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Louis-Jean Calvet SOCIOLINGUISTICA _ uma introducao critica © A lingitistica moderna naseeu da vontade de Ferdinand de Saussure de elaborar um modelo absttato, a lingua, a partir dos atos de fala, Seu ensinamento consiste sobre- tudo no fato de que “a lingiiis tica tem por unico e verda- deiro olijeto a lingua conside- rada em si mesma e por si as linguas nao existem sem as pessoas que ERB EL RBM Ep ecco un ios iso esperar William Labov poe Ven Ue Ccyeyetucur- mT EL que, se a lingua é um fato Rolo eI Mra tbat uma “sociolingiiistic. CofUeaecoypts sito asrstaree) ves oTe(0} Crore test bayeaers eM c bene UCC BO Les dida ela nos leva a redefi propria lingitistica? e livro leva a sério a afir- macao de que a lingiifstica s pode ser definida como o es- tudo da comunidade social em ecto lingtiistico e ocu= pa-se de trazer um pouco de ordem 4 profusao de aborda- Loa Me Lome Ce Courz Moe stn} oO NA PONTA DA LINGUA 4 NA PONTA DA LiNGUA 1. Estrangeirismos — guerras em torno da lingua Carlos Alberto Faraco [org.] 2. Lingua materna — letramento, variagdo & ensino Marcos Bagno, Michael Stubbs & Gilles Gagné 3. Historia concisa da lingitistica Barbara Weedwood 4. Sociolingiiistica: uma introdugao critica Louis-Jean Calvet Louis-Jean Calvet SOCIOLINGUISTICA uma introducao critica area mm ctMa ean TRADUCAO, Marcos Marcionilo a 2 BeraAbo TITULO ORIGINAL LA SOCIOLINGUISTIQUE 4* EDITION MISE A JOUR: 2002, JANVIER © PRESSES UNIVERSITAIRES DE FRANCE, PARIS, 1993 ISBN: 2-13-052433-8 C167s_ Calvet, Louis-Jean Sociolingiiistica: uma introdugio critica / Louis Jean Calvet; tradugéo Marcos Marcianilo. — Sio Paulo: Parabola, 2002. 176p., 18em ISBN: $5-88456-05-2 1. Sociolingiiistica. I. Calvet, Louis-Jean CDD: 410.9 DIREITOS RESERVADOS A PARABOLA EDITORIAL RUA BERNARDINO DE AGUIAR, 194 04181-060 SAO PAULO, SP Fone: [11] 6969-8853 Fax: [11] 6946-4985 home page: www.parabolaeditorial.hpg.com.br e-mail: parabolaed@uol.com.br TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. NENHUMA PARTE DESTA OBRA PODE SER REPRODUZIDA OU TRANSMITIDA POR QUALQUER FORMA E/OU QUAISQUER MEIOS (ELETRONICO, OU MECANICO, INCLUINDO FOTOCOPIA E GRAVAGAG) OU ARQUIVADA EM QUALQUER SISTEMA OU BANCO DE DADOS SEM PERMISSAG POR ESCRITO DA PARABOLA EDITORIAL LTDA. ISBN: 85-88456-05-2 © PARABOLA EDITORIAL, SAO PAULO, BRASIL 2002 SUMARIO APRESENTAGAO ... Inrropu¢ao... Cariruto I: A LUTA POR UMA CONCEPCAO SOCIAL DA LINGUA... . Saussure 7 Meillet: a origem do conflito. . As posigdes marxistas acerca da lingua .. . Bernstein e as deficiéncias lingitisticas .. . William Bright: wma tentativa de sintese . Labov: a sociolingtiistica é a lingitistica3 1 . Conclusao . QuPwWHE Capiruto II: Lincuas EM CONTATO . 1, Empréstimos e interferéncias 2. As linguas aproximativas 3. Misturas de linguas, alternancias de cédigo e estratégias pies us 4, O laboratério crioulo .. 5. As linguas veiculares . 6. A diglossia e os conflitos fngtenenee. Capiruto III: CoMPORTAMENTOS E ATITUDES ..... 1. Os preconceitos.. 2. Seguranga / inseguranga 3. Atitudes positivas e negativas 13 13 OL 4, A hipercorregio . wee TT 5. As atitudes e a variacgao lingitistica .. 80 Cariruto IV: As VARIAVEIS LINGUISTICAS E AS VARIAVEIS SOCIAIS..... 89 1. Um exemplo de variaveis lingitisticas: as varidveis fonéticas 90 2. O “vernaculo negro-americano” 98 3. Varidveis lingiiisticas e varidveis sociais 102 4, 5 . Os mercados lingitistiCOs ......eeeeeees 105 . Variagdes diastraticas, diatopicas e diacronicas: o exemplo da giria.. 109 6. Comunidade lingiiistica ou comunidades social’ 5 Capiruto V: SocioLinGtisrica OU SOCIOLOGIA DA LINGUAGEM? ..... 1. A abordagem micro . 2. A abordagem macro. 3. As redes sociais ¢ as linguas . 134 4. Sociolingitistica e sociologia da linguagem 138 Cariruto VI: As poriricas Linctisricas . 145 1. Duas gestées do plurilingitismo: 0 in vivo eo in vitro 146 2. A agao sobre a lingua .. 148 3. A ago sobre as Linguas ......... 154 ConcLusAo..... 161 BIBLIOGRAFIA 163 GUIA DE LEITURA 164 GossArio..... 167 INDICE DE NoMES 171 6 APRESENTAGAO Marcos Bagno Por ser a primeirissima obra de introdugao a sociolingiifstica que se imprime no Brasil, a publi- cacao deste livro de Louis-Jean Calvet equivale, na pratica, a denunciar uma situagdo injustificavel que s6 pode ser explicada por uma anélise detalhada dos misteriosos mecanismos que operam em nosso meio editorial, e dos ainda mais misteriosos labirintos da nossa vida académica. A situac4o injustificdvel é esta: como € possivel, num pais onde se tem desen- volvido uma intensa atividade de pesquisa sociolingiiistica ha pelo menos trés décadas (pesqui- sa de qualidade cientifica reconhecida internacio- nalmente), nao haver no mercado absolutamente nenhum livro que apresente os principios basicos da teoria sociolingiiistica, sobretudo para o enorme contingente de leitores composto pelos estudantes de graduacéo em Letras? Séo intimeros os projetos (j4 concluidos ou em andamento) de descrigao e andlise da realidade lingiiistica do Brasil; jd sao cen- tenas as dissertacdes de mestrado e teses de douto- rado empreendidas 4 luz das diversas teorias 7 SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGAO CRiTICA sociolingiifsticas, ¢ mais numerosos ainda os arti- gos cientificos publicados em revistas especializadas — mas livro introdutério de ampla circulagao, de acesso facil, nao temos nenhum, a nao ser a limita- da (por questdes de espaco) iniciativa de Fernando Tarallo em A pesquisa sociolingiiistica (1985). Comecar a preencher essa falta com este livro é um passo importante, sobretudo por se tratar de Louis-Jean Calvet, um sociolingiiista que nao se res- tringe a teorizacao e as atividades académicas, mas que empreende uma verdadeira militancia politica, de luta assumida contra as atitudes discriminatorias que se servem da lingua como instrumento de do- minacao e de exclusdo social. Com vis4o critica e engajada, Calvet nao se limita a expor, com “neu- tralidade” e “objetividade”, os conceitos basicos que sustentam as teorias sociolingiiisticas. Ao contra- rio, ele mostra de que modo os mecanismos ideold- gicos atuam nessas teorias, inclusive sob a forma de “preconceitos positivos”, como o que ele detecta na atitude de Labov de extrema valorizacao da “verbo- sidade” dos falantes do “vernaculo negro-america- no” e de desprezo pelos recursos lingiiisticos do cha- mado “cédigo elaborado” das camadas sociais do- minantes, que para ele séio apenas “as marcas registradas do falar muito para dizer nada, do dizer desdizendo |...], recursos que muitas vezes obscure- cem qualquer contribuicao positiva que a educagao pode dar ao nosso uso da lingua” (“The logic of non- standard English”, 1969, traducao minha). 8 > APRESENTAGRO De autoria de Calvet, 0 leitor brasileiro ja ti- nha a seu dispor a obra Saussure: pro e contra, cujo subtitulo revelador é “rumo a uma lingiiistica social”. Ali, demonstrando a insustentabilidade das opgdes epistemoldgicas do estruturalismo, em suas versoes pré- e pds-chomskyanas, Calvet insiste na necessi- dade incontorndavel de se construir uma ciéncia da linguagem em que o “social” seja o préprio objeto de estudo, ao qual a chamada “lingitistica interna” tem obrigatoriamente de se subordinar. Essa mes- ma insisténcia aparece aqui, sobretudo na conclu- sao da obra, onde o autor declara que a palavra (socio) lingiiistica s6 pode ser escrita assim, com 0 “socio” entre parénteses, na esperanca de que, um dia, o que esta dentro dos parénteses desaparecera. Quando este dia vier, sera possivel escrever simples- mente lingiiistica e definir esta ciéncia como “o es- tudo da comunidade social em seu aspecto lingtiistico”. Para conferir a esta publicagéo um cardter eminentemente didatico, os editores oferecem ao leitor, no final do volume, um guia de leitura com a relacao da (escassa) bibliografia sociolingiiistica existente no Brasil, bem como um glossdrio dos prin- cipais termos técnicos empregados pelo autor. Me- rece destaque também o cuidado de fazer acompa- nhar o texto de Calvet de notas de rodapé que ofere- cem exemplos tirados da realidade lingitistica brasi- leira com vistas a tornar mais facilmente reconhe- civeis os fenémenos abordados na obra. INTRODUGAO A lingiiistica moderna nasceu da vontade de Ferdinand de Saussure de elaborar um modelo abs- trato, a lingua, a partir dos atos de fala. Seu ensinamento, que foi compilado por seus alunos ¢ publicado apds sua morte!, constitui o ponto de par- tida do estruturalismo em lingiiistica. E, nao obstante certas passagens nas quais se encontra a atirmacao de que a lingua “é a parte social da linguagem”, ou que “a lingua 6 uma instituicdo social”, este livro insiste sobretudo no fato de que “a lingua é um sistema que conhece apenas sua ordem propria” ou que, como afirma a ultima frase do texto, “a lingtiistica tem por unico e verdadeiro objeto a Ifngua considerada em si mesmia e por si mesma”. Saussure tragava assim uma nitida separacdo entre o que lhe parecia pertinente, “a lingua em si mesma”, € 0 resto, e nesse ponto foi seguido por pesquisadores tao distintos quanto Bloomfield, Hjelmsley ou Chomsky. Todos, elaboran- do teorias e sistemas de descrigdes diversificados, con- 1. Cours de linguistique générale, Paris, Payot, 1916. As nu- merosas edigdes posteriores conservaram a paginagio da primeira edigao. Citaremos preferentemente a edigio critica de Tullio di _ Mauro, Paris, Payot, 1985. 2. Cours, p. 31. 3. Cours, p. 33. 4. Cours, p. 314, i SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGAO CRITICA cordavam em delimitar 0 campo de sua ciéncia de modo restritivo, eliminando de suas preocupacdes tudo o que nao fosse a estrutura abstrata que eles de- finiam como objeto de seu estudo. Ora, as linguas nao existem sem as pessoas que as falam, e a historia de wma lingua é a historia de seus falantes. O estruturalismo na lingiiistica foi construido, portanto, sobre a recusa em levar em con- sideragao 0 que existe de social na lingua, e se as teo- tias e as descrig6es derivadas desses principios sao evidentemente uma contribuigao importante ao estu- do geral das linguas, a sociolingiiistica, 4 qual se con- sagra este livro, teve de tomar o sentido inverso des- sas posicdes. O conflito entre essas duas abordagens da lingua comeca muito cedo, imediatamente depois da publicagéo do Curso de lingiiistica geral, e n6s vere- mos que, até bem recentemente, as duas correntes vaio se desenvolver de modo independente. De um lado, insistia-se na organizacéo dos fonemas de uma Iin- gua, em sua sintaxe; de outro, na estratificagao social das linguas ou nos diferentes parametros que na lin- gua variam, de acordo com as classes sociais. Sera pre- ciso na pratica esperar por William Labov para en- contrar a afirmagao de que, se a lingua é um fato so- cial, a lingiifstica ent&o sd pode ser uma ciéncia social, isto significa dizer que a sociolingiiistica é a lingiiistica®. Hoje a sociolingiiistica floresce, multiplica suas abordagens e terrenos. Este livrinho ocupa-se de trazer um pouco de ordem a essa profusao. 5. “Durante anos re ne a falar de sociolingiiistica, pois este termo implica que poderia existir uma teoria ou uma pratica lingiiistica fecunda que nao fosse social”, William Labov, Sociolinguistique, Paris, Minuit, 1976, p. 37, 12 CAPITULO | A LUTA POR UMA CONCEPGAO SOCIAL DA LINGUA 1. Saussure/Meillet: a origem do conflito isa SAAORTEAMEN: (1866- 1936) insistiu em numerosos textos no carater so- cial da lingua, ou a definiu preferentemente como Geto social & dava um contetido bem preciso a essa caracteristica. Em seu cclebre artigo, “Comment les mots changent de sens” [Como as palavras mu- dam de sentido], ele propunha uma definigao desse “fato social” enfatizando, ao mesmo tempo e sem ambigiiidade, sua filiagio ao socidlogo Emile Durkheim: “os limites das diversas linguas tendem a coincidir com os dos grupos sociais chamados nacGes; a au- séncia de unidade de lingua é 0 sinal de um Estado recente, como na Bélgica, ou artificialmente consti- tudo, como na Austria”; — “a linguagem é eminentemente um fato social. Com efeito, cla entra exatamente na definigao proposta 13 SOCIOLINGU[sTICA: UMA INTRODUGAO CRITICA por Durkheim; uma lingua existe independentemen- te de cada um dos individuos que a falam e, mesmo que ela nao tenha nenhuma realidade exterior & soma desses individuos, ela € contudo, por sua generalida- de, exterior a eles”; — “as carateristicas de exterioridade ao individuo e de coergao pelas quais Durkheim define o fato social aparecem na linguagem como evidéncia tltima”’. > (1857- 1913). Contudo, com a publicacao (péstuma) do Curso de lingitistica geral, Meillet tomou distancia tue faz do livro, ttanto, as posi- gdes de Meillet estavam em com, ao menos, uma das dicotomias saussurianas, a que dis- tinguia a sincronia da diacronia, e com a tiltima fra- se do Curso (“a lingiifstica tem por tinico e verda- deiro objeto a lingua considerada em si mesma e por si mesma”). Mesmo que nao seja de Saussure e represente muito mais a conclusao dos editores, ela 1. Antoine Meillet, Comment les mots changent de sens, publicado em Année sociologique, 1905-1906, reimpresso em Linguistique historique et linguistique générale, Paris, Champion, 1921, aqui citado em sua reedigéo de 1965, p. 230. 2. Antoine Meillet, Compte rendu du Cours de linguistique générale de Ferdinand de Saussure, Bulletin dela Societé linguistique de Paris, p. 166. 14 = A.LUTA POR UMA CONCEPGAO SOCIAL DA LINGUA resume perfeitamente seu ensinamento. Contradi- cao porque a afirmacao do carater social da lingua que se verifica em toda a obra de Meillet implica ao mesmo tempo a convergéncia de uma abordagem interna e de uma abordagem externa dos fatos da lingua e de uma abordagem sincrénica e diacrénica desses mesmos fatos. Quando Saussure opde lingiits- tica interna e lingiiistica externa, Meillet as asso- cia; quando Saussure distingue abordagem sincrénica de abordagem diacrénica, Meillet busca explicar a estrutura pela histdria. Realmente tudo opoe os dois homens ido logo os situamos no terreno da lingiiistica geral. Enquanto Saussure busca elaborar um modelo abstrato da lingua, Meillet se vé em con- flito entre o fato social e o sistema que tudo contém: para ele nao se chega a compreender os fatos da lin- gua sem fazer referéncia a diacronia, a histéria. Diante da precisao com que Meillet definia a nocdo de fato social, as passagens em que Saussure declara que a lingua “é a parte social da linguagem”® ou que “a lingua é uma instituigao social”* chocam por sua indefinicao tedrica. Para ele o fato de ser a lingua uma instituigao social é simplesmente um principio geral, uma espécie de exortagao que mui- tos lingiiistas estruturalistas retomarao depois dele, g sem nunca prover os meios heuristicos para assu- mir essa afirmaciio: da-se como certo o carater so- cial da lingua e se passa a outra coisa, a uma lin- 3. Ferdinand de Saussure, Cours de linguistique générale, Pa- ris, Payot, 1931, p. 31. 