados da Psicanálise, tampouco conseguem reduzir o homem à análise do
comportamento, proposta pelas teorias comportamentais. E nesse contexto, a Fenomenologia
surge como outra possibilidade de compreensão do humano, porém trazendo muitas dúvidas e
questionamentos, uma vez que grande parte do conteúdo dos cursos de graduação enfatiza ora
o olhar psicodinâmico, ora o entendimento cognitivo-comportamental, reservando um espaço
muito pequeno para a Fenomenologia Existencial.

Como podemos entender esse interesse pela Fenomenologia e por que apenas
recentemente ela vem alcançando uma representatividade no mundo acadêmico?

Para respondermos essas questões, teremos que compreender todo o contexto


histórico e cultural no qual a Fenomenologia surge. Essa história remonta ao início do
pensamento ocidental, especificamente com o nascimento da Metafísica 1 em Platão, e sua
consolidação em Descartes, filósofo racionalista do século XVII.

É interessante também buscarmos o entendimento de um período anterior ao


pensamento estruturado da Filosofia, chamado período pré-socrático 2, no qual temos uma
verdadeira riqueza em termos de compreensão de homem e de mundo.

Esse passeio pela História nos permitirá entender a força do pensamento metafísico, o
poder do método científico tradicional, ao qual, justamente, se opõe a Fenomenologia, e o
motivo pela busca da compreensão fenomenológica se constituir em um grande desafio.

Desafio, pois o cenário que se mostra é o seguinte: de um lado temos o método


científico tradicional com toda a sua eficácia e eficiência, baseado na objetividade do real,
fundamentado em relações causais que permitem a mensuração, o controle e a previsibilidade
das ocorrências, agindo na realidade a partir da referência do poder. Do outro, temos a
Fenomenologia, que não se constitui formalmente como uma teoria, mas como um modo

1
Modo característico de pensar que constitui o traço mais marcante da filosofia ocidental, e à medida que
se transformou em paradigma, alicerçou toda uma civilização. Falaremos mais sobre o tema ao longo do
módulo.
2
Para saber mais sobre esse período consulte o livro “Filósofos pré-socráticos. primeiros mestres da
filosofia e da ciência grega”, de Miguel Spinelli, EDIPUCRS, 2003. Disponível no Google Livros.
2
diferente de nos aproximarmos daquilo que queremos investigar, ou seja, um método diferente
para olharmos o mundo, o homem e as relações entre eles estabelecidas.

O que propõe o método fenomenológico é o que iremos abordar agora. Mas antes é
preciso ressaltar que a Fenomenologia não exclui, muito menos descaracteriza, a importância
do método científico tradicional. As ciências naturais, que utilizam esse método, continuam
tendo o seu espaço garantido; o que a Fenomenologia nos apresenta é uma outra possibilidade
de compreensão, principalmente no que diz respeito ao que é peculiarmente humano.

2. O surgimento da Fenomenologia

A Fenomenologia não é uma escola de Filosofia ou de Psicologia propriamente. Ela é


uma espécie de movimento que se desdobra em diversos ramos e que assume diferentes
significados conforme o autor que a utiliza.

Para nosso estudo, é importante entendê-la como um método na busca de


conhecimento do que é propriamente humano, que surge no início do século XX motivado por
uma crítica às ciências naturais 3, uma vez que estas, a partir de seu método científico, se
distanciaram do mundo da vida. Essa pontuação será esclarecida ao longo da apostila.

Atenção! Tal crítica não é dirigida ao caráter científico das ciências naturais, em seu
procedimento metodológico rigoroso e fecundo, mas ao modo como esse procedimento é
utilizado para pensar a existência humana.

Nossa época está tão obcecada pela busca da objetividade científica que se fala da vida
e do homem em blocos teóricos, promovendo uma distância cada vez maior entre o pensar
científico e o viver humano. Nesse cenário, podemos dizer que a Fenomenologia surge com a
proposta de conhecer a realidade, as coisas e o homem, e não conceitos construídos, ideias ou
juízos.

A crítica da Fenomenologia é dirigida, então, ao dogmatismo da Ciência em sua


pretensão de desvendar o mistério do mundo, estabelecendo um conhecimento que define
todas as coisas. Esse é o discurso que abarca o mundo dos objetos, das coisas, da natureza,

3
São as ciências que estudam os aspectos físicos do universo, organizado por leis de origem natural.
3
mas jamais poderá dar conta de definir o homem, que está sempre em construção, sempre
vindo-a-ser.

Essa redução em nome da objetividade é aplicada no universo das ciências naturais –


como a Física, a Química, a Biologia – por motivos práticos, ou seja, a investigação de um
evento físico, por exemplo, só é possível dentro dos moldes da pesquisa científica. O problema
surge quando o objeto da pesquisa é o homem, e ao aplicar o método científico, as abstrações
resultantes dessa pesquisa se tornam autônomas, ou seja, os resultados são mais confiáveis
que o próprio mundo concreto, e se estendem para uma realidade mais ampla, numa espécie
de determinismo universal. Aqui temos o pensar teórico que precede a vivência do humano.

As teorias psicológicas, por exemplo, explicam tudo, porém, na maior parte das vezes,
engessam o homem em rótulos; e esses rótulos dão conta de explicar os sintomas
apresentados e definir uma forma de tratamento para os mesmos. E apenas isso! Mas o que
garante que a explicação de um sintoma, ou a eliminação do mesmo, dará conta de aplacar
uma angústia mais enraizada no modo de ser de uma pessoa? Com o pensar metafísico, ganha-
se poder e perde-se contato com a vida.

Um exemplo: muitas pessoas chegam ao consultório relatando um desconforto muito


grande porque se sentem deprimidas. Elas já chegam com o diagnóstico fechado e o pedido
que geralmente fazem é: “será que você pode me dizer como eu faço para não sentir isso que
estou sentindo.” Conforme o processo psicoterapêutico vai acontecendo, há a possibilidade
dessa pessoa se apropriar de seu sentimento, sem que este esteja inserido em um sistema de
classificação geral – no caso: depressão. E ao olhar para seu sintoma, ela pode identificar
pontos de mudança em seu modo de ser e de agir. Essa pessoa autentica, dessa forma, sua
depressão como sinal de um viver específico, que é o seu viver, e aproxima-se de sua história e
de suas possibilidades de mudanças, responsabilizando-se por suas escolhas.

A contrapartida nesse caso seria embarcar em um discurso científico pronto, que


define “a depressão é...”, e, a partir daí, propor um caminho que deverá ser seguido rumo à
cura (entendida como eliminação do sintoma). Olhando dessa maneira, podemos perceber que
essa atitude restringe esse viver, limita as possibilidades dessa pessoa exercer sua
singularidade.

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Dito de outra maneira, por mais que a depressão possa ser definida cientificamente, de
forma generalizada, a maneira como cada um vive sua depressão, atribuindo significados a
esse estado, encontrando caminhos e ressignificações, é própria em cada caso.

Outro exemplo que deixa claro a impossibilidade de categorizar o que é próprio do


humano: imagine uma pessoa que passa por uma perda de um ente querido que lhe cause um
sofrimento imensurável. Pode uma explicação científica dar conta de aplacar essa dor? Uma
explicação teórica seria suficiente para diminuir esse sofrimento? Talvez, nesse momento, um
poema possa ajudar muito mais, não no sentido de acabar com a dor, mas abrindo uma
possibilidade de contato diferente com essa perda.

Aqui começamos a entrar na proposta da Fenomenologia, que é buscar um contato


direto e imediato com as coisas, na forma como elas se apresentam, sem a mediação de um
pensamento teorizado, reduzido na forma de ciência. Falaremos mais sobre isso.

3. Contexto Histórico – da metafísica ao pensar fenomenológico

Já dissemos que a Fenomenologia surge como uma crítica ao método das ciências
naturais aplicado à condição humana. Para entendermos melhor o que isso significa,
precisamos ter claras as bases que fundamentam o método científico, o que é o pensar
metafísico, e de que modo esse contexto favoreceu o surgimento de um pensar
fenomenológico.

As ciências naturais – Geografia, Biologia, Química, Física, etc. – estudam os fatos da


natureza, pautando-se nos critérios de neutralidade e objetividade que compõem o método
experimental.

Levanta-se uma hipótese que será ou não comprovada cientificamente a partir da


manipulação de variáveis estudadas em laboratório e, por fim, são formuladas leis gerais que
expliquem aqueles fatos.

Existe aqui a divisão muito clara entre sujeito que estuda e objeto que é estudado.
Encontramos aqui uma dicotomia, e com isso um problema de ordem prática: como pensar o
homem enquanto objeto de estudo, dentro desse âmbito, sendo ele mesmo o sujeito que
busca esse conhecimento?
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Por toda a tradição histórica que constituiu o pensamento metafísico, as ciências
naturais impõem seu método como aquele capaz de estudar o homem, dando a esse estudo o
rigor científico.

Mas o que é metafísica e como ela foi consolidada como modelo de pensamento do
mundo ocidental?

O que chamamos de metafísica é um modelo geral que vigora desde Platão até a
modernidade. É como se existisse um acordo básico que fundamenta o conhecimento nesse
intervalo histórico, do século V a.C. aos dias de hoje. E por que esse modelo básico é chamado
de metafísica? E qual é a natureza desse modelo básico?

