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A utilização da informática na educação: um olhar através da

cibercultura e do pensamento pós-moderno


VITOR MALAGGI∗

Resumo: Este artigo apresenta algumas reflexões sobre implicações filosóficas


e sociais no contexto de utilização da Informática na Educação. Através do
estudo de autores como Lyotard, Gadamer, Lévy e Lemos pretende-se desvelar
um contraponto crítico entre duas opiniões: a) de que as relações das técnicas
comunicacionais modernas com a cultura e a sociedade podem potencializar
processos de aproximação dialógica entre os sujeitos e, por consequência,
novas formas de aprendizagem; b) de que o “sucesso desmesurado” da técnica
que atinge os meios de comunicação modernos configura-se como um
empecilho para o “diálogo vivo” entre as pessoas. A partir deste contraponto,
serão indicadas algumas questões relevantes em termos pedagógicos, sobre o
papel que os meios de comunicação baseados na conjunção da informática e
telecomunicações podem/devem assumir no processo educativo.
Palavras-chaves: informática, educação, pós-modernidade, cibercultura,
sociedade contemporânea.

Abstract: This paper presents some reflections on philosophical and social


implications in the context of utilization of Computing in Education. By
studying authors such as Lyotard, Gadamer, Lévy and Lemos it's intended to
unveil a critical counterpoint between two opinions: a) that the relations of
modern communication techniques with culture and society can improve
process of dialogical rapprochement among individuals and, consequently, new
forms of learning; b) that the "unmeasured success" of technique that strikes
modern media it's configured as a deterrent to the "live dialogue" between
people. From this counterpoint, will be indicated some relevant issues in
pedagogical terms, about the role that the media based on the conjunction of
computing and telecommunications could/should assume in the educational
process.
Key words: informatics, education, postmodernity, cyberculture, contemporary
society


VITOR MALAGGI é graduado em Ciência da Computação (2006) e Mestre em Educação
(2009) pela Universidade de Passo Fundo (UPF), sendo a pós-graduação realizada como bolsista CAPES.
Atualmente também é graduando em Pedagogia EAD (2012) pela Universidade Federal de Santa Maria
(UFSM). Foi bolsista CNPq SET-6B no projeto de pesquisa “Guri – Aplicação Interativa de Autoria
Colaborativa de Materiais Educacionais Hipermída na TV Digital”, no período de fev/2010 à jun/2012. E-
mail: malaggi@gmail.com

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Introdução relação simbiótica entre a sociedade, a
Desde que os primeiros hominídeos cultura e as novas tecnologias de base
surgiram no planeta Terra, a espécie micro-eletrônica que surgiram com a
humana, impelida seja pelas suas convergência das telecomunicações
necessidades culturais ou de com a informática na década de 70”
sobrevivência, tem estado em processo (LEMOS, 2003, p. 11). Esta nova
de constante criação de instrumentos configuração que se estabelece com a
tecnológicos que satisfizessem e cibercultura possibilita realizar diversos
resolvessem problemas de diversas tipos de reflexões. Algumas delas são:
ordens. Assim se procedeu a evolução como se processam estas relações na
tecnológica, desde a criação dos sociedade atual? Em que pontos ela
primeiros instrumentos de caça/pesca, caracteriza esta época como sendo um
passando pela emergência da linguagem momento singular de criação
(falada e escrita), das Revoluções tecnológica dos seres humanos? Quais
Industriais, chegando aos nossos dias são as potencialidades e os problemas
com a Revolução Tecnológica pautada que surgem desta nova interação entre
por uma nova forma de distribuição de tecnologia-sociedade-cultura?
informações e de comunicação entre os Neste artigo, tem-se por objetivo refletir
seres humanos: as Tecnologias Digitais sobre a problemática educacional a
de Rede, traduzidas na figura do partir das relações comunicativas
Computador Conectado (hoje, cada vez contemporâneas que ocorrem no
mais móvel). contexto de imbricação entre sociedade,
Deste novo nível de relação entre cultura e as novas Tecnologias Digitais
sociedade-cultura-artefatos de Rede. Para tanto, além da
tecnológicos, potencializado pela explicitação teórica acerca da
criação e popularização recente do cibercultura a partir das posições de
chamado Personal Computer, surge a André Lemos, pretende-se refletir com
cibercultura, definida como “[...] a Hans-George Gadamer e Jean-François
forma sociocultural que emerge da Lyotard no sentido de verificar a

