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Clássicos EDIPRO

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ARTE DA GUERRA (DA) - Maquiavel
BANQUETE, O - Platão - DO AMOR - Plotino
CÂNDIDO ou O OTIMISTA - Voltaire
CAPITAL, O (Edição Condensada) - Kart Marx
CIDADE ANTIGA, A - Fustel de Coulanges
CÓDIGO DE HAMURABI - CÓDIGO DE MANU
(Excertos) - LEI DAS XII TÁBUAS
CONTRATO SOCIAL, DO
- Jean-Jacques Rousseau
DIREITO E JUSTIÇA - Alf Ross
DIREITOS DO HOMEM - Thomas Paine
DISCURSO SOBRE O MÉTODO

ÓRGANON
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DOS DELITOS E DAS PENAS - Cesare Beccaria
ELOGIO DA LOUCURA - Erasmo de Rotterdam
ENSAIOS SOBRE MORAL E POLÍTICA
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ESCRITOS POLÍTICOS - Maquiavel
ESPÍRITO DAS LEIS, DO - Montesquieu
ÉTICA A NICÔMACO - Aristóteles
ÉTICA, A - Textos Selecionados - Aristóteles
INSTITUTAS - Justinianó
INTERDITOS POSSESSÓRIOS
- Rudolf von lhering
LEIS, AS - Epinomis - Platão CATEGO RIAS
LUTA PELO DIREITO, A - Rudolf von lhering
METAFÍSICA - Aristóteles
DA INTERPRETAÇÃO
MANIFESTO DO PARTIDO COMUNISTA, O
- Karl Marx / Friedrich Engels AN ALÍTICO S ANTERIO RES
METAFÍSICA DOS COSTUMES - Immanuei Kant
ÓRGANON: Categorias - Da Interpretação -
A N ALÍTICO S PO STERIO RES
Analíticos Anteriores - Analíticos
Posteriores - Tópicos - Refutações TÓ PICO S
Sofísticas - Aristóteles
PENSAMENTOS - Blaise Pascal R EFU TA ÇÕ ES SO FÍSTIC A S
POLÍTICA, A - Aristóteles
PRÍNCIPE, O - Maquiavel
REPÚBLICA, A - Platão
REPÚBLICA, DA - Cícero
SALÁRIO, PREÇO E LUCRO - Karl Marx
TEORIA DA NORMA JURÍDICA
- Norberto Bobbio
TEORIA SIMPLIFICADA DA POSSE
- Rudolf von lhering
TESTAMENTO POLÍTICO - Richelieu
UTOPIA, A - Thomas More
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ARISTÓTELES

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ORGANON
CATEG O RIAS
DA INTERPRETAÇÃO
AN ALÍTICO S ANTERIO RES
A N ALÍTICO S PO STERIO RES
TÓPICOS
REFUTAÇÕES SO FÍSTIC A S

Tradução, Textos Adicionais e Notas


Edson Bini

EDIPRO
ÓRGANON
Categorias · Da Interpretação · Analíticos Anteriores
Analíticos Posteriores · Tópicos · Refutações Sofísticas

A r ist ó t e l e s

1 Edição 2005
-

Supervisão Editorial: JairLo t Vieira


Editor: Alexandre Rudyard Benevides
Tradução e Notas: Edson Bini
S u m á r io
Capa: Equipe Edipro
Revisão: Carlos Valero e Isabel Maringoni
Digitação: Disquete fornecido pelo tradutor

NQde Catálogo: 1336 NOTA DO TRADUTOR.......................................................... 7


Dados de Catalogação na Fonte (CIP) Internacional DADOS BIOGRÁFICOS ....................................................... 9
______________ (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)___________ ARISTÓTELES: SUA O B R A .................................................. 17
Aristóteles CRONOLOGIA....................................................................... 35
Órganon : Categorias, Da interpretação, Analíticos anteriores,
Analíticos posteriores, Tópicos, Refutações sofísticas / Aristóteles;
tradução, textos adicionais e notas Edson Bini / Bauru, SP: EDI­
PRO, 2005. (Série Clássicos Edipro) ÓRGANON ................................. ................. 37

Títulos originais: όργανον: Κατηγορίαι, Περί ερμηνείας, Αναλυτικά , CATEGORIAS ........................................................................ 39


πρότερα, Αναλυτικά ύστερα, Τοπικά, Περί σοφιστικών έλέγχων
DA INTERPRETAÇÃO .........!................................................ 81
ISBN 85-7283-387-0
ANALÍTICOS ANTERIORES................................................. 111
1. Aristóteles 2. Filosofia antiga 3. Política l. Títulos. II. Séire.
Livro I ................................................................................. 111
03-1441 CDD-185
Livro II ............................................................................... 199
índices para catálogo sistemático: ANALÍTICOS POSTERIORES .............................................. 251
1. Filosofia aristotélica : 185
Livro I ................................................................................. 251
Livro II ............................................................................... 313
EDIPRO - Edições Profissionais Ltda.
Rua Conde de São Joaquim, 332 - Liberdade TÓPICOS ................................................................................ 347
CEP 01320-010 - São Paulo - SP - Brasil Livro I ................................................................................. 347
Fone (11) 3107-4788 - Fax (11) 3107-0061
EDIPRO e-mail: edipro@ uol.com .br Livro II ............................................................................... 373
6 -E D IP R O A r is tó te le s - órganon

Livro III ............................................................................................. .....395


Livro IV ............................................................................................. .....411
Livro V .....................................................................................................435
Livro VI ............................................................................................. .....469
Livro VII ............................................................................................ .....505
Livro V III................................................................................................517

REFUTAÇÕES SOFÍSTICAS ......................................................... .....545

N ota do Tr a d u t o r

O Órganon, obra monumental onde Aristóteles estabelece as


bases d a lógica formal, está entre as mais importantes e com plexas
que nos foram legadas pelo Estagirita.

As dificuldades para traduzi-la são variadas e desafiadoras, co­


m eçando pelas diferenças estruturais entre o grego antigo (língua
declinada e conceitualmente rica) e o português, idiom a m oderno
não declinado.

A isso som a-se o estilo seco e breve do autor que trata, nesta
oportunidade, de tem as de grande abstração e pouco colorido.

M as o fator mais complicante nesta tarefa, ainda que minimiza­


do pelo em penho hercúleo e proficiente dos eruditos que estabe­
leceram os textos, é constituído pela condição precária e truncada
na qual chegaram à posteridade os seis tratados que com põem o
Órganon (isto sem nos atermos aos dem ais problem as que cercam
os escritos do Estagirita - ver Aristóteles: sua obra).

A preocupação maior deste tradutor foi preservar, na m edida


do possível, o teor e o espírito dos tratados e devido, principal­
mente à alta tecnicidade do Órganon, o resultado em nosso ver­
náculo não pôde deixar de ser um texto deselegante, destituído de
ritmo e por vezes, cansativo - num nítido sacrifício da forma em
favor do conteúdo.
8 -E d ip r o A ris tó te le s - Ó r g a n o n

Mais ainda que as outras traduções que realizamos da filosofia


grega (Platão: A s L eis e A República; Aristóteles: Ética a Nicôm aco
e Metafísica), o Órganon não admite liberdades e flexibilizações,
em bora se não recorremos à paráfrase, também não nos aprisio­
nam os rigidamente na literalidade.

O recurso eventual à inclusão de certos termos entre colchetes


para completar idéias formalmente truncadas foi adotado e indi­
cam os, quando apropriado (em notas de rodapé) algum as interpo­
lações felizes ou infelizes feitas ao longo do tempo por editores;
nas citações em grego, preterindo a erudição a favor do didatismo,
suprimimos a acentuação gráfica e juntam os a transliteração.
D a d o s B i o g r á f ic o s
Servim o-nos do texto em grego estabelecido por Immanuel
Bekker, m as recorremos também, quando julgam os necessário,
aos textos de L. Minio-Paluello, W. D. Ross e J . Brunschwig.

A fim de facilitar e agilizar a consulta ao Órganon, fizemos Aristóteles nasceu em Estagira (atualmente Tessalônica), cidade grega
constar à margem esquerda a consagrada num eração da edição e então colônia da Macedônia no litoral noroeste da península da Calcí-
dia, cerca de trezentos quilômetros a norte de Atenas. O ano de seu nas­
referencial de 1 8 3 1 , de Bekker.
cimento é duvidoso - 385 ou, mais provavelmente, 384 a.C.
Cientes de nossas limitações e falhas, pedim os ao leitor que jul­ Filho de Nicômaco e Féstias, seu pai era médico e membro da frater­
gue nosso trabalho e manifeste sua apreciação, suas críticas e su­ nidade ou corporação dos Asclepíades (AoKÀr]7iia8riç, ou seja, filhos ou
gestões, que servirão de diretrizes para tornar nosso labor menos descendentes de Asclépios, o deus da medicina). A arte médica era
imperfeito. transmitida de pai para filho.
Médico particular de Amintas II (rei da Macedônia e avô de Alexan­
dre), Nicômaco morreu quando Aristóteles tinha apenas sete anos, tendo
Esta tradução é dedicada desde então o menino sido educado por seu tio Proxeno.
à L eo n o r M acedo Bini, Os fatos sobre a infância, a adolescência e a juventude de Aristóteles
m ãe afetuosa, são escassos e dúbios. Presume-se que durante o brevíssimo período que
am iga inigualável, conviveu com o pai, este o tenha levado a Pela, capital da Macedônia ao
norte da Grécia, e tenha sido iniciado nos rudimentos da medicina pelo
incentivadora constante
pai e o tio. O fato indiscutível e relevante é que aos dezessete ou dezoito
e regaço consolador
anos o jovem Estagirita se transferiu para Atenas e durante cerca de de­
em todos os momentos difíceis... zenove anos freqüentou a Academia de Platão, deixando-a somente
após a morte do mestre em 347 a.C., embora Diógenes Laércio (o maior
dos biógrafos de Aristóteles) afirme que ele a deixou enquanto Platão
ainda era vivo.
Não há dúvida que Aristóteles desenvolveu laços de amizade com seu
mestre e foi um de seus discípulos favoritos. Mas foi Espeusipo que her­
dou a direção da Academia.
1 0 -E D IP R O A r is tó te le s - Ór g ano n Ó r g a n o n - D a d o s B io g r á f ic o s E d ip r o - 1 1

O leitor nos permitirá aqui uma ligeira digressão. Após a invasão de Atarneu pelos persas e o assassinato de Hérmias,
Espeusipo, inspirado no último e mais extenso diálogo de Platão (As ocasião em que, segundo alguns autores, Aristóteles salvou a vida de
Leis), conferiu à Academia um norteamento franca e profundamente Pítia providenciando sua fuga, dirigiu-se ele a Lesbos e transferiu-se para
marcado pelo orfismo pitagórico, o que resultou na rápida transformação Mitilene. Pouco tempo depois (em 342 ou 343 ) aceitava a proposta de
da Academia platônica num estabelecimento em que predominava o Felipe II para ser o preceptor de seu filho, Alexandre (então com treze
estudo e o ensino das matemáticas, trabalhando-se mais elementos de anos) mudando-se para Pela. Na fase de Pela, o Estagirita escreveu duas
reflexão e princípios pitagóricos do que propriamente platônicos. obras que só sobreviveram fragmentariamente e em caráter transitório:
Da Monarquia e Da Colonização. Nosso filósofo teria iniciado, também
Divergindo frontalmente dessa orientação matematizante e mística da
nesse período, a colossal Constituições, contendo a descrição e estudo de
filosofia, Aristóteles abandonou a Academia acompanhado de outro
158 formas de governo em prática em toda a Grécia (deste alentadíssimo
discípulo de Platão, Xenócrates, o qual, contudo, retornaria posterior­
trabalho só restou para a posteridade a Constituição de Atenas).
mente à Academia, aliando-se à orientação pitagorizante de Espeusipo,
mas desenvolvendo uma concepção própria. Depois de haver subjugado várias cidades helénicas da costa do mar
Egeu, e inclusive ter destruído Estagira (que ele próprio permitiria depois
Os “fatos” que se seguem imediatamente acham-se sob uma nuvem
que fosse reconstruída por Aristóteles), Felipe II finalmente tomou Atenas
de obscuridade, dando margem a conjeturas discutíveis.
e Tebas, na célebre batalha de Queronéia, em 338 a.C.
Alguns autores pretendem que, logo após ter deixado a Academia, A-
Indiferente a esses fatos militares e políticos, o Estagirita prosseguiu
ristóteles abriu uma Escola de retórica com o intuito de concorrer com a
como educador de Alexandre até a morte de Felipe e o início do reinado
famosa Escola de retórica do sofista Isócrates. Entre os discípulos do Esta-
de Alexandre (335 a.C.). Retornou então a Atenas e fundou nesse mes­
girita estaria o abastado Hérmias, que pouco tempo depois se tornaria
mo ano sua Escola no Λυκειον (Lükeion - Liceu), que era um ginásio
tirano de Atarneu (ou Atema), cidade-Estado grega na região da Eólida.
localizado no nordeste de Atenas, junto ao templo de Apoio lício, deus
Outros autores, como o próprio Diógenes Laércio, preferem ignorar a da luz, ou Λυκειος (Lükeios - literalmente o destruidor de lobos).
hipótese da existência de tal Escola e não entrar em minúcias quanto às
O Liceu (já que o lugar emprestou seu nome à Escola de Aristóteles)
circunstâncias do início do relacionamento entre Aristóteles e Hérmias.
situava-se em meio a um bosque (consagrado às Musas e a Apoio lício) e
Diógenes Laércio limita-se a afirmar que alguns supunham que o eu­ era formado por um prédio, um jardim e uma alameda adequada ao
nuco Hérmias era um favorito de Aristóteles, e outros, diferentemente, passeio de pessoas que costumavam realizar uma conversação cami­
sustentam que o relacionamento e o parentesco criados entre eles foram nhando (περίπατος- peripatos), .daí a filosofia aristotélica ser igualmente
devidos ao casamento de Aristóteles com a sobrinha de Hérmias. denominada filosofia peripatética, e sua Escola, Escola peripatética, refe­
Um terceiro partido opta por omitir tal Escola e associa o encontro de rindo-se à tal alameda e especialmente ao hábito do Estagirita e seus
Aristóteles com Hérmias indiretamente a dois discípulos de Platão e ami­ discípulos andarem por áli discutindo questões filosóficas.
gos do Estagirita, a saber, Erasto e Corisco, que haviam redigido uma A despeito de estar em Atenas, nosso filósofo permanecia informado
Constituição para Hérmias e recebido apoio deste para fundar uma Es­ das manobras político-militares de Alexandre através do chanceler ma-
cola platônica em Assos, junto a Atarneu. cedônio e amigo, Antipater.
O fato incontestável é que nosso filósofo (Aristóteles) conheceu o rico O período do Liceu (335-323 a.C.) foi, sem qualquer dúvida, o mais
Hérmias, durante três anos ensinou na Escola platônica de Assos, patro­ produtivo e fecundo na vida do filósofo de Estagira. Ele conjugava uma
cinada por ele, e em 344 a.C. desposou Pítia, que - não se sabe ao certo intensa atividade intelectual entre o ensino na Escola e a redação de suas
- era filha adotiva, irmã ou sobrinha de Hérmias. obras. Durante a manhã, Aristóteles ministrava aulas restritas aos discípu­
Nessa Escola nosso filósofo conheceu Teofrasto, o qual se tornaria o los mais avançados, os chamados cursos esotéricos (εσωτερικός) ou
maior de seus discípulos. Pertence a este período incipiente o primeiro acroamáticos (ακροαματικός), os quais versavam geralmente sobre te­
trabalho filosófico de Aristóteles: Da Filosofia. mas mais complexos e profundos de lógica, matemática, física e metafísi-
Ó r g a n o n - D a d o s B io g r á f ic o s E d ip r o - 1 3
1 2 - E d ip r o A r is t ó t e le s - Ór g a n o n

ca. Nos períodos vespertino e noturno, Aristóteles dava cursos abertos, aristocrático e conservador filósofo que nunca ocultara sua antipatia pela
acessíveis ao grande público (exotéricos), via de regra de dialética e retó­ democracia ateniense e que, às vezes, era duro na sua crítica aos pró­
rica. Teofrasto e Eudemo, seus principais discípulos, atuavam como as­ prios atenienses, como quando teria dito que “os atenienses criaram o
sistentes e monitores, reforçando a explicação das lições aos discípulos e trigo e as leis, mas enquanto utilizam o primeiro, esquecem as segundas.”
as anotando para que o mestre, com base nelas, redigisse depois suas Se somarmos ainda a esse campo minado sob os pés do Estagirita o
obras. fato do Liceu ser rivalizado pela nacionalista Academia de Espeusipo e a
A distinção entre cursos esotéricos e exotéricos e a conseqüente sepa­ democrática Escola de retórica de Isócrates, não nos espantaremos ao
ração dos discípulos não eram motivadas por qualquer diferença entre constatar que muito depressa os cidadãos atenienses começaram a ali­
um ensino secreto místico, reservado apenas a iniciados, e um ensino mentar em seus corações a suspeita de que Aristóteles era um traidor.
meramente religioso, ministrado aos profanos nos moldes, por exemplo, Segundo Diógenes Laércio, Aristóteles teria sido mesmo acusado de
das instituições dos pitagóricos. impiedade (cometendo-a ao render culto a um mortal e o divinizando)
Essa distinção era puramente pragmática, no sentido de organizar os pelo sumo sacerdote Eurimédon ou por Demófilo.
cursos por nível de dificuldade (didática) e, sobretudo, restringir os cursos Antes que sucedesse o pior, o sisudo e imperturbável pensador optou
exotéricos àquilo que despertava o interesse da grande maioria dos ate­ pelo exílio voluntário e abandonou seu querido Liceu e Atenas em 322
nienses, a saber, a dialética e a retórica. ou 321 a.C., transferindo-se para Cálcis, na Eubéia, terra de sua mãe.
Nessa fase áurea do Liceu, nosso filósofo também montou uma biblio­ No Liceu o sucederam Teofrasto, Estráton, Lícon de Troas, Dicearco,
teca incomparável, constituída por centenas de manuscritos e mapas, e Aristóxeno e Aríston de Cós.
um museu, o qual era uma combinação de jardim botânico e jardim Teria dito que agia daquela maneira “para evitar que mais um crime
zoológico, com uma profusão de espécimes vegetais e animais oriundos fosse perpetrado contra a filosofia” , referindo-se certamente a Sócrates.
de diversas partes do Império de Alexandre Magno. Mas viveria pouquíssimo em Cálcis. Morreu no mesmo ano de 322
Que se acresça, a propósito, que o currículum para o aprendizado ou 321 , aos sessenta e três anos, provavelmente vitimado por uma en­
que Aristóteles fixou nessa época para o Liceu foi a base para o curricu­ fermidade gástrica de que sofria há muito tempo. Diógenes Laércio su­
lum das Universidades européias durante mais de dois mil anos, ou seja, põe, diferentemente, que Aristóteles teria se suicidado tomando cicuta,
até o século XIX. exatamente o que Sócrates tivera que ingerir após sua condenação à
A morte prematura de Alexandre em 323 a.C. trouxe à baila nova­ morte.
mente, como trouxera em 338 na derrota de Queronéia, um forte ânimo Aristóteles foi casado uma segunda vez (Pítia encontrara a morte
patriótico em Atenas, encabeçado por Demóstenes (o mesmo grande pouco depois do assassinato de seu protetor, o tirano Hérmias) com
orador que insistira tanto no passado recente sobre a ameaça de Felipe). Hérpile, uma jovem, como ele, de Estagira, e que lhe deu uma filha e o
Isso, naturalmente, gerou um acentuado e ardente sentimento anti- filho Nicômaco.
macedônico. Como era de se esperar, essa animosidade atingiu todos os O testamenteiro de Aristóteles foi Antipater, e reproduzimos aqui
gregos que entretinham, de um modo ou outro, relações com os mace- seu testamento conforme Diógenes Laércio, que declara em sua obra
dônios.
Vida, Doutrina e Sentenças dos Filósofos Ilustres “ ...haver tido a sorte
Nosso filósofo viu-se, então, numa situação bastante delicada, pois de lê-lo...” :
não apenas residira em Pela durante anos, cuidando da educação do
“Tudo sucederá para o melhor, mas na ocorrência de alguma fa­
futuro senhor do Império, como conservara uma correspondência regular talidade, são registradas aqui as seguintes disposições de vontade de
com Antipater (braço direito de Alexandre), com quem estreitara um
Aristóteles. Antipater será para todos os efeitos meu testamenteiro.
fervoroso vínculo de amizade. As constantes e generosas contribuições
Até a maioridade de Nicanor, desejo que Aristomeno, Timarco, Hi-
de Alexandre ao acervo do Liceu (biblioteca e museu) haviam passado a
parco, Dióteles e Teofrasto (se aceitar e estiver capacitado para esta
ser observadas com desconfiança, bem como a amizade “suspeita” do
1 4 - E d ip r o A r is tó te le s - Ó r g a n o n ÓRGANON - D a d o s BIOGRÁFICOS EDIPRO - 15

responsabilidade) sejam os tutores e curadores de meus filhos, de e a da mãe de Nicanor. A de Arimnesto, cuja confecção já findou, será
Hérpile e de todos os meus bens. Uma vez alcance minha filha a ida­ consagrada para o não desaparecimento de sua memória, visto que
de necessária, que seja concedida como esposa a Nicanor. S e algum morreu sem filhos. A imagem de minha mãe será instalada no templo
mal abater-se sobre ela - prazam os deuses que não - antes ou depois de Demeter em Neméia (sendo a esta deusa dedicada) ou noutro sítio
de seu casamento, antes de ter filhos, caberá a Nicanor deliberar so­ que for preferido. De uma maneira ou outra, as ossadas de Pítia, co­
bre meu filho e sobre meus bens, conforme a ele pareça digno de si e mo era seu desejo, deverão ser depositadas no local em que meu tú­
de mim. Nicanor assumirá o cuidado de minha filha e de meu filho mulo for erigido. Enfim, Nicanor, se preservado entre vós (conforme
Nicômaco, zelando para que nada lhes falte, sendo para eles tal como o voto que realizei em seu nome), consagrará as estátuas de pedra de
um pai e um irmão. Caso venha a suceder algo antes a Nicanor - que quatro côvados de altura a Zeus salvador e a Atena salvadora em Es­
seja afastado para distante o agouro - antes ou depois de ter casado tagira. ”
com minha filha, antes de ter filhos, todas as suas deliberações serão
executórias, e se, inclusive, for o desejo de Teofrasto viver com minha
filha, que tudo seja como parecer melhor a Nicanor. Em caso contrá­ Edson Bini
rio, os tutores decidirão com Antipater a respeito de minha filha e de
meu filho, segundo o que lhes afigure mais apropriado. Deverão ain­
da os tutores e Nicanor considerar minhas relações com Hérpile (pois
foi-me ela leal) e dela cuidar em todos os aspectos. Caso ela deseje
um esposo, cuidarão para que seja concedida a um homem que não
seja indigno de mim.
A ela deverão entregar, além daquilo que já lhe dei, um talento de
prata retirado de minha herança, três escravas (se as quiser), a p e­
quena escrava que já possuía e o pequeno Pirraio; e se desejar viver
em Cálcis, a ela será dada a casa existente no jardim; se Estagira for
de sua preferência, a ela caberá a casa de meus pais. De qualquer
maneira, os tutores mobiliarão a casa do modo que lhes parecer mais
próprio e satisfatório a Hérpile. A Nicanor também caberá a tarefa de
fazer retornar dignamente à casa de seus pais o meu benjamim Myr-
mex, acompanhado de todos os dons que dele recebi. Que Ambracis
seja libertada, dando-se-lhe por ocasião do casamento de minha filha
quinhentos dracmas, bem como a menina que ela mantém como ser­
va. A Tales dar-se-á, somando-se à menina que adquiriu, mil dracmas
e uma pequena escrava. Para Simão, além do dinheiro que já lhe foi
entregue para a compra de um escravo, deverá ser comprado um ou­
tro ou dar-lhe dinheiro. Tácon será libertado no dia da celebração do
casamento de minha filha, e juntamente com ele Fílon, Olímpio e seu
filho. Proíbo que quaisquer dos escravos que estavam a meu serviço
sejam vendidos, mas que sejam empregados; serão conservados até
atingirem idade suficiente para serem libertados como mostra de re­
compensa por seu merecimento. Cuidar-se-ão também das estátuas
que encomendei a Grilion. Uma vez prontas, serão consagradas. Estas
estátuas são aquelas de Nicanor, de Proxeno, que era desígnio fazer,
w

A r is t ó t e l e s :
S ua Obr a

A obra de Aristóteles foi tão vasta e diversificada que podemos até


traçar uma pequena historia dela.
Mas antes disso devemos mencionar algumas dificuldades ligadas à
bibliografia do Estagirita, algumas partilhadas por ele com outras figuras
célebres da Antigüidade e outras que lhes são peculiares.
A primeira barreira que nos separa do Aristóteles integral, por assim
dizer, é o fato de muitos de seus escritos não terem chegado a nós ou -
para nos situarmos no tempo - a aurora da era crista e a à Idade Média.
A quase totalidade dos trabalhos de outros autores antigos, como é
notório, teve o mesmo destino, particularmente as obras dos filósofos
pré-socráticos. A preservação de manuscritos geralmente únicos ao longo
de séculos constituía uma dificuldade espinhosa por razões bastante
compreensíveis e óbvias.
No que toca a Aristóteles, há obras que foram perdidas na sua ínte­
gra; outras chegaram a nós parciais ou muito incompletas; de outras
restaram apenas fragmentos; outras, ainda, embora estruturalmente ínte­
gras, apresentam lacunas facilmente perceptíveis ou mutilações.
Seguramente, entre esses escritos perdidos existem muitos cujos as­
suntos tratados nem sequer conhecemos. De outros estamos cientes dos
temas. Vários parecem definitivamente perdidos; outros foram descober­
tos recentemente; outros são atualmente objeto de busca.

I
1 8 -E D ÍP R O A r is tó te le s - Ór g an o n Ó r g a n o n —A r i s t ó t e l e s : S u a O b r a E d ip r o - 19

Além do esforço despendido em tal busca, há um empenho no senti­ O resultado inevitável disso, como se pode facilmente deduzir, é que
do de reconstituir certas obras com base nos fragmentos. por todo esse tempo julgou-se que o pensamento filosófico do nosso
É quase certo que boa parte da perda irreparável da obra aristotélica filósofo era apenas o que estava contido nos escritos exotéricos, que não
tenha sido causada pelo criminoso incendio da biblioteca de Alexandria, só foram redigidos no estilo de Platão (epístolas e diálogos), como pri­
ocorrido por volta do ano 200 A.D. Urna das obras inteiramente consu­ mam por questionamentos tipicamente platônicos, além de muitos deles
midas foi o estudo que Aristóteles empreendeu sobre, no mínimo, 125 não passarem, a rigor, de textos rudimentares ou meros esboços, falhos
governos gregos. tanto do ponto de vista formal e redacional quanto carentes de critério
expositivo, dificilmente podendo ser considerados rigorosamente como
Juntam-se, tristemente, a esse monumental trabalho irremediavel­ tratados filosóficos. A propósito, Cícero, que teve acesso a esses escritos,
mente perdido, uma tradução especial do poeta Homero que Aristóteles a eles se referia como commentarii.
teria executado para seu pupilo Alexandre, um estudo sobre belicismo e
Foi somente por volta do ano 50 A.D. que descobriram que na adega
direitos territoriais, um outro sobre as línguas dos povos bárbaros e as
de Corisco não havia unicamente vinho.
obras exotéricas (poemas, epístolas, diálogos, etc.)
Os escritos acroamáticos foram, então, transferidos para Atenas e,
Entre os achados tardios, deve-se mencionar a Constituição de Ate­
com a invasão dos romanos, nada apáticos em relação à cultura grega,
nas, descoberta só muito recentemente no século XIX.
enviados a Roma.
Quanto aos escritos incompletos, o exemplo mais conspícuo é a Arte
Nessa oportunidade, Andrônico de Rodes juntou os escritos acroamá­
Poética, onde, de todas as artes poéticas que nosso filósofo se propõe a
ticos aos exotéricos, e o mundo ocidental se deu conta do verdadeiro
examinar, a única presente no texto é a tragédia.
filão do pensamento aristotélico, reconhecendo sua originalidade e en­
Outra dificuldade que afeta a obra de Aristóteles, esta inerente ao vergadura. O Estagirita, até então tido como um simples discípulo de
nosso filósofo, é a diferença de caráter e teor de seus escritos, os quais Platão, assumiu sua merecida importância como grande pensador capaz
são classificados em exotéricos e acroamáticos ou esotéricos, aos quais já de ombrear-se com o próprio mestre.
nos referimos, mas que requerem aqui uma maior atenção. Andrônico de Rodes conferiu ao conjunto da obra aristotélica a or­
Os exotéricos eram os escritos (geralmente sob forma de epístolas, diá­ ganização que acatamos basicamente até hoje. Os escritos exotéricos,
logos e transcrições das palestras de Aristóteles com seus discípulos e entretanto, agora ofuscados pelos acroamáticos, foram preteridos por
principalmente de aulas públicas de retórica e dialética) cujo teor não era estes, descurados e acabaram desaparecendo quase na sua totalidade,
tão profundo, sendo acessível ao público em geral e versando mormente restando apenas certos fragmentos.
sobre retórica e dialética. Os acroamáticos ou esotéricos eram precisa­ A terceira dificuldade que nos furta o acesso à integridade da obra a-
mente os escritos de conteúdo mais aprofundado, minucioso e complexo ristotélica é a existência dos apócrifos.
(mais propriamente filosóficos, versando sobre física, metafísica, ética, O próprio volume imenso da obra do Estagirita acena para a possibi­
política, etc.), e que, durante o período no qual predominou em Atenas lidade da presença de colaboradores entre os seus discípulos mais che­
uma disposição marcantemente anti-macedônica, circulavam exclusiva­ gados, especialmente Teofrasto. Há obras de estilo e terminologia per­
mente nas mãos dos discípulos e amigos do Estagirita. ceptivelmente diferentes dos correntemente empregados por Aristóteles,
Até meados do século 1 a.C. as obras conhecidas de Aristóteles eram entre elas a famosa Problemas (que trata dos temas mais diversos, inclu­
somente as exotéricas. As acroamáticas ou esotéricas permaneceram sive a magia), a Economia (síntese da primeira parte da Política) e Do
pelo arco das existências do filósofo, de seus amigos e discípulos sob o Espírito, sobre fisiologia e psicologia, e que não deve ser confundida com
rigoroso controle destes, destinadas apenas à leitura e estudo deles mes­ Da Alma, certamente de autoria exclusiva de Aristóteles. O leitor encon­
mos. Com a morte dos integrantes desse círculo aristotélico fechado, as trará no desfecho deste modesto estudo o vasto elenco do conjunto da
obras acroamáticas (por certo o melhor do Estagirita) ficaram mofando obra aristotélica elaborado por Diógenes Laércio e a indicação das obras
numa adega na casa de Corisco por quase trezentos anos. cuja autoria de Aristóteles não é seriamente contestada ou de modo al­
gum contestada, segundo a maioria dos estudiosos e helenistas.
2 0 -E D IP R O A r is tó te le s - Órg an o n Ó r g a n o n —A r i s t ó t e l e s : S u a O b r a E d ip r o - 2 1

O maior problema, contudo, ao qual foi submetida a obra aristotélica, nham que admitir o fato de muitos de seus próprios discípulos estarem se
encontra sua causa no tortuoso percurso lingüístico e cultural do qual ela convertendo a este, inclusive através de uma tentativa de compatibilizá-lo
foi objeto até atingir a Europa cristã. não só com Platão, como também com Aristóteles, de modo a torná-los
Apesar do enorme interesse despertado pela descoberta dos textos a- “aceitáveis” para a Igreja.
croamáticos ou esotéricos em meados do primeiro século da era cristã, o Assim, aquilo que ousaremos chamar de apropriação do pensamentos
mundo culto ocidental (então, a Europa) logo foi tomado pela fé cristã e filosófico grego foi encetado inicialmente pelos próprios discípulos dos
a seguir pela cristianização oficial estabelecida pela Igreja, mesmo ainda neoplatônicos, e se consubstanciou na conciliação do cristianismo (mais
sob o Império romano. exatamente a teologia cristã que principiava a ser construída e estrutura­
A cristianização do Império romano permitiu aos poderosos Padres da naquela época) primeiramente com o platonismo via neoplatonismo e
da Igreja incluir a filosofia grega no contexto da manifestação pagã, con­ depois com o aristotelismo, não tendo sido disso pioneiros nem os gran­
vertendo o seu cultivo em prática herética. A filosofia aristotélica foi con­ des vultos da patrística (São Justino, Clemente de Alexandria, Orígenes e
denada e seu estudo posto na ilegalidade. Entretanto, com a divisão do mesmo Sto. Agostinho) relativamente a Platão, nem aqueles da escolástica
Império romano em 385 A.D., o corpus aristotelicum composto por An- (John Scot Erigene e Sto. Tomás de Aquino) relativamente a Aristóteles.
drônico de Rodes foi levado de Roma para Alexandria. A primeira conseqüência desse “remanejamento” filosófico foi nivelar
Foi no Império romano do Oriente (Império bizantino) que a obra de Platão com Aristóteles. Afinal, não se tratava de estudar a fundo e exaus­
Aristóteles voltou a ser regularmente lida, apreciada e finalmente traduzi­ tivamente os grandes sistemas filosóficos gregos - os pragmáticos Padres
da... para o árabe (língua semita, que, como sabemos, não entretém da Igreja viam o vigoroso pensamento helénico meramente como um
qualquer afinidade com o grego) a partir do século X. precioso veículo a atender seu objetivo, ou seja, propiciar fundamento e
conteúdo filosóficos à incipiente teologia cristã.
Portanto, o primeiro Aristóteles traduzido foi o dos grandes filósofos
árabes, particularmente Avicena (Ibn Sina, morto em 1036 ) e Averróis Os discípulos cristãos dos neoplatônicos não tiveram, todavia, acesso
(Ibn Roschd, falecido em 1198 ), ambos exegetas de Aristóteles, sendo o aos manuscritos originais do corpus aristotelicum.
último considerado o mais importante dos peripatéticos árabes da Espa­ Foi através da conquista militar da península ibérica e da região do
nha, e não o da latinidade representada fundamentalmente por Sto. mar Mediterrâneo pelas tropas cristãs, inclusive durante as cruzadas, que
Tomás de Aquino. os cristãos voltaram a ter contato com as obras do Estagirita, precisamen­
Mas, voltando no tempo, ainda no século III, os Padres da Igreja te por intermédio dos infiéis, ou seja, tiveram acesso às traduções e pará­
(homens de ferro, como Tertuliano, decididos a consolidar institucional­ frases árabes (e mesmo hebraicas) a que nos referimos anteriormente.
mente o cristianismo oficial a qualquer custo), concluíram que a filosofia A partir do século XII começaram a surgir as primeiras traduções lati­
helénica, em lugar de ser combatida, poderia revelar-se um poderoso nas (latim erudito) da obra de Aristóteles. Conclusão: o Aristóteles lin­
instrumento para a legitimação e fortalecimento intelectual da doutrina güística e culturalmente original durante séculos jamais freqüentou a
cristã. Porém, de que filosofia grega dispunham em primeira mão? So­ Europa medieval.
mente do neoplatonismo e do estoicismo, doutrinas filosóficas gregas
Tanto Andrônico de Rodes, no século I da era cristã, ao estabelecer o
que, de fato, se mostravam conciliáveis com o cristianismo, especialmen­
corpus aristotelicum, quanto o neoplatônico Porfírio no século III ressalta­
te o último, que experimentara uma séria continuidade romana graças a
figuras como Séneca, Epíteto e o imperador Marco Aurélio Antonino. ram nesse corpus o ÔpYavov (Órganon) (série de tratados dedicados à

Sob os protestos dos representantes do neoplatonismo (Porfirio, Jâm- lógica, ou melhor, à Analítica, no dizer de Aristóteles) e sustentaram a
blico, Proclo, etc.), ocorreu uma apropriação do pensamento grego por ampla divergência doutrinária entre os pensamentos de Platão e de Aris­
parte da Igreja. Situação delicadíssima para os últimos filósofos gregos, tóteles. Os discípulos cristãos dos neoplatônicos, a partir da alvorada do
século III, deram realce à lógica, à física e à retórica, e levaram a cabo a
que, se por um lado podiam perder suas cabeças por sustentar a distin­
ção e/ou oposição do pensamento grego ao cristianismo, por outro ti­ proeza certamente falaciosa de conciliar os dois maiores filósofos da
Grécia. Quanto aos estóicos romanos, também prestigiaram a lógica
A r is tó te le s - Ó r g a n o n Ó r g a n o n - A r is tó te le s : S u a O b ra E d ip r o - 2 3
2 2 -E d ip r o

aristotélica, mas deram destaque à ética, não nivelando Aristóteles a — Da Filosofia* (diálogo constituído de três partes: a primeira, histó­
Platão, mas os aproximando. rica, encerra uma síntese do pensamento filosófico desenvolvido
até então, inclusive o pensamento egípcio; a segunda contém uma
O fato é que a Igreja obteve pleno êxito no seu intento, graças à inteli­
crítica à teoria das idéias de Platão; e a terceira apresenta uma ex­
gência e sensibilidade agudas de homens como o bispo de Tagasta, Auré­
posição das primeiras concepções aristotélicas, onde se destaca a
lio Agostinho (Sto. Agostinho) (354-430 d.C.) e o dominicano oriundo de
concepção do Primeiro Motor Imóvel);
Nápoles, Tomás de Aquino (Sto. Tomás) (1224-1274), que se revelaram
vigorosos e fecundos teólogos, superando o papel menor de meros intér­ — Metafísica(*) (esboço e porção da futura Metafísica completa e de­
pretes e aproveitadores das originalíssimas concepções gregas. finitiva);
Quanto a Aristóteles, a Igreja foi muito mais além e transformou il fi­ — Ética a Eudemo (escrito parcialmente exotérico que, exceto pelos
losofo (como Aquino o chamava) na suma e única autoridade do conhe­ Livros IV, V e VI será substituído pelo texto acroamático definitivo
Ética a Nicômaco);
cimento, com o que, mais uma vez, utilizava o pensamento grego para
alicerçar os dogmas da cristandade e, principalmente, respaldar e legiti­ — Política* (esboço da futura Política, no qual já estão presentes a
mar sua intensa atividade política oficial e extra-oficial, caracterizada pelo crítica à República de Platão e a teoria das três formas de governo
autoritarismo e a centralização do poder em toda a Europa. originais e puras e as três derivadas e degeneradas);
— Física* (esboço e porção - Livros I e II - da futura Física; já cons­
Se, por um lado, o Estagirita se sentiria certamente lisonjeado com tal
tam aqui os conceitos de matéria, forma, potência, ato e a doutri­
posição, por outro, quem conhece seu pensamento sabe que também
na do movimento);
certamente questionaria o próprio conceito de autoridade exclusiva do
— Do Céu (nesta obra Aristóteles faz a crítica ao Timeu de Platão e
conhecimento.
estabelece os princípios de sua cosmologia com a doutrina dos
Com base na clássica ordenação do corpus aristotelicum de Andrôni- cinco elementos e a doutrina da eternidade do mundo e sua fini-
co de Rodes pode-se classificar os escritos do Estagirita da maneira que tude espacial; trata ainda do tema da geração e corrupção).
se segue (note-se que esta relação não corresponde exatamente ao ex­
tenso elenco elaborado por Diógenes Laércio posteriormente no século 2. Escritos da maturidade (principalmente desenvolvidos e redigidos
III d.C. e que nela não se cogita a questão dos apócrifos). no período do Liceu - 335 a 323 a.C.)

1 . Escritos sob a influência de Platão, mas já detendo caráter crítico — A Analítica ou Órganon, como a chamaram os bizantinos por ser o
*
em relação ao pensamento platônico: ÔpYavov (instrumento, veículo, ferramenta e propedêutica) das
ciências (trata da lógica - regras do pensamento correto e científi­
— Poemas;*
co, sendo composto por seis tratados, a saber: Categorias, Da In­
— Eudemo (diálogo cujo tema é a alma, abordando a imortalidade, a terpretação, Analíticos Anteriores, Analíticos Posteriores, Tópicos e
reminiscência e a imaterialidade); Refutações Sofísticas);
— Protrépticos* (epístola na qual Aristóteles se ocupa de metafísica, — Física (não contém um único tema, mas vários, entrelaçando e
ética, política e psicologia); somando oito Livros de física, quatro de cosmologia [intitulados
— Da Monarqia;* Do Céu], dois que tratam especificamente da geração e corrup­
ção, quatro de meteorologia [intitulados Dos Meteoros], Livros de
— Da Colonização;*
zoologia [intitulados Da Investigação sobre os Animais, Da Gera­
— Constituições;* ção dos Animais, Da Marcha dos Animais, Do Movimento dos A-
nimais, Das Partes dos Animais] e três Livros de psicologia [intitu­
lados Da Alma]);
(*) Os asteriscos indicam os escritos perdidos após o prim eiro século da era cristã e quase
todos exotéricos; das 125 (ou 158) Constituições, a de Atenas (inteiramente desconhe­
cida de Andrônico de Rodes) fo i descoberta somente em 1890. (*) Vide nota anterior.
2 4 - E d ip r o A r is tó te le s - Ór g ano n Ór g a n o n - A r is tó te le s : S u a O b ra E d ip r o - 2 5

— Metafísica (termo cunhado por Andrônico de Rodes por mero mo­ — Sofista, um Livro;
tivo organizatório, ou seja, ao examinar todo o conjunto da obra — Menêxeno, um Livro;
aristotélica, no século I, notou que esse tratado se apresentava de­
— Erótico, um Livro;
pois [|iexa] do tratado da Física) (é a obra em que Aristóteles se
devota à filosofia primeira ou filosofia teológica, quer dizer, à ciên­ — Banquete, um Livro;
cia que investiga as causas primeiras e universais do ser, o ser en­ — Da Riqueza, um Livro;
quanto ser; o tratado é composto de quatorze Livros);
— Protréptico, um Livro;
— Ética a Nicômaco (em dez Livros, trata de todos os aspectos da
— Da Alma, um Livro;
ciência da ação individual, a ética, tais como o bem, as virtudes,
os vícios, as paixões, os desejos, os apetites, o prazer, a dor, etc.); — Da Prece, um Livro;
— Política (em oito Livros, trata dos vários aspectos da ciência da a- — Do Bom Nascimento, um Livro;
ção do indivíduo como animal social (político): a família e a eco­ — Do Prazer, um Livro;
nomia, as doutrinas políticas, os conceitos políticos, o caráter dos
— Alexandre, ou Da Colonização, um Livro;
Estados e dos cidadãos, as formas de governo, as transformações
e revoluções nos Estados, a educação do cidadão, etc.); — Da Realeza, um Livro;
— Da Educação, um Livro;
— R e t ó r i c a (em três Livros);
— Do Bem, três Livros;
— Poética (em um Livro, mas incompleta).
— Excertos de As Leis de Platão, três Livros;
A relação que transcrevemos a seguir, de Diógenes Laércio (século III) — Excertos da República de Platão, dois Livros;
é muito maior, e este biógrafo, como o organizador do corpus aristoteli- — Economia, um Livro;
cum, não se atém à questão dos escritos perdidos, recuperados, adulte­
— Da Amizade, um Livro;
rados, mutilados, e muito menos ao problema dos apócrifos, que só
vieram efetivamente à tona a partir do helenismo moderno. O critério — Do ser afetado ou ter sido afetado, um Livro;
classificatório de Diógenes é, também, um tanto diverso daquele de An­ — Das Ciências, dois Livros;
drônico e ele faz o célebre intróito elogioso a Aristóteles, a saber:
— Da Erística, dois Livros; '
Ele escreveu um vasto número de livros que julguei apropriado e-
— Soluções Erísticas, quatro Livros;
lencar, dada a excelência desse homem em todos os campos de inves­
tigação: — Cisões Sofísticas, quatro Livros;
— Da Justiça, quatro Livros; — Dos Contrários, um Livro;
— Dos Poetas, três Livros; — Dos Gêneros e Espécies, um Livro;
— Da Filosofia, três Livros; — Das Propriedades, um Livro;
— Do Político, dois Livros; — Notas sobre os Argumentos, três Livros;
— Da Retórica ou Grylos, um Livro; — Proposições sobre a Excelência, três Livros;
— Nerinto, um Livro; — Objeções, um Livro;
— Das coisas faladas de várias formas ou por acréscimo, um Livro;
— Dos Sentimentos ou Do Ódio, um Livro;
* Escrito exotérico, mas não perdido.
Ó r g a n o n - A r is tó te le s : S u a O b ra E d ip r o - 2 7
2 6 -E D IP R O A r is tó te le s - Ó r g a n o n

— Ética, cinco Livros; — Do Voluntário, um Livro;

— Dos Elementos, três Livros; — Do Nobre, um Livro;

— Do Conhecimento, um Livro; — Teses Argumentativas, vinte e cinco Livros;

— Dos Princípios, um Livro; — Teses sobre o Amor, quatro Livros;

— Diuisões, dezesseis Livros; — Teses sobre a Amizade, dois Livros;

— Diuisão, um Livro; — Teses sobre a Alma, um Livro;

— Da Questão e Resposta, dois Livros; — Política, dois Livros;

— Do Movimento, dois Livros; — Palestras sobre Política (como as de Teofrasto), oito Livros;

— Proposições, um Livro; — Dos Atos Justos, dois Livros;

— Proposições Erísticas, quatro Livros; — Coleção de Artes, dois Livros

— Deduções, um Livro; — Arte da Retórica, dois Livros;

— Analíticos Anteriores, nove Livros; — Arte, um Livro;

— Analíticos Posteriores, dois Livros; — Arte (uma outra obra), dois Livros;

— Problemas, um Livro; — Metódica, um Livro;

— Metódica, oito Livros; — Coleção da Arte de Teodectes, um Livro;

— Do mais excelente, um Livro; — Tratado sobre a Arte da Poesia, dois Livros;

— Da Idéia, um Livro; — Entímemas Retóricos, um Livro;

— Definições Anteriores aos Tópicos, um Livro; — Da Magnitude, um Livro;

— Tópicos, sete Livros; — Divisões de Entímemas, um Livro;

— Deduções, dois Livros; — Da Dicção, dois Livros;

— Deduções e Definições, um Livro; — Dos Conselhos, um Livro·;

— Do Desejável e Dos Acidentes, um Livro; — Coleção, dois Livros;

— Pré-tópicos, um Livro; — Da Natureza, três Livros;

— Tópicos voltados para Definições, dois Livros; — Natureza, um Livro;

— Sensações, um Livro; — Da Filosofia de Arquitas, três Livros;

— Divisão, um Livro; — Da Filosofia de Espeusipo e Xenócrates, um Livro;

— Matemáticas, um Livro; — Excertos do Timeu e dos Trabalhos de Arquitas, um Livro;

— Definições, treze Livros; — Contra Melisso, um Livro;

— Argumentos, dois Livros; — Contra Alcmeon, um Livro;

— Do Prazer, um Livro; — Contra os Pitagóricos, um Livro;

— Proposições, um Livro; — Contra Górgias, um Livro;


2 8 -E D IP R O A r is tó te le s - Órg an o n Ór g a n o n - A r is tó te le s : S u a O b ra E d ip r o - 2 9

— Contra Xenófanes, um Livro; — Vencedores Olímpicos, um Livro;


— Contra Zenão, um Livro; — Vencedores Pítios na Música, um Livro;
— Dos Pitagóricos, um Livro; — Sobre Píton, um Livro;
— Dos Animais, nove Livros; — Listas dos Vencedores Pítios, um Livro;
— Dissecações, oito Livros; — Vitórias em Dionisio, um Livro;
— Seleção de Dissecações, um Livro; — Das Tragédias, um Livro;
— Dos Animais Complexos, um Livro; — Didascálias, um Livro;
— Dos Animais Mitológicos, um Livro; — Provérbios, um Livro;
— Da Esterilidade, um Livro; — Regras para os Repastos em Comum, um Livro;
— Das Plantas, dois Livros — Leis, quatro Livros;
— Fisiognomonia, um Livro; — Categorias, um Livro;
— Medicina, dois Livros; — Da Interpretação, um Livro;
— Das Unidades, um Livro; — Constituições de 158 Estados (ordenadas por tipo: democráticas,
— Sinais de Tempestade, um Livro; oligárquicas, tirânicas, aristocráticas);

— Astronomia, um Livro; — Cartas a Felipe;

— Ótica, um Livro; — Cartas sobre os Selimbrianos;

— Do Movimento, um Livro; — Cartas a Alexandre (4 ), a Antipater (9 ), a Mentor (1), a Aristón (1 ),


a Olímpias (1 ), a Hefaístion (1), a Temistágoras (1 ), a Filoxeno (1 ),
— Da Música, um Livro; a Demócrito (1);
— Memória, um Livro; — Poemas;
— Problemas Homéricos, seis Livros;
— Elegias.
— Poética, um Livro;
— Física (por ordem alfabética), trinta e oito Livros;
Curiosamente, esse elenco gigantesco não é, decerto, exaustivo, pois,
— Problemas Adicionais, dois Livros; no mínimo, duas outras fontes da investigação bibliográfica de Aristóteles
— Problemas Padrões, dois Livros; apontam títulos adicionais, inclusive alguns dos mais importantes da
lavra do Estagirita, como a Metafísica e a Ética a Nicômaco. Uma delas é
— Mecânica, um Livro;
a Vita Menagiana, cuja conclusão da análise acresce:
— Problemas de Demócrito, dois Livros;
— Peplos;
— Do Magneto, um Livro;
— Problemas Hesiódicos, um Livro;
— Conjunções dos Astros, um Livro; — Metafísica; dez Livros;
— Miscelânea, doze Livros;
— Ciclo dos Poetas, três Livros;
— Explicações (ordenadas por assunto), catorze Livros;
— Contestações Sofísticas ou Da Erística;
— Afirmações, um Livro;
— Problemas dos Repastos Comuns, três Livros;
Ó r g a n o n —A r i s t ó t e l e s : S u a O b r a E d ip r o - 3 1
3 0 - E d ip r o A r is tó te le s - Ór g an o n

— Da Bênção, ou por que Homero inventou o gado do sol? — Da Hibernação, um Livro;

— Problemas de Arquíloco, Eurípides, Coérilo, três Livros; — Magna Moralia, dois Livros;

— Problemas Poéticos, um Livro; — Dos Céus e do Universo, quatro Livros;

— Explicações Poéticas; — Dos Sentidos e Sensibilidade, um Livro;

— Palestras sobre Física, dezesseis Livros; — Da Memória e Sono, um Livro;

— Da Geração e da Corrupção, dois Livros; — Da Longevidade e Efemeridade da Vida, um Livro;

— Meteorológica, quatro Livros; — Problemas da Matéria, um Livro;

— Da Alma, três Livros; — Divisões Platônicas, seis Livros;

— Investigação sobre os Animais, dez Livros; — Divisões de Hipóteses, seis Livros;

— Movimento dos Animais, três Livros; — Preceitos, quatro Livros;

— Partes dos Animais, três Livros; — Do Regime, um Livro;

— Geração dos Animais, três Livros; — Da Agricultura, quinze Livros;

— Da Elevação do Nilo; — Da Umidade, um Livro;

— Da Substância nas Matemáticas; — Da Secura, um Livro;

— Da Reputação; — Dos Parentes, um Livro.

— Da Voz; A contemplar essa imensa produção intelectual (a maior parte da qual


— Da Vida em Comum de Marido e Mulher; irreversivelmente desaparecida ou destruída), impossível encarar a ques­
— Leis para o Esposo e a Esposa; tão central dos apócrifos como polêmica. Trata-se, apenas, de um fato
cultural em que possam se debruçar especialistas e eruditos. Nem se o
— Do Tempo; gênio de Estagira dispusesse dos atuais recursos de preparação e produ­
— Da Visão, dois Livros; ção editoriais (digitação eletrônica, impressão a laser, scanners, etc.) e
— Ética a Nicômaco; não meramente de redatores e c®piadores de manuscritos, poderia pro­
— A Arte da Eulogia; duzir isolada e individualmente uma obra dessa extensão e magnitude,
além do que, que se frise, nos muitos apócrifos indiscutíveis, o pensa­
— Das Coisas Maravilhosas Ouvidas;
mento filosófico ali contido persiste sendo do intelecto brilhante de um só
— Da Diferença; homem: Aristóteles, ou seja, se a forma e a redação não são de Aristóte­
— Da Natureza Humana; les, o conteúdo certamente é.
— Da Geração do Mundo; A relação final a ser apresentada é do que dispomos hoje de Aristóte­
— Costumes dos Romanos; les, considerando-se as melhores edições das obras completas do Estagi­
rita, baseadas nos mais recentes estudos e pesquisas dos maiores helenis­
— Coleção de Costumes Estrangeiros.
tas dos séculos XIX e XX. A exceção dos Fragmentos, garimpados e edi­
tados em inglês por W. D. Ross em 1954 , essa relação corresponde ver­
A Vida de Ptolomeu, por sua vez, junta os títulos a seguir:
batim àquela da edição (que permanece padrão e referencial) de Imma­
— Das Linhas Indivisíveis, três Livros; nuel Bekker, aparecida em Berlim em 1831 . É de se enfatizar que este
— Do Espírito, três Livros; elenco, graças ao empenho de Bekker (certamente o maior erudito aris-
3 2 -E D IP R O A r is tó te le s - Ó r g a n o n Ó r g a n o n - A r is tó te le s : S ua O b ra E d ip r o - 3 3

totelista de todos os tempos) encerra também uma ordem provável, ou — Do Alento (Περι πνεύματος);
ao menos presumível, do desenvolvimento da reflexão peripatética ou, — Da Investigação sobre os Animais (Περι τα ζωα ιστοριαι);
pelos menos, da redação das obras (insinuando uma certa continuidade),
o que sugere um excelente guia e critério de estudo para aqueles que — Das Partes dos Animais (Περι ζωων μορίων);
desejam ler e se aprofundar na totalidade da obra aristotélica, mesmo — Do Movimento dos Animais (Περι ζωων κινησεως);
porque a interconexão e progressão das disciplinas filosóficas (exemplo: — Da Marcha dos Animais (Περι πορείας ζωων);
economia - ética - política) constituem parte indubitável da técnica expo­
sitiva de Aristóteles. Disso ficam, obviamente, fora os Fragmentos. — Da Geração dos Animais (Περι ζωων γενεσεως);

Ei-la: — Das Cores (Περι χρωμάτων);

— Categorias (Κατηγοριαι); — Das Coisas Ouvidas (Περι ακουστών);

— Da Interpretação (Περι ερμηνείας); — Fisiognomonia (Φυσιογνωμονικα);

— Analíticos Anteriores (Αναλυτικα προτερα); — Das Plantas (Περι φυτών);

— Analíticos Posteriores (Αναλυτικα υστέρα); — Das Maravilhosas Coisas Ouvidas (Περι θαυμασιων ακουσματων);

— Tópicos (Τοπικά); — Mecânica (Μηχανικα);

— Refutações Sofísticas (Περι σοφιστικών ελεγχων); — Das Linhas Indivisíveis (Περι ατόμων γραμμών);
Obs.: o conjunto dos seis tratados acima é conhecido como Órga­ — Situações e Nomes dos Ventos (Ανεμων θεσεις και προσηγοριαι);
non (Οργανον). — Sobre Melisso, sobre Xenófanes e sobre Górgias (Περι Μελισσου,
— Da Geração e Corrupção (Περι γενεσεως και φθοράς); Περι Ξενοφανους, Περι Γοργιου);

— Do Universo (Περι κοσμου); — Problemas (Προβλήματα);*

— Física (Φυσική); — Retórica a Alexandre (Ρητορικη προς Αλέξανδρον);

— Do Céu (Περι ουρανου); — Metafísica (Τα μετα τα φυσικά);

— Meteorologia (Μετεωρολογικά); — Economia (Οικονομικά);*


— Magna Moralia (Ηθικά μεγ'αλα);*
— Da Alma (Περι ψυχής);
— Ética a Nicômaco (Ηθικά Νικομαχεια);
— Dos Sentidos (Περι αισθησεως);
— Constituição de Atenas (Αθηναίων πολιτεία);
— Da Memoria e da Revocação (Περι μνημης και αναμνησεως);
— Etica a Eudemo (Ηθικά Ευδημεια);
— Do Sono e da Vigília (Περι υπνου και εγρηγορσεως);
— Das Virtudes e Vícios (Περι αρετών και κακιών);
— Dos Sonhos (Περι ενυπνίων);
— Política (Πολίτικα);
— Da Dwinação no Sono (Περι της καθ ύπνον μαντικής);
— Retórica (Τέχνη ρητορικη);
— Da Longevidade e da Efemeridade da Vida (Περι μακροβιοτητος — Poética (Περι ποιητικης);
και βραχυβιοτητος);
— Fragmentos.
— Da Juventude e da Velhice. Da Vida e da Morte (Περι νεοτητος Edson Bini
και γηρως. Περι ζωης και θανατου);
— Da Respiração (Περι αναπνοής); * Apócrifos.
C r o n o l o g ia

As datas são a.C. e, na maioria, aproximativas, e os eventos indica­


dos contemplam apenas os aspectos filosófico, político e militar.
481 - Criada a confederação das cidades-Estados gregas comandada
por Esparta para combater o inimigo comum: os persas.
480 - Os gregos são fragorosamente derrotados pelos persas nas
Termópilas (o último reduto de resistência chefiado por Leôni-
das de Esparta e seus trezentos é aniquilado); a acrópole é des­
truída; no mesmo ano, derrota dos persas em Salamina pela
esquadra chefiada pelo ateniense Temístocles.
479 - Fim da guerra contra os persas, com as vitórias dos gregos nas
batalhas de Platéia e Micale.
478-477 - A Grécia é novamente ameaçada pelos persas; formação
da Liga Délia, desta vez comandada pelos atenienses.
469 - Nascimento de Sócrates em Atenas.
468 - Os gregos derrotam os persas no mar.
462 - Chegada de Anaxágoras de Clazómenes a Atenas.
462-461 - Promoção do governo democrático em Atenas.
457 - Atenas conquista a Beócia.
456 - Conclusão da construção do templo de Zeus em Olímpia.
447 - O Partenon começa ser construído.
444 - Protágoras de Abdera redige uma legislação para a nova colô­
nia de Túrio.
3 6 -E D IP R O A r is tó te le s - Ór g an o n

431- Irrompe a guerra do Peloponeso entre Atenas e Esparta.


429 - Morte de Péricles.
427 - Nascimento de Platão em Atenas.
421 - Celebrada a paz entre Esparta e Atenas.
419 Reinicio das hostilidades entre Esparta e Atenas.
418 - Derrota dos atenienses na batalha de Mantinéia.
413 - Nova derrota dos atenienses na batalha de Siracusa.
405 - Os atenienses são mais uma vez derrotados pelos lacedemônios
na Trácia.
404 - Atenas se rende a Esparta.
399 - Morte de Sócrates. Ór g a n o n
385 - Fundação da Academia de Platão em Atenas.
384 - Nascimento de Aristóteles em Estagira.
382 - Esparta toma a cidadela de Tebas.
378 - Celebradas a paz e a aliança entre Esparta e Tebas.
367 - Chegada de Aristóteles a Atenas.
359 - Ascensão ao trono da Macedônia de Felipe II e começo de suas
guerras de conquista e expansão.
347 - Morte de Platão.
343 - Aristóteles se transfere para a Macedônia a assume a educação
de Alexandre.
338 - Felipe II derrota os atenienses e seus aliados na batalha de
Queronéia e a conquista da Grécia é concretizada.
336 - Morte de Felipe II e ascensão de Alexandre ao trono da Mace­
dônia.
335 - Fundação do Liceu em Atenas.
334 - Alexandre derrota os persas na Batalha de Granico.
331 - Nova vitória de Alexandre contra os persas em Arbela.
330 - Os persas são duramente castigados por Alexandre em Persé-
polis, encerrando-se a expedição contra os persas.
323 - Morte de Alexandre.
322 - Transferência de Aristóteles para Cálcis, na Eubéia; morte de
Aristóteles.
C a t e g o r ia s

1 ai Quando as coisas têm apenas um nome em comum e a defi­


nição de essência correspondente ao nome é diferente, são
chamadas de homônimas. Por exemplo, embora um ser huma­
no e um retrato possam propriamente ambos ser chamados de
animais,1 são homônimos, pois têm somente o nome em co­
mum, as definições de essência que correspondem ao nome
sendo diferentes, considerando-se que se for solicitado que defi-
5 nas qual ser um animal é tratando-se do ser humano e do retra­
to, darás duas definições distintas apropriadas a cada caso.
As coisas são chamadas de sinônimas quando não só têm o
mesmo nome, como este nome significa o mesmo em cada caso,
apresenta a mesma definição correspondente. Deste modo, um
ser humano e um boi são chamados de animais. O nome é o
10 mesmo em ambos os casos, e assim também, a definição de
essência, pois se fores indagado sobre o que significa os dois
serem chamados de animais, darás definição idêntica em ambos
os casos a esse nome particular.
Quando as coisas extraem seu próprio nome de uma outra,
recebendo uma nova forma verbal, dizemos que são parônimas.

1. A palavra Çcoov (zoon) apresenta duplo significado, quais sejam, animal, ser vivo, e
figura humana ou de animal representada num quadro ou retrato.
4 0 -E D IP R O A r is tó te le s - ó r g a n o n Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 4 1

15 Assim, por exemplo, gramático deriva de gramática, corajoso de este ou aquele homem ou cavalo, pois nada deste tipo se acha
coragem e assim por diante.2 num sujeito ou é jamais afirmado de um. De maneira mais geral,
com efeito, nunca podemos afirmar de um sujeito o que em sua
natureza é individual e também numericamente uno. No entanto,
II em alguns casos nada impede que esteja presente ou seja encon­
Podemos ou não combinar aquilo que chamamos de pala­ trado em um sujeito. Deste modo, um fragmento de conhecimen­
vras, expressões e frases. Combinações são encontradas em to de gramática está presente, como dissemos, numa alma.
proposições; por exemplo, “o homem corre” ou “o homem ven­
ce” , ao passo que exemplos de formas não combinadas são
“homem” , “boi” , “corre” , “vence” e similares. III

20 Entretanto, no que se refere às coisas ditas com significado, 10 [Digamos] uma palavra a respeito dos predicados aqui.
quando empregamos palavras sem as combinar, podemos pre­ Quando se predica esta coisa ou aquela de uma outra coisa
dicar algo de um sujeito, embora elas jamais estejam presentes como de um sujeito, os predicados do predicado também se
em um sujeito. Por exemplo, podemos predicar “homem” deste aplicarão ao sujeito. Predicamos “homem” de um homem; as­
ou daquele homem como o sujeito, mas o homem não é encon­ sim, de “homem” predicamos “animal” . Por conseguinte, deste
trado em um sujeito. Por “em” , “presentes” , “encontrado em 15 ou daquele homem podemos predicar “animal” também, uma
um sujeito” não quero dizer presentes ou encontrado como se vez que um homem é tanto “animal” quanto “homem” .
25 suas partes estivessem contidas num todo - quero dizer que não Quando os gêneros não são organizados um em função do
pode existir como se à parte do sujeito referido. E, então, há outro, [isto é, são heterogêneos e não subordinados entre si], as
essa classe de coisas que estão presentes ou são encontradas diferenças serão em espécie. Tomemos, por exemplo, os gêne­
num sujeito, ainda que não possam ser afirmadas, de modo ros animal e conhecimento; “ter pés” , ser “bípede” , “alado” ,
algum, de qualquer sujeito conhecido. Um fragmento de conhe­ “aquático” constituem diferenças animais. Mas não se descobrirá
cimento de gramática existe na alma como um sujeito, porém 20 nenhuma para distinguir uma espécie particular de conhecimen­
não pode ser predicado de qualquer sujeito conhecido. Também to. Nenhuma espécie de conhecimento diferirá de uma outra por
uma alvura particular está presente ou é encontrada num corpo ser “bípede” .
(toda cor implica uma tal base como aquilo que entendemos por Onde os gêneros, entretanto, são subordinados, nada absolu­
“um corpo” ), mas não pode ela mesma ser afirmada de qual­ tamente os impede de tfer as mesmas diferenças, pois predica­
quer sujeito conhecido. Constatamos que há algumas coisas, mos os gêneros mais elevados ou maiores dos gêneros inferiores
ademais, não só afirmadas de um sujeito como também presen- ou classe subordinada. Então, as diferenças do predicado per­
íbl tes num sujeito. Assim, por exemplo, o conhecimento, ao mes­ tencerão também áo sujeito.
mo tempo que presente nesta ou naquela alma como um sujei-
5 to, é igualmente afirmado em relação à gramática. Há finalmen­
te aquela classe de coisas que não podem nem ser encontradas IV
num sujeito nem, tampouco, ser afirmadas de um (por exemplo, Cada uma das palavras ou expressões não combinadas signi­
fica uma das seguintes coisas: o que (a substância), quão gran­
2. Em grego ...γραμματικής ο γραμματικός... (gramatikes o gramatikos). A tradução de, quanto (a quantidade), que tipo de coisa (a qualidade), com
aqui registrada pretende apenas ilustrar o fato de uma palavra designadora de uma o que se relaciona (a relação), onde (o lugar), quando (o tem-
coisa ser derivada (parômma) de uma outra. Na verdade, os dois termos gregos a-
cima se referem respectivamente à ciência ou arte de ler e escrever e ao homem
po), qual a postura (a posição), em quais circunstâncias (o esta­
que sabe ler e escrever, ou seja, o alfabetizado. Tanto gramática quanto gramático do ou condição), quão ativo, qual o fazer (a ação), quão passi­
(em português), ainda que oriundos morfologicamente do grego, apresentam signi­ vo, qual o sofrer (a paixão). Exemplos, sumariamente falando,
ficados diferentes.
4 2 -E D IP R O A r is tó te le s - ó r g a n o n Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 4 3

de substância são homem, cavalo; de quantidade, dois côvados Quando nos voltamos, ao contrário, para coisas que estão
de comprimento, três côvados de comprimento; de qualidade, presentes ou são encontradas num sujeito, notamos que não
2al branco e gramatical. Termos como metade, dobro, maior, indi­ podemos - ao menos na maioria dos casos - predicar seus no­
cam relação-, no mercado, no Liceu e expressões similares indi­ mes e definições desse sujeito. Com efeito, a própria definição
cam lugar, enquanto a referência é ao tempo em expressões 30 não será aplicável em caso algum. Mas em alguns casos nada
como ontem, o ano passado, etc. Deitado ou sentado indica nos impede de usar o nome do sujeito. Tomemos o branco3
posição; calçado ou armado indica estado; corta ou queima como exemplo. Ora, o branco está, sem dúvida, num corpo e
indica ação; é cortado ou é queimado indica paixão. assim é predicado de um corpo, uma vez que um corpo, está
5 Nenhum desses termos em si mesmo é positivamente asserti­ claro, é que é chamado de branco. A definição, contudo, de
vo. Afirmações, bem como negações, somente podem surgir branco nunca pode ser predicada de qualquer corpo.
quando esses termos são combinados ou unidos. Toda asserção, 35 Todas as outras coisas, salvo a substância primária, são afir­
afirmativa ou negativa, tem que ser verdadeira ou falsa, o que - madas da primeira substância como sujeitos ou estão nela pre­
ao menos isso - está facultado a todos, mas uma palavra ou sentes como seu sujeito. Isto se evidencia pelos casos particula­
expressão não combinada (exemplos: “homem” , “branco” , res que tomamos à guisa de exemplos. Predicamos animal do
10 “corre” ou “vence” ) não pode ser nem verdadeira nem ser falsa. homem [em geral], de sorte que predicamos também animal de
2b l qualquer ser humano particular. Se não existissem indivíduos
dos quais se pudesse assim predicar, não se poderia predicá-lo
V
da espécie. Ademais, a cor está no corpo e, conseqüentemente,
Substância, em sua acepção mais própria e mais estrita, na também neste ou naquele corpo, pois caso não existissem cor­
acepção fundamental do termo, é aquilo que não é nem dito de pos nos quais ela pudesse também existir, não poderia estar, de
um sujeito nem em um sujeito. A título de exemplos podemos modo algum, no corpo [em geral]. Em suma, todas as coisas,
15 tomar este homem em particular ou este cavalo em particular. sejam quais forem, exceto o que chamamos de substâncias pri-
Entretanto, realmente nos referimos a substâncias secundárias, 5 márias, são predicados das substâncias primárias ou estão nestas
aquelas dentro das quais - sendo elas espécies - estão incluídas presentes como seus sujeitos. E, supondo que não houvessem
as substâncias primárias ou primeiras e aquelas dentro das quais substâncias primárias, seria impossível que existissem quaisquer
- sendo estas gêneros - estão contidas as próprias espécies. Por das outras coisas.
exemplo, incluímos um homem particular na espécie denomina­
Das substâncias secundárias, a espécie é melhor classificada
da humana e a própria espécie, por sua vez, é incluída no gêne­
como substância do que o gênero: a espécie está mais próxima
ro denominado animal. Estes, a saber, ser humano e animal, de
da substância primária, enquanto o gênero está dela mais dis­
outro modo espécie e gênero, são, por conseguinte, substâncias
tante. Supõe que alguém te pergunta “O que é isso?” relativa-
secundárias.
10 mente a uma substância primária. Tua resposta será tanto mais
Do que dissemos fica evidente que o nome e a definição dos instrutiva quanto mais apropriada ao sujeito, se mencionares sua
20 predicados podem ser ambos afirmados do sujeito. Por exem­ espécie, do que se mencionares seu gênero. Toma, por exem­
plo, predicamos homem de um ser humano individual como o plo, este ou aquele ser humano. Farias uma exposição mais
sujeito. O nome da espécie denominada homem (humana) é esclarecedora se indicasses a espécie, ou seja, homem, do que
afirmado de cada indivíduo; predica-se homem de um homem.
25 A definição ou significado de homem se aplicará a um homem
de maneira análoga, pois um homem é tanto homem quanto 3. . . . t o À.ewov.,. (to leukori). Aristóteles, como nós mesmos nas línguas modernas,
animal. O nome e a definição da espécie se aplicarão, assim, utiliza o adjetivo no lugar do substantivo [(leukotes)], mas o substantivando. As co­
ambos ao sujeito. res são abstratas, ou seja, o branco, o azul, o amarelo, etc. só são concebíveis de
um corpo (um vestido, por exemplo) que seja branco, azul, amarelo, etc.
Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 4 5
4 4 - E d ip r o A r is tó te le s - órganon

se o classificasses como um animal. A primeira qualificação lhe é Por outro lado, [o termo] substância, no seu sentido estrito
mais pertinente e própria, ao passo que a segunda é demasiado aplica-se às substâncias primárias de modo exclusivo porque
15 geral. Ou, ainda, toma uma árvore em particular. Ao indicar a não apenas constituem a base de todas as outras coisas, como
espécie ou que se trata de uma árvore, apresentarás um relato 3al suprem todas estas de seus sujeitos. Exatamente como a subs­
mais instrutivo do que indicando o género ou dizendo que se tância primária está relacionada a tudo o mais, seja o que for,
trata de uma planta. também o estão o gênero e a espécie nos quais essa substância
Ademais, as substâncias primárias, acima de tudo o mais, fa­ está incluída, relacionada a todos os atributos não incluídos no
zem jus a este nome uma vez que formam a base de todas as gênero e na espécie, pois estes são seus sujeitos. Podemos dizer
outras coisas, as quais, por seu turno, serão seus predicados ou 5 que um homem é “versado em gramática” . Conseqüentemente,
nelas estarão presentes como seus sujeitos. Mas precisamente também podemos dizer que sua espécie e gênero (isto é, espécie
como as substâncias primárias se situam em face de tudo o mais humana e gênero animal) também são “versados em gramáti­
que existe, situa-se também a espécie em relação ao gênero. A ca” . Isto será aplicável a todos os casos.
20 espécie está relacionada ao gênero como o sujeito está relacio­ Jamais estar presente num sujeito vale [como propriedade]
nado ao predicado. Predicamos o gênero da espécie, mas nun­ para toda substância, posto que o que chamamos de substân­
ca, com efeito, podemos predicar, inversamente, a espécie do cia primária não pode nem estar presente num sujeito nem
gênero. Com base nesta razão adicional, nos é permitido susten­ 10 tampouco ser predicado de um. Quanto à substância secundá­
tar que das substâncias secundárias a espécie é mais verdadei­ ria, os seguintes pontos, entre outros, provarão que esta não se
ramente substância do que o gênero. encontra num sujeito. Predicamos “homem” de um homem;
Se nos voltamos para as próprias espécies, [vemos que] ne­ 15 entretanto, “homem” não está num sujeito, uma vez que a
nhuma, a menos que seja também um gênero, é mais substância humanidade não está em um homem. E o que vale para a
do que outra. Não há maior propriedade em chamar de homem espécie, vale também para o gênero, pois afirma-se também a
25 um homem concreto ou individual do que chamar de cavalo um “animalidade” deste ou daquele homem em particular, mas ela
[determinado] cavalo concreto. Assim também no que respeita não pode ser encontrada nele. Que se acresça o ponto seguin­
às substâncias primeiras: nenhuma é mais substância do que as te: quando uma coisa pode ser encontrada num sujeito, nada
outras, pois este ou aquele homem, por exemplo, não poderia nos impede de predicar o seu nome ao sujeito em questão e,
ser mais verdadeiramente substância do que, digamos, este ou entretanto, não a definição. Contudo, no que concerne a uma
aquele boi. substância secundária, tanto o nome quanto a definição apli­
cam-se também ao caso do sujeito. A definição da espécie (o
À parte, portanto, das substâncias primárias, somente espécie
homem - a espécie humana) e a do gênero (o animal) são
30 e gênero entre todas as demais coisas restantes, são acertada­
20 usadas referindo-se a um indivíduo humano. Portanto, a subs­
mente classificados como substâncias secundárias, visto serem
tância não se encontra num sujeito.
eles unicamente que, entre todos os possíveis predicados, defi­
nem a substância primeira. [Com efeito] é somente pela espécie Não poder estar presentes em sujeitos é verdadeiro, não a-
ou o gênero que se pode definir este ou aquele homem de uma penas com respeito às substâncias, como também no que diz
maneira conveniente ou apropriada. E tornamos nossa definição respeito às diferenças. Assim, da espécie denominada “humana”
mais precisa indicando a espécie ou “homem” , do que indican­ pode-se dizer que “caminha sobre os pés” e que é “bípede” ;
do o gênero ou “animal” . Qualquer outra coisa mais que pudés- 25 estas diferenças, contudo, não são encontradas nela, pois nem
35 semos indicar - digamos “ele corre” ou “é branco” seria estra­ uma nem outra está no homem. Onde, por outro lado, afirma-se
nha ao propósito em pauta. Assim, só espécies e gêneros são a diferença, afirma-se também sua definição. Supõe da espécie
acertadamente designados como substância, exceto exclusiva­ denominada “humana” que deverias predicar “que caminha
mente pelas substâncias primárias. sobre pés” . A definição, inclusive, desse atributo, então, se apli-
A r is tó te le s - Ór g an o n Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 4 7
4 6 - E d ip r o

caria a essa espécie, uma vez que o homem, o ser humano em dúvida, a primária; não é do uno, com efeito, mas do múltiplo,
geral, efetivamente caminha sobre pés. que predicamos realmente “animal” , “homem” . A espécie e o
gênero, contudo, não se limitam a indicar qualidade, como
30 Que as partes das substâncias estão presentes ou são encon­
20 “branco” indica meramente qualidade. O acidental, ou seja,
tradas tanto nos todos como em sujeitos é um fato que dificil­
como “branco” , significa pura e simplesmente uma qualidade.
mente deverá nos perturbar ou nos tornar receosos de sermos
Mas a espécie e o gênero determinam uma qualidade com refe­
forçados a classificar todas essas partes como não sendo subs­
rência à substância. Informam qual o tipo de substância. No que
tâncias. Afinal, não qualificamos “presente em um sujeito” por
respeita ao gênero, contudo, tal qualificação determinada cobre
“não como as partes em um todo”?4
um campo muito mais amplo do que cobre no que tange à es­
Diferença e substância apresentam igualmente a característica pécie. Se dizemos “animal” , abarcamos mais do que abarcaría­
35 comum de que, sempre que as predicamos, as predicamos como mos se disséssemos “homem” .
sinônimas, já que tais proposições têm sempre indivíduos ou es­
25 As substâncias jamais têm contrários. Como poderiam as
pécies por sujeitos. É indubitável que a substância primária, ja­
substâncias primárias tê-los... este homem, por exemplo, aquele
mais sendo predicada de qualquer coisa, jamais pode ela mesma
animal? Nada lhes é contrário. E a espécie e o gênero não têm
ser predicado de qualquer proposição que seja. Mas não é o que
contrários. Esta característica particular não pertence apenas à
ocorre com a substância secundária. A espécie é predicada de
substância, pois diz respeito a muitas outras [categorias], entre as
todos os exemplos individuais, o gênero destes e a espécie. O
quais, por exemplo, a quantidade. Dois côvados de comprimen­
3bl mesmo ocorre também com as diferenças que, de maneira análo­
to não possui contrário; nem três côvados de comprimento;
ga, tanto se predicam das espécies quanto dos indivíduos. Ambas
30 tampouco o possui dez ou ainda qualquer coisa que lhe asseme­
as definições, ademais, ou as do gênero e da espécie, se aplicam à
lhe, a menos, com efeito, que alguém dissesse que grande e
substância primária, e a do gênero à espécie, pois tudo que se
pequeno, muito e pouco são contrários. Quantidades definidas,
5 afirma do predicado será também afirmado do sujeito. A defini­
entretanto, por certo jamais têm contrários.
ção de cada diferença aplica-se, similarmente, tanto a indivíduos
quanto a espécies; entretanto, como já observamos, são sinôni­ Nenhuma substância, pelo que parece, apresenta graus ou
mas as coisas que não só possuem nome idêntico, como também admite um mais e um menos. Não quero dizer aqui que uma
são definidas identicamente. Resulta, por via de conseqüência, substância não possa ser mais verdadeiramente chamada de
que em todas as proposições que tenham por predicado uma 35 substância e menos verdadeiramente chamada de substância do
substância ou uma diferença, o predicado é sinônimo. que outras. De fato, dissemos que pode. Mas entendo que ne­
nhuma substância como tal pode admitir graduação em si mes­
10 Toda substância parece determinada,5 o que é indiscutivel­
ma. Por exemplo, a mesma substância - homem - não pode
mente verdadeiro no que tange às substâncias primárias. O que
realmente ser mais ou menos homem na comparação consigo
cada uma denota é uma unidade. Quanto às substâncias secun­
4al mesmo ou com um outro homem. Este homem não é mais ho­
dárias, talvez a linguagem o faça assim parecer, como quando
mem do que aquele, como uma coisa branca é mais ou menos
15 dizemos “animal” , “homem” , mas realmente não se trata disso,
branca do que um outro objeto branco o possa ser, ou como um
pois, ao contrário, o significado destas palavras é uma qualida­
objeto belo apresenta mais ou menos beleza do que outros. A
de. A substância secundária não é una e singular como o é, sem
mesma qualidade no mesmo objeto pode ser às vezes variável
quanto ao grau. Por exemplo, um corpo, no caso de ser branco,
é qualificado de mais branco precisamente agora do que o era
4. Ou, alternativamente, num período afirmativo e numa tradução menos próxima da
5 ou, no caso de quente, é qualificado de mais ou menos quente.
literalidade: Afinal, quando nos referimos [a coisas] presentes em um sujeito, não
quisemos dizer [coisas pertencentes a alguma coisa] como partes. Uma substância, porém, enquanto substância, não é mais ou
5. Πασα δε ουσία δοκει τοδε τ ι σημαινειν (Pasa de ousia dokei tode ti semainein): menos do que em si mesma. Um homem não é mais homem
Toda substância parece significar um determinado isto.
A r is tó te le s - órganon Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o
E d ip r o