A natureza desse modelo é constituída pela ideia fundamental de que aquilo que deve
ser objeto do conhecimento deve ser necessariamente algo imóvel, imutável. A ideia de
mobilidade é uma ideia que se opõe à ideia do conhecimento a partir do seguinte enunciado:
se a realidade que funcionará amanhã for completamente diferente da realidade que estou
estudando hoje, o que adianta eu estudar o que está acontecendo hoje, se amanhã isso será
outra coisa completamente diferente? Para que o conhecimento tenha sentido, para que ele
seja útil, é necessário que o seu objeto de estudo permaneça constante ao longo do tempo,
isto é, quando uma lei é enunciada, ela deve permanecer válida em qualquer momento do
tempo. Um exemplo disso é a lei de gravitação universal de Newton – ela é o enunciado de um
princípio que funciona para todos os corpos do universo conhecido, em todos os momentos do
tempo. Essa lei é o exemplo de lei universal que a ciência procura, por excelência, porque ela
não se move, ela é estática, eterna, absoluta, imutável.

Vamos caminhar um pouco pela História da Filosofia, para entendermos como o


conhecimento foi construído a partir do fundamento metafísico.

Em Platão, filósofo grego do período clássico, encontramos o conceito de eidos. Para


esse filósofo, o conhecimento a respeito das coisas reais, sensorialmente apreendido, é um
conhecimento extremamente precário, pois as coisas estão mudando o tempo todo. De certa
forma, nada que possa ser apreendido pelos sentidos tem o caráter de imobilidade. Então, não
posso construir um conhecimento seguro a partir dos sentidos, mas posso buscar a partir daí
uma instância perfeita e imutável, chamada eidos, que é a ideia ou a essência daquilo que está
manifestado no ente empírico. Ou dito em outras palavras, seria o modelo eterno de cada

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coisa apreendida pelos sentidos. O conhecimento verdadeiro vai pertencer ao mundo das
ideias, ao mundo dos conceitos.

Aristóteles, aluno de Platão e criador do pensamento lógico, que era mais pragmático,
dizia: “não existe conhecimento do particular”. Se uma pessoa diz que conhece muito bem
determinada mesa, por exemplo, não tem conhecimento, porque conhecer “esta mesa” não
serve para nada, mas uma pessoa que conhece mesa, a categoria mesa, esse sim pode dizer
que tem um conhecimento universal. O conhecimento legítimo é o conhecimento dos
universais, das categorias.

Nesse sentido, um psicoterapeuta que conhece muito bem o modo de ser do “Fulano
de tal”, só pode ser psicoterapeuta do “Fulano de tal” e de mais ninguém, porque ele tem o
conhecimento particular, e não tem como generalizar esse conhecimento, porque não é um
conhecimento estável.

A palavra metafísica traduz essa idéia – meta: além Então: além do que está dado, além
da física. A referência metafísica só vai trabalhar com conceitos.

Em suma, podemos dizer que a metafísica é o conhecimento que partiu de uma


abstração do sensório. E conhecer significa a busca de verdades absolutas, universais, fixas.

Se para Platão os sentidos apreendem os entes em sua transitoriedade, e por esse


motivo não é possível chegar a um conhecimento verdadeiro através dessa via, era justamente
assim que os pré-socráticos, os primeiros pensadores de nossa história, entendiam o
conhecimento, e eles não tinham problemas com isso. Para eles, o conhecimento se dá na
transitoriedade.

A ideia de verdade para os pré-socráticos estava inscrita na palavra ALETHEIA.

A= descobrimento

= DESVELAMENTO

LETHEIA= cobrir

Verdade entendida como aletheia significa algo que se revela e se cobre, aparece e
volta a desaparecer. Verdade é esse movimento! Nunca é algo estático. Sempre um cobrir

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que descobre, uma descoberta que volta a se cobrir. É interessante termos em mente a
verdade como movimento, verdades que são desveladas, nunca estáticas, nunca absolutas.

Para os primeiros pensadores, a verdade era aletheia e não havia aqui nenhum
compromisso com a estabilidade. Seguindo o curso da história, em Platão a verdade se torna
ORTHÓTES (que significa exatidão, permanência).

Além dessa mudança na concepção de ‘Verdade’, temos a mudança na compreensão


de ‘Ser’, contribuindo de forma significativa para o surgimento da metafísica.

Vamos entender melhor o que estamos denominando como mudança na


compreensão de Ser:

Ao retornarmos ao século VI a.C., encontraremos o espanto e a indagação dos


primeiros pensadores gregos sobre o que constituiria o ser do real, o ser das coisas. A este ser
do real eles davam o nome de PHYSIS.

Portanto, PHYSIS era o nome dado para tudo o que encantava os pensadores gregos a
sua volta: era aquela força que fazia com que tudo brotasse, conservasse e desaparecesse.

Eles viam a presença da PHYSIS em todos os setores do real, não só na natureza, mas
também no pensamento, nas ações e até nos sentimentos humanos.

O homem estava imerso no movimento de impermanência do real. Eles entendiam que


tudo, absolutamente tudo, tinha prazo de validade. Desde a flor que brotava no canteiro do
jardim, até os relacionamentos, os sentimentos, enfim, absolutamente tudo!

Dando um salto para a Antiguidade, época dos grandes filósofos gregos – Sócrates,
Platão, Aristóteles – quando nasce a Filosofia em termos de um pensar mais organizado, a
grande preocupação nesse momento, e que funda o nosso pensamento ocidental, continua
sendo a apreensão do que faz o real ser aquilo que ele próprio é. Ou seja, o que dá
consistência ao real?

“Bom, isso que faz o real ser o que ele é só pode ser algo permanente, imutável!”,
pensavam eles. Sendo assim, não pode estar nesse mundo sensível, onde as coisas perecem,
são inconstantes. Esses pensadores dividem, então, a realidade em dois âmbitos.

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Um é o mundo sensível, apreendido pelos sentidos (visão, audição, paladar, olfato e
tato) onde tudo que há nele é passageiro, se desfaz, se esgota. O outro é um mundo
suprassensível, é o mundo das ideias, o mundo universal, que é permanente, constante.

Com isso, eles transformam a PHYSIS em IDEA para expressar tudo aquilo que é
imutável, permanente, absoluto, portanto, digno de ser concebido como conhecimento.

Para ampliar nossa compreensão, sugiro a leitura do Mito da Caverna, escrito por
Platão. Esse texto encontra-se na obra A República (livro VII). É o diálogo de Sócrates com
Glauco e Adimanto (irmãos mais novos de Platão) discutindo o processo de conhecimento,
mostrando a visão de mundo do ignorante, que vive no senso comum, e do filósofo, em sua
eterna busca pela verdade. Nesse mito, percebemos claramente a divisão do mundo,
privilegiando o plano suprassensível, referente ao mundo das ideias (aquilo que está fora da
caverna), considerado a morada das verdades absolutas, em detrimento do plano sensível,
concreto (o fundo da caverna), considerado o senso-comum.

Sócrates – Agora imagina a maneira como segue o estado da nossa


natureza relativamente à instrução e à ignorância. Imagina homens
numa morada subterrânea, em forma de caverna, com uma entrada
aberta à luz; esses homens estão aí desde a infância, de pernas e
pescoços acorrentados, de modo que não podem mexer-se nem ver
senão o que está diante deles, pois as correntes os impedem de voltar
a cabeça; a luz chega-lhes de uma fogueira acesa numa colina que se
ergue por detrás deles; entre o fogo e os prisioneiros passa uma
estrada ascendente. Imagina que ao longo dessa estrada está
construído um pequeno muro, semelhante às divisórias que os
apresentadores de títeres armam diante de si e por cima das quais
exibem as suas maravilhas.

Glauco – Estou vendo.

Sócrates – Imagina agora, ao longo desse pequeno muro, homens que


transportam objetos de toda espécie, que os transpõem: estatuetas de
homens e animais, de pedra, madeira e toda espécie de matéria;
naturalmente, entre esses transportadores, uns falam e outros seguem
em silêncio.

Glauco - Um quadro estranho e estranhos prisioneiros.

Sócrates - Assemelham-se a nós. E, para começar, achas que, numa


tal condição, eles tenham alguma vez visto, de si mesmos e de seus
companheiros, mais do que as sombras projetadas pelo fogo na
parede da caverna que lhes fica defronte?

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Glauco - Como, se são obrigados a ficar de cabeça imóvel durante
toda a vida?

Sócrates - E com as coisas que desfilam? Não se passa o mesmo?

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Portanto, se pudessem se comunicar uns com os outros,


não achas que tomariam por objetos reais as sombras que veriam?

Glauco - É bem possível.

Sócrates - E se a parede do fundo da prisão provocasse eco sempre


que um dos transportadores falasse, não julgariam ouvir a sombra
que passasse diante deles?

Glauco - Sim, por Zeus!

Sócrates - Dessa forma, tais homens não atribuirão realidade senão


às sombras dos objetos fabricados?

Glauco - Assim terá de ser.