4, Idem, ibidem, p. 33. SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGAO CRITICA siiistica formal, a lingua “em si mesma e por si mes- ma”. Para Meillet, essa afirmagéo deveria, ao con- trario, ter implicag € Sicas, . E isso é bem facil para ele quando estuda o léxico (que ele trate de nomes do homem, do vinho, do éleo ou da reli- giao indo-européia) ou quando se inclina sobre a expansao das l{nguas (por exemplo, sobre a histéria da lingua latina). Certamente as coisas se tornam mais dificeis para ele no campo da fonologia ou da sintaxe, mas continua valendo que sua insisténcia constante sobre esses pontos faz dele um precursor. Um exemplo é a passagem seguinte: “Por ser a lin- gua um fato social resulta que a lingiiistica € uma ciéncia social, e o tinico elemento varidvel ao qual se pode recorrer para dar conta da variagao lingtiis- tica 6 a mudanca social”, posicéo muito proxima da que se encontrard mais tarde na obra de William Labov. Mesmo que Saussure e Meillet utilizem quase a mesma formula, cles nao lhe dio o mesmo senti- do. Para Saussure, a lingua é elaborada pela comu- nidade, é somente nela que ela é social, enquanto, 5. Antoine Meillet, “I’Etat actuel des études de linguistique générale”, aula inaugural no College de France, 13 de fevereiro de 1906, retomado em Linguistique historique et linguistique générale, Paris Champion, 1921, aqui citado na reedigéio de 1965, p. 17 16 A LUTA POR UMA CONCEPGAO SOCIAL DA LINGUA ja vimos, Meillet da a nogéio de fato social um con- tetido muito mais preciso e muito durkheimiano (alids, ele colaborou regularmente com a revista dirigida por Durkheim, L’A nnée sociologique). De fato, enquanto(@aussure distingae cuidadosamente estru- tura de histori: Enquanto o toe dne De cimente terminoldgico (ele tenta elaborar 0 vocabuldrio da lingiifstica para embasar teoricamente esta ciéncia), o de Meillet é programatico: ele nao deixa de dese- jar que se leve em conta 0 carater social da lingua. Vemos, entdo, que o tema da lingua como fato social, central em Meillet, é um tema profundamen- te anti-saussuriano, de modo seguramente incons- ciente antes da publicacao do Curso, mas conscien- te depois, e que a historia da lingiiistica estrutural pos-saussuriana se caracteriza por um afastamento constante desse tema. Surge assim, desde o nasci- mento da lingiiistica moderna: outro discurso que insis- te em Ga eS E, durante quase meio século, e ois discursos vao se desenvolver de modo paralelo, sem nunca se encontrar. 2. As posigdes marxistas acerca da lingua Na mesma época, surgia outra abordagem so- cial da lingua, aquela que nasce na corrente marxis- 17 SOCIOLINGDISTICA: UMA INTRODUGKO CRITICA ia, Jv ein 1894, Paul Lafargue, gettro de Marx, »- blicara um estudo sobre 0 vocabulario francés “an- tes e depois da Revolucao certo, um certo mecanicismo em sta Visdo: com a monarquia feudal; a tribuna das assembléias par- lamentares durara enquanto durar o governo parla- mentar”®, Mas nao se pode negar que temos aqui a primeira tentativa de aplicar certa andlise sociold- gica aos fatos da lingua. Posteti - } segun- do o caso. Do lado da extravagancia é preciso ins- crever Nicolai Marr (1864-1934), que, bem antes da ascensdo do comunismo ao poder, elaborara a teoria das linguas jaféticas (do nome do terceiro fi- Tho de Noé, Jafet, nascido depois de Sem e Cam, cujos nomes ja tinham classificado as linguas camiticas e semiticas), a qual ele vai tentar aplicar o marxismo: Marr postulava uma origem comum para todas as Iinguas do mundo. Inicialmente a comunicagao te- tia Becca seguida quatro elementos fonicos teriam aparecido — sal, ber, yon et roh — € consti- tuido a linguagem de uma casta que estava no po- der (os feiticeiros). A lingua foi, portanto, desde a 6. Paul Lafargue, La langue frangaise avant et apres la révolution, L’Ere nouvelle, janeiro-fevereito de 1894, reeditado em L-J. Calvet, Marxisme et linguistique, Paris, Payot, 1977, p. 144. 18 A LUTA POR UMA CONCEPGAO SOCIAL DA LiNGuA origem, o instrumento do poder e é sempre marcada pela divisdo da sociedade em classes sociais. Depois essas quatro silabas vao se combinar, se deformar, se multiplicar, para originar as diferentes linguas do mundo, que Marr classificava em quatro esta- gios sucessivos, correspondentes a situacdes socioecondmicas diferentes: — primeiro estagio: chinés, linguas africanas; Imguas fino-ugrianas, turco; — terceiro estagio: linguas caucasianas e camiti — quarto estagio: linguas indo-européias e semiticas. Cada um destes estagios correspondia a um “progresso”; e, por tras dessa classificagio, é dificil nao ou, quando menos, de ERROCEASAGY} 04a essa construgao inspirada por um marxismo bem reduzido certamente devia ter sua visdo de futuro: as por pensar, sem dtivida, que €é mais bem servido do que por si mesmo, ele milita- 2 aS 2 cial, o que explica por que, durante cerca de quinze nos Qa bem visto pelo poder ¢ relati- vamente difundido na URSS. As teorias marristas terao o status de teoria oficial. Hoje a aplicagao do marxismo que elas pretendiam realizar parece bem priméria, mas via-se nelas, sobretudo a época, a justi- 19 SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGKO cRITICA ficacdo em lingitistica de principios ideolégicos mais gerais: primado da Juta de classes sobre a idéia de nacao, lingua como superestrutura, tudo isso entra- va perfeitamente em uma visio internacionalista, sem contar que respondia perfeitamente aos pro- pblemas da URSS em face das minorias nacionais, mostrando em particular que a organizagao social estava acima da divisao em nagoes. Oficializada com o nome d pensamento de Marr vai ser imposto nai até bem depois de sua morte, até bem entrados os anos 1950. Essa situacao de monopdlio, aliada a meios de pressio consideraveis de que dispde todo Estado forte, dificulta distinguir o que se elaborava teorica- mente fora do pensamento oficial: enquanto alguns ensinavam a nova teoria lingitistica nas universida- des, os que a criticavam arriscavam-se a ir aplicar stias andlises a situacdo lingitistica da Sibéria*. Nao obstante, é preciso destacar pes- quisadores, cujo mais célebre representante € hoje ik QB 895-1 975). Ha também entre eles Valentin Nicolaevitch Volochinov (1895-1930?) do qual conhecemos dois livros: O freudismo — uma critica marxista (1927) e Marxismo e filosofia dalin- guagem (1929). Nestas obras, a. Referéncia aos campos de trabalho forgados da Sibéria para onde eram enviados 0s criticos do regime soviético [n. do E.]. 20 A LUTA POR UMA CONCEPGRO SOCIAL DA LINGUA gem e que Saussure nao soube ver que o signo lingiiistico é o lugar da ideologia. Bakhtin nunca teve problemas efetivos com o regime e continuou a ensinar e a publicar suas obras, particularmente sobre Dostoievski, depois sobre Rabelais, enquanto Volochinov desaparecer4 nos campos de trabalho forcado, sem dtivida exatamen- te depois da publicacdo de seu ito. Mas aqui comega outra 7 se um rumor segundo o qual nem Volochinov nem Medvedev (outro membro do grupo) teriam escrito os livros que tinham assinad Na origem do rumor, poucos fatos, as declaragdes de um tal Prof. V. V. Ivanov, retomadas na introducéo a traducao francesa de Marxismo e filosofia da linguagem, publicada sob 0 nome de Bakhtin (seguido do nome de Volochinov entre parénteses) e com algumas linhas de Roman Jakobson avalizando a tese sem dar prova alguma’. Verdadeiro ou falso, esse enredo € ao mesmo tempo idilico e confuso. Ele comeca por uma hipétese que faz de Bakhtin um “mestre” com discfpulos de sua mesma idade e permite 4 URSS esconder a possibili- dade de que livros importantes e a partir de entao teeditados tenham podido ser escritos por pessoas 7, Mikhail Bakhtine (V. N. Volochinoy), Le marxisme et la Philosophie du langage, prefacio de Roman Jakobson, tradugao e introducdo de Marina Yaguello, Paris, id. de Minuit, 1977 (ed. br.: Marxismo ¢ filosofia da linguagem, Sao Paulo, Hucitec, 1979). at SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGAO CRITICA mortas em campos de trabalho forgado. Note-se que Volochinoy, que nada escrevera, segundo esse enre- do, é morto por nada escrever, enquanto Bakhtin, que trabalhava na sombra, a despeito da imposigao do marrismo, pode depois vir a boca de cena®. Nesse interim, a nova teoria lingilistica seria abandonada em circunstancias muito particulares. No comeco do més de maio de 1950, tem inicio no Pravda a publicagdo de uma série de intervengoes sobre a atualidade do pensamento de Marr e sobre o problema de saber se convinha trabalhar a partir de suas teorias, mesmo que alguns meses antes, ja- neiro para ser preciso, por ocasiao do décimo quin- to aniversario da morte de Marr, tenha-se evocado a primazia de suas teorias. Em 20 de junho, Stalin em pessoa intervém longamente, na forma de res- postas a perguntas, e assim se encerra 0 debate. Suas conclusdes podem ser restumidas em dois pontos: — a lingua nao ¢ uma superestrutura; — alingua nao tem cardter de classe. Mesmo que seus argumentos nao sejam 14 mui- to cientificos, seu peso politico faz com que doravan- te a pagina seja virada sobre Nicolai Marr. b. Ver a respeitg do caso Bakhtin-Volochinov a posicéo dos bidgrafos de Bakhtin, os americanos K. Clarke e M. Holquist, que defendem a atribuicao da autoria dos dois livros citados a Bakhtin, admitindo, quando muito, contribuigdes pontuais de Volochinov ¢ Medvedev ao texto. A biografia de Bakhtin foi publicada no Brasil: Clark, K. & Holquist, M., Mikhail Bakhtin, Sao Paulo, Perspectiva, 1998. Para uma exposigao das teses lingitisticas de Bakhtin, ver B. Weedwood, Histéria concisa da lingitéstica, Sao Paulo, Pardbola, 2002 [n. do F.]. 22 A LUTA POR UMA CONCEPGAO SOCIAL DA LINGUA Na Franga, Marcel Cohen, especialista em lin- guas semiticas e membro do partido comunista, sati- da essa intervengéo*. Em seguida, Cohen publicara uma obra’ que mostra que o marxismo dali por dian- te aborda de modo muito diferente os problemas lingitisticos: nao se trata mais de enquadrar os fatos da lingua numa moldura teérica preestabelecida, mas de lancar sobre eles uma olhar socioldgico marxista. Ebem verdade que as teorias de Marr nunca tinham sido levadas a sério: A. Sauvageot vinha criticando-as desde 1935, M. Cohen guardara a respeito delas um siléncio prudente, e os lingitistas franceses estavam muito mais marcados por Meillet que por Marr’’. A intervencao de Stdlin, que teria desbloquea- do a situagao, era, j4 vimos, muito mais politica que lingiiistica. Haverd, porém, um pais no qual seu texto serd considerado uma hase tedrica para a pesquisa: a China. Para concluir este ponto, e para o anedotario histdrico, é preciso destacar que em ou- tubro e novembro de 1974, uma delegagao de lin- gitistas americanos (entre os quais estavam Charles Ferguson e William Labov) visita a Reptiblica Po- pular da China e encontra numerosos colegas chi- 8. Une lecon de marxisme a propos de linguisti se que, Lia Pensée, 33, novembro-dezembro de 1950. 9, Marcel Cohen, Pourune sociologie du langage, Paris, Albi Michel, 1956. oni F _12 Sabena ver Daniel Baggioni, Contribution a histoire le la “Nouvelle Théorie du Langage” en France, in Langages, n 46, junho de 1977. LE 23 SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGAO CRITICA neses. Desse encontro surgird uma obra coletiva™ na qual se abordam diferentes assuntos: a reforma da lingua, 0 ensino de linguas estrangeiras, as lin- guas das minorias, a lexicografia ete. O capitulo que deveria ter sido 0 mais interessante, desde nosso pon- to de vista, refere-se a teoria da linguagem, mas se sua leitura nao nos ensina grande coisa sobre a apli- cacao do marxismo-leninismo & Jingitistica, ao me- nos nos mostra que a delegacao americana estava teoricamente desarmada diante de seus interlocu- tores. Realmente ela se contenta em registrar algu- mas provas: que a referéncia suprema € 0 texto de Stélin de que falamos acima, que a lingitistica, como todas as outras ciéncias, deve servir a politica prole- taria, que o vocabul4rio muda mais rapidamente que asintaxe etc. Por fim, para concluit, ela destaca que se é pouco provavel que a China pode contribuir para o progresso da lingiiistica teorica, da neurolin- giiistica ou da lingitistica historica, ela obteve, por outro lado, notaveis resultados no que diz respeito a padronizagao do putonghua (a lingua oficial), a simplificagdo dos caracteres @ a0 ensino das linguas das minorias. E claro que a auséncia de dimensao critica deve-se em parte a redagao coletiva da obra (que nao teve um s6 capitulo assinado) e é preciso sem dtivida considerar esse texto como produto de uum compromisso assumido. O fato é que em nenhu- TL. Winfred P. Lehmann (org.), Language and Linguistics in the People’s Republic of China, Austin, University of Texas Press, 1975. 24 A LUTA POR UMA CONCEPGRO SOCIAL OA LINGUA ma parte aparece o minimo embriao de discussao. porque a sociolingiiistica nascente nos Estados Uni- dos nao tem verdadeiramente uma teoria e porque a vaga idéia segundo a qual a sociolingiiistica deve estudar as relagdes entre a lingua e a sociedade nao é suficiente o bastante para dar inicio a um debate com um discurso que certamente procede sobretu- do do dogmatismo, mas diz ao fim e ao cabo um pouco a mesma coisa. Em 1974, os lingitistas ame- ticanos estéio desarmados diante do dogmatismo marxista-leninista, porque eles nao tém teoria, nado tém bases socioldgicas sobre as quais se spot é essa segue sendo a caracteristica da época na qual a sociolingtiistica faz sua aparicdo. Mas essas avatares tragicOmicos nao devem mas- carar 0 principal: nao pode haver sociolingtiistica sem socio ogia, € se a tentativa soviética nao foi em nada satisfatéria, o problema de wma andlise da lingua em so- Giedade subsiste. Desse ponto de vista, 0 episddio marrista, segutido da resolugao de Stalin, sé poderia fazer recuar 0 ponto de vista socioldégico na lingiiistica. 