[agora] do que o foi em algum momento do passado, e isto vale 5 co à substância admitir qualidades contrárias através de uma
para todas as demais substâncias. Por conseguinte, a substância mudança em si mesma.
não pode apresentar graus. Se alguém, portanto, viesse a fazer uma exceção a favor das
asserções e das opiniões, sustentando que estas admitem tam­
O que, entretanto, se afigura ser o mais distintivo na substân­
bém qualificações contrárias, este seu ponto de vista seria, em
cia é que, não obstante ela permaneça numericamente una e a
verdade, heterodoxo. Se dissermos que asserções e opiniões
mesma, é capaz de receber qualificações contrárias. De outras
admitem tais qualificações, teremos que reconhecer que não são
[categorias] distintas da substância, dificilmente poderíamos
elas próprias, mas alguma coisa mais que sofre mudança, pois é
aduzir um exemplo que detivesse esta característica. Por exem­
por força dos fatos de cada caso, em virtude de serem ou não
plo, uma cor em particular, numericamente una e a mesma, não
10 serem reais, que uma asserção é classificada como verdadeira
pode, de modo algum, ser tanto preta quanto branca, e uma
ou falsa. Não é que a própria asserção seja capaz de admitir tais
ação, se una e idêntica, não pode, de maneira alguma, ser tanto
qualidades contrárias; nada, numa palavra, pode alterar a natu­
boa quanto má. Isto se aplica a tudo salvo à substância. A subs­
reza de asserções e opiniões e, percebendo que nenhuma mu­
tância, ainda que permanecendo a mesma, admite tais qualida­
dança nelas ocorre, não podem admitir tais contrários. A subs­
des contrárias. Um mesmo indivíduo se toma numa oportunida­
tância, todavia, admite tais contrários por tê-los ela mesma os
de pálido, quente ou bom, em outra mais escuro, frio ou mau.
15 recebido; ela, de modo alternado, é receptáculo em si mesma de
Isto não ocorre com qualquer outra [categoria], embora se pu­
saúde, doença, alvura, negrura, e as recebendo em si mesma,
desse sustentar que asserções e opiniões admitem contrários,
diz-se que admite esses contrários. Assim, a título de conclusão,
quer dizer, que a mesma afirmação possa parecer tanto verda­
é-nos permitido classificar o que foi indicado anteriormente co­
deira quanto falsa. Se, por exemplo, se afirma “ele está senta­
mo distintivo da substância, a saber, que a despeito de persistir
do” , isto pode ser verdadeiro; se ele se levanta, então se torna
una e a mesma, é possível para ela - através de uma mudança
falso. E assim também com as opiniões. Pode-se ter a opinião, e
em si mesma - receber qualificações contrárias. E isto basta no
verdadeiramente, de que esta ou aquela pessoa está sentada e,
que concerne à substância.
no entanto, uma vez esta pessoa tenha se levantado, se tal opi­
nião persistir será falsa. Ainda que admitíssemos essa exceção,
ela diferiria, com efeito, do resto na sua maneira de acontecer,
VI
pois sempre que uma substância admite tais qualificações con­
trárias é através de uma mudança em si mesma. E através de 20 Abordemos em seguida a quantidade. Esta é ou discreta ou
uma mudança em si mesma que uma substância que estava contínua. Algumas quantidades, além disso, consistem de partes
quente se torna fria (tendo passado de um estado para o outro) que possuem posições relativas umas em referência às outras;
ou uma substância que estava pálida [ou branca] se torna escu­ outras quantidades, ao contrário, são constituídas por partes que
ra, ou uma substância que era boa se torna má. E assim também não possuem tais posições. Entre as quantidades discretas, po­
em todos os demais casos nos quais a substância admite tais demos citar aqui como exemplos o número e o discurso; entre
qualidades. A asserção e a opinião, contudo, permanecem em si as quantidades contínuas, a linha, a superfície e o sólido, às
mesmas completamente inalteráveis em todos os aspectos. Se 25 quais pode-se acrescentar o tempo e o lugar. Consideremos as
assumem a qualidade contrária, sendo ora verdadeiras, ora partes de um número. Constata-se que não há nenhum limite
falsas é porque os fatos da situação terão mudado. A asserção comum no qual possam se unir. Por exemplo, dois cincos pro­
“ele está sentado” é inalterável, porém conforme as condições duzem dez, mas eles são completamente distintos; inexiste uma
existentes a classificamos ora como verdadeira, ora como falsa. fronteira comum na qual estes dois cincos se unem. Coisa idên­
O que vale para as asserções, vale igualmente para as opiniões. tica ocorre com as partes três e sete. De fato, no tocante a todos
Em sua maneira, portanto, de acontecer é realmente característi- 30 os números, jamais descobrirás tal limite, comum a quaisquer
5 0 - E d ip r o A r is tó te le s - Ó r g a n o n Ó r g a n o n - C a te g o r ia s E d ip r o - 5 1

duas partes, pois as partes permanecem sempre distintas. Assim, 30 uma outra. Analogamente, o mesmo poder-se-ia dizer do núme­
o número é discreto, não contínuo. O mesmo pode ser dito do ro, pois os números apresentam anterioridade na contagem, o
discurso, desde que por discurso se entenda a palavra falada. um sendo anterior ao dois, o dois ao três [e assim por diante].
Medido em sílabas longas e breves, o discurso é uma quantidade Assim, no que respeita ao número, também nos é permitido
evidente cujas partes não possuem limite comum. Não existe dizer que as partes possuem uma ordem relativa, mas que com
35 limite comum onde essas partes (ou sejam, as sílabas) se unem. certeza não possuem posições. Isto igualmente será aplicável ao
Cada uma, realmente, é distinta das restantes. discurso pois suas partes não têm existência duradoura. Mal são
5a1 A linha, contudo, é contínua. Descobrimos aqui este limite do 35 pronunciadas e já desvanecem, de sorte que, se deixam de exis­
qual acabamos de falar. Este limite ou termo é o ponto. O mes­ tir, não podem ocupar nem lugar nem posição. Em síntese, das
mo ocorre com o plano (superfície) ou o sólido. Suas partes quantidades, portanto, algumas são constituídas por partes possui­
5 também possuem tal limite: a linha no primeiro caso, a linha ou doras de posição e outras por partes que não a possuem.
o plano no segundo. Também o tempo e o espaço6 são contí­ Unicamente aquilo que mencionamos pode ser chamado de
nuos. O tempo é um todo e contínuo: o presente, o passado e o quantidades no sentido mais estrito. Outras coisas que são assim
10 futuro estão vinculados. O espaço é também este tipo de quanti­ 5bl chamadas o são em um sentido secundário, em conexão com
dade, pois uma vez que as partes mesmas do sólido ocupam um alguma daquelas que pertencem ao sentido primário. Vejamos
certo espaço e estas partes possuem um limite em comum, con­ um exemplo ou dois. Amiúde falamos de uma grande quantida­
clui-se que também as partes do espaço, que aquelas próprias de de branco pelo fato da superfície coberta por ele ser grande,
partes ocupam, possuem exatamente o mesmo limite ou termo de uma ação ou processo longos porque o tempo por eles ocu-
comum das partes do sólido. Como o tempo, é o espaço, por­ 5 pado é longo. O nome quantidade não pode ser atribuído com
tanto, contínuo: suas partes se reúnem numa fronteira comum. propriedade a tais coisas. Alguém pergunta a ti “Quanto durou
15 Todas as quantidades são constituídas por partes, e estas, aquela ação?” Responderás informando o tempo que necessitou
como vimos, guardam posições em referência umas às outras ou para ser executada, como “Levou um ano” ou coisa que o va­
não apresentam tais posições. As partes de uma linha, por e- lha. Alguém te pergunta “Qual o tamanho daquela coisa bran­
xemplo, precisam todas ter suas posições relativas. Cada uma, ca?” e respondes informando sobre o tamanho da superfície por
indiscutivelmente, tem que estar situada em algum lugar e cada ela coberta. Tão grande como a superfície que cobre - dirás - é
uma pode ser claramente distinguida. Podes dizer onde está aquele objeto branco. Conseqüentemente, as únicas quantida­
20 situada cada uma no plano e de qual tipo de parte é contígua. des em acepção estrita .são as que referimos; outras coisas assim
Assim, as partes do plano possuem posição: novamente podes designadas só podem reivindicar tal nome - se é que o podem -
dizer onde cada uma está situada e de qual tipo de parte é con­ 10 numa acepção secundária: numa espécie de maneira derivativa
tígua. Isto vale igualmente para os sólidos e o espaço. Mas no ou acidental, e não em função de sua natureza intrínseca.
que toca ao número, é diferente. Jamais poderias demonstrar Quantidades nunca possuem contrários, o que se mostra per­
25 que suas partes possuem suas posições relativas ou que sequer feitamente evidente no caso de todas as quantidades definidas,
possuem posições. Tampouco poderias determinar quais partes pelas quais entendo, por exemplo, “dois côvados de compri-
são contíguas ou adjacentes de quais partes. Algo idêntico pode 15 mento” ou “três côvados de comprimento” , ou uma superfície,
ser dito também do tempo, uma vez que nenhuma parte do ou algo deste tipo. Estas, está claro, não têm contrários. Apesar
tempo é duradoura; e como dizer que aquilo que não dura pos­ disso, é possível que alguém diga que “grande” e “pequeno” ,
sui alguma posição? Do tempo seria melhor dizer que suas par­ “muito” e “pouco” são contrários. Estes são, entretanto, mais
tes possuem uma ordem relativa, visto uma parte ser anterior a propriamente falando, termos de relação, e sendo assim, as
coisas não são em si mesmas e isoladamente grandes ou peque­
nas: só o são por comparação. Assim, dizemos que uma colina é
6. ...K ai o xp o v o ç k c u o tojioç (kai o cronos kai o topos).
5 2 - E d ip r o A r is tó te le s - ó r g an o n Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 5 3

pequena, que um grão de milho é grande, mas na realidade mesmo momento tanto grande quanto pequena, uma coisa será
queremos dizer maior ou menor do que coisas semelhantes do o seu próprio contrário. Isso é, todavia, impossível: nada pode
20 gênero, pois nos referimos a algum padrão externo. Se tais ter­ ser contrário a si mesmo. A conclusão é que estamos impossibili­
mos fossem usados absolutamente, jamais deveríamos chamar tados de descrever grande e pequeno, muito e pouco como
uma colina de pequena, como jamais deveríamos chamar um contrários. Tampouco poderiam estes termos ter contrários,
grão de milho de grande. Assim, do mesmo modo, é permissível 10 ainda que alguém os classificasse como termos não de relação
que digamos que um povoado tem muitos habitantes, e que mas de quantidade.
25 uma cidade como Atenas apenas poucos, embora a população No que tange ao espaço, a afirmação de que a quantidade
desta última seja muito maior; ou dizemos que uma casa contém admite contrário parece ganhar mais plausibilidade. Acima e abai­
muitos [indivíduos] ao passo que aqueles no teatro são poucos, xo são chamados de contrários quando se entende por abaixo a
ainda que estes superem muito em número aqueles outros. En­ 15 região do centro. Este uso, entretanto, provém da visão que
quanto “dois côvados de comprimento” , “três côvados de com­ extraímos do mundo, uma vez que é nos extremos do mundo que
primento” e [expressões] semelhantes, portanto, significam quan­ a distância do centro é a maior.7 Com efeito, é como se fosse
tidade, grande, pequeno e [palavras] similares não significam destes contrários que a definição de todos os demais contrários é
quantidade, mas relação, envolvendo algum padrão externo ou obtida, pois definimos como contrários os termos que, estando
algo que está acima e além delas. É óbvio que estes últimos dentro da mesma classe, são os mais distantes uns dos outros.
termos são relativos.
Uma quantidade parece não admitir um mais e um menos.
30 Ademais, quantidades ou não, nada há que seja contrário a 20 Por exemplo, toma “dois côvados de comprimento” . Ora, isto
tais termos, pois como supor que possa ter qualquer contrário nunca admite gradações. Uma coisa não mede dois côvados de
aquilo que não é apreendido por si mesmo, mas que tem que se comprimento num grau maior do que uma outra. E ocorre coisa
referir a algum padrão externo? Em segundo lugar, supõe que análoga com os números. Um três não é, por assim dizer, três
permitamos que grande, pequeno e [termos] similares sejam num maior grau de um outro três; um cinco não é, por assim
contrários: neste caso, o mesmo sujeito - deduzir-se-ia - em um dizer, cinco num grau maior do que um outro cinco. Um período
e mesmo tempo admitiria qualificações contrárias e as coisas de tempo não é, também, mais tempo do que um outro. Nem
35 seriam em si mesmas contrárias. Não ocorre por vezes ser a no tocante a qualquer outra quantidade que mencionamos po­
mesma coisa tanto grande quanto pequena? Se comparada a de-se afirmar um mais ou um menos. A categoria da quantida-
uma coisa, é pequena, mas se comparada a uma outra, é gran­ 25 de, portanto, não admite, de modo algum, graus.
de. E assim a mesma coisa simultaneamente vem a ser tanto O que é realmente peculiar às quantidades é que as compa­
grande quanto pequena ou a um único e mesmo tempo admite ramos ou contrastamos em termos de igualdade ou com base em
qualificações contrárias. Mas ao tratarmos da substância estabe- igualdade. Predicamos igual [e] desigual de todas as quantidades
6al lecemos que nada pode assim com simultaneidade admitir tais mencionadas. De um sólido, diz-se que é igual ou desigual a um
qualificações. É incontestável que a substância é receptiva de 30 outro; de um número, que é igual ou desigual a um outro. Tam­
qualificações contrárias, mas não de uma maneira na qual um bém usamos esses termos falando do tempo na comparação de
homem ao mesmo tempo esteja tanto doente quanto sadio [e] seus períodos. Igualmente para todas as outras quantidades que
uma coisa seja simultaneamente preta e branca. Tampouco mencionamos anteriormente. E de nenhuma outra categoria,
pode qualquer outra coisa em momento algum ser assim qualifi- cumpre acrescer, exceto a quantidade, podemos afirmar esses
5 cada. Portanto, se grande, pequeno, etc. fossem contrários, as dois termos (o igual e o desigual), pois nunca dizemos ser este
coisas seriam para si mesmas os seus próprios contrários. Se estado igual ou desigual àquele; dizemos que é semelhante ou
concedermos, a favor do argumento, tanto que grande é o con­
trário de pequeno quanto que uma e a mesma coisa pode ser no
7. Ou seja, a distância entre o centro e os pontos cardeais da Terra.
A r is tó te le s - órganon Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 5 5
E d ip r o

diferente. Uma qualidade, a alvura, por exemplo, jamais é com­ 20 Os relativos também, pelo que parece, podem admitir gradua­
parada com uma outra em termos de igualdade ou com base na ção em alguns casos, na medida em que semelhante, desseme­
igualdade. Tais categorias são classificáveis em termos de seme­ lhante, igual, desigual, podem todos ter mais ou menos agrega­
lhança e diferença. Assim, classificarmos alguma coisa como igual, dos a si, embora cada um seja um relativo, uma vez que por
desigual é a característica principal da quantidade. semelhante entendemos como alguma coisa mais, e por desse-
25 melhante o que não é como alguma coisa mais. Não se trata,
VII contudo, de todos os relativos admitirem graus. Não dizemos
Voltemo-nos agora para a relação. Chamamos uma coisa de mais ou menos dobro, e o mesmo no tocante a todos os termos
relativa quando desta se diz que é o que é por dependência de desse gênero.
alguma outra coisa ou, se não, por estar relacionada a alguma Todos os relativos têm seus correlativos. Escravo significa es­
coisa de alguma outra forma. Isto porque, de fato, quando cha­ cravo de um senhor, e senhor, por sua vez, implica em escravo.
mamos uma coisa de maior com isso queremos dizer maior do 30 O dobro significa o dobro de sua metade, tal como a metade
que alguma coisa. Diz-se o dobro por este o ser de alguma outra significa a metade de seu dobro. Por maior, também, entende­
coisa (o dobro significa dobro de alguma coisa). E isto se aplica mos maior do que esta ou aquela coisa que é menor, e por me­
a todos os termos semelhantes. Entre outros termos relativos nor, o menor do que aquilo que é maior. O mesmo ocorre com
encontramos o estado, a disposição, a percepção, o conheci­ todos os termos relativos. Há ocasiões, entretanto, nas quais há
mento, a posição ou postura. Todos estes se explicitam median­ diferença de caso ou inflexão gramatical. O conhecimento é,
te a referência a alguma coisa a que pertencem e de nenhuma assim, do cognoscível; o cognoscível é cognoscível pelo conhe-
outra maneira. Estado é um estado de alguma coisa, conheci­ 35 cimento. A percepção é do perceptível, o qual é percebido pela
mento é um conhecimento de alguma coisa, posição é uma percepção.
posição de alguma coisa. Falamos, portanto, de termos relativos
Às vezes, todavia, a correlação não surgirá de maneira mani­
quando uma coisa sendo tal como é, é explicitada por um geni­
festa, a saber, quando um erro foi cometido e o próprio correla­
tivo que se segue ou então por alguma frase ou expressão desti­
to erroneamente indicado. Se chamas de asa a asa de uma ave,
nada a introduzir a relação. Por exemplo, chamamos uma colina
neste caso não surgirá nenhuma correlação: asa e ave não são
de grande e queremos dizer grande por comparação a uma
correlativos. O termo errôneo foi usado no início, ao chamá-lo
outra. E exclusivamente em função desta comparação que se
7al de asa de uma ave, pois^sa é asa de uma ave quando conside­
chama uma colina de grande; e o que é similar é chamado de
ramos esta não como ave, mas como alada. Muitas outras coisas
similar pela similaridade com alguma coisa. E o que ocorre com
- que não são aves - são aladas. Quando, entretanto, os termos
todos os termos desta natureza. E percebemos também que,
corretos são usados, a correlação aparecerá de imediato, como
enquanto estar deitado, estar de pé ou estar sentado, são efeti­
quando, por exemplo, dizemos que uma asa é uma asa dos
vamente posições específicas, a posição ela mesma é um relati­
5 alados e que a coisa alada é alada em virtude da asa. A asa
vo. Deitar, levantar e sentar não são eles mesmos realmente pertence aos alados necessariamente.
posições; suas designações, entretanto, como parónimos, são
derivadas das posturas que acabamos de mencionar. Às vezes não há palavra que exiba de modo acertado a cor­
Relativos às vezes têm contrários. A virtude é o contrário do relação. Neste caso, então, temos que cunhar uma nova palavra.
vício, sendo um termo e outro relativos; o mesmo ocorre entre o Tomemos, a guisa de exemplo, um leme. E possível que diga­
conhecimento e a ignorância. De modo algum, contudo, se po­ mos que este pertence a um barco. A um barco é, entretanto,
de dizer que todos os termos relativos têm contrários. Dobro e inapropriado e não consegue introduzir a correlação. O leme,
triplo não têm nenhum e nem, tampouco, quaisquer termos com efeito, não concerne necessariamente ao barco visto en-
deste gênero. 10 quanto tal. Não existem, acaso, barcos sem lemes? Conseqüen-
A r is tó te le s - Ó r g a n o n O r g a n o n - C a te g o r í a s E d ip r o - 5 7
5 6 - E d ip r o

temente, leme e barco não apresentam reciprocidade. O barco senhor. Supõe que eliminemos todos os seus outros atributos -
não é barco de um leme, assim como o leme não é leme de um diria irrelevantes -, tais como ser ele bípede, receptivo de conhe­
barco. Uma vez que não há um termo apropriado, temos que cimento ou humano e retenhamos apenas ser ele um senhor, e
inventar um que se ajuste à situação e exprima com mais preci­ então escravo ainda seria o correlativo, significando escravo o
são: o leme é leme dos “lemeados” . E, se assim nos expressar- escrauo de um senhor.
15 mos, pelo menos os termos apresentarão reciprocidade, ou seja, Por outro lado, suponhamos um correlativo nomeado incor­
o que é “lemeado” o é por meio de seu leme. O mesmo se apli­ retamente. Neste caso, se suprimirmos seus atributos, salvo aqui­
ca a todos os outros casos. Uma cabeça será melhor definida lo em virtude do que era chamado de correlativo, toda a corre­
como correlativa daquilo que é “encabeçado” , e não indiscrimi­ lação se desvanecerá. Definamos como correlativo de escravo,
nadamente como cabeça de um animal. Animais, simplesmente homem, e como correlativo de asa, ave. Retira o atributo senhor
enquanto animais, não possuem necessariamente cabeças. Mui­ de homem; então, com efeito, a correlação que subsiste entre
tos deles, de fato, não possuem cabeças. Podemos, assim - é o homem e escravo terá desaparecido; sem senhor não há escra­
que penso - entender de melhor forma ao que esta ou aquela vo. Retira o atributo alado de ave, e então a asa não será mais
coisa está relacionada - nos casos em que não dispomos presen­ um relativo, pois uma vez que não há alado, a asa não terá
temente de um nome -, se tomarmos a coisa possuidora de um correlativo.
nome e, então, cunhando um outro nome dele derivado, aplicá-
20 lo ao correlativo do primeiro, tal como cunhamos alado e “le­ E assim, em síntese, é preciso que indiquemos todos os ter­
meado” a partir de asa e leme .8 mos correlativos com exatidão. Se houver um nome para ser
manuseado, então a indicação se revelará fácil. Caso não exista
Assim, todos os relativos estão referidos aos seus correlatos, já um nome, penso ser nosso dever inventar um. E evidente que
desde que sejam corretamente definidos. E preciso que eu acres­ quando os nomes estão corretos, todos os termos relativos são
ça esta ressalva, visto que se acontecer do correlato ser indicado correlativos.
25 de forma casual, imprecisa, os termos não poderão ser recípro­
cos. Que me seja permitido explicar o que quero dizer. Mesmo Correlativos parecem apresentar simultaneidade natural, o
onde os nomes corretos realmente existem e as coisas são reco­ que na maioria dos casos é verdadeiro, como, por exemplo, no
nhecidamente correlatos, nenhuma correlação aparece quando que se refere ao dobro e à metade. A existência de uma metade
damos a uma destas duas um nome que de maneira alguma determina que exista o dobro do qual ela é metade. A existência
exibe a relação e possui algum significado irrelevante. Que es­ de um senhor implica a existência também de um escravo. Se
cravo seja definido em relação a homem ou a bípede ou a qual­ existe um escravo, existe necessariamente um senhor. E o mes­
quer outro gênero, ao invés de ser definido (como o deveria ser) mo ocorre em todos os casos similares. Por outro lado, o seguin­
30 por referência a senhor, e então nenhuma correlação aparecerá, te também vale para eles: a anulação de um significa a anulação
visto ser a referência realmente imprecisa. Por outro lado, con­ do outro. Por exemplo, se não há dobro, não há metade, e vice-
cedamos que duas coisas são correlativas e que o termo correto versa, se não há metade, não há dobro, o mesmo ocorrendo
é usado com o propósito de declarar o segundo. Ainda que com todos os termos análogos. Entretanto, o ponto de vista de
eliminemos todos os seus outros atributos - diria seus atributos que os correlativos apresentam simultaneidade natural não se
irrelevantes - retendo apenas aquilo em virtude do que era afigura verdadeiro em todos os casos, pois parece que o objeto
chamado de correlativo, toda a tal correlação se conservará. Diz- do conhecimento é anterior ao conhecimento, [ou seja,] existe
35 se propriamente, por exemplo, que o correlativo de escravo é antes deste. Obtemos conhecimento comumente de coisas que
já existem, pois em pouquíssimos casos ou em caso algum pode
o nosso conhecimento ter vindo a ser juntamente com o próprio
objeto que lhe é peculiar.
8. ...απο του πτερού το πτερωτον κα ι απο του πηδάλιου το πηδαλιωτον (apo toü pte-
roü to pteroton kai apo toü pedalioü to pedalioton).
A r is tó te le s - Ór g ano n Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 5 9
BOIPRO

vos. Este homem ou aquele boi, por exemplo, jamais é definido


No caso de ser o objeto do conhecimento suprimido, o co­
mediante uma referência a alguma coisa que lhe está além ou
nhecimento mesmo é anulado. O inverso disto não é verdadei­
lhe é exterior. O mesmo pode ser afirmado quanto às partes do
ro. Se o objeto não mais existir, não poderá mais haver qualquer
20 homem ou do boi. Assim, não se diz que uma certa mão ou
conhecimento, nada havendo agora para conhecer. Se, entre­
cabeça é uma certa mão deste ou daquele indivíduo, uma certa
tanto, deste ou daquele objeto nenhum conhecimento foi ainda
cabeça deste ou daquele indivíduo. Nós as classificamos como a
adquirido, é possível que esse objeto, ele mesmo, exista. Tome-se
mão e a cabeça deste indivíduo específico ou daquele. Assim
o exemplo da quadratura do círculo, se podemos a isto chamar de
também no que tange às substâncias secundárias, ao menos no
um tal objeto. Embora ela exista como um objeto, o conhecimen­
que toca à ampla generalidade. Espécies como a humana e a
to ainda não existe. Se todos os animais deixassem de existir, não
bovina, e assim por diante, nunca são definidas, mediante uma
haveria então conhecimento algum, não obstante pudessem ha­
referência a alguma coisa que as ultrapasse ou que lhes seja
ver, neste caso, ainda muitos objetos do conhecimento.
externa. Nem é a madeira assim definida, e se é a madeira con­
É possível dizer o mesmo da percepção. Entendo que o obje­ siderada como relativa, então o é como uma propriedade perti­
to pareceria ser anterior ao ato da percepção. Na hipótese de nente a alguém (este ou aquele indivíduo humano), e não em
suprimires o perceptível, suprimirias também a percepção. Afas­ 25 sua natureza de madeira. Evidencia-se, portanto, nesses casos,
ta ou suprime a percepção, e é possível que o perceptível subsis­ que a substância dificilmente pode ser relativa. E possível, po­
ta, uma vez que o ato da percepção implica ou envolve, primei­ rém, que haja divergência de opiniões quando se trata de algu­
ramente, um corpo percebido, e então um corpo no qual ele mas substâncias secundárias. Definimos, assim, cabeça e mão à
ocorre. Portanto, se suprimires o perceptível, o próprio corpo luz de todos a que pertencem e, conseqüentemente, estes pode­
será suprimido, pois o corpo, ele mesmo, é perceptível. E o cor­ riam parecer ser relativos. Com efeito, se revelaria tarefa dificíli-
po não sendo existente, a percepção terá que deixar de existir. 30 ma, se não impossível, mostrar assim que nenhuma substância é
Se removeres o perceptível, removerás também a percepção. A relativa, se definíssemos corretamente o que se quis dizer com
remoção, porém, da percepção não acarreta a remoção de tais termo relativo. Por outro lado, se estivéssemos errados e estas
objetos. Se o próprio animal for destruído, então também a coisas são somente verdadeiros relativos cuja própria existência
percepção será destruída. Os perceptíveis, porém, ainda subsisti­ consiste em estarem de uma maneira ou outra relacionadas a
rão, tais como o corpo, o calor, a doçura, o amargor e tudo o algum outro objeto, então - julgo - algo poderia ser dito. A pri-
mais que é sensível. 35 meira definição se aplica. a todos os relativos de modo incontes-
A percepção, ademais, é gerada juntamente com o sujeito te, mas o fato de uma categoria ser explicada mediante uma
que percebe, ou seja, com o próprio ser vivo. O perceptível, referência a alguma coisa que lhe é exterior não é o mesmo que
contudo, é anterior ao ser vivo e à percepção, porquanto coisas dizer que é necessariamente relativa.
tais como água e fogo, das quais se compõem os seres vivos,
Do exposto, o seguinte resulta óbvio: se um relativo é defini­
existem antes de quaisquer de tais seres e anteriormente a todos
tivamente conhecido, aquilo ao que é ele relativo também será
os atos da percepção. O perceptível, podemos assim concluí-lo,
então definitivamente conhecido. E o que é mais: podemos
se afiguraria como sendo anterior à percepção. classificar isso como auto-evidente. Desde que saibas ser relativa
A opinião de que nenhuma substância é relativa - opinião uma coisa particular, sendo relativos aqueles objetos cuja pró­
comumente sustentada - pareceria estar aberta ao questiona­ pria existência consiste em serem eles, de uma maneira ou ou-
mento. Dever-se-ia, talvez, disto excetuar o caso de algumas 8b1 tra, relacionados a uma outra coisa, então saberás o que é esta
substâncias secundárias. E indubitável que a opinião a que alu­ outra coisa a que se relaciona a conhecida; pois se não soubes­
dimos vale para a substância primária, uma vez que nem os ses de modo algum o que é essa outra coisa à qual aquela se
todos nem as partes das substâncias primárias jamais são relati- relaciona, também desconhecerias se esta é ou não um relativo.
A r is tó te le s - Ór g an o n Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 61
6 0 - E d ip r o

Tomemos alguns exemplos específicos que esclarecerão o ponto. apenas numa modesta medida, a não ser que uma grande alte­
5 Supõe que definitivamente saibas ser o dobro urna coisa particu­ ração seja produzida pela doença ou alguma outra coisa seme­
lar; com isto saberás de imediato definitivamente também do lhante. E o mesmo vale para as virtudes, por exemplo, a justiça
que é ela o dobro. Não podes saber que ela é o dobro sem saber 35 e a moderação, pois se admite que estas são difíceis de serem
que é o dobro de alguma coisa específica e definida. Por outro afastadas ou deslocadas. Disposições, entretanto, são qualidades
lado, se definitivamente sabes que urna coisa em particular é de fácil mobilização e alteração, tais como o calor, o frio, a do­
mais bela, de imediato terás definitivamente que conhecer aque­ ença, a saúde e assim por diante. Um ser humano apresenta
la em comparação a qual é considerada mais bela. Assim, não uma certa disposição de acordo com todas essas condições, mas
saberás [apenas] vagamente que uma coisa particular é mais rapidamente experimenta transformação. Num momento expe­
10 bela do que alguma coisa detentora de menos beleza, já que isto rimentando calor, pode logo experimentar frio; estando bem,
seria mera suposição e, de modo algum, conhecimento. Não 9al pode logo ficar doente. O mesmo ocorre com todas as demais
saberias mais com certeza que uma coisa detém mais beleza do disposições, a menos que a disposição se tornasse uma segunda
que alguma coisa que detém menos beleza, pois, com efeito, natureza mediante um longo lapso de tempo, revelando-se inve­
poderia acontecer que nada existisse detendo menos beleza. terada ou de difícil eliminação, caso em que poderíamos chamá-
Com base em tudo isso se conclui - penso - pela evidência de la de estado.9
que é necessário que um conhecimento definido dos relativos 5 E claro que nos inclinamos a designar tais qualidades como
corresponda a um igual conhecimento daquelas coisas com as estados, sendo elas por sua natureza mais duradouras e mais
15 quais permanecem numa relação. difíceis de serem alteradas ou deslocadas. Aqueles que não con­
Uma cabeça e uma mão, contudo, são substâncias, e pode- seguem em absoluto ter domínio sobre o conhecimento e são de
se ter um conhecimento definido sobre o que essas coisas são um temperamento instável são atualmente raramente descritos
essencialmente, ainda que não necessariamente sabendo ao que como possuidores do hábito do conhecer, embora seja possível
estão também relacionadas, visto que desconhecemos de modo dizermos que seus intelectos, quando considerados desse ponto
20 definido de quem é esta cabeça ou esta mão. Mas, se assim é, de vista, estão, de uma certa maneira melhor ou pior, dispostos
somos forçados a concluir que essas coisas e suas semelhantes para o conhecimento. Assim, o estado (hábito) é distinto da
não são relativos e, sendo desta forma, seria verdadeiro afirmar disposição: o primeiro é duradouro e estável, ao passo que a
que nenhuma substância é relativa. Penso não ser fácil fazer segunda não tarda a sofrer mudança.
afirmações sólidas acerca destas questões, sem investigações 10 Estados são tambérñ disposições, mas as disposições não são
mais completas. Não é, entretanto, inteiramente inútil trazer sempre estados (hábitos). Enquanto que aqueles que têm hábi­
minuciosamente à baila os pontos. tos têm conseqüentemente, de algum modo ou outro, disposi­
ções, aqueles que se dispõem de algum modo não têm, de mo­
VIII do algum, caso a caso, um hábito.
25 Voltemo-nos a seguir para a qualidade. Entendo por quali­ Por um outro tipo de qualidade entendo a que nos leva a a-
dade aquilo em virtude do que as coisas são, de algum modo, 15 ludirmos aos bons pugilistas, ou aos bons corredores, ou aos
qualificadas. A palavra qualidade tem muitas acepções. Um tipo saudáveis ou aos enfermiços.'Realmente, tal tipo cobre todos os
de qualidade é constituído pelos estados e disposições. Os pri­ termos que denotam qualquer capacidade natural, qualquer
meiros são diferentes das segundas por serem mais duradouros e incapacidade inata. Não se faz referência ao fato de estarem
estáveis. Compreendidos entre aquilo que chamamos de estados dispostos ou condicionados desta ou daquela maneira, mas ao
30 estão as virtudes e todos os gêneros de conhecimento, uma vez
que o conhecimento é tido como duradouro e difícil de ser des­
locado [do espírito], ainda que se possa, com efeito, adquiri-lo 9. ...e£,iv (exin). Embora traduzamos e£iç (exis) por estado, o sentido em todo este
contexto se avizinha de maneira de se re hábito.
A r is tó te le s - Órg ano n Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s
6 2 -E D IP R O E d ip r o - 6 3

fato de possuírem uma capacidade ou potência, que é natural Quando as pessoas se envergonham, ficam ruborizadas; quando
ou inata, ou não possuírem tal capacidade ou potência para 15 amedrontadas, tornam-se pálidas, etc. E devido a isso que se
executar isto ou aquilo com facilidade ou prevenir um revés de alguém está naturalmente predisposto à vergonha ou ao medo
alguma espécie. Qualificamos os homens de bons pugilistas ou por força de algumas particularidades de seu temperamento, é
20 bons corredores não em função de alguma disposição, mas de­ lícito que concluamos não injustamente que assume a cor cor­
vido a uma capacidade natural de realizar isto ou aquilo com respondente, pois o estado dos elementos corporais que mo­
facilidade. Quando nos referimos aos saudáveis, queremos dizer mentaneamente acompanhou o sentimento de vergonha ou
que tais pessoas apresentam capacidades de pronta, constitutiva medo poderia muito bem igualmente resultar de sua organiza­
e inata resistência contra todas as doenças mais comuns; quan­ ção física, de sorte que uma cor semelhante poderia também
do nos referimos aos enfermiços, queremos dizer aqueles que 20 surgir no processo natural. Todos os estados deste gênero po­
25 parecem não possuir essas capacidades. O mesmo vale para a dem ser, por conseguinte, incluídos entre as qualidades passivas,
dureza e a moleza. Predicamos a dureza daquilo que resiste posto que verificamos que sua fonte pode ser detectada em
prontamente à desintegração, e a moleza daquilo que não resiste. alguma paixão estável e duradoura, pois quer sua fonte possa
ser descoberta na organização corpórea, quer na longa doença
Prosseguindo, a terceira classe encerra qualidades passivas e
25 ou queimadura de sol, quando não podem ser levemente elimi­
30 afeições. São exemplos a doçura e o amargor, o azedume e tudo
nadas, podendo até mesmo perdurar durante toda a vida, fei­
que lhes é afim; tais são também a frieza e o calor, a alvura, a
ções pálidas ou morenas sempre são chamadas de qualidades
negrura, etc. É evidente que todas estas são qualidades, uma vez
por nós porque assim somos classificados (pálidos ou morenos)
que se diz que as coisas que as encerram são qualificadas em
por apresentarmos tal palidez ou morenice.
função delas. Diz-se do próprio mel que é doce por conter doçu­
ra, como se diz do próprio corpo que é alvo por conter alvura. E Entretanto, condições originárias de causas logo tornadas i-
assim é em todos os casos semelhantes. noperativas, se não forem inteiramente eliminadas, serão conhe­
cidas como estados passivos, e não qualidades, uma vez que
As qualidades que chamamos de passiuas não recebem, efe-
ninguém é chamado deste ou daquele modo por força dessas
9b1 tivamente, esta denominação de modo a indicar que as coisas
30 condições. Aquele que cora de vergonha não é, portanto, consi­
que as encerram sejam, de uma forma ou outra, afetadas ou que
derado como naturalmente rubro, como não é considerado
sofrem transformação em si mesmas. Assim, como dissemos,
naturalmente de pele pálida (clara) aquele que empalidece por
dizemos do mel que é doce, mas isso não significa que o mel, ele
causa do medo. Dizemos que “fulano foi afetado deste ou da­
mesmo, seja de alguma forma afetado. E o mesmo se aplica a
quele modo” . Estes estados são estados passiuos (afeições10),
todos os casos semelhantes. Analogamente, se tomarmos o calor não qualidades.
e a frieza, embora chamemos tais qualidades de passivas, não
5 significa que as coisas que as admitem ou encerram sejam passi­ De modo análogo, há qualidades passivas e também afeições
vas. Quer-se dizer que as qualidades mencionadas são capazes na alma. Quando alguém possui uma condição de nascimento e
de produzir uma sensação. O sentido do paladar, por exemplo, sua origem reside em certas afeições de difícil transformação ou
é afetado pela doçura ou o azedume, ao passo que o do tato é 10al remoção, a denominamos como qualidade. A loucura, a irascibi­
afetado pela frieza ou pelo calor. Coisa idêntica ocorre com lidade e [condições] semelhantes se enquadram aqui, já que é
todas as qualidades que lhes são semelhantes. em função de tais coisas que qualificamos alguém de louco ou
irascível. Do mesmo modo, as distrações do espírito,11 que em­
10 Todas as cores, como o branco ou o preto, também são qua­
bora não sejam inatas em si mesmas, ainda assim surgem a
lidades passivas; não o são, contudo, no mesmo sentido daque­
las que indicamos até aqui. Assim as denominamos pelo fato de
se originarem elas mesmas de afeições ou paixões. Há numero­ • ílaeii (pathê).
sas modificações de cor que provêm claramente das paixões. —eKOTaaeiç... (ekstáseis).
Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 6 5
6 4 - E d ip r o A r is t ó t e l e s - Ó r g a n o n

partir de uma certa concomitância de alguns outros elementos Assim, os nomes do corredor ou do pugilista, que assim são
nele presentes e parecem ser ou permanentes ou ao menos de designados em virtude de capacidades naturais, não podem ser
10b1 derivados (parônimos) de qualidades, isto é, tais capacidades
remoção muito difícil, também são denominadas qualidades.
5 Isto porque as pessoas são chamadas deste ou daquele modo não possuem nomes particulares, como possuem as ciências,
devido a condições como essas. Pelo contrário, as que surgem a considerando o exercício em função do qual chamamos um
partir de alguma origem de pronta dissipação designamos com o homem de pugilista, um outro de lutador, e assim por diante.
nome de afeições, como no caso de alguém que diante de al­ Entendemos por ciência uma disposição; cada ciência também
guma contrariedade se torna um tanto zangado, pois alguém possui seu próprio nome, tal como o pugilato, por exemplo, ou
não é conhecido como irado por ficar um tanto zangado diante 5 a luta. E aqueles que têm essa disposição obtêm seu nome do
de uma contrariedade. Dizemos que “alguém está afetado ou nome da ciência. Acrescente-se que por vezes a qualidade pos­
10 perturbado” . Tais estados são afeições e não qualidades. sui um nome bem definido, mas a coisa que participa de sua
natureza não extrai seu nome dela. Por exemplo, o homem bom
O quarto gênero de qualidade é constituído pelas formas e
é bom por deter a qualidade virtude; entretanto, o termo bom
figuras das coisas. Que a estas sejam também adicionadas a
não é um parônimo do termo virtude} 2 Todavia, isto ocorre
curvatura, a retidão e todas as demais qualidades similares. As esporadicamente.
coisas são definidas por estas qualidades também por serem
10 Assim, essas coisas possuem uma qualidade definida da qual
desta ou daquela natureza. E as coisas possuem uma natureza
15 definida por serem triangulares, quadrangulares, por serem re­ derivam seus nomes ou da qual dependem de alguma outra
tas, curuas, e assim sucessivamente. E efetivamente em virtude forma.
de sua figura ou forma que cada coisa é qualificada. O raro e o As qualidades admitem contrários, ainda que não em todos
denso, o áspero e o liso, embora pareçam à primeira vista indi­ os casos. Justiça e injustiça são contrários, a alvura e a negrura,
car qualidade, são de fato estranhos a esta classe. Constata-se, 15 e assim sucessivamente. As coisas que são chamadas deste ou
20 ao contrário, que indicam uma posição particular das partes. daquele modo, em função de terem essas qualidades, também
Assim, chamamos uma coisa de densa quando as partes que a se enquadram nessa classe, uma vez que o justo e o injusto são
compõem se acham estreitamente compactadas, e de rara contrários, a coisa preta e a branca, etc. Mas não ocorre assim
quando essas partes apresentam interstícios; áspera quando em todos os casos. O vermelho, o amarelo e cores deste tipo são
algumas partes são salientes, mas lisa quando suas partes se qualidades que não têm contrários.
dispõem de alguma forma em linha reta. Se um de dois contrários é uma qualidade, o outro também é
25 Eis os quatro gêneros de qualidade. Talvez haja outros, mas uma qualidade. Isto se patenteará a quem examine as demais
20 categorias. A injustiça é o contrário da justiça, e a justiça, ela
estes são os que são assim estritamente chamados.
mesma, é uma qualidade; conseqüentemente, a injustiça tam­
Qualidades, portanto, são as que aqui mencionamos. As coi­ bém o é, posto que nenhuma outra categoria a ela se ajusta, seja
sas que têm seus nomes derivados delas, ou dependem de al­ a quantidade, a relação, o espaço ou, em suma, qualquer outra.
guma outra forma delas, são coisas consideradas qualificadas de Isto vale no que toca a todos os contrários que denominamos
uma maneira definida ou outra. Na maioria - na verdade, na 25 qualidades.
quase totalidade dos casos -, os nomes das coisas qualificadas
As qualidades admitem graus, pois uma coisa é mais alva do
são parônimos das qualidades. Por exemplo, a [coisa] alva rece-
que uma outra, e uma outra, ainda, é menos alva. E uma coisa
30 beu o nome da alvura; o gramatical, de gramática; o justo, de
pode ser mais justa do que uma outra. Uma coisa, ademais,
justiça, etc.
As vezes, contudo, quando as qualidades não possuem no­
mes que lhes são próprios, é impossível que existam parônimos. • Virtude é apEir] (aretê); bom é cmouSaioç (spoüdaios).
Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 6 7
A r is t ó t e l e s - Ó r g ^ ! .
6 6 - EDIPRO

gênero, é definido por referência a alguma coisa que lhe é


pode ter mais de uma qualidade, pois coisas que são alvas po­
distinta, uma vez que o conhecimento é conhecimento de al­
dem se tornar mais alvas. Esta regra, embora seja válida na
guma coisa. Entretanto, ramos particulares do conhecimento
maioria dos casos, está sujeita a apresentar certas exceções, já
não são assim explicados. Por exemplo, não definimos um
30 que se a justiça pudesse ser mais ou menos justiça, determinados
conhecimento de gramática ou de música mediante uma refe­
problemas poderiam disto nascer, como ocorre também com
rência a alguma coisa externa. A razão disto é porque se são,
todas as qualidades que nos é possível chamar de disposições. E
em algum sentido, relações, somente podem ser tomados co­
alguns chegam a sustentar que estas não admitem graduação. A
mo tais do ponto de vista de seu gênero. Por exemplo, a gra­
própria saúde e a própria justiça - contestam - não estão sujei­
mática não é chamada de gramática de alguma coisa, nem a
tas a tais variações, mas uma pessoa é mais saudável do que
música de música de alguma coisa. Se, afinal, é em virtude do
1 lal outra, mais justa do que outra, o mesmo valendo para o conhe­
gênero que se fala destas na sua relação com alguma coisa, a
cimento gramatical e todas as demais disposições. E, certamen­
30 gramática é chamada de conhecimento de alguma coisa (não
te, ninguém poderá negar que as coisas caracterizadas por tais
gramática de alguma coisa), e a música, de conhecimento de
qualidades as encerram em maior ou menor medida. Um indiví­
alguma coisa (não música de alguma coisa).
duo saberá mais sobre gramática, será mais saudável ou mais
Assim, ramos particulares do conhecimento não devem ser
justo do que um outro.
classificados entre os relativos. As pessoas são chamadas desta
5 Termos que expressam a figura de uma coisa, digamos o triân­
ou daquela forma por serem versadas nesses ramos do conhe­
gulo, o quadrado, etc. parecem não admitir a graduação. As
cimento. E em função destas coisas em que somos versados que
coisas às quais são aplicadas as designações de triângulo ou
35 somos chamados de conhecedores ou sábios, e nunca pelo gê­
círculo são igualmente triangulares ou circulares. Outras, às
nero ou o conhecimento [em geral], A conclusão é que esses
quais a definição de nem uma nem outra dessas coisas é aplicá­
ramos do conhecimento, por força dos quais somos às vezes
vel, não podem diferir elas mesmas em matéria de graduação. O
descritos como pertencentes a esta ou àquela natureza, devem
10 quadrado não é mais círculo do que o é, por exemplo, o retân­
eles mesmos ser enquadrados na categoria da qualidade e não
gulo. A definição de círculo que demos não se aplica a um ou
naquela da relação. Que se acresça que se alguma coisa é tanto
outro destes. Assim, a menos que, em síntese, a definição da
relação quanto qualidade, nada haverá de absurdo em incluí-la
coisa ou o termo em questão seja apropriado a ambos os obje­
em ambas essas categorias.
tos, não poderão, de maneira alguma, ser comparados. Nem
todas as qualidades, portanto, apresentam graduação.
15 As características anteriormente indicadas não são, de modo IX
algum, pertencentes à qualidade. O que lhe é característico é a 11bl A ação e a paixão apresentam contrários, bem como graus, ou
predicação de semelhante ou dessemelhante com uma referên­ seja, o aquecimento é o contrário do arrefecimento, como tam­
cia exclusiva à qualidade, isto porque uma coisa é semelhante à bém o ser arrefecido o é do ser aquecido, ou, por outro lado, ser
outra no que respeita exclusivamente a uma qualidade. E isto agradado é o contrário de ser desagradado. E desta forma que
que caracteriza a qualidade. admitem os contrários. Adicionalmente, admitem graduação, pois
20 Não deve, entretanto, nos transtornar que alguém refute 5 podes aquecer ou ser aquecido mais ou menos. Segue-se que a
nossas afirmações porque, sendo a qualidade o nosso objeto ação e a paixão podem admitir variações de graduação.
de estudo, incluímos nesta categoria muitos termos relativos, Dessas categorias basta o que foi dito. Da postura ou posição
posto que reconhecemos serem termos relativos tanto estados nós tratamos ao nos ocuparmos antes da relação. Dissemos que
(hábitos) quanto disposições. Ora, ao menos na maioria dos esses termos obtêm seus nomes das posturas que a eles corres­
casos, os gêneros indiscutivelmente são relativos, ao passo que pondem. Quanto às demais categorias, quais sejam, tempo,
25 as espécies particulares não o são. O conhecimento, que é
Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 6 9
A r is t ó t e le s - Ó rganon_
6 8 - E d ip r o

cados por mútua referência e o uso do caso genitivo ou alguma


espaço e estado, são tão claras que não preciso dizer mais do outra construção gramatical, quando são também correlativos.15
que disse no próprio início... que o estado é indicado por ex­
pressões tais como “estar calçado” , “armado” e [expressões] Os opostos, quando contrários, nunca são dependentes uns
similares, enquanto o espaço (lugar) é indicado por frases como 35 dos outros, mas contrários uns aos outros. O bom não é chama­
do, por exemplo, de bom do mau, mas de seu contrário. Analo­
“no Liceu” , etc. gamente, o branco não é conhecido como o branco do preto, mas
como seu contrário. Por conseguinte, estes dois gêneros de oposi-
12a1 ção são completamente distintos entre si. Contrários, contudo, tais
que os sujeitos nos quais são naturalmente encontrados ou dos
quais podem ser predicados, devem conter necessariamente um
ou outro; jamais podem ter intermediários. Quando esta necessi­
15 Dissemos o suficiente no que respeita às categorias por nós
dade estiver ausente, ocorrerá o inverso, e eles apresentarão sem­
propostas, tendo na seqüência que nos ocuparmos dos opostos
pre um intermediário. Por exemplo, pode-se dizer que tanto a
e dos vários sentidos desta palavra. Diz-se que as coisas são
saúde quanto a doença estão naturalmente presentes nos corpos
opostas entre si de quatro modos: primeiro, como o são os cor­
5 de todos os seres vivos e, conseqüentemente, uma ou outra tem
relativos, isto é, um ou outro termo de cada par relativamente ao
que estar presente nos corpos animais. No que tange ao número,
outro; a seguir [,em segundo lugar,] como o são os contrários;
predicamos tanto o ímpar quanto o par de maneira semelhante.
em terceiro lugar, como privativos a positivos (possessivos); em
Conseqüentemente, um ou outro tem que estar sempre presente
último lugar, como afirmativos a negativos. Sumariamente, que-
no número. Ora, a saúde e a doença, o ímpar e o par, não têm
20 ro dizer que os correlativos que são opostos são expressões co­
10 intermediários entre eles. Onde, entretanto, inexiste tal necessida­
mo dobro e metade, enquanto dos contrários que são opostos
de, ocorre o inverso. Por exemplo, tanto a negrura quanto a bran­
podemos tomar, à guisa de exemplos, bom e mau. Dos termos
cura estão naturalmente presentes no corpo, mas nem uma nem
privativos e positivos pode-se exemplificar com cegueira e visão;
,outra precisa estar num corpo, pois nem todo corpo existente tem
ele está sentado e ele não está sentado são exemplos de afirma­
15 que ser negro ou branco. Assim, predicamos bom e mau de um
tivos e negativos. ser humano, bem como de muitos outros sujeitos. Todavia, nem a
Costuma-se explicar os opostos, quando relativos, referindo qualidade de bom nem a de mau, embora deles predicáveis, es­
um ao outro e usando o caso genitivo ou alguma outra construção tão necessariamente nelec presentes. Nem todas as coisas são
25 gramatical.14 Assim, dobro, um termo relativo, é explicado como o boas ou são más. Ora, tais contrários possuem intermediários.
dobro de alguma coisa. E o conhecimento, um termo relativo, se Entre o negro e o branco, por exemplo, há o cinzento, o amarelo
opõe à coisa que é conhecida e é explicado mediante uma refe­ 20 e assim por diante, ao passo que entre o bom e o mau temos o
rência a ela. A coisa que é conhecida é explicada mediante uma que não é nem um nem outro. Alguns intermediários possuem
30 referência ao seu oposto, ao conhecimento: pois a coisa que é vjfk seus próprios nomes reconhecidos. Podemos, mais uma vez, to­
conhecida será conhecida por uma alguma coisa, mais precisa­ mar como exemplos o cinzento, o amarelo e cores semelhantes
mente, pelo conhecimento. Todos os opostos, portanto, são expli- intermediárias entre o branco e o preto. Em alguns casos, entre­
tanto, nomeá-los não é coisa fácil. Nestas situações, temos que
Éèv.’
13. Todo este final do Tratado (Capítulos X a XV), é geralmente considerado espúrio
pela grande maioria dos eruditos. Pu, em outras palavras com algumas variações (o texto em itálico): Também co­
14. O autor, evidentemente, menciona o caso genitivo levando em conta a própria nhecimento e coisa cognoscível são opostos e relativos, pois do conhecimento em
língua grega, na qual existe declinação. Nossa tradução acima, com base no texto s i mesmo se diz conhecimento do cognoscível, e do cognoscível, por seu turno, se
estabelecido por Bekker, equivale a: Opostos como relativos são os que apresen­ j z ele mesmo do seu oposto, o conhecimento, uma vez que o cognoscível se diz
tam a propriedade de serem chamados ou enunciados necessariamente por refe- Jj cognoscível de alguma coisa, ou seja, o conhecimento.
rência ao seu oposto, ou de alguma outra forma em relação a ele. m
Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 71
7 0 - B d i p r o ___________________________________________ A r i s t ó t e l e s - Ó r g a n o n

ções, por exemplo, “ele está sentado” e “ele não está sentado” -
definir o intermediário pela negação de cada um dos extremos, 15 se opõem também os fatos assim expressos, ou seja, “ele está
25 como em nem bom nem mau e nem justo nem injusto, etc. sentado” ou “ele não está sentado” .
Priuativos e positivos se referem a sujeitos idênticos, como a
Positivos e privativos evidentemente não se opõem no mes­
cegueira e a visão são ditas do olho. E geralmente o sujeito no
mo sentido que os relativos se opõem entre si. Quero dizer que
qual o positiuo naturalmente é encontrado ou produzido é o
não os explicamos referindo um ao outro. Não chamamos a
mesmo sobre o qual os pares são predicados. Assim, dizemos
visão de visão da cegueira nem usamos qualquer outra forma de
que qualquer coisa capaz de receber uma positivação é desta
20 proposição que sirva para introduzir uma relação. E a cegueira,
30 despojado quando se acha inteiramente ausente daquilo que
analogamente, não é chamada de cegueira da visão, mas sim de
naturalmente a possui na ocasião em que lhe é natural possuí-la.
privação da visão. Além disso, termos relativos apresentam reci­
Não chamamos, assim, [alguém] de desdentado ou cego só
procidade. Assim, fosse a cegueira um relativo, haveria recipro­
porque carece de dentes ou de visão, mas usamos estes termos
cidade entre a cegueira e a visão. Não é, entretanto, o que ocor-
aludindo a alguém que não possui dentes ou visão, mas que
25 re, pois não classificamos a visão como visão da cegueira.
deveria possuí-los naquela oportunidade [uma vez que seria
natural que os possuísse]. Com efeito, há certas criaturas que Que positivos e privativos, ademais, não se opõem no mes­
desde o nascimento não possuem dentes ou visão e, no entanto, mo sentido que os contrários se opõem entre si parece perfei­
não são conhecidas como desdentadas ou cegas. tamente evidente pelo seguinte: quando os contrários não têm
intermediários, notamos que um ou o outro tem sempre que
35 Possuir faculdades ou destas carecer não é o mesmo que os
30 estar presente no sujeito no qual são naturalmente encontrados
correspondentes positivos e privativos. A visão, por exemplo, é
ou do qual servirão como os predicados. Atendida esta neces­
um positivo (uma posse), enquanto a cegueira, seu oposto, é um
sidade, os termos poderiam não ter intermediários. Saúde e
privativo (uma privação). Visão e ter uisão, contudo, não devem
doença, ímpar e par, foram mencionados anteriormente como
ser considerados idênticos; estar cego não é cegueira. A ceguei­
exemplos. Mas onde os contrários têm um intermediário, não
ra, dissemos, é um privativo, ao passo que estar cego indica
existe essa necessidade. Não é necessário, com efeito, que
uma condição de carência ou privação. Estar cego não é em si
todo sujeito que possa ser receptivo de preto e de branco te­
mesmo um privativo. Que se some a isso que, se cegueira fosse
40 nha, por conseguinte, que ser preto ou branco. O mesmo vale
o mesmo que estar cego, ambas as expressões seriam predicá­
para o frio e o quente; ou seja, nada impede que haja alguma
veis do mesmo sujeito; pode-se dizer de um homem que é cego;
coisa ou outra intermediaria entre o preto e o branco, entre o
entretanto, não se diz de um homem que ele é cegueira.
quente e o frio e outros similares. (Ademais, já constatamos
Tal como positivos e privativos são opostos, o são também que aqueles contrários possuíam um intermediário onde não
12b1
possuir uma faculdade e estar num estado de privação. Estamos constituía uma necessidade um dos dois ser inerente a tudo
diante do mesmo tipo de oposição, pois estar cego e ter visão se capaz de recebê-los.) Uma exceção deve, contudo, ser feita
opõem, tal como cegueira e visão. onde um contrário é naturalmente inerente. Ser quente é ine­
rente ao fogo, como ser branca é inerente à neve. Nestes ca­
O que é afirmado numa proposição não é por si só uma afir­
sos, um dos contrários tem forçosamente que estar definitiva­
mação, nem o que é negado, uma negação. A afirmação é uma mente presente nas coisas - mas não um ou o outro. E incogi-
proposição afirmativa, e a negação, uma proposição negativa. tável o fogo ser frio ou a neve ser negra. Conseqüentemente,
Numa proposição, o que é afirmado ou negado não é proposi­ 13al conclui-se que um dos contrários não precisa estar presente em
ção. A despeito disso, as coisas que afirmamos e negamos são todas as coisas que possam ser a ele receptivas. Está presente
chamadas de opostos no mesmo sentido porque dispomos do
necessariamente somente nos sujeitos aos quais é inerente. E
mesmo gênero de antítese. Tal como as próprias proposições
cumpre acrescer que neste caso é definitivamente um único
afirmativa e negativa se opõem - observe-se as duas proposi-
A r i s t ó t e l e s - Ó rgano^ Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 7 3
7 2 - E d ip r o

dos dois contrários que está necessariamente presente no sujei­ [de melhoria], havendo tempo para tanto, ele acabará por
to, e não um outro indiscriminadamente. transformá-lo inteiramente.

No que concerne aos positivos e privativos, nenhuma das a- No que diz respeito a positivos e privativos, entretanto, não
firmações precedentes se revela verdadeira. Os sujeitos a estes pode haver mudança de ambas as maneiras, isto é, recíproca,
receptivos não se acham restringidos a ter um ou o outro [dos ou seja, se da positivação pode-se passar para a privação, desta
5 dois opostos], pois o que carece ainda de potência para receber 35 não é possível passar à primeira. Uma vez tornado cego, alguém
a visão não é qualificado nem de vidente nem de desprovido de jamais recuperará sua visão; igualmente alguém que se tornou
visão. Portanto, positivos e privativos não devem ser classifica­ calvo não poderá posteriormente recuperar seus cabelos, bem
dos com aqueles contrários que não admitem intermediários. como alguém que tenha perdido seus dentes nunca poderá mais
Mas tampouco devemos classificá-los entre os contrários que tarde fazer crescer uma nova dentição.
possuem intermediários porque um ou o outro, por vezes, tem Afirmações e negações não se opõem, obviamente, em ne­
que formar parte de cada sujeito possível. Se um ser deve, por 13b1 nhum desses modos que já abordamos. E aqui e exclusivamen­
10 natureza, ter visão, diremos que é vidente ou que é cego inde­ te aqui, com efeito, que um oposto tem que ser forçosamente
terminadamente e não necessariamente, mas dependendo do verdadeiro, ao passo que o outro tem sempre que ser falso. No
caso que possamos ter diante de nós; não é necessário que seja tocante aos demais opostos (contrários, correlativos, positivos e
vidente ou cego. O que é necessário é que esteja em um estado privativos), isso, de nenhuma forma, apresenta validade. As­
ou no outro. Mas [afinal] não vimos já que, no que tange a con­ sim, no caso da saúde e da doença, que são contrários, nem
trários que têm intermediários, nem um nem o outro precisam uma nem outra é verdadeira, como nem uma nem outra é
ser encontrados em cada sujeito possível, mas que definitiva­ falsa. Se tomarmos os correlativos [digamos,] dobro e metade,
mente um dos componentes do par tem que estar presente em nem um nem outra é verdadeiro, nem um nem outra é falso. O
15 alguns daqueles sujeitos? Do que precede se evidencia, portanto, mesmo ocorre com positivos (possessivos) e privativos, como a
que os positivos e os privativos não se opõem entre si da mesma 10 visão e a cegueira. Em síntese, a menos que as palavras sejam
maneira que o fazem os contrários. combinadas, o verdadeiro e o falso não são aplicáveis. E todos
No que toca aos contrários, é também correto asseverar que os opostos antes mencionados não passam de termos não
20 uma vez o sujeito permaneça idêntico, é possível ocorrer mu­ combinados.
dança entre eles, salvo no caso de apenas um deles não ser,
Todavia, quando palavras que são contrários constituem par­
por natureza, inerente ao sujeito, a exemplo do quente que é
tes de proposições opostas como afirmativas e negativas, parece­
inerente ao fogo. [Não resta dúvida que] é possível que aquilo
ria que estas mereceriam especialmente tal característica. “Só­
que é saudável se torne doente, que o que é branco se torne,
crates está doente” é o contrário de “Sócrates está bom” . Entre­
com o tempo negro, que o que é frio se torne, por sua vez,
tanto, mesmo neste caso não podemos sustentar que uma pro­
quente; e o bom se torna mau, o mau se torna bom, posto que
posição deve sempre ser verdadeira e a outra deve sempre ser
o homem mau, uma vez inserido em novos modos do viver e
falsa, pois se Sócrates realmente existe, uma é verdadeira e a
25 do pensar, é suscetível de aprimoramento, ainda que escassa­ outra é falsa. Mas se Sócrates não existe, tanto uma quanto a
mente. E se tal homem aprimorar-se uma vez, ainda que ape­
outra são falsas. Dizer “ele está doente” será falso, e dizer “ele
nas escassamente, poderá, está claro, efetuar grandes progres­
está bom” será falso, se nenhum Sócrates existir.
sos ou mesmo e com efeito mudar completamente, porque
embora no instante inicial ele obtenha uma melhoria modestís­ Quanto aos positivos (possessivos) e privativos, entretanto, se
sima, um homem se torna sempre mais impulsionado e incli­ o sujeito não existir, então nem uma proposição nem outra será
nado para a virtude. Concluímos, naturalmente, que ele pro- verdadeira. Se o sujeito existir, mesmo assim uma não será sem­
30 gredirá cada vez mais. E com a continuidade deste processo . pre verdadeira, e uma falsa. “Sócrates tem visão” , por exemplo, é
74 - E d ip r o A r is t ó t e le s - Ór g a n o n Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 7 5

o oposto de “Sócrates é cego” , no sentido em que oposto foi mo indivíduo, se um dos contrários existisse, o outro não pode­
usado na sua aplicação à privação e posse. Ora, se Sócrates ria então existir, pois sendo estar ele saudável um fato, estar ele
realmente existe, não é necessariamente o caso de uma proposi­ doente não poderia também constituir um fato.
ção ser verdadeira, e uma falsa, pois se ele não estiver ainda
Um outro ponto também se evidencia: os sujeitos das quali-
25 naturalmente apto a ter visão, as duas proposições serão falsas, 15 dades contrárias têm necessariamente a mesma espécie ou gê­
e se ele não existir, as duas proposições serão igualmente falsas,
nero. O sujeito da saúde e da doença é o corpo de algum ser
quais sejam, a de que tem visão e a de que é cego. vivo; aquele da brancura e da negrura é um corpo que dispensa
Voltando à afirmação e negação, podemos dizer destas em maiores especificações. De modo análogo, a justiça e a injustiça
todos os casos que uma tem que ser falsa, e a outra verdadeira, surgem nas almas humanas.
exista ou não o sujeito, pois se Sócrates realmente existe, “ele
Além disso, duas qualidades contrárias pertencem sempre a
30 está doente” ou “ele não está doente” tem que ser verdadeira;
um gênero ou, então, aos gêneros contrários, quando não são,
“ele está doente” ou “ele não está doente” tem que ser falsa. E o
20 elas mesmas, gêneros. O branco, por exemplo, e o preto perten­
mesmo ocorre se ele não existe: se não existe, é falso declarar
cem a um gênero idêntico: a cor. A justiça, por outro lado, se
“ele está doente” , porém verdadeiro declarar “ele não está do­
encaixa em dois gêneros contrários, aqueles aos quais damos os
ente” . Assim, que um dos dois tem que ser verdadeiro e o outro
nomes de virtude e vício. O bem e o mal não pertencem a
tem que ser falso em todos os casos valerá somente para aqueles
25 quaisquer gêneros, sendo eles próprios gêneros reais que encer­
35 opostos que, no mesmo sentido, se opõem como proposições ram espécies subordinadas.
afirmativa e negativa.

XII
XI
Há quatro sentidos distintos nos quais podemos chamar uma
O contrário de bem é necessariamente o mal, o que pode ser
coisa de anterior18 em relação a outra. Sempre que usamos o
I4al demonstrado por indução.16 O contrário da saúde é a doença, o
termo anterior na sua acepção própria e primordial, é o tempo
da coragem, covardia, e assim por diante. O contrário, contudo,
que temos em mente. Assim, qualificamos uma coisa de mais
de um mal é um bem ou um mal. Por exemplo, a deficiência é
velha, mais antiga do que alguma outra coisa, querendo dizer
um mal; seu contrário, o excesso, é um mal. Mas a mediania, que o tempo que lhe diz respeito foi mais longo.
que é contrária a uma e a outro num mesmo grau, é um bem;17
5 encontrarás, contudo, poucas destas exceções e geralmente é 30 Em segundo lugar, [o termo] anterior pode ser usado quando
verdadeiro ser o bem o contrário do mal. a ordem de ser é fixa e não suscetível de ser invertida. O um,
entre os números, é anterior ao dois, pois uma vez que existe o
Não se segue necessariamente que uma vez que exista um
dois segue-se a existência necessária do um. A existência do um,
dos contrários, então o outro deva também existir. Supõe que
pelo contrário, não implica a do dois. E a ordem de ser, em
todas as coisas se tornassem sadias. Com isto haveria saúde,
conseqüência, não pode ser alterada e invertida. Assim, de duas
não doença. Ou supõe que todas as coisas se tornassem bran-
35 coisas chamamos de anterior a precedente numa seqüência
10 cas. Haveria então somente branco e não negro. Ademais, se irreversível.
Sócrates doente é o contrário de Sócrates bom (saudáuel) e
ambos os contrários não podem existir a um só tempo no mes­ Em terceiro lugar, empregamos o termo anterior referindo-nos
a qualquer tipo de ordem, caso das ciências e dos discursos. Nas
ciências que empregam a demonstração temos na sua ordem o
16. E T ta y w y r i (epagogê).
17. Ver a teoria da mediania na Ética a Nicômaco (presente também em Clássicos
Edipro). 8- ...Jtpoxepov... (proterorí).
Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 7 7
A r is t ó t e l e s - Ó rg a n o w
7 6 - E d ip r o
mesmo tempo, pois nenhuma delas neste caso é anterior ou
que é anterior e o que é posterior.19 [Na geometria,] os elementos posterior a outra. O significado da simultaneidade está no tem­
I4bl (pontos, linhas, etc.) são anteriores às proposições ou problemas po. [Mas] aplicamos [a palavra] simultâneo, na natureza, às
(e, analogamente, no que chamamos de gramática, as letras são coisas cujo ser de uma necessita o ser da outra, do que é exem­
anteriores às sílabas). E também no discurso o proêmio será ante­ plo dobro e metade, já que há neste caso mútua dependência. A
rior à narrativa. 30 existência do dobro acarreta necessariamente aquela da metade;
Além dos três sentidos acima mencionados, diz-se ser natural­ a da metade aquela do dobro. E nem uma nem outro é a causa
mente anterior tudo o que é melhor, mais estimável. Assim, as da existência do outro.
5 pessoas ordinárias, ao aludirem àqueles aos quais estimam ou são Espécies que originárias do mesmo gênero opõem-se umas
objeto de sua afeição, os descrevem como vindo anteriormente às outras também são denominadas simultâneas por natureza.
(como tendo prioridade) em relação aos outros ou ocupando um Refiro-me àquelas, resultantes da mesma divisão, denominadas
lugar anterior (prioritário) em seus corações. Entretanto, este em­ 35 coordenadas, quer dizer a espécie alada, a aquática e a terrestre.
prego da palavra parece o mais estranho de todos. Estas espécies pertencem ao mesmo gênero e são coordenadas,
Estes - penso - são os quatro sentidos distintos nos quais uma vez que o animal [em geral] é nelas dividido, ou seja, em
10 podemos usar o termo anterior. E possível, contudo, que haja ave, animal terrestre e animal aquático. E nenhuma delas é an­
um outro, além destes que já indicamos, porque quando de isai terior ou posterior, mas considerada simultânea por natureza;
duas coisas a existência de uma ou outra implica ou necessita a cada uma delas, inclusive, pode se dividir em subespécies. As­
existência da outra, aquela coisa - que de algum modo é a cau­ sim, as coisas originárias de divisão idêntica do gênero idêntico
sa -, por conseguinte, pode ser com justiça considerada como serão também simultâneas por natureza. Os gêneros, contudo,
naturalmente anterior à outra. E evidente que tais casos podem 5 são sempre anteriores às espécies, pois neste caso a ordem de
ser encontrados. A existência de um ser humano, por exemplo, ser não pode ser invertida; por exemplo, se há a espécie aquáti­
15 requer a verdade da proposição na qual afirmamos sua existên­ ca, há o gênero animal; entretanto, se há o gênero animal, não
cia. Vale também o inverso, pois se ele existe, conseqüentemen­ significa que deve haver necessariamente a espécie aquática.
te a proposição que afirma tal fato será verdadeira. Se a propo­ Deste modo, chamamos de simultâneo por natureza as coisas
sição, reciprocamente falando, for verdadeira, então o homem cujo ser de uma requer o de outra, mas sem que umas ou outras
aludido necessariamente existirá. A proposição verdadeira, en­ 10 sejam causas umas das outras e, também, aquelas espécies co­
tretanto, não é, de modo algum, a causa da existência do tal ordenadas e opostas pertencentes a um único e mesmo gênero.
20 homem assim existente; e, todavia, sua existência pareceria de Também usamos [a palavra] simultâneo no seu sentido simples
uma maneira ou outra a causa da verdade da verdadeira propo­ e primordial para as coisas que passam a existir ao mesmo tempo.
sição, uma vez que esta última é classificada de verdadeira ou
falsa na medida em que o ser humano existe ou não. A conclu­
são é a de que parece que utilizamos o termo anterior em cinco
acepções diferentes.
Há seis tipos daquilo que chamamos de movimento:21 gera­
ção, corrupção,22 aumento, diminuição, alteração e deslocamen-
XIII
[O termo] simultâneo é usado na sua significação primordial
25 e mais estrita daquilo, ou melhor, das coisas que vêm a set20 ao 1- -κινήσεις... (kinéseis).
» ...φθορά (fthora): o conceito grego inclui o nosso de destruição, mas pré-inclui
} adicionalmente o de dissolução ou corrupção, que é o processo (movimento) que
19. ...ύστερον... (üsteron). resulta na destruição.
20. γενεσις εστιν (genesis estin): ...são geradas....
Ó r g a n o n - C a t e g o r ia s E d ip r o - 7 9
ApiSTftTELES - ÓRGANON
7 8 - E d ip r o
mento ascendente para o descendente, o descendente para o
to .23 Salvo por uma única exceção, é evidente que todas estas ascendente e similares. Mas no que tange ao movimento restante
[formas de movimento] são distintas entre si. Corrupção não é entre aqueles mencionados por nós, não seria fácil indicar qual é
geração; aumento não é diminuição nem tampouco significa realmente seu contrário. E, com efeito, parece não ter nenhum, a
deslocamento. E o mesmo ocorre no tocante aos demais. No não ser que se trate aqui do “repouso qualitativo” ou da “mudan-
caso da alteração, contudo, alguns poderiam objetar que um 10 ça para a qualidade contrária” , tal como dissemos que o desloca­
sujeito, quando alterado, o é por um dos outros cinco movimen- mento tinha como contrário a imobilidade (repouso local) ou uma
20 tos. E, no entanto, não é realmente assim, pois no que concerne mudança para um lugar contrário. Alteração significa mudança de
a todas ou, ao menos, à maioria das afeições (paixões), as alte­ uma qualidade. Portanto, opomos ao movimento qualitativo o
rações em nós produzidas nada têm em comum com aqueles repouso qualitativo ou a mudança para uma qualidade contrária.
outros movimentos que mencionamos; aquilo que é afetado não 15 Assim, o preto e o branco serão contrários e, por conseguinte, o
precisa ser aumentado ou diminuído ou sofrer qualquer proces- tomar-se um será contrário ao tomar-se o outro. Há aqui a mu­
25 so semelhante. Conclui-se que a alteração é distinta de todas as dança de uma qualidade, o que implica alteração, conseqüente­
outras espécies de movimento, pois se fosse idêntica a qualquer mente, para uma qualidade contrária.
outro, o alterado seria de imediato também aumentado ou di­
minuído, ou sofreria a ação de qualquer outro movimento. Mas
isto não ocorre necessariamente. Ademais, seja lá o que houves­
se sido aumentado ou submetido a algum outro movimento,
XV
teria sido necessariamente alterado. E há coisas que aumentam
e nem por isso são alteradas. Por exemplo, se, no que toca a um [O verbo] ter apresenta muitas significações. Usamo-lo refe-
30 quadrado, um gnomonZi é adicionado, o quadrado será aumen­ rindo-nos a estados, disposições e também a todas as demais
tado em seu tamanho, mas não sofrerá alteração, permanecen­ qualidades. E, assim, dizemos que temos virtude, que temos este
do um quadrado como antes. O mesmo ocorre com todas as ou aquele conhecimento. Então é usado com uma quantidade,
formas semelhantes. Conclui-se que a alteração e o aumento são 20 referindo-se [por exemplo] à altura de alguém. Dizemos que
alguém tem três ou quatro côvados de altura. E empregado,
duas espécies distintas de movimento.
ademais, referindo-se ao vestuário, quando dizemos que alguém
15bl O repouso é, em sentido lato, o contrário do movimento. Mas tem26 um manto ou uma túnica. Além disso, usamo-lo com res­
tipos particulares de movimento têm cada um seu contrário parti­ peito a coisas que temos em alguma parte do corpo, como um
cular. Assim, pode-se dizer que a geração tem por seu contrário a
anel no dedo. Empregamo-lo referindo-se a partes do corpo:
corrupção, o aumento tem a diminuição, o deslocamento tem a alguém tem uma mão ou um pé. E usado referindo-se a um
imobilidade;25 quanto a este caso, a mudança que se afigura mais
25 recipiente: diz-se de um jarro que este tem27 vinho; de uma me­
5 contrária é a mudança em direção contrária. Assim, o desloca-
dida, que esta tem trigo.28 E nestes casos estamos pensando no
que está contido no recipiente. Ainda, empregamos ter referin­
do-nos à posse, ao dizer que esta ou aquela pessoa tem uma
23. ...τοπον μεταβολή... (topon metabolê): literalmente mudança de lugar.
24. Γνωμων (gnomon) - o sentido aqui é especifico: em geometria, a figura (parte de casa ou um campo.
um paralelogramo ou quadrado) que resta após a remoção de um paralelogramo
As pessoas dizem que um homem tem uma mulher e uma
(quadrado) similar de um de seus cantos. mulher, analogamente, tem um marido. Este sentido é, contudo,

26. Isto é, veste, enverga, usa.


27. Isto é, contém.
28. Ver nota anterior.
25. τοπον ηρεμία (topon eremia): repouso local.
a r ir t ó t e le s - Ó r g a n o n
8 0 - E d ip r o

muito artificial. Quando dizemos que um homem tem uma mu-


30 lher, queremos dizer meramente que ele vive com ela.
É possível que haja mais sentidos para ter. Entretanto - creio -
as acepções costumeiras estão indicadas no resumo apresentado.