Sócrates - Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se


forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que
se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-
se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos
para a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o
deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via
as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que
não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da
realidade e voltado para objetos mais reais, vê com mais justeza? Se,
enfim, mostrando-lhe cada uma das coisas que passam, o obrigar, à
força de perguntas, a dizer o que é? Não achas que ficará
embaraçado e que as sombras que via outrora lhe parecerão mais
verdadeiras do que os objetos que lhe mostram agora?

Glauco - Muito mais verdadeiras.

Sócrates - E se o forçarem a fixar a luz, os seus olhos não ficarão


magoados? Não desviará ele a vista para voltar às coisas que pode
fitar e não acreditará que estas são realmente mais distintas do que
as que se lhe mostram?

Glauco - Com toda a certeza.

Sócrates - E se o arrancarem à força da sua caverna, o obrigarem a


subir a encosta rude e escarpada e não o largarem antes de o terem
arrastado até a luz do Sol, não sofrerá vivamente e não se queixará
de tais violências? E, quando tiver chegado à luz, poderá, com os
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olhos ofuscados pelo seu brilho, distinguir uma só das coisas que ora
denominamos verdadeiras?

Glauco - Não o conseguirá, pelo menos de início.

Sócrates - Terá, creio eu, necessidade de se habituar a ver os objetos


da região superior. Começará por distinguir mais facilmente as
sombras; em seguida, as imagens dos homens e dos outros objetos
que se refletem nas águas; por último, os próprios objetos. Depois
disso, poderá, enfrentando a claridade dos astros e da Lua,
contemplar mais facilmente, durante a noite, os corpos celestes e o
próprio céu do que, durante o dia, o Sol e sua luz.

Glauco - Sem dúvida.

Sócrates - Por fim, suponho eu, será o sol, e não as suas imagens
refletidas nas águas ou em qualquer outra coisa, mas o próprio Sol,
no seu verdadeiro lugar, que poderá ver e contemplar tal qual é.

Glauco - Necessariamente.

Sócrates - Depois disso, poderá concluir, a respeito do Sol, que é ele


que faz as estações e os anos, que governa tudo no mundo visível e
que, de certa maneira, é a causa de tudo o que ele via com os seus
companheiros, na caverna.

Glauco - É evidente que chegará a essa conclusão.

Sócrates - Ora, lembrando-se de sua primeira morada, da sabedoria


que aí se professa e daqueles que foram seus companheiros de
cativeiro, não achas que se alegrará com a mudança e lamentará os
que lá ficaram?

Glauco - Sim, com certeza, Sócrates.

Sócrates - E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem


recompensas para aquele que se apercebesse, com o olhar mais vivo,
da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que
costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas,
e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que
provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são
venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não
preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a
voltar às antigas ilusões e viver como vivia?

Glauco - Sou de tua opinião. Preferirá sofrer tudo a ter de viver dessa
maneira.

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Sócrates - Imagina ainda que esse homem volta à caverna e vai
sentar-se no seu antigo lugar: Não ficará com os olhos cegos pelas
trevas ao se afastar bruscamente da luz do Sol?

Glauco - Por certo que sim.

Sócrates - E se tiver de entrar de novo em competição com os


prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, para julgar
essas sombras, estando ainda sua vista confusa e antes que seus olhos
se tenham recomposto, pois habituar-se à escuridão exigirá um tempo
bastante longo, não fará que os outros se riam à sua custa e digam
que, tendo ido lá acima, voltou com a vista estragada, pelo que não
vale a pena tentar subir até lá? E se alguém tentar libertar e conduzir
para o alto, esse alguém não o mataria, se pudesse fazê-lo?

Glauco - Sem nenhuma dúvida.

Sócrates - Agora, meu caro Glauco, é preciso aplicar, ponto por


ponto, esta imagem ao que dissemos atrás e comparar o mundo que
nos cerca com a vida da prisão na caverna, e a luz do fogo que a
ilumina com a força do Sol. Quanto à subida à região superior e à
contemplação dos seus objetos, se a considerares como a ascensão da
alma para a mansão inteligível, não te enganarás quanto à minha
idéia, visto que também tu desejas conhecê-la. Só Deus sabe se ela é
verdadeira. Quanto a mim, a minha opinião é esta: no mundo
inteligível, a idéia do bem é a última a ser apreendida, e com
dificuldade, mas não se pode apreendê-la sem concluir que ela é a
causa de tudo o que de reto e belo existe em todas as coisas; no
mundo visível, ela engendrou a luz; no mundo inteligível, é ela que é
soberana e dispensa a verdade e a inteligência; e é preciso vê-la para
se comportar com sabedoria na vida particular e na vida pública.

Glauco - Concordo com a tua opinião, até onde posso compreendê-la.

(Platão, A República, v. II p. 105 a 109)

E aqui temos o nascimento da metafísica, que encontrará seu ponto máximo em


Descartes, quando o filósofo funda o homem enquanto cogito, em sua célebre conclusão:
“penso, logo existo”, separando radicalmente sujeito que estuda e objeto a ser estudado. A
questão que se levanta é que tanto sujeito quanto objeto referem-se ao homem, e para que
haja o “progresso das ciências”, o homem deve, necessariamente, ser dividido em res cogitans4
e res extensa5.

Então, o pensamento metafísico, que se instala com Platão e atinge seu apogeu em
Descartes, não é o pensamento mais original, pois a experiência de “ser” é anterior a todas as
4
Res Cogitans: razão, alma, coisa pensante. MENTE
5
Res Extensa: realidade material, coisa extensa. CORPO
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formulações que tentam aprisioná-lo em categorias. A preocupação do homem para
compreender “ser”, para compreender o que as coisas são, o que faz algo ser o que é, aparece
já nos poemas de Homero e com os sábios gregos pré-socráticos, os quais buscaram responder
essa pergunta de uma maneira mais simples.

Depois de Platão, podemos dizer que o pensar tornou-se mais sofisticado, mais
poderoso – dizia-se, por exemplo, que só é possível acessar a verdade aquele que pensa
epistemicamente. Sem dúvida, quando surge a Filosofia, com Platão, o pensamento torna-se
mais poderoso, porém mais restrito. Vamos exemplificar isso recorrendo à linguagem
metafórica. O pensamento que chamamos de “original” 6 representa a luz do sol, enquanto o
pensamento metafísico é representado pelo raio laser – um fio de luz que incide numa placa de
metal, chegando a furá-la, enquanto todo resto fica escuro. É claro que o raio laser tem o poder
de furar a placa de metal, mas em contrapartida o sol tem condições de iluminar uma área
muito maior, diferente da escuridão deixada pelo raio laser. Enquanto o laser nos garante a
precisão, os raios solares desvelam muito mais a beleza do mundo da vida.

Aqui, encontramos novamente a ideia imperativa do poder ocupando cada vez mais
espaço e colocando em um plano secundário a questão do contato com o mundo da vida.

Ainda seguindo o mesmo raciocínio, temos o exemplo da Medicina, que foi se


aprimorando cada vez mais em seu conhecimento e tecnologia, fazendo surgir infinitas
especialidades desta ciência. O médico, então, forma-se especialista em tal área, e qualquer
outra questão, apresentada por seu paciente, que fuja de seu âmbito de atuação, rapidamente
providencia-se o encaminhamento para outro especialista. O médico de família chega a ser
uma figura lendária! Veja bem, não estamos desprezando todos os benefícios que desfrutamos
em decorrência dessa evolução – a cura de muitas doenças antes letais, os tratamentos cada
vez mais eficientes, que garantem qualidade de vida – mas queremos mostrar como a
realidade vai ficando cada vez mais compartimentada, fragmentada. O homem-paciente já não
é mais para o homem-médico uma unidade, mas ele é um sistema ou um órgão, e sua
especialidade profissional o permite tratar apenas dessa pequena parte do corpo humano.
Mas como podemos pensar o homem como sendo nós mesmos, sem o reducionismo
metafísico, que media o entendimento do ser humano através de teorias? Como o homem
pode ter um contato mais direto com o mundo, sem que seja através desse pensar teorizado,
reduzido na forma de ciência?

6
Pensamento anterior ao pensamento metafísico.
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E por que o pensamento metafísico é tão presente e forte em nosso dia-a-dia? Por que
ele caracteriza tão bem a sociedade ocidental?

Bom, tomando a existência como algo que é mutável, dinâmico, finito, podemos dizer
que nossa base existencial é areia movediça – usando novamente a linguagem metafórica! E o
pensamento metafísico nos coloca à margem do rio. O rio é a existência que corre, que muda,
e nós nos sentimos seguros na margem, apenas observando e concluindo, observando e
criando teorias sobre o rio-existência.

Sabemos que a vida é uma coisa perigosa, por isso precisamos de tantas explicações –
para nos acalmar, para nos dar segurança. Precisamos entender tudo, pois entender é
controlar. E esse controle é oferecido pelo pensamento metafísico.

Enfim, são essas as questões principais que precisam ser levantadas, para que
possamos entender a proposta de Husserl ao apresentar a Fenomenologia como uma nova
forma de olhar e compreender o homem e a vida.

4. Husserl – o pai da Fenomenologia

Edmund Husserl (1859 - 1938) é considerado o pai da Fenomenologia. Iniciou sua


carreira como matemático, mas gradualmente seu interesse por questões filosóficas se
sobrepôs. Husserl estava interessado na questão do conhecimento, e se fazia a pergunta:
“como se dá o conhecimento?”.

