Você está na página 1de 115
SOL eR LE enon MST numa tradigao de “exploradores ROU CO Sm Lomo os alquimistas, os v islimica, os surrealistas, Paracelso, Henri Corbin, Gaston Bachelard e, entre tantos AUR RCT cue Ke sone NOC one DUE SOU Con OTT CU Oa OAC UOTE UD eee LO eC COR UnnCee Te ea RTO SC TORE aca BUC nce Co Uo COO psiquico é uma imagem e um imaginar’ BN n SUT a Conn CUO ca DOTTIE ULE c CO subproduto da percepgao ou da sensagio Oo Om aon nO Reno nem éa construcdo mental que Por oon em LORS MOO sentimentos, nao a imagem a qual o ego, meu “eu” consciente, tem acesso por yontade ou por estimulo. Jung refere-se a Trane eke Oe AL LULL psique, ou seja, uma espontaneidade na WO Onn VOLO URC ULC OE Sea POLL wou m EEL on Com ome Con erat OME oem ca ns; @ 0 locus em que mais podemos perceber a capacidade autonome ¢ espontanea da psique de criar imager so, naturalmente, os sonhos, O fato d¢ RON CCM om testemunho nitido de que a psiqu capacidade de criar imagens de for independente, ou seja, por yor NO DEE MOE UOMO Una OmeLU Conran CRT ot enon Coa ) consciente. ‘a PSIQUE E IMAGEM 12046668 Dados Internacionais de Catalogac3o na Publicacao (CIP) (Camara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Barcellos, Gustavo Psique e imagem - estudos de psicologia arguetipica “Gustavo Barcellos. - Petropolis, RJ: Vozes. 2012. - (Colegio Reflexdes Junguianas) Bibliografia ISBN 978-85 32643780 1 Arquétipo (Psicologia) 2. Psicologia junguiana 3. Psicoterapia 4. Imagem (Psicologia) I Titulo. I. Séne. CDD-150.1954 Indices para catdlogo sistematico: 1. Psique © imagem ; Abordagem junguiana : Psicologia 150.1954 Gustavo Barcellos PSIQUE E IMAGEM Estudos de psicologia arquetipica 2° Reimpressao Novembro/2016 y EDITORA VOZES Petrépolis ae, © 2012, Editora Vozes Lida, Rua Frei Luis, 100 25689.900 Petrépotis, RJ www.vozes.com br Brasil Todos 0s direitos reservados. Nenhu1 ou transmitida por qualquer forma e, incluindo fotocépia e gravacak banco de dados ser a a ote ree Zou quaisquer meios lett oe 0) Ou arquivada em qualgu sistema og "M Permissao escrita da editora, 7 CONSELHO EDITORIAL Diretor Gilberto Goncalves Garcia Editores Aline dos Santos Cameiro Edrian Josué Pasini José Maria da Silva Marilac Loraine Oleniki Conselheiros Francisco Moras Leonardo A.R.T. dos Santos Ludovico Garmus Teobaldo Heidemann Volney J. Berkenbrock Secretirio executive Joao Batista Kreuch ——_—________ Beditoragao: Maria da Conceigéo B, de Sousa Diagramagdo: Sheilandre Desenv, Grafico Capa: Omar Santos ISBN 978.85-326-4378.0 Editado conforme 0 novo acordo ortogrifico, Este livro foi composto e impresso pela Editora Vozes Ltda. These carols sung to cheer my passage through the world I see, For completion I dedicate to the Invisible World. Walt Whitman hE | | Te Sumario Nota introdutéria, 9 1 Imaginando 0 trabalho, 11 I. A imaginagao do trabalho, 11 II. A nogao de trabalho na psicoterapia analitica, 16 III. As maos, 20 A alma do consumo, 22 As emocgées e a mente, 34 Perversoes, taras e outras observacdes amorosas, 41 Psicoterapia, 0 Mito de filomela e uma cena de Eliot, 54 Tempo, alma, eternidade, 65 Psique e imagem, 79 I, Anima, 79 II. Imagem, 87 III. Mitos da analise, 98 Referéncias, 107 Noukwn Nota introdutoria Os capitulos seguintes foram escritos para diversas ocasides e em diferentes momentos. Juntos, elaboram reflexdes em torno das relagées entre a psicologia originada com C.G. Jung, trabalho anali- tico e aspectos culturais do que se chama hoje, nao sem alguma pompa, de contemporaneidade. Péem em exame as imagens e 0 sentido que a psique cria nas condi¢Ges especificas tratadas em suas paginas: 0 problema do consumo, questées do trabalho, faces obscuras do amor e das emogées, a psicoterapia focada na imagem. A abordagem da psicologia arquetipica, com sua fina sensibilidade para o mito, a linguagem e a clinica, fornece para mim aqui a pers- pectiva necessdria ao aprofundamento dessas questées. Parafraseando uma amiga que o disse com respeito a Chagall, T.S. Eliot foi o meu “primeiro terapeuta”. Vim tentando, ao longo dos anos de estudo, tanto absorver a riqueza de sua poesia quanto homenagea-la em algumas oportunidades. Aqui se encontram duas dessas tentativas, talvez as de menor fracasso. Resumem pa- lidamente o tanto que sua inspiragdo me ofereceu de analogias va- lidas para entender a arte e o trabalho da psicoterapia. O grande vulto a se erguer por tras desses capitulos é, no en- tanto, James Hillman. A ele devemos a articulagao até hoje mais avancada da psicologia junguiana, que recebe o nome de psicolo- gia arquetipica. Com sua morte em 2011, seu trabalho estd com- Colegao Reflexdes Heian, imenso trabalho as Teflexdes UE Se egy, leto. Devo a esse ian livro. O ultimo deles minha tentatiy, de . o le: . . fpjea 3» PI m nos capitulos rdagem da Psicologia 2rduetipica aim, , ——-s ed samento para a clinica psicolégica » orefe tao central nesse as obra de Hillman e te Fung Fsse pitulg a 1, a partir a de agradecimen to, nao deixa Fevereiro/2o1) Pedra Grande 1 Imaginando o trabalho Os que dormem séo trabalhadores. Heraclito. Frag. 75. I. A imaginagao do trabalho Num campo simbdlico onde se amarram sentidos e praticas, a imaginacao do trabalho funde-se com o trabalho da imaginacao. Assim, o trabalho é um tema por exceléncia da psicologia profun- da, desde Freud e Jung, Bachelard até James Hillman e a psicolo- gia arquetipica, especialmente com sua nocao central de cultivo da alma (soul making), que é, justamente, o trabalho de fazer alma. Fazer alma é um trabalho, ainda que trabalhar esteja hoje cada vez mais longe, muito longe da alma. Em nosso tempo, traba- Iho e lazer vivem uma cisdo sé compardvel aquela entre trabalho e prazer. Se experimentamos esses impulsos como irreconcilidveis, quero crer que certamente o problema se encontra antes na ima- ginacao do trabalho. Trabalho psiquico, trabalho do sonho, trabalho alquimico, tra- balho da psicoterapia, trabalho das resisténcias, trabalho das ampli- ficagdes, trabalho da linguagem. Trabalho feito, trabalho que da. Trabalho do corpo, trabalho do coracdo. Trabalho da paciéncia. Dia do Trabalho. Central dos trabalhadores, sindicatos e partidos de trabalhadores. Agéncias de emprego, legislacao trabalhista, explo- racao do trabalho. Mercado de trabalho, acidentes de trabalho, divi- a} 4 Colegto Reflexses junguian, as sio do trabalho. Emprego, desemprego, aoe a0 trabalho, Traba, tho manual, trabalho intelectual. ae infantil, trabalho escra, vo, trabalho voluntario. Remunerado, aut6nomo. Horarios, honorg. rios, saldrios. Gratificagoes, gorjetas. io © complicado capitulg da previdéncia, publica e privada. As tensoes entre negécio e Scio, Acigarra ea formiga. A foice e 0 martelo. Os R trabalhos de Hércy. les. O Mito de Prometeu, os trabalhos de Psiqué. Hefesto, na Mito. logia grega, 0 nico Deus que trabalha, que tem uma Oficina, © complexo do trabalho nos envolve sempre, pulsando muitas vezes com fantasias possivelmente mais trabalhosas, mais complexas e mais inconscientes que, ouso dizer, as sexuais. Em qualquer agrupamento de animais, sejam do porte ou classe que forem, é sempre possivel observar um comportamento ou atividade que pode ser entendida como trabalho. 0 trabalho ja serviu para relacdes de dominacao e subjugacao entre os homens, | e entre os homens e a natureza. A escravidao € 0 limite louco des. sas relagées. Na Grécia Antiga, o trabalho era desvalorizado por ser feito pelos escravos, e na tradicao judaico-crista o trabalho ma- nual sempre esteve ligado a uma imagem negativa. Com a Revolu- ao Industrial e o capitalismo, o trabalho se torna, finalmente, uma mercadoria. Com Hannah Arendt entendemos a diferenca en- tre “labor” e “trabalho”, entre animal laborans e homo faber, ou | seja, entre atividades ligadas a necessidade de subsisténcia e uma atividade onde a natureza vira cultura (ou, diriamos, psique). A maioria de nds passa a maior parte de seu tempo de vida no trabalho, e passamos frequentemente mais horas do dia com cole- gas de trabalho do que com aqueles que amamos. E sabemos que para a maioria das pessoas, no mundo todo, trabalho é sindnimo de insatisfacao. Por outro lado, nossa era psicoldgica viu surgir um tipo totak mente novo de cidadao: o workaholic - que poderfamos traduzit PRT Psique e imagem | como “trabalhdlatra” - 0 sujeito viciado em trabalho, aquele para quem o trabalho meteu-se no lugar da fruicdo de outros desejos, tapando lacunas nao reconhecidas. Podemos experimentar o trabalho atravessado por muitas fan- tasias arquetipicas: prazer, justica, beleza, jogo, brincadeira, luta, conquista, sofrimento, trapaga, tempo. Ou seja, o modo como in- conscientemente imaginamos 0 trabalho afeta diretamente 0 modo como experimentamos as atividades que, ao longo da vida, chama- mos de trabalho. O jogo politefsta da alma esta presente aqui tao in- tensamente quanto em outras dimensées arquetipicas da existén- cia: 0 sexo, a morte, o amor, a cidade, a religido, a familia. O vastissimo tema do trabalho esconde as armadilhas mais perigosas. Nesse campo, distinguimos hoje a equacgéo em que se opdem para nés “tempo de trabalho” e “tempo livre”. Essa lingua- | gem ja denuncia muita coisa. Nessa légica, estar livre é estar, mo- mentaneamente ao menos, sem trabalho, sem ter que trabalhar. O trabalho, portanto, determina um aprisionamento. Mas estar sem trabalho é estar verdadeiramente livre (ou pronto) para 0 qué? Sa- bemos que, muitas vezes, para a maioria das pessoas existe af, | quando acaba o trabalho, um abismo, uma vertigem, seja no final | da vida, seja no final da semana. Trabalhar, entao, é estar necessa- riamente preso a uma complexa cadeia de significagdes que inclui | autoestima, produtividade, encaixe social, nodes importantes de dignidade, de sentido de existéncia e, principalmente, poder estar envolvido hoje na construgao de uma felicidade privada por sua vez fortemente relacionada a fluidez do acesso aos bens de consu- mo, que assim se tornam indices de bem-estar. Mas acredito que para a psicologia a pergunta fundamental Permanece: qual a fungao do trabalho? A psicologia arquetipica tem sugestdes poderosas com as quais certamente podemos cons- truir uma outra compreensio das nossas nogoes de trabalho. Essa oS Coleco Retlexses Jungy nas 5 poe o dedo na ferida que cindiu para ngs tra preensa0 ho e brincadeira, condenando essas dimen ma polarizacao perigosa entre aprisionaments 3 de. Essas reflexdes comegam com James Hillman SUgeting so trabalho como um instinto que requer Bratificaga. cae do trabalho. Afirmacgées que viram em definitivg 0, moa uma articulacao de fato mais psicologica, y, cia tema rul Nés falamos do instinto sexual, do instinto da fom do instinto agressivo: 0 que €0 instinto do trabathet Acredito que ha um instinto do trabalho; foj ele 10? desenvolveu a civilizacao humana Precisamos f lar do instinto do trabalho, nao da ética do trabath [..] falar do trabalho como um prazer, como uma Fe ficacdo instintiva [...] as préprias maos querem fa, . coisas, e a mente adora ser aproveitada. 0 trabathy « irredutivel. [...] O trabalho é um fim em si Mesmo e tray sua prépria alegria’. balho e Sdeg com| prazer, traball existéncia a U! berda Nossq Mos; A funcao do trabalho é ser um fim em si mesmo. A partir disso, podemos rever nossa imaginacao do trabalho nao mais apenas com as lentes econdmico-sociais que o enquadram na perspectiva depre. ciativa da alienacao, da exploracao, do enfado e da fadiga (a pers. pectiva, por assim dizer, “marxista”); nem com as lentes morais mo- noteistas que o enquadram, por outro lado, na perspectiva virtuosa da obrigacao ética, aquela perspectiva que serve a fantasia espiritu- al do crescimento ilimitado e esforgado, e da nobreza da conduta socialmente util (a perspectiva, por assim dizer, “protestante”). Esses modos de ver - cada um a seu tempo, mas ambos igual- mente - convidam a imagem arquetipica do herdi lutador, Hércv- a 1. HILLMAN, J. Entre Vistas ~ Conversas com Laura Pozzo sobre psicoterarit. biografia, amor, alma, sonhos, trabalho, imaginacdo e o estado da cultura. Sao Pa lo: Summus, 1989, p. 168, 169, 173. > Oot OO ee , Psique e imagem 15 les e seus esforcos, para quem as dimensées da brincadeira, do jogo e do prazer estao interditadas. A imagina¢do profunda do he- r6i/lutador, com sua retérica de competicdo, vitéria, glorificagao do resultado, do esforco e da realizacdo - como também seu isola- mento e sua solidaio - prevalece no campo psiquico de nossos dias. Essa imagem afeta o modo como trabalhamos. Por causa disso, inclusive, o trabalho também se abre como um novo campo para o sofrimento. Da exaustao psiquica (burn out) aos niveis mais elevados de estresse, das dores osteomuscula- res aos assédios morais e sexuais, das depressdes e ansiedades a toda a gama de possiveis psicossomatizacées, as relagdes com o trabalho, bem como as relacgées de trabalho e suas varias expe- riéncias, passaram a fornecer, para a sociedade hipermoderna’, patologizagdes bastante especificas, fazendo dele, além do mais, um “problema”, social e individual, criando e convidando modos cada vez mais originais de intervengées terapéuticas: surge agora toda uma clinica do trabalho (sem falarmos, é claro, das mais tra- dicionais “terapias ocupacionais”). Devemos dissociar “trabalho” do labor herctleo e re- tornar a ideia de trabalho ao exemplo do sonho, onde o trabalho é uma atividade imaginativa, um trabalho de imaginacao tal qual o que ocorre com pintores e es- critores. [...] Na imaginagdo nao ha separagdo entre trabalho e jogo, realidade e prazer*. No meu entender, as consideragées da psicologia arquetipica tentam reconciliar homo faber e homo ludens, aquele que faz com aquele que brinca, trabalho e jogo, abrindo na imaginacao 2. LIPOVETSKY, G. Os tempos hipermodernos. Sao Paulo: Barcarolla, 2004. 3.HILLMAN, J. The Dream and the Underworld. Nova York: Harper & Row, 1979, p. 118. Coleco Refie; 16 ‘xOes Tunguianas novamente a possibilidade de uma ponte entre 0 criativg ; creativo. O peso cultural que normalmente os separa esta, ao Z insistir, antes nas fantasias que sustentam Nossa nocao de a lho, na imaginagao do trabalho. E 1a que se encontra a rain - possivel solugéo do problema. A mentalidade que os separa, rf nao entendeu serem eles a mesma coisa, éa mentalidade que ests por tras do adoecimento da ideia de trabalho em cada um de nég Mas 0 trabalho da imagina¢ao mostra que nao ha separagig, IL. A nogao de trabalho na psicoterapia analitica Temos que ter uma fantasia do trabalho para que ele Possa acontecer, j4 disse James Hillman. Na verdade, sabemos que elas, as fantasias, esto sempre 14, em qualquer atividade, ainda que nao percebidas. Agora quero mais diretamente perguntar: qual entao a fantasia do trabalho na psicoterapia analitica? Muitas, eyj. dentemente. Nesse ponto, 0 campo da psicologia mostra clara. mente sua vocac4o miltipla, vocacao politeista: muitos sao os deu- ses, as personificacées, as imagens e as pessoas arquetipicas que aparecem no trabalho com a psique. Muitos sao os arquétipos a fundamentar e guiar nosso trabalho psicoterapéutico: Hércules, Dioniso, Héstia, Eros, Apolo, Hermes - mitos da anilise, j4 bastan- te examinados. Também administrador, enfermeiro, médico, cura- dor, organizador, faxineiro, guru, conselheiro, mestre, produtor, professor, assessor, consultor, legislador, estrategista estao entre algumas das possiveis imagens que podem reunir as fantasias mais frequentes do trabalho com a psique. Quase sempre estado embutidas de modo inconsciente na imagem maior do “terapeu- ta”, therapon, que é, segundo a raiz etimolégica, de fato um ser- vo, um servidor, um atendente - outra imagem arquetipica. ea ON ————————Ee Psique e imagem 17 Na psicanilise, trabalho e alma estao juntos desde que uma ideia de “trabalho psiquico” foi introduzida por Freud na psicolo- gia profunda com relagao aos sonhos, j4 em 1900, em seu Traum- deutung: um conjunto de operagées que “transformam os materi- ais do sonho (estimulos corporais, restos diurnos, pensamentos do sonho) num produto” foi definido como trabalho do sonho (Traumarbeit). Esse “produto” é o sonho manifesto. Essa trans- formagao é 0 trabalho do sonho; “Freud usa esse termo para de- signar uma série de operagdes mentais peculiares que ocorrem | durante a noite: condensacdo, deslocamento, regressao, arcaiza- | ¢4o, simbolizacao, superdeterminacao, reversao, distorgao”’. Aqui, somos forcados a pensar se o que define o trabalho, via de regra, éa transformagao ou a criagao. O trabalho, e portanto também o traba- lho analitico, cria algo ou simplesmente transforma o que ja existe? Nitidamente, para a psicandlise o trabalho da psique é de transforma- cdo, seja no sonho, seja no sintoma, e nao haveria nada de essencial- mente criativo nela. A ideia de uma psique criativa, no sentido de algo que se cria a si mesmo por meio de processos de construgao e destruicao, vird somente com a contribuigdo junguiana. Ainda na psicanilise, o que a psique faz é um trabalho na im- | portante expressdo “elaboragao psiquica”, utilizada por Freud e por todos nés depois dele, para “designar, em diversos contextos, o trabalho realizado pelo aparelho psiquico com o fim de dominar as excitagdes que chegam até ele e cuja acumulacdo ameaga ser patogénica. Esse trabalho consiste em integrar as excitagdes no psiquismo e em estabelecer entre elas conexées associativas”®. 4, LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J.B. Vocabuldrio da Psicandlise. Sao Paulo: Martins Fontes, 1982, p. 664. 5. HILLMAN, J. The Dream and the Underworld. Op. cit., p. 94. 6. LAPLANCHE, J. & PONTALIS, J.-B. Vocabulario da Psicandlise. Op. cit., p. 196. i | Coleco Reflexdes jungulanas Na psicologia analitica, por outro lado, foi a alquimia, dividi. da entre theoria e practica, entre oratério e laboratério, medita- (ao e obra, a mais importante referéncia histérica ea mais podero- Sa metafora para ancorar uma ideia de trabalho. Para Jung, “um dos grandes valores da alquimia como um modelo para o trabalho psicolégico é precisamente que a alquimia é um opus, um traba- Tho com materiais””. A ideia de opus, de uma obra a ser realizada, trouxe para a imaginagdo da psicoterapia junguiana uma referén- cia ao mesmo tempo mais precisamente material (substancias, me- tais, recipientes, sais, criaturas, bizarrices) e mais ambiguamente metaférica (operacdes, transformacées, metas, cores). “A base da alquimia é a obra (opus)”, disse Jung®. A prépria linguagem da al- quimia é a linguagem do trabalho: as Operagées, 0 artifice, as me- tas, a transformacao, o laboratério, a obra. Com Jung, a referéncia unilateralmente cientifica de nosso trabalho pode ser abandonada. A escolha da alquimia como um modelo paradigmatico reforca isso. Alquimia é arte (apesar da fan- tasia pré-cientifica): arte da mistura, da dosagem, do tempo, do fogo, do conhecimento do comportamento dos materiais. Arte que, para realizar-se plenamente, necessita inegavelmente de um elemento para além da atitude puramente intelectual, elemento indispensdvel que Jung sempre enfatizou e chamou de fungdo sentimento ou coracao’. Mais recentemente, na psicologia arquetipica uma fantasia es sencial se sobrepée na imaginacao do trabalho: aquela do artesdo. Oartesao é um desdobramento do artifice alquimico. Devernos & plorar as ramificacdes de seu sentido nesse contexto. Essa ims 7. HILLMAN, J. The Dream and the Underworld, Op. cit, p. 138. 8.JUNG, C.G. OC 12, § 401. 