D a In t er p r et a ç ã o
16al Principiemos por definir o nome e o verbo e, em seguida, ex­
plicar o que se entende por negação, afirmação, sentença e pro­
posição.
Os sons emitidos pela fala são símbolos das paixões da alma,
5 [ao passo que] os caracteres escritos [formando palavras] são os
símbolos dos sons emitidos pela fala. Como a escrita, também a
fala não é a mesma em toda parte [para todas as raças humanas].
Entretanto, as paixões da alma, elas mesmas, das quais esses sons
falados e caracteres escritos (palavras) são originalmente signos,
são as mesmas em toda parte [para toda a humanidade], como o
são também os objetos dos quais essas paixões são representa­
ções ou imagens. Destes temas, contudo, me ocupei em meu
tratado a respeito da alma;30 dizem respeito a uma investigação
diversa da que temos ora em pauta.
10 Como por vezes assomam pensamentos em nossas almas de­
sacompanhados da verdade ou da falsidade, enquanto assomam
por vezes outros que necessariamente encerram uma ou outra,
coisa idêntica ocorre em nossa linguagem, uma vez que a combi­

. ΠΕΡΙ ΕΡΜΗΝΕΙΑΣ (Peri Hermeneias). O verbo ερμηνευοι (hermeneüo) significa


exprimir o pensamento mediante a palavra. O assunto fundamental de Aristóteles
neste tratado é precisamente a linguagem na sua relação com o pensamento,-co­
mo tradutora ou intérprete deste.
„■A referência parece ser ao Da alma, III, 3-8.
A r is tó te le s - Órg ano n Ór g a n o n - D a In t e r p r e ta ç ã o
8 2 - E d ip r o E d ip r o - 8 3

nação e a divisão são essenciais para que se tenham a verdade e como esta, que não são nem negações nem frases [afirmativas].
a falsidade. Um nome ou um verbo por si mesmo muito se asse­ Classifiquemo-las, por falta de melhor [opção], de nomes indefi­
melha a um conceito ou pensamento que não é nem combinado nidos, uma vez que as utilizamos com todos os tipos de coisas:
15 nem dividido. Tal é o caso de homem, por exemplo, ou branco, ao que não é bem, como ao que é.
se enunciados sem qualquer acréscimo. Não é verdadeiro nem
I6bl “De Fílon” , “para Fílon” e outras expressões [análogas] são
falso. E uma prova disto reside no fato de que bode-cervo ,31 na
casos34 dos nomes, e não nomes. De outra maneira, definiría­
medida em que significa alguma coisa, não encerra em si nem
mos todos esses casos como o próprio nome é definido; mas
verdade nem falsidade, a menos que adicionalmente dele predi­
quando lhes são acrescentados é, era ou será, não formam,
ques o ser ou o não ser, seja geralmente (isto é, sem conotação
então, proposições que são verdadeiras ou falsas, como o nome,
definida de tempo), seja num tempo particular.
ele mesmo, sempre forma, pois “é de Fílon” não pode por si
5 mesmo constituir uma proposição verdadeira ou falsa, e nem
II tampouco, “não é de Fílon” .
O nome é um som que possui significado estabelecido so­
mente pela convenção, sem qualquer referência ao tempo, sen­
do que nenhuma parte dele tem qualquer significado, se consi-
III
20 derada separadamente do todo. Toma o nome próprio Kallipos;
o ipos aqui é destituído de qualquer significado isolado, como O verbo é o que não apenas transmite um significado parti­
teria na expressão kalos ipos.32 E necessário, contudo, observar cular, como também possui uma referência temporal. Nenhuma
que os nomes simples diferem dos compostos. Enquanto, no parte por si mesma tem um significado. Ele indica sempre que
caso dos primeiros, as partes são completamente desprovidas de alguma coisa é dita ou predicada de outra coisa. Que eu expli­
25 significado, naquele dos segundos possuem um certo significado, que o que entendo por “como também possui uma referência
embora não separadamente do todo. Tomemos como exemplo temporal” . Por exemplo, saúde é um nome; está saudável é um
epaktrokeles. O nome keles não possui nenhum significado iso­ verbo, não um nome, pois além de transmitir seu próprio signifi­
ladamente, mas apenas como parte do todo.33 cado, indica que o estado significado (ou seja, a saúde) existe
agora. Portanto, o verbo é uma indicação de alguma coisa pre­
J á dissemos que um nome tem este ou aquele significado por
dicada de alguma coisa, quer dizer, de uma alguma coisa predi-
convenção. Nenhum som é naturalmente um nome: converte-se
10 cada de um sujeito ou ne*ste encontrada presente.
em um tornando-se um símbolo. Ruídos inarticulados significam
alguma coisa - como aqueles produzidos por animais selvagens. “Está não-doente” , “está não-bem” , etc não deveriam ser
Mas nenhum ruído deste tipo é um nome. - considerados verbos. Ainda que certamente apresentem a refe­
rência temporal e atuem constantemente como predicados, des­
30 Não-homem e similares não são nomes, e desconheço quais­
conheço qualquer nome reconhecido [para essas expressões].
quer nomes reconhecidos que se possam atribuir a expressões
Classifiquemo-las, na falta de [um nome] melhor, de verbos
15 indefinidos, uma vez que as usamos com todos os tipos de coi­
sas, tanto as que não são quanto as que são.
31. Τραγέλαφος (tragelafos), animal mitológico constituído por metade bode, metade
cervo. “Ele estava saudável” ou “ele estará saudável” não deveria,
32. Aristóteles, evidentemente, exemplifica com termos gregos. O primeiro (Καλλιππος) é
de igual modo, ser considerado verbo. Eu o chamaria de tempo
um nome próprio, e kalos ipos (καλός ίππος) significa bom cavalo, belo cavalo. Em
português poderíamos exemplificar com o nome próprio Montenegro, no quaí verbal. Neste sentido, verbos e tempos verbais diferem: o verbo
monte carece de significação isoladamente. Entretanto, na expressão composta
montenegro, monte já tem significação.
33. Επακτροκελης quer dizer barco-pirata; κελης: barco, pequeno navio. O grego antigo, como o latim e o alemão, é uma língua declinada.
A r i s t ó t e l e s - Ór g a n o n Ór g a n o n - D a In te r p r e ta ç ã o
8 4 - E d ip r o E d ip r o - 8 5

indica o presente, enquanto os tempos verbais indicam todos os V


tempos, exceto o presente.
Os verbos, por si mesmos e isoladamente, são nomes e signi-
Das proposições simples, o primeiro tipo é a afirmação sim­
20 ficam alguma coisa, pois aquele que fala interrompe seu proces­
ples,36 o segundo a negação simples.37 As demais proposições
so do pensar e o ouvinte faz uma pausa. Entretanto, não che­ simples o são mediante conectivo.
gam a expressar juízos positivos ou negativos, pois mesmo os
infinitivos ser, não ser e o particípio sendo somente são indicati­ 10 Todas as proposições requerem a presença de um verbo ou
vos de fato se e quando alguma coisa complementar é acrescida. da flexão verbal, pois mesmo a definição de homem não consti­
Eles mesmos nada indicam, implicando uma cópula ou síntese, tui ainda uma proposição, a não ser que é, era, será, ou algo
25 dificilmente por nós concebível separadamente das coisas assim deste tipo seja acrescentado. Mas alguém poderia indagar como
combinadas.35 é sustentável que a expressão “animal pedestre bípede” seja una
15 e não múltipla. O fato das palavras serem proferidas em suces­
são não as torna uma unidade. Entretanto, essa questão diz
respeito a uma investigação distinta da presente.
A sentença é fala dotada de significação, sendo que esta ou As proposições simples são as que indicam um fato singular
aquela sua parte pode ter um significado particular de alguma (uno) ou que são singulares (unas) em virtude de uma conjun­
coisa, ou seja, que é enunciado, mas não expressa uma afirma­ ção. Proposições múltiplas ou compostas são as que indicam
ção ou uma negação. Que eu o explique mais minuciosamente. não unidade, mas multiplicidade, ou que apresentam suas partes
Tomemos a palavra homem. Com certeza esta encerra um signi- sem conjunção.
30 ficado, porém nem afirma nem nega; é preciso que algo lhe seja
O nome ou o verbo pode ser classificado por nós como mera
acrescentado para que possa afirmar ou negar. Entretanto, as
palavra ,38 pois é impossível utilizarmos meros nomes ou verbos
sílabas da palavra homem são destituídas de significado. O
ao exprimir ou enunciar alguma coisa com a finalidade de cons­
mesmo ocorre com a palavra rato, da qual -to não possui signi­
tituir uma proposição, o que ocorre quer quando expressamos
ficado algum, não passando de um som sem significação. Mas
uma opinião espontânea, quer quando alguém nos propôs uma
vimos que, nos nomes compostos, as partes particulares possuem
questão à qual· estamos dando uma resposta:
um significado, ainda que não separadas do todo.
20 E assim repetimos que um tipo de proposição39 é simples, in­
I7al Entretanto, embora toda sentença tenha significado, ainda
cluindo todas as que afirmam ou negam uma coisa ou outra [de
que não como um instrumento da natureza, mas, como obser­
um sujeito], enquanto o outro é composto, quer dizer, composto
vamos, por convenção, nem todas as sentenças podem ser clas­
de proposições simples. Uma proposição simples, mais precisa­
sificadas como proposições. Chamamos de proposições somente
mente, é um enunciado falado com significado que afirma ou
as que encerram verdade ou falsidade em si mesmas. Uma pre­
nega a presença de alguma outra coisa num sujeito no tempo
ce, por exemplo, é uma sentença, porém não encerra nem ver­ passado, presente ou futuro.
dade nem falsidade. Mas passemos isto por alto, uma vez que
seu estudo diz respeito mais propriamente ao âmbito da retórica
5 ou da poética. O nosso exclusivo objeto de estudo nesta investi­
gação é a proposição.
f Kcrox<jxxoiç ( catáfasis).
I aw xjxxaiç (apófasis).
«tooiç (fasis).
35. O verbo ser aqui é considerado apenas como verbo de ligação, excluindo a sua
acepção existencial e ontológica. •ajtoíKxvoíç (apófansis).
Ór g a n o n - D a In t e r p r e ta ç ã o E d ip r o - 8 7
A r is t ó te le s - Ó rg ano n
8 6 - E d ip r o _________________________________ ____________________________ _
homem não é branco” , etc. O sujeito ou homem é universal e,
VI no entanto, as próprias proposições não são enunciadas de ma­
25 Entendemos por afirmação a proposição que afirma alguma neira universal, pois nem uma nem outra contém a palavra todo.
coisa de alguma coisa, e entendemos por negação a proposição O sujeito não é um universal por ser referido a um todo, mas
que nega alguma coisa de alguma coisa. todo, aplicado ao sujeito, confere à proposição inteira sua uni­
versalidade absoluta. No entanto, ainda assim, se tanto o sujeito
Uma vez que é possível afirmar e negar tanto a presença da­
quanto o predicado forem usados na sua extensão máxima, a
quilo que está presente quanto a presença daquilo que está au­
proposição resultante será falsa, uma vez que, de fato, nenhuma
sente, o que pode ser feito mediante referência aos tempos que
15 afirmação poderia, nestas circunstâncias, ser verdadeira. “Todo
30 estão fora do presente, tudo o que se possa afirmar é possível
homem é todo animal” serviria como uma boa ilustração disto.
também negar, e tudo o que se possa negar é possível também
afirmar. Conclui-se que toda afirmação terá sua própria negação Chamo de opostos contraditórios a uma afirmação e uma
oposta, tal como toda negação terá sua própria afirmação opos­ negação quando aquilo que uma indica universalmente, a outra
ta. Chamaremos de contradição40 o par formado por uma pro­ indica não universalmente.
posição afirmativa e uma negativa em oposição, entendendo Exemplos:
por proposições opostas as que realmente enunciam sempre os
Todo homem é branco se opõe a Algum homem não é branco.
35 mesmos predicados e sujeitos, de maneira não meramente ho­
mônima [de sorte a gerar ambigüidade], Estas e algumas outras Nenhum homem é branco se opõe a Algum homem é branco.
condições são necessárias para podermos encarar as objeções No que tange aos opostos contrários, a afirmação e a nega-
[sutis e] problemáticas dos sofistas. 20 ção igualmente apresentam um caráter universal, o sujeito sen­
do, em ambos os casos, tomado universalmente. Assim:
Todo homem é branco ou Todo homem é justo é o contrário,
VII
e não o contraditório, de Nenhum homem é branco ou Nenhum
Entre as coisas, há as universais e as particulares, e isso em homem é justo.
função de ser sua natureza tal que possam ser (as universais) ou
Tratando-se dos contrários, notamos que ambos [na sua o-
não ser (as particulares) predicados de muitos sujeitos; das uni-
25 posição] não podem ser ao mesmo tempo verdadeiros. Não
I7bl versais é exemplo homem, e das particulares, Calias. obstante, seus contraditórios às vezes são ambos verdadeiros,
As proposições afirmativas e negativas necessitam às vezes ainda que seu sujeito seja uno e o mesmo. Assim:
ter sujeitos universais; outras vezes, sujeitos particulares. Supon­
Algum homem não é branco e Algum homem é branco são
do que estabeleçamos duas proposições, uma afirmativa e uma
proposições verdadeiras. Todavia, no que respeita aos opostos
negativa, ambas universais na sua forma e tendo por sujeito um
contraditórios que têm universais por sujeitos e possuem caráter
universal, teremos duas proposições contrárias. Por “ambas
universal, um terá que ser verdadeiro, ao passo que o outro,
universais na sua forma e tendo por sujeito um universal” en-
falso. Isto também vale para proposições que apresentam termos
5 tendo proposições como “todo homem é branco” , por um lado,
singulares e particulares como seus sujeitos, como em “Sócrates
e “nenhum homem é branco” , por outro. Quando, contudo, as
é branco” e “Sócrates não é branco” . Quando, entretanto, as
duas proposições, ainda que tenham um sujeito universal, não
duas proposições não têm caráter universal, ainda que [sejam]
têm caráter universal, não podemos classificá-las como contrá­
sobre universais, nem sempre nos defrontamos com o caso de
rias, embora ocasionalmente, talvez, o significado seja contrário.
ser uma delas verdadeira e a outra, falsa, pois decerto podemos
10 Tomemos, à guisa de exemplo disto, “o homem é branco” , “o
declarar muito verdadeiramente que “o homem é branco” e “o
homem não é branco” , e que “o homem é belo” e “o homem

40. avT«t>aaiç (antífasis).


Ó r g a n o n - D a In te rp re ta ç ã o E d ip r o
88-E d ip r o A r is tó te le s - Ó r g a n o n

e seja a proposição universal ou não. É possível indicarmos


não é belo” . Se feio, um homem não é belo; e tampouco é ain­
exemplos abaixo uma vez que branco apresenta um significa
da belo se apenas tende a tornar-se belo. Esta concepção de
único.
cunho sumário pode, à primeira vista, chocar a razão, visto que
35 “o homem não é branco” pareceria o equivalente a “nenhum
homem é branco” . Mas, com efeito, o significado aqui não é Todo homem é branco. Algum homem não é branco
idêntico, nem tampouco ambas as proposições são necessaria­
mente verdadeiras ou falsas ao mesmo tempo. E evidente que a 0 homem é branco. 0 homem não é branco.
negação correspondente a uma afirmação simples ela mesma Nenhum homem é branco. Algum homem é branco.
tem também que ser simples. A negação tem que negar exata­
mente aquilo que a afirmação afirma de um sujeito idêntico. Há
I8a1 o requisito adicional dos sujeitos serem ambos universais ou Se, contudo, um nome tiver dois significados que não
particulares e também de ambos serem empregados ou não combinam para constituir um, a afirmação, ela mesma, deix;
empregados em sua extensão máxima. “Sócrates é branco” e de ser una. Se, por exemplo, atribuímos o nome roupa igu
“Sócrates não é branco” constituem, desta forma, um par. Mas, 20 mente a um cavalo e a um homem, resulta que [a proposiç
se alguma coisa mais for negada ou o próprio sujeito for muda­ afirmativa] “A roupa é branca” não será uma afirmação ui
do, ainda que o predicado possa ainda permanecer, a negação mas dupla, bem como [a proposição negativa] “A roupa nãc
não será uma proposição oposta, mas distinta. A proposição branca” não será uma negação una, mas dupla, pois a propc
5 “Todo homem é branco” opõe-se “Algum homem não é bran­ ção “A roupa é branca” significa realmente “O cavalo e o \
co” ; a “Algum homem é branco” , “Nenhum homem é branco” ; mem são ambos brancos” , proposição que, por sua vez, com
a “O homem é branco” , “O homem não é branco” . ponde a dizer que “O cavalo é branco” e “O homem é branc<
25 E se estas [proposições] possuem mais do que um significadc
A título de síntese do exposto precedentemente, demonstra­
não constituem, efetivamente, uma única proposição, se concl
mos que uma negação simples se opõe a uma afirmação simples
rá que a proposição “A roupa é branca” tem, ela mesma, que
enquanto contraditório, e explicamos também quais são os con­
mais do que um significado ou, em caso contrário, nada sign
traditórios. Da classe das proposições contraditórias distinguimos
ca, já que nenhum homem é um cavalo.42 E, em consonâm
posteriormente os contrários e explicamos quais são estes.41
com isso, nem mesmo aqui, de duas proposições opostas cor
10 Demonstramos, ademais, que de dois opostos nem sempre um
contraditórios>uma é necessariamente verdadeira e outra nec<
tem que ser verdadeiro, e o outro, falso; apresentamos as razões sariamente falsa.
para isso e expusemos as condições nas quais um será falso, se
o outro for verdadeiro.
IX

VIII No que toca a coisas presentes ou passadas, as proposiçõ


sejam afirmativas ou negativas, são necessariamente verdadei
Uma proposição é singular ou una quando afirma ou nega
ou falsas. E quanto às proposições contraditórias sobre univ
uma única coisa de alguma coisa, seja o sujeito universal ou não
30 sais que apresentam sujeito universal, também necessariamei
uma é verdadeira e a outra, falsa, ou então, como observa
41. O texto de Bekker se mostra aqui (trecho em itálico) seriamente ambíguo, a não ser antes, possuem sujeitos particulares. Isso, contudo, não é for<
que o próprio manuscrito utilizado incorra por si numa impropriedade. Os opostos samente assim no caso de duas proposições tais que tenhc
contrários não pertencem à classe dos opostos contraditórios, mas constituem eles
uma classe, ou seja, os contrários não são um tipo distinto ou subclasse de contra­
ditórios, como a leitura da passagem em comento poderia induzir a crer. O texto de
42. Ou, expresso formalmente de maneira diversa, mas contemplando a mesma i<
L. Minio-Paluello possibilita uma tradução sumária e sem ambigüidade: Que as essencial: já que não existe nenhum homem-cavaio.
proposições contrárias são distintas e quais são elas.
9 0 - E d ip r o A r is tó te le s - Ór g an o n Ór g a n o n - D a in te r p r e ta ç ã o E d ip r o - 91

universais como sujeitos, mas que não são elas mesmas univer­ possível que ela não seja ou que não esteja na iminência de ser!
sais. Esta questão já foi igualmente discutida por nós Ora, se alguma coisa não tem a capacidade de não acontecer
(de não vir a ser) é impossível para ela não acontecer, e se é
Quando, entretanto, lidamos com proposições cujos sujeitos
impossível para alguma coisa não acontecer, é para ela necessá-
são particulares enquanto seus predicados se referem ao futuro e
15 rio acontecer. A conseqüência disso é que os eventos futuros,
não ao presente ou ao passado, percebemos que a situação se
como asseveramos, se produzem necessariamente. Nada é for­
altera completamente. Afirmativas ou negativas as proposições,
tuito, contingente, pois se alguma coisa acontecesse por acaso,
sendo elas mesmas verdadeiras ou falsas, todo predicado afir­
não aconteceria por necessidade.
mado tem que pertencer ao seu sujeito ou não. Conseqüente-
35 mente, se alguém declara que um certo evento ocorrerá e outro Não podemos sustentar, todavia, que nem uma nem outra
indivíduo declara que não ocorrerá, um deles estará evidente­ proposição44 seja verdadeira. Por exemplo, não podemos sus­
mente dizendo a verdade, ao passo que o outro, com a mesma tentar que um certo evento se realizará nem que não se realizará
evidência, não estará. Ambos os predicados não podem perten­ no futuro. Isto porque, em primeiro lugar, mesmo que uma afir-
cer a um único sujeito relativamente ao futuro, pois se é verda­ 20 mação ou negação se provasse como falsa, ainda assim a outra
deiro declarar que uma certa coisa particular é branca, esta tem [proposição] não seria verdadeira. Fosse, em segundo lugar,
I8bl que ser necessariamente branca. O inverso disso também vale. verdadeiro afirmar que a mesma coisa é tanto branca quanto
Por outro lado, quanto a ser branca ou não branca, é verdadeiro grande, teria ela que possuir essas duas qualidades característi­
tanto afirmá-lo quanto negá-lo. E se não é, efetivamente, bran­ cas necessariamente. Se as possuirá amanhã, isto o será neces­
ca, então dizer que é será falso. E se dizer que é for falso, então sariamente. Mas se [dizemos] que algum evento nem se realizará
resulta a coisa não ser branca. Somos, portanto, levados a con­ amanhã nem não se realizará amanhã, não há contingência.
cluir que todas as afirmações e todas as negações têm que ser ou 25 Tomemos como exemplo uma batalha naval. Constitui requisito
„verdadeiras ou falsas. em nossa hipótese que ela nem ocorresse nem deixasse de ocor­
rer amanhã.
5 Ora, se tudo isso assim é, nada há que aconteça por acaso
ou que seja atingido pelo acaso. Nada jamais acontecerá assim. Resultam estas e outras conseqüências despropositais45 se
Não pode haver nenhuma contingência, todos os acontecimen­ supusermos, no caso de um par de opostos contraditórios deten­
tos tendo que se produzir por necessidade.113 Ou aquele que tores de sujeitos universais e eles mesmos universais (ou deten­
sustenta que um determinado evento ocorrerá ou aquele que tores de um sujeito particular), que um tem que ser verdadeiro e
sustenta o contrário estará proferindo a verdade no que respeita 30 o outro, falso, que não pode haver neste caso nenhuma contin­
a esse ponto. As coisas podem muito bem ocorrer ou não ocor­ gência, que todas as coisas que são ou ocorrem se produzem no
rer, caso uma ou outra asserção não for necessariamente verda­ mundo por necessidade. Não haveria necessidade de deliberar
deira, pois uma vez que este termo é empregado referindo-se ou ter cuidados se conjeturássemos que uma vez adotada uma
tanto aos acontecimentos presentes quanto futuros, o contingen­ particular linha de conduta, um certo resultado se seguiria e que,
te é aquilo que poderia ocorrer deste modo ou daquele, se não o fizéssemos, não se seguiria. Nada obsta que alguém
prediga com antecedência de, digamos, uns dez mil anos algum
10 Se, ademais, uma coisa é agora branca, então teria sido ver­ 35 evento futuro, enquanto outra pessoa prediga o contrário; o que
dadeiro no passado afirmar que essa coisa seria branca, de mo­ ocorrerá necessariamente corresponderá a uma das duas predi­
do que foi sempre verdadeiro dizer de toda coisa (seja qual for) ções, não importa qual, tornada verdadeira no momento de sua
que ela é ou ela será. Mas se em todo o tempo, entretanto, foi
verdadeiro afirmar que uma coisa é ou será, é, no entanto, im-
44. Isto é, nem a proposição afirmativa nem a negativa.
45. ατοπα (atopa). Ατοπος (atopos) se diz daquilo que não está no seu devido lugar,
43. Aristóteles opõe τυχη (tüquô) a αναγκη (anagkê). que está deslocado; por extensão, o que se apresenta bizarro, estranho, absurdo.
9 2 - E d ip r o A r is tó te le s - Ór g an o n Ó r g a n o n - Da In te rp re ta ç ã o E d ip r o - 9 3

realização. E, com efeito, é totalmente irrelevante se predições direção mais esporádica. Aquilo que é deve ser necessariamente
contraditórias foram realmente feitas de antemão, pois o fato de quando é\ aquilo que não é não pode ser quando não é. Isto
alguém ter afirmado ou negado não altera o curso dos aconte­ não quer dizer que tudo aquilo que é será necessariamente e
cimentos. E acontecimentos não são produzidos ou evitados 25 que tudo aquilo que não é não será necessariamente. Com efei­
pela afirmação ou negação de que virão a se realizar num tempo to, dizer que tudo o que é é necessariamente quando é, não é
I 9al futuro; nem tampouco, acresçamos, importa a idade das predi­ algo idêntico a dizer incondicionalmente que é por necessidade.
ções. E, por conseguinte, se ao longo das eras a natureza das Analogamente com aquilo que não é. E no caso de duas propo­
coisas foi tal que uma certa predição se revelou verdadeira, esta sições contraditórias constata-se que vale o mesmo, ou seja,
teria necessariamente que se tornar real; e a natureza de todas todas as coisas têm que ser ou não ser, têm que se produzir (vir
as coisas foi tal que os eventos se produziram necessariamente. a ser) ou não se produzir (vir a ser) neste ou naquele tempo no
Pois qualquer acontecimento que alguém no passado haja uma futuro. Não podemos, contudo, dizer determinadamente qual
vez verdadeiramente predito tem forçosamente que, no devido 30 alternativa tem que se produzir necessariamente. Por exemplo,
decorrer do tempo, se produzir, e no que se refere àquele que uma batalha naval amanhã necessariamente ocorrerá ou ama­
5 numa ocasião se produziu, revelou-se verdadeiro sempre afirmar nhã não ocorrerá uma batalha naval; mas não é necessário que
^ que se produziu no devido tempo. amanhã ocorra uma batalha naval, como também não é neces­
Tudo isso é, todavia, impossível. Estamos cientes, com base sário que amanhã não ocorra uma batalha naval. E assim, como
em nossa experiência pessoal, que eventos futuros podem de- a verdade das proposições consiste na correspondência com os
10 pender das deliberações e ações e que, nos expressando de um fatos, fica claro, no caso de eventos nos quais se encontra con­
modo geral, essas coisas que não estão ininterruptamente em tingência ou potencialidade em sentidos opostos, que as duas
ato exibem uma potência, isto é, “a possibilidade de ser e de 35 proposições contraditórias acerca deles terão o mesmo caráter.
não ser” .46 Se tais coisas podem ser ou podem não ser, os acon­ Vemos ser exatamente este o caso das coisas que nem sempre
tecimentos podem ocorrer ou podem não ocorrer. Disto há nu­ são, ou que não são todo tempo, pois uma metade da dita con­
merosos exemplos evidentes. Este casaco pode ser cortado em tradição tem que ser verdadeira e a outra metade, falsa. Mas não
15 duas metades; não obstante isso, pode não ser cortado em duas há como distinguir qual uma metade e qual a outra. Embora tal­
metades; pode desgastar-se antes que isso venha a acontecer, de vez uma seja mais provável do que a outra, ainda assim não pode
modo que pode não ser cortado em dois, pois salvo fosse real­ 19bl ser verdadeira ou falsa. Tratando-se de afirmações ou negações,
mente este o caso, não teria sido possível, em primeira instância, não há, evidentemente, portanto, nenhuma necessidade de uma
o desgaste do casaco. O mesmo vale para todos os demais even­ ser verdadeira e a outra, falsa, uma vez que o caso das coisas que
tos que em qualquer desses sentidos são potenciais [isto é, aos não são ainda, mas têm a potência de ser, é distinto daquele das
quais é atribuída possibilidade]. Fica claro que nem tudo é ou se coisas que são. E como o asseveramos anteriormente.
produz por necessidade. Há casos de contingência, com o que a
20 proposição afirmativa não é mais verdadeira ou mais falsa do
que a negativa. Constatamos que alguns casos, ademais, ao X
menos no que tange à maioria e ao mais comum, apresentam
5 A proposição afirmativa é a que afirma alguma coisa de al­
tendência numa certa direção, o que não os impede, não obs­
guma coisa. Seu sujeito é ou um nome ou algo inominado e é
tante, de poderem, ocasionalmente, surgir na outra direção ou
necessário, quanto ao sujeito e quanto ao predicado, que cada
um seja uno em sua significação. J á explicamos o que entende­
46. Aristóteles rejeita a doutrina determinista ou fatalista. A respeito dos importantes mos por nome e por aquilo que é anônimo, uma vez que disse­
conceitos de ato (evepyeia - energheia) e potência (Suvajuç - dünamis), ver os tra­ mos que não-homem, por exemplo, não era, a rigor, um nome e
tados aristotélicos Física e Metafísica, que versam sobre as ciências teóricas ho­ chamamos este tipo de coisa de “nomes indefinidos” , visto que
mônimas.
9 4 - E d ip r o A r is tó te le s - Ó r g a n o n Ór g a n o n - D a In te rp r e ta ç ã o E d ip r o - 9 5

o que significam ou denotam é, de certo modo, uma coisa, po- 30 É e não é, nestes casos, estão adicionados a justo ou não jus­
10 rém indefinida. De maneira análoga, a frase “Não é saudável” to. É desta forma que estas proposições estão dispostas nos Ana­
não é, a rigor, um verbo, e chamamos este tipo de coisa de “ver­ lítico:;.48 Na hipótese de utilizarmos os sujeitos em extensão uni­
bos indefinidos” . Conseqüentemente, afirmações e negações versal, veremos que a regra é a mesma, a saber:
consistem de um nome e de um verbo, quer propriamente ditos,
quer indefinidos. A menos que haja também um verbo, não há
afirmação nem negação, pois termos como é, será, era, se torna, [Afirmações] [Negações]
etc. são todos verbos segundo nossa definição da palavra, posto Todo homem é justo Algum homem não é justo
que além de seu significado particular, possuem também uma
Todo homem é não justo Algum homem não é não justo
15 referência de tempo. E, portanto, “O homem é” , “O homem não
é” formam a primeira afirmação e negação, seguidas por “O
não-homem é” , “O não-homem não é” . Ademais, temos propo­ 35 Não há [, entretanto,] possibilidade aqui, de maneira idêntica
sições como “Todo homem é” e “Todo não-homem é” - “Todo ao primeiro caso, das proposições unidas na diagonal serem
homem não é” e “Todo não-homem não é” . O mesmo raciocí­ ambas verdadeiras, ainda que isso seja possível algumas vezes.
nio aplicamos ao que toca aos tempos futuro e passado. Assim, dois pares de proposições opostas foram'devidamente
X No caso da presença de dois outros termos e o termo é ser apresentados acima e dois outros se seguirão, desde que um
usado como um terceiro, haverá dois tipos distintos possíveis de terceiro termo seja adicionado a não-homem considerado como
20 afirmações e negações.47 Tomemos “O homem é justo” como uma espécie de sujeito. [Vejamos:]
exemplo. O vocábulo é constitui aqui um terceiro termo,, seja ele
na sentença chamado de verbo ou nome. E, em conseqüência [Afirmações] [Negações]
destes termos ou fatores, teremos aqui quatro proposições, duas
0 não-homem é justo 0 não-homem não é justo
delas correspondendo em sua seqüência (no que respeita à a-
firmação e à negação) àquelas proposições ou sentenças que se 0 não-homem é não justo 0 não-homem não é não justo
referem a um estado de privação, enquanto as outras não cor-
25 responderão a isso. Supondo que é seja adicionado a justo ou a
Não é possível descobrir mais pares de proposições opostas
não justo, teremos duas sentenças afirmativas; supondo que não 20al além destes. Mas o último destes grupos deveria ser visto como
é seja adicionado, teremos duas sentenças negativas. Juntas, distinto dos dois que o precedem, por ter não-homem como
elas constituem as quatro proposições. [O que queremos dizer] sujeito.49
fica claro pelo quadro abaixo.
Onde é não se ajusta como verbo e empregamos caminha,
tem saúde e similares, estes verbos produzem o mesmo efeito
[Afirmações] [Negações] 5 que seria produzido se fosse empregado é. Assim, temos, por
exemplo:
0 homem é justo 0 homem não é justo
0 homem é não justo 0 homem não é não justo
48. Ver Analíticos Anteriores, I, 46, 5Tb, nesta mesma edição.
49. Na verdade, a seqüência exata das oito proposições presentes nos dois últimos
quadros aqui indicados não corresponde àquela que observamos nos Analíticos
Anteriores, I, 36, 51b, o que levou, inclusive, alguns helenistas a retificar a ordem
exibida neste tratado, mesmo porque esta discrepância causaria confusão na leitu­
ra daquilo que Aristóteles aqui chama de proposições unidas na diagonal. Preferi­
47. Isto é, haverá duplicação do número das proposições opostas. Os lógicos posterio­ mos manter a tradução em fiel consonância com o texto de Bekker, com a ressalva
res a Aristóteles chamarão isto de tertii adjacentis. de que a seqüência dos Analíticos Anteriores, neste caso, deve ser a acatada.
9 6 - E d ip r o A r is tó te le s - Ó r g a n o n Ó r g a n o n - D a In te rp r e ta ç ã o E d ip r o - 9 7

posta negativa à questão “Todo homem é sábio” for verdadeira,


Todo homem tem saúde Todo homem não tem saúde inferir que “Todo homem é não-sábio” seria, nestas circunstân­
cias, falso, e “Nem todo homem é sábio” seria correta. Esta
Todo não-homem tem saúde Todo não-homem não tem saúde 30 última é a [proposição] contraditória, e a primeira a [proposição]
contrária.
Nestes casos devemos ter cautela para não dizer não todo Predicados e nomes indefinidos, tais como não-homem e
homem, devendo o não ser adicionado a homem; o sujeito não não justo se afigurariam como sendo negações efetivas sem
é um universal por ter um todo, mas este indica que o sujeito qualquer nome, qualquer verbo, como esses termos são mais
enquanto tal é assumido em toda sua extensão. Isso se evidencia propriamente usados. Mas não é realmente assim. Toda nega­
10 [em proposições] como: ção necessariamente tem que ser ou verdadeira ou falsa, e quem
35 quer que diga não-homem, por exemplo, sem que nada seja
0 homem tem saúde O homem não tem saúde juntado a isto, está dizendo não mais porém menos verdadeira
ou falsamente do que aquele que diz homem. “Todo não-
O não-homem tem saúde O não-homem não tem saúde
homem é justo” é uma proposição que não é em seu significado
equivalente a qualquer proposição que mencionamos; nem
Estas proposições diferem das anteriores devido a serem in­ tampouco é o seu contraditório, “Algum não-homem não é
definidas e não universais na forma. Assim, todo e nenhum não justo” . “Todo não-homem é não-justo” , entretanto, corresponde
significam mais do que o fato - seja a proposição afirmativa ou ao mesmo que dizer “Nada que não seja homem é justo” .50
15 negativa - do próprio sujeito ser tomado em toda sua extensão. 20bl Pode-se transpor o sujeito e o predicado, com o que, toda­
O resto da proposição permanecerá, portanto, em todos os ca­ via, não se acarreta qualquer alteração do significado da senten­
sos inalterado. ça. Assim dizemos “O homem é branco” e “Branco é o ho­
“Todo animal é justo” tem como proposição contrária “Ne­ mem” , e se estas [proposições] não significassem o mesmo,
nhum animal é justo” . E óbvio que estas duas proposições ja­ deveríamos ter mais negações do que uma correspondendo à
mais serão concomitantemente verdadeiras e nem se aplicarão a mesma afirmação. Mas demonstramos haver uma e apenas
um único sujeito. No entanto, seus dois contraditórios às vezes 5 uma. A proposição “O homem é branco” tem como sua nega­
se revelarão ambos verdadeiros, quais sejam, “Algum animal ção “O homem não é branco” ; se “Branco é o homem” diferisse
não é justo” e “Algum animal é justo” . Então de “Todo homem em algum modo no seu "significado de “O homem é branco” ,
20 é não justo” surge a proposição “Nenhum homem é justo” . teria como proposição negativa “Branco não é o homem” ou
“Algum homem não é não justo” , sua oposta, resulta de “Algum “Branco não é o não-homem” , pois a primeira nega “O homem
homem é justo” , pois tem que haver necessariamente algum é branco” e a última nega “Branco é o não-homem” . Haveria,
homem justo. 10 portanto, dois contraditórios de uma e mesma afirmação. A
transposição do sujeito e do predicado, por conseguinte, não
Quando o sujeito é particular, desde que uma questão seja
produz alteração alguma no sentido das afirmações e negações.
indagada e a resposta negativa seja verdadeira, uma certa pro­
posição afirmativa terá também manifestamente que ser verda-
25 deira. Tomemos a questão “Sócrates é sábio?” . Suponhamos XI
que a resposta negativa seja verdadeira e então “Sócrates é não
Afirmar ou negar um só predicado de muitos sujeitos, ou
sábio” , inferência que pode ser feita corretamente de imediato.
muitos predicados de um só sujeito não constitui uma proposi-
No caso dos universais, contudo, não é uma inferência seme­
lhante (ou melhor, uma afirmação correspondente), mas sim, ao
contrário, uma negação que pareceria ser verdadeira. Se a res- 50. Ou “Nenhum não-homem é justo”.
9 8 - E d ip r o A r is tó te le s - Ór g ano n Ó r g a n o n - D a In t e r p r e t a ç ã o E d ip r o - 9 9

ção afirmativa ou negativa, salvo se o denotado pelo múltiplo no músico, caminha e branco, [veremos] que estes podem ser com­
seu conjunto constitua uma alguma coisa una. Não denomino binados múltiplamente. E de Sócrates, também, podemos dizer
uno as coisas que, embora possuindo um nome, não se fundem “Ele é Sócrates” , “Ele é um homem” e é, portanto, o homem
numa unidade total. O homem é animal, bípede, civilizado: isto Sócrates. Podemos chamá-lo de homem e de bípede e, por
se funde num algo uno, ao passo que branco, homem e cami­ conseguinte, de homem bípede.
nhar, não. Caso predicássemos estes de um sujeito ou afirmás­
Afirmar, portanto, que os predicados podem sempre ser
semos um único predicado deles, a proposição resultante não
5 combinados sem qualquer exceção acarreta evidentemente mui­
20 seria una em sentido algum, exceto no lingüístico.
tos absurdos. Indiquemos, então, o princípio da matéria.
Se, então, a questão dialética consiste em exigir uma respos­
Predicados, se acidentais relativamente ao sujeito ou um re­
ta - a concessão, quero dizer, de uma premissa de um entre dois
lativamente ao outro, não se fundem em um. É possível dizer­
contraditórios (tal como cada premissa, ela mesma, é) - a res­
mos “O homem é musical e branco” . A musicalidade e a bran-
posta a qualquer questão de tal natureza, na medida em que
10 cura, entretanto, não se fundem numa unidade, sendo ambas
contém os predicados acima indicados, não pode ser uma pro­
acidentais relativamente ao sujeito. Nem mesmo se fosse possí­
posição una. Ainda que a resposta procurada possa ser verda­
vel verdadeiramente dizer que tudo que é branco é musical,
deira, não obstante isso a questão não é una, mas múltipla.
formariam musical e branco uma unidade, pois, com efeito, é
25 Disto foram apresentadas explicações nos Tópicos.51 Ao mesmo
somente incidentalmente que aquilo que é musical, é branco.
tempo, a questão “O que é?” não é uma questão dialética, o
Conseqüentemente, ser musical e brancura não se combinarão
que se evidencia pelo fato de que a questão deve ser estruturada
15 numa unidade. Se um homem é bom e um sapateiro, não esta­
de modo a dar ao respondente a possibilidade de enunciar,
mos autorizados a combinar os dois termos e assim classificá-lo
entre duas respostas contraditórias, a que desejar. A questão
igualmente de bom sapateiro. Entretanto, podemos combinar
deve ser tornada mais específica, indagando, por exemplo, se o
animal e bípede e classificar o homem como um animal bípede,
30 ser humano possui ou não alguma qualidade definida. pois estes termos não são acidentais.
Em certas combinações de predicados percebemos que os
Por outro lado, a unidade não pode ser formada por predi­
predicados separados se fundem em um predicado; em outras,
cados estando um contido no outro. Assim, não podemos com­
ao contrário, não se fundem. Como - perguntamos - assoma
binar branco repetidamente com o que já o contém ou qualificar
esta diferença? Podemos ou usar duas proposições e enunciar,
um homem de homem-animal ou de homem bípede, quer dizer,
primeiramente, que o homem é um animal, em segundo lugar,
animal e bípede são noções já implícitas em homem. Mas cer­
que o homem é um bípede, ou - fundindo as duas em uma -
tamente podemos aplicar um predicado simples a um caso parti-
35 enunciar que o homem é um animal bípede. Podemos fazer o
20 cular, dizendo de um determinado homem que é homem, que
mesmo uso de homem e branco. Mas o mesmo não ocorre com
um determinado homem branco é homem branco. Mas nem
sapateiro e bom, pois se alguém é bom e um sapateiro não re­
sempre é assim. Quando encontramos no termo adjunto algum
sulta disso que ele seja um bom sapateiro; a admissão de que a
oposto que implique em contraditórios, somos induzidos a um
verdade de cada predicado separado conduz obrigatoriamente à
discurso falso e não verdadeiro ao fazer a predicação simples,
de um predicado composto resultaria em muitos absurdos. Um
como ao classificar de homem um homem morto. Quando, ao
homem é um homem e é branco; será, portanto, também um
contrário, não há oposto, a predicação simples será verdadeira.
homem branco. E se ele é branco, então se segue que o com­
Ou poderíamos formular a situação da seguinte forma: supondo
posto também é branco, o que nos dará “um homem branco a presença de um oposto, estaremos impossibilitados de fazer
21 a1 branco” , e assim por diante, indefinidamente. Se tomarmos
uma predicação simples; onde, contudo, tal oposto está ausente,
25 mesmo neste caso nem sempre podemos agir assim. Por exem­
51. Ver nesta mesma edição, Tópicos, VIII, 7.
plo, na proposição Homero é... algo... digamos um poeta (o que
1 0 0 - E d ip r o A r is t ó t e l e s - Ó r g a n o n Ór g a n o n - Da In te rp r e ta ç ã o E d ip r o - 1 0 1

servirá ao nosso propósito). Mas poderemos dizer também “Ele nificam exatamente a mesma coisa. Ora, se esta regra vale para
é”? Ou será esta uma inferência incorreta? E foi usado inciden­ 10 todos os casos, a negação de “possível de ser” é “possível de
talmente aqui, pois nossa proposição foi “Ele é um poeta” e o é não ser” , e não “não possível de ser” . Contudo, parece que para
não foi predicado dele no sentido substantivo da palavra.52 a mesma coisa é possível tanto ser como não ser. Assim, por
exemplo, tudo aquilo que pode caminhar ou ser cortado, pode
Portanto, nessas predicações que não possuem nenhuma
não caminhar ou não ser cortado. E a razão disso é que essas
contradição que lhes seja inerente, se os nomes forem substituí-
15 coisas que são, desta maneira, em potência, nem sempre são em
30 dos por definições e os predicados não forem acidentais, mas
ato.53 Em tais casos, portanto, tanto a proposição afirmativa
pertencentes às coisas neles mesmos, o particular poderá ser o
quanto a negativa serão verdadeiras, pois o que pode caminhar
sujeito também das proposições simples. Quanto, contudo, ao
ou pode ser visto pode, inversamente, não caminhar nem ser
que não é, não é verdadeiro dizer que é de alguma forma, por­
visto.
que isto se acha no âmbito da opinião. E a opinião sobre o não-
ser não é que ele é, mas que ele não é. Entretanto, proposições contraditórias nunca podem ser ver­
dadeiras relativamente a um único sujeito. Conseqüentemente,
20 concluímos que “possível de ser” não tem, afinal, “possível de
XII não ser” como sua correta negação, pois resulta de nossas ob­
Uma vez feitas essas distinções, é preciso examinar as rela- servações anteriores que ou podemos ao mesmo tempo de um
35 ções entre afirmações e negações que expressam (afirmam ou sujeito afirmar e negar o mesmo predicado ou não é, na realida­
negam) o possível e o não possível, o contingente e o não con­ de, o acréscimo de é ou não é que produz uma afirmação ou
tingente, o impossível e o necessário - uma questão não isenta negação. A primeira posição é inadmissível, [enquanto] é esta
de algumas dificuldades. Concedamos que essas expressões última que deve, assim, ser adotada.
compostas contendo é e não ê são mutuamente contraditórias. A negação de “possível de ser” é “não possível de ser” . Li­
Se tomarmos, por exemplo, “O homem é” , [veremos que] “O damos de maneira idêntica com a proposição “É contingente
21 bl homem não é” é o verdadeiro contraditório, e não (que o desta­ 25 que seja” , seu verdadeiro contraditório sendo “Não é contingen­
quemos) “O não-homem é” ; ou se tomarmos “O homem é te que seja” . O mesmo com as proposições semelhantes “É ne­
branco” , [teremos] “O homem não é branco” , e não “O homem cessário” , “E impossível” . Pois, como nos exemplos anteriores, é
é não branco” , pois, se assim não fosse, na medida em que a e não é são acrescentados, enquanto as coisas reais (que são
proposição afirmativa ou negativa é verdadeira de todos e sujeitos) são branco e hbmem, aqui ser atua como sujeito, ao
quaisquer sujeitos, revelar-se-ia como verdadeiro afirmar que 30 passo que “é possível” e “é contingente” são acrescentados,
5 “uma tora é um homem não branco” . determinando o possível e o não possível no que tange ao é,
Tudo isso pode ser prontamente concedido; mas, e quanto como nos casos anteriores é e não é determinam que uma coisa
às numerosas proposições que não contêm é ou não é, nas é verdadeira ou não.54
quais estes são substituídos por algum outro verbo? Se os pontos A negação de “possível de não ser” é “não possível de não
de vista que acabamos de expressar são corretos, então este 35 ser” . Eis porque pode-se realmente pensar que “possível de ser”
último cumpre a mesma função. “O homem caminha” , por con­ e “possível de não ser” resultam um do outro, pois é possível
seguinte, tem por contraditório “O homem não caminha” . E para a mesma coisa ser e não ser, estas proposições não sendo
dizer que “O não-homem caminha” é errado. As duas proposi­
ções “O homem caminha” e “O homem está caminhando” sig-
53. λογος δε, οτι απαν το ουτω δυνατον ουκ α ει ενεργεί,... (logos de, oti apan to oüto
dünaton oük aei energhei). Ver os conceitos de dünamis e energheia na Física.
52. Ou seja, na acepção ontológica, pois “é", além de atuar como cópula no verbo de 54. Em todo este parágrafo e no seguinte nos servimos também de outros textos além
ligação ser, também significa existe. daquele de Bekker.
1 0 2 - E d ip r o A r is tó te le s - Órg an o n ÓRGANON - DA INTERPRETAÇÃO E d ip r o - 1 0 3

contraditórias. Contudo, “possível de ser” e “não possível de


[P ro posições] [C o n seq ü ên cia s
ser” não podem ser simultaneamente verdadeiras do mesmo
(Im plicações)]
22a1 sujeito, porque são opostas. Tampouco o podem as proposições
“possível de não ser” e “não possível de não ser” . E possível56 E contingente
Proposições que tocam à necessidade estão sujeitas a regras Não é impossível
similares: “É necessário que seja” , “E necessário que não seja” ; Não é necessário
5 “Não necessário que seja” supre a negação da primeira, e não
“Necessário que não seja” . Teremos, novamente, tomando a E contingente E possível
última, “Não necessário que não seja” . O mesmo vale também E possível de não ser Não é necessário que não seja
para “É impossível que seja” ou “ ...que não seja” . “Não impos­ (é contingente que não seja)
Não é impossível que não seja
sível que seja” constitui a negação da primeira, e não “Impossí­
vel que não seja” ; “Não impossível que não seja” , a correta Não é possível57 E necessário que não seja
negação da última. (não é contingente)
E impossível que seja
Em termos gerais, portanto - como dissemos -, tem-se que Não é possível de não ser E necessário que seja
tratar ser e não ser como os sujeitos e acrescentar um ou outro (não é contingente que não
destes para produzir afirmações ou negações daqueles outros E impossível que não seja
seja)
termos mencionados por nós: possível, contingente, etc.
10 Os pares seguintes devem ser considerados como pares con­ Que estes pontos sejam examinados mais detidamente com a
traditórios: ajuda do quadro abaixo.

Possível [de ser] Não possível [de ser] É possível de ser Não é possível de ser
Contingente Não contingente 25 E contingente Não é contingente
Impossível Não impossível Não é impossível que seja E impossível que seja
Necessário Não necessário Não é necessário que seja E necessário que não seja
Verdadeiro Não verdadeiro55
É possível de não ser Não é possível de não ser
E contingente que não seja Não é contingente que não seja

XIII 30 Não é impossível que não seja E impossível que não seja
A partir destas afirmações e negações formuladas da maneira Não é necessário que não seja E necessário que seja
acima seguem-se logicamente certas conseqüências.
[As proposições] “É impossível que seja” , “Não é impossível
que seja” são conseqüências ou implicações das proposições “E
possível de ser” , “É contingente” e “Não é possível de ser, “Não
55. δυνατον - ου δυνατον (dünaton - oü dünaton)\ ενδεχόμενόν - ουκ ενδεχόμενόν
(endecomenon - oük endecomenon): αδύνατον - ουκ αδύνατον (adünaton - oük
adûnaton)·, αναγκαιον - ουκ αναγκαιον (anagkaion - oük anagkaion)', αληθές - 56. ...de ser.
ουκ αληθές (aléthes - oük aléthes). 57. ...de ser.
104 - EDIPRO A r is tó te le s - Ó r g a n o n Ór g a n o n - D a In te rp r e ta ç ã o E d i p r o - 10 5

é contingente” à maneira de contraditório, mas inversamente,


Todavia, não é necessário de ser nem tampouco necessário
35 pois possível de ser implica não impossível [de ser] (ou seja, a
de não ser conseqüências de possível de ser. Quero dizer que
negação de impossível)·, impossível, a afirmação, é conseqüência
possível de ser envolve uma potencialidade bilateral. Caso uma
da negação de possível de ser, isto é, de não possível de ser.
das duas proposições que acabamos de mencionar fosse, entre-
Vejamos agora como ficam as coisas com proposições que 20 tanto, verdadeira, não disporíamos mais de ambas as alternati­
predicam necessidade. Não há dúvida que a situação aqui é vas. A coisa que pode ser (é possível de ser) pode, contudo, não
diversa: proposições contrárias serão conseqüências de proposi­ ser. Mas supondo-se que é necessário que seja, não pode ao
ções contraditórias, pertencendo estas últimas, ademais, a se­ mesmo tempo ser e não ser. O que permanece, assim, que não
qüências distintas, uma vez que “Não necessário que seja” não necessário não ser se segue a possível de ser, posto que isto
22bl pode constituir a negação de “Necessário que não seja” - isto também é verdadeiro de necessário de ser. Notamos, também,
porque ambos estes predicados são perfeitamente válidos de um que esta proposição se mostra contraditória relativamente à
único sujeito, uma vez que quando é necessário que uma coisa 25 conseqüência de não possível de ser, uma vez que impossível de
seja, ela o é necessariamente. Ora, como se explica que todas as ser é consecutiva de não possível de ser, o sendo também neces­
proposições predicadoras de necessidade não são identicamente sário de não ser, cuja negação é não necessário de não ser. As­
consecutivas àquelas com as quais estamos lidando? A resposta sim, vemos que igualmente neste caso contraditórios se seguem
5 é que quando usadas com um sujeito contrário, predicar a im­ a (são consecutivos de) contraditórios, segundo o modo que
possibilidade equivale a afirmar a necessidade. Supondo-se - indicamos e que, ao serem dispostos deste modo, não condu­
digo - que seja impossível para uma coisa ou outra ser, é neces­ zem a nenhuma impossibilidade.58
sário não que seja, porém, ao contrário, que não seja. Supondo-
Seria permitido aqui levantar a questão de se de é necessário
se, por outro lado, que seja impossível para uma coisa ou outra
30 de ser se segue logicamente é possível de ser. Se não, a seqüên­
não ser, é necessário que seja. Assim, se constatamos que essas
cia (conseqüência) lógica será o contraditório não possível de
proposições que afirmam o impossível ou o inverso (o negam),
ser, ou caso se negue ser este o contraditório, ter-se-á que dizer
sem mudança de seu sujeito, são conseqüências daquelas que que possível de não ser é o contraditório. Mas ambas essas pro­
predicam a possibilidade ou a não possibilidade, as que predi­
posições são falsas, se aplicadas ao que é necessariamente. Pa­
cam a necessidade serão consecutivas daquelas com o sujeito
rece reconhecer-se que coisas que podem ser ou que podem ser
contrário. E necessário e E impossível não têm significação idên­
cortadas, podem, inversamente, não ser ou não ser cortadas, o
tica e, não obstante, estão conectadas inversamente - um ponto
35 que corresponde a dizei* e nos leva a concluir que aquilo que é
no qual [já] tocamos.
necessário ser pode não ser,59 o que é falso. Está claro que nem
10 Ou será que estamos impossibilitados de dispor contraditó­ tudo que é capaz de ser ou caminhar detém a potencialidade
rios predicadores de necessidade do modo que fizemos acima? oposta. Há casos que atestam o contrário. Para começar, há
Afinal, o que é necessário também é possível de ser; em caso aquelas coisas que possuem uma potência não racional, entre as
contrário, a conseqüência seria a negativa, pois uma ou outra (a quais encontramos o fogo, que é capaz de emitir calor, que é
negação ou a afirmação) tem que ser consecutiva. Conclui-se 23al uma potência não racional. As potências racionais surgem de
que se uma coisa não é possível de ser, tem necessariamente múltiplas formas ou através de resultados ou direções contrários.
que ser impossível de ser. E, por conseguinte, declaramos como Mas nem todas as potências não racionais são assim; o fogo, a
impossível de ser o que é necessário ser. Mas esta declaração é fim de reiterarmos o que dissemos, não pode tanto emitir quanto
15 visivelmente absurda. Entretanto, de possível de ser segue-se
logicamente não impossível de ser, do que se segue não neces­
sário de ser, resultando que o necessário de ser não é necessário 58. Ou, pode-se entender também: a nenhum absurdo.
de ser, com o que incorremos mais uma vez no absurdo. 59. ...το αναγκαιον είνα ι ενδεχόμενόν μη είναι... (to anagkaion einai endecomenon mâ ei-
naí): o necessário de ser é contingente de não ser seria a tradução literal e precisa.
1 0 6 -E D IP R O A r is t ó t e le s - Ór g an o n Ór g a n o n - D a In te rp r e ta ç ã o E d ip r o - 1 0 7

não emitir calor e, tampouco, pode qualquer outra coisa em ato da em que o eterno é anterior. Há, em primeira instância, aque­
possuir uma tal potência. Algumas potências irracionais,60 entre- les atos completamente destituídos de potência, tais como as
5 tanto, são também capazes de opostos. Mas o que desejamos 25 substâncias primárias.63 Em seguida há a classe de coisas que
enfatizar em nossas observações é que nem toda potência admi­ são atuais e também potenciais. No que tange a estas, o ato é
te opostos, mesmo quando a potência é empregada de modo anterior à potência na ordem da natureza, ainda que não o seja
inteiramente não ambíguo, os opostos correspondendo à mesma no tempo. Em último lugar, há as coisas que permanecem como
idéia do potencial. potências e jamais se convertem em atos.
Por vezes há ambigüidade do termo.61 O próprio possível é
ambíguo. Por um lado, é empregado com referência a fatos e
XIV
coisas atualizados. É possível a alguém caminhar porquanto
efetivamente caminha e, em geral, chamamos uma coisa de A dúvida aqui suscitada é se uma proposição afirmativa é con­
10 possível, uma vez que já se encontra em ato; por outro lado, trária a uma proposição negativa ou contrária a uma segunda
emprega-se possível com referência a uma coisa que poderia afirmação. A proposição “Todo homem é justo” tem como con­
converter-se em ato: é possível a alguém caminhar, uma vez que trária “Nenhum homem é justo” ou “Todo homem é injusto”?
sob certas condições caminharia. E somente ao que é capaz de 30 “Calias é justo” , “Calias não é justo” , “Calias é injusto” ilustram o
se mover que pertence esse tipo de potência, enquanto a primei­ que quero dizer. Quais destas proposições são contrárias?
ra pode ser possuída também pelas coisas incapazes de movi­ Na hipótese dos sons orais acompanharem o [juízo] que o-
mento. Em ambos os casos, daquele que caminha e está em ato corre no intelecto - e mais, que o [juízo] que ocorre no intelecto
e daquele que tem a potência do caminhar mas não tem esta é contrário a um juízo que apresenta um predicado contrário,
potência convertida em ato (atualizada), é correto dizer que não como “Todo homem é justo” contrário a “Todo homem é injus­
15 é impossível que caminhasse (ou que fosse). Ora, esta última to” , então o mesmo deverá também valer para as afirmações
potência não pode ser afirmada do necessário na sua acepção 35 faladas. Por outro lado, se supormos que o juízo que predica o
não qualificada; a outra, contudo, pode ser afirmada. A título de contrário não é, no intelecto de quem fala, reciprocamente o
conclusão, portanto, tal como o universal se segue do particular, contrário, uma afirmação não será contrária à outra afirmação,
o possível se segue daquilo que existe por necessidade, ainda mas a contrária verdadeira será a negação. Assim, temos que
que não em todos os seus sentidos. A necessidade - penso - e indagar que tipo de juízo verdadeiro é contrário a um juízo falso:
sua ausência, no que concerne ao ser ou não ser, de fato podem é o que nega o juízo falso ou aquele que pronuncia o contrário?
propriamente ser chamadas de primeiros princípios, de sorte que Tomemos, por exemplo, três juízos concernentes a uma coisa
20 tudo o mais deve ser contemplado meramente como o que se
lhes segue ou sua conseqüência.
turo), mas sua denotação abrange mais essencialmente o aspecto ontológico, quer
Do exposto anteriormente fica evidente que o necessário é dizer, o existencial. A laranjeira é o ato da potência semente de laranja. Mas embo­
também o atual62 e que o atual é anterior ao potencial na medi­ ra a germinação da semente e o crescimento pleno da laranjeira hajam requerido
tempo para que a laranjeira se revelasse como tal num determinado momento no
tempo, a laranjeira já se acha em potência na semente de laranja. É provável que
Heidegger tenha se inspirado na metafísica aristotélica ao explicitar que o ser é (e-
60. άλογους δυνάμεις (alogoüs dünameis). xiste) no tempo.
61. A tradução mais vizinha da literalidade, que na verdade expressa essencialmente a 63. A impressão que se tem é precisamente o contrário, ou seja, a potência parece ser
mesma idéia, é: Algumas potências são homônimas [Ενιαι δε δυνάμεις ομώνυμοι anterior ao ato. Mas Aristóteles está vinculando o par potência/ato ao eterno
εισιν. (Eniai de dünameis omonümoi eisirí)]. [...aiSia (aidia)], aquilo que não tem começo nem fim, a saber, o atemporal, o não
62. O leitor deve reter sempre que os termos atual, atualidade, ato em Aristóteles não inserido no tempo. Deus e as Inteligências que movem os corpos celestes, as
encerram simplesmente as significações ordinárias daquilo que está inserido no substâncias primárias [...TípcoTcu ou oiai (protai ousiai)], são atos puros, atos para
tempo presente; na sua oposição necessária à potência (dünamis), o ato (ener- os quais não houve, não há e não haverá potência. Atentar para a imediata se­
gheia) inclui, sim, a temporalidade presente (em contraposição ao passado e ao fu- qüência e consultar os tratados Física e Metafísica.
1 0 8 -E D IP R O A r is tó te le s - Ór g ano n Ór g a n o n - D a I n t e r p r e t a ç ã o E d ip r o - 109

que é boa: um juízo verdadeiro'(de que ela é boa), um falso (de 25 é verdadeiro, mas de que o que é contraditório é ainda mais
23bl que ela não é boa) e um terceiro - completamente distinto - de contrário, o último será necessariamente o verdadeiro contrário.
que ela é má. Dos dois últimos, qual constitui realmente o con­ Julgar ser má uma coisa boa é, ademais, um juízo composto,
trário ao verdadeiro? Ou, supondo que constituem no seu teor uma vez que aquele que assim julga - penso - tem necessaria­
um único juízo, que expressão verbal é a contrária? mente que com igual certeza julgá-la não boa.
Imaginar que juízos contrários são os que têm sujeitos contrá- Então, por outro lado, o juízo contraditório é sempre o con­
5 rios é equívoco, pois o juízo de que uma coisa boa é boa e o trário ou nunca o é.64 E se isso vale em todos os demais casos,
juízo de que uma coisa má é má são talvez idênticos e verdadei­ também tem que valer neste, e a posição que assumimos foi
ros, trate-se [formalmente] de um ou mais juízos. Os sujeitos são correta. No caso de coisas que não possuem contrários, susten-
contrários aqui, mas o que torna os juízos contrários é deterem 30 tamos que é falso o juízo que nega aquilo que o verdadeiro a-
dois sentidos contrários e não deterem dois sujeitos contrários. firma. Assim, está errado aquele, por exemplo, que supõe um
homem não um homem. Se neste caso os contrários são os
Suponhamos que temos dois juízos sobre uma coisa que é
negativos, então - concluímos - eles o são sempre.
boa, um opinando que essa coisa é boa e outro que não é; su­
ponhamos também haver outras qualidades que não são ineren­ Por conseguinte, dizer que Aquilo que é bom é bom constitui
tes e nem poderiam ser inerentes ao bom. Neste caso, não de­ um juízo paralelo àquele outro que enuncia que Aquilo que não
vemos afirmar como contrários ao juízo verdadeiro, quer os é bom não é bom, e julgar que Aquilo que é bom não é bom
10 juízos que conferem ao sujeito o que não lhe é inerente, quer constitui um juízo paralelo ao juízo Aquilo que não é bom é
aqueles que não lhe conferem o que lhe é inerente, na medida 35 bom. O que é contrário, então, ao juízo verdadeiro Aquilo que é
em que, no que tange a ambos os tipos desses juízos, não há não bom não é bom? Decerto não será Aquilo que é não bom é
limitação de número para eles. Classificaremos como contrários mau, o qual poderia ser verdadeiro, e juízos verdadeiros jamais
aos juízos verdadeiros os juízos nos quais o erro está presente. E podem ser contrários. Algumas coisas que não são boas são
estes têm a ver com a geração. A geração significa a passagem más, de forma que ambos os juízos podem ser concomitante­
ou transição de um de dois extremos para o outro, sendo o erro mente verdadeiros. Igualmente não será o juízo Aquilo que é
esta transição. não bom não é mau, posto que este também poderia ser verda­
deiro, uma vez que estas qualidades poderiam estar co-
15 O que é bom, portanto, é concomitantemente bom e não
presentes. E deste modo somos levados a concluir que o juízo
mau, sendo que a primeira destas qualidades lhe pertence por
24a 1 Aquilo que é não bom "não é bom apresenta como contrário
essência, ao passo que a segunda lhe pertence apenas por aci­
dente, pois é por acidente que é não mau. Mas o juízo mais Aquilo que é não bom é bom, que, efetivamente, é um juízo
verdadeiro acerca de qualquer coisa é aquele sobre a essência falso. Concluímos analogamente que o juízo Aquilo que é bom
da coisa, tal como o falso é realmente o mais falso quando, de não é bom é o contrário do juízo Aquilo que é bom é bom.
maneira análoga, se ocupa de sua essência. Um falso juízo, que Tornar a afirmação universal evidentemente não alterará na-
20 trata da essência, é “O que é bom não é bom” . “É mau” , ainda 5 da. O juízo negativo universal será, então, o contrário óbvio. Por
que também um falso juízo, concerne apenas ao que é acidental. exemplo, o juízo através do qual se enuncia Tudo que é bom é
Assim, o juízo que enuncia a negação de bom é mais falso do bom apresentará como seu contrário o juízo Nada do que é bom
que aquele que predica alguma qualidade contrária. E, por con­ é bom. O juízo Aquilo que é bom é bom, uma vez que bom (o
seguinte, quem está o mais completamente errado é aquele que sujeito) seja tomado universalmente, corresponde ao juízo que
neste ou naquele ponto sustenta um juízo que é contrário àquilo enuncia Aquilo que é bom é bom, este em nada sendo diferente
que é verdadeiro, já que os contrários pertencem às coisas que
no domínio da mesma classe diferem maximamente. Na suposi­
64. Ou, em outras palavras, a contrariedade se acha sempre na negação ou não se
ção, portanto, de que entre dois juízos um seja contrário ao que acha em lugar algum.
1 1 0 - E d ip r o A r is tó te le s - Ó r g a n o n

daquele juízo que enuncia Tudo aquilo que é bom é bom. O


24bl mesmo vale para os juízos com não bom.
Se é isso que ocorre com nossos juízos, e afirmações e nega­
ções faladas são símbolos dos juízos que estão na alma, é evi­
dente que a negação universal - quando seu sujeito é único e
idêntico - é o verdadeiro contrário da proposição afirmativa. Por
conseguinte, as proposições afirmativas Todo homem é bom,
Tudo o que é bom é bom apresentam como seus contrários
Nenhum homem é bom e Nada do que é bom é bom . Os con-
5 traditórios, entretanto, têm como sujeitos Nem todo homem é
bom, Nem todo bom (bem) é bom. E também evidente que
juízos verdadeiros e proposições verdadeiras jamais podem ser
A n a l ít ic o s
contrários entre si. Embora duas proposições verdadeiras pos­
sam ser ao mesmo tempo afirmadas verdadeiramente, duas
proposições contrárias têm que predicar qualidades contrárias,
as quais nunca podem ser simultaneamente inerentes a um su­
A n t e r io r e s
jeito idêntico.

L iv r o I
I
24al 0 Nossa primeira tarefa consiste em indicar o objeto de estudo
de nossa investigação e a que ciência ele pertence: que concerne
à demonstração e que pertence a uma ciência demonstrativa. Em
seguida teremos que definir o significado de premissa, termo e
silogismo,65 e distinguir entre um silogismo perfeito e um imper­
feito; depois disso, necessitaremos explicar em que sentido diz-se
estar ou não estar um termo inteiramente contido num outro e o
15 que entendemos por ser predicado de todo ou de nenhum.66
X A premissa é uma oração que afirma ou nega alguma coisa
(de algum sujeito. Esta oração pode ser universal, particular ou

65. προτασις κ α ι τ ι ορος κ α ι τ ι συλλογισμος... (protasis kai ti oros kai ti sülogismos).