3. Bernstein e as deficiéncias lingiiisticas 7 Doravante, sera nas pesquisas publicadas em inglés que a sociolingiiistica moderna vai essencial- mente se manifestar. Basil Bernstein, especialista inglés em sociologia da educagao, = primeiro a levar em consideracdo, ao mesmo tempo, as produ- Ges lingiifsticas reais (o que era feito em peque- 25 SOCIOLINGDISTICA: UMA INTRODUGAO CRITICR nissima escala pelos autores inspirados no marxis- mo) € a situagao socioldgica dos falantes. Ele parti- 14 da constatacdo de que as criancas da classe ope- raria apresentam uma taxa de fracasso escolar mui- to maior que as criangas das classes abastadas. Ele passa entao a analisar as produgdes lingiiisticas das criangas e a definir dois cédigos: 0 cédigo restrito, 0 tinico que as criangas dos meios desfavorecidos do- minam, e 0 cédigo elaborado, dominado pelas crian- cas das classes favorecidas, que dominam também 0 cédigo restrito. O exemplo mais conhecido, ¢ 0 mais expressivo, cestes codigos é uma experiéncia que consiste em pedir as criangas que descrevam uma historia em quadrinhos sem texto. As criangas provindas dos meios desfavorecidos vao produzir 1m texto quase sem sentido sem o suporte das ima- gens: “Hles jogam futebol, ele chuta, quebra a vidia- ca ete.”, enquanto as criancas saidas de meios favo- recidos vao produzir um texto autonomo: “Meni- nos jogam futebol, um deles chuta, a pola atravessa a janela e quebra uma vidraga etc.” Os dois codigos se distinguem ainda do ponto de vista das formas gramaticais. O codigo restrito se caracteriza por frases reves, sem subordinagao, hem como por um vocabulario limitado, e seus fa- lantes veem-se fortemente defasados em seu apren- dizado e em sua visao de mundo. Em seus trabalhos, jncessantemente retoma- dos e esclarecidos, Bernstein esta especialmente 26 A LUTA POR UMA CONCEPGAO SOCIAL DA LINGUA preocupado com problemas de ldgica e de semanti- ca. Sua tese principal é de que o aprendizado e a socializagao sio marcados pela familia em que as criancas so criadas, que a estrutura social determi- na, entre outras coisas, os comportamentos lingitisticos. De uma perspectiva sociolégica, Bernstein esta fortemente marcado por Emile Durkheim: “Em certo sentido, os conceitos de cédi- go restrito e de cédigo elaborado tém origem na duas formas de solidariedade distinguidas on Durkheim”. Suas primeiras publicagdes (essencial mente artigos) foram inicialmente recebidas de modo positivo, pois era a primeira vez que se tenta- vauma descrigao da diferenga lingiiistica partindo da diferenga social. Mas, pouco a pouco, passar-se-4 contestar primeiramente sua apusieas bindria e tre dois cddigos (nao se trataria mais protannene de um continuum?) e depois seus conceitos lin- gitisticos. Foi sobretudo William Labov, ao pesquisa a fala dos negros americanos, que Assenyalvet a sas criticas, mostrando que Bernstein nao descr : via verdadeiramente cédigos, mas sobretudo asitlon, aie ele nao apresentava nenhuma teoria deseriaa: Quando se trata de descrever o que realmente para os falantes da middle class dos falantes da pene class, somos expostos a uma proliferacao le eu acho, de passivas, de modais e atxiliares, de 12. Basil Bernstein, Langage et classes sociales, Paris, E Minuit, 1975, p. 306. * 27 SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGO cRITICA pronomes de primeira pessoa, de termos raros ete. Mas do que se trata, sendo de limites [...] Prestare- mlos a nés mesmos um grande servico quando che- garmos enfim a distinguir no estilo da middle class © que € questao de moda e o que realmente ajuda a exprimir suas idéias com clareza’””’. Bernstein por certo responderd a essas criticas (particularmente no posfacio a Linguagem e classes sociais), mas suas teses terao cada vez menos eco na comunidade dos lingiiistas e hoje ele é hem pouco citado e utilizado. E contudo ele significou uma vi- rada na historia da sociolingiiistica: Bernstein foi uma espécie de catalisador, de acelerador na lenta progressao rumo a uma concepgao social da lingua, e 0 fato de suas teses terem sido depois rejeitadas em nada diminui 0 papel que ele desempenhou’. 4. William Bright: uma tentativa de sintese De 11a 13 de maio de 1964, por iniciativa de William Bright, 25 pesquisadores se reuniram em Los Angeles para uma conferéncia sobre a sociolingiiistica. 8 eram da UCLA, a universidade que organizava a conferéncia, 15 outros eram ame- ricanos ¢ s6 2 participantes vinham de outro pais (a 13. William Labov, Le parler ordinaire, t. 1, Paris, Ed. de Minuit, 1978, p. 136. c. O leitor brasileiro dispoe de uma discussdo das teses de Bernstein na obra de Magda Soares, Linguagem e escola: uma pers- pectiva social, Sao Paulo, Atica, 1985 [n. do E.]. 28 A LUTA POR UMA CONCEPGAO SOCIAL DA LINGUA Tugoslavia), mas estavam temporariamente na UCLA. 13 dentre eles apresentaram comunicagées: Henry Hoenigswald, John Gumperz, Einar Haugen, Raven McDavid Jr., William Labov, Dell Hymes, John Fisher, William Samarin, Paul Friedrich, Andrée Sjoberg, José Pedro Rona, Gerald Kelley e Charles Ferguson. Os temas abordados eram variados: a etnologia da variagao lingiiistica (Gumpery), a plani- ficacao lingiiistica (Haugen), a hipercorreco como fator de variagdo (Labov), as linguas veiculares (Smarin, Kelley), 0 desenvolvimento de sistemas de escrita (Sjoberg), a equagao de situagdes sociolingiifs- ticas dos Estados (Ferguson)... € os referenciais te6- ricos ndo eram menos variados. William Bright, que se encarregara da publica- cao das atas, tenta em sua introducao sintetizar es- sas diferentes contribuicdes, Ele nota, ja de princi- pio, que a sociolingiiistica “nao é facil de definir com Pprecisio”. Scus estudos, ele acrescenta, dizem res- peito as relages entre linguagem e sociedade, mas essa definigao é vaga, e ele entio esclarece que “uma das maiores tarefas da sociolingiiistica é mostrar que a variagao ou a diversidade nao é livre, mas que é correlata as diferencas sociais sistematicas”". Ele se propoe entao elaborar uma lista das “dimensoes” da sociolingiiistica, afirmando que em cada interse- Gao de duas ou mais dessas dimensées se encontra um objeto de estudo para a sociolingiiistica. As trés 14, William Bright (org.), Sociolinguistics, Proceedings of the UCLA Sociolinguistics Conference, La Haye-Paris, Mouton, 1966, p. 11 29 —————————— SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGRO CRITICA primeiras dessas dimensées aparecem em resposta a uma pergunta: quais sao os fatores que condicio- nam a diversidade lingiiistica? E ele distingue trés fatores principais: a identidade social do falante, a jdentidade social do destinatério € 0 contexto, situ- ando-se assim no marco de uma anidlise lingiiistica que tomou emprestadas nogées-chave da teoria da comunicacao (emissor, receptor, contexto). As qua- tro dimensdes seguintes sao para ele: — aoposigao sincronia/diacronia; — os usos lingiiisticos ¢ as crencas a respeito dos usos; — aextensio da diversidade, com uma triplice classifi- cacao: diferencas multidialetal, multilingual ou multissocietal; —_ as aplicagdes da sociolingiifstica, com mais uma clas- sificacdo em trés partes: a sociolingiiistica como diag- néstico de estruturas sociais, como estudo do fator s6cio-histérico e como auxilio ao planejamento. Fle concluia: “Parece provavel que a sociolin- gitistica entre em uma era de rapido desenvolvimen- to; podemos esperar que a lingiiistica, a sociologia e a antropologia venham a sentir seus efeitos”. Este texto tem, especialmente hoje, um valor hist6rico: 0 encontro de maio de 1964 marca, com efeito, o nas- cimento da sociolingitistica que se afirma contra outro modo de fazer lingitistica, o modo de Chomsky e da gramatica gerativa’’. Mas Bright s6 pode conce- 15, Idem, ibidem, p. 15. 16. Louis-Jean Calvet, Aux origines de la sociolinguistique, la conférence de sociolingusitique de 'UCLA (1964), in Langage et societé, n. 88, junho de 1999. 30 A LUTA POR UMA CONCEPGKO SOCIAL DA LINGUA ber a sociolingtiistica como uma abordagem anexa dos fatos de lingua, que vem complementar a lingiiistica ou a sociologia ¢ a antropologia. E essa subordinacio que vai potco a pouco desaparecer com Labov. 5. Labov: a sociolingitistica é a lingitistica Vimos que Meillet nao demorou a se opor as concepcées da lingiiistica propostas por Ferdinand de Saussure. O lingitista americano William Laboy"” nao se enganou acerca disso e, numa nota, assim analisa a contribuicao de seu predecessor e os limi- tes da lingiiistica saussuriana: “Meillet, contempo- raneo de Saussure, pensava que o século XX veria a -elaboracao de um procedimento de explicagdo histé- tica fundado sobre o exame da variacao lingiiistica enquanto inserida nas transformac6es sociais (1921). Mas discfpulos de Saussure, como Martinet (1961), ‘aplicaram-se a rejeitar essa concepcao, insistindo for- mente em que a explicagao lingtiistica se limitasse inter-relac6es dos fatores estruturais internos. Com sa atitude, alids, eles estavam seguindo 0 espirito ensino saussuriano. Com efeito, um exame wofundado dos escritos de Saussure mostra que, ele, o termo ‘social’ significa simplesmente ‘pluri- vidual’, nada sugerindo da interagio social sob aspectos mais gerais”. 17. William Labov, Sociolinguistique, Paris, Ed. de Minuit, 6, p. 259 (ed. or.: Sociolinguistic Patterns, Philadelphia, iversity of Pennsylvania, 1972). 31 SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGAO cRITICA E adiante, depois de ter apresentado exemplos fonolégicos da influéncia negra sobre o falar de Nova York, Labov conclui com um retorno a Meillet: “Es- ses exemplos dao peso ao que Meillet afirmava, que é preciso buscar a explicacao da irregularidade das variacoes lingitisticas nas flutuagdes da composi¢ao social da comunidade lingiiistica”"’. Quando, em 1966, Laboy publica seu estudo sobre a estratificacdo social do /r/ nas grandes lojas de departamento nova-iorquinas, texto que soa como um manifesto, pode-se ver ali uma retomada das idéias de Meillet. Encontra-se o mesmo tom desde 0 titulo do capitulo 8 de Sociolinguistic Patterns, “Es- tudo da lingua em seu contexto social”, ¢ uma pas- sagem mostra claramente 0 lago que une Labov a Meillet: “Para nds, nosso objeto de estudo é a estrutu- ra e a evolucdo da linguagem no seio do contexto social formado pela comunidade lingiiistica. Os assuntos considerados provém do campo normalmente chama- do ‘lingiiistica geral’: fonologia, morfologia, sintaxe e scmantica |...]. Se nao fosse necessdrio destacar 0 con- traste entre este trabalho e 0 estudo da linguagem fora de todo contexto social, eu diria de bom grado que se trata simplesmente de lingiitstica”"*. Henry Boyer, em um livro de apresentacao da sociolingiiistica, quali- fica esta afirmacao de “polémica””’. Contudo nao 18. Idem, ibidem, p. 425. 19. Idem, ibidem, p. 258. 20. Henry Boyer, Elémenis de sociolinguistique, Paris, Dunod, 1991, p. 5. 52 A LUTA POR UMA CONCEPGKO SOCIAL DA LINGUA ha aqui nada de polémico. Trata-se simplesmente da afirmagao de um prinefpio segundo o qual nao é possivel distinguir entre uma lingiiistica geral que estudaria as linguas e uma sociolingiiistica que le- varia em conta o aspecto social dessas linguas: em outros termos, a sociolingiitstica éa lingtitstica. Labov tadicaliza Meillet levando a sério até 0 fim a definicao da lingua como fato social, mas a comparagéo para aqui. Meillet, comparatista de alto nivel, trabalhou so- bretudo com linguas mortas, enquanto Labov traba- tha continuamente com situacdes contemporaneas concretas, enfrenta problemas de metodologia da pes- quisa, em suma, constrdi um instrumento de descri- ao que tenta ultrapassar, integrando-os, os métodos heuristicos da lingiifstica estrutural (ver cap. II). De suas pesquisas nasceré a corrente conhecida pelo nome de “lingiiistica variacionista” 6. Conclusao Os anos 1970 vao constituir uma virada. Ve- mos doravante serem publicadas revistas ou coleta- neas de artigos referindo-se explicitamente A Sociolingiiistica, que adquire mais e mais importan- cia e vem deslocar posigdes consideradas definitivas. Citemos, em 1972, Pier Paolo Giglioli que publica Language and Social Context”, obra na qual encon- tramos os nomes de Joshua Fishman, Erving 21. Pier Paolo Giglioli, Language and Social Context, larmondsworth, Midd., Penguin Books, 1972. 33 SOCIOLINGHISTICA: UMA INTRODUGAO CRITICA Goffman, Basil Bernstein, William Labov, John Gumperz, Charles Ferguson etc, Os textos seleciona- dos ja tinham sido todos publicados (entre 1963 e 1971) de modo isolado, mas esse reagrupamento, apds a obra de Bright, é 0 indicador de uma nova corrente na lingiiistica) No mesmo ano, a mesma editora publicava Sociolinguistics”, outra seleta de artigos organizados por J. B. Pride e Janet Holmes, na qual encontramos, entre outras, contribuigdes de Joshua Fishman, Einar Haugen, Charles Ferguson, William Labov, John Gumperz etc. Dois anos mais tarde, era publicado um pequeno livro de Peter Trudgill, Sociolinguistics, an Introduction, que fazia uma avaliacao do estado da ciéncia, dando numero- sos exemplos de pesquisas concretas**. No mesmo ano, na Franca, era publicada uma Introduction & la sociolinguistique que resumia essencialmente diferen- tes teorias e concedia amplo espago a abordagem marxista da lingua’. Para falar das revistas, indi- quemos Language in Society, que comega a circular em 1972, depois o International Journal of the Sociology of Language, a partir de 1974... € essa ati- vidade em varias frentes é um indicador irrefutavel de mudanca: a luta por uma “concepgao social da lingua” est4 em vias de se concretizar. 22, J.B, Pride, J. Holmes, Sociolinguistics, Harmondsworth, Midd., Penguin Books, 1972. 23. Peter Trudgill, Sociolingusitics, an Introduction, Harmondsworth, Midd., Penguin Books, 1974. 24, Jean-Baptiste Marcellesi, Bernard Gardin, Introduction A la sociolinguistique, la linguistique sociale, Paris, Larousse, 1974, 54. CAPITULO II L{INGUAS EM CONTATO Ha na superficie do globo entre 4.000 e 5.000 linguas diferentes e cerca de 150 paises. Um cél- culo simples nos mostra que haveria teoricamente cerca de 30 linguas por pais. Como a realidade nao é sistematica a esse ponto (alguns paises tem menos linguas, outros, muitas mais), torna-se evidente que o mundo é plurilingiie em cada um de seus pontos e que as comunidades lingiiisticas se costeiam, se superpoem continuamente. O plurilingiiismo faz com que as linguas estejam constantemente em contato. O lugar desses contatos pode ser o indi- viduo (bilingiie, ou em situaciio de aquisigaéo) ou a comunidade. E 0 resultado dos contatos é um dos primeiros objetos de estudo da sociolingiiistica. 1, Empréstimos e interferéncias “A palavra interferéncia designa um remane- jamento de estruturas resultante da introducao de elementos estrangeiros nos campos mais fortemen- te estruturados da lingua, como 0 conjunto do 35 SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGAO CRITICA sistema fonolégico, uma grande parte da morfologia e da sintaxe e algumas Areas do vocabuldrio (pa- rentesco, cor, tempo etc.)”