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confrontação crítica de suas visões sociedades arcaicas, a antiguidade
sobre o papel desta emergência clássica, o medievo, bem como as fases
tecnológica nos processos iniciais do capitalismo, culminando hoje
comunicativos. No caso de Gadamer, com o chamado capitalismo financeiro
visão que compreende a informática e o ou pós-industrial, acepção defendida e
sucesso da técnica moderna como um explicada na sociologia de autores como
potencial empecilho ao diálogo e a Alain Touraine1 e Daniel Bell2. Neste
pluralidade de relações existentes no mesmo sentido, as diversas revoluções
mundo complexo e fragmentado nos instrumentos e artefatos
contemporâneo, em contraposição a tecnológicos, desde a invenção da
Lyotard que assegura novas tecnologias escrita, passando pela criação da
digitais de comunicação e informação imprensa por Gutenberg, e pelas
enquanto meios de promover condições Revoluções Industriais, vêm apoiando
ressignificadas para que as interações processos de modificações nos modos
humanas aconteçam, seja na realidade em que como as pessoas se relacionam
ou no chamado ciberespaço. nesta sociedade e com a cultura de sua
época.
Por fim, fechando a linha de raciocínio
proposta pelo título deste artigo, será Partindo destas reflexões iniciais, pode-
realizada uma breve discussão sob a se avançar mais em um sentido de
ótica educacional, no sentido de apontar buscar compreender a época atual em
indícios que possam ajudar a reflexão que estão sendo gestados fenômenos
de um possível papel que as sócio-culturais que marcam de maneira
características emergentes da singular a vida na sociedade atual. Faz-
cibercultura possam assegurar na se importante no escopo desse artigo
potencialização de processos de ensino- registrar uma grande revolução
aprendizagem que se baseiem no tecnológica que se iniciou relativamente
diálogo e na interatividade. há pouco tempo (na década de 70, mais
precisamente), a qual vem mudando a
Alguns pontos para compreender a forma com que as pessoas desta
nossa época sociedade se comunicam, trocam
Através dos tempos, a humanidade informações, enfim, interagem e
transformou, e continua a transformar socializam-se: a revolução da
permanentemente as estruturas e informática. Esta revolução, encabeçada
relações sociais das quais é, ao mesmo tecnologicamente pelo encontro do
tempo, “criadora” e “criatura”. Desde
que os primeiros sujeitos da espécie 1
Alain Touraine (Hermanville-sur-Mer, 3 de
humana sentiram a necessidade de se agosto de 1925) é um sociólogo francês que
fixarem em determinados territórios por tornou-se conhecido por ter sido o pai da
períodos de tempo indeterminados, expressão "sociedade pós-industrial". Seu
trabalho é baseado na "sociologia de ação" e seu
abandonando a vida nômade e, assim, principal ponto de interesse tem sido o estudo
constituindo as primeiras formas de dos movimentos sociais.
sociedade (a partir da Revolução 2
Daniel Bell (Nova York, 10 de maio de 1919)
Neolítica), o modo com que as relações é um sociólogo americano e professor emérito
entre os indivíduos se processavam no da Universidade de Harvard. Bell é mais bem
interior das sociedades modificou-se conhecido pelas suas contribuições ao pós-
industrialismo. Seus livros mais influentes são:
conforme as necessidades, as forças O Fim da Ideologia (1960), As Contradições
“sociais” existentes e as condições de Culturais do Capitalismo (1976) e O Advento
cada época. Passaram-se assim as da Sociedade Pós-Industrial (1973).

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artefato “computador” com as libertação da condição de mero
tecnologias das telecomunicações, está produto das mesmas narrativas,
(re)criando diariamente novas formas propondo a historicidade sobre a
culturais sociotécnicas de relação entre hegemonia da razão, colocando a
os sujeitos na sociedade diferenciação sobre a uniformidade;
contemporânea: a cibercultura. c) dos que utilizam a desconstrução
Mas o que vêm a ser a cibercultura? como método através do qual seria
Teóricos como Pierre Lévy e André possível desarticular o discurso
logocêntrico da modernidade em
Lemos definem este termo baseando-se
sua etapa madura e abri-lo à
em um enfoque que engloba as questões diferença, à criatividade e ao
tecnológicas e culturais presentes no pluralismo. (1997, p. 43)
contexto social atual. Baseando-se em
Lemos (2003, p. 11), a cibercultura Assim, e buscando caracterizar de
poderia ser definida como uma “[...] forma mais complexa o zeitgeist pós-
relação que se estabelece pela moderno de onde deriva a cibercultura,
emergência de novas formas sociais que é possível recorrer a Lemos (2003, p.
surgiram a partir da década de sessenta 21-22), que compreende esta enquanto
(a sociabilidade pós-moderna) e das fenômeno sócio-técnico regido por
novas tecnologias digitais”, ou seja, “leis” que ajudam a entender as suas
“[...] é a cultura contemporânea manifestações na sociedade e na vida
marcada pelas tecnologias digitais”. das pessoas. Segundo este autor são três
A partir destas citações podem ser feitas as leis da cibercultura: (i) a Lei da
algumas considerações importantes. A Reconfiguração, que postula a
cibercultura se desenvolve necessidade de se “[...] evitar a lógica
originalmente, no que se refere à sua de substituição ou do aniquilamento”
questão sociológica e filosófica, a partir (LEMOS, 2003, p. 21) de práticas já
das ideias da pós-modernidade. existentes, tratando de reconfigurá-las a
Segundo Lemos (2003, p. 12) a “[...] luz da nova cultura; (ii) a Lei da
conjunção da falência dos metarelatos, Liberação dos Pólos de Emissão, no
da ideia de fim do futuro e o surgimento sentido de quebra com a comunicação
das novas possibilidades planetárias da centralizada e unidirecional que
comunicação digital estão na origem da acontece em outras mídias (mass
cibercultura”. Neste ponto, entende-se media), potencializando assim nesta
por pós-moderno o “[...] estado da nova concepção uma comunicação
cultura após as transformações que multidirecional e interativa; (iii) a Lei
afetaram as regras dos jogos da ciência, da Conectividade Generalizada, que
da literatura e das artes a partir do final permite compreender a evolução dos
do século XIX” (LYOTARD, 2000, p. Computadores Conectados (CCs) para
15), sendo que as suas reflexões, Computadores Conectados Móveis
segundo Diehl, podem ser (CCMs), e os decorrentes processos de
caracterizadas por três grandes posturas ressignificação dos conceitos de espaço
referencias: e tempo em que ocorrem as interações
entre os sujeitos, “[...] onde o tempo
a) dos críticos das grandes real parece aniquilar, no sentido inverso
narrativas que procuram explicar a a modernidade, o espaço de lugar,
história durante a época moderna; criando espaços de fluxo, redes
b) do grupo que nega o sujeito planetárias pulsando em tempo real, em
como autor dessas narrativas ou sua caminho para a desmaterialização dos