Alguns tradutores preferem dedução a silogismo, o que é perfeitamente cabível, já
que sülogismos significa genericamente raciocínio e, por extensão, conclusão de­
duzida a partir de premissas. Entretanto, a palavra, neste caso, que corresponde
meramente a uma transliteração do grego (ou seja, silogismo) parece reter melhor
o significado específico e particular que será contemplado por Aristóteles.
66. Ou seja, ser afirmado universalmente ou ser negado universalmente.
1 1 2 - E d ip r o A r is t ó t e l e s - Ó r g a n o n Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 113

indefinida. Entendo por universal a oração que se aplica a tudo dizer que não há necessidade de qualquer termo adicional para
ou a nada do sujeito; por particular entendo a oração que se tornar a conclusão necessária.
20 aplica a alguma coisa do sujeito, ou não se aplica a alguma Chamo de silogismo perfeito o que nada requer além do que
coisa deste, ou não se aplica a todo; por indefinida entendo a nele está compreendido para evidenciar a necessária conclusão;
oração que se aplica ou não se aplica sem referência à universa­ de imperfeito aquele que requer uma ou mais proposições as
lidade ou particularidade, por exemplo: “Contrários são objeto 25 quais, ainda que resultem necessariamente dos termos formula­
da mesma ciência” ou “O prazer não é bem” . dos, não estão compreendidas nas premissas.
A premissa demonstrativa difere da premissa dialética, por É o mesmo dizer que um termo está contido inteiramente
ser a primeira a suposição de um membro de um par de ora­ num outro termo e dizer que um termo é predicado de um ou­
ções contraditórias (porquanto o demonstrador não faz uma tro termo tomado universalmente. Dizemos que um termo é
pergunta, faz uma suposição), ao passo que a segunda é uma predicado de um outro tomado universalmente quando nada
resposta à pergunta que, de duas orações contraditórias, deverá 30 do sujeito pode ser encontrado de que o outro termo não possa
25 ser aceita. Essa diferença, contudo, não afetará o fato de, num ser predicado; o mesmo se aplica à expressão não é predicável
caso ou noutro, o resultado ser um silogismo, pois tanto o de­ de nenhum.
monstrador quanto o interrogador extraem uma conclusão silo­
gística por suporem, em primeiro lugar, que algum predicado se
aplica ou não se aplica a algum sujeito. Conseqüentemente, a II
premissa silogística será simplesmente a afirmação ou negação
30 de algum predicado de algum sujeito da maneira já descrita. A 25al Ora, toda premissa é de tal forma que algum atributo se apli­
premissa será demonstrativa se for verdadeira e baseada em ca, ou tem que se aplicar, ou possivelmente se aplica a algum
sujeito.68 Estes três tipos são divididos em afirmativos e negati­
postulados fundamentais, enquanto a premissa dialética será,
24bl0 para o interrogador, uma resposta à pergunta que, de duas vos, conforme cada modo de atribuição (predicação); por outro
lado, das premissas afirmativas e negativas, algumas são univer-
orações contraditórias, deverá ser a aceita e, para o raciocina-
dor lógico, uma suposição do que é aparentemente verdadeiro 5 sais, outras particulares e outras indefinidas. No caso da predica­
e geralmente aceito, como afirmamos nos Tópicos,6^ ção universal, a premissa negativa é necessariamente convertível
nos seus termos (por exemplo, se nenhum prazer é bem, tam­
O que significa uma premissa e que diferença existe entre as pouco será alguma coisa boa, prazer); mas a [premissa] afirmati­
premissas silogística, demonstrativa e dialética será explicitado va, embora necessariamente convertível, é, assim, não como
15 com precisão mais tarde. Para as nossas necessidades imediatas uma [premissa] universal, mas como uma particular (por exem­
basta a definição aqui apresentada. plo, se todo prazer é bem, algum bem tem também que ser pra­
Chamo de termo aquilo em que a premissa se resolve, a sa­ zer). No que toca a proposições particulares, a premissa afirma-
ber, tanto o predicado quanto o sujeito, quer com a adição do 10 tiva tem que ser convertível como particular, pois se algum pra­
verbo ser, quer com a remoção de não ser. zer é bem, algum bem será também prazer; a [premissa] negati­
O silogismo é uma locução em que, uma vez certas suposi- va, porém, não é necessariamente convertível, pois não se segue
20 ções sejam feitas, alguma coisa distinta delas se segue necessa­ que se homem não se aplicar a algum animal, tampouco se
riamente devido à mera presença das suposições como tais. Por aplicará animal a algum homem.
“devido à mera presença das suposições como tais” entendo Tomemos, assim, primeiramente uma premissa negativa uni­
que é por causa delas que resulta a conclusão, e por isso quero versal que apresenta os termos A e B. Neste caso, se A não se

67. Cf. Tópicos, 100a29 e 104a8. 68. Ou seja, a predicação é assertiva, necessária ou contingente.
1 1 4 - E d ip r o A r is tó te le s - Ór g ano n Ó r g a n o n —A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 1 5

15 aplicar a nenhum B, nem B se aplicará a qualquer A, pois se no sentido da proposição ser necessariamente verdadeira ou
aplicar-se a algum, digamos C, não será verdadeiro que A não não ser necessariamente verdadeira, as condições se mostram
se aplica a nenhum B, porque C é um B. Se, por outro lado, A 5 semelhantes às já mencionadas (por exemplo, se fosse dito ser
se aplicar a todo B, B também se aplicará a algum A, pois se contingente que um homem não é um cavalo, ou que branco
não se aplicar a nenhum, nem A se aplicará a qualquer B; po- não se aplica a nenhuma vestimenta), uma vez que no primeiro
20 rém, ex hypoíhesi, ele se aplica a todo B e, analogamente, tam­ exemplo o predicado necessariamente não se aplica ao sujeito, e
bém se a premissa for particular, pois se A se aplicar a algum B, no segundo ele não necessariamente se aplica - e a premissa se
B necessariamente também se aplicará a algum A, uma vez que converte como as outras negativas, posto que se é contingente
se não se aplicar a nenhum, nem A se aplicará a qualquer B. que cavalo não se aplique a nenhum homem, é também contin­
Mas se A não se aplica a algum B, não resulta necessariamente gente que homem não se aplique a nenhum cavalo; e s e é con­
que B não se aplica a algum A (por exemplo, se B é animal e A, io tingente que branco não se aplique a nenhuma vestimenta, é
25 homem, posto que homem não se aplica a todo animal, porém também contingente que vestimenta não se aplique a nada bran­
animal se aplica a todo homem). co .70 Isto porque se necessariamente se aplicasse a alguma coisa
branca, branco também se aplicaria necessariamente a alguma
vestimenta, o que foi demonstrado anteriormente.71 Condições
III semelhantes regulam a conversão de premissas negativas parti­
Princípio idêntico [com respeito à conversão] vale no caso culares.
das premissas necessárias. A negativa universal é convertível
Entretanto, no que tange a essas premissas, se são ditas con­
universalmente, enquanto cada uma das afirmativas é convertí-
tingentes no sentido de que são geral ou naturalmente verdadei-
30 vel como uma premissa particular, pois se A necessariamente
15 ras (visto que definimos o contingente deste modo), as condi­
não se aplica a nenhum B, B também necessariamente não se
ções para a conversão das negativas não serão as mesmas de
aplica a nenhum A, visto que se fosse possível que se aplicasse a
antes. A premissa negativa universal não é suscetível de conver­
algum, A poderia também aplicar-se a algum B. Mas se A neces­
são, ao passo que a negativa particular é. Isso se tornará claro
sariamente se aplica a todo ou alguma parte de B, B tem também
quando discutirmos o contingente.72
que se aplicar a algum A, pois se assim não for necessariamente,
nem A necessariamente se aplicará a algum B. A negativa particu- De momento, tenhamos como [suficientemente] esclarece­
35 lar não é convertível pela mesma razão que já indicamos. dor, a título de acréscimo ao que já foi dito, o seguinte: que a
20 proposição “é contingente que A não se aplique a nenhum B ”
Quanto às premissas contingentes, uma vez que o termo con­
tingente é empregado em vários sentidos (chamamos de contin­ ou “não se aplique a algum B ” apresenta forma afirmativa por­
que a expressão é contingente corresponde a é, e a palavra é,
gente tanto o que é necessário como o que é não necessário e o
possível), em todas as proposições afirmativas ocorrerá a con­ não importa a quais termos esteja ligada na predicação, produz
versão sob as mesmas condições anteriormente indicadas, já sempre e na totalidade dos casos a afirmação; por exemplo, é
25bl que se for possível que A se aplique a todo ou alguma parte de não bom, ou é não branco, ou em geral: é não isto, o que será
B, seria possível que B também se aplicasse a algum A, pois se
não fosse possível que se aplicasse a nenhum, nem seria possível 70. Todo o trecho em itálico a partir de "... posto que...” merece aqui uma tradução
que A se aplique a qualquer B, o que foi demonstrado anterior­ alternativa que, fugindo um tanto do texto de Bekker, e se amparando naqueles de
outros helenistas pareceria oferecer maior clareza e transparência: ...posto que se
mente.69 Entretanto, não ocorre o mesmo com as negativas. Em
é contingente que nenhum homem seja um cavalo, é também contingente que ne­
todos os exemplos relativamente aos quais se diz ser contingente nhum cavalo seja um homem; e se é contingente que nenhuma vestimenta seja
branca, é também contingente que nada que seja branco seja uma vestimenta.
71. 25a32.
69. 25a18 e seguintes. 72. Capítulos XIII a XVII.
1 1 6 - E d ip r o A r is tó te le s - Ór g an o n Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L i v r o I E d ip r o - 1 1 7

igualmente demonstrado posteriormente.73 No que respeita à ilustrar a relação afirmativa dos extremos mediante os termos
conversão, essas premissas serão reguladas pelas mesmas condi- animal, homem, caualo; quanto à negativa, mediante [os ter­
25 ções das demais afirmativas. mos] animal, homem, pedra.
Mais uma vez, quando o primeiro termo não se aplica a nada
10 do médio e o médio a nada do último, também neste caso não
IV pode haver silogismo. A relação afirmativa dos extremos pode
Uma vez delineadas estas distinções, estamos agora capaci­ ser ilustrada pelos termos ciência, linha, medicina; a relação
tados a indicar por quais meios, quando e como são construídos negativa por ciência, linha, unidade.
todos os silogismos. Lidaremos mais tarde com a demonstra­
Assim, se os termos estiverem numa relação universal, ficará
ção.74 A razão da necessidade de nos ocuparmos do silogismo
evidente - uma vez presente essa figura - quando haverá um
antes da demonstração é o fato do silogismo ser mais geral: a
silogismo e quando não haverá. Fica evidente, também, que se
30 demonstração é um tipo de silogismo, mas nem todo silogismo é
houver um silogismo, os termos deverão estar ligados como
uma demonstração.
15 mencionamos e que se estão assim ligados haverá um silogismo.
Quando três termos estão de tal forma ligados entre si que o
último está completamente contido no termo médio e o termo Se um dos termos [extremos] estiver numa relação universal
médio está completamente contido ou não contido no primeiro e o outro numa relação particular com o termo restante, quando
termo, então teremos necessariamente um silogismo perfeito nos a proposição universal (afirmativa ou negativa) se referir ao
35 extremos. Entendo por termo médio aquele que tanto está con­ termo maior e a proposição particular for afirmativa e se referir
tido num outro quanto contém um outro em si mesmo e que 20 ao termo menor, teremos necessariamente um silogismo perfei­
ocupa a posição mediana; por extremos entendo tanto o termo to; quando, entretanto, a proposição universal se referir ao ter­
contido ele mesmo num outro quanto aquele no qual um outro mo menor, ou os termos estiverem ligados de qualquer maneira
26al está contido: se A é predicado de todo B e B de todo C, A terá distinta, isso não será possível. Chamo de termo maior aquele
necessariamente que ser predicado de todo C.75 Já explicamos76 no qual está contido o termo médio, e de termo menor aquele
o que queremos dizer ao asseverar que um termo é predicado que se subordina ao termo médio.77 Suponhamos que A se apli­
de todo um outro. Analogamente, também, se A não é predica­ que a todo B e B a algum C. Então, se ser predicado de todo
do de nenhum B e B é predicado de todo C, segue-se que A não 25 significa o que indicamos no início,78 A tem que se aplicar a
se aplicará a nenhum C. algum C. E se A não se· aplica a nenhum B, mas B se aplica a
algum C, A tem necessariamente que não se aplicar a algum C
Se, contudo, o primeiro termo se aplica a todo o termo mé­ (indicamos também o que queremos dizer com predicado de
dio e este a nada do último termo, não haverá silogismo entre os nenhum79). Assim teremos um silogismo perfeito. Algo análogo
extremos, pois nenhuma conclusão é necessariamente deduzida ocorre também se supormos a proposição BC indefinida, desde
5 dos dados apresentados, visto ser possível para o primeiro termo
se aplicar ou a tudo ou a nada do último, não resultando assim
necessariamente nem uma conclusão particular nem uma uni­ 77. O silogismo é formado por três juízos ou proposições: o primeiro (sempre universal
versal; e uma vez que não resulte nenhuma conclusão necessária e suposto verdadeiro) é chamado de premissa maior, o segundo (também suposto
das premissas, não pode haver nenhum silogismo. E possível como verdadeiro) é chamado de premissa menor, o terceiro, deduzido das premis­
sas, é a conclusão. Exemplo:
Todas as aves têm asas. (premissa maior)
73. Capítulo XLVI. Todos os patos são aves. (premissa menor)
74. No tratado seguinte do Órganon, qual seja, Analíticos Posteriores. Todos os patos têm asas. (conclusão)
75. Em grego yanixa, pois gamma é a terceira letra do alfabeto grego. 78. 24b28.
76. Em 24b28. 79. 24b30.
1 1 8 - E d ip r o órganon —A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 119
A r is tó te le s - Órg ano n

que seja afirmativa, uma vez que teremos o mesmo silogismo, haverá silogismo; de outra maneira, teria havido um com os
30 quer BC seja indefinida ou particular. termos que selecionamos. Disporemos de demonstração seme-
20 lhante se a proposição universal for tomada como negativa.
Se, entretanto, a proposição universal - afirmativa ou negati­
va - se referir ao termo menor, não haverá silogismo, quer a Também não haverá silogismo se ambas as relações atributi­
proposição indefinida ou a particular seja afirmativa ou negativa vas forem particulares, ou afirmativa ou negativamente, ou uma
(por exemplo, se A se aplica ou não se aplica a algum B, e B se afirmativamente e a outra negativamente, ou uma indefinida e a
aplica a todo C). A relação afirmativa dos extremos pode ser outra definida, ou ambas indefinidas. A todos estes casos são
35 ilustrada pelos termos bom, estado, sabedoria; a relação negati­ 25 aplicáveis termos como animal, branco, cavalo; animal, branco,
va por bom, estado, ignorância. pedra.
Por outro lado, se B não se aplica a nenhum C e A se aplica Ressalta evidente, portanto, com base no que dissemos, que
a algum, ou não se aplica a algum ou todo B, neste caso tam­ se um silogismo nessa figura apresenta uma conclusão particu­
bém não haverá silogismo. Podemos tomar como termos bran­ lar, seus termos têm que ser relacionados tal como descrevemos,
co, cavalo, cisne; branco, cavalo, corvo. Estes mesmos termos pois se relacionados diferentemente, não poderá, de modo al­
servirão também se a proposição AB for indefinida. gum, haver um silogismo. Fica também claro que todos os silo-
30 gismos nessa figura são perfeitos, uma vez que se acham todos
26b1 Acrescente-se que quando a proposição que se relaciona
completados mediante as suposições originais; e que todos os
com o termo maior é universal, quer afirmativa ou negativa, e a
tipos de proposições podem ser demonstradas por essa figura, já
que se relaciona com o menor é negativa e particular, não have­
que ela demonstra tanto conclusões universais quanto particula­
rá silogismo - quer a premissa menor seja indefinida ou particu­
res, sejam afirmativas ou negativas. Chamo este tipo de figura
lar, por exemplo, se A se aplica a todo B e B não se aplica a
de primeira.
5 algum ou todo C, pois onde o termo médio não se aplica a algo
do menor, o termo maior pode ser associado com todo ou com
nada do menor. Suponhamos os termos animal, homem, bran­ V
co; em seguida, a título de exemplos de coisas brancas das quais
Quando o mesmo termo se aplica a um sujeito universal e
não se predica homem, tomemos cisne e neve. Então animal é
não se aplica a qualquer outro sujeito [em sentido universal], ou
predicado totalmente do primeiro, mas negado totalmente da
quando se aplica ou não se aplica tanto de um como de outro
10 segunda. E, assim, não haverá silogismo. Novamente, que A
35 sujeito [tomado universalmente], chamo este tipo de figura de
não se aplique a nenhum B e que C não se aplique a algum B, e
segunda. E nela entendo por termo médio aquele que é predi­
que os termos sejam inanimado, homem, branco; em seguida
cado de ambos os sujeitos; por termos extremos [entendo] os
que se tome como exemplos de coisas brancas das quais não se
sujeitos dos quais o termo médio é predicado; por termo maior
predica homem, cisne e neve. Predica-se inanimado totalmente
[entendo] aquele que vem a seguir do médio, e por [termo]
da segunda, mas nega-se-o totalmente do primeiro.
menor aquele que está mais distante deste. O [termo] médio
15 Além disso, visto que a proposição “B não se aplica a algum 27al está colocado fora dos termos extremos e é o primeiro do ponto
C “ é indefinida e trata-se de proposição verdadeira, quer B não de vista da posição.
se aplique a nenhum C, quer não se aplique a todo C, e visto
Nessa figura não pode haver, em hipótese alguma, um silo­
que quando tais termos são escolhidos (que B não se aplica a
gismo perfeito, mas pode haver um silogismo válido,81 sejam os
nenhum C) não obtemos nenhum silogismo (o que foi dito ante­
termos universais ou não. Se forem universais, haverá um silo-
riormente80), é evidente que com os termos nessa relação não

81. δυνατός (dünatos), literalmente potencial, mas é evidente que Aristóteles alude ao
80. 26a2. silogismo imperfeito (segundo sua classificação dual, conforme 24b22 e seguintes).
1 2 0 - E d ip r o Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I____________________________ E d ip r o - 1 2 1
A r is tó te le s - Ór g ano n

gismo quando o [termo] médio se aplicar a um sujeito universal relação particular no sentido oposto àquele da relação universal
e não se aplicar a outro sujeito tomado universalmente, não (entendendo eu por “no sentido oposto” que se a relação uni-
importa qual seja o termo negativo; mas em nenhum outro caso 30 versai é negativa, a particular é afirmativa, e u ic e -v e rs a ) , com o
5 [é possível o silogismo]. Tomemos, à guisa de exemplo, M não termo menor, o resultado será necessariamente um silogismo
sendo predicado de nenhum N, mas o sendo de todo O. A con­ negativo e particular. A título de exemplo, se M não se aplica a
seqüência é que, visto que a premissa negativa é convertível, N nenhum N, mas se aplica a algum O, resulta necessariamente
não se aplicará a nenhum M. Porém, e x h y p o th e s i, M se aplica a que N não se aplica a algum O, uma vez que, considerando-se
todo O e, portanto, N não se aplica a nenhum O, algo já de­ que a proposição negativa é convertível, N não se aplicará a
monstrado antes. Por outro lado, se M se aplicar a todo N, mas 35 nenhum M. Entretanto, e x h y p o th e s i, M se aplica a algum O e
não se aplicar a nenhum O, N não se aplicará a nenhum O, assim N não se aplicará a algum O, pois obtemos um silogismo
10 posto que se M não se aplicar a nenhum O, O não se aplicará a por meio da p r im e ir a figura. Por outro lado, se M se aplica a
nenhum M. E x h y p o th e s i, contudo, M se aplica a todo N. E, todo N, mas não se aplica a algum O, resulta necessariamente
portanto, O não se aplicará a nenhum N, pois novamente esta­ que N não se aplica a algum O, pois se [N] se aplica a todo [O]
remos diante da p rim e ira figura e, uma vez que a proposição e M é predicado de todo N, M necessariamente se aplica a todo
negativa é convertível, N também não se aplicará a nenhum O, 27b 1 O. Mas, e x h y p o th e s i, ele não se aplica a algum. E se M se apli­
com o que será o mesmo silogismo anterior. E igualmente possí- car a todo N, mas não a todo O, haverá um silogismo como
15 vel demonstrar esses resultados mediante redução a d im p o ssib ile . efeito de N não se aplicar a todo O. A demonstração é a mesma
de antes. Se, entretanto, M for predicado de todo O, mas não de
Evidencia-se, desta forma, que com os termos dessa relação 5 todo N, não haverá silogismo. Termos que ilustram este caso são
obtemos um silogismo, mas não um [silogismo] perfeito, porque a n im a l, su b stâ n cia , c o rv o ; a n im a l, b ra n c o , c o rv o . Tampouco
a conclusão necessária se completa não exclusivamente graças haverá um silogismo quando M não é predicado de nenhum O,
às premissas originais, mas também por meio de outras. mas é de algum N. A relação afirmativa dos extremos pode ser
Se, contudo, M for predicado de todo N e de todo O, não ilustrada pelos termos a n im a l, su b stâ n cia , u n id a d e ; a relação
poderá haver silogismo. A relação afirmativa dos extremos é negativa por a n im a l, s u b stâ n cia , c iê n c ia .83
ilustrada pelos termos s u b stâ n cia , a n im a l, h o m e m ; a relação Assim, estabelecemos sob quais condições haverá ou não um
20 negativa por substância, anima/, número, sendo substância o 10 silogismo quando a universal é oposta, quanto ao sentido, à
termo médio. Tampouco pode haver um silogismo se M não for proposição particular. Quando as premissas apresentam forma
predicado de nenhum N e de nenhum O. A relação afirmativa semelhante, isto é, ambas negativas ou ambas afirmativas, não
dos extremos é ilustrada pelos termos lin h a , a n im a l, h o m e m ; a haverá em hipótese alguma um silogismo. Tomemo-las primei­
relação negativa por lin h a , a n im a l, p e d ra . ramente ambas como negativas e que a relação universal per-
Fica visível, então, que, se houver um silogismo onde os ter­ 15 tença ao termo maior, nomeadamente que M não se aplique a
mos se acham universalmente relacionados, os termos terão que nenhum N e a algum O. Então será possível tanto para N se
se achar relacionados, tal como indicamos no início,82 pois se aplicar a todo O quanto não se aplicar a nenhum O. A relação
25 relacionados de maneira diversa, não resultará nenhuma conclu­ negativa dos extremos pode ser ilustrada pelos termos n e g ro ,
são necessariamente lógica. n e v e , a n im a l; mas não é possível que encontremos termos para

Se, por outro lado, o termo médio estiver universalmente re­ ilustrar a relação universal afirmativa, uma vez que M se aplica a
lacionado a um dos outros, quando se encontrar numa relação
universal - afirmativa ou negativa - com o termo maior, e numa 83. Observe-se que em todo este trecho e no imediatamente subseqüente, em função
da ordem do alfabeto grego, Aristóteles utiliza a letra E (Çi) e não O (ojuicpov). No
alfabeto português é a letra O que sucede ao N, porém no grego é o S [fy (x/)] que
82. 27a3. sucede ao N [vu {nü)].
1 2 2 -E D IP R O A r is tó te le s - Ór g an o n Ó r g a n o n —A n a lí t ic o s a n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 2 3

a l g u m O , e m b o r a t a m b é m n ã o s e a p liq u e a a l g u m [ O ] ; p o i s s e N 28a l R e s s a lt a c o m o e v id e n t e , a p a r t ir d a a n á lis e p r e c e d e n t e , q u e s e


s e a p lic a r a t o d o O , e M n ã o s e a p lic a r a n e n h u m N , M n ã o se o s t e r m o s s ã o r e l a c i o n a d o s e n t r e s i d a m a n e ir a d e s c r it a ,85 o r e s u l­
a p lic a r á a n e n h u m O . C o n tu d o , ex hypothesi, e le s e a p l i c a a t a d o é n e c e s s a r i a m e n t e u m s ilo g is m o e q u e , s e h á u m s ilo g is m o ,
20 a lg u m [O ], A s s im , n ã o é p o s s ív e l e n c o n t ra r te rm o s n e s ta s c o n d i­ o s t e rm o s tê m q u e s e r r e la c io n a d o s d e s ta fo rm a . E ig u a lm e n t e
ç õ e s e n o s s a d e m o n s t r a ç ã o p r e c is a s e r e x t r a íd a d o c a r á t e r i n d e ­ 5 e v id e n t e q u e t o d o s o s s ilo g is m o s n e s s a f ig u r a 86 s ã o im p e r f e it o s ,
f i n i d o d a p r e m is s a p a r t ic u la r , p o i s v is t o q u e é v e r d a d e i r o d iz e r p o r q u e s ã o t o d o s c o m p l e t a d o s m e d ia n t e a s u p o s i ç ã o d e c e r t a s
q u e M n ã o s e a p l i c a a a l g u m O , s e e le d e f a t o n ã o s e a p l i c a a p r e m is s a s a d i c io n a i s q u e e s t ã o o u n e c e s s a r ia m e n t e im p líc it a s n o s
n e n h u m [O ] , e v im o s q u e q u a n d o n ã o se a p lic a a n e n h u m n ã o t e r m o s o u s ã o s u p o s t a s c o m o h ip ó t e s e s ; por exemplo, q u a n d o
h á s ilo g is m o , é e v id e n t e q u e t a m p o u c o h a v e r á s il o g i s m o n o c a s o d e m o n stra m o s n o sso r e s u lt a d o p o r r e d u ç ã oad impossibile, e
e m p a u ta . q u e p o r m e i o d e s s a f ig u r a n ã o c o n s e g u i m o s u m s il o g i s m o a f ir ­

T o m e m o s a g o r a a s p r e m is s a s c o m o a f ir m a t iv a s e s u p o n h a - m a t iv o , t o d o s o s s il o g is m o s s ã o n e g a t iv o s , q u e r s e j a m u n i v e r s a i s

25 m o s q u e a r e l a ç ã o u n iv e r s a l s e j a a m e s m a d e a n t e s , o u s e j a , q u e o u p a r t ic u la r e s .

M s e a p l i q u e a t o d o N e a a lg u m O . E n t ã o s e r á p o s s ív e l t a n t o
p a r a N a p lic a r - s e a t o d o O q u a n t o p a r a n ã o a p l i c a r - s e a n e n h u m
O . E x e m p l o s d e t e r m o s n o s q u a is n ã o s e a p l i c a a n e n h u m s ã o
VI
branco, cisne, pedra. E n t r e t a n t o , s e r á im p o s s í v e l e n c o n t r a r e -
x e m p l o s n o s q u a i s s e a p liq u e a t o d o O , d e v i d o à m e s m a r a z ã o
10 N o c a s o d e u m d o s t e r m o s s e a p li c a r a tudo e o outro a nada
d o m e s m o s u je it o , o u n o c a s o d e a m b o s o s t e r m o s s e a p l ic a r e m a
a n t e r io r , d e s o r t e q u e n o s s a d e m o n s t r a ç ã o t e r á q u e s e r e x t r a íd a
d o c a r á t e r in d e f i n i d o d a p r e m is s a p a r t ic u la r .
t u d o o u a n a d a d e l e ,87 c h a m o e s t e t ip o d e f ig u r a d e terceira, e
n e la e n t e n d o p o r [ t e r m o ] m é d io a q u e le d o q u a l s ã o f e it a s a m b a s
S e a r e l a ç ã o u n iv e r s a l s e r e f e r ir a o t e r m o m e n o r , is t o é , s e M
a s p r e d ic a ç õ e s ; p o r e x t r e m o s [ e n t e n d o ] , o s p r e d ic a d o s ; p o r t e r m o
30 n ã o s e a p lic a r a n e n h u m O e n ã o s e a p lic a r a a lg u m N , se rá
m a io r , a q u e le q u e e s t á m a i s d is t a n t e d o m é d io , e , p o r [ t e r m o ]
p o s s í v e l t a n t o q u e N s e a p liq u e a t o d o O q u a n t o n ã o s e a p liq u e
15 m e n o r , o q u e e s t á m a i s p r ó x i m o d o [ t e r m o m é d io ] , O m é d io e s t á
a nenhum O . E x e m p l o s d e t e r m o s n o s q u a i s e le r e a lm e n t e s e
s it u a d o f o r a d o s e x t r e m o s e é o ú lt im o , q u a n t o à p o s i ç ã o .
branco, animal, coruo, e n o s q u a i s e le n ã o
a p lic a s ã o se a p lic a ,
O r a , t a m p o u c o o b t e m o s u m s ilo g is m o p e r fe ito n e s t a fig u r a ,
branco, pedra, corvo. S e a s p r e m is s a s s ã o a f ir m a t iv a s , e x e m p lo s
e m b o r a t e n h a m o s u m s i lo g i s m o p o t e n c i a l ,88 q u e r o s t e r m o s e s t e ­
d e te rm o s e m q u e a r e la ç ã o d o s e x tr e m o s é n e g a t iv a s ã o branco,
ja m n u m a r e l a ç ã o u n iv e r s a l c o m o [te rm o ] m é d io o u n ã o . S e
animal, neve; n o c a s o d e s e r a f ir m a t iv a [ a r e l a ç ã o d o s e x t r e m o s ] ,
e s t iv e r e m n u m a r e l a ç ã o u n i v e r s a l , q u a n d o t a n t o P q u a n t o R s e
branco, animal, cisne.
a p l i c a r e m a t o d o S , r e s u lt a r á n e c e s s a r i a m e n t e q u e P s e a p l i c a r á
A s s i m e v id e n c ia - s e q u e q u a n d o a s p r e m is s a s s ã o s e m e lh a n t e s
a a l g u m R , p o i s u m a v e z q u e a p r o p o s i ç ã o a f i r m a t i v a é c o n v e r t í-
d o p o n t o d e v is t a d a f o r m a , e q u a n d o u m a é u n iv e r s a l e a o u t r a
20 v e l , S s e a p l i c a r á a a l g u m R e , a s s im , c o n s i d e r a n d o - s e q u e P s e
35 p a r t ic u la r , d e m o d o a lg u m o b t e r e m o s u m . s ilo g is m o ; e n e m t a m ­
a p l i c a a t o d o S , e S a a lg u m R , P t e m q u e s e a p l i c a r a a lg u m R ,
p o u c o s e o t e r m o m é d io s e a p lic a r o u n ã o s e a p lic a r a a lg u m d e c o m o q u e t e m o s u m s i l o g i s m o p o r m e i o d a p r i m e ir a f ig u r a . E
c a d a u m d o s s u je it o s ,84 o u a p lic a r - s e a u m p a r t ic u la r m e n t e m a s
t a m b é m p o s s ív e l d e m o n s t r á - lo p o r r e d u ç ã o ad impossibile e por
n ã o p a r t ic u la r m e n t e a o o u t r o , o u s e n ã o s e a p lic a r a n e n h u m
d e le s c o n s id e r a d o s u n iv e r s a lm e n t e , o u f o r a e le s r e l a c io n a d o in d e ­
f in i d a m e n t e . S ã o e x e m p lo s d e t e r m o s p e r t in e n t e s a t o d o s e s t e s 85. Em 27a3-5, 26-32.
caso s: branco, animal, homem; branco, animal, inanimado. 86. Ou seja, a segunda.
87. Ou, recorrendo a textos de outros helenistas: se um termo se predica ao passo que
o outro não se predica universalmente de um sujeito, ou se os dois se predicam, ou
se nenhum [dos dois] se predica do mesmo [sujeito] universalmente.
84. Ou seja, se o termo médio aplicar-se a cada um dos extremos considerado particu­
larmente. 88. δυνατός (dünatos), entenda-se silogismo imperfeito.
124 - EDIPRO A r is tó te le s - Ór g an o n Ó r g a n o n —A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E dipro - 1 2 5

exposição, um a vez que, onde ambos os termos89 se aplicam a a p l i c a r á a a l g u m R . P o r o u t r o la d o , s e R s e a p l i c a a a l g u m S , e P


25 todo S , se tomarmos um dos S , digamos N, tanto P quanto R a a t o d o S , P te m q u e s e a p lic a r a a lg u m R . O m é t o d o d e d e m o n s ­
ele se aplicarão e, assim, P se aplicará a algum R. t r a ç ã o é o m e s m o a n t e r io r . E t a m b é m p o s s í v e l d e m o n s t r a r e s t e

Do mesmo modo, se R se aplicar a todo S , e P a nenhum [S],


15 r e s u lt a d o p o r r e d u ç ã o ad impossibile e p o r e x p o s iç ã o , ta l c o m o
n o s c a s o s a n t e r io r e s .
haverá um silogismo com o efeito de P necessariamente não se
aplicar a algum R. O método para demonstração é o mesmo de S e u m t e r m o é a f i r m a t iv o e o o u t r o n e g a t i v o , s e n d o o p r i m e i ­
antes, sendo a premissa R S convertida. Poder-se-ia também r o u n iv e r s a l, q u a n d o o t e r m o m e n o r f o r a f i r m a t i v o h a v e r á u m
30 demonstrar o resultado mediante a redução ad impossibile, tal s ilo g is m o , p o i s s e R s e a p l i c a a t o d o S , e P n ã o s e a p l i c a a a l g u m
com o nos casos anteriores. S , s e g u e -s e n e c e s s a ria m e n t e q u e P n ã o s e a p lic a a a lg u m R , p o is
s e a p lic a r - s e a t o d o R e R a t o d o S , P t a m b é m s e a p l i c a r á a t o d o
Se, entretanto, R não se aplicar a nenhum S , e P se aplicar a
todo S , não haverá silogismo. Exem plos de termos nos quais a 20 S; m as ex hypothesi n ã o s e a p l i c a . Is s o t a m b é m p o d e s e r d e ­

relação dos extremos é afirmativa são animal, cavalo, homem; m o n stra d o se m re d u çã o ad impossibile, se t o m a m o s a lg u m S a o
q u a l P n ã o s e a p li q u e . M a s q u a n d o o [ t e r m o ] m a i o r f o r a f i r m a t i­
nos quais [esta relação] é negativa são animal, inanimado, ho­
v o , n ã o h a v e r á n e n h u m s i lo g i s m o , p o r e x e m p lo , s e P s e a p l i c a a
mem. Tam pouco haverá um silogismo quando ambos os termos
t o d o S e R n ã o s e a p l i c a a a l g u m S . S ã o e x e m p lo s d e t e r m o s
não são predicados de nenhum S . Exem plos de termos em que
a relação dos extremos é afirmativa são animal, cavalo, inani-
n o s q u a i s a r e l a ç ã o d o s e x t r e m o s é u n i v e r s a l e a f i r m a t iv a ani­
35 mado; em que [esta relação] é negativa, homem, cavalo, inani­ mado, homem, animal; n ã o é p o s s ív e l, p o r é m , e n c o n t r a r m o s
t e r m o s n o s q u a i s a r e l a ç ã o é u n i v e r s a l e n e g a t iv a , v i s t o q u e R s e
mado. Aqui inanimado é o termo médio.
25 a p lic a a a lg u m S , e m b o r a t a m b é m n ã o s e a p liq u e a a lg u m , p o is
E evidente, portanto, também nessa figura quando haverá ou
s e P a p lic a r - s e a t o d o S , e R a a l g u m S , e n t ã o P s e a p l i c a r á a
não haverá um silogismo se forem os termos universalmente
a lg u m R . Ex hypothesi, p o r é m , e le n ã o s e a p l i c a a n e n h u m . A
relacionados. Quando ambos os termos90 são afirmativos, h ave­
e x p lic it a ç ã o d e v e s e r a p r e e n d i d a t a l c o m o o f o i n o s c a s o s a n t e r io ­
rá um silogismo em função de um extremo se predicar do outro
r e s ,91 v i s t o q u e s e a p r o p o s i ç ã o um termo não se aplica a um
extremo tomado particularmente; contudo, quando são negati-
outro [particularmente] é i n d e f i n i d a , é e x a t o d i z e r q u e a q u e le
28b1 vos, não haverá nenhum silogismo. Quando um termo é negati­
q u e n ã o s e a p lic a a n e n h u m n ã o s e a p lic a a a lg u m . E n tr e ta n to ,
vo e o outro afirmativo, se o maior for negativo e o outro afirma­
30 v im o s q u e q u a n d o R n ã o s e a p lic a a n e n h u m S n ã o h á s ilo g is ­
tivo, haverá um silogismo porque um extremo não se aplica ao
m o ,92 o q u e d e i x a v is í v e l ' q u e n ã o h a v e r á s i l o g i s m o n e s t e c a s o .
outro tom ado particularmente; ocorrendo o inverso, não haverá
silogismo. S e , c o n t u d o , o t e r m o n e g a t i v o f o r u n i v e r s a l, s e n d o o m a i o r
n e g a t i v o e o m e n o r a f i r m a t iv o , h a v e r á u m s i lo g i s m o , p o i s s e P
5 S e , entretanto, um dos termos estiver numa relação universal
n ã o s e a p lic a r a n e n h u m S , e R s e a p lic a r a a lg u m S , P n ã o se
com o médio e o outro numa relação particular, sendo ambos
a p lic a r á a a lg u m R , u m a v e z q u e t e r e m o s a p r im e ir a f ig u r a n o -
afirmativos, o resultado necessário será um silogismo, não im­
35 v ã m e n t e a o o c o r r e r a c o n v e r s ã o d a p r e m is s a R S . E n t r e t a n t o ,
porta qual seja dos dois o termo universal, pois se R se aplica a
q u a n d o o t e r m o m e n o r f o r n e g a t i v o , n ã o h a v e r á s il o g is m o . S ã o
todo S , e P a algum S , P tem que se aplicar a algum R, um a vez
e x e m p lo s d e te rm o s n o s q u a is a r e la ç ã o d o s e x t r e m o s é a f ir m a ­
10 que, sendo a premissa afirmativa, convertível, S se aplicará a
animal, homem, selvagem;
t iv a n o s q u a i s e la é n e g a t i v a , animal,
algum P e, assim, visto que R se aplica a todo S e S a algum P, ciência, selvagem. E m a m b o s o s casos selvagem é o t e r m o m é d io .
R também se aplicará a algum P e, conseqüentemente, P se

89. Isto ó, P e R. 91. Em27b20, 28.


90. Leia-se termos como premissas. 92. 28a30.
1 2 6 - E d ip r o A r is tó te le s - Órg ano n Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 2 7

o u tro n e g a t iv o , s e o te rm o n e g a t iv o f o r u n iv e r s a l , o b t e r - s e - á
T a m p o u c o h a v e r á u m s il o g i s m o q u a n d o t o m a m o s n e g a t i v a ­
se m p re um s ilo g is m o ao e s t a b e le c e r u m a r e l a ç ã o do [te rm o ]
m e n t e a m b o s o s t e r m o s , s e n d o u m u n iv e r s a l e o o u t r o p a r t i c u ­
m enor co m o [te rm o ] e x t r e m o m a io r - p o r e x e m p lo , s e A se
la r . C o n s t i t u e m e x e m p l o s d e t e r m o s n o s q u a i s é o t e r m o m e n o r
a p lic a a t o d o o u a lg u m B, e B n ã o s e a p lic a a n e n h u m C, v is t o
29al q u e s e a c h a n u m a r e l a ç ã o u n iv e r s a l c o m o m é d i o animal, ciên­
q u e u m a v e z c o n v e r t i d a s a s p r e m is s a s , r e s u lt a r á n e c e s s a r i a m e n t e
cia, selvagem; animal, homem, selvagem. Q u a n d o é o [te rm o ]
25 q u e C n ã o s e a p l i c a a a l g u m A . O q u e o c o r r e n a s o u t r a s f ig u r a s
m a i o r q u e e s t á n e s t a r e l a ç ã o , o s e x e m p lo s d e t e r m o s e m q u e a
é a n á lo g o p o rq u e se m p re o b te m o s u m s ilo g is m o m e d ia n t e o
r e l a ç ã o d o s e x t r e m o s é n e g a t iv a s ã o corvo, neve, branco; m as
p r o c e s s o d e c o n v e r s ã o . S a l t a a o s o lh o s t a m b é m q u e , e m t o d a s
o n d e a r e l a ç ã o é a f i r m a t iv a n ã o é p o s s ív e l e n c o n t r a r t e r m o s ,
a s f ig u r a s , s e a p a r t ic u la r a f ir m a t i v a s u b s t it u i a i n d e f in i d a , r e s u l­
v i s t o q u e R s e a p l i c a a a l g u m S , e m b o r a t a m b é m n ã o s e a p liq u e
t a r á o s i l o g i s m o id ê n t ic o .
5 a a lg u m , p o is s e P s e a p lic a a to d o R , e R a a lg u m S , P ta m b é m
s e a p lic a a a lg u m S ; p o r é m , ex hypothesi, e le n ã o a p l i c a a n e ­ 30 F i c a c o n s p í c u o a i n d a q u e t o d o s o s s i lo g is m o s im p e r f e it o s s ã o
n h u m . A d e m o n s t r a ç ã o d e v e s e r o b t id a d o c a r á t e r in d e f i n i d o d a c o m p l e t a d o s p o r m e i o d a p r im e ir a f ig u r a , u m a v e z q u e t o d a s a s

p r e m i s s a p a r t i c u l a r .93 c o n c lu s õ e s s ã o a t in g id a s o u p e l a d e m o n s t r a ç ã o o u p e l a r e d u ç ã o
ad impossibile, o b t e n d o - s e n o s d o i s c a s o s a p r im e ir a f ig u r a : n o
A d e m a is , s e a m b o s o s t e r m o s [e x t r e m o s ] s e p r e d ic a m o u n ã o ,
c a s o d a q u e l a s c o m p l e t a d a s 95 p e l a d e m o n s t r a ç ã o p o r q u e - c o m o
p a r t ic u la r m e n t e d o m é d io , o u s e u m se p r e d ic a , m a s o o u tro
v i m o s - t o d a s a s c o n c lu s õ e s s ã o a l c a n ç a d a s m e d ia n t e a c o n v e r s ã o
n ã o , o u s e u m d e le s s e d i z p a r t ic u la r m e n t e d o m é d i o e n q u a n t o o
35 e e s t a p r o d u z a p r im e ir a f ig u r a , e n o c a s o d a q u e l a s a l c a n ç a d a s
o u t r o n ã o s e p r e d i c a u n iv e r s a lm e n t e d o m é d i o , o u s e e le s s e
p o r r e d u ç ã o a o a b s u r d o ( reductio ad impossibile) p o rq u e se u m a
a c h a m r e l a c i o n a d o s in d e f in id a m e n t e a o m é d io , n ã o h a v e r á , d e
f a ls a p r e m is s a é a s s u m id a , o b t e m o s o s ilo g is m o p o r m e i o d a p r i ­
m odo a lg u m , u m s ilo g is m o . C o n s t it u e m e x e m p lo s d e te rm o s
m e i r a f ig u r a - p o r e x e m p l o , n a ú lt im a f ig u r a , s e A e B s e a p li c a m
10 c o m u n s a to d o s e ste s c a s o s animal, homem, branco; animal,
a to d o C, o b t e m o s u m s il o g is m o a c o n c l u i r q u e A se a p lic a a a l­
inanimado, branco.
gum B, p o r q u e s e n ã o s e a p lic a s s e a n e n h u m B, e B s e a p lic a s s e a
A s s i m , t a m b é m n e s s a f ig u r a s e e v i d e n c i a q u a n d o h a v e r á o u to d o C, A n ã o s e a p l ic a r ia a n e n h u m C. M a s ex hypothesi a p li c a -
n ã o u m s ilo g is m o , e q u e r e s u lt a r á n e c e s s a r i a m e n t e u m s il o g i s m o se a t o d o C. N o s d e m a is c a s o s o c o r r e a l g o a n á lo g o .
o n d e o s t e r m o s f o r e m r e l a c i o n a d o s d a m a n e i r a d e s c r i t a ;94 e q u e ,
29bl E t a m b é m p o s s í v e l r e d u z i r t o d o s o s s i l o g is m o s a o s s il o g is m o s
s e h o u v e r u m s ilo g is m o , o s t e r m o s t e r ã o q u e s e r r e l a c i o n a d o s
u n i v e r s a i s d a p r i m e i r a f ig u r a . [ O s s i lo g i s m o s ] d a s e g u n d a f ig u r a
d essa fo rm a . T a m b é m se e v id e n c ia que to d o s o s s ilo g is m o s
são c e r t a m e n t e c o m p l e t a d o s 96 c o m o a u x ílio d e ste s [ ú lt im o s ] ,
15 d e s s a f ig u r a s ã o im p e r f e it o s , u m a v e z q u e s ã o t o d o s c o m p l e t a ­
m a s n e m to d o s d a m e s m a fo rm a , ou seja, o s s il o g is m o s u n i v e r ­
d o s p o r m e i o d a s u p o s i ç ã o d e c e r t a s p r e m is s a s a d i c i o n a i s ; e q u e
s a is s ã o c o m p le t a d o s p o r m e io da co n ve rsã o da p r o p o s iç ã o
s e r á im p o s s í v e l p o r m e i o d e s s a f ig u r a o b t e r u m a c o n c l u s ã o u n i ­
n e g a t iv a , e c a d a u m d o s [ s ilo g is m o s ] p a r t i c u la r e s p o r u m a r e d u -
v e r s a l, n e g a t i v a o u a f ir m a t iv a .
5 ç ã o a o a b s u r d o ( reductio ad impossibile). O s s ilo g is m o s p a r t ic u ­
la r e s d a p r im e i r a f ig u r a s ã o r e a lm e n t e c o m p l e t a d o s p o r s i m e s ­
VII m o s , e m b o r a t a m b é m s e j a p o s s í v e l d e m o n s t r á - lo s p o r m e i o d a
s e g u n d a f ig u r a , s e r e c o r r e r m o s à reductio ad impossibile - p o r
Fica claro, inclusive, que em todas as figuras, sempre que
e x e m p lo , s e A se a p lic a a to d o B, e B a a l g u m C, r e s u lt a q u e A
20 não obtemos nenhum silogismo, sendo ambos os termos afirma­
tivos ou ambos negativos, não se obtém, de modo algum, uma
conclusão necessária; entretanto, sendo um termo afirmativo e 95. Ou sejam, as conclusões; mas a redação aqui é confusa e imprópria: o que é
completado é o silogismo e não a conclusão, que é obtida, atingida, alcançada.
96. xeXEtouvxai (teleioüntai): o leitor deve ter em mente que a idéia de completitude se
93 Vide 27Ó20. identifica aqui com a de perfeição, isto é, o silogismo completado é o silogismo tor­
94. Em 28a18, 26, 28b5, 15, 31. nado perfeito.
1 2 8 - E d ip r o A r is tó te le s - Órg ano n Ó r g a n o n —A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 129

s e a p l i c a a a l g u m C , p o r q u e s e n ã o s e a p lic a s s e a n e n h u m C, s e p u r a e s im p le s m e n t e , m a s s ã o c o n t i n g e n t e m e n t e a p l i c á v e i s ) ,
1o m a s s e a p lic a s s e a t o d o B , B n ã o s e a p l i c a r i a a n e n h u m C , u m a f i c a c la r o q u e o s i lo g i s m o , i n c l u s i v e , é d if e r e n t e e m cada um
v e z q u e d is t o e s t a m o s c ie n t e s p o r m e i o d a s e g u n d a f ig u r a . A d e s s e s c a s o s e q u e o s te rm o s n ã o e s tã o r e la c io n a d o s d o m e s m o
d e m o n s t r a ç ã o a s s u m ir á f o r m a s e m e lh a n t e t a m b é m n o c a s o d a m o d o , u m s ilo g is m o c o n c lu in d o a p a r t ir d a q u ilo q u e é n e c e s s á ­
r e l a ç ã o n e g a t iv a , p o i s s e A n ã o s e a p l i c a r a n e n h u m B , e B s e r io , u m o u t r o a p a r t ir d a q u i l o q u e é e u m t e r c e ir o a p a r t ir d a q u i -
a p l i c a r a a lg u m C , A n ã o s e a p l i c a r á a a lg u m C , p o i s s e a p l i c a r - 35 lo q u e é c o n t i n g e n t e .100
s e a t o d o C , m a s n ã o s e a p lic a r a n e n h u m B , B n ã o s e a p lic a r á a
Se a s p r e m is s a s fo r e m a p o d í t i c a s ,101 a s c o n d i ç õ e s s e r ã o , a
n e n h u m C , o q u e c o rre sp o n d e à fo rm a q u e d e s c re v e m o s c o m o
g r o s s o m o d o , a s m e s m a s d e q u a n d o a s p r e m i s s a s s ã o a s s e r t ó r i-
15 f i g u r a m e d i a n a .97 E , a s s im , v is t o q u e o s s i l o g i s m o s d a f ig u r a
c a s .102 Q u a n d o o s t e r m o s e s t ã o r e l a c i o n a d o s d o m e s m o m o d o ,
m e d i a n a p o d e m t o d o s s e r r e d u z id o s a o s s ilo g is m o s u n i v e r s a i s d a
e n t ã o t a n t o n a s p r o p o s iç õ e s a s s e r t ó r ic a s q u a n t o n a s a p o d í t i c a s -
p r i m e i r a f ig u r a , e o s s ilo g is m o s p a r t ic u la r e s d a p r im e ir a f ig u r a
q u e r s e j a m a f i r m a t iv a s o u , n e g a t i v a s - r e s u lt a r á o u n ã o u m s i l o ­
a o s s ilo g is m o s u n iv e r s a is d a m e d i a n a , e v i d e n c i a - s e q u e o s s i l o ­
g is m o d o m e s m o m o d o . A ú n ic a d ife r e n ç a s e r á o s te rm o s te re m
g is m o s p a r t ic u la r e s [ d a p r im e ir a f ig u r a ] t a m b é m p o d e m s e r r e ­
a g re g a d o s a si a s e xp re ssõ e s “se a p lic a n e c e s s a r ia m e n t e ” o u
d u z i d o s a o s s ilo g is m o s u n iv e r s a is d a p r im e ir a f ig u r a .
30at “ n ã o s e a p l i c a n e c e s s a r i a m e n t e ” , p o i s a p r e m is s a n e g a t i v a s e
20 N o q u e c o n c e r n e a o s s ilo g is m o s d a t e r c e ir a f ig u r a , u m a v e z c o n v e r t e d a m e s m a f o r m a e d is p o r e m o s d a m e s m a e x p l i c a ç ã o 103
q u e o s te rm o s s e ja m u n iv e r s a is , s ã o c o m p l e t a d o s d ir e t a m e n t e d a e x p r e s s ã o “ e s t a r in t e ir a m e n t e c o n t i d o e m ” o u “ s e r p r e d i c a d o
p o r m e i o d o s s ilo g is m o s a c i m a i n d i c a d o s ;98 m a s q u a n d o o s t e r ­ d e t o d o ” .104
m o s s ã o p a r t ic u la r e s , s ã o c o m p l e t a d o s m e d ia n t e o s s ilo g is m o s
A s s im , e m t o d o s o s d e m a is c a s o s , a c o n c lu s ã o s e r e v e la r á
p a r t ic u la r e s d a p r im e ir a f ig u r a . M a s e s t e s , c o m o v i m o s , s ã o r e ­
5 c o m o s e n d o n e c e s s á r i a d o m e s m o m o d o c o m o n u m s il o g i s m o
d u z í v e i s a o s m e n c i o n a d o s a c i m a 99 e , c o n s e q ü e n t e m e n t e , [ t a m ­
a s s e r t ó r ic o ,105 p o r m e i o d e c o n v e r s ã o ; c o n t u d o , n a f ig u r a m e d ia ­
b é m ] o s ã o o s s ilo g is m o s p a r t ic u la r e s d a t e r c e ir a f ig u r a . A s s i m ,
n a , q u a n d o a p r o p o s iç ã o u n iv e r s a l é a f ir m a t iv a e a p a r t ic u la r
25 e v i d e n c i a - s e q u e t o d o s o s s ilo g is m o s s ã o r e d u z ív e is a o s s i l o g i s ­
n e g a t iv a , e n o v a m e n t e n a t e r c e ir a f ig u r a , q u a n d o a p r o p o s i ç ã o
m o s u n iv e r s a is d a p r im e ir a f ig u r a .
u n i v e r s a l é a f i r m a t iv a e a p a r t i c u l a r n e g a t i v a , a d e m o n s t r a ç ã o
E c o m is s o t e m o s c o m o e x p lic it a d o , c o m r e f e r ê n c ia a o s s i l o ­ n ã o a s s u m ir á a m e s m a f o r m a . E p r e c i s o t o m a r e x e m p l o s d a q u e -
g is m o s que d e m o n stra m que um p r e d ic a d o s im p le s m e n t e se 10 la p a rte d e s e u s u je ito a q u e c a d a p r e d ic a d o n ã o s e a p lic a e
a p l i c a o u n ã o s e a p l i c a a u m s u j e it o , c o m o o s d a m e s m a f ig u r a
e s tã o r e la c io n a d o s e n tre s i m e s m o s e c o m o o s p e r te n c e n te s a
100. Isto é, um silogismo é constituído por premissas apodíticas, o segundo por pre­
d if e r e n t e s f ig u r a s e s t ã o r e l a c i o n a d o s e n t r e s i.
missas assertóricas e o terceiro por premissas problemáticas.
101. Dos silogismos concluídos a partir do necessário. Aristóteles não utiliza certamen­
te o vocábulo αποδεικτικός (apodeiktikos) (e Bekker o confirma) em todo este
VIII contexto, mesmo porque este significa demonstrativo, próprio ao convencimento
e não necessário [αναγκαίος (anagkaios), o que levou, inclusive, alguns traduto­
U m a vez que se aplicar n ã o é o m e s m o q u e se aplicar neces-
res a evitarem tal adjetivo, preferindo a expressão silogismo necessário (dedução
30 sanamente ou se aplicar contingentemente ( v is t o q u e h á m u i t o s necessária) e mesmo proposição necessária, conclusão necessária, etc. (é o ca­
p r e d ic a d o s q u e s e a p l i c a m , m a s n ã o necessariamente, e o u t r o s so, por exemplo, de A. J. Jenkinson, na sua tradução dos A. A. com base no texto
q u e n e m s e a p l i c a m n e c e s s a r i a m e n t e n e m , c o m e f e it o , a p l i c a m - do eminente W. D. Ross). Mas tal adjetivo se consagrou na linguagem lógica com
o sentido de necessário, inclusive em função do largo e intenso emprego que dele
fez Kant na distinção entre juízos apodíticos, assertóricos e problemáticos.
102. Dos silogismos concluídos a partir do que é (predicação simples).
97. μέσον σχήμα (meson schema), ou seja, a segunda, já que Aristóteles tem em 103. Em 24b26.
mente as três figuras descritas. 104. Ou seja, “ser predicado universalmente”.
98. Ou sejam, os silogismos universais da primeira figura. 105. Mais precisamente, um silogismo de predicação simples, formado por premissas
99. Ver nota acima. assertóricas.
1 3 0 - E d ip r o A r is t ó t e le s - Ór g an o n Ó r g a n o n —A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 3 1

d e s t a e x t r a ir a c o n c lu s ã o , p o i s d e p o s s e d e s t a c o m b i n a ç ã o d e p a r t ic u la r é q u e f o r a p o d ít i c a , a c o n c l u s ã o n ã o s e r á a p o d ít i c a ,

te rm o s o b te r e m o s u m a c o n c lu s ã o n e c e s s á ria . E s e a c o n c lu s ã o é q u e r a p r e m i s s a u n i v e r s a l s e j a n e g a t i v a o u a f i r m a t iv a . T o m e m o s

n e c e s s a r i a m e n t e v e r d a d e i r a n o q u e d i z r e s p e it o a o s e x e m p lo s p r im e ir a m e n t e a p r e m i s s a u n i v e r s a l c o m o a p o d í t i c a e q u e A s e

s e l e c i o n a d o s , e n t ã o s e r á n e c e s s a r i a m e n t e v e r d a d e i r a n o q u e d iz a p l i q u e n e c e s s a r i a m e n t e a t o d o B e B s im p le s m e n t e s e a p li q u e a

r e s p e i t o à p a r t e d o t e r m o o r ig in a l , u m a v e z q u e e s s a [ p a r t e ] é a l g u m C . E n t ã o t e r á q u e r e s u lt a r q u e A n e c e s s a r i a m e n t e s e a p l i ­

i d ê n t ic a a o e x e m p l o s e l e c i o n a d o . C a d a u m d e s t e s s ilo g is m o s é c a a a lg u m C , p o is C se s u b o r d in a a B e ex hypothesi A s e a p lic a

c o n s t r u íd o e m s u a p r ó p r i a f ig u r a . 30b l n e c e s s a ria m e n t e a t o d o B . A lg o a n á lo g o o c o r re ta m b é m s e o
s ilo g is m o f o r n e g a t iv o , u m a v e z q u e a d e m o n stra çã o se rá a
m e s m a . M a s s e a p r e m is s a p a r t ic u la r f o r a p o d í t ic a , a c o n c l u s ã o
IX n ã o s e r á a p o d í t i c a , u m a v e z q u e n ã o h á im p o s s i b i l i d a d e e n v o l ­

15 A c o n te ce por ve ze s o b te rm o s um s il o g i s m o a p o d í t i c o 106 v i d a - s e e la n ã o f o r v e r d a d e i r a - t a l c o m o n ã o h a v i a n e n h u m a

m e s m o q u a n d o s o m e n t e u m a d a s p r e m is s a s - n ã o i n d i s c r i m i n a ­ 5 n o s s i l o g i s m o s u n i v e r s a is . A l g o a n á l o g o s u c e d e t a m b é m n o c a s o

d a m e n t e u m a o u o u t r a d a s d u a s , m a s a p r e m is s a m a i o r - é a - d a s p r e m is s a s n e g a t i v a s . S ã o e x e m p l o s d e t e r m o s movimento,
p o d ít ic a , p o r e x e m p lo , s e A f o i t o m a d o c o m o s e a p l i c a n d o n e ­ animal, branco.
c e s s a r ia m e n t e o u n ã o s e a p l i c a n d o a B , e B c o m o s e a p l i c a n d o
s im p le s m e n t e a C . S e a s p r e m is s a s f o r e m t o m a d a s d e s t a f o r m a , X
20 A s e a p lic a r á n e c e s s a ria m e n t e (o u n ã o s e a p lic a r á ) a C , p o is
Na segu nd a f ig u r a , s e a p r e m is s a n e g a t iv a f o r a p o d ít ic a ,
v is t o q u e A n e c e s s a r i a m e n t e s e a p l i c a ( o u n ã o s e a p l i c a ) a t o d o
t a m b é m a c o n c l u s ã o s e r á a p o d ít ic a , m a s n ã o s e a p r e m i s s a a f ir -
B , e C é a l g u m B , é e v id e n t e q u e A t e r á t a m b é m q u e s e a p lic a r
10 m a t iv a f o r a p o d ít ic a . C om ecem os p o r su p o r q ue a p r e m is s a
( o u n ã o s e a p lic a r ) a C .107
n e g a t iv a s e ja a p o d ít ic a e s u p o n h a m o s q u e s e ja im p o s s ív e l p a r a
S e , e n t r e t a n t o , a p r e m is s a A B n ã o f o r a p o d í t i c a , m a s B C o A a p lic a r - s e a q u a l q u e r B , m a s q u e s e a p l i q u e s im p le s m e n t e a C .
f o r , a c o n c l u s ã o n ã o s e r á a p o d í t ic a . S e f o r , t e r á q u e r e s u lt a r C o n s e q ü e n t e m e n t e , u m a v e z q u e a p r e m is s a n e g a t i v a é c o n v e r ­
25 n e c e s s a r i a m e n t e , t a n tq , p e la p r im e ir a q u a n t o p e l a t e r c e ir a f ig u r a , t ív e l, é t a m b é m i m p o s s í v e l p a r a B a p l ic a r - s e a q u a l q u e r A . A ,
q u e A s e a p l i c a a a lg u m B . M a s is t o é f a ls o , p o i s B p o d e s e r t a l p o r é m , s e a p lic a a t o d o C . P o r c o n s e g u in t e , B n ã o p o d e s e a p li-
q u e s e j a p o s s ív e l a A n ã o s e a p l i c a r a n e n h u m B . A d e m a is , é 15 c a r a q u a lq u e r C , j á q u e C se s u b o r d in a a A . O m e s m o , ig u a l­
t a m b é m e v id e n t e , a p a r t ir d o e x a m e d o s t e r m o s , q u e a c o n c l u - m e n t e , a p r e s e n t a v a l i d a d e s e a p r o p o s i ç ã o n e g a t i v a s e r e f e r ir a
30 s ã o n ã o s e r á a p o d ít ic a . P o r e x e m p lo , s e s u p o r m o s q u e A s e ja C , p o is s e A n ã o p o d e se a p lic a r a q u a lq u e r C , t a m p o u c o p o d e
m o v im e n t o , B a n i m a l e C h o m e m . O h o m e m é n e c e s s a r i a m e n t e C a p lic a r - s e a q u a l q u e r A . M a s A s e a p l i c a a t o d o B . P o r t a n t o , C
u m a n im a l, m a s o a n im a l n ã o é n e c e s s a ria m e n t e movido e ta m ­ n ã o p o d e a p l ic a r - s e a q u a l q u e r B , c o m o q u e o b te m o s n o v a ­
p o u c o o é o h o m e m . A n a lo g a m e n t e , se a p r e m is s a A B fo r n e g a ­ m e n t e a p r i m e i r a f i g u r a ; e , a s s im , t a m p o u c o p o d e B s e a p l i c a r a
t iv a , u m a v e z q u e a d e m o n s t r a ç ã o é a m e s m a . C , u m a v e z q u e a p r e m is s a é c o n v e r t ív e l c o m o a n te s .

N o s s ilo g is m o s p a r t ic u la r e s , s e a p r e m is s a u n i v e r s a l f o r a p o d í - M a s s e a p r e m i s s a a f ir m a t iv a f o r a p o d í t i c a , a c o n c l u s ã o n ã o
35 t ic a , a c o n c lu s ã o t a m b é m s e r á a p o d ít ic a ; m a s s e a p r e m is s a 20 s e r á a p o d ít ic a . Q u e A n e c e s s a r i a m e n t e s e a p li q u e a t o d o B e
q u e e le m e r a m e n t e n ã o s e a p li q u e a n e n h u m C . E n t ã o , p e la
c o n v e r s ã o d a p r o p o s i ç ã o n e g a t iv a , o b t e m o s a p r im e i r a f ig u r a ; e
106. Mais exatamente, um silogismo necessário formado por premissas apodíticas. f o i d e m o n s t r a d o 108 n a p r im e i r a f i g u r a q u e , s e a p r e m i s s a m a i o r
107. Este argumento é fonte de controvérsia em torno dos A. A. Hugh Tredennick, que n e g a t iv a n ã o f o r a p o d ít ic a , t a m p o u c o o s e r á a c o n c lu s ã o . P o r ­
traduz os A. A. mormente sobre o próprio texto de Bekker, manifesta-se critica­
mente afirmando que o argumento é falacioso, sob o fundamento de que a rela­ ta n to , n ã o s e r á a p o d ít ic a n o e x e m p lo e m p a u ta .
ção de A com C só pode ser apodítica caso C seja necessariamente “algum B”.
Para Tredennick, não há clareza na distinção que Aristóteles faz entre relações
assertóricas e apodíticas. 108. Em 30a23 e seguintes.
1 3 2 - E d ip r o A r is tó te le s - Órg ano n ÓRGANON - ANALÍTICOS ANTERIORES - LlVRO I E d ip r o - 133

25 A lé m d is s o , s e a c o n c l u s ã o f o r a p o d ít ic a , s e g u ir - s e - á q u e C
n e c e s s a r i a m e n t e n ã o s e a p l i c a a a lg u m A , p o i s s e B n e c e s s a ria ­ N a ú lt im a f i g u r a , e s t a n d o o s t e r m o s e x t r e m o s n u m a r e l a ç ã o

m e n te n ã o s e a p lic a r a n e n h u m C , C n e c e s s a ria m e n t e ta m b é m u n iv e r s a l c o m o [te rm o ] m é d io , e s e n d o a m b a s a s p r e m is s a s

n ã o s e a p lic a r á a n e n h u m B. M a s B t e m q u e s e a p l i c a r a a lg u m 20 a f ir m a t iv a s , s e u m a p r o p o s i ç ã o o u o u t r a f o r a p o d í t i c a , a c o n c l u ­

A , is t o é , s e A , ex hypothesi, t e m q u e s e a p l i c a r a t o d o B. E m s ã o t a m b é m o s e r á . S e , t o d a v i a , u m a [ p r e m is s a ] f o r n e g a t i v a e a

c o n s e q ü ê n c ia , C n e c e s s a ria m e n te n ã o s e a p lic a a a lg u m A . N ã o o u t r a a f ir m a t i v a , q u a n d o a n e g a t i v a é a p o d ít i c a , a c o n c l u s ã o

30 h á r a z ã o q u e im p e ç a , e n t r e t a n t o , t o m a r A , d e s o r t e a s e r p o s s ív e l s e r á t a m b é m a p o d í t i c a ; e n t r e t a n t o , q u a n d o a a f i r m a t iv a é a p o d í ­

a p lic a r - s e a t o d o C . t ic a , a c o n c l u s ã o n ã o o s e r á .

A d e m a is , se t o m a r m o s e x e m p lo s de te rm o s, p o d e -s e de­ P r im e ir a m e n t e , s u p o n h a m o s q u e a m b a s a s p r e m i s s a s s ã o a -

m o n s t r a r q u e a c o n c l u s ã o é n e c e s s á r i a n ã o a b s o lu t a m e n t e , m a s 25 f ir m a t i v a s , q u e t a n t o A q u a n t o B s e a p l i c a m a to d o C e q u e a

u m a v e z d a d a s c e r t a s c o n d iç õ e s . P o r e x e m p lo , q u e A s e j a animal, p r e m i s s a A C s e j a a p o d ít i c a . E n t ã o , u m a v e z q u e B s e a p l i c a a

B homem e C branco; e q u e a s p r e m is s a s s e j a m c o n s id e r a d a s d a t o d o C , C t a m b é m s e a p l i c a r á a a l g u m B ( d e v i d o à c o n v e r t i b i li ­

35 m e s m a m a n e ir a a n t e r io r .109 P o d e - s e d iz e r q u e a n im a l n ã o s e a p l i ­ d a d e e n t r e u n i v e r s a l e p a r t ic u l a r ) , d e m o d o q u e s e A s e a p l i c a r a

c a a n e n h u m b ra n co . E n tã o homem t a m b é m n ã o s e a p lic a r á a t o d o C , e C s e a p l i c a r a a lg u m B , A t e r á q u e s e a p l i c a r t a m b é m a

n e n h u m b r a n c o . M a s is s o n ã o s e r á a s s im n e c e s s a r ia m e n t e , u m a
30 a l g u m B , v is t o q u e B s e s u b o r d i n a a C . A s s i m o b t e m o s a p r i m e i ­

v e z q u e é p o s s ív e l q u e um homem branco v e n h a a e x is t ir , e m b o r a r a f ig u r a . A d e m o n s t r a ç ã o s e r á s e m e lh a n t e t a m b é m s e a p r e m is ­

n ã o e n q u a n t o a n im a l n ã o s e a p lic a r a n e n h u m b ra n c o . D e sta s a B C f o r a p o d ít i c a , p o i s p o r c o n v e r s ã o C s e a p l i c a a a l g u m A ,

m a n e ir a , u m a v e z d a d a s e s t a s c o n d iç õ e s , a c o n c lu s ã o s e r á n e c e s ­ d e m a n e ir a q u e s e B n e c e s s a ria m e n t e s e a p lic a r a to d o C , t a m ­

s á r ia . M a s n ã o s e r á n e c e s s á r ia d e f o r m a a b s o lu t a . b é m s e a p lic a r á n e c e s s a ria m e n t e a a lg u m A .

31 a i O m e s m o p r i n c í p i o s e a p r e s e n t a r á n o c a s o d o s s ilo g is m o s S u p o n h a m o s a g o r a q u e [ a p r e m is s a ] A C s e j a n e g a t i v a e B C
p a r t ic u la r e s . Q u a n d o a p r e m is s a n e g a t iv a f o r u n i v e r s a l e a p o d í t i ­ a f ir m a t iv a , e q u e a p r e m is s a n e g a t i v a s e j a a p o d ít i c a . E n t ã o , u m a
c a , a c o n c l u s ã o t a m b é m o s e r á ; m a s q u a n d o a p r e m is s a a f i r m a ­ 35 v e z q u e p o r c o n v e r s ã o C s e a p lic a a a lg u m B e A n e c e s s a ria ­
t i v a f o r u n iv e r s a l, e a n e g a t iv a p a r t ic u la r , a c o n c l u s ã o n ã o s e r á m e n te n ã o s e a p lic a a n e n h u m C , A t a m b é m n e c e s s a ria m e n t e
5 a p o d ít ic a . C o m e c e m o s p o r s u p o r q u e a p r e m is s a n e g a t iv a é n ã o s e a p lic a r á a a lg u m B , p o s t o q u e B s e s u b o r d in a a C . M a s s e
u n i v e r s a l e n e c e s s á r i a e q u e é i m p o s s ív e l p a r a A s e a p lic a r a a a p o d ít ic a fo r a p r e m is s a a f ir m a t iv a , a c o n c lu s ã o n ã o s e r á a p o ­
q u a lq u e r B, m a s q u e A s e a p liq u e a a lg u m C . E n t ã o , u m a v e z d ít ic a . S u p o n h a m o s q u e [ a p r e m is s a ] B C s e j a a f ir m a t i v a e a p o -
q u e a p r e m is s a n e g a t i v a é c o n v e r t ív e l, t a m b é m é i m p o s s ív e l p a r a 40 d í t i c a e A C s e j a n e g a t i v a e a s s e r t ó r ic a . E n t ã o , c o n s id e r a n d o - s e
B a p lic a r - s e a q u a l q u e r A . M a s A s e a p l i c a a a l g u m C , e a s s im B q u e a p r e m i s s a a f i r m a t iv a é c o n v e r t í v e l, C n e c e s s a r i a m e n t e t a m ­
n e c e s s a ria m e n t e n ã o s e a p lic a r á a a lg u m C . S u p o n h a m o s , d e s ta b é m se a p lic a r á a a lg u m B , d e m o d o q u e s e A n ã o s e a p lic a a
10 f e it a , q u e a p r e m is s a a f ir m a t iv a s e j a u n iv e r s a l e a p o d í t i c a e q u e 31 b1 nenhum C e C s e a p li c a n e c e s s a r ia m e n t e a a l g u m B, A n ã o se
e la s e r e f ir a a B. E n t ã o , s e A n e c e s s a r ia m e n t e s e a p lic a r a t o d o B e a p lic a r á a a lg u m B . M a s is s o n ã o s e r á a s s i m n e c e s s a ria m e n t e ,
n ã o s e a p lic a r a a lg u m C , e v id e n t e m e n t e B n ã o s e a p lic a r á a a l ­ u m a v e z q u e f i c o u d e m o n s t r a d o n a p r im e ir a f ig u r a q u e s e a p r e ­
g u m C , o q u e , c o n t u d o , n ã o s e r á a s s im n e c e s s a r ia m e n t e . O s t e r ­ m is s a n e g a t i v a n ã o f o r a p o d ít ic a , t a m p o u c o o s e r á a c o n c lu s ã o .
m o s q u e o d e m o n s t r a m s ã o o s m e s m o s d o s s ilo g is m o s u n iv e r s a is .
A d e m a i s , t a l f a t o p o d e s e r e v i d e n c i a d o t o m a n d o - s e e x e m p lo s
15 T a m p o u c o a c o n c lu s ã o s e r á a p o d ít ic a s e a p r o p o s iç ã o n e g a ­ 5 d e te rm o s . Q u e A s e ja bom, B animal e C cavalo. E n t ã o é p o s s í­
t i v a f o r a p o d í t i c a e p a r t ic u la r , o q u e é d e m o n s t r á v e l m e d ia n t e o s vel que bom n ã o s e a p li q u e a n e n h u m c a v a l o , m a s animal te m
m e s m o s te rm o s. q u e s e a p lic a r a t o d o c a v a lo . M a s n ã o é necessário q u e a lg u m
a n im a l n ã o s e ja b o m , u m a v e z q u e é p o s s ív e l q u e t o d o a n im a l
s e j a b o m . O u , s e is s o n ã o f o r p o s s í v e l , t o m e m o s t e r m o s c o m o
109. 30b20.
134 - E d ip r o A r is tó te le s - Ór g ano n
ÓRGANON - ANALÍTICOS ANTERIORES - LlVRO I E d ip r o - 1 3 5

10 desperto ou adormecido, v is t o q u e t o d o a n i m a l é r e c e p t iv o a
32a l universal afirmativa for apodítica - desperto, animal, homem
e ste s e sta d o s .
(homem sendo o termo médio); [2o] quando a premissa apodíti­
A s s i m , in d i c a m o s e m q u a i s c ir c u n s t â n c ia s a c o n c l u s ã o s e r á ca afirmativa for particular - desperto, animal, branco (pois ani­
a p o d í t i c a s e o s t e r m o s e x t r e m o s e s t iv e r e m n u m a r e l a ç ã o u n i v e r ­ mal tem que se aplicar a algo branco, mas é possível que desper­
s a l c o m o m é d io . S e u m t e r m o , p o r é m , s e a c h a r n u m a r e l a ç ã o to não se aplique a nenhum branco, e não é necessário que
u n i v e r s a l e o o u t r o n u m a p a r t ic u la r , s e n d o a m b a s a s p r e m is s a s desperto não se aplique a algum animal particular); [3 o] quando
a f ir m a t iv a s - q u a n d o a r e l a ç ã o u n iv e r s a l f o r a p o d í t i c a - , a c o n - a premissa particular negativa for apodítica - bípede, móvel,
15 c l u s ã o t a m b é m s e r á a p o d ít ic a . A d e m o n s t r a ç ã o é a m e s m a d e 5 animal (animal sendo o termo médio).
a n t e s , p o i s a p r e m is s a p a r t ic u la r a f ir m a t iv a é t a m b é m c o n v e r t í­
v e l. A s s i m , s e B t e m q u e s e a p l i c a r a t o d o C e A s e s u b o r d i n a a
C , B t e m q u e s e a p lic a r a a lg u m A , e s e B t e m q u e s e a p lic a r a
a lg u m A , A t e m t a m b é m q u e s e a p lic a r a a lg u m B , u m a v e z q u e a Fica evidente, portanto, que, enquanto não há nenhum silo­
p r e m is s a é c o n v e r t ív e l. A s it u a ç ã o s e r á a n á lo g a , s u p o n d o - s e q u e a gismo assertórico, salvo se ambas as premissas estiverem no m o­
20 p r e m is s a A C s e j a a p o d ít ic a e u n iv e r s a l, j á q u e B s e s u b o r d in a a C . do assertórico, há um silogismo apodítico, mesmo se apenas uma
S e , c o n t u d o , é a p r e m is s a p a r t ic u la r q u e é a p o d í t i c a , a c o n ­ das premissas for apodítica.112 Mas em ambos os casos, sejam os
c l u s ã o n ã o s e r á a p o d ít ic a . Q u e [ a p r e m is s a ] B C s e j a p a r t ic u la r e 10 silogismos afirmativos ou negativos, uma das premissas tem que
a p o d ít ic a e q u e A s e a p liq u e a to d o C , m a s não n e c e s s a r ia m e n ­ ser semelhante à conclusão (por semelhante113 quero dizer que, se
t e . E n t ã o , m e d ia n t e a c o n v e r s ã o d e B C , o b t e m o s a p r im e ir a a conclusão é assertórica, a premissa precisa ser assertórica, e se a
f i g u r a e a p r e m is s a u n iv e r s a l n ã o é a p o d ít ic a , m a s a p a r t ic u la r o conclusão é apodítica, a premissa tem que ser apodítica). Por
25 é . O r a , c o n s t a t a m o s q u e t o d a v e z q u e a s p r e m is s a s s e r e l a c i o ­ conseguinte, evidencia-se também o seguinte: não será possível
n a m a s s im , a c o n c l u s ã o n ã o é a p o d í t i c a 110 e , p o r t a n t o , t a m p o u ­ que a conclusão seja apodítica ou assertórica, a menos que uma
c o o s e r á n o c a s o e m p a u t a . A l é m d is s o , e s t e f a t o p o d e s e r e v i ­ premissa seja tomada como apodítica ou assertórica.
d e n c i a d o t o m a n d o - s e e x e m p lo s d e t e r m o s . S u p o n h a m o s q u e A 15 N o que toca ao tipo apodítico [de silogismo],114 com o ele é
s e ja desperto, B bípede e C animal. E n t ã o , B t e m q u e s e a p lic a r obtido e de que forma difere do assertórico, discorremos, no
a a l g u m C , e é p o s s ív e l q u e A s e a p liq u e a C ; p o r é m , A n ã o s e geral, o suficiente.
30 a p lic a n e c e s s a ria m e n t e a B , p o is n ã o é n e c e s s á r io q u e u m b íp e ­
d e p a r t ic u la r e s t e ja a d o r m e c i d o o u d e s p e r t o . P o d e - s e d e m o n s ­
t r á - lo a n a lo g a m e n t e p o r m e i o d o s m e s m o s t e r m o s s u p o n d o q u e XIII115
[ a p r e m is s a ] A C s e j a p a r t ic u la r e a p o d ít ic a . Em seguida, nos manifestaremos sobre o tipo problemàtico
S e , e n t r e t a n t o , u m d o s t e r m o s f o r a f ir m a t iv o e o o u t r o n e g a ­ (contingente)116 quanto a quando e em que sentido e por quais
t iv o , s e n d o a p r e m is s a u n iv e r s a l n e g a t i v a e a p o d í t i c a , a c o n c l u ­
s ã o t a m b é m s e r á a p o d í t i c a , p o i s s e é im p o s s í v e l p a r a A a p lic a r - 112. Ver nota 43.
35 se a q u a lq u e r C , e B s e a p lic a r a a lg u m C , A n e c e s s a ria m e n t e 113. ομοιαν (omoian).
n ã o s e a p l i c a a a l g u m B . M a s q u a n d o a p r e m i s s a a f i r m a t iv a - 114. Περι μεν ουν του αναγκαιον,... (Perí men οΰη toü anagkaion), literalmente: No que
u n i v e r s a l o u p a r t ic u la r - o u a p r e m is s a p a r t ic u la r n e g a t i v a f o r toca ao necessário.
a p o d ít ic a , a c o n c lu s ã o n ã o o s e rá . O re s to d a d e m o n s t r a ç ã o s e r á 115. Outros helenistas que estabeleceram os A. A. (como W. D. Ross) determinam como
inicio do capítulo XIII o começo do parágrafo anterior. Por força da própria mudança
o m e s m o d e a n t e s 111 e o s t e r m o s s e r ã o : [ I o] q u a n d o a p r e m is s a
normal do objeto de discussão, a opção de Bekker nos parece a acertada.
116. Aristóteles escreve simplesmente ...περι δε του ενδεχομενου (peri de toü endecome-
110. Em 30a35, b1 e seguintes. noü): sobre o possível [o admissível, o contingente, ou seja, o ενδεχεσθαι υπαρχειν
(endechesthai üparchein)·. o que tem eventual pertinência ou aplicação, como na
111. Cf. 31 a37 e seguintes; b20 e seguintes.
proposição a priori, “Um quadrado pode ser dividido em dois triângulos iguais” ou
1 3 6 - E d ip r o Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 3 7
A r is t ó t e le s - Ór g an o n

m e i o s o b t e m o s u m s ilo g is m o . C h a m o d e eventual e d e contin­ te a c o n t e c e , p o r é m c a r e c e d e n e c e s s i d a d e ; p o r e x e m p l o , o f a t o

gente ( p o s s ív e l) a c o i s a q u e q u a n d o - não sendo necessária -, d e u m h o m e m t o r n a r - s e g r is a l h o , c r e s c e r o u d e t e r io r a r - s e , o u e m


a o s e r a s s u m i d a , n ã o a c a r r e t a n e n h u m a im p o s s i b i l i d a d e ( d ig o g e r a l a q u i l o q u e é n a t u r a lm e n t e a p l i c á v e l a u m s u j e i t o ( p o is u m
não sendo necessária p o rq u e a p lic a m o s o te rm o contingente t a l a t r ib u t o n ã o a p r e s e n t a n e c e s s i d a d e c o n t í n u a , u m a v e z q u e
20 h o m ó n im a m e n t e a o q u e é n e c e s s á r i o ) . Q u e e s t e s e j a o s i g n i f i c a ­ u m h o m e m n e m s e m p r e e x is t e ; c o n t u d o , e n q u a n t o u m h o m e m
d o d a e xp re ssã o ser contingente t o r n a - s e e v id e n t e s e c o n s i d e ­ 10 e x is t ir , o a t r ib u t o s e lh e a p l i c a r á o u n e c e s s a r i a m e n t e o u c o m o
r a r m o s a s n e g a ç õ e s e a f ir m a ç õ e s c o n t r a d it ó r ia s , p o i s “n ã o é r e g r a g e ra l); e [2 ] n a i n d i c a ç ã o do in d e t e r m in a d o , d o que é
c o n tin g e n t e ( p o s s ív e l) que se a p liq u e ” , “é im p o s s í v e l q u e se p o t e n c ia lm e n t e o c o r r í v e l t a n t o d e u m a d a d a m a n e i r a q u a n t o d e
a p liq u e ” e “é n e c e s s á rio q u e n ã o s e a p liq u e ” ou s ã o id ê n t ic a s ou m a n e ir a d iv e r s a ; p o r e x e m p lo , o c a m in h a r d e u m a n im a l o u a
25 r e s u lt a m u m a s d a s o u t r a s - e , a s s im , a s s u a s c o n t r a d it ó r ia s : “ é o c o r r ê n c i a d e u m t e r r e m o t o e n q u a n t o e le e s t á c a m i n h a n d o , o u
p o s s í v e l q u e s e a p l i q u e ” , “ n ã o é i m p o s s ív e l q u e s e a p l i q u e ” e u m a o c o r r ê n c i a f o r t u it a e m g e r a l, p o i s n ã o é m a i s n a t u r a l q u e
“ n ã o é n e c e s s á r i o q u e n ã o s e a p l i q u e ” [ t a m b é m ] o u s ã o id ê n t i­ u m a ta l c o is a v e n h a a a c o n t e c e r d e u m m o d o d o q u e d o m o d o
cas ou r e s u lt a m u m a s d a s o u t r a s , p o r q u e d e t o d o s u j e i t o é p r e d i­ 15 o p o s t o . O c o n tin g e n t e e m c a d a u m a d e s s a s d u a s a c e p ç õ e s , p o r ­
c a d o o u a a f i r m a ç ã o o u a n e g a ç ã o . A q u i l o q u e é p o s s ív e l, p o r - ta n to , a p re s e n ta c o n v e r t ib i l id a d e co m su a p r e m is s a o p o sta -
30 ta n to , n ã o s e r á n e c e s s á rio , e a q u ilo q u e n ã o é n e c e s s á r io s e rá m as n ã o d o m esm o m o d o . O q u e é n a t u r a lm e n t e s e c o n v e r t e
p o s s ív e l. p o rq u e não se a p lic a n e c e s s a ria m e n t e (u m a v e z q u e é n e ste
s e n t id o q u e é possível a u m h o m e m n ã o s e t o r n a r g r is a lh o ) ; o
S e g u e - s e q u e t o d a s a s p r e m is s a s p r o b le m á t ic a s s ã o m u t u a ­
in d e t e r m in a d o , e n t r e t a n t o , s e c o n v e r t e p o r q u e e le o c o r r e n ã o
m e n t e c o n v e r t ív e is . O q u e q u e r o d iz e r n ã o é q u e a s a f ir m a t iv a s
m a i s d e u m a m a n e i r a d o q u e d e u m a o u t r a .117
a p re se n ta m c o n v e r t ib ilid a d e c o m a s n e g a t iv a s , m a s q u e t o d a s
q u e p o s s u e m f o r m a a f ir m a t iv a s ã o c o n v e r t ív e is c o m s u a s o p o s ­ N ã o h á c iê n c ia e silogismo demonstrativo118 d a s p r o p o s iç õ e s
t a s ; p o r e x e m p lo , “s e r p o s s ív e l a p l i c a r - s e ” c o m “ s e r p o s s í v e l n ã o in d e t e r m in a d a s p o r q u e o t e r m o m é d io n ã o é e s t a b e le c i d o [ o u
a p l i c a r - s e ” , e “ s e r p o s s í v e l a p lic a r - s e a t o d o ” c o m “ s e r p o s s ív e l s e j a , é in c e r t o ] , M a s h á a m b o s n o q u e t o c a à s p r o p o s iç õ e s q u e
a p l i c a r - s e a n e n h u m ” o u “ n ã o s e a p l i c a r a t o d o ” ; e “ s e r p o s s ív e l s ã o n a t u r a lm e n t e a p l i c á v e i s e - a n o s e x p r e s s a r m o s lato senso -
a p l i c a r - s e a a l g u m ” c o m “ s e r p o s s ív e l n ã o s e a p l i c a r a a l g u m ” , e 20 é c o m p r o p o s i ç õ e s q u e s ã o p o s s í v e is n e s t a a c e p ç ã o q u e e s t ã o
35 a n a lo g a m e n t e , n o s d e m a i s c a s o s , p o i s v is t o q u e o p o s s í v e l ( c o n ­ e n v o l v i d a s t o d a s a s d is c u s s õ e s e i n v e s t i g a ç õ e s . P o d e h a v e r u m
t in g e n t e ) n ã o é n e c e s s á r i o e o q u e n ã o é n e c e s s á r i o p o d e n ã o s e s ilo g is m o d a q u e la s q u e são p o s s ív e is ( c o n t in g e n t e s ) no o u tro
a p l ic a r , é e v id e n t e q u e s e é p o s s ív e l p a r a A a p lic a r - s e a B , t a m ­ s e n t id o , m a s n ã o é u s u a lm e n t e r e q u e r id o .
b é m lh e é p o s s í v e l n ã o s e a p lic a r ; e s e lh e é p o s s í v e l a p l i c a r - s e a E s s a s d is t in ç õ e s s e r ã o t r a t a d a s m a is e x t e n s iv a m e n t e n a s e ­
t o d o B , t a m b é m lh e é p o s s í v e l n ã o s e a p l i c a r a t o d o . A l g o a n á ­ q ü ê n c i a .119 N o s s a p r e o c u p a ç ã o d e m o m e f t t o é i n d i c a r e m q u a is
lo g o t a m b é m s u c e d e c o m a s a f ir m a ç õ e s p a r t ic u la r e s , u m a v e z c i r c u n s t â n c i a s u m s i l o g i s m o p o d e s e r e x t r a í d o d e p r e m is s a s p r o ­
32bl q u e c a b e a m e s m a d e m o n s t r a ç ã o . T a i s p r e m is s a s s ã o a f ir m a t i­ b le m á t ic a s e q u a l s e r á o c a r á t e r d e s t e s i lo g is m o .
v a s , n ã o n e g a t iv a s , v is t o q u e o s s e n t id o s d e ser possível (ser
25 V i s t o q u e a e x p r e s s ã o “ s e r p o s s í v e l a u m t e r m o a p li c a r - s e a
contingente) c o r r e s p o n d e m à q u e le s d e ser, c o m o já fo i in d ic a d o .
u m o u t r o ” p o d e s e r t o m a d a e m d o i s s e n t id o s d is t in t o s , a s a b e r ,
E s c l a r e c i d a s e s t a s d is t in ç õ e s , é - n o s f a c u lt a d o f a z e r a o b s e r v a ­
ç ã o a d ic io n a l d e q u e a e x p r e s s ã o ser possível (ser contingente) é
117. Esta argumentação aristotélica tem suscitado críticas (no que tange à sua exati­
5 e m p r e g a d a e m d o i s s e n t id o s : [ 1 ] n a i n d i c a ç ã o d o q u e g e r a l m e n -
dão) mediante a inclusão dos conceitos de provável e improvável.
118. συλλογισμος αποδεικτικός (süllogismos apodeiktikos): não co n fu n d ir com o
naquela, empírica, “Um deserto pode ser desabitado”, onde não há qualquer incom­ silogismo apodítico (ou silogismo que parte do necessário).
patibilidade entre o sujeito e o predicado], O adjetivo problemático, tal como apodíti- 119. Embora haja alusões aos Analíticos Posteriores (como a de Jenkinson a I, viii), é
co e assertórico, instaurou-se na terminologia lógica principalmente graças ao criti- mais provável que Aristóteles não tenha retornado explicitamente a este tema no
cismo (filosofia de Kant) e consagrou-se. tratado supra-mencionado ou se refira a um texto que não chegou a nós.
1 3 8 -E O IP R O A r is tó te le s - Órganon
n a n A N O N - ANALÍTICOS ANTERIORES - LlVRO I E D IP R O - 139

