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A maioria das profissões, de uma forma ou de outra,

presta serviço à saúde e ao bem-estar da humanidade.


Porém as atividades do médico, do padre, do professor,
o ABUSO DO··POD
do psicoterapeuta e do,assistente social envolvem um
trabalho especializado e deliberado para ajudar os
infelizes, os' doentes, aqueles que de' algum modo se
NA PSIC·OTERAPI4
perderam. A presente obra analisa como e por que os na medicina, serviço soei
membros dessas ((profissões de ajuda" podem também
causar enormes danos, devido a seu próprio desejo de sacerdócio e n1.agistério
ajudar.
Adolf Guggenbühl-Craig
DR. AnOLF GUGGENBÜHL-CRAIG é médico e analista junguiano
radicado em Zurique. Dirigiu o Curatório do Instituto C. G.
Jung e a Sociedade Internacional de Psicologia Analítica.

~
PAULUS
ÍNDICE

7 Prefácio à edição brasileira


9 Introdução: Livrai-nos do mal?
12 Serviço social e Inquisição
27 Psicoterapeuta: charlatão e falso profeta
40 O contato inicial entre analista e analisando
46 Relacionamento é fantasia
55 A vida extra-analítica do analista e do paciente
59 Sexualidade e análise
66 O medo destrutivo da homossexualidade
70 O analista e a lisonja
73 O abuso da busca de sentido
78 O médico todo-poderoso e o paciente pueril
81 O arquétipo de "terapeuta-paciente" e o poder
84 A cisão do arquétipo
88 O fechamento da cisão por meio do poder
94 Médico, psicoterapeuta, assistente social e professor
99 A sombra, a destrutividade e o mal
112 Estará a análise condenada ao fracasso?
116 Análise não adianta
122 Eros
124 Individuação
130 O psicoterapeuta impotente
134 Eros de novo
Coleção AMOR E PSIQUE Contos de fadas e histórias mitológicas
A ansiedade e formas de lídarcom ela nos contos
ADOLF GUGGENBÜHL-CRAIG
O feminino de fadas, V. Kast
• Aborto - perda e renovação, E. Pattis • A individuação nos contos de fada, M.-L. von
As deusas e a mulher, J. S. Bolen Franz
A feminilidade consciente - entrevistas com • A Interpretação dos contos de fada, M.-L. von
Marion Woodman, M. Woodman Franz
Ajóia na ferida, R. E. Rothenberg A psique japonesa: grandes temas e contos de
A mulher moderna em busca da alma: Guia fadas japoneses, H. Kawai
jungulano do mundo visível e do mundo invisível, A sombra e o mal nos contos de fada, M.-L. von
Franz
J.Singer
• Mitos de criação, M.-L. von Franz
A prostituta sagrada, N. Q. Corbett
Mltologemas: encarnações do mundo invisível,
A virgem grávida, M. Woodman
J.Hollis
Caminho para a Iniciação fl!mlnlna, S. B. Perera O Gato, M.-L. von Franz
Destino, amor e êxtase, J. À. Sanford O que conta o conto?, J. Bonaventure
O medo do feminino, E. Neumann O significado arquetípico de Gilgamesh, R. S.
Os mistérios da mulher, Esther Harding Kiuger
Variações sobre o tema mulher,J. Bonaventpre
O masculino
Curando a alma masculína, G.Jackson
Opuer
• Livro do puer, J. Hillman
• Puer aeternus, M.-L. von Franz
o ABUSO DO PODER
Hermes e seus filhos, R. L.-Pedraza
No meio da vida: Uma perspectiva Junguiana,
M.Stefi'l
Os deuses e o homem, J. S. Bolen
Relacionamentos
• Amar, trair, A. Carotenuto
Eros e phatos, A. Carotenuto
NA PSICOTERAPIA
Incesto e amor humano, R. Stein
O pai e a psique, A P. Lima Filho
Não sou mais a mulher com quem você se casou,
Sob a sombra de Saturno, J. Hollis
A.B.Filenz
Psicologia e religião No caminho para as núpcias, L. S. Leonard
Os parceiros invisíveis: O masculíno e o feminino,
e na medicina, serviço social,
A alma celebra: Preparação para a nova relígião,
L. W.Jaffe
J. A. Sanford
Sombra
sacerdócio e magistério
A doença que somos nós, J. P. Dourley
Ajornada da alma, J. A. Sanford Mal, o lado sombrio da realldade,J. A. Sanford
Deus, sonhos e revelação, M. Kelsey • Os pantanais da alma, J. Hollis •
Nestajornada que chamamos vida, J. Holllis • Psicologia profunda e nova ética, E. Neumann
Rastreando os deuses, J. Hollis Outros
Uma busca interior em psicologia e re/ígião, J.
Alímento e transformação, G. Jackson
Hillman Ansiedade cultural, R. L.-Pedraza
Sonhos A terapia do jogo de areia: Imagens que curam ....
;.
a alma e desenvolvem a persona/ídade, R. Am-
Aprendendo com os sonhos, M. R. Gallbach
mann
• Breve curso sobre os sonhos, R. Bosnak
Conhecendo a si mesmo, D. Sharp
• O mundo secreto dos desenhos:Umaabordagem Consciência solar, consciência lunar, M. Stein
junguiana da cura pela arte, G. M. Furth Dioniso no exílio: Sobre a repressão da emoção
Os sonhos e a cura da alma,J. A. Sanford e do corpo, R. L.-Pedraza
• Sonhos e ritual de cura, C. A. Meier Meditações sobre os 22 arcanos maiores do tarô,
• Sonhos e gravidez, M. R. Gallbach anónimo
Envelhecimento No espelho de Psique, E. Neumann
O abuso do poder na psicoterapia e na medicina,
A passagem do meio, J. Hollis seNiçósocla/'sacerdócio e magistério, A. G.-Craig
• A so/ídão, A.Storr O caminho da transformação, E. Perrot
A velha sábia, R. Weaver O despertar de seu filho, C. de Truchis
Despertando na meia-idade, K. A. Brehony O projeto tden, J. Hollis
Envelhecer, J. R. Pretat
Meia-idade e vida, A. Bermann
No meio da vida, M. Stein
O velho sábio, P. Middelkoop
Psicoterapia, M.-L. von Franz
Psiquiatria Junguiana, H. K. Fierz
• Saudades do paraíso: Perspectivas psicológicas
de um arquétipo, M. Jacoby
Â'
PAULUS
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
INTRODUÇÃO À COLEÇÃO
(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
AMOR E PSIQUE
Guggenbúhl-Craig, Adolf
O abuso do poder na psicoterapia: e na medicina, serviço social, sacerdócio e magistério I Adolf
Guggenbúhl-Cralg; [tradução Roberto Gambini). - São Paulo: Paulus, 2004. - (Amor e psique)

Tftulo original: rylacht ais Gefahr beim Helfer


ISBN 978-85-349-2226-5

1. Jung, Carl Gustav, 1875-1961 2. Poder (Ciências sociais) 3. Psicanálise 4. PSicoterapia


5. Saúde mental 1. Tftulo. 11. Série.

04-2524 CDD-150.1954

indices para catálogo sistemático:


1. Poder na psicoterapia: Abuso: Psicologia analftica junguiana 150.1954

N a busca de sua alma e do sentido de sua vida, o


homem descobriu novos caminhos que o levam para a
Coleção AMOR E PSIQUE coordenada por
Dr. Léon Bonaventure sua interioridade: o seu próprio espaço interior torna-se
Ora. Maria Elei Spaeeaquerehe um lugar novo de experiência. Os viajantes destes cami-
Título original nhos nos revelam que somente o amor é capaz de gerar
Maeht aIs Gefahr beim Helfer a alma, mas também o amor precisa de alma. Assim, em
© S. Karger AG, Basel, 1987
ISBN 3-8055-4562-2 lugar de buscar causas, explicações psicopatológicas às
nossas feridas e aos nossos sofrimentos, precisamos, em
Tradução
Roberto Gambini primeiro lugar, amar a nossa alma, assim como ela é.
Deste modo é que poderemos reconhecer que estas feridas
Revisão técnica
M. de Fátima Salomé Gambini e estes sofrimentos nasceram de uma falta de amor. Por
outro lado, revelam-nos que a alma se orienta para um
Editoração
PAULUS centro pessoal e transpessoal, para a nossa unidade e a
realização de nossa totalidade. Assim a nossa própria
Impressão e acabamento
PAULUS vida carrega em si um sentido, o de restaurar a nossa
unidade primeira.
Finalmente, não é o espiritual que aparece primeiro,
2 a edição, 2008 mas o psíquico, e depois o espiritual. É a partir do olhar
do imo espiritual interior que a alma toma seu sentido,
o que significa que a psicologia pode de novo estender a
mão para a teologia.
© PAULUS - 2004
Rua Francisco Cruz, 229·04117-091 São Paulo (Brasil) Esta perspectiva psicológica nova é fruto do esforço
Fax (11) 5579-3627· Tel. (11) 5087-3700 para libertar a alma da dominação da psicopatologia, do
www.paulus.com.br·editorial@paulus.com.br
ISBN 978-85-349-2226-5
espírito analítico e do pSIcologismo, para que volte a si
5
mesma, à sua própria originalidade. Ela nasceu de refle-
xões durante a prática psicoterápica, e está começando
PREFÁCIO À EDIÇÃO BRASILEIRA
a renovar o modelo e a finalidade da psicoterapia. É
uma nova visão do homem na sua existência cotidiana,
do seu tempo e dentro de seu contexto cultural, abrindo
dimensões diferentes de nossa existência para podermos
reencontrar a nossa alnla. Ela poderá alimentar todos
aqueles que são sensíveis à necessidade de inserir mais
alma em todas as atividades humanas.
A finalidade da presente coleção é precisamente res-
tituir a alma a si mesma e "ver aparecer uma geração de
sacerdotes capazes de entender novamente a linguagem o Abuso do Poder na Psicoterapia é hoje um clássico
da alma", como C. G. Jung o desejava. da moderna literaturajunguiana. Publicado pela primeira
vez em 1971 na Suíça, no original alemão, logo em seguida
Léon Bonaventure em inglês e em 1979 em português, este livro desempenhou
um papel inestimável na formação dos analistas contempo-
râneos que seguem a linha de, trabalho inaugurada por Carl
Gustav Jung no início do século XX. A edição brasileira logo
se esgotou, mas tal era a demanda pelo texto em aulas, semi-
nários e supervisões que um sem-número de cópias passou a
circular em lugar do livro que já não se encontrava mais.
Seu assunto central é o mal que o analista involunta-
riamente pode causar a seus pacientes quando se propõe a
ajudá-los. Que ousadia! A quem ocorreu a inusitada idéia
de escrever tal livro?
Adolf Guggenbühl-Craig, analista experiente e di-
ferenciado, sempre pautou sua vida, sua reflexão e sua
prática pela tentativa incessante e sistemática de detectar
as mil formas sob as quais se oculta a sombra do analista,
do médico, do assistente social e do professor; Sombra,
comojá havia dito Jung, esse avesso das boas intenções,
essa outra face do discurso edificante e da ação filantró;.
pica. SU,a análise é cirúrgica: arde, quando passo a passo
o autor remove a pele e expõe o nervo de uma relação
- especialmente aquela entre analista e analisando - fa-
6
, ,
7
"
dada ao progressivo desnudamento e nunca a sossegadas INTRODUÇÃO
conclusões. Tratar, ensinar, ajudar são ações que exigem
de seu praticante um eterno voltar-se à origem do gesto.
LIVRAI-NOS DO MAL?
Guggenbühl compele o sujeito ingênuo a examinar-se num
espelho implacável que desmascare persistentemente a
vontade de poder que sutilmente se disfarça de huma-
nismo desinteressado, um espelho apto a delatar o lobo
escondido sob pelagem macia de cordeiro.
O Abuso do Poder na Psicoterapia estabelece a origem
da ética terapêutica, médica, pedagógica ou assistencial
não em códigos oficiais, mas no honesto reconhecimento
A maioria das profissões, de uma forma ou outra ,
de intenções sombrias inconfessas. Simples como a luz do
presta um serviço à saúde e ao bem-estar da humanidade.
dia, e no entanto tão difícil de realizar como descer um
Porém as atividades do médico, do padre, do professor,
barranco numa noite escura.
do psicoterapeuta e do assistente social envolvem um
Este livro é uma lição de análise, seus percalços e
trabalho especializado e deliberado para ajudar os
seus perigos. Fiel a seu tema, o 'autor não assume ares
infelizes, os doentes, aqueles que de algum modo se
de quem tudo sabe, mas de quem choca. Detecta, delata,
perderam.'Nos capítulos que seguem, gostaria de exa-
constrange, envergonha, ridiculariza e por fim explica.
minar como e por que os membros dessas "profissões de
Suas conclusões são banhos de água fria que nos ensopam
ajuda" podem também causar enormes danos, devido a
a roupa de trabalho.
seu próprio desejo de ajudar.
Pela via do choque, este livro contribui para que os
Sou médico psicoterapeuta. Ao preparar relatórios
profissionais da ajuda se tornem mais conscientes do que
psiquiátricos, entro em contato regular com assisten-
de fato fazem. Mas não caiamos mais uma vez na ilusão
tes sociais e freqüentemente me sinto um deles. Vários
de acreditar numa resolução suficiente e aceitável dos in-
pacientes meus são professores e clérigos. Ao escrever
calculáveis perigos do poder, princípio antagônico, na visão
este livro, procurei encarar os problemas existentes
de Jung, ao de Eros. A negatividade que emana do poder
também em mim e não apenas nos outros. É por essa
exercido sem a contrapartida de Eros e da autoconsciência
razão que me concentrei especialmente nos problemas
só pode ser percebida pela remoção constante e contínua
de poder do médico e do psicoterapeuta. Entretanto, para
a
das camadas que dissimulam. E isso a consciência só é
introduzir a questão da destrutividade nas profissões de
capaz de perceber se adotar Eros como contraponto.
ajuda, explorei um pouco os antecedentes psicológicos
Eros é a única cura para a patologia do poder. É sua
do serviço social e abordei as atividades dos religiosos e
medida, seu norte e seu limite. Eros é a nudez do poder
professores.
e sua possível evolução.
Contudo, ao referir-me aos médicos e psicoterapeutas
Roberto Gambini
São Paulo, 2004 é que tento explorar em detalhe a possibilidade de superar

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8
os problemas fundamentais dessas profissões. Q que eu fenômenos como transferência, contratransferência e
i,'
queria mesmo era arrumar minha própria casa, deixan- relacionamento entre analista e analisando. O analis-
do que meus vizinhos cuidassem das suas. Ocorre, porém, ta, portanto, trabalha com uma forma especializada de
que o problema do poder e seu exercício é semelhante em psicoterapia. Os problemas de poder com que se defron-
todas as profissões de ajuda, ainda que cada uma possua tam este e o psicoterapeuta em geral são basicamente
características específicas. Este pequeno livro dii:-ige-se os mesmos. Para o leitor, portanto, não deve fazer muita
assim não apenas a médicos e psicoterapeutas, mas diferença se numa passagem em particular nos referimos
também a assistentes sociais, professores e ao clero. Por a psicoterapia ou análise.
essa razão, procurei utilizar o menor número possível de Para concluir este prefácio: nós, das profissões de
termos psicológicos especializados. Nos casos em que isso ajuda, não ficaremos nunca livres do mal. Mas podemos
não foi possível, acrescentei uma pequena explicação do aprender a lidar com ele.
termo em questão.
Espero que alguém ligado a uma profissão de ajuda
distinta da medicina procure a seu modo lidar em maior
profundidade com os problemas básicos e pessoais de seu
próprio campo, indicando as soluções que lhe parecerem
possíveis.
As referências bibliográficas estão praticamente
ausentes neste livro. Meu objetivo central não é estimular
o leitor a ler ainda mais, mas antes fazer com que se volte
para dentro e examine a si próprio. Evitei igualmente
tentar provar minhas asserções citando experimentos,
estatísticas e trechos de outros autores. Espero que a
apresentação de minhas próprias experiências e das que
tive com meus colegas e colaboradores seja estimulante
para o leitor. Não estou necessariamente interessado
em provar que tenho razão.
Nas páginas que seguem, é freqüente o uso das
palavras análise, psicoterapia, analista e psicotera-
peuta. Para evitar equívocos: psicoterapia para mim
quer dizer, em termos bastante amplos, um tratamento
que lida com a psique, desde a orientação psicológica
de apenas poucas horas até uma análise prolongada de
algumas centenas de horas, na qual são exploradas as
profundezas do inconsciente e discutid'os em detalhe

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SERVIÇO SOCIAL E INQUISIÇÃO ou dissipação do patrimônio familiar pode ser colocada
sob tutela.
Segundo as leis da Suíça e de muitos outros países,
não é sempre que o assistente social pode interferir onde
e quando julgar necessário; há, porém, várias situações
em que certas medidas podem ser tomadas contra os pais
em benefício dos filhos. Um adulto colocado sob tutela,
por exemplo, não pode agir contrariamente ao que for
estabelecido pelo assistente social responsável. E jovens
menores de ·18 anos .que tenham cometido até mesmo
uma leve infração podem ser forçados a submeter-se à
No trabalho social muitas vezes é necessário agir orientação das autoridades competentes.
contra a vontade do cliente, visto que com bastante fre- É preciso ter muita convicção para agir contra a von-
qüência este não é capaz de reconhecer o que é bom para tade de um cliente. Deve-se estar seguro de que as próprias
si. Em certas circunstâncias, o assistente social dispõe de idéias estão corretas. O seguinte caso pode ilustrar esse
meio!:> legais para executar medidas desse tipo com base ponto: uma garota de 17 anos, que chamaremos deAna, vivia
em seu próprio julgamento - e eles sempre reclamam com a mãe duas vezes divorciada. Após o segundo divórcio,
quando tais meios não podem ser utilizados. Por exemplo, ','
ela foi colocada sob tutela (em decorrência de reclamações
as crianças maltratadas ou abandonadas pelos pais podem apresentadas por pessoas ligadas à família). Parecia existir
ser removidas de casa. Freqüentemente, porém, apesar de uma dependência pouco sadia entre mãe e filha, sendo esta
estar perfeitamente claro para as autoridades que uma completamente mimada. Ao sair da escola, Ana teve vários
criança sofre os efeitos de condições desfavoráveis, não há empregos sem importância e por fim parou de trabalhar.
uma base legal para se interferir no caso. Só mais tarde , Apesar de lamentar o comportamento da filha, a mãe pare-
quando o então adolescente talvez entre em conflito com cia apoiar sua inatividade, sem dúvida por não querer que
a lei na qualidade de delinqüente, é que surge a oportu- ela crescesse e se tornasse independente. O assistente social
nidade de pôr em prática as devidas medidas contra a que meticulosamente estudou o caso chegou à conclusão,
vontade, seja do jovem, seja de seus pais. Várias pessoas juntamente com um psiquiatra, de que mãe e filha deveriam
que trabalham com serviço social lamentam o fato de que ser separadas. A saúde mental da garota estava em risco.
muitas vezes só se pode agir quandojá é tarde demais, ao E o fato de que ambas resistissem à idéia de separação
lado da extrema dificuldade de afastar os filhos dos pais não deveria absolutamente ser levado em conta~
em seu próprio benefício. Mesmo após a separação, foi impossível aumentar
Adotar medidas coercivas contra adultos é ainda mais o interesse de Ana pelo trabalho. Tudo parecia indicar
difícil. Na Suíça? porém, uma pessoa que tenha colocado que ela preferia deixar que os homens cuidassem de seu
a si ou a sua família em situação de perigo, desgraça ou sustento. Para evitar o recurso à prostituição, sua tutela
penúria devido a esbanjamento, alcoolismo, depravação foi prolongada até que completasse 20 anos.
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Os profissionais envolvidos concordavam todos que o devesse ser a pedra fundamental de nossas ações. Mas a
caso tinha sido tratado corretam ente sob todos os pontos filosofia de "normalidade e ajuste social" nem sempredes-
de vista. Em que se baseava essa certeza? Não devemos frutou sua atual predominância. Os cristãos primitivos e
esquecer que certas medidas foram tomadas contra a medievais, por exemplo, tinham um ponto de vista bastan-
vontade declarada das pessoas interessadas. te diverso. Seu alvo primordial não era produzir pessoas
Aatividade do assistente social se baseia numa filoso- saudáveis, não-neuróticas e socialmente ajustadas, mas
fia oriunda do Iluminismo, a qual sustenta que as pessoas salvar suas almas e ajudar os outros a alcançar ° Reino
podem e devem ser racionais e socialmente adaptadas e dos Céus. Conceitos como emocionalmente sadio ou não,
que o objetivo da vida consiste num desenvolvimento até socialmente ajustado ou desajustado, relações interpes-
c~rto ponto "normal" e feliz dentro dos limites do poten- soais, independência em relação aos pais etc. ou tinham
cIal da pessoa. Um bebê tratado por uma mãe carinhosa um papel muito secundário ou não tinham mesmo papel
deveria assim tornar-se uma criança satisfeita, cabendo algum. O modo pelo qual um cristão, até a Idade Média,
ao pai responsável assegurar-lhe uma juventude alegre procurava a salvação de sua alma hoje seria considerado
e sau~ável. Depois de um período feliz na escola, o jovem como parcialmente neurótico e socialmente desajustado.
devepa gradualmente desligar-se dos pais, abraçar uma Os modelos prevalecentes eram os santos, pessoas que
profissão e, na qualidade de indivíduo não-neurótico nada temiam em sua tentativa de chegar a Deus por seu
equilibrado e socialmente ajustado, escolher uma mu~ próprio caminho. Havia, por exemplo, os assim chamados
lher com quem por sua vez terá filhos, os quais como estilitas ou santos do pilar, piedosos cristãos do Oriente
pai satisfeito, conduzirá à maturidade. Quando o~ filhos Médio que procuravam servir a Deus passando a maior
estiverem crescidos e começarem a formar suas próprias parte da vida no topo de uma montanha. Estes, assim
famílÜ;l.S, ele sentirá a alegria de ser avô. como certos homens de Deus que viviam como eremitas
O objetivo de todos os nossos esforços, segundo essa no deserto, não eram por certo muito bem ajustados ou
filosofia básica, é criar pessoas saudáveis, socialmente socialmente integrados. Os santos que distribuíam todos
ajustadas e felizes em seus relacionamentos pessoais. O os seus bens materiais aos pobres e viviam como mendi-
desenvolvimento neurótico, o desajuste social, a excen- gos seriam, de .acordo com o artigo 370 do Código Civil
tricidade e o relacionamento familiar atípico devem ser Suíço, postos sob tutela por se colocarem em condições
evitados e combatidos. Se a pessoa não se torna feliz e de infortúnio e destituição. Segundo nossa filosofia de
normal nesses termos, presume-se que algo de errado deve normalidade e ajustamento, os ascetas que jejuavam e se
ter. ocorrido na infância. Se educadas "adequadamente", as mortificavam seriam quando muito vistos como excêntri-
crIanças tornam-me adultos equilibrados e felizes. Deve- cos infelizes, ou então como doentes mentais necessitando
se estar atento para que o desenvolvimento transcorra de de tratamento.
acordo com esses conceitos amplamente aceitos, com ou Quando o Cristianismo assumiu sua forma medieval,
sem o assentimento do indivíduo. muitos não puderam esposar seus princípios predominan-
À primeira vista, parece inquestionável que tal filo- tes. Para estes, havia outros valores importantes além da
sofia, aqui apresentada de forma um tanto simplificada, salvação da alma no sentido cristão - atitude esta que
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em muitos casos se tornou fatal. Em certos momentos e fazê-lo até mesmo quando nossa ajuda é rejeitada pe-
sob certas circunstâncias, aqueles que assim recusavam los interessados. Em geral, impingimos certa concepção
os padrões coletivos ou advogavam uma diferente hierar- de vida, quer os outros concordem ou não. Preferimos
quia de valores eram perseguidos, martirizados e mortos não reconhecer o direito à doença, à neurose, a relações
pela Igreja oficial. Hoje a palavra "inquisição" tem uma familiares não saudáveis, à degeneração social e à excen-
conotação sinistra. Mas os inquisidores cristãos podiam tricidade.
justificar seus feitos com absoluta convicção e eram tidos Os paralelismos entre a Inquisição e o serviço social
como bem-intencionados tanto a seus próprios olhos como não devem ser tomados de modo excessivamente literal.
pela sociedade. Certos cristãos proeminentes tinham O que quero dizer é que manipular nossos semelhantes
absoluta certeza de que seu entendimento sobre a salva- contra sua vontade, mesmo quando isso nos parece a única
ção da alma era o único correto. Nesse sentido, os inquisi- via adequada, pode ser altamente problemático. Nunca se
dores tinham uma dupla missão: por um lado, proteger a pode saber ao certo qual o sentido real de uma vida huma-
sociedade como um todo de perigosas heresias tidas como na individual. O objetivo da individuação e dos esforços
o mais grave perigo para a alma, e por outro proteger os coletivos aparece sob um ângulo distinto para diferentes
hereges de sua própria e iminente danação. Mediante o pessoas em diferentes épocas. Nossos valores atuais não
choque da prisão e da tortura, estes eram forçados a per- são únicos nem definitivos. Talvez daqui a duzentos anos
ceber que suas almas precisavam de salvação. O perigo eles sejam vistos como primitivos e ridículos. Atualmente,
para a ~ociedade era eliminado queimando-se a pessoa em existem certos movimentos no interior da sociedade oci-
questão. Mesmo se admitisse diante das chamas o erro de dental que desprezam e combatem os valores de normali-
seu modo de agir, o relapso herege seria da mesma forma dade e ajustamento social. Os hippies, com todas as suas
queimado para salvar-se de eventuais recaídas - receben- variações e subgrupos, são um bom exemplo. Os andarilhos
do, porém, em tempo a mercê do estrangulamento. Assim cabeludos que partem em peregrinação até a Índia, man-
a tarefa básica da Inquisição não era nem perseguir, nem tendo-se à base de trabalho ocasional ou mendicância e
torturar, nem matar; seu sublime objetivo consistia em encontrando a felicidade no haxixe, por certo não encaram
proteger e ajudar a humanidade em geral e o indivíduo a normalidade social como alvo de sua vida.
em particular. E os inquisidores acreditavam que todos A consciência do caráter questionável de nosso siste-
os meios possíveis se justificavam para promulgar a ma de valores deveria nos tornar mais cautelosos quando
doutrina oficial, a única correta. tentamos impingi-lo aos outros. A esse respeito, os inqui-
Não se pode evidentemente afirmar que o serviço sidores eram bem pouco escrupulosos. Em retrospecto,
social de hoje descende da Inquisição medieval; a fogueira achamos que teria sido melhor se eles tivessem se apro-
e a tortura já não são mais usadas. Procura-se comba- fundado um pouco mais nas motivações que orientavam
ter situações familiares não ~audáveis, corrigir estru- suas ações. Ao estudar a Inquisição hoje, dificilmente se
turas sociais insatisfatórias, ajustar os desajustados pode deixar de suspeitar que os impulsos psicológicos que
- em suma, procuramos impor aquilo que consideramos motivavam eSses santos cruzados não eram tão puros
"correto" para os outros. E freqüentemente tentamos quanto pretendiam e declaravam; parece-me claro que

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por trás havia muita crueldade inconsciente e um enorme tivações obscuras, mais o profissional parece apegar-se
desejo de poder. . a uma suposta "objetividade". Nesse caso, a discussão
Para muitos de nós, a Inquisição medieval representa sobre que atitudes tomar torna-se deslavadamente dog-
o epítome de uma ânsia· de poder sádica e oficialmente mática, como se só pudesse haver uma solução correta
sancionada. No serviço social moderno, nossos motivos para o problema. Um assistente social muito inteligente
por certo são melhores quando às vezes impomos a um que fazia análise comigo certa vez declarou: "Sempre que
indivíduo algo que ele próprio rejeita. Ou será que não? consigo provar a meus colegas que determinada medida
Durante vários anos de trabalho analítico com assistentes impositiva é tão absolutamente certa como dois e dois são
sociais notei repetidas vezes que, quando algo deve ser quatro, tenho sonhos desagradáveis à noite e as opiniões
imposto pelaforça, a motivação consciente e inconsciente divergentes se transformam em ataques pessoais".
das pessoas envolvidas é multifacetada. Um sinistro desejo Todos os que atuam nas profissões sociais, trabalhan-
de poder furtivarpente espreita por trás das aparências; do para "ajudar a humanidade", apresentam motivações
sonhos e fantasias revelam motivos que a consciência pre- psicológicas extremamente ambíguas para as suas ações;
fere ignorar. Determinado assistente social, por exemplo, Em sua própria consciência e diante do mundo, o assisten-
sonhou que passava com seu carro por cima de uma pessoa, te social vê-se forçado a encarar o desejo de ajudar como
a qui:lm, na verdade, havia imposto certas coisas. No sonho sendo sua motivação primordial. Mas nas profundezas de
ele temia que descobrissem a intencionalidade de sua ação. sua alma o oposto simultaneamente se constela _. não o
E nem mesmo as emoções abertamente expressas durante . i~
desejo de ajudar, mas o de ter poder e sentir alegria em
a psicoterapia indicavam um puro desejo de ·ajudar. .<.,

despotencializar o "cliente". .... .