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espaços de lugar” (LEMOS, 2003, p. sociocultural na vida das pessoas.
13). Através do discurso de autores como
André Lemos, percebe-se que as
Através das “leis da Cibercultura” características inerentes da cibercultura
postulada por Lemos, é possível podem potencializar processos de troca
verificar que o que está em questão de informações e de relações
neste contexto sócio-cultural comunicacionais em uma velocidade,
contemporâneo são as enormes volume e com características nunca
potencialidades abertas pelas antes vista na história da humanidade.
Tecnologias Digitais de Rede para a Uma questão a ser feita agora então
distribuição, comunicação e interação seria: quais são os reflexos desta cultura
dos seres sociais entre si e com os marcada pelas Tecnologias Digitais de
diversos tipos de informações que Rede (TDRs) para a sociedade
circulam pelo ciberespaço, existente contemporânea e seus indivíduos?
graças aos diversos dispositivos que
formam a rede mundial de Os reflexos da cibercultura sobre a
computadores, a Internet. A inédita sociedade contemporânea: refletindo
“Liberação dos Pólos de Emissão” a partir de Lyotard e Gadamer
realizada por estas tecnologias vem A questão proposta anteriormente, de
permitindo uma ruptura com o estado fazer uma reflexão crítica sobre os
de passividade dos sujeitos frente às reflexos para a sociedade
mídias de massa vinculadoras de meros contemporânea com o advento da
processos de troca de informações, e cibercultura, perpassará principalmente
não de comunicação (enquanto pelas ideias de dois autores que
construção coparticipada de dissertaram em suas teorias sobre este
significados e sentidos para as ações- tema. Assim, pode-se realizar
objetos no mundo). Possibilitam, por brevemente um resumo da problemática
fim, novos níveis de interação, de destes autores, para após adentrar-se de
comunicação, em que ocorrem maneira mais detalhada em suas
processos de colaboração, de concepções:
protagonismo coletivo, com a rede
atuando como uma enorme “incubadora a) Jean François Lyotard, que
de mídias”, colocando-se a serviço dos em seu livro “A condição pós-
sujeitos. Soma-se a tudo isso a moderna” de 1979 procurou
revolução da Conectividade examinar “[...] quais seriam as
Generalizada, possibilitada atualmente mudanças esperadas para o saber
pelos dispositivos móveis de nas sociedades industriais
comunicação, e a readaptação das avançadas, sob o impacto das
mídias tradicionais ao contexto novas tecnologias e sistemas de
dinâmico, reticular e flexível dos comunicação.” (DIEHL, 1997,
mecanismos de Reconfiguração da p. 53).
cibercultura. b) Hans-George Gadamer, o
Concluindo esta breve reflexão de qual, ao analisar o
alguns pontos importantes da sociedade desenvolvimento técnico-
contemporânea, marcada pela científico da sociedade
Revolução Tecnológica Digital, tem-se contemporânea, verificou a
por objetivo agora verificar as incapacidade crescente dos
implicações desta nova configuração indivíduos para o diálogo.

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Iniciando com Lyotard, Diehl (1997, p. produzem múltiplas formas de saberes,
54) nos coloca que o referido autor trata ação e entendimentos sobre a realidade.
a problemática anteriormente citada Portanto, a pluralidade de visões sobre a
“[...] focalizando-a indiretamente. Ele realidade, baseada na construção e
demonstra, primeiramente, quais as desconstrução criativa de diversos
mudanças internas a que o saber estaria discursos no interior das comunidades
sujeito para, depois, tomar uma posição de linguagem, torna-se uns dos fatores
em relação às novas tecnologias”. essenciais de uma condição pós-
Primeiramente, Lyotard trataria de moderna caracterizadora da sociedade e
reafirmar a sua concepção pós-moderna da cultura contemporânea4. Um fato
de desconstrução e dissolução do importante no pensamento pós-moderno
chamado “Mito da Unidade”. Assim, o de Lyotard é que a dissolução das
que está em jogo no debate pós- grandes narrativas não é vista como
moderno é a negação da validade de algo ruim, mas sim “[...] é reconhecida
produção de grandes paradigmas, ou como fenômeno positivo e como uma
“metanarrativas”, que visam dar uma nova chance” (DIEHL, 1997, p. 54),
explicação universal à complexidade da pois libera uma enorme quantidade de
realidade, de forma homogenia e pluralismos de saberes, vivências e
logocêntrica. Busca-se mais do que tudo formas de ação.
na pós-modernidade captar o universal A partir desta concepção de sociedade,
em seus fragmentos constituintes, na Lyotard faz sua análise sobre as novas
conjunção das suas multiplicidades tecnologias de informação e
independentes. (LYOTARD, 2000, p. comunicação: como o número de
27-34). A negação das “metanarrativas” “comunidades de linguagens” liberadas
se deve ao fato de que o sujeito, pela condição atual da sociedade
anteriormente aprisionado como mero complexa aumenta de maneira
espectador das grandes ideologias e exponencial, ao passo em que
estratégias de pensamento logocêntricos internamente estas ficam pequenas e
da modernidade, necessita agora se restritas, os conflitos entre elas tendem
afirmar diante da história. também a aumentar, caminhando para a
Nestes termos, ocorre a fragmentação multiplicidade e o pluralismo.
das grandes unidades explicativas e a Como visto, aos olhos de Lyotard tal
constituição de uma multiplicidade de fato é considerado positivo; porém, o
comunidades de linguagem, lugares problema é que as novas tecnologias de
onde os sujeitos que compartilham um comunicação gestadas dentro desta
determinado jogo de linguagem3 entre si sociedade complexa e de
multiplicidades,
3
No que tange aos jogos de linguagem como
método para compreensão das dinâmicas [...] podem operar como
instauradas entre os indivíduos pertencentes a instrumento de uniformização
uma determina comunidade de linguagem que social. Sob a hegemonia da
compartilham estes códigos entre si, Lyotard informática, todas as formas de
(2000, p. 16) esclarece que se apropria nesta linguagens são examinadas sem
questão do pensamento de Ludwig Wittgenstein diferenciações pelos critérios da
(1889-1951), filosofo austríaco, delimitando informação; análises e relatos são
assim os jogos de linguagem como o estudo das submetidos ao ditado do bit. E este
categorias de enunciados e a determinação instrumento universal –
destas por regras que especifiquem as suas
propriedades e o seu uso, tornando possível a
4
análise dos efeitos dos discursos. Ver mais em: Diehl (1997, p. 53-60).