9, Ibid,, OC 16, § 486-488. Psique e imagem 19 gem da maior preciséo 4 compreensdo que podemos ter de sua ideia principal sobre o trabalho com a psique, a de soul making, fazer alma. “Fazer alma” resume, para a psicologia arquetipica, 0 motivo essencial e a preocupacao de base de qualquer trabalho psicolégico. Esse “fazer” nutre-se diretamente do imagindrio ao mesmo tempo mais profundo e mais ancestral da artesania, a habi- lidade dos artesdos, que entao teriam mais a nos ensinar sobre o trabalho com a “coisa” psiquica do que os modos que a racionali- dade positiva e a mentalidade cientifica puderam nos dar. Com essa imagem retoma-se naturalmente uma ideia de “obra”, mas agora em bases menos espirituais, e mais modestas: [...] vamos ligar opus a habilidade, a fazer alguma coi- sa. E isto que poiesis significa: fazer. Entao, quando falo de fazer alma, estou imaginando a opus da alma como um trabalho que é semelhante a um artesanato, cujos modelos viriam das artes. [...] A opus nao é ape- nas 0 produto, mas a maneira como [se trabalha]". A opus da alma como artesanato coloca a nogao de trabalho da psicoterapia analitica numa base ao mesmo tempo mais senso- rial e menos racional. Traz para esse trabalho um imagindrio me- nos carregado das obrigagdes morais da ciéncia e mais ligado as representagoes mais ancestrais do carpinteiro, do ferreiro, do ce- ramista e da tecela, bem como das confrarias de adivinhos, de arau- tos, de curandeiros”, que requerem, por sua vez, apenas e essencial- mente experiéncia e destreza, disposigao e habilidade. Essas representacdes nos apresentam mais diretamente a dia- lética das maos. 10. HILLMAN, J. Entre Vistas... Op. cit., p. 174. 11. VERNANT, J.P. Mito e pensamento entre os gregos. Rio de Janeiro: Paz € Terra, 1990, p. 358. Ft Coleco Retlexoes unguiang, III. As maos As maos estdo no centro de nosso tema. “As maos Sovernam 0 trabalho” (Hillman), o que me parece querer dizer que elas car. regam a imagem arquetipica do trabalho. A mao faz, realiza, fora, altera, modifica. Ela institui o homo faber. Ela € mistica: ora, Elaé fazedora: labora. Trabalho do espirito e trabalho da carne. Prece e coisa, espirito e matéria, tudo a mao faz. E tudo 0 que ¢ feito a mao revela mais profundamente a alma do trabalho, revela o dom, Devemos entender seu logos. Para a légica das maos, impor. tante é aquilo que pode ser tocado. Ela ensina e nos inicia na di- mensao da palpabilidade. A mao indica o que é palpavel. Para a mao, é realidade o que for palpdvel. Sua alma é tatil, alma que ama o solido, ama a matéria. Como um prolongamento do cérebro, ela entende a matéria como oficio. Como um prolongamento do coracio, ela entende a matéria como arte. Artes e oficios. Dois lados, dois hemisférios: duas sao as maos. Razo e emogdo, fungao e cangao. Os dedos fazem a mao trabalhadora, e lembram que a mio é politeista: em cada dedo um planeta, uma energia, um mistérioe uma forca. O polegar é de Vénus, o indicador é de Jupiter, o médio é do Sol; e o mindinho é 0 dedo de Merctirio, esse Hermes-crianga que temos na ponta da mao, quase esquecido. Em cada dedo um 6rgao do corpo: cabeca, vesicula, baco, figado, coragao. Em cada dedo um Deus, dedos e deuses fazendo trabalho, trabalho dos de dos fazendo a mao falar, ouvir, ver. Com as maos, com a artesania, uma imaginacdo mais metafo- ricamente material incide em nosso trabalho com a psique, 29 modo alquimico, afastando-nos das tio perigosas nogdes médicas, tais como cura, tratamento ou melhora, ligando-nos a um modo de agir que pée sua énfase no “moldar, manejar e fazer algo com Psique ¢ imagem 21 a coisa psiquica [...] uma psicologia artesanal”” [itdlico meu], cu- jos modelos estao nas artes. Ou, como ja se disse, analogias visiveis para um trabalho invisivel. E por falar em trabalho “invisivel”, o sonho sirva de exemplo. Tomando entao o sonho como a apresentacdo mais paradigmatica do trabalho da psique (para o qual, sabemos, Hillman também trouxe a imagem arquetipica do bricoleur"), gostaria de finalizar essas breves reflexdes com a citacdo de Herdclito que me serviu de epigrafe, o célebre Fragmento 75. Os Fragmentos de Herdclito sao enigmaticos e funcionam como koans para a mente ocidental. Este nos diz: “os que dormem sao trabalhadores [...] e cooperam nas obras que acontecem no mundo”. A psique trabalhadora en- contra aqui sua expresso, e todos os alinhamentos que pude fa- zer desembocam nesta constatagdo: sempre brincando, muito mais a alma trabalha em nés do que nés trabalhamos nela. 12, HILLMAN, J. The Dream and the Underworld. Op. cit., p. 138. “O cultivo de alma é como qualquer outra atividade imaginativa. Requer artefato, assim comoa politica, a agricultura, as artes, as relacdes amorosas, a guerra ou a conquista de qualquer recurso natural” (p. 129). 13, Na obra de James Hillman, o locus de referéncia para a imagem arquetipica do bricoleur como uma analogia para o trabalho da psique é 0 livro The Dream and the Underworld (O sonho e 0 mundo das trevas), de 1979: “[...] 0 bricoleur do so- nho é um trabalhador manual, que toma os pedacos de lixo abandonados pelo dia e brinca com eles, juntando os residuos numa colagem. Ao mesmo tempo em que os dedos que formam um sonho destroem o sentido original desses residuos, também os formam num novo sentido dentro de um novo contexto” (p. 127-128). 2 A alma do consumo I Todos os dias, em algum nivel, o consumo atinge nossas yj. das, modifica nossas relacdes, gera e rege sentimentos, engendra fantasias, aciona comportamentos, faz sofrer, faz gozar. As vezes nos constrangendo em nossas agGes no mundo, humilhando e aprisionando, as vezes ampliando nossa imagina¢ao e nossa capa- cidade de desejar, todos nds consumimos e somos consumidos. Agora vamos consumir a ideia do consumo, sua psicologia, sua psicopatologia. Numa época toda codificada como a nossa, 0 cddigo da alma (0 cédigo do ser) virou cédigo do consumidor! Fascinio pelo con- sumo, fascinio do consumo. Felicidade, luxo, bem-estar, boa for- ma, boa mesa, lazer, elevacao espiritual, satide, turismo, sexo, fa- milia e corpos séo hoje commodities reféns da engrenagem do consumo. Podemos falar, como os filésofos e socidlogos contem- poraneos, de um hiperconsumo? O consumo nao pertence a todas as épocas nem a todas as ci- vilizacdes. Somente ha pouco tempo historico é que falamos e en- tendemos viver numa sociedade de consumo, onde tudo parece necessitar adaptar-se a légica dessa racionalidade, ou seja, a esfe- ra do lucro e do ganho, a ética e a estética das trocas pagas. E uma singularidade histérica. Tornamo-nos homo consumericus. Mas, num plano mais profundamente psicolégico, que racionalidade é mesmo esta, a do hiperconsumo? Que deuses esto ali abatidos? Psique e imagem Que arquétipos? Para ecoarmos os receios de Jung sobre deuses e doengas™, que doenca é esta, a paixdo consumista, tao absorvente, tdo aparente, tao definidora? O consumo, entende-se, é uma forma modificada e moderna de estabelecer relacdes com 0 mundo dos objetos e dos seres, e também com o mundo da interioridade. Mas é na propria interiori- dade que a vontade de saber, a vontade de se relacionar, a vontade de viver e a vontade de lazer foram absorvidas por essa légica. E, claro, entre os muitos bens, materiais e imateriais, também consumimos psicoterapia, e ha varios lugares ou modalidades para se “comprar” alma. Fast, slow, profunda, comportamental, breve, andlise junguiana, reichiana, psicandlise, dinamica de gru- po, workshops de fim de semana, neurolinguistica, existencial, via- gens espirituais, meditacdo, retiro. Sem falar da autoajuda no reino do Selfservice. Contudo, para uma psicologia arquetipica, hd deuses em nos- so consumo: Afrodite da seducao e do encantamento pela beleza e pelo prazer, Hermes do comércio e da troca intensa, Cronos do devoramento, Plutao da riqueza e da abundancia, Crianga Divina da novidade, Dioniso do arrebatamento, Narciso ensimesmado, Her6i furioso, Eros apaixonado, Pan, Priapo, Puer, quem mais? Que pessoas arquetipicas estao na alma do consumo? Ao buscarmos pela alma do consumo, langamo-nos, sempre mais desconfortavelmente, no jogo entre necessidade e supérfluo, entre frivolo e essencial. Nao sabemos ao certo onde termina a ne- cessidade, onde comega 0 supérfluo, onde estao as fronteiras en- tre consumo de necessidade e consumo de gosto, consumo cons- ciente e consumo de compulsao. 14. JUNG, C.G. OC 13, § 54: “Os deuses tornaram-se doengas”. 2... | 24 Coleco Reflexdes Junguianas Na era hipermoderna, para ja usarmos a expressao do filéso. fo francés Gilles Lipovetsky, que hd alguns anos Pensa sobre uma “segunda modernidade” - que se da sob o signo do excesso edo extremo, que realiza uma “pulsao neofilica’, um Prazer pela novi. dade que se volta constantemente para o presente" - nao pode. mos deixar de reconhecer que 0 consumo acontece ao lado de ou. tros fendmenos importantes que marcam e que estao no centro do novo tempo histérico: o espetaculo midiatico, a hipercomunica. ¢ao de massa, a individualizagao extremada, o hipermercado glo. balizado, a poderosissima revolugao informatica, a internet. 0 consumo também cria seus préprios templos: os shopping cen- fers, as novas catedrais das novas e velhas igrejas, e também, a seu modo, a propria rede mundial de computadores. O hiperconsumo, e sua doenca (o consumismo) penetra insi- diosamente em dreas da existéncia que, ainda numa idade moder. na, sao estranhas a ela. Ou seja, o consumo e suas relacdes de tro- cas pagas, lucro, rentabilidade, constante renovagao, reciclagem e imediatismo ocupam terreno ao qual esta légica arquetipicamente nao pertence: o amor, a amizade, a religiao, a satide, a politica, a sabedoria, a espiritualidade, a educacao. ; Nessa ldgica, entram hoje novas e surpreendentes categorias que ampliam tanto a nogdo quanto 0 alcance das nossas experiéncias que invadiram profundamente o imagindrio cotidiano, tais come real, virtual, natural, artificial, integral. Todas tem um impacto ” alma. Mas o que diferenciam afinal? Aqui, mais insidioso 6 0 jog? entre a ordem do leve (light) e a ordem do pesado (integral). non samo, hiperini 15. “Hipercapitalismo, hiperclasse, hiperpoténcia, hiperterrorismo, hirer eae mais noe dualismo, hipermercado, hipertexto - 0 que mais no ¢ hiper, Oa yeaa pe uma modernidade elevada a poténcia superlativa? [-»] Oe "Es te tivéssemos ido da era do pds para a era do hiper” (LIPOVETSKY, hipermodernos, Op. cit., p. 53, 54, 56). Psique e imagem 95 a8 Consumo: tantos sao seus deuses que é preciso evocd-lo com cuidado, sem voracidade, para sentirmos sua interioridade, sua alma, sem sermos pegos em sua malha fina. Consumo da velocidade, consumo da informagdo. Consumo do turismo: turismo da meméria, turismo de aventura, turismo de reabilitagao da satide, turismo recreativo, turismo esportivo, ecoturismo. Consumo da moda, consumo do luxo, consumo gas- trondmico. Consumo do divertimento. Consumo cultural. Con- sumo emocional. Consumo de méveis, de iméveis e de automéveis: a industria automobilistica internacional globalizada sabe ser capaz de pro- duzir icones de altissima voltagem simbélica para a era da autono- mia. Consumo da mobilidade, das viagens e dos deslocamentos geograficos rapidos. Ou permanentes: aqui, a fantasia de renascer em outro lugar, outra cidade, outro pafs, outra identidade - con- sumo de uma nova vida. Consumo identitario. Consumo de utensflios domésticos, eletrodomésticos, ele- troeletrénicos que liquidificam, batem, moem, trituram, mistu- ram, assam, limpam, fervem, fritam, amassam, amolecem, pas- sam e enceram para nés - sem nossas maos, sem contato manual. Tocam sons, reproduzem imagens, processam informagées. Ex- cesso e profusdo de automatismos também funcionando para a era da autonomia. A moda, a morte, a satide, a cosmética, a higiene e a limpeza sio principalmente imaginadas hoje em dia também dentro da fantasia e das prdticas do consumo. Nessas praticas, podemos en- trever sua alma. No capitulo da limpeza (pessoal e doméstica), por exemplo - um item altamente valorizado na sociedade do hiper- consumo, e que hoje se confunde ou tem seus sonhos entrelaga- dos com aqueles da satide - percebemos toda uma cultura dos an- Coleco Reflexdes i eu 26 aay tibidticos, dos antibacterianos, ae sermicidas, 7 °s ins dos bactericidas, dos antivirais, dos antirretrovirais, de tudo a s Jo que “mata bem morto”, cultura dentro da qual estao tambe, ‘ saponaceos, 0S sabonetes, e sabées, os xampus, os detergen, . as Aguas sanitarias, 0S desinfetantes, os limpadores Multiusy ” cloro, a creolina: todos matadores. Consumo do asseio, recha, paranoico da sujeira, cultura da limpeza: o hiperconsumid, mostra, na alma de seu consumo, a flechada de uma onda apoli. nea de assepsia, de controle total, de seguranca total, de braneg total. Isso estd na linha do que se nota na vida moderna de uma preocupacao obsessiva por insegurangas de varias naturezas. bio. légica, médica, patrimonial, moral, ética, familiar. A autonomia trouxe inseguran¢a. Essa légica consumista da seguranca se estende ao circuly dos protetores solares, dos preventivos de todas as linhas e em to. das as atividades, preservativos, camisinhas, air bags, cintos de se. guranca, adverténcias sobre ingestao de alimentos, bebidas ¢ fumo, bloqueadores de raios solares, sensores, alarmes, detecto. res de metais, cameras de vigilancia, sistemas sofisticados de pro- tecdo patrimonial, de seguranga residencial e seguros de vida, de satide, de viagem. A prova d’dgua, a prova de choque, resistente, Etica de tudo aquilo que vem antes, que nos prepara para “espe- rar o inesperado”: uma contradicéo em termos. Inseguranga coti- diana, cotidiano da inseguranca, coincidente com o fim dos refe- renciais estaveis tradicionais. Eis a era moderna na qual se insere a “sociedade de consumo”. Limpo e seguro: eis a questdo. O consumo da limpeza e da se- guranga tem sido uma das principais fantasias légicas da era da autonomia. E uma fantasia espiritual. Cticidas Mas o maior consumo talvez seja mesmo o consumo da auto- nomia, da faculdade de se governar por si mesmo, de instituir e 97 Psique e imagem reger as leis (nomos) pelas quais governa-se a si mesmo. Autono- mia é liberdade e aprisionamento ao mesmo tempo. Autonomia: nao preciso mais ir ao cinema e estar sujeito a ho- rarios, arranjos e enderecos publicos e coletivos; eu possuo um home theatre. Imprimo minhas fotos na impressora doméstica ali- nhada para isso. Faco meu jantar com 0 auxilio luxuoso de todos os eletrodomésticos que ndo param de reinventar-se, os processa- dores de comida aliados aos fornos de microondas; ou simples- mente compro 0 jantar pronto e congelado, estocado e pratico, ra- pido. Edito meus filmes no computador pessoal. Organizo e esco- is as musicas que quero ouvir - a trilha sonora da minha vida - sem surpresas desagradaveis ou diferentes, simplesmente baixan- do arquivos de audio da internet e armazenando-os em meu iPod ou iPad. A telefonia esta em minhas maos, em qualquer lugar, é mével, e com ela a impressao de contato por tras da fantasia de co- nectividade. A comunicacao esta toda em minhas maos. Minha correspondéncia, agora por via eletronica, esta em minhas maos (ou diante de meus olhos) na hora que desejo ou preciso, em qual- quer lugar do planeta. E esté em minhas maos principalmente tudo aquilo que posso comprar pronto (ready-to-go): desde a co- mida - entregue em casa (delivery), ou entdo ao acesso rapido de uma corrida de carro (drive-through) - até medicamentos, entre- tenimento, companhia, sexo e roupas prét-a-porter. Basta para percebermos a enorme presenca da fantasia de autonomia. E a au- tonomia, podemos perceber, esta a servico da felicidade privada. A “customizagaéo” cada vez mais intensa da maioria dos bens e dos servicos de consumo também registra claramente: 0 nosso é um tempo de escolhas. Como quero meu refrigerante, meu carro, meu jeans, meu computador? Como quero que eles se parecam? Que gosto quero que tenham? A hiperindividualizagaéo também leva & autonomia, ou vice-versa, e impde processos de escolha S_ °°} yp Colegao Reflexoe. STi 98 “neUlanas cada vez mais intensos urgentes: “os Bostos ndo cessam de ing. vidualizarse”*, No setor da eletronica de consumo, por exemplg tudo caminha para a alta definicao. O Senhor dos Portdes (Mr, Ca tes) abriu as janelas (Windows) de um presente que requer, sin definigées (escolhas) cada vez mais “altas’, mais precisas, mais particularizadas, em quase tudo. A prépria identidade tornase, ho mundo hipermoderno, uma escolha bem definida num campo cada vez mais flexivel e fluido de possibilidades: tribos, Nacdes culturas, subculturas, sexualidades, profissdes, idades, Personas to-go. Autonomia: nomear-se a si mesmo. Com a autonomia vem também 0 automatico. O tema pervasi. yo da autonomia em nosso imaginario coletivo mais profundo en- gendra e produz nossa ligagéo com tudo aquilo que é automatico, nossa paixao mesmo pelo automatizado, nos objetos e nas rela. cées, nos servicos e na vida cotidiana, na alma e no corpo, na lin. guagem e na acao, e também nossa prisdo nos automatismos - nossos padrées psicolégicos automaticos. Claro ou nao, ja se viu nisso um processo de distanciamento do mundo da matéria, onde quase tudo ja trabalha por si, semain- tervencdo de nossas maos ou de nossos corpos. As vezes, nem de nossos olhos. Mas é também possivel ver nisso um mundo esque- cido de coisas fisicas que quer se animar, que deseja alma; e ver na alma um anseio compensatério ainda maior pela seducao fisica do mundo - pois a alma precisa do mundo. No hiperconsumo, como advertiam os alquimistas, literaliza-se o fisico no material, ¢ precisamos entao consumir cada vez mais, e cada vez mais inter samente, aparelhos, automéveis, dispositivos, engenhocas, gat gets e, com eles, seus fantasmas, tn erga 16, LIPOVETSKY, G. O , ; 708 impéric 5 7 nhia das Let 2006, p. 174 império do efémero. Sao Paulo: Compat | \ Psique e imagem Mas 0 que entendemos fundamentalmente com isso é que tudo, tudo a alma consome, e tudo pode ser consumido pela alma em seu eterno trabalho. Ou, tudo pode virar um vaso para fazer alma, como ja nos afirmou James Hillman: “O vaso do cozinhar da alma aceita tudo, tudo pode se tornar alma; e ao tomar em sua ima- ginacdo quaisquer e todos os eventos, cresce 0 espa¢o psiquico””. Precisamos enxergar no consumo um vaso de fazer alma. t Para isso, precisamos libertar nossa visdo das preconcep¢ées filo- t sOficas, morais e psicolégicas que nos levam a entender no consu- mo apenas um patologizar mais intenso. E certo, a superindividua- lizacdo da qual os tempos dao testemunho reforca um sujeito que, ao encontrar-se agora numa condicao mais flexivel, vive no ego a ilusio de uma aco mais consciente e livre no mundo. E é certo que esse sujeito é fragil, e que aqui esta seu paradoxo. Seu patolo- gizar é imenso, é intenso, e cresce na proporcao do consumo, da autonomia e da liberdade: depressao, paranoia, compulsao, baixa autoestima, competitividade extremada, panico, suicidio, solidao, medo, estresse, sintomas psicossomaticos, hiperatividade, hiper- consumismo. Vulnerabilidade psicoldégica, desestabilizagao emo- cional. Contudo, é preciso pensar, por outro lado, o estado de coisas e suas enfermidades com o prisma privilegiado da alma (alma do mundo, inclusive). A obra do consumo na alma, ou a obra da alma com o consumo (tanto faz), atinge patamares patologizados, con- tornos enfermos, mas tem em seu epicentro nervoso, social e indi- vidualmente falando, uma ampliagao do desejo ou do deleite da prépria alma pelo mundo - mundo das coisas e coisas do mundo. Podemos entao pensar que o consumo flexibiliza e amplia os limi- 17. HILLMAN, J. Re-Visioning Psychology. Nova York: Harper & Row/Harper Colophon, 1977, p. 69 [Re-vendo a psicologia, Petrépolis: Vozes, 2010). Colega C80 Retexg Se STunguia tes de sua experiéncia e até mesmo 0 espaco Psfauico de; de. Nossa sociedade de consumo s6 seré