!. Assim Uriel Weinrich definia em 1953 a in- terferéncia, em seu livro, Languages in Contact. Se esta obra marcou e se ainda hoje é lida, mais de quarenta anos depois de sua publicagao, é porque ela foi a primeira a ir direto ao ponto, com pers- picdcia e profundidade, dos problemas do bilingitis- mo. Mas a definicio que acabamos de citar, que poderia se aplicar ao problema das linguas em con- tato na sociedade, sé serd utilizada por Weinrich em teferéncia ao individuo bilingiie. Ele considera- va que as linguas estavam em contato quando eram utilizadas alternadamente pela mesma pessoa. Podemos distinguir trés tipos de interferén- cia: as interferéncias fénicas, as interferéncias sin- tdticas e as interferéncias lexicais. O quadro ao lado, emprestado de Weinrich, apresenta os fonemas de um dialeto alemanico falado na aldcia de Thusis (schwyzertiitsch) e de uma variedade do romanche falada na aldeia de Feldis (essas duas aldeias se encontram nos Grisées, na Suiga)’. 1. Uriel Weinrich, Languages in Contact, New York, 1953, republicado por Mouton, Haia, 1963. 2. Weinrich, Languages in Contact, p. 15. 56 LINGUAS EM CONTATO INTERFERENCIA FONICA Romanche Schwyzertiitsch (Feldis) (Thusis) mn n mn bd nl g BD G pt c]| k py t (k) ts ts f ts ts {ke f a h s s h v z Bl z 1 x 1 T r j Ww Jj i w i [7 ult oy w pe 9 é ole @ o ie _ _ _al ze a [ae a: /'/ Acento 7/ Acento A oposigao entre vogais breves ¢ vogais lon- as em schwyzertiitsch levanta problemas, porque romanche as vogais sao longas em certos con- extos e breves em outros. Disso resulta, de um lo, confusées entre alguumas palavras e, de ou- ), um “sotaque” romanche em schwyzertiitsch. contraremos um exemplo semelhante na difi- dade que os brasileiros podem ter pata realizar istingao inglesa entre o /i:/ longo e o /i/ breve palavras como sheep e ship, sheet e shit etc. _ As interferéncias sintaticas consistem em or- jizar a estrutura de uma frase em determinada 37 SOCIOLINGBISTICA: UMA INTRODUGAO CRITICA lingua B segundo a estrutura da primeira lingua A. E como um italiandfono produzir em francés, partindo do modelo corrente de frases como vienne la pioggia (“vem chuva”) ou suona il telefono (“toca o telefone”), frases como sonne le téléphone*. No campo lexical, as interferéncias mais sim- ples séo as que consistem em cair na armadilha dos falsos cognatos, quando um inglés, por exem- plo, utiliza em francés o termo instance com o sentido de “exemplo” que ele tem em sua lingua. Podem-se também encontrar traducées literais: estar direito entre os portugueses dos Estados Unidos traduzindo diretamente o inglés to be right, “estar certo, ter razio”. Ou ainda criagdes em uma lingua calcadas no modelo de outro: o francés do Quebec esté cheio de exemplos desse tipo, como vivoir para “sala de estar” (inglés: living room)». Mas a interferéncia lexical é mais freqiiente quan- do as duas linguas néo organizam do mesmo modo a experiéncia vivida. Encontram-se, por exemplo, no francés da Africa um uso do verbo gagner de sentido muito amplo (“ganhar”, mas também “ter”, “possuir”), acepgao calcada no modelo de algumas linguas africanas que tém apenas um verbo para a. Ao contrario do portugués e do italiano, o francés nao admite normalmente a inversio da ordem sujeito-verbo. Por isso, sonne le tééphone, com o verbo antes do sujeito, causa estranheza para um falante nativo de francés [n. do E.]. ‘b. O termo vivoir deriva do verbo vivre (“viver”), tentando reproduzir portanto a idéia contida em living room (literalmente, “espaco para viver”) [n. do E.]. 58 LINGUAS EM CONTATO essas nocgdes. Dessa forma, uma frase como Ma femme a gagné petit significard que ela teve um filho e nao que ganhou em alguma loteria...° Levada ao limite de sua légica, a interferéncia lexical pode produzir 0 empréstimo: mais que pro- curar na propria lingua um equivalente a um termo de outra lingua dificil de encoritrar, utiliza-se direta- mente essa palavra adaptando-a a prépria prontin- _ cia. Contrariamente 4 interferéncia, fenémeno indi- vidual, 0 empréstimo é um fendmeno coletivo: todas as linguas tomaram empréstimos de linguas prdxi- mas, por vezes de forma massiva (é 0 caso do inglés emprestando ao francés grande parte de seu vocabu- lério), a ponto de se poder assistir, em contrapartida, a reagoes de nacionalismo lingiifstico. Como, por exemplo, no Quebec e, em cerita medida na Franca e no Brasil, onde se desenvolveu um movimento Oficial de luta contra os empréstimos. Voltaremos a este ponto no tiltimo capitulo deste livro*. . As linguas aproximativas O plurilingiiismo suscita evidentemente um ‘oblema diferente, quando um falante se encon- c. Curiosamente, no portugués brasileiro, também se usa 0 tho ganhar com sentido de “dar & luz”: “Minha irma ganhou 6m’ [n. do E,]. d. Para o caso do Brasil, cf. Carlos Alberto Faraco (org.), Ingeirismos — guerras em torno da lingua [Colegio “Na ponta lingua, 1”], Sao Paulo, Pardbola Editorial, 2001 [n. do T.]. 59 fi SOCIOLINGDISTICA: UMA INTRODUGKO CRITICA tra numa comunidade cuja lingua ele nao conhe- ce. Temos aqui dois casos tipicos: pode se tratar de uma pessoa que esta de passagem (um turista, por exemplo), que tentaré entao lancar mao de uma terceira lingua que tanto ele como a comunidade em que se encontra conhegam. Neste caso, ele se vale do que se chama uma lingua veicular, nogao a qual retornaremos adiante. Mas pode se tratar também de uma pessoa que tem a intengao de permanecer naquela comunidade, sendo-lhe, por isso, necessdrio, para se assimilar, adquirir a lin- gua da comunidade de acolhida. Esta € a situagao na qual se encontram os trabalhadores migrantes, que chegam a seu pais de acolhida sem conhecer, ou sabendo bem pouco a lingua. Fles sao forgados a adquirir essa lingua no ambiente de trabalho. E interessante analisar esse tipo de aquisigao. Veja- mos a seguir um curto excerto de conversagao com um imigrante espanhol em Paris que exemplifica claramente o fendmeno: — Vous l'aviez connue avant de venir en France? — Ah non! Mais non, c’est porque yo habia metté une annonce sur un, journal Figaro, y elle me va escrir. Et ma une otra petite qui travaille a Paris va me mener*. Temos aqui uma aproximagao do francés, cujas caracteristicas mostram bem a origem lin- gitistica da falante: 3, Christine de Heredia, Le frangais parlé des migrants, Jeause francais, non, Paris, La Découverte, 1983, p. 101. 40 LINGUAS EM CONTATO — termos espanhdis no texto “francés”: porque em vez de pourquoi, otra em vez de autre; termos inventados, produzidos por uma interferén- cia entre as duas linguas; escrir em vez de éerire (em espanhol é escribir); misturas sintaticas: yo habia metté em vex de j'avai mis, onde encontramos ao mesmo tempo um segmen- to espanhol e um mau uso do participio passado ir- regular do verbo metire etc. Pode-se também pensar que essa situacao im- plica néo mais um individuo, mas um grupo so- cial, confrontado com outro grupo cuja lingua ele nao fala e que, por sua vez, também nao fala a sua. ‘Se nao ha uma terceira lingua disponfvel, e se os dois grupos tém necessidade de se comunicar, eles yao inventar para si outra forma de lingua aproxi- ‘mativa, geralmente uma lingua mista. Por isso se lalou, até o século XIX, nos portos do mar Medi- traneo, a lingua franca, forma lingitistica basea- no italiano com um vocabuldrio que também ‘ia empréstimos as outras lingtias do contorno editerraneo. Moliére, em O burgués fidalgo (ato cena V), recriou uma passagem em lingua fran- Nao se trata exatamente do sabir tal qual fala- nos portos do Mediterraneo, mas podemos ontrar em seu exemplo as caracteristicas de s formas lingiiisticas: nelas os pronomes sao luzidos a uma so forma (ti para “tu” e “ti”) e os jos ficam todos no infinitivo: 41 SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGKO CRITICA Texto de Moliére Traducio Se ti sabir Se sabes Ti respondir Respondas Se non sabir Se nao sabes Tazir, tazir Cala-te Mistar Mufti Sou Mufti Ti qui star ci, Tu, quem és? Non intendir Se nao compreendes Tazir, tazir Cala-te Estas formas, chamadas de sabirs, sio origi- nalmente utilizadas entre comunidades que nado tém lingua comum, mas que mantém, por exem- plo, relagdes comerciais. Trata-se de um sistema extremamente restrito: algumas estruturas sintati- cas e um vocabuldrio limitado as necessidades de comunicacéo imediata. Quando essas formas co- brem necessidades de comunicagao mais amplas e seu sistema sintdtico se torna mais desenvolvido, fala-se de pidgins, cujo primeiro exemplo é 0 in- glés pidgin que se desenvolveu nos contatos co- merciais entre ingleses e chineses ao longo da costa do mar da China, tomando o vocabulario empres- tado ao inglés e sua sintaxe ao chinés (a origem do termo pidgin seria, alids, a deformacao do termo inglés business, 0 que indicaria bem a funcdo so- cial dessa forma lingiiistica), Essas formas aproxi- mativas, ao contrario das formas individuais que evocamos acima nas situagdes de aquisicéio, geral- mente nao estao destinadas a evoluir para uma pratica da lingua melhorada. Elas sao simplesmen- te auxiliares utilizadas em uma situacdo de contato. 42 LINGUAS EM CONTATO. 3. Misturas de linguas, alternancias de codigo ¢ estratégias lingiiisticas Quando um individuo se confronta com duas linguas que utiliza vez ou outra, pode ocorrer que elas se misturem em seu discurso e que ele produ- za enunciados “bilingties”. Aqui nao se trata mais de interferéncia, mas, podemos dizer, de colagem, de passagem em um ponto do discurso de uma lingua a outra, chamada de mistura de linguas (a partir do inglés code mixing) ou de alternancia de codigo (com base no inglés code switching), segun- do a mudanga de lingua se produza durante uma mesma frase ou se dé na passagem de uma frase a outra. Vejamos um primeiro exemplo, extrafdo de uma conversa entre mulheres espanholas vivendo na Suiga, em Neuchatel: “Ahora, con cabronas de pornemelos en lo alto de la oficina, en lo alto de la mesa de la oficina; sin explicacion y sin na! Ca va pas ou quoi? Por quién se toma este imbecil que apesta a vaca, eh? Y subo y digo, dice: bueno, je vais voir si je trouve, je monte tout de suite”. A insercaéo de segmentos em francés (¢a vas ou quoi?, je vais voir si je trouve, je monte tout de suite) em um discurso em espanhol testemtnha aqui a situagéo de contato de linguas em que se encontra a falante e constitui, segundo o autor, 0 “falar bilingiie”, uma mescla de linguas, na verda- 4, Jean-Frangois de Pietro, Vers une typologie des situations de contacts linguistiques, Langage et Societé, n. 43, marco de 1988. i) SOCIOLINGHIsTICA: UMA INTRODUGKO cRITICA de, que é certamente comum as duas pessoas: as duas sao espanholas, as duas trabalham em um contexto francéfono e a alternancia entre uma lin- gua e outra funciona o mais das vezes como cita- cao de um fragmento de discurso que foi enuncia- do em outra lingua, ou como modo de ancorar 0 discurso na realidade a qual ele se refere: nao ha, aqui, estratégia particular. A alternancia de cédigo ou a mistura de lin- guas podem responder a estratégias conversacio- nais, fazer sentido. Vejamos um exemplo de con- versacao em uma familia de origem italiana viven- do no Canada angldfono. Os pais nasceram na Italia, os quatro filhos nasceram no Canada e uma dentre eles, uma filha, esta na Franca estudando. Toda a familia lhe envia uma espécie de carta oral, gravacao numa fita cassete de uma conversa cole- tiva dirigida a filha/irma ausente: Irma cagula - E goes, “oh those Marines, dangerous ‘n””. Irmio - Yup; Stay away from i marins e tutti soldat (risos). Irma cagula — E tut ji soldat (risos). Pai - E mit sendemind nde... Irma cagula - Ah! Ok (irmao: risos). Pai - E nen fa la Stupet la ma’Em a la fran pe fal:a devend’da kju smart envEc a’pu/... Anh. Irma cacula - Fa kju Stupet. Pai - An (kju) keva ala skol e kju se devendEm le kos bon’. 5. Elena Silvestri, Choix de langues et r6les discursifs dans une conversation familiale italo-canadienne, Plurilinguismes, n. 1, 1990, pp. 75-90. 44 LINGUAS EM CONTATO TRADUGAO (trechos em inglés em negrito, trechos em italiano em itélico) Irma cacula - Ele esta dizendo: oh, esses “marines” so perigosos. Inméo - Ve la, evita “os marines e todos os soldados” (risos). Irma cacula - E todos os soldados (risos). Pai - Seja esperta, nao... Irma cagula - Ah, okt (irmdo; risos). Pai-E néio vi fazer besteira, Nés mandamos ela pra Fran- ga pra ela se tornar mais inteligente, ¢ nao pra depois... Irma cagula - Ela virar mais burra. Pai — Vé ld, quanto mais se vai a escola, mais coisas boas alguém pode ser. Vemos que a irma cagula comega citando, em inglés, uma frase que o pai proferiu em italiano (mas ela pronuncia a palavra perigosos com 0 so- taque italiano do pai). O irmao encadeia em in- glés, mas cita a frase do pai em italiano, frase que a irma cacula retoma, sempre em italiano. Duran- te toda a conversacao o pai sé fala italiano, mas introduz em seu discurso um termo inglés (smart). Desse modo, as mudangas de lingua efetuadas pelos filhos tém aqui uma funcao irénica: trata-se, toda vez, de zombar do pai, de encenar lingitistica- mente seu comportamento, a alternancia corres- pondendo, portanto, a uma estratégia. Vejamos outro exemplo de alternancia de cddi- go, correspondendo ao que se chama de negociacao da lingua de interagéo*, Na cidade de Montreal 6, Monica Heller, Negotiations of Language Choice in Mon- treal, in John Gumpers, Language and Social Identity, Cambridge, Cambridge University Press, 1982, pp. 108-118, 46 SOCIOLINGUfSTICA: UMA INTRODUGKO CRITICA (Quebec), majoritariamente francéfona, o inglés estd em tal progressao que os francéfonos se de- fendem com uma verdadeira bateria de leis lin- giifsticas. Uma das conseqiiéncias dessas leis é que a administracao deve ser bilingtie, e a situagaéo é tio complexa e tao critica que o autor observa que comprar um par de meias se tornou um ato poli- tico... E imprescindivel escolher a lingua de comu- nicacéo sem impor ao outro a lingua que ele nao fala ou nao quer falar. O exemplo abaixo é uma conversa telefonica entre a telefonista do servico de marcacao de con- sultas de um hospital ¢ uma paciente: Telefonista - Central Booking, may I help you? Paciente - Oui, allé?! Telefonista — Bureau de renseignement, est-ce que je peux vous aider? Paciente - (passa a falar francés) Telefonista — (permanece falando francés) Paciente — (passa a falar inglés) Telefonista - (em inglés) Paciente — (volta ao francés) Telefonista — (em francés) Paciente ~ Etes vous francaise ou anglaise? Telefonista - N’ importe, j’suis