Acabamos de apontar mudanças importantes na forma de compreender o homem e o


mundo que se deram ao longo da história do pensamento ocidental. Essas mudanças
consolidaram o pensar metafísico, que encontra seu auge no pensamento de Descartes, que
abre caminho para todo o desenvolvimento das ciências e da tecnologia, presente de forma
inegável e indispensável em nossos dias.

O cenário daquele momento era formado, então, pela consolidação da metafísica e um


grande fascínio com o progresso das ciências. E foi justamente esse cenário que mobilizou
Husserl a pensar na Fenomenologia.

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Husserl queria criar uma Filosofia de rigor, pois ele percebeu que a Filosofia estava
caindo no descrédito por causa do aparecimento das ciências autônomas (Psicologia,
Sociologia, Antropologia...), aparecimento, este, favorecido pela visão de mundo dividido pelo
pensamento metafísico. Todas essas ciências surgem da Filosofia, mas cometem o “matricídio”,
pois se distanciam da matriz. Observação: no final dessa apostila, indico alguns livros para
ampliação dos seus estudos, e um deles é “Psicologia - uma (nova) introdução”, de Luis Claudio
M. Figueiredo e Pedro Luiz R. de Santi. Ele retrata o surgimento da Psicologia como ciência
independente, dentro do contexto aqui relatado. É bem interessante!

Justamente ao querer resgatar o rigor da Filosofia, Husserl cria a Fenomenologia. A


Fenomenologia surge como um método que traz a preocupação com a construção do
conhecimento. Para o pensamento ocidental, a compreensão de mundo está dividida em
mundo sensível e mundo suprassensível, sendo que o conhecimento verdadeiro se encontra no
âmbito do suprassensível, sendo – portanto - um conhecimento que habita o abstrato,
distanciando-se da apreensão sensível (aquela que eu obtenho pela via sensorial, meus cinco
sentidos – visão, audição, paladar, olfato e tato).

A partir da modernidade, pós Descartes, várias tendências teóricas em conceber o


conhecimento foram surgindo.

Citarei duas dessas tendências, por serem mais significativas para nosso entendimento:

A primeira tendência é chamada Idealismo. O que sustenta o conhecimento a partir


dessa forma de pensar é um intelecto já equipado, que independe da experiência. O pensar
ganha ênfase na construção do conhecimento. Temos como representante dessa corrente o
filósofo René Descartes (1596 - 1650).

A segunda tendência é o Empirismo, que postula o seguinte: temos que chegar às


coisas em si, eliminando toda subjetividade do processo de construção do conhecimento. O
pensamento precisa ser domesticado, e a ênfase é posta na experiência, a partir da apreensão
sensível da experiência. Como representante dessa tendência, temos o filósofo John Locke
(1632 - 1704).

Essas duas tendências ganharam, no séc. XVIII, uma mudança com Immanuel Kant
(1724-1804), filósofo alemão, grande expoente da era moderna. Ele propôs a síntese dessas
duas tendências. Dizia Kant: “é claro que há apreensão sensível, ou seja, uma percepção. E o

15
homem já tem em si uma estrutura transcendental que comporte essa apreensão, portanto
além da experiência, tem, por exemplo, as noções de espaço, tempo, lógica, causa-efeito... e é
nessa síntese que o fenômeno se dá. O fenômeno não é a coisa em si, porque nada existe fora
da relação com o sujeito que a conhece. Todo conhecimento é uma relação entre o sujeito e as
coisas”.

Fenômeno, para Kant, seria a síntese da apreensão sensível e da organização que


faço no meu intelecto, atribuindo uma nomeação.

Com o tempo, essa síntese foi se dando em vários níveis e em diferentes perspectivas –
por exemplo: sociológica, biológica, antropológica, psicológica...

Vamos tomar como exemplo um caso de assassinato cometido por um jovem. É


possível olhar para esse fenômeno a partir de diversas perspectivas de entendimento:

- psiquiátrica: o jovem tem um transtorno de personalidade ou é um psicopata;

- social: esse jovem nada mais é do que fruto do meio;

- biológica: há uma disposição genética que justifica esse comportamento;

- psicológica: é um jovem que sofreu fortes traumas em sua infância.

Todas essas múltiplas perspectivas reivindicam para si a verdade, e aqui temos


instalada a crise das ciências autônomas. Esse movimento de querer defender cada qual a sua
verdade, gerou diferentes maneiras de ver o real, e um real dividido em pedacinhos.

Husserl vai dizer que o pensamento está muito poluído por todo esse recorte
interpretativo múltiplo, e será preciso voltar às coisas mesmas. Porém, voltar às coisas
mesmas não é voltar à coisa em si, como no Empirismo, porque a coisa em si não existe. As
coisas são sempre já para um olhar. É o homem que interpreta as coisas. Não existe nada sem o
olhar interpretativo do homem lançado sobre a coisa, ou dito mais uma vez:

Não há nada fora da relação homem-mundo!

A Fenomenologia surge não só como crítica ao método natural, mas, também como
uma purificação do pensar, para que se volte para aquilo que é próprio do fenômeno. O “voltar

16
às coisas mesmas” abre a perspectiva de um olhar despoluído, pois a Fenomenologia se pauta
no respeito ao modo de apresentação das coisas. Em vez de suposições, as coisas são tomadas
como estão. O que interessa é a presença da coisa, o que aparece e não a coisa em si.

Husserl chega a algumas importantes descobertas, sendo a mais importante e ainda


em vigor a intencionalidade da consciência.

A consciência é caracterizada pela intencionalidade porque é sempre consciência de


alguma coisa. A consciência é intencional, isto é, um movimento de transcendência em direção
ao objeto, e o objeto se dá ou se apresenta à consciência “em carne e osso” ou
“pessoalmente”. Um objeto intencional é algo para o qual minha mente está direcionada – a
palavra latina intendere quer dizer “dirigir-se a”. Michael Inwood no verbete dedicado à
Fenomenologia de Husserl, em seu Dicionário Heidegger7 afirma: “Um objeto intencional é algo
para o qual minha mente está direcionada. (...) ele não precisa ser real: posso sonhar com
unicórnios ou com Sherlock Holmes. Um objeto real, em contrapartida, não precisa ser objeto
intencional de ninguém. Pode haver coisas sobre as quais nunca ninguém pensou nem
pensará”.

Consciência e objeto nunca foram separados. A conexão entre consciência e objeto é


uma questão de conexão, ou seja, algo que é significativo afeta o meu campo de percepção e
deixa de ser indiferente. Tal coisa passa a ser, para mim, objeto de atenção.

A Fenomenologia não vai trabalhar com dados. Ela precisa entrar no campo do vivido
para ser fenômeno.

E como a Psicologia se articula diante disso?

A Psicologia começa a surgir enquanto ciência independente, buscando exatamente o


rigor científico das Ciências Naturais. Os primeiros psicólogos, seguindo a tendência naturalista,
aplicaram o método das ciências naturais às ciências humanas, deixando de lado as
preocupações de caráter filosófico.

A Psicologia surge como ciência na Alemanha, relacionada com as questões


psicofísicas. Destaque para nomes como: Wundt (1832-1920), Pavlov (1849-1936), Thorndike
(1874-1949), Titchener (1867-1927), Watson (1878-1958), Skinner (1904-1990), todos eles

7
Inwood, Michael. Dicionário Heidegger. Editora Jorge Zahar, 2002.
17
trabalhando com a chamada Psicologia Comportamental ou Behaviorismo, que tinha como
objeto de estudo o comportamento observável. Falaremos mais sobre isso adiante.

Porém, já sabemos que o método científico das ciências naturais não é capaz de
atender às especificidades das ciências humanas e das ciências sociais. A Fenomenologia, como
foi dito, surge para resolver esse impasse.

Podemos dizer que a Fenomenologia de Husserl começa a falar da necessidade de uma


nova Psicologia. Através da Fenomenologia há a contestação de caráter epistemológico das
ciências humanas em geral, mas com um peso muito grande na Psicologia, pois para Husserl a
Psicologia estava para as ciências humanas assim como a Física estava para as ciências naturais.
Ela seria a ciência fundamental, de onde todas as outras ciências humanas deveriam surgir.
Esse foi o projeto iniciado por Husserl, porém sem uma conclusão, pois Husserl não conseguiu
chegar a uma nova Psicologia, apenas preparou um caminho fecundo para que ela possa surgir.

Segundo Tommy Akira Goto 8, “A psicologia fenomenológica, concedida por Edmund


Husserl, é uma nova disciplina que pretende ser um fundamento metodológico sobre o qual se
pode erguer uma psicologia cientificamente rigorosa. Husserl, rejeitando todo cientificismo
naturalista e procurando fundar uma filosofia rigorosa, deparou com a necessidade de fundar
uma psicologia racional, pura e não experimental no estudo da subjetividade. Diante disso,
passou a elaborar uma psicologia fenomenológica dentro da fenomenologia filosófica,
possibilitando, anos mais tarde, a formação de uma nova abordagem na ciência psicológica: a
abordagem fenomenológica”.