um todo ae a Ii do processo da alma. Sob o consumo, opera a alma, O consumo faz parte da atracao da alma pelo desejg ‘i envolvimento com o desejo. Faz parte do Mito de Eros e Pa le Bey 0 desejo aqui é pelas coisas do mundo - desejo que, qué, R : : &M ttm tancia, deseja de verdade animar 0 mundo, tornalo alma Detda, ligive 4 a Il A principio, e por tudo isso, a l6gica consumista Parece sera de um hipernarcisismo. Mas compreender o fendmeno Politeisg. camente é tornar possivel enxergar-se nele as muitas faces de sua interioridade e de seu significado para a alma. Vejamos, brevemen. te algumas dessas faces, encarando os deuses: se existem deuses nas nossas doencas, quem sao eles no consumismo? Assim destaco, a meu ver, basicamente trés problematicas a serem enfrentadas mais urgentemente junto ao consumo: a da tro. ca, a da seducio e a da necessidade. Comecemos pela necessidade: temos necessidade de qué? De quanto? Quando? Nao sabemos mais ao certo, é claro. As medidas enlouqueceram. Movemo-nos agora num mar de necessidades: pseu- donecessidades, necessidades artificiais, necessidades basicas, neces sidades estrategicamente plantadas pelo marketing, necessidades que nao sei que tenho, necessidades futuras, até chegar ao ineces sdrio, 0 extraordindrio que é demais. A necessidade delira. Mas a necessidade é arquetipica, e tem um lugar na alma, um nexo psiquico mais profundo. A necessidade rege os movimentos da alma. Ananké, a Necessidade, é a personificacao da forca cons trangedora dos poderes do destino - os decretos do destino fisio? e do destino psiquico, Longe ou separada da alma, torna-se escra va da ansia, do desejo cego, a que chamamos ansiedade (que te 485ee""" Psique e imagem 31 a mesma raiz etimoldgica que ananké) - ansiedade que é, em es- séncia, desejar profundamente... coisa nenhuma! Asedugao é, claro, o terreno de Afrodite, e ela, banida da civi- lizagdo secular, destituida de um lugar de honra a beleza e ao amor sensual, retorna no apelo ao consumismo puro, a seducdo das coisas pelas coisas: literalismo, ansia cega pelo mundo, a que chamamos... ansiedade. Sempre que somos seduzidos, sabemos que é seu o trabalho na alma alinhando-a com 0 desejo, com Eros. J& que hoje, como disse Hillman, o “shopping center e 0 catélogo de compras sao os lugares onde Afrodite trabalha sua sedu¢do””, é 14, na embriaguez do consumo, na hiperescolha que encontra- mos a fantasia da conquista do mundo, do deleite sensual pelo mundo. Mas 0 jogo da seducao, na verdade, esta por tudo, em to- das as pontas da sociedade de consumo; nao podemos dela esca- par, e j4 nada fazemos sem sua presenga. A ampliacao das necessi- dades também tem a ver com ela, assim como a ldgica do efeémero e da novidade na qual estamos mergulhados. E também a porno- grafia, a inflagdo erdtica, o sexo serial: consumo sexual. Afrodite esta furiosa conosco desde o amanhecer até quando nos deita- mos, adentrando 0 mundo dos sonhos e a noite escura da alma. A seducdo explode. Na troca, por outro lado, enxergamos a “inflagéo hermética” de que também fala Hillman, a cultura midiatica de massa. Hiper- conectividade, hipermercado, hipercomércio, hipercomunicacao: tudo se liga. Hipertroca: de informagio, de servicos, de produtos, de afetos, de imagens, de mensagens. E tudo pago. Devo me man- ter informado, trocando o tempo todo, “estar ligado” - ligado/des- ligado, on/off eis o dilema. Comércio de tudo, tudo se torna comer- Eee 18. HILLMAN, J. “Loucura cor de rosa ou por que Afrodite leva os homens a lou- cura com pornografia”. Cadernos Junguianos 3, 2007, p. 7-35 [Revista anual da Associacao Junguiana do Brasil]. Coleco Reflexs, 32 eflexdes lung cial. Aqui, como ja dissemos, e mais que em qualquer on pectiva, observamos que 0 mercado se apossa do que nao esta, mercado, e que talvez a ele inclusive nao pertenca; tudo é aps Mo do pelo modelo consumista: amor, relagoes, espiritualidade, & ; tos humanos etc. A hipertrofia mercurial da comunicacao, hin formacio, reflete uma aceleracao da troca. A troca dispara, in E nesse campo mercurial que vemos como a l6gica do cons mo nos apresenta hoje ao jogo entre des-uso (tempo acelerado)¢ re-uso (tempo lento). Use e abuse virou des-use (descarte) e reuse (recicle). Descartar ou reciclar? A tensdo entre o descartavel e ore ciclével mostra-nos 0 delirio hermético na sociedade da hipertroca, Iv Terminemos agora com a face mais nervosa do consumo, seu sumo, o gesto consumista por exceléncia e afirmacao: a compra, propriamente dita. Levemos, portanto, esta reflexdo a seu fim, a0 caixa, para ver como estamos pagando por isso tudo, e o que esta mos de fato levando para a casa da alma. Comprar é um impulso ascendente, de natureza espiritual, que nos joga no eixo entre elevacao e mergulho. Mas é também um foco de fantasia, portanto um lugar de alma, nunca um gesto puro. Diga-me o que compras e te direi quem és! Direi também como patologizas, e como imaginas a liberdade. Assim, comprar, como qualquer acdo arquetipica, também esta cheia de deuses: a compra heroica e suada, a compra racional saturnina feita em vezes, a compra venusiana prazerosa & sensual, ariana de impulso, a compra culpada ou martirizada, a compra que rejuvenesce, a compra festiva jupiteriana de expansé0 da per sonalidade, a compra pornografica, a compra generosa ¢ a retensi- lo va, a compra para o outro, a compra que é um presente, um mot de dizer algo. RT Psique e imagem 35 A febre de comprar nos faz pensar, como sugeriu Lipovetsky, | que “ela seja uma compensacao, uma maneira de consolar-se das desventuras da existéncia, de preencher a vacuidade do presente e do futuro”. O frenesi das compras entao funciona para nossa longa solidao egoica como “simulacros de aventura”, o fantasma da obra, pequena loucura cotidiana, a prétese do prazer. A compra é a magia do efémero. E asa, é brasa. F futuro, pro- messa, desejo de mudar, intensificacdo, momento de morte. E o fim da producao, quando as coisas sao finalmente absorvidas pela psique. A compra, ao contrario do que se poderia pensar, dissolve o ego em alma, dissolve 0 ego heroico em sua fantasia de morte. Comprar é 0 que resta. Comprar é nosso modo de fazer o mundo virar alma. SS 19, LPOVETSKY, G. 0s tempos hipermodernos. Op. cit., p. 79. ee 3 As emogoes e a mente wd co Eu nao devia te dizer x mas essa lua 4 mas esse conhaque | botam a gente comovido como o diabo, | Carlos Drummond de Andrade. Alguma poesia, 1930. 4 1 t) t dt Sentir coisas, ficar comovido ou atormentado, emocoes, estar emocionado, emocionar. Odio, alegria, raiva, tristeza, Jubilo, inveja, citime, rancor, medo, vergonha, furia: emogoes sao a pré- pria coisa da alma, sua matéria, sua verdade, sua carne. Com elas, trabalha-se na psicoterapia; com elas, aproximamo-nos da alma. Com elas, a alma fica profunda e nds, complexos. Na psicologia as relacdes entre alma e complexo compéem e definem para nds nos- sas emocées. A emogdo, nao ha quem duvide, aprofunda. ‘As emoges nos libertam. Também nos aprisionam. Muitas vezes é dificil saber ou até entender o que sentimos, e ficamos to- mados por emocées. Muito mais que as ideias, as emogdes nos le- vam aos extremos da existéncia, as reinvengdes e revolugdes pes soais e coletivas. O poder de uma emogdo é mover. Por uma emo- G40, algo se move, em nés e no mundo”. ee 20. Rafael Lopez-Pedraz; € pathos”, e que “ LOPEZ-PEDRAZA, Polis: Vozes, 2010, Move, o que leva o uma acdo é a expre; a lembra que “o termo original grego para emocae Pathos foi traduzido para o latim como paixio”. Cl R. As emogées no processo psicoterapéutico. Petto” P. 12-13, Aristételes define a paixdo (pathos) como 0 ave homem Para a acdo (praxis). Portanto, um movimento, ss40 de uma emocio. __~ 7 Psique e imagem 35 Elas nos desarranjam, sao trabalhosas, Perturbam, nao sao confidveis e por isso mesmo sao reprimidas e banidas de um proje- to de racionalidade e coeréncia. Ainda assim, queremos nos emo- cionar, e por isso lemos livros, vamos ao cinema, ouvimos misica, entramos e saimos dos relacionamentos, buscamos o amor e, nele, sofremos; viajamos para lugares diferentes, consumimos e deseja- mos coisas e pessoas. No universo linguistico, para comeco de conversa, emogées, a palavra, é nome de motel, de lanchonete, de sex shop, de lojinha ba- rata, de mercadinho do interior; é titulo de musica, de filme, de livro e, ainda mais curioso, nome de transportadora de cargas - ja vi, deslizando na Via Dutra, por exemplo, como emissdrios do impro- vavel, caminhGes de enorme cacamba prateada estampando corajo- samente 0 nome de uma empresa de logistica: Emocées! De fato, com as emocées, algo se move, em nés e nos caminhos do mundo. E temos as listas, tentativas de enumerar emogées, de fantasi- armos algum controle sobre elas. As listas so as mais variadas, e nunca se esgotam; listar é arquetipico. Mais préximas de nés, para agora também entrarmos por um momento na imaginagao das lis- tas, apenas algumas, poucas, mais conhecidas: temos a de Aristé- teles, na Retorica, que por sua vez inspirou e influenciou a de Ra- fael Lépez-Pedraza, que a amplia em seu Emociones: una lista. Temos a de Charles le Brun, que desenhou a expressao das pai- x0es e sobre isso escreveu um famoso tratado no século XVII (Conférences sur l’éxpressions des différents caractéres des pas- sion, 1667); e, no século XIX (0 séculos das listas), as de Duchen- ne de Boulogne (Mécanisme de la physionomie humaine, 0 pri- meiro estudo sobre a fisiologia da emogdo, publicado original- mente na Franca em 1862, ilustrado com fotografias impressio- nantes, onde ele identifica treze emocoes primarias) e de Charles ee EE EE mn Colecdo Reflexes Junguianas Darwin, este estudando profundamente, em seu A expressdo das emoces nos animais e nos homens (bastante influenciado pelo trabalho de Duchenne), toda a superficie dos estados de humor, com sua danca de musculatura e posturas, que ele chama de “lin- guagem das emogdes” - emogdes e suas cascas, seus invélucros, seus embrulhos. Temos também a lista fenomenolégica de Sartre, em seu Esboco para uma teoria das emogées, de 1939; livro importante que marcou época por sua originalidade; o primeiro a dizer que para entendermos as emogdes devemos entender o que elas signi- ficam - Sartre ja falava de uma “finalidade da emogdo” - a emo- ¢4o como um ato filosdfico, gesto que modifica o mundo. Ainda mais préxima, temos a lista de James Hillman - ndo exatamente uma lista, mas um estudo magistral sobre as teorias da emocao € seus significados para a psicoterapia, em seu livro inaugural de 1960, Emotion: a Comprehensive Phenomenology of Theories and Their Meanings for Therapy. Com as emocées, tudo come ¢ou na psicologia arquetipica. Do ponto de vista psicogenético, contudo, ninguém sabe di- zer o que é uma emogio. As teorias sdo tantas, ninguém concor- da. As emogées sio tantas, com isso todo mundo concorda. Emogao, numa definicdo mais geral e facil encontrada num? busca répida pelos livros de psicologia, é um impulso neural que mma en hemocio sem ne me observado, é um estado psicofisiol He : nvolve o corpo. A emogio é carne, profundi dee superficie 40 mesmo tempo. A pele da alma. 5 : eee e complexo. Sabemos que estat ie Soe inne estar agarrado por um complex, cio nal espectfico, algo como um ambiente e™ | t 1 _ Psique e imagem 37 nal que se amplia e se expande em ramificacdes de significado. Para Jung, a emocao pertence ao complexo. Com a emocao, Jung “descobriu” os complexos. Um complexo é uma entidade constitu- tiva da psique caracterizada fundamentalmente por um “tom emo- cional”, como disse ele. Aqui esta a chave. Por outro lado, podemos agora ligar emogdo e imagem. Aqui temos 0 contraste entre o modo pessoal e 0 modo arquetfpico de conceber as emocées. Emocio e imagem sao coincidentes, e para achar a emocdo é necessdrio buscar a imagem. Ao encontrar a imagem, encontramos a emocao, e vice versa. Esse € 0 ponto am- pliado pela psicologia arquetipica, e o foco do procedimento de sua terapia. Uma emocdo sé se da particularmente a conhecer pela imagem especifica que lhe expressa e constitui. I Lagos afetivos, experiéncias de vida, histérias vividas ou nao vividas e deixadas para tras, choques e decepcées, e muito mais, podem virar “nds emocionais”, como se diz. E quando alguém diz que algo é “de fundo emocional”, é na psicologia que se pensa, nos terapeutas e na psicoterapia. Emoc6es: estados da alma. Emo- des: memérias, sonhos, confusées. Nao basta sentir, é preciso manejar as emocées, refletir a partir delas, ou com elas. Mais: é preciso dizé-las, e dizer de modo certo. Na terapia, estamos sem- pre envolvidos em encontrar a emogao certa, que possa entao ser expressa pela palavra certa, le mot juste. As emogoes precisam da mente, da articulacao da linguagem. A psique precisa de logos, e ai comega a psicoterapia, a “cura pela fala”, pois muitas vezes es- tamos sofrendo pela dor “errada”, e a alma pede a terapia que cor- tija isso, que diga certo, Além do que, podemos também dizer o que ndo sentimos: emogoes falsas, 0 que, para Sartre, constitui Colecdo Reflexdes Junguianas 38 uma comédia: um comportamento sem 0 estado emocional que 9 comporta é comédia”. Se as emocies precisam da linguagem, como estou sugerin. do, entao deixem-me ampliar e provocar com trés ideias sobre a emocao e a mente, a mente emocionada - que chora, que ri, que arfeja, que anseia, que lamenta. Lamentos da mente. (“Lamenta- velmente...” - isso é 0 que dizemos quando queremos inserir algu- ma emogao num relato, numa conversa, num encontro, muitas ve- zes emocao sem nome.) O trabalho de Darwin com a expressdo das emogées - medo Nos caes, afeigdo nos gatos, fliria nos cavalos, prazer nos macacos - mostra que a emogdo é 0 animal, mostra o quanto a emocao nao é humana, que ela pertence ao animal: o sistema humoral, o hipo- campo, dentro da pele, alteragées do tonus muscular, vasoconstri- ¢6es, disturbios respiratdrios, lagrimas e sorrisos, medo na barri- 8a, tristeza nos olhos, citime nos ouvidos, a aflicéo da espera e da ansiedade no suor das mos, palpitagdes do coracgao que bate mais rapido, o corpo animal. Primeira ideia: a emocao é 0 triunfo do animal. Mas tudo isso mostra também o pano de fundo transpessoal das emogées, que elas so inumanas, e sio coletivas. Parecem me pertencer, e até aparentam ser o que me faz sentir a mim mesmo como uma pessoa e, no entanto, sao, como entende a Psicologia ar- quetipica e disse James Hillman, “influxos divinos” belecemos uma “conexao epifanica”: “, vem através da surpresa, - Com elas, esta- ‘A emocao é um presente que é mais uma afirmacao mitica do que uma ee ara ri emogoes falsas que sao apenas condutas. Se me dio um presente que interessa em parte, pode ocorrer que eu exterior ia ii y lorize a ay bata palmas, salte e dance, UTREN LP. Bebogo er Mas serd uma comédia" (SARTRE, J. uma teoria das emogées. Porto Alegre: L&:PM, 201 Nana 0, p. 74), Psique e imagem % propriedade humana. Ela anuncia um movimento da alma [...] que podemos perceber nas imagens de fantasia que acompanham a emocao””. Segunda ideia: a emocdo é o triunfo dos deuses. A emocao nos adjetiva. Poe qualidades no que fazemos ou so- mos, nos instantes, nas a¢gGes, nos gestos. Qualifica nossos modos de ser. Vivemos emocionalmente; as emogGes estado por dentro (ou no fundo) de tudo, ainda que possam estar exiladas em alguma c4- mara escura da alma, inconscientes, sem contato, sem registro, ba- nidas, nao reconhecidas. A emocdo colore: dos desesperos plimbleos e lutos purpuras, l4grimas negras, passando pelos azuis profundos da tristeza ou da melancolia, até os jubilos rubros da alegria, da empol- gacao e do desejo, ou o verde do entusiasmo vivo esperancoso, ou 4 ainda o amarelo solar de um breve momento feliz. Alquimia das emocoes, poesia das emocdes. Em tudo, a emogao é 0 adjetivo, aquilo que nos arranca de uma existéncia apenas substantiva ou verbal, ou seja, de sermos apenas coisa ou, pior, s6 acdo. Il Termino com poesia o discurso verdadeiro, vera narratio. Pois na poesia podemos ver a mente que pensa a emogao, que pensa emocionalmente, um “pensamento do coracdo”™. A poesia, nesse sentido, pode ser entendida como uma calcinatio, um apu- ro da emocao, e nos ensina esse apuro. Apurar é calcinar, secar para ver. Estar em apuros é estar emocionado. Exemplo: E claro que a vida é boa E a alegria, a nica indizivel emocao E claro que te acho linda 22. HILLMAN, H. Re-vendo a Psicologia. Op. cit., p. 336. 23. Cf. HILLMAN, J. O pensamento do coracao e a alma do mundo, Campinas: Verus, 2010. a» © Colecdo Reflexdes jun Suianas Em ti bendigo 0 amor das coisas simples E claro que te amo E tenho tudo para ser feliz Mas acontece que eu sou triste... (Vinicius de Morais. “Dialética”.) Aemogao 60 triunfo da poesia - a terceira ideia, A poesia finalmente nos ensina que as emocées sao nosso, minhos para a interioridade, onde quer que esteja, em nostoen tintos, em nossos sonhos, na pele, no rosto, no mundo, ~ Pervers6es, taras e outras observagdes amorosas Poucos prazeres e muitas penas, eis o quinhao dos amantes: que eles preparem sua alma para numerosas provas. Ovidio. Ars amatoria. I No amplo espectro da literatura erética no Ocidente, e A som- bra enigmatica da imensa figura do Marqués de Sade, a Historia do olho, de Georges Bataille, A histéria de Vivant Lanon, de Marc Cholodenko, e Cartas de um sedutor, de Hilda Hilst, sio obras que apresentam, no século XX, e cada uma a seu modo, os cami- nhos tortuosos e dificeis que a alma percorre quando seu amor apresenta-se desviante, perverso, intolerdvel. As diversas perver- sdes a que esta sujeito o eterno enlace de Eros e Psiqué falam mais da alma imaginativa que do amor depravado. E nesse amor, as vezes tao proximo da violéncia quanto da delicadeza, que verifi- camos os extremos da capacidade imaginativa da alma erotizada. Esse amor encontra nas parafilias, praticas sexuais dissidentes, re- jeitadas socialmente, seu desafio maior 4 alma, e com elas pode tantas vezes fazé-la adoecer. Mas, o que quer a alma quando toma um caminho luxuriante? E 0 que é mesmo esse caminho quando tornado desviante? A rota desviante ilumina aquela que a psicologia chama de normal. Sadismo, masoquismo, exibicionismo, fetichismo, frotta- ia Colegao Reflexdes Junguianas ge, pedofilia, sodomia, voyeurismo, incesto, coprofilia, urofagia, zoofilia, necrofilia, felacdo e cunilingua sao algumas de suas mo- dalidades mais conhecidas e repetidas. Ilustres personagens, da ficcdo e da vida real, génios da literatura, das artes e das ciéncias, politicos e generais famosos - uma gente de aparéncia muito de- cente esta entre os famosos adeptos, no privado de suas vidas ou de suas relagées, de uma ou mais dessas praticas. Além do que po- dem imaginar, hoje e sempre, ilustres ou nao, de forma sempre surpreendente e infinitamente, as almas anonimas de eternos apai- xonados pelas mais inusitadas taras. Para uma visao mais completa desse eros é preciso recorrer, além da psicologia, aos poetas e ro- mancistas. Aqueles livros, o Marqués e essas praticas dao conta de nos mostrar maneiras de amar que estdo no limite do humano, l4 onde o proprio amor esta no limite do horror. Incidem sobre essas praticas tabus mais ou menos severos, mais ou menos explicitos. Os prazeres da carne e os amores do es- pirito que representam atentados aos costumes sempre foram considerados da perspectiva da baixeza e da vulgaridade. A poli- cia, o sistema judicidrio, as religides e a psiquiatria dao conta de- les classificando-os de crime, pecado ou doenga. A psicologia tam- bém segue a rota da classificagéo e os aborda sem alma, com medo. Medo e amor formam uma conjungao arquetipica podero- sa, muitas vezes destrutiva. Se por um lado o amor, qualquer amor, mete medo, por outro sabemos que o medo é uma das for- mas de nado amar. Mas nao ter medo faz parte dessas formas do amor perverso. Entao, antes de mais nada, deixemos o medo de lado também aqui para podermos observar mais psicologicamente o amor dessas almas perdidas, o amor perdido nessas almas. Portanto, dentre as nogdes que precisam ser vistas esta, antes de mais nada, a que a psicologia analitica comumente chama de “amor terapéutico”. Com esse amor, ela trabalha. Com nosso eT IEEE OO Psique e imagem 43 tema, essa nog&o se complica bastante. O impulso moralizador es- preita e, com ele, seu reducionismo. Como amar ~ na psicoterapia, na transferéncia e mesmo fora delas - essas formas tao tortas do amor? No entanto, com elas, no amor dito perverso, é que eros mostra mais profundamente sua conexao radical com psique. Um “eros terapéutico” aqui sustentaria entéo um interesse vivo por todas as manifestacdes da alma, pelas imagens e emocées que ela necessita em seus caminhos andmalos que misturam de forma rara prazer e tabu - por mais que com esses dificeis caminhos a psique possa revelar algo estranhamente desalmado, desumano, desqualificado. Algo que muitas vezes parece repulsivo, cruel ou até amedrontante. Eros aqui significa um interesse que nao mora- liza. Hd estados de alma, e mesmo um estudo da alma, nas aspira- des ditas “pervertidas”. A propésito: quando a psicologia chama ou rotula alguma pessoa de pervertida, devemos ter em mente que, na verdade, o que se quer dizer é apenas e rigorosamente que ela “goza em cer- tas condigdes”™. Como psicoterapeutas, essas “condigdes” nos in- teressam, assim como deveria nos interessar qualquer tipo de gozo. Essas condigées sao, afinal, arranjos da alma. A psicologia arquetipica nos ensina, entretanto, que nao de- vemos colocar em primeiro lugar os sentimentos e as emogdes que essas praticas provocam, os quais tao facilmente podem logo nos colocar diante de nosso préprio imenso choque, evidentemen- te nos paralisando. Devemos, ao contrario, “examinar a atrocida- de em termos da imagem””, pois nas imagens encontramos as fi- guracgdes miticas nas quais a alma encontra-se enredada e, no mito, seu desfecho e sentido. Vamos, assim, ficar com as imagens. 