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monolinguístico – será então da Liberação dos Pólos de Emissão e a
imputado à sociedade com o Lei da Conectividade Generalizada,
objetivo de alcançar um referencial, verifica-se que as oportunidades
em que performance e eficiência surgidas para que os diversos sujeitos-
sistemática são os critérios de autores possam interagir entre si, na
ponta. (DIEHL, 1997, p.56)
constituição de “comunidades” onde os
Esta constatação que se encontra em jogos de linguagem atuam, são
Lyotard é diametralmente oposta às potencializadas pelas novas relações
considerações pós-moderna de liberação sociais mediatizadas pelas Tecnologias
das pluralidades existentes na Digitais de Rede. Estas tecnologias
sociedade, de enfrentamento dos permitem aos sujeitos não somente
processos de homogeneização que serem espectadores passivos de
“desembocam” nas grandes explicações informações, como acontece nos mass
ou metanarrativas. Então, a informática medias tradicionais (televisão, rádio,
seria um empecilho para que a condição jornais), mas sim serem autores e
pós-moderna da sociedade protagonistas de movimentos de
contemporânea continuasse existindo, colaboração, de interação, enfim, de
agindo como um instrumento do socialização através da rede (Internet).
“totalitarismo cibernético” que pretende Esta constituição sociocultural moderna
uniformizar toda a dinamicidade dos expressada na cibercultura acabaria,
processos complexos atuais? Citando portanto, favorecendo a polifonia, a
Diehl, pode-se dizer que existiria na multiplicidade, a heterogeneidade e
concepção pós-moderna apoiada nas complexidade das relações e dos jogos
tecnologias de comunicação digital uma de linguagem.
possibilidade de quebra com a
homogeneização, Também em Gadamer encontra-se uma
reflexão substancial sobre os impactos
[...] pois, com a condição de livre que a técnica moderna, afirmadora da
acesso da coletividade aos racionalidade instrumental, tem na
jogadores e banco de dados, as
sociedade contemporânea atual, onde,
novas tecnologias, como médium,
poderiam embasar uma forma de
segundo este autor, a capacidade do
vida tecnologicamente pós- diálogo vem cada vez mais sendo
moderna; diversos grupos poderiam maculada pelo desenvolvimento
utilizar os mesmos dados e técnico-científico nos moldes
informações em diferentes jogos de positivistas. Gadamer, através de sua
linguagens – combinações -, com hermenêutica filosófica, pretende
diferenciadas estratégias. Dessa através do conceito de diálogo,
forma, a uniformização tecnológica entendido “[...] enquanto um ir ao
seria compensada por uma nova encontro do outro mediado também
poliformia, agora transformada em pelo silêncio e pela escuta, como modo
um fermento da constituição pós-
característico da práxis humano-social”
moderna (1997, p. 56).
(DALBOSCO, 2007, p.40), resgatar as
Analisando tal afirmação, tem-se que os possibilidades de interação entre os
elementos estruturais da cibercultura, sujeitos que se extinguem com o
desvelados a partir da lógica presente modelo de racionalidade proposto pela
nas “leis” apontadas por Lemos (2003), modernidade. Neste sentido, a moderna
poderiam ajudar a embasar uma “forma epistemologia, aos olhos de Gadamer,
de vida tecnologicamente pós- seria privilegiadora das relações
moderna”. Tomando por exemplo a Lei dicotomizadas entre sujeito-objeto, as