"Estávamos sentados frente a frente e ela insistia Especialmente nos casos em que o assistente social é
em me contradizer. Tive vontade de lhe mostrar no fim forçado a operar contra a vontade do interessado, a análise
das contas quem é que mandava. Ela não percebia que cuidadosa das profundezas do inconsciente revela que o
não podia fazer nada contra a minha vontade." Declara- desejo de poder é um fator extremamente importante. De
ções desse tipo, por parte de assistentes sociais, descrevem modo geral, este pode agir livremente quando acobertado
com bastante precisão a situação emocional subjacente. pela fachada de retidão moral e objetividade. A crueldade
Freqüentemente, o problema em questão parece ser não chega ao extremo quando as pessoas fàzem dela um ins·-
o bem-estar do protegido, mas o poder do protetor. A im- trumento para assegurar o "bem" . Na vida cotidiana, a
posição de uma medida criteriosamente justificada contra consciência nos incomoda quando nos entregamos além
a vontade do interessado costuma produzir profunda da conta ao desejo de poder. Mas o sentimento de culpa
satisfação no profissional que trata do caso - a mesma desaparece por completo da consciência quando nossas
que sente um menino de escola que consegue bater em ações, ainda que inconscientemente motivadas pelo de-
outro e provar sua força, pensando: "Agora ele aprendeu sejo de poder, são conscientemente justificadas por algo
que é melhor não se meter comigo". supostamente correto e bom.
Outro fenômeno psicológico muito interessante me O problema da "sombra do poder" é, portanto, de
impressionou. Quanto maior sua contaminação por mo- suprema importância para o assistente social, o qual por
18 19
vezes se vê obrigado a tomar decisões fundamentais con- normal. Em lugar de sujeitar-se à penalidade estipulada
tra a vontade dos indivíduos diretamente interessados. por lei, o jovem estaria pedagogicamente à mercê das
Mas neste ponto seria bom evitar equívocos, pois ninguém autoridades, que presumivelmente procurariam forçá-lo
age por motivos completamente puros. Mesmo os feitos a mudar por meio da reeducação.
mais nobres se baseiam em motivações ao mesmo tempo Aqui se podem dar asas à imaginação. Numerosos
puras e impuras', luminosas e sombrias. Por causa disso, assistentes sociais e alguns juristas interessados vêm pro-
muitas pessoas e suas ações são injustamente ridicula- pondo que o Código Penal como um todo seja reformulado,
rizad,as ou mal entendidas. O filantropo generoso quase eliminando-se por completo as penalidades específicas
sempre é motivado, dentre outras coisas, pelo desejo de e mantendo-se unicamente as medidas educativas. Em
ser respeitado e honrado pela generosidade que ostenta. vez de punido, o infrator seria reeducado para tornar-se
N em por isso sua filantropia tem menos valor. Analoga- socialmente ajustado. Isso significa que qualquer cidadão
mente, um assistente social movido pelo desejo de poder que violasse a lei poderia ser examinado no que concerne
pode ainda assim tomar decisões úteis para um cliente. a seu caráter e suas atitudes sociais; caso fosse apurado
Mas existe um grande perigo: quanto mais este se iludir que seu caráter não corresponde aos padrões e valores de
que opera exclusivamente a partir de razões altruístas, seus examinadores, ele poderia ser forçado a receber uma
mais sua sombra de poder se tornará influente, acabando educação que o transformasse interiormente. Formulando
por traí-lo E( levando-o a tomar decisões altamente ques- mais precisamente a questão: sob certas circunstâncias, a
tionáveis. violação de uma norma de estacionamento público poderia
N a Suíça, há quem advogue a extensão do Código Pe- levar a vários anos de reabilitação! O assistente social
nal do Menor para além dos 20 anos. Pode-se questionar se encarregado de encaminhar ou executar tais medidas es-
esse ponto de vista, como outros similares, não seria uma taria de posse de inigualável poder. Por essa razão é que
expressão da sombra de poder do assistente social (que sugeri acima que essas propostas de reforma poderiam
naturalmente também se encontra em profissões afins, em parte expressar a existência de uma sombra de poder
como o promotor público, o juiz de menores delinqüentes generalizada.
etc.). O Código Penal do Menor impede a aplicação de uma Volta e meia me impressiono com a dificuldade que
penalidade formal sobre o jovem contraventor, enfatizan- assistentes sociais dedicados têm em aceitar a forte pro-
do a necessidade de re'educação ou reabilitação. Mas ao teção que cerca o direito dos pais. Na Suíça, mesmo que
mesmo tempo - e isso é inevitável- submete-o à vontade as autoridades acreditem como algo evidente que certas
mais ou menos arbitrária das autoridades competentes. crianças estão sendo mal-educadas por seus pais e que
Se esse Código passasse a abranger pessoas até a idade com toda a probabilidade terão sérias dificuldades no
de 25 anos, por exemplo, um jovem de 22 que cometesse até futuro, só se pode intervir quando se trata de um caso de
mesmo uma leve infração não poderia meramente pagar patente negligência ou maus-tratos. "Mas isso não faz o
por seu crime, mas seria forçado a aceitar um programa menor sentido", sustentam inúmeros assistentes sociais.
de reabilitação mais longo e duro que a punição corres- "Deveria ser possível brecar os pais antes que arruínem
pondente para adultos estabelecida pelo Código, Penal os filhos!"
20 21
Novamente surge a questão de saber se por trás com a corda no pescoço. E então, ao receber orientação,
dessa'eloqüente reivindicação de uma chance de intervir escutam atentamente e depois fazem tudo ao contrário,
não se esconde a sombra de poder do assistente social. só voltando. quando suas ações acabam criando uma
Uma profissional se empenhou bastante em afastar uma situação calamitosa. Ficam então furiosos com esse
criança de seus pais, por ela considerados completamente comportamento, deplorando a inexistência de meios que
inadequados, fracassando por falta: de base legal. Ao me garantam a obediência a seus conselhos. Mas serão essa
relatar tal fato, ela disse com admirável ingenuidade: raiva e essa queixa realmente uma expressão de eros
"A coisa mais forte que sinto agora é fúria e ódio desses social, ou apenas uma pretensão frustrada de poder?
pais. Gostaria realmente de lhes dizer umas boas!" Sua O verdadeiro eros não tem nada a ver com a vontade
frustração por não ter podido mostrar-se mais forte de impor nosso próprio plano e nossas próprias idéias
que os pais 'era muito maior que sua pena por não ter sobre os outros.
podido ajudar a criança. A presença de um problema de poder no campo dó
Para ilustrar esse ponto de modo ainda mais claro, serviço social é também confirmada pelo seguinte: a
gostaria de voltar ao caso de Ana. Naquela ocasião, fa- estrutura básica da maioria das profissões é refleti da
zia-se necessário um exame completo de nossas próprias pela opinião pública. Existem pontos de vista coletivos
motivações. Talvez não se tivesse tanta certeza assim bastante definidos sobre o caráter profissional de assis-
de que algo benéfico resultaria da separação. Reconhe- tentes sociais, médicos, padres, advogados, políticos etc.
cidamente, ela e a mãe tinham um relacionamento pouco A imagem coletiva é usualmente dúplice, com um lado
sadio. Mas podia ser que nossa interferência forçada fi- sombrio e outro luminoso. Em geral, a imagem coletiva
.
zesse mais mal do que bem. Como já tentei indicar, nossas
idéias de saúde e normalidade podem não representar a
negativa de uma profissão particular é mais unitária e
padronizada que. sua contrapartida positiva. Os padres
sabedoria absoluta. Não poderia a filha viver uma vida são vistos como hipócritas, os professores como infantis
significativa mesmo ligada à mãe? Seríamos nós mais e fora do mundo, os médicos como charlatães e assim
capazes do que elas de vislumbrar o que viria a ser uma por diante. Naturalmente, essas imagens positivas e
vida "significativa"? Queríamos realmente ajudá-las? Ou negativas devem ao menos em parte ser encaradas como
nos havíamos tornado vítimas de nossos próprios impul- preconceitos. Mas, se examinadas com cuidado, muitas
sos inconscientes de poder? Eu até iria mais longe: por vezes essas idéias coletivas revelam reflexões válidas,
que estávamos tão certos de que seria absolutamente ainda que distorcidas, das profissões em causa.
correto prolongar a tutela dajovem para além dos 20 anos O problema da sombra de poder, desempenha um
para salvá-la da prostituição? Poderíamos de fato saber papel proeminente na imagem coletiva negativa do assis-
se colocá-la em tal posição não acabaria lhe causando um tente social. Nela este aparece como alguém que interfere
grande mal? Na verdade, nem a tutela prolongada nem sempre que possível, forçando sua vontade sobre os outros
um ano num reformatório. mudaram seu comportamento. sem de fato entender o que se passa, procurando pôr tudo
Os assistentes sociais costumam lamentar que as pessoas nos eixos segundo padrões estreitos, moralistas e burgue-
só procuram as autoridades competentes quando já estão ses, alguém movido por um desmedido gosto pelo poder,

22 23
que se" sente insultado e pode se tornar malévolo se este se vê totalmente impotente. Apenas muito vagamente
não for reconhecido. pode ele então perceber que sua alma foi radiografada e
Concretizada numa situação, essa "mitologia ne- que, indiretamente, o mais íntimo de seu ser foi revelado
gativa" do assistente social seria algo mais ou menos àqueles que supostamente irão ajudá-lo. O assistente
assim: às dez da manhã ela (ou ele) bate à porta de um social torna-se assim capaz de dizer a uma mulher que
apartamento; entra, bisbilhotei a um pouco e observa se diz amar seu filho que na verdade ela nem se liga a ele.
as camas estão feitas e a louça da noite anterior lavada. Como poderá dizer a urnjovem que desesperadamente vem
A dona da casa ainda não está arrumada; de penhoar, ela resistindo a vários anos de reabilitação que na verdade ele
apenas inicia sua faxina diária. Com base nessa visita, gosta de ter certas limitações. O indivíduo em questão já
a assistente social conclui que a família em questão não não tem mais nada a dizer, pois o raio X do assistente social
está suficientemente ajustada para manter o filho adoti- enxergou através dele. .
voo Este, amado com paixão pelos pais adotivos, é levado Este ponto já toca nos problemas de sombra de outra
embora para ser colocado numa casa burguesa adequada. profissão, a do psicoterapeuta, na verdade o foco deste
A opinião da assistente social é negativa devido não só à livro. Voltaremos ao assunto no próximo capítulo. Antes
desordem que viu, mas também porque a dona da casa disso, porém, gostaria de acrescentar algumas reflexões
rejeitou sua interferência e de início até se inclinava a num tom menos negativo.
não deixá-la entrar. As pessoas escolhem a difícil e responsável profissão
Neste ponto, talvez se objete que o que foi dito até de assistente social por várias razões psicológicas que
aqui se aplica quando muito ao profissional antiquado e diferem de um indivíduo para outro. Apesar do acaso
tradicional, que de fato pode ter tido grande sombra de também ter um papel, há certas motivações comuns que
poder, mas que o problema é muito menos agudo no serviço levam a essa escolha. Não me refiro aqui aos que exercem
social moderno. O profissional de hoje, esclarecido e psi- essa profissão cinicamente, apenas como um meio de ga-
cologicamente treinado, procura compreender e ajudar os nhar a vida. Para estes, de qualquer forma, o problema
outros com base em seu conhecimento psicológico - tanto da sombra de poder não é especialmente agudo. Os assis-
que suas atitudes básicas e as do psicoterapeuta já nem tentes sociais assíduos, entusiásticos e verdadeiramente
diferem tanto. Segundo minha experiência, entretanto, devotados é que costumam tornar-se vítimas da sombra
conhecer um pouco de psicologia pode refinar o problema de poder. O indivíduo cínico e indiferente simplesmente
de poder, mas de modo algum eliminá-lo. Com efe'ito, tal desempenha suas tarefas de modo formal e correto, não
conhecimento pode em larga medida ser colocado a ser- se sentindo atingido pelos aspectos positivos ou negativos
viço da sombra de poder, criando uma situação na qual o de seu trabalho.
cliente é destituído do controle de sua própria alma. Não O que leva uma pessoa a se in~eressar pelo lado
apenas a situação social 'e financeira do cliente mas sua escuro da vida social? O que é que lhe torna possível li-
própria psicologia tornam-se transparentes e manipuláveis dar dia após dia com pessoas infelizes, desafortunadas e
pelo assistente social. E quando os testes psicológicos são desajustadas? O que tanto lhe fascina nesse lado depri-
adicionados à sua bateria de instrumentos, o infeliz cliente mente da vida? Em última análise, essa pessoa deve ser
24 25
r,
~

de um tipo espeçial. O indivíduo medianamente "sadio" PSICOTERAPEUTA:


prefere ignorar e esquecer os infortúnios e sofrimentos de CHARLATÃO E FALSO PROFETA
seus semelhantes quando não se encontra diretamente
envolvido, ou talvez olhar para eles esporadicamente,
de uma boa distância, por meio do jornal e da televisão.
Somente uns poucos procuram expor-se diariamente aos
problemas alheios; a maioria das pessoas se limita a seus
próprios. Dizer que os assistentes sociais são pessoas
abençoadas com um amor pelos semelhantes maior que o ;L
normal não nos leva a parte alguma, pois não é verdade.
Tampouco são eles cristãos fervorosos para quem o amor
ao próximo, expresso no ato de ajudar os desafortunados, A psicoterapia, na sua forma atual, é relativamente
é o mandamento supremo de Deus. Ao mesmo tempo, não jovem. Os modelos em que se baseiam as atividades do
devemos encarar o desejo de ajudar como apenas uma terapeuta derivam de várias outras profissões e só podem
racionalização do ser compreendidos em relação a artes mais antigas.
, lado sombrio da profissão ' ou seia
~ , do
desejo de poder. E sem dúvida muito tentador reduzir algo Quer se queira ou não, a psicoterapia de fato se liga à
admirável a algo nem tanto. Vários estudos psicológicos medicina. Os modelos profissionais e éticos que guiam o
têm procurado demonstrar que uma expressão de eros, médico são em parte os mesmos do psicoterapeuta, assim
por exemplo, não passa de sublimação de algum instinto como o lado sombrio do analista até certo ponto tem a ver
menos elevado. Dessa perspectiva, :0 pintor não passa de com o caráter médico de seu trabalho.
um rabiscador infantil, o professor de um sedutor de crian- . O médico tem por objetivo ajudar os doentes e os
ças reprimido, o psicoterapeuta de ·um voyeur etc. que sofrem. O juramento de Hipócrates diz: "O regime
A pessoa que escolhe como trabalho de uma vida o que adoto será para o bem de meu paciente segundo
confronto diário com algumas das polaridades fundamen- minha habilidade e julgamento e nunca para lhe causar
tais da humanidade - ajustamento/desqjustamento, sofrimento ou dor ... Aonde quer que eu vá, irei para o
sucesso social/fracasso social, saúde mental/doença men- bem do enfermo, afastando-me da corrupção e do mal. ..
tal- deve ser um tipo muito especial. Os que atuam nas minha vida e minha arte serão sagradas para mim". Em
profissões de ajuda certamente se sentem mais fascinaçlos suas linhas gerais, essa edificante concepção do médico
por essas polaridades que todos os demais. é bastante difundida no Ocidente.
O lado sombrio da atividade do médico não consta
desse juramento. Esse aspecto foi habilmente caricatu-
rado por Jules Romain em sua peça· O Dr. Knock. Esse
personagem não tem o menor desejo de curar os demais
de modo desinteressado; usa seus conhecimentos médicos
em proveito próprio, não hesitando em provocar doenças

26 27
r
I; ."

em pessoas até então sadias. Segundo sua filosofia "não As ponderadas recomendações de Arquimateu de
há pessoas sadias, mas apenas doentes que ignora~ seu Salerno, médico do século XI, nos fornecem um bom
m~l". ~ Dr. ~ock é um charlatão. Esse termo, para exem pIo histórico do modo como funciona essa sombra
mIm, nao desIgna alguém que use métodos não-ortodoxos charlatã: "Ao paciente, promete a cura; aos membros
ou extra-oficiais para ajudar os necessitados, mas sim um de sua família, anuncia uma grave enfermidade. Se o
t~po de médico que na melhor das hipóteses engana tanto a paciente não se recuperar, dirão que previste sua morte;
SI como a seus pacientes, ou, na pior, apenas a seus pacien- se alcançar a cura, teu renome crescerá".
tes. Trata-se de um indivíduo que ajuda mais a si mesmo Apenas em parte, porém, busca o psicoterapeuta
pelo dinheiro e prestígio que recebe, do que aos doentes qu~ seu modelo no campo da medicina. Outra vocação, a do
procuram seus préstimos. Compreendidas nesse sentido sacerdote, também influencia seus ideais.
as atividades de um charlatão podem, conforme o caso: A imagem do homem de Deus sofreu várias mudanças
ser benéficas, maléficas ou inteiramente neutras. no decorrer da história e não é sempre a mesma nas diver-
O charlatanismo é um tipo de ~sombra que acompa- sas religiões. A mais importante para nossos propósitos
nha permanentemente o médico. E um de seus irmãos é a do líder religioso na tradição judaico-cristã. Acredita-
sombrios e como tal pode viver dentro ou fora dele. Al- se que este, pelo menos às vezes, entra em contato com
guns médicos vêem essa sombra apenas na pessoa de um Deus. Não se espera, é claro, que todos os clérigos, como os
obscuro curandeiro, mas o fato é que, em sua maioria, profetas do Velho Testamento, recebam sua vocação dire-
acabam eles mesmos se tornando vítimas da sombra de tamente da Divindade, mas que procurem honestamente
charlatão 1;10 decorrer de suas atividades profissionais. agir em nome de Deus e conforme sua vontade.
Os próprios pacientes exercem considerável pressão para O lado sombrio dessa nobre imagem do homem de
que o médico traia o modelo hipocrático e passe a agir Deus é o hipócrita, aquele que prega não porque acredita,
como um Dr. Knock. Em geral, as infindáveis queixas mas para ter influência e poder. Assim como no caso do
de caráter indeterminado que o clínico geral ouve a cada médico e seus pacientes, com o clérigo também ocorre
dia, para as quais ainda não foi descoberta uma terapia serem os membros de sua congregação os responsáveis in-
genuína - fadiga crônica, certas dores nas costas e nas voluntários pela ativação do irmão obscuro, pois exercem
juntas, vagas perturbações cardíacas e estomacais, dor considerável pressão para que ele desempenhe o papel de
de cabeça permanente etc. - , costumam ser tratadas por hipócrita. A dúvida é companheira da fé. Mas ninguém
meios não-científicos. À medida que deixa de esclarecer quer ouvi-la da boca de um sacerdote - as nossas já bas-
aos pacientes os componentes emocionais de males em tam. Assim, este acaba não tendo outra alternativa a não
grande parte psíquicos na origem, o médico comum acaba ser tornar-se hipócrita de quando em vez, escondendo suas
po:- ~stimulá-Ios a enfatizar ainda mais os aspectos so- próprias dúvidas e mascarando um momentâneo vazio
matIcos de seus problemas emocionais. Caso os sintomas interior com palavras eloqüentes. Se seu caráter for fraco,
aumentem, ele será visto como um grande médico; caso este poderá tornar-se um traço habitual.
regridam, é óbvio que o paciente não soube observar suas Em termos ideais, o homem de Deus deve testemu-
instruções. nhar sua fé com seus próprios atos. O que ele prega não
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I 29
pode ser provado. É por meio de seu próprio comporta-
tragens estatísticas, é muito difícil fazer julgamentos qua-
mento que deverá surgir um fundamento para a fé que
litativos sobre o desenvolvimento dos distúrbios em questão,
representa. E tal fato abre as portas para outro irmão do
quer sejam eles tratados com psicoterapia intensiva, tran-
sacerdote - aquele que procura parecer ao mundo Ce a
qüilizantes, quer sejam simplesmente ignorados. .
si próprio) melhor do que realmente é.
Talvez os critérios que melhor indiquem o sucesso da
A sombra do _falso profeta acompanha o sacerdote
psicoterapia sejam o grau de proximidade ou distância
por toda a vida. Por vezes, ela aparece externamente,
com relação ao "si-mesmo" ou ao "sentido da vida" ou o
na figura do pregador de alguma seita obscura ou de um
tipo de contato estabelecido com o inconsciente. Mas como
colega que se popularizou por meio da demagogia; por
medir e estudar estatisticamente esses fatores?
outras, é dentro dele mesmo que desponta. Hoje em dia,
Qualquer profissional poderá registrar um trata-
há muitos religiosos que temem essa sombra hipócrita de
mento bem-sucedido se por acaso for procurado na hora
falso profeta. Recusam-se a ser vistos como "homens de
certa, se puder trabalhar com o paciente por temp? sufi-
Deus" a partir de traços interiores ou exteriores e fazem
ciente e se este for alguém que de fato procurava ajuda e
seus sermões sem nenhuma vestimenta especial, numa
que teria melhorado de qualquer jeito, segundo os critérios
atitude de conversa social informal.
que enumeramos. Nesse caso, a sombra de ch~rlatão da
Com bastante freqüência, nós analistas lidamos com
dimensão· médica do arialista pode operar maIS ou me-
distúrbios da saúde - neuroses e psicoses - para os
nos livremente. Além disso, termos como doente e sadio,
quais, tanto em termos de tratamento como de uma possí-
necessitado ou não- de tratamento etc.- costumam ser
vel cura, praticamente não existem controles experimen-
muito mais difíceis de aplicar ao estado emocional de uma
tais reconhecidos. É virtualmente imp·ossível acumular
pessoa do que à sua condição física. O desenvolvimento
estatísticas de tratamentos bem-sucedidos desses males.
psíquico de um indivíduo é altamente complexo e somos
O que vem a ser melhora ou recaída quando se trata
todos de alguma forma neuróticos. O psicoterapeuta que
desses problemas? Deveria o grau de ajustamento social
agisse como o Dr. Knock poderia, sem maior dificuldade,
ser tido como critério? Ou a capacidade de trabalhar? O
provar para meio mundo que todos precisam fazer uma
que significam intensificação, diminuição ou superação
longa análise. A coisa pode ser levada tão longe que quem
de sintomas neuróticos? Os sentimentos subjetivos do
nunca fez análise passa a se sentir meio doente,. ou pelo
paciente? O progresso no desenvolvimento psicológico, no
menos não completamente desenvolvido em termos psi-
processo de individuação, no contato com o inconsciente?
cológicos.
Até mesmo os critérios são incertos, em visível contraste
A sombra do analista se amplia ainda mais devido
com um problema somático bem caracterizado, quando a
ao denominador comum existente entre o seu· ofício e
medida inequívoca de sucesso do tratamento é dada pela
o do sacerdote. Nós analistas, qualquer que seja nossa
recuperação de um funcionamento adequado. No caso de
orientação, não defendemos uma fé específica ou uma
problemas emocionais, incluindo os males psicossomá-
religião organizada, mas, corrio o sacerdote, quase sempre
ticos, os resultados são sempre insatisfatórios, qualquer
recomendamos certa atitude básica diante da vida; Não
que seja o critério utilizado. Mesmo usando amplas amos-
representamos uma filosofia, mas uma psicologia que
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abraçamos por convicção, visto que tanto em nossa vida a pressão que sofremos para apresentá-los melhores do
como em nossa própria análise tivemos experiências que que são; mas, nesse caso, tornamo-nos vítima da sombra
nos persuadiram e nos formaram em termos dessa psi- do psicoterapeuta.
cologia. O analistajunguiano, por exemplo, é alguém que Há ainda outro paralelo com respeito ao padre: nós
viveu o profundo abalo produzido pela confrontação com analistas somos de um modo geral impelidos a desem-
o irracional e o inconsciente. Entretanto, poucos l,nsights penhar um papel de onisciência. Trabalhamos com o
psicolÓgicos podem ser estatisticamente provados no sen- inconsciente, com sonhos e com a psique, esferas em que
tido empírico, só podendo ser confirmados pelo testemu- se manifesta o transcendental- pelo menos na concep-
nho honesto e sincero dos que se empenham na mesma ção dos leigos e até mesmo de alguns terapeutas~Dessa
busca. Nossa única prova é nossa própria experiência e a forma, há toda uma expectativa de que o analista saiba
de outros, uma vez que a realidade psíquica não pode ser mais sobre assuntos fundamentais do que o comum dos
apreendida estatística ou carnalmente como ocorre nas mortais. Se formos fracos, acabaremos por acreditar
ciências naturais. Sob esse aspecto, encontramo-nos em que estamos mais profundamente iniciados na vida e na
posição similar à do sacerdote. Mas essa extremada con- morte do que nossos semelhantes.
fiança na própria experiência pessoal ou alheia inevitavel- Não só imagens mais nobres da medicina e do sa-
mente dá rn'argema sérias dúvidas. E se nós mesmos, ou cerdócio convergem sobre o analista, mas também seus
outros como nós, estivermos enganados? Afinal de contas, aspectos sombrios, o charlatão e o falso profeta.
há muitos psicoterapeutas íntegros que defendem escolas O problema da sombra do analista se intensifica
de pensamento completamente distintas. Estariam todos ainda mais devido a algo que lhe é peculiar e não neces-
se enganando? Seriam todos cegos? Ou talvez a situação sariamente vinculado aos modelos básicos das outras
seria como a descrita no romance de Mary McCarthy, O profissões. Trata-se do fato de que uma de suas tarefas
Grupo, por um psiquiatra decidido a abandonar a profis- consiste em ajudar os pacientes a se tornarem mais
são e pesquisar a bioquímica do cérebro: "É por isso que conscientes.
eu estou caindo fora (da psiquiatria); quem ficar, que Assim como o conhecimento de Deus desempenha
escolha entre ser um cínico ou um impostor ingênuo". um papel central no modelo ideal de sacerdote, e o de
Será que somos capaz~s de admitir essas dúvidas para terapeuta altruísta ria imagem do médico, há no modelo
nós mesmos e para o resto do mundo? Ou será que nós de psicoterapeuta uma figura crucial que poderíamos
psicoterapeutas fazemos com nossas própr,ias dúvidas e vincular ao ato de criar consciência ou de lançar luz. Mas
medos o que faz o sacerdote, suprimindo-os e pondo uma as imagens profissionais sempre têm um aspecto sombrio,
pedra em cima? o qual representa o oposto do ideal luminoso. A sombra
Da mesma forma que o sacerdote, trabalhamos çom profissional do analista contém não apenas o charlatão e
nossa alma, nosso ser; os métodos, as técnicas e o aparato o falso profeta, mas também a contrapartida daquele que
utilizado são secundários. Nós, nossa honestidade e au- ilumina, oU'seja, uma figura que vive imersa no incons-
tenticidade, nosso contato pessoal com o inconsciente e o ciente e visa sempre ao contrário do que conscientemente
,
irracional- são esses os nossos instrumentos. É grande pretende o analista. Temos aí uma situação paradoxal, na

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qual o analista é mais ameaçado pelo inconsciente que o Além disso, há também o problema de que as mani-
não-analista. O psicoterapeuta honesto de vez em quando festações do inconsciente, como as do Oráculo de Delfos,
leva um choque ao descobrir que age inteiramente a partir quase sempre são ambivalentes. O modo de compreen-
do inconsciente em seu trabalho. der o inconsciente acaba assim dependendo do ego. O
Em geral, o analista não recebe aviso algum por par- que aconteceu com Croesus no Oráculo pode acontecer
te de seu paciente de que inconscientemente está sendo com qualquer um de nós; ou seja, podemos interpretar o
destrutivo. É que o próprio paciente busca o charlatão inconsciente segundo os desejos do ego e dessa forma
e o falso profeta no analista e inclusive incentiva esses compreendê-lo mal.
aspectos. Muita~ vezes o terapeuta tem a impressão de Antecipando algo que será desenvolvido mais adian-
que seu trabalho vai indo às mil maravilhas, impressão te, gostaria neste ponto de lembrar o que acontece quando
tanto mais forte quanto mais tenha caído em sua própria se cai sob o poder da sombra profissional.
somora. Assim como o médico é forçado por seus pacientes Exigimos sinceridade de nossos pacientes. Procura-
a desempenhar o papel de charlatão, e o sacerdote o de mos ajudá-los em sua confrontação com o inconsciente
falso profeta por sua congregação, o analista é levado a mediante nossas explicações, nossas interpretações de
esses papéis inconscientes por seus analisandos. sonhos e, acima de tudo, nossas próprias atitudes. Ao
Uma objeção importante poderia ser levantada aqui. olhar de frente nossa própria sombra profissional, mos-
O analista profissionalmente sincero se encontra em per- tramos aos analisandos que os aspectos desagradáveis
manente contatocom seu próprio inconsciente, estudando da vida ta.mbém devem ser reconhecidos. Como procu-
cuidadosamente seus sonhos e quaisquer outras mani- rei indicar, as figuras completamente inconscientes da
festações. Poder-se-ia pensar que isso com toda a certeza sombra de charlatão e falso profeta desempenham um
afastaria o 'papel de charlatão, falso profeta ou analista in- papel muito importante em nosso trabalho analítico e
conscientemente destrutivo. Mas não é assim. Assim como portanto em nosso relacionamento com os pacientes. Se
as demais pessoas, nós analistas também costumamos ter estes forem atingidos por essa sombra, é fundamental
um ponto cego com respeito à nossa própria sombra. Não para o progresso da terapia que sejamos capazes de
a vemos nem em nossos sonhos, nem em nossas ações. admitir diante deles que escorregamos na sombra in-
Freqüentemente, nem mesmo nossos amigos conseguem consciente e profissional, por mais doloroso que possa
vê-la por algum tempo, tornando-se tão cegos quanto nós ser reconhecer tal fato. O paciente, afinal de contas,
mesmos, o que acaba produzindo algo como uma folie à tem de encarar certas revelações dolorosas. Ao procu-
deux. Em tais casos os inimigos podem ser muito úteis e rar detectar a cada passo a atuação de nossa sombra
deveríamos sempre refletir sobre o que dizem. psicoterapêutica, apanhando-a com as mãos na massa,
Seguimos certas regras para interpretar as manifes- auxiliamos nossos pacientes em suas próprias confron-
tações do inconsciente. Em última análise, porém, essa tações com o irmão obscuro. Se deixarmos de fazê-lo, o
interpretação é mais uma arte que um ofíc~o e pode muito paciente aprenderá apenas a enganar a si mesmo e ao
bem ocorrer que nossa própria equação pessoal nos leve resto do mundo, tornando-se assim altamente questio-
a desprezar algo fundamental. nável o próprio valor da análise.