24. ULLERSTAM, L. As minorias erdticas. Rio de Janeiro: Lidador, 1967, p. 33. 25. HILLMAN, J. Entre Vistas... Op. cit., p. 186. Colegao Reflexs, 44 s Junguianas Pois, se acreditarmos que as patologias sdo mesmo “formas de amar, maneiras de penetrar no amor”, como disse James Hillman eindicou C.G. Jung, poderemos, sem tirar conclusées, buscar Nes. sas imagens patologizadas do amor caido a alma que Tevela sem. pre sua profundidade ilimitada. Querer ver no erotismo, na imaginacao sexual, 0 amor, como quero fazer aqui, é imaginar que tanto um quanto outro esto cheios de alma, ou que a alma neles se enche de significado e pro posito. “O amor é a metéfora final da sexualidade”, disse Octavio Paz num dos livros mais belos sobre o amor: A dupla chama’. Algumas de suas observacoes sao importantes para este nosso contexto, pois, como 14 também afirma, “o certo é que o transito da sexualidade ao amor se caracteriza tanto Por uma crescente complexidade como pela intervencdo de um agente que leva 0 nome de uma linda princesa grega: Psiqué”™. Esse “agente” esta sempre presente. E nosso unico fio condutor aqui também, nesse emaranhado de atrocidades. Il Com que facilidade falamos do amor! E com que facilidade Nos esquecemos de suas torturas, de suas tortuosidades, seus des caminhos. Ou, melhor dizendo, de seu “tenebroso esplendor” (Cae tano Veloso) ~ no que é e também no que nao é considerado pat” l6gico. Temos conseguido, com total prontidao, esquecer do amor nas suas taras e Perversdes, largando (e nao alargando) oamor ° entendélas confortavelmente apenas nos rétulos ewes horrorosos da sexologia, em algum capitulo excuso das pate —_,_ 26. Ibid, p. 193, 27.PAZ,0.A dy 28. Ibid, p. 96, 91. «ating, 2001:P- pla chama: amor e exotismo. So Paulo: Siciliano, ? psique e imagem 45 sexuais. Mas sera sé isso? Nao teremos af entio um cenari alma? Nao enterramos assim, na sexualidade, varias nee sem amor, deixando-o nas maos terriveis de uma Afrodite furiosse den temida, que a tudo absorve, a tudo entdo porno-grafa, ad obscenidades eréticas numa linguagem sem alma? Lembremos que é em seu altar que normalmente fazemos nossos sacrificios para o amor e para Eros. E que ela, a deusa do encanto que excita o desejo, também participa na “selvageria do demoniaco”, ois em seu mundo encerram-se “todas as criagdes e desejos amoro- sos, desde o obscuro impulso animal até 0 anseio saudoso das es- trelas””. Assim, ao falar do amor, precisamos evitar entendé-lo de modo linear: 0 erotismo se desprende da sexualidade (“desvian- do-se de seu fim, a reproducdo””) e jd é 0 amor; uma face, nao um estdgio do amor. O erotismo é imaginagio, é alma”. Portanto 1d, precisamente nesse capitulo, neste departamen- to da psicologia - psicologia da anormalidade - é 0 amor que tam- bém brilha, agora com seu sol negro (sol niger), pois é a alma no fundo que move essas paixées perversas e que busca sempre algu- ma coisa com elas. Onde ha alma, hd amor, nos informa eterna- mente o conto de Eros e Psiqué. Contudo Eros tem um aspecto duplo: é solar e noturno. E é noturno ndo sé no sentido de sua in- visibilidade, mas também no sentido dessa sua luz negra. Sem o preconceito da racionalidade egoica de uma psicologia da norma- lidade, abrimos generosamente nossos olhos e nossas janelas para a alma - onde quer que ela esteja, como quer que ela esteja SSS 29. OTTO, W. Os deuses da Grécia. Sdo Paulo: Odysseus, 2005, p. 225. 30. Ibid., p. 146. 31. PAZ, 0. A dupla chama: amor e erotismo. Op. cit, p. 28. 32. 0 erotismo é “sexualidade transfigurada pela imaginacao humana” (PAZ, 0. A dupla chama: amor e erotismo. Op. cit., p. 24). Colegao Reflexdes Junguianas se quebrando, torcendo-se, ou mesmo, no limite, despindo-se de si mesma. La, deveremos encontrar 0 amor. Em 1964, coma publicagdo de um livro surpreendente que fi- cou muito famoso pelo entao inusitado de seus raciocinios, o psi- quiatra sueco Lars Ullerstam transformava as tais parafilias em “minorias eréticas”: um marco na linguagem que traduz um passo significativo no sentido da compreensdo. Quero segui-lo. O livro As minorias eréticas® procurava e propunha um entendimento mais amplo e considerado daquelas pessoas que estado ou estive- ram a mercé da alma servindo-a com praticas amorosas decaidas e muito sofridas. Procurava entendé-las separando a casuistica cri- minal (que sempre informou as conclusées médicas nessa area, com sua horda de criminosos, assassinos e abusadores) das legiti- mas histérias de sofredores anénimos - o que permitiu-lhe abrir pela primeira vez um perfil mais honestamente psicoldgico, mais complexo e generoso dessas criaturas da sombra. Logo o livro en- trou para a lista dos banidos ou interditos da histéria, uma lista imensa onde constam, entre outros autores, Apollinaire, Lawren- ce Durrell, Rimbaud, Henry Miller, Walt Whitman, Voltaire, Ge- net, Gide, Havelock Ellis, Verlaine, Anais Nin, Krafft Ebing, o Ba- rao von Sacher-Masoch e o préprio Sade, com 120 dias de Sodo- ma (1785). Sem levar tao a sério o que ele diz, sem atentar aqui para seu contetido literal, o livro do Dr. Ullerstam é nosso ancora- douro imaginal. Vamos entrever algumas das breves descrigoes de seu livro apenas como evocacées dessas imagens de voluptuosas perfidias, pois elas j4 sdo, para nés, descrigoes predominantemen- te psicoldgicas, nao médicas. Evidentemente, todos os rétulos, todas as explicagées, sem pre t4o frdgeis, nao nos ajudam a entender nada, apenas descre- ‘ iro: Lit 967. 33. ULLERSTAM, L. As minorias erdticas. Rio de Janeiro: Lidador, 1 Psique e imagem 47 vem. E no sou eu que vou dizer o que quer a Psique, seja nessas perversoes e taras ou em qualquer outra situacdo. A tamanha pre- tensao jamais me atreveria, especialmente aqui, diante de ima- gens que tanto nos desestabilizam, presentes nos sonhos, nos comportamentos e nas acoes da fantasia. No entanto, sei que, para abordar essas formas raras do amor e da imaginaco exasperada do ponto de vista da alma e de suas fantasias, é importante tam- pbém distinguir o obsceno do imoral, o sexual do pornografico. Il Poderfamos, cada vez mais hoje em dia, enumerar tantas e tantas assim chamadas taras e perversdes quanto se desejasse imaginar. Basta acessar a internet e passear um pouco pelas salas de bate-papo e encontro, muitas criadas pelos préprios usuarios, que teremos uma visdo ampla, surpreendente e criativa da imagi- nacao do amor nesse campo dito mais erético. Mas vejamos, ilus- trativamente apenas, alguns dos exemplos mais tradicionais des- ses pesadelos do amor. Comegando pelo marqués, no sadomasoquismo, a busca e a pratica da destrui¢do e da tortura na obtencdo do prazer revelam a volupia da dor, fisica ou moral: algolagnia, a dor levada como volupia. Estamos diante da verdade de que “a dor é a mais forte de todas as sensacoes e seu efeito, incontestdvel e seguro” (p. 89). “Existem muitos exemplos de casamentos extravagantes entre ho- mens masoquistas e mulheres sddicas. [...] querem ser tratados como escravos, meninos, animais (cdo, cavalo) ou objetos (tapete) por sua amada [...] Existem homens que se casam para experimen- tar a maravilhosa humilhacdo de servir 4 sua mulher e ao amante desta durante seus folguedos” (p. 85, 87). O sadomasoquismo ex- plicita e eleva a poténcia da experiéncia de que toda sexualidade, todo amor, contém um elemento teatral. O ato, no sentido cénico, Colecé 6 48 olegdo Reflexes Junguiang, torna-se linguagem, e a linguagem, identidade. Mas é Preciso pen. sar também na violéncia moral, ou poética, dos insultos, ordens ¢ tas, que intensificam a presenga das dialéticas do Poder no adomasoquista. Dominacao, submissao, humilhacao, opres. sAo e mando empurram a gramatica desse amor a seu polo patolo. gizado, para a perfeicdo da dor. Os libertinos do marqués, e to dos os seus descendentes, sao arautos do amor sofrido, do sofrimento afron' amor s do amor. “Quando as coisas que, segundo a concep¢ao atual, sao inde. centes, sujas e repugnantes, tornam-se sexualmente atraentes, fa. la-se do instinto das imundicies”; fala-se de coprofilia. A coprofilia, no entanto, indica também a boca suja, os desvios e as fugas voca. bulares dos palavrées e insultos sujos, a utilizacao do linguajar chulo para a obtencao do prazer e do gozo. O que temos entao é a repugnancia levada 4 voluptuosidade: sentir prazer quando ha su. jeira, quando as coisas sao sujas; a “necessidade da repugnancia”, o amor pelo sujo. Por exemplo, é muito comum que adultos gozem sexu- almente o fato de poderem sujar-se como criancas. Alguns exigem que a mulher vista pecas intimas ja usa- das durante 0 ato sexual. Existem homens que sé se sa- tisfazem sexualmente quando sujam um vestido. As ve- zes, unhas femininas pretas de sujeira bastam para pro- vocar 0 orgasmo. [...] Homens requintados tém confes- sado que sé podiam dormir com mulheres vulgares. [...] outra maneira de atingir o climax sexual é expor-se a odores ou a gostos repugnantes. As secrecdes humanas como a urina e o suor sao particularmente utilizados [...] Para alguns as axilas tornam-se objetos sexuais inte- ressantes. Outros nao hesitam em engolir excrementos (coprofagia), de preferéncia safdos diretamente do Anus. [...] Comer o alimento que 0 outro ja tenha masti- ON F. LS NEE 4s psique e imagem a gado, ou praticar a fellatio engolindo o esperma sao va- riantes mais benignas. O limite da repugnancia e da vo- luptuosidade é imperceptivel (p. 81, 83). ‘Amor pelo sujo, amor sujo. Na necrofilia encontramos a também poderosissima conjun- ao arquetipica de amor e morte, da qual da testemunho boa par- te da hist6ria da literatura, da pintura e dos contos populares (a Bela Adormecida, Ofélia sao exemplos). Sabemos que, “para o ne- crofilo, o objeto sexual ideal é um cadaver” (p. 111). E gente atrai- da pela poética da palidez, por mulheres palidas ou adormecidas: acarne marmérea, a amante gelada. A profanacao, nao de cadave- res, mas do sono infindavel atesta um amor pela frieza, um amor frio. E preciso mesmo muita frieza, por debaixo do vulcao da pai- xao, para sofrer a imaginacao necr6fila. Apedofilia, por outro lado, é 0 caso mais complicado de se en- tender. Naturalmente, ela é indefensavel, como o estupro. Aqui, fi- camos com a imagem do defloramento precoce, ou da precocida- de deflorada: 0 menino/menina da alma; amores adolescentes, a adolescéncia do amor. Amor por deflorar a pureza. Essa tendéncia é, decerto, frequente, embora poucos queiram atribuila a si proprios ou reconhecé-la peran- te os outros. A sexualidade de certas pessoas fixa-se unicamente nas criangas que se tornam, para elas, os tnicos objetos desejaveis. [...] Tanto encontramos indi- viduos despidos de qualquer inibigao como cheios de- las, com todas as variantes intermediadrias. Os primei- ros constituem um grupo particularmente tragico. Alguns sao infantis, brincando mais com as criangas do que qualquer outra coisa, nao sendo raro procura- | rem seu prazer sexual no circulo que habitualmente frequentam. [...] A crianga muitas vezes da mostras de notdvel lealdade para com o culpado. [...] Numerosos Cotegdo Rettexses tun, 50 longs pedofilos sao pessoas particularmente afetuosag a cal. mas, incapazes de fazer mal a uma mosca, Amig, cria-se uma relacao plena de ternura e de Contatos xuais repetidos. A crianga recebe doces e uma rm e fisica que ndo encontra em sua casa (p. 76, 72), ra 0 onanismo, como tara, pode nos recuperar, no limite visio da mulher de plastico, inflavel, e mesmo da mulher, objeto sexual, vegetal: as plantas. a. A zoofilia, também chamada de bestialismo, pode sey vista como uma tentativa de comunicagao interespécies. Aparece amig. de na mitologia grega com grande dignidade. Trata-se, no mais das vezes, de uma forma importante de iniciacdo sexual, “Os ani. mais utilizados com maior frequéncia sao os bezerros, carneiros, cdes, gatos, patos e galinhas. A relacao mais comum é 0 Coito; de. pois os casos em que o animal lambe o pénis e 0 anus do adoles. cente e, finalmente, certos casos em que o préprio adolescente acaricia oralmente o 6rg4o sexual do animal. As vezes desenvol- vem-se relagdes amorosas que tomam aspecto de verdadeiro fasci- nio erdtico, com fixacao de uma parte e de outra” (p. 112). Na escotofilia - satisfazer-se visualmente, observar - atesta- mos ainda mais 0 poder da imagem, pois nela o orgasmo dé-se i visdo de cenas amorosas. Sao os vedores (voyeurs). E onde pode- mos incluir mais explicitamente todo o campo da pornografia, 0 er6tico grafado visualmente. Prazer e visio, amor por ver (nao Por ser vistol). As janelas indiscretas, 0 auxilio dos bindculos, @ obscuridade (antes dos Parques, hoje da internet), o caminho aberto pelas lanternas, os banheiros puiblicos e suas possibilida des visuais, Aqui » Uma 0U do Fi . a © espetéculo de certos acontecimentos se tornou um . . A s- Necessidade sexual. |...] Para muitos escotéfilos, 0 ia . 6pul Petaculo de um desnudamento ou da simples OP! ON a que e imagem 51 pst constitui a melhor fonte de prazer. Outros dependem de estimulos especiais como a visdo de alguém urinan- do, ou cenas de zoofilia, de lesbianismo, episédios gro- tescos ou sadomasoquistas. [...] As vezes, o estimulo nao precisa, forcosamente, ter um matiz sexual. Por exemplo, existem homens que podem atingir o orgas- mo vendo cavalos desembestados (p. 103). Despir-se em ptblico, para o publico, caracteriza o exibicio- nismo. “Podemos dizer que ha exibicionismo quando alguém mostra seu 6rgao genital a outra pessoa com 0 objetivo de obter um prazer sexual” (p. 66). Prazer, nado de conhecer, mas de ser vis- to. Inclui uma fantasia de liberdade e pureza. Misto de prazer e vergonha, vergonha e voltipia. Exibicionistas sio geralmente timi- dos. O desnudamento é uma “declaracao de amor simbélica”. O desejo de exibir-se da-se sempre com um forte sentido de ritual: O desnudamento em si tem um carater estereotipado e ritual. O ato é premeditado e tem lugar nos parques ou em escadas particulares, sendo o publico composto de mulheres e as vezes de criancas. O exibicionista é sé6- brio e amitide tem sua retirada preparada. A finalidade é atrair a atencdo dos espectadores para o membro vi- ril. Se estiver escuro, ele o iluminara com uma lanter- na. Quando observar a reacao da mulher tera uma ere- cdo e, em seguida, muito rapidamente e sem masturba- do, ejaculard. O momento de surpresa é 0 mais impor- tante. Muitas vezes ele procura uma reacao de repug- nancia; em compensagao, nao tem grande interesse na cépula e se a mulher fizer avangos o prazer desapare- cera (p. 67). Haveria ainda a mencionar, entre tanta coisa, 0 fetichismo, onde podemos ver 0 mundo animado; a frottage (esfregagao), como um enlace de contato e voltpia; a formicofilia (onde 0 foco Y Colegao Reflexde SI 1, 52 UNE Utanas da excitacéo provém de pequenos animais como formigas, = céis ou ras, que percorrem certas partes do corpo, especiatmens, os genitais, os mamilos e a regiao per! ianal); a clismafilia (quando, excitacdo resulta do uso de um clister); os telefonemas obsceno, o cross-dressing; 0 incesto; € ainda, mais moderna e aterrorizante aasfixia autoerdtica, que consiste na indugao de um estado de _ fixia cerebral, através da constri¢ao do pescoco por um cinto, oy um laco, enquanto 0 individuo se masturba: 0 fluxo sanguineo ce. rebral é restringido parcialmente, resultando em falta de Oxigénio, 0 que diminui a inibicao cortical normal, o que da entao num or. gasmo mais intenso, mas também num risco de morte acidental, se 0 praticante desmaia antes de poder soltar-se do lago. Mas deixemos nossos exemplos por aqui. IV E preciso muita compaixao para encarar fenémenos como es- ses, na clinica ou fora dela. Também muita reflexdo. O amor é sem- pre exigente, sempre nos levando ao limite, de um jeito ou de ou- tro - limites de nds mesmos, limites de nossa compreensio, limi- tes culturais, emocionais. O amor leva a alma para onde deseja. “A flecha cai onde quer; s6 nos resta segui-la”™, Ele nos deixa na fron- teira, é fronteirigo ele mesmo, sempre algo entre loucura e sanida- de. Loucos de amor, dizemos. E 0 que nao fazemos por amor? Quem jd nao experimentou? O amor quer sempre nos tirar de nds mesmos, ¢ talvez seja isso 0 que se apaixonar significa: é uma que da (fall in love), uma queda para fora de nés mesmos - somos OU" tros, somos 0 outro. Um tombo. E, no entanto, nesta queda, pat doxalmente, é quando estamos mais transparentes: uma queda ee 34. HILLMAN, J. O Mito da Andlise, Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984, P- 9% EE S-=S~ | psique e imagem 53 | para dentro de nés mesmos. Euma solucdo, no sentido alquimico, solutio, algo que nos dissolve, nos desconstrdéi, Assim, pareceria impossivel, e mesmo descabido, falar de amor em Praticas e fanta- sias como as que acabamos de mencionar. Elas sao vitérias da imaginacdo. Nelas, de fato, tudo parece tio longe do normal. Mas afinal... normal? No amor? 5 Psicoterapia, 0 Mito d filomela e uma Cena de Eliot Por isso, nds que acabamos de day lugar tao belo @ imaginacao Pedim. modestamente que se Saiba day Loan . cigarra ao lado do frégittriuniy so * formiga. Gilbert Durand. As estruturas antropologicas do imagindrio, No auge da visao apocaliptica apresentada no Poema The Was. te Land (A terra devastada), de T.S. Eliot, publicado em 1922, ha uma cena bastante expressiva para uma reflexdo sobre Psicoterapia e cultivo de alma. A essa cena, e seus inumeros desdobramentos psicoldgicos, quero voltar nossa atencdo nessas breves