ni Pune ni lautre. Paciente - Mais... Telefonista — Ca ne fait rien. (A comunicacdo continua em francés). Os comentarios de Monica Heller a esta con- versagéo podem ser assim resumidos: 46 LINGUAS EM CONTATO — durante toda a conversa, as duas falantes dio prova de que dominam tanto 0 inglés como o francés; — mas em sua primeira réplica (“oui, all6”), a paciente forga a telefonista a repetir sua frase, como quem diz: “Nao podemos ter essa conversa sem saber se nos decidimos a falar inglés ou francés” Ela poderia também perguntar “Vocé fala francés?”, e a telefo- nista poderia responder “Sim”, ou “Um pouquinho” ou pedir 8 paciente para falar devagar, ou ainda cha- mar alguém, pedir para ser substituida por um franc6fono (ela é realmente angl6fona e espontanea- mente atende o telefone falando inglés); — atelefonista escolhe seguir a paciente em francés, A paciente, nao satisfeita, passa ao inglés e por fim pergunta a telefonista que lingua é a dela. A telefo- nista se recusa (em francés) a responder, e a conver- sa segue em francés, Assim termina a negociagéo, ea escolha de uma das linguas significa que a paciente fez o explicit pedido de falar francés e que a telefo- nista avalia falar um francés suficientemente bom. A conversagao pode entao prosseguir. No préximo caso, ao contrdrio, a comunica- cao chega ao fim antes que a negociacdo gere um acordo. Essa conversa foi gravada no bar de um hotel, em Creta. Um héspede (que falava francés com sua mulher no momento em que chega o farcom) se dirige ao gargom em grego: Hospede - Kadnotrepa (“Boa tarde”). O gargom lhe responde em francés, e as res- postas vio alternar grego e francés: —___ Gargom ~ Bonsoir monsicur (“Boa tarde, senhor”). AT aaa SOCIOLINGHISTICA: UMA INTRODUGAO cRITICA Héspede -Exete Outo? (“O senhor tem ouzo?”). Garcom - De l’ouzo, bien sir monsieur (“Ouzo... temos sim, senhor”). Hospede - 81a outa, TapaKaro (“dois ouzo, por favor” com um erro de grego: dia em ven de dio). Gargom - 810? (“dois?”: 0 gargom repete o adjetivo numeral em sua forma correta). Héspede — Nai, 810 (“sim, dois”: 0 héspede aceitou a correcao). Gargom - Tout de suiie monsieur (“Agora mesmo, senhor”) Esta interacdo pode parecer paradoxal, pois durante seu desenrolar cada um fala, até o fim, a lingua do outro (o grego s6 intervém em grego uma vez, para corrigir um erro cometido pelo héspede). Temos aqui um exemplo quase caricatural de alternancia de cédigo. A interagao é muito curta para que se possa julgar a capacidade de cada um dos interlocutores de avangar em uma conversacao em uma ou outra das linguas. Mas fica claro que o gargom quer mostrar sua compe- téncia “profissional” em francés e que o hdspede insiste em mostrar que pode falar grego. Por isso, quando ele diz Exete Ouo?, nao estd simples- mente perguntando se ha ouzo (certamente hd; 0 ouzo € simplesmente a bebida nacional da Grécia...), ele mostra ao mesmo tempo que pode fazer essa pergunta em grego (apesar de saber muito bem que em um bar de um hotel internacional o gargom com- preenderd francés ou inglés). Por sua vez, 0 gargom 48 LINGUAS EM CONTATO. poderia contentar-se com um didlogo em grego: ele compreende perfeitamente o que lhe diz o hdspede, segundo suas respostas. Mas, ao responder a per- gunta citada acima: “De l’ouzo, bien stir monsieur”, ele diz que ha ouzo, certamente (0 que € evidente) mas demonstra ao mesmo tempo que compreendet 0 grego do héspede e indica sobretudo que identifi. cou 0 sotaque francés do héspede e que prefere falar francés ou se recusa a falar grego. Nessa curta seqtiéncia, ocorrem muito mais coisas do que o simples pedido de duas bebidas: de- senrola-se um conflito de papéis quanto a escolha da lingua de intercémbio, e 0 intercambio chega ao fim sem que nenhum dos interloctitores recue. Contudo, mesmo ninguém vencendo, o gargom marcou um ponto simbdlico ao corrigir um erro de grego do hdspede e ao nao cometer nenhum erro em francés, Vejamos agora uma ultima situacéo de comu- nicagdo plurilingiie: um coldquio sobre a lingua galega, reunido na primavera de 1991 em uma cida- dezinha da Galiza, do qual participavam, além de uns cinqiienta participantes galegos, quatro convi- dados estrangeiros: — um belga, de primeira lingua flamenga, mas falante também do francés, do alemao, do inglés, do espanhol e praticante de uma “aproximacao do galego”, valen- do-se da forma fonética de seu espanhol e produzindo algo como um espanhol pronunciado a portuguesa; — um francés 1 que sé falava francés; — um francés 2 que falava espanhol, italiano e inglés; — umitaliano que falava francés, inglés e espanhol. 49 SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUCKO CRITICA Os quatro convidados falavam francés entre si. No quadro do coléquio, os galegos sé falavam galego, o belga falava sua “aproximagao do gale- go”, os trés outros falavam francés. Mas fora do coldquio, nos cafés ou restaurantes, as coisas eram bem diferentes. O francés 1 falava francés, sua tinica lingua, e todo mundo lhe falava em francés. Os galegos, de acordo com seu dominio do fran- cés, falavam francés ou espanhol com os outros trés convidados estrangeiros, o francés 2 ¢ o italia- no falavam espanhol ou francés com os galegos, francés ou, as vezes, italiano entre si, o belga fa- lava igualmente francés ou espanhol (reservando sua “aproximacao do galego” para as situagdes formais do coldquio). Isto significa que tinhamos ali comportamentos lingiiisticos ditados seja pela necessidade (falar a tinica lingua que se domina: é o caso do francés 1), seja por estratégias mais complexas: para os galegos, recusar-se a falar espa- nhol no coldéquio configurava uma demonstragao de suas posicdes politicas (todos eles eram mili- tantes de sua lingua), e, para o belga, falar sua aproximacdo do galego era uma manifestagdo de seu apoio a causa dos galegos (falo a lingua de vocés, estou de set: lado). Misturas de linguas e alternancias de cddigo podem ter, portanto, fungdes diversas. No exem- plo italo-canadense, tratava-se de zombar docemen- te do pai; no exemplo quebequense, de decidir em comum acordo qual seria a lingua da interagao; no 50 LINGUAS EM CONTATO exemplo grego, cada um queria provar sta compe- téncia na lingua do outro etc. Mas em todos os casos, 0 contato das linguas produz situagdes nas quais a passagem de uma lingua a outra reveste uma significagdo social. A telefonista e a paciente chegam, por fim, a um acordo (implicito), 0 hés- pede do hotel e o garcom nao chegam a acordo algum, os participantes galegos do coldquio im- poem sua lingua aos convidados estrangeiros. A cada vez, a comunicagéo se produz a despeito do plurilingiiismo, ou sobretudo sob a forma de ad- ministracao do plurilingiiismo. Mas o bilingtiismo social nem sempre é tao harmonioso. Ele pode também ser conflituoso. 4. O laboratério crioulo O contato entre linguas nao produz apenas interferéncias, alternancias e estratégias. Ele gera sobretudo um problema de comunicagao social. Vi- mos um tipo de resposta a esse problema sob a forma de linguas aproximativas (sabir, pidgin), que tém como caracteristica nao ser a primeira lingua de ninguém. Mas algumas situacdes socioldgicas fazem com que as linguas primeiras percam a efi- cacia comunicacional, quando as populagées estao a tal ponto misturadas que ninguém fala a lingua do outro. E, por exemplo, o que se produziu nos deslocamentos de escravos da Africa para as ilhas: a“ SOCIOLINGHISTICA: UMA INTRODUCKO cRITICA de origens diferentes, misturados nas plantagoes, os negros nao podiam se comunicar em suas lin- guas primeiras e tiveram de criar para si uma lin- gua aproximativa, um pidgin. O modo de emergéncia dos crioulos, ligada ao comércio triangular e ao trafico de escravos, é ainda objeto de discussao na comunidade cientifi- ca. Com efeito, nem todos os lingiiistas estao de acordo sobre a origem dos pidgins e dos crioulos (duas hipoteses se opdem, a hipdtese monogenética e a hipdtese poligenética) e sobre seus processos de formagao. Para alguns, um crioulo € um pidgin que se tornou lingua veicular (isto é, a lingua primeira de uma comunidade), tendo um léxico muito mais ampliado, uma sintaxe mais elaborada e campos de uso variados. O crioulo se caracteri- zaria entio por um vocabuldrio emprestado a uma Imgua dominante, a dos plantadores, e uma sinta- xe fundada sobre a sintaxe das linguas africanas. Outros enfatizam que nenhuma descrigao pode provar verdadeiramente as relagdes entre a gramé- tica dos crioulos e as das linguas africanas e se inclinam especialmente para a hipdtese de uma aproximagado de aproximacao. E a tese de Robert Chaudenson. Baseando-se especialmente no crioulo da ilha da Reuniao, defende, com argumentos con- vincentes, que num primeiro tempo os escravos, pouco numerosos e vivendo relativamente perto de seus senhores, adquiriram um francés sumario (“uma aproximacao do francés”) e que, num segundo tem- 52 LINGUAS EM CONTATO po, com a multiplicacéo do ntimero de escravos, os recém-chegados aprenderam o “francés” com os escravos mais antigos (adquirindo assim “uma apro- ximacéo da aproximacao”). Baseando-se em uma meticulosa andlise da histéria do povoamento da ilha da Reuniao, ele vé trés fases na histéria dos criou- los. Antes de tudo, uma primeira fase, de instalacao: “A importancia numérica, econdmica e social do grupo branco me leva a pensar sempre mais que essa fase deve ter sido muito menos caracterizada pelo surgimento de um pidgin que pela realizacéio de aproximagoes do francés pelos falantes que, alids, conservavam o uso de sua lingua de origem”. A segunda fase “comega com o desenvolvi- mento de culturas coloniais (café ou cana-de-acti- car) que geram consideravel necessidade de mao- de-obra e de expressivas imigracédes, que reduzem sensivelmente a porcentagem de brancos da popu- Jac&o total”. Durante essa fase, os recém-vindos, que trabalham nas plantacées, tem pouquissimos contatos com os brancos. Eles se enquadram no contexto dos primeiros escravos que séo ou do- mésticos ou capatazes e lhes transmitem seus ru- dimentos de francés. E no decorrer da terceira fase que o crioulo vai se estabelecer definitivamente como um cddigo separado do francés’, no seio de uma relacdo digléssica (ver abaixo). F 7, Robert Chaudenson, Créole et enseignement du francais, Paris, UHarmattan, 1989, pp. 164-166, 53 SOCIOLINGU[sTICA: UMA INTRODUGKO CRITICA Diante disso, Derek Bickerton avanga outra hipotese, baseada na existéncia de um “bioprogra- ma” inato a cada individuo, que vai ser ativado e dar nascimento a um crioulo nas situagdes sociais que esbocamos e quando a lingua dominante é imperfeitamente transmitida’. O problema ainda nao acabou de ser debatido, e a relativa juventude das linguas crioulas faz com que seu estudo seja extremamente importante para a compreensdo da génese da linguagem. Por isso Claude Hagége fa- lou de “laboratério crioulo”, expressao que reto- mei no titulo deste pardgrafo. Entre os numerosos crioulos falados no mun- do, é preciso destacar os que tém por origem lexical: — inglés (no Havai, na Jamaica, na Melanésia, onde échamado beach-la-mar, bislama, béchez-de-mer, em Santa Licia etc.); — o francés (110 Haiti, em Guadalupe, na Martinica, na Guiana, nas ilhas Seychelles, na ilha da Reuniao etc.); — oespanhol (em Porto Rico ete.); — o portugués (nas ilhas do Cabo Verde ete.). Nao obstante sua extrema variedade e suas signifi- cativas diferengas, 0s crioulos as vezes manifestam tragos comuns, Por exemplo, a repeticao enfaitica das formas verbais: —_ sémanjém ap manjé (crioulo das Antilhas francesas), — anyam mia nyam (crioulo da Jamaica), — come mi ta come (papiamento), 8. Derek Bickerton, Roots of Language, Aum Arbor, 1981. 54 LINGUAS EM CONTATO com o mesmo sentido, “estou comendo”, e li- teralmente “comer estou comendo”. De todo modo, o crioulo é uma lingua como as outras, cuija tinica caracteristica especifica esté em seu modo particular de emergéncia. Por longo tempo desprezados, considerados como formas in- feriores e exatamente por isso sem acesso as fun- coes oficiais (ensino, administracéo), hoje os criou- los sAo promovidos a posicdo de lingua oficial (nas ilhas Seychelles e no Cabo Verde) e utilizados em cardter experimental no ensino (nas Antilhas fran- cesas e no Haiti). 5. As linguas veiculares Seja qual for a teoria explicativa da origem dos crioulos que venha a ser unanimemente acei- ta, vimos que sia emergéncia implica duas coisas: um grupo dominante e minoritdrio (e a lingua desse grupo) de um lado, uma maioria de escravos dominados de outro, sem uma lingua comum. Mas ha outras situagdes nas quais o plurilin- gitismo cria dificuldades de comunicacéo entre gru- pos homogéneos que tém linguas préprias e que nao tém dificuldades em se comunicar entre si. Veremos um exemplo urbano de uma situagao desse tipo, o da capital do Senegal. Segundo uma pesqui- sa feita em 1986 nas escolas dessa cidade’, podem- 9, Pesquisa inédita de Martine Dreyfus, Dakar, 1986, SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGAO CRITICA se encontrar ali sete linguas principais (linguas primeiras ou maternas) (ver grafico abaixo). DAKAR 1986 manding Bu [frances 17% CG diota manjak SANDAGA 6% Bh vole wolof/francés BB peut ] frances A cada uma dessas linguas correspondem fa- imilias, as vezes bairros, os falantes da Iinguas vém de regides onde essas linguas sao majoritarias (0 diola em Casamance, 0 peul na regiao do rio Senegal, na fronteira com a Mauritania etc.), e a comunica- cao interna é assegurada em peul, em diola ou em manjak. Mas 0 que acontece quando os falantes de 56 LINGUAS EM CONTATO wolof, de peul e de diola se encontram? Em que lingua vaéo se comunicar? Uma segunda pesquisa, conduzida num mercado central da cidade, o merca- do de Sandaga, nos mostra que apenas trés Ifnguas s4o utilizadas no trato comercial, e que ali o wolof é a lingua amplamente dominante. Isso significa que as pessoas que tém o wolof como primeira lingua o utilizam para se comuni- car com as outras pessoas que nao tém a mesma primeira lingua que elas. E a definigio de uma Imgua veicular: wma lingua utilizada para a comu- nicagao entre grupos que nao tém a mesma primeira lingua. S40 muitos os exemplos: o swahili que atra- vessa a Africa da costa leste africana até o Zaire; o quichua na Cordilheira dos Andes; 0 sango na Africa Central; 0 bambara/dioula na Africa Oci- dental ete."