Ainda segundo o autor supracitado, encontramos no Brasil muitas psicologias


fenomenológicas e muitas vertentes de Psicologia que se classificam como fenomenológicas ou
fenomenológico-existenciais, apresentando, em seu corpo teórico, diferentes maneiras de fazer
Psicologia, tanto na pesquisa quanto na psicoterapia. Por isso, ele nos atenta para o fato de que
em muitos casos falta um embasamento na Fenomenologia Filosófica de Husserl.

Por isso, se quisermos entender a Psicologia Fenomenológica é importante um


cuidadoso estudo do caminho em que Husserl descreveu a Fenomenologia em relação à
Psicologia, ou mais precisamente, como o próprio Husserl chamou este estudo de Psicologia
Fenomenológica. Dito de outra maneira, para pensarmos genuinamente em uma Psicologia

8
Goto, Tommy Akira. Introdução à Psicologia Fenomenológica – a nova Psicologia de Husserl. – São
Paulo: Paulus, 2008.
18
Fenomenológica temos que ir à própria Fenomenologia Filosófica e compreendê-la em face da
Psicologia. Uma ótima leitura, que eu indico para este estudo, é o livro de Tommy Akira Goto,
chamado “Introdução à Psicologia Fenomenológica – a nova Psicologia de Edmund Husserl”, da
editora Paulus, 2008. Mandarei o texto do primeiro capítulo, porém recomendo a leitura
integral do livro.

5. Noções Centrais da Fenomenologia

Veremos, a seguir, as noções mais significativas da fenomenologia que constituem o


seu arcabouço de concepções sobre o qual ela alicerça o seu olhar. Abordaremos questões
como realidade, consciência, conhecimento, método, entre outros, e perceberemos aos
poucos o caminho que ela pretende promover: esse retorno do mundo teórico para o mundo
vivido.

a) O que significa Fenomenologia?

A expressão “Fenomenologia” é originada de duas palavras gregas: phainómenon e


logos. O substantivo phainómon vem do verbo phainesthai, que significa mostrar-se, cuja voz
média é phaino, trazer algo para luz do dia, pôr no claro. Phaino, por sua vez, pertence à raiz
pha como, por exemplo, phôs, a luz, a claridade, isto é, o elemento, o meio em que alguma
coisa pode vir a se revelar e a se tornar visível em si mesma.

Juntando essas particularidades da língua grega, a expressão fenômeno significa,


então, aquilo que se revela, que se mostra em si mesmo. Segundo o filósofo Heidegger, que se
apropriou do método fenomenológico na construção de uma ontologia fundamental, o
fenômeno pode se mostrar de muitas maneiras, segundo os vários modos de acesso a ele.
Nesse seu caráter de manifestação, o fenômeno poderia, então, aparecer de três maneiras:

1) mostrar o que é, ou seja, aquilo que vemos na coisa que se apresenta é a expressão
de sua própria essência (temos, então, um momento de desvelamento),

2) paracer-ser, ou seja, faz a coisa parecer ser o que não é (simulação) ou, ainda,

3) ocultar o que é, ou seja, mostra a coisa escondendo, porém, aquilo que ela
realmente é (camuflagem).

19
A segunda palavra, logos, tem seu significado básico de discurso (fala, dizer) que deixa
ver ou faz ver aquilo sobre o que se discorre de tal maneira que o torne acessível aos outros.

Deste modo, a expressão fenomenologia significa, então, deixar e fazer ver por si
mesmo aquilo que se mostra, tal como mostra a partir de si mesmo.

Fenomenologia é captar a experiência, da forma tal como ela foi vivida. Por exemplo:
duas pessoas que estão diante de uma obra de arte, terão diferentes reações – uma pode ficar
muito emocionada com sensações agradáveis, pois identifica nessa obra aspectos de sua
infância a qual foi vivida de forma prazerosa. A outra se sente incomodada, pois olhar para tal
obra traz à tona sentimentos angustiantes. Perceba: é a mesma obra de arte – fato – sendo
experimentada por duas pessoas diferentes e cada uma pode falar de sua experiência singular
– o fenômeno.

Vamos pensar em outro exemplo: duas pessoas estão conversando em uma varanda,
quando a terceira pessoa chega e se depara com essa cena. As duas pessoas, a varanda, a
conversa e a chegada da terceira pessoa são fatos, inquestionáveis. Já a percepção de cada
pessoa presente na varanda, em relação à chegada de uma terceira, assim como a percepção
dessa pessoa ao se deparar com as demais conversando, são fenômenos. Cada um dos
envolvidos irá fazer a leitura e entender a situação de sua própria maneira.

O fenômeno pode ser definido, entretanto, como uma tradução vivencial que o
indivíduo faz dos fatos. Ou seja, a maneira como este fato é vivenciado pelo indivíduo. E aí
incluem-se as significações e avaliações que o indivíduo atribui a estes fatos.

Podemos dizer ainda, para um entendimento final, que o Fenômeno é uma percepção
da realidade, é a tomada de consciência que um indivíduo tem de um fato, atribuindo-lhe um
significado. É através deste significado que o indivíduo vai reagir diante do fato.

b) Lema da fenomenologia: “voltar às coisas mesmas”

Esta expressão de Husserl – que se refere ao propósito fundamental da fenomenologia


– não se identifica com o voltar para uma realidade exterior, objetal, próprio da atitude
científica, nem voltar-se para dentro de si, para o interior da consciência, a um subjetivismo. Já
dissemos, justamente, que a fenomenologia surge rompendo essa dicotomia.
20
O que significa, então, voltar às coisas mesmas?

Segundo Merleau-Ponty9 (1908-1961), é voltar para este mundo prévio a todo


conhecimento, do qual o conhecimento fala sempre e com relação ao qual toda determinação
científica é abstrata, derivada e dependente, assim como a geografia o é com relação à
paisagem onde aprendemos, de início, o que é uma floresta, um campo, um riacho. Em outras
palavras, é a volta ao mundo, anterior à reflexão, isto é, ao mundo da vida, sobre o qual o
universo representativo, lógico, conceitual da ciência é construído.

c) Intencionalidade

Se a Fenomenologia não se volta para o objetivismo da ciência, nem para o


subjetivismo da consciência, para onde ela se volta, então? Existe, ainda, uma outra
possibilidade?

Sim. A Fenomenologia se volta para aquela possibilidade primordial do mundo vivido,


ou seja, voltar para este mundo prévio a todo conhecimento, antes de ser separado pela lógica
dualista. De fato, como vimos, especialmente desde o início da Idade Moderna, houve uma
disputa entre as escolas filosóficas sobre o primado ou o privilégio de um dos lados da
dicotomia “sujeito-objeto”: o primado do sujeito ou da consciência no Idealismo (séc. XIX); de
outro lado, o primado do objeto no Empirismo (séc. XVII). Nesse sentido, podemos dizer que o
conhecimento sempre foi um esforço para separar a consciência do objeto.

Husserl devolve a unidade do conhecimento ao proclamar o princípio de


intencionalidade – do latim intêndere: ato de tender, pender, dirigir-se para. Esse princípio diz o
seguinte: a consciência é sempre “consciência-de-alguma-coisa”, e ela só é consciência
estando dirigida-para-um-objeto. Por sua vez, todo objeto só pode ser captado, compreendido
em sua relação com a consciência, ou seja, ele é sempre um “objeto-para-uma-consciência”.
Consciência-objeto estão sempre ligados por meio de atos intencionais da consciência. Isto não
quer dizer que o objeto esteja contido na consciência como se estivesse dentro de uma caixa,
mas que ele só tem sentido de objeto para uma consciência.

Se o objeto é, portanto, sempre um objeto-para-uma-consciência, ele jamais será


objeto em si, mas objeto-percebido, objeto-pensado, amado, desprezado, imaginado, odiado,
etc. Consciência e objeto não são, com efeito, duas entidades separadas na natureza que, em

9
Filósofo Frances.
21
um dado momento, colocar-se-iam em relação, mas consciência e objeto se definem
respectivamente a partir dessa co-relação que lhes é, de alguma maneira, co-original. Se
consciência é sempre “consciência de alguma coisa”, é impossível que possamos sair dessa co-
relação, já que fora dela não haveria nem consciência, nem objeto.

Ora, esta unidade, este todo de consciência e objeto, é justamente aquilo que Husserl
entende por Fenômeno. Não foi o filósofo que inventou isso. Na verdade, em nossa vida
concreta, em nossas experiências vividas, nunca nos encontramos primeiramente com dados,
objetos, mas com fenômenos, uma vez que os nossos atos intencionais nos conectam a eles de
um modo envolvente, afetivo, tal como eles se apresentam a nós em nossas experiências
vividas.

Assim se encontra circunscrita, então, a tarefa de análise fenomenológica: elucidar a


essência dessa co-relação (consciência-objeto), na qual não somente aparece tal ou qual
objeto, mas todos os atos intencionais da consciência, o que significa um mundo, não o mundo
em si, mas muitos mundos humanos.