Notas. Assim como acontece com a psicologia Junguiana, a compre. ensao da obra poética de Eliot, repleta que estd de uma visdo psi- coldgica e mitica de estupenda profundidade, cresce com o passar dos anos. A terra devastada é uma grande reflexao sobre a esterili- dade da vida contemporanea e permanece, a meu ver, ainda muito relevante quase um século depois de vir a luz, tanto do ponto de vista dos ensinamentos Psicolégicos contidos no poema, quanto do ponto de vista estritamente estético. A esterilidade emocional, espiritual e intelectual do homem moderno - refletida j4 na ima: gem de uma terra devastada do seu titulo - é tratada por Eliot psique e imager *° contra 0 pano de fundo dos mitos e Titos de fertilidade egipcios, hindus e £re€0s: dos ciclos de renovagao na natureza e suas ceri- monias de vegetacao; e das lendas do Graal, especialmente a do Mito do Rei-pescador e sua doenga misteriosa. O poema como um. todo, a0 longo apenas de seus 433 versos, é considerado um épico moderno, concentrado, de extrema complexidade técnica e temati- ca, farto de alusoes mitolégicas, literdrias e antropoldgicas que es- tarrecem o leitor na composic¢ao de uma imagem unica de deses- peroe fragmentacao, e de anseio de renovacao, que ele nos convi- da a construir. Aqui, quero rapidamente por em relevo uma de suas intimeras cenas, € 0 mito a que ela se refere. Acena dase logo na abertura da segunda parte do poema, in- titulada sugestivamente “Uma partida de xadrez” (“A Game of Chess”), e traz uma dramaticidade silenciosa, uma abertura para os sentidos e uma ironia inquietante naturalmente evocadas pelo cenario luxuoso que desenha. Esse cenario, veremos, ja nos colo- ca numa atmosfera de pressao emocional e de sedugao sensorial préprias para uma auténtica evocacgao da anima. Deixem-me preparé-los para ouvir a cena. Ela descreve minucio- samente o ambiente sofisticado e claustrofébico do boudoir de uma dama. Com ela esté seu marido, ou amante, silencioso. E também principalmente o “retrato” dessa dama que possui algo de rainha ou de princesa, e as alusdes do préprio Eliot, nas “Notas” que acres- centou ao poema desde sua primeira edigao, aludem nada menos que a presenca de Cledpatra - de uma Cledpatra moderna, da alta classe urbana, nervosa e assustada, estéril e desamparada™. E um retrato da vaidade. Todo o ambiente esta envolto em perfumes, aro- mas, luz e sombra, resplendor de joias, marmore, candelabros, vul- tos. A superficialidade de um mundo decorado e mudo. Seu nome, 35. Com uma nota ao verso 77, primeiro dessa parte do poema, Eliot nos remete a Shakespeare, Antony and Cleopatra. Colesdo Retlexdes Jung, nag titese da ideia de fertilidade. «. representa aan ac ste torpecimento da sensil ; Ha, nesse cendrio de Juxo e nobreza, em seus objetos, referén, 1 soba, . diversos mitos. Entre eles, & de modo mais si; fcativg = cias a div toda a passagem, el a wae remete a0 Mito de Filo. eofazcoma sutileza inusitada de quem insere uma imagem como nos sonhos, costurando-as de forma sur. chamar a atencao para esse Procedimento, 150 estilistico mais proximo do cinema do que propriamente da literatura, esse mito € sugerido através de uma tela, que representa a cena de Filomela metamorfoseada em rouxinol, colocada acima da lareira, que 2 olhar percebe a meg. da que percorre 0 ambiente, como uma camera em travelling. 4 imaginagao dramatica de Eliot (também um autor de teatro) per. mite a inclusao desses diversos niveis na narrativa e nos autoriza falar de uma sobreposicao de cenas: de uma passamos para den. tro da outra, simultaneamente, para retornarmos 4 original com ganho significativo de profundidade tematica. No entanto, como o quadro decorando a lareira, outros tantos objetos igualmente cultos e obras de arte, também elegantemente dispostos, atestam nesse ambiente apenas “murchos vestigios do tempo” (“withered stumps of time”). Nao falam com a protagonista. O mito a que o quadro nos remete, como uma janela que se abre na parede desse quarto de madame, conta a histéria que en- volve Filomela e Procne, filhas de Pandion, rei de Atenas, com Te reu, filho de Ares: Tendo havido guerra, por questdes de fronteira, entre Atenas e Tebas, comandada por Labdaco, Pandion s* a Sit i net's Sons, 1949, ‘ 7 Blot: the design of his poetry. Nova York: Charles Seubr=* Belladonna, yeneno € 0 en! mela, dentro da outra, preendente. Quer Por meio de um recul psique € imagem 57 licitou 0 auxilio do tracio Tereu, gracas a cujos présti- mos obteve retumbante vitéria. O rei ateniense deu a seu aliado a filha Procne em casamento e logo o casal teve um filho, Itis. Mas 0 tracio se apaixonou pela cu- nhada Filomela e a estuprou. Para que ela nao pudes- se dizer o que acontecera, cortou-lhe a lingua. A jo- vem, todavia, bordando numa tapecaria o préprio in- fortinio, conseguiu transmitir 4 irma a violéncia de que fora vitima”. Impedida de falar e encarcerada, Filomela tece uma tapeca- ria: nela esta contada sua histéria, que ela consegue enviar 4 sua irma, Procne. Juntas, entao, as irmas vingam-se de Tereu dan- dothe de comer seu préprio filho, itis, que haviam matado. Fa- zem-no, sem sabé-lo, devorar o filho. Os deuses, por sua vez, impe- dem Tereu de matd-las em vinganca, transformando Filomela em rouxinol e Procne em andorinha. Também Tereu é transformado em passaro. Se uma moca, Filomela, entrasse hoje no consultério do ana- lista contando essa histéria, o que fariamos? Transar com a irma da mulher, violentar sexualmente a propria cunhada, ou simples- mente o desejo de fazé-lo, € um fenémeno nao tao incomum no dia a dia das histérias de consultério. Revela um padrao tragica- mente arquetipico. Nesse mito, como em uma cApsula, ha todo o horror que pode chegar a retratar a mitologia grega: infidelidade conjugal, rapto, mae que mata filho, canibalismo, mutilacao, citi- me, medo, raiva, vinganga, assassinato, violéncia, crime de pene- tracéo, penetracdo como crime, infanticidio, pactos fraternos si- nistros, estupro, defloracao virginal, incesto. Mas ha beleza tam- bém, como vamos perceber. 37. BRANDAO, J.S. Mitologia grega. Vol. Il. Petrépolis: Vozes, 1998, p. 41. os Colecao Reflexdes Junguiang, s Vejamos, entao, primeiramente a belissima cena de Eliot ( 77-110), para depois tecermos algumas observacées sobre o nto (aqui, utilizo-me da competente traducao de Ivan Junqueira); Sua cadeira, como um trono luzidio, Fulgia sobre 0 marmore, onde o espelho Suspenso em pedestais de uvas lavradas, Entre as quais um dourado cupido espreitava (Um outro os olhos escondia sob as asas), Duplicava as chamas que ardiam No candelabro de sete bracos, faiscando Sobre a mesa um clardo a cujo encontro Subia o resplendor de suas joias Em rica profusdo do escrinio derramadas; Em frascos de marfim e vidros coloridos Moviam-se em surdina seus perfumes raros, Sintéticos unguentos, liquidos e em pd, Que perturbavam, confundiam e afogavam Os sentidos em fragrancias; instigados Pelas brisas refrescantes da janela, Os aromas ascendiam, excitando As esguias chamas dos cfrios, espargiam Seus efluivios pelo teto ornamentado, \ Agitando os arabescos que 0 bordavam. Emoldurada em pedras multicores, Uma enorme carcaga submarina, Revestida de cobre, latejava Revérberos de verde e alaranjado, Em cuja triste luz nadava um delfim. Acima da lareira era exibida, Como se uma janela desse a ver cenario silvestre, a transfiguragao De Filomela, tao rudemente violada Pelo barbaro rei; embora o rouxinol 59 psique e imagem Todo o deserto enchesse com sua voz Inviolavel, a princesa ainda gemia, E o mundo ela persegue ainda, “Tiu tiu” para ouvidos despreziveis. E outros murchos vestigios do tempo Evocavam nas paredes 0 passado; Expectantes vultos recurvos se inclinaram, Silenciando 0 quadro enclausurado. Passos arrastados na escada. A luz Do fogo, sob a escova, seus cabelos Ericavam-se em agulhas flamejantes, Inflamavam-se em palavras. Depois, Mergulharam em selvagem quietude™. O Mito de Filomela, a que o poema assim se refere nessa cena, eno qual pretendo me concentrar, testemunha, antes de mais nada, tanto o tema da brutalidade sexual, do estupro, da violagdo quanto o tema arquetipico da morte/renascimento em sua histéria de me- tamorfose. Sao imagens poderosas de dor e dilaceramento. Aarte de Eliot pensa por imagens, e ha muitos simbolos que se conectam nesse quarto e nesse quadro: o candelabro de sete bracos, as uvas, as chamas dos cirios, fogo na lareira, o delfim, 0 cupido dourado, vidros de perfume, diversas cores. Muito pode ser dito da inclusdo de todos e cada um desses elementos nesse ambiente, e de suas intensas significagdes simbdlicas, certamente propositais. Entretanto, nao quero interpretar: quero deixar ver. A histéria de Filomela - no poema, um quadro pendurado na parede que se transforma numa segunda narrativa na mente de quem 1é - é também, talvez principalmente, uma histéria sobre co- municagdo. Esse é a meu ver o grande jogo (play) dessa cena de Eliot; a 38. ELIOT, TS. “Poesia”. Obra Completa, Vol. 1. So Paulo: Arx, 2004. sy Coleca F 60 G40 Reflexde m Sligiany 6 sobretudo o viés que mais quero salientar: o que comunica? Oct comunicar? Como comunicar? A imaginacdo da Comunicacig, Filomela jé é, em si, exemplo de uma narrativa dentro de ou tra narrativa; narrativas que se comunicam. No Poema, éa hists. | ria de uma histéria de estupro e violacao, de violéncia Contra o fe. minino, contra o feminino arquetipico, violéncia contra a alma | que, nao podendo ser “falada”, precisa ser contada de outro jeito, | 0 mito vai tecendo essa narrativa. O mito é, a meu ver, a narrati va de como essa violacao logrou ser narrada. Eliot entao acrescen. | ta, com sua cena minuciosamente elaborada, ainda outra narrati- va Aquela do mito, ampliando seu sentido para nosso tempo. So- breposicdo e simultaneidade de narrativas. Essa mulher, sentada nesse trono nesse quarto intimo e mundano, penteia a luz de ve. las seus cabelos ericados e flamejantes diante de um espelho sus- penso, de costas para a tela que de alguma forma conta também sua historia, mas que ndo se comunica com ela: fracasso na comu- nicagao. Quando essa mulher eventualmente fala, na sequéncia imediata da cena que estamos examinando, supostamente com 0 marido que nao lhe responde, aparentemente s6 pensa - também ele presenca muda - é s6 para dizer: “Estou mal dos nervos esta noite. Sim, mal. Fica comigo” (II, 111). Podemos ver aqui, acima de tudo, um retrato da propria ps que, que além de polissémica, apresenta-se também como multilo- quente, multifacetada. Varias camadas simultaneas de sentido, vé rias falas, como nos sonhos e nas fantasias, Ha, portanto, varios niveis de significado nas diversas ime gens que se sobrepdem nessa tinica cena do poema de Eliot. Ade mais, sabemos que o poema inteiro é construido dessa forma. Im- pressiona, no entanto, a hipercomunicacdo interna do texto, 0 que naturalmente jé nos faz pensar na tecelagem - uma das principals sugestdes embutidas nos versos pela alusao ao Mito de Filomela- _ ia Se a oe 4 psique e imagem 61 como um processo proprio da alma, aqui transformado i: ja. Enxergar 0 trabalho da psique, especialmente no ae aos sonhos e asua composicao, como tecedura, as to foi entrevisto e discutido por Patricia Berry math terari refere que se tece, texto “Uma abordagem ao sonho”™. Actimologia da palavra latina textu, sabemos, tem um signifi cado duplo de “tecido” e “texto”, e ainda conexdes com pe e“trama”, que sao também as tramas em que vivemos, de que sao feitas nossas historias de vida. Tramar € destramar: arte de tecer. Gilbert Durand, em sua “arquetipologia geral”, registra que “os produtos da tecedu: Imente simbélicos va e da fiagao sao universal de devir”". Nosso mito confirma isso. Tecendo sua dor, a tapeca- ria de Filomela conclama seu devir, E Durand afirma ainda que 0 tecido é “o que se opoe & descontinuidade, ao ri asgo.e a ruptura”™". Comunicar é continuar. Assim, podemos dizer que cada so! co da historia maior de nossa violacao, aprese da alma tecela. Também na psicoterapia o que faze! nossa historia, mostrando como ela esta tecida. Aalma anseia CO- municar-se. E importante entdo que, como a tapecaria que contém nho nosso conta um peda- ntada pela Filomela mos é contar 39."A palavra fexto est relacionada com tee hifica sentir e seguir Sua tecedura. quando falar de colocar um So oem seu contexto, com 0 que queremos dizer junto a0 te vida de nhiad i" temos @ tendencia de esquecer que ® ono € sensorial tert extra, est tr eee droes que oferecem UM ‘eontexto finalizado € ‘ompleto. A situacd® ae precisa ser a nica mane ‘com que conec! om esse 3ST o's subll qmagem em si tem textura” (BERRY, P.“AP ‘Aproach tothe P body. Dallas: Spring Publications, 1982, p. 59). go Paulo: Mar 40. DURAND, G. As estruturas antropotagicas magindri?- p. 321. tins Fontes, 2002, AL. Ibid., p. 322. Colegao Reflexses Ju “e "8Ulang, ia de Filomela, também nossa historia che sam compreendé-la. Seu mito represe: ouvidos que oO Eliot, fala por imagens. Ela é 9 Arquér, Flom oo mo o do curador ferido, atesta uma dor fn | sefandaneto da comunicagao. ne des ; o Em fungao desse mito, “filomela € uma designacag Poéticg genérica do rouxinol, que, em fungao de seu canto, Por sua ve simboliza a arte poética como um todo, eee do canto, arte de og, municar. O rouxinol é chamado “filomela’ Por a canto doce, Fi. lomela, do latim philoméla e do ee philomele G ae Palavra composta de philo, “amigo”, e mélos, “canto a melodia”, Amigo do canto: o poeta. No Brasil, a filomela, 0 rouxinol nesse SeNntido poético, seria mesmo a patativa, patativa-do-sertao, boa cant tornando-se sindnimo aqui de repentista e poeta, designando até autores na literatura nacional, como Patativa do Assaré, famoso, ¢ isso por conta mesmo do canto maravilhoso do Passaro cinzento | da caatinga e das matas, presente em todo o Nnordeste do Pais, que faz entdo para nds as vezes populares dessa metdfora culta. Nancy Hargrove, comentadora do poema de Eliot, observa que “os mitos representados nos quadros nao nicar, to, tecida a histori Ue atg at Na iss tora, podem mais comu- pois suas histérias nao sdo mais compreendidas [...] portan- sugerindo a inabilidade dos antigos mitos de fertilidade fala rem com o mundo moderno”” de Eliot: a metamorfose de Filo: leza, utilizado Para expressar cimento, de transformacao e di ziveis”, Nossos ouvidos secos, moucos. Nao &scutamos a alma, - Esse 6, afinal, 0 efeito que preten- mela, a transformagdo da dor em be: um desejo de renovacdo e renas evir, silencia em “ouvidos despre: estéreis, incomunicdveis: ouvides A senhora, cuja presenca cosméti- 42, HARGROVE, ND. R iD 5 | ‘ot. Jacksot University Press ot Missa gts rnbol in the Poetry of 7S Blot. a Psique e imagem cae narcotica impregna de artificialidade afetada o sentido global dessa cena, estd inconsciente de que se encontra rodeada dos “re- flexos de seu préprio desespero””: o mito da metamorfose de Filo- mela serve apenas como decora¢do em seus aposentos. Mas a lenda de Filomela é, sobretudo, por onde enxergamos 0 tema central da metamorfose, talvez a mensagem tltima tecida neste poema, e tema que se inscreve naturalmente também na imaginacdo do devir. Para referir-se a Filomela, o poeta, de novo por meio de suas préprias “Notas” (que nao deixam de ser ainda outro nivel de narrativa no poema), remete-nos a Ovidio, Meta- morfoses, Livro VI - um livro extraordinario. Ovidio é um dos principais mestres-salas a abrir a imaginacao cultural e religiosa da Antiguidade Classica para nés. A passagem, em Ovidio, é de im- pressionante evocacao plastica. O tema mitico da metamorfose é 0 tema psicoldgico da trans- formacao. Na natureza, metamorfose é um processo através do qual um animal modifica sua estrutura anatémica ou mesmo me- tabélica; é habitual nos insetos. No mito, ela é um aspecto impor- tante da acdo dos deuses na vida dos mortais. S6 os deuses podi- am metamorfosear a si prdprios e aos outros. Ha muitos tipos de metamorfose na mitologia grega, onde ela é um evento-chave em muitas historias: explica etiologicamente a existéncia de uma coi- sa (uma arvore ou um animal, por exemplo), ou explica o desfecho de uma historia. Hé transformagées de deuses e de humanos em mamiferos, aves, plantas, pedra, agua, estrela e mesmo mudanga anette ne aE Re 43. FEDER, L. Ancient Myth in Modern Poetry. Princeton: Princeton University Press, 1977, p. 133, 4 i . 4. Eliot faz uma segunda referéncia ao livro de Ovidio e ao tema central da meta- Partose no poema no verso 218, onde nos remete as diversas transformagoes do ‘ofeta Tirésias, Coleco Rettexdes _) 64 gana de sexo. Deixa-se de ser 0 que ae era para virar outro, No Mit Filomela nossas trés principais Personagens transmutam. passaros. Ha aqui a representacao de um anseio ascendente, Aqui tudo quer elevar-se acima de horroroso destino. Em termos Psico ldgicos, o tema expressa 0 arquétipo da transformacio, escrity por Jung, base para toda a imaginacao da psicoterapia analitica, Com Filomela e seu mito, com a imaginacao artistica de Ts, Eliot e com a psicologia de C.G. Jung podemos continuar imag. nando mais profundamente metamorfoses e simbolos da libido, 0 de e em 6 Tempo, alma, eternidade O tempo é a imagem da eternidade. Jorge Luis Borges Algumas das reflexdes tao profundamente elaboradas nos Quatro quartetos, Ultimo dos grandes poemas de T.S. Eliot, apro- ximam-nos daquilo que ja foi considerado o problema essencial de toda a metafisica, o tempo. E também daquilo que Borges chamou de hermosa invencién: a eternidade. Ha, na literatura junguiana, trabalhos importantes sobre a questo do tempo, refletida a partir de um ponto de vista essenci- almente psicolégico. Marie-Louise von Franz é autora de alguns dos mais representativos desses trabalhos, entre os quais 0 mais tocante talvez seja Tempo: ritmo e repouso, escrito em 1978. Nele, ela apresenta e amplia alguns dos mais relevantes mitemas e ideias arquetipicas em torno do problema do tempo, detendo-se nas diferentes nocoes de um tempo linear e de um tempo ciclico, nas nogées de ritmo e, finalmente, na ideia junguiana de sincroni- cidade que traz, naturalmente, as questoes de um tempo transcen- dente que ela tao bem soube explicar. O poema de Eliot, como excepcional obra de arte que é, natu- ralmente se abre, em sua complexidade multifacetada, a varias lei- turas, desde as de cunho mais propriamente religioso ou metafisi- 0, até as que o abordam do ponto de vista mais estrutural. Aque- las que dao énfase e que nele veem uma exploragao do “mito do significado” foram sempre as preferidas pelos junguianos. Quan- Colegao Retlexdes hing ian 8 66 liot, James Hillman inclusive, quase sempre sg ver. darei preferéncia a questao do tempo por & dos criticos mais importantes da obra de ms " de modo geral, esse seu ultimo poema - ume artistico e humano ~ como uma grande i O tempo é, também para mim, o tema ver, do citam E desse poema. Aqui, cordar com a maioria quando caracterizam, espécie de testamento ditacdo sobre o tempo. tebral desses quartetos. Também me apoio aqui, para entender esses poemas, no pro, nho geral da obra poética de Eliot que, a0s poucos, fo, fortemente os mitos e as citagées literg. comunica¢gao para chegar, nos Quatro quartetos, a um discurso mais direto, j4 inteiramente independen. te, ainda que nao totalmente livre, da metdfora mitica que nas obras anteriores Ihe serviu sempre de base - ainda que o leitor in- formado possa neles reconhecer varias alusdes a simbologias miti- cas tradicionais, tanto ocidentais quanto orientais (especialmente ao mito cristao). Mas, diferentemente de sua poesia anterior, cujo ponto alto na utilizacao de alusdes mitologicas para a transmissdo de uma emogdo e de uma reflexdo poéticas se