o u q u e é p o s s ív e l q u e s e a p liq u e a u m s u j e i t o a o q u a l o o u t r o
a p l i c a r a n e n h u m C , p o d e t a m b é m a p li c a r - s e a t o d o C ( o q u e f o i
te rm o se aplica, o u q u e p o d e s e a p lic a r a u m s u j e it o a o q u a l o
■)0 a s s e v e r a d o a n t e r io r m e n t e ) ; e , a s s im , s e B p o d e s e a p li c a r a t o d o
o u tro t e r m o pode s e a p l i c a r ( u m a v e z q u e a p r o p o s iç ã o d e q u e
C , e A p o d e s e a p l i c a r a t o d o B , o b t e m o s o m e s m o s i lo g i s m o
A p o d e s e r p r e d ic a d o d a q u ilo d e q u e B é p r e d i c a d o s ig n if ic a
n o v a m e n t e . A n a l o g a m e n t e t a m b é m s e s u p o r m o s q u e o s e n t id o
u m a d e d u a s c o is a s : o u q u e p o d e s e r p r e d i c a d o d o s u j e i t o d o
n e g a t i v o s e r e f e r e a a m b a s a s p r e m i s s a s c o n ju n t a m e n t e c o m o
30 qual B é p r e d ic a d o , o u q u e p o d e s e r p r e d ic a d o d o s u je ito do
15 s e n t id o d e c o n t i n g ê n c i a . Q u e r o d iz e r , p o r e x e m p l o , s e A p o d e
qual B pode s e r p r e d i c a d o , e a p r o p o s i ç ã o d e q u e A p o d e ser
n ã o a p lic a r - s e a n e n h u m B , e B a n e n h u m C , p o is m e d ia n t e a s
p r e d i c a d o d o s u j e it o d o q u a l B é p r e d i c a d o n ã o d if e r e d e m o d o
p r e m is s a s t o m a d a s d e s t a f o r m a n ã o o b t e m o s n e n h u m s i lo g i s m o ;
a lg u m d a p r o p o s iç ã o d e q u e A pode s e a p lic a r a t o d o B ) , é
c o n t u d o , a o c o n v e r t ê - la s , t e r e m o s d e n o v o o m e s m o s i l o g i s m o
c o n s p í c u o q u e h á d o i s s e n t id o s n o s q u a i s e s t a m o s c a p a c i t a d o s a
d e a n t e s . F i c a e v id e n t e , a s s im , q u e s e a n e g a t i v a s e r e f e r e a o
d iz e r q u e A pode s e a p lic a r a to d o B . C o m e c e m o s , p o r ta n to , p o r
t e r m o m e n o r o u a a m b a s a s p r e m is s a s , o u n ã o o b t e m o s s i l o g i s ­
i n d i c a r q u a l e d e q u e t ip o s e r á o s ilo g is m o , s e B puder s e r p r e d i­
m o a l g u m o u o b t e m o s u m s i l o g i s m o q u e n ã o é p e r f e it o , u m a v e z
c a d o d o s u j e it o d o q u a l C pode s e r p r e d ic a d o e A puder ser
20 q u e a n e c e s s á r ia c o n c lu s ã o d e p e n d e d a c o n v e r s ã o .
p r e d ic a d o d o s u je ito d o q u a l B pode s e r p r e d ic a d o , p o s to q u e
S e u m a d a s p r e m is s a s f o r t o m a d a c o m o u n i v e r s a l e a o u t r a
35 n e s t e t i p o a m b a s a s p r e m is s a s s ã o p r o b le m á t ic a s . M a s q u a n d o A
c o m o p a r t i c u la r , q u a n d o a p r e m is s a m a io r f o r u n iv e r s a l , h a v e r á
pode s e r p r e d i c a d o d o s u j e it o d o q u a l B é p r e d i c a d o , u m a p r e ­
u m s il o g i s m o p e r f e it o , p o i s s e A p o d e s e a p l i c a r a t o d o B , e B a
m i s s a é p r o b le m á t ic a e a o u t r a , a s s e r t ó r ic a . P r i n c i p i e m o s , a s s im ,
a lg u m C , A p o d e s e a p lic a r a a lg u m C , o q u e se e v id e n c ia a
c o m o t ip o c u ja s p r e m is s a s s ã o s e m e lh a n t e s d o p o n t o d e v i s t a d a
q u a l i d a d e , c o m o n o s d e m a is e x e m p lo s . p a r t ir d a d e f i n i ç ã o d e “s e r p o s s í v e l a p l ic a r - s e a t o d o ” . P o r o u t r o
25 l a d o , s e A p o d e n ã o a p l ic a r - s e a n e n h u m B , e B p o d e s e a p l i c a r
a a l g u m C , s e g u e - s e n e c e s s a r i a m e n t e q u e A n ã o p o d e s e a p li c a r
XIV a a lg u m C . A d e m o n s t r a ç ã o é a m e s m a d e a n te s . M a s s e a p r e ­
Q uando A puder a p lic a r - s e a t o d o B , e B a t o d o C h a v e rá m i s s a p a r t i c u l a r f o r n e g a t i v a e a u n i v e r s a l, a f i r m a t iv a - e s t a n d o
u m s il o g i s m o p e r f e it o p o r c o n c l u s ã o d e q u e A pode s e a p lic a r a a s p r e m is s a s n a m e s m a r e l a ç ã o a n t e r io r - ou seja, se A p o d e se
t o d o C , o q u e s e e v i d e n c i a a p a r t ir d a d e f in iç ã o , p o i s d is s e m o s a p lic a r a t o d o B e B n ã o p o d e s e a p lic a r a a lg u m C , n ã o o b te -
33al q u e “s e r p o s s ív e l a p lic a r - s e a t o d o ” t e m e s s e s i g n i f i c a d o .120 A n a ­ 30 m o s u m e v id e n t e s i l o g i s m o m e d i a n t e a s p r e m is s a s a s s i m t o m a ­
l o g a m e n t e , in c lu s iv e , s e A pode n ã o a p lic a r - s e a n e n h u m B , e B d a s; m as quando a p r e m is s a p a r t ic u la r é c o n v e r t id a , is t o é,
p o d e s e a p l i c a r a t o d o C , h a v e r á u m s il o g i s m o p o r f o r ç a d e A q u a n d o B é t o m a d o c o m o s e a p l i c a n d o p o s s iv e l m e n t e a a l g u m
p o d e r n ã o s e a p lic a r a n e n h u m C , p o is v im o s q u e a p r o p o s iç ã o C , t e r e m o s a m e s m a c o n c l u s ã o d e a n t e s , t a l c o m o n o s p r i m e ir o s
de que A não pode s e r p r e d i c a d o d o s u j e it o d o q u a l B pode ser e x e m p l o s .123
p r e d i c a d o s i g n i f i c a q u e n e n h u m a d a s p o s s ib ilid a d e s q u e s e e n ­
35 S e a p r e m i s s a m a i o r f o r p a r t ic u l a r , e a m e n o r u n iv e r s a l , s e ­
q u a d r a m n o t e r m o B é d e s c o n s i d e r a d a .121
ja m a m b a s t o m a d a s c o m o a f i r m a t i v a s , o u a m b a s c o m o n e g a t i­
5 Q u a n d o , e n tre ta n to , A p o d e s e a p lic a r a t o d o B e B p o d e v a s , o u c o m o d e s s e m e lh a n t e s n a f o r m a ; o u s e a m b a s s ã o t o m a ­
n ã o s e a p lic a r a n e n h u m C , nenhum s il o g i s m o é o b t id o p o r d a s c o m o i n d e f i n id a s o u p a r t i c u l a r e s - e m n e n h u m d e s t e s c a s o s
m e i o d a s p r e m is s a s a s s im t o m a d a s . C o n t u d o , q u a n d o a p r e m is ­ h a v e r á u m s i l o g is m o , p o i s n a d a h á q u e i m p e ç a o t e r m o B d e
s a B C é c o n v e r t id a d o p o n t o d e v is t a d a c o n t i n g ê n c i a , o b t é m - s e a p r e s e n t a r u m a e x t e n s ã o m a is a m p l a d o q u e o t e r m o A , d e s o r t e
o m e s m o s il o g i s m o d e a n t e s , 122 p o i s p o s t o q u e B p o d e n ã o s e q u e c o m o p r e d ic a d o s a b r a n ja m á r e a s d e s ig u a is . Q u e C re p re ­
s e n t e a d if e r e n ç a d e e x t e n s ã o e n t r e B e A : [ n e s t e c a s o n ã o h a v e -
33b l r á s ilo g is m o ] p o i s n ã o é p o s s í v e l q u e A s e a p l i q u e a t o d o , o u n ã o
120. Em 32b25 e seguintes.
121. Em 32b38-40.
122. 32a29 e seguintes.
123. 32b5-17.
Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 4 1
1 4 0 - E d ip r o A r is tó te le s - Organon

se a p liq u e a n e n h u m , ou se a p l i q u e a a lg u m ou n ã o s e a p liq u e a
XV
a lg u m C , quer dizer, s e a s p r e m is s a s p r o b le m á t ic a s s ã o c o n v e r t í- 25 S e u m a d a s p r e m i s s a s é a s s e r t ó r ic a e a o u t r a , p r o b le m á t i c a ,
v e i s e B p o d e s e a p l i c a r a m a is s u j e it o s d o q u e a q u e le s a o s q u a is q u a n d o é a p r e m is s a m a io r q u e e x p r e s s a c o n t in g ê n c ia , t o d o s o s
A p o d e s e a p lic a r . Q u e s e a c r e s ç a q u e e s t e f a t o p o d e s e r m o s t r a - s i l o g i s m o s s e r ã o p e r f e i t o s e s e r ã o d o t ip o contingente,126 de a-
5 do com c la r e z a r e c o r r e n d o - s e a e x e m p lo s d e t e r m o s , p o i s a s c o r d o c o m a d e f in iç ã o d e c o n t in g ê n c ia q u e fo i a p r e s e n t a d a p r e ­
p r e m is s a s e s t ã o l i g a d a s d e s t a f o r m a t a n t o q u a n d o o p r im e ir o c e d e n t e m e n t e ;127 m a s q u a n d o é a p r e m is s a m e n o r , t o d o s [ o s
t e r m o n ã o p o d e s e a p l i c a r a q u a lq u e r [ t e r m o ] , q u a n t o q u a n d o 30 s ilo g is m o s ] s e r ã o im p e r f e it o s e o s q u e s ã o n e g a t i v o s n ã o s e r ã o
e le t e m q u e s e a p l i c a r a o t o d o d o ú lt im o [ t e r m o ] , S ã o e x e m p lo s contingentes d e a c o r d o c o m a d e f in iç ã o , m a s o s e r ã o e m v i r t u d e
d e t e r m o s c o m u n s a t o d o s o s c a s o s e m q u e o p r im e ir o t e r m o d o p r e d ic a d o n ã o s e a p lic a r n e c e s s a ria m e n t e a q u a lq u e r o u a
t e m q u e s e a p l i c a r a o ú lt im o , animal, branco, homem-, em que t o d o n o q u e t a n g e a o s u j e i t o ,128 p o i s s e n ã o s e a p l i c a n e c e s s a r i a ­
e le n ã o p o d e s e a p lic a r , animal, branco, vestimenta. m e n te a q u a lq u e r o u a t o d o , d iz e m o s q u e é p o s s ív e l q u e n ã o s e
E v i d e n c i a - s e , a s s im , q u e q u a n d o o s t e r m o s e s t ã o r e l a c i o n a ­ a p liq u e a n e n h u m o u q u e é p o s s ív e l q u e n ã o s e a p liq u e a to d o .
d o s d e s t a f o r m a , n e n h u m s ilo g is m o é o b t id o , p o i s t o d o s ilo g is m o S u p o n h a m o s , a t ít u lo d e e x e m p l o , q u e é p o s s ív e l q u e A s e
10 é a s s e r t ó r ic o , o u a p o d ít ic o o u p r o b le m á t ic o . O r a , é e v id e n t e n ã o a p lic a a t o d o B e q u e B se a p lic a a t o d o C . E n t ã o , u m a v e z q u e
haver nenhum s il o g i s m o a s s e r t ó r ic o ou a p o d ít ic o n e ste caso , 35 C e s tá s u b o r d in a d o a B , e A p o d e s e a p lic a r a t o d o B , e v id e n t e ­
u m a v e z q u e a a f ir m a t iv a é i n v a l i d a d a p e la c o n c l u s ã o n e g a t i v a e m e n t e A p o d e s e a p l i c a r a t o d o C , d o q u e r e s u lt a o b t e r m o s u m
a n e g a t i v a p e l a a f ir m a t iv a . C o n s e q ü e n t e m e n t e , r e s t a a a lt e r n a t i­ s i l o g i s m o p e r f e it o . D e m a n e i r a s e m e lh a n t e , t a m b é m , s e a p r e ­
v a d o s il o g i s m o s e r p r o b le m á t ic o - c o n t u d o , is s o é i m p o s s ív e l, j á m is s a A B fo r n e g a t iv a e B C a f ir m a t iv a , s e n d o a p r i m e i r a p r o ­
que f o i e v id e n c ia d o que o s te rm o s e stã o r e la c io n a d o s d essa b l e m á t ic a e a ú lt i m a a s s e r t ó r ic a , h a v e r á u m s i l o g i s m o p e r f e it o
15 f o r m a t a n t o q u a n d o o p r im e ir o t e m q u e s e a p l i c a r a t o d o , c o m o p o r c o n c lu s ã o d e q u e A p o d e n ã o s e a p lic a r a n e n h u m C .
q u a n d o e le n ã o p o d e s e a p lic a r a n e n h u m , n o q u e t o c a a o ú lt i­
34 a 1 C o m is s o s e e v i d e n c i a q u e q u a n d o a p r e d i c a ç ã o s i m p l e s ( a s ­
m o . A s s im , n ã o p o d e haver um s il o g i s m o p r o b le m á t ic o , p o is
s e r t ó r ic a ) s e r e f e r e a o e x t r e m o m e n o r , o b t e m o s s il o g i s m o s p e r ­
v im o s q u e aquilo que é necessário não é contingente,124
f e it o s ; e n t r e t a n t o , a d e m o n s t r a ç ã o d e q u e t e r e m o s s i l o g i s m o s n a
É ta m b é m e v id e n t e q u e quando o s t e r m o s n a s p r e m is s a s d is p o s iç ã o o p o s t a e x ig ir á q u e e m p r e g u e m o s a reductio ad im­
p r o b le m á t ic a s s ã o u n iv e r s a is , o b t é m - s e s e m p r e u m s i l o g i s m o n a possibile. A o m e s m o t e m p o , t a m b é m f i c a r á c la r o q u e e s s e s s i l o ­
20 p r im e ir a f ig u r a , s e j a m o s t e r m o s a m b o s a f ir m a t iv o s o u a m b o s g i s m o s s e r ã o i m p e r f e it o s p o r q u e a d e m o n s t r a ç ã o n ã o s e r á t i r a d a
n e g a t iv o s , c o n s id e r a n d o - s e , c o n t u d o , a d if e r e n ç a d e q u e q u a n d o d a s p r e m is s a s o r i g i n a l m e n t e a s s u m i d a s .
s ã o a f ir m a t iv o s o s il o g i s m o é p e r f e it o e , q u a n d o n e g a t iv o s , e s t e é
5 T e m o s , e m p r i m e i r o lu g a r , q u e o b s e r v a r q u e s e o ser d e B se
i m p e r f e it o .
s e g u e n e c e s s a ria m e n t e d o ser d e A , a p o s s ib ilid a d e d e B se s e ­
O c o n t i n g e n t e d e v e s e r e n t e n d id o n ã o p o r r e f e r ê n c ia a o q u e g u ir á n e c e s s a ria m e n t e d a p o s s ib ilid a d e d e A . A d m it in d o e sta
é n e c e s s á r i o , m a s e m c o n f o r m id a d e c o m a d e f i n i ç ã o q u e j á a - r e la ç ã o e n tre A e B , s u p o n h a m o s q u e A s e ja p o s s ív e l e B im p o s ­
p r e s e n t a m o s .125 Is s o , à s v e z e s , p a s s a d e s a p e r c e b i d o . s ív e l. E n t ã o , s e o p o s s í v e l ( q u a n d o lh e é p o s s í v e l s e r ) pode v ir a

126. Ou seja, o silogismo problemático, segundo a terminologia lógica pós-aristotélica


aplicada a Aristóteles.
127. Em 32a18.
128. Certos helenistas encontram aqui uma inferência equívoca do próprio Aristóteles
com base no encadeamento lógico estabelecido anteriormente. Entende-se que o
124. Em 32a28. que é qualificado com respeito aos silogismos negativos toca também aos afirma­
tivos.
125. 32a18.
órganon - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 4 3
1 4 2 - E d ip r o A r is t ó t e le s - Ór g an o n

s e r ,129 o i m p o s s ív e l ( e n q u a n t o im p o s s ív e l) não pode v ir a se r; t a m b é m s e r á p o s s ív e l, p o i s s e f o r i m p o s s í v e l, a m e s m a c o i s a s e r á

10 a d e m a i s , s e A é p o s s ív e l e B, im p o s s ív e l, e n t ã o é p o s s ív e l p a r a A a o m e s m o t e m p o p o s s í v e l e im p o s s í v e l .

v ir a s e r s e m B, e s e v ir a s e r, e n tã o s e r , p o is a q u ilo q u e v e io a U m a v e z t a is p o n t o s e s c la r e c i d o s , s u p o n h a m o s q u e A s e a p li -
s e r , a o v i r a s e r , é .130 E m is t e r q u e e n t e n d a m o s impossível e 35 c a a t o d o B e q u e B p o d e se a p lic a r a t o d o C . E n t ã o s e g u e -s e
possível131 n ã o s o m e n t e n o q u e r e s p e it a à g e r a ç ã o c o m o t a m ­ n e c e s s a ria m e n t e q u e A p o d e s e a p lic a r a to d o C . M a s s u p o n h a ­
b é m n o q u e ta n g e à a f ir m a ç ã o v e r d a d e ir a e a t o d a p r e d ic a ç ã o e m o s q u e n ã o p o s s a s e a p li c a r e q u e B s e j a c o n s i d e r a d o c o m o s e
15 e m t o d a s a s o u t r a s a c e p ç õ e s n a s q u a is o v o c á b u l o possível é a p l i c a n d o a t o d o C ( o q u e é f a ls o , m a s n ã o i m p o s s í v e l ) ; s e , e n ­
u t i liz a d o , u m a v e z q u e o m e s m o p r i n c í p i o e s t a r á a t u a n t e e m tã o , A n ã o p o d e s e a p lic a r a to d o C , m a s B se a p lic a a to d o C , A
t o d o s e le s . A l é m d is s o , n ã o d e v e m o s s u p o r q u e a p r o p o s i ç ã o “ s e n ã o p o d e s e a p l i c a r a t o d o B ,136 c o m o q u e o b t e m o s u m s il o g is -
A é, B é ” s i g n i f i c a q u e s e a l g u m a c o i s a p a r t ic u la r ( s in g u la r ) , d i ­ 40 m o p o r m e i o d a t e r c e ir a f ig u r a . M a s , e x hypothesi, A p o d e se
gam os A , é, B será, p o i s n a d a r e s u lt a n e c e s s a r i a m e n t e d o s e r d e a p lic a r a t o d o B , d o q u e s e s e g u e n e c e s s a ria m e n t e q u e A p o d e
a l g u m a c o is a s in g u la r . S ã o n e c e s s á r ia s a o m e n o s duas, por exem ­ 34bl s e a p l i c a r a t o d o C , p o i s a o f a z e r u m a s u p o s i ç ã o f a ls a , a i n d a q u e
p lo , q u a n d o a s p r e m is s a s s ã o r e l a c io n a d a s , c o m o d is s e m o s c o m n ã o i m p o s s ív e l, o b t e m o s u m a c o n c l u s ã o im p o s s í v e l .
20 r e s p e it o a o s s i l o g i s m o s ,132 p o i s s e C é p r e d i c a d o d e D , e D d e
Podem os ta m b é m in d ic a r a im p o s s ib ilid a d e p o r m e io da
E ,133 C t a m b é m t e m q u e s e r p r e d i c a d o d e E .134 A l é m d is s o , s e
p r i m e i r a f ig u r a , s u p o n d o q u e B s e a p l i c a a C , p o i s s e B s e a p l i c a
c a d a u m a d a s p r e m is s a s é p o s s ív e l, t a m b é m o s e r á a c o n c lu s ã o .
5 a t o d o C e A p o d e s e a p l ic a r a t o d o B , A t a m b é m p o d e s e a p l i ­
A s s i m , s u p o n d o q u e A r e p r e s e n t a a s p r e m is s a s e B a c o n c lu s ã o ,
c a r a t o d o C . E n tre ta n to , fo i a d m itid o q u e [A ] n ã o p o d e se a p li­
r e s u lt a r á n ã o a p e n a s q u e q u a n d o A é a p o d ít ic o , B ta m b é m é
c a r a to d o [C ].
a p o d ít ic o , m a s t a m b é m q u e q u a n d o A é p o s s ív e l, B é p o s s ív e l.
P r e c is a m o s e n te n d e r a e xp re ssã o “ a p l ic a r - s e a to d o ” n ã o
25 E s t a d e m o n s t r a ç ã o t r a z a e v i d ê n c i a d e q u e s e u m a h ip ó t e s e é
c o m o q u a lif ic a d o n o q u e ta n g e a o te m p o , d ig a m o s , agora ou em
f a l s a ,135 m a s n ã o im p o s s ív e l, o r e s u lt a d o q u e é a l c a n ç a d o m e d i ­
determinado tempo, m a s n u m m o d o a b s o lu t o , p o i s é p o r m e i o
a n t e a h ip ó t e s e s e r á f a ls o , m a s n ã o im p o s s ív e l; p o r e x e m p lo , s e
d e p r e m is s a s t o m a d a s n e s t e ú lt i m o m o d o q u e c o n s t r u ím o s n o s ­
A é f a ls o , m a s n ã o i m p o s s ív e l, e s e o s e r d e B se se g u e d o ser de
s o s s i lo g is m o s . C a s o a p r e m i s s a s e j a t o m a d a r e l a t iv a m e n t e a o
A, e n tã o B s e r á f a ls o , m a s n ã o im p o s s ív e l, p o i s u m a v e z d e -
10 m o m e n t o p r e s e n t e , n ã o h a v e r á s i lo g i s m o , p o i s é p r e s u m ív e l q u e
30 m o n stra d o q u e q u a n d o A é, B é , q u a n d o A f o r p o s s ív e l, B ta m ­
n ã o h a ja r a z ã o p o r q u e n u m c e rto m o m e n to homem n ã o se a p li­
b é m s e r á p o s s ív e l; e u m a v e z s u p o s t o q u e A é p o s s ív e l, e n t ã o B q u e a t u d o q u e e s t e ja e m m o v i m e n t o , q u e r d iz e r , s e n a d a m a is
e s t iv e s s e e n t ã o e m m o v im e n t o ; m a s a e x p r e s s ã o em movimento
129. Ser gerado, passar a existir no tempo, daí acontecer. p o d e s e a p lic a r a t o d o s o s c a v a lo s e homem n ã o p o d e s e a p lic a r
130. Ver Metafísica, IX. a q u a l q u e r c a v a l o . T o m e m o s o p r im e ir o t e r m o c o m o animal, o
131. το αδύνατον κα ι δυνατον (to adünaton kai dünaton). Estes adjetivos estão apa­ m é d io com o em movimento e o ú lt im o c o m o homem. N e s t e
rentados ao substantivo δυναμις (dünamis), que significa potência, ou seja, a fa­ 15 c a s o , a s p r e m is s a s e s t a r ã o r e la c io n a d a s d o m e s m o m odo de
culdade de poder, a capacidade. Neste parágrafo Aristóteles reintroduz uma dis­
tinção entre contingente (endecomenos) e possível {dünaton). Dizemos que “Este a n t e s , p o r é m a c o n c l u s ã o é a p o d í t i c a e n ã o p r o b le m á t i c a , u m a
navio pode carregar vinte toneladas e pode atravessar o Atlântico” (é possível v e z q u e o h o m e m é n e c e s s a ria m e n t e u m a n im a l. C o m is s o f ic a
que este navio o realize - ele tem a potência para este ato) e dizemos “Esta ilha e v id e n t e q u e a p r e m i s s a u n i v e r s a l t e m d e s e r t o m a d a a b s o l u t a ­
pode abrigar selvagens hostis” (é possível - contingente - que abrigue selva­
gens hostis), “Comprei um bilhete de loteria e posso ganhar (o ganhar é mera­ m e n t e e n ã o c o m q u a l i f i c a ç ã o t e m p o r a l.
mente uma eventualidade - a contingência não é potência e, portanto, não impli­
ca necessariamente num ato).
132. Aristóteles parece se referir a 24b18, mas é duvidoso.
133. O texto registra Z (zeta), a sexta letra do alfabeto grego, e não E (epsilon), a quinta. 136. Alguns helenistas, por conta de uma certa ambigüidade criada neste argumento
134. Ver nota anterior. por falta de precisão terminológica, registram a incoerência da conclusão aristoté­
135. ψευδους... (pseudous) na acepção de 34a37. lica, se esta for entendida como apodítica.
1 4 4 - E d ip r o A r is tó te le s - Órg ano n Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 145

p r o b l e m á t i c a f o r c o n v e r t id a , h a v e r á u m s i lo g i s m o , t a l c o m o n o s
S u p o n h a m o s q u e A B s e j a u m a p r e m is s a u n i v e r s a l n e g a t i v a e
e x e m p l o s a n t e r io r e s . 139 Q u e A s e a p l i q u e a t o d o B e q u e B p o s ­
d i g a m o s q u e A n ã o s e a p l i c a a n e n h u m B e q u e B p o d e s e a p li-
s a n ã o s e a p lic a r a n e n h u m C . E n t ã o , c o m o s te rm o s n e s ta r e la -
20 c a r a t o d o C . E n t ã o a c o n s e q ü ê n c ia n e c e s s á r i a d e s s a s s u p o s i ­
10 ç ã o n ã o h a v e r á i n f e r ê n c ia n e c e s s á r i a , m a s s e a p r e m is s a B C f o r
ções é que A p o d e n ã o s e a p lic a r a n e n h u m C ; c o n je t u r e m o s
c o n v e r t i d a e B f o r t o m a d o c o m o p o s s i v e lm e n t e s e a p l i c a n d o a
q u e n ã o p o d e se a p lic a r [a n e n h u m C ] e t o m e m o s B c o m o se
to d o C , o b te re m o s u m s il o g is m o c o m o a n t e r i o r m e n t e ,140 v is t o
a p l i c a n d o a t o d o C , c o m o a n t e s .137 E n t ã o , s e g u e - s e n e c e s s a r i a ­
o b e d e c e r e m o s t e r m o s a s e m e lh a n t e d i s p o s i ç ã o . O m e s m o s e r á
m e n t e q u e A s e a p l i c a a a lg u m B , p o r f o r ç a d e u m s i l o g i s m o d a
v e r d a d e i r o q u a n d o a m b a s a s p r o p o s i ç õ e s f o r e m n e g a t iv a s , c a s o
25 t e r c e ir a f ig u r a , o q u e , c o n t u d o , é im p o s s ív e l. C o n s e q ü e n t e m e n ­
A B s e j a a s s e r t ó r ic a e n e g a t i v a e B C in d ic a r a p o s s ib ilid a d e d e
t e , s e r á p o s s ív e l p a r a A n ã o s e a p l i c a r a n e n h u m C , p o i s a o f a z e r
n ã o s e a p l i c a r a n e n h u m t e r m o u n i v e r s a l; m e d i a n t e a s s u p o s i -
u m a c o n je t u r a f a ls a , m a s n ã o im p o s s ív e l, o b t é m - s e u m r e s u lt a d o
15 ç õ e s ta l c o m o se a p re se n ta m n ã o l o g r a m o s , d e m o d o a lg u m ,
i m p o s s ív e l. E , a s s im , e s s e s ilo g is m o n ã o f o r n e c e u m a c o n c l u s ã o
u m a in f e r ê n c ia n e c e s s á r i a . M a s q u a n d o a p r e m i s s a p r o b l e m á t ic a
q u e s e ja contingente n a a c e p ç ã o d e f i n i d a ,138 m a s d e m o n s t r a q u e
f o r c o n v e r t id a , h a v e r á u m s i lo g i s m o . Q u e s e s u p o n h a q u e A n ã o
o p r e d i c a d o n ã o s e a p l i c a n e c e s s a r i a m e n t e à t o t a lid a d e d o s u j e i ­
s e a p lic a a n e n h u m C e q u e B p o d e n ã o s e a p lic a r a n e n h u m C .
t o , o q u e é a c o n t r a d it ó r ia d a c o n je t u r a q u e f iz e m o s , u m a v e z
N e n h u m a in f e r ê n c i a n e c e s s á r i a r e s u lt a r á d e s s a s s u p o s i ç õ e s . M a s
30 q u e f o i c o n je t u r a d o q u e A n e c e s s a r i a m e n t e s e a p l i c a a a l g u m C ,
s e fo r s u p o s t o q u e B p o d e s e a p lic a r a t o d o C , o q u e é v e r d a d e i­
e o s ilo g is m o per impossibile d e m o n s t r a a c o n t r a d it ó r ia o p o s t a à
r o , a p r e m i s s a A B p e r m a n e c e n d o i d ê n t ic a , o b t e r e m o s o m e s m o
c o n j e t u r a im p o s s ív e l.
20 s i l o g i s m o m a is u m a v e z .141 M a s s e f o r s u p o s t o n ã o q u e B p o d e
P o r o u t r o la d o , t o r n a - s e e v id e n t e , c o m b a s e n o e x a m e d o s
n ã o s e a p lic a r a n e n h u m C , m a s q u e B n ã o se a p lic a a q u a lq u e r
e x e m p l o s d e t e r m o s , q u e a c o n c l u s ã o n ã o s e r á p r o b le m á t ic a .
( a lg u m ) C , n ã o h a v e r á s il o g is m o e m q u a l q u e r c a s o , s e j a a p r e ­
S u p o n h a m o s q u e A s e ja corvo, B inteligente e C homem. E n tã o
m is s a A B n e g a t iv a o u a f ir m a t iv a . T e r m o s q u e s ã o c o m u n s a
A n ã o s e a p l i c a a n e n h u m B , p o i s n ã o h á n a d a in t e lig e n t e q u e a m b o s o s c a s o s e q u e r e v e l a m u m a r e l a ç ã o a p o d í t i c a a f ir m a t iv a
35 s e j a u m c o r v o . M a s B p o d e s e a p lic a r a t o d o C , u m a v e z q u e a
d o p r e d ic a d o c o m o s u j e it o s ã o branco, animal, neve; o s q u e
i n t e lig ê n c ia é a p l i c á v e l a t o d o h o m e m . A , p o r é m , n e c e s s a r i a ­
r e v e la m u m a r e l a ç ã o a p o d í t i c a n e g a t iv a ,branco, animal, resina.
m e n te n ã o s e a p lic a a n e n h u m C e , p o r c o n s e g u in t e , a c o n c lu ­
25 A s s im , e v id e n c ia - s e q u e , s e o s te rm o s s ã o u n iv e r s a is e u m a
s ã o n ã o é p r o b le m á t ic a . N e m , t a m p o u c o , é e la s e m p r e a p o d í t i ­
p r e m i s s a é a s s e r t ó r ic a e a o u t r a é p r o b l e m á t i c a , s e n d o a p r e m i s ­
ca , se s u p o rm o s q u e A é em movimento, B conhecimento e C
s a m e n o r p r o b l e m á t i c a , ,o r e s u l t a d o é s e m p r e u m s i l o g i s m o , à s
homem. N e s te c a s o , A n ã o s e a p lic a r á a n e n h u m B , m a s B p o -
v e z e s p a r t in d o d a s s u p o s i ç õ e s o r i g i n a i s e o u t r a s s e g u n d o a c o n ­
40 d e r á s e a p lic a r a t o d o C e a c o n c lu s ã o n ã o s e r á a p o d ít ic a , p o is
v e r s ã o d e d it a p r e m is s a . E x p l i c a m o s e m q u a i s c o n d i ç õ e s o c o r r e
n ã o é n e c e s s á r io q u e n e n h u m hom em e s t e ja e m m o v im e n t o ,
p e lo c o n t r á r io , n ã o é n e c e s s á r i o q u e qualquer ( a lg u m ) h o m e m
30 c a d a u m d esses ca so s e p o r q u a l ra zã o .

35a 1 e s t e ja . A s s i m , f ic a c la r o q u e a c o n c l u s ã o d e m o n s t r a u n ic a m e n t e S e , e n t r e t a n t o , u m a d a s p r o p o s iç õ e s é u n i v e r s a l e a o u t r a é
que um te rm o n ã o s e p r e d ic a n e c e s s a ria m e n t e d e u m o u tro p a r t ic u la r , sen d o a p r e m is s a m a io r u n iv e r s a l e p r o b le m á t i c a
t e r m o c o n s i d e r a d o u n iv e r s a lm e n t e . E n t r e t a n t o , o s t e r m o s d e v e m (n e g a t iv a o u a f ir m a t iv a ) e a p r e m i s s a p a r t ic u la r , a f ir m a t i v a e
s e r m e l h o r e le it o s . a s s e r t ó r ic a , h a v e r á u m a s i l o g i s m o p e r f e i t o , t a l c o m o q u a n d o o s
35 t e r m o s e r a m u n i v e r s a i s . A d e m o n s t r a ç ã o é a m e s m a d e a n t e s .142
S e , c o n t u d o , a p r e m is s a n e g a t iv a r e f e r ir - s e a o e x t r e m o m e -
5 n o r e p o s s u i r s i g n i f i c a ç ã o p r o b le m á t ic a , n ã o h a v e r á s i l o g i s m o a
p a r t ir d a s p r e m is s a s e f e t iv a s a s s u m id a s ; m a s q u a n d o a p r e m is s a
139. 33a7, 16.
140. 34a34.
137. 34a36. 141. Ver 34b19.
138. Em 32a18. 142. 33b33 e seguintes.
1 4 6 - E d ip r o A r is t ó t e l e s - Órganon ^ am o n - A n a lí t ic o s a n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 4 7

M a s q u a n d o a p r e m is s a m a io r f o r u n iv e r s a l, p o r é m a s s e r t ó r ic a e
n ã o p r o b le m á t ic a , s e n d o a o u t r a p a r t ic u la r e p r o b le m á t ic a , se
Q u a n d o u m a d a s p r e m is s a s a p r e s e n t a r u m s e n t id o a p o d ít ic o
a m b a s a s p r e m is s a s f o r e m n e g a t iv a s o u a m b a s a f ir m a t iv a s , o u
e a o u t r a u m s e n t id o p r o b le m á t i c o , h a v e r á u m s i l o g i s m o s e o s
u m a n e g a t i v a e a o u t r a a f ir m a t iv a , e m t o d a s a s s it u a ç õ e s h a v e r á
t e r m o s e s t iv e r e m r e la c io n a d o s d o m e s m o m o d o a n t e r io r ,145 e
um s il o g i s m o im p e r f e it o . M a s a d e m o n s t r a ç ã o s e r á t a n t o p e lo
s e r á p e r f e it o q u a n d o a p r e m i s s a a p o d í t i c a e s t iv e r l i g a d a a o t e r ­
35bl a b su rd o (reductio ad impossibile) q u a n to p e la co n ve rsã o da
m o m e n o r . S e o s t e r m o s f o r e m a f i r m a t iv o s , s e j a m u n i v e r s a i s o u
p r e m is s a p r o b le m á t ic a , c o m o n o s e x e m p lo s a n t e r io r e s .
não, a c o n c lu s ã o s e r á p r o b le m á t i c a , n ã o a s s e r t ó r ic a ; s e u m a
T e re m o s ta m b é m um s il o g i s m o por m e io de co n ve rsã o p r e m i s s a f o r a f ir m a t i v a e a o u t r a n e g a t iv a , s e n d o a a f i r m a t iv a
q u a n d o a p r e m is s a m a i o r u n iv e r s a l d e t iv e r u m s e n t id o a s s e r t ó r i- a p o d í t i c a , a c o n c l u s ã o s e r á p r o b l e m á t ic a e n ã o a s s e r t ó r ic a n e g a ­
5 c o a f ir m a t iv o o u n e g a t iv o e a p r e m is s a p a r t ic u la r f o r n e g a t i v a e t iv a ; e s e n d o a n e g a t i v a a p o d ít i c a , h a v e r á t a n t o u m a c o n c l u s ã o
30
d e t iv e r u m s e n t id o p r o b le m á t ic o ; p o r e x e m p lo , s e A s e a p lic a r p r o b l e m á t i c a q u a n t o u m a c o n c l u s ã o a s s e r t ó r ic a n e g a t i v a , s e j a m
o u n ã o se a p lic a r a to d o B e B p u d e r n ã o s e a p lic a r a a lg u m C , o s t e r m o s u n i v e r s a i s o u n ã o . O s e n t id o d e c o n t i n g ê n c i a p r e s e n t e
q u a n d o B C f o r c o n v e r t id a o b t e r e m o s u m s il o g i s m o p r o b le m á t i­ n a c o n c l u s ã o d e v e s e r e n t e n d id o d o m e s m o m o d o d e a n t e s .146
c o . M a s q u a n d o a p r e m is s a p a r t ic u la r f o r a s s e r t ó r ic a e n e g a t iv a , N ã o h a v e r á i n f e r ê n c ia a l g u m a d e v i d o a o p r e d i c a d o n e c e s s a r i a ­
n ã o h a v e r á s ilo g is m o . E x e m p l o s d e t e r m o s n o s q u a i s o p r e d ic a - m e n t e n ã o s e a p l i c a r a o s u j e it o , p o i s “ n ã o n e c e s s a r i a m e n t e s e
35
10 branco, animal, neve ; n o s q u a i s n ã o
d o s e a p lic a a o s u je ito s ã o a p l i c a r ” n ã o é id ê n t i c o a “ n e c e s s a r i a m e n t e n ã o s e a p l i c a r ” .
s e a p lic a , branco, animal, resina. A d e m o n s t r a ç ã o d e v e s e r e x ­
t r a í d a d o c a r á t e r i n d e f in id o d a p r e m is s a p a r t i c u l a r .143 O r a , é e v id e n t e q u e , q u a n d o o s t e r m o s s ã o a f ir m a t i v o s , a
c o n c l u s ã o o b t id a n ã o é a p o d í t ic a . S u p o n h a m o s q u e A te m q u e
M a s s e a p r e m is s a u n iv e r s a l s e r e f e r ir a o e x t r e m o m e n o r e a
s e a p lic a r a to d o B, e B p o d e se a p lic a r a t o d o C. E n tã o h a v e rá
p a r t ic u la r a o m a io r , s e n d o u m a o u o u t r a d a s p r e m is s a s n e g a t iv a
u m s il o g i s m o i m p e r f e it o p o r f o r ç a d e A p o d e r s e a p li c a r a t o d o
- o u a f ir m a t iv a , p r o b le m á t ic a o u a s s e r t ó r ic a , e m c a s o a l g u m h a v e -
36a1 C; q u e s e t r a t a d e u m s il o g i s m o im p e r f e it o r e s s a lt a c la r o d a d e ­
15 r á u m s ilo g is m o . T a m b é m q u a n d o a s p r e m is s a s s ã o p a r t ic u la r e s
m o n s t r a ç ã o , u m a v e z q u e e s t a s e c o n s t it u ir á d a m e s m a m a n e i r a
o u in d e f in id a s , im p o n d o a m b a s u m a r e l a ç ã o p r o b l e m á t i c a o u
q u e a n t e s .147 S u p o n h a m o s a g o r a q u e A p o d e se a p lic a r a to d o B
u m a r e l a ç ã o a s s e r t ó r ic a , o u u m a a p r im e ir a e a o u t r a a ú lt im a -
e que B te m q u e se a p lic a r a to d o C. E n t ã o h a v e r á u m s i lo g i s m o
n e s t a s c o n d i ç õ e s t a m b é m n ã o h a v e r á s ilo g is m o , s e n d o a p r o v a a
p o r fo rç a d e A p o d e r se a p lic a r a t o d o C, e n ã o p o r e le efetiva­
m e s m a d o s e x e m p lo s a n t e r io r e s .144 T e r m o s c o m u n s a t o d o s o s
mente s e a p l ic a r . E o s il o g is m o s e r á p e r f e it o , n ã o i m p e r f e it o ,
c a s o s n o s q u a i s o p r e d i c a d o n e c e s s a r i a m e n t e s e a p l i c a a o s u j e it o
u m a v e z q u e é c o m p l e t a d o d ir e t a m e n t e m e d ia n t e a s p r e m is s a s
são animal, branco, homem ; n o s q u a is n ã o p o d e p o s s iv e lm e n t e
o r ig in a i s .
20 se a p l i c a r , animal, branco, vestimenta.
S e a s p r e m is s a s n ã o f o r e m s e m e lh a n t e s q u a n t o à q u a l i d a d e ,
Com is s o f ic a e v id e n t e q u e q u a n d o a p r e m is s a m a i o r é u n i ­
com ecem os p o r to m a r a p r e m is s a n e g a t iv a com o a p o d ít ic a ;
v e r s a l, r e s u lt a s e m p r e u m s ilo g is m o , a o p a s s o q u e quando a
s u p o n h a m o s q u e s e ja im p o s s ív e l p a r a A a p lic a r - s e a q u a lq u e r B
m e n o r é u n i v e r s a l j a m a i s h á s ilo g is m o d e q u a l q u e r t ip o .
10 e su ponh am os que B p o d e a p l ic a r - s e a t o d o C. E n tã o se segu e
n e c e s s a ria m e n t e q u e A n ã o se a p lic a a n e n h u m C. M a s im a g i­
n e m o s q u e s e a p lic a a to d o o u a a lg u m C. O r a , fo i s u p o sto q u e
n ã o p o d e s e a p lic a r a q u a lq u e r B. E n t ã o , c o n s id e r a n d o - s e q u e a
p r e m i s s a n e g a t i v a é c o n v e r t ív e l , t a m p o u c o p o d e B s e a p lic a r a

145. Ou seja, aquele descrito no capítulo XV.


143. Ver 26b14, 27b20.
146. Ver 33b30, 34b27.
144. 33a34 e seguintes.
147. 34a34 e seguintes.
1 4 8 -E ü lP R O A r is tó te le s - Órganon nzKANQN - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 149

q u a l q u e r A . M a s f o i s u p o s t o q u e A s e a p l i c a a t o d o o u a a lg u m S e a premissa universal, seja afirmativa ou negativa, é problemá­


C . C o n s e q ü e n t e m e n t e , B n ã o p o d e s e a p lic a r a q u a lq u e r C o u a tica e se relaciona com a menor, ao passo que a premissa parti­
15 t o d o C . M a s f o i s u p o s t o o r ig in a l m e n t e q u e lh e é p o s s í v e l a p lic a r cular é apodítica e se relaciona ao termo maior, não haverá
a to d o . silogismo. Exemplos de termos nos quais o predicado necessária-
E e v id e n t e q u e p o d e m o s t e r u m s ilo g is m o d o t ip o p r o b l e m á ­ 5 mente se aplica são animal, branco, homem; nos quais o predi­
t ic o n e g a t iv o , u m a v e z q u e d is p o m o s t a m b é m d e u m s ilo g is m o cado não pode se aplicar,149 animal, branco, vestimenta. Q uan­
do t ip o a s s e r t ó r ic o n e g a t iv o . Q u e a p r e m is s a a fir m a t iv a s e ja do a premissa universal é apodítica e a particular problemática,
a g o r a a p o d ít ic a e s u p o n h a m o s q u e A pode n ã o s e a p lic a r a se a universal for negativa, os exemplos de termos nos quais o
n e n h u m B e q u e B t e m q u e s e a p l i c a r a t o d o C . E n t ã o o s ilo g is - 10 predicado se aplica ao sujeito serão animal, branco, corvo, e nos
20 m o s e r á p e r f e it o , e m b o r a n ã o v e n h a a s e r d o t ip o a s s e r t ó r ic o quais ele não se aplica, animal, branco, resina; se for afirmativa,
n e g a t iv o , m a s d o p r o b le m á t ic o n e g a t iv o , v is t o q u e a p r e m is s a os exemplos de termos nos quais o predicado se aplica são ani­
q u e s e l i g a a o t e r m o m a i o r f o i s u p o s t a n e s s e s e n t id o ; e e s t a m o s ma/, branco, cisne, e nos quais não pode se aplicar, animal,
i m p o s s ib ilit a d o s d e u t i liz a r a reductio ad impossibile, p o is s u ­ branco, neve.
p o n d o q u e A s e a p l i c a a a lg u m C , e n q u a n t o s e s u p õ e a i n d a q u e Tam pouco haverá um silogismo quando as premissas são
A p o d e n ã o s e a p lic a r a n e n h u m B , n e n h u m a c o n c lu s ã o im p o s ­ tom adas com o indefinidas ou am bas com o particulares. Exem ­
s ív e l é o b t id a p o r m e i o d e s s a s s u p o s i ç õ e s . S e , c o n t u d o , a n e g a t i- plos de termos comuns a todos os casos nos quais o predicado
25 v a e s t iv e r l i g a d a a o t e r m o m e n o r , s e n d o o s e n t id o p r o b le m á t ic o , se aplica ao sujeito são animal, branco, homem; nos quais não
h a v e rá um s il o g i s m o p o r co n ve rsã o , ta l c o m o n o s e x e m p lo s 15 se aplica ao sujeito, animal, branco, inanimado. C om efeito, a
a n t e r io r e s ; p o r é m , q u a n d o o s e n t id o n ã o é p r o b le m á t ic o , n ã o relação de animal com algum branco e do branco com algum
h a v e r á s ilo g is m o , c o m o t a m p o u c o h a v e r á u m q u a n d o a m b a s a s inanimado é simultaneamente necessária afirmativa e necessária
p r e m is s a s f o r e m t o m a d a s c o m o n e g a t iv a s e a m e n o r n ã o fo r negativa. O mesmo ocorre se a relação for problemática, de
p r o b le m á t ic a . Os te rm o s p e rm a n e ce m os m esm o s de a n te s: forma qué os termos são válidos para todos os casos.
n a q u e l e s n o s q u a is o p r e d i c a d o s e a p l i c a a o s u je it o , branco,
Evidencia-se, portanto, com base na análise que acabam os
30 animal, neve; n a q u e l e s e m q u e [o p r e d ic a d o ] n ã o s e a p l i c a [ a o
20 de efetuar que um silogismo resulta ou não de um a relação se­
s u j e i t o ] , branco, animal, resina.
melhante dos termos em proposições assertóricas e em apodíti-
O m esm o v a le p a r a o s s ilo g is m o s p a r t ic u la r e s . Q u a n d o a cas, com a qualificação de que, com o vimos, se a premissa ne­
p r e m i s s a n e g a t i v a é a p o d ít ic a , a c o n c l u s ã o t a m b é m s e r á d o t ip o gativa for tom ada com o assertórica, a conclusão será problemá­
35 a s s e r t ó r ic o n e g a t iv o . E x e m p l o : s e A n ã o p o d e s e a p l i c a r a q u a l ­ tica, enquanto se a premissa negativa for tom ada com o apodíti­
q u e r B e B p o d e s e a p lic a r a a lg u m C , s e g u e -s e n e c e s s a ria m e n t e ca, a conclusão será tanto problemática quanto negativa assertó­
q u e A n ã o s e a p lic a a a lg u m C , p o is s e A s e a p lic a r a t o d o C e rica. { E também evidente que todos os silogismos são imperfei-
n ã o p u d e r s e a p l i c a r a q u a l q u e r B , B t a m b é m n ã o p o d e r á a p li- 25 tos, sendo completados por meio das figuras já m enciona­
c a r - s e a q u a l q u e r A , e , a s s im , s e A s e a p l i c a a t o d o C , B n ã o d a s .}150
p o d e a p lic a r - s e a q u a lq u e r C . M a s f o i s u p o s t o q u e e le p o d e s e
a p lic a r a a lg u m C .

36bl Q u a n d o a p r e m is s a a f ir m a t iv a p a r t ic u la r ( n o m e a d a m e n t e B C )
n o s ilo g is m o n e g a t iv o o u a p r e m is s a u n iv e r s a l ( n o m e a d a m e n t e
A B ) n o s ilo g is m o a f ir m a t iv o é a p o d ít ic a , a c o n c lu s ã o n ã o s e r á
149. Ou seja, onde a predicação apodítica é negativa.
a s s e r t ó r ic a , o q u e é d e m o n s t r a d o d a m e s m a m a n e ir a a n t e r io r .148 150. Immanuel Bekker, como também W. D. Ross e outros ilustres helenistas, conside­
ram a sentença entre chaves suspeita, ou seja, não integrada genuinamente ao
texto aristotélico. Hugh Tredennick a julga completamente deslocada na finaliza­
148. Ver 36a19-25. ção deste período.
Ó R G A N O N - ANALÍTICOS ANTERIORES -L lV R O I E d ip r o - 1 5 1
1 5 0 - E d ip r o A r is tó te le s - Ór g ano n

XVII A d e m a i s , n ã o s e p o d e d e m o n s t r a r s e r e s t e t ip o d e p r o p o s i ç ã o
10 c o n v e r t ív e l m e d i a n t e a r e d u ç ã o a o a b s u r d o , p o r e x e m p lo , s e
N a s e g u n d a f ig u r a , q u a n d o a m b a s a s p r e m is s a s s ã o p r o b l e ­
f o s s e p a r a s e r a f i r m a d o q u e u m a v e z f a ls o q u e B p o s s a n ã o s e
m á t ic a s , n ã o h a v e r á s ilo g is m o a lg u m , s e j a a f ir m a t iv o o u n e g a t i­
a p lic a r a n e n h u m A , é v e r d a d e ir o q u e n ã o p o d e se a p lic a r a
v o , u n i v e r s a l o u p a r t ic u la r ; m a s q u a n d o u m a p r e m i s s a t e m u m
n e n h u m A , v i s t o s e r e s t a ú l t i m a p r o p o s i ç ã o o c o n t r a d i t ó r io d a
s e n t id o a s s e r t ó r ic o e a o u t r a u m s e n t id o p r o b le m á t ic o , c a s o s e j a
p r im e ir a ; e s e a s s i m é , é v e r d a d e i r o q u e B t e m q u e s e a p l i c a r a
30 a p r e m is s a a f ir m a t iv a q u e p o s s u i o s e n t id o a s s e r t ó r ic o , j a m a i s
a lg u m A ; p o r ta n to , A te m t a m b é m q u e s e a p lic a r a a lg u m B . M a s
h a v e r á u m s ilo g is m o ; m a s s e f o r a p r e m is s a u n i v e r s a l n e g a t iv a ,
is t o é i m p o s s ív e l. O r a c io c ín io é in a d m is s ív e l p o r q u e não se
s e m p r e h a v e r á u m . O m e s m o v a le q u a n d o u m a d a s p r e m is s a s é
s e g u e q u e s e B n ã o p o d e s e a p lic a r a n e n h u m A , te rá q u e s e
a s s u m i d a c o m o a p o d í t i c a e a o u t r a c o m o p r o b le m á t ic a . E p r e c i ­
15 a p l i c a r a a l g u m [ A ] , p o i s h á d o i s s e n t id o s n o s q u a i s d iz e m o s q u e
s o c o m p r e e n d e r o s e n t id o d e contingência n a s c o n c lu s õ e s d e s t e s
n ã o é p o s s ív e l p a r a u m p r e d ic a d o a p lic a r - s e a n a d a d e u m s u je i­
c a s o s d o m e s m o m o d o q u e a n t e s .151
to , a saber, [ 1 ] se n e c e s s a ria m e n t e s e a p lic a a a lg u m e [2 ] s e
35 D e v e m o s c o m e ç a r m o s t r a n d o q u e n ã o e x is t e c o n v e r s ã o d a n e c e s s a r ia m e n t e n ã o s e a p lic a a a lg u m . P o is n ã o é v e r d a d e ir o
p r e m i s s a p r o b le m á t ic a n e g a t iv a . P o r e x e m p lo , q u e s e A pode d iz e r q u e a q u i l o q u e n e c e s s a r i a m e n t e n ã o s e a p l i c a a alguns As
n ã o s e a p lic a r a n e n h u m B , n ã o s e s e g u e n e c e s s a r ia m e n t e q u e B p o d e n ã o s e a p lic a r a to d o A m a is d o q u e é v e r d a d e i r o q u e
p o d e n ã o s e a p l i c a r a n e n h u m A . Q u e is s o s e j a s u p o s t o , o u s e j a , a q u ilo q u e n e c e s s a ria m e n t e s e a p lic a a a lg u m p o d e se a p lic a r a
im a g in e m o s q u e B p o d e n ã o s e a p lic a r a n e n h u m A . E n t ã o , u m a 20 t o d o . A s s i m , s e f o s s e a f ir m a d o q u e d e s d e q u e n ã o é p o s s ív e l q u e
v e z q u e a f ir m a ç õ e s n o s e n t id o p r o b le m á t ic o t ê m c o n v e r t ib ilid a d e C s e a p l i q u e a t o d o D , e le n e c e s s a r i a m e n t e n ã o s e a p l i c a a a l ­
c o m s u a s n e g a ç õ e s - s e j a m c o n t r á r ia s o u o p o s t a s 152 - , e u m a v e z gum [ D ] , a s u p o s i ç ã o s e r ia f a ls a , p o i s e le r e a lm e n t e s e a p l i c a a
37a1 q u e B p o d e n ã o s e a p l i c a r a n e n h u m A , é e v id e n t e q u e B p o d e t o d o [ D ] , m a s p o r q u e e m a l g u n s c a s o s e le s e a p l i c a n e c e s s a r i a ­
t a m b é m a p lic a r - s e a t o d o A . Is t o é , c o n t u d o , f a ls o , p o i s n ã o s e m e n t e - p o r e s t a r a z ã o d i z e m o s q u e n ã ç lh e é p o s s í v e l a p li c a r - s e
s e g u e n e c e s s a r i a m e n t e q u e s e u m t e r m o p o d e s e a p l i c a r à t o t a li­ a t o d o [ D ] . A s s i m , à p r o p o s i ç ã o “A p o d e a p l ic a r - s e a t o d o B ” s e
d a d e d e u m o u t r o , e s t e ú lt im o p o d e t a m b é m s e a p l i c a r à t o t a li­ o p õ e n ã o s o m e n t e “A n ã o t e m q u e s e a p l i c a r a a l g u m B ” , c o m o
d a d e d o p r im e ir o . P o r t a n t o , a p r o p o s i ç ã o [ p r o b le m á t ic a ] n e g a t i­ 25 ta m b é m “A te m q u e se a p lic a r a a lg u m B ” ; a n a lo g a m e n t e n o
v a n ã o é c o n v e r t ív e l. c a s o d a p r o p o s i ç ã o “A p o d e n ã o s e a p l i c a r a n e n h u m B ” .
5 P o r o u t r o la d o , n ã o h á r a z ã o p o r q u e A n ã o d e v e s s e p o s s i­ A s s i m , f i c a c la r o q u e t e m o s q u e c o n s id e r a r c o m o o p o s t o à -
v e lm e n t e s e a p l i c a r a n e n h u m B , a i n d a q u e B n e c e s s a r i a m e n t e q u ilo q u e é possível {contingente) ou não possível (não contin­
n ã o s e a p liq u e a a lg u m A . P o r e x e m p lo , branco p o d e n ã o se gente), n a a c e p ç ã o o r i g i n a l m e n t e d e f i n i d a p o r n ó s ,154 n ã o s o ­
a p lic a r a a lg u m hom em ( p o is p o d e t a m b é m a p lic a r - s e a t o d o m e n te a q u ilo que n e c e s s a ria m e n t e se a p lic a a a lg u m , com o
h o m e m ) , m a s n ã o é e x a t o d iz e r q u e homem p o d e n ã o s e a p l i c a r t a m b é m a q u ilo q u e n e c e s s a r ia m e n t e n ã o s e a p lic a a a lg u m . S e o
a n a d a q u e s e ja b ra n c o , u m a v e z q u e homem n e c e s s a r i a m e n t e f iz e r m o s , não se s e g u ir á nenhum a c o n c lu s ã o im p o s s ív e l [n o
n ã o s e a p l i c a à m u l t i p lic id a d e d e c o is a s b r a n c a s e , c o n f o r m e e x e m p lo p r e c e d e n t e ] e , c o n s e q ü e n t e m e n t e , n ã o s u r g ir á n e n h u m
v i m o s ,153 o n e c e s s á r i o n ã o é c o n t in g e n t e . 30 s ilo g is m o . A s s i m , f i c a e v id e n t e , p e lo q u e f o i d it o , q u e a p r e m i s s a
[ p r o b le m á t i c a ] n e g a t i v a n ã o é c o n v e r t ív e l.

151. Ou seja, em 33b30, 34b27, 35b32. U m a v e z is s o d e m o n s t r a d o , s u p o n h a m o s q u e A p o d e n ã o s e


152. κα ι α ι εναντιαι κα ι α ι αντικειμεναι (kai ai enantiai kai ai antikeimenai): este trecho a p lic a r a n e n h u m B , m a s p o d e s e a p lic a r a t o d o C . E n t ã o n ã o
é falho e de dificílima solução, dada a dubiedade de significado do termo antikeime­ h a v e r á s ilo g is m o p o r m e io d e c o n v e r s ã o p o r q u e j á fo i o b s e r v a d o
nai, que se tem o sentido forte de contraditórios (largamente presente no contexto
dos A.A.), também pode significar opostos, o que nos conduziria a uma alternância
absurda. Tendemos, portanto, a compreendê-lo como contraditórios, mas nenhuma
proposição apresenta convertibilidade com seu contraditório.
154. Em 32a18.
153. Em 32a28.
1 5 2 - E d ip r o ________________________________________________A r i s t ó t e l e s - Ó r g a n o n Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 5 3

q u e t a l p r e m i s s a 155 n ã o é c o n v e r t ív e l. N e m t a m p o u c o h a v e r á u m e x t r a íd a d o s m e s m o s t e rm o s . M a s , q u a n d o a a f ir m a t iv a é p r o -
s i l o g i s m o p o r r e d u ç ã o a o a b s u r d o ( reductio ad impossibile), p o is 25 b l e m á t i c a e a n e g a t iv a , a s s e r t ó r ic a , h a v e r á u m s i lo g i s m o . Q u e s e
35 s e f o r s u p o s t o q u e B p o d e s e a p l i c a r a t o d o C , n ã o r e s u lt a r á s u p o n h a q u e A n ã o s e a p lic a a n e n h u m B , p o r é m p o d e a p lic a r -
n e n h u m a f a ls id a d e , p o r q u e A p o d e r i a a p lic a r - s e t a n t o a t o d o C s e a t o d o C . N e s t e c a s o , s e a p r e m is s a n e g a t i v a f o r c o n v e r t id a , B
q u a n t o n ã o a p lic a r - s e a n e n h u m C . D e u m a m a n e i r a g e r a l, s e n ã o s e a p lic a r á a n e n h u m A . M a s fo i s u p o s to q u e A p o d e se
h o u v e r u m s ilo g is m o c o m e s s a s p r e m is s a s , d e c e r t o s e r á p r o b le ­ a p lic a r a t o d o C . P o r ta n to , é p r o d u z id o u m s ilo g is m o p o r m e io
m á t ic o , u m a v e z q u e n e m u m a n e m o u t r a d a s p r e m is s a s é t o ­ d a p r i m e i r a f i g u r a ,156 a c o n c l u i r q u e B p o d e n ã o s e a p lic a r a
m ada num s e n t id o a s s e r t ó r ic o ; a d e m a is , t a l s i l o g i s m o s e r á o u n e n h u m C . O c o r r e a lg o a n á lo g o se a n e g a t iv a fo r v in c u la d a a C .
a f i r m a t iv o o u n e g a t iv o . E n t r e t a n t o , n e n h u m a d a s a lt e r n a t iv a s é
S e a m b a s a s p r e m is s a s f o r e m n e g a t i v a s , d e t e n d o u m a s e n t i-
37b 1 a d m i s s ív e l, p o i s s e s u p o r m o s q u e é a f ir m a t iv a , p o d e r á s e r d e ­
30 d o a s s e r t ó r ic o n e g a t i v o e a o u t r a , s e n t id o p r o b l e m á t i c o n e g a t i v o ,
m o n s t r a d o , p o r e x e m p lo s d e t e r m o s , q u e o p r e d i c a d o n ã o s e
n ã o r e s u lt a r á n e n h u m a c o n c l u s ã o n e c e s s á r i a c o m b a s e n a s s u ­
a p l i c a a o s u je it o , e s e a s u p o r m o s n e g a t iv a , q u e a c o n c l u s ã o n ã o
p o s i ç õ e s t a is c o m o s ã o ; m a s , c o m a c o n v e r s ã o d a p r e m i s s a p r o ­
é p r o b le m á t ic a , m a s a p o d ít ic a . Q u e A s e j a branco, B homem e b le m á t ic a , u m s ilo g is m o s e r á p r o d u z id o p o r f o r ç a d e B p o d e r
C cavalo. E n t ã o A , is t o é , b r a n c o , p o d e p r e d ic a r - s e d e t o d o C e n ã o s e a p lic a r a n e n h u m C , c o m o n o e x e m p l o a n t e r io r , p o i s
5 n ã o s e p r e d i c a r d e n e n h u m B ; m a s n ã o é p o s s ív e l q u e B s e a p l i ­ 35 m a i s u m v e z t e r e m o s a p r im e ir a f i g u r a . S e , e n t r e t a n t o , a m b a s a s
q u e o u n ã o s e a p liq u e a C . Q u e n ã o s e j a p o s s í v e l q u e s e a p liq u e p r e m is s a s f o r e m t o m a d a s c o m o a f i r m a t i v a s , n ã o h a v e r á s i l o g i s ­
é e v id e n t e , p o i s n e n h u m c a v a l o é u m h o m e m . M a s t a m p o u c o é m o . E x e m p lo s d e t e rm o s n o s q u a is o p r e d ic a d o s e a p lic a a o
p o s s ív e l q u e n ã o s e a p liq u e , p o is é n e c e s s á r io q u e n e n h u m c a v a lo saúde, animal, homem-,
s u je it o s ã o n o s q u a is n ã o s e a p lic a , saú­
s e j a u m h o m e m , e o n e c e s s á r io , c o m o v im o s , n ã o é p o s s ív e l ( c o n - de, cavalo, homem.
10 t in g e n t e ) . C o n s e q ü e n t e m e n t e , n ã o r e s u lt a n e n h u m s ilo g is m o .
O m e s m o v a l e r á n o c a s o d o s s il o g is m o s p a r t ic u la r e s . Q u a n d o
H a v e r á u m a d e m o n s t r a ç ã o s e m e lh a n t e s e a n e g a t i v a f o r , a o
38al é a p r o p o s i ç ã o a f i r m a t iv a q u e é a s s e r t ó r ic a , q u e r s e j a t o m a d a
c o n t r á r io , t o m a d a c o m a o u t r a p r e m is s a , o u s e a m b a s a s p r e m is ­
c o m o u n iv e r s a l o u c o m o p a r t ic u la r , n ã o h a v e r á s i l o g is m o , o q u e
s a s f o r e m t o m a d a s c o m o a f ir m a t iv a s o u c o m o n e g a t iv a s , u m a
pode s e r d e m o n s t r a d o p e lo m e s m o m é t o d o e p e lo s m e s m o s
v e z q u e a d e m o n s t r a ç ã o s e r á e x t r a íd a d o s m e s m o s t e r m o s . V a l e
t e r m o s d e a n t e s . M a s q u a n d o é a n e g a t i v a q u e é a s s e r t ó r ic a ,
o m e s m o q u a n d o u m a p r e m is s a é u n iv e r s a l, e a o u t r a p a r t ic u la r ,
h a v e r á u m s ilo g is m o p o r c o n v e r s ã o , c o m o n o s e x e m p l o s a n t e r io -
15 o u q u a n d o a m b a s s ã o p a r t ic u la r e s o u in d e f in id a s , o u e m q u a l ­
5 re s. P o r o u t r o la d o , s e a m b a s a s p r o p o s iç õ e s fo re m to m a d a s
q u e r o u t r a p o s s ív e l c o m b i n a ç ã o d a s p r e m is s a s , v is t o q u e a d e ­
c o m o n e g a t i v a s e a a s s e r t ó r ic a n e g a t i v a f o r u n iv e r s a l, n e n h u m a
m o n s t r a ç ã o s e r á s e m p r e r e t ir a d a d o s m e s m o s t e r m o s . A s s i m , é
c o n c lu s ã o n e c e s s á r ia s e p r o d u z ir á a p a r t i r d a s p r e m i s s a s t a is
e v id e n t e q u e , s e a m b a s a s p r e m is s a s f o r e m t o m a d a s c o m o p r o ­
c o m o s ã o ; m a s q u a n d o a p r o p o s i ç ã o p r o b l e m á t i c a f o r c o n v e r t i­
b l e m á t ic a s , n e n h u m s il o g i s m o r e s u lt a r á . d a , h a v e r á u m s ilo g is m o c o m o a n te s .