Este último aspecto nos leva à questão de saber se os atos intencionais são apenas
individuais, nunca universais, e se isso inviabilizaria qualquer possibilidade de haver dois
mundos humanos comuns. Sobre isso a fenomenologia diz que há, pelo menos, três níveis de
mundo entre os homens:

1) Mundo com significados evidentes para todos, quando se trata do mundo


quantitativo e neste caso podemos falar até de universalidade;
2) Mundo com significados comuns em que abrange um grande número de pessoas,
geralmente ligados a uma comunidade com valores e cultura próximos e, ainda;
3) Mundo com significados singulares, ou seja, são únicos, exclusivos de cada pessoa.

Em todos os atos intencionais da consciência, próprios de cada pessoa, estão presentes


esses três níveis de mundo. Podemos identificá-los claramente no processo psicoterapêutico,
por exemplo.

Grosso modo, podemos dizer que os atos intencionais nos ligam às coisas de forma
experiencial. Também podemos dizer que intencionalidade é, essencialmente, o ato de atribuir
um sentido; é a intencionalidade que irá unificar a consciência e o objeto, antes separados
pelas regras da metafísica. Toda consciência é compreendida como consciência de um objeto, e
todo objeto é objeto apenas para uma consciência. É pela intencionalidade que o mundo vai se
22
constituindo em uma trama de significados que dizem respeito àquela pessoa em particular.
Está aí a diferença entre um fato e um fenômeno, por exemplo: fato – os pais daquela criança
se separaram; fenômeno: o que isso significa para ela. O fenômeno se dá nessa relação sujeito-
objeto.

Sugiro agora que você acesse um vídeo no Youtube chamado Fenomenologia. Esse
filme foi produzido por um grupo de alunos que buscaram expressar o que a Fenomenologia
propõe enquanto uma nova forma de se relacionar com tudo o que nos diz respeito. O link é:
http://www.youtube.com/watch?v=He92vIX4V6010

Comentários sobre o vídeo: repare como cada um se relaciona com a situação em que
se encontra. Essa relação se dá sempre no âmbito da experiência, da vivência, e traz consigo
toda gama de lembranças e sentimentos que compõem a história de cada um. A
intencionalidade é justamente o modo como cada um significa as suas vivências e interpreta o
seu mundo, e ela está enraizada na história pessoal de cada indivíduo.

Nesse âmbito, como fica a tão falada e defendida neutralidade do método científico?
Ela perde o lugar, pois estamos falando do campo vivencial, ou seja, isso implica em relações.
Com cada cliente é estabelecida uma relação única, singular, pautada nos significados
atribuídos por ambos os lados, paciente-terapeuta.

Os significados não são estáticos, podem mudar – damos a isso o nome de


ressignificação. Quer dizer, é uma outra forma de olhar para algo que já aconteceu. A partir
desse novo olhar, é possível um pensar mais amplo que pode conduzir a novas atitudes.

Para que esse horizonte mais amplo seja desvelado, em terapia, trabalhamos com os
fenômenos e não com os fatos. Vamos citar um exemplo:

Um paciente chega ao consultório e olha para um quadro dizendo:

“Nossa! Esse quadro é ousado!”

Nós, enquanto fenomenólogos, estamos interessados em explicitar o caminho


percorrido pelo sentido, ou seja, o que aquilo significa para aquela pessoa. Não estamos
preocupados com a verdade, se o quadro é mesmo ousado ou não. Iremos perguntar:

10
Copie o link e cole em sua barra de navegação na Internet.
23
“O que há de ousado nessa pintura?”

O paciente responde: “É o tipo de traço, a combinação das cores. Eu jamais pintaria


assim”.

O psicólogo: “Por que? Você está dizendo que não é ousado?”

“Já fui, mas...” (e ele começa a contar sua história de restrições decorrentes do uso de
drogas, que se encontra vigiado o tempo todo, em um momento depressivo...)

Como fenomenólogo, tenho que deixar o paciente presentificar as coisas nas


possibilidades delas serem. Nossas perguntas enquanto terapeutas não buscam causas, nem
levantam questões para formular um diagnóstico, mas para explicitar um sentido. No exemplo
acima, buscou-se o sentido que aquela pintura teve para o paciente. A partir da explicitação do
sentido é possível compreender o modo de ser daquela pessoa. E o sentido será único para
cada um.

d) Compreensão

Se a noção de intencionalidade é central para a Fenomenologia, ela não pode se


transformar, todavia, num simples campo psicofísico – que estuda os estados de ânimo
provocados por estímulos físicos externos – sem comprometer, com isso, a própria ideia de
fenomenologia. Ao contrário, é restaurando a intencionalidade em seu sentido óbvio, isto é,
como ato intencional da consciência, que a fenomenologia poderá perceber os fenômenos
humanos em seu teor vivido, ou seja, compreendê-los diferentemente de explicá-los.

E é justamente essa, a outra crítica que Husserl faz às ciências humanas, especialmente
à Psicologia. Explicando melhor: ele critica o modo como as ciências humanas se apropriaram
do método das ciências naturais, sem atentar para o fato de que seu objetivo tem
características totalmente diferentes. Tal crítica já se encontra em outro filósofo alemão,
Dilthey (1833-1911), que apontava que a natureza só é acessível indiretamente, a partir de
fatos esparsos, cuja unidade e coerência nunca deixam de ser hipotéticas, ao passo que a vida
humana é sempre um dado imediato e que para apreendê-la na sua essência não tem
necessidade alguma de uma construção teórica externa a ela mesma, mas somente de uma
aproximação, ou melhor, de uma compreensão.

24
Daí a conhecida afirmação de Dilthey de que “nós explicamos a natureza e
compreendemos a vida humana”. Explicamos a primeira porque não existe um conjunto de
afirmações coerentes nas ciências naturais capaz de apreendê-la no seu todo a não ser por
meio de raciocínios e hipóteses externos a ela que completam os dados da nossa experiência.
Por outro lado, compreendemos a vida humana porque o seu conjunto constitui, por toda
parte, para nós mesmos, um dado fundamental e imediato. Dito de forma mais explícita: a vida
humana constitui a experiência imediata de sermos nós mesmos.

Com isso, fica claro, então, que só é possível falarmos de compreensão quando o
fenômeno a compreender é animado por uma intenção. Não podemos dizer que um geólogo
procura o compreender uma pedra. Sua tarefa será somente analisar sua composição química,
determinar a época de sua formação, investigar sua proveniência, etc. Compreender, portanto,
é algo específico do mundo humano, da relação intersubjetiva. Assim, compreender um ato
humano é percebê-lo a partir de seu interior, do ponto de vista da intenção que o anima, logo
naquilo que o torna propriamente humano e o distingue de um dado físico qualquer.

Aqui podemos perguntar: e os dados da ciência que explicam os fenômenos humanos


em termos de conceitos e categorias da natureza nos ajudam a compreendê-los melhor? Ou,
ao contrário, a objetificação científica que foi empregada na tentativa de ampliar a
compreensão imediata dos fenômenos humanos, não poderia ela esvaziar toda a sua dimensão
vivencial? Sobre estas questões a fenomenologia responde que se o sistema objetivo de ideias,
no qual o homem é pensado, deixa perder a sua dimensão humana e o transforma em um
dado puramente físico, natural – esse sistema não só não ajuda como até impede de
compreender o homem, no sentido de intuir o seu caráter propriamente humano.

Portanto, longe de substituírem a compreensão, os dados explicativos das ciências


estarão sempre aguardando por uma compreensão, já que somente esta pode
verdadeiramente intuir o teor vivencial dos fenômenos humanos. Certamente, o
fenomenólogo terá ou poderá ter, em determinadas ocasiões, necessidade de signos ou dados
empíricos apreendidos pelas ciências da natureza, mas ele não os quer por si mesmos, com o
propósito de utilizá-los como puros conceitos teóricos, mas para, graças a eles, chegar à
intuição da coisa mesma, ou seja, à compreensão do fenômeno.

Por fim, se o fenômeno humano, seja ele individual ou coletivo, comporta sempre uma
dimensão vivida, ele se distingue por essência de um dado natural puramente objetivo. Se, por
vezes, os conceitos e métodos tomados das ciências físico-matemáticas podem permitir um
25
tratamento mais preciso dos dados coletados – por exemplo: na Psicologia, numa pesquisa
sobre mães com depressão pós-parto, ou na sociologia, numa pesquisa sobre delinquência
juvenil em adolescentes da periferia das grandes cidades – os seus resultados, porém, para ser
compreendidos, deverão ser sempre traduzidos em uma linguagem que já não é mais aquela
teórica e mediata da ciência natural, mas a da experiência vivida, imediata. Dito de outra
forma, tudo que acontece na objetivação, em última instância, precisa voltar ao teor do vivido.

Deste modo, as formulações algébricas, por si mesmas, nada dizem do teor humano
vivido, uma vez que se propõem apenas a uma explicação dos dados objetivos que foram
objeto de sua investigação. Torna-se necessário, portanto, ir além dessa explicação, sempre
que o saber que elas subentendem pretende ser um saber do caráter humano do homem.

e) Método

Talvez o aspecto mais significativo da Fenomenologia seja o seu método – o método


fenomenológico. Mas como é este método? Se a fenomenologia pretende ser uma crítica ao
objetivismo da ciência, com certeza o seu método não poderá ser aquele da ciência,
constituído pelo tradicional procedimento canônico: observação e identificação de problemas,
levantamento de hipóteses, manipulação de variáveis, tratamento estatístico e aplicação da
teoria por meio da qual são explicados os dados coletados. Tal procedimento, entendido
comumente por método científico, não constitui o modo de investigação na Fenomenologia.