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o problema da sombra profissional se liga a outros atrapalhar a partir dessa posição estratégica. O médico
aspectos fundamentais da atividade terapêutica. Na se torna um charlatão exatamente por querer curar o
qualidade de anlillistas, defrontamo-nos constantemente , :: maior número possível de pessoas; o sacerdote se torna
com o sofrimento e com destinos trágicos e incomuns. um hipócrita por querer converter as pessoas à verdadeira
Com bastante freqüência, o que temos a fazer é ajudar fé; e o psicoterapeuta se torna um charlatão e um falso
uma 'pessoa em dificuldade a compreender a si mesma profeta apesar de trabalhar dia e noite para ampliar sua
.,
tanto quanto possível, não só para que entre em contato . ~:. consciência .
com o inconsciente, mas simplesmente para que suporte Até aqui, minhas afirmações parecem um tanto
os aspectos trágicos da vida em toda a sua incompreen- pessimistas, como as de um pregador calvinista ou de
sibilidade. Para ajudar uma pessoa que sofre devido a um teólogo da velha Islândia - se é que havia teólogos
uma situação existencial trágica - que não se alterará naquele tempo. Odin * faz o que pode, apesar . de saber
mesmo que aumente o contato com o inconsciente - deve- muito bem que as raízes de Iggdrasil, a árvore do mundo,
mos igualmente confrontar nossa própria situação trágica, estão sendo lenta mas inexoravelmente destruídas pela
expressa pelo fato de que quanto mais procuramos ser serpente.
bon.,s psicotlerapeutas, ajudando nossos pacientes a am- Mas a existência dessa sombra também tem aspectos
pliar sua consciência, mais nos ocorre cair no lado oposto menos trágicos. Nem sempre as ações de um terapeuta
de nosso luminoso ideal profissional. que trabalhe a partir da sombra são negativas. Freqüen-
Em certo sentido, o destino dos que lutam por algo temente os charlatães conseguem minorar o sofrimento
- e nossos pacientes são em geral pessoas desse tipo muito mais do que médicos sérios e respeitáveis. E um
- tem uma dimensão inegavelmente trágica. É sempre terapeuta que temporariamente caia no inconsciente e
o oposto do que se quer atingir ou evitar que acaba se trabalhe exclusivamente a partir da sombra pode, pelo
constelando. Isso é verdade tanto em nível coletivo como menos por algum tempo, aparar as arestas mais agudas
individual. A Revolução Francesa pretendia libertar do sofrimento dos pacientes com base em sua precisão e
o homem e deu lugar à tirania napoleônica. No século segurança exterior.
XIX, vários suíços amantes do canto tentaram promo- Um de meus analisandos teve certa vez o seguinte
ver essa atividade fundando corais masculinos; mas, de sonho: num jornal aparecia uma caricatura minha, no
fato, a existência de tais grupos destruiu vor completo o estilo de Daumier, com a seguinte legenda: "Infelizmente
canto como passatempo popular, transformando-o em nosso colega Dr. A. G.-C. fez mau uso da nobre arte da
algo que precisava da estrutura organizada de um coral medicina, portando-se como um charlatão em busca de
dirigido para acontecer. O Cristianismo, pregando a, paz vantagens" .
e o amor, deu origem a cruzadas sanguinárias que no afã Naquela ocasião, não pensei que o sonho de fato se
de conquistar a Terra Santa começaram por exterminar referisse a 'mim e o interpretei como expressão de uma
os judeus da Europa. Como sempre repetia C. Q-. Jung,
sempre que um conteúdo luminoso se instala na cons-
ciência, seu oposto se constela no inconsciente e procura *Referência ao mito germânico. (N. do T.)

36 37
resistência do paciente baseada em preconceitos coletivos recer se o ego, em lugar de posto de lado e eliminado
contra a psicologia, a psicoterapia e o inconsciente. Re- : .'"
como algo insignificante, puder levar adiante o drama de
jeitei a crítica que me era dirigida e o retrato de minha seus envolvimentos.
sombra profissional como uma caricatura à la Daumier, O Rei Édipo tentou desesperadamente viver e agir
encarando-os como um problema subjetivo do paciente. No segundo a vontade dos deuses - ou seja, do inconsciente.
decurso da análise voltamos a esse sonho e percebemos Apolo lhe informou, por meio do oráculo, que derramaria
claramente que ele se referia ao meu próprio problema o sangue do pai e desposaria a mãe. Para evitar tal even-
de sombra profissional. Meu paciente disse que ficou tualidade, o jovem. Édipo abandonou Pólibo, seu pai, e
contente por não termos conseguido compreender o so- Mérope, sua mãe, sem saber que estes não eram seus pais
nho por completo naquela altura. A segurança com que verdadeiros, mas adotivos, pois estes nunca lhe haviam
lhe devolvi o sonho, apesar de este basear-se no meu dito nada sobre sua linhagem. Mas, ao tentar evitar a
próprio inconsciente, produziu um efeito tranqüilizador. horrível e maldita profecia, Édipo cai no pólo oposto. No
Ele disse que naquela ocasião não teria suportado o peso fim da tragédia, autocondenado, ele se vê como· "o mais
de lidar ao mesmo tempo com os meus problemas de amaldiçoado dos homens, odiado por todos os deuses". Ao
sombra e com os dele . vazar os olhos, ele deplora: "Nada restou para ser visto ou
. Posso bem imaginar u~a reação crítica às refle- ser amado. Nunca mais o som das saudações dará prazer
xões até aqui apresentadas. Não seriam elas talvez de- aos meus ouvidos. Fora! Fora daqui, fora! Ao desterro, ao
masiado destrutivas? Por que razão deveríamos tentar desterro!"
nos tornar mais conscientes, se estamos condenados a Mas é exatamente a partir desse trágico esfacela-
recair perpetuamente, nas mais desagradáveis formas mento de ego de Édipo que o si-mesmo, a centelha divina
de inconsciência? Por que não "viver e deixar viver" com no homem começa a transparecer. Como em qualquer
alegria e inconsciência, simplesmente ajudando nossos tragédia, percebe-se aqui um significado que j á não é mais
pacientes com medicamentos? Para os que $e preocupam orientado pelo ego. Algo análogo é sentido por qualquer
profissionalmente com a questão, o esforço de tornar-se analista - e por seus pacientes - que procure relacio-
mais consciente parece condenado a um trágico fracasso. nar-se com o inconsciente, vivendo tão conscientemente
Talvez tenham razão certas religiões orientais que quanto possível e nesses termos exercendo sua profissão.
procuram negar por completo as exigências e objetivos E, ao fazê-lo, será inevitável que progressivamente caia
do ego, para que o indivíduo assim liberado de preocupa- na sombra'e muitas vezes desempenhe o papel de charlatão
ções terrenas possa atingir o Nirvana. Os esforços, do ego, e falso profeta para seus pacientes.
por mais bem-intencionados que sejam, acabam a longo Até este ponto, talvez minhas considerações sobre
prazo por atrÁpalhar. o irmão sombrio dopsicoterapeuta tenham sido muito
Mas os europeus não podem e não pretendem renun- gerais. No capítulo seguinte voltaremos a essas figuras
ciar ao ego, devendo lev'ar muito a sério seus esforços e obscuras, observando em termos práticos o que acontece
objetivos. O si-mesmo - centro significativo mais profun- quando o psicoterapeuta cai no inconsciente.
do da psique, segundo Jung - em geral só pode apa

38 39
o CONTATO INICIAL mente sobre os ideais positivos esposados pela coletivi-
da de ou pelo indivíduo. Sua existência é extremamente
ENTRE ANALISTA E ANALISANDO .: ./ desagradável e dolorosa para o ego, cujos objetivos são
exatamente o oposto. A consciência, ou superego, é infor-
mada pelo ambiente imediato ou mais geral em termos
dos ideais existentes. O ego tenta sempre cumprir as
exigências do superego, ou ao menos aceitar alguns com-
promissos. O fato de haver um eterno desencontro entre
valores conscientes e o poder da sombra interessada em
destruí-los cria uma tensão dinâmica, mas também uma
dolorosa insegurança. Todo analisando deve lidar inten-
Via de regra, o inconsciente do analista não se re- samente com sua própria sombra e com os demônios que
laciona com seus próprios traços neuróticos. No decurso se agitam em seu interior, mesmo que deles não tenha
de sua análise de treinamento e de seu próprio trabalho consciência.
analítico, os terapeutas sérios aprendem a não atrair os Procuremos agora examinar a sombra do psicote-
paciêntes para seus próprios mecanismos neuróticos - e rapeuta em termos concretos, descrevendo algumas de
também a reconhecê-los claramente, senão a superá-los. suas atitudes. Certos aspectos sombrios podem constelar-
É de se esperar que uma análise que se estendeu por se já no primeiro encontro entre terapeuta e paciente.
centenas de horas permita ao menos que se atinja esse Ao encontrar-se pela primeira vez, tanto um como outro
ponto. . têm certas intenções conscientes. O paciente deseja livrar-
Enormes dificuldades surgem, porém, para o analista se de seu sofrimento e de sintomas neuróticos, como
a partir de seu próprio desejo de ajudar. Elequer servir compulsões, fobias, impotência, frigidez, depressão ou
a seus pacientes, ajudá-los em seu sofrimento neurótico e males psicossomáticos. Muito freqüentemente, o auxílio
estimular o desenvolvimento de sua consciência. Fazendo que busca diz respeito às dificuldades gerais da vida, a
o melhor uso de seu conhecimento e de sua habilidade, problemas matrimoniais ou com os filhos etc. Da mesma
pretende altruisticamente auxiliá-los. Mas esse des~jo forma que o doente que procura um médico, o paciente
consciente - sem o qual o analista não teria escolhido psicoterap&utico quer livrar-se de seu sofrimento e de
sua profissão - constela o pólo oposto no inconsc\ente e sua doença. Pelo menos, assim parece ser na superfície
conjura o charlatão, ou seja, aquele que não trabalha psíquica. Já as expectativas mais profundas costumam
para seus pacientes, mas para si próprio. Em parte, é esse ser bastante diversas. Inconscientemente, ao menos em
o fenômeno psicológico que Jung costumava chamar de parte, o paciente quase sempre espera encontrar um re-
"sombra". Esse termo não deveria ser confundido com o dentor que o liberte de todos os seus problemas e talvez
inconsciente per se. Para Jung, "sombra" quer dizer o até chegue a despertar nele capacidades sobre-humanas.
reverso dos ideais pessoais ou coletivos. Nesse sentido, a Uma paciente minha extremamente inteligente, que
sombra sempre é um tanto destrutiva, agindo negativa- além de uma grave neurose também sofria de constan-

40 41
i!

r
.I

I tes resfriados, confessou-me algum tempo depois de problemas, o analista deixa parecer que já compreendeu
iniciar a análise que por intermédio da psicoterapia tudo. Mediante o uso de certos gestos, como um sábio
l' esperava imunizar-se contra todas as doenças físicas. balançar de cabeça, e de certas observações ambíguas
i
Seus constantes resfriados eram um teste. No princípio em meio à fala do paciente, o analista cria a impressão de
da terapia ela fantasiou que, se estes desapareçessem, que, mesmo não estando preparado para expressar todo o
ela gradualmente aprenderia a usar seus poderes psí- seu conhecimento e suas profundas reflexões, já atingiu
quicos para afugentar todos os males físicos. O paciente o fundo da alma do paciente. A pretensão de competência
costuma recorrer ao psicoterapeuta para obter não só um absoluta também faz parte da imagem do feiticeiro. Via de
efetivÇ> apoio em sua luta contra a neurose, mas também regra, os feiticeiros querem ser onipotentes e não costu-
o acesso a um conhecimento secreto que lhe permitiria mam tolerar colegas ou competidores. O relacionamento
resolver todos os problemas da vida. entre feiticeiros costuma ser uma luta de poder, consis-
Com muita freqüência, as pessoas casadas espe- tindo de magia e contramagia. Fascinado por essa figura
ram, no início da terapia, receber os instrumentos que interior do mágico, o analista gostaria que todos os que
lhes permitiriam penetrar no íntimo de seus cônjuges precisam de auxílio se voltassem exclusivamente para
e assim levá-los à submissão completa. Lembro-me de ele. Por mera falta de tempo ele poderá graCiosamente e
uina~ mulher que buscava tratamento devido a crises
O;'.
às vezes encaminhar um caso a algum principiante, mas
neuróticas cíclicas e dores de cabeça crônicas. Em nossa ainda assim procurará manter todos os fios em suas
segunda sessão ela declarou estar muito feliz por começar próprias mãos. Muitos analistas trabalham mais do que
a perceber a' razão de seu sofrimento, pois assim ela logo podem e falam com certo orgulho da longa lista de espera
poderia mostrar ao marido o quanto este era injusto e de futuros pacientes. A pretensão interior de poder abso-
como a tratava mal. luto e a fantasia de que é o mais poderoso dos feiticeiros
No início da terapia a relação entre terapeuta e pa- impossibilitam-lhe enviar de bom grado certos casos a
ciente é muitas vezes similar 4 do feiticeiro e seu aprendiz. colegas de status equivalente e não apenas estudantes
As fantasias que o paciente tem nesse sentido exercem um e principiantes. O analista não crê, como a madrasta de
poderoso efeito sobre o terapeuta, em cujo inconsciente Branca de Neve, que "não há ninguém mais belo" do que
começa a constelar-se a figura do mágico ou do salvador. ele em todo o reino; mas o demoníaco feiticeiro dentro
O terapeuta começa a pensar que é de fato alguém com dele leva-o a crer que é o único no país que realmente
poderes sobrenaturais" capaz de fazer maravilhas com entende de análise.
sua mágica. Muitas vezes o jogo de feiticeiro e aprendiz se man-
A expectativa e a esperança do paciente de encontrar tém durante toda a análise e continua até mesmo depois
um feiticeiro poderoso também têm um papel na escolha de seu término. As análises didáticas estão particular-
do analista. Para este, é claro, é extremamente difícil mente sujeitas a esse perigo. O treinando pode conti-
não ser atingido por essa projeção do mágico. Na verdade nuar sendo um "aprendiz" pelo resto da vida, ou seja, um
ele até a estimula no paciente ao enfatizar seu próprio admirador e imitador do analista que o formou. Ou então
poder e seu prestígio. Quando o paciente lhe fala de seus tentará transformar-se ele próprio num mestre feiticeiro,
,
42 43
o que leva a recrin;l.inações amargas e recíprocas entre tígio. Essa tendência, por sua vez, é reforçada pelo fato
velho mestre e ex-aprendiz; o analista mais novo abriga de que certos pacientes gostam de proclamar que estão
ressentimentos profundos contra seu colega mais velho, se tratando com um analista famoso.
ao passo que este se sente traído. Os dois já não podem O charlatão no analista também usa o truque de dra-
mais trabalhar juntos. De modo geral, não basta &pelar matizar desnecessariamente uma situação. Um paciente
para uma projeção paterna mal resolvida para explicar a neurótico será visto como portador de um "perigoso poten-
.'
fricção entre o analista em formação e seus orientadores ,~.'
'.' cial psicótico". O termo "psicose latente", que Jung costumava
profissionais maduros. usar, pode facilmente ser mal interpretado nesse sentido.
Seria conveniente esclarecer alguns pontos antes O perigo de uma crise psicótica pode ser exagerado para
de continuar e~aminando o fenômeno da sombra na psi- que o analista seja visto como salvador. Este fato, por·
coterapia. Como vimos, a sombra do terapeuta e a do seu turno, satisfaz a necessidade desse tipo de paciente
paciente afetam-se mutuamente e se relacionam inti- ver-se passivamente salvo, e de maneira atraente, de uma
mamente. Não se pode, portanto, examinar com pro- situação aparentemente sem saída. A situação é igual à de
priedade a sombra do primeiro sem levar em conta a do pacientes com problemas físicos que adoram dizer: "Todos
segun.do. A sombra profissional do terapeuta que pretende os médicos desistiram do meu caso, mas daí consultei o .
ajudar seus pacientes é o charlatão, o agente fraudulento Dr. Curatudo e hoje sou um homem são".
que só busca satisfazer seus próprios interesses. Paralela- N o início do tratamento, o estabelecimento dos ho-
mente, o paciente que procura tratamento para curar-se ;'. norários desempenha um papel não desprezível. Diante
ou para promover seu próprio desenvolvimento psíquico dessa questão, a atitude do analista quase sempre revela
. <:"
apresenta uma força psíquica antiterapêutica, que luta " certo grau de charlatanismo. Éde se notar a freqüência
contra o processo de cura ou desenvolvimento, comum ente com que os psicoterapeutas julgam necessário enfatizar
descrita como "resistência". Este combatente a serviço da que o pagamento é em si uma medida terapêutica que
resistência interior é muito agressivo e não só resiste ao promove o processo de cura. Não seria esta, entre outras
progresso da terapia, como procura destruí-la de modo coisas, uma manifestação da sombra? Afinal de contas,
ativo. No final deste livro tentaremos compreender em os honorários não são uma "terapia"; são cobrados para
maior profundidade esse fenômeno. Por ora, observa- que o terapeuta possa viver de forma compatível com seu
remos apenas que a resistência do paciente estabelece nível de educação e treinamento. Neste caso, também
uma aliança com a sombra de charlatão do terapeuta; encontramos a contrapartida do paciente. Ele aceita
ambas constelam-se mutuamente e às vezes só podem ser pagar elevados honorários porque isso lhe dá a impressão
compreendidas a partir dessa reciprocidade. de que pode ,comprar o analista, o qual, na qualidade de
Sob vários aspectos, a situação terapêutica inicial seu empregado, lhe poupará o trabalho de um auto-exame
presta-se bastante bem para constelar a sombra de char- honesto; ao mesmo tempo, como escolheu o analista mais
latão. O analist'a, por exemplo, pode ser levado a receber caro, ele passa a acreditar que tudo no fim dará certo.
apenas clientes prósperos e proeminentes, capazes de lhe
pagar elevados honoráriqs e cujos nomes conferem pres-

44 45
RELACIONAMENTO É FANTASIA ou odiado pelo que é; o encontro é com outra pessoa
real. Como é natural, a transferência e o relacionamento
costumam ocorrer simultaneamente, não podendo ser
.;.,
/
estritamente diferenciados num caso específico. Quando
muito, a transferência se transforma em relacionamen-
to. Muitas amizades começam como transferência e só
depois passam a constituir um relacionamento genuíno.
N a minha opinião, é bastante destrutivo querer explicar
um relacionamento sempre em termos de projeção e
transferência, como costumam fazer os psicólogos.·A
maior virtude de tal procedimento talvez seja lisonjear
A sombra de charlatão encontra diante de si um rico o ego do psicólogo, uma vez que acredita ter captado um
campo de 0l?eração no momento em que a análise se firma dos fenômenos psicológicos mais misteriosos - o relacio-
e as psiques do terapeuta e do paciente começam a se afe- namento - mediante a simples aplicação dos conceitos
tar mutuamente. Mas, para poder discernir as evasivas de transferência e projeção.
que"podem ser utilizadas no caso, devemos descrever as O mistério do relacionamento só pode ser descrito em
características dessa influência psíquica mútua. Os ter- termos muito vagos, não se prestando a uma clara apreen-
mos transferência e contratransferência, que usaremos são intelectual. Como já indiquei, relacionamento significa
aqui, são em geral aplicados com sentidos extremamente ver o outro como é, ou pelo menos em parte re-conhecê-Io
discrepantes. como a pessoa que é. Além disso, significa ter prazer ou
Examinemos de início a transferência e a contra- desprazer com essa pessoa real, sentindo-se bem em estar
transferência comparando-as com encontro ou relacio- com ela ou fazer algo com ela, procurá-la com interesse,
namento. trocar emoções, sentimentos e pensamentos. Em outras
N a transferência, vê-se em outra pessoa algo que não palavras, num relacionamento o parceiro é violado o me-
existe, ou talvez só exista de forma latente ou nascente. nos possível por projeções ou pela transferência.
Como se sabe, o paciente pode ver no analista um pai ou N este contexto, porém, costuma-se minimizar o
irmão, um amante, um filho ou filha, e assim por diante dinamismo da psique e do indivíduo. Quem é o outro, o
- quer dizer, ele pode transferir para o analista traços parceiro? Ele não é jamais algo estático; é vida, desenvol-
pertencentes aos personagens que tiveram um papel impor- vimento, passado, presente e futuro. Compreender outra
tante em sua vida. Pode-se também transferir para outrem pessoa significa relacionar-se não só com seu presente,
a própria estrutura psíquica, vendo no outro aspectos que mas também com seu passado e seu futuro.
na verdade são problemáticos em nós. Costuma-sé usar o O relacionamento envolve sempre algo criativo. Ao
termo transfeIjência para descrever esses fenômenos. empregar a palavra "criativo", quero dizer o seguinte: a
Em contraste, num relacionamento ou num encon- psique humana está sempre cheia de novas possibilidades.
tro genuíno o outro é visto como é. Ele é sentido, amado Ela se recria sempre, por assim dizer, e é permanente-
,
46 47
ment~ recriada. O potencial psíquico de um indivíduo grandes habilidades políticas; pode ser que não se torne
é obviamente limitado, mas altamente diversificado outro Picasso, mas que deva realmente escolher uma
e multifacetado. Não é nada criativo ou propício ao re- profissão que utilize a capacidade artística.
lacionamento encontrar alguém e vê-lo como uma foto Outro exemplo: a jovem noiva costuma encarar o
instantânea ou uma imagem fixa. Encontrar um;:t pessoa futuro de seu escolhido de modo altamente imaginativo.
de modo criativo significa tecer fantasias em redor dela e Apesar de ser ele um assistente social, ela sonha acorda-
circundar seu potencial. Surgem então várias imagens sobre da que será catedrático ou reitor de· uma universidade.
a pessoa e o relacionamento potencial. Em geral, essas Talvez, nessas fantasias, ela reconheça certo potencial
fantasias criativas estão bem longe da assim chamada acadêmico escondido no marido, o qual poderá de fato tor-
realidade; são tão irreais, ou tão verdadeiras, como con- nar-se um dia professor numa faculdade de serviço social.
tos de fadas e mitos. Elas lançam mão de imagens para As fantasias da noiva, neste caso, relacionam-se de perto
captar a natureza da outra pessoa - da mesma forma à pessoa do futuro marido e à realização de seu potencial;
que uma lenda, como a de Guilherme TeU, é capaz de suas esperanças poderão ser irreais, mas sua visão se
captar e descrever a natureza da antiga Suíça tão bem adapta perfeitamente à natureza do companheiro.
quanto uma cuidadosa pesq~isa histórica. Mesmo se não Estas fantasias criativas, ou circum-ambulação ima-
expressas, as fantasias também influenciam a outra pes- ginativa do parceiro, são da maior importância em qualquer
soa, despertando nela suas potencialidades. relacionamento humano. Mesmo quando se misturam com
Esse tipo de fantasia tem muito pouco a ver com componentes do ego, elas servem, pelo menos, para estimu-
as projeções, pois est~s são autistas. Na transferência, lar a imaginação do outro. Todo mundo tem necessidade
projetamos sobre nosso parceiro imagens, problemas de fantasiar sobre si mesmo, de circundar e despertar seu
ou possibilidades que dizem respeito a nós mesmos ou a próprio potencial de forma mitológica ou como num conto
nossa história de vida. As imagens da tra:qsferência têm de fadas . Uma das tragédias da vida de crianças de orfa-
muito pouco a ver com a outra pessoa. Mas as fantasias nato é que ninguém tece ta is fantasias em torno delas, de
criativas que descrevi se relacionam à natureza da outra modo que quase nunca seu potencial é despertado. Essas
pessoa e representam, de forma simbólico-mitológica~ seu crianças poderão tornar-se adultos bem comportados, mas
potencial de vida. psiquicamente só estão vivas pela metade.
Certas fantasias dos pais talvez sirvam de exemplo. Deve-se lembrar sempre que fantasias desse tipo
Freqüentemente os pais se permitem, consciente ou semi- nunca são "verdadeiras" em termos realistas, mas certa-
conscientemente, fantasiar o futuro de seus filhos - mas mente o são no sentido simbólico. Podem relacionar-se à
essas idéias têm muito mais a ver com os pais do que pessoa inteira ou apenas a certas características, assim
com o potencial dos filhos. Muitas vezes, porém, essas como podem girar em torno de possibilidades passadas
fantasias derivam de uma visão basicamente correta, ou futuras. Nas conversas do dia-a-dia elas brotam em
representando uma figuração criativa de um potencial frases como: "posso imaginá-lo como um antigo pirata",
latente. Pode ser que o filho não se torne um chefe de ou então: "ele me parece do tipo artístico", ou: "eu o vejo
Estado, como imaginou a mãe, mas que possua de fato exatamerite como um lorde inglês".