da, sem duvida, em A terra devastada (The Waste Land), sua outra obra-prima muito conhecida, precursora da poesia moderna, seus Quatro quartetos podem ser lidos, e até devem ser compreendidos, naquilo que eles diretamente dizem, o que, na minha perspectiva, sugere um ponto de maturacdo. O leitor de A terra devastada, por exemplo, neces- sita de um sentido histérico e de ampla cultura literaria para apre- ciar totalmente a profundidade da imagem poética. Nos guartetos ele necessita apenas da experiéncia de ler e reler os poemas. T.S. Eliot nasceu em St. Louis, Missouri, nos Estados Unidos, em 1888, mas adotou, em 1928, apos alguns anos jd vivendo na seas sone peers ase Ss na literatura mun- prio dese: deixando de utilizar mais rias como um recurso de Psique e imagem 67 dial, que viria a influenciar e tocar tudo o que se fez e ainda se faz em matéria de arte poética. Muitos ja disseram que Eliot “inven- tou” o idioma moderno, a lingua do século XX, com uma poesia fei- ta de uma costura impressionante de vocabulario culto e arcaico, girias, falas coloquiais, alusGes literdrias sofisticadas e dialetos po- pulares, formando um inglés que reflete, em sua tessitura, uma imagem real do mundo moderno, multifacetado e fragmentado que, oitenta anos depois, estaria ainda mais visivel naquilo que hoje entao denominamos globalizacdo. Ivan Junqueira, que entre nés traduziu e estudou profundamente a obra de Eliot, no estudo introdutorio que ajuntou a sua traducao da obra completa do poe- ta, “Eliot e a Poética do Fragmento”, caracteriza esta poesia como sendo a um s6 tempo classica e moderna, revolucionaria e reacionaria, rea- lista e metafisica, insélita comunhao de satira e deses- pero, de pensamento e emogio, de caducidade e trans- cendéncia, de liturgia e perversao, de nausea profana e éxtase religioso”. Desde “A cancao de amor de J. Alfred Prufrock”, seu primeiro poema importante de 1915, passando por titulos hoje classicos como A terra devastada, Os homens ocos e Quarta-feira de Cin- zas, até os Quatro quartetos, Eliot usou as palavras com uma mu- sicalidade muito particular (que foi por ele chamada a “musica da conversa”, incluindo entao no poema a fala coloquial dos centros urbanos, ainda que repleta de referéncias cultas) e forjou um mé- todo criativo, hoje chamado de “poética do fragmento”, que ino- vou a utilizagdo da lingua e, portanto, 0 sentimento poético. Esse método, com o procedimento de constantes citagdes, alusdes e re- 45. JUNQUEIRA, I. 7.8. Eliot: poesia. Rio de Janeiro: Nova Fronteira 1981, P. 17-48, 68 Colegao Reflex, es Jun, ana, feréncias a obras literarias e mitos tradicionais, formam umt poético surpreendente, que visa atualizar toda a experiéncia fy torica e cultural do homem simultaneamente. Na poesia de eS esse procedimento de “simultaneismo” esteve sempre a Servigg i um retrato do homem contemporaneo, onde o que se vé é a in gem de um vazio, a imagem de um desconcerto diante da existén. cia, a imagem de um oco, um homem oco - como se adentrasse. mos, na expressdo de Octavio Paz, uma “galeria de ecos” - resul. tado essencial, em sua analise, da ruptura com a experiéncia da alma, e com os valores que esta experiéncia oferece. Paralela a toda essa genialidade, surpreende-nos sua famosa e controversa declaragdo onde o poeta se autodenomina um an. glo-catélico em religiao, um classicista na literatura e um monar- quista na politica. E, entre outras coisas, essa peculiar mistura de conservadorismo e vanguarda, genialidade e banalidade, que fas- cina e nos prende a figura humana e artistica de Eliot. Portanto, é preciso reconhecer aqui, antes de mais nada, até para nao ser engolido por ela, uma certa pretensdo ambiciosa em abordar, mais uma vez, este autor e este poema, sentindo o peso de pilhas de trabalhos, ensaios, livros e reflexdes que ja se fizeram sobre eles - e aborda-los pelo viés da questao do tempo, outra des- sas enormidades avassaladoras. Se algum mérito houver, pois, em querer ajuntar ainda mais algumas notas ao sdlido e volumoso edificio critico que os Quatro quartetos geraram, seré, talvez, o de chamar a atengdo, agora dos junguianos, para uma poesia que apresenta, em seu nucleo significativo, imagens radiantes de pro- cessos psiquicos inconscientes, pessoais e coletivos, que Jung ten- tou iluminar com sua teoria arquetipica: a elaboracao do encontro com a sombra, a experiéncia animica mais elevada, o espanto dian- te da existéncia e do divino, o problema religioso e, claro, a ques- tao do tempo. Cidy psique e imagem . Os Quatro quartetos foram compostos separadamente, um a por vez, entre 1935 e 1942. A primeira edicao conjunta é aan Em 1948, vale lembrar, Eliot recebeu o Prémio Nobel de veeratura, Faleceu em Londres, onde levou uma vida aparente- nte bastante convencional, em 1965, com 76 anos de idade. me Os Quatro quartetos formam evidentemente um sé Ppoema, uma s6 peca, que se subdivide em quatro poemas, estes por sua vez subdivididos em cinco movimentos. Ja se propos que os qua- tro poemas nao estariam alinhados sequencialmente, seguindo-se linearmente uns aos outros numa leitura corrente, a formar uma linha crescente de significado; mas que formariam, ao contrario, quatro circulos concéntricos que gradualmente se ampliariam do primeiro ao ultimo, formando um conjunto coeso que se autoco- munica. Estruturalmente, para um olhar junguiano, forma-se de imediato a imagem de uma mandala ou, mais especificamente, a imagem arquetipica do rotundum, uma imagem nao estatica de quaternio, que se impée, numa visada global, como uma vivéncia mais profunda da alma e seus centros. O arquétipo do centro, apresentado de forma multifacetada e nao estatica, estd ali conste- lado, a comecar pela prépria forma do poema. Podemos dizer que, rumo ao final de sua carreira literdria, e de sua vida, Eliot aproxima-se, como artista, de uma imagem ar- quetfpica de velho sabio e, assim, naturalmente compora uma poe- sia que ecoaré 0 encontro mais intimo e organizado com as profun- didades do ser: para nés, um caminho de individuagao, realizado na arte. A imagem mais precisa talvez seja a do senex criativo. As- sim, o problema do tempo naturalmente tornou-se um tema paraa Poesia de Eliot. O que esta refletido nesse movimento da obra de Eliot de uma trajetéria pessoal j4 abordei em outro trabalho, onde pude estabelecer uma relacao entre suas Primeiras obras-primas (no 70 Colegao Reflexdes Junguianas caso, A terra devastada) e 0 encontro com a sombra, no sentido junguiano do termo". Sabemos muito pouco sobre a vida de Eliot € 0 tipo de homem que ele foi. Contudo perseguimos, especial. mente na obra poética, pelas imagens e simbolos que tragam para nds um caminho de individuagao. A terra devastada é um poema sobre a obscuridade e o fracasso do mundo moderno, que apenas reflete, de forma pesada, a debilidade da experiéncia humana ime- morial: um poema profundamente pessimista e desesperado, es- crito depois da Primeira Grande Guerra, publicado em 1922 - um ano especial para a arte moderna, tanto no Brasil (Semana de Arte Moderna, em Sao Paulo) quanto no mundo; ano também da publi- cacao do Ulisses, de James Joyce (que Jung comentou num ensaio de 1932). Mas A terra devastada é também um poema sobre a es- curidao dentro de Eliot. Essa escuridao, essa sombra, aos poucos, ao longo da composigao de seus grandes poemas, e por meio do impacto do mito cristao e da aceitacao do mistério da fé em sua vida, vai dando lugar a uma visdo cada vez mais cristalina da con- dicdo humana. Aqui sugiro que a individuacgdo de Eliot o leva, em seus estégios mais avancados revelados pelos Quatro quartetos, 4 uma consciéncia, por um lado, do tempo como um fluxo continuo e, por outro, da intersecgdo do tempo e do atemporal - tempo & eternidade. Os Quatro quartetos sao sua resposta ao tempo. Nos quartetos temos um homem ja inteiramente expurgado da experiéncia com a obscuridade (em grande parte porque pro” fundamente tocado pela vivéncia religiosa), inteiramente reconcl liado com a situagao psicolégica de sua existéncia, com seu dai mon. Um dos criticos do poema caracteriza aquele que neles fala 46. Entre duas dguas: arte, mito e individuagdo na ‘The Waste Land de 7:8 Bio [monografia de graduagdo apresentada & Associagio Junguiana do Brasil para obtengio do titulo de analista. Psique e imagem 71 como “velho, seco, filos6fico, religioso e, mais importante, um poeta”™”. (A alma seca éa mais sdbia e a melhor, disse Herdclito.) Naturalmente, a simbologia ordenada do quaternio se lhe impés, bem como a preocupacao com o tempo e a transcendéncia. Helen Gardner, sem duvida a mais penetrante e perspicaz es- tudiosa da obra poética de Eliot, em seu indispensavel e definitivo The Art of T.S. Eliot, reforca a impressao de que os Quatro quar- tetos sao um poema sobre a experiéncia religiosa, um poema so- bre como “a mente descobre a verdade religiosa: verdade que in- terpreta para nds toda nossa experiéncia da vida”. (A propésito, Gardner, por alguns comentadores chamada de Dame, abre seu li- vro com uma observagdo contundente, ja na primeira frase: “Mr. Eliot... has by now created the taste by which he is enjoyed.” [“O Sr. Eliot... tera ja criado o gosto pelo qual € apreciado.”] - nada mais deslumbrante para se dizer de um grande criador.) Ela pro- cura também relacionar os poemas com a simbologia dos elemen- tos basicos da vida natural. Cada um deles est ligado e se inspira fundamentalmente em um desses quatro simbolos: ar, terra, agua e fogo. Sua abordagem nao € a de fixar esses simbolos, mas a de procurar ampliar as metaforas ja presentes na composicao desses quartetos. O poema como um todo serd finalmente, podemos di- zer, a quintesséncia desse processo, a pedra filosofal que retine os paradoxos do tempo € do nao tempo, da existéncia e da nao exis- téncia, do sagrado e do profano, do cotidiano e do transcendente. Ameditacdo eliotiana sobre a transcendéncia esta, portanto, para- doxalmente apoiada nas metdforas da matéria, como que sonhan- do uma reconciliagdo de opostos entre espirito e corpo, via poesia, ou seja, via uma experiéncia estética, uma experiéncia de alma. 47. MOYNIHAN, W.T. “Character and Action in Four Quartets”. In: WAGNER, L. (org.). 7.S. Eliot: A Collection of Criticism. Nova York: MacGraw-Hill, 1974, p. 75. 48. GARDNER, H. The Art of T.S. Eliot. Londres: Faber and Faber, 1949, p. 61. 72 Colegio Reflexes Junguiana 8 Ainda outras analogias foram estabelecidas a partir da tancia de cada um dos quartetos no sentido de iluminar seu an ficado geral mais profundo: aquela que evoca para cada ott uma estacao do ano e, ainda, aquela que os relaciona aos quatro pilares da liturgia catélica: Anunciacdo, Encarnacao, Redencao e quatro, como sabemos, irradia amplifica- Ressurreicao. O numero Goes ricas e poderosas no pensamento simbdlico. Vejamos entdo como estao estruturados os Quatro quartetos. Embora nao haja nenhuma relacao direta ou determinante, to oemas tém seus titulos derivados de situagdes geograficas. Burnt Norton, € 0 nome de um caste 0 Condado de Gloucester, Inglater- de ser relacionado ao elemento ar. de uma aldeia nos arredo- bém na Inglaterra, de rais do dos os p O titulo do primeiro quarteto, lo situado perto de Campden, n ra. Foi composto em 1935 e po East Coker, 0 segundo poema, éonome res de Yeovil, no Condado de Somerset, tam! onde partiu, para a Nova Inglaterra, um dos primeiros ancestl poeta, em 1667; foi escrito em 1940 e relaciona-se 20 elemento ter ra. O terceiro quarteto, The Dry Salvages, tem seu nome retirado de um pequeno grupo de ilhas rochosas na costa de Massachusetts, na Nova Inglaterra, perto do Cabo Ann, onde o poeta viveu sua ju: ventude; foi escrito em 1941 e relaciona-se a0 elemento agua. Ott tulo do Ultimo dos poemas, Little Gidding, € 0 nome de uma aldeia localizada no Condado de Hundington, Inglaterra; escrito em 1942, relaciona-se finalmente fogo. Do ar até 0 fogo, temos fe ao elemento entdo uma espécie de plano dentro do poema. Mas uma outra maneira de descrever a estrutura dos quarte- obviamente, 4 metdfora musical. E muito co- ue se fez entre este gra nde poema de Eliotea especialment sublime musica de Beethoven, te seus ultimos & geni- ais quartetos para cordas, escritos quando o compositor jd estava completamente surdo. Helen Gardner detém-se na elaboracdo des- tos é a que nos leva, nhecida a analogia q imagem 73 psique e ta analogia e entende a subdivisdo de cada poema em cinco partes como a subdivisio em movimentos na musica de concerto, como acontece de fato na sinfonia cldssica, na sonata ou no quarteto. O quarteto de cordas é considerado o mais exigente e dificil dos gé- neros da musica instrumental. Beethoven revolucionou o classico quarteto de cordas assim como ele foi desenvolvido anteriormen- te por Mozart e Haydn, embora suas composicdes tenham sido consideradas dificeis e inacessiveis em seu tempo. Hoje sao obras de referéncia no género, tanto quanto o é a poesia de Eliot. A referéncia musical, no entanto, nao esta apenas sugerida pelo titulo do conjunto de poemas, nem meramente por sua es- trutura, que segue com rigor o esquema que rege o desenvolvi- mento do quarteto e da sonata classica (dividida em cinco movi- mentos), mas também pelo modo como as imagens estao dispos- tas e elaboradas: elas ressurgem, as vezes frases inteiras ressur- gem, modificadas pelo novo contexto em que aparecem, como de fato frases musicais retornam num concerto, ou no quarteto, de- senvolvidas por diferentes secdes de instrumentos, para apro- fundar um tema, ou mesmo para atualizar de modo diferente o sentimento ligado a elas - aquilo que chamamos de recorréncia tematica. Outros procedimentos nitidamente musicais sao tam- bém encontrados na composi¢ao dos Quatro quartetos, todos com a intengao de reforcar o sentido de ritmo e estrutura que 0 poeta necessita para falar do tempo. Musica e tempo guardam uma relacdo fundamental. Também podemos dizer que a musica sé acontece no tempo, como a exis- téncia. Se esse poema é, como diziamos, uma meditagao sobre a existéncia no tempo, e sua transcendéncia, nada melhor que uma metdfora musical para contextualizd-lo e dar-lhe o sabor especifi- co. Trata-se de uma apresentacao simbélica do fluxo da vida. O poe- ma tentard o contraste entre este fluxo e o momento que dele esca- ee, Colegio Reflexses Junguianas pa. E sobre esse momento de interseccdo entre tempo e eternida- de que versa Eliot, e seus versos ensaiam, para 0 leitor, a experién- cia desse escape. Nos Quatro quartetos Eliot esté em busca do sentido trans cendental do tempo, das “perspectivas transcendentais do destino humano”, como ja disse Ivan Junqueira. O objetivo é, como mencio- nei, evocar 0 ponto de intersecdo entre o tempo ¢ o atemporal, 0 momento em que o tempo € conquistado. Contudo, o tempo 36 po- derd ser conquistado no paradoxo, quando aceitamos que “tudo é sempre agora”. A psicologia junguiana, especialmente em sua li- har por paradoxos. A cdo de alquimia, também nos ensina a camin imagem com a qual Eliot procura descrever essa experiéncia, qe esté na verdade muito além das palavras, 6 0 “imével ponto” de um mundo que constantemente se move. Aqui temos @ escolha da imagem contrastante da danga € do repouso, presentes no poem: Sao imagens arquetipicas: 0 point-repos, este ponto de equilibrio de onde escapamos do tempo, esta no coragao do movimento & assim, passado e futuro ai se entrelacam - “devemos estar ee e contudo mover-nos”, diz Eliot apontando para ° paradox ° permanéncia na mudanga. “Exceto por este ponto, ° imével PO to,/Nao haveria danga, e tudo é apenas danga.” of O paradoxo entre repouso & movimento esta espalhado Pt 4 todos os poemas que compoem esses quartetos. A exploraga0 | — se paradoxo esta sabidamente apoiada na filosofia de Herdcli? | como disse Hillman, esse primeiro psicélogo da hist6ria - we uma concep¢ao do tempo como um fluxo perpétuo, onde nas es pois tudo esti-se fazendo. Herdclito € 0 primeiro, tradigao T pensamento ocidental, a interiorizar e, portanto, “psicologi2yy tempo. Sao de Herdclito, lembremos, as duas epferafes 40 com to de poemas: a primeira, “Embora a razao seja comum @ todos. io”: cada um procede como se tivesse um pensamento propri psique e imagem 75 segunda, a célebre citacao que ird ecoar depois com os alquimis- tas herméticos, “O caminho que sobe e 0 caminho que desce sao um tinico e mesmo caminho”. Com relagdo especificamente 4 questao do tempo, é conheci- da a metafora heraclitica que diz que nao se pode entrar duas ve- zes no mesmo rio. Ou seja, tudo se encontra em estado fluente. Essa imagem do rio, do tempo (e mesmo da vida, da alma e da consciéncia) como um rio ou como um fluxo, Eliot ira explorar, agora em contraste com o mar, numa das mais belas passagens do poema - no primeiro movimento de The Dry Salvages: “O rio flui dentro de nds, 0 mar nos cerca por todos os lados.” O rio e o mar: duas metdforas para a apreensao do tempo, bastante conhecidas da filosofia. O rio dentro de nés, o mar a nossa volta, imagens que nos jogam para dentro do contraste entre o tempo sentido como pessoal, o tempo biogrdfico de nossas vidas pessoais, com sua no- cao de fluxo, de encadeamento de eventos, tempo da instancia do ego que sente linearmente a cadeia dos acontecimentos; e o tem- po coletivo, o tempo histérico, impessoal na sua dimensdo mais ampla, mais que humana, que nos circunda e dentro do qual esta- mos inseridos, a nogao de tempo prépria da alma, de um tempo que comecou antes de nos e que se espalha para além de nés, ho- rizontal e verticalmente - um tempo que, no limite, langa-nos para além da histéria, quando a alma pessoal toca (ou nao se diferencia mais) da alma do mundo, anima mundi. Somos levados 4 cons- ciéncia desse tempo, nas palavras de Helen Gardner, nao por in- termédio dos sentidos, mas, note-se, por meio da imaginagao. “O mar nos cerca por todos os lados” indica uma concepgao do tem- po mais avancada, mais sofisticada psicologicamente. O tempo, na perspectiva que Eliot assume nesses poemas, tor- hase um processo interior da consciéncia, absolutamente subjeti- vizado, um eterno devir que apontaria, em Ultima instancia, para 6 Coleco Reflexdes Junguianas além do tempo. So os “momentos sem tempo” de que fala o Poe: ma, que tornam 0 antes e o depois no aqui e agora, o eternamen. te presente. O tempo presente, que a tudo contém, é uma expe riéncia na alma e para a alma. E com ela que sentimos esse eter. no devir: “O tempo presente e o tempo passado/Estao ambos tal- vez presentes no tempo futuro/E o tempo futuro contido no tem- po passado”. As imagens de apreensdo do tempo também desembocam na metéafora dos viajantes, a metdfora da viagem de trem, presente em algumas partes do poema: “Adiante, viajantes! Nao escapareis ao passado/Por viverdes outras vidas, ou em qualquer outro futu- r0;/Nao sois os mesmos que deixaram a estacdo/Ou que algum fi- nal de linha alcancarao.” O unico real destino é aqui e agora, esta- mos indo para onde estamos no presente, ou seja, estamos indo rumo ao que somos agora. Nosso destino é nossa realizacdo, se- gundo a imagem poética. Carregamos passado e futuro para che- garmos ao presente. Estamos suspensos entre a costa desconheci- da de onde partimos e 0 destino incognoscivel para onde nos diri- gimos: uma alusao 4 doutrina hindu do karma. Somos viajantes, mais que do espaco, do tempo. Nao podemos nos livrar do futuro, e nem do passado, que nao é somente o nosso passado entendido e sentido como uma mera sequéncia, mas é também 0 passado dos outros, e o passado da raga humana. Com passagens nitidamente em tom de oracao, os poemas nos dirigem a uma solucao final, no ultimo quarteto, Little Gid- ding, que 6, para o poeta, uma