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quais desembocam na criação de um Adiantando mais um passo nestas
sujeito dominador perante os outros e a reflexões, pode-se agora atacar a
natureza, excluindo as perspectivas de segunda questão antes proposta:
diálogo e as possibilidades de inclusão entender onde reside, e em que
do outro também enquanto sujeito, em condições, a problemática técnica
uma comunidade intersubjetiva e científica moderna X incapacidade para
solidária. Assim, a modernidade o diálogo, questão agora pensada não
converte as relações epistemológicas somente em uma ótica puramente
“[...] num conhecimento de contextos epistemológica, mas também de análise
domináveis através da investigação sociológica e tecnológica. Para
isolada” (GADAMER, 1983, p. 42). Gadamer, o crescente desenvolvimento
técnico-científico torna-se cada vez
Algumas questões relevantes neste
mais um fator para a incapacidade para
contexto seriam: porque o diálogo é tão
importante para a sociedade o diálogo por fazer com que as relações
entre os indivíduos sejam superficiais.
contemporânea, e em que condições
específicas a técnica tem gerado a Assim, “[...] vemos com nossos olhos,
como em nossa civilização
incapacidade para este diálogo. Pode-se
progressivamente técnica, cada vez
afirmar, a partir de Dalbosco (2007, p.
mais o artificial vai se erguendo ao
52) que a necessidade do diálogo para a
nosso redor como nova oferta, como
sociedade se faz necessário por este ser
produto que desperta consumo e novas
um dos aspectos constitutivos da ação
humana. Assim, para este autor, a necessidades” (GADAMER, 1983, p.
incapacidade para o diálogo “[...] volta- 43). No entendimento de Gadamer, as
se contra a própria sociedade, uma vez relações superficiais levam
que o diálogo é constitutivo da ação progressivamente a uma falta de
humana e tudo o que produzimos e relações de intimidade com o outro,
significamos culturalmente brota desta onde não poderia haver condições para
capacidade de dialogar com os outros e um “diálogo vivo” entre os seres
ouvi-los”. O diálogo é de fundamental sociais.
importância tanto na sociedade
contemporânea como em qualquer outra Outra questão importante faz referência
já existente: como Gadamer (1999, p. a enorme quantidade de informações
207, tradução livre) mesmo afirma, que circulam diariamente, em diversas
“Linguagem só existe no diálogo”, e no mídias e em tempo real, como uma
momento em que os seres sociais não se problemática atual potencializada, por
comunicam, não fazem uso dos meio exemplo, pelas tecnologias digitais de
simbólicos existentes (linguagens) base informática. Neste contexto,
como mediação para um processo de ir segundo Dalbosco
ao encontro do outro (dialogar), toda a
sociedade é afetada pela falta de A necessidade de constante
produção de sentidos e significados. adaptação humana às informações
Enfim, de cultura enquanto criação veiculadas pelos instrumentos
coparticipada de um mundo tecnológicos de comunicação gera
especificamente humano.5 situações monológicas que
conduzem ao isolamento e ao
anonimato. Quanto mais recebemos
informações, além de termos mais
dificuldades de assimilá-las e de
5
Ver também Cruz (2010). nos tornarmos passivos, ficamos

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sem tempo para ouvir as pessoas contemporânea. Logo, uma reflexão que
(2007, p. 68). pode ser feita nesse contexto seria: o
problema não reside de fato em como é
Assim, por ser diariamente feito o uso da técnica? Ou o problema
“bombardeado” de informações e por reside na técnica em si? Como bem
não saber muitas vezes como reagir a reflete Lévy (1993, p. 196), a “[...]
este contexto, o homem contemporâneo técnica em geral não é nem boa, nem
perde a capacidade para o diálogo, pois má, nem neutra, nem necessária, nem
não consegue mais “ir ao encontro do invencível. É uma dimensão, recortada
outro”, através de momentos de escuta e pela mente, de um devir coletivo
silêncio. E, nesse sentido, não é possível heterogêneo e complexo na cidade do
haver diálogo na concepção mundo”, o que nos autoriza a pensar as
hermenêutica gadameriana. Outro ponto relações entre sociedade, cultura e
importante nesta reflexão sobre a técnica por um viés dialético. Nesses
relação tecnologia X incapacidade para termos, ao passo em que são
o diálogo é que a padronização gerada engendradas no interior de um
pelas tecnologias digitais – pode-se determinado contexto histórico, o
recordar aqui Lyotard – também é uma surgimento e transformações das
fonte de imobilismo e mesmice que não diferentes técnicas podem impor
permitem a efetivação do diálogo. Para modificações à sociedade, desde que,
Dalbosco (2007, p. 69), o diálogo para isso, os diversos grupos sociais
possui a “[...] capacidade de provocar reconheçam as suas potencialidades e se
algo novo dentro de nós”, e, portanto, apropriem delas conforme as
todo movimento de padronização e características que lhes são intrínsecas.
uniformização vai contra a idéia de
diálogo, de interação entre os seres.
Logo, pode emergir um contexto de
Assim, torna-se possível haver uma
sublimação de processos comunicativos
concordância com alguns argumentos
onde diversos pontos de vista entram
que Gadamer expõem em seu
em um “conflito” extremamente
pensamento, mas também é possível
positivo, quando duas ou mais pessoas
perceber que as Tecnologias Digitais de
estão dialogando, de onde precisamente
Rede que “impulsionam” a cibercultura
pode resultar a criação do “novo”.
possuem características inovadoras que
podem vir a propiciar os meios para que
Neste contexto, ao verificar alguns
pontos do pensamento de Gadamer, o diálogo ocorra entre os seres sociais.
Um exemplo claro disso se vê através
questões podem ser colocadas quanto ao
debate que este autor faz em torno da da chamada “Lei de Liberação dos
Pólos de Emissão” da cibercultura,
problemática diálogo X tecnologias.
Primeiramente, mesmo que a partir de postulada por Lemos (2003): as mídias
de massa tornavam a possibilidade de
Gadamer se constate que as tecnologias
de comunicação digitais diálogo nula, pois a sua forma de
comunicação é unidirecional,
contemporâneas possam vir a ter um
verticalizada. Já com as TDRs, os
efeito nocivo na questão do diálogo,
acredita-se que a sociedade de algum processos de colaboração, de interação e
de diálogo podem ser potencializados,
modo pode encontrar meios de
porque é possível uma comunicação de
relacionar-se com estes artefatos
nível multidirecional, em que não
enquanto fomentadores de processos
comunicativos dialógicos na cultura somente um “fala” e outro “ouve”.