° Em todos os casos, a emergéncia de uma lingua veicular é a resposta que a pratica social € comunicativa dos falantes dé ao problema posto pelo plurilingitismo da comunidade. Essa resposta pode se traduzir em duas formas diferentes: — _ alingua veicular pode ser a lingua de um dos grupos em presenga (por exemplo, o wolof no Senegal, o bambara no Mali etc.); — a lingua veicular pode ser uma lingua criada, lingua compdsita com empréstimos dos diferentes cédigos em presenga (por exemplo, o munukutuba no Congo)", 10. Cf, Louis-Jean Calvet, Les langues je”, n. 1916, 1981. 11, Louis-Jean Calvet, Les langues véhiculaires, p. 78. tniculaires, “Que sais- SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGAO CRITIC Para ter idéia da importancia da fung&o veicu- lar de uma lingua, calcula-se uma taxa de veicularidade, ou seja, a relacdo entre os falantes dessa lingua e os que nao a tém como lingua primeira. Desse modo, uma lingua utilizada em wma comunidade de um milhao de habitantes na qual 300.000 a tém como lingua primeira tera uma taxa de veicularidade muito mais expressiva (70%) que uma lingua utilizada em uma comunidade de um milhao de habitantes dos quais 700.000 a tém por lingua primeiza (30%). De todo modo, é interessante estudar as rela- cdes entre forma e funcao que o fendmeno veicu- Jar nos tevela. Assim, os trabalhos de Paul Nzété no Congo” e de Ndiassé Thiam no Senegal’? mos- tram que em fungao veicular o lingala, no primei- ro caso, 0 wolof, no segundo, se simplificam. A nocao de simplificagéo nao € muito cientifica. Nos a utilizamos aqui para designar o fato de que a lingua veicular vé seu sistema sramatical se redu- zir, se regularizar. De forma que o sistema de clas- ses dessas duas linguas é mais complexo no meio rural (onde sao sobretudo linguas primeiras) que no meio urhano, onde sao Ifnguas sobretudo vei- culares, E 0 fato de a fungiio de uma lingua poder ter influéncia sobre sta forma é uma das desco- bertas fundamentais da sociolingitistica. 12. Paul Nzété, Le lingala de ta chanson zairo-congolaise de varietés, tese de doutorado, Universidade René Descartes, Paris, 1991, 13. Ndiassé Thiam, L’évolution du wolof véhiculaire en milieu urbain sénégalais; le contexte dakarois, Plurilinguismes, n. 2, Paris, 1990. 58 LINGUS Em CONTATO 6. A diglossia e os conflitos lingiiisticos Vimos que para Weinrich o bilingiiismo era um fendmeno individual. Ferguson vai enfrentar o bilingitismo social quando, num artigo de 1959", langa 0 conceito de diglossia, coexisténcia em uma mesma comunidade de duas formas lingtiisticas que ele batiza de “variedade baixa” e “variedade alta” Para esclarecer, ele dé quatro exemplos: as situacdes arabofénicas (dialeto/Arabe classico), a Grécia (dem6tico/katharevoussa), 0 Haiti (criou- lo/francés) e a parte germandfona da Sui¢a (suigo alemao/hochdeutch). E ele caracteriza as situagdes de diglossia por um conjunto de tracos relaciona- dos a seguir: uma diviséio funcional de usos: a variedade alta é utilizada na igreja, na correspondéncia, nos discur- sos, na universidade etc., enquanto a variedade bai- xa é utilizada nas conversagoes familiares, na litera- tura popular ete.; o fato de a variedade alta gozar de um prestigio so- cial de que a variedade baixa nao goza; o fato de a variedade alta ter sido utilizada para pro- duzir uma literatura reconhecida e admirada; o fato de a variedade baixa ser adquirida “natural- mente” (¢a primeira lingua dos falantes), enquanto a variedade alta € adquirida na escola; o fato de a variedade alta ser fortemente padroniza- da (gramaticas, diciondrios etc.); __14, Charles Ferguson, Diglossia, Word, 1959, 15, apud Giglioli, Language and Social Contexts, 1972. 59 — SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGAO GRITICA — 0 fato de a situagao de diglossia ser estdvel e de po- der durar varios séculos; — 0 fato de essas duas variedades de uma mesma lin- gua, ligadas por uma relagao genética, terem uma gramatica, um léxico e uma fonologia relativamente divergentes. Tudo isso Ihe permite definir a diglossia como “uma situacdo lingiiistica relativamente estavel, na qual, além das formas dialetais de uma lingua (que podem incluir um padrao ot: padroes regionais), existe uma variedade superposta muito divergen- te, altamente codificada (quase sempre gramatical- mente mais complexa), veiculando um conjunto de literatura escrita vasta € respeitada (...), que € estudada sobretudo na educacgao formal, utilizada no escrito ou num oral formal, mas nao é utilizada na conversacéo comum em nenhuma parte da comunidade””. Alguns anos depois, Joshua Fishman retoma o problema, ampliando a nogio de diglossia’®. Ini- cialmente ele distingue o bilingitismo — fato indi- vidual, que imteressa a psicolingiifstica — da diglossia-fendmeno social — e acrescenta que pode haver diglossia entre mais de dois cddigos e, sobre- tudo, que esses cddigos nao precisam ter uma ori- gem comum, uma relacao genética. Quer dizer que 15, Ferguson, Diglossia, p. 245. 16, Joshua Fishman, Bilingualism with and without Diglossia, Diglossia with and without Bilingualism, Journal of So- cial Issues, 1967, 32. 60 LINGUAS EM conTaTo qualquer situagao colonial, por exemplo, tendo posto em presenga uma lingua européia e uma lingua africana, implica a diglossia. Restam as re- lagées entre bilingiiismo e diglossia, que Fishman estrutura num quadro de dupla entrada. Vimos. segundo Fishman, quatro situacées polares: ‘ Diglossia 1. bilingiiismo e diglossia 2. bilingiiismo oe 7 sem diglossia Bilingitismo 3. diglossia sem |4, nem diglossia bilingiiismo nem bilingiiismo 1. Bilingiiismo e diglossia: todos os membros da comunidade conhecem a forma alta e a forma baixa. E 9 caso do Paraguai (espanhol e guarani). { 2. Bilingiiismo sem diglossia: ha numerosos individuos bilingiies em uma sociedade, mas nao se utilizam das formas lingiiisticas para usos espe- cificos. Esse seria ocaso de situagées instaveis, de ‘ituagdes em transicao entre uma diglossia e ima yitra organizagéo da comunidade lingiiistica. 3. Diglossia sem bilingiiismo: numa comuni- ide social ha a divisao funcional de usos entre luas linguas, mas um grupo 86 fala a forma alta quanto a outra s6 fala a forma baixa. Fishman aqui 0 caso da Russia czarista (a nobreza fa- francés, 0 povo, russo). 61 SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGAO CRITICA 4. Nem diglossia nem bilingitismo: ha uma s6 lingua. S6 se pode imaginar essa situagéo em uma comunidade muito pequena. A nocao de diglossia teve um eco muito im- portante na sociolingtiistica nascente, antes de abrir 0 flanco a certo ntimero de eriticas, vindo particu- Jarmente dos pesquisadores que trabalhavam com os crioulos e com o bilingiiismo hispanico (sobretu- do os lingiiistas catales). E realmente tanto Ferguson quanto Fishman tendiam a subestimar os conflitos de que as situagées de diglossia dao testemunho. Quando Ferguson introduzia a estabilidade na defi- nicao do fenédmeno, dava a entender que essas situa- cées podiam ser harmoniosas ¢ duraveis. Ora, a diglossia, bem ao contrario, est4 em perpétua evolu- cao. O caso da Grécia, que Ferguson tomava como um de seus exemplos, mostra-se, trinta anos de- pois, completamente modificado: a variedade “bai- xa” de Ferguson, 0 grego demotico, é hoje lingua oficial e a antiga variedade “alta” ser dentro em pouco uma lingua morta. De modo mais geral, a hist6ria nos mostra que quase sempre o futuro das variedade “baixas” € vir a ser variedade “alta” (foi esse 0 caso das linguas romanicas, francés, espa- nhol, portugués etc., com relag&o ao latim). Temos a impressao de que o sucesso do con- ceito de diglossia se explica pelo momento histori- co em que ele foi langado. Na época das indepen- déncias africanas, numerosos paises confrontavam- se com uma situacdo lingitistica complexa: 62 LINGUAS EM CONTATO plurilingitismo, de um lado, e predominancia ofi- cial da lingua colonial, por outro. Ao dar um quta- dro tedrico a essa situacao, a diglossia tendia a apresenta-la como normal, estavel, a minimizar o conflito lingiiistico que ela testemunhava, a justi- ficar de algum modo que nao se muda nada (0 que foi, alids, 0 caso na maioria dos paises descoloniza- dos). Essas relacdes entre ciéncia e ideologia nao sao raras, e nds apresentaremos no capftulo VI os problemas que elas podem suscitar no quadro de uma politica lingiiistica. CAPITULO III COMPORTAMENTOS E ATITUDES Uma das reservas que se pode manifestar con- tra as definigdes da lingua que a reduzem a um “Snstrumento de comunicagio” é que elas podem levar a crer em uma relagdo neutra entre o falante e sua lingua. Um instrumento é realmente um utensilio de que se langa mao quando se tem ne- cessidade e que se deixa para 14 em seguida. Ora, as relagdes que temos com nossas linguas e com as dos outros nao sdo bem desse tipo: nao tiramos 0 instrumento-lingua de seu estojo quando temos necessidade de nos comunicar, para devolvé-lo ao estojo depois, como pegamos um martelo quando precisamos pregar um prego. Com efeito, existe todo um conjunto de atiiudes, de sentimentos dos -falantes para com suas linguas, para com as varie- dades de linguas e para com aqueles que as utili- zam, que torna superficial a andlise da lingua como simples instrumento. Pode-se amar ou nao um martelo, sem que isso mude em nada 0 modo de pregar um prego, enquanto as atitudes lingiifsticas exercem influéncias sobre 0 comportamento ngiiistico, 65 SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGAO CRITICA No inicio dos anos 1960, Wallace Lambert, ao estudar o bilingitismo franco-inglés em Mon- treal, chamava a atengao para a metodologia do “falante disfarcado” ou dos “falsos pares”!. Ele utilizava falantes bilingiies e gravava dois textos de cada um (um em francés, outro em inglés). As gravagdes eram em seguida apresentadas como vindas de pessoas diferentes a “jurados” que de- viam, numa escala de “muito pouco” a “muito” descrever os falantes do ponto de vista da altura, da beleza fisica, da aptidao para dirigir, do senso de humor, da inteligéncia, da religiosidade, da confianga em si, da confiabilidade, da jovialidade, da bondade, da ambigao, da sociabilidade, do cara- ter e da simpatia. Tratava-se, era-lhes dito, de ve- rificar a possibilidade de julgar pessoas pela voz. Os resultados da experiéncia sao extremamente jnteressantes. De um lado, os “Surados” nao se davam conta de que as duas gravagoes eram pro- duzidas por uma sé pessoa. Por outro, os “Sura- dos” de fato nao avaliavam as vozes, como eram convidados a fazé-lo, mas as linguas. Essa técnica, desenvolvida no campo da psicologia social, foi depois utilizada por lingiiistas, permitindo desta- car atitudes ou representagoes lingitisticas. 1. Cf, W, Lambert et alii, Evaluational Reactions to Spoken Language, Journal of Abnormal and Social Psychology, n. 60, 1960; W. Lambert et alii, Judging Personality trough Speech: A French- canadian Example, The Journal of Communication, n. 16, 1966 66 COMPORTAMENTOS E ATITUDES 1. Os preconceitos : A histéria esta repleta de provérbios ou de formulas pré-fabricadas que expressam os precon- ceitos de cada época contra as linguas. Conta-se que Carlos V falava aos homens em francés, em alemao a seus cavalos e em espanhol a Deus. Tullio di Mauro cita um provérbio do século XVII que diz: “O alemao urra, o inglés chora, o francés can- ta, o italiano faz comédia e o espanhol fala”, e acrescenta: “Estamos aqui claramente no limite em que os esteredtipos lingiiisticos e nacionalistas se confundem”’. Podemos também pensar na expres- sao francesa: “Parler francais comme une vache espagnole”™, cuja origem (“comme un Basque espagnol”’) nos mostra que, 14 também, o juizo sobre a lingua atinge outro alvo, o falante. , Esses esteredtipos nado se referem a linguas diferentes apenas, mas também as variantes geo- graficas das linguas, freqiientemente classificadas elo senso comum ao longo de uma escala de valores’. Desse modo, a divisao das formas lingiiis- cas em linguas, dialetos e patods é considerada, i a ee Mauro, Une introduction a la sémantique, Paris, a. “Falar francés como uma vaca espanhola” [n. do T.] b. “Como um basco espanhol” [n. do '] : ¢. Como nao pensar aqui no preconceito contra alguns fala~ brasileiros, especialmente dos interiores do pais e do Nordeste 0 um todo? Para essas questoes, cf. Marcos Bagno, Preconceito tico ~ 0 que é como se faz, Sio Paulo, Edigdes Loyola, "2002. 67 SOCIOLINGOISTICA: UMA INTRO! de maneira pejorativa, como sociais que por sua vez tam Dugio cRiTICA isomorfa a divisdes ém se fundam em uma visao pejorativa. A lingua corresponde uma comunidade “civilizada”, aos dialetos e aos patods comunidades de “selvagens”, os primeiros agrupa- dos em povos ou em nagoes, os segundos, em tri- bos’. E se utiliza todo um let jue de qualificativos, dialeto, jargao, algaravia, patods, para significar em que baixa conta se tem certo modo de falar. Outros esteredtipos referem-se ao “bem fa- lar”. Ouvimos dizer em todos lugar onde a lingua nacional os paises que hé um é pura (diz-se, no caso da Franca, que seria a provincia de Anjou, no caso do Brasil, que seria nhao?), que existem sotaques Sao Luis do Mara- desagradaveis e ou- tros harmoniosos etc. Por tras desses esteredtipos se perfila a nogao de bon usage segundo a qual ha modos de “aso certo”), a idéia bem falar a lingua e outros que, em comparagao, sao condenaveis. Encontramos assim em todos pécie de norma espontanea os falantes wma es- jue os leva a decidir que forma deve ser proscrita, que outra deve ser admirada: nao se fala assim, se fala assado. Se os usos variam geograficamente, socialmen- te e historicamente, a norma espontanea varia da 3. Cf. Louis-Jean Calvet, Linguistique et colonialisme, Paris, Payot, 1974 d. Aqui a argumentagao de Louis-Jean Calvet nos leva a in- dicar mais uma vez a leitura atenta de ingitistico — o que é, como se faz, Sa0 Pa 68 Marcos Bagno, Preconceita wulo, Loyola, 1999. COMPORTAMENTOS E ATITUDES mesma maneira: nao se tem as mesmas atitudes lingitisticas na burguesia e na classe operdria, em Londres ou na Escécia, hoje e cem anos atrds. Aqui, 0 que interessa A sociolingiiistica é 0 comportamento social que essa norma pode pro- vocar. De fato, ela pode desenvolver dois tipos de conseqtiéncia sobre os comportamentos lingiiisti- cos: uns se referem ao modo como os falantes encaram sua propria fala, outros se referem as reacées dos falantes ao falar dos outros. Em um caso, se valorizard sua pratica lingiifstica ou se tentard, ao invés, modificd-la para conforma-la a um modelo prestigioso; no outro, as pessoas serao julgadas segundo seu modo de falar. 