S e a p r o p o s i ç ã o n e g a t i v a f o r a s s e r t ó r ic a e t o m a d a c o m o p a r ­
t ic u la r , n ã o h a v e r á s i lo g i s m o , q u e r a o u t r a p r e m i s s a s e j a a f i r m a ­
XVIII t iv a o u n e g a t iv a ; t a m p o u c o h a v e r á u m s ilo g is m o q u a n d o a m b a s

S e , c o n t u d o , u m a p r e m is s a t e m u m s e n t id o a s s e r t ó r ic o , e a 10 s ã o t o m a d a s c o m o in d e f in i d a s , s e j a m a f ir m a t iv a s o u n e g a t i v a s ,

20 o u t r a u m s e n t id o p r o b le m á t ic o , q u a n d o a a f i r m a t iv a é a s s u m i d a o u c o m o p a r t ic u la r e s . A d e m o n s t r a ç ã o é a m e s m a e p r o d u z i d a
p e lo s m e s m o s t e r m o s .
c o m o a s s e r t ó r ic a , e a n e g a t i v a c o m o p r o b le m á t ic a , n u n c a h a v e ­
r á u m s ilo g is m o , s e j a m o s t e r m o s t o m a d o s c o m o u n i v e r s a i s o u
com o p a r t ic u la r e s . A d e m o n stra çã o se rá a m esm a a n t e r io r e

155. Ou seja, a premissa maior AB. 156. 34b19 e seguintes.


ñaGANQN - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - l i v r o I E d ip r o - 1 5 5
154 - E d ip r o A r is tó te le s - Órganon

38b l d e s p e r t o te m q u e te r m o v im e n t o e t o d o a n im a l p o d e te r m o v i­
XIX
m e n t o e t o d a c o is a d e s p e r t a é u m a n im a l. P o r t a n t o , fic a e v id e n ­
S e u m a p r e m is s a f o r a p o d í t i c a e a o u t r a a p r e s e n t a r u m s e n t i­ te q u e n ã o h á c o n c l u s ã o a s s e r t ó r ic a n e g a t i v a t a m p o u c o , u m a
d o p r o b le m á t ic o , s e f o r a p r e m is s a n e g a t i v a a a p o d í t i c a , h a v e r á v e z q u e , s e g u n d o e ste a r r a n jo d o s t e rm o s , a c o n c lu s ã o é a s s e r tó ­
u m s ilo g is m o , n ã o a p e n a s p o r e f e it o d o p r e d i c a d o p o d e r n ã o s e r i c a e a f ir m a t i v a . N e m t a m p o u c o e x is t e u m a c o n c l u s ã o q u e a s ­
15 a p l i c a r a o s u j e it o , c o m o t a m b é m p o r n ã o s e a p lic a r ; m a s s e f o r a s u m e a f o r m a d e q u a lq u e r u m a d a s p r o p o s i ç õ e s o p o s t a s . C o n ­
p r e m is s a a f ir m a t iv a , n ã o h a v e r á s ilo g is m o . S u p o n h a m o s q u e A s e q ü e n t e m e n t e , n ã o h a v e r á s i lo g i s m o .
n e c e s s a r i a m e n t e n ã o s e a p l i c a a n e n h u m B , m a s p o d e a p lic a r - s e
5 H a v e r á u m a d e m o n s t r a ç ã o s e m e lh a n t e s e a p r e m i s s a a f i r m a ­
a t o d o C . E n t ã o , p e la c o n v e r s ã o d a p r e m is s a n e g a t iv a , B t a m ­
t iv a o c u p a r a o u t r a p o s iç ã o .
b é m n ã o s e a p lic a r á a n e n h u m A e fo i s u p o s t o q u e A p o d e se
20 a p l i c a r a t o d o C . A s s i m , n o v a m e n t e , m e d ia n t e a p r im e ir a f ig u r a , Se a s p r e m is s a s f o r e m s e m e lh a n t e s n a q u a l i d a d e , q u a n d o
u m s ilo g is m o é p r o d u z id o p o r f o r ç a d e B p o d e r n ã o s e a p lic a r a s ã o n e g a t iv a s , u m s i l o g i s m o s e r á s e m p r e p r o d u z i d o a p a r t ir d a
n e n h u m C . A d e m a i s , é t a m b é m e v id e n t e q u e B n ã o s e a p l i c a a c o n v e r s ã o d a p r e m is s a p r o b le m á t i c a , t a l c o m o a n t e r io r m e n t e .
q u a l q u e r C . I m a g i n e m o s [ a o c o n t r á r io ] q u e s e a p lic a s s e . E n t ã o V a m o s s u p o r q u e A n e c e s s a ria m e n t e n ã o se a p lic a a B e p o d e

s e A n ã o p o d e s e a p l i c a r a q u a lq u e r B , e B s e a p l i c a a a l g u m C , 10 n ã o a p lic a r - s e a C . E n t ã o n a c o n v e r s ã o d a s p r e m is s a s , B n ã o s e
25 A n ã o p o d e s e a p l i c a r a a lg u m C . M a s , ex hypothesi, e le p o d e s e a p lic a a n e n h u m A e A p o d e s e a p lic a r a to d o C , c o m o que
a p lic a r a to d o . r e s u lt a a t e r c e ir a f ig u r a . D e m a n e i r a s e m e lh a n t e , t a m b é m , s e a
p r o p o s iç ã o n e g a t iv a s e v in c u la r a C .
A d e m o n s t r a ç ã o p o d e ig u a lm e n t e s e r p r o d u z i d a d a m e s m a
f o r m a s u p o n d o q u e a n e g a t iv a s e j a v i n c u l a d a a C . S e , e n t r e t a n t o , a s p r e m is s a s f o r e m t o m a d a s c o m o a f ir m a t i ­
v a s , n ã o h a v e r á s i lo g is m o . E e v id e n t e q u e n ã o h a v e r á n e n h u m
P o r o u t r o la d o , q u e a p r o p o s iç ã o a f ir m a t iv a s e j a a p o d ít ic a e a
d o t ip o a s s e r t ó r ic o n e g a t iv o o u d o a p o d ít i c o n e g a t i v o , u m a v e z
o u t r a , p r o b le m á t ic a : q u e A p o s s a n ã o s e a p lic a r a n e n h u m B e
15 q u e n e n h u m a p r e m i s s a n e g a t i v a f o i a s s u m i d a , q u e r n o s e n t id o
n e c e s s a r ia m e n t e s e a p lic a r a t o d o C . E n t ã o , q u a n d o o s t e r m o s s e
a s s e r t ó r ic o , q u e r n o a p o d ít ic o . A l é m d i s s o , n ã o h a v e r á n e n h u m
30 a c h a r e m n e s t a r e la ç ã o , n ã o h a v e r á s ilo g is m o , p o i s p o d e o c o r r e r
d o t ip o p r o b l e m á t ic o n e g a t iv o , p o i s c o m o s t e r m o s d e s t a r e l a ç ã o
q u e B n e c e s s a r ia m e n t e n ã o s e a p liq u e a C . P o r e x e m p lo , q u e A
B n e c e s s a r i a m e n t e n ã o s e a p l i c a r á a C ; p o r e x e m p lo , s e t o m a r -
s e ja branco, B homem e C cisne. E n t ã o , b r a n c o s e a p lic a n e c e s s a ­
20 se A co m o se n d o branco, B cisne e C homem. Tam pouco p o ­
r ia m e n t e a c is n e , m a s p o d e n ã o s e a p lic a r a n e n h u m h o m e m ; e
d e m o s c o n c l u i r q u a lq u e r d a s a f i r m a ç õ e s o p o s t a s , p o r q u e m o s ­
hom em n e c e s s a r ia m e n t e n ã o s e a p lic a a n e n h u m c is n e . A s s im ,
t r a m o s q u e B n e c e s s a r ic f m e n t e n ã o s e a p l i c a a C . C o n s e q ü e n t e ­
35 f ic a e v id e n t e q u e n ã o h á s ilo g is m o d o t ip o p r o b le m á t ic o , u m a v e z
m e n t e , n ã o r e s u lt a r á , d e m o d o a l g u m , u m s i l o g is m o .
q u e v i m o s q u e o n e c e s s á r io n ã o é p o s s ív e l ( c o n t in g e n t e ) .157
25 O m e s m o t a m b é m v a l e n o c a s o d o s s i l o g is m o s p a r t ic u la r e s .
T a m p o u c o h a v e r á u m s ilo g is m o a p o d í t i c o p o r q u e v i m o s q u e
Q u a n d o a p r o p o s i ç ã o n e g a t i v a f o r u n i v e r s a l e a p o d í t i c a , r e s u lt a ­
u m a c o n c lu s ã o a p o d ít ic a [s o m e n te ] é p r o d u z id a q u a n d o a m b a s
r á s e m p r e u m s ilo g is m o p r o d u z in d o ta n to u m a c o n c lu s ã o p r o ­
a s p r e m is s a s s ã o a p o d ít ic a s o u q u a n d o a p r e m i s s a n e g a t i v a é
b le m á t ic a q u a n to um a a s s e r t ó r ic a n e g a t iv a , a d e m o n stra çã o
a p o d í t i c a . 158 T a m b é m é p o s s ív e l s e o s t e r m o s f o r e m to m a d o s
p r o c e d e n d o p o r c o n v e r s ã o . M a s q u a n d o a p r o p o s i ç ã o a f ir m a t i v a
d e s s a m a n e ir a , c o m B s e a p l i c a n d o a C , p o i s n ã o h á r a z ã o p a r a
fo r u n iv e r s a l e a p o d ít ic a , ja m a is h a v e r á u m s il o g is m o . A de­
40 q u e C n ã o se s u b o r d in e a B d e ta l m o d o q u e A p o s s a s e a p lic a r
m o n s t r a ç ã o s e r á p r o d u z id a ta l c o m o n o s s ilo g is m o s u n iv e r s a is e
a t o d o B , m a s te m q u e s e a p lic a r a to d o C ; p o r e x e m p lo , s e C
m e d ia n t e o s m e s m o s t e r m o s .159
fo sse desperto, B animal e A movimento, p o is a q u ilo q u e e stá

157. Em 32a28.
158. Em 30b7, 31a21. 159. 38a26-b4.
1 5 6 - E d ip r o
A r is t ó t e le s - Ó rganon E d ip r o - 1 5 7
ñnGANON - ANALÍTICOS ANTERIORES - LlVRO I

T a m p o u c o h a v e r á u m s ilo g is m o q u a n d o a m b a s a s p r e m is s a s p re s e n te n a s c o n c lu s õ e s d e v e s e r e n t e n d id o d o m e s m o m o d o
30 s ã o t o m a d a s c o m o a f ir m a t iv a s . A d e m o n s t r a ç ã o d is t o t a m b é m é a n t e r io r .165
a m e s m a a n t e r io r .160
■)5 P r i n c i p i e m o s , a s s i m , p o r s u p o r q u e a s p r e m is s a s s ã o p r o b l e ­
Q u a n d o , t o d a v i a , a m b a s a s p r e m is s a s s ã o n e g a t i v a s e a q u e m á t ic a s e q u e t a n t o A q u a n t o B p o s s i v e lm e n t e s e a p l i c a m a t o d o
p o s s u i o s e n t id o n ã o a t r ib u t iv o é u n i v e r s a l e a p o d í t i c a , e m b o r a C. E n t ã o , u m a v e z q u e a p r o p o s i ç ã o a f i r m a t i v a é c o n v e r t ív e l
n ã o h a j a n e c e s s á r i a c o n c l u s ã o d a s s u p o s i ç õ e s t a is c o m o s e a p r e - c o m o p a r t ic u l a r , e u m a v e z q u e B p o d e s e a p l i c a r a t o d o C , C
35 s e n t a m , q u a n d o a p r e m is s a p r o b le m á t ic a f o r c o n v e r t i d a h a v e r á p o d e t a m b é m s e a p lic a r a a lg u m B . A s s im , s e A p o d e s e a p lic a r
u m s il o g i s m o c o m o a n t e s .
a t o d o C e C a a lg u m B , A t a m b é m p o d e s e a p lic a r a a lg u m B ,

S e , e n t r e t a n t o , a m b a s a s p r e m is s a s f o r e m a s s u m i d a s c o m o 20 c o m o q u e o b t e m o s a p r i m e ir a f i g u r a . E s e A p o d e n ã o s e a p l i c a r

in d e f i n i d a s o u p a r t ic u la r e s , n ã o h a v e r á s ilo g is m o . A d e m o n s t r a ­ a nenhum C , e B p o d e s e a p lic a r a t o d o C , s e g u e -s e n e c e s s a r ia ­

ç ã o é a m e s m a d e a n t e s e p r o d u z i d a p e lo s m e s m o s t e r m o s .161 m e n te q u e A p o d e n ã o s e a p lic a r a a lg u m B , p o is n o v a m e n t e
t e r e m o s a p r i m e i r a f i g u r a m e d ia n t e a c o n v e r s ã o . M a s s u p o n d o
E v i d e n c i a - s e , a s s im , c o m f u n d a m e n t o n a a n á l i s e p r e c e d e n t e ,
q u e a m b a s a s p r e m i s s a s s ã o t o m a d a s c o m o n e g a t iv a s , n ã o h a ­
[ 1 ] q u e q u a n d o a p r e m is s a u n iv e r s a l n e g a t iv a é t o m a d a c o m o
v e r á n e c e s s á r i a c o n c l u s ã o a p a r t ir d a s s u p o s i ç õ e s t a is c o m o s e
a p o d í t i c a , r e s u lt a s e m p r e u m s ilo g is m o , p r o d u z i n d o n ã o a p e n a s
25 a p r e s e n t a m , m a s , u m a v e z c o n v e r t id a s a s p r e m is s a s , h a v e r á u m
u m a c o n c l u s ã o d o t i p o p r o b le m á t ic o n e g a t iv o , c o m o t a m b é m
s ilo g is m o , c o m o a n t e r io r m e n t e , p o i s s e t a n t o A q u a n t o B p o d e m
40 u m a [ c o n c l u s ã o ] d o t ip o a s s e r t ó r ic o n e g a t i v o 162 - m a s q u a n d o a
n ã o s e a p l i c a r a C , s e s u b s t it u ir m o s e m c a d a c a s o p e l a e x p r e s s ã o
p r e m i s s a u n i v e r s a l a f ir m a t iv a é a s s im t o m a d a , n u n c a r e s u lt a u m
“ p o d e s e a p l i c a r ” 166 t e r e m o s n o v a m e n t e a p r i m e i r a f i g u r a p o r
s i l o g is m o ; [ 2 ] q u e r e s u lt a u m s il o g i s m o o u n ã o r e s u lt a d o m e s m o
co n ve rsã o .
39ai a r r a n j o d e t e r m o s n a s p r o p o s i ç õ e s a p o d ít ic a s e nas a s s e r t ó r ic a s .
E ig u a lm e n t e ó b v i o q u e t o d o s e s s e s s ilo g is m o s s ã o im p e r f e it o s e S e u m d o s t e r m o s f o r u n iv e r s a l e o o u t r o p a r t ic u l a r , h a v e r á

q u e s ã o t o r n a d o s p e r f e it o s p o r m e i o d a s f ig u r a s j á i n d i c a d a s .163 30 ou não um s i lo g i s m o m e d i a n t e o m e s m o a r r a n j o d o s t e r m o s
c o m o n o s s i lo g i s m o s a s s e r t ó r ic o s . Q u e s e s u p o n h a q u e A p o d e
s e a p lic a r a t o d o C , e B a a lg u m C . E n t ã o , p e la c o n v e r s ã o d a
p r e m i s s a p a r t ic u la r t e r e m o s n o v a m e n t e a p r im e i r a f ig u r a , p o i s s e
XX A p o d e s e a p lic a r a to d o C , e C a a lg u m B , e n tã o A p o d e se
5 N a ú lt im a f ig u r a , s e n d o a m b a s a s p r e m is s a s p r o b le m á t ic a s e , 35 a p lic a r a a lg u m B . O m e s m o s e m o s t r a r á v e r d a d e ir o s e a p r o p o ­
t a m b é m , s e n d o a p e n a s u m a p r o b le m á t ic a , h a v e r á u m s ilo g is m o . s i ç ã o u n i v e r s a l s e r e l a c i o r ia r à p r e m i s s a B C . A n a l o g a m e n t e t a m ­
Q u a n d o a m b a s a s p r e m is s a s e n c e r r a m u m s e n t id o p r o b le m á t ic o , b é m , s e a p r e m is s a A C fo r n e g a t iv a e B C a f ir m a t iv a , p o is a c o n ­
a c o n c l u s ã o t a m b é m s e r á p r o b le m á t ic a , eo m esm o q u a n d o u m a v e r s ã o n o s p r o p o r c i o n a r á n o v a m e n t e a p r i m e i r a f ig u r a .
p r e m i s s a é p r o b l e m á t i c a e a o u t r a a s s e r t ó r ic a . S e , e n t r e t a n t o , a
S e a m b a s a s p r e m is s a s f o r e m s u p o s t a s c o m o n e g a t iv a s , u m a
o u t r a p r e m i s s a f o r a p o d ít ic a , c a s o s e j a a f ir m a t iv a , a c o n c l u s ã o
39bl u n i v e r s a l e a o u t r a p a r t ic u la r , n ã o h a v e r á c o n c l u s ã o a l g u m a a
10 n ã o s e r á n e m a p o d í t i c a n e m a s s e r t ó r ic a ; p o r é m , c a s o s e j a n e g a ­
p a r t ir d a s s u p o s i ç õ e s t a is c o m o s e a p r e s e n t a m , m a s m e d i a n t e a
t iv a , h a v e r á u m a c o n c l u s ã o a s s e r t ó r ic a n e g a t i v a , t a l c o m o a n ­
c o n v e r s ã o d e la s t e re m o s u m s ilo g is m o c o m o a n te s .
t e s .164 N e s s e s s il o g i s m o s , ig u a lm e n t e , o s e n t id o d e c o n t i n g ê n c i a
Q u a n d o , t o d a v i a , a m b a s a s p r e m is s a s s ã o t o m a d a s c o m o i n ­
d e f i n i d a s o u p a r t ic u la r e s , n ã o h a v e r á s il o g is m o , u m a v e z q u e A
160. 38b13-23.
s e a p lic a n e c e s s a ria m e n t e ta n to a t o d o B q u a n t o n ã o s e a p lic a a
161. Ver 36Ò12-18.
162. Ver 36a15, 38a24, b26.
163. A rigor, somente pela primeira figura.
164. Ou seja, em 36a15, 38a24, b26, 40. 165. 33b30, 34b27, 35b32, 36b33.
166. Ou seja, se substituirmos as contingentes (problemáticas) negativas.
1 5 8 - E d ip r o ________________________________________________A r i s t ó t e l e s - Ó r g a n q h { ianANON - ANALÍTICOS ANTERIORES - LIVRO I E d ip r o - 15 9

n e n h u m B . T e r m o s q u e ilu s t r a m is s o e n o s q u a i s o p r e d i c a d o se a lg u m B , p o is s e A se a p lic a r n e c e s s a ria m e n t e a t o d o B , e a in d a


animal, homem, branco; n o s q u a i s
a p l i c a a o s u j e it o s ã o n ã o se s u p o r m o s q u e B s e a p lic a a t o d o C , A se a p lic a r á n e c e s s a r ia ­
5 a p lic a , cavalo, homem, branco. B r a n c o é o t e r m o m é d io . m e n t e a t o d o C , c o m o j á f o i d e m o n s t r a d o .169 M a s foi suposto
q u e e le p o d e n ã o s e a p l i c a r a a l g u m [ C ] ,

XXI 40a l Q u a n d o a m b a s a s p r e m i s s a s s ã o t o m a d a s c o m o i n d e f in id a s
o u p a r t ic u la r e s , n ã o h a v e r á s il o g is m o . A d e m o n s t r a ç ã o é id ê n t i ­
S e u m a d a s p r e m is s a s e n c e r r a r u m s e n t id o a s s e r t ó r ic o e a
c a à d o c a s o d o s s il o g is m o s u n i v e r s a i s , e é o b t i d a m e d ia n t e o s
o u t r a u m s e n t id o p r o b le m á t ic o , a c o n c l u s ã o s e r á p r o b le m á t ic a ,
m e s m o s te rm o s.
n ã o a s s e r t ó r ic a , e s u r g ir á u m s ilo g is m o a p a r t ir d o m e s m o a r r a n -
10 j o d e t e r m o s d o s e x e m p lo s a n t e r io r e s .167 C o m e c e m o s s u p o n d o
o s t e r m o s a f ir m a t iv o s . Q u e A s e a p liq u e a t o d o C e B p o s s i v e l ­ XXII
m e n t e a p liq u e - s e a t o d o C . E n t ã o a c o n v e r s ã o d a p r e m i s s a B C
5 S e u m a d a s p r e m is s a s f o r a p o d í t ic a , e a o u t r a p r o b le m á t i c a ,
n o s p r o p o r c i o n a r á a p r im e ir a f ig u r a e a c o n c l u s ã o de que A
s e n d o o s t e r m o s a f ir m a t i v o s , a c o n c l u s ã o s e r á s e m p r e p r o b l e m á ­
p o d e s e a p l i c a r a a lg u m B , j á q u e v i m o s q u e q u a n d o u m a d a s
t ic a ; m a s s e n d o u m t e r m o a f i r m a t i v o e o o u t r o n e g a t iv o , s e a
15 p r e m is s a s n a p r im e ir a f ig u r a a p r e s e n t a u m s e n t id o p r o b le m á t ic o ,
p r o p o s i ç ã o a f i r m a t iv a f o r a p o d ít i c a , a c o n c l u s ã o s e r á n e g a t i v a e
a c o n c l u s ã o t a m b é m é p r o b l e m á t i c a .168 S e m e l h a n t e m e n t e , t a m ­
p r o b le m á t ic a ; s e a p r o p o s i ç ã o n e g a t i v a f o r a p o d ít ic a , a c o n c l u ­
b é m , s e [ a p r e m is s a ] B C f o r a s s e r t ó r ic a e A C p r o b le m á t ic a ; o u s e
s ã o s e r á p r o b l e m á t ic a n e g a t i v a e a s s e r t ó r ic a n e g a t i v a - n ã o h a -
A C f o r n e g a t i v a e B C a f ir m a t iv a , e u m a o u o u t r a f o r a s s e r t ó r ic a :
10 v e r á n e n h u m a c o n c lu s ã o a p o d ít ic a n e g a t iv a , ta l c o m o n ã o h o u ­
em a m b o s o s c a s o s a c o n c l u s ã o s e r á p r o b le m á t ic a , p o i s m a is
v e n e n h u m a n a s d e m a i s f ig u r a s .
20 u m a v e z o b t e m o s a p r i m e i r a f ig u r a , e f o i m o s t r a d o q u e n e la ,
quando um a das p r e m is s a s e n c e r r a r s e n t id o p r o b le m á t ic o , a A s s i m , i n i c i e m o s p o r s u p o r q u e o s t e r m o s s ã o a f ir m a t i v o s e

c o n c l u s ã o s e r á t a m b é m p r o b le m á t ic a . S e , e n t r e t a n t o , a p r o p o s i ­ q u e A s e a p l i q u e n e c e s s a r i a m e n t e a t o d o C , e B p o s s iv e l m e n t e

ç ã o p r o b l e m á t i c a n e g a t i v a e s t iv e r l i g a d a a o t e r m o m e n o r , o u s e s e a p liq u e a t o d o C . E n t ã o , v is t o q u e A te m q u e s e a p lic a r a

a m b a s a s p r o p o s i ç õ e s f o r e m t o m a d a s c o m o n e g a t iv a s , n ã o s u r ­ 15 to d o C , e C p o d e s e a p lic a r a a lg u m B , A t a m b é m s e a p lic a r á

g i r á s i l o g i s m o a l g u m a p a r t ir d a s s u p o s i ç õ e s t a is c o m o s e a p r e - ( n u m s e n t id o p r o b le m á t i c o e n ã o a s s e r t ó r ic o ) a a l g u m B , c o n s i ­

25 s e n t a m ; m a s , m e d ia n t e a c o n v e r s ã o d e la s , s u r g i r á u m s il o g i s m o d e ra n d o -se q u e v i m o s q u e t a l é a c o n s e q ü ê n c i a n a p r i m e ir a

c o m o a n te s. f i g u r a .170 A d e m o n s t r a ç ã o s e r á t a m b é m s e m e lh a n t e , s e a p r e m i s ­
s a B C f o r s u p o s t a c o m o a p o d ít ic a e A C c o m o p r o b le m á t ic a .
Se u m a d a s p r e m is s a s f o r u n iv e r s a l e a o u t r a , p a r t ic u la r -
q u a n d o a m b a s s ã o a f ir m a t iv a s o u q u a n d o a u n iv e r s a l é n e g a t i v a N a s e q ü ê n c i a , q u e u m a p r o p o s i ç ã o s e j a a f ir m a t i v a , e a o u t r a

e a p a r t ic u la r , a f ir m a t iv a - o s s ilo g is m o s s e r ã o p r o d u z i d o s d a n e g a t iv a , a a f ir m a t iv a s e n d o a p o d ít ic a ; e q u e A p o s s iv e l m e n t e

m e s m a m a n e ir a , p o i s t o d a s a s c o n c lu s õ e s s ã o a l c a n ç a d a s p o r 20 n ã o s e a p liq u e a n e n h u m C , e B n e c e s s a ria m e n t e s e a p liq u e a

30 m e i o d a p r i m e i r a f ig u r a . C o n s e q ü e n t e m e n t e , f i c a c la r o q u e a t o d o C . E n t ã o , t e r e m o s m a is u m a v e z a p r i m e i r a f i g u r a e a p r e ­

c o n c l u s ã o s e r á p r o b le m á t ic a , n ã o a s s e r t ó r ic a . S e , p o r é m , a p r e ­ m i s s a n e g a t i v a t e r á o s e n t id o p r o b le m á t i c o . A s s i m , e v i d e n c i a r -

m i s s a a f ir m a t iv a f o r u n i v e r s a l e a n e g a t iv a , p a r t ic u la r , a d e m o n s ­ s e - á q u e a c o n c l u s ã o s e r á p r o b le m á t i c a , u m a v e z q u e v i m o s q u e ,

t r a ç ã o s e r á v i a a b s u r d o ( reductio ad impossibile). Q u e B se a p li­ q u a n d o a s p r e m is s a s e s t ã o n e s s a r e l a ç ã o n a p r im e i r a f ig u r a , a

q u e a t o d o C e q u e A p o s s iv e lm e n t e n ã o s e a p l i q u e a a l g u m C . c o n c l u s ã o t a m b é m é p r o b l e m á t i c a .171

35 E n t ã o s e s e g u e n e c e s s a ria m e n t e q u e A p o d e n ã o s e a p lic a r a

169. 30a15-23.
167. Entendam-se os exemplos do Capítulo anterior (XX). 170. Em 35b38, 36a1.
168. 33b25-40. 171. Em 36a17-25.
1 6 0 - E d ip r o órganon - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o l E d ip r o - 161
A r is tó te le s - Ó r g a n o n

g is m o s s ã o t o d o s im p e r f e it o s e q u e s ã o t o r n a d o s p e r f e i t o s p o r
25 S e , e n t r e t a n t o , a p r e m is s a n e g a t iv a f o r a p o d í t i c a , n ã o h a v e r á
m e i o d a p r im e ir a f ig u r a .
m e ra m e n te um a c o n c lu s ã o p r o b le m á t ic a p a r t ic u la r n e g a t iv a ,
m a s u m a c o n c l u s ã o a s s e r t ó r ic a p a r t ic u la r n e g a t iv a , p o i s s u p o ­
n h a m o s q u e A n e c e s s a ria m e n t e n ã o s e a p lic a a C e q u e B p o d e
XXIII
s e a p l i c a r a t o d o C . E n t ã o , a c o n v e r s ã o d a p r e m i s s a B C a f ir m a ­
t i v a p r o d u z i r á a p r im e ir a f ig u r a e a p r e m is s a n e g a t i v a é a p o d ít i- F i c a c la r o , p o r t a n t o , c o m b a s e n a a n á li s e p r e c e d e n t e , q u e o s

30 c a . V i m o s , p o r é m , q u e q u a n d o a s p r e m is s a s s e a c h a m n essa s i l o g i s m o s n e s s a f i g u r a s ã o c o m p l e t a d o s m e d ia n t e o s s il o g is m o s

r e l a ç ã o n ã o s e c o n c l u i a p e n a s q u e A p o d e n ã o s e a p lic a r , m a s 20 u n i v e r s a i s n a p r i m e i r a f i g u r a e q u e s ã o r e d u z í v e i s a e le s . Is t o v a l e

q u e A n ã o s e a p l i c a a a lg u m C . E , p o r t a n t o , t a m b é m s e c o n c lu i p a r a t o d o s il o g is m o , s e m e x c e ç ã o , c o m o te rá s e e v id e n c ia d o ,

n e c e s s a ria m e n t e q u e A n ã o s e a p lic a a a lg u m B . Q u a n d o , p o ­ u m a v e z d e m o n s t r a d o q u e t o d o s ilo g is m o é p r o d u z id o p o r m e io

r é m , a p r o p o s i ç ã o n e g a t i v a s e r e f e r ir a o t e r m o m e n o r , s e f o r d e u m a d e s s a s f ig u r a s .
p r o b le m á t ic a h a v e r á u m s ilo g is m o a p ó s a s u b s t it u iç ã o d a p r e ­ O r a , t o d a d e m o n s t r a ç ã o e t o d o s ilo g is m o d e v e m p r o v a r q u e
m is s a [ a f ir m a t i v a c o r r e s p o n d e n t e ] , t a l c o m o a n te s. M a s se a a l g u m a t r ib u t o s e a p l i c a o u n ã o s e a p l i c a a a l g u m s u j e i t o , e is s o
35 p r o p o s i ç ã o f o r a p o d ít ic a , n ã o h a v e r á s ilo g is m o , u m a v e z q u e A u n iv e r s a lm e n t e o u n u m s e n t id o p a r t i c u l a r e , a d e m a i s , d e m o d o
ta n to s e a p lic a n e c e s s a ria m e n t e a t o d o B q u a n t o n e c e s s a r ia m e n ­ 25 o s te n s iv o ou h ip o t é t ic o . Um a m o d a lid a d e de d e m o n stra çã o
t e n ã o s e a p l i c a a n e n h u m . T e r m o s q u e ilu s t r a m a p r i m e i r a r e l a ­ h ip o t é t ic a é a q u e l a p o r r e d u ç ã o a o a b s u r d o ( reductio ad impos-
ção são sono, cavalo adormecido, homem-, q u e ilu s t r a m a ú lt i­ sibile). [M a s] o c u p e m o -n o s in ic i a l m e n t e das d e m o n stra çõ e s
m a, sono, cavalo desperto, homem. o s t e n s iv a s , p o is , u m a v e z e x p o s t a s a s c o n d iç õ e s q u e a s r e g u la m ,

O m e s m o p r in c íp io v a le r á ta m b é m se u m d o s te rm o s [e x tre ­ a s c o is a s t a m b é m s e e s c la r e c e r ã o , n o q u e d i z r e s p e i t o à s d e ­

m o s ] s e e n c o n t r a r n u m a r e l a ç ã o u n iv e r s a l e o o u t r o n u m a r e la - m o n stra çõ e s p o r reductio ad impossibile e d e m o n s t r a ç õ e s h ip o ­

40b1 ç ã o p a r t ic u la r c o m o t e r m o m é d io . S e a m b a s a s p r o p o s iç õ e s t é t ic a s e m g e r a l.

f o r e m a f ir m a t iv a s , a c o n c l u s ã o s e r á p r o b le m á t ic a e n ã o a s s e r t ó ­ 30 N a c o n je t u r a , p o r t a n t o , d e q u e s e r e q u e r f a z e r u m a i n f e r ê n c ia
r i c a , i n c lu s iv e q u a n d o u m a f o r t o m a d a c o m o n e g a t i v a e a o u t r a q u e o p r e d ic a d o A s e a p lic a o u n ã o a o s u je ito B , t e m o s q u e
c o m o a f ir m a t iv a , a ú lt im a s e n d o a p o d ít ic a . Q u a n d o , e n t r e t a n t o , s u p o r a l g u m a p r e d i c a ç ã o d e a lg u m s u je i t o . O r a , s e s u p o r m o s
a p r o p o s i ç ã o n e g a t i v a f o r a p o d ít ic a , a c o n c l u s ã o s e r á n e g a t i v a e q u e A é p r e d i c a d o d e B , t e r e m o s u m a p e t iç ã o d e p r i n c í p i o ; s e
5 a s s e r t ó r ic a , p o i s a d e m o n s t r a ç ã o a s s u m ir á a m e s m a f o r m a , n ã o s u p o r m o s q u e A é p r e d ic a d o d e C , m a s C é p r e d ic a d o d e n a d a
i m p o r t a n d o s e o s t e r m o s s ã o u n iv e r s a is o u n ã o , p o r q u e o s s i l o ­ e n e n h u m o u tr o t e rm o é p r e d ic a d o d e C , e n a d a m a is é p r e d i-
g is m o s t ê m q u e s e r c o m p l e t a d o s p o r m e i o d a p r im e ir a f ig u r a , d e 35 c a d o d e A , n ã o h a v e r á s i lo g i s m o , v is t o q u e n e n h u m a c o n c l u s ã o
m o d o q u e o r e s u lt a d o t e m q u e s e r o m e s m o n e s t e s , b e m c o m o n e c e s s á r ia se s e g u e d a s u p o s iç ã o d e q u e u m te rm o é p r e d ic a d o
nos e x e m p lo s a n t e r io r e s .172 Q u a n d o , c o n tu d o , a p r o p o s iç ã o d e u m o u tr o te rm o . P o r c o n s e g u in t e , te m o s t a m b é m q u e s u p o r
n e g a t iv a , t o m a d a c o m o u n iv e r s a l, s e r e f e r ir a o t e r m o m e n o r , s e u m a o u t r a p r e m is s a .
10 f o r p r o b le m á t ic a , h a v e r á u m s ilo g is m o p o r c o n v e r s ã o ; m a s s e f o r
O r a , s e s u p o r m o s q u e A é p r e d ic a d o d e u m o u tr o te rm o , o u
a p o d í t i c a , n ã o h a v e r á s ilo g is m o . A d e m o n s t r a ç ã o s e r á p r o d u z i d a
u m o u tr o te rm o d e A , o u a lg u m o u tro te rm o d e C , n a d a h a v e r á
t a l c o m o n o c a s o d o s s ilo g is m o s u n iv e r s a is e m e d ia n t e o s m e s ­
q u e o b s t e u m s il o g i s m o , m a s s e e s t e p r o c e d e r d e s s a s s u p o s i ç õ e s
m o s te rm o s.
não a p r e s e n t a r á r e f e r ê n c ia a B . A n a lo g a m e n t e , quando C é
E v id e n c ia - s e ta m b é m n e s s a f ig u r a q u a n d o e e m q u a is c ir ­ l i g a d o a u m o u t r o t e r m o , e e s t e a u m o u t r o , e e s t e ú lt im o a i n d a
c u n s t â n c i a s h a v e r á u m s il o g i s m o q u a n d o e s t e s e r á p r o b le m á t ic o , 41 a 1 a u m o u t r o , e a s é r ie n ã o é l i g a d a a B , t a m b é m n e s t e c a s o n ã o
e q u a n d o s e r á a s s e r t ó r ic o . E v i d e n c i a - s e , a d e m a is , q u e o s s i l o ­ te re m o s n e n h u m s ilo g is m o c o m r e f e r ê n c ia a B , u m a v e z q u e
e s t a b e le c e m o s o p r i n c í p i o g e r a l d e q u e j a m a i s t e r e m o s q u a lq u e r
172. Ver 40a25. s ilo g is m o d e m o n s t r a n d o q u e u m t e r m o é p r e d ic a d o d e u m o u t r o ,
1 6 2 - E d ip r o ________________________________________________A r i s t ó t e l e s - Ó r g a n o n A r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 6 3

a m e n o s q u e s e s u p o n h a a l g u m t e r m o m é d io q u e e s t e ja d e a l­ a proposição contraditória gera um resultado falso, pois vimos


g u m a f o r m a r e la c io n a d o p o r p r e d ic a ç ã o a c a d a u m d o s o u tro s que alcançar um a conclusão lógica per impossibile é demonstrar
5 d o i s [ t e r m o s ],173 j á q u e o s il o g i s m o e m g e r a l p r o c e d e d e p r e m is ­ algum a conclusão impossível por conta da suposição original.174
s a s , e o s il o g i s m o q u e s e r e l a c i o n a c o m u m d a d o t e r m o p r o c e d e Portanto, um a vez que na reductio ad impossibile obtemos um
d e p r e m is s a s q u e s e r e l a c i o n a m c o m e s s e t e r m o , e o s ilo g is m o silogismo ostensivo de falsidade (o ponto em questão sendo
q u e d e m o n s t r a a r e l a ç ã o d e u m t e r m o c o m u m o u t r o é o b t id o 35 demonstrado ex hypothesi) e estabelecemos anteriormente que
p o r m e i o d e p r e m is s a s q u e e s t a b e le c e m a r e l a ç ã o d e u m c o m o os silogismos ostensivos são construídos por meio dessas figuras,
o u t r o . M a s é im p o s s í v e l o b t e r u m a p r e m is s a r e l a c i o n a d a a B , s e fica evidente que silogismos por redução ao absurdo (reductio
n ã o a f ir m a m o s n e m n e g a m o s a l g u m a c o i s a d e B ; o u a i n d a [ u m a ad impossibile) também serão obtidos por meio dessas figuras. O
p r e m is s a ] q u e e s t a b e le ç a a r e l a ç ã o d e A c o m B , s e n ã o f o r m o s mesmo vale para todas as demais demonstrações [silogísticas]
c a p a z e s d e e n c o n t r a r a l g u m a c o i s a c o m u m a a m b o s e n o s lim i- hipotéticas,175 pois em todos os casos o silogismo é produzido
10 t a r m o s a a f ir m a r o u n e g a r c e r t o s a t r ib u t o s p e c u lia r e s a c a d a u m . com referência à proposição inicial e a conclusão requerida é
P o r c o n s e g u i n t e , t e m o s q u e a s s u m ir a lg u m t e r m o m é d i o q u e s e alcançada por meio de uma concessão ou alguma outra hipóte-
r e l a c io n e a a m b o s , o q u a l j u n t a r á a s , p r e d ic a ç õ e s , c a s o s e p r e ­ 41 bl se. Mas se isso for verdadeiro, toda demonstração e todo silo­
te n d a q u e h a ja u m s ilo g is m o d e m o n s t r a n d o a r e l a ç ã o d e u m gismo serão produzidos por meio das três figuras já descritas e,
te rm o c o m o o u tro . um a vez provado isso resulta óbvio que todo silogismo é com ­
P o s t o , p o r t a n t o , q u e p r e c is a m o s t o m a r a l g u m t e r m o c o m u m pletado mediante a primeira figura e é reduzível aos silogismos
q u e e s t e ja r e l a c i o n a d o a a m b o s ( o q u e p o d e s e r r e a l i z a d o d e t r ê s 5 universais desta figura.
15 m a n e ir a s , a s a b e r , p r e d ic a n d o - s e A de C e C de B, ou C de
a m b o s , o u a m b o s d e C , s e n d o e s t a s a s f ig u r a s j á d e s c r it a s ) , f ic a
e v id e n t e q u e t o d o s il o g i s m o t e m q u e s e r p r o d u z i d o p o r m e i o d e
u m a d e s s a s f ig u r a s , p o i s o m e s m o p r i n c í p i o v a l e r á t a m b é m s e A XXIV
e s t iv e r l i g a d o a B a t r a v é s d e m a is d e u m t e r m o . A f i g u r a t a m b é m Além disso, em todo silogismo um dos termos176 tem que ser
20 s e r á a m e s m a n o c a s o d a p lu r a l i d a d e d o s t e r m o s [ m é d io s ] . afirmativo e deve haver predicação universal. Sem a predicação
E v i d e n c i a - s e , e n t ã o , q u e a s d e m o n s t r a ç õ e s [ s ilo g ís t i c a s ] o s ­ universal, ou não teremos silogismo, ou a conclusão estará des­
t e n s iv a s s ã o l e v a d a s a e f e it o p o r m e i o d a s f ig u r a s j á d e s c r it a s . vinculada da suposição, ou haverá petição de princípio. Supo-
Que a s d e m o n stra çõ e s p o r re d u ç ã o ao a b su rd o ( reductio ad 10 nhamos que temos a incumbência de demonstrar que o prazer
impossibile) ta m b é m s ã o le v a d a s a c a b o p o r m e i o d e l a s s e r á musical é bom. Então, se postularmos que o prazer é bom, a me­
c la r a m e n t e m o s t r a d o p e lo q u e s e s e g u e . Q u a l q u e r u m q u e r e a l i ­ nos que todo seja adicionado como antecedente de prazer, não
z a u m a d e m o n s t r a ç ã o [ s ilo g ís t i c a ] por absurdo deduz o que é haverá silogismo. S e postularmos que algum prazer é bom, se
25 f a ls o e d e m o n s t r a o p o n t o e m q u e s t ã o h ip o t e t ic a m e n t e q u a n d o tratar-se de um outro prazer, não haverá referência à suposição
u m a c o n c l u s ã o im p o s s í v e l s e s e g u e d a s u p o s i ç ã o d a p r o p o s i ç ã o original; se tratar-se do mesmo, haverá uma petição de princípio.
c o n t r a d it ó r ia ; p o r e x e m p lo : a lg u é m d e m o n s tr a q u e a d ia g o n a l
d e u m q u a d r a d o é i n c o m e n s u r á v e l r e l a t iv a m e n t e a o s la d o s m o s -
t r a n d o - s e q u e , s e f o s s e s u p o s t a c o m e n s u r á v e l, o s n ú m e r o s í m p a ­ 174. Ou, em outras palavras, o argumento por redução ao absurdo (reductio ad impos­
r e s s e t o r n a r i a m i g u a i s a o s p a r e s . A s s i m , e le a r g u m e n t a a f a v o r sibile) consiste em demonstrar a impossibilidade de uma coisa com base na hipó­
tese admitida originalmente.
d a c o n c l u s ã o d e q u e o í m p a r s e t o r n a ig u a l a o p a r e d e m o n s t r a
175. Como ocorre em várias outras passagens, o texto dos A.A. exibe graves deficiên­
30 h ip o t e t ic a m e n t e q u e a d i a g o n a l é i n c o m e n s u r á v e l, u m a v e z q u e cias formais: aqui, por exemplo, o leitor não deve entender que demonstrações silo­
gísticas e silogismos sejam coisas distintas dada a distinção formal que nos vemos
forçados a reproduzir no nosso vernáculo: são exatamente a mesma coisa.
176. opmv (oron), mas o leitor deve entender premissa e não termo.
1 6 4 - E d ip r o f r r . i N O N - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 6 5
A r i s t ó t e l e s - Ó rg ano

E s t e p o n t o p o d e r á s e r p e r c e b i d o c o m m a i o r c la r e z a s e a t e n ­
t a r m o s p a r a o s t e o r e m a s d a g e o m e t r ia . P o r e x e m p lo , t o m e m o s a É c la r o , a d e m a is , q u e t o d a d e m o n s t r a ç ã o s e r á e fe t u a d a p o r

p r o p o s i ç ã o d e q u e o s â n g u l o s a d ja c e n t e s à b a s e d e u m t r iâ n g u lo m e io d e trê s t e rm o s e n ã o m a is d o q u e is s o , a m e n o s q u e a
15 is ó s c e le s s ã o i g u a is . Q u e a s li n h a s A e B s e j a m t r a ç a d a s e m d ir e ­ m e s m a c o n c lu s ã o s e ja a lc a n ç a d a p o r m e io d e d ife r e n t e s c o m ­

ç ã o a o c e n t r o [ d e u m a c ir c u n f e r ê n c ia ] . E n t ã o , s e s u p o r m o s q u e b in a ç õ e s d e te rm o s ; p o r e x e m p lo , s e E é c o n c lu íd o ta n to a
o â n g u l o A C 177 é i g u a l a o â n g u l o B D , s e m p o s t u la r m o s d e m o d o p a r t ir d a s p r o p o s iç õ e s A e B c o m o a p a r t ir d a s p r o p o s iç õ e s C e

g e r a l q u e o s â n g u l o s d o s s e m ic ír c u lo s s ã o i g u a is , e s e s u p o r m o s D, o u a p a r t ir d e A e B, A e C e B e C , v i s t o n ã o h a v e r p o r q u e
q u e o â n g u lo C é ig u a l a D , s e m t a m b é m s u p o r q u e t o d o s o s n ã o d e v e s s e h a v e r m a is d o q u e u m [te r m o ] m é d io e n tre o s
â n g u lo s d o m e s m o s e g m e n t o s ã o ig u a is e , a in d a , s e s u p o r m o s ? m e s m o s te rm o s , a in d a q u e n e s te c a s o h a ja m u ito s s ilo g is m o s e

que quando â n g u lo s ig u a is s ã o s u b t r a íd o s d a t o t a lid a d e d o s I 42 a 1 n ã o a p e n a s u m ; o u q u a n d o c a d a u m a d a s p r o p o s iç õ e s A e B é


20 â n g u lo s , o s â n g u l o s r e m a n e s c e n t e s E e F 178 s e r ã o ig u a is , a m e ­ d e d u z id a (p o r e x e m p lo , A p o r m e io d e D e E , e B p o r m e io d e

n o s q u e s u p o n h a m o s [ o p r i n c í p i o g e r a l ] d e q u e q u a n d o ig u a is F e G 182) , o u u m a i n d u z i d a e a o u t r a d e d u z i d a - m a s a q u i n o ­

s ã o s u b t r a íd o s d e ig u a i s o s r e m a n e s c e n t e s s ã o i g u a i s , s e r e m o s v a m e n t e t e re m o s u m a p lu r a lid a d e d e s ilo g is m o s , v is t o h a v e r
r e s p o n s á v e is p o r u m a p e t iç ã o d e p r i n c í p i o .179 5 v á r ia s c o n c lu s õ e s , a s a b e r , A, B e C . S e fo s s e c o n c e d id o q u e
n ão são m u ito s s ilo g is m o s , m a s a p e n a s u m , e n t ã o a m e s m a
P o r c o n s e g u i n t e , e v i d e n c i a - s e q u e e m t o d o s i l o g i s m o é m is t e r
c o n c lu s ã o p o d e r ia s e r a lc a n ç a d a p o r m a is d o q u e trê s t e rm o s
q u e h a j a p r e d i c a ç ã o u n iv e r s a l e q u e u m a c o n c l u s ã o u n iv e r s a l s ó
d e s s a fo r m a ; p o r é m , [e s s a c o n c lu s ã o ] n ã o p o d e s e r a lc a n ç a d a
p o d e s e r d e m o n s t r a d a q u a n d o t o d o s o s t e r m o s s ã o u n iv e r s a is ,
d e s o r t e q u e C r e s u lt e d e A e d e B. S u p o n h a m o s q u e E s e j a a
a o p a s s o q u e u m a c o n c l u s ã o p a r t ic u la r p o d e s e r d e m o n s t r a d a
c o n c l u s ã o a l c a n ç a d a p o r m e i o d a s p r e m i s s a s A , B , C e D. E n -
25 s e ja m o s t e r m o s t o d o s u n iv e r s a is o u n ã o , d e m o d o q u e s e a
10 t ã o , a l g u m a d e s t a s t e r ia q u e t e r s i d o su p o sta co m o e sta n d o
c o n c lu s ã o fo r u n iv e r s a l, o s te rm o s te rã o q u e s e r t a m b é m u n iv e r ­
r e la c io n a d a a a lg u m a o u tra , c o m o o t o d o e m r e la ç ã o à p a rte ,
s a i s , m a s s e o s t e r m o s f o r e m u n iv e r s a is , a c o n c l u s ã o p o d e r á n ã o
p o is j á f o i m o s t r a d o q u e o n d e h á u m s ilo g is m o c e r to s t e rm o s
s e r u n iv e r s a l. E t a m b é m e v id e n t e q u e e m t o d o s i l o g i s m o u m a o u
devem ser a s s im r e l a c i o n a d o s .183 Q u e A , e n t ã o , s e j a a s s im
a m b a s a s p r e m is s a s t e m q u e s e r s e m e lh a n t e à c o n c l u s ã o - não
r e l a c i o n a d o a B. E n t ã o h a v e r á a l g u m a c o n c l u s ã o a p a r t i r d e s ­
q u e r o d iz e r s im p le s m e n t e s e r e m a f ir m a t iv a s o u n e g a t iv a s , m a s
s a s p r e m i s s a s , o u E , o u u m a o u o u t r a d a s p r o p o s i ç õ e s C e D,
30 se re m a p o d ít ic a s , a s s e r t ó r ic a s o u p r o b l e m á t i c a s .180 T e m o s q u e
15 ou [ a i n d a ] u m a o u t r a q u e s e j a d if e r e n t e d e s t a s . S e fo r E , o
le v a r e m c o n s id e r a ç ã o t a m b é m a s o u t r a s f o r m a s d e p r e d ic a ç ã o .
s i l o g i s m o p o d e r i a s e r e x t r a í d o e x c l u s i v a m e n t e d e A e B. S e a s
F i c a , c o n t u d o , e v id e n t e e m li n h a s g e r a i s q u a n d o h a v e r á e p r o p o s i ç õ e s C e D, e n t r e t a n t o , s e a c h a r e m n u m a r e la ç ã o ta l
q u a n d o n ã o h a v e r á u m s ilo g is m o , q u a n d o o s il o g i s m o s e r á p o ­ q u e u m a c o n s t it u a o t o d o e a o u t r a a p a r t e , d e la s s e r á r e t ir a d a
t e n c ia l e q u a n d o s e r á p e r f e i t o 181 e q u e , s e h o u v e r u m s i l o g i s m o , ta m b é m u m a c o n c lu s ã o , a q u a l s e r á o u a p r o p o s iç ã o E , o u
o s te rm o s te rã o q u e e s ta r r e la c io n a d o s d e u m a d a s m a n e ir a s j á u m a o u o u t r a d a s p r o p o s iç õ e s A e B , o u [ a in d a ] u m a o u o u t r a
35 d e s c r it a s .

182. Z0: zeta corresponde na ordem alfabética a F, mas theta [0 ], sendo a oitava letra
do alfabeto grego, não corresponde ao G, mas sim ao H. Mas tudo leva a crer
177. ΑΓ (gamma é a terceira letra do alfabeto grego e, portanto, correspondente ao C).
que não se trata aqui (como em alguns outros casos alhures) de correspondência
178. Z (zeta é a sexta letra do alfabeto grego e correspondente, portanto, ao F do da ordem alfabética, mas da correspondência efetiva dos caracteres (gráfica e/ou
alfabeto português).
fonética). Assim, theta “não corresponderia” ao H, e sim êta [H - sétima letra do
179. Fazer uma petição de princípio (petitio principii) consiste em empregar um argu­ alfabeto grego]. O problema é que deste ponto de vista o nosso G também não
mento que supõe como demonstrado aquilo mesmo que procuramos demonstrar. corresponderia a theta, mas sim a gamma [ T ] do ponto de vista fonético. Entretan­
180. Esta observação peca por incoerência se a confrontarmos com 38a15-25. to, tudo isso não afeta a clareza e compreensão do texto, tendo esta nota apenas
181. δυνατός κα ι ποτε τελειος (dünatos kai pote teleios): o silogismo potencial (diina­ um cunho informativo.
tos) é o silogismo imperfeito. 183. Em 40b30.
1 6 6 - E d ip r o ÓRGANON - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 6 7
A r i s t ó t e l e s - Ó rg a n o u

d i s t in t a d a q u e l a s . C a s o s e j a E o u A o u B , ou h á e f e t iv a m e n t e 5 l o g i s m o s 185 o u v á r i o s t e r m o s m é d i o s c o n s e c u t i v o s ( p o r e x e m p lo ,

p l u r a l i d a d e d e s i l o g i s m o s , o u o q u e o c o r r e é q u e u m a c o is a a c o n c lu s ã o A B p o r m e io d o s te rm o s C e D ) , o n ú m e r o d o s te r­

i d ê n t i c a é c o n c l u í d a m e d ia n t e m ú l t i p lo s t e r m o s n a q u e l e s e n t id o m o s e x c e d e r á o d a s p r e m is s a s , c o m o a n t e s , e m um , u m a vez

20 q u e j á i n d i c a m o s c o m o s e n d o p o s s ív e l. A d e s p e it o [ d e s t a s it u a ­ q u e c a d a t e r m o a d i c i o n a l q u e é in t r o d u z id o s e r á a c r e s c e n t a d o

ç ã o ] , c a s o a c o n c l u s ã o s e j a d if e r e n t e d e s s a s p r o p o s i ç õ e s , e s t a ­ e xte rn a ou in t e r m e d ia r ia m e n t e à s e q ü ê n c ia , e num caso ou

r e m o s d ia n t e d e d iv e r s o s s ilo g is m o s q u e n ã o g u a r d a r ã o r e la ç ã o o u t r o r e s u lt a q u e o s i n t e r v a l o s 186 s ã o u m a m e n o s q u e o s t e r m o s

e n t r e s i. E caso C n ã o se a c h e v in c u la d o a D d e m a n e ir a a 10 e h á t a n t a s p r e m is s a s q u a n t o in t e r v a lo s ; a s p r e m i s s a s n e m s e m ­

p r o d u z ir u m a c o n c lu s ã o , c o n c lu ir - s e - á q u e e s s a s p r o p o s iç õ e s p r e s e r ã o p a r e s e o s t e r m o s n e m s e m p r e ím p a r e s , m a s d e m o d o

fo ra m su p o sta s e m v ã o , s a lv o c o lim a n d o a in d u ç ã o , o u um a lt e r n a d o q u a n d o a s p r e m is s a s s ã o p a r e s , o s t e r m o s s e r ã o í m p a ­

o b s c u r e c im e n t o do a rg u m e n to ou a lg u m o u tro o b je tiv o do r e s , e q u a n d o o s t e r m o s s ã o p a r e s , a s p r e m is s a s s e r ã o í m p a r e s ,

g ê n e ro . p o is o n d e u m te r m o é a c r e s c e n t a d o , u m a p r e m is s a t a m b é m o é .
A s s im , u m a v e z q u e a s p r e m is s a s e r a m p a r e s e o s t e rm o s ím p a -
25 M a s , s e a c o n c l u s ã o e x t r a íd a d e A e B n ã o f o r E , m a s a lg o
15 re s, s e u s n ú m e ro s d e v e m m udar em c o n s o n â n c ia q u a n d o u m
d is t in t o , e a c o n c l u s ã o d e C e D f o r o u u m a d a s p r o p o s i ç õ e s A e
a c r é s c i m o i d ê n t i c o é f e it o a a m b o s . M a s a s c o n c lu s õ e s n ã o c o n ­
B o u a l g u m a c o i s a d if e r e n t e d e la s , r e s u lt a r á m a i s d e u m s i l o g i s ­
s e r v a r ã o m a is a m e s m a r e la ç ã o n u m é r ic a , q u e r c o m o s te rm o s
m o e e s t e s s ilo g is m o s n ã o d e m o n s t r a m a c o n c l u s ã o r e q u e r id a ,
o u c o m a s p r e m is s a s , v i s t o q u e q u a n d o é a c r e s c e n t a d o u m t e r ­
p o i s s e s u p ô s q u e o s il o g i s m o d e m o n s t r a v a E . E se n e n h u m a
m o , o n ú m e r o d e c o n c lu s õ e s a c r e s c e n t a d a s s e r á m e n o r e m u m
c o n c l u s ã o r e s u lt a r d e C e D , c o n c l u i - s e q u e e s s a s p r o p o s iç õ e s
a o n ú m e r o o r ig in a l d o s te rm o s , p o r q u a n t o f o r m a r á c o n c lu s õ e s
f o r a m s u p o s t a s e m v ã o e q u e o s il o g i s m o n ã o d e m o n s t r a a s u -
20 c o m t o d o s o s t e r m o s , à e x c e ç ã o d o ú lt im o . P o r e x e m p l o , s e o
30 p o s iç ã o o r ig in a l . P o r c o n s e g u i n t e , f i c a e v id e n t e q u e t o d a d e ­
t e r m o D é a c r e s c e n t a d o a o s te rm o s A , B e C , d u a s c o n c lu s õ e s
m o n s t r a ç ã o e t o d o s il o g i s m o s e r ã o p r o d u z i d o s p o r m e i o d e a p e ­
a d ic io n a is s ã o a c r e s c e n t a d a s ipso facto, a s a b e r , a q u e la s q u e s ã o
n a s trê s te rm o s.
d a d a s p e la r e la ç ã o d e D s e p a r a d a m e n te a A e B . C o is a s e m e ­
Is s o e v id e n c ia d o , t a m b é m s e to r n a v is ív e l q u e t o d o s ilo g is ­ lh a n t e o c o r r e e m t o d o s o s d e m a is c a s o s . E m e s m o s e o t e r m o f o r
m o p ro ce d e d e duas p r e m is s a s e n ã o m a i s - v i s t o q u e o s t r ê s i n t r o d u z id o in t e r m e d ia r ia m e n t e , v a l e r á o m e s m o p r i n c í p i o , p o i s
te r m o s f o r m a m d u a s p r e m is s a s - , a m e n o s q u e a lg u m a s u p o s i- o t e r m o f o r m a r á u m a c o n c lu s ã o c o m t o d o o re s to , s a lv o p o r u m
35 ç ã o a d i c i o n a l s e j a f e it a , c o m o d is s e m o s n o i n í c i o , c o m o p ro ­ 25 [ t e r m o ] . C o n s e q ü e n t e m e n t e , h a v e r á m u i t o m a is c o n c lu s õ e s d o
p ó s i t o d e c o m p l e t a r o s s i l o g i s m o s . E a s s im f i c a c l a r o q u e s e e m q u e t e r m o s o u p r e m is s a s .
q u a lq u e r a rg u m e n to s ilo g ís t ic o , as p r e m is s a s p e la s q u a is se
a l c a n ç a a c o n c l u s ã o p r i n c i p a l (e d i g o principal p o r q u e a lg u m a s
d a s c o n c l u s õ e s a n t e r io r e s s ã o n e c e s s a r i a m e n t e p r e m i s s a s ) n ã o
XXVI
f o r e m e m n ú m e r o p a r , o u e s s e a r g u m e n t o n ã o f o i d e d u z i d o 184 U m a v e z c o m p r e e n d i d o o o b je t o d o s i l o g i s m o e q u e t ip o d e
o u p o s t u lo u m a is p r e m is s a s d o q u e a s n e c e s s á r ia s à d e m o n s ­ d e m o n stra çã o p o d e s e r o b t id a e m cada f ig u r a e d e q u a n ta s
t r a ç ã o d a te se . m a n e i r a s , a n ó s t a m b é m s e e v i d e n c i a q u e t ip o d e p r o p o s i ç ã o é

42bl A s s i m , s e c o n s id e r a r m o s o s s i l o g i s m o s n o q u e t a n g e à s s u a s d e d if í c il d e m o n s t r a ç ã o e q u e t ip o é d e f á c il d e m o n s t r a ç ã o , j á

p r e m is s a s p r o p r ia m e n t e d it a s , t o d o s il o g i s m o c o n s is t ir á d e u m 30 q u e a q u e l a c o n c l u í d a e m m a i s f ig u r a s e m e d ia n t e m a is m o d o s s e

n ú m e r o p a r d e p r e m is s a s e u m n ú m e r o í m p a r d e t e r m o s , p o i s m o s t r a m a is f a c ilm e n t e d e m o n s t r á v e l, e n q u a n t o a q u e é c o n c l u í d a

e s t e s s ã o e m u m n ú m e r o a m a i s d o q u e a s p r e m is s a s . A d e m a i s ,
a s c o n c lu s õ e s c o r r e s p o n d e r ã o à m e t a d e d a q u a n t i d a d e d e p r e ­
185. jipoouXXoYio|imv (prosüllogismon). O prossilogismo é um silogismo ligado de tal
m is s a s . M a s q u a n d o a c o n c l u s ã o é a t in g id a p o r m e i o d e p r o s s i-
modo a um outro silogismo que a conclusão do primeiro deles acaba constituindo
a premissa do segundo.
184. Ou seja, demonstrado silogísticamente. 186. Relações de predicação.
1 6 8 - E d ip r o A r i s t ó t e l e s - Ó rganqh
ó b g a n o n —A n a lí t ic o s a n t e r i o r e s - L iv r o l E d ip r o - 169

e m m e n o s f ig u r a s e p o r m e n o s m o d o s s e m o s t r a m a i s d if i c ilm e n ­
te d e m o n s t r á v e l. A a n á lis e p r e c e d e n t e 189 i n d i c a c la r a m e n t e c o m o é c o n s t r u íd o
t o d o s ilo g is m o , p o r m e i o d e q u a n t o s t e r m o s e p r e m i s s a s e c o m o
A u n i v e r s a l a f ir m a t iv a é d e m o n s t r a d a s o m e n t e p e la p r im e ir a e s ta s s e r e la c io n a m e n t r e s i; t a m b é m [ i n d i c a ] q u a l o t ip o d e
f ig u r a e p o r m e io d e s t a e m u m ú n ic o m o d o s o m e n te . A n e g a t i­ p r o p o s i ç ã o d e m o n s t r a d o e m c a d a f ig u r a , q u a l o t ip o d e m o n s ­
v a , c o n t u d o , é d e m o n s t r a d a t a n t o p e l a p r im e ir a f ig u r a q u a n t o t r a d o e m m a is [ f ig u r a s ] e q u a l o t ip o e m m e n o s [ f ig u r a s ] .
35 p e la f ig u r a m e d ia n a : p e la p r im e ir a e m u m ú n i c o m o d o e p e la
m e d ia n a e m d o is m o d o s . A p a r t ic u la r a f i r m a t iv a é d e m o n s t r a d a
XXVII
p e la p r im e ir a e ú lt im a f ig u r a s : p e la p r im e ir a e m u m ú n i c o m o d o
e p e la ú lt im a e m t r ê s m o d o s , A p a r t ic u la r n e g a t i v a é d e m o n s t r a ­ 20 N o s s a p r ó x i m a t a r e f a c o n s is t e e m d e s c r e v e r c o m o n ó s m e s ­
d a p o r t o d a s a s t r ê s f ig u r a s , c o m a d if e r e n ç a d e q u e n a p r im e ir a m o s d e s c o b r i r e m o s u m b o m s u p r i m e n t o d e s i lo g i s m o s [ q u e n o s
f ig u r a é d e m o n s t r a d a e m u m m o d o , a o p a s s o q u e n a s e g u n d a e c a p a c it e ] a e n f r e n t a r q u a l q u e r p r o b l e m a d a d o e p o r q u a l m é t o ­
n a t e r c e ir a é d e m o n s t r a d a r e s p e c t iv a m e n t e e m d o i s e t r ê s m o d o s . d o a p r e e n d e r e m o s o s p r in c íp io s a p r o p r ia d o s a c a d a p r o b le m a ,
p o i s é d e s e p r e s u m ir q u e n ã o d e v e m o s n o s r e s t r in g ir a e s p e c u ­
43al S a l t a a o s o lh o s q u e a u n iv e r s a l a f ir m a t iv a é a m a is d if íc il d e s e r
la r a c e r c a d a f o r m a ç ã o d o s s i lo g i s m o s , m a s t a m b é m n o s m u n i r ­
No geral, a refutação
e s t a b e le c id a e a m a is f á c il d e s e r r e f u t a d a .
m o s d a c a p a c i d a d e d e c o n s t r u í- lo s .
das p r o p o s iç õ e s u n iu e r s a is é mais fácil do que a refutação das
particulares porque a proposição universal afirmativa é a uma vez 25 O r a , t o d a s a s c o i s a s e x is t e n t e s o u [ 1 ] s ã o t a is q u e n ã o p o d e m
refutada pela universal negativa e pela particular negativa. Esta s e r v e r d a d e i r a m e n t e p r e d i c a d a s n u m s e n t id o u n i v e r s a l d e a l g u ­
5 última é demonstrável em todas as três figuras, a primeira em duas m a o u t r a c o is a (p o r e x e m p lo , C le o n e C a lia s e q u a lq u e r c o is a
delas. O mesmo ocorre com as proposições negativas, visto que a q u e s e j a i n d i v i d u a l e s e n s ív e l ) , e m b o r a o u t r o s a t r ib u t o s p o s s a m
proposição i n ic ia l p o d e s e r refutada tanto pela universal afirmativa d e la s s e r p r e d ic a d o s (u m a v e z q u e c a d a u m d o s e x e m p lo s c it a ­
quanto pela particular afirmativa, e vimos que a universal negativa d o s é u m h o m e m e u m a n im a l) , ou [ 2 ] s ã o p r e d ic a d a s d e o u tr a s
se encontra em duas figuras.187 As proposições particulares, con­ c o i s a s , a i n d a q u e o u t r a s c o is a s n ã o c o m e c e m p o r s e r e m p r e d i-
tudo, só se expõem à refutação de uma maneira, ou seja, por 30 c a d a s d e la s , o u [ 3 ] s ã o a m b a s e la s m e s m a s p r e d i c a d a s d e o u t r a s
meio da demonstração da universal afirmativa ou da universal c o is a s e t ê m o u t r a s c o i s a s d e la s p r e d i c a d a s (c o m o homem é
negativa. M a s proposições particulares são mais fáceis de serem p r e d ic a d o d e C a lia s e animal d e h o m e m ). E ó b v io q u e a lg u m a s
10 estabelecidas, uma vez que sua demonstração pode ser efetuada c o is a s n ã o s ã o n a t u r a lm e n t e p r e d i c á v e i s d e q u a i s q u e r o u t r a s ,
em mais figuras e por mais modos.188 p o i s , n o s e x p r i m in d o d e m a n e i r a a m p l a , t o d a c o i s a s e n s ív e l é t a l
q u e n ã o p o d e s e r p r e d ic a d a d e q u a lq u e r o u t r a c o is a , e x c e t o n u m
N ã o d e v e m o s d e ix a r d e o b s e r v a r o p r in c íp io g e r a l s e g u n d o o
35 s e n t id o a c id e n t a l, p o i s à s v e z e s d iz e m o s “A q u e l a c o i s a b r a n c a é
q u a l e n q u a n t o p r o p o s i ç õ e s p o d e m s e r r e f u t a d a s r e c ip r o c a m e n t e
S ó c r a t e s ” o u “A q u i l o q u e e s t á s e a p r o x i m a n d o é C a l i a s ” . E x p l i c a ­
- a s u n iv e r s a is p e la s p a r t ic u la r e s e a s p a r t ic u la r e s p e la s u n i v e r ­
r e m o s e m o u t r a p a r t e 190 q u e e x is t e , t a m b é m , u m lim it e s u p e r io r
s a is p r o p o s i ç õ e s u n i v e r s a i s n ã o p o d e m s e r e s t a b e le c id a s p o r
ao p ro ce sso de p r e d ic a ç ã o . P a ra o m o m e n t o , t o m e m o s is s o
m e i o d e p a r t ic u la r e s , e m b o r a a s p a r t ic u la r e s p o s s a m s e r e s t a b e ­
c o m o a d m itid o . N ã o p o d e s e r d e m o n s t r a d o , p o rta n to , q u e a l­
le c i d a s p o r m e i o d a s u n iv e r s a is . A o m e s m o t e m p o t a m b é m s a lt a
g u m a o u t r a c o i s a s e j a p r e d i c a d a d e s s a c la s s e d e c o i s a s , s a l v o p o r
5 a o s o l h o s q u e é m a is f á c il r e f u t a r u m a p r o p o s i ç ã o d o q u e e s t a ­
v i a d e o p i n i ã o ; m a s s ã o p r e d i c a d o s d e o u t r a s c o is a s . I n d i v í d u o s ,
b e le c ê - la .
40 p o r o u t r o la d o , n ã o s ã o p r e d i c a d o s d e o u t r a s c o i s a s , e m b o r a
o u t r a s c o i s a s s e j a m d e le s p r e d i c a d a s . C o i s a s q u e s ã o in t e r m e d i á -

187. Em 42b35.
188. Em todo este trecho em itálico recorremos adicionalmente a textos de outros
189. Ou seja, a exposta do Capítulo XXIII ao XXVI.
helenistas além daquele de Bekker.
190. Nos Analíticos Posteriores, 1,19-22.
{SanANQN—A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 7 1
1 7 0 - E d ip r o A r i s t ó t e l e s - Ó r g ANcm

rias entre universais e individuais, entretanto, claramente admi­ n a r o s c o n s e q ü e n t e s o u n ã o -c o n s e q ü e n t e s d o u n iv e r s a l m a n ip u -

tem am bos os processos, pois tanto são predicadas de outras 25 la n d o o p a r t ic u la r ( u m a v e z q u e j á f o r a m a p r e e n d id o s a o c o n s i­


d e r a r o u n iv e r s a l, p o is o s c o n s e q ü e n t e s d e a n im a i s ã o c o n s e ­
coisas com o têm outras coisas predicadas delas. Argumentos e
q ü e n te s d e h o m e m , o c o r r e n d o a lg o a n á lo g o c o m o s n ã o - c o n s e -
investigações, via de regra, concernem principalmente a e s s a 1
classe de coisas. | q ü e n t e s ); c o n t u d o , p r e c is a m o s a p r e e n d e r o s c o n s e q ü e n t e s q u e
s ã o p e c u lia r e s a o i n d i v i d u a l , v i s t o q u e h á a l g u m a s p r o p r i e d a d e s
43bl A g o r a n o s c a b e s e l e c i o n a r a s p r e m is s a s v i n c u l a d a s a c a d a 1
à e s p é c ie in d e p e n d e n t e m e n t e d o g ê n e r o , c o n s i d e r a n d o - s e q u e
p r o b l e m a d a m a n e ir a q u e s e s e g u e . D e v e m o s f i x a r [ 1 ] o p r ó p r io 1
a s o u t r a s e s p é c i e s d e v e m t a m b é m p o s s u i r a l g u m a s p r o p r ie d a d e s
s u j e it o , s u a s d e f i n i ç õ e s e t o d a s a s s u a s p r o p r ie d a d e s , [ 2 ] t o d o s j
q u e lh e s s ã o p e c u lia r e s .
o s c o n c e i t o s q u e s ã o c o n s e q ü e n t e s d o s u j e i t o , [3 ] o s c o n c e i t o s 1
5 d o s q u a is o s u je ito é u m c o n s e q ü e n t e e [4] o s a t r ib u t o s q u e n ã o T a m p o u c o d e v e m o s , n o q u e t o c a a o t e r m o u n i v e r s a l, s e l e ­

p o d e m s e a p l i c a r a o s u je it o . N ã o h á n e c e s s id a d e d e s e l e c i o n a r c io n a r o s a n t e c e d e n t e s d o te rm o s u b o r d in a d o ; p o r e x e m p lo , n o

o s c o n c e i t o s a o s q u a i s e le n ã o p o d e s e a p l i c a r p o r q u e a p r e m is s a 30 c a s o d e a n im a l n ã o d e v e m o s s e l e c i o n a r o s a n t e c e d e n t e s d e h o ­

n e g a t i v a é c o n v e r t ív e l. D e v e m o s t a m b é m d is t in g u i r e n t r e e s s e s m e m , p o i s s e a n im a l é u m c o n s e q ü e n t e d e h o m e m , é n e c e s s a r i a ­
m e n te u m c o n s e q ü e n t e t a m b é m d e t o d o s e ss e s c o n c e ito s . D iz e m
c o n s e q ü e n t e s a q u e le s q u e e s t ã o i n c l u í d o s n a e s s ê n c ia , a q u e le s
q u e s ã o p r e d i c a d o s c o m o p r o p r ie d a d e s e a q u e le s q u e s ã o p r e d i­ r e s p e it o , e n t r e t a n t o , m a i s p r o p r ia m e n t e à s e l e ç ã o d e c o n c e i t o s

c a d o s c o m o a c id e n t e s e , e n t r e e s t e s , p r e c is a m o s d is t in g u i r a q u e ­ a s s o c ia d o s a o te rm o h o m e m .

le s q u e e s t ã o s u p o s t a m e n t e a s s o c i a d o s a o s u j e i t o d o s q u e e s t ã o E n e c e s s á r i o , ig u a lm e n t e , a p r e e n d e r a q u e l e s c o n c e i t o s q u e
10 r e a lm e n t e a e le a s s o c ia d o s , v is t o q u e q u a n t o m a i o r f o r n o s s o s ã o o r d in a r ia m e n t e c o n s e q ü e n t e s d e n o s s o s u j e i t o e a q u e le s d o s
s u p r im e n t o d e s t e s ú lt im o s , m a i s c e d o c h e g a r e m o s a u m a c o n c l u ­ q u a i s e le é o r d i n a r i a m e n t e u m c o n s e q ü e n t e , p o i s o s i l o g i s m o d e
s ã o , e q u a n t o m a is v e r d a d e ir o s fo re m , m a is c o n v in c e n t e s e r á p r o p o s i ç õ e s a c e r c a d o o r d i n á r i o é t a m b é m r e t ir a d o d e p r e m i s s a s
n o ssa d e m o n stra çã o . 35 q u e s ã o o r d i n a r ia m e n t e v e r d a d e i r a s , o u t o d a s o u a l g u m a s d e l a s ,

T e m o s q u e s e le c io n a r c o n s e q ü e n te s n ã o d e a lg u m a p a rte d o u m a v e z q u e a c o n c l u s ã o d e t o d o s il o g is m o é s e m e lh a n t e a o s

s u j e it o , m a s d o s e u t o d o ; p o r e x e m p lo , n ã o a q u e le s d e u m h o ­ s e u s p rin c íp io s .191
m e m in d iv id u a l, m a s a q u e le s d e to d o h o m e m , p o i s é d e p r e m is ­ A lé m d is s o , não p r e c is a m o s s e le c io n a r c o n c e ito s que são
sas u n iv e r s a is q u e p ro ce d e o s ilo g is m o . A s s i m , q u a n d o um a c o n s e q ü e n t e s d e t o d o s o s t e r m o s p o r q u e e le s n ã o p r o d u z i r ã o
15 p r o p o s i ç ã o é i n d e f in id a , é d u v i d o s o s e r a p r e m is s a u n iv e r s a l, a o u m s i l o g i s m o . A r a z ã o d i s s o f i c a r á c l a r a l o g o a d i a n t e .192
p a s s o q u e q u a n d o a p r o p o s i ç ã o é d e f in id a , is s o é t o t a lm e n t e
c l a r o . D a m e s m a m a n e ir a , t e m o s q u e s e l e c i o n a r a p e n a s a q u e le s
c o n c e ito s d o to d o d o q u a l o s u j e it o é u m c o n s e q ü e n t e , p e la
XXVIII
m e s m a r a z ã o q u e a c a b a m o s d e in d ic a r . M a s n ã o d e v e m o s p r e ­
s u m ir q u e o c o n s e q ü e n t e é c o n s e q ü e n t e c o m o u m to d o ; p o r 40 Q u a n d o d e s e j a m o s e s t a b e le c e r u m a p r o p o s i ç ã o s o b r e u m s u ­
e x e m p lo , q u e t o d o a n im a i é u m co n se q ü e n te d o hom em , o u j e it o c o m o u m t o d o , t e m o s q u e e x a m i n a r [ e m p r i m e i r o lu g a r ] o s
t o d o c o n h e c im e n t o é u m c o n s e q ü e n t e d a m ú s ic a , m a s s o m e n t e s u j e i t o s d o s q u a is o p r e d i c a d o q u e p r o c u r a m o s e s t a b e le c e r é
q u e é u m c o n s e q ü e n t e , s e m [ q u a lq u e r ] q u a l i f i c a ç ã o , c o m o r e a l­ r e a lm e n t e a f i r m a d o e [ e m s e g u n d o l u g a r ] o s c o n s e q ü e n t e s d o
m e n t e o e x p r e s s a m o s n u m a p r o p o s iç ã o . A o u t r a f o r m a d e e x - s u je it o c u jo p r e d ic a d o se req u er q u e e s t a b e le ç a m o s , p o is se
20 p re ssã o - p o r e x e m p lo , “t o d o h o m e m é to d o a n im a l” o u “a 44 a l h o u v e r a lg u m a c o is a q u e s e ja c o m u m a a m b a s a s c la s s e s , o
j u s t i ç a é t o d o o b e m ” , é in ú t il e i m p o s s ív e l. É a o a n te ce d e n te p r e d i c a d o t e r á q u e s e a p l i c a r a o s u j e it o . S e e s t iv e r m o s t e n t a n d o
q u e to d o e s t á l i g a d o .