Não constituir o modo de investigação não significa, todavia, negação gratuita do


método científico. Tampouco quer dizer uma recusa pura e simples do uso de padrões
científicos de pesquisa. Significa, sim, deixar tais padrões, por mais familiares, respeitáveis e
apreciáveis que sejam, para seguir outro caminho, uma vez que a fenomenologia pretende
chegar ao fenômeno inteiro – tal como ele se manifesta em sua forma original e captado em
nossa experiência imediata – viabilizada por meio das noções de intencionalidade e de
compreensão, expostas anteriormente.

Como se dá, então, o voltar para este mundo prévio a todo conhecimento?

Ele se dá numa forma de pensar, olhar e perguntar que se traduz em uma investigação
que possui uma direção: procurar intuir, apreender, compreender o fenômeno, tal como ele se
mostra por si mesmo. Querer caminhar em direção ao que se mostra no fenômeno faz com
que o método fenomenológico possua um acento inicial: ser radicalmente empírico, pelo

26
menos no sentido de que aquilo que se lida de início é aquilo que deve ser tomado como
experienciado. Esse começo empírico não se ressente de uma falta de definição, apenas
permanece em contraste com outras escolhas metodológicas.

Esse empirismo como caminho de chegar “às coisas mesmas”, porém, não depende de
pressupostos e nem de uma teoria explicativa. Começa com um olhar direto e atento ao campo
total dos fenômenos possíveis. Inicialmente, procura-se ver as coisas de uma forma
particularmente aberta. Essa postura cria uma abertura peculiar em direção à coisa. Mas o que
é isto – a coisa? Coisa é aquilo que está aí em nossa presença, que se mostra em sua evidência.
Para a Fenomenologia, o termo evidência, não é aquele que ocorre no terreno das ideias e
abstrações, mas no âmbito do intuível, isto é, aquilo que é dado e aceito como evidente deve
ser, de fato, possível de ser vivenciado e experimentado.

Para a Fenomenologia, portanto, a coisa no sentido de fenômeno só é possível como


doação ou possibilidade de doação para a experiência. Isto quer dizer que podemos olhar
atentamente para todos os objetos ao nosso redor, mas estes objetos, para o fenomenólogo,
só podem ser vistos “de verdade” quando ocorre dentro de sua experiência. Há aqui, então,
uma distinção sutil: posso olhar para todos os objetos que me cercam, mas ver realmente
apenas aqueles com os quais estou ligado numa relação envolvente, significativamente afetiva
– numa palavra: vivencial!

Esta coisa ou fenômeno que se doa com evidência à minha experiência é apreendida
por mim como certa, verdadeira, apodídica. O termo apodídico significa que aquilo que está
presente em minha experiência, está de tal maneira que me torna impossível recusar tal
presença, tal como quando eu vejo uma silhueta num corredor, de encontro à luz, não
confundo uma pessoa com um cabide no momento em que a silhueta se apresenta. Em outras
palavras, apodídico significa, então, que não posso duvidar da evidência daquilo que se
apresenta, na medida em que o vejo dentro dos limites das minhas experiências possíveis:
intuições, percepções, sentimentos, impressões...

Yolanda Forghieri coloca de maneira muito didática em seu livro “Psicologia


Fenomenológica – Fundamentos, método e pesquisas” a descrição do método
fenomenológico, a partir da Redução Fenomenológica.

Há o primeiro momento, chamado Envolvimento Existencial, que corresponde ao estar


mergulhado na vivência, colocando entre parênteses todo tipo de conhecimento adquirido. A

27
isso, Husserl chamava Epoché, ou seja, para aquilo que é possa se mostrar como aquilo que é,
deve-se suspender as teses cogitativas, que são as concepções, formulações, explicações,
princípios, hipóteses... É um interromper que possibilita a reflexão. É preciso dizer que temos
uma atitude natural ao lidar com as coisas, acreditamos que tudo existe por si mesmo,
independente da nossa existência. Essa atitude não refletida ignora a existência da consciência
como doadora de sentido a tudo que nos é apresentado no mundo. A partir dessa atitude
vamos formando essas teses cogitativas, daí a importância de suspender todo e qualquer tipo
de conhecimento para chegarmos “às coisas mesmas”. Diante disso, podemos dizer que a
redução é uma mudança de atitude – da natural para fenomenológica.

O segundo momento da Redução Fenomenológica é o Distanciamento Reflexivo,


momento em que se reflete sobre a vivência e lhe atribui significados enunciando-os
descritivamente, a partir de certo distanciamento, sem perder de vista a própria vivência.

É importante dizer que esses momentos acontecem o tempo todo durante as sessões.
Por exemplo, no atendimento infantil, ora nos envolvemos com o brincar da criança, ora
fazemos algumas pontuações, algumas perguntas e voltamos a nos envolver. Como já foi dito,
não é possível nos distanciarmos totalmente da vivência; a reflexão perpassa o tempo todo o
campo vivencial.

f) Os dois modos de apreensão: o “o que” e o “como”

Outra importante questão do método fenomenológico diz respeito aos dois modos de
apreensão de sentido, nascidos a partir do princípio de intencionalidade, mediante os quais o
fenômeno aparece. Estes dois modos de apreensão determinam quatro perspectivas de
sentido, presentes nos atos intencionais.

O modo “o que” determina:

1) o “sentido de conteúdo”, revelando o que está contido na experiência como


resposta à pergunta: “o que é isto?”.

Ao passo que o modo “como” determina as outras três perspectivas de sentido, como
resposta à pergunta “como é isto?”:

2) o “sentido de relação”, isto é, a maneira como o conteúdo intencional é interpretado


e, consequentemente, como se dá a vinculação entre a consciência e o objeto;
28
3) o “sentido de realização”, em que se evidencia como a experiência acontece, isto é,
como é desempenhada, executada; e, finalmente,

4) o “sentido de temporalização”, no qual é explicitado como a experiência é


relacionada e realizada no tempo histórico.

Mediante essas três perspectivas abertas pelo “como” se apresentam as conexões


originárias, e no interior das quais acontece o experienciar do fenômeno.

Já quando interrogamos “o que”, facilmente surge o perigo do primado da postura


teórica, isolando o conteúdo da experiência de seus contextos originários.

Substituir o questionamento que se faz pelo “o que”, para interrogarmos “como” nos
traz uma visão neutra da experiência, uma vez que não podemos decidir sobre “o que” ela é,
mas, por outro lado, ao nos dar “o como ela é”, nos permite chegar ao único acesso à
experiência histórica, pré-teórica, pré-reflexiva.

No contexto clínico, procuramos sempre indagar pelo “como”, ou seja, ao invés de


perguntarmos ao paciente “por que”, perguntamos “como é isto para você?”, abrindo a
perspectiva da aproximação com aquilo que é mais fundamental, mais originário da
experiência, como foi dito acima.

g) Relatividade do conhecimento

Como perspectiva filosófica, a fenomenologia é relativamente nova, o que, porém, não


a impede de ser uma forma de pensar radical (no sentido de ir às raízes). Como pensar radical,
parte, necessariamente, de caminhos já conhecidos de se interpretarem as coisas, mas, por
outro lado, desafia pressupostos poderosos do pensamento ocidental aceitos secularmente
com o intuito de dotar-nos de um novo modo de olhar para estas mesmas coisas. É por essa
razão que a Fenomenologia, na medida em que procura alicerçar o pensamento sobre outro
fundamento, apresenta noções e princípios que nos são desconhecidos e estranhos, pelo
menos quando entramos em contato com eles pela primeira vez, justamente porque eles
chocam com o nosso modo de pensar que pertence a uma tradição muito antiga que é aquela
do pensamento metafísico – lógico, racional e teórico.

Neste sentido, uma das principais estranhezas da Fenomenologia talvez seja o fato dela
admitir e aceitar a relatividade e a ambiguidade do nosso pensamento, presentes, como vimos
29
anteriormente, na sua noção de fenômeno que tanto pode mostrar o que uma coisa é
(desvelamento), fazer uma coisa parecer ser o que não é (simulação) e mostrar uma coisa
ocultando o que ela verdadeiramente é (dissimulação, camuflagem).

Ora, ao contrário da ciência que só aceita o conhecimento depois de superar a


ambiguidade da experiência, a Fenomenologia só compreende a possibilidade do
conhecimento pela aceitação desta ambiguidade. Dito com outras palavras, a ciência entende
que o conhecimento é o resultado da superação da ambiguidade da existência, porque se fixou
no dado certo. Para Fenomenologia, é a crença na impossibilidade do dado certo que lhe
permite aceitar a ambiguidade e, como consequência, a possibilidade do conhecimento.

Isso nos leva a concluir, então, que tal postura não é uma deficiência da Fenomenologia
(em contraposição a uma pretensa “eficiência ” da ciência), justamente porque ela não
compreende essa ambiguidade dos fenômenos como falha de nossas experiências ou de
nossos encontros com as coisas. Todavia, aqui perguntamos: o que dá sustentação a esta
postura da Fenomenologia? O que dá a ela o “direito” de aceitar e conviver com esta
ambiguidade do conhecimento?