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Com isso não se pretende também história da Informática na Educação não
afirmar que as formas comunicacionais é recente. Já se passaram mais de três
presentes na cibercultura vieram décadas desde que o Brasil começou a
substituir as demais relações sociais que desenvolver políticas para tentar
se processam no diálogo face a face. alcançar uma independência tecnológica
Pelo contrário, a comunicação virtual é consistente e duradoura. Mais
um meio de reaproximar as pessoas, precisamente no início da década de 70,
para que essas possam também no segundo Moraes (1997, p. 1), “[...] o
mundo real manter laços de amizade, de Brasil iniciava os seus primeiros passos
diálogo. Como bem assinala Lemos em busca de um caminho próprio para a
(2003, p. 17) “[...] ver o outro e ser informatização de sua sociedade [...]”,
visto, trocar mensagens e entrar em sempre baseado numa filosofia “[...] de
fóruns de discussão é, de alguma forma, que tecnologia não se compra, mas é
buscar o sentimento de re-ligação”. Ou criada e construída por pessoas”. (Idem,
seja, a cibercultura e as Tecnologias p. 1) Nesta mesma época, começou-se a
Digitais de Rede não vieram aniquilar discutir o papel da Informática na
ou artificializar as relações, mas, sim, Educação, sendo possível destacar o
potencializá-las. Seminário Nacional de Debates sobre a
Informática na Educação, em 1971, e a I
Finalizando este subitem, a proposta de
Conferência Nacional de Tecnologia
continuação destas reflexões passará
Aplicada ao Ensino Superior, em 1973.
agora a girar em torno de outro eixo
condutor, a saber: os processos de
ensino-aprendizagem. Algumas Desde então, muita coisa tem sido
questões tornam-se relevantes neste falada a respeito da informática, ao
contexto: quais são as possibilidades passo em que esta começa a ser inserida
para o uso das TDRs na educação? cada vez mais em ambientes
Quais os problemas que podem derivar educacionais. Alguns discursos
deste uso? Tais tecnologias apropriadas primavam pela visão de que a
no contexto escolar podem vir a informática faria uma “revolução” na
tornarem-se um meio de interação, de escola: propiciando níveis de
troca, de diálogo entre aprendizes, com aprendizagem nunca antes vistos para
o propósito de oferecer diferentes os alunos, os computadores seriam os
caminhos para os processos de ensino- substitutos dos professores em um
aprendizagem? “futuro não muito distante”, sendo que
o “mestre-escola” se tornaria quase que
A informática pensada em um
obsoletos nos processos educativos.
enfoque educacional
Tem-se, ainda, a idéia de que os
Ao passo em que a informática e as computadores seriam os responsáveis
tecnologias ligadas à ela começavam a pela criação de um novo paradigma
evoluir de maneira cada vez mais educacional. Enfim, todas estas falas,
acelerada, muitos pesquisadores dos passado o “eufemismo” inicial, podem e
campos educacionais e tecnológicos devem ser avaliadas criticamente
perceberam que através dos quando se faz uma reflexão sobre o uso
computadores poderiam ser abertas das TDRs em um contexto escolar. Para
novas varáveis para se pensar os seguir a linha de raciocínio exposta até
processos de enisno-aprendizagem, com agora neste trabalho, faz-se necessário
o objetivo de potencializá-los. Tomando traçar uma hipótese, que é fundamental
o Brasil como exemplo, tem-se que a neste ponto da reflexão e sob a qual será

56
então dissertada toda a questão do uso construção de conhecimentos, de
da informática em processos educativos. significados, de valores, de
personalidades, enfim, para que se
Assim, deve-se dizer que a informática formem pessoas em sua totalidade.
em si não é a portadora da referida Neste novo contexto escolar, as TDRs
“salvação educacional” a que muitos se poderão ser apropriadas para
referiram no passado e ainda no potencializar os processos de ensino-
presente. O que se quer dizer é que não aprendizagem, pois elas propiciam com
se deve tomar a informática como um suas características inovadoras a
fim para todas as questões educacionais, interatividade, , a construção e re-
como se esta pudesse, mesmo com uma criação conjunta de conhecimento, em
contextualização e reflexão séria com as colaboração, através das diversas
temáticas escolares, ser uma espécie de formas comunicacionais e midiáticas
solução para todos os problemas que a proporcionadas tecnologicamente pela
escola acumulou através de muitos Internet.
séculos. A questão nevrálgica deve girar
em torno de outra problematização: a Se todo esse processo de ressignificação
substituição do modelo de escola que da escola ocorrer, a apropriação da
ainda se perpetua, e que não mais Informática na Educação pode tornar-se
corresponde à sociedade contemporânea promissora, pois através das TDRs os
existente, dinâmica, em rede, marcada alunos poderão também realizar
pela cibercultura e pelas TDRs. Neste aprendizagens em outros espaços e
contexto, se “[...] a escola é o retrato da tempos, nos diversos ambientes virtuais
sociedade a que serve” (TEIXEIRA, existentes, não sendo mais estes
2000, p. 12), é possível afirmar que o aprendizes limitados pelas “paredes da
modelo de escola existente em nossa escola”. Poderão contatar diversas
sociedade, conceituada com a acepção pessoas ao redor do mundo, questionar
“tradicional”, “caducou”, se extinguiu, especialistas, fazer novas parcerias
pois não mais encontra na realidade intelectuais, enfim, realizar processos de
social existente um único fator onde comunicação e potencialmente de
possa espelhar-se, identificar-se. ensino-aprendizagem de uma forma
que, anteriormente as TDRs, não era
Neste contexto, novamente é possível possível e nem sequer pensada.
estabelecer outro ponto de reflexão,
desta vez referente à questão Neste novo contexto de escola, tornar-se
tecnológica atual: todas as então possível utilizar toda a temática e
características inovadoras da reflexões propostas por Gadamer sobre
cibercultura, e das TDRs que estão o uso da técnica “informática” na
permeando diariamente a sociedade, só sociedade contemporânea como uma
serão aproveitadas em sua totalidade se forma de alerta sobre os perigos que
a escola também se reconfigurar. Mudar existem no uso não-refletido destas
a sua “matriz”, a sua epistemologia tecnologias na escola, e também da
baseada na mera transmissão de necessidade de se mudar a “matriz” da
conhecimentos, os seus modos de escola tradicional e sua mentalidade
organização lineares, não-dinâmicos, claramente marcada pela
que não proporcionam aos alunos instrumentalização da racionalidade. O
processos de ensino-aprendizagem diálogo, no sentido hermenêutico de
interativos e dialógicos, se fazem Gadamer tem o potencial de configurar
necessário para que na escola ocorra a um novo locus para que as relações