2. Seguranga/inseguranca Comecemos com um exemplo bem simples, o da relacao que os falantes podem ter com algumas prontincias de sua lingua. Peter Trudgill conduziti na cidade de Norwich, na Gra-Bretanha, uma longa pesquisa da qual rete- remos um s6 ponto: a prontincia de termos como tune, student, music etc. pelas duas variantes coexistentes em Norwich, /ju:/ e /u:/. Assim, para tune, temos /tju:n/ de wm lado e /tu:n/ de outro. A primeira é considerada como mais prestigiosa que a segunda. Depois de observar, nas gravagoes, se os pesquisados pronunciavam mais a variante 1 69 ne SOCIOLINGUIsTICA: UMA INTRODUGKO CRITICA ow a variante 2, pedia-se a eles que dissessem como pronunciavam, ou seja como pensavam que pro- nunciavam. Vejamos, num quadro resumido, 0 resultado desse cruzamento: QUADRO 1 dizem dizem pronunciar — pronunciar /tju:n/ /iju:n/ Pronunciam /tjun/ 60% 40% = 100% Pronunciam /tu:n/ 16% 84% = 100% 40% das pessoas que praticavam a prontin- cia “prestigiosa” tinham tendéncia a subavaliar sua propria prontincia, ao passo que 16% dos que pra- ticavam a prontincia “desvalorizada” tendiam a superavaliar a propria prontincia. Ao cruzar esses dados com a varidvel sexo, Trudgill obteve resultados surpreendentes: QUADRO 2 Total Homens _ Mutheres Superavaliam 13% 0% 29% Subavaliam 7% 6% 7™% Avaliam corretamente 80% 94% 64% Trudgill comenta os resultados: “Podemos di- zer que as mulheres, em jntimeros casos, Se autodefinem como usudrias das variantes mais prestigiosas sem realmente 0 serem, sem duivida 70 COMPORTAMENTOS E ATITUDES porque gostariam de utilizd-las ou pensam que deveriam fazé-lo, passando entao a crer que real- mente o fazem. Isso quer dizer que os falantes se véem como quem utiliza a forma a que aspiram e que para eles tem conotagées favoraveis em com- paracado a forma que realmente usam”*. Ele interpreta corretamente esses dados. A variavel sexo nos mostra aqui a existéncia de ati- tudes diferentes dos homens e das mulheres em face do comportamento social, sendo a lingua ape- nas um dos comportamentos sociais. Mas qual é a significagéo dessa diferenca? Ha em um livro de Pierre Bourdieu ma passagem sugestiva: “Com- preende-se assim por que, como os sociolingiiistas freqiientemente observaram, as mulheres sao mais inclinadas a adotar a lingua legitima (ou a pro- muncia legitima): do fato de que elas sio votadas a docilidade para com os usos dominantes e pela divisdo de trabalho entre os sexos, que as especia- liza no campo do consumo, e pela légica do casa- mento, que é para elas a via principal quando nao exclusiva, da ascensao social, e onde elas circulam de alto a baixo, estio dispostas a aceitar, especial- mente na Escola, as novas exigéncias do mercado de bens simbdlicos”’. No capitulo IV, voltaremos 4, Peter Trudgill, Sociolinguistics, Harmondsworth, Midd., Penguin Books, 1974, p. 97. 5, Pierre Bourdieu, Ce que parler veut dire, Paris, Fayard, 1982, p. 35 (ed. br: A economia das irocas lingitisticas — O que lar quer dizer, S40 Paulo, Edusp, 1996) 7A SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGKO ERITICA as posicdes de Pierre Bourdieu, que se dedicou pouco ao problema das atitudes como o tratamos aqui, mas vemos que 0 comportamento lingitistico aqui esta ligado a um comportamento social mais geral. Poderiamos entao dizer inversamente que os homens nao sentem necessidade de questionar seu modo de falar, que eles o consideram legitimo. E essas duas interpretacdes complementares nos levam ao bindmio seguranga/inseguranga lingitis- tica. Fala-se de seguranga lingiiistica quando, por razdes sociais variadas, os falantes nao se sentem questionados em seu modo de falar, quando con- sideram sua norma a norma. Ao contrario, ha in- seguranca lingiiistica quando os falantes conside- ram seu modo de falar pouco valorizador e tém em mente outro modelo, mais prestigioso, mas que nao praticam, Relataremos extensamente no préximo capi- tulo um pesquisa de W. Labov sobre Nova York que, entre outras coisas, mostrou que os falantes consideravam como marca de prestigio algumas formas de prontincia que eles mesmos nAo pratica- vam. Existe na sociedade o que poderiamos cha- mar de olhares sobre a lingua, de imagens da lin- gua, em uma palavra, normas que podem ser par- tilhadas por todos ou diferenciadas segundo certas varidveis sociais (0 sexo, no exemplo de Norwich) e que geram sentimentos, atitudes, comportamen- tos diferenciados. Labov da um helo exemplo disso a propésito da pequena burguesia nova-iorquina: 72 COMPORTAMENTOS E ATITUDES ele nota que “as flutuagées estilisticas, a hipersensi- bilidade a tracos estigmatizados que algumas pes- soas empregam, a percepcao erronea do proprio discurso, todos esses fenédmenos sao sinal de uma profunda inseguranga lingiiistica entre os falantes da pequena burguesia”. E acrescenta: “Em geral, os nova-iorquinos tém certa repugnancia pelo ‘so- taque’ de sua cidade. A maior parte deles se esfor- ga por modificar seu modo de falar, e recebem como um verdadeiro elogio alguém lhes dizer que conseguiram mudé-lo. Nao obstante, quase todos eles se reconhecem imediatamente assim que poem o pé fora da aglomeracgaéo. Além disso, eles estao convencidos de que os estrangeiros, por uma ra- zao ou outra, também detestam o modo de falar de Nova York. Enfim, eles estéo convencidos de que ha uma lingua ‘correta’ que se esforgam por atin- gir em sua conversagéo monitorada”®. 3. Atitudes positivas e negativas Veremos no proximo pardgrafo (hipercorrecao) as influéncias que essas atitudes podem ter sobre as praticas lingitisticas. Mas, em face da variacdo, temos atitudes de rejeigao ou de aceitacao que nao tém, necessariamente, influéncia sobre o modo de 6. William Labov, Sociolinguistique, Paris, Ed. de Minuit, 1976, pp. 200-201 73 SOCIOLINGDIsTICA: UMA INTRODUGKO CRITICA falar dos falantes, mas que certamente tém influ- éncia sobre o modo com que percebem o discurso dos outros. Morales Lopez’ também fez uma pesquisa so- bre a percepcdo, na ilha de Porto Rico, de uma prontincia velarizada do /r/ em espanhol (mas pouco importa aqui 0 objeto da pesquisa, ele pode- ria ter sido qualquer outro fato lingitistico). De modo geral, 66,6% dos falantes pesquisados tinham uma atitude negativa em relagio a essa prontincia € 33,4.% a aceitavam. Mas essa atitude variava segun- do a origem geografica dos sujeitos interrogados: Origem Atitude positiva _ Atitude negativa Capital 29,6 70,4 Leste 37,9 62 Norte 38,4 61,6 Centro 42,1 58,3 Oeste 46,3 53,6 Sul 56,8 43,1 Interrogados sobre as raz6es de sua tejeicio Aque- Ja prontincia, as pesqutisas dao cinco tipo de resposta: — a prontincia nao é espanhola, é um regionalismo (59,9% das respostas); — €tipica de zonas rurais, é prontincia de camponés (72,4% das respostas); 7, Humberto Morales Lopez, Socioliongutstica, Madrid, Gredos, s.d., pp. 236-240. 74 COMPORTAMENTOS E ATITUDES é prontincia caracteristica de um nivel social pouco elevado, é vulgar (35,6% das respostas); decorre de uma deficiéncia anatémica, uma mem- brana (frenillo em espanhol) sob a lingua (25,6 % das respostas); é uma promtincia feia (7,9% das respostas). Como se vé, temos de tudo nas respostas, ¢ esse leque é caracteristico do espectro de atitudes lingiiisticas encontraveis na sociedade. A primeira explicacio (“é um regionalismo”) repousa sobre uma realidade (a prontincia velar do /r/ é tipica de Porto Rico), mas considera de modo implicito que ha, nalgum lugar, fora do pais, um bom modo de pronunciar, diferente da pro- miincia local, ou seja , que hé um modo prestigioso de falar espanhol, que nao velariza os /r/, e que 0 falar local esta, nesse ponto, desvalorizado. A segunda explicagéo (“é prontincia de cam- poneses”) é tfpica do desprezo social que se pode ter para com os rurais, mas é preciso imediata- mente indicar que se pode encontrar o fenémeno exatamente inverso. Em situagdes nas quais a ur- banizacio é vivida como um perigo para a identi- dade, vai-se ao contrario valorizar o modo de falar dos camponeses, como mais préximo da lingua “verdadeira”. Notei essa reagéo em numerosos paises da Africa: em Bamako (Mali), se diz que o bambara da capital nao é puro, que o “verdadeiro” bambara é 0 que se fala em Segou (pequena cidade situada a 200 quilémetros de Bamako); diz-se no 75 SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUCAO CRITICA Senegal que o wolof dos camponeses € mais puro que o da cidade, muito influenciado pelo francés ete. O mesmo se pode dizer da terceira explicagéo (“prontincia vulgar”): ela se origina no mesmo tipo de desprezo, nao mais para com a diferenca geografi- ca (cidade/campo), mas para com a diferenga social. A quarta explicacdo (“deficiéncia anatémica”) € produto da fantasia, mas é também portadora de tacismo potencial. Por fim, a tiltima explicacéo (“promincia feia”) é unicamente afetiva, mas essa atitude é muito difndida tanto acerca de formas locais de falar como em face de linguas estrangeiras. Quanto as pessoas que tinham uma atitude positiva para com essa prontincia, elas se explica- vam de dois modos: — éprontincia tipica de Porto Rico (82,2% das respostas); — todas as promincias sao aceitdveis. Os falantes pesquisados se separam em sua apreciacdo da prontincia do /r/ segundo certo nt- mero de linhas de forga. Uma primeira separacio se da entre os que defendem a prontincia local e os demais: reencontramos aqui o tema da seguran- ca e da inseguranc¢a supramencionado. Do mesmo modo, os falantes britaénicos tendem a rejeitar a prontincia americana do inglés, ou seja, conside- ram correta a propria prontincia. Outra separagao se dd entre os que consideram de modo desfavoré- vel o espanhol dos camponeses ou dos operarios e 76 COMPORTAMENTOS E ATITUDES aqueles que o admitem: trata-se de outro comporta- mento social caracteristico que aparece aqui. Em todos os casos, emerge uma idéia que desenvolvere- “mos no préximo capitulo, com Bourdieu, a idéia da forma legttima da lingua. Com efeito, os comporta- Mentos que acabamos de descrever sio, ao mesmo tempo, lingiiisticos e sociais: h4 por tras deles rela- Q6es de forcas que se exprimem mediante assergdes sobre a lingua, mas que se referem aos falantes des- $a lingua. E, quaisquer que sejam as formas estig- ‘matizas, rejeitadas, classificadas como ilegitimas (em ‘nome de critérios de prestigio, de classes sociais, de ‘anormalidade congénita ete.), elas o so por referén- cia a wna forma tida como legitima. O modo com que essa legitimidade se instaura esté, como vere- ios, no centro da reflexdo de Bourdieu. . Hipercorrecao Crer que ha um modo prestigioso de falar a wopria lingua implica, quando alguém pensa nao jossuir esse modo de falar, tentar adquiri-lo. Bom emplo disso é a pega de teatro de Bernard Shaw, maliéo (filmada com o titulo My Fair Lady). emos ali uma jovem florista, Eliza Doolittle, pro- ar um professor de fonética, Henry Higgins, ra adquirir 0 modo prestigioso de falar inglés. S suas motivacgdes nado sao lingiiisticas, s40 so- is: “Quero ser uma lady numa loja de flores, e 77 SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGAO CRITICA nao vender na esquina de Tottenham Court Road”, A histéria tem, com se sabe, um final feliz, mas Shaw transcreveu perfeitamente os sentimentos lingitisticos dos britanicos em relagéo a uma pro- ntincia fortemente desvalorizada, a dos cockneys*, que se caracteriza em particular pela auséncia de aspiracao na inicial (airy e hairy, por exemplo, nao se distinguem), por algumas variantes nos ditongos (late por exemplo pronunciado /lait/, como light, em vez de /leit/) etc. Ora, esse movimento com tendéncia 4 norma pode gerar uma restituig&éo exagerada das formas prestigiosas: a hipercorregao. Essa tendéncia geral- mente se manifesta na grafia: sobre 0 modelo do latim noctem, ja existiu por exemplo a grafia nuict, pretendendo restituir o ¢ perdido, mas foi justa- mente este /k/ que se palatalizou para dar 0 /i/ de nuit (“noite”). Mas ela se manifesta especialmente na vontade de alguns falantes de imitar a forma prestigiosa e de “exagerd-la”. Essa pratica pode corresponder a estratégias diferentes: fazer crer que se domina a lingua legitima ou fazer esquecer a propria origem. William Labov cita, por exemplo, o caso de falantes do iidiche, migrantes de primei- ra geragao que, em inglés, nao realizam a distingao entre vogais posteriores arredondadas e nao-arre- dondadas (isto é, cup e coffee sio pronunciados com a mesma vogal). T'rata-se aqui de uma inter- e. Cockney: variedade lingiiistica caracteristica das classes sociais das periferias de Londres [n. do E.]. 78 COMPORTAMENTOS E ATITUDES feréncia fonética com sua primeira lingua. Mas seus filhos tudo farao para evitar essa prontincia: “Na segunda geragao, se produz uma reacio con- tra essa tendéncia que, por hipercorrecao, gera um exagero de distingao, de modo que (oh) se torna entao alto, tenso e super-arredondado”’, Essa hipercorregao é testemunha de insegu- ranga lingiiistica. E por considerar o préprio modo de falar como pouco prestigioso que a pessoa tenta imitar, de modo exagerado, as formas prestigiosas. E esse comportamento pode gerar outros que vem se acrescentar a ele: a hipercorrecéo pode ser per- cebida como ridicula por aqueles que dominam a forma “legitima” e que, em contrapartida, vio jul- gar de modo desvalorizador os que tentam imitar uma prontincia valorizada. Esse circulo pode ir ao infinito ou quase, e nos mostra o profundo enraizamento social das atitudes lingiifsticas. Lan- gando um olhar de socidlogo sobre o fendmeno, Pierre Bourdieu escreve: “A hipercorrecéo peque- no-burguesa que encontra seus modelos e instru- mentos de correcaéo junto aos mais consagrados arbitros do uso legitimo, académicos, graméaticos, professores, se define na relagdo subjetiva e obje- tiva com a ‘vulgaridade’ popular e a ‘distincao’ burguesa”, e acrescenta pouco a frente que, em contrapartida, “o evitamento consciente ou incons- ciente das marcas mais visfveis da tensio e da 8. Wiliam Laboy, Sociolinguistique, Paris, Ed. de Minuit, 1976, p. 251. 719 SOCIOLINGUISTICA: UMA INTRODUGRO CRITICA contencdo lingitisticas dos pequeno-burgueses (por exemplo, em francés, 0 passado simples tipico dos antigos professores primérios) pode levar os bur- gueses Ott OS intelectuais a hipercorregao controla- da que associa 0 relaxamento convicto e a igno- rancia soberana das regras minuciosas a exibigao de facilidade nos terrenos mais perigosos”. De todo modo, a hipercorregao ¢ a hipocorre- que se deixam Jer nos discur- cao sao estratégias 7 uma funcao sos, mas que tém uma outra fungao, social. As circunstancias da aqtisigao dessa ou daquela forma lingiiistica, do controle dessa ou daquela promincia s6 aparentemente sao lingiiisti- cas. A competéncia que se encontra por aia desse dominio é uma competéncia social, assim como sfio sociais os beneficios que sé pode extrair dela. Vemos claramente as influéncias dessa anillise: a impossibilidade de distinguir, no plano tedrico, ° jogo lingitistico do jogo social, € de modo mais geral a dificuldade de separar 0 social do lingitfstico, tanto na teoria como na descri¢ao. 5. As atitudes e a variacao lingilistica ‘As atitudes e os sentimentos de que tratamos (seguranga, inseguranga, hipercorregao, hipocorre- 9, Pierre Bourdieu, Ce que parler veut dire, Paris, Fayard, 1982, p. 55. 