Para responder a estas questões, o ponto decisivo que sustenta essa ambiguidade do
conhecimento é o próprio ser do homem, no interior do qual a ambiguidade é inerente, ou
seja, trata-se de um modo constitutivo de ser de sua própria existência.

Se o psicoterapeuta não tolerar a ambiguidade na busca da compreensão de seu


paciente, ele não pode se guiar pela abordagem fenomenológica.

6. Conclusões

Após apresentarmos estas noções centrais da fenomenologia, poderíamos indagar:


qual seria, então, a tarefa da Fenomenologia e, especialmente, a Fenomenologia Existencial?

De maneira sintética, poder-se-ia afirmar que a tarefa da Fenomenologia é a de


analisar, investigar as vivências, ou seja, os atos intencionais da consciência, para aí perceber
como se produz o sentido dos fenômenos. Trata-se, para empregar uma metáfora aproximada,
de distender a “teia da vivência” em sua abrangência e totalidade, para fazer aparecer os seus
fios que são de extraordinária complexidade.
30
Para finalizar, uma última pergunta: fazer fenomenologia, olhar fenomenologicamente,
é possível?

A resposta é sim, é possível, o que não significa necessariamente algo fácil. Por quê?

Porque olhar fenomenologicamente significa abandonar os caminhos conhecidos e


batidos da tradição e aceitar os riscos e a obscuridade que nos acompanham quando trilhamos
caminhos desconhecidos. Torna-se necessário aprender e compreender novas noções (como
estas que acabamos de ver) e buscar familiaridade com a nova linguagem que surge a partir
delas, assim como atribuir novos significados a termos antigos.

Tudo isso é muito importante para podermos nos aproximar do que é novo, pois exige
de nós a paciência e a humildade para convivermos com aquilo que ainda nos é obscuro,
aceitando-o não como falha de aprendizagem, mas como uma “obscuridade essencial”. Tal
obscuridade é temporária, pois pertence a certo estágio de amadurecimento neste novo
caminho de compreensão e de conhecimento das coisas. Martin Heidegger, um dos expoentes
do movimento fenomenológico, diz que, mesmo após ter lido Husserl, não se encontrava em
condições de compreender o sentido completo da Fenomenologia, até o momento em que
começou a “ver fenomenologicamente”. Diz ele:

“(...) a influência de Husserl fez-me interessar e mergulhar na sua


obra. Entretanto, minha contínua volta ao início continuava não satisfatória
porque eu não podia resolver uma dificuldade principal. Esta dificuldade
referia-se à simples pergunta de como o modo do pensamento que se
chamava fenomenologia poderia ser posto em prática.

(...) Minha perplexidade diminuiu lentamente, minha confusão


dissolveu-se laboriosamente após haver eu encontrado Husserl
pessoalmente em seu escritório. (...) O ensino de Husserl realizava-se passo
a passo, tentando fazer seus alunos verem fenomenologicamente, o que ao
mesmo tempo exigia um abandono do uso do pensamento filosófico
tradicional.

(...) Eu pus a fenomenologia em prática vendo, ensinando e


aprendendo na proximidade de Husserl após 1919.”

31
Esta experiência inicial da fenomenologia não é exclusiva de Heidegger, mas de todos
os que dela se aproximam e, mais especialmente, daqueles que aceitam a sua própria
estranheza e obscuridade essencial como condição de compreendê-la, exercitá-la e aprofundá-
la.

Ainda é importante ressaltar uma questão: muitos estudiosos consideram a busca de


Husserl pela essência das coisas, a partir da redução eidética, como uma forma de idealismo, já
que lida com objetos ideais e as ideias das coisas em sua essência, e não com objetos reais.
Porém, esse idealismo é superado no momento em que Husserl descobre a intencionalidade
da consciência, pois nesse instante o abismo entre consciência e mundo procura ser resolvido,
já que consciência é sempre consciência de alguma coisa e não um estado vazio.

Podemos dizer que o método fenomenológico não se precipita em reduzir o fenômeno


aos seus aspectos mensuráveis e conhecidos. Mas, abre-se um modo de envolvimento com o
fenômeno que é novo, rigorosamente atento e fiel ao que se mostra.

Gostaria que você assistisse a um curta-metragem brasileiro, chamado “Ilha das


Flores”, escrito e dirigido pelo cineasta Jorge Furtado, em 1989. O tema central do filme é a
desigualdade nas relações humanas, gerada pelo próprio sistema econômico. Quero chamar a
atenção para que você perceba a aplicação do método fenomenológico. Como o narrador vai
apresentando o cenário, introduzindo o tema, nos fazendo refletir, sem, no entanto emitir
julgamentos pessoais. Ele apenas mostra, com recursos visuais, o cenário e introduz o tema,
para que o próprio espectador se relacione exatamente com o que é mostrado e tire suas
próprias conclusões. Um filme realmente fantástico!

https://www.youtube.com/watch?v=e7sD6mdXUyg11

Roteiro de Leitura

Módulo I - Fenomenologia

11
Copie o link e cole em sua barra de navegação na Internet.
32
Após a leitura da apostila, você deve ler os seguintes textos para o embasamento de seus
estudos.

Os textos são enviados com o material do módulo.

Anote suas dúvidas, e as envie por e-mail conforme forem surgindo.

Ressalto que para o sucesso de seus estudos à distância é fundamental a leitura dos textos
indicados a seguir:

TEXTOS

1. O primeiro texto sugerido foi retirado do site www.cobra.pages.nom.br. Chama-se


“Fenomenologia”, escrito por Rubem Queirós Cobra. Ele define o termo
Fenomenologia, faz um breve passeio pela história, trazendo pontos importantes no
desenvolvimento do pensamento ocidental, chega a Husserl, descreve os aspectos
mais importantes propostos pelo pai da Fenomenologia, ressalta nomes importantes
que utilizaram o método fenomenológico, em diferentes perspectivas – filosófica,
psicológica, psiquiátrica.

2. Do livro O livro “Psicologia Fenomenológica: fundamentos, método e pesquisas”, de


Yolanda C. Forghieri, o texto do capítulo 2: “A Fenomenologia e suas relações com a
Psicologia”.

3. O próximo texto “Husserl: Intencionalidade e Fenomenologia”, escrito por Carlos


Alberto Ribeiro de Moura – doutor e livre-docente em filosofia da Universidade de São
Paulo, onde leciona. Foi retirado da revista Mente – Cérebro & Filosofia, publicação da
Ediouro, Segmento-Duetto Editorial Ltda. Aqui você encontra o foco voltado para a
Fenomenologia de Husserl e o caminho que ele percorreu para construir o seu
pensamento.

4. “O movimento de realização e a realidade”, retirado do livro “Analítica do sentido.


Aproximação e interpretação do real de orientação fenomenológica ”, de Dulce Mára
Critelli.

5. Capítulo do livro “Introdução à Psicologia Fenomenológica – a nova Psicologia de


Edmund Husserl”, de Tommy Akira Goto, intitulado “Prolegômenos à Fenomenologia
Transcendental de Edmund Husserl”.

6. “A psicologia fenomenológica e o contexto teórico de sua constituição”, texto de


Maria Lucrecia Rovaletti. Retirado do livro “Corpo e Existência” organizado por Dagmar
Silva Pinto de Castro et al.

SUGESTÕES DE LEITURA
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Atenção: os livros que estão indicados abaixo não serão cobrados para realização do curso.
Servem apenas como dicas para você ampliar seus estudos.

7. “Psicologia Fenomenológica: fundamentos, método e pesquisas”, de Yolanda C.


Forghieri, é uma excelente leitura para iniciar o seu estudo. Linguagem simples, traz a
Fenomenologia aplicada à Psicologia. Da editora Cengage Learning, 1993.

8. “Analítica do sentido. Aproximação e interpretação do real de orientação


fenomenológica”, de Dulce Mára Critelli, Editora Brasiliense, 1996.

9. “Introdução à Psicologia Fenomenológica – a nova Psicologia de Edmund Husserl”, de


Tommy Akira Goto, Editora Paulus, 2008.

10. “Psicologia - uma (nova) introdução”, de Luis Claudio M. Figueiredo e Pedro Luiz R. de
Santi, Editora PUCSP, EDUC, 2007.

Avaliaçaã o

Após ler a apostila e os textos indicados, você deverá produzir um trabalho abrangendo
o conteúdo estudado.

O objetivo desta avaliação é verificar o caminho que você está fazendo na


compreensão do conteúdo, bem como promover a oportunidade para que as dúvidas surjam e
sejam esclarecidas.

Os critérios de avaliação serão os seguintes:

 Compreensão do aluno acerca dos conceitos da abordagem;


 Clareza na exposição das ideias;
 Coerência na análise.

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Abaixo, há três temas sobre Fenomenologia. Você deve escolher um deles para
elaborar uma dissertação, de forma que expresse a sua compreensão sobre o conteúdo
estudado no módulo. É preciso que o seu texto seja fundamentado com as leituras realizadas, e
que tenha o seu entendimento expresso com suas próprias palavras.

A Fenomenologia e Ciências Humanas

Fenomenologia – articulando novos sentidos no real

Fenomenologia e Psicologia – uma relação epistemológica

Bom trabalho!

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