48 49
É bem conhecido, no campo da educação, o efeito de mais transpira e é trocado entre duas pessoas do que o
fantasias que, embora referentes a outra pessoa, são na meramente expresso por palavras ou atos.
verdade centradas no ego. Muitas crianças quase chegam
a ser destruídas por acreditarem que devem corresponder
t·· O analisando deveria tentar comunicar a seu analista,
o mais honestamente possível, tudo o que sente, sonha e
a fantasias dos pais que nada têm a ver consigo. Mas ra- fantasia. É por aí que o analista tem acesso aos problemas
ramente se reconhece o efeito positivo de fantasias que se de sombra do paciente. Mas, apesar de o analista não contar
relacionam de verdade com o outro. Da mesma forma seus próprios sonhos e fantasias, estes também influenciam
como se encarava, algumas décadas atrás, os contos de tanto o analisando como o próprio curso da análise. Se o
fadas e os mitos como absurdos ou até perigosos, não se analista realmente pretender rastrear a sombra, ele deve
compreendia a importância das fantasias na educação e confrontar e lidar ativamente com suas próprias fantasias
no relacionamento interpessoal. sobre seus pacientes. Não adianta nada, nem para si nem
Para que possamos compreender o significado dessas para os clientes, fazer o papel do terapeuta absolutamente
fantasias mútuas no relacionamento humano em geral "objetivo". Isso é ilusão. De outra perspectiva, podemos di-
e especialmente na análise, 'conviria considerar rapida- zer que, se o analista funcionasse com uma objetividarle de
mente o modo pelo qual a psicologia junguiana encar:;. computador, seu efeito terapêutico seria com toda a certeza
a ação e a reação que têm lugar entre duas pessoas. E nulo, visto que exerce sua função curativa na qualidade
evidente que uma pessoa é influenciada pelas fantasias de ser humano e não de computador. Vários terapeutas
que tem a respeito de si mesma. Mas é um pouco mais procuram suprimir ou reprimir as fantasias que têm com
difícil perceber como suas fantasias sobre outra pessoa respeito aos pacientes, como se estas não fossem permis-
podem influenciar esta, mesmo se não verbalizadas. A síveis. Ocorre que o conteúdo dessas fantasias, seja ele
psicologia junguiana entende a relação entre duas pes- qual for, continua a produzir seus efeitos. O ponto central
soas como algo mais que um mero contato entre duas é não cortar as fantasias. Uma das primeiras tarefas do
consciências. Quando duas pessoas se encontram, suas terapeuta consiste em examinar e procurar entender suas
psiques se defrontam em sua totalidade; o consciente e o fantasias. Tanto o analista como o analisando têm suas
inconsciente, o dito e o não dito, tudo afeta o outro. Não fantasias sobre o outro; cada um está sempre a circuns-
sabemos exatamente como isso acontece. Mas repetidas crever o outro em sua imaginação.
vezes pode-se observar que a psique de uma pessoa tem N osso problema aqui é rastrear a sombra do analista.
um efeito sobre a de outra, com todos os seus aesejos, Muito já se escreveu sobre os perigos' da contratransfe-
fantasias, sentimentos e emoções, sua consciência e sua rência. Espera-se que o paciente, se possível, tenha uma
inconsciência - mesmo se o que se passa na psique não transferência para com o analista. Este terá, então, de
for declarado nem exprE{sso de forma direta. dissolvê-la e levá-la de volta a suas origens. É assim que se
Este conceito de relacionamento é atualmente bastan- atingem os complexos neuróticos. Mas, se o analista tiver
te difícil de comprovar. Mas os observadores interessados uma contratransferência, projetando sobre o paciente
em relacionamento interpessoal, sejam psicoterapeutas ou imagens, oaracterísticas etc., que na verdade pouco têm
não, ficam sempre impressionados ao perceber que muito a ver com ele ou não passam de uma resposta à transfe-

50 51
rência inicial, nesse caso o desenvolvimento é natural- concentra sobre o lado destrutivo do paciente, e assim.
mente bloqueado. Tudo isso já é bastante conhecido, e o estimula. Trata-se de um tipo de "imaginação ativa",
todo analista consciencioso deve ter sido treinado para conforme o sentido dado a esse termo pela psicologiajun-
reconhecer a transferência e impedir o surgimento da guiana, mas que gira em torno do potencial destrutivo do
contratransferência, dissolvendo-a tão logo possível. paciente - sobre quem atua como uma maldição.
Mas as fantasias anteriormente descritas sã'o mais A psicologia popular costuma apresentar uma dimen-
difíceis de se compreender e extremamente importantes são um pouco mais mágica desse fenômeno. Em geral se
com respeito aos fenômenos de sombra. Quanto a este acredita que, se os pais ou professores acharam que uma
aspecto, os analistas costuIl1-am enterrar a cabeça na ,. criança "não dará em nada e provavelmente acabará na
areia. Não se fala muito sobre as fantasias que temos so- cadeia", esta será atingida por uma influência devasta-
bre nossos pacientes, ou então estas são imediatamente dora. Essa "fé negativa" é uma boa analogia para essas
entendidas como expressão de uma contratransferência fantasias destrutivas que vimos discutindo ..
- e, nesse caso, completamente mal interpretadas. São várias as origens psicológicas desse quase com-
Se tiver desenvolvi~o certo relacionamento ~om seu pulsivo girar em torno do potencial negativo do paciente.
paciente - sem o que análise alguma seguirá adiante - , Dentre elas, destaca-se a sombra de charlatão do analista,
volta~e meia o analista terá fantasias sobre ele, as quais a qual, no essencial, não se interessa pelo bem-estar do
expressam a maneira como o vê, circundando seu poten- paciente. Mas as fantasias desse tipo costumam ser tão
cial. Estas fantasias exercem por certo uma influência, destrutivas que acabam prejudicando o próprio analista,
tanto quanto as dos pais sobre a criança ou as da mulher dado que um fracasso na terapia irá igualmente afetá-Io.
sobre o marido. A concentração quase compulsiva sobre as possibilidades
N este ponto, um traço destrutivo costuma se reve- negativas do paciente liga-se a uma dimensão destrutiva do
lar no analista. Fantasias estranhas e negativas podem analista que 'examinaremos adiante em maior detalhe.
persistir e até mesmo proporcionar certa satisfação. Elas O terapeuta não está sozinho com suas fantasias ne-
podem girar em torno de um possível suicídio do paciente, gativas, visto serem estas estimuladas e 'influenciadas por
ou da eclosão de uma psicose; podem ser imagens des- seus pacientes. Em geral, a con.cepção que um analisando
trutivas da família, da vida profissional ou da saúde do tem de seu analista é em certo sentido correta, porém
indivíduo. Tais imagens 'exercem um estranho fascínio parcial. Ele percebe possibilidades no analista que estão
sobre o analista.· Em lugar de uma preocupação positiva realmente presentes, mas que não constituem o quadro
com o paciente, elas revelam um encantamento com suas inteiro. Suas fantasias costumam girar em torno da som-
potencialidades negativas. Nas conversas entre analis- bra do analista. O paciente poderá vê-lo como um cínico
tas, tal fato costuma ser expresso por meio do evidente ávido de dinheiro que ridiculariza seus pobres clientes
deleite com que um fala ao outro sobre o grave perigo que quando fala com os colegas, ou como um cientista de san-
ameaça determinado paciente. Estas fantasias negativas gue frio que só se interessa pelas pessoas como "casos",
do analista não são projeções; referem-se a linhas reais ou como um mau marido e mau pai. Com essas fantasias
de desenvolvimento possível. Sua energia psíquica se negativas, o paciente até certo ponto rouba do analista a

52 53
capacidade que este talvez tenha de ajudá-lo. Quero mais A VIDA EXTRA-ANALÍTICA
uma vez enfatizar que não estamos falando aqui nem de
transferência nem de projeções, mas do reconhecimento de DO ANALISTA E DO PACIENTE
um potencial real no analista, da visão de sua sombra.
As fantasias positivas do analista podem igualmente
ter um caráter destrutivo, mas é difícil reconhecer seu
perigo. Tão, logo estabeleça um relacionamento com o ,
paciente, o analista deve de algum modo fantasiar sobre > ,~.

suas possibilidades futuras. É quase impossível permane-


cer em sua companhia, vendo-o como é naquele momento,
talvez captando a psico dinâmica de sua história de vida,
sem de algum modo estender a visão até o futuro. As fan- Alimentado por fantasias diversas, o lado destru-
tasias semiconscientes e os devaneios devem de quando tivo do analista aparece de forma extremamente clara
em vez projetar o paciente no futuro como "curado" ou e delineada no que diz respeito às relações humanas
pelo menos modificado. Se isso não acontece, o paciente extra-analíticas do paciente. Em certo sentido, cada re-
não ~ é estimulado nesse sentido e daí se encontra mais lacionamento é em parte adverso a outros. A maior parte
ou menos na mesma situação que a criança órfã ante- dos relacionamentos humanos apresenta certa preten-
riormente mencionada, em torno da qual ninguém tece são de exclusividade. Isso se aplica igualmente à relação
fantasias e que, portanto, não consegue se desenvolver analítica, ou seja, aquela entre terapeuta e paciente.
completamente por falta de estímulo. Essa pretensão, que basicamente se encontra em todas
A situação se torna grave quando a imaginação do as relações, é intensificada pela sombra de charlatão do
analista, persistindo em girar em torno das possibilidades analista, a qual gostaria de manter o paciente completa-
do paciente, busca um desenvolvimento que beneficiária mente sob seu controle. Nesse sentido, a visão que tem
mais a si próprio do que a seu cliente. Cabe aqui um exem- das relações, do paciente com o marido ou a mulher, com
plo: um analista "vê" seu paciente como um futuro gerente amigos e conhecidos é em geral abertamente negativa.
geral. Neste caso específico, de fato a fantasia está de Apenas o lado destrutivo de suas relações humanas é le-
acordo com uma das possíveis linhas de desenvolvimento vado em conta, elaborado pelas fantasias e trabalhado.
da pessoa em questão - mas é uma possibilidade que só Tam pouco nesse caso se trata de contratransferência. O
poderia se realizar se o ,desenvolvimento psíquico desta analista nessa situação não está projetaI).do coisa alguma
continuasse de modo unidirecional. Assim sendo, a con- sobre o analisando, mas apenas dirigindo o holofote de
centração do paciente em conquistar essa posição de poder sua mente para os aspectos mais infelizes das diversas
poderá não significar um benefício global para ele. Mas isso relações inuerpessoais do paciente e circundando-as com
de algum modo ajudaria o analista, proporcionando-lhe sua imaginação. As pessoas que lhe são próximas costumam
uma conexão influente e um senso de seu próprio poder perceber isso, reclamando que a psicoterapia o isolou e que
ao ver um ex-paciente numa posição importante. agora ele despreza suas relações pessoais ejá não as leva
54 55
mais a sério. Nem sempre essas queixas sejustificam, mas dizer, passam de fato a viver pelo analista, que espera que
em geral contêm um grão de verdade. O analista deve estes preencham o vazio criado por sua perda de contato
trabalhar a fundo sua própria problemática para evitar com o calor e o dinamismo da vida. O analistaj~ não tem
que o relacionamento analítico se torne hostil a outras mais seus próprios amigos; as amizades e inimizades dos
relações. Muitas amizades sadias têm sido rompidas pela pacientes são como que também suas. Sua vida sexual
análise; muitos relacionamentos entre marido e mulher, pode ficar raquítica, encontrando substituto nos proble-
pais e filhos etc. têm sido por ela alterados, em detrimento . mas sexuais dos pacientes. Tendo escolhido profissão tão
do paciente. Em algum canto da alma do analista existe exigente, vê-se impedido de atingir uma posição política
um bicho-papão que deseja o completo domínio de seus influente; sua energia é investida toda nas lutas pelo poder
pacientes. de um paciente político. Desse modo, o analista pouco a
Analogamente, alguns analistas tentam por todos pouco deixa de viver uma vida própria, passando a con-
os meios evitar que seus pacientes façam terapia de gru- tentar-se com a de seus pacientes.
po. Freqüentemente, determinam que seus analisandos Antes de mais nada, esse tipo de situação é extre-
- sejam eles pacientes ou analistas estudantes - aban- mamente perigoso para o próprio analista. Seu desen-
donem imediatamente tais grupos, sob a alegação de que volvimento psíquico estanca. Mesmo em sua vida não-
ele~ desviam a atenção da análise pessoal. Para serem profissional, ele só poderá falar de seus pacientes e dos
consistentes até o fim, deveriam também mandar seus problemas que os afligem. Já não é mais capaz de amar
pacientes abandonarem cônjuges e filhos, já que estes e odiar, de investir a si próprio na vida, de lutar, ganhar
também são fontes de considerável distração. ou perder. Sua própria vida afetiva torna-se um subs-
Outra modalidade da sombra de charlatão do tera- tituto. Agindo assim como charlatão que sobrevive à
peuta é a "vivência vicária". Sob o pretexto de cura, muitas custa de seus pacientes, o analista pode dar a impressão
vezes o paciente é sugado e exaurido. Os pacientes contam momentânea de estar florescendo psiquicamente. Mas,
muitas coisas, permitindo que o analista participe do na verdade, está perdendo a vitalidade e a originalidade
drama, das tragédias e alegrias da vida deles. E grande criativa. N a.turalmente, a vantagem dessa vida vicária
parte do que experimentam não pode ser experimenta- é que o analista é poupado do sofrimento genuíno. Em
do pelo analista de modo direto. Um jovem fala'de seus certo sentido, também esta função passa a ser exercida
namoros, um~ mulher de meia-idade das dificuldades e para ele pelos outros.
prazeres que sente com os filhos. Tomadas em conjunto, Esse tipo de analista, ademais, é prejudicial para
as experiências dos pacientes de certo analista constituem seus próprios pacientes. De certa forma, estes também
um rico e fascinante espectro da vida humana. Talvez o deixam d,e viver genuinamente, passando, ao contrário,
analista se absorva por completo no trabalho com seus pa- a viver apenas em relação ao analista, tendo experiên-
cientes, o que à primeira vista parece ótimo. Sua própria cias das coisas para depois poder relatá-las. O amor, por
vida privada fica em segundo plano diante dos problemas exemplo, deixa de ser uma experiência em si, transfor-
e dificuldades das pessoas com quem trabalha. Mas isso mando-se num tema de conversa com o analista. A beleza
pode levar a um ponto em que os pacientes, por assim existencial da vida já não enriquece o paciente, mas o

56 57
analista. Qualquer vida pode ser encarada como uma obra SEXUALIDADE E ANÁLISE
de arte. Mas nesse caso o paciente já não cria mais sua
vida para seu próprio deleite, mas para que o analista não
tenha necessidade de criar a sua própria obra de arte ou
de investir em si próprio, satisfazendo-se em troca com
as obras do paciente.
É extremamente difícil definir com precisão esse fenô-
meno da experiência vicária. Em muitos casos, o analista
ainda capaz de apreciar e sofrer devido ao dinamismo
de sua própria vida chega a sentir a consciência pesada,
achando que deveria intere~sar-se mais por seus pacien-
tes. Mas na verdade, a longo prazo, somente o analista o modo pelo qual a sombra do analista aparece no
apaixonadamente envolvido em sua própria vida poderá campo sexual é até certo ponto bem conhecido. Mas
ajudar seus pacientes a encontrar seu caminho. Nesse valeria a pena examinar aqui certos aspectos em maior
sentido é bastante verdade, como diz Jung, que o analista detalhe. Não pretendo discorrer sobre a natureza da
só pode dar a seus pacientes aquilo que possui. sexualidade; e, antes de entrarmos no relacionamento
entre sombra e sexualidade, gostaria de fazer algumas
considerações gerais necessárias para a compreensão
desse assunto.
Em termos biológicos, a sexualidade se liga à repro-
dução. Mas tanto uma quanto outra devem ser com-
preendidas como dois fenômenos distintos. Pode-se
observar uma separação entre ambas na mais primitiva
das criaturas vivas, na qual a reprodução consiste em
divisão enquanto a sexualidade é representada pelo fluir
conjunto de dois organismos. O que nos interessa aqui não
é, porém, biologia, mas psicologia. O fato é que a maior
parte da atividade sexual humana ocorre sem a menor
intenção de procriar, a não ser que se recorra à idéia de
que a mulher - quando não o homem - inconsciente-
mente deseja conceber toda vez que mantém relações
sexuais. Trata-se aqui de uma afirmação dogmática que
não poderá jamais ser verificada pelo material psicoló-
gico de que se dispõe. Por muito tempo, o Cristianismo,
especialmente a Igreja Católica, erigiu em lei moral a

59
:1. . 58
~.. ;
necessidade de se acoplar sexualidade e reprodução. nentecorporal ou físico. A relação física entre analista e.
Mas a moderna teologia começa a encarar a sexualidade paciente é, portanto, muito importante.
como algo muito distinto. Psicologicamente, não se pode Mas todas as relações humanas podem ser negati-
compreendê~la puramente em termos de reprodução, já
vas ou positivas - fato este que aqueles que pretendem
que antes de mais nada ela expressa um relacionamento estabelecer uma religião das relações interpessoais não
entre duas pessoas. querem reconhecer. Em cada relacionamento existe amor
De fato, a vida humana se desenvolve entre os pólos do e ódio, um desejo de ajudar e ao mesmo tempo de 'destruir'
corpo e da alma. Todo relacionamento entre duas pessoas o outro. Um desses fatores poderá predominar - amor
tem um aspecto corporal, seja ele entre homem-mulher, ou ódio, eros ou destrutividade. Infelizmente, a sexuali-
mãe-filho, pai-filho, mulher-mulher e homem-homem. A dade - isto é, a relação física entre homem e mulher _.- é
mãe gosta de ter contato físico com o filho, de acariciá-lo comum ente tratada no linguajar corrente como "amor".
e abraçá-lo. Acriança tem necessidade dessa estimulação Isso é tão sem sentido como usar a palavra amor para
física, sem a qual não poderá jamais desenvolver de modo descrever toda e qualquer relação entre as pessoas. A se-
sadio o senso da importância de seu próprio corpo. A xualidade, essa dimensão corporal das relações humanas,
alegria que a mãe tem com o corpo da criança é a alegria pode expressar amor e ódio. Falo aqui de relações sexuais
que tem com a própria criança. "normais", e não de desvios, como o sadomasoquismo,
Mas passemos imediatamente ao relacionamento no qual a situação é mais ou menos clara. A sexualidade
homem-mulher. Neste caso a sexualidade não é a base "normal" proveniente do ódio, e no entanto encarada
do relacionamento, mas apenas a expressão física de como amor, tem destruído um sem-número de pessoas - e
uma relação fundamental entre o masculino e o feminino pode causar o maior dos danos ao analista e ao paciente
profundamente enraizada na humanidade. A sexualida- na psicoterapia.
de é assim o aspecto físico do mysterium coniunctionis. É comum brotar desejo sexual entre pacientes e
O homem e a mulher não se atraem mutuamente para analistas. (Para' simplificar, nos parágrafos que seguem
produzir um filho; este, por assim dizer, é subproduto estarei pressupondo um analista e uma paciente, apesar
dessa atração, a qual, entre outras coisas, é usada pela de as mesmas idéias obviamente se aplicarem à situação
natureza para fins de reprodução. Basicamente, porém, contrária.) Já é lugar comum notar que as mulheres costu-
a relação corporal entre 'os dois sexos é, em si, uma das mam ter desejos sexuais e fantasias em torno do analista.
mais intensas relações entre o masculino e o feminino. Mas há menos disposição para se discutir o fato de que
Já mencionei várias vezes que, na situação psicote- os analistas também costumam tecer fantasias sexuais
rapêutica, deve surgir um relacionamento. Sem isso, o em torno,de seus pacientes. Infelizmente, esse fenômeno
paciente não pode se desenvolver. O processo psíquico não é sempre encarado à luz da transferência e da contra-
avança na ausência de um fluxo de emoção entre paciente transferência. Mas me parece muito mais importante
e terapeuta. Qualquer psicoterapia implica pelo menos compreender os desejos e fantasias sexuais de analistas e
um mínimo de relacionamento. Quando existe, este não pacientes como expressões físicas de um relacionamento.
é apenas psíquico, apresentando igualmente um compo- N esse caso, porém, devemos levar em conta que o relacio-

60 61
namento sempre tem um duplo aspecto. Ele envolve eros ou um aspecto físico de um relacionamento basicamente
e ódio; conforme a situação, um ou outro predomina. positivo. Isso é muito menos perigoso, visto não estar
No que diz respeito às fantasias sexuais, os analistas nenhuma das partes interessada em destruir a outra,
junguianos talvez sejam um pouco mais ousados que os sendo as fantasias sexuais apenas a expressão de um
terapeutas de outras escolas. Não atacam imediat,amente relacionamento frutífero, capaz de produzir efeitos po-
tais fantasias como sendo manifestações do fenômeno de sitivos na terapia. Pode-se seguramente permitir que
transferência ou contratransferência, sendo bastante ca- tais fantasias 'prossigam e se desenvolvam, pois a ânsia
pazes não só de tranqüilizar seus pacientes, como também de vivê-las concretamente não é tão forte.
de desafiá-los a entreter fantasias sexuais e a observar Quanto à realização das fantasias sexuais, uma das
como estas se desenvolvem. Mas para fazê-lo convém regras mais rígidas da análise estipula que a sexualidade
antes determinar se essa ativação da sexualidade 'na entre analista e paciente não deve em circunstância al-
situação terapêutica é expressão de um relacionamento guma ser concretizada, seja qual for o estado civil deles.
positivo ounegativo. Com bastante freqüência, por exem- Mas até ess~ tipo de regra deve ser sempre questionado e
plo, o desejo sexual de uma paciente por seu analista não examinado. Certos pacientes, e até mes;mo alguns analis-
passa de uma ,intenção de destruí-lo profissionalmente, tas, levando em conta o papel decisivo do relacio~amento
o que por sua vez resulta de seu próprio estado psíquico. na terapia, argumentam que teoricamente pode acontecer
Não podemos aqui considerar as razões que poderiam que um relacionamento só atinja seu pleno valor terapêu-
levar uma paciente a desejar destruir seu analista. O fato tico quando tiver sido vivido também em sua dimensão
é que essa ativação da sexualidade oriunda de impulsos sexual. Creio que tal raciocínio se baseia num equívoco. O
destrutivos costuma constelar uma sexualidade igual- objetivo da terapia não é o relacionamento entre analista
mente destrutiva no analista. Despertar o desejo sexual e analisando, mas a cura deste e o estabelecimento de
nas pacientes como recurso para mantê-las é um dos uma nova orientação psíquica. Uma vez vivido no campo
mais velhos truques do charlatão. O psicoterapeuta pode sexual , o relacionamento deixa de ser o receptáculo no
facilmente cair nesse aspecto da sombra, o que costuma qual tem lugar o processo curativo, tornando-se um fim
ser reforçado por algo ainda mais sinistro: certa dose de em si mesmo e portanto destruindo a terapia. Consciente
autodestruição. Já mencionamos aqui essa tendência e ou semiconscientemente, isso é perfeitamente claro para
voltaremos a ela mais adiante. Se a sexualidade que se o analista e em geral também para o paciente. Pode-se
constela for expressão de forças destrutivas, é de suma assim tomar como regra que quanto mais o paciente ou
importância que o analista a observe em si e no paciente algo no analista forçar a experiência da dimensão sexual
com o máximo de seriedade psicológica. Inúmeros analis- do relacionamento, maior a probabilidade de que essa
tas têm destruído a si e seus pacientes ao concretizar esse sexualidade seja destrutiva - ou seja, ela é prejudicial à
tipo de sexualidade que de modo quase compulsivo leva à terapia e por certo expressa um relacionamento destru-
efetivação para assim produzir seu efeito destrutivo. tivo em geral. Trata-se de uma tentativa de destruir o
A situação é bastante diversa quando o despertar do terapeuta enquanto tal. Entretanto, essa é uma dimensão
desejo sexual no paciente e no analista é uma expressão importante da pessoa que o paciente diz amar. Percebe..

62 63
se, assim, que a experiência da sexualidade e a situação unificação, como um mysterium coniunctionis vivido. Esse
terapêutica não se entrosam jamais. ' aspecto transcendente da intensa atração entre analista
Ainda que a sexualidade não seja vivida na análise, e paciente deve ser de alguma forma apreendido e expe-
é preciso adotar uma atitude altamente diferenciada em rimentado por ambas as partes durante a análise.
face do surgimento de uma atração sexual mútua, inves- Mas é precisamente o aspecto transcendental do fe-
tigando-se o que ela de fato expressa. Por mais doloroso nômeno que fi sombra de charlatão do analista pode usar
que seja, o analista deve sempre examinar as fantasias como artimanha. Qualquer analista sabe que a constela-
sexuais do paciente, bem como as suas próprias: Com- ção da sexualidade abriga certos perigos. A sexualidade
preender as d~ paciente e suprimir as suas não adianta destrutiva opera qual moléstia contagiosa. Um analista
muito, pois a natureza da situação psíquica se espelha junguiano ansioso e preocupado com seu próprio bem-
em parte em suas próprias .fantasias. Um psicólogo que estar procurará evitar esses perigos aGenando para os
supervisionava um caso com um colega relatou a seguinte : t" aspectos transcendentais tão logo a sexualidade venha à
fantasia recorrente: ele e sua paciente mantêm relações tona. Em vez de dar atenção às suas próprias fantasias e
sexuais; no dia seguinte ela é internada numa clínica às do pacieIjlte, ele se refugia no simbolismo mais profun-
psiquiátrica particular, devido a um ataque histérico; na > '..

do do fenômeno sexual. Isso lhe oferece certa imunidade


clínica ela conta tudo o que se passou entre ambos. Essa contra os perigos apresentados por uma sexualidade es-
fantasia, no mínimo, levanta a suspeita de que certos timulada; mas também destrói certas possibilidades de
fatores destrutivos estavam por trás dos sentimentos relacionamento e anula a chance de lidar com eventuais
sexuais de ambas as partes. tendências destrutivas em si e no paciente. Apesar de suas
Os psicoterapeutas junguianos, em particular, apre- boas intenções, acaba desvalorizando tanto a experiência
sentam uma forma peculiar de sombra de charlatão. Um do paciente como talvez a sua própria.
dos grandes feitos de C. G. Jung foi ter conferido um sig- Apesar de em última instância ser um símbolo, a
nificado mais profundo às descobertas de Freud no campo sexualidade só poderá ser um símbolo vivo se for real-
da sexualidade, em vez de descartá-las ou desaprová-las. mente experimentada. As formulações psicológicas e
O psicólogo junguiano compreende a sexualidade como filosóficas se interpõem entre as pessoas e a experiência.
símbolo de algo não-sexual, ou seja, a união dos opostos ou Além disso, a ênfase prematuramente concedida ao sim-
coniunctio oppositorum. As cartas de amor de uma freira bolismo desperta no paciente a sensação de não ser levado
a Jesus Cristo não representam necessariamente a subli- a sério. No momento, este se vê tomado e seduzido por
mação de um selvagem impulso sexual, mas precisamente fantasias e desejos sexuais; o analista deve em primeiro
o oposto; mesmo a mais primitiva forma de sexualidade lugar compreender e em certo sentido participar da ex-
é até certo ponto encarada como um símbolo vivo da periência antes de tentar enriquecê-la com seu profundo
unificação dos opostos que tanta dor e alegria causam à simbolismo.
humanidade. Assim sendo, em última análise, o fenôme-
no da atração erótica e sensual intensa na psicoterapia
deveria também ser compreendido como símbolo dessa

64 65
o MEDO DESTRUTIVO Indiquei atrás que todo relacionamento tem um as-
DA HOMOSSEXUALIDADE pecto físico ou corporal. Duas pessoas que se relacionam
sejam elas do mesmo sexo ou não, devem sentir algo físic~
uma pela out~a. O corpo, na maioria dos relacionamentos,
está de alguma forma envolvido. Esse sentimento físico
entre duas pessoas do mesmo sexo costuma ser caracte-
rizado como homossexualismo latente e "patologizado"
como algo que não deveria existir.
Mas talvez se devesse definir a homossexualidade de
outra forma. O indivíduo homossexual rejeita o desejo e
a necessidade de união com a polaridade humana (femi-
A atração homossexual apresenta na análise um nino-masculino), não sendo capaz disso porque o outro,
problema de relacionamento muito mais complicado que " ";
o elemento contra-sexual, lhe causa medo e ele se sente
a atração heterossexual. Mas,antes de entrar nesse inadequado por razões psicodinâmicas. Em decorrência,
assunto em detalhe, conv~m apresentar algumas obser- canaliza tudo o que deveria fluir em direção ao sexo oposto
vações sobre a homossexualidade em geral. nos sentimentos físicos e basicamente normais que tem
Muitos psicólogos pressupõem que a criança é um ser por pessoas do mesmo sexo. Assim sendo, na maioria dos
"polimorfo perverso", o que entre outros "desvios" sexuais casos o homossexual reprimiu sua heterossexualidade.
inclui tanto a hetero como a homossexualidade.' Os jogos Parte de sua energia psíquica heterossexual flui numa
sexuais das crianças obviamente ocorrem nos dois níveis. hom~ssexualidade que em essência sempre existiu.
No transcurso do desenvolvimento, o componente hete- ';
.,
.-
~.
E muito comum nos equivocarmos quando falamos
rossexual adquire cada vez mais importância, enquanto a de homossexualidade sublimada ou latente. Muitas vezes
dimensão homossexual retrocede, é suprimida e reprimida. não se trata desse fenômeno no sentido aqui adotado, mas
Em muitas pessoas o aspecto homossexual se encontra pró- simplesmente da presença de um eros incondicionado
ximo à superfície, podendo, sob certas circunstâncias, ser muito forte.
temporariamente ativado. Muitos psicólogos acreditam que Colocando a questão em termos mais concretos: dois
a homossexualidade costuma estar tão perto da superfície hom.ens que se gostam, ou duas mulheres amigas, não
que de alguma forma deve ser sublimada; para estes, os precIsam necessariamente sentir o outro como fisicamente
líderes de jovens, os professores, os militares etc. são pes- r~I?ulsivo. Não se pode ser amigo de alguém se a presença
soas cuja homossexualidade foi sublimada num interesse flsIca dessa pessoa nos causar repulsa. Deve-se ter pra-
por jovens e estudantes, e assim por diante. Nos diálogos zer em comer com o amigo, caminhar a seu lado, sentir
de Platão, Sócrates assume uma posição um tanto diver- sua respiração, ter em suma uma sensação de bem-estar
sa. Sustenta que a homossexualidade é na verdade uma em sua companhia. O amigo deve sentir o aspecto físico
forma mais elevada de amor, não associada ao impulso de do outro como algo agradável. Talvez Sócrates estivesse
procriação e portanto mais pura e mais digna do homem. em última análise se referindo a essa sensação erótica,

66 67
Ele sente que estes são perigosos, arma-se de teorias e
pois dava sempre a entender praticamente não ter tido
mais teorias e corre em busca de proteção. Um exemplo:
relações homossexuais, mas sensações desse tipo.
Por certas razões históricas que escapam ao âmbito 1/
um analisa,ndo sonha que está acariciando e abraçando
desté livro, esse aspecto corporal do relacionamento entre o analista. Este provavelmente acha o sonho doloroso e
pessoas do mesmo sexo tornou-se um tabu na maioria repugnante e o interpreta no plano objetivo como expres-
das culturas átuais, sendo suprimido desde a infância e são de homossexualismo latente. No plano subjetivo, o
encarado como algo altamente repreensível. Os europeus sonho estaria dizendo que o paciente acaricia seu próprio
do norte, especialmente; chegam a extremos em sua rejei- fator terapêutico interior (analista = fator terapêutico).
ção desse aspecto. Já entre os meridionais é mais comum Talvez, porém, o sonho simplesmente expresse o desejo do
e aceitável que os homens se abracem e tenham contato analisando de se aproximar do analista, tanto física como
físic'o. Durante o Romantismo era comuni os amigos an- espiritual:tnente. O analista está sendo solicitado a dar
darem de mãos dadas. Atualmente, entre nós suíços, por carinho ao paciente; o uso da interpretação como recurso
exemplo, o contato físico entre homens ditos normais só para evitar tal pedido não trará benefício algum.
A rejeição do aspecto corporal pelo analisando e prin-
é possível sob a influência do álcool.
A análise usa o relacionamento para fins de terapia. cipalmente pelo analista acarreta sérias conseqüências. É
Mas, como o relacionamento intenso também constela como se uma parte do sentimento erótico ficasse vagando
sentimentos físicos entre dois homens ou duas .mulheres, no escuro. O relacionamento entre ambos pode se trans-
analista e analisando devem de certa forma estar fisica- formar em algo marcado pelo ódio e pela rejeição. Talvez a
mente "juntos" e experimentar as mesmas vibrações. análiseseja interrompida ou tenha de atravessar grandes
Poucos analistas são capazes de enfrentar esse aspecto. dificuldades para chegar a um desfecho, já que a relação
, l'

Tão logo sejam sentidas essas vibrações corporais, seja em passa a apoiar-se em suspeitas paranóicas de parte a
fantasias ou sonhos, começa-se a falar de homossexualida- parte. Em termos freudian,os, ambos teriam reprimido
de latente e o assunto se torna doloroso para o analista. A sua assim chamada homossexualidade e agora se sentem
dimensão corporal de eros é posta de lado e destruída. ameaçados por ela, vendo no outro um perseguidor.
Os psicólogos junguianos, porém, procuram escapar Quando esses sentimentos físicos se constelam, o
desse envolvimento de eros não dando continuidade às analista sério que aceita se expor ao perigo não tem esco-
declarações veladas ou explícitas do paciente no campo lha: ele não deve rejeitar tais sentimentos, mas observá-
sexual, ou então interpretando-as de modo imediato num los e permitir que seu paciente fantasie. Deve ao menos
"nível mais elevado". Nesse caso, fazem referências à aceitar as fantasias do paciente, em vez de rotulá-las de
relação do paciente com o masculino espiritual, com sua pronto como patológicas ou desviá-las mencionando seu
própria masculinidade criativa etc. Um sonho homos- significado simbólico profundo.
sexual é instantaneamente interpretado como "busca e Em última análise, a psicoterapia é uma atividade eró-
tentativa de compreender a própria masculinidade". tica. Mas a sombra de charlatão do analista procura evitar
Tal como no caso do erotismo heterossexual, aqui as exigências de eros; quando muito, essa sombra tem uma
também o analista tenta fugir dos fenômenos eróticos. relação erótica consigo mesma - mas n~o com o paciente.