80 COMPORTAMENTOS £ ATITUDES Gio) podem, como vimos, caber a individuos (como Eliza Doolittle em Pigmaliao) ou a grupos sociais (como a pequena burguesia nova-iorquina). No segtindo caso, se passamos de uma anilise sincrénica a uma andlise diacrénica, surge a per- gunta sobre o papel dessas atitudes na variacéo lingiiistica. Como as linguas yariam, por que evo- luem? Estas perguntas séo tao antigas quanto a lingiiistica, ¢ algumas respostas levaram a ciéncia a evoluir notavelmente, particularmente pelo viés das leis fonéticas que, por exemplo, permitiram a reconstrugao de uma lingua da qual nao se tem nenhum vestigio, o indo-europetu. Mas essas respos- tas situam-se majoritariamente no quadro de uma ingiiistica interna, que sé leva em conta a estrutura ‘Ou, para usar a formula final do Curso de lingiiistica eval de Ferdinand de Saussure, a “lingua em si mes- € por si mesma”. Veremos que, ao contrario, as titudes lingtifsticas (que, bem entendido, nada tém ver com a lingiifstica interna) sao poderoso fator evolugio. Primeiro utilizaremos um exemplo de ce restrito, mas muito interessante no plano rico, o da liaison em francés’. EF bem conhecida f, Liaison: “ligacdo, juncao”. Fendmeno fonético caracteristi- francés que consiste em pronunciar a consoante final de uma quando a palavra seguinte comega por vogal ou H mudo, Em essas consoantes finais sao escritas, mas nao pronunciadas, Em 8, essas ligacdes sio obrigatérias, e 0 falante nao pode, como em deixar de fazé-las, para evitar cacéfatos ou ambigitidades: elas e elas zunem tém portanto igual promtincia [n. do E.]. 81 SociotinGiifstica: UMA InTRODUGAO CRiTICA ahistéria do politico que comega seu discurso com Je suis émus e ouve a multidao hildria responder: Vive Zému®. Para evitar essa infelicidade, bastaria que ele ou nao fizesse a liaison, pronunciando “Je /syi emy/”, ou a fizesse sem encadear a consoante de liaison com a vogal seguinte, que seria entao precedida de uma oclusao glotal: “Je /syz Pemy/”. Pierre Encrevé estudou esse fendmeno, que ele chama de liaison com ou sem encadeamento. Analisando um corpus constituido de discursos de dirigentes politicos franceses, Encrevé nota de inicio que em um curto periodo, entre 1978 € 1981, a taxa de nao-encadeamento tende a crescer. Por exemplo, 8% das liaisons possiveis nao sao encadeadas por Raymond Barre em 1978 contra 15,5% em 1981, e essas porcentagens s&o respec- tivamente de 11,6% ¢ 17,6% para Jacques Chirac, 10,9% e€ 13,1% para Valéry Giscard d’Estaing, 11,4% e 25,7% para Georges Marchais, 6,9% ¢ 15,6% para Francois Mitterrand etc. Pelo fato de a amostragem ser limitada no tempo, Encrevé fez entiio, outros corpora baseados em documentos de arquivo. Por exemplo, estudando os discursos de Francois Mitterrand durante quatro periodos, e os de Valéry Giscard d’Estaing durante trés perfodos, obtém-se os resultados seguintes: g. “Estou emocionado”, sentido alterado pela liaison para “Bu sou Zemi”.. h. “Viva Zemi”. 82 COMPORTAMENTOS E ATITUDES MITTERRAND porcentagem de liaisons facultativas naéo-encadeadas 14 12 45-58 62-69 70-74 78-81 GISCARD D’ESTAING porcentagem de liaisons facultativas néo-encadeadas 12 10 8 6 60-68 49-74 78-81 Essa evolucao no interior dos discursos de uma mesma pessoa é confirmada, de modo mais amplo, pela evolucao dos discursos do conjunto de chefes de Estado considerados desde 1928 (Pétain, Blum, de Gaulle, Pompidou, Giscard d’Estaing, Mitterrand). tabela da préxima pagina apresenta as porcenta- ns de liaisons nao-encadeadas no periodo de tem- 83 SOCIOLINGIISTICA: UMA INTRODUGAG CRITICA po desde 1928: 0 n. 1 remete a Pétain, 1928-1938; on. 2a Blum, 1936-1938; 0 n. 3 a Pétain, 1940- 142 etce., até o n. 15, que remete a Mitterrand, 1978-1981: 1928-1981 we 12 3 4 5 6 7 8 9 0 HW 13 4 15 Encrevé ressalta que os numeros “parecem refletir uma nitida evolucao de um estado em que o encadeamento era categérico no bon usage, em estilo monitorado, 4 situagéio atual em que o enca- deamento é um fenomeno varidvel, mesmo que ele se imponha de modo majoril ario”™®. Mas esse fendmeno nao aparece apenas nos discursos dos chefes de Estado: “Sobretudo ndo se deve concluir do fato de termos estahelecido a reali- dade lingiiistica da liaison sem encadeamento na fala publica dos poltticos que se trata de um traco que thes é proprio. Seguramente nao. .) Ele é encon- travel em proporgdes semelhantes na maior parte 10. Pierre Encrevé, La liaison avecet sans enchatnement, Pa- ris, Bd. du Seuil, 1988, p. 71 84 COMPORTAMENTOS € ATITUDES dos falantes de todas as categorias de profissionais da fala publica: jornalistas de radio e televisao, intelectuais (especialmente membros do ensino superior), pregadores, advogados etc.”!! Nessa categoria social, a prdtica em quest&o pode ser explicada de modo muito simples: reali- zacao da liaison (porque tanto, a norma cotidiana como a norma escolar 0 exigem, mas também por medo do hiato), mas realizacéo sem encadeamen- to, pelo cuidado de nao separar as palavras: “Des- tacar bem as palavras sem renunciar a fazer ouvir a consoante de liaison conduz inevitavelmente a liaison sem encadeamento”, conclui Encrevé. O leitor pode pensar que estamos fazendo muito barulho por nada. Nao se pode negar que 0 fendmeno descrito € restrito, e os falantes pratica- mente nao tém consciéncia dele. Vejamos um ex- certo do corpus de Encrevé, no qual o falante (um ex-primeiro-ministro) se refaz, se corrige: “Quand monsieur Mitterrand était ministre, et Dieu sait qu'il Ta beaucoup été, euh beaucoup été”, pronunciando imeiro /bokupete/ e depois /bokup ?ete/. Que se assa? Tecnicamente, poderia se dizer que, no pri- jeiro caso, temos a silabacéo a direita (0 p final de aucoup € atribuido a primeira silaba de été) e, no 11. Idem, ibidem, p. 269. i. “Quando 0 senhor Mitterrand era ministro, e Deus bem 0 e 0 quanto ele o foi [ministro]”, frase ironica que, pelo fendme- da liaison, também pode soar como: “Quando o senhor itterrand era ministro, e Deus bem 0 sahe 0 quanto ele peidou” 85 SOCIOLINGDISTICA: UMA INTRODUGRO CRITIC segundo caso, silabacéo a esquerda (beaucoup tem seu p preservado...). Aqui o falante alternou cons- cientemente encadeamento ¢ nao-encadeamento, por causa da ambigiiidade resultante da silabagao a direita (“il a beaucoup pété”). Mas tal consciéncia do fendmeno é extremamente rara. Mesmo que, de modo geral, esse fendmeno se resuma a uma ligeira evolucdo entre os profissio- nais da fala ptiblica, nao deixa de suscitar uma interessante questao sociolingiiistica: a lingua da midia e da politica pode influenciar os falantes que, diante dela, sio apenas receptores, ouvintes? Em outros termos: “Que relagdes lingiiisticas os ouvin- tes mantém com uma forma de linguagem que eles ouvem, mas nao produzem?”” Pois a multiplicagao em todos 08 lares da presenca do radio e da televisao faz com que hoje se ouga por todo lugar a “lingua legitima”. Diante disso, podemos perguntar se, nesse ponto especifico, ela vai ser imitada segundo o modo da hipercorrecéo que descrevemos antes. Enerevé conclui sua obra de maneira inespe- rada: a liaison sem encadeamento, que tem por conseqiiéncia multiplicar as silabas travadas (com consoante final), desemboca na pratica de “pro- nunciar como se escreve, pois parece excluido que se possa escrever legitimamente como se pronun- cia. E perfeitamente ldgico que essa tendéncia se j. “Ele peidou muito”. 12, Idem, ibidem, p. 279. 86 COMPORTAMENTOS € ATITUDES manifeste inicialmente na fala dos profissionais da fala publica, que sao também profissionais da escrita”"’, O leitor poderda, se tiver bom ouvido fonético, verificar nos anos vindouros a eventual progressao da liaison sem encadeamento em fran- cés. De nossa parte, passaremos agora ao proble- ma geral das relagdes entre atitudes lingiiisticas e variacdo, que esclarecerd de outro Angulo o fato menor da liaison com ou sem encadeamento. Em poucas palavras, William Labov apresen- tou de que modo se produz a evolugao: “Pode-se considerar que 0 processo de variagao lingiiistica se desenrola em trés etapas. Na origem, a mudan- Ga se reduz a uma variacao, entre milhares de outras, no discurso de algumas pessoas. Depois ela Se propaga e passa a ser adotada por tantos falan- tes que doravante se opée frontalmente a antiga forma. Por fim, ela se realiza e alcanca a tegulari- de pela eliminacao das formas rivais”"*, Esse sumo é, nao ha dtvida, muito breve. E possivel encontrar em outro ponto uma apresentacao mais igorosa do fendémeno feita pelo mesmo autor: “1. Um traco lingiiistico utilizado por um grupo A é mar- cado pela relagao a outro dialeto-padrao. 2. 0 grupo A é tomado como referéncia por um grupo B, que adota o traco e exagera seu uso, como sinal de certa identidade social, por reacao a pressdes exteriores. 13. Idem, ibidem, p. 284, 14. William Labov, Sociolinguistique, Paris, Ed. de Minuit, 6, p. 190. , 87 ne SOCIOLINGDISTICA: UMA INTRODUGAO cRITICA 3, A hipercorregio gerada por uma pressao crescente, combinada as forcas de simetria que agem na estru- tura, conduzem a uma generalizagio do trago em relagdo a outras unidades lingiifsticas do grupo B. 4. Uma nova norma se instaura 4 medida que se insta- lao processo de generalizagao. 5, Essa ntova norma é adotada pelo grupo contiguo € pelos seguintes, para os quais 0 grupo Bserve de referéncia”®. Constatamos que a liaison sem encadeamen- to, a qual consagramos um longo desenvolvimen- to, s6 pode ser incluida no ponto 1 do esquema acima. Mas ha um exemplo mais claro dele na prontincia do francés dos bandos de jovens beurs* dos subtirbios parisienses, lioneses € marselheses, e no modo como essa prontincia se difunde, de um modo que aqui configura hipocorregéo e nao hipercorregao, e que o movimento consiste tanto em se afastar da fonética do francés padrao como em simular uma prontincia arabe. Vemos assim que a abordagem sociolingiiistica pode enriquecer, isto é, renovar, a explicagao ¢ a compreenséo da variagao lingiiistica, sé imperfei- tamente analisada por um estudo que se faga em termos de estrutura interna. Mas, para que essas explicagdes sejam completas e convincentes, a des- crigao deve levar em conta certo ntimero de fato- res lingiiisticos e de fatores sociais aos quais se consagra o préximo capitulo. 15. Idem, ibidem, p. 90. k. Migrante drabe norte-afticano, nascido na Franca [n. do T]. 88 CAPITULO IV AS VARIAVEIS LINGUISTICAS E AS VARIAVEIS SOCIAIS As linguas mudam todos os dias, evoluem, mas a essa mudanga diacrénica se acrescenta aril outra, sincronica: pode-se perceber numa lingua, continuamente, a coexisténcia de formas ditions tes de um mesmo significado. Essas varidveis po- dem ser geogrdficas: a mesma Ifngua pode ser pronunciada diferentemente, ou ter um léxico dife- tente em diferentes pontos do territério. Desse modo. sn réptil comum em todo o Brasil é chamado da “osga” na regiéo Norte, “briba” ou “vibora” no Nordeste, e “lagartixa” no Centro-Sul*, Um atlas ingtiistico como o de Gilliéron e Edmont nos da ares de exemplos dessa variacao regional'. Mas a. Oexemplo do autor é 0 seguinte: “ } oa seguinte: “Desse modo, um obje- pees ee a serpiliére, peca de pano usada para limpar 0 ohio também ser chamada de panosse (na Sabsia e na Sufca), ingue (no Norte), torchon (no leste), since (no sudeste)”. 1. J. Gilligron e E. Edmont, Atlas linguisti. iGreen iether ; nguistique de la France, 89 SOCIOLINGHISTICA: UMA INTRODUGAO CRITICA essas varidveis podem também ter um sentido so- cial, quando, em um mesmo ponto do territério uma diferenca lingitfstica é mais ou menos isomorfa de uma diferenca social. O problema se torna entdo distinguir as varidveis lingitisticas das varidveis so- ciais correspondentes, e veremos que a sociolingiiis- tica nem sempre conseguiu juntar as duas pontas desse conjunto, o lingiiistico de um lado ¢ 0 social de outro. : Entenderemos aqui por varidvel 0 conjunto constitufdo pelos diferentes modos de realizar a mesma coisa (um fonema, um signo...) e por varian- te cada uma das formas de realizar a mesma coisa. 4. Um exemplo de variaveis lingitisticas: as variaveis fonéticas I bem conhecida a diferenga entre a fondética (que descreve a prontincia efetiva de sons da Iin- gua entre os diferentes falantes) e a fonologia (que extrai dessas prontincias uma estrutura abstrata que permita organizar os sons da lingua). Pode-se sintetizar essa distincéo na dicotomia saussuriana entre lingua e fala: a fonética esta do lado da fala, a fonologia do lado da lingua. E essa separagao entre o abstrato e 0 concreto permite prever que ao lado do fonema abstrato e invariante suas Tea: lizacdes fonéticas podem apresentar, ao contrario, vatiantes. O problema é saber se essas diferentes 90 AS VARIAVEIS LINGUISTICAS E AS VARIAVEIS SOCIAIS. realizagdes sao explicdveis por varidveis sociais ou Se, ao contrério, permitem estruturar o grupo social. William Labov foi o primeiro a trabalhar de modo convincente essas questées, estudando o tra- tamento de duas semivogais na populacao de uma ilha situada junto a costa de Massachusetts, Martha’s Vineyard: a promtncia do ditongo /ay/ em palavras como right, white, pride, wine ou wife ¢ do ditongo /aw/ em palavras como house, out, doubt ete. O que a pesquisa de Labov mostra é que o primeiro clemento desses ditongos, o /a/, tem, entre os viniardenses, tendéncia a ser “centralizado”, isto € a scr pronunciado mais préximo do /e/. Surge entao o problema de como explicar esse trago: “Por que Martha’s Vineyard deu as costas a histéria da lingua inglesa? Creio ser possivel dar a isso uma resposta especifica estudando em pormenor a confi- guracdo dessa variagéio fonética a luz das forcas sociais que agem no mais profundo da vida dessa ilha”’. Labov parte entéo em busca das correlacées entre esse traco lingitistico (a “centralizacaio” dos dois ditongos) e tragos sociolégicos: distribuigaéo da centralizagao segundo a divisao geografica (ilha bai- xa/ ilha alta), distribuicao segundo os grupos sociais (pescadores, agricultores, outros), segundo a etnia de origem (inglesa, portuguesa, indiana) etc, Mas é fora dat que ele vai encontrar sua explicacao, 2, William Labov, Les motivations sociales d'un changement phonétique, in Sociolinguistique, Paris, Ha. de Minuit, 1976, p. 73. 91