57
pedagógicas e de aprendizagem sejam modificações sociais contemporâneas,
criadoras de sentido, de conhecimento. representadas no fenômeno da
Toda esta forma de relação pedagógica cibercultura e da pós-modernidade, e
mediada pelo diálogo pode também que se apropria de maneira crítica e
ocorrer através das TDRs, no momento criativa das Tecnologias Digitais de
em que a escola saiba utilizá-las para Rede, partiria dos seguintes eixos
apoiar processos de ensino- estruturantes:
aprendizagem que visem a comunicação [...] não há centro – os processos,
interativa e a colaboração, e não a conforme as condições, têm uma
transmissão de conceitos e centralidade instável. Ora o
conhecimentos que “matam” qualquer professor é o centro, ora o aluno,
possibilidade de diálogo. ora outro ator diferente de professor
e aluno. Processos horizontais: – a
Neste sentido, Gadamer (2002, p. 248) hierarquia e a verticalidade,
postula que em um contexto de ensino próprias da cultura pedagógica, são
tradicional onde o professor somente incompatíveis com a lógica e a
transmite diversos sentidos e conceitos pedagogia das Novas Tecnologias,
aos alunos, pode-se pensar que exista pois estas funcionam em rede.
diálogo, pois “[...] aquele que tem que Participação necessária – todo
sujeito, para vivenciar o processo
ensinar acredita dever e poder falar, e
pedagógico, tem de participar na
quanto mais consistente e articulada por rede, sendo impraticável um mero
sua fala, tanto mais imagina estar se assistir. Sincronicidade de atenção
comunicando com seus alunos”. Na a várias coisas na aprendizagem –
verdade, o que ocorre nestas situações é a profundidade não se dá através de
a total ausência de diálogo, de modo um conceito de verticalidade, mas
que, seja em um formato “presencial” sim em um conceito espaço-
ou mesmo “virtual”, qualquer temporal. Na verdade, é o espaço
possibilidade de aprendizagem sincrônico e o tempo espacializado.
dialógica fica bem restrita quando se Ambigüidade entre oralidade e a
considera que uma única pessoa é escrita – as dinâmicas
comunicacionais na rede, mesmo
portadora dos conhecimentos a serem
com o uso da escrita, expressam-se
transmitidos, enquanto outras devem com uma alta dimensão de
apenas escutar para “aprender” estes oralidade, incluindo-se nessa
conceitos que estão sendo repassados. expressividade as imagens.
Assim, na concepção de Gadamer é Processos coletivos necessários –
possível encontrar nas relações sendo uma dinâmica de rede e
pedagógicas tradicionais e, por necessitando da participação de
conseguinte, nas relações entre todos, a produção é
professor e aluno, incapacidade para o necessariamente coletiva.
diálogo, que desembocam na Cooperação como traço
incompreensão dos conceitos e sentidos fundamental – para o sistema de
rede funcionar, os participantes
por parte dos alunos, na sua falta de
necessariamente têm que colaborar
motivação, enfim, nos diversos (2004, p. 173, grifo nosso).
problemas ainda hoje existentes na
escola, utilizando ou não as Tecnologias Tais considerações autorizam pensar um
Digitais de Rede. conjunto de múltiplas ressignificações
nos processos educativos como são até
Por fim, poder-se-ia afirmar com Serpa hoje efetivados. Alteram-se os papéis de
que uma pedagogia voltada às professores e alunos, sendo que ambos

