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A volta dos militares

O Estado de S. Paulo
11 de junho de 2018
DENIS LERRER ROSENFIELD
PROFESSOR DE FILOSOFIA NA UFRGS
E-MAIL: DENISROSENFIELD@TERRA.COM.BR

Novidade histórica: os militares


voltarão ao poder, pela via
democrática. Eis um cenário altamente
provável, que foge totalmente do
padrão das últimas eleições. Estamos
diante de um fato novo, que não se
deixa mais reduzir aos moldes de uma
polarização hoje vencida, entre PT e
PSDB. É forçoso reconhecer que o
País mudou.
Essa provável volta contará com o
apoio da sociedade e, certamente, das
Forças Armadas. Para a opinião
pública, os militares representam uma
instituição da mais alta confiabilidade,
que não foi tomada pela onda da
imoralidade pública. Eles se tornaram,

para muitos, uma opção, uma
alternativa de poder. Seu prestígio só
tem aumentado.
É bem verdade que todos os
governos após a redemocratização
contribuíram amplamente para isso. A
segurança pública foi deixada em
frangalhos, o crime assola a Nação, e
tudo tem sido tratado com leniência e
ineficiência, se não com complacência
e simpatia ideológica. Crime não seria
crime, mas uma forma de resposta
social. Se os mortos falassem, eles
lhes dariam uma resposta adequada!
As pessoas estão aterrorizadas,
nas ruas e em casa, e ainda são
obrigadas a ouvir o discurso
ensurdecedor do politicamente correto.
Mais de 60 mil pessoas são mortas por
ano e temos de ouvir as falas
insensatas sobre a manutenção do
Estatuto do Desarmamento, como se
esse fosse o maior problema do País.
Os cidadãos de bem tornam-se, graças

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ao legítimo direito à autodefesa, os
responsáveis pela criminalidade!
A candidatura Bolsonaro surge
como uma resposta a esse tipo de
questão, por mais impreciso que seja
ainda o seu discurso político e,
sobretudo, econômico. Soube escutar
esse anseio da sociedade, ciente de
que o Estado não se pode sustentar
sem o exercício da autoridade estatal.
O Estado, em negociações
“democráticas”, virou refém de
corporações de funcionários e
empresários que se apoderaram de
uma fatia do bolo público e são
avessos a qualquer mudança. Se a tão
necessária reforma da Previdência não
foi realizada, foi porque as corporações
de privilegiados se negaram a reduzir
seus benefícios dos mais diferentes
tipos.
A esquerda, seguindo sua
degradação ideológica, ficou do lado
das corporações públicas, como se
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elas representassem os trabalhadores,
estes, sim reféns de baixos salários e
do desemprego. As corporações do
Judiciário e do Ministério Público
também se recusaram a aceitar a
igualdade básica dos cidadãos
enquanto membros do Estado. Este se
tornou presa de seus estamentos,
perdendo o sentido da moralidade e do
bem coletivo.
Tachar o discurso do deputado
Jair Bolsonaro de extrema direita é o
melhor atalho para refugiar-se na
miopia ideológica. Só teria sentido se
se considerasse a defesa da vida e do
patrimônio das pessoas uma bandeira
de extrema direita. Isso significaria,
então, que a esquerda valoriza o crime
e a violência? Ou não se preocupa com
a vida e o patrimônio dos cidadãos?
A greve dos caminhoneiros
mostrou com inusitada clareza que os
militares se tornaram uma opção para
boa parte dos cidadãos. Os pedidos de
intervenção militar alastraram-se pelo
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País e foram muito maiores do que o
noticiado. A sociedade clama por
moralidade pública e por segurança
física e patrimonial. Cansou-se do
discurso de uma classe política que
não mais a representa. Partidos com
forte estruturação ideológica, como PT
e PSDB, ficaram literalmente perdidos,
tontos.
Evidentemente, tal saída seria
uma ruptura institucional, ferindo uma
democracia cambaleante. E mais
imprópria ainda por ter o atual governo
levado a cabo uma agenda reformista
que está mudando o País, apesar de
seus percalços. Não seria esse o
destino desejável.
Nas últimas décadas os militares
têm tido um comportamento exemplar,
defendendo a democracia e a
Constituição. Passaram por momentos
muito delicados, sendo objeto de
acusações as mais diversas, com a
ameaça de revisão da Lei da Anistia
pairando sobre eles. Souberam resistir
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no estrito respeito às normas
constitucionais, enquanto seus
opositores pretendiam jogá-las pelos
ares.
Agora, todo um setor importante
da sociedade brasileira clama para que
voltem ao poder, por intermédio da
candidatura Bolsonaro. Ele não
representa apenas a si mesmo, mas
responde a um apelo social, podendo
contar com o apoio dos militares,
embora as Forças Armadas
permaneçam, enquanto instituição
estatal, neutras e equidistantes em
relação ao processo eleitoral.
É visível o empenho de militares
da reserva em favorecer essa via
democrática de volta ao poder.
Generais importantes estão
empenhados nesse processo, dando o
seu aval a uma candidatura que,
vitoriosa, poderá contar com o apoio
daqueles que querem restaurar a
autoridade estatal.

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Acontece que a Nação apresenta
uma condição de anomia, cada
estamento puxando para o seu
interesse particular, como se o Estado
pudesse ser esquartejado, perdendo-
se até mesmo a própria noção do bem
coletivo. A desordem toma conta do
espaço público, como amplamente
demonstrado na greve dos
caminhoneiros, que conseguiu curvar
o governo no atendimento de suas
demandas.
O caminho está aberto para que
outras corporações sigam o mesmo
caminho. A greve contou com o apoio
da sociedade, que, do ponto de vista
público, terminou prejudicada em todo
esse episódio. O que contou, porém,
foi a expressão de uma insatisfação
generalizada, que encontrou aí uma
canalização para o seu mal-estar.
E é esse mal-estar que está sendo
a condição mesma do apoio social à
volta dos militares ao poder. Talvez os
que defendam a ideia da bolha da
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candidatura Bolsonaro, como se ela
fosse logo explodir, não tenham
compreendido que a sociedade não
mais aceita uma classe política que se
corrompeu e dela se distanciou.
Se há uma bolha, diria crescente,
é a de uma sociedade que deseja
mudanças. E ela, sim, pode explodir!

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