69
68
111

o ANALISTA E A LISONJA vista inexistente. Eis aqui alguns exemplos: o "arquétipo


da rainha" é explicado a uma mulher sequiosa de poder,
sendo o aspecto dominador do feminino interpretado como
expressão de uma "natureza real". A falta de coragem nas
relações interpessoais e o medo ou mesmo a incapacidade
de amar são interpretados como uma "interessante intro-
versão"; o paciente é chamado não de egoísta cruel, mas
de altamente introvertido. A falta de respeito pela mãe
'. idosa é vista como liberação do animus maternal. Em vez
de procurar melhorar o tenso relacionamento entre pai e
filho, surge a conversa de que "o rei deve morrer", ou que
A sombra de charlatão que leva o analista a evitar é preciso assassinar o pai primordial. Não se menciona
as exigências interpessoais da análise costuma também o fato de que uma análise cuidadosa pode muitas vezes
manifestar-se sob outro aspecto, igualmente inespera- transformar pais ameaçadores em velhinhos cordiais cuj a
do. O analista tem muitas vezes de dizer coisas pesadas ameaça desaparece à medida que o próprio paciente se
(
ao paciente. É obrigado a revelar mecanismos psicológicos ,
fortalece. úm jovem afeminado que conseguiu extorquir
e armadilhas escondidas difíceis de mencionar e ainda um carro esporte de seu rico pai é elogiado por sua firmeza
mais de ouvir. Entretanto, ambos serão capazes de car- contra o velho, sendo o carro encarado como símbolo de
regar esse fardo se as coisas forem ditas num espírito uma masculinidade recém-adquirida.
de verdade e autenticidade. Nesse ponto surgem dois É muito difícil para um analista abster-se de fazer
perigos. O primeiro é que o analista pode usar a neces- de vez em quando elogios desse tipo. Afinal de contas, seu
sidade de fazer observações dolorosas a fim de torturar o objetivo mais legítimo é demonstrar ao paciente que este
paciente e demonstrar seu próprio poder. Quando o faz, tem valor como ser humano, revelando os aspectos fasci-
porém, o analista logo percebe: ele tem uma sensação de nantes da psique existentes por trás de todas as dificulda-
culpa, faz uma auto-avaliação honesta e se dá conta do des neuróticas. É justo que o paciente sinta que sua vida e
que ocorreu. A segunda possibilidade é mais perigosa. O sua alma têm tanto valor e são tão interessantes como as
analista poderá transformar suas observações desagra- de qualquer outra pessoa. No nível puramente verbal, não
dáveis sobre o paciente em adulação. Tal procedimento há grande diferença entre ressaltar os genuínos valores da
dá a impressão de ser uma forma genuína de atingir o psique do paciente por meio da lisonja ou da verdade e da
paciente e pode temporariamente satisfazer a ambas as sinceridade. As menores nuanças são neste caso da maior
partes; com efeito, o paciente pode no momento se sentir importância. Predominando a lisonja, o paciente tornar-
auxiliado em seu desenvolvimento psicológico devido ao se-á um neurótico que glorifica seus aspectos distorcidos,
aumento da auto-estima. Mas, nesse processo, o analista o que acaba sendo destrutivo tanto para ele como para
acaba por prender cada vez m,ais o paciente, tornando-se, seu ambiente; e seu desenvolvimento psicológico, que se
aos olhos deste, alguém que percebe um valor à primeira baseia na veracidade, será gravemente prejudicado. Se

70 71
enveredar pelo caminho do elogio, é pouco provável que ·0 ABUSO DA BUSCA DE SENTIDO
o analista saia dele por obra do próprio paciente. Pelo
contrário, em situações desse tipo este ~m. geral tam-
bém começa a elogiar o analista direta ou IndIretAam~nte.
Essa lisonja mútua não é questão de. transferencIa ou
contratransferência; isso quer dizer, sImplesmente, que
um e outro se embalam, dão a aparência de trabalhar
muito bem em conjunto e reciprocamente fortalecem ~~a
auto-estima - quando na verdade permitem que o serIO
trabalho de análise degenere num jogo charlatão. ~es.sa
forma, o valor mais profundo do desenvolvimento pSIqUICO
é completamente traído.
o conceito de si-mesmo desempenha um papel central
na análise junguiana. Em certo sentido, o si-mesmo é um
pólo oposto ao ego. O ego diz respeito ao homem mundano,
à posição social e familiar, à saúde física e emocional. O
si-mesmo, por outro lado, costuma ser descrito como a
"centelha divina" no homem. Em termos um tanto solenes,
pode-se dizer que ele diz respeito aos valores eternos da
psique humana. Ele não se interessa por posição social,
sucesso nos negócios e nas relações pessoais, vida longa
etc., mas antes por aquilo que o Cristianismo denominou
"Cristo em nós". Em termos cristãos, o ego costuma ser
caracterizado como "o mundo", e o si-mesmo como "a
alma".
A diferenciação entre si-mesmo e ego é de extrema
importância; nenhuma análise poderá chegar a bom termo
sem que essa diferença seja de algum modo experimenta-
da. É exatamente aí que se abre uma brecha para a som-
bra de charlatão. Amoral em vigor, os conceitos de honra,
lealdade, respeitabilidade, fidelidade conjugal etc. são,
sob vários aspectos, produtos do.ego do homem ocidental
e não do si-mesmo. De um ponto de vista mais elevado, há
ocasiões em que o não-moral é que deve ser praticado~ Es- .
sas infrações da moralidade geralmente aceita vão desde
inofensivas "mentiras brancas" até o assassinato de um

73
72
semelhante. O indivíduo constantemente se confronta com análise o feiticeiro aparece de forma um tanto diversa e
decisões que não podem ser tomadas dentro dos limites muito mais perigosa. Ele poderá amalgamar-se ao que
das regras morais correntes
, e que requerem uma tomada num capítulo anterior chamei de falso profeta. O analista
pessoal de posição, implicando às vezes a violação das enredado na sombra de falso profeta e feiticeiro passa a
normas - o que pode levar a graves conflitos. mitigar as necessidades religiosas do paciente com um
Qualquer analista sabe disso. O si-mesmo pode fazer simulacro de conhecimento transcendental. Mediante
suas próprias exigências em relação ao ego. lVÍas esse fato essa atitude, ele vê um sentido demonstrável em todos
costuma ser utilizado para justificar, com o auxílio do os acontecimentos. Um analista junguiano desse tipo,
analista, certos comportamentos simplesmente imorais, por' exemplo, poderá demonstrar em tudo o trabalho do
indelicados ou agressivos por parte do paciente. O adul- inconsciente. Cada sonho, cada evento ou acaso, cada
tério, por exemplo, pode ser interpretado não como um aflição ou sofrimento, cada alegria, cada golpe de sorte é
grave insulto e um ataque contra o cônjuge, mas como entendido significativamente em termos do inconsciente.
uma liberação das normas coletivas em nome de si-mesmo Como um pequeno deus, o analista vê tudo claro e é capaz
e sob a bandeira da auto-realização. O comportamento de associar qualquer evento a uma coisa ou outra. A mão
injusto e desleal para com amigos, conhecidos, emprega- negra das Moiras, as Parcas, às quais até os deuses (isto
dôs ou superiores e a rejeição da moralidade e da virtude é, o inconsciente) estão sujeitos, já não é mais reconhe-
passam a ser louvados como corajosa redenção em face cida; já não há mais nenhuma tragédia, nenhum horror
do coletivo ou como independência emocional. O analista, incompreensível. Os homens só caem em desgraça porque
assim procedendo, ajuda o paciente a encontrar um alívio perderam o contato com o inconsciente ou porque não se
momentâneo para certos conflitos morais. O adúltero ou conhecem plenamente. E no fiIll esses analistas chegam até
o amigo desleal já não se sentem mais culpados. O pa- mesmo a simular a seus pacientes, que podem ver por trás
ciente fica feliz por ter-se livrado de um conflito moral de do pano o que ocorre no mundo.
maneira tão simples. Mas a longo prazo isso não lhe faz A escola teórica a que pertence o analista não faz
bem, pois seu alívio foi atingido à custa da veracidade. riesse caso a menor diferença. Qualquer analista, com base
De sua parte, o analista sente-se feliz por ter encontrado em sua teoria particular, pode fingir a si mesmo e a seu
um jeito simples e rápido de promover a "cura". O char- paciente que é capaz de penetrar no sentido de qualquer
latão nele o impele a evitar o longo e difícil caminho de fenômeno. De modo mágico, artístico e profético, ele pro-
uma cura genuína. Nesse caso, o que lhe interessa não é cura ligar tudo às forças básicas que acredita governarem
a verdadeira cura do paciente, mas a preservação de sua a vida psíquica. Esse procedimento dá ao paciente uma
imagem de grande terapeuta. momentânea sensação de segurança e ao analista o prazer
Indiquei, páginas atrás, que tanto o analista como o de sentir-se um mágico onisciente.
paciente costumam colocar-se por algum tempo na posição A sombra de charlatão' do analista aparece também
de feiticeiro e aprendiz. Até certo ponto, essa constela- sob outros disfarces. Vários livros poderiam ser escritos
ção pode mesmo ser necessária, sendo em alguns casos para descrevê-los. Procurei apenas indicar alguns poucos
dissolvida sem maiores dificuldades. Mas no decorrer da exemplos concretos. Mas é igualmente importante per-
74 75
ceber como essa sombra de charlatão costuma vir à tona que se preocupa o assistente social com os desajustados?
simultaneamente ou em conjunção a certas tendências O que é que compele certas pessoas a quererem ajudar os
destrutivas do paciente. diante da terapia. Esses dois ./
doentes, os que sofrem, os infelizes, os marginalizados?
fenômenos se estimulam ou se fortalecem mutuamente. Para compreender essas questões devemos inicial-
Por essa razão, o analista não pode detectar a sombra mente examinar a situação do médico - imagem primor-
resistente do paciente é sua destrutividade pára com a dial daquele que ajuda e cura. Talvez uma visão do aspecto
terapia se não estiver sempre consciente de sua própria sombrio do médico e de seu modelo básico de pessoa que
sombra. Isso se liga à observação feita no capítulo "Psi- ajuda/cura, seja ele psiquiatra, psicoterapeuta, analista
coterapeuta: charlatão e falso profeta" com respeito à ne- ou assistente social, derive em última análise da medicina
cessidade de honestidade por parte do analista para com clássica. À medida que um assistente social funcione ape-
o paciente. Em princípio, devemos evitar desempenhar nas como doador de esmolas, sua atividade tem pouco a
o papel de alguém que nunca cai na sombra e também ver com a imagem médica básica. Mas pode-se dizer que
estar preparado para admitir nossos erros nesse sentido, o serviço social moderno se inclina em direção ao modelo
não necessariamente em todos os casos, mas sem dúvida médico. Um assistente social não se apresenta para fazer
em princípio. As resistências destrutivas do paciente se r ~.
caridade, mas para ajudar a sanar uma situação social. E
ligam a nossos próprios problemas de sombra e um não o profissional moderno procura - às vezes com demasiado
pode realmente ser apreendido sem o outro. Por exemplo, ardor - extrair da pSicologia um tipo de conhecimento
,1,
devemos estar dispostos a dizer: "aqui caímos ambos em capaz de ajudá-lo em seu trabalho com o marginalizado.
nossas tendências destrutivas. Tentei elogiá-lo e você O trabalho de caso, atualmente, chega perto de uma psi-
tentou aumentar seus complexos neuróticos para parecer coterapia, sim plificada.
um neurótico interessante".
Sombra no analista constela sombra no paciente.
Nossa própria honestidade ajuda-o a confrontar seus
fenômenos sombrios. Cada um de nós deve trabalhar em
ambas as áreas.
Até este ponto, tratei com algum detalhe dos proble-
mas do psicoterapeuta. No capítulo "Serviço social e ln.,.
quisição" descrevi algumas das dificuldades encontradas
pelo assistente social. Para expandir nossa compreensão
dos aspectos sombrios dessas duas atividades, talvez seja
necessário penetrar mais profundamente naquilo que
compele os membros dessas profissões de ajuda a fazerem
o tipo de trabalho que fazem. O que leva o psicoterapeuta
a procurar ajudar as pessoas com dificuldades emocionais?
O que,
incita o psiquiatra a tratar de doentes mentais? Por
i1
I.
76 77
·
o MÉDICO TODO-PODEROSO hesitava em lançar mão dos recursos que lhe parecessem
E O PAClENTE PUERIL necessários para manter o poder. Este, bem como o desejo
de tê-lo, ligava-se ao fato de que não se tratava meramente
de um médico, mas de um sacerdote em contato direto com
as forças superiores. Quem se interessa pela História sabe
muito bem que nas situações em que se aceita o contato
direto de alguns com os deuses há sempre o perigo de o
poder ser usado para fins escusos.
Os médicos da Grécia Antiga também eram sacerdo-
tes - mas de Asclépio, deus da cura, que, com o passar do
tempo, foi reduzido a mero santo padroeiro. Os médicos
No começo deste livro abordamos o problema do poder árabes e judeus da Idade Média seguiram um caminho
no serviço social. O obscuro fenômeno do desejo de poder diverso do sacerdócio e se aproximam bastante de seu
é uma coisa óbvia para os que trabalham nessa área. Mas similar contemporâneo. Os médicos da Europa medieval
o problema se apresenta igualmente com a mesma intensi- sofreram a influência da alquimia, colocando-se assim
dade no campo médico. novamente em contato com o sobrenatural. Já os da Re-
A medicina fez grandes progressos no século passa- nascença voltaram a ser médicos "puros", mais cientistas
do. Sua capacidade de abrandar o sofrimento e prevenir do que sacerdotes.
a doença aumentou bastante. Muitos males infecciosos, Mesmo nos períodos históricos em que os recursos da
como, por exemplo, a peste, foram praticamente elimi- medicina eram bastante limitados e os médicos já esta-
nados. O uso das vacinas conteve por completo a varíola vam claramente separados da religião, estes eram quase
epidêmica ou endêmica. A tuberculose já se encontra tão respeitados e temidos quanto os atuais. Parece que
parcialmente sob controle. O progresso técnico na cirurgia médicos e sacerdotes sempre tiveram poder equivalente.
tornou possível as mais extraordinárias operações para Mas não estará então o poder do médico e da medicina
salvar ou prolongar a vida - e hoje já se pode enxertar em geral mais ligado ao poder psicológico do que àquele
braços ou substituir corações. O antigo flagelo da febre baseado no conhecimento científico?
puerperal, que vitimou tantas jovens, é hoje uma rari- Seria interessante abordar esse tema a partir de um
dade. Na imaginação, pelo menos, vemos a medicina se prisma psicológico. As pessoas com saúde podem viver
expandir até um remoto horizonte. Seus instrumentos e uma vida independente, digna e respeitável. Um corpo
sua infra-estrutura são hoje de tal ordem que se tornou saudável permite ao indivíduo cuidar de seus interesses
lugar-comum imaginar o médico moderno como alguém de modo livre e autônomo, dado que as circunstâncias
dotado de enorme poder, tanto em sentido positivo como exteriores sejam favoráveis. Mas tudo muda quando a
negativo. doença entra em casa. O homem sadio se torna então uni
A etnologia nos tem fornecido descrições precisas do paciente, o adulto se transforma em criança. O indivíduo
:'.
1~ ,
médico arcaico, ou curandeiro, poderosa figura que não até então digno e saudável é subitamente dominado pelo
1
.';!. 78 79
1
1\
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medo, torturado pela dor e ameaçado pela morte. Uma o ARQUÉTIPO
estranha forma de regressão se manifesta. O paciente já
não é mais senhor de seu corpo, mas sua vítima. A psi-
DE "TERAPEUTA-PACIENTE"
que, também, parece transformar-se sob a influência da E O PODER
doença física. As mulheres que passaram pela experiência
de cuidar de maridos temporariamente enfermos podem
relatar inúmeros exemplos dessa mudança. O homem
forte, protetor do lar e senhor da casa, torna-se uma
criança a pedir com voz chorosa seu suco de laranja. Os
médicos e os enfermeiros observam amesma regressão em
pacientes hospitalizados - adultos se tornando infantis,
com uma confiança cega no especialista ao lado de uma O relacionamento entre terapeuta e paciente é tão
recalcitrância igualmente pueril. fundamental quantc: aquele entre homem e mulher, pai
Em situações desse tipo, o médico se torna a grande e filho, mãe e filho. E um relacionamento arquetípico, no
fonte de ajuda e, esperança. Temido, respeitado, odiado sentido em que C. G. Jung usou a expressão, ou seja, é uma
e ad.mirado, às vezes chega a parecer um redentor divino. forma inerente e potencial de comportamento humano.
O médico pode curar, pode aplacar a dor e tornar supor- Em citações arquetípicas, o indivíduo percebe as coisas e
tável' a experiência da morte. Sem ele, o paciente está atua em conformidade com um esquema básico que lhe
perdido. é inerente, mas que em princípio é o mesmo para todos
É claro que o médico sabe, em termos puramente os homens.
intelectuais, que seus pacientes são pessoas como ele. Não estará o poder de alguma forma dissimulado no
Mas, para ser honesto, ele deve sempre admitir a impos- arquétipo de terapeuta-paciente? Antes de procurar uma
sibilidade de evitar uma atitude negativa diante de seus resposta a essa questão, devemos esboçar rapidamente os ..
pacientes. Especialmente para um médico de hospital, os vários sentidos que a palavra "poder" pode assumir.
pacientes costumam reduzir-se à condição de criaturas Num relacionamento humano um sujeito confronta
pobres e infelizes, sem nenhum status ou dignidade, uma outro. Cada um se relaciona com o outro como sujeito.
classe virtualmente distinta de pessoas - insensatas, não Num relacionamento em que o poder seja o fator dominan-
tomam seus remédios, fazem coisas prejudiciais a si mes- te, um tenta transformar o outro em objeto, sujeitando-se·
mas, às vezes obedecem e outras não - exatamente como este ao primeiro. Isto é, o objeto passa a ser manipulado
as crianças. Estabelece-se assim uma polaridade entre o pelo sujeito segundo seus próprios interesses. Esse tipo
paciente em regressão, infantil e temeroso, de um lado, de situação acentua a noção que o' sujeito tem de sua
e, de outro, o médico superior e orgulhoso, distanciado, própria importância e isenta o objeto de qualquer respon-
mas talvez ainda friamente cortês. sabilidade. Aí temos um tipo de poder. Outra variedade
é a "autodeificação". Só Deus, ou os deuses, tem o direito
de dominar os homens. Um ser humano possuído por

80 81
um "complexo de deus" tenta, como um deus, dominar os de sua posição para exercer poder lembra antes um ri-
outros. Esse tipo de poder tem uma qualidade numinosa dículo tirano, inflado, pequeno e moralmente deplorável.
e é extremamente perigoso tantõ para o dominador Deixa os pacientes esperando horas enquanto bate papo
quanto para o dominado. Os César~s, Napoleão e Hitler com as enfermeiras, fornece-lhes o mínimo de informações
são exemplos dessa autodeificação. E esse o tipo de poder sobre sua condição e baixa ordens sem maiores explica-
que Jacob Burckhardt descreve como sendo mau em si. ções. Atravessa as alas do hospital como um potentado do
O moderno culto que envolve o médico é, ao menos Oriente inspecionando seus escravos indefesos. Tudo isso
em parte, uma expressão desse poder. Ao usar o termo parece mesquinho, sem nada de muito edificante.
culto, quero dizer a veneração pública e o prestígio social Aqui surge a questão da natureza do poder do mé-
usufruídos pelo médico como alguém que "tem nas mãos dico. Saúde e enfermidade, terapeuta e doente, médico e
a vida e a morte, a doença e a saúde". Tal fato é expresso paciente são todos motivos arquetípicos. Será que o poder
nos romances sobre médicos, em biografias como a de San faz parte do arquétipo terapeuta-paciente, como ocorre
Michele, em filmes populares e seriados de televisão. com o de rei-súdito? Se fosse esse o caso, não haveria nada de
Esse culto e o poder que os médicos podem exercer mesquinho ou mau no exercício de tal poder. Um arquétipo
em hospitais estão interligados e se reforçam mutuamen- é um fator primordial, uma realidade fundamental, e como
te. ~O médico-chefe ditatorial, cujos estados de espírito tal não pode ser mesquinho por natureza. Ou será que o
tanto aterrorizam os pacientes, diante de cujos resmun- tipo de poder acima descrito no relacionamento entre pa-
gos tremem enfermeiros e residentes, é uma figura bem ciente e médico é exclusivamente negativo e destrutivo, ou
conhecida. Os pacientes não ousam fazer perguntas, seja, uma tentativa de transformar um indivíduo em obje-
com medo de ser tratados bruscamente. No entanto, to e de degradar a humanidade do outro no relacionamen7'
muitos enfermeiros, estudantes e pacientes admiram to? Não parece sustentável supor que nós médicos sejamos
essas demonstrações de poder e respeitam o grande e a tal ponto guiados por forças destrutivas. Escolhemos
poderoso líder quando este, tal como um semideus, atra- nossa profissão para poder curar; seria difícil supor que
vessa os corredores do hospital seguido por um séquito no fundo o que nos move são impulsos destrutivos desse
de assistentes. tipo. Não estaremos porventura tratando aqui de uma
Mas há algo de errado aqui. Parece que minha pro- espécie de autodeificação, na qual um complexo de deus
sa está sendo invadida por um toque vulgar. As memórias, é ativado no médico? Essa seria uma possibilidade; mas,
os romances médicos e os filmes de televisão sobre a vida uma vez mais, a mesquinharia e o mau gosto do fenômeno
hospitalar são em geral sentimentais, de mau gosto e sem não parecem conduzir a essa suposição. Tentar tornar-se
nenhum valor artístico. Há algo de impressionante num como Deus é uma grande transgressão, mas sem nada
político que exerce seu poder, num líder sindical capaz de de mesquinho. Não obstante, a mesquinhez associada ao
paralisar toda uma indústria com uma só palavra, num poder do médico não pode ser mera questão de acaso. Os
executivo cujas decisões afetam a vida de milhares de vários tipos de poder que descrevi não parecem se aplicar
pessoas, num general.de quem podem depender a vida e ao problema aqui examinado.
a morte de batalhões inteiros. Mas um médico que abusa

82 83
A CISÃO DO ARQUÉTIPO inata desse tipo de comportamento na situação mãe-filho,
o que misteriosamente deve significar que o filho já está
contido dentro da mãe, um pouco no sentido da frase de
Goethe: "Se nosso olho não contivesse o poder do sol,
como poderia percebê-lo?" Talvez não devêssemos falar
de um arquétipo materno, paterno ou do filho, mas de um
arquétipo mãe-filho ou pai-filho.
Levando adiante essa linha de raciocínio, eu sugeriria
que não há um arquétipo especial de terapeuta ou pa-
ciente. Ambos são aspectos da mesma coisa. Quando uma
pessoa fica doente, o arquétipo de terapeuta-paciente se
A literatura psicológica tem tratado de uma grande constela. O enfermo procura um terapeuta exterior, mas
variedade de aspectos do arquétipo. Um deles, porém, ao mesmo tempo se constela o terapeuta intrapsíquico.
parece ter sido relativamente ignorado. Para evitar mal- Costumamos nos referir a este, no paciente, como "fator
entendidos, tentarei novamente examinar a natureza do de cura". É o médico dentro do próprio paciente - e sua
arquétipo, desta vez em termos distintos dos até aqui ação terapêutica é tão importante quanto a do profissio-
usados. nal que entra em cena externamente. As feridas não se
O arquétipo pode ser definido como uma potencia- fecham nem as doenças se vão sem a ação curativa do
lidade inata de comportamento. O ser humano reage terapeuta interior. Costuma-se dizer que um paciente
arquetipicamente a alguém ou a algo quando se defronta "não quer ficar bom". Mas como esse não-querer-sarar não
com uma situação típica e recorrente. A mãe e o pai se refere à vontade do ego, seria mais apropriado dizer:
reagem arquetipicamente ao filho ou filha, o homem rea- "Seu terapeuta interior parece fraco".
ge arquetipicamente à mulher etc. Nesse sentido, certos Muitas doenças requerem os serviços de um médico
arquétipos têm dois pólos,. por assim dizer. Sua situação externo. Mas este não será suficiente sem o auxílio do
básica contém uma polaridade. terapeuta interior. O médico pode fechar o corte - mas
Não sabemos, é claro, o modo preciso como se ori- algo no corpo e na psique do paciente deve cooperar para
ginou o comportamento arquetípico. Talvez um dos pólos que a enfermidade seja vencida.
do arquétipo se localizasse originalmente no indivíduo e Não é difícil imaginar o fator curativo no paciente.
o outro fora dele, em seu semelhante. Mas, na psicologia Mas e o médico? Defrontamo-nos aqui com o arquétipo
humana que conhecemos, ambos os pólos estão contidos do "terapeuta ferido". Quíron, o centauro que ensinou a
no mesmo indivíduo. Nascemos todos com ambos os pólos Asclépio a arte da cura, tinha feridas incuráveis. Na Babi-
dentro de nós. Se um pólo se constela no mundo exterior, lônia havia uma divindade canina com dois nomes: Gula,
o outro, oposto e interior, também se constela. morte, e Labartu, cura. Na índia, Kali é a deusa da varíola
A criança desperta na mãe o comportamento ma- e ao mesmo tempo é quem a cura. A imagem mitológica do
ternal. Há, na psique de cada mulher, a potencialidade terapeuta ferido é bastante difundida. Psicologicamente,

84 85
isso significa não só que o paciente tem um médico dentro No médico, a repressão de um pólo do arquétipo
dele, mas também que há um paciente no médico. leva à situação contrária, fazendo-o crer que fraqueza,
Iniciamos este capítulo com o problema do poder. doença e ferida são coisas que nada têm a ver consigo.
Vejamos se o conceito de cisão do arquétipo pode es- Sente que é o terapeuta forte; que as feridas só existem
clarecer melhor essa questão. Não é fácil, para, a psique no paciente e que ele próprio está protegido; que as pobres
humana, suportar a tensão das polaridades. O ego ama criaturas conhecidas como pacientes vivem num mundo
a clareza e tenta sempre erradicar a ambivalência in- completamente distinto do seu. Ao se tornar um médico
terior. Essa necessidade de situações inequívocas pode livre de ferimentos, já não pode constelar o fator de cura
acarretar uma cisão dos pólos arquetípicos. Um pólo po- em seus pacientes. Torna-se exclusivamente o médico
derá ser reprimido e continuar operando no inconsciente, - e assim seus pacientes são exclusivamente pacientes.
possivelmente causando distúrbios psíquicos. A parte Já não é mais o médico ferido que confronta os doentes
reprimida do arquétipo poderá ser projetada sobre o e neles constela o fator curativo interior. A situação fica
mundo exterior. O paciente, por exemplo, talvez projete absolutamente clara: de um lado está o médico, forte e
seu terapeuta interior sobre o médico que o trata e este saudável, e de outro o paciente, fraco e enfermo.
poderá projetar suas próprias feridas sobre o paciente.
Essa projeção de um pólo do arquétipo sobre o mundo
exterior poderá proporcionar uma satisfação momentâ-
nea. Mas, a longo prazo, indica que o processo psíquico
está bloqueado. Numa situação desse tipo, o paciente,
por exemplo, poderá deixar de se preocupar com sua
própria cura, esperando que o médico, os enfermeiros e
o hospital lhe tragam a recuperação, ao mesmo tempo
que abre mão de qualquer responsabilidade. Consciente
e inconscientemente, começa a depender completa-
mente do, médico para melhorar, colocando nas mãos
deste seu próprio fator curativo e deixando o barco
correr. Esse tipo de paciente poderá ou não cumprir as
ordens do médico, tomar seus remédios ou jogá-los na
pia. Os ambulatórios estão repletos de pacientes assim
- sempre sofrendo de algo e sem demonstrar o menor
sinal de um desejo de saúde, ou do que poderíamos
denominar consciência de saúde. Seguem as sugestões
do médico ou se rebelam contra elas, como crianças de
escola para quem só o professor deve ser ativo no processo
'j
de aprendizado.
j
j