Q u a n d o o s u je it o c u jo s c o n s e q ü e n t e s t e m o s q u e a p r e e n d e r
191. apxaiç (archais), quais sejam, as premissas iniciais.
e s t á i n c l u í d o e m a l g u m t e r m o m a i s la t o , n ã o p r e c i s a m o s s e l e c i o -
192. Em 44b20.
1 7 2 - E d ip r o Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 7 3
A r is t ó t e l e s -Ó B G A/vn»

e s t a b e le c e r q u e e le s e a p l i c a n ã o a t o d o [ s u je it o ] m a s a a lg u m i d ê n t ic o a H e s u p o m o s q u e H n ã o s e a p l i c a a n e n h u m E ; [ e m

[ s u j e i t o ],193 t e r e m o s q u e c o n s id e r a r o s a n t e c e d e n t e s d e a m b o s o s 3q q u in t o l u g a r , ] s e D e G f o r e m i d ê n t ic o s , A n ã o s e a p l i c a r á a a l ­

t e r m o s , p o i s s e a l g u m a c o i s a f o r c o m u m a a m b a s a s c la s s e s , u m g u m E , u m a v e z q u e n ã o s e a p l i c a r á a G , p o r q u a n t o e le n ã o s e

t e r m o s e a p l i c a r á n e c e s s a r i a m e n t e a a lg u m d o o u t r o .194 Q u a n d o a p l i c a a D . M a s G e s t á s u b o r d i n a d o a E e , a s s im , A n ã o s e a p l i ­

s e r e q u e r q u e u m t e r m o n ã o s e a p l i q u e a n e n h u m o u t r o [t e r m o c a r á a a l g u m E . [ E m s e x t o lu g a r , ] s e B f o r i d ê n t ic o a G h a v e r á

u n iv e r s a l] , t e r e m o s q u e c o n s id e r a r o s c o n s e q ü e n t e s d o s u je it o e u m s ilo g is m o p o r c o n v e r s ã o , p o is E s e a p lic a r á a t o d o A , u m a
o s a t r ib u t o s q u e n ã o p o d e m p e rte n c e r a o p r e d ic a d o - o u , ao v e z q u e B s e a p l i c a a A e E s e a p l i c a a B ( v is t o q u e B é , ex hypo-

i n v e r s o - , t e r e m o s q u e c o n s id e r a r o s a t r ib u t o s q u e n ã o p o d e m thesi, i d ê n t ic o a G ) . N ã o s e c o n c l u i , e n t r e t a n t o , n e c e s s a r i a m e n t e
p e r t e n c e r a o s u j e it o e o s c o n s e q ü e n t e s d o p r e d i c a d o , p o i s se q u e A s e a p lic a a t o d o E , m a s s o m e n t e q u e s e a p lic a a a lg u m [E ]

q u a l q u e r t e r m o f o r i d ê n t ic o n a s d u a s s é r ie s , o t e r m o p r e d ic a d o 35 p o r q u e a u n i v e r s a l p o d e s e c o n v e r t e r n u m a p r o p o s iç ã o p a r t ic u la r .
'n ã o p o d e r á se a p lic a r a n e n h u m d o s u j e it o , u m a v e z q u e u m A s s i m , f i c a e v id e n t e q u e e m t o d o s o s p r o b l e m a s é im p e r io s o
s il o g is m o à s v e z e s r e s u lt a n a p r im e ir a f ig u r a , e à s v e z e s n a m e d ia - q u e c o n s id e r e m o s a s r e la ç õ e s q u e a c a b a m o s d e in d ic a r e n tre
n a . M a s s e o p r o p ó s it o é e s t a b e le c e r u m a p r o p o s i ç ã o n e g a t iv a I s u je ito e p r e d ic a d o , p o is é d e la s q u e p r o c e d e m t o d o s o s s ilo g is ­
p a r t ic u la r , t e r e m o s q u e e n c o n t r a r a n t e c e d e n t e s d o s u je ito e m * m o s . A d e m a i s , t e m o s q u e c o n s i d e r a r e s p e c ia l m e n t e o s c o n s e ­
q u e s t ã o e a t r ib u t o s q u e n ã o p o s s a m a p lic a r - s e a o p r e d i c a d o e m q ü e n te s e a n te c e d e n te s d e c a d a te rm o q u e s e ja m p r im á r i o s e
q u e s t ã o . S e a l g u m a c o i s a f o r c o m u m a e s t a s d u a s c la s s e s , c o n - u n i v e r s a i s ; p o r e x e m p lo , n o c a s o d e E t e m o s q u e c o n s i d e r a r K F
c l u ir - s e - á n e c e s s a r i a m e n t e q u e o p r e d i c a d o n ã o s e a p l i c a a a l ­ 44b 1 e m lu g a r d e s o m e n t e F , e n o c a s o d e A t e m o s q u e c o n s id e r a r K C
g u m d o s u j e i t o .195
e m lu g a r d e s o m e n t e C , p o i s s e A s e a p l i c a a K F , s e a p l i c a t a n t o
a F q u a n t o a E , m a s s e e le n ã o f o r u m c o n s e q ü e n t e d e s t e ú l t i m o ,
T a l v e z a s d iv e r s a s r e g r a s q u e a c a b a m o s d e i n d i c a r a d q u i r a m
p o d e r á a in d a se r u m c o n s e q ü e n te d e F . T e m o s q u e o b s e r v a r o s
m a i o r c la r e z a s e a s e x p r e s s a r m o s d a m a n e ir a q u e s e s e g u e . Q u e
a n t e c e d e n t e s d o te rm o e m q u e s tã o d e m a n e ir a a n á lo g a , p o is s e
o s c o n s e q ü e n t e s d e A s e ja m d e s ig n a d o s p o r B , o s a n te c e d e n te s
f o r e le u m c o n s e q ü e n t e d o s [ a n t e c e d e n t e s ] p r i m á r io s , t a m b é m o
d e A p o r C e o s a t r ib u t o s q u e n ã o p o d e m s e a p l i c a r a A p o r D ;
s e r á d o s te rm o s q u e s e s u b o r d in a m a e ste s. M a s se n ã o fo r u m
a n a lo g a m e n t e , q u e o s a t r ib u t o s d e E s e j a m d e s i g n a d o s p o r F , o s
5 c o n s e q ü e n t e d o s p r im e ir o s , a i n d a a s s im o p o d e r á s e r d o s ú lt im o s .
a n t e c e d e n t e s d e E p o r G , e o s a t r ib u t o s q u e n ã o p o d e m s e a p l i ­
c a r a E p o r H . E n t ã o [ , e m p r im e ir o l u g a r , ] s e q u a l q u e r u m d o s O u t r o p o n t o e v id e n t e é q u e n o s s a i n v e s t i g a ç ã o é f e it a p o r
C s f o r id ê n t ic o a q u a l q u e r u m d o s F s , A s e a p l i c a r á n e c e s s a r i a ­ r p e io d o s t r ê s t e r m o s e d a s d u a s p r e m is s a s e q u e t o d o s o s s i l o ­
m e n te a t o d o E , p o is F se a p lic a a to d o E e C s e a p lic a a t o d o A , g i s m o s s ã o p r o d u z i d o s p o r m e i o d a s t r ê s f ig u r a s j á d e s c r it a s . P o i s
d e s o rte q u e A se a p lic a a to d o E ; [e m s e g u n d o lu g a r ,] s e C e G e s tá d e m o n s t r a d o [1 ] q u e A s e a p lic a a t o d o E q u a n d o u m d o s
f o r e m i d ê n t ic o s , A s e a p l i c a r á n e c e s s a r i a m e n t e a a l g u m E , p o i s A 10 C s é t o m a d o c o m o id ê n t ic o a u m d o s F s , e e ste s e r á o te rm o
é u m c o n s e q ü e n t e d e t o d o C e E d e t o d o G ; [ e m t e r c e ir o lu g a r , ] m é d i o e n q u a n t o o s e x t r e m o s s e r ã o A e E , r e s u lt a n d o n a p r i m e i ­
s e F e D f o r e m id ê n t ic o s , p o r u m p r o s s ilo g is m o A n ã o s e a p l i c a r á r a f ig u r a ; [ 2 ] q u e A s e a p l i c a a a l g u m E q u a n d o C e G fo re m
a n e n h u m E , p o i s v i s t o q u e a p r o p o s i ç ã o n e g a t i v a é c o n v e r t ív e l, t o m a d o s c o m o i d ê n t ic o s , c o m o q u e t e r e m o s a ú l t i m a f ig u r a ,
e F é id ê n t ic o a D , A n ã o s e a p l i c a r á a n e n h u m F , a i n d a q u e F u m a v e z q u e G s e t o r n a o t e r m o m é d io ; [ 3 ] q u e A n ã o s e a p l i c a a
s e a p liq u e a t o d o E ; [ e m q u a r t o lu g a r , ] s e B e H f o r e m id ê n t ic o s , n e n h u m E q u a n d o D e F s ã o id ê n t ic o s . N e s t e c a s o o b t e m o s t a n t o
A n ã o s e a p lic a r á a n e n h u m E , u m a v e z q u e B se a p lic a r á a to d o a p r im e ir a f i g u r a q u a n t o a m e d i a n a , a p r im e ir a p o r q u e A n ã o s e
A , m a s n ã o s e a p lic a r á a n e n h u m E , v is t o q u e B é , ex hypothesi, 15 a p l i c a a n e n h u m F ( a p r o p o s i ç ã o n e g a t iv a s e n d o c o n v e r t id a ) e F
s e a p lic a a t o d o E , e a m e d i a n a p o r q u e D n ã o s e a p l i c a a n e n h u m
A , m a s s e a p li c a a t o d o E . [ 4 ] Q u e A n ã o s e a p lic a a a lg u m E
193. Ou seja, o objetivo é estabelecer não uma proposição universal, mas sim particular. q u a n d o D e G s ã o id ê n t ic o s , o q u e n o s p õ e n a ú lt im a f ig u r a , p o i s
194. Ou seja, teremos uma predicação necessária particular. A n ã o s e a p l ic a r á a n e n h u m G e E s e a p l ic a r á a t o d o G .
195. Ou seja, teremos uma predicação particular negativa.
1 7 4 - E d ip r o ________________________________________________A r i s t ó t e l e s - Ó r g a n o » Aar.ANQN - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 175

d e s c r it o a n t e r io r m e n t e ,197 p o i s B s e a p l i c a r á a t o d o A , m a s n ã o
20 D i a n t e d is s o , f ic a e v id e n t e q u e t o d o s o s s i l o g i s m o s s ã o p r o - '
s e a p lic a r á a n e n h u m E , d e s o rte q u e B é n e c e s s a ria m e n t e id ê n ­
d u z i d o s p o r m e i o d a s f ig u r a s j á d e s c r it a s e q u e n ã o t e m o s q u e
t ic o a a l g u m H . P o r o u t r o l a d o , s e B e G n ã o p o d e m s e a p li c a r
s e le c io n a r c o n s e q ü e n te s d e t o d o s o s te rm o s p o r q u e nenhum
10 a o m e s m o s u j e i t o , h a v e r á u m s il o g i s m o e m f u n ç ã o d e A n ã o s e
s i l o g i s m o d e le s r e s u lt a , v is t o q u e c o n s t a t a m o s q u e n ã o h á a b s o ­
a p lic a r a a lg u m E . T a m b é m n e s te c a s o te re m o s a f ig u r a m e d ia n a
lu t a m e n t e n e n h u m m e i o d e e s t a b e le c e r u m a p r o p o s i ç ã o a p a r t ir
p o r q u e B s e a p lic a r á a to d o A , m a s n ã o a a lg u m E , d e s o rte q u e
de c o n s e q ü e n t e s ,196 e n q u a n t o , p o r o u t r o la d o , a re fu ta çã o é
B t e m q u e s e r id ê n t ic o a a l g u m H , p o i s a p r o p o s i ç ã o “ B e G n ã o
i m p o s s í v e l p o r m e i o d e u m c o n s e q ü e n t e c o m u m p o r q u e s e a p li­
p o d e m s e a p l i c a r a o m e s m o s u j e i t o ” e q u i v a l e a “ B é i d ê n t ic o a
c a r ia a u m te rm o , m a s n ã o a o o u tro .
15 a l g u m H ” , u m a v e z q u e s u p o m o s q u e H d e s i g n a t o d o s o s a t r ib u ­
25 O u t r o p o n t o e v id e n t e é q u e t o d o s o s d e m a i s m é t o d o s d e in ­
t o s q u e n ã o p o d e m s e a p l i c a r a E .198
v e s t i g a ç ã o q u e p r o c e d e m p o r s e l e ç ã o s ã o in ú t e is p a r a a p r o d u ­
E v i d e n c i a - s e , a s s im , q u e n e n h u m s i l o g i s m o r e s u lt a d o s m é ­
ç ã o d e u m s ilo g is m o . E x e m p l o s : [1 ] s e o s c o n s e q ü e n t e s d e a m ­
t o d o s p r e c e d e n t e s d e in v e s t i g a ç ã o t a l c o m o s e a p r e s e n t a m , m a s
b o s o s t e r m o s f o r e m i d é n t ic o s o u [2 ] s e o s a n t e c e d e n t e s d e A e
q u e s e B e F f o r e m c o n t r á r io s , B t e r á q u e s e r i d ê n t i c o a a l g u m
o s a t r ib u t o s q u e n ã o p o d e m s e a p l i c a r a E f o r e m id é n t ic o s , o u
20 H , c o m o q u e s e o b t é m o s i lo g i s m o . A c o n c l u s ã o é q u e a q u e l e s
a i n d a [ 3 ] s e o s a t r ib u t o s q u e n ã o p o d e m se a p lic a r a u m ou j
q u e e n c a r a m o p r o b l e m a d a m a n e i r a q u e a c a b o u d e s e r d e s c r it a
o u t r o f o r e m id é n t ic o s , p o r q u e t a is c o n d i ç õ e s n ã o g e r a m s ilo g is - '
e stã o p ro c u ra n d o g r a t u it a m e n t e p o r a l g u m o u tro m é to d o d e ­
30 m o a lg u m , pois [1 ] s e o s c o n s e q ü e n t e s , a s a b e r , B e F , f o r e m *
m o n s t r a t iv o q u e n ã o é o q u e n e c e s s it a m , a o n e g li g e n c ia r e m a
i d ê n t ic o s , o b t e r e m o s a t e r c e ir a f ig u r a c o m a m b a s a s p r e m is s a s
id e n t id a d e e n t r e o s B s e o s H s .
a f i r m a t iv a s ; [2 ] s e o s a n t e c e d e n t e s d e A e o s a t r ib u t o s q u e n ã o
podem s e a p lic a r a E , a s a b e r , C e H r e s p e c t iv a m e n t e , f o r e m
i d ê n t ic o s , o b t e r e m o s a p r im e ir a f ig u r a c o m u m a p r e m i s s a m e n o r
n e g a t i v a e [3 ] s e o s a t r ib u t o s q u e n ã o p o d e m s e a p l i c a r a u m o u
35 o u t r o d o s t e r m o s A e E , a s a b e r , D e H , f o r e m id ê n t ic o s , a m b a s
XXIX
a s p r e m is s a s s e r ã o n e g a t iv a s , o u n a p r im e ir a o u n a f i g u r a m e d i ­ O s s ilo g is m o s q u e e m p r e g a m a reductio ad impossibile são
a n a . N e s t a s c ir c u n s t â n c ia s , s ilo g is m o a lg u m é p o s s ív e l. r e g u la d o s p e la s m e s m a s c o n d i ç õ e s d o s o s t e n s i v o s , u m a v e z q u e
e le s t a m b é m s ã o p r o d u z i d o s p o r m e i o d o s c o n s e q ü e n t e s e a n t e -
O u t r o p o n t o q u e s e e v id e n c ia é q u e p r e c is a m o s a p re e n d e r
25 c e d e n te s d o s d o is te rm o s e x tre m o s . T a m b é m o m é to d o d e in ­
q u a i s t e r m o s e n t r e a q u e le s q u e e x a m i n a m o s s ã o id ê n t ic o s e n ã o
v e s t i g a ç ã o é i d ê n t ic o n o » d o i s t ip o s , p o i s a q u i l o q u e é d e m o n s ­
o s q u e s ã o d if e r e n t e s o u c o n t r á r io s , primeiro p o r q u e o o b je to d e
45al n o s s a in v e s t i g a ç ã o é d e s c o b r ir o t e r m o m é d i o , e e s t e t e m q u e s e r
t r a d o o s t e n s i v a m e n t e p o d e s e r e s t a b e le c id o per impossibile por

t o m a d o c o m o i d ê n t ic o e m c a d a p r e m is s a e n ã o c o m o a l g u m a
m e io d o s m e s m o s te rm o s e vice-versa; p o r e x e m p lo , q u e A n ã o
s e a p l i c a a n e n h u m E . P o i s s u p o n h a m o s q u e s e a p l i c a a a lg u m
c o i s a d if e r e n t e ; segundo [ p o r q u e ] m e s m o o s e x e m p l o s n o s q u a is
[ E ] , E n t ã o u m a v e z q u e B s e a p lic a a t o d o A e A a a lg u m E , B s e
a c o n t e c e d e u m s ilo g is m o r e s u lt a r d o a s s u m ir a t r ib u t o s q u e s ã o
c o n t r á r io s o u q u e n ã o p o d e m s e a p l i c a r a u m s u j e i t o id ê n t ic o ,
30 a p lic a r á a a lg u m E . M a s , ex hypothesi, e le n ã o s e a p l i c a a n e ­
n h u m . T a m b é m p o d e s e r d e m o n s t r a d o q u e A s e a p lic a a a lg u m
s e r ã o t o d o s r e d u z ív e is a o s t ip o s q u e j á d e s c r e v e m o s ; p o r e x e m ­
E , p o i s s e e le n ã o s e a p l i c a r a n e n h u m , e E s e a p l i c a r a t o d o G ,
p l o , s e B e F f o r e m c o n t r á r io s o u n ã o p u d e r e m s e a p l i c a r a u m
5 s u j e i t o id ê n t ic o . S e t o m a r m o s e s s e s t e r m o s , h a v e r á u m s il o g i s m o
A n ã o s e a p lic a r á a n e n h u m G . M a s , ex hypothesi, e le s e a p l i c a
a t o d o . D e m a n e i r a a n á l o g a c o m t o d a s a s d e m a i s p r o p o s iç õ e s . A
p o r fo r ç a d e A n ã o se a p lic a r a n e n h u m E , m a s a c o n c lu s ã o s e r á
d e m o n s t r a ç ã o p o r a b s u r d o ( per impossibile) s e r á s e m p r e p o s s í-
e x t r a í d a n ã o d o s t e r m o s t a l c o m o s e a p r e s e n t a m , m a s d o t ip o

197. Em 44a11 e seguintes.


196. Em 27a18, b23. 198. Isto foi suposto em 44a16.
1 7 6 - E d ip r o ________________________________________________A r i s t ó t e l e s - Ó r g a n o n Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 7 7

35 v e l e m t o d o s o s c a s o s p o r m e io d o s c o n s e q ü e n t e s e a n t e c e d e n ­ T o d o t ip o d e p r o p o s i ç ã o , p o r t a n t o , é d e m o n s t r á v e l d a f o r m a
te s d o s te rm o s e x tre m o s . d e s c r it a n a s li n h a s a n t e r io r e s ; a l g u m a s , e n t r e t a n t o , p o d e m ser
A l é m d is s o , e m t o d o p r o b le m a o p r o c e d im e n t o é o m e s m o , e s t a b e le c id a s s ilo g ís t ic a m e n t e t a m b é m d e u m a o u t r a f o r m a . U m
q u e r s e r e q u e ir a o e m p r e g o d e u m s ilo g is m o o s t e n s i v o o u reduc­ e x e m p lo d is s o é o d a s p r o p o s iç õ e s u n iv e r s a is , q u e p o d e m ser
tio ad impossibile, u m a v e z q u e a m b a s a s d e m o n stra çõ e s são d e m o n stra d a s p e lo m é to d o in v e s t ig a t iv o e s p e c íf ic o que b usca
p r o d u z i d a s p o r m e i o d o s m e s m o s t e r m o s . P o r e x e m p lo , s u p o n ­ u m a c o n c lu s ã o p a r t ic u la r c o r r e s p o n d e n t e r e c o r r e n d o a u m a h i p ó ­
d o q u e s e t e n h a d e m o n s t r a d o q u e A n ã o se a p lic a a n e n h u m E , t e s e c o m p le m e n t a r . S u p o n d o q u e C e G s ã o id ê n t ic o s e E s e a p l i -
40 p o r q u e [s e A s e a p lic a s s e a a lg u m ] s e c o n c l u i r i a q u e B t a m b é m 25 c a s o m e n t e a G , A s e a p li c a r á a t o d o E ; e t a m b é m : s u p o n d o q u e
s e a p l i c a r i a a a l g u m E , o q u e é im p o s s ív e l; e s e a d m i t i r m o s q u e D e G s ã o id ê n t ic o s e E é p r e d i c a d o s o m e n t e d e G , s e g u e - s e q u e
B n ã o s e a p l i c a a n e n h u m E , m a s s e a p l i c a a t o d o A , s e r á e v i- A n ã o s e a p li c a r á a n e n h u m E . E v i d e n c i a - s e , a s s im , q u e t e m o s
45bl d e n t e q u e A n ã o s e a p l i c a r á a n e n h u m E . P o r o u t r o la d o , s e a q u e in c lu ir e s s e m é t o d o ig u a lm e n t e n o e x a m e d o p r o b le m a .
c o n c l u s ã o d e q u e A n ã o s e a p l i c a a n e n h u m E t iv e r s i d o a l c a n ­ O m e s m o m é t o d o é a p l i c á v e l t a m b é m a o s s i l o g i s m o s a p o d ít i-
ç a d a o s te n s iv a m e n t e , se s u p o r m o s q u e A s e a p lic a a a lg u m E, c o s e p r o b le m á t ic o s , u m a v e z q u e o p r o c e s s o d e i n v e s t ig a ç ã o é
p o d e re m o s d e m o n stra r p o r re d u ç ã o ao a b su rd o ( reductio ad 30 i d ê n t ic o e o s s il o g is m o s s e r ã o p r o d u z i d o s m e d i a n t e o m e s m o
impossibile) q u e n ã o se a p lic a a n e n h u m . E a n á lo g o e m to d o s a r r a n jo o u o r d e m d o s te rm o s , q u e r se d e m o n s tr e u m a p r o p o s i­
o s o u t r o s e x e m p lo s , u m a v e z q u e e m t o d o s o s c a s o s t e m o s q u e ç ã o p r o b le m á t i c a o u u m a a s s e r t ó r ic a . N o q u e r e s p e i t a à s p r o p o ­
5 t o m a r a l g u m t e r m o c o m u m ( d is t in t o d a q u e l e s q u e f o r a m f o r m u ­ s iç õ e s p r o b le m á t i c a s , c o n t u d o , é f o r ç o s o q u e in c l u a m o s a q u e l e s
la d o s ) , a o q u a l s e r e f e r ir á o s ilo g is m o q u e d e m o n s t r a a f a ls a t e r m o s q u e , e m b o r a r e a lm e n t e n ã o s e a p l i q u e m , p o d e r i a m s e r
c o n c lu s ã o , d e s o rte q u e q u a n d o e s s a p r e m is s a f o r c o n v e r t id a a p l i c á v e i s , v is t o q u e f o i m o s t r a d o q u e o s i l o g i s m o p r o b l e m á t ic o
( p e r m a n e c e n d o a o u t r a in a lt e r a d a ) , o s il o g i s m o s e t o r n a r á o s t e n ­ t a m b é m é p r o d u z i d o p o r m e i o d e l e s .200 O m e s m o p r i n c í p i o s e r á
s i v o p o r m e i o d o s m e s m o s t e r m o s , is t o p o r q u e a d if e r e n ç a e n t r e 35 v á lid o n o s d e m a is m o d o s d e p r e d ic a ç ã o .
a d e m o n s t r a ç ã o o s te n s iv a e a d e m o n s t r a ç ã o p o r a b s u r d o (p e r
R e s s a lt a , a s s i m , c o m b a s e n a a n á li s e p r e c e d e n t e , n ã o s ó q u e
impossibile) e stá n o f a t o d e n a p r im e ir a a m b a s a s p r e m is s a s
to d o s os s i lo g i s m o s podem s e r p r o d u z id o s u t iliz a n d o - s e e sse
10 se re m s u p o s t a s c o m o v e r d a d e ir a s , e n q u a n t o n a s e g u n d a u m a
m é t o d o , c o m o t a m b é m q u e n ã o p o d e m s e r p r o d u z id o s p o r n e ­
d e l a s é s u p o s t a c o m o f a ls a .
n h u m o u t r o , u m a v e z q u e f o i d e m o n s t r a d o q u e t o d o s i lo g i s m o é
E s t e s p o n t o s s e m o s t r a r ã o m a is n ít id o s à lu z d a s o b s e r v a ç õ e s c o n s t r u íd o p o r m e i o d e u m a d a s f ig u r a s j á d e s c r it a s e e s t a s n ã o
s u b s e q ü e n te s , p o r o c a s iã o d e n o s s a a b o r d a g e m d a d e m o n s t r a ­ 40 p o d e m s e r c o m p o s t a s d e ' o u t r a f o r m a , e x c e t o m e d ia n t e o s c o n ­
ção p o r red u ção ao a b su rd o ( reductio ad impossibile).199 De s e q ü e n t e s e a n t e c e d e n t e s d o s t e r m o s e m c a d a c a s o p a r t ic u l a r ,
m o m e n t o , t e n h a m o s is s o c o m o e v id e n t e , o u s e j a , q u e t e m o s q u e v is t o s e r a p a r t ir d e s t e s q u e a s p r e m is s a s s ã o f o r m a d a s e o t e r m o
15 a t e n t a r p a r a o s m e s m o s t e r m o s , q u e r s e r e q u e ir a d e m o n s t r a r 46al m é d io é d e s c o b e r t o . C o n s e q ü e n t e m e n t e , u m s ilo g is m o n ã o p o ­
u m a c o n c lu s ã o o s te n s iv a m e n te o u e m p r e g a r a reductio ad im­ d e s e r p r o d u z id o p o r q u a is q u e r o u t r o s t e rm o s s e n ã o e ste s.
possibile. C o n t u d o , n o t o c a n t e a o u t r o s s ilo g is m o s h ip o t é t ic o s -
d i g a m o s , a q u e le s q u e e n v o lv e m s u b s t it u iç ã o ou u m a r e la ç ã o
q u a l i t a t i v a - a in v e s t i g a ç ã o s e v o l t a r á n ã o p a r a o s t e r m o s o r i g i ­ XXX
n a lm e n t e s u p o s t o s , m a s p a r a a q u e le s d a s u b s t it u iç ã o , a o p a s s o O m é to d o , e n tã o , é o m e sm o e m to d o s o s c a so s, n ã o só n a
q u e o m é t o d o in v e s t ig a t iv o s e r á o m e s m o d e a n t e s . F a z - s e , c o n - f ilo s o f ia c o m o t a m b é m e m t o d o t ip o d e a r t e e e s t u d o .201 E p r e c i-
20 t u d o , m is t e r s u b m e t e r a e x a m e e a n á lis e o s d if e r e n t e s t ip o s d e
s i l o g i s m o s h ip o t é t ic o s .
200. Em 32b25 e seguintes.
201. η αυτη κα ι περι φιλοσοφίαν κα ι περι τέχνην οποιανουν κα ι μαθημα (ê autô kai
199. Livro II, Capítulo XIV. perì filosofian kai peri teerten opoianoün kai mathema).
1 7 8 - E d ip r o ________________________________________________A r i s t ó t e l e s - Ó r g a n q h W ΛαβΑΝΟΝ - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 179

5 so que busquemos os predicados e sujeitos de cada um dos 1 25 s id o o m it id o e m n o s s a in v e s t ig a ç ã o , e s t a r e m o s c a p a c it a d o s a


termos e nos abasteçam os com a maior quantidade possível 1 d e s c o b r ir e d e m o n s t r a r a p r o v a d e t u d o q u e a d m it a u m a p r o v a e
deles; em seguida, deveremos examiná-los por meio dos três 1 a e lu c id a r t u d o c u ja n a tu r e z a n ã o a d m ite p r o v a .
termos, refutando desta maneira, estabelecendo daquela. Quan- '
O q u e a c a b a m o s d e e x p o r c o n s t it u i u m a d e s c r i ç ã o a g r o s s o
do nosso propósito for a verdade, trabalhando a partir de termos 1 m o d o d a f o r m a n a q u a l a s p r e m is s a s d e v e m s e r s e l e c i o n a d a s .
que estejam ordenados para expressar uma relação verdadeira e
E x a m in a m o s e ste a ssu n to m in u c io s a m e n t e em n osso tra ta d o
quando necessitarmos silogismos dialéticos, trabalhando a partir
30 s o b r e d i a l é t i c a .205
de premissas plausíveis.

10 O s p r i n c í p i o s 202 d o s il o g i s m o f o r a m e n t ã o e x p o s t o s e m g e r a l,
n o q u e t a n g e a c o m o s ã o c o n s t it u íd o s e a c o m o d e v e m o s b u s c á -
XXXI
lo s , d e s o r t e a n ã o c o n s id e r a r t u d o q u e é d it o e m t o r n o d o s t e r ­ É f á c il p e r c e b e r q u e o p r o c e s s o d e d i v i s ã o p o r g ê n e r o s 206
m o s d o p r o b le m a , n e m c o n s id e r a r o s m e s m o s a t r ib u t o s , e s t e ja ­ c o n s t it u i u m a a m o s t r a m e n o r d o m é t o d o d e s c r it o n a s p á g i n a s
m o s n ó s e s t a b e le c e n d o o u r e f u t a n d o u m a p r o p o s i ç ã o , e s t e ja m o s a n t e r io r e s , v is t o q u e [t a l] d i v i s ã o é , p o r a s s im d iz e r , u m s i lo g i s m o
n ó s a e s t a b e le c e n d o n u m a a f ir m a t iv a u n iv e r s a l o u p a r t ic u la r o u frágil, u m a v e z q u e s o li c i t a o p o n t o c u j a d e m o n s t r a ç ã o s e r e q u e r
15 a r e f u t a n d o n u m a n e g a ç ã o u n iv e r s a l o u p a r t ic u la r . . . m a s c o n s i ­ e s e m p r e a t in g e u m a c o n c l u s ã o m a i s g e r a l d o q u e a r e q u e r id a .
u m n ú m e r o r e s t r it o d e a t r ib u t o s d e f in id o s . Também
d e ra n d o 35 Em p r im e ir o l u g a r , e s t e f a t o e s c a p o u a t o d o s o s r e p r e s e n t a n t e s
indicamos como proceder a uma seleção no tocante a cada coisa [e u s u á r io s ] d o m é t o d o e e le s t e n t a r a m c o n v e n c e r q u e é p o s s ív e l
que é, por exemplo, no que tange ao bem ou o conhecimento.203 r e a liz a r u m a d e m o n s t r a ç ã o d a s u b s t â n c ia e d a e s s ê n c ia . C o n s e ­
q ü e n te m e n te , não co m p re e n d e ra m qual c o n c lu s ã o s il o g í s t i c a
E n t r e t a n t o , a m a i o r i a d o s p r i n c í p i o s l ig a d o s a u m a c iê n c i a
p a r t i c u la r lh e s s ã o p e c u lia r e s . P o r t a n t o , c a b e à e x p e r i ê n c i a n o s p o d e s e r a l c a n ç a d a p e lo p r o c e s s o d e d i v i s ã o e , t a m p o u c o , c o m ­

t r a n s m it ir o s p r i n c í p i o s l i g a d o s a c a d a c i ê n c i a p a r t ic u la r . Q u e r o p r e e n d e r a m q u e a c o n c lu s ã o s ilo g ís t ic a é a lc a n ç á v e l d a m a n e ir a
q u e d e sc re v e m o s. N a d e m o n stra ç ã o e m q u e se re q u e r d e m o n s ­
d iz e r , p o r e x e m p lo , q u e cabe à e x p e r iê n c ia a s t r o n ô m ic a nos
t r a r s ilo g ís t i c a m e n t e 207 u m a p r o p o s i ç ã o a f i r m a t i v a , o t e r m o m é -
20 t r a n s m it ir o s p r in c í p i o s d a astronomia 204 p o i s fo i s o m e n te q u a n ­
46b 1 d io , p o r m e i o d o q u a l o s il o g is m o é p r o d u z i d o , t e m s e m p r e q u e
d o o s f e n ô m e n o s f o r a m p le n a m e n t e a p r e e n d i d o s q u e s e d e s c o ­
e s t a r s u b o r d i n a d o a o [ t e r m o ] m a i o r e n ã o s e r u n iv e r s a l n o s e n t i­
b r i r a m a s d e m o n s t r a ç õ e s d a a s t r o n o m ia ; e o m e s m o s e a p l i c a a
d o d e i n c lu í- l o . M a s o p r o c e s s o d e d i v i s ã o e x i g e o p r o c e d i m e n t o
q u a l q u e r o u t r a a r t e o u c iê n c ia . A s s i m , s e a p r e e n d e r m o s o s a t r i­
c o n t r á r io , p o s t o q u e t o m g o u n i v e r s a l c o m o t e r m o m é d io .
b u t o s d o o b j e t o e m q u e s t ã o , n o s c a p a c it a r e m o s d e im e d ia t o e
p r o n t a m e n t e a f o r m u la r s u a d e m o n s t r a ç ã o , p o i s s u p o n d o q u e P o r e x e m p lo , q u e A s e ja animal, B mortal, C imortal e D
n e n h u m d o s v e r d a d e i r o s a t r ib u t o s d o s o b j e t o s e n v o l v i d o s t e n h a 5 homem, c u ja d e f in iç ã o s e r e q u e r s e ja d e s c o b e r ta . E n t ã o o r e p r e ­
s e n ta n te d o p r o c e s s o d e d iv is ã o s u p õ e q u e t o d o a n im a l é o u
m o r t a l o u im o r t a l, is t o é , q u e t u d o q u e é A é o u B o u C . A s e ­
202. Α ι δ α ρχαι (ai d ’ archai), mas parece (a julgar pelas considerações imediatas) que g u i r , p r o s s e g u i n d o n o s e u p r o c e s s o d i v i s ó r i o , e le t o m a homem
Aristóteles se refere mais especificamente ou principalmente às premissas.
c o m o s e n d o u m a n i m a l , is t o é , e le s u p õ e q u e A s e j a p r e d i c a d o
203. Há uma diferença substancial aqui (trecho em itálico) entre o texto de Bekker e
d e D . T e r e m o s e n t ã o o s il o g is m o : “T o d o D s e r á o u B o u C ” , d e
aqueles de outros helenistas, como o de W. D. Ross, que não é apenas formal.
Mas é de caráter quantitativo e não qualitativo, pelo que optamos pelo texto inclu­ 10 m o d o q u e o h o m e m te m q u e s e r n e c e s s a ria m e n t e o u m o r t a l o u
sivo. A sentença de Bekker traduzida seria simplesmente: Temos que proceder a
uma seleção no tocante a cada coisa que é, por exemplo no que tange ao bem ou
o conhecimento.
204. αστρολσγικης επιστημης (astrologikôs epistemês), literalmente conhecimento astro­ 205. Ou seja, em Tópicos, Livro I, Capítulo XIV.
lógico. Os antigos gregos chamavam de astrologia (αστρολογία) aquilo que cha­ 206. Aristóteles se refere ao método platônico da dicotomia que aparece nos diálogos
mamos de astronomia, palavra também presente no vocabulário grego que signifi­ Político e Sofista, de Platão.
cava basicamente o mesmo que astrologia. 207. Ou seja, por dedução.
180 - E d ip r o A r is t ó t e le s - Ó rganon Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 8 1

im o r t a l. M a s q u e e le s e j a u m a n i m a l m o r t a l n ã o é u m a in f e r ê n c ia XXXII
n e c e s s á r ia - is t o é o s o lic it a d o e o p r ó p r io p o n t o q u e d e v i a te r
N a s e q ü ê n c i a t e m o s q u e e x p l i c a r c o m o r e d u z i r s i lo g i s m o s à s
s id o d e m o n stra d o s ilo g ís t ic a m e n t e . Em s e g u id a , to m a n d o A
47 a l f ig u r a s p r e v ia m e n t e d e s c r it a s , u m a v e z q u e e s t a p a r t e d e n o s s a
com o animal mortal, B c o m o com pés, C com o sem pés e D
in v e s t ig a ç ã o p e rm a n e ce [n ã o r e a liz a d a ] . Se e x a m in a r m o s os
15 com o homem, e le s u p õ e c o m o a n t e s q u e A e s tá in c lu íd o o u e m
m e i o s p e lo s q u a is s ã o p r o d u z i d o s o s s il o g is m o s , d e t iv e r m o s a
B ou em C ( u m a v e z q u e t o d o a n im a l m o rta l é o u c o m p é s o u
c a p a c i d a d e d e d e s c o b r i- l o s o u in v e n t á - l o s e p u d e r m o s t a m b é m
s e m p é s ) e q u e A é p r e d i c a d o d e D , v is t o q u e e le s u p ô s s e r h o ­
r e d u z ir o s s i lo g i s m o s , q u a n d o c o n s t r u íd o s , à s f ig u r a s p r e v i a m e n -
m e m u m a n i m a l m o r t a l. C o n s e q ü e n t e m e n t e , o h o m e m é n e c e s ­
5 t e d e s c r it a s , n o s s o p ro je t o o r i g i n a l e s t a r á r e a l iz a d o c o m p le t a ­
s a r ia m e n t e o u u m a n i m a l c o m p é s o u u m a n i m a l s e m p é s . M a s
m e n te . A o m e s m o t e m p o , n o s s a s a f i r m a ç õ e s a n t e r io r e s s e r ã o
n ã o é n e c e s s á r io q u e o h o m e m t e n h a p é s - is s o e le s u p õ e e , m a is
s u p le m e n t a r m e n t e r a t i f ic a d a s e su a e x a t id ã o a p a re ce rá co m
u m a v e z , é p r e c is a m e n t e is s o o q u e e le d e v i a t e r d e m o n s t r a d o
m a i o r c la r e z a p e l o q u e s e s e g u e - is t o p o r q u e t o d a v e r d a d e t e m
s ilo g ís t ic a m e n t e . P o s t o q u e [o s a d e p t o s d o p r o c e s s o d e d i v is ã o ]
q u e se r co e re n te e m si m e s m a e m to d o s o s s e u s a sp e c to s.
d i v i d e m i n v a r ia v e lm e n t e d e s s a m a n e ir a , c o n c lu i - s e q u e t o m a m o
20 t e r m o u n i v e r s a l c o m o o m é d io e o s u j e it o a s e r d e f i n i d o a s s o c i a ­ 10 P r im e ir a m e n t e , p o r t a n t o , é p r e c i s o q u e p r o c u r e m o s s e l e c i o ­

do à s d if e r e n ç a s c o m o o s t e r m o s e x t r e m o s . A f i n a l , q u e r p a r a n a r a s d u a s p r e m i s s a s d o s i l o g i s m o ( p o s t o q u e é m a i s f á c il a n a l i ­

d e f i n ir o q u e o h o m e m é , o u q u a lq u e r o u t r o s u j e i t o , m o s t r a m - s e s a r a s p a r t e s m a io r e s d o q u e a s m e n o r e s , e o s c o m p o s t o s s ã o

i n c a p a z e s d e e n u n c i a r q u a l q u e r a f ir m a ç ã o c l a r a c a p a z d e a s s e ­ m a io r e s d o q u e o s s e u s c o m p o n e n t e s ) e , e m s e g u i d a , e x a m i n a r

g u r a r a n e c e s s id a d e , p o r q u e s e g u e m o o u t r o m é t o d o c o m p l e t a - q u a l é u n i v e r s a l e q u a l p a r t ic u la r , s u p r i n d o n ó s m e s m o s a p r e ­

25 m e n t e , s e m s e q u e r s u s p e it a r e m q u e e x is t e m r e c u r s o s d i s p o n í v e i s m i s s a f a lt a n t e , c a s o t e n h a s i d o s u p o s t a s o m e n t e u m a , p o i s t a n t o

p a ra a d e m o n stra çã o . n o e sc re v e r q u a n to n o a rg u m e n ta r à s ve ze s a s p e sso a s, a o e n u n -
15 c ia r e m a p r e m is s a u n iv e r s a l, d e ix a m d e m e n c io n a r a p r e m is s a
F i c a e v id e n t e q u e m e d ia n t e e s s e m é t o d o é i m p o s s ív e l s e j a r e ­
n e la c o n t i d a , o u e n u n c i a m a s p r e m i s s a s im e d i a t a s , d e i x a n d o ,
f u t a r u m a p r o p o s i ç ã o , s e j a f a z e r u m a in f e r ê n c ia a c e r c a d e u m
c o n t u d o , d e m e n c i o n a r a s p r e m i s s a s d a s q u a i s e la s s ã o i n f e r id a s ,
a c id e n t e o u a c e r c a d e u m g ê n e r o o u e m c a s o s n o s q u a is u m a
a lé m d e s o l i c it a r e m d e s n e c e s s a r i a m e n t e a c o n c e s s ã o d e o u t r a s .
q u e s t ã o d e f a t o é in c e r t a ; p o r e x e m p lo , s e a d i a g o n a l d e u m
C u m p r e - n o s , e n t ã o , c o n s id e r a r s e a lg u m a c o is a d e s n e c e s s á r ia fo i
30 q u a d ra d o é i n c o m e n s u r á v e l r e la t iv a m e n t e aos la d o s , p o is se
s u p o s t a e se a lg u m a c o is a n e c e s s á r ia fo i o m it id a , p o s t u la n d o
a l g u é m s u p o r q u e t o d a g r a n d e z a l in e a r é o u c o m e n s u r á v e l o u
e s t a ú lt im a e a f a s t a n d o a p r i m e i r a a t é c h e g a r m o s à s d u a s p r e -
i n c o m e n s u r á v e l e q u e a d i a g o n a l é u m a g r a n d e z a lin e a r , a c o n ­
20 m is s a s , p o i s s e m e s t a s r t ã o p o d e m o s r e d u z ir a r g u m e n t o s q u e
c lu s ã o s e r á q u e a d ia g o n a l é o u c o m e n s u r á v e l o u in c o m e n s u r á ­
fo ra m s u g e r i d o s s o b a f o r m a d e s c r it a a n t e r io r m e n t e . A in a d e ­
v e l, e s e s u p o r q u e é in c o m e n s u r á v e l e s t a r á supondo o que de­
q u a ç ã o d e a lg u n s a r g u m e n t o s é b a s t a n t e c o n s p íc u a , m a s o u t r o s
v i a t e r s i d o d e m o n s t r a d o s ilo g ís t ic a m e n t e . C o m is s o a d e m o n s ­
e scap am à d e te cçã o e p a re ce m d e t e r u m a f o r ç a s il o g ís t i c a e m
t r a ç ã o s e t o r n a im p o s s ív e l, p o i s [ a f in a l] é e s t e o m é t o d o e , d e ­
v ir t u d e d e a l g u m a c o n c l u s ã o n e c e s s á r i a r e s u lt a r d o q u e f o i f o r -
p e n d e n d o d e le , n ã o h á d e m o n s t r a ç ã o . A c o r r e s p o n d e a comen- 25 m u l a d o ; p o r e x e m p lo , s e f o s s e s u p o s t o q u e a s u b s t â n c i a n ã o é
35 surável ou incomensurável, B a grandeza linear e C a diagonal.
d e s t r u íd a p e l a d e s t r u iç ã o d a n ã o - s u b s t â n c i a e q u e s e o s c o m p o ­
E v i d e n c i a - s e , a s s im , q u e e s s e m é t o d o in v e s t ig a t iv o n ã o s e a - n e n te s d e a lg u m a c o is a fo s s e m d e s t r u íd o s , o q u e d e le s f o s s e
ju s t a a t o d a in v e s t i g a ç ã o e q u e é in ú t il, m e s m o n o q u e t a n g e a o s c o m p o s t o t a m b é m p e r e c e r ia , p o i s s e p o s t u l á s s e m o s t a is h i p ó t e ­
c a s o s p a r a o s q u a i s s e s u p õ e q u e s e j a e s p e c ia lm e n t e a d e q u a d o . ses s e r ia n e c e s s a ria m e n t e c o n c lu s iv o que q u a lq u e r p a rte da
s u b s t â n c i a é s u b s t â n c i a , a i n d a q u e n ã o t e n h a s i d o d e d u z i d a 208
E v i d e n c i a - s e , ig u a lm e n t e , c o m b a s e n a a v a l i a ç ã o p r e c e d e n t e ,
p o r q u a is m e io s e d e q u e fo rm a s ã o a s d e m o n s t r a ç õ e s e fe t u a d a s p o r m e i o d a s h ip ó t e s e s . T r a t a - s e d e p r e m i s s a s d e f ic ie n t e s . A d e -

e q u a l t ip o d e a t r ib u t o s d e v e m s e r l e v a d o s e m c o n s i d e r a ç ã o a o
s e l id a r c o m c a d a t ip o d e p r o b le m a .
208. Isto é, demonstrado por silogismo.
1 8 2 -E D IP R O A r i s t ó t e le s - Ó rganon EDI p r o - 1 8 3
A r g a h o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L i v r o I

m a is, se é n e ce ssá rio q u e o a n im a l e xista caso o h o m e m e xista e ç ã o e m q u a l q u e r o c a s i ã o e s p e c í f i c a , m a s a p e n a s a f ig u r a q u e é


é n e ce ssá ria a e x is tê n c ia d a su b s tâ n c ia caso o a n im a l exista , a p r ó p r ia à p r o p o s iç ã o e m p a u t a . N o s c a s o s n o s q u a is a p r o p o s i­
30 s u b s tâ n c ia n e c e ssa ria m e n te e xiste caso o h o m e m exista . Mas ç ã o p o d e s e r d e m o n s t r a d a e m m a is d e u m a f ig u r a , id e n t i f ic a r e ­
esta conclusão ainda não é silogística209 p o rq u e as p re m issa s não m o s a f i g u r a p e l a p o s i ç ã o d o t e r m o m é d io .
o b e d e c e m às c o n d iç õ e s q u e in d ic a m o s .

S o m o s e n g a n a d o s n e s s e s e x e m p lo s p e lo f a t o d e a l g u m a c o i ­
XXXIII
s a n e c e s s a ria m e n t e s e c o n c lu ir d o q u e fo i f o r m u la d o p o r q u e o
s ilo g is m o é t a m b é m n e c e s s á rio . M a s necessário a p r e s e n t a um a 15 A s s im , o c o r re fre q ü e n te m e n te , c o m o já a s s e v e r a m o s , s e r m o s
e x t e n s ã o s ig n if ic a t iv a m a io r d o q u e silogismo, p o i s s e t o d o s ilo ­ i l u d i d o s n o n o s s o e x a m e d o s s il o g is m o s p e l a s e q ü ê n c i a d e u m a
g i s m o é n e c e s s á r i o , n e m t u d o q u e é n e c e s s á r i o é u m s ilo g is m o . c o n c lu s ã o n e c e s s á ria ; m a s ta m b é m s o m o s à s v e z e s ilu d id o s -
35 C o n s e q ü e n t e m e n t e , s e a l g u m a c o i s a r e s u lt a d e c e r t a s s u p o s i ­ fa to q u e n ã o d e v e p a s s a r d e s a p e r c e b id o - c o m o r e s u lt a d o d e
ç õ e s , n ã o n o s c a b e d e im e d ia t o t e n t a r r e d u z ir o a r g u m e n t o a u m u m a d i s p o s i ç ã o s e m e lh a n t e d o s t e r m o s ; p o r e x e m p l o , s e A é
s i l o g i s m o .210 D e v e m o s , p r im e ir a m e n t e , a p r e e n d e r a s d u a s p r e ­ p r e d i c a d o d e B e B d e C , u m a v e z q u e p a r e c e r ia q u e c o m e s t a
m is s a s , p r o c e d e r a s s im à a n á lis e d e s e u s t e r m o s e p o s t u la r c o m o 20 r e l a ç ã o d e t e r m o s h a v e r i a u m s il o g is m o , a d e s p e it o d e n ã o r e s u l ­
t e r m o m é d io o q u e é e n u n c i a d o e m a m b a s a s p r e m i s s a s ,211 p o is ta r n e n h u m a c o n s e q ü ê n c ia ou s ilo g is m o n e c e s s á r io s . Que A
e m t o d a s a s f ig u r a s o t e r m o m é d io t e m q u e e s t a r p r e s e n t e e m co rre sp o n d a a “ e x is t ir s e m p r e ” , B a “A r i s t ó m e n e s c o m o um
47bl a m b a s a s p r e m is s a s . A s s i m , s e o t e r m o m é d io t a n t o é q u a n t o o b j e t o d o p e n s a m e n t o ” e C a “A r i s t ó m e n e s ” . S e r ã o , e n t ã o , e x a ­
p o s s u i u m p r e d i c a d o , o u é e le p r ó p r io u m p r e d i c a d o e t e m a lg o to q u e A s e a p lic a a B p o r q u e A r is t ó m e n e s c o m o u m o b je to d o
m a i s d e le n e g a d o , t e r e m o s a p r im e ir a f ig u r a ; s e e le é a o m e s m o p e n s a m e n t o e x is t e s e m p r e . M a s B s e a p l i c a t a m b é m a C p o r q u e
t e m p o a f i r m a d o e n e g a d o d e a lg u m s u j e it o , t e r e m o s a f ig u r a 25 A r is t ó m e n e s é A r is t ó m e n e s c o m o u m o b j e t o d o p e n s a m e n t o . E ,
m e d i a n a , e s e o u t r o s t e r m o s s ã o d e le a f ir m a d o s o u s e u m t e r m o t o d a v ia , A n ã o se a p lic a a C p o r q u e A r i s t ó m e n e s é p e r e c ív e l .
é n e g a d o e o o u t r o a f ir m a d o d e le , t e r e m o s a ú lt im a f ig u r a , p o is N e n h u m s i l o g i s m o é p r o d u z i d o , c o m o v i m o s ,213 a t r a v é s d a c o m ­
5 v i m o s q u e o t e r m o m é d io s e a p r e s e n t a n e s s a s r e l a ç õ e s n a s v á ­ b in a ç ã o d o s te rm o s a c im a - p a r a p r o d u z i- l o , a p r e m i s s a A B
r i a s f i g u r a s .212 O m e s m o o c o r r e t a m b é m q u a n d o a s p r e m is s a s d e v i a t e r s id o t o m a d a u n i v e r s a lm e n t e . M a s é f a ls o p o s t u la r q u e
n ã o s ã o u n iv e r s a is , u m a v e z q u e a d e f in iç ã o d o t e r m o m é d i o é a todo A r is t ó m e n e s c o m o u m o b je t o d o p e n s a m e n t o e x is t e s e m -
m e s m a d e a n t e s . A s s i m , f ic a e v id e n t e q u e , s e e m q u a l q u e r a r ­ 30 p r e , p o s t o q u e A r is t ó m e n e s é p e r e c ív e l.
g u m e n t o o m e s m o t e r m o n ã o f o r e n u n c i a d o m a is d o q u e u m a A g o r a , q u e C c o r r e s p o n d a a “ M í c a l o ” , B a “ M ú s ic o M í c a lo 214
v e z , n ã o h a v e r á s ilo g is m o , d a d a a f a lt a d e t e r m o m é d io . E v is t o e A a “p e r e c e r a m a n h ã ” . E n t ã o s e r á e x a t o p r e d ic a r B d e C p o r ­
10 q u e a g o r a d is p o m o s d a c o m p r e e n s ã o d e q u e t ip o d e p r o p o s i ç ã o q u e M íc a lo é o M í c a lo m ú s ic o . M a s t a m b é m s e r á e x a t o p r e d i c a r
é d e m o n s t r a d o e m c a d a f ig u r a ( o u s e j a , e m q u a l f i g u r a a p r o p o ­ A d e B , u m a v e z q u e o m ú s i c o M í c a lo p o d e p e r e c e r a m a n h ã .215
s i ç ã o u n iv e r s a l é d e m o n s t r a d a e e m q u a l o é a p a r t ic u la r ) , f ic a
e v i d e n t e q u e n ã o d e v e m o s l e v a r t o d a s a s f ig u r a s e m c o n s i d e r a ­

213. Em 26a30.
209. Ou ...este argumento ainda não é um silogismo. 214. Ou instruído Mícalo [ h o u c r k o ç M ik k c x X o ç ].

210. Vale dizer: o espectro semântico do argumento ou raciocínio é muito mais amplo 215. O helenista Hugh Tredennick pensa que o exemplo de Aristóteles aqui é falho,
do que aquele do silogismo; se todo silogismo é um raciocínio (é fundamental­ visto que Mícalo sem qualquer qualificação é um termo mais lato do que Mícalo
mente um raciocínio por dedução), nem todo raciocínio é um silogismo, mesmo com qualificação, ou seja, músico Mícalo, que assim não poderia figurar como
imperfeito. médio. Sua sugestão e solução para preservar o exemplo do Estagirita é enten­
der não que “o músico Mícalo pode perecer amanha”, mas que “o músico Mícalo
211. Exemplo: Todo homem tem duas pernas. (premissa maior) I Sócrates é homem.
pode deixar de ser músico amanhã”. Outra solução seria simplesmente interpretar
(premissa menor) / Sócrates tem duas pernas. (conclusão) / Obs.: O termo médio
a forma de expressão desta sentença de Aristóteles como figura de linguagem: o
é homem.
músico Mícalo (ou seja, Mícalo enquanto músico) pode perecer (deixar de existir
212. Em 25b35, 26b36, 28a12. como músico) amanhã.
Ó r g a n o n —A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 8 5
1 8 4 - E d ip r o A r is tó te le s - Organon

d o e n ç a , c o n h e c im e n t o e i g n o r â n c i a e , e m g e r a l , q u a l q u e r p a r d e
M a s é f a ls o p r e d ic a r A d e C , e a s s im e s t e c a s o é i d è n t ic o a o
c o n t r á r io s podem a p li c a r - s e a o m e s m o o b j e t o , m a s é impossível
35 a n t e r io r p o r q u e n ã o é u n iv e r s a lm e n t e v e r d a d e i r o n o q u e t a n g e
20 q u e s e a p l i q u e m e n t r e s i. M a s is s o é in c o e r e n t e c o m o q u e d i s ­
a o m ú s i c o M íc a lo q u e e le p e r e c e a m a n h ã , e a m e n o s q u e is s o
s e m o s a n t e r i o r m e n t e ,218 p o i s f o i f o r m u l a d o q u e q u a n d o d i v e r s a s
s e j a s u p o s t o n ã o h á , c o m o v i m o s ,216 n e n h u m s ilo g is m o .
c o is a s p o d e m s e a p lic a r a u m a m e s m a c o is a , t a m b é m p o d e m s e
A o r ig e m d e s t e e r r o r e s id e , a s s im , n a i g n o r â n c i a d e u m a l i ­ a p lic a r u m a s à s o u tra s .
g e i r a d is t in ç ã o , p o i s d a m o s a s s e n t im e n t o [à c o n c lu s ã o ] d o a r ­
A s s i m , f i c a e v id e n t e q u e , e m t o d o s e s s e s c a s o s o e r r o n a s c e
g u m e n t o , c o m o s e n ã o h o u v e s s e d if e r e n ç a e n t r e o s j u í z o s “ Is s o
d e c o m o s e e x p õ e m o s t e r m o s , p o i s u m a v e z s u b s t i t u í d o s p e lo s
s e a p lic a à q u ilo ” e “Is s o se a p lic a a tu d o d a q u ilo ” .
25 e s t a d o s o s o b j e t o s q u e lh e s s ã o c o r r e s p o n d e n t e s , n e n h u m e r r o
s u r g e . C la r o e s tá q u e , n o q u e t o c a a p r e m is s a s c o m o e s ta s , d e ­
v e m o s s e m p r e s u b s t it u ir p o r u m d a d o e s t a d o o o b je to q u e s e
XXXIV a c h a n e s s e e s t a d o e p o s t u la r e s t e c o m o n o s s o t e r m o .
48al O co rre rá , c o n tu d o , fre q ü e n te m e n te de se rm o s enganados
c o m p le t a m e n t e p o r d e ix a r m o s d e e x p o r c o r r e ta m e n te o s te rm o s
XXXV
n a p r e m is s a ; p o r e x e m p lo , s u p o n d o q u e A s e j a saúde, B doença
e C homem, p o i s é e x a t o d iz e r q u e A n ã o p o d e s e a p l i c a r a n e ­ N e m s e m p r e c o n v é m p r o c u r a r e x p o r o s t e r m o s p o r n o m e 219
n h u m B (u m a v e z q u e a s a ú d e n ã o se a p lic a a n e n h u m a d o e n - p o rq u e te re m o s c o m f r e q ü ê n c ia e x p r e s s õ e s p a r a a s q u a i s n ã o
5 ç a ) e q u e B se a p lic a a to d o C (u m a v e z q u e to d o h o m e m é 30 e x is t e u m n o m e r e c o n h e c i d o . ( O r e s u lt a d o é s e r d i f í c i l r e d u z ir
s u s c e t ív e l d e d o e n ç a ) . A s s i m , p a r e c e r ia c o n c lu i r - s e q u e a s a ú d e s ilo g is m o s d e ste t ip o ) . A lg u m a s ve ze s a co n te ce rá de se rm o s
n ã o p o d e s e a p lic a r a n e n h u m hom em . A r a z ã o d is s o é n ã o r e a lm e n t e i l u d i d o s p o r f o r ç a d e u m a t a l t e n t a t iv a , p o r e x e m p lo ,
e s t a r e m o s t e r m o s c o r r e t a m e n t e e x p r e s s o s n a p r o p o s i ç ã o , v is t o a o s u p o r q u e p o d e h a v e r u m s il o g i s m o e n v o l v e n d o p r o p o s i ç õ e s
q u e , s e s u b s t it u ir m o s p e lo s r e s p e c t iv o s e s t a d o s o s o b j e t o s q u e q u e c a r e c e m d e t e r m o m é d io . S u p o n h a m o s q u e A c o r r e s p o n d a
10 lh e s s ã o c o r r e s p o n d e n t e s , n ã o h a v e r á s il o g i s m o - q u e r o d iz e r , a “d o is â n g u lo s r e t o s ” , B a “t r iâ n g u lo ” e C a “ i s ó s c e le s ” . E n t ã o
s u p o n d o q u e “ o s s a u d á v e i s ” f o r p o s t u la d o e m l u g a r d e “ s a ú d e ” 35 A s e a p lic a a C p o r c a u s a d e B , m a s n ã o é d e v id o a q u a lq u e r
e “o s d o e n te s” e m lu g a r d e “ d o e n ç a ” , p o i s n ã o é v e r d a d e i r o o u t r o t e r m o q u e A s e a p l i c a a B , u m a v e z q u e o t r iâ n g u l o p o r s i
d iz e r q u e e s t a r s a u d á v e l n ã o p o d e a p lic a r - s e e m t e m p o a lg u m m esm o c o n té m d o is â n g u lo s re to s , d e s o rte q u e não h a v e rá
a o s d o e n t e s ; m a s s e is s o n ã o f o r s u p o s t o , n ã o r e s u lt a r á n e n h u m n e n h u m t e r m o m é d io d a p r o p o s i ç ã o A B , e m b o r a e s t a s e j a d e ­
s i l o g i s m o , s a l v o o d o t ip o p r o b le m á t ic o . E s t e n ã o é i m p o s s ív e l m o n strá v e l - is t o p o r q u e é e v i d e n t e q u e o t e r m o m é d i o n e m

u m a v e z q u e é p o s s ív e l q u e a s a ú d e n ã o s e a p liq u e a n e n h u m s e m p r e d e v e s e r t o m a d o c o m o u m a c o is a in d iv id u a l, d e v e n d o

15 hom em . p o r v e z e s s e r t o m a d o c o m o u m a lo c u ç ã o c o m p o s ta , c o m o o c o r ­
re n o e x e m p lo q u e a c a b a m o s d e m e n c io n a r .
M a is u m a v e z , n a f i g u r a m e d i a n a a f a ls id a d e o co rre rá d e
u m a f o r m a s e m e lh a n t e : a s a ú d e n ã o p o d e s e a p l i c a r a n e n h u m a
d o e n ç a , m a s p o d e s e a p lic a r a to d o h o m e m ; c o n s e q ü e n t e m e n t e ,
XXXVI
a doença não se aplica a nenhum homem.211 N a t e r c e ir a f ig u r a ,
e n t r e t a n t o , o e r r o r e s u lt a a f e t a n d o a c o n t i n g ê n c i a , p o i s s a ú d e e 40 N ã o d e v e m o s s u p o r q u e o p r im e ir o t e r m o s e a p l i c a a o m é d i o
e e s t e a o e x t r e m o 220 n o s e n t id o d e q u e s e r ã o s e m p r e p r e d i c a d o s

216. Em 26a30.
217. Ou ...a doença não pode aplicar-se a nenhum homem... em função da alternância 218. Ver 39a14-19.
VOCTOV (noson) / voaoç (nosos) suscitada por certos helenistas a fim de evitar a 219. Ou seja, mediante palavras simples e não complexas.
incoerência desta passagem com princípios doutrinários expostos por Aristóteles 220. Entenda-se o menor.
anteriormente em 38a13 e seguintes. O texto de Bekker registra noson (voaov).
1 8 6 - E d i p r o ________________________________________________A r is t ó t e l e s - Ó r g a n o n Ó r g a n o n —A n a l ít ic o s A n t e r io r e s - L iv r o l E d ip r o - 1 8 7

48bl u n s d o s o u t r o s o u q u e o p r im e ir o t e r m o d o m é d i o d a m e s m a o u e n t ã o “ H á u m i n d í c i o d e r is o , m a s n ã o h á n e n h u m i n d í c i o d e
m a n e i r a q u e o m é d io é p r e d ic a d o d o ú lt im o ( c a u t e la q u e v a le u m i n d í c i o e , p o r t a n t o , o r is o n ã o é u m i n d í c i o ” . A n a l o g a m e n t e
ta m b é m p a ra a p r e d ic a ç ã o n e g a t iv a ) . D e v e m o s su p o r q u e a t a m b é m p a r a t o d o s o s d e m a is c a s o s n o s q u a i s a p r o p o s i ç ã o é
e x p r e s s ã o “ a p l i c a r - s e ” t e m t a n t o s s e n t id o s d if e r e n t e s q u a n t o h á 35 r e fu t a d a p e la e n u n c ia ç ã o d o g ê n e r o n u m a c e rta r e la ç ã o c o m o s
s e n t i d o s n o s q u a i s d iz e m o s q u e u m a c o i s a é o u q u e é v e r d a d e ir o t e rm o s d a p r o p o s iç ã o . A d e m a is , h á o a rg u m e n to de que “A
5 d i z e r q u e e la é . T o m e - s e , p o r e x e m p lo , a p r o p o s i ç ã o d e q u e h á o c a s iã o n ã o é o m o m e n t o c e rto , u m a v e z q u e a o c a s iã o p e r t e n ­
u m a ú n i c a c i ê n c i a d o s c o n t r á r io s . Q u e A c o r r e s p o n d a a “ h á u m a ce a D e u s , m a s o m o m e n to ce rto n ã o , já q u e n a d a é ú t il a
ú n i c a c i ê n c i a ” e B a “ c o i s a s c o n t r á r ia s e n t r e s i ” . E n t ã o A s e a p l i ­ D e u s ” . D e v e m o s p o s t u la r c o m o te rm o s ocasião, momento certo
c a a B n ã o n o s e n t id o d e q u e o s c o n t r á r io s s e j a m p o r s i m e s m o s e Deus, m a s a p r e m is s a d e v e s e r e n t e n d id a d e a c o r d o c o m o
u m a ú n i c a c iê n c ia , m a s n o s e n t id o d e q u e é v e r d a d e i r o a f ir m a r c a s o d o n o m e ,222 p o i s m a n t e m o s , a t ít u l o d e r e g r a g e r a l - a q u a l
q u e d e le s h á u m a c i ê n c i a ú n ic a . s e a p l i c a s e m e x c e ç ã o a t o d o s o s e x e m p lo s - q u e e n q u a n to o s
10 A c o n t e c e p o r v e z e s d o p r im e ir o t e r m o s e r a f i r m a d o d o m é ­ 49a 1 t e r m o s tê m s e m p r e q u e s e r p o s t u la d o s n o c a s o n o m in a t iv o (p o r
d i o , m a s e s t e n ã o é a f ir m a d o d o t e r c e ir o t e r m o ; p o r e x e m p l o , s e e x e m p lo , homem o u bem o u contrários, e n ã o do homem o u do
a s a b e d o r i a é c o n h e c im e n t o e a s a b e d o r i a c o n c e r n e a o b e m , a bem ou dos contrários), a s p r e m i s s a s d e v e m s e r e n t e n d id a s d e
c o n c lu s ã o é q u e o c o n h e c im e n t o c o n c e r n e a o b e m . E n t ã o o a c o r d o c o m o c a s o d e c a d a t e r m o , s e j a n o d a t i v o ( p o r e x e m p lo ,
15 b e m n ã o é c o n h e c im e n t o , a i n d a q u e a s a b e d o r i a s e j a c o n h e c i ­ igual a isto), dobro disto), s e j a
s e j a n o g e n i t iv o ( p o r e x e m p l o , o
m e n t o . P o r v e z e s , o t e r m o m é d io é a f ir m a d o d o t e r c e ir o , m a s o n o a c u s a t i v o ( p o r e x e m p lo , o que fere ou vê isto), s e j a n o n o m i ­
p r im e ir o n ã o é a f ir m a d o d o m é d io ; p o r e x e m p lo , s e h á u m a n a t i v o ( p o r e x e m p lo , o homem é um animal), s e j a e m q u a l q u e r
c i ê n c i a d e t u d o q u e p o s s u i q u a l i d a d e o u é u m c o n t r á r io e o b e m 5 o u t r a f o r m a n a q u a l o n o m e o c o r r e n a p r e m is s a .
é t a n t o u m c o n t r á r io q u a n t o u m a q u a l i d a d e , a c o n c l u s ã o é q u e
h á u m a c iê n c ia d o b e m ; m a s o b e m n ã o é c iê n c ia , n e m o s ã o ,
XXXVII
t a m p o u c o , a q u a l i d a d e o u o c o n t r á r io , a i n d a q u e o b e m s e ja
20 u m a q u a l i d a d e e u m c o n t r á r io . P o r v e z e s n e m o p r im e ir o t e r m o A s ju íz o s d e q u e isto s e a p lic a àquilo e de que isto é v e r d a d e i­
é a f i r m a d o d o m é d i o n e m o m é d io d o t e r c e ir o , a o p a s s o q u e o ro daquilo t ê m q u e s e r e n t e n d i d o s e m t a n t o s d if e r e n t e s s e n t i d o s
p r i m e ir o é à s v e z e s a f i r m a d o d o t e r c e ir o e à s v e z e s n ã o - por q u a n t a s s e j a m a s d is t in t a s c a t e g o r i a s , t e n d o e s t a s q u e s e r t o m a ­
e x e m p lo , s e h á u m g ê n e r o d a q u ilo d e q u e h á u m a c iê n c ia e d a s o u n u m s e n t id o p a r t i c u l a r [ q u a li f ic a d o ] , o u n u m s e n t i d o s e m
u m a c iê n c ia d o b e m , a c o n c lu s ã o é q u e h á u m g ê n e r o d o b e m . q u a lif ic a ç ã o , b e m c o m o s e r t o m a d a s q u e r c o m o s im p l e s , q u e r
E, n ã o o b s ta n te , n a d a s e p r e d ic a d e n a d a . M a s s e a q u ilo d e q u e c o m o c o m p o s t a s . A n a lo g a m e n t e , t a m b é m , n o q u e se re fe re à
25 h á u m a c iê n c ia é u m g ê n e r o e se h á u m a c iê n c ia d o b e m , a p r e d ic a ç ã o n e g a t iv a . E ste s p o n to s, c o n tu d o , re q u e re m m a io r
c o n c l u s ã o é q u e o b e m é u m g ê n e r o . A s s i m , o p r im e ir o [ t e r m o ] 10 e x a m e e u m a a n á l is e m a is a d e q u a d a .
é p r e d i c a d o d o t e r m o e x t r e m o ,221 m a s o s t e r m o s n ã o s ã o p r e d i ­
c a d o s u n s d o s o u t r o s n a s p r e m is s a s .
XXXVIII
E n t e n d a - s e q u e o m e s m o v a l e p a r a a p r e d i c a ç ã o n e g a t iv a ,
Q u a l q u e r t e r m o q u e e s t e ja d u p l i c a d o n a s p r e m i s s a s d e v e s e r
30 u m a v e z q u e “ Is t o n ã o s e a p l i c a à q u i l o ” n e m s e m p r e s i g n i f i c a
u n i d o a o p r i m e ir o e x t r e m o ,223 e n ã o a o [ t e r m o ] m é d i o . Q u e r o
“ Is t o n ã o é a q u i l o ” , m a s à s v e z e s “ N ã o h á n e n h u m isto daquilo”
d iz e r , p o r e x e m p l o , q u e , s u p o n d o q u e t e n h a m o s u m s i l o g i s m o a
ou “p a r a aquilo” . T o m e m o s , p o r e x e m p lo , a p r o p o s i ç ã o “ N ã o
c o n c l u i r q u e “ h á u m c o n h e c im e n t o d a j u s t i ç a q u e é u m b e m ” , a
h á n e n h u m m o v i m e n t o d o m o v im e n t o o u g e r a ç ã o d a g e r a ç ã o ,
m a s h á g e ra ç ã o d o p ra ze r e, p o rta n to , o p ra ze r n ã o é g e ra ç ã o ” ,

222. Aristóteles, evidentemente, tem em vista o grego, que é uma língua declinada: ele
alude ao caso do substantivo, ou melhor, do sujeito, que é o nominativo.
221. Ou seja, o termo maior é afirmado do menor.
223. Ou seja, o termo maior.
1 8 8 - E d ip r o A r is tó te le s - Órganon Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L i v r o I E d ip r o - 1 8 9

e x p r e s s ã o “q u e é u m b e m ” o u “e n q u a n t o b e m ” d e v e s e r u n id a n u m a p r o p o s iç ã o , c o m o te rm o e x t r e m o a e x p r e s s ã o s e m q u a li­
a o p r im e ir o t e r m o . Q u e A c o r r e s p o n d a a “ c o n h e c im e n t o q u e é f ic a ç ã o “ a q u i l o q u e é ” , e m lu g a r d e “ a q u i l o q u e é a l g o ” , n ã o
15 u m b e m ” , B a “ b e m ” e C a “j u s t i ç a ” . E n t ã o s e r á e x a t o p r e d ic a r t e r ia h a v i d o s il o g i s m o d e m o n s t r a n d o q u e h á c o n h e c im e n t o d e
A d e B , p o i s h á u m c o n h e c im e n t o d o b e m q u e é u m b e m . M a s que o bem é b o m , m a s a p e n a s d e q u e é ; p o r e x e m p lo , s e A
t a m b é m s e r á e x a t o p r e d ic a r B d e C , p o i s a j u s t i ç a é i d ê n t ic a a 49bl t iv e s s e c o r r e s p o n d i d o a “ c o n h e c im e n t o d e q u e é ” , B a “ a q u i l o
u m b e m . D e s t e m o d o , u m a a n á lis e é e x e q ü ív e l. S u p o n d o , e n t r e ­ que é” e C a “b o m ” . E v i d e n c i a - s e , a s s im , q u e , e m s i lo g i s m o s
ta n to , q u e a e x p re s s ã o “q u e é u m b e m ” s e ja u n id a a B , n ã o que são p a r t ic u la r i z a d o s d e s t a f o r m a , o s t e r m o s t ê m q u e ser
20 h a v e r á a n á lis e , p o i s A s e r á v e r d a d e ir o d e B , m a s B n ã o se rá t o m a d o s d e s s a m a n e ir a .
v e r d a d e i r o d e C , u m a v e z q u e p r e d ic a r d a j u s t iç a o t e r m o “ b e m
q u e é u m b e m ” é f a ls o e in in t e lig ív e l. A l g o a n á l o g o s u c e d e t a m ­
b é m s u p o n d o q u e s e ja d e m o n s t r a d o q u e o s a u d á v e l é , enquanto XXXIX
bom , um o b j e t o d o c o n h e c im e n t o o u q u e u m u n i c ó r n i o 224 é , T e m o s a i n d a q u e s u b s t it u ir [ t e r m o s ] e q u iv a l e n t e s , p a l a v r a s
enquanto n ã o - e x is t e n t e , u m o b j e t o d o c o n h e c im e n t o o u q u e u m 5 p o r p a la v r a s , fra s e s p o r fra se s , p a la v r a e fra se p o r p a la v r a e
ser h u m a n o é, enquanto o b j e t o d o s s e n t id o s , p e r e c ív e l, p o i s e m f r a s e , m a s s e m p r e p r e f e r in d o a p a l a v r a à f r a s e , u m a v e z q u e is s o
25 t o d o s o s e x e m p l o s d e p r e d i c a ç ã o s u p le m e n t a r a d u p l i c a ç ã o d e v e f a c ilit a e x p o r o s t e r m o s . P o r e x e m p lo , s e é in d if e r e n t e d iz e r “ o
s e r j u n t a d a a o t e r m o e x t r e m o .225 c o n je t u r á v e l n ã o é u m g ê n e r o d o o p in á v e l” o u “ o o p in á v e l n ã o
é id ê n t ic o a a l g u m a p a r t e d o c o n je t u r á v e l ( p o is o q u e s e q u e r
O a r r a n jo d o s te rm o s n ã o é o m e s m o q u a n d o u m s ilo g is m o é
d iz e r é o m e s m o ) , d e v e m o s t o m a r c o m o t e r m o s o c o n je t u r á v e l e
d e m o n stra d o sem q u a lif ic a ç ã o e quando a d e m o n stra çã o se
o o p i n á v e l , d e p r e f e r ê n c ia à e x p r e s s ã o p o r n ó s m e n c i o n a d a .
v i n c u l a a u m a c o is a , s e n t id o o u c o n d i ç ã o p a r t ic u la r e s - q u e ro
d iz e r , p o r e x e m p lo , q u a n d o s e d e m o n s t r a q u e o b e m é u m o b j e ­
t o d o c o n h e c im e n t o e q u a n d o é d e m o n s t r a d o s e r u m o b j e t o d o
XL
c o n h e c im e n t o q u e e le é b o m . S e f o r d e m o n s t r a d o s e r o p r im e i-
30 aquilo que é; s e
r o ,226 t e r e m o s q u e c o l o c a r c o m o t e r m o m é d io
10 U m a v e z q u e a s p r o p o s i ç õ e s “o prazer é bem” e “o prazer é
f o r d e m o n s t r a d o s e r o s e g u n d o ,227 c o m a q u a l i f i c a ç ã o que é
o bem"228 n ã o s ã o i d ê n t ic a s , o s t e r m o s n ã o d e v e m s e r p o s t u l a ­
d o s id e n t ic a m e n t e e m a m b a s ; m a s s e o s i l o g i s m o f o r p a r a d e ­
bom, t e r e m o s q u e c q l o c a r c o m o t e r m o m é d io aquilo que é algo.
m o n s t r a r a s e g u n d a , d e v e r e m o s c o lo c a r “o b e m ” , e n q u a n t o se
Q u e A c o r r e s p o n d a a “ c o n h e c im e n t o q u e é a l g o ” , B a “ a q u i l o
f o r p a r a d e m o n s t r a r a p r i m e i r a , “b e m ” . O m e s m o , i g u a l m e n t e ,
q u e é a lg o ” e C a “b e m ” . E n t ã o s e r á e x a t o p r e d i c a r A de B ,
s e a p lic a a t o d o s o s o u tro s c a s o s .
v is t o q u e , ex hypothesi, h á c o n h e c im e n t o d e a l g o que é algo.
M a s s e r á t a m b é m e x a t o p r e d ic a r B d e C , p o i s a q u i l o q u e C r e -
35 p r e s e n t a é a lg o . C o n s e q ü e n t e m e n t e , t a m b é m é e x a t o p r e d i c a r A
d e C . E , p o r t a n t o , h a v e r á c o n h e c im e n t o d e q u e o b e m é b o m ,
N ã o é id ê n t ic o , s e j a n o f a t o o u n o d i s c u r s o , q u e A s e a p l i c a a
p o is , ex hypothesi, a e x p r e s s ã o “ a q u ilo q u e é a lg o ” s e re fe re à
15 t u d o a q u ilo a q u e B se a p lic a e q u e A s e a p lic a a t u d o a q u ilo a
s u b s t â n c ia p r ó p r ia da c o is a . M a s, se h o u vé sse m o s c o lo c a d o
q u e B s e a p l i c a t o t a lm e n t e , p o r q u e n ã o h á r a z ã o p a r a q u e B n ã o
“ a q u i l o q u e é ” c o m o o t e r m o m é d io , e t iv é s s e m o s c o n e c t a d o ,
s e a p l i q u e a C , m a s n ã o a t o d o C . P o r e x e m p lo , q u e B c o r r e s ­
ponda a belo e C a branco. belo s e a p l i c a r a a l g u m a
E n tã o , se
224. τραγέλαφος (tragelafos), literalmente bode-cervo. O objetivo de Aristóteles é sim­ belo s e a p l i c a a branco,
c o i s a b r a n c a , s e r á v e r d a d e i r o d iz e r q u e
plesmente indicar um animal mitológico. Platão também utiliza este termo em A 20 m a s p r e s u m i v e lm e n t e n ã o a t o d o branco. A s s i m , s e A s e a p l i c a a
República, 488.
225. Ou seja, o termo maior.
226. A saber, um objeto do conhecimento sem qualificação. 228. το ε ίν α ι την ηδονην αγαθον και το ε ίν α ι την ηδονην το αγαθον (ίο einai ten edo-
227. A saber, um objeto do conhecimento com qualificação. nen agathon kai to einai ten edonen to agathon).
1 9 0 - E d ip r o A r is tó te le s - Órg ano n Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 191

B, m a s n ã o a t u d o d e q u e B é p r e d ic a d o , e n t ã o B a p l i c a r - s e a d e m o n s t r a d a e m t o d a f i g u r a , m a s c e r t o s t ip o s f i x o s s ã o d e m o n s ­
todo C o u s im p le s m e n t e a p lic a r - s e a C n ã o a p e n a s e x i g e q u e A t r a d o s e m c a d a u m a , s e r á e v i d e n c i a d o a p a r t ir d a f o r m a d a c o n -
n ã o s e a p l i q u e a t o d o C , c o m o e x ig e q u e n ã o s e a p l i q u e a C e m 10 c l u s ã o , e m q u a l f i g u r a a i n v e s t ig a ç ã o d e v e s e r c o n d u z i d a .
a b s o lu t o . S e , p o r o u t r o la d o , A s e a p l i c a r a t u d o a q u i l o d e q u e B
é v e r d a d e ir a m e n t e p r e d i c a d o , r e s u lt a r á q u e A é p r e d ic a d o de
XLIII
25 tudo d e q u e B é p r e d ic a d o . S e , e n tre ta n to , A é p r e d ic a d o d a q u i­
lo d e t u d o d e q u e B é p r e d i c a d o , n ã o h á r a z ã o p a r a q u e A s e N o t o c a n te a a r g u m e n t o s q u e s e r e fe r e m a u m a d e f in iç ã o ,
a p l i q u e a t o d o C o u , c o m e f e it o , a b s o lu t a m e n t e s e a p l i q u e a C , s e m p r e q u e v is a m d e m o n s t r a r a lg u m a p a rte s in g u la r d a d e f in i­
e m b o r a B s e a p liq u e a C . N o q u e t o c a a e ste s trê s te rm o s , e n tã o , ç ã o , e s s a p a rt e v is a d a p e lo a r g u m e n t o - e n ã o a d e f in iç ã o n a
f i c a c la r o q u e “A é p r e d i c a d o d e t u d o d e q u e B é p r e d i c a d o ” ín t e g r a - é q u e d e v e s e r c o lo c a d a c o m o u m t e r m o ( v is t o q u e
s ig n if ic a “A é p r e d i c a d o d a t o t a lid a d e d a s c o is a s d e q u e B é a s s im h a v e r á m e n o r p r o b a b i l i d a d e d e c o n f u s ã o d e v i d o à e x t e n ­
30 p r e d i c a d o ” . E s e B é p r e d i c a d o d a t o t a lid a d e , t a m b é m o é A; s ã o d o t e r m o ) ; p o r e x e m p lo , s e t r a t a - s e d e d e m o n s t r a r q u e a
m a s s e B n ã o é p r e d i c a d o d a t o t a lid a d e , A n ã o é n e c e s s a r i a m e n ­ 15 á g u a é u m lí q u i d o p o t á v e l, o s t e r m o s c o l o c a d o s d e v e m s e r potá­
te p r e d i c a d o d a t o t a lid a d e . vel e água.
N ã o é d e s e s u p o r q u e q u a l q u e r a b s u r d o r e s u lt e d a e x p o s i ­
ç ã o d o s t e r m o s . N ã o b a s e a m o s n o s s o a r g u m e n t o n a r e a lid a d e XLIV
de um e x e m p lo p a r t ic u la r ; e s t a m o s f a z e n d o o m esm o q u e o
Q u e s e a c r e s ç a q u e n ã o d e v e m o s t e n t a r r e d u z ir s il o g is m o s
35 g e ô m e t r a q u e d i z q u e e s t a l i n h a d o c o m p r im e n t o d e u m p é , o u
h ip o t é t ic o s p o r q u e é i m p o s s ív e l r e d u z i - l o s p r o c e d e n d o d a s p r e ­
l i n h a r e t a o u l i n h a s e m l a r g u r a e x is t e q u a n d o n ã o e x is t e , a i n d a
m is s a s q u e fo ra m f o r m u la d a s , u m a v e z q u e e s ta s n ã o fo ra m
q u e n ã o s e s i r v a d e s u a s ilu s t r a ç õ e s n o s e n t id o d e d e d u z i r a l g u ­
d e m o n s t r a d a s p o r m e i o d e u m s i l o g is m o , t e n d o s i d o t o d a s a d m i ­
m a c o i s a d e l a s ,229 p o i s e m g e r a l , a m e n o s q u e d u a s c o i s a s e s t e ­
t id a s p o r c o n s e n s o . P o r e x e m p l o , s u p õ e q u e d e p o i s d e t e r a s s u -
j a m u n i d a s c o m o o t o d o à p a r t e e c o m o a p a r t e a o t o d o , a q u e le
20 m id o q u e a m e n o s q u e h a ja a lg u m a p o t e n c ia lid a d e p a r a c o n tr á ­
q u e e s t iv e r t e n t a n d o d e m o n s t r a r a l g u m a c o i s a n a d a p o d e p r o v a r
r io s n ã o p o d e h a v e r u m a c i ê n c i a d e le s , p a s s e s e n t ã o a a r g u m e n ­
50a l a p a r t ir d e la s , c o m o q u e n e n h u m s il o g i s m o é p r o d u z i d o ; p e lo
ta r q u e n e m t o d a p o t e n c i a li d a d e é p a r a c o n t r á r io s - d ig a m o s
c o n t r á r io , n ó s (e p o r nós e n t e n d o a q u e le s q u e e s t u d a m ) e m p r e ­
p a r a o s s a d io s e p a r a o s d o e n te s - , p o is s e a s s im fo sse , u m a
g a m o s a e x p o s i ç ã o d o s t e r m o s c o m o a lg u é m e m p r e g a a p e r c e p ­
m e s m a c o is a s e r ia a o m e s m o t e m p o s a d ia e d o e n te : c o m is s o
ç ã o s e n s o r ia l. N ó s n ã o a s e m p r e g a m o s c o m o s e a d e m o n s t r a ç ã o
f ic o u d e m o n s t r a d o q u e n á o h á u m a p o t e n c i a l i d a d e p a r a t o d o s
f o s s e im p o s s í v e l s e m e s s a s ilu s t r a ç õ e s , c o m o s e r ia n a f a lt a d a s
o s c o n t r á r io s , p o r é m n ã o f o i d e m o n s t r a d o q u e n ã o h á u m a c iê n -
p r e m is s a s d e u m s ilo g is m o .
25 c i a [ a c e r c a d e le s ] , E é v e r d a d e q u e is t o t e m q u e s e r a d m i t i d o ,
m a s so m e n te ex hypothesi, e n ã o c o m o o r e s u lt a d o d e d e m o n s ­
tra çã o s ilo g ís t i c a . A s s i m , e s t e ú l t i m o a rg u m e n to é ir r e d u z ív e l,
XLII
m a s o a r g u m e n t o d e q u e n ã o h á u m a p o t e n c ia lid a d e é r e d u z í­
5 N ã o d e v e m o s d e s c u r a r o fa to d e q u e n e m t o d a s a s c o n c lu ­ v e l, p o i s é p r e s u m í v e l q u e e s t e f o s s e u m s il o g is m o , a o p a s s o q u e
s õ e s d e u m m e s m o s il o g i s m o s ã o o b t id a s p o r m e i o d e u m a f i g u ­ o p r im e ir o e r a u m a h ip ó t e s e .
ra , m a s q u e a lg u m a s o s ã o p o r u m a e a lg u m a s p o r u m a o u tr a ,
O m e s m o o c o r re ta m b é m c o m o s a r g u m e n to s q u e s ã o e sta -
co m o q u e f i c a c la r o q u e d e v e m o s c o n d u z i r n o s s a a n á lis e e m
c o n s o n â n c ia c o m is s o . E u m a v e z q u e n e m t o d a p r o p o s i ç ã o é
30 b e le c id o s per impossibile. E s t e s t a m b é m n ã o s ã o s u s c e t í v e is d e
a n á lis e . A r e d u ç ã o a o a b s u r d o ( reductio ad impossibile) é a n a l i-
sá v e l p o rq u e é d e m o n stra d a p o r u m s i lo g i s m o . E n t r e t a n t o , o
re s ta n te d o a r g u m e n t o n ã o é p o r q u e a c o n c lu s ã o é o b t id a a
229. Importante confrontar esta idéia com o que é expresso na Metafísica, 1078a20 e
nos Analíticos Posteriores, 76b39. p a r t ir d e u m a h ip ó t e s e . E s t e s t ip o s d if e r e m d a q u e l e s d e s c r it o s
1 9 2 - E d ip r o A r is t ó t e le s - Org ano n Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 9 3

a n t e r io r m e n t e e m q u e , n o q u e t o c a a o s p r im e ir o s , s e f o r o c a s o 20 a p lic a a n e n h u m B , m a s se a p lic a a to d o C . E n t ã o te re m o s a
d e a d m i t i r a c o n c lu s ã o , n e c e s s it a - s e d e a l g u m a r g u m e n t o p r e li- p r im e ir a f ig u r a n a c o n v e r s ã o d a p r o p o s iç ã o n e g a t iv a , p o is B n ã o
35 m i n a r ( e x e m p lo : s e d e m o n s t r a d o q u e h á u m a p o t e n c ia lid a d e s e a p lic a r á a n e n h u m A , m a s A se a p lic a r á a t o d o C . M a s s e a
p a r a c o n t r á r io s , a c i e n c i a q u e o s e s t u d a s e r á t a m b é m a m e s m a ) . p r o p o s i ç ã o a f ir m a t i v a f o r l i g a d a a B e a n e g a t i v a a C , C d e v e r á
E n t r e t a n t o , n o q u e t o c a a o s e x e m p lo s e m p a u t a , a s c o n c lu s õ e s s e r p o s t u l a d o c o m o p r im e ir o t e r m o , p o i s C n ã o s e a p l i c a a n e ­
s ã o a d m i t i d a s m e s m o n a a u s e n c i a d e u m a s s e n t im e n t o p r e lim i­ n h u m A e A s e a p lic a a to d o B e , c o n s e q ü e n te m e n te , C n ã o se
n a r p o r q u e o e r r o é o b v i o , c o m o n o e x e m p lo d e q u e s e a d i a g o ­ a p lic a a n e n h u m B . P o rta n to , B ta m b é m n ã o s e a p lic a a n e -
nal de um q u a d ra d o f o r c o n s i d e r a d a c o m e n s u r á v e l, n ú m e r o s 25 n h u m C , u m a v e z q u e a p r o p o s i ç ã o n e g a t i v a é c o n v e r t ív e l. S e ,
i m p a r e s s e r ã o ig u a i s a n ú m e r o s p a r e s . e n t r e t a n t o , o s il o g i s m o f o r p a r t ic u la r , q u a n d o a p r o p o s i ç ã o n e g a ­
t i v a e s t iv e r l i g a d a ao e xtre m o m a io r , o s ilo g is m o p o d e rá ser
M u it a s o u t r a s c o n c lu s õ e s s ã o t a m b é m a l c a n ç a d a s m e d ia n t e
r e d u z i d o à p r i m e i r a f ig u r a , p o r e x e m p l o , s e A n ã o se a p lic a a
h ip ó t e s e , e e s t a s r e q u e r e m m a io r e x a m e e n ít id a e x p lic it a ç ã o .
n e n h u m B , m a s s e a p lic a a a lg u m C , p o is n a c o n v e r s ã o d a p r o ­
50b 1 Q u a i s s ã o s u a s d if e r e n ç a s e d e q u a n t a s f o r m a s é o b t id a u m a
p o s i ç ã o n e g a t i v a t e r e m o s a p r im e ir a f i g u r a , u m a v e z q u e B n ã o
c o n c l u s ã o h ip o t é t ic a [ s ã o c o is a s ] q u e s e r ã o d e s c r it a s p o s t e r io r ­
30 s e a p lic a a n e n h u m A e A s e a p lic a a a lg u m C . M a s q u a n d o a
m e n t e .230 D e m o m e n t o , c o n s id e r e m o s c o m o e v id e n t e o s e g u in t e :
p r o p o s i ç ã o a f i r m a t iv a e s t á l i g a d a a o t e r m o m a i o r , o s i l o g i s m o
q u e é im p o s s í v e l a n a l i s a r t a is s ilo g is m o s c o m o o s q u e s e e n q u a ­
n ã o p o d e s e r d e c o m p o s t o , p o r e x e m p lo : s e A s e a p lic a a t o d o B
d r a m n a s f ig u r a s . E x p l i c a m o s a r a z ã o d is s o .
m a s n ã o a to d o C , u m a v e z q u e A B n ã o a d m ite c o n v e r s ã o e
n e m s e q u e r s e o c o r r e s s e c o n v e r s ã o h a v e r i a u m s i lo g is m o .