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hibridizam-se nas figuras do educador- Considerações provisórias
educando e do educando-educador
(FREIRE, 2011, p. 95). Ainda, Após efetuar um estudo acerca dos
modifica-se a compreensão reflexos que a técnica (e a
epistemológica do processo educativo, epistemologia moderna de caráter
sendo o conhecimento encarado positivista que a permeia) tem para a
enquanto processo de (re)construção sociedade, passando inclusive pelo
ativa e intersubjetiva de redes de contexto escolar e seus processos de
significados e sentido que expressam a ensino-aprendizagens inerentes,
razão de ser dos objetos e da realidade algumas questões interessantes podem
como um todo, o que envolve a ser destacadas de maneira a não dar um
participação e intervenção tanto do fechamento completo ao debate, e sim
educador-educando quanto do incitar alguns pontos para posteriores
educando-educador. Tem-se também a reflexões que possam vir a acontecer.
potencialização do espaço e do tempo Do ponto de vista filosófico, percebeu-
de ensino-aprendizagem escolar, se a partir das reflexões de Gadamer,
geográfica e fisicamente localizados, que a técnica moderna pode atuar como
com a atuação de discentes e docentes ferramenta e tornar-se reflexo de uma
sobre objetos, ideias e conhecimentos instrumentalização da razão, de uma
localizados no ambiente virtual do homogeneização da pluralidade
ciberespaço. A concepção de método de existente na sociedade contemporânea,
ensino-aprendizagem, anteriormente e de toda a sua diversidade e dinâmicas
vinculada à transmissão de que lhe são próprias. Mas também foi
conhecimentos do professor para o feito um contraponto a partir das
aluno por meio da instrução reflexões sociológicas e tecnológicas de
enciclopédica e intelectualista, passa a Lemos e Lyotard, que pensam as
ter como base o diálogo Tecnologias Digitais de Rede como
problematizador e a pesquisa (FREIRE, uma forma de vitalizar os processos
1977, p. 52-54). Já o currículo, plurais e heterogêneos da sociedade
anteriormente fragmentado em marcada pela pós-modernidade e a
disciplinas justapostas, passa a primar cibercultura.
pela busca de uma visão interdisciplinar
que considera fundamental no Nesse sentido, esses estudos podem
estabelecimento das redes de autorizar reflexões que visem entender
significados e sentidos sobre os objetos de que forma podem ser encontrados
a participação integrada de diversas pontos de encontro entre estes
áreas do conhecimento. Por fim, ocorre pensamentos (se é que isto é possível).
um processo de inserção na escola de As dinâmicas sociais estão postas, as
linguagens “não-escolares”, ou seja, TDRs estão permeando a sociedade e
aquelas historicamente relegadas a um suas relações, e estas reflexões tornam-
segundo plano nos processos se extremamente importantes neste
educativos: mantêm-se assim os contexto, pois está se falando aqui do
recursos didáticos escritos em conjunto modo como a sociedade sobrevive
com novas possibilidades de ensino- culturalmente, como está se dando a
aprendizagem abertas com a produção e comunicação de sentidos
apropriação das linguagens hipermídia, através dos indivíduos, enfim, como a
audiovisual, entre outras. (CITELLI, sociedade contemporânea se depara
2004). com as suas próprias necessidades de
transformação. Quando este debate é

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situado no ambiente escolar, as CRUZ, Raimundo José Barros. Compreensão e
reflexões tendem a se tornarem ainda Diálogo: contribuições da hermenêutica
gadameriana à educação. Passo Fundo: Editora
mais complexas. Estudar assim o papel UPF, 2010.
que a informática possa ter nos
DALBOSCO, Cláudio Almir. Pedagogia
processos de ensino-aprendizagem
Filosófica: cercanias de um diálogo. São Paulo:
através de diversos pontos de vista Paulinas, 2007.
torna-se extremamente produtivo para
DIEHL, Astor Antônio. Vinho velho em pipa
que não se caia na simples utilização nova: o pós-moderno e o fim da história. Passo
destas tecnologias em um nível Fundo: Ediupf, 1997.
instrumental. Se assim for, opera-se um
FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. 50.
reforço da concepção de que tais ed. rev. e atual. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
tecnologias são a “salvadora” de todos 2011.
os problemas inerentes a escola, sendo GADAMER, Hans-George. A Razão na época
que, na realidade, ocorre uma utilização da Ciência. Trad. Ângela Dias. Rio de Janeiro:
limitada das suas características para Tempos Brasileiros, 1983.
reforçar modelos de ensino tradicionais GADAMER, Hans-George. Gesammelte
que visam a transmissão de Werke 2. Tübingen, Mohr Siebeck, 1999.
conhecimentos.
GADAMER, Hans-George. Verdade e
Concluindo, deve-se reafirmar Método: complemento e índices. Trad. Ênio
novamente a posição de tomar não a Paulo Giachini. Petrópolis: Vozes, 2002.
técnica em si, mas os usos potenciais e LEMOS, André. Cibercultura: Alguns pontos
historicamente situados que os seres para compreender a nossa época. In: LEMOS,
humanos fazem dela, como o ponto André; CUNHA, Paulo (orgs). Olhares sobre a
Cibercultura. Porto Alegre: Sulina, 2003, p.11-
nevrálgico de toda a problemática do 23.
uso das tecnologias e de sua relação
LÉVY, Pierre. As tecnologias da inteligência:
com a sociedade, com a cultura, e em O futuro do pensamento na era da informática.
específico, com a escola e seus Rio de Janeiro: Editora 34, 1993.
processos de aprendizagem. Faz-se
LYOTARD, Jean-François. A condição pós-
assim necessário que a sociedade moderna. 6.ed. Rio de Janeiro: José Olympio,
aprenda a utilizar as possibilidades que 2000.
estas tecnologias oferecem, para que ela
MORAES, Maria Cândida. (1997). Informática
mesma seja beneficiada por um Educativa no Brasil: uma história vivida,
instrumento que foi criado no seio do algumas lições aprendidas. Disponível em:
seu processo histórico de <http://www.inf.ufsc.br/sbc-
desenvolvimento através dos tempos. ie/revista/nr1/mariacandida.html>. Acesso em:
17 fev. 2006.
SERPA, Felippe. Rascunho digital: diálogos
Referências com Felippe Serpa. Salvador: Edufba, 2004.
CITELLI, Adilson (Coord.). Outras linguagens TEIXEIRA, Anísio Spínola. Pequena
na escola: publicidade, cinema e TV, rádio, introdução à filosofia da educação: a escola
jogos, informática. 4. ed. São Paulo: Cortez, progressiva ou a transformação da escola. 5. ed.
2004. São Paulo: Nacional, 1968.

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