I 86 87
o FECHAlVIENTO DA CISÃO Neste ponto, podemos nos perguntar se há outros
casos em que a polaridade cindida de um arquétipo seja
POR :MEIO DO PODER igualmente reunificada através do poder. Não sei se isso
ocorre com todos os arquétipos, mas parece tratar-se de
um fenômeno bastante freqüente. Por exemplo, quando
o arquétipo mãe-filha se divide, o problema do poder co-
meça a exercer um papel dominante no relacionamento
entre ambas. Em termos práticos, isso quer dizer que a
mãe torna-se exclusivamente mãe, esquecendo que tem
uma filha dentro de si, algo de "filial" nela própria. em vez
disso, procura ser a mãe perfeita, sem fraquezas. Num
Há um tipo de médico que escolhe sua profissão caso desses a filha se torna uma filha total, impotente e
devido a uma profunda necessidade interior. Mesmo completamente dependente da mãe forte, que a domina
reprimindo um pólo do arquétipo, projetando a doença por completo. Nada de "maternal" se const'ela na filha
completamente sobre o paciente e identificando-se ex- ou de filial na mãe. O relacionamento se dá entre mãe
clusivamente com o pólo da saúde, ele não consegue se forte e dominadora e filha dependente e fraca. O desejo
desfazer por completo desses aspectos. Os pacientes, as de poder e o estado de sujeição expressam uma tentativa
doenças e as feridas não o deixam em paz; quer queira, de reunificar o arquétipo cindido.
quer não, isso tudo lhe pertence. Um arquétipo cindido Assim, o médico tenta reunir o arquétipo cindido
procura sempre recuperar sua polaridade original. mediante o poder e o paciente por meio do reconhecimen-
A reunificação com o aspecto "ausente" da pola- to desse mesmo poder, de sua sujeição ou dependência
ridade pode ocorrer por intermédio do poder. O médico infantil. Essa manifestação do poder tem também seu
pode transformar seu paciente num objeto de seu impulso lado psicologicamente positivo, pois o médico pelo menos
de poder. Agora fica claro por que o poder exercido pelo tenta reunir os dois pólos do arquétipo. O médico tirânico
médico causa uma impressão tão mesquinha e vil, visto e mesquinho, a seu modo, se confronta com o problema
que resulta de certa incapacidade psicológica e moral por fundamental da medicina. Nesse sentido, ele é melhor
parte tanto do médico quanto do paciente. O médico já que o terapeuta jovial que nem ao menos se preocupa em
não é mais capaz de ver suas próprias feridas, seu próprio dominar seus pacientes. Esse tipo animado e descontraído
potencial de doença; só vê doença no outro. Ao objetivar a ou reprimiu um pólo do arquétipo a tal ponto quejá nem
doença, ele distancia-se de sua própria fr~queza, eleva-se pode projetá-lo, ou então nunca de fato se preocupou com
e degrada o paciente. Seu poder provém antes de uma o problema básico do médico, tendo sido sua escolha de
incapacidade psicológica do que da força propriamente profissão meramente superficial.
dita. Um pólo do arquétipo é reprimido, projetad~ e fi- Apesar desse aspecto positivo, no entanto, as conse-
nalmente reunido por meio do poder. O paciente poderá qüências p.a cisão do arquétipo do médico ferido são em
fazer exatamente o mesmo, só que ao reverso. vários sentidos extremamente danosas tanto para o pa-

88 89
ciente como para o médico. O doente se torna um eterno psicológicas, os homens e as mulheres que escolhem a
paciente; seu fator interno de cura já não é mais ativado. carreira médica sentem-se atraídos pelo arquétipo de
O médico se torna um indivíduo de visão limitada, que terapeuta-paciente. Mas, infelizmente, nem todos os que
se julga muito importante, sem nenhuma percepção de a escolhem são suficientemente fortes para experimentar
seu próprio desenvolvimento psicológico. Sua capacidade de modo contínuo os dois extremos da polaridade.
de cGmstelar o fator curativo em seus pacientes diminui Para tornar mais concreto o que acabamos de dizer,
sensivelmente e ele já nem acredita mais que sua função consideremos os estudantes de medicina. Durante seus
básica consiste em possibilitar a atuação desse fator no anos de formação, é comum vê-los atravessar uma fase
paciente. Nesse sentido, uma grande distância o separa durante a qual acreditam sofrer detodas as doenças que
do antigo médico grego, o qual sustentava que só o divi- estão estudando. Ouvem falar de tuberculose e descobrem
)
I
no terapeuta pode auxiliar, cabendo ao médico humano
meramente facilitar sua aparição.
em si todos os seus sintomas; encontram pacientes com
câncer e começam a desconfiar que também sofrem desse
I

f' Seria bom esclarecer neste ponto um possível equí- mal. Esse fenômeno psicológico costuma ser encarado
voco. Quando falo em terapeuta ferido, não me refiro ao como neurose. Os médicos mais velhos riem-se de seus
médico que se identifica com um paciente específico. Isso apavorados alunos, lembram ter passado por essa fase e
seria mer~ sentimentalismo e constituiria apenas uma não dão maior importância ao fato. Mas essa assim cha-
reunificação externa dos pólos do arquétipo. Tal identifica- mada fase ?eurótica pode ser um ponto crítico para o
ção é antes sinal de fraqueza do ego, um método histérico estudante. E nesse momento que ele começa a compreen-
de unir os opostos. der que todos esses males existem nele próprio. É assim
A imagem do terapeuta ferido simboliza uma aguda que ele se torna o "terapeuta ferido". Pode ocorrer, porém,
e dolorosa consciência da doença como contrapartida da que a carga se torne pesada demais e o pólo da doença
saúde do médico, uma certeza duradoura e penosa quan- venha a ser reprimido. Mas, se for capaz de experimentar
to à degeneração final do seu próprio corpo e da própria a doença como uma possibilidade existencial nele próprio
mente. Esse tipo de experiência faz do médico mais um e de integrá-la, o estudante transformar-se-á num verda-
irmão do que um mestre do paciente. Todos temos dentro deiro "terapeuta ferido".
de nós o arquétipo de doença...,saúde, mas sobre o médico Gostaria uma vez mais de lembrar que não se deve
com genuína vocação este exerce um fascínio especial. Não concluir que o po~er exercido na medicina seja completa-
é por outra razão que escolheu sua profissão. O médico mente negativo. E verdade que quanto maior o grau em
médio não entra na carreira tendo em vista um modo fácil que se apresentar, menor a chance de que entre em cena
de conquistar poder e, talvez, ao mesmo tempo auxiliar o verdadeiro terapeuta. Mas repito que é melhor o médico
a humanidade. Costuma-se acusar os médicos de e'sta- tentar reunir o arquétipo cindido por intermédio do poder
rem mais interessados na doença do que na cura. Isso é do que igno,rar por completo o pólo separado.
apenas meia verdade. Eles se interessam pelo arquétipo Consideremos agora, brevemente, o médico de hoje.
de doença-saúde e desejam conhecê-lo por intermédio da A medicina moderna é altamente técnica e especializa-
experiência. Ij)evido a uma grande variedade de razões da. Nossa fantasia sobre o velho médico do interior, que
II 90
91
i
co~hece intim~mente toda a família do paciente, poderá interior, que depende menos da situação externa do que
servir como uma instância do arquétipo não-cindido de do próprio desenvolvimento psicológico e da capacidade
ter'apeuta-paciente, Ele não tinha poder algum, mas à sua do médico em questão.
chegada já baixava a febre das crianças, Malvestido e de Para esclarecer ainda mais o que estou tentando
aparência modesta, costumava ter um fraco pela bebida dizer, gostaria de mencionar uma imagem adicional,
- procurando no álcool um meio de evitar a tremenda e embora consciente de sua eventual impertinência: a
inevitável tensão de viver em permanente contato com imagem de Cristo. Jesus Cristo é uma realidade histórica
ambos os pólos do arquétipo. Mas não tinha manias de e religiosa e portanto só com a maior reserva 'pode ser
grandeza - para nós, ele é a imagem de um bom "tera- concebido como símbolo psicológico. Mas quem melhor do
peuta ferido". que ele expressa o "terapeuta ferido"? Ele curava não só
As pessoas de temperamento mais conservador pode- as doenças da psique, mas também os males existenciais
rão acreditar que o médico moderno talvez já não possa do pecado e da morte.
mais experimentar o arquétipo inteiro. À primeira vista, Cristo foi ferido e carregou os pecados do homem. Veio
ele parece um técnico especializado inserido na produção para salvar o mundo da morte e do pecado e rio entanto
hospitalar em série. Pode parecer que o velho médico é .: :. carregou-os todos e teve de morrer. Sempre recusou ser-
q1:ie era o "terapeuta ferido" por excelência, enquanto o vir-se do poder, reconhecendo apenas o de Deus, seu pai.
..
1 .'.
", especialista moderno e tecnificado tende a repelir um Ele é, assim, o terapeuta ferido no mais elevado sentido .
pólo do arquétipo. Ocorre, porém, que o arquétipo opera Em comparação, o médico não passa de um anão que se
de muitas formas. É feito tanto de realidade interior precipita na luta entre vida e morte, doença e saúde. E que
como exterior. O curandeiro no meio da selva tinha seus só poderá trabalhar criativamente se tiver em mente que,
próprios métodos, muito diferentes daqueles usados pelo a despeito de todo o seu conhecimento e de sua técnica,
médico bem-formad'o da Grécia antiga. O da Idade Mé- em última análise deve sempre procurar constelar o fator
dia, por sua vez, ministrando poções árabes, trabalhava de cura no paciente. E este só pode ser ativado quando o
de modo inteiramente distinto do médiqo de família no médico contém em si a doença como possibilidade exis-
século XIX, a visitar seus clientes de charrete. Durante as tencial. Ele se torna menos efetivo quando tenta unir os
duas guerras mundiais, os cirurgiões tinham sua maneira dois pólos do arquétipo por meio de um poder mesquinho
':! peculiar de viver o arquétipo, assim como o especifllista - mas, ainda assim, isso é melhor do que ignorar ou dei-
altamente preparado da Clínica Mayo possui seu modo xar de compreender essa cisão do arquétipo.
particular de operar. Mas qualquer um desses, não im-
,
porta quão divergentes suas técnicas e métodos, ou vive
o arquétipo inteiro ou reprime um de seus pólos. Todos
podem ser terapeutas feridos ou tiranos mesquinhos. O
aspecto que se impõe não depende de ser o profissional um
médico de família do século XIX ou um diretor de hospital
altamente especializado. A cisão do arquétipo é um evento

92 93
MÉDICO, PSICOTERAPEUTA, à "salvação" da psique. Essa posição argumenta que,
ASSISTENTE SOCIAL E PROFESSOR assim como o ego e o si-mesmo às vezes se opõem e não
visam aos mesmos objetivos, da mesma forma a saúde em
geral e a "salvação da alma" nem sempre são idênticas. O
terapeuta com orientação médica procura apenas auxiliar
o paciente a atingir um estado de saúde, enquanto aquele
psicologicamente orientado visa promover o dinamismo
da psique em direção ao si-mesmo e ao encontro de um
sentido.
Essa posição me parece questionável. Todos devem
buscar o assim chamado sentido da vida, podendo ser
Procurei, no capítulo precedente, examinar o pro- auxiliados por quem quer que seja. Esta não é uma área
blema arquetípico da medicina como profissão. O modelo para atuação exclusiva de especialistas. Os que se sentem
básico desta é importante também para certas profissões feridos ou sofrem de dificuldades emocionais pedem ajuda,
não-médicas que igualmente visam promover o desen- desejando alcançar uma cura que lhes permita continuar
volvimento humano. Algumas se afastaram da medicina a se desenvolver segundo suas próprias potencialidades.
sem perder por completo seus traços de origem, enquanto Há pessoas tão fascinadas pela eterna luta entre doença e
outras têm se voltado cada vez mais para o modelo médi- saúde que se sentem convocadas a tomar parte na batalha,
co, mesmo se no passado não tiveram muito contato com em vez de meramente evitá-la ao sofrer passivamente
ele. Recentemente, o potencial de cura apresentado pelo seus efeitos.
trabalho psicoterapêutico e analítico tem levado a certos Assim como o médico, o psicoterapeuta e o analista,
equívocos. Alguns profissionais dessa área sustentam o assistente social também tem um objetivo terapêutico,
que somente os médicos deveriam poder trabalhar como sentindo-se compelido a melhorar e sanar condições
psicoterapeutas. Em outros termos, é como dizer que sociais "patológicas". Assim, apesar de não possuir nem di-
somente aqueles afetados pelo arquétipo do "terapeuta ploma nem formação em medicina, o assistente social, até
ferido" poderiam ser psicoterapeutas. Quando os médi- certo ponto, compartilha o mesmo de'stino do médico.
cos não conseguem aceitar o fato de que sua atitude O problema da cisão do arquétipo aparece em todas
básica possa igualmente ser encontrada em pessoas não essas profissões - seja a polaridade enfermidade-saú-
formadas em medicina, os psicoterapeutas não-médi- de, consciência-inconsciência, norm,alidade-patologia
cos e os analistas com~çam a se defender. Uma posição social. O médico pomposo, mesquinho e ávido de poder,
corrente é a de que estes deveriam apoiar-se num modelo o psicoterapeuta falso profeta e charlatão e o assistente
distinto daquele que caracteriza a medicina, visto ser sua social inquisidor estão todos inter-relacionados em seu
preocupação central não a doença e a saúde, mas sim a complexo arquetípico. Basicamente, todos sentem o
"alma". Seu alvo primordial não seria recuperar a saúde mesmo fascínio pelo arquétipo de "terapeuta-paciente";
do doente, pois sua responsabilidade diria respeito antes todos sofrem os efeitos dos dois pólos do arquétipo; todos

94 95
podem funcionar como "terapeuta ferido", ou reprimir com a infantilidade e a falta de autocontrole dos alunos.
uma d.as polaridades, projetá-la e assim entregar-se ao Para esse tipo de professor as crianças são o Outro, aquilo
desejo de poder. que ele próprio não deseja ser jamais; comprazendo-se
O problema da cisão do arquétipo aparece igualmente em exibir seu poder sobre as crianças, ele as atormenta
em outro campo de atividade que também se inclui entre e as mantém na linha por meio de "médias" matemáticas
as profissões relacionadas ao desenvolvimento humano. cuidadosamente calculadas.
Refiro-me aqui ao magistério. A confrontação entre pro- O bom professor sente-se fascinado pelo arquétipo
fessor e aluno apresenta um paralelismo à tensão interior adulto instruído-criança ignorante. Um bom professor
existente entre os estágios de adulto bem-pensante e deve, por assim dizer, estimular o adulto instruído na
criança ignorante. Dentro do adulto há uma criança que criança, assim como deve o médico ativar o princípio in-
o impele sempre para o novo. O conhecimento do adulto terior de cura no paciente. Mas isso só pode ocorrer se o
torna-o rígido e fechado com respeito à inovação. Para professor não perder contato com sua própria infantilida-
permanecer emocionalmente vivo, o adulto deve conservar de. Em termos práticos, isso significa, por exemplo, que,
e cultivar o potencial de vida representado pela ingênua ao ensinar, ele não deve perder a espontaneidade, devendo
abertura e pela irracionalidade das experiências da crian- ':l
deixar-se conduzir por seus próprios interesses. Seu traba-
ça q'tle ainda não sabe nada: O adulto, portanto, nunca lho consiste não apenas em transmitir conhecimento,mas
pára de crescer; para de alguma forma manter a saúde também em despertar a vontade de aprender nas crianças
psíquica, é preciso conservar certa ignorância infantil. - o que só será possível se a criança espontânea e ávida
A opinião pública costuma encarar os professores de conhecimento estiver viva dentro dele. Infelizmente, os
como sendo infantis e irrealistas - o que não é comple- modernos regimes escolares e planos pedagógicos servem-
tamente destituído de verdade. Num contato mais íntimo i?, se de todos os meios para destruir essas qualidades da
e prolongado, acaba-se reconhecendo certo grau de infan- espontaneidade infantil, pois o arquétipo do ensino está
tilidade no seu comportamento. Afinal de, contas, deve cindido. A infantilidade do professor é reprimida e então
haver algo na infantilidade que os atrai; caso contrário, projetada sobre o aluno. Quando isso ocorre, o processo
como suportariam trabalhar o tempo todo com crianças? de aprendizado é bloqueado. As crianças continuam sendo
Um professor dinâmico deve ter em si certa infantilid~de crianças e nelas já não mais se constela o adulto instruído.
dinâmica, da mesma forma que o médico deve ter um O professor fica cada vez mais sabido e os alunos cada
relacionamento vital com o pólo da doença. vez mais ignorantes. Esse tipo de professor, que cindiu
Freqüentemente deparamos com professo:r;es que e afastou o pólo infantil do arquétipo, passará então a
parecem ter perdido todos os traços de infantilidade, queixar-se de que os alunos de antes tinham muito mais
possuindo aintla menos traços infantis do que o adulto vontade de aprender. Seu contato com as crianças se dá
normal médio. Estes se tornaram "professores e nada apenas por intermédio do poder e da disciplina. Ao mesmo
mais" e confrontam crianças ignorantes quase como ini- tempo, ele se torna uma pessoa triste e amarga. O entu-
migos. Queixam-se de que estas não sabem nada e não siasmo novo e infantil morreu nele. As crianças são seus
têm vontade de aprender; seus nervos ficam à flor da pele inimigos, representando o pólo cindido do arquétipo no

96 97
· interior, cuja reunificação ele tenta promover por
plano A SOMBRA, A DESTRUTIVIDADE
intermédio do poder.
Mas neste livro é o psicoterapeuta que nos interessa
EOMAL
mais de perto. Nossa intenção foi lançar alguma luz sobre
o modelo básico subjacente a seu comportamento. Muitos
problemas fund,amentais dessa vocação se aplicàm a todas
as profissões que lidam com o desenvolvimento humano,
mas alguns são exclusivamente seus. Para compreendê-
los oe modo mais completo, devemos abordar questões
psicológicas. Assim como fizemos com relação à cisão do
arquétipo, chegaremos ao objetivo por vias indiretas. Mas,
para chegar ao ponto que me interessa, devo antes tratar o impulso destrutivo se faz sentir de maneira ex-
de algo completamente distinto. tremamente forte durante a juventude, quando pode-
mos vê-lo de forma direta e não dissimulada. Os jovens
tendem às erupções de destrutividade e vandalismo,
sentindo prazer em destruir propriedades e colocar vidas
em perigo. Por toda parte ouvem-se críticas a esse tipo
de comportamento, da Cidade do Cabo a Estocolmo,
de Moscou a Edimburgo. A despeito de seu atual estágio
de desenvolvimento cultural e político, todas as nações
sofrem o efeito do comportamento destrutivo da juven-
tude, racionalizado às vezes por motivos políticos ou
sociais. A, psicologia da juventude é, portanto, um campo
apropriado para o exame do pano de fundo psicológico
do ímpeto destrutivo em geral.
A primeira coisa evidente sobre o comportamento
destrutivo dos jovens é que eles irrefletidamente des-
troem não apenas a vida e a propriedade alheias, mas
também a sua própria. Seu modo de dirigir veículos,
por exemplo, é às vezes tão suicida quanto criminoso.
Sob outros aspectos, também costumam colocar-se em
certas situações e entregar-se a bravatas que só criam
perigo para si mesmos. Os jovens são atraídos pelo
perigo. Não é preciso entrar em detalhes aqui - basta
ler os jornais.
98 99
Os atos destrutivos da juventude costumam ser clas- de uma organização social espuna, de que o impulso
sificados sob a rubrica "sinal dos tempos". Coloca-se a cul- destrutivo resulta de estruturas sociais, políticas e eco-
pa na crise dos valores, em certos processos e estruturas nômicas distorcidas, podendo ser erradicado por meio
sociais, na insegurança sentida pelo homem massificado da superação destas. A chamada educação autoritária é
etc. Mas não se trata aqui de modo algum de um "sinal dos também responsabilizada pela destrutividade humana,
tempos". A destrutividade contra si mesmo e o próximo saudando-se a educação não-autoritária como sendo o
sempre foi uma característica da juventude. Colocando caminho da salvação.
em termos um tanto radicais: através da história, os Essas tentativas de explicação poderiam ser chama-
jovens sempre estiveram prontos para matar ou morrer, das de "futurismo", segundo a expressão do historiador
por pouco e até por nadGt. As guerras destrutivas da hu- inglês Arnold Toynbee. Os futuristas a~reditam que certas
manidade sempre encontraram nos jovens participantes ., ' mudanças sociais acabarão com o inquietante fenômeno
,~ ~.
entusiastas. . , da destrutividade; conseguem, dessa forma, visualizar
O que está por trás dessa destrutividade? Como se uma idade de ouro acenando no futuro. Os aspectos cruéis
pode explicá-la em termos psicológicos? da realidade humana são reconhecidos, mas denegridos
Tratar do impulso destrutivo é uma tarefa bastante como erros a serem evitados nos tempos que virão.
desagradável. Dificilmente alguém negará que as pessoas Herbert Marcuse também procura examinar a destru-
são destrutivas em relação a si mesmas ou aos demais. tividade a partir de uma perspectiva sociológico-futurista.
Mas há uma grande diversidade de explicações para esse Segundo ele, o homem moderno é oprimido, explorado,
fenômeno. .. manipulado etc. por obscuros poderes. O homem ocidental
Os marxistas, por exemplo, encaram o comportamen- acredita ser livre, mas, segundo Marcuse, na verdade é um
to destrutivo do homem Ce da juventude) como conseqüên- escravo impotente cujo conforto material cria a ilusão de
cia da luta de classes, da opressão e da exploração. A luta que pode interferir nos fatos. No fundo, porém, o homem
de classes cria uma atmosfera de ódio que inevitavelmente moderno foi alienado de si mesmo pela manipulação da
leva ao comportamento destrutivo. Mas os marxistas sociedade e vive num estado de constante frustração, o
acreditam que, quando a luta de classes tiver sido final- que explica sua destrutividade. A saída da atual situação
mente superada e a sociedade sem classes instaurada, as estaria na destruição total da estrutura social existente.
pessoas já não atuarão mais de forma destrutiva. É claro Uma vez destruída esta, será possível o surgimento de um
que para atingir esse ponto muitos atos destrutivos serão homem novo, não-destrutivo, não-frustrado e feliz.
necessários. Mas, uma vez atingido, os estudos sobre a Marcuse apóia algumas de suas concepções em Freud
destrutividade não serão mais necessários, pois o fenô- e aceita a opinião deste de que quanto mais civilizado se
meno terá desaparecido. toma o homem, menos gratificados são seus instintos. O
A concepção marxista, de forma mais branda e com desenvolvimento social e cultural do homem exigiria um
incontáveis variações, se expressa em boa parte das atuais sacrifício do instinto e o resultado é a frustração.
discussões sobre o tema. Já é lugar-comum a opinião de Em seu livro On Aggression, Konrad Lorenz, ser-
que esse fenômeno não é mais do que uma conseqüência vindo-se de conceitos zoológicos, também se ocupa da
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destrutividade humana. Segundo esse autor, a agressão Além dlsso, as explicações zoológicas ignoram o fato
é um dos instintos fundamentais necessários para a de que a agressão humana, tal como o clássico exemplo
sobrevivência do indivíduo e da espécie. Entre os ani- do comportamento juvenil, em geral acompanha atos
mais predatóriqs, a agressão contra membros da mesma autodestrutivos. Esse fato tem sido ignorado também
espécie é acoplada com inibição. O lobo vencido na luta pela maioria dos psicólogos - mas não por todos, como
que oferece a garganta ao companheiro vitorioso não é veremos adiante.
morto pelo vencedor. Em que pode contribuir a psicologia junguiana para
Enquanto não possuía instrumentos, o ser huma- explicar o comportamento destrutivo do homem?
no era um animal inofensivo. Não havia necessidade Jung fez uma interessante tentativa de explicação
desse tipo de inibição interior. Com o desenvolvimento mediante o conceito de "sombra", já mencionado ante-
dos instrumentos, porém, o homem tornou-se capaz de riormente. Nem sempre ele descreve suas descobertas
matar seu semelhante. Seu caráter inofensivo desa- de modo sistemático, pois não estava interessado em
pareceu; agressividade e}e possuía, mas não inibição. construir um sistema psicológico dogmático e cuidado-
Assim, segundo Lorenz, basicamente a destrutividade samente elaborado. Procurarei, nos parágrafos que
é um instinto que se tornou perigoso para a espécie hu- seguem, apresentar o conceito de sombra de forma algo
mana devido a mudanças de condições no curso de seu mais sistematizada.
desenvolvimento. A chamada sombra se compõe de três estruturas
C. e W. M. S. Russel, da Inglaterra, têm outra explica- psicológicas distintas intimamente inter-relacionadas.
ção zoológica para o aspecto destrutivo do comportamento A primeira é a sombra pessoal. Até certo ponto, esta
humano. Esses autores sustentam que a destrutividade é equivale ao conceito freudiano de inconsciente. Ela en-
conseqüência do excessivo crescimento da população. Cer- volve imagens, fantasias, impulsos e experiências que por
tos macacos, pacíficos em seu habitat natural, tornam-se razões pessoais tiveram de ser reprimidos no decorrer da
agressivos e destrutivos quando apinhados num zoológico, história do indivíduo. Os tabus impostos pelos pais, por
chegando mesmo a atacar os mais jovens. Um território exemplo, costumam forçar a criança a reprimir certas
excessivamente circunscrito confunde os instintos, o que coisas. Em geral, os conteúdos da sombra pessoal são
resulta num constante estímulo da agressão. em si inofensivos; não passam, com freqüência, de cer-
A validade das tentativas zoológicas de explicar o tos aspectos da sexualidade encarados como negativos
comportamento humano tem seus limites. Só podemos e não permitidos pelos pais ou pelo ambiente. A sombra
compreender os animais a partir de fora, mas o ser hu- pessoal contém também várias experiências pessoais de-
mano, porque somos nós próprios esse ser, pode até certo sagradáveis que o ego ou o superego preferem esquecer.
ponto ser compreendido a partir de dentro. Nossa com- A moderna sombra pessoal do europeu ocidental costuma
preensão do comportamento animal tem uma limitação incl uir certas perversões sexuais e boa dose de agressão
inerente; portanto, não se sabe bem até que ponto podem- reprimida.
se tirar dessa compreensão limitada conclusões válidas A sombra pessoal está intimamente ligada à cha-
sobre a condição humana. mada sombra coletiva. No interior de dada coletividade,