P o r o u t r o la d o , o s s ilo g is m o s n a t e r c e ir a f i g u r a n ã o p o d e m t o ­
XLV
d o s s e r d e c o m p o s t o s n a p r im e ir a , e m b o r a a q u e le s n a p r im e ir a
5 N o q u e c o n c e r n e à s p r o p o s iç õ e s q u e s ã o d e m o n s t r a d a s e m 35 p o s s a m t o d o s s e r d e c o m p o s t o s n a t e r c e ir a . Q u e A s e a p liq u e a
m a i s d e u m a f ig u r a , s e u m a c o n c l u s ã o é e x t r a íd a n u m a f ig u r a , é t o d o B e q u e B s e a p liq u e a a lg u m C . E n t ã o , q u a n d o a p r o p o s i­
p o s s í v e l r e d u z ir o s il o g i s m o a u m a o u t r a f ig u r a ; p o r e x e m p l o , u m ç ã o a f ir m a t iv a p a r t ic u la r f o r c o n v e r t id a , C s e a p li c a r á a a l g u m C .
s i l o g i s m o n e g a t i v o n a p r im e ir a f ig u r a p o d e s e r r e d u z id o à s e ­ M a s c o m o f o i s u p o s t o q u e A s e a p l i c a a t o d o B , o b t e m o s a s s im a
g u n d a [e u m s ilo g is m o ] n a f ig u r a m e d i a n a - a in d a q u e n ã o to ­ t e r c e ir a f ig u r a . O m e s m o v a le t a m b é m s e o s il o g i s m o f o r n e g a t iv o ,
d o s , m a s a p e n a s a l g u n s d e le s - [ p o d e s e r r e d u z id o ] à p r im e ir a . u m a v e z q u e a p r o p o s i ç ã o a f ir m a t iv a p a r t ic u la r é c o n v e r t ív e l e ,
O p r i n c í p i o d is t o s e r á c la r a m e n t e p e r c e b i d o n o s e x e m p l o s q u e s e a s s im , A n ã o s e a p l ic a r á a n e n h u m B e C s e a p li c a r á a a lg u m B .
10 s e g u e m . S e A n ã o s e a p lic a a n e n h u m B e B s e a p lic a a t o d o C ,
51 a i D o s s ilo g i s m o s n a ú lt im a f ig u r a s o m e n t e u m n ã o p o d e s e r d e ­
A n ã o s e a p lic a a n e n h u m C . T e m o s a p r im e ir a f ig u r a s o b e s s a
c o m p o s t o n a p r im e ir a f ig u r a , a s a b e r , q u a n d o a p r o p o s i ç ã o n e g a ­
f o r m a . M a s s e a p r o p o s i ç ã o n e g a t i v a f o r c o n v e r t id a , t e r e m o s a
t iv a n ã o é u n iv e r s a l. T o d o s o s r e s t a n t e s p o d e m s e r a s s im a n a l is a ­
f ig u r a m e d ia n a , p o is B n ã o se a p lic a a n e n h u m A , m a s s e a p lic a
d o s (d e c o m p o s t o s ). Q u e A e B s e ja m p r e d ic a d o s d e t o d o C . E n ­
a t o d o C . D e m a n e i r a a n á l o g a , t a m b é m , s e o s il o g i s m o n ã o f o r
t ã o C s e c o n v e r t e r á n u m a r e l a ç ã o p a r t ic u la r c o m c a d a u m d e s s e s
u n i v e r s a l, m a s p a r t ic u la r ; p o r e x e m p lo , s e A não se a p lic a a
5 t e r m o s . E , p o r t a n t o , s e a p li c a a a lg u m B . A s s i m , t e r e m o s a p r i m e i ­
15 n e n h u m B e B s e a p l i c a a a lg u m C ; t e r e m o s a f i g u r a m e d i a n a n a
r a f ig u r a s e A s e a p l ic a r a t o d o C e C a a l g u m B . O m e s m o p r i n c í ­
c o n v e r s ã o d a p r o p o s i ç ã o n e g a t iv a .
p i o t a m b é m v a l e s e A s e a p l i c a r a t o d o C e B a a lg u m C , u m a v e z
D o s s ilo g is m o s n a s e g u n d a f ig u r a , o s q u e s ã o u n i v e r s a i s s ã o q u e B é c o n v e r t ív e l c o m C . S e , p o r o u t r o l a d o , B s e a p li c a a t o d o
r e d u z í v e i s à p r im e ir a f ig u r a , m a s s o m e n t e u m d o s d o i s s i l o g i s ­ 10 C e A a a lg u m C , B t e m q u e s e r t o m a d o c o m o o p r im e ir o t e r m o ,
m o s p a r t ic u la r e s é r e d u z ív e l a s s im . C o n s i d e r e m o s q u e A n ã o s e u m a v e z q u e B s e a p l i c a a t o d o C e C a a lg u m A , d e m a n e ir a q u e
B s e a p l i c a a a l g u m A e , u m a v e z q u e a p r o p o s iç ã o p a r t ic u la r é
c o n v e r t ív e l, A t a m b é m s e a p l ic a r á a a l g u m B .
23 0 . Nas obras do Estagirita que chegaram a nós esta descrição está ausente.
194 - E d ip r o A r is tó te le s - Órganon Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 9 5

51 b l g is m o s s ã o r e d u z id o s à p r i m e ir a f ig u r a , e s t e s e x c l u s i v a m e n t e s ã o
T a m b é m s e o s il o g i s m o f o r n e g a t iv o , c o n t a n t o q u e o s t e r m o s
e s t a b e le c id o s per impossibile.
e s t e ja m r e l a c i o n a d o s u n iv e r s a lm e n t e , o t r a t a m e n t o d e v e r á s e r o
m e s m o . Q u e B se a p liq u e a t o d o C , m a s A n ã o s e a p liq u e a D a a v a l i a ç ã o p r e c e d e n t e , e n t ã o , f i c a c la r o c o m o d e v e m s e r

n e n h u m C . E n t ã o C se a p lic a r á a a lg u m B e A n ã o s e a p lic a r á a o s s ilo g is m o s r e d u z id o s e t a m b é m [ e v i d e n c ia - s e ] q u e a s f i g u r a s

15 n e n h u m C , d e s o r t e q u e C s e r á o t e r m o m é d io . S e r á o m e s m o s ã o d e c o m p o n í v e i s e n t r e s i.

ta m b é m s e a p r o p o s i ç ã o n e g a t i v a f o r u n i v e r s a l e a a f ir m a t iv a
p a r t ic u la r , p o i s A n ã o s e a p l i c a r á a n e n h u m C e C s e a p l i c a r á a
a lg u m B . S e , e n tre ta n to , a p r o p o s iç ã o n e g a t iv a fo r t o m a d a c o m o
p a r t ic u la r , n ã o p o d e h a v e r a n á lis e ( d e c o m p o s i ç ã o ) ; p o r e x e m - 5 N ão faz diferença de pouca monta ao estabelecer ou refutar
20 p lo : s e B s e a p l i c a a t o d o C e A n ã o s e a p l i c a a a l g u m C , p o i s n a um a proposição, supormos ou não que “ não ser assim” e “ser
c o n v e r s ã o d a p r e m is s a B C a m b a s a s p r e m is s a s s e r ã o p a r t ic u la r e s . não assim” sejam expressões idênticas ou diferentes no seu sig­
nificado; por exemplo, se “ não ser branco” significa o mesmo
É t a m b é m e v id e n t e q u e , c o m a f i n a l i d a d e d e d e c o m p o r a s f i­
que “ser não-branco” - uma vez que não significa o mesmo: a
g u r a s e n t r e s i, a p r e m i s s a q u e e s t á l i g a d a a o e x t r e m o m e n o r t e m
negação de “ser branco” não é “ser não-branco” , m as “não ser
q u e s e r c o n v e r t id a e m a m b a s a s f i g u r a s ,231 p o i s v i m o s q u e a
10 branco” . A explicação disso é a que se segue.
25 m u d a n ç a d e u m a p a r a a o u t r a o c o r r e m e d ia n t e a s u b s t it u iç ã o
d e s s a p r e m is s a . “ Ele pode caminhar” é para “ele pode não caminhar” com o
“é branco” é para “é não-branco” e com o “ele entende o bem ”
D o s s ilo g is m o s n a f i g u r a m e d i a n a , u m p o d e s e r d e c o m p o s t o
é para “ele entende o não-bem ” . C om efeito, não há diferença
n a t e r c e ir a f ig u r a e o o u t r o n ã o p o d e . [ 1 ] Q u a n d o a p r o p o s i ç ã o
entre “ele entende o bem ” e “ele está entendendo o bem ” , co-
u n i v e r s a l f o r n e g a t iv a , a d e c o m p o s i ç ã o s e r á p o s s í v e l , p o i s s e A
15 mo não há entre “ele pode caminhar” e “ele é capaz de cam i­
n ã o s e a p lic a a n e n h u m B , m a s se a p lic a a a lg u m C , a m b a s a s
nhar” . Conseqüentemente, os opostos “ ele não pode caminhar”
p r o p o s i ç õ e s ig u a lm e n t e s ã o c o n v e r t ív e is c o m re s p e ito a A , d e
e “ele não é capaz de caminhar” são também idênticos. Se,
30 m o d o q u e B n ã o s e a p lic a a n e n h u m A e C s e a p lic a a a lg u m A .
então, “ele não é capaz de caminhar” significa o mesmo que
P o r t a n t o , A é o t e r m o m é d io . [ 2 ] Q u a n d o A s e a p l i c a a t o d o B ,
“ele é capaz de não caminhar” , estes atributos se aplicarão ao
m a s n ã o s e a p lic a a a lg u m C , n ã o p o d e h a v e r n e n h u m a d e c o m ­
mesmo tem po ao mesmo sujeito - um a vez que um a mesma
p o s iç ã o , p o is n e m u m a n e m o u t r a p r e m is s a é u n iv e r s a l a p ó s a
pessoa pode tanto caminhar com o não caminhar, ou está en-
co n ve rsã o .
20 tendendo tanto o bem quanto o não-bem . Contudo, um a asser­
O s s i l o g i s m o s d a t e r c e ir a f i g u r a t a m b é m s ã o d e c o m p o n í v e i s ção e sua negação oposta não se aplicam ao mesmo tempo ao
35 n a f i g u r a m e d i a n a q u a n d o a p r o p o s i ç ã o n e g a t i v a f o r u n iv e r s a l; mesmo sujeito. Portanto, tal com o “não entender o bem ” e “en­
p o r e x e m p lo , s e A n ã o s e a p lic a a n e n h u m C e B se a p lic a a tender o não-bem ” não são idênticos, também “ser não-bom ” e
a lg u m o u a t o d o C , p o is e n tã o C n ã o s e a p lic a r á a n e n h u m A , “ não ser bo m ” não são idênticos, pois se um par de termos cor­
m a s s e a p lic a r á a a lg u m B . S e , c o n tu d o , a p r o p o s iç ã o n e g a t iv a respondentes num conjunto analógico é diferente, o outro tam-
f o r p a r t ic u la r , a d e c o m p o s i ç ã o s e r á i m p o s s ív e l, u m a v e z q u e a 25 bém o é. N em é “ser não-igual” idêntico a “ não ser igual” , pois
p a r t ic u la r n e g a t i v a n ã o a d m i t e c o n v e r s ã o . o primeiro, “aquilo que é não-igual” , possui um sujeito definido,
40 P o r c o n s e g u i n t e , e v i d e n c i a - s e [ ,e m p r im e ir o lu g a r , ] q u e o s t i­ a saber, o desigual; mas o segundo não possui nenhum. Por esta
p o s d e s i l o g i s m o q u e n ã o p o d e m s e r d e c o m p o s t o s n e s s a s f ig u r a s razão tudo é ou igual ou desigual, m as [não podem os dizer que]
s ã o o s m e sm o s q u e c o n sta ta m o s n ã o p o d e re m ser d e co m p o sto s tudo é ou igual ou não-igual.
n a p r i m e i r a f ig u r a , e [ ,e m s e g u n d o lu g a r , ] q u e q u a n d o o s s ilo - Por outro lado, as proposições “é madeira não-branca” e
30 “ não é madeira branca” não são aplicáveis ao mesmo sujeito,
pois se a madeira é não branca, [ainda assim] será madeira, mas
231. Aristóteles se refere a primeira e terceira (última) figuras.
A r is t ó t e le s - Órganon Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o I E d ip r o - 1 9 7
1 9 6 - E d ip r o

a q u i l o q u e n ã o é m a d e i r a b r a n c a n ã o é n e c e s s a r i a m e n t e m a d e i­ ig u a l v e r d a d e : q u e todas a s c o is a s n ã o s ã o b r a n c a s o u q u e cada
r a a l g u m a . P o r c o n s e g u i n t e , f ic a e v id e n t e q u e “é n ã o -b o m ” n ão 20 u m a n ã o é b r a n c a ; m a s q u e c a d a c o is a é n ã o - b r a n c a o u q u e
c o n s t it u i a n e g a ç ã o d e “ é b o m ” . S e , e n t ã o , o u a a f i r m a ç ã o ou a t o d a s a s c o i s a s s ã o n ã o - b r a n c a s é f a ls o . A n a l o g a m e n t e , a n e g a ­
n e g a ç ã o é v e r d a d e i r a d e t o d a c o is a s in g u la r , s e a n e g a ç ã o n ã o é ção de “to d o a n im a l é b ra n co ” n ã o é “t o d o a n im a l é n ã o -
v e r d a d e i r a , e s t á c la r o q u e a a f i r m a ç ã o t e m , e m a l g u m s e n t id o , b r a n c o ” , p o i s a m b a s e s t a s p r o p o s iç õ e s s ã o f a ls a s , m a s “n e m
35 q u e s e r v e r d a d e i r a . M a s t o d a a f ir m a ç ã o t e m u m a n e g a ç ã o e, t o d o a n im a l é b r a n c o ” . E u m a v e z q u e e s t á c la r o q u e “é n ã o -
p o r t a n t o , a n e g a ç ã o d a a f ir m a ç ã o e m p a u t a é “ n ã o é n ã o - b o m ” . b r a n c o ” e “ n ã o é b r a n c o ” t ê m s i g n i f i c a d o d if e r e n t e e q u e u m é
25 u m a a f i r m a ç ã o e o o u t r o u m a n e g a ç ã o , f i c a e v id e n t e q u e o m é ­
O r a , e ss e s te rm o s e s t ã o r e la c io n a d o s e n tre s i c o m o s e s e g u e .
t o d o d e m o n s t r a t i v o n ã o é id ê n t i c o e m a m b o s o s c a s o s , a s a b e r ,
Q u e A c o r r e s p o n d a a “s e r b o m ” , B a “n ã o s e r b o m ” , C a “ser
d e m o n s t r a r a p r o p o s iç ã o d e q u e t u d o q u e é u m a n im a l n ã o é
n ã o - b o m ” ( q u e s e s u b o r d i n a a B) e D a “ n ã o s e r n ã o - b o m ” (q u e
b r a n c o o u p o d e n ã o s e r b r a n c o , e a p r o p o s iç ã o d e q u e é v e r d a ­
se s u b o r d i n a a A ) . E n t ã o , ou A ou B s e a p l i c a r á a t u d o , m a s n ã o
d e ir o d iz e r q u e é n ã o - b r a n c o , p o i s is t o é o q u e “s e r n ã o b r a n c o ”
40 p o d e m a m b o s j a m a i s s e a p l i c a r a o m e s m o s u je it o ; e ou C ou D
s ig n if ic a . M a s o m e s m o m é t o d o d e m o n s t r a t iv o s e a p lic a à s p r o -
s e a p lic a r á a tu d o , m a s n ã o p o d e m a m b o s ja m a is s e a p lic a r a o
30 p o s i ç õ e s d e q u e é v e r d a d e i r o d iz e r que ê branco e q ue é ve rd a ­
m e s m o s u j e it o . A d e m a i s , B n e c e s s a ria m e n te s e a p lic a a tu d o a
d e ir o d iz e r que é não-branco, p o is a m b a s s ã o d e m o n s tr a d a s
52al q u e C s e a p l i c a , p o i s s e é e x a t o d iz e r “ é n ã o - b r a n c o ” , t a m b é m é
c o n s t r u t i v a m e n t e p o r m e i o d a p r im e ir a f ig u r a , u m a v e z q u e a
e x a t o d iz e r “n ã o é b r a n c o ” , u m a v e z s e r im p o s s ív e l q u e u m a
e xp re ssã o é verdadeiro s e s it u a p a r a le la m e n t e à e x p r e s s ã o é,
c o i s a s e j a s im u lt a n e a m e n t e b r a n c a e n ã o - b r a n c a , o u q u e a m a ­
p o s t o q u e a n e g a ç ã o d e “ é v e r d a d e i r o c l a s s i f i c á - lo d e b r a n c o ”
d e ir a s e ja n ã o - b r a n c a e b r a n c a , d e so rte q u e s e a a f ir m a ç ã o n ã o
n ã o é “ é v e r d a d e i r o c l a s s i f ic á - l o d e n ã o - b r a n c o ” , m a s “ n ã o é
s e a p lic a r , a n e g a ç ã o o f a r á . M a s C n e m s e m p r e s e a p l i c a a B,
v e r d a d e i r o c la s s i f i c á - l o d e b r a n c o ” . S e , e n t ã o , p r e t e n d e - s e s e r
5 p o is a q u ilo q u e n ã o é d e m o d o a lg u m m a d e ir a n ã o p o d e ta m ­
35 v e r d a d e ir o d iz e r q u e t u d o q u e é u m h o m e m é músico ou é não-
p ouco se r m a d e i r a b r a n c a . In v e r s a m e n t e , e n t ã o , D s e a p lic a r á a
músico,233 s u p o n d o - s e q u e t u d o q u e é u m a n i m a l é m ú s ic o o u é
t u d o a q u e A se a p lic a , p o is o u C o u D se a p lic a n e c e s s a r ia m e n ­
n ã o m ú s i c o , a d e m o n s t r a ç ã o e s t a r á f e it a . “Q u e t u d o q u e é u m
te , e u m a v e z q u e não é p o s s ív e l s e r s im u lt a n e a m e n t e não-
h o m e m n ã o é m ú s i c o ” é d e m o n s t r a d o p o r r e f u t a ç ã o p e lo s tr ê s
b ra n co e b ra n co , D a p lic a r - s e - á , v is t o q u e é e x a t o a f ir m a r d a q u i ­
modos j á d e s c r it o s .
lo q u e é b r a n c o q u e não é n ã o -b ra n c o . M a s A n ã o p o d e ser
10 a f ir m a d o d e t o d o D, p o is n ã o é e x a t o a f ir m a r d a q u ilo q u e n ã o é Em g e ra l, q u a n d o A e B e s tã o d e ta l m a n e ir a r e la c io n a d o s
d e m o d o a lg u m m a d e ir a q u e é A , o u s e ja , q u e é m a d e ir a b r a n ­ q u e n ã o p o d e m s e a p lic a r , s i m u lt a n e a m e n t e a o m e s m o s u j e i t o ,
ca . C o n se q ü e n te m e n te , D é v e r d a d e ir o (e x a t o ), m a s A (q u e é a i n d a a s s im u m o u o u t r o s e a p l i c a n e c e s s a r i a m e n t e a t u d o ;234 e
m a d e i r a b r a n c a ) n ã o é v e r d a d e ir o . F i c a c la r o q u e a c o m b i n a ç ã o 52b 1 quando C e D s e a c h a m r e l a c i o n a d o s d a m a n e ir a s e m e lh a n t e e
A C t a m b é m j a m a i s p o d e s e a p l i c a r a o m e s m o s u j e it o , a o p a s s o A é u m co n se q ü e n te d e C e a r e l a ç ã o n ã o é r e v e r s í v e l, e n t ã o D
q u e ta n to B q u a n to D p o d e m à s v e z e s s e a p lic a r a o m e s m o s u ­ se rá u m co n se q ü e n te d e B e e s t a r e l a ç ã o n ã o s e r á r e v e r s ív e l.
je it o . Q u e se a cre sce n te q u e A e D p o d e m s e a p lic a r a o m e s m o s u je i­
to , m a s B e C não podem .
15 A r e l a ç ã o e n t r e t e r m o s p r i v a t i v o s 232 e a f ir m a t iv o s n e s s e s is t e ­
m a é s e m e lh a n t e . A c o r r e s p o n d e a ig u a l, B a n ã o - ig u a l, C a
5 Que B é um co n se q ü e n te d e D f i c a e v id e n t e c o m b ase n a
d e m o n stra çã o q u e se se g u e . U m a v e z q u e u m ou o u tro d o s
d e s i g u a l , D a n ã o - d e s ig u a l.

E m c a s o s n o s q u a i s o m e s m o a t r ib u t o é p r e d i c a d o d e a lg u n s
233. μουσικον ε ίν α ι η μη μουσικον είν α ι (moüsikon e/na/ ê mê moüsikon e/nai), lem­
s u je ito s e n ã o o é d e o u tr o s , a n e g a ç ã o p o d e s e r p r e d ic a d a c o m
brando ao leitor que moüsikon também apresenta a acepção mais lata de instruí­
do, que se ajusta igualmente neste caso.
234. Entenda-se a cada uma no conjunto de todas as coisas em todo o presente con­
texto.
232. στερήσεις (stereseis), o mesmo que negativos.
1 9 8 - E d ip r o A r is tó te le s - Órg ano n Ó r g a n o n - A n a l í t i c o s A n t e r i o r e s - L iv r o II E d ip r o - 199

te rm o s C e D n e c e s s a r ia m e n t e s e a p lic a a t u d o e C n ã o p o d e se
a p lic a r à q u ilo a q u e B s e a p lic a , p o r q u e C
não podem
e n ce rra A , e A e B
a m b o s s e a p l i c a r a o m e s m o s u j e i t o , f i c a e v id e n t e
L iv r o I I
q u e D s e r á u m c o n s e q ü e n te d e B ; u m a v e z q u e a r e la ç ã o d e C
c o m A n ã o é r e v e r s ív e l e o u C o u D s e a p l i c a a t u d o , A e D p o - I
10 d e m s e a p l i c a r a o m e s m o s u je it o . B e C , t o d a v i a , n ã o p o d e m
52b38 E x p lic it a m o s a té a g o r a e m q u a n t a s f ig u r a s é p r o d u z id o u m s i­
p o r q u e , v is t o q u e C c o n t é m A , is s o n o s d e i x a c o m u m r e s u lt a d o
lo g i s m o , o c a r á t e r e n ú m e r o d a s p r e m i s s a s g r a ç a s à s q u a i s é e le
im p o s s ív e l. A s s im , é e v id e n t e q u e a r e l a ç ã o d e B c o m D é ig u a l ­
p r o d u z i d o e a s c ir c u n s t â n c i a s e c o n d i ç õ e s q u e r e g u l a m s u a f o r ­
m e n t e ir r e v e r s ív e l, u m a v e z q u e é p o s s í v e l p a r a D e A s e a p l i c a ­
m a ç ã o . A lé m d is s o , e x p l i c a m o s q u a l t ip o d e a t r ib u t o s c o n v é m
r e m s i m u lt a n e a m e n t e .
53a 1 s e r c o n s i d e r a d o a o s e r e f u t a r e a o s e e s t a b e le c e r u m a p r o p o s i ç ã o
O c o r r e , à s v e z e s , n e ste a r r a n jo d e te rm o s , q u e v e n h a m o s a se r e c o m o e m p r e e n d e r a ta re fa q u e n o s c a b e s e g u in d o u m d a d o
15 e n g a n a d o s p o r n ã o s e le c io n a r m o s a c e rta d a m e n te o s o p o s to s , u m m é t o d o - d e i n v e s t ig a ç ã o . A t ít u l o d e c o m p l e m e n t o , [ e x p li c a m o s ]
o u o u t r o d o s q u a is t e m q u e s e a p lic a r a t u d o , c o m o e x e m p li f ic a ­ m e d ia n t e q u a i s m e i o s p o d e m o s a p o r t a r a o s p r i n c í p i o s 236 a p r o ­
m o s n a im e d ia t a s e q ü ê n c ia . “A e B n ã o p o d e m s e a p lic a r s im u lt a ­ p r ia d o s a c a d a c a s o .
n e a m e n t e a o m e s m o s u je it o , m a s o n d e u m n ã o s e a p lic a , o o u t r o
O r a , s e n d o a l g u n s s i lo g i s m o s u n i v e r s a i s e a l g u n s p a r t ic u la r e s ,
s e a p l i c a n e c e s s a r ia m e n t e . P o r o u t r o la d o , C e D e s t ã o r e l a c io n a ­
5 o s u n iv e r s a is s e m p r e p r o d u z e m m a i s d e u m a in f e r ê n c ia . M a s
d o s d e f o r m a s e m e lh a n t e , e o n d e C s e a p lic a , A e s t á c o n t i d o . E ,
e n q u a n to e sse s s ilo g is m o s p a r t ic u l a r e s , que são a f i r m a t iv o s ,
20 e n t ã o , s e c o n c lu i r á q u e o n d e D s e a p lic a , B n e c e s s a r ia m e n t e s e
p ro d u ze m m a i s d o q u e u m a in f e r ê n c i a , o s q u e s ã o n e g a t i v o s
a p l i c a (o q u e é f a ls o ) . Q u e F s e j a t o m a d o c o m o a n e g a ç ã o d e A e
p r o d u z e m s o m e n t e a c o n c lu s ã o , p o is s e t o d a s a s o u t r a s p r e m is ­
B, e G c o m o a q u e la d e C e D . E n t ã o ou A ou F t e m q u e s e a p lic a r
s a s s ã o c o n v e r t í v e i s , a p r e m is s a n e g a t i v a p a r t i c u l a r n ã o é e a
a t u d o , u m a v e z q u e o u a a f ir m a ç ã o o u a n e g a ç ã o t e m q u e a s s im
c o n c l u s ã o c o n s is t e n u m a t r ib u t o p r e d i c a d o d e u m s u j e i t o . A s s i m ,
25 a p lic a r - s e - e ig u a lm e n t e t e m o u C o u G , v is t o s e r e m a f ir m a ç ã o e
10 t o d o s o s o u t r o s s i l o g i s m o s p r o d u z e m m a i s d e u m r e s u lt a d o ; p o r
n e g a ç ã o . E , t a m b é m , A s e a p lic a , ex hypothesi, o n d e C s e a p lic a .
e x e m p lo , s e fo i d e m o n s t r a d o q u e A s e a p lic a a t o d o o u a lg u m B ,
C o n se q ü e n te m e n te , G s e a p lic a a t u d o a q u e F s e a p lic a . P o r
B te m t a m b é m q u e se a p lic a r a a lg u m A , e se fo i d e m o n s t r a d o
o u t r o la d o , u m a v e z q u e u m o u o u t r o d o s t e r m o s F e B a p lic a - s e a
q u e A n ã o s e a p lic a a n e n h u m B , e n t ã o B n ã o s e a p lic a a n e ­
t u d o , e a n a lo g a m e n t e n o q u e r e s p e it a a G e D , e u m a v e z q u e G
nhum A. T ra ta -s e aqui de um a c o n c lu s ã o d if e r e n t e d a q u e la
é u m co n se q ü e n te d e F , B ta m b é m se rá u m c o n se q ü e n te d e D , d o
p r im e ir a . M a s s e A n ã o s e 'a p l i c a a a l g u m B , n ã o s e c o n c l u i q u e
q u e j á e s t a m o s c ie n t e s .235 E n t ã o , s e A é u m c o n s e q ü e n t e d e C ,
B t a m b é m n ã o s e a p lic a a a lg u m A , u m a v e z q u e p o d e s e a p lic a r
t a m b é m o é B d e D ” . M a s is s o é f a ls o , p o i s c o n s t a t a m o s q u e e m
a to d o [A ],
t e r m o s a s s im c o n s t it u íd o s o c o r r e a r e l a ç ã o c o n s e q ü e n c ia l in v e r s a .
30 A e x p l i c a ç ã o e s t á e m q u e é p r e s u m iv e lm e n t e d e s n e c e s s á r i o q u e A 15 E s t a r a z ã o , a s s i m , é c o m u m a t o d o s o s s il o g i s m o s , q u e r u n i ­

o u F s e a p liq u e m a t u d o , t a m p o u c o q u e F o u B o f a ç a m , u m a v e z v e r s a i s o u p a r t ic u la r e s . N o e n t a n t o , n o q u e t o c a a o s u n i v e r s a is , é
que F n ão é a n egação de A . A n egação d o bom é o não-bom, e p o s s ív e l t a m b é m a p re s e n t a r u m a o u t r a r a z ã o . O m e s m o s ilo g is ­
o não-bom n ã o é id ê n t ic o a o nem bom nem não-bom. O m e s m o m o v a l e r á p a r a t o d o s o s t e r m o s q u e e s t e ja m s u b o r d i n a d o s a o
v a le p a r a C e D . N o s d o i s c a s o s , d u a s n e g a ç õ e s f o r a m s u p o s t a s t e r m o m é d i o o u à c o n c l u s ã o , s e t a is t e r m o s f o r e m c o l o c a d o s r e s ­
p a r a u m te rm o . p e c t iv a m e n t e n o m é d i o e n a c o n c l u s ã o . P o r e x e m p l o : s e A B é
20 u m a c o n c lu s ã o a lc a n ç a d a p o r m e io d e C , A te rá q u e s e r p r e d i­
c a d o d e t o d o s o s te rm o s q u e e s tã o s u b o r d in a d o s a B o u C , p o is

236. Aristóteles, mais uma vez, escreve ...apxaç ( archas), que significa genericamente
princípios, fundamentos; mas ele se refere especificamente às premissas.
2 0 0 - EDIPRO A r is tó te le s - Órg ano n Ó r g a n o n —A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o II E d ip r o - 2 0 1

s e D s e e n c o n t r a r in t e ir a m e n t e c o n t i d o e m B , e B e m A , D t a m ­ v e r d a d e ir a e a o u t r a , f a ls a . A c o n c lu s ã o , e n t r e t a n t o , é necessaria­
bém e s t a r á c o n t i d o e m A . P o r o u t r o la d o , s e E e s t iv e r in t e ir a - mente v e r d a d e i r a o u f a ls a . O r a , é i m p o s s í v e l t ir a r u m a c o n c l u s ã o
25 m e n te c o n tid o e m C , e C e m A , E ta m b é m e sta rá c o n tid o e m A . f a l s a d e p r e m is s a s v e r d a d e i r a s , m a s é p o s s í v e l t ir a r u m a c o n c l u ­
O c o r r e r á c o i s a a n á l o g a s e o s il o g i s m o f o r n e g a t iv o . N a s e g u n d a s ã o v e r d a d e i r a d e p r e m is s a s f a ls a s , a p e n a s c o m a r e s s a lv a d e
f ig u r a , c o n t u d o , a in f e r ê n c ia s o m e n t e t e r á v a l i d a d e n o q u e t a n g e q u e a c o n c lu s ã o s e r á v e r d a d e ir a n ã o n o q u e s e re fe re à r a z ã o ,
à q u i l o q u e e s t e ja s u b o r d i n a d o à c o n c lu s ã o . P o r e x e m p lo , s e A m a s a o q u e s e r e f e r e a o f a t o . N ã o é p o s s í v e l e s t a b e le c e r o r a c i o -
n ã o s e a p lic a r a n e n h u m B , m a s se a p lic a r a t o d o C , a c o n c lu s ã o 10 n a l a p a r t ir d e p r e m i s s a s f a ls a s . O p o r q u e d is s o s e r á e x p o s t o n a
s e r á q u e B n ã o s e a p lic a r á a n e n h u m C . E n t ã o , se D e stá s u b o r ­ s e q ü ê n c i a .238
d i n a d o a C , é e v id e n t e q u e B n ã o s e a p l i c a a D . Q u e e le n ã o s e
E m p r im e i r o lu g a r , q u e n ã o é p o s s í v e l e x t r a i r u m a c o n c l u s ã o
a p l i c a a t e r m o s s u b o r d i n a d o s a A o s il o g i s m o n ã o d e m o n s t r a ,
f a l s a d e p r e m is s a s v e r d a d e i r a s s e t o r n a r á e v i d e n t e p e l o a r g u ­
30 e m b o r a B n ã o s e a p l i q u e a E , s e E e s t iv e r s u b o r d i n a d o a A . M a s
m e n to q u e se se g u e . S e , q u a n d o A é, B te m q u e se r, e n tã o se B
e n q u a n t o f o i d e m o n s t r a d o p e lo s ilo g is m o q u e B n ã o s e a p l i c a a
n ã o é , A n ã o p o d e s e r. P o r t a n t o , se A fo r v e r d a d e ir o , B te rá q u e
n e n h u m C , q u e B n ã o se a p lic a a A fo i s u p o s to s e m d e m o n s t r a ­
15 s e r v e r d a d e ir o : d e o u t r a m a n e ir a , c o n c lu ir ía m o s q u e a m e s m a
ç ã o , d e s o r t e q u e n ã o s e c o n c lu i , p o r f o r ç a d o s ilo g is m o , q u e B
c o is a a o m e s m o t e m p o é e n ã o é , o q u e é im p o s s ív e l. ( N ã o é d e
n ã o s e a p lic a a E .
s e s u p o r q u e p o r q u e A f o i p o s t u l a d o c o m o u m t e r m o s i n g u la r , é
N o t o c a n t e a o s s ilo g is m o s p a r t ic u la r e s , n ã o h a v e r á in f e r ê n c ia p o s s ív e l q u e q u a lq u e r in f e r ê n c i a n e c e s s á r ia s e ja e x t r a íd a de
35 n e c e s s á r ia q u a n t o a o s te rm o s s u b o r d in a d o s à c o n c lu s ã o (p o s to q u a l q u e r s u p o s i ç ã o s i n g u la r , p o i s is t o é i m p o s s í v e l . A in f e r ê n c ia
q u e n ã o r e s u lt a n e n h u m s i l o g i s m o q u a n d o e s s a p r e m i s s a é t o ­ n e c e s s á r i a é a c o n c l u s ã o , e o s m e i o s m í n i m o s p e lo s q u a i s e s t a
m a d a c o m o p a r t ic u la r ) , m a s h a v e r á u m a q u e v a l e p a r a t o d o s o s 20 p o d e s e r p r o d u z id a s ã o trê s te rm o s e d u a s r e la ç õ e s c o n e c t iv a s
t e r m o s s u b o r d i n a d o s a o m é d io , c o m a r e s s a lv a d e q u e n ã o s e r á o u p r e m is s a s . ) S e , e n t ã o , é v e r d a d e i r o q u e A s e a p l i c a a t u d o a
a l c a n ç a d a p e lo s i l o g is m o ; e x e m p lo : s e s u p o m o s q u e A s e a p l i c a q u e B s e a p lic a e q u e B s e a p lic a o n d e C s e a p lic a , A te m q u e s e
a t o d o B e a a l g u m C , v is t o q u e n ã o h a v e r á in f e r ê n c ia a l g u m a a p lic a r o n d e C s e a p l i c a e is t o n ã o p o d e s e r f a ls o - d e o u tra
q u a n t o a o q u e e s tá s u b o r d in a d o a C ; m a s h a v e r á u m a q u a n t o m a n e i r a , o m e s m o a t r ib u t o s i m u l t a n e a m e n t e s e a p l i c a r á e n ã o
a o q u e e s tá s u b o r d in a d o a B , e m b o r a n ã o g r a ç a s a o s ilo g is m o já s e a p lic a r á . A s s i m , e m b o r a A e s t e ja p o s t u l a d o c o m o u m t e r m o
40 p r o d u z i d o . O c o r r e a lg o a n á l o g o t a m b é m c o m a s d e m a i s f ig u r a s . s in g u la r , e le r e p r e s e n t a a c o n j u n ç ã o d e d u a s p r e m i s s a s . A n a l o ­
N ã o h a v e r á in f e r ê n c ia n o q u e c o n c e r n e à q u i l o q u e e s t á s u b o r d i ­ g a m e n te co m r e s p e ito ta m b é m a o s s i lo g i s m o s n e g a t iv o s - é
n a d o à c o n c lu s ã o , p o r é m h a v e rá u m a n o q u e ta n g e a o o u tro 25 im p o s s í v e l d e m o n s t r a r u m a c o n c l u s ã o f a ls a a p a r t ir d e p r e m is s a s
s u b o r d i n a d o , c o m a r e s s a lv a d e q u e n ã o g r a ç a s a o s i l o g i s m o , t a l v e r d a d e ir a s .
c o m o n o s s ilo g is m o s u n iv e r s a is o s t e r m o s s u b o r d i n a d o s a o m é ­
E p o s s ív e l t ir a r u m a c o n c l u s ã o v e r d a d e i r a d e p r e m is s a s f a ls a s
d i o s ã o d e m o n s t r a d o s , c o m o v i m o s , c o m b a s e n u m a p r e m is s a
n ã o a p e n a s q u a n d o a m b a s a s p r e m is s a s s ã o f a ls a s , c o m o t a m ­
n ã o d e m o n s t r a d a . A s s im , o u n ã o h á a p lic a ç ã o d o p r in c íp io n o
b é m q u a n d o s o m e n t e u m a é f a ls a - m a s n ã o u m a o u o u t r a i n ­
p r i m e ir o c a s o o u h á in c lu s iv e a q u i .237
d is c r i m i n a d a m e n t e - e s i m a s e g u n d a , s e t o m a d a c o m o c o m p l e -
30 t a m e n te f a ls a n a f o r m a e m q u e é a s s u m id a ; d e o u t r a m a n e ir a , a

II f a ls id a d e p o d e p e r t e n c e r a u m a o u o u t r a p r e m is s a . Q u e A s e
a p l i q u e à t o t a li d a d e d e C , m a s n ã o s e a p l i q u e a n e n h u m B , e
5 É p o s s í v e l q u e a s p r e m is s a s r e s p o n s á v e is p e l a p r o d u ç ã o d o
q u e B n ã o s e a p l i q u e a n e n h u m C . Is t o é p o s s í v e l , p o r e x e m p lo :
s ilo g is m o s e ja m a m b a s v e r d a d e ir a s , o u a m b a s f a ls a s , o u u m a
animal n ã o s e a p lic a a n e n h u m a pedra e pedra n ã o se a p lic a a
nenhum homem. S e , e n tã o , s e s u p õ e q u e A s e a p lic a a t o d o B e
237. O que o autor deseja exprimir nesta sentença não é inteiramente claro. O prová­
vel é: ou não é possível uma conclusão no que toca aos silogismos universais, ou
é possível (e ocorre) no que diz respeito aos particulares. 238. Em 57a40-b17.
2 0 2 - E d ip r o A r is tó te le s - Órg ano n Ó r g a n o n - A n a l í t i c o s A n t e r i o r e s - L iv r o II E d ip r o - 2 0 3

B a t o d o C , A s e a p l i c a r á a t o d o C . A s s i m , a c o n c l u s ã o a p a r t ir s e j a n e g a t iv a , p o i s é p o s s ív e l p a r a A a p l i c a r - s e a a l g u m B , m a s a
35 d e p r e m is s a s ( q u e s ã o a m b a s falsas) é verdadeira, já q u e to d o n e n h u m C , e p a r a B a p lic a r - s e a t o d o C , c o m o , p o r e x e m p lo ,
h o m e m é u m a n i m a l . O c o r r e a lg o a n á l o g o t a m b é m c o m o s i l o ­ 25 animal s e a p l i c a a a l g u m branco, m a s n ã o s e a p lic a a n e n h u m a
g i s m o n e g a t iv o , u m a v e z q u e é p o s s í v e l t a n t o p a r a A q u a n to neve, e n q u a n t o branco s e a p l i c a a to d a neve. S u p o n d o -se , e n ­
p a r a B n ã o s e a p lic a r e m a n e n h u m C e, n ã o o b sta n te , p a ra A tã o , q u e A n ã o s e a p lic a a n e n h u m B e B a t o d o C , A n ã o se
a p l i c a r - s e a t o d o B ; p o r e x e m p lo , s e o s m e s m o s t e r m o s a n t e r io ­ a p lic a r á a n e n h u m C . M a s s e a p r e m is s a A B , q u e é s u p o s t a , fo r
re s fo re m to m a d o s c o m homem c o m o t e r m o m é d io , u m a v e z c o m p le t a m e n t e v e r d a d e ir a , e B C fo r c o m p le t a m e n t e f a ls a , te re -
que nem animal n e m homem se a p l i c a m a a l g u m a pedra, m a s 30 m o s u m a c o n c lu s ã o v e r d a d e ir a , p o is n ã o h á r a z ã o p a r a q u e A
animal se a p l i c a a t o d o homem. A s s i m , s e é s u p o s t o q u e a q u i l o n ã o s e a p liq u e a t o d o B e a t o d o C , e n q u a n t o B n ã o se a p lic a a
40 q u e se a p lic a a t o d o n ã o s e a p lic a a n e n h u m , e q u e a q u ilo q u e n e n h u m C , c o m o o c o r r e n o q u e d i z r e s p e i t o a t o d a s a s e s p é c ie s
n ã o s e a p l i c a a p l i c a - s e a t o d o , n ã o o b s t a n t e a m b a s a s p r e m is s a s de um g ê n e r o q u e n ã o s ã o s u b o r d i n a d a s e n t r e s i, p o s t o q u e
54al se re m f a ls a s , a c o n c lu s ã o d e la s t ir a d a s e r á v e r d a d e ir a . Uma animal se a p lic a ta n to a o cavalo q u a n t o a o homem, m a s cavalo
d e m o n s t r a ç ã o s e m e lh a n t e t a m b é m p o d e s e r o b t id a s e a m b a s a s n ã o s e a p lic a a n e n h u m homem. A s s i m , s e s u p õ e - s e q u e A s e
p r e m i s s a s s u p o s t a s s ã o p a r c ia lm e n t e f a ls a s . 35 a p lic a a t o d o B , e B a t o d o C , a c o n c lu s ã o s e r á v e r d a d e ir a , e m ­

S e , e n t r e t a n t o , s o m e n t e u m a d a s p r e m is s a s f o r m u l a d a s é f a l­ b o r a a p r e m i s s a B C s e j a c o m p l e t a m e n t e f a ls a .

s a , q u a n d o a p r im e ir a , d i g a m o s A B , f o r c o m p l e t a m e n t e f a ls a , a
A n a lo g a m e n t e t a m b é m q u a n d o a p r e m is s a A B fo r n e g a t iv a ,
c o n c l u s ã o n ã o s e r á v e r d a d e ir a ; m a s q u a n d o B C fo r c o m p le t a -
p o is é p o s s ív e l q u e A n ã o se a p liq u e a n e n h u m B e a n e n h u m C
5 m e n te f a ls a , a c o n c lu s ã o p o d e r á s e r v e r d a d e ir a . Q u e ro d iz e r
e q u e B n ã o s e a p liq u e a n e n h u m C , c o m o , p o r e x e m p lo , u m
co m “ c o m p le t a m e n t e f a ls a ” a p r o p o s iç ã o c o n t r á r ia , is t o é , s e
g ê n e r o n ã o s e a p lic a à e s p é c ie d e u m o u tro g ê n e ro , u m a v e z
a q u ilo q u e n ã o s e a p lic a a n e n h u m se s u p õ e c o m o a p lic a n d o a
que animal n ã o s e a p lic a n e m à m ú s ic a n e m à m e d ic in a , n e m a
to d o , o u vice-versa. Q u e A n ã o s e a p liq u e a n e n h u m B e B a
54b1 m ú s ic a s e a p lic a à m e d ic in a . S e , e n t ã o , s u p õ e -s e q u e A n ã o se
t o d o C . E n t ã o , s e a p r e m is s a B C , q u e s u p o n h o s e r v e r d a d e i r a , e
a p lic a a n e n h u m B , m a s B s e a p lic a a t o d o C , a c o n c lu s ã o s e rá
a p r e m i s s a A B f o r c o m p l e t a m e n t e f a ls a , o u s e j a , A s e a p l i c a r a
v e r d a d e ir a .
10 t o d o B , a c o n c lu s ã o n ã o p o d e r á s e r v e r d a d e ir a , p o is , ex hypo-
thesi, A n ã o s e a p lic a a n e n h u m C , s e A n ã o s e a p lic a r a n a d a a Tam bém s e a p r e m is s a B C n ã o fo r c o m p le t a m e n t e , m a s a -
q u e B s e a p lic a e B s e a p lic a r a t o d o C . A n a lo g a m e n t e , t a m b é m , p e n a s p a r c ia lm e n t e f a ls a , a c o n c l u s ã o s e r á n o v a m e n t e v e r d a d e i -
s e A s e a p lic a r a t o d o B e B a t o d o C , e a p r e m is s a B C q u e fo i 5 r a , p o i s n ã o h á r a z ã o p a r a . A n ã o s e a p l i c a r à t o t a li d a d e t a n t o d e
s u p o s t a f o r v e r d a d e i r a , m a s a p r e m is s a A B fo r su p o sta n u m a B q u a n t o d e C , e n q u a n t o B s e a p lic a r a a lg u m C , com o, p or
f o r m a q u e s e j a c o m p l e t a m e n t e f a ls a , a s a b e r , q u e A n ã o s e a p li- e x e m p l o , o g ê n e r o s e a p l i c a t a n t o à e s p é c ie q u a n t o à s d if e r e n ­
15 c a a n a d a a q u e B s e a p l i c a , a c o n c l u s ã o s e r á f a ls a , p o i s A s e ças, u m a ve z q u e animal s e a p lic a a t o d o (c a d a ) h o m e m e a
a p l i c a r á a t o d o C s e A a p lic a r - s e a t u d o a q u e B s e a p l i c a , e B s e t u d o q u e c a m in h a , a o p a s s o q u e homem s e a p lic a a a lg u m a s
a p lic a a to d o C . C o m is s o f i c a e v id e n t e q u e , q u a n d o a p r im e ir a c o is a s q u e c a m in h a m [s o b re a te rra ], m a s n ã o a to d a s . S e s u -
p r e m i s s a s u p o s t a , q u e r a f ir m a t iv a o u n e g a t iv a , é c o m p l e t a m e n t e p õ e -s e , e n tã o , q u e A s e a p lic a a to d o B e B a to d o C , A se a p li­
f a ls a e a o u t r a p r e m i s s a é v e r d a d e i r a , a c o n c l u s ã o r e s u lt a n t e n ã o c a r á a t o d o C - o q u e , c o m o v im o s , é v e r d a d e ir o .
é v e r d a d e ir a - m a s s e r á v e r d a d e ir a s e a p r e m is s a s u p o s t a n ã o
10 O c o r r e a l g o a n á l o g o s e a p r e m is s a A B f o r n e g a t i v a , u m a v e z
f o r c o m p l e t a m e n t e f a ls a , u m a v e z q u e s e A a p lic a r - s e a t o d o C e
q u e é p o s s ív e l p a r a A n ã o s e a p lic a r a n e n h u m B e a n e n h u m C
20 a a lg u m B , e B s e a p lic a r a t o d o C , c o m o , p o r e x e m p lo , animal
e , n o e n t a n t o , p a r a B s e a p l i c a r a a l g u m C , c o m o , p o r e x e m p lo ,
se a p lic a a to d o cisne e a a lg u m branco e branco s e a p lic a a
o g ê n e r o n ã o s e a p l i c a à e s p é c ie e à s d i f e r e n ç a s d e u m o u t r o
t o d o c is n e ; e s e f o r s u p o s t o q u e A s e a p l i c a a t o d o B e B a t o d o
g ê n e r o , v is t o q u e animal n ã o se a p lic a n e m à inteligência n e m a
C , A s e a p l i c a r á a t o d o C , o q u e é v e r d a d e ir o , u m a v e z q u e t o d o
especulativo, a o p asso q u e inteligência se especu-
a p lic a a a lg u m
c is n e é u m a n im a l. O m e s m o o c o r r e t a m b é m , s u p o n d o q u e A B
A r is tó te le s - Órg ano n Ó r g a n o n —A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o II E d ip r o - 2 0 5
2 0 4 - E d ip r o

¡ativo. S e , e n t ã o , s u p õ e -s e q u e A n ã o se a p lic a a n e n h u m B e e a a lg u m negro, e cisne n ã o s e a p lic a a n e n h u m negro, de m a­


n e ir a q u e , s e f o r s u p o s t o q u e A s e a p l i c a a t o d o B e B a a l g u m
15 q u e B s e a p lic a a t o d o C , A n ã o s e a p lic a r á a n e n h u m C - o
q u e , c o m o v i m o s , é v e r d a d e ir o .
10 C , a c o n c l u s ã o s e r á v e r d a d e i r a , a i n d a q u e B C s e j a f a ls a .

A n a l o g a m e n t e , t a m b é m , s e a p r e m i s s a A B f o r n e g a t iv a , u m a
No q u e t o c a a o s s ilo g is m o s p a r t ic u la r e s , é p o s s í v e l q u e a
v e z q u e é p o s s í v e l p a r a A n ã o s e a p l i c a r a n e n h u m B e a a lg u m
c o n c l u s ã o s e j a v e r d a d e i r a t a n t o [ 1 ] q u a n d o a p r im e ir a p r e m is s a
fo r c o m p le t a m e n t e f a ls a e a o u tr a fo r v e r d a d e ir a q u a n t o [2 ] C , e n q u a n t o B n ã o s e a p lic a a n e n h u m C , c o m o , p o r e x e m p lo ,
u m g ê n e r o n ã o s e a p l i c a a u m a e s p é c ie d e u m o u t r o g ê n e r o e
q u a n d o a p r im e ir a p r e m is s a f o r p a r c ia lm e n t e f a ls a e a o u t r a f o r
20 v e r d a d e i r a ; e [ 3 ] q u a n d o a p r im e ir a f o r v e r d a d e i r a e a s e g u n d a
15 ani­
n ã o s e a p l i c a a a l g u m a c i d e n t e d e s u a p r ó p r i a e s p é c ie , p o i s

p a r c i a l m e n t e f a ls a ; e , a i n d a , [ 4 ] q u a n d o a m b a s f o r e m f a ls a s .
mal n ã o s e a p l i c a a n e n h u m número e n ã o s e a p l i c a a a l g u m
branco, e número n ã o s e a p l i c a a n e n h u m branco. A s s i m , s e
[1 ] P o is n ã o h á r a z ã o p a r a q u e A n ã o s e a p liq u e a n e n h u m
número f o r t o m a d o c o m o o t e r m o m é d io , e s e s u p o r q u e A n ã o
B, m a s s e a p l i q u e a a l g u m C , e n q u a n t o B s e a p l i c a a a lg u m C ,
s e a p l i c a a n e n h u m B e B a a l g u m C , A n ã o s e a p l i c a r á a a lg u m
c o m o , p o r e x e m p lo , animal n ã o s e a p lic a a n e n h u m a neve, m as
C - o q u e , c o m o v im o s , é v e r d a d e ir o . A p r e m is s a A B é v e r d a ­
a a lg u m branco, e n e v e s e a p l i c a a a lg u m branco. S u p o n d o , d e i r a e B C é f a ls a .
e n tã o , q u e neve s e j a f o r m u la d o c o m o o t e r m o m é d io e animal
25 c o m o o p r im e ir o e s e a s s u m a q u e A s e a p l i c a à t o t a lid a d e d e B e
20 [4 ] A c o n c lu s ã o p o d e ta m b é m s e r v e r d a d e ir a s e A B fo r p a r ­
c ia l m e n t e f a l s a e B C fo r ta m b é m f a ls a , u m a v e z q u e n ã o h á
B a a lg u m C , A B s e r á c o m p l e t a m e n t e f a ls a , m a s B C v e r d a d e i r a
r a z ã o p a r a q u e A n ã o s e a p li q u e a a l g u m B e a a lg u m C , e n ­
e a c o n c lu s ã o s e r á v e r d a d e ir a . A l g o a n á lo g o o c o rre ta m b é m
q u a n d o a p r e m is s a A B f o r n e g a t iv a , u m a v e z q u e é p o s s í v e l p a r a q u a n t o B n ã o s e a p lic a a n e n h u m C ; p o r e x e m p lo , s e B é c o n ­

A a p lic a r - s e a o t o d o d e B e n ã o s e a p lic a r a a lg u m C e, n ão
t r á r io a C e a m b o s s ã o a c id e n t e s d o m e s m o g ê n e r o , p o i s animal
30 o b s t a n t e , p a r a B s e a p l i c a r a a lg u m C , c o m o , p o r e x e m p l o , ani­ se a p lic a a a lg u m branco e a l g u m negro, m a s branco n ã o s e
mal se a p lic a a to d o homem, m a s não é um co n se q ü e n te d e
25 a p lic a a n e n h u m negro. A s s i m , c a s o s e s u p o n h a q u e A s e a p l i c a
a t o d o B , e B a a l g u m C , a c o n c l u s ã o s e r á v e r d a d e i r a e , a s s im ,
a lg u m branco, e homem s e a p l i c a a a lg u m branco, d e so rte q u e
t a m b é m , s e a p r e m is s a A B f o r t o m a d a c o m o n e g a t iv a , p o i s o s
se homem f o r p o s t u la d o c o m o o t e r m o m é d io e s u p o r - s e q u e A
te rm o s s e r ã o o s m e s m o s e s e r ã o p o s t u la d o s n a m e s m a r e la ç ã o
n ã o s e a p lic a a n e n h u m B e B s e a p lic a a a lg u m C , a c o n c lu s ã o
p a r a e f e it o d a d e m o n s t r a ç ã o .
s e r á v e r d a d e i r a , a i n d a q u e a p r e m is s a A B s e j a c o m p l e t a m e n t e
f a ls a . A c o n c lu s ã o t a m b é m p o d e s e r v e r d a d e i r a q u a n d o a m b a s a s
30 p r e m is s a s s ã o f a ls a s , p o i s é p o s s ív e l p a r a A n ã o s e a p l ic a r a n e ­
35 [ 2 ] T a m b é m s e a p r e m i s s a A B f o r p a r c ia lm e n t e f a ls a , a c o n ­
n h u m B , m a s s e a p li c a r a a lg u m C , e n q u a n t o B n ã o s e a p li c a a
c l u s ã o p o d e r á s e r v e r d a d e ir a , p o i s n ã o h á r a z ã o p a r a q u e A n ã o
n e n h u m C , c o m o , p o r e x e m p lo , u m g ê n e r o n ã o s e a p li c a a u m a
s e a p l i q u e t a n t o a a l g u m B q u a n t o a a lg u m C , e n q u a n t o B s e
e s p é c ie d e o u t r o g ê n e r o , m a s s e a p lic a a u m a c id e n t e d e s u a p r ó ­
a p l i c a a a l g u m C , c o m o , p o r e x e m p lo , animal se a p lic a a a lg u m
belo e a a lg u m grande, e belo s e a p lic a a a lg u m grande. A s s im ,
p r ia e s p é c ie ; animal n ã o s e a p li c a a nenhum número, m a s s e a p l i­

s e s u p o r m o s q u e A s e a p l i c a a t o d o B , e B a a l g u m C , a p r e m is - c a a a lg u m branco e número n ã o s e a p l ic a a n e n h u m branco.


55a 1 s a A B s e r á p a r c ia lm e n t e f a ls a , m a s B C s e r á v e r d a d e i r a e a c o n ­ A s s im , s e s u p õ e - s e q u e A s e a p l ic a a t o d o B e B a a lg u m C , a c o n -

c l u s ã o s e r á v e r d a d e ir a . A n a l o g a m e n t e , t a m b é m , s e a p r e m is s a 35 c lu s ã o s e r á v e r d a d e ir a , e m b o r a a m b a s a s p r e m is s a s s e j a m f a ls a s .

A B f o r n e g a t iv a , v is t o q u e o s t e r m o s s e r ã o o s m e s m o s e e s t a r ã o É a in d a a n á lo g o , t a m b é m , s e A B fo r n e g a t iv a , p o r q u e n ã o h á
lig a d o s d a m e s m a fo r m a c o m v is t a à d e m o n s t r a ç ã o . r a z ã o p a r a q u e A n ã o s e a p l iq u e a o t o d o d e B e , n ã o o b s t a n t e ,

5 [ 3 ] D e n o v o , s e A B f o r v e r d a d e i r a e B C f a ls a , a c o n c l u s ã o n ã o se a p liq u e a a lg u m C , e n q u a n t o B n ã o s e a p lic a a n e n h u m

p o d e r á s e r v e r d a d e ir a , p o i s n ã o h á r a z ã o p a r a q u e A n ã o se C , c o m o , p o r e x e m p lo , animal s e a p lic a a t o d o cisne, m a s n ã o se

a p l iq u e à t o t a lid a d e d e B e a a lg u m C , e n q u a n t o B n ã o s e a p l i c a a p lic a a a lg u m negro, e n q u a n to cisne n ã o se a p lic a a n e n h u m

a n e n h u m C , c o m o , p o r e x e m p lo , animal a p lic a - s e a t o d o cisne n e g r o ; d e s o rte q u e u m a v e z s e s u p o n h a q u e A n ã o se a p lic a a


A r is tó te le s - Órg ano n Ó r g a n o n - A n a l í t i c o s A n t e r i o r e s - L iv r o II E d ip r o - 2 0 7
2 0 6 - E d ip r o

55b i n e n h u m B e q u e B s e a p l i c a a a l g u m C , A n ã o s e a p l i c a a a lg u m Ig u a lm e n t e , t a m b é m , s e u m a p r e m i s s a f o r p a r c i a lm e n t e f a l s a
C . A s s i m , a c o n c l u s ã o é v e r d a d e i r a , a d e s p e it o d a s p r e m is s a s e a o u t r a c o m p le t a m e n t e v e r d a d e ir a , u m a v e z q u e é p o s s ív e l
s e r e m f a ls a s . 25 p a r a A a p l i c a r - s e a a lg u m B e a t o d o C , e n q u a n t o B n ã o s e a p l i ­
c a a n e n h u m C , c o m o , p o r e x e m p lo , animal s e a p lic a a a lg u m
branco e a to d o corvo, e branco n ã o se a p lic a a n e n h u m corvo.
A s s im , se s u p o m o s q u e A n ã o s e a p lic a a n e n h u m B , m a s se
III a p l i c a a o t o d o d e C , a p r e m is s a A B s e r á p a r c ia l m e n t e f a ls a e A C

N a f i g u r a m e d i a n a é p o s s ív e l a l c a n ç a r u m a c o n c l u s ã o v e r d a ­ s e r á c o m p le t a m e n t e v e r d a d e ir a , b e m c o m o a c o n c lu s ã o . A n a lo -

d e i r a m e d ia n t e p r e m is s a s f a ls a s e m t o d a s a s c o m b i n a ç õ e s , quais 30 g a m e n t e , t a m b é m , se a n e g a t iv a fo r tr a n s p o s ta , u m a v e z q u e a

5 sejam, s e a m b a s a s p r e m is s a s f o r e m c o m p l e t a m e n t e f a ls a s , s e d e m o n s tr a ç ã o s e rá e fe tu a d a a tra v é s d o s m e s m o s te rm o s. E ta m ­

c a d a u m a f o r p a r c ia lm e n t e f a ls a , s e u m a f o r v e r d a d e i r a e a o u t r a b é m s e a p r e m i s s a a f i r m a t iv a f o r p a r c i a l m e n t e f a ls a e a n e g a t i v a

{ c o m p l e t a m e n t e } f a ls a ( s e ja u m a o u o u t r a a f a ls a ) , { s e a m b a s c o m p le t a m e n t e v e r d a d e ir a , p o r q u e não h á ra zã o p a ra q u e A

f o r e m p a r c ia lm e n t e f a ls a s , s e u m a f o r a b s o lu t a m e n t e v e r d a d e i r a n ã o se a p liq u e a a lg u m B e , n ã o o b s ta n te , n ã o s e a p liq u e d e

10 e a o u t r a p a r c ia lm e n t e f a ls a e s e u m a f o r c o m p l e t a m e n t e f a ls a e m o d o a lg u m a C , e n q u a n t o B n ã o s e a p lic a a n e n h u m C , c o m o ,

a o u t r a p a r c ia lm e n t e v e r d a d e i r a } 239 - ta n to n o que to ca a o s p o r e x e m p lo , a n i m a l s e a p l i c a a a lg u m b r a n c o , m a s n ã o s e a p li -

s i l o g i s m o s u n iv e r s a is q u a n t o a o s p a r t ic u la r e s . 35 c a a n e n h u m a r e s in a e b r a n c o n ã o s e a p l i c a a n e n h u m a r e s i n a -
d e s o rte q u e , s e s u p o r m o s q u e A s e a p lic a a o t o d o d e B , m a s
S e A n ã o s e a p lic a a n e n h u m B , m a s s e a p lic a a t o d o C , c o ­
n ã o se a p lic a a n e n h u m C, AB s e r á p a r c ia lm e n t e f a ls a e A C
m o , p o r e x e m p lo , animal n ã o s e a p lic a a n e n h u m a pedra , m as
c o m p l e t a m e n t e v e r d a d e ir a , b e m c o m o a c o n c lu s ã o .
s e a p lic a a to d o cavalo, s e a s p r e m is s a s f o r e m t o m a d a s n o s e n t i­
d o c o n t r á r io e s e s u p o r q u e A s e a p l i c a a t o d o B , m a s n ã o s e A c o n c lu s ã o p o d e ta m b é m s e r v e r d a d e ir a se a m b a s a s p re ­

a p lic a a n e n h u m C - a i n d a q u e a s p r e m is s a s s e j a m c o m p le t a ­ m i s s a s f o r e m p a r c i a lm e n t e f a ls a s , u m a v e z q u e é p o s s í v e l p a r a A

m e n t e f a ls a s a c o n c l u s ã o a p a r t ir d e la s p o d e s e r v e r d a d e ir a . a p lic a r - s e a a lg u m ta n to d e B c o m o d e C , e n q u a n t o B n ã o se

A n a lo g a m e n t e , ta m b é m , s e A s e a p lic a a t o d o B , m a s n ã o se 56a1 a p lic a a n e n h u m C , c o m o , p o r e x e m p lo ,animal s e a p l i c a a a l ­


15 a p l i c a a n e n h u m C , u m a v e z q u e o b t e r e m o s o m e s m o s ilo g is m o . gum branco e a a l g u m negro, m a s branco n ã o s e a p l i c a a n e ­
n h u m negro. A s s i m , s e s u p o r m o s q u e A s e a p l i c a a t o d o B , m a s
O m e s m o o c o r re s e u m a p r e m is s a fo r c o m p le t a m e n t e f a ls a e
n ã o s e a p lic a a n e n h u m C , a m b a s a s p r e m is s a s s e r ã o p a r c i a l ­
a o u t r a c o m p le t a m e n t e v e r d a d e ir a , p o r q u e n ã o h á r a z ã o p a r a
m e n t e f a ls a s , m a s a c o n c l u s ã o s e r á v e r d a d e ir a . A l g o a n á l o g o ,
q u e A n ã o s e a p liq u e a o t o d o t a n t o d e B q u a n t o d e C , e n q u a n t o
t a m b é m , s e a p r e m is s a n e g a t iv a fo r tr a n s p o s ta , a d e m o n s t r a ç ã o
B n ã o s e a p l i c a a n e n h u m C , c o m o , p o r e x e m p lo , u m g ê n e r o s e
s e n d o f e it a p o r m e i o d o s m e s m o s t e r m o s .
20 a p l i c a à e s p é c ie n ã o s u b o r d i n a d a , p o i s animal a p lic a - s e t a n to a
to d ocavalo q u a n t o a to d o homem, e nenhum homem é um 5 É e v id e n t e q u e o m e s m o t a m b é m é v á l i d o p a r a o s s i lo g i s m o s

cavalo. A s s i m , c a s o s e s u p o n h a q u e a n im a l se a p lic a a o t o d o d e p a r t ic u la r e s , p o i s n ã o h á r a z ã o p a r a q u e A n ã o s e a p l i q u e a t o d o

u m a m e s m a e s p é c ie e a n e n h u m d a o u t r a e s p é c ie , u m a p r e m i s ­ B e a a lg u m C , e n q u a n t o B n ã o se a p lic a a a lg u m C , c o m o , p o r

sa se rá c o m p le t a m e n t e v e r d a d e ir a e a o u tra c o m p le t a m e n t e e x e m p lo , animal s e a p lic a a t o d o homem e a a l g u m branco, m a s


f a l s a , e a c o n c l u s ã o s e r á v e r d a d e i r a , s e m q u e im p o r t e a q u a i s homem n ã o s e a p lic a r á a a lg u m branco. A s s i m , s e t o m a r m o s A
d o s t e r m o s s e r e f ir a a n e g a t iv a . c o m o n ã o s e a p lic a n d o a n e n h u m B , m a s s e a p lic a n d o a a lg u m
10 C , a p r e m i s s a u n i v e r s a l s e r á c o m p l e t a m e n t e f a ls a , m a s a p r e m i s ­
s a p a r t ic u la r s e r á v e r d a d e i r a , o m e s m o o s e n d o a c o n c l u s ã o .

A s it u a ç ã o s e r á a n á lo g a t a m b é m s e a p r e m is s a A B fo r t o m a ­
239. W. D. Ross desconsidera as porções textuais entre chaves. Não há dúvida que
d a c o m o a f ir m a t i v a , p o i s é p o s s ív e l p a r a A n ã o s e a p l i c a r a n e ­
esta passagem é suspeita e que o elenco apresentado não é totalmente correto.
Hugh Tredennick também o ressalta. n h u m B e n ã o s e a p lic a r a a lg u m C , e p a r a B n ã o se a p lic a r a
2 0 8 - E d ip r o A r is tó te le s - Órg ano n Ó r g a n o n - A n a lí t ic o s A n t e r i o r e s - L iv r o II E d ip r o - 2 0 9

a lg u m C , c o m o , p o r e x e m p lo , animal n ã o s e a p l i c a a n e n h u m q u e n ã o é u m c o n s e q ü e n t e d e a lg u m C , a s p r e m is s a s s e r ã o f a l­
15 inanimado e n ã o s e a p l i c a a a lg u m branco, e inanimado n ã o s e s a s , m a s a c o n c lu s ã o s e r á v e r d a d e ir a .
a p lic a r á a a lg u m branco. A s s i m , s e A é a s s u m id o c o m o se a p li­
c a n d o a to d o B e n ã o e a p lic a n d o a a lg u m C , a p r e m is s a u n i v e r ­
IV
s a l A B s e r á c o m p l e t a m e n t e f a ls a , m a s A C s e r á v e r d a d e i r a , c o m o
o s e r á t a m b é m a c o n c lu s ã o . 5 N a ú lt im a f ig u r a t a m b é m s e r á p o s s í v e l a l c a n ç a r u m a c o n c l u ­
s ã o v e r d a d e i r a p o r m e i o d e p r e m i s s a s f a ls a s [ n a s s e g u in t e s s it u a ­
O m e s m o o c o r r e r á s e a p r e m is s a u n iv e r s a l f o r v e r d a d e i r a e a ç õ e s ] : [ 1 ] q u a n d o a m b a s a s p r e m is s a s s ã o c o m p l e t a m e n t e f a ls a s ,
20 p r e m is s a p a r t ic u la r f o r f a ls a , p o r q u e n ã o h á r a z ã o p a r a q u e A [2 ] quando c a d a u m a d e la s é p a r c i a l m e n t e f a ls a , [ 3 ] q u a n d o
n ã o s e ja u m c o n s e q ü e n te d e n e n h u m d e B o u C , e n q u a n t o B u m a é c o m p le t a m e n t e v e r d a d e ir a e a o u t r a c o m p le t a m e n t e f a l­
n ã o s e a p l i c a a a lg u m animal n ã o s e
C , c o m o , p o r e x e m p lo ,
s a , [ 4 ] q u a n d o u m a é p a r c ia l m e n t e f a l s a e a o u t r a c o m p l e t a m e n ­
a p lic a a n e n h u m número ou coisa inanimada e número n ã o é te v e r d a d e ir a e vice-versa e e m t o d a s a s d e m a is c o m b in a ç õ e s
u m c o n s e q ü e n t e d e a lg u m a s coisas inanimadas. A s s i m , s e A f o r p o s s í v e i s d a s p r e m is s a s .
t o m a d o c o m o n ã o s e a p lic a n d o a n e n h u m B , m a s s e a p lic a n d o
10 [1 ] P o is n ã o h á n e n h u m a r a z ã o , e m b o r a n e m A n e m B se a -
a a l g u m C , a c o n c l u s ã o e a p r e m is s a u n i v e r s a l s e r ã o v e r d a d e i ­
p liq u e a a lg u m C , p a r a q u e A n ã o se a p liq u e a a lg u m B , c o m o ,
r a s , a i n d a q u e a p r e m is s a p a r t ic u la r s e j a f a ls a .
p o r e x e m p lo , n e m h o m e m n e m “ a q u ilo q u e p is a s o b r e a te rr a ” é
25 A n a l o g a m e n t e , t a m b é m , s e a p r e m is s a u n i v e r s a l f o r t o m a d a um co n se q ü e n te de q u a lq u e r c o is a in a n im a d a , não o b sta n te
c o m o a f ir m a t iv a , u m a v e z q u e é p o s s ív e l p a r a A a p l i c a r - s e a o hom em s e a p l iq u e a a l g u m a s c o i s a s q u e p i s a m s o b r e a te rra .
t o d o t a n t o d e B q u a n t o d e C e , a i n d a a s s im , p a r a B n ã o s e r u m A s s i m , s e s u p o r m o s q u e A e B s e a p l i c a m a t o d o C , a s p r e m is s a s
c o n s e q ü e n t e d e a l g u m C , c o m o , p o r e x e m p lo , o g ê n e r o s e a p l i ­ s e r ã o c o m p l e t a m e n t e f a ls a s , m a s a c o n c l u s ã o s e r á v e r d a d e i r a .
c a à e s p é c ie e à s d if e r e n ç a s , u m a v e z q u e animal s e a p lic a a A n a l o g a m e n t e , t a m b é m , s e u m a p r e m is s a f o r n e g a t i v a e a o u t r a
to d o homem e a t u d o “ a q u ilo q u e p is a s o b r e a t e rr a ” , m a s ho­ 15