solucao claramente crista, onde 0 Mistério da Encarnagdo, a solugao crista para o tempo, esta intei- ramente sugerido. Em seus versos finais, 0 poema busca pela me- téfora do fogo pentecostal, que a tudo purifica. No Mistério da Encarnacao esta a epitome da experiéncia da intervengao extrar temporal no tempo. A Encarnacdo é, em nossa tradi¢éo judai- Psique e imagem ™ co-risté, como também sugeriu Von Franz, 0 “mais radical dos eventos”, pois rompe o tempo num antes e depois completamente diferentes e definitivos. Este 6, segundo Eliot, o tinico mito verda- deiro que poderé ajudar o homem a lidar profundamente com sua desesperada experiéncia no tempo - que éa experiéncia do tempo limitado, do tempo mortal. Trata-se da uniao, para 0 poeta, com o logos divino. Nesse momento, o tempo desaparece. As implicagées filoséfico-religiosas dessa meditacao ja foram por demais exploradas pelos intimeros comentadores dos Quatro quartetos. Aqui, estou explorando seu veio mais psicoldgico. Ate- nho-me a questao do entrelacamento da reflexao eliotiana sobre o tempo coma ideia de individuacao, j4 que um Panorama mais am- plo do processo artistico do poeta numa perspectiva psicolégica foi brilhantemente tracado pelo analista Joseph Henderson em fa- Mosos artigos para o The Journal of Analytical Psychology, em 1956. Se concordamos com ele na sugestao de que com Eliot esta- mos diante de um introvertido supostamente com fungao pensa- mento superior, assumimos a perspectiva que vé toda sua obra Poética como a tentativa da unido de Pensamento e sentimento, num nitido tragado que busca, para nés, arredondar a mandala ti- Poldgica sugerida Por Jung. Essa poesia estd toda entremeada do didlogo entre reflexdes € imagens, meditagées filoséficas proble- maticasea experiéncia da emocdo transportada por imagens - ou aquilo que o préprio Eliot chamou de “correlativo objetivo”, isto 6 a formula da correspondéncia entre uma emocio especifica e Seu correlato imaginal externo. A Mensagem cristé, que tao pro- fundamente impactou o homem e também o poeta, é, fundamen- talmente, uma Mensagem para o coracao, nao para o intelecto. A no mistério cristao aparentemente Ihe deu a base para o sentido de transcendéncia que Eliot parece ter sempre buscado, como jé 8 Colegao Reflexdes Junguianas se pode notar desde os primeiros poemas importantes, inclusive, e mais fortemente, A terra devastada. Aleitura de Eliot é uma experiéncia literaria muito profunda. A evocacio de imagens arquetipicas, espalhadas por toda sua obra, faz com que Eliot se aproxime de qualquer leitor com aquela | intimidade estranha e surpreendente que sempre se constela em Nossos encontros mais significativos. Psique e imagem Para James Hillman, que professou a imagem. Nosso método, além do mais, nao interpreta a imagem, mas fala com ela. Nao pergunta o que a imagem significa, mas o que ela quer. James Hillman, Ficgdes que curam, 1981. I. Anima Em 1970, James Hillman escreveu um artigo para a revista Spring, na verdade um pos-escrito editorial, com o titulo “Por que Psicologia Arquetipica?” Era a primeira vez que se utilizava o termo. Com esse artigo, ha mais de quarenta anos, abria-se uma possibilidade de pensar, experimentar e usar a psicologia junguiana numa nova direcao”, uma direcdo que a colocaria mais proxima da imaginacao e da sensibilidade contemporaneas. Logo de inicio, essa possibilidade visava se distanciar do termo mais comumente utilizado, “analitica” (ja tinha sido “psicologia complexa”), exatamente por suas implicagées a principio exclusi- 49, Para um breve relato histérico do surgimento dessa direcao, cf. “Um encon- tro de Axel Capriles com Rafael Lépez-Pedraza”. Cadernos Junguianos, 2, 2006, P. 99-126. Sdo Paulo [Revista da Associacao Junguiana do Brasil-AJB). > | Colega yy 80 Retlexbesunguang, vamente ligadas a prtica da psicoterapia. Evidentemente, este mos denominando e delimitando campos ou conjuntos especif, cos de imagens, campos de forcas imaginais. Estamos nos refe. rindo, quando falamos de uma psicologia analitica, a uma psico. logia que esta baseada num procedimento a que chamamos de analitico, ou anilise, ou seja, a andlise pratica de pacientes com fins terapéuticos. De alguma forma ela se restringe, ou se limita, a esse enquadre. Todas as suas conclusées sobre a psique, sobre o fendmeno humano e sua visio de mundo tém sua origem nessa pratica e, mais importante, a ela se volta. Quando se fala de uma psicologia arquetipica, em primeiro lu- gar estd-se tentando escapar do enquadre analitico. Nao propria- mente exclui-lo, mas deixar de estarmos restritos a ele. “Arquetipi- co” é uma ideia que permite nao sé abordar, compreender e atuar na anilise individual de pacientes, mas também na compreensaoe no aprofundamento de eventos da cultura em geral, daquilo que esta, digamos, “fora” dos consultérios. Arquetipico pertence a0 humano e também ao mais que humano. Isso traz uma ampliacdo da perspectiva e do campo da psicologia que nos permite utilizar as categorias do pensamento junguiano na andlise também das coisas do mundo e da cultura em geral. Isso é conhecido como uma das vantagens de se usar o adjetivo arquetipico. Encarando o arquétipo menos como substantivo, mas como adjetivo - como um qualificador de experiéncias, nao uma coisa em si, mas uma qualidade dos eventos - nao importa mais, por exemplo, especular sobre a existéncia incognoscivel do arquétipo. como nos modelos analiticos anteriores, pois ele, 0 arquétipo, ji se encontra sempre na sua realizacao, na sua atualizacao, que é 8 imagem arquetipica. O livro Psicologia arquettpica: um breve relato, que contém uma monografia escrita por Hillman em 1979 para inclusao no vo 81 psique e Imagem Jume V da Enciclopedia del Novecento, do Istituto dell’Enciclo- pedia Italiana, publicada em 1981 (que traduzimos para o portu- gués para a Editora Cultrix em 1991), aborda essas questées da forma mais objetiva possfvel. O leitor interessado numa compre- ensao mais sistematica da psicologia arquetipica e, mais especifi- camente, da obra de James Hillman e seus colaboradores, encon- tra ali uma espécie de guia capaz de orienté-lo na leitura. Nesse trabalho, encontra-se o tracado intelectual de cada uma das ideias fundamentais que ele, em outros ensaios e livros, ocupa-se de am- pliar e apreciar mais detalhadamente. Esse pensamento pretende um aprofundamento e um avan¢go das ideias originadas principalmente com o trabalho de Carl Gus- tav Jung. A psicologia arquetipica é uma maneira de se fazer psi- cologia junguiana. O trabalho de James Hillman e da psicologia arquetipica, especialmente no que concerne a imagem, pode ser visto como uma elaboracao detalhada da ideia junguiana de psi- que objetiva”. Hillman, seguindo uma tradig&o essencialmente retomada por Jung, fala de um sentido de alma (psyché, anima), campo in- termedidrio entre as fenomenologias do espirito e do corpo. Aci- ma de tudo, alma aqui é entendida como “uma perspectiva, ao contrario de uma substancia, um ponto de vista sobre as coisas, mais do que uma coisa em si””’. Seus textos falam da alma do mun- do, do amor, do puer, do senex, da guerra, da psicoterapia, da imaginacio, dos deuses, do estado da cultura, dos sonhos, da mas- turbacao, da arquitetura, da alquimia medieval, da guerra, da pa- 50. Cf. MOORE, T. “Prologue” a James Hillman. A Blue Fire: selected writings. Nova York: HarperPerennial, 1991, p. 1-11. $2, HILLMAN, J. Psicologia arquetipica: um breve relato. Sao Paulo: Cultrix, |, p. 40. YY 7 Colesio Retlexdes ning ranoia, dos animais, examinam os detalhes das figuras miticas em busca de uma psicopatologia descrita numa linguagem mais tie, profunda e sensual. Falam, acima de tudo, da anima de uma ma neira libertaria, que identifica anima imediatamente com alm, com psique. Retomam, assim, 0 sentido, presente em Jung, que desmonta a ilusio subjetivizante de que a anima esta em nos en vez de nds estarmos na anima. Hillman diz que “porque tomamos a anima personalisticamente, ou porque ela engana 0 ego dessa forma, perdemos 0 significado mais amplo de anima”™. Esse sigh ficado mais amplo constela a alma como uma perspectiva genuine: mente psicoldgica: esse in anima, nos apontava Jung, ser humano é ser na alma desde o comeco. Com a obra de Hillman, a anima pode se livrar de ser pensati sempre em termos de opostos, sempre presa nas sizigias, seja com animus, com sombra, com Self. Podemos ver que anima, alt esta por tudo e em tudo, nao s6 na interioridade feminina do ho nem aime pertence a todas as coisas, exatamente como a poss sonst an eae Baoe Psicolégico por exceléncia. ra quetipica, onde o conceito de arquétipo ganha a profundidade eo alcance que apontava desde? inicio. Essa teoria esta amplamente exposta na obra dita mais tar dia de Jung, digamos depois do impacto do conheceni dts estudos de alquimia. Como comenta 0 Proprio Hillman, bi a se aprofundamento constante: do pessoal para o col etivo, da cons ciéncia para o inconsciente, do particular para 9 universal do fixo para 0 fluido, dos tipos para os arque-tipos, , _ 52. Ibid., p. 5. et Psique e imagem Se Aintrodugio do conceito de arquétipo em psicologia é funda- mental nao sé porque reflete a profundidade do trabalho de Jung, mas também porque leva a reflexdo psicolégica para além da preo- cupacdo exclusivamente clinica dos modelos cientificos: “arqueti- pico pertence a toda a cultura, a todas as formas de atividade hu- mana. [...] Assim, os vinculos primarios da psicologia arquetipica sio mais com a cultura e a imaginacdo do que com a psicologia médica e empirica”®. Hillman nos faz enxergar os arquétipos como as estruturas ba- sicas da imaginacao, e nos diz que a natureza fundamental dos ar- quétipos sé é acessivel 4 imaginacao e apresenta-se como imagem. Numa énfase bastante radical com relacdo 4 imagem na vida psiquica, cabe entdo buscar por uma imagem que facilite penetrar mais diretamente, e dentro de sua prépria retérica, na perspectiva da psicologia arquetipica. A metdfora-chave que assim nos apare- ce é profundidade. Ametdfora do profundo, presente de forma radical nesse pen- samento, leva a psicologia arquetipica a uma direcdo sempre de aprofundamento vertical e ensina, nesse sentido, a concentrar-se na depressdo como o paradigma da psicopatologia, tal qual a his- teria para Freud, ou a esquizofrenia para Jung. A depressao leva o Sujeito necessariamente para baixo, para um aprofundamento em 2 mesmo. Diminui 0 ritmo, desacelera o intelecto, aproxima o ho- Nzonte. Talvez nada hoje em dia consiga para nds 0 que consegue a depressio, e por isso sua presenga tao marcante: esforcos da far- ™acologia 4 parte, na depressio somos lancados irremediavel- mente no vale da alma. een 53. Ibid, p. 21, . Colegio Reflexes Jungian A preocupacao com profundidade e depressao também per. mite a psicologia arquetipica uma critica 4 cultura, na medida em “uma sociedade que nao permite a seus individuos depri que e deve ficar perma. mir-se nao pode encontrar sua profundidade nentemente inflada numa perturbacao maniaca disfarcada de sh ‘crescimento’””. Tudo isso afasta a psicologia arquetipica das traducées inter- pretativas horizontalizantes de sintomas, sonhos, fantasias, ou seja, imagens, e constela a prépria andlise como descida (nekya): edimento que deseja aprofundar-se, que de fato comeca por baixo, pois procura os sonhos, a alma inconsciente, aquilo que esta naturalmente abaixo da vida cotidiana, do mundo da luz. Na psicologia arquetfpica a direcao vertical se confunde, além do mais, com a direcao para 0 sul. Aqui, diferentemente de Jung, onde se convencionou encontrar 0 dilema de Leste/Oeste, Nor- te/Sul tornam-se geografias simbélicas, ao mesmo tempo em que culturais e étnicas®. Assim, a psicologia arquetipica, em suas ba- ses, afasta-se da lingua alema e da visio de mundo judeu-pro- testante do “norte” europeu ariano, apoldnico, positivista, racio nalista, cientificista (que nos deu, diga-se de passagem, tudo aqui- lo que conhecemos como “psicologia”), em diregao a0 “sul” medi- terraneo, A Grécia da mitologia classica, onde os padrées arquett picos sao elaborados em historias, em mitos, em fabulas, e Italia da Renascen¢a com Ficino, e depois com Vico em Napoles no sé- culo XVIII, com suas imagens e seu humanismo sensual, sua lite- um proc 54. Ibid., p. 73. 5. Para uma visio dessa polaridade Norte/Sul na psicologia arquetipica, cf. HILLMAN, J. Revendo a Psicologia, Petropolis: Vozes, 2010, p. 414425. Tam bbém meu “0 sul ea alma”, Voos e raizes ~ ensaios sobre imaginagao, arte e psico- logia arquetipica. Sao Paulo: Agora, 2006, p. 40-60. ’ _ 85 e e imagem psiqué yatura, sua arte, seu neoplatonismo. Nesses lugares, segundo Hill- man, “a cultura da imaginacao e a maneira de viver carregavam aquilo que seria formulado ao norte como ‘psicologia’”®. A psico- logia arquetipica comega na psicologia da Renascenca. ‘Ao fazé-lo, esse movimento estard certamente deslocando, 4 paraa psicologia, a morada da alma do cérebro para 0 coragao. ‘A direcao vertical, a metdéfora do profundo, acima de tudo leva a psicologia arquetipica e a contribuicao essencial de Hillman a mostrar finalmente sua verdadeira marca: enxergar interiorida- de como uma possibilidade em todas as coisas. O “interior” refere-se aquela atitude dada pela anima que percebe a vida psiquica dentro da vida natural. A propria vida natural torna-se 0 vaso no momento em que reconhecemos que ela possui um significado inte- rior, no momento em que vemos que ela também sus- tenta e carrega psique. A anima faz vasos em todos os lugares, em qualquer lugar, ao ir para dentro”. Alma, anima é a raiz metaf6rica dessa abordagem. O que esta por baixo, na direcao vertical, na profundeza, na escuridao inson- davel, é alma. “A alma deve ser a metdfora primaria da psicolo gia”®, ele nos diz; uma sugestdo ja etimologicamente determina- da: psicologia, logos da psyché - discurso, narrativa ou fala verda- deira (vera narratio) da alma”. 56. HILLMAN, J. Psicologia arquetipica. Op. cit, p. 59. 57. HILLMAN, J. Anima - Anatomia de uma nocio personificada. Sio Paulo: Cul trix, 1990, p. 95. 58. HILLMAN, J. Psicologia arquetipica. Op. cit., p. 40. = Logos, para os poetas gregos antigos, além de “discurso” ou “narrativa”, tam- =n significava “cangao”, 0 que poderia dar a psicologia a obrigacdo de ser “a anive da alma”, Apud BOSI, A. O ser e 0 tempo da poesia. Sio Paulo: Compa- ia das Letras, 2000, p. 118, psique imagem 85 ua arte, seu neoplatonismo. Nesses lugares, segundo Hill- ome in da imaginacao e a maneira de viver carregavam oe te seria formulado ao norte como ‘psicologia’”™. A psico- aquilo 4 uetipica comeca na psicologia da Renascenga. ee taablo, esse movimento estard certamente deslocando, para a psicologia, a morada da alma do cérebro para o coracio. A direcao vertical, a metdfora do profundo, acima de tudo Jeva a psicologia arquetipica e a contribuicdo essencial de Hillman a mostrar finalmente sua verdadeira marca: enxergar interiorida- de como uma possibilidade em todas as coisas, O “interior” refere-se aquela atitude dada pela anima que percebe a vida psiquica dentro da vida natural, A propria vida natural torna-se o vaso no momento em que reconhecemos que ela possui um significado inte- rior, no momento em que vemos que ela também sus- tenta e carrega psique. A anima faz vasos em todos os lugares, em qualquer lugar, ao ir para dentro”, Alma, anima é a raiz metaforica dessa abordagem. O que esta Por baixo, na direcao vertical, na profundeza, na escuridao inson- davel, é alma. “A alma deve ser a metafora Primaria da psicolo gia”, ele nos diz; uma sugestao ja etimologicamente determina- da: psicologia, logos da psyché - discurso, narrativa ou fala verda- deira (vera narratio) da alma’, ee S6.HILLMAN, J, Psicologia arquetipica, Op. cit, p. 59, 57, HILLMAN, J. Anima - Anatomia de uma no¢ao personificada. Sao Paulo: Cul- trix, 1990, p. 95, FLAN, Psicologia arquetipica. Op. cit,, p. 40. 1 be -O90S, Dara os Poetas gregos antigos, além de “discurso” ou “narrativa”, tam- “rm sinificava “cangig” ; © que poderia dar a psicologia a obrigagio de ser “a ‘ancéo da alma”, Apud BOS E OSI, A. O ser e 0 tempo da poesia. $40 Paulo: Compa- hia das Letras, 2000, p. 118, a 5 Colegdo Reflexées Junguianas ginada, nao definida. & uma ‘Aalma, no entanto, deve ser ima 0 de experiéncias. Essa ima. imagem, e ao mesmo tempo um camp gem, além de tudo, toca a anélise diretamente, que, na perspectiva dessa psicologia, ndo intenciona a “cura” da alma (pelo menos nao no sentido médico"), mas, ao invés, facilitar aquilo que Hill man definira como cultivo da alma, ou “fazer alma” (soul-ma- king); de novo, o aprofundamento dos eventos em experiéncias. Para Hillman, isso quer dizer uma perspectiva reflexiva (no sentido do reflexo das imagens) entre nds e os eventos. A obra (opus) da psicologia é necessariamente a alma. Que ele o diga novamente: desejo da alma, aquele que guia seu trabalho, parece ser, pois, o de conhecer-se e refletir-se nas imagens que a constituem. Ela age ao modo de metéfora: transpée 0 significado e liberta o sentido interior dos eventos. Mc vimento envolto em uma luz escura®. Aalma é miltipla, pessoal, feminina, metaférica. Remete-nos aos sonhos e as imagens. Na famosa metéfora de Hillman, a alma estd nos vales (enquanto 0 espfrito esté nos picos”). Circular, a alma repete-se infinitamente, e na repeticdo esta uma tentativa de aprofundamento. A alma volta constantemente as suas feridas para extrair delas novos significados. Volta em busca de uma & periéncia renovada. Ficamos familiarizados com nossos comple xos e nosso sofrimento. O ego, identificado com o arquétipo 4° herdi, chama a repeticéo de neurose. Mas na repeticao, na circule: 60, Para essa discussio, cf. segdo “Resquicios do 7 i on® s J. Revendo a psicologia. Op. cit, p. 164-167. ae 61. Apud DONFRANCESCO, F. Ne i ae ,F. No espelho de Psique. Sio Paulo: Paulus, 20% 62. Cf. HILLMAN, J. “Picos e vales: a distin, 2 J. \¢d0 alma/espiri Me iferenas entre psicoerapia edisciplina espritual’. 0 ‘rede Pu ee re 0 arquétipo do puer efernus. Sao Paulo: Paulus, 1999, p, 202. 233 Organi Gio e traducdo de Gustavo Barcelos). pam pagque e Imagem 87 ridade, 0 ego é forcado a conscientizar-se de que hd presente uma outra forca. Na repeticao o ego é forcado a servir a psique. HA um aspecto ritual aqui, uma humilhagao. A circularidade, por fim, nos personaliza. Do ponto de vista da alma, a repeticéo é uma maneira de nos tornarmos aquilo que somos”. Il. Imagem A abordagem da psicologia arquetipica foi também chamada de “terapia focada na imagem”, pois entende a imagem como o dado psicolégico primario. Em seu horizonte, “psique é ima gem”, como afirmou Jung, que o repetiu ao longo dos anos de seu trabalho de formas diferentes™. Para Jung, a atividade funda- mental que caracteriza a psique, ou alma, é imaginar. Jung com- preende que “todo o processo psiquico é uma imagem e um imagi- nar”, A alma é constituida de imagens, ou é, ela mesma, imagem. — 63. i. a discussio de Berry sobre repeticdo em seu “A paixdo de Eco”. Echo's Subtle Body: contribuitions to an archetypal psychology. Dallas: Spring Publicati- ons, 1982, p. 113-126: “Repeticio € também uma tentativa de tornar alguma coisa reconhecida. Se dizemos alguma coisa muito frequentemente, ela se torna mais essencial e caracteristica; comecamos a acreditar naquilo que repetimos. No mun- do das trevas a repeticao também expressa esséncia - a esséncia de um carater (Tantalo, Ixido, Sisifo...). [...] 0 que quero dizer é que repeticdes sdo estranhamen- te duradouras e que, apesar de parecerem superficiais, ainda assim apontam na direcdo de uma necessidade mais profunda”. 64. JUNG, C.G. OC 13, § 75. 