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a sombra coletiva é a mesma. Ou seja, em cada indivíduo obscuro. Nesse sentido, a sombra individual e a coletiva
ela contém tudo o que não é aceitável em seu meio cultural. não são realmente independentes. Mas'o caso da sombra
Essa sombra é o lado obscuro do ideal coletivo. O ideal eu- arquetípica é outro. Um termo mais adequado talvez fosse
ropeu geral do século XIX, por exemplo, era uma mistura simplesmente "o Mal", apesar de essa palavra conjurar
de Cristianismo e liberalismo; amor, progresso, pureza, demasiadas associações morais coletivas.
sociabilidade, sobriedade, castidade etc. eram os valores co- Jung concebia o "Mal" como algo independente e
letivos. A sombra coletiva dessa época continha, portanto, não, por exemplo, como uma privatio bani, mera ausên-
ódio, êxtase dionisíaco, tendências orgiásticas, sexualida- cia do Bem. Nesses termos, pode-se compreender o Mal
de como um fim em si mesma, luxúria etc. Durante a era como "o assassino e suicida dentro de nós". Essa sombra
anti-sexual da Rainha Vitória a sombra coletiva se revelou arquetípica é um modo inerente de comportamento hu-
no florescimento da literatura pornográfica. mano - um arquétipo. No decorrer da história, tem sido
Um bom modo de familiarizar-se com a sombra coleti- representado por símbolos como o Diabo ou o sol niger dos
va do Cristianismo da Idade Média aos tempos modernos alquimistas. Muitos dos deuses e deusas mais terríveis
é estudar a história dos judeus ou o fenômeno da caça às na história da religião são símbolos dessa sombra arque-
bruxas. Se estivermos interessados na sombra coletiva da típica: Shiva, Loki, Belzebu etc.
Inglaterra do século passado, vale a pena estudar a his- Em seu livro Beyond the Pleasure Principle, Freud
tória da fome nesse país ou a expulsão dos montanheses descreve algo bastante similar. Com base em experiências
da Escócia. Dessa forma podemos aprender muita coisa ocorridas durante a Primeira Guerra Mundial, Freud
sobre o lado obscuro dos ideais oficiais da classe dominan- chegou à conclusão de que fundamentalmente o homem
te inglesa - brutalidade, poder e cobiça. é orientado por dois instintos ou impulsos: Thanatos, o
A sombra pessoal atua de modo destrutivo em relação instinto de morte, e Eros, o instinto de vida. Freud re-
aos ideais do ego, assim como a coletiva procura destruir conhecia a conexão existente entre a agressão dirigida
os ideais que se situam no mesmo nível. Mas essas duas contra os outros e a voltada contra a própria pessoa. O
sombras exercem também uma função muito valiosa. instinto de morte seria a "ânsia" e a atração pela morte,
Tanto o ego como os ideais coletivos devem sujeitar-se pela destruição de si e dos demais. Freud não foi capaz de
a constantes ataques, pois eles são falsos e unilaterais. reduzir esse impulso destrutivo primário a qualquer outra
Não fossem eles consumidos pelas profundezas da alma coisa. Tanto ele como Jung reconheciam esse "criminoso
humana, não haveria desenvolvimento individual nem e assassino em nós" como algo que simplesmente existe
coletivo. e não pode ser exorcizado por teorização alguma.
A chamada sombra arquetípica se liga a esses dois Como mencionei há pouco, a figura do Diabo é em
tipos de sombra e lhes fornece energia, apesar de ser algo parte um símbolo da sombra arquetípica. Vale a pena,
completamente distinto. Na verdade, aqui o termo "som- portanto, considerar contos de fadas ou mitos nos quais
bra" não cai bem. Graficamente falando, a sombra é algo apareçam o Diabo e um jovem. Um exemplo adequado é
secundário, visto ser criada pela luz. Os ideais pessoais o conto de Grimm "O cabelo de ouro do Diabo". O herói
e coletivos conscientes
,
têm suas sombras, seu outro lado dessa história, para poder desposar a princesa, deve ar-
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rancar da cabeça do Diabo três fios de cabelo de ouro e nho: queremos ter certo grau de liberdade, pretendemos
trazê-los consigo. julgar, avaliar, tomar posição, encarar as coisas sob todos
O casamento com a princesa simboliza o desenvol- os ângulos e tomar livremente nossas decisões. Queremos
vimento do jovem em direção à totalidade, à unificação não apenas saber o que é certo e o que é errado, como
interior e exterior com o feminino. Mas, para atingir esse Adão e Eva ao comer o fruto da Árvore do Conhecimento,
estado, ele tem de estabelecer contato direto com o Diabo. mas também decidir livremente o que é que desejamos
Seus cabelos são de ouro e, como este é um símbolo de luz fazer. Esforçamo-nos para atingir nosso próprio ponto
e de consciência, o Diabo com esse tipo de cabelq tem uma de vista, a partir do qual julgamos o mundo, Deus e nos-
afinidade com o deus sol, podendo ser também caracteriza- sos semelhantes. Destinados a viver, queremos fazê-lo
do como Lúcifer, "portador da luz". Antes da queda J Lúcifer segundo nos compraz.
era um dos anjos mais lUminosos das legiões celestiais. Mas só quem for capaz de dizer "Não" ao mundo
N osso conto de fadas parece querer dizer que o desenvol- poderá também afirmá-lo. Só quem tem liberdade de
vimento psicológico em direção à totalidade só é possível destruir pode livremente voltar-se para o mundo com
através de uma ampliação da consciência resultante de amor. Sem a possibilidade desse "Não" destrutivo e pe-
um contato direto com o Mal. Em outras palavras: um jo- caminoso seríamos como imaginamos serem os animais:
vem não pode continuar a se desenvolver se não conseguir simplesmente existiríamos, impelidos por nosso instinto
entrar em contato com a sombra arquetípica. de sobrevivência, sem nenhuma possibilidade de decisão,
Convém notar que o Diabo, apesar de representar sem nenhum sentido de liberdade. Não teríamos a menor
o Mal no plano simbólico, costuma também ser compre- oportunidade de julgar, de nos tornarmos conscientes e de
endido como um servidor de Deus. No livro de Jó, Satã escolher. Talvez a existência da sombra arquetípica seja
é ainda um dos filhos de Deus. E em Isaías 45,7 lemos: um atributo especificamente humano.
"Eu formo a luz e crio a escuridão; Eu trago a paz e crio O jovem atravessa um estágio transitório entre a
o mal; Eu, o Senhor, faço todas essas coisas". infância e a idade adulta. A criança, é claro, contém em
Os mitologemas tentam dar uma resposta a questões si um alto grau de destrutividade e às vezes age como a
psicológicas, filosóficas e religiosas para as quais não própria encarnação do demônio. Mas sua situação geral
temos soluções racionais. O inexplicável e misterioso é é em boa medida determinada pelos pais. Ao lutar com
expresso mediante símbolos mitológicos. Na verdade é seus problemas, usa instrumentos, imagens e atitudes
muito difícil, senão impossível, explicar em termos psi- transmitidas pelos pais. Assim sendo, a criança, sob vários
cológicos racionais por que um jovem deve estabelecer um aspectos, não é livre. O adulto, naturalmente, também foi
relacionamento com a sombra arquetípica para poder formado por seus pais; muitas de suas atitudes derivam
levar adiante seu próprio desenvolvimento. Ao tentar exclusivamente deles. Porém, para se desenvolver psi-
examinar essa questão, a despeito de sua dificuldade, cologicamente, o adulto deve atravessar uma fase de
devemos ter consciência de nossas próprias limitações. negação e destruição para poder, por assim dizer, volun-
Nossa atitude com respeito a nós mesmos, o mundo, tariamente, cultivar ainda mais os valores de seus pais
a criaç,ão inteira e Deus tem um aspecto um tanto estra- ou encontrar os valores que lhe convenham. Em sua tran-
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sição da infância à idade adulta o jovem deve, portanto, escreveu Os Assaltantes. Goethe expressou seus próprios
entrar em contato com o Diabo, com a destrutividade; impulsos suicidas ao escrever As Angústias do Jovem
para chegar à liberdade, deve experimentar também a Werther. A literatura está repleta de figuras sombrias com
possibilidade de destruir. as quais o leitor pode se identificar e assim entrar em con-
Em certo sentido, estou tentando tornar compre- tato com seu próprio lado obscuro. O cinema, a televisão
ensível a existência da sombra arquetípica; ao fazê-lo, e o teatro oferecem incontáveis oportunidades de roubar
porém, vejo que ela fica um tanto diluída. Meus conceitos alguns fios de ouro da cabeleira do Diabo por meio da
e explicações têm um valor limitado. Podemos, p.té certo identificação com as manifestações da Destrutividade.
ponto, procurar entender o significado desse assassino ou As fantasias destrutivas são muito importantes nos
suicida dentro de nós, como tentei acima, mas ao mesmo jovens, cuja imaginação costuma apresentar idéias de
tempo não temos outra alternativa a não ser encarar suicídio, impulsos homicidas e os atos mais terríveis e
esse nosso lado obscuro como algo inexplicável, reconhe- destrutivos.
cendo-o como tal e tomando certas precauções contra ele. Alguns jovens conseguem contatar o Destrutivo por
Não podemos realmente dizer se o propósito desse "Não" meio da especulação filosófica ou de práticas religiosas.
à cri~ção é de fato apenas nos dar a liberdade. Mas há muitos que fracassam ao tentar arrancar alguns
Talvez não seja por acaso que em vários rituais de desses fios de ouro da cabeça do Diabo. O Destrutivo - o
iniciação primitivos o jovem deve tomar parte de algo Mal em si - é sinistro e insuportável para quem quer que
destrutivo, seja expondo-se a um grande perigo, seja seja. O mais natural é afastá-lo, livrar-se dele de alguma
matando e decapitando um inimigo. forma. Por essa razão muitos jovens, quando em sua fase
Os jovens devem entrar em contato com o Diabo , de confronto com o Mal, demonstram uma tendência a
sem no entanto identificar-se com ele. O ego deve perma- projetar a sombra arquetípica. Quando isso ocorre, sentem
necer de certa forma distanciado e consciente do que os adultos, os pais ou a "geração mais velha" como sendo a
está fazendo. Na maioria das vezes, quando destroem própria encarnação do Mal e da Destrutividade. Um jovem
propriedades, roubam ou se deixam levar por outras sadio, depois de certo tempo, recolhe essas projeções. Mas
atividades destrutivas, os jovens sadios sabem que estão há outros que crescem em ambientes altamente destruti-
participando de uma experiência transitória, tendo cons- vos e cheios de ódio. Talvez a mãe tenha rejeitado ou até
ciência de que, apesar de interessantes, suas ações são mesmo abandonado o filho; possivelmente não houve uma
na verdade "más". vida familiar adequada; com antecedentes tão negativos,
É preciso, a esta altura, esclarecer um ponto. Nem a criança talvez tenha tido dificuldades na escola ou sido
todos os jovens se entregam a um comportamento aberta- rejeitada por professores e colegas. Mas sejam quais
mente destrutivo, nem todos guiam de forma suicida ou forem os detalhes específicos, há casos em que o jovem
participam de tumultos. A exteriorização do Mal em experimentou de fato grande dose de destrutividade em
ações é apenas uma das maneiras de entrar em contato seu meio. Ao entrar na adolescência, época em que deve
com ele. Há também a alternativa de fantasiar ou identi- estabelecer-se o contato com o Mal, torna-se naturalmente
ficar-s~ com fantasias alheias. Schiller era jovem quando fácil simplificar o conflito projetando a Destrutividade no
108 109
ambiente, ou pelo menos em parte dele. Para um jovem ções e dificulta seu trabalho de reflexão sobre os próprios
nessa situação, o Mal deixa de ser parte integrante da problemas. A situação' pode agravar-se sensivelmente
psicologia humana e se torna apenas uma característica quando esses indivíduos pertencem a minorias raciais
do meio, de certas pessoas e estruturas sociais. Projeções ou étnicas rejeitadas.
desse tipo bloqueiam qualquer desenvolvimento. p~íquico Esse tipo de decadênciacrônica é extremamente trá-
pessoal e tornam a integração social extremamente difícil. gico - porque só aqueles com certo grau de diferenciação
Tudo o que acontece de negativo é compreendido como psicológica é que são suas vítimas. As pessoas indiferen-
produto de um mundo cruel, que deve ser responsabili- ciadas ou menos perceptivas não reagem dessa forma nem
zado pelo comportamento destrutivo e auto destrutivo do mesmo a ambientes rejeitadores ou destrutivos; o fenô-
jovem. Este racionaliza sua auto destrutividade através meno do Mal e do Destrutivo .não se apresenta para elas
de frases do tipo: "É isso o que o mundo quer, não é? Pois como problema especialmente grave; seu contato com ele
aí está. Assim me vingo". na juventude é por demais superficial- depois disso, en-
Se esse tipo de jovem for introvertido, capaz de ex- tram Iogo na rotina de uma vida enfadonha. Aqueles que
perimentar alguns de seus conflitos no plano interior, em já na infância se impressionavam com o Mal é que caem,
fantasia, talvez consiga arranjar-se, em termos sociais, ao crescer, nessa armadilha fatal. Nunca abandonam sua
embora à custa de grandes dificuldades e amargura. Na luta contra o Mal- mas esta não tem sentido porque não
maioria dos casos, porém, esses adolescentes não têm a conseguem perceber que, em última análise, o Destrutivo
sorte de poder desenvolver-se num ambiente que esti- é um problema interior, cuja projeção no mundo exterior
mule sua vida interior e lhes forneça os instrumentos só cria mais miséria ainda e sofrimento.
necessários para confrontar seus problemas no nível da
fantasia e do símbolo. Inclinam-se, portanto, a pôr para
fora tudo o que se passa dentro. Surge aí o clássico caso
do jovem negligenciado, anti-social, talvez mesmo crimi-
noso ..N a superfície, seus atos destrutivos se assemelham
aos do jovem que vive um cbntato apenas momentâneo
com o Destrutivo; no plano interior, porém, a situação é
bastante diversa. Para essa pessoa o contato com o Dia,bo
torna-se uma tragédia, uma batalha quixotesca com um
ambiente que passa a ser visto como personificação do
Mal. Enquanto adolescentes ou mesmo mais tarde, indi-
víduos anti-sociais desse tipo costumam erroneamente
ser cla!?sificados como psicopatas, portadores de defeitos
de caráter inatos. Se conseguem, quando adultos, formar
uma família, muitas vezes instilam nos filhos uma atitude
genuinamente anti-social, o que os encoraja a fazer proje-

110 111
ESTARÁ A ANÁLISE CONDENADA vez de apenas em projeções. Por isso o psicoterapeuta, que
sob certos aspectos é alguém particularmente inconsciente,
AO FRACASSO? está sujeito ainda mais do que os outros à sombra arquetípica.
"
Seus esforços conscientes visam ajudar as pessoas livran-
do-as de sua própria destrutividade. Oito horas por dia, ele
dialoga com pessoas que procura afastar da destrutividade
e trazer de volta à saúde e à alegria de viver. Esse trabalho
coloca em seus ombros uma carga excessiva. Tantos bons
propósitos conscientes acabam constelando uma dose prati-
camente equivalente de más intenções e destrutividade.
Os perigos da profissão foram reconhecidos por seus
Procurei, no capítulo anterior, ilustrar o fenômeno da próprios fundadores. É por essa razão que uma análise
sombra, especialmente a arquetípica, em termos do desen- didática completa é exigida antes que um futuro terapeuta
volvimento dos jovens. Naturalmente, essa sombra arque- inicie seu trabalho. É também necessário um conhecimento
típica continua sendo um fator atuante mesmo depois de extensivo de psicologia e psicopatologia, para que ele pos-
atingida a idade adulta. O indivíduo saudável médio tor- sa desenvolver um modo' diferenciado e sutil de perceber
na-se constantemente vítima de suas próprias tendências e desmascarar os aspectos neuróticos e "doentes" de seus
agressivas e auto destrutivas , destruindo o que construiu, pacientes. Mas é exatamente esse conhecimento que desvia
sabotando relacionamentos que lhe são importantes, ator- o analista para uma postura fria e objetiva ao detectar a
mentando a própria família e os amigos - ou dirigindo a destrutividade nos pacientes e, com essa mesma objetivida-
destrutividade para o seu meio. O psicoterapeuta, porém, de, ao bloquear o acesso a seus próprios aspectos sombrios,
encontra-se numa posição especialmente infeliz em face da percebendo-os apenas nos outros.
sombra arquetípica. Mencionei, um pouco atrás, a "lei" psi- O psicoterapeuta se defronta a cada dia com comporta-
cológica segundo a qual quanto mais buscamos o luminoso, mentos humanos incomuns, erupções e expressões da som-
mais sua contrapartida sombria se constela. À medida que bra pessoal, coletiva e arquetípica. Os pacientes procuram
o psicoterapeuta tenta tornar-se mais consciente, ajudando auxílio mediante seu próprio comportamento destrutivo.
seus pacientes a fazerem o mesmo, seu lado inconsciente é São em boa parte manifestações desse tipo que compõem
constelado com mais vigor do que na média das pessoas. o ambiente diário de trabalho do psicoterapeuta. Poderia,
Isso pode ser paradoxalmente expresso da seguinte forma: portanto, acontecer que ele viesse a perceber a atuação da
quanto mais o psicoterapeuta se torna consciente, mais ele sombra arquetípica, por exemplo, apenas no seu ambiente,
se torna inconsciente; quanto mais luz se lança sobre um como faz o jovem negligenciado descrito atrás. Depois de
canto escuro da sala, mais os outros parecerão escuros. tanto ver esse fenômeno se manifestar, ele acaba sem energia
O que é mais dificil, porém, é tomar consciência da atua- para reconhecê-lo e continuar a estudá-lo em si mesmo.
ção da sombra arquetípica, das próprias tendências destruti- A coisa se complica ainda mais devido ao fato de várias
vas ou autodestrutivas, experimentando-as em si próprio, em escolas de psicoterapia evitarem o confronto com a destruti-

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vidade arquetípica. Essas correntes procuram trapsformar do arquétipo e das figuras sombrias do charlatão e do falso
a psicologia numa "ciência natural", -acreditanao que o profeta. Assim, o analista é ameaçado por todos os lados ..
processo psicoterapêutico pode ser mecanizado e que o pro- Neste ponto, o leitor deve estar se perguntando se a PSI-
cesso psicológico em si e nos outros pode ser estudado por coterapia não estará condenada ao fracasso desde o início, ou,
observadores objetivos, da mesma forma que um químico quan-do muito, se não será exeqüível apenas para gênios
objetivamente estuda uma reação química. Até mesmo os psicológicos. Muitos terapeutas, conscientes desse complexo
freudianos, por exemplo, têm dificuldade em detectar em si problema, tranqüilizam-se acreditando ingenuamente que
mesmos o que Freud denominou instinto de morte CThana- podem controlar a situação mediante uma cuidadosa análise
tos), visto tratar-se de um fenômeno assustador que poderia didática e de um subseqüente e escrupuloso exame de seu
destruir sua atitude científica objetiva. próprio inconsciente. Mas não acredito na validade dessa
O problema da sombra é bastante enfatizado na psi- noção. Às vezes ouço alguns colegas dizerem que esses peri-
coterapiajunguiana. Mas com isso só se entende a sombra gos podem ser evitados seo psicoterapeuta anotar e estudar
pessoal e coletiva, o lado obscuro dos ideais do ego ou da cuidadosamente seus próprios sonhos. A dificuldade é que,
sociedade; a sombra arquetípica costuma ser ignorada. nesse caso, os sonhos devem ser interpretados pela própria
Como já mencionei, o psicoterapeuta se encontra numa pessoa que os sonhou. Ocorre que não existe nenhum siste-
situãção psicológica extremamente difícil e perigosa, seja ma ou técnica objetivospara se compreender a mensagem
qual for o ângulo sob o qual examinemos seus problemas. dos sonhos. Interpretar sonhos é uma atividade criativa,
À medida que seu modelo básico é. o do médico, ele está quase artística. Em última análise, a interpretação depende
sujeito à tentação de reprimir um pólo do arquétipo te- de seu autor. Com o tempo, o terapeuta experiente desen-
rapeuta-paciente e projetá-lo sobre seus pacientes. Como volve uma grande capacidade de interpretar seus sonhos
freqüentemente ocorre com os médicos, o exercício do poder segundo seus próprios desejos. Só reconhece os fenômenos
representa aqui uma tentativa de superar essa cisão. A pola- da sombra em si quando isso convém a seu ego, chegando
ridade terapeuta-paciente é ainda intensificada por aquela mesmo alguns a distorcê-los em aspectos luminosos.
entre consciente-inconsciente. A inconsciência é projetada Minhas observações parecem estar se tornando cada
sobre os pacientes, enquanto o analista, cujo trabalho con- vez mais pessimistas. No entanto, ·elas são confirmadas
siste em conduzi-los a uma consciência mais ampla, sevê pelas incontáveis e ácidas disputas internas travadas
injustificadamente a si mesmo como alguém especialmente pelos próprios psicoterapeutas. São poucas as áreas em
conscÜ:mte. Mas mesmo tendo em parte. atingido uma ge- que os conflitos internos são debatidos de modo tão injus-
nuína consciência, ele não pode evitar um aprofundamento to, inconsciente e destrutivo como entre psicoterapeutas
dessas sombras em seu próprio inconsciente. É nessa região oficialmente analisados e supostamente "conscientes".
obscura que atuam os irmãos sombrios do sacerdote e do Será a psicoterapia, especialmente a análise dos ní-
médico, aos quais o terapeuta está intimamente associado veis mais profundos da alma, um empreendimento impos-
- ou seja, o falso profeta e o charlatão. Essa situação psico- sível? Deverá essa esplêndida experiência ser encarada
lógica propicia um campo ideal para a operação da sombra como um fracasso? Estarão os analistas condenados, mais
arquetípica. A destrutividade elementar serve-se da cisão cedo ou mais tarde, a se encontrar num beco sem saída?
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ANÁLISE NÃO ADIANTA uma análise didática, além de exigir que o candidato a
analista tenha seu trabalho supervisionado por um colega
mais experiente. Em última análise, porém, o analista
só depende de si mesmo em seu trabalho. Só ele e seus
pacientes sabem o que se passa em cad~ sessão. Cada :vez
mais o analista vive isolado numa espécIe de torre. MuItos
estã~ sós mesmo quando em companhia de um paciente;
as tentativas deste de atravessar a máscara do terapeu-
ta e atingir sua personalidade, talvez para atacá-lo, são
repelidas e interpretadas como ex~ress~o .de um proble-
ma pessoal. O estilo e as concepçoes teo:-Icas ~e al~ns
Venho procurando, neste livro, demonstrar os aspectos analistas impedem que suas posições seJam dIscutIdas,
difíceis da profissão do psicoterapeuta. Em conseqüência, mesmo por parte dos pacientes. Com referência a esse
tenho mais ou menos ignorado as potencialidades especiais aspecto, Jung sempre enfatizou com muita clareza que o
e muito positivas que lhe são inerentes. Quase não é preciso processo analítico deve ser mútuo, cada parte afetando a
dizer, apesar da ameaça das ciladas aqui discutidas, que um outra. Mas como seus colegas de outras escolas, o analista
bom número de psicoterapeutas faz um trabalho excelente, junguiano ~ão pode ignorar o fato de ~ue a análise é .um
ajudando muitíssimas pessoas a encontrar uma saída para relacionamento assimétrico. E à medIda que o analIsta
o sofrimento. É certo que alguns não se propõem lidar com avança em idade e experiência, esta se torna cada vez
esses perigos, acabando de fato por causar malefícios. Mas mais assimétrica, tornando-se, portanto, menor o desa-
isso, porém, não põe em xeque o valor da profissão em si. fio do paciente ao processo psíquico do analista. A ~isão
N,ão tenho a intenção de me limitar aqui apenas a no arquétipo - médico saudável de um lado e ,?ac~e?~e
enfatizar perigos; gostaria também de indicar algumas enfermo de outro - torna o diálogo cada vez maIS dIfIcIl.
possibilidades de superá-los. Indiquei, alguns capítulos Aquilo que o paciente dá de si torna-~e o Out~o, algo que
atrás, que tanto no analista como no paciente são conste- em última instância já não afeta maiS o analIsta.
ladas certas forças hostis ao desenvolvimento bem-suce- Há, porém, genuínos "terapeutas feridos" entre os
dido da análise. Sugeri também que é, portanto, essencial analistas· em alguns, o arquétipo não se cindiu. Estes, por
que o analista tenha uma atitude aberta e honesta para assim di~er, estão sempre sendo analisados e 'iluminados
consigo próprio e, em certo sentido, para com o paciente, por seus pacientes. Esse tipo de analista reco~~ce qu~as
de tal forma que esses fenômenos negativos possam ser dificuldades do paciente constelam as suas propnas, e VIce-
trabalhados em conjunto. Talvez isso propicie um ponto versa; trabalha, portanto, não apenas com o pacient~, mas
de partida para contrabalançar a destrutividade. Mas consigo próprio. Ele é, para sempre, terapeuta e pacIe~~e.
essas possibilidades são limitadas. Infelizmente, não é este sempre o caso; pelo contrano,
A maldição do psicoterapeuta é seu isolamento. A o analista desempenha cada vez mais o papel exClusivo de
maioria das escolas estabelece a necessidade estrita de terapeuta e, portanto, de falso profeta e charlatão.

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Neste ponto, poder-se-ia exigir que o trabalho do um colega muito mais novo no início de sua carreira. Da
analista fosse supervisionado por um colega durante mesma forma, não seria aconselhável que um jovem, que
toda a sua carreira. Mas o termo "supervisão" é infeliz. apenas se inicia na profissão, continuasse a ser analisado
As chamadas análises de supervisão, parte integrante por um colega mais velho, pois isso criaria o perigo de per-
da formação do analista, estão elas próprias cheias de manecer sempre na posição de estudante ou discípulo.
elementos questionáveis. Nem mesmo o mais honesto Basicamente, todas essas tentativas de evitar os
principiante será capaz. de relatar, numa "sessão de perigos da profissão através de ainda mais análise me
supervisão", cada palavra, gesto ou estado de espírito parecem questionáveis, me fazendo pensar no Barão de
que teve ao trabalhar com um dado paciente. Ele faz uma Münchhausen, que, para não afundar no atoleiro com seu
seleção - a qual é determinada pela impressão que deseja cavalo, se alçava a si mesmo pela ponta do cabelo. Todos
causar no analista que o supervisiona. Além disso, este os fenômenos sombrios que mencionei iriam de novo cons-
não chegará nem mesmo a compreender certos sonhos telar-se nessa nova análise, levando a complicações adi-
cuj a mensagem se dirige não a si, mas ao paciente e seu cionais. Vários analistas são capazes de trabalhar esses
terapeuta. A análise é algo tão intensamente pessoal problemas de sombra que surgem na prática e livrar-se
que ~lguém estranho, com base em sua própria equação deles. Todos têm de enfrentá-los de quando em vez. Mas
pessoal, poderá facilmente se equivocar a respeito do um bom número se enreda cada vez mais com o passar
que se passa. As sugestões dos aIlalistas supervisores do tempo. Quanto mais esses problemas são analisados e
muita~ vezes são erradas. Todos os perigos que descrevi
reanalisados, mais fortes se tornam as forças que operam
atrás ligam-se à terapia e podem causar danos; mas eles na sombra.
se relacionam sempre com o desenvolvimento pessoal A discussão de casos com um grupo de colegas reves-
mais amplo do próprio analista. Assim sendo, um aspecto te-se da mesma limitação. Alguém que tenha participado
fundamental consiste em descobrir maneiras de ativar e desse tipo de discussão sabe que o cerne do trabalho rea-
penetrar no analista. lizado raramente é tocado. Cada participante procura de
Já se sugeriu que os analistas deveriam submeter-se certa forma impressionar bem oscolegas, de modo que a
à "análise didática" no decorrer de sua carreira. Mas con- situação coletiva acaba sempre por constelar rivalidades
tra essa idéia há várias objeções. Somente numa grande dentro do grupo. Estas, por vezes, assumem formases-
cidade será possível a um analista encontrar um colega da tranhas; Um dos terapeutas poderá desejar apresentar-se
mesma orientação com o qual não se encontre de alguma como especialmente bem-dotado e, consciente ou incons-
forma envolvido politicamente, seja numa organização cientemente, escolher o material de discussão com esse
profissional, seja no campo acadêmico. Uma pessoa que propósito em mente. Outro talvez tente aparecer cOmo
ocupe uma posição oficial dificilmente poderá expressar-se honesto e auto crítico , de modo que, ao apresentar seus
de modo livre e aberto com um colega em posição similar; casos, mostrar-se-á pior, mais inconsciente e mais domi-
demasiada rivalidade potencial impede um contato ge- nado pela sombra do que de fato é. Reuniões profissionais
nuinamente honesto. Por outro lado, um indivíduo mais desse tipo servem apenas para a discussão das questões mais
velho acharia difícil realizar uma tal "análise didática" com gerais levantadas pelo material apresentado; .
119
118
;

Terapia de grupo com analistas profissionais é tam- arquétipo, a destrutividade, no sentido de sombra arque-
bém algo limitado. A couraça analítica dos participantes típica, de inconsciente etc., deixa de ser um problema
é em geral tão densa que nada consegue penetrá-la. básico do analista; ele se afasta dela e a experimenta em
Novamente, é como se estivéssemos diante de um projeções - desfrutando, no geral, algo que lembra uma
muro de pedra. Quero enfatizar mais uma vez que muitos paz interior. O fato de que algo não está totalmente no
psicoterapeutas, em seu confronto com seus pacientes e lugar em sua própria psique só pode ser reconhecido por
consigo mesmos, são bastante capazes de contornar as meio do estado de caos e confusão que às vezes afeta os
armadilhas flue a profissão lhes arma. Mas há vários familiares e os amigos mais chegados de tão "iluminado"
que não conseguem. E estes não podem ser ajudados terapeuta.
por nenhum tipo possível Ce impossível) de reanálise ou A solução para esses problemas não pode vir de den-
discussão de caso. O paciente se apresenta ao analista tro. Quanto mais analisa, examina e segue os ditames
como um ser humano que sofre; muitas vezes é possível do inconsciente, mais cego o analista se torna, apenas
ajudá-lo e, uma vez terminada a terapia, ele é capaz de confirmando o quejá sabe. Seu ponto cego o impede de ver
se desenvolver de modo sadio e independente. Há casos as áreas sombrias decisivas de seu próprio ser; ou, caso
que exigem um tratamento extremamente longo. Não se as compreenda intelectualmente, seu auto conhecimento
trata- então de conduzir o paciente ao desenvolvimento não consegue atingir suas próprias emoções.
psicológico, mas antes de salvá-lo de repetidas crises. Aí
também o terapeuta pode ser útil. Mas parece não existir
saída alguma para o próprio analista quando se trata de
seus problemas profissionais de sombra.
Talvez tenha chegado o tempo em que 6s analistas,
para evitar esse trágico emaranhamento, deveriam bus-
car possíveis soluções fora de sua profissão. A tentativa
de auxiliar o analista por meios analíticos talvez encu-
bra certa inflação psicoterapêutica - como se a análise
fosse o non plus ultra para estimular o desenvolvimento
psicológico. E aqui se trata de fato disso, mais do cjue da
cura de neurOSE:!s. O enredamento do psicoterapeuta com
sua própria sombra nãó é uma doença, e talvez ele nem
mesmo sofra seus efeitos diretamente. Nessa situação ele,
sem dúvida, é menos capaz de ajudar seus pacientes e
talvez se torne menos interessante como pessoa', mas , em
termos freudianos, poderíamos dizer que cair nas ciladas
da sombra constitui uma excelente defesa do ego e evita
boa dose de sofrimentos e problemas. Devido à cisão do
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EROS fazer o mesmo. É incrível como alguns acham isso difí-
cil. Talvez procurem amigos nos ex-pacientes, mas para
estes a relação continua assimétrica e unilateral mesmo
depois de terminada a análise. Os antigos pacientes, agora
"amigos", não conseguem de fato atravessar o sistema
defensivo do analista. Há vários que dizem cultivar inten-
sas amizades, quando na verdade formam em torno de si
um círculo de discípulos admiradores. Há também os que
se fecham diante dos desafios psicológicos apresentados
pela própria família, passando a encarar esposa e filhos
como analisandos e a tratá-los como tal.' Outros, por sua
Para romper esse círculo vicioso, o terapeuta deve vez, destroem amizades genuínas transformando-as em
expor-se a algo que o toque de perto, algo não-analítico relacionamentos analíticos, evitando os problemas reais
(pois domina, em excesso a técnica analítica) capaz de ba- da amizade por meio de formulações analíticas e psico-
lançar seu equilíbrio, estimulá-lo, mostrar-lhe de vez em dinâmicas. Quando intensamente vivida - e sofrida _.,
quan<lo quem ele é, quão fraco e solene, quão estreito e uma amizade pode salvar o terapeuta de in"extricáveis
vão. Não era certamente por acaso que Sócrates louvava envolvimentos com seu lado obscuro e destrutivo: O ódio e
a amizade. Na minha opinião, e com base em minha expe- o amor fluem e refluem entre amigos, o amor circundando
riência, só há uma coisa capaz de melhorar ou até mesmo o potencial positivo e o ódio o negativo.
dissolver o enredamento do terapeuta com a sombra: a As crianças, quando se desenvolvem de modo livre
amizade. À primeira vista isso pode parecer banal. Chega e aberto, são também capazes de penetrar na sombra do
a ser estranho dar-se conta do quanto essa banalidade é analista e trazê-la para a luz. O infortúnio dos terapeutas
desprezada por muitos analistas. A amizade, essa potente sem filhos não é que seu natural desejo de descendentes
e calorosa confrontação'com nossos pares, onde há tam- não se realize - é que não podem contar com o desafio
bém lugar para atacar e ser atacado, insultar e receber de que as crianças oferecem.
volta, consegue atingir o centro psíquico das pessoas. O Um analista sem amizades genuínas deve possuir
que faz falta ao analista são relações simétricas, relações um talento excepcional para não se enrijecer e se alienar
com outros à sua altura, amigos que ousem atacá-lo e em seu trabalho analítico. Mas talvez o termo amizade
fazê-lo ver não apenas suas virtudes como seus aspectos seja limitado demais. Seria melhor dizer: o psicoterapeuta
ridículos. Esse tipo de estímulo pode ser encontrado com tem necessidade de um confronto erótico fora do esquema
amigos do mesmo sexo e pode também ocorrer no interior analítico. ,
do casamento - as profundezas da sombra devem ser Eis aí o problema fundamental do desenvolvimento
sondadas com amor. As pessoas não escoladas na análise humano per se, a dificuldade de permanecer aberto e vital
se desenvolvem em boa medida mediante relacionamentos durante toda a vida. É esse o tema que sempre atraiu a
pessoais intensos. O analista não tem escolha, a não ser atenção de Jung: a individuação.
122 123
INDIVIDUAÇÃO generalizações sobre esse processo e procurou apreendê-lo
em termos mais concretos. Enfatizava, por 'exemplo, que
a esse respeito é de fundamental importância viver a ex-
periência da ambivalência humana, não para eliminá-h:,
mas para "unir os opostos" num plano mais elevado. E
nesse sentido que ele compreendeu o símbolo alquímico
do casamento entre o Rei e a Rainha. Jung encarava as
mandalas, imagens para meditação usadas pelo$ monges
tibetanos nas quais um conjunto de opostos é ordenado
em torno de um núcleo, como um símbolo da individua-
ção. Em termos religiosos, esse processo é representado
Segundo afirma Jung em seus escritos, o trabalho psi- por imagens de "salvação da alma". O alvo consiste em
coterapêutico tem dois objetivos principais: em primeiro experimentar a própria alma tanto quanto possível em
lugar, curar o analisando, livrando-o de seu sofrimento sua totalidade e, nesse sentido, o ser existencial em sua
neurótico ou psicótico e, em segundo, orientar o processo maior profundeza, aceitando-o e afirmando-o como é. Os
que Jung denominou 'individuação. Na sua opinião, fatores contrários à individuação são a rigidez, a estrei-
muitas terapias terminam, no melhor dos casos, quando é teza de visão, a falta de abertura para consigo mesmo e
atingida a cura, sendo a individuação uma coisa distinta e para com o mundo. As vias desse processo são estranhas
que não ocorre automaticamente depois do primeiro passo. e únicas, podendo levar a pessoa através da doença ou
É muito difícil descrever ou definir sucintamente o que da saúde, da alegria ou do infortúnio. A individuação é a
seja individuação. Seria preciso recorrer a visualizações tentativa de entrar em contato com a centelha divina que
ou imagens, para torná-la compreensível. Trata-se da n~a­ existe em nós, é subjugar o ego ao Si-mesmo.
lização da vida humana, da florescência do padrão básico Com@ individuação e estreiteza psíquica são incon-
subjacente a uma existência individual, da experiência de ciliáveis, até mesmo os mais desagradáveis aspectos da
encontrar um sentido. A individuação não é algo que se existência humana devem ser levados em conta. De algum
pode conquistar,e possuir com segurança. Simbolicamente modo, deve-se encarar a sombra, a destrutividade funda-
pode-se descrevê-la mediante imagens como "a jornada mental. Um confronto com a morte deve também ter lugar.
até a cidade de ouro". O trabalho dos alquimistas, em Os escritos de Jung por vezes sugerem que a individuação
sua tentativa de transmutar substâncias comuns em se dá na segunda metade da vida. Jung não afirmou isso
ouro na busca da Pedra Filosofal, constitui um símbolo dogmaticamente, mas alguns de seus seguidores elevaram
de individuação projetado sobre a matéria. "Mas nem a esse ponto à condição de dogma.
Pedra, nem a fórmula para transformar a matéria ordiná- Numa análise profunda, os sonhos e outras expressões
ria em ouro podem ser encontradas. O que isso significa do inconsciente costumam fazer referência a um processo
é a busca constante, a intuição da existência de um alvo de individuação, revelando se a pessoa em questão está ou
que nunca se atinge. Jung'não se satisfez em apresentar não em busca da Pedra Filosofal e da cidade de ouro. Em
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minha experiência analítica, tenho visto que esse processo do bastante no caminho da individuação, enquanto um
pode aparecer em qualquer estágio da vida. Pude várias adulto de 60 talvez tenha abandonado por completo a
vezes observá-lo em jovens, muitos dos quais lutam com busca. No decorrer de nossa vida, nos aproximamos vá-
o problema de Deus, da morte ou do Diabo. Tais jovens se rias vezes do centro de nosso ser e depois nos afastamos
. encontram totalmente abertos para as polaridades totais de novo. Esse é um processo constante, uma série cíclica
da existência sem com isso se desintegrarem, penetrando de aproximações e recuos. Ninguém - analista inclusi-
psicologicamente no mais profundo da natureza do ho- ve - pode dizer que completou sua individuação e que,
mem e da Criação. Tenho reconhecido em seus sonhos os portanto, está "salvo".
símbolos da individuação e do encontro com o Si-mesmo Para evitar mal-entendidos, quero mais uma vez
e pude perceber como confrontam esses símbolos e são enfatizar que o processo de individuação não é um fenô-
por eles influenciados. Refletindo um pouco, essa idéia de meno paralelo à saúde mental e espiritual. Unia pessoa
que apenas os mais velhos podem penetrar no cerne da pode não ter sintomas neuróticos ou psicóticos e no en-
existência humana é um tanto estranha. No transcorrer tanto achar-se completamente distanciada, do processo de
da história, a maioria das pessoas morr.eu relativamente individuação. O ego é capaz de.armar os mais eficazes me-
cedo; mesmo atualmente, nos países subdesenvolvidos canismos de defesa contra as mais importantes questões e
a maior parte da população não ultrapassa os 40 anos. os mais profundos temores da humanidade. A morte pode
Como poderia ser então que somente aqueles que, por ser posta de lado como algo que acontece para os outros e
sorte, tivessem vivido mais de 30 ou 40 anos teriam tido que no momento não precisa ser considerada. Um ego
a chance de realizar seu destino? Além disso, deve-se forte poderá esconder-se atrás de uma visão pragmática
notar que boa parte do trabalho criativo da humanidade da vida que não se preocupa com aspectos sinistros que
foi feita por pessoas com menos de 40 anos. não pode alterar, como a morte. Os problemas de sombra
O processo de individuação liga-se, de certa forma, podem simplesmente ser reprimidos ou projetados sobre
ao desenvolvimento religioso. Mas não se pode dizer que os demail:?' Os nossos medos mais profundos podem ser
apenas os indivíduos com mais de 40 anos estão abertos postos de lado mediante um empenho realizador aparen-
para as experiências e revelações religiosas. À primei- temente significativo. Por meio do. estabelecimento de
ra vista, pode f-aver algo de atraente na idéia de que objetivos parciais, a questão de um sentido mais abran-
a tarefa do jovem consiste antes em dominar o mundo gente é ignorada. E objetivos não faltam: ganhar dinheiro,
exterior, estabelecer-se profissionalmente, formar uma cumprir com os deveres familiares, conquistar certo status
família etc., enquanto a d'os mais velhos é voltar-se para social, ajustar-se ao sistema, exercer com sucesso uma
a questão do sentido. Essa concepção impõe certa ordem profissão, cuidar da saúde etc.
e uma seqüência programática à vida, como um modelo Há vários modos de estimular a individuação em si
de formação acadêmica. Sente-se aí a influência excessiva mesmo e nos outros. Na obra de Jung e ainda mais na de
sobre o pensamento da imagem da escola eda vida de seus seguidores, vê-se claramente que a análise é o meio
estudante. A aproximação do Si-mesmo pode ocorrer em moderno por excelência de promovê-la. A observação de-
qualquer idade: um jovem de 16 anos poderá ter avança- talhada das expressões do inconsciente noslimites de um
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relacionamento íntimo, a busca de uma atitude positiva blemas da humanidade. Essa inflação atinge até mesmo
em face delas, a compreensão da própria vida psíquica em os psiquiatras que não usam os métodos da psicologia
termos de psicologia analítica - todos esses aspectos são profunda. Com bastante freqüência, tenta-se reduzir os
de fundamental importância. Assim sendo, é compreen- problemas centrais da história humana às categorias da
sível que um analista mais idoso, devido a seu constante psicopatologia. Cristo é então encarado como um maso-
interesse pela análise e sua tentativa de compreender a quista paranóico, os santos como neuróticos sexuais ...
si mesmo segundo as categorias da psicologia analítica, O fato de muitas escolas analíticas não reconhecerem
comece a achar que é, por assim dizer, um especialista a diferença entre saúde mental e individuação pode
em individuação e que está bem próximo de atingi-la. até mesmo reforçar o perigo de uma inflação profética. O
Essa atitude inflada é reforçada por seus pacientes que, analista que conte com algumas "curas" bem:"sucedidas
por várias razões, gostam de ver nele alguém não só fisi- acredita ter auxiliado as pessoas a encontrar a salvação
camente saudável como'bastante adiantado no caminho _ ou, pelo menos, que sabe como fazê-lo. Por não reco-
da individuação. Em outras palavras, querem que seu nhecer a diferença entre os conceitos de saúde mental e
terapeuta seja um mágico onisciente. individuação, ele vê-se impedido de prevenir a contami-
À primeira vista, tem-se a impressão de' que os ana- nação psicológica interior dos dois conceitos, caindo assim
listas' junguianos têm uma tendência especial a certa numa inflação profética.
húbris (arrogância) cega; afinal de contas, é na psicologia
junguiana, mais do que em qualquer outra, que os termbs
"individuação" e "segunda metade da vida" têm tanta
im portância e correm o risco de se tornarem perigosos
nos termos aqui apresentados. Mas os analistas de outras
escolas - para quem a análise não é mais do que a busca
da saúde mental, sendo o resto rejeitado como especulação
metafísica - acabam também, a seu modo, encarando a
análise como o único caminho da salvação. Eles também
acreditam que sua psicologia e seus métodos terapêuticos
representam o meio de se atingir a redenção da huma-
nidade. Um psicanalista freudiano internacionalmente
conhecido disse-me certa vez, com toda a seriedade, que a
Segunda Guerra Mundial não teria ocorrido se tivesse ha-
vido mais psicanalistas naAlemanha de antes da guerra e
se os ensinamentos de Freud tivessem atingido um nível
mais profundo da consciência das pessoas. A despeito da
escola a que pertençam, os analistas tendem a à:creditar
que encontraram a chave para os mais profundos pro-

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o PSICOTERAPEUTAIMPOTENTE Sugeri atrás que a amizade, ou seja, a conexão erótica,
oferece uma possibilidade ao analista de romper o círculo
vicioso. Ao mencionar esse ponto pela primeira vez, trata-
va-se apenas de uma premissa não fundamentada. Antes
de retomá-lo, porém, devo fazer ainda outra digressão.
A individuação é possível para qualquer pessoa e em
qualquer idade. Há uma pintura hindu usada para fins de
meditação na qual Tsong Khapa, o fundador· do Templo
Amarelo do Tibet, aparece rodeado por 84 homens santos
da ÍndiaCmahasiddhas) em estado de perfeição religiosa.
Esses mahasiddhas, cujas vidas conhecemos por meio de
Pouco a pouco, vem tomando corpo a imagem do lendas, alcançaram seu alvo mediante todos os caminhos
psicoterapeuta experiente na segunda metade da vida, possíveis, como monges ou loucos, dançarinos ouglutões,
alguém que realizou um excelente trabalho e dominou os príncipes herdeiros ou vagabundos. O que essa imagem
aspectos teóricos e práticos de seu campo. A análise, com de meditação expressa se aplica também àindividuação
o conhecimento e as técnicas que lhe são inerentes, passa no sentido junguiano. Conceber uma imagem equivalente
a assumir para ele um significado cada vez mais amplo. com apenas 84 analistas ou analisandos seria um exagero
Para o terapeutajunguiano, a análise é a grande via não só grotesco. Alguns discípulos de Jung foram longe demais
para a saúde mental como para a salvação da alma. Pata ao afirmar que o "verdadeiro caminho" da individuação
os analistas de outras escolas, os problemas, se é que têm é de certa forma a análise, ou que os instrumentos e
solução, só se resolvem a partir do conhecimento analítico. princípio~ da psicologia analítica são essenciais para o
Os relacionamentos, a amizade e os laços de família, a arte, autoconhecimento mesmo nos casos .em que a análise não
a vida social, tliP-o se reduz ao analítico e ao psicológico. é necessária. A individuação pode acontecer na análise,
O analista já não está mais aberto ao Ser no sentido exis- na família, no trabalho diário, nas realizações artísticas e
tencialista, mas refugiou-se numa torre de marfim e só técnicas - seja onde for. Podem-se usar os mais diversos
experimenta o mundo a partir dessa perspectiva. E agora meios para confrontar os problema's fundamentais da
tem início o trágico desenvolvimento que procurei retra- existência humana. Ou, em termos religiosos, pode-se
tar nestas páginas: a serpente começa a autoconsumir-se servir a Deus de muitas maneiras. O ilusionista que na
engolindo a própria cauda. Cada vez mais, o terapeuta lenda medieval mostrava sua arte na igreja diante da
torna-se vítima do fenômeno da sombra. Sua eficiência Virgem servia a seu próprio modo.
como analista diminui, mas ele acredita o contrário e se A maioria das atividades profissionais pode, é claro,
a_uto-ilude sempre mais. No entanto, continua a merecer ser exercida de modo muito eficiente sem que no entanto
respeito como especialista e não fica infeliz, nem neurótico, o processo de individuação seja ativado. Um corretor de
nem psicótico, terminando seus dias como um indivíduo seguros mentalmente sadio, porém rígido em suas atitu-
mentalmente são, socialmente ajustado e bem-sucedido. des, fechado para o mundo e distante da individuação,
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pode perfeitamente ser um bom profissional. Mas quando desafiado por algo que resista às suas armas e técnicas
a ocupação tem uma influência decisiva sobre os outros, analíticas. A arte poderá inquietar, o estudo da história
caso em que nossa psique é o principal instrumento de estimular; um interesse pelas ciências naturais talvez
trabalho, a atitude psíquica é de fundamental importân- leve às mais angustiantes dúvidas. Mas a esperteza do
cia. Com a profissão do psicoterapeuta é assim. Não é analista logo reduz essas coisas todas ao seu esquema teó-
só de recursos técnicos que ele lança mão - em última rico. Um k.nalista conhecido meu, bastante inteligente e
análise, é sua própria personalidade que tem um 'efeito diferenciado, certa vez assistia a um .filme extremamente
sobre o pacienttp. O tipo de analista que descrevi atrás, comovente. Terminado este, em vez de se entregar à ex-
constantemente conduzido pela sombra sem sabê-lo e periência emocional, meu colega apresentou uma longa e
sem sofrer por isso, não é de modo algum neurótico ou engenhosa análise psicológica do filme. Não é nada raro
psicótico. A seu próprio modo, ele encontrou um modus encontrar terapeutas que, diante de uma obra de arte
vivendi com as forças demoníacas que lhe permite levar capaz de comovê-los, lançam mão de interpretações psi-
uma vida satisfeita e livre de tensões. Em certa medida, cológicas para afastar a experiência da emoção. A Mona
talvez até consiga ajudar um paciente ocasional a adquirir Lisa passa a ser vista como uma "representação da anima"
uma estabilidade saudável semelhante. Alguns de seus e a arte moderna como repleta de símbolos sexuais ...
pacientes, ao terminar a análise, serão menos afetados
por sintomas neuróticos; mas, ao mesmo tempo, terão se
tornado pessoas menos interessantes, ou até mais egoístas
e maliciosas. Algo aí se interrompeu: o processo de indi-
viduação. O analista que se fecha e que por assrm dizer
integra sua sombra, em parte por vivê-la exteriormente
de forma inconsciente e em parte projetando-a, já não é
mais capaz de estimular seus pacientes a compreenderem
a individuação. Jung afirma em várias passagens que o
analista não pode levar seus pacientes mais longe do que
ele próprio chegou. Isso naturalmente não se aplica a sin-
tonlas neuróticos específicos. Pode ser que um terapeuta
sofra de certas compulsões neuróticas e mesmo assim con-
siga libertar seus pacientes de aflições semelhantes. Mas
raramente poderá estimular um processo de individuação
se ele próprio estiver fechado a esse desenvolvimento. E
como vimos, uma parte desse processo para o analista
consiste em confrontar a sombra analítica.
Somente algo não-analítico poderá eventualmente
atravessar essa resistência. O psicoterapeuta deve ser

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EROS DE NOVO a contar uma história você termina por mim, ou então
corrige o que eu disse. E você também vive interrompendo
j. as mulheres". Não há nada de muito sério nessas acusa-
ções, mas elas sugerem certos traços desagradáveis no
marido. É claro que ele poderá se defender, negar o que a
esposa disse e insistir que ela está projetando coisas dela
etc. Sua mulher, porém, não é sua paciente; não adian-
ta simplesmente devolver-lhe o que.disse. No final das
contas, cabe-lhe encarar seu comportamento dominador
e lamentar a dor que tem causado. Talvez isso venha a
ser difícil e complicado, mas, ao pensar mais em si, uma
E assim, em busca de uma saída para o impasse, volto pequena parte da sombra é vista de frente.
ao relacionamento erótico com nossos semelhantes. Eró- Outro exemplo: certo dia, o amigo de um analista lhe
tico para mim não significa algo especificamente sexual, diz: "Não gostei muito do modo como você se comportou
mas ligado ao amor em seu sentido mais amplo. Amigos de ontem à noite. Você se pavoneou demais diante da Srta.
ambos os sexos, cônjuges, irmãos e irmãs, filhos, parentes X e nem percebeu que ela não ligou a mínima para as suas
- qualquer um destes poderá pôr em xeque a capacidade idéias de reforma da universidade. O que ela queria era
do analista de usar evasivas. Nesses relacionamentos, apenas fazer charme". O analista poderá defender-se con-
certos conteúdos da sombra são constelados, pois essas tra as palavras do amigo, mas no fundo sabe que este não
pessoas atingem o analista por ângulos totalmente diver- está sendo hostil e que há algo de verdade no que diz.
sos daqueles em que se colocam os pacientes. O.desafio, Esses pequenos conflitos são inofensivos, mas servem
porém, só será frutífero se brotar do amor. Só então o ana- para indicar o rumo que as coisas podem tomar. Talvez o
lista será vulnerável. Os colegas, à medida que também analista tenha de passar por esses confrontos com os que
forem amigos, poderão igualmente exercer influência. lhe são próximos - e enquanto permanecer aberto dentro
Mas nesse caso deve haver consciência do perigo de que da relação de amor, deverá levar a sério essas reações. Isso
estes se transformem em cúmplices na batalha contra a o põe em constante contato com a própria sombra, o que
individuação, evitando contestar o outro para não se ve- acaba conduzindo à sombra profissional. E tais confrontos,
rem contestados a si próprios e assim fornecendo armas por certo, podem também indicar seus lados positivos.
adicionais contra o desenvolvimento psicológico. - Tudo isso está muito bem - mas de que forma essa
Talvez alguns exemplos possam esclarecer o que ativação e esse contato com a sombra estimulamo proces-
tenho em mente. A esposa de um analista queixa-se so de individuação? Ora, criando um movimento novo
dizendo-lhe: "Ultimamente, você não presta a menor numa psique que enrijeceu, a alma se abre outra vez.
atenção quando eu falo. Parece que você já sabe tudo de Em si, esse aspecto não desencadeia necessariamente o
antemão. E quando vem visita, você se comporta como se processo de individuação, mas pelo menos torna-o nova-
soubesse tudo. Não sobra nada para eu dizer. Se começo mente possível.
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I
Não é apenas esse tipo mais ou menos inofensivo de gente e consciencioso inclui até mesmo a esfera religiosa
crítica por parte daqueles que o cercam que pode' criar na estrutura de seu mundo analítico; ou, então, é capaz
novas possibilidfldes de movimento na psique do analista. de mantê-la à distância com recursos analíticos caso ela
O aspecto central é o envolvimento, a alegria e a tristeza, se revele demasiado perturbadora.
o desapontamento e a surpresa que fluem entre os ,que se O ato de expor-se ao relacionamento erótico com o
amam. A experiência de eros entre duas pessoas e seus mundo que o cerca não significa apenas que a vida
efeitos frutíferos sobre a psique não podem ser descritos emocional do analista deva ser de algum modo estimu-
por meio de áridos termos psicológicos, mas apenas repre- lada. Não se trata aqui de contrastar a compreensão
sentados artisticamente. Quando ocorre, a experiência intelectual e a experiência emocional ou de estimular
pode evidentemente ser colocada e apreendida em ter- certos sentimentos no analista para que seu desenvolvi-
mos analíticos. Mas, em contrapartida, esses conceitos mento psíquico novamente se ponha em marcha. Nossa
psicológicos devem ser constantemente revivificados com preocupação central é como superar a cisão na qual ele
base no caráter imediato da experiência de eros. E isso vive. O cerne da questão é que ele deve entrar em con- .
só surte efeito quando ocorre entre pessoas que se amam tato.direto com seus semelhantes com toda a iniciativa,
e não entre médico e paciente, analista e analisando ou sofrimento e alegria que isso implica. É preciso que no-
mestre e discípulo. vamente encontre um jeito de expor-se aos mais difíceis
O psicoterapeuta se encontra de fato numa posição desafios. Ele tem de ser sacudido. O senil "eu sei, eu sei"
muito difícil e mesmo o estudo dos últimos desenvolvi- deve transformar-se no socrático "eu não sei".
mentos da psicoterapia não o ajudará por completo a O trabalho do psicoterapeuta tem vários traços em
manter sua eficácia profissional. Não é através da leitura comum com outras ocupações. As profissões que aqui
de revistas especializadas que ele conseguirá impedir denominamos "de ajuda" sujeitam-se todas a uma grave
ou remediar a cisão do arquétipo. Sua eficácia depende ameaça da sombra. As pessoas que acreditam abrigar um
em grande medida do desenvolvimento de sua própria desejo de ajudar a humanidade devem ter consciência
psique. Pode ser que além da amizade outros meios exis- de que a preocupação com a desgraça, o desajuste so-
tam capazes de protegê-lo da sombra do psicoterapeuta cial, a ignorância, a doença etc. constela graves problemas
- mas ainda não os descobri. E mesmo que existam, psicológicos nelas próprias. Nos estágios de formação
por certo não fazem parte do trabalho analítico. Talvez dessas profissões fala-se muito das dificuldades criadas
certas formas de meditação pudessem ser úteis para por "casos" e .pacientes, mas quase nada se diz do próprio
tal fim. Infelizmente, porém, mesmo quando tentam lado sombrio. Na educação de assistentes sociais, enfer-
lidar com sua vida interior em termos contemplativos, meiros, professores, médicos etc., deveria também ser
os analistas, em sua grande maioria, estão a tal ponto enfatizado que os problemas do "caso" ou do paciente
envolvidos pela sombra analítica que dificilmente con- pertencem também à pessoa que os enfrenta. Como o juiz
seguem escapar do círculo vicioso. Talvez exista algum inglês que, ao ver um condenado se dirigindo para o lugar
tipo de meditação centrada em Deus capaz de evitar os da execução, pronunciou a frase imortal: "Aí estaria eu,
perigos da armadilha. Mas, em regra, o analista inteli- se não fosse pela graça de Deus". Os que se preparam

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I
)
para o exercício,de uma dessas profissões deveriam infor- em seu mundo amortecido. Se isso não puder ocorrer e se
mar-se em detalhe sobre as várias formas de expressão usar sua psicologia para esvaziar seus relacionamentos,
t
do lado sombrio de seu ofício. Já não deveria mais haver 1-'
ele acabará se tornando uma figura trágica.
assistentes sociais que cotntoda a sinceridade acreditam Mas, se puder abrir-se a essa dimensão da existência,
poder exercer a profissão como engenheiros, em termos seu próprio desenvolvimento poderá prosseguir e ele se
puramente técnicos e objetivos. Não deveria mais haver tornará ainda mais capaz de ajudar seus semelhantes a
professores que pensam que só seus alunos são infantis, se libertarem de dificuldades neuróticas e a tomarem o
enquanto eles teriam superado o problema. Quanto aos caminho da individuação. Aí então ele se torna um ver-
médicos, seria um grande avanço poder encontrar alguns dadeiro seguidor dos grandes fundadores da psicologia
que não vissem a doença. apenas nos pacientes. Essas profunda. Poderá talvez levar adiante o confronto com os
mudanças fundamentais de atitude colocam tremendos níveis mais profundos do inconsciente, iniciado de modo
desafios aos educadores nesses campos. tão heróico por Freud e Jung. Aí o analista pode viver seu
Mas no caso do psicoterapeuta há outro fator parti- próprio destino.
cularmente difícil que vem complicar ainda mais a si- O psicoterapeuta é alguém que exerce uma profis-
tuação. A psicologia profunda é uma das possibilidades são especificamente moderna, que busca circunavegar o
mode"rnas de se chegar à auto-reflexão e à autopercepção. mundo e explorar a psique em sua totalidade. A grande
Por meio do conhecimento que esta oferece e da análise, aventura do homem moderno não consiste apenas em
os membros das outras profissões de ajuda podem encon- explorar o mundo exterior, mas muito mais em penetrar
trar auxílio em sua luta com os próprios problemas pro- nas profundezas da alma. O psicoterapeuta que consegue
fissionais. evitar a cilada da cisão enrijecedora pode prestar um in-
Para não cair na própria sombra, o -assistente social calculável serviço para a humanidade e para si mesmo. A
não precisa da ajuda de outro assistente social, pois pode psicologia analítica lhe fornece o conhecimento com o qual,
procurar um analista - o mesmo se aplicando ao profes- se souber usá-lo, poderá abrir dimensões completamente
sor e ao médico. novas para o homem contemporâneo. É preciso, porém,
O analista, porém, fica cada vez mais rígido e se perde lutar com sinistras forças obscuras em si e nos outros . .sua
na sombra devido exatamente àquilo que pode ser útil aos tarefa só será cumprida mediante permanentes confron-
outros - ou seja, a análise e o conhecimento de psicologia tos com a sombra. O analista não poderá, como Isaac na
analítica. Os próprios instrumentos que usa para ajudar Bíblia, passar apenas uma noite lutando como anjo para
os outros selam seu destino psicológico. Os desafios, ele conquistar sua bênção. Essa luta dura a vida inteira.
os desvia; seus pacientes não são páreo e até mesmo o
desafio da religião pode ser esvaziado por meio de concei-
tos analíticos. Ele aprendeu a confrontar o inconsciente
e o faz com esperteza e prudência. Somente mediante o
intercâmbio emocional com aqueles com quem vive uma
relação de amor é que uma nova dimensão pode penetrar

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