65. Hillman também o afirma: “imagem € psique e nao pode reverter-se exceto a seu prdprio imaginar” (The Dream and the Underworld. Op. cit., p. 200). 66. JUNG, C.G. OC 11, § 889. A afirmacao mais contundente de Jung para a com- preensdo da realidade como imaginacao, e portanto para a instauracdo de um ponto de vista de alma sobre todas as coisas, esté em Tipos psicol6gicos, de 1921: “A psique cria realidade todos os dias. A Unica expressio que posso usar para essa atividade é fantasia |...]. A fantasia, portanto, parece-me a expressao mais cla- ta da atividade especifica da psique” (OC 6, § 73). A radicalidade dessa posicao talvez ainda nao tenha sido completamente absorvida, mesmo entre junguianos. _ Colegéo Retlexsesj ‘UN gula 88 gem nao é 0 subproduto da percepgao oy da Aqui, a ima o reflexo psiquico de um objeto externo, nem é a const rr tal que representa imagem a qual o ego, meu “eu consciente, tem acesso p a OF Vonta de ou por estimulo. Jung refere-se 4 imaginacdo como ani, auténoma da psique, ou seja, uma espontaneidade na avid imagens ou fantasias. A psique se caracteriza particulamme’” de essa capacidade, ou atividade, de criar imagens; e 0 Jo, a Dor mais podemos perceber a capacidade auténoma e os que psique de criar imagens sao, naturalmente, os sonhos 0 ne da sonharmos todas as noites nos da testemunho nitido de ao de que tem a capacidade de criar imagens de forma independens Bsi- seja, por vontade propria, e autonomamente, ou seja, sem a fs ou vencao da subjetividade de um ego consciente. Melhor fase, palavra ao proprio Hillman, que o diz com clareza: [...] a imaginagao nao é meramente uma faculdade hu mana, mas uma atividade da alma a qual a imaginagio humana presta testemunho. Nao somos nés quem ima gina, mas nds que somos imaginados®. Sensacs de forma simbdlica ideias e sentiment S40 men, Os” ys. S Na O nexo entre imagem e psique insere-se numa tradigao de “exploradores” € teoricos, que inclui os poetas romanticos, 0s: os visiondrios da mistica islamica, os surrealistas, Para: Gaston Bachelard e, entre tantos outros, 1 Gilbert Durand, ele mes na edigio de 7 anos atte’ quimistas, celso, Henri Corbin, Jung, e foi sucintamente apresentado po! mo um explorador desse mundus imaginalis, da revista Spring em artigo onde afirma: “Cinquenta a . psilo 67. DONFRANCESCO, F. No espelho de Psique. OP- Ch 2000, sie gens nao sao consideradas como atos da imaginacao subjetive pendentes da subjetividade e da imaginacdo”. 68. HILLMAN, J. Psicologia arquetipica. Op. cit. P- 29. A Psique e imagem oe [William] James disse que o inconsciente era a maior descoberta do século XX. Agora podemos dizer que os contetidos do inconsci- ente (imagens) serao o campo de exploracdo mais importante para o século XXI"®, Ninguém sabe definir a imagem. O debate em torno do que é uma imagem (ou do que pode ser considerado uma imagem - aparte seus correlatos de representacao, quadro, icone, visualida- de) ultrapassa os limites da Psicologia arquetipica e esta presente hoje entre criticos culturais, scholars da midia e da literatura, filé- sofos, antropdlogos e socidlogos. Entre esses criticos, Giorgio Agambem, ainda querendo banir um certo “psicologismo” da filo- sofia, aproxima-se significativamente de uma compreensio “ar- quetipica” da imagem, quando entende as imagens como “tragos daquilo que os homens que nos precederam desejaram e almeja- Tam, temeram e reprimiram”. Contudo, Agamben fala das ima- Sens que estéo em nds Porque entraram em nds, vieram do mun- do (histéria, meméria); a psicologia arquetipica, ao invés, fala das imagens que estéo no mundo (histéria, meméria) porque sairam de nds (alma), Uma imagem, ao mesmo tempo em que torna algo visivel (e vi- sivel nao apenas no sentido 6tico), torna algo invisivel. Uma con- ee 69. DURAND, G, with Images: the Spring Pi imagem” tal, em KI “Exploration of the Imaginal”. In: SELLS, B. (org). Working theoretical base of archetypal psychology. Woodstock, CT: ications, 2000, p. 54. Cf. th, o mesmo debate no campo da “filosofia da inclusive com reflexdes nas tiltimas décadas em torno da imagem digi- HALIP, J. & MITCHELL, R. (orgs.), Releasing the image: from literature ie new media. Stanford: Stanford University Press, 2011: “..J tornouse um lu Sarcomum insistir que ‘imagens’ tiveram um papel central na cultura do século © prometem ter um papel ainda mais poderoso na vida e no pensamento do sé- culo XXI" Introduction”, p. 2). 70. ACAMBEN, G “Nymphs”, In: KHALIP, J. & MITCHELL, R. (orgs.). Releasing (he Image: trom ierature to new media, Stanford: Stanford University Press 21,5. 74.40, Colegao Rettexdes Jung } lan, le imagem baseada apenas na ideia de otica No p, preender a complexidade da imagem psiquica, que esti basea simultaneidade, ou na abolicdo de sua prépria inscriggo yy tey “a Patricia Berry talvez tenha chegado bem perto de uma co. preensio da imagem liberta da ldgica da representacio, g, om do simile e da visualidade apenas em “Virgindades da ima, = capitulo de seu Echo's Subtle Body, de 1982: A imagem é uma complexidade de relagées, uma ineréncig tensoes, justaposig&es e interconexdes. Uma imagem nig ¢, nas significado, nem apenas relacdes, nem apenas ercepay Bla ndo é nem mesmo apenas reflexao, porque nunca se pois zet com certeza que isto é “a coisa” e aquilo € uma refering, coisa. Nem podemos dizer que a imagem é isto literalmente ¢ aquilo metaforicamente. Essas dualidades - coisa versus rete xo, literal versus metaforico - ndo s4o imagens, mas, antes, mq neiras de estruturar imagens”. Jo d cepa © Com, gem eee Se o conceito basico da psicologia arquetipica, aquele de onde emanam suas observacoes e que permite sua penetracio teé- rica mais profunda, é, naturalmente, o arquétipo - e portanto ela é forcada a oferecer uma descrigéo essencialmente miltipla, plu- ral ou policéntrica da psique - sua drea de atuacao focaliza-se na imagem. Ela se volta para o trabalho da imaginagao (na clinica, na arte, na tradicdo cultural, na psicopatologia), e o trabalho coma imaginacdo; esta voltada para ressuscitar nosso interesse pela & pacidade espontanea da psique de criar imagens. “A imagem tem 71. BERRY, P. Echo’s Subtle Body: contribuitions to an archetypal pseholob: Dallas: Spring Publications, 1982, p. 97. goign emagem * igo meu ponto de partida para a re-visio arquetipica da psicolo- Sr» disse Hillman em 1979”. s ‘Dessa forma, “ficar com a imagem” transformou-se na “tni- cae rigorosa indicacdo técnica” ou regra basica no método da sicologia arquetipica. “Ficar com a imagem” ird influenciar todo F procedimento terapéutico, especialmente, como se podera per- ceber, no que toca a questao da interpretacao. As imagens psiqui- cas sio encaradas como fenémenos naturais, s4o espontaneas, 73 quer seja no individuo, quer seja na cultura, e necessitam, na ver- dade, ser experimentadas, cuidadas, consideradas, entretidas, res- i pondidas. As imagens necessitam de respostas imaginativas, nao de explicacao. No momento em que interpretamos, transforma- mos 0 que era essencialmente natural em conceito, em linguagem conceitual, afastando-nos do fenémeno. Uma imagem é sempre mais abrangente, mais complexa, que um conceito”, Nessa perspectiva, a imagem - em sonhos, nas fantasias, na arte, nos mitos e na sua maneira de revelar os padrées arquetipi- i} cos coletivos - é sempre o primeiro dado psicolégico: as imagens sao o meio pelo qual toda a experiéncia se torna possivel. A ima- gem é 0 tinico dado ao qual ha acesso direto, imediato. Indica complexidade: em toda imagem ha uma miltipla relacao de signi- | ficados, de disposigdes, de proposicdes presentes simultaneamen- 72. HILLMAN, J. The Dream and the Underworld. Op. cit., p. 5. 73. Cf. JUNG, C.G. OC 16, § 320: “Para compreender o significado de um sonho, devo ficar 0 mais préximo possivel das imagens do sonho”. 74. DONFRANCESCO, F. No espelho de Psique. Op. cit., 2000, p. 45. 75. A discussao e ampliagao completa do trabalho com imagem na psicoterapia analitica esto nos ensaios de James Hillman, “An Inquiry into Image”, “Further Notes on Images” e “Image-Sense” publicados na Revista Spring 1977, 1978 e 1979 respectivamente; e no de BERRY, P. “Uma abordagem ao sonho”, publicado } Revista da Associagdo Junguiana do Brasil: Cadernos Junguianos, 3, 2007, ‘© Paulo [originalmente publicado em seu Echo's Subtle Body]. po 92 Colegao Reflexées Junguianas te. Nossa dificuldade em compreendé-las, por exemplo nos go. nhos, vem em grande parte de nosso vicio de linearidade. Nossa incapacidade de experimentar e vivenciar simultaneidade de signi. ficados - a polissemia irredutivel de cada imagem - vem da neces. sidade de transformar imagens em historia, inseri-las na tempora lidade: uma coisa por vez, uma coisa depois da outra. Aqui, como sempre, nossa abordagem fortemente evolutiva dos eventos nos faz ver primeiro o desenvolvimento, o processo. Mas no reino do imaginal, todos os processos que pertencem a uma imagem sao inerentes a ela e estao presentes ao mesmo tempo, todo o tempo. Isso naturalmente determina uma compreensao particular da psique e do trabalho psicoterapéutico. Se o trabalho da terapia for entendido como um atendimento, como um servico prestado - 0 sentido original da palavra terapia, therapeia, em grego: servico, atendimento - entao, terapia da psique, psicoterapia, sera atendi- mento da alma. Nessa perspectiva, o paciente é a alma. Assim, s¢0 trabalho psicoterapéutico é como um cuidar, como um servig0 prestado a alma, entende-se que esse servico sera prestado de fato quanto mais préximo estivermos de suas imagens - estejam elas nos sonhos, nas fantasias, nos sintomas, no corpo ou na historia de caso (que conto como um “mito”). A primeira questao metodolégica importante, do ponto 4 vista da psicoterapia que é levada a cabo ao permanecermos fiéis a imagem, refere-se a um movimento anti-interpretativo. Qualquer procedimento hermenéutico, qualquer intervencdo do analist® que possa ser caracterizado como interpretacdo conceitual neces sariamente perdera a imagem. E, ao perder a imagem, perdese * alma, deixa-se de atender ou de servir a psique. A interpretacd? ‘ um procedimento quase sempre alegérico, ou seja, troca uma = sa por outra, Se alguém sonha, digamos, com um fee perspectiva analitica interpretativa quase que “nao interes YS psique e imagem 93 sonhado com trem, porque o sonho, de fato, nao é com trem, mas com uma outra coisa que estd representada por frem - por exem- plo, meu complexo paterno, minha agressividade, minha inveja, meu impulso 4 locomocao, minha mobilidade, 0 que quer que seja. Podemos colocar qualquer coisa no lugar do trem. Mas o | trem partiu, e com ele a alma. Deixamos o trem para trés, com seu entusiasmo, seu peso, seu impulso, sua forma penetrante, sua be- leza ou feiura metdlica ou fosca; ou, mais precisamente, foi ele quem nos deixou na “estacao analitica”, desistindo de nés. A psicologia analitica tem varias e bastante sofisticadas for- mas de fazer uso de um enorme corpo de conhecimento simbéli- co. Quase toda imagem que participa de nossos sonhos tem uma simbologia pesquisada, ampliada e de alguma maneira estabeleci- da, a qual podemos nos referir. E 0 procedimento classico junguia- no da amplificacéo como a conhecemos, o método junguiano por exceléncia. Esse volume de conhecimento psicolégico com rela- | 40 aos simbolos tomou proporcées que muitas vezes afastam-nos | da compreensao original que Jung dava ao que é simbdlico. Com | esses procedimentos de amplificacao da pesquisa simbélica, Jung | estava realmente se dedicando ao desconhecido, ao misterioso, sem querer torna-lo conhecido, sem querer transformar o desco- nhecido em conhecido. A segunda implicagéo metodoldégica importante pode ser des- crita pelas seguintes observacoes: num procedimento interpretati- Vo, entende-se que o que aparece na psique é fundamentalmente uma representacdo de outra coisa. Ha aqui uma ideia de psique, a de que ela se esconde, se vela, de que nao é um acontecimento di- eto, mas, em vez, indireto, Ela se faz representar, expressa-se, di- rfamos, alegoricamente. Atrds do trem ou da menina do sonho, ou do cachorro ou da cobra, ou do sintoma e da fantasia - por trds das imagens diretas - existem outros sentidos que precisam ser oN 94 Coledo Reflexses Jung, Wenas, descobertos, revelados. Trabalha-se entao com uma erspet que pretende, em tiltima instancia, descobrir ou revelar a ign em seu nexo secreto. Quando um procedimento interpretativy 7 simbélico direto é abandonado - ainda que haja amplificacio, ain da que se busque um entendimento - procura-se olhar para a, imagens como imagens, apresenta¢ées, sem precisar interpreta, procurando, através de procedimentos que podem “abrir” a ina. gem, ouvir o que a imagem estd querendo dizer. A ideia é de que aquele trem do sonho, ou aquela cobra, ou aquele amigo, nao es. tdo representando nada; eles esto se apresentando. A psique, nessa perspectiva, esta se apresentando o tempo todo, de diversas formas. A psique nao se esconde, mas esta exposta, & mostra sem. pre, no sonho, no sintoma, no discurso, na escolha de palavras, de frases, nas repetigdes, na vestimenta, nas casas, nos hdbitos, na decora¢do, no modo como me exprimo, no modo como caminho, como adoego, como me relaciono, amo, odeio, como construo mi nha historia. Psique é display - a superficie da alma. A profundi dade estd nas aparéncias, dentro das aparéncias, nao por trds das aparéncias. A légica da revelagao, de qualquer forma, sao aquelas em geral do pensamento da religido, pertencem a retdrica do est rito. As metaforas podem ser mais oticas, ainda que nao literal: mente oticas, pois hd imagens que nao se dao apenas visualmer- te, como ja se sugeriu. Sea psique estd 4 mostra, uma constante e generosa aprese" tacdo de si mesma, nao precisa de um tradutor. Precisa, a0 inves, de um /eitor. O intérprete é essencialmente um tradutor - ¢ se bese, fraduttore tradittore. Este tem um corpo de conhecimen! que Ihe permite traduzir a invisibilidade em visibilidade agullo que é obscuro em clareza, o mundo noturno no mundo dius O que é dificil de vislumbrar, dentro de um paradigma fore mente conceitual como 0 da psicologia, é poder responder asi ad 95 pique e imagem gens em seus proprios termos, ou seja, imaginando. Pois, da Pers- pectiva do trabalho psicoterapeutico, a questo em torno da ima- gem tem um carater essencialmente operacional: 0 que fazer coma “coisa” da psique? Como trabalhar com ela, fazendo com que per- maneca misteriosa e significativa? Desliteralizar a propria ideia de imagem é compreendéla nao somente como um elemento audiovi- sual, alguma coisa vista. Uma imagem psfquica nao é algo que vejo, éantes um modo de ver, uma perspectiva sobre as coisas. Pode ser sonora, tatil, pode ser uma emogio, pode estar no corpo. Também em jogo no trabalho com as imagens estd a particu- larizagao, a particularizagado daquilo que se apresenta no nivel psi- quico. Num procedimento simbélico, 0 risco é nos encaminhar- mos muito facilmente para as generalizacées. A sensibilidade para 0 particular diz: € aquela cobra, naquele sonho, que tem aquela cor, que disse isso e nao aquilo, naquele momento. eae 0 trabalho junguiano orientado pelas imagens procura des- Pertar no outro um sentido de alma: “A terapia tera L..] como es- Copo o desenvolvimento de um sentido de alma através da procu- ta dos nexos entre vida e Psique, lidade imaginal Policéntrica me 40”". Ao despertar esse senti € a restituicdo do paciente a rea- diante o cultivo de sua imagina- ido de alma, a cura s6 acontece como um ganho secundario, Ela nao é 0 foco, nao no sentido de Corre¢do, educacao, melhoria, adaptacao, vos heroicos que, da alma e seu “ eficiéncia - todos objeti- na verdade, nos devolvem ao ego, nos apartam navio imaginal”, ou nos mantém na Perspectiva oe 76. DONFRANCESCO, F No espelho de Psique. Op. cit., p. 46. 77. Ibid. p. 50. N Colega * lego Reflexdes Jungui ’ lamas conscientemente, esses objetivos visam um fo do espirito. In uma énfase na vida. A alma, ao contrério » Patece cimento do ego, obscura e permanece num envolvimento primordial com a Morte com 0 invisivel (Herdclito disse que a conexao invisivel é a is forte)". A meta, no sentido alquimico da quimera, da poténcia ins ginativa, seria mais um “enfraquecimento do Eu”, pois s6 atravé, do enfraquecimento dessa estrutura, que a psicologia arquetipica mais tarde identificara como sanguinolenta e cruel, conquistago. rae destruidora - de uma verdadeira “crise no sujeito” (como se expressou Francesco Donfrancesco) - que a alma pode emergiy Nao posso ter a pretensao de querer explicar de nenhuma for. mao que seria despertar a alma, mas entendo que Hillman nos ensi. na, fundamentalmente, que esse despertar, ou essa recuperacio de um sentido de alma nas nossas vidas, tem primeiro a ver com 0 mo- vimento de desliteralizacao das experiéncias, ou 0 que ele mesmo chamou de “transposicao metaférica” numa passagem famosa: A transposi¢do metaforica - esse movimento de lidar com a morte que ao mesmo tempo re-desperta a cons- | ciéncia para um sentido de alma - é 0 ponto central da tarefa da psicologia arquetipica, sua intengao maior”. Ou, como também menciona Berry: “Na psicologia arquetip: a|...] insistimos sobre a reflexao. E crucial, dizemos, nao conside- rar as coisas - eventos, sonhos, emogées, impulsos - literalmente, mas refletir sobre elas como imagens”. ee pees 54: “Harmonia inaparente mais forte que @ “ i ia ae i ThA (org.). Herdclito: fragmentos contextualizados. So Pau 7 ee J. Psicologia arquettpica... Op. cit. . 'Y, P, Echo's Subtle Body... Op. cit., p. 157. psique e imagem Hd uma compreensao da psique como essencialmente anal6- ‘ca, ou metaférica. Ela opera com analogias o tempo todo. A me- ee éa intuicao de uma analogia entre coisas de natureza dife- a f uma comparacao em nivel de esséncia. Ela transporta 0 significado de uma imagem 4 outra, fazendo com que possamos compreender uma pela outra, simultaneamente, em comunica¢ao, em transito. Assim, despertar um sentido de alma em oe vidas tema ver essencialmente com uma consciéncia que a se esgota no plano literal das coisas que nos acontecem. Alma € aquilo que transforma 0S eventos em experiéncias, ou que os devolve para suas imagens. . Parece dificil, no entanto, compreender que esse “tratamen- to” da imagem se dé pela fala, a terapia como uma oficina da pala- vra (ou oficina “pela” palavra), fazer imagem em palavras. Ele re- quer do terapeuta uma palavra imaginativa, que desperte a imagi- nagdo. Se pretendemos “curar pela fala”, temos primeiro que cu- rara propria fala, pois, nessa tradigdo, essa oficina é principalmen- te uma oficina da palavra. Chegamos assim na “base poética da mente”, uma ideia fun- damental que Hillman também formula em Re-vendo a psicolo- gia, de 1975", A ideia revela que psique, em seus niveis mais pro- fundos, inconscientes e primarios, comporta-se e se expressa de modo poético, isto é, precisamente com procedimentos, ldgica e raciocinios semelhantes aos que encontramos na arte poética: analogia, metaforizacao, sintese, condensacao, emo¢ao. O que pode nos levar mais diretamente 4 ideia da oficina. A oficina, nesse sentido, pode ser da palavra, da pintura, da escultu- ra: um modelo de psicoterapia que certamente se nutre muito 81.Cf. Revendo a psicologia. Op. cit., p. 25-38. reece cc: [=~ Colecao 5, 7 lecdo Reflexses Hinton, mais da absorcao das metaforas dos processos da arte d processos da ciéncia. Bem observados os artistas trabalhang, de que maneira o escultor esculpe e entende as formas . 2 trans-formagées, como 0 pianista toca e ensaia melodias ¢ vit is vitais, como 0 pintor pinta e entende as cores e as Combinagdes ‘: humores, como a bailarina danga e entende 0 corpo no