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LÍRICA TROVADORESCA EM LÍNGUA PORTUGUESA.

EXERCÍCIOS ECDÓTICOS

NUNO FERNÁNDEZ TORNEOL

168 (A79; B182a; 106,3)

Ai, mià senhor!, u nom jaz al


haverei mui ced’ a morrer,
pois vosso bem nom poss’ haver;
mais direi-vos do que m’ é mal:

de que seredes, mià senhor


fremosa, de mim pecador.

E praz-me, se Deus me perdom,


de morrer, pois ensandeci
por vós, que eu por meu mal vi;
mais pesa-me de coraçom

de que seredes, mià senhor


fremosa, de mim pecador.

E de morrer m’ é mui gram bem,


ca nom poss’ eu mais endurar
o mal que mi_Amor faz levar;
mais pesa-me mais d’ outra rem

de que seredes, mià senhor


fremosa, de mim pecador.

169 (A80; B183a; 106,14)

Pois naci nunca vi Amor,


e ouço del sempre falar;
pero sei que me quer matar;
mais rogarei a mià senhor

que me mostr’ aquel matador


ou que m’ ampare del melhor.

Pero nunca lh’ eu fige rem


por que m’ el haja de matar;
mais quer’ eu mià senhor rogar,
pola gram coita1 ‘m que me tem,

1 A lição de B é melhor. A construção "tẽer em coita" é habitual. "Tẽer em medo" não se conhece.
que me mostr’ aquel matador
ou que m’ ampare del melhor.

Nunca me lh’ eu ampararei


se m’ ela del nom amparar;
mais quer’ eu mià senhor rogar,
polo gram medo que del hei,

que me mostr’ aquel matador


ou que m’ ampare del melhor.

E, pois Amor há sobre mi


de me matar tam gram poder,
e eu no-no posso veer,
rogarei mià senhor assi:

que me mostr’ aquel matador


ou que m’ ampare del melhor.

170 (A81; B184a; 106,15)

Preguntam-me por que ando sandeu,


e nom lhe-lo quer’ eu já mais negar;
e, pois me deles nom poss’ amparar
nem me leixam encobrir com meu mal,
direi-lhes eu a verdad’ e nom al.

Direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi;

nem2 mais fremosa, lhes direi de pram


(ca lhes nom quero negar nulha rem
de mià fazenda, ca lhes quero bem),
nem pola que hoj’ eu sei mais de prez;
e, se m’ ar-preguntarem outra vez,

direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.

E Deu-lo sabe quam grav’ a mim é


de lhes dizer o que sempre neguei;
mais, pois me coitam, dizer-lhe-la-ei
a meus amigos (e a outros nom)
mui gram verdade, se Deus me perdom.

Direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.

2 "Nem" equivale a "e" aqui.


E, se a eles virem, creerám
ca lhes dig’ eu verdad’, u al nom há,
e leixar-m’-am de me preguntar já;
e, se o nom ar-quiserem fazer,
querer-lhes-ei a verdade dizer.

Direi-lhes ca ensandeci
pola melhor dona que vi.

171 (B185a; 106,6)

Assi me trag’ ora coitad’ Amor


que nunca lh’ home vi trager tam mal,
e vivo com el ũa vida tal
que já mià morte seria melhor.

Nostro Senhor nom me leixe3 viver


se estas coitas nom hei a perder!

E pera qual terra lh’ eu fugirei?


Log’ el saberá mandado de mi
ali u for; e, pois me tever i
em sa prisom, sempr’ eu esto direi:

Nostro Senhor nom me leixe viver


se estas coitas nom hei a perder!

E a mim faz hoj’ el maior pesar


de quantos outros seus vassalos som;
e a este mal nom lh’ hei defensom,
ca u m’ em poder tem4 quer-me matar.

Nostro Senhor nom me leixe viver


se estas coitas nom hei a perder!

PERO GARCIA BURGALÊS

172 (A82; B186a; 125,8)

De quantos mui coitados som


a que Deus coita faz haver,
mim faz mais coitado viver;
e direi-vos per qual razom:
faz-me querer bem tal senhor:
a mais fremosa nem melhor
do mund’, e nom mi_a faz veer.
3 É impensável o trovador atuar Deus. Além disso, não se dirige a Deus nas estrofes. Cf. A72/B185: "nem Deus, senhor, nom me leixe viver".
4 No manuscrito a construção é "u me tem em poder", também válida mas que faz o verso hipermétrico.
E dá-me tal coita que nom
sei de mim conselho prender;
e fez-me já pavor perder
de mià mort’ há i gram sazom,
ond’ ant’ havia gram pavor.
Veed’ ora se há maior
coita no mundo de sofrer!

E nunca me Deus quis guisar,


por5 quanto cuidado prendi
u cuidei al, de6 cuidar i
em como podess’ acabar
do que querria nulha rem;
mais cuid’ em quanto mal me vem,
cativ’!, e mal dia naci!

E, quant’ hoj’ ést’ a meu cuidar,


bem per-sei eu ca nom há i
coita maior da7 que a mi
faz mià mort’ ora desejar;
pero nom querria porém
morrer se cuidass’ haver bem
da que por meu mal dia vi.

173 (A83; B187a; 125,35)

Pois contra vós nom me val, mià senhor,


de vos servir nem de vos querer bem
(maior ca mim, senhor, nem outra rem),
valha-me já contra vós a maior
coita (que sofro por vós) das que Deus
fezo no mund’, ai lume destes meus
olhos e coita do meu coraçom!

E, se me contra vós nom val, senhor,


a mui gram coita que me por vós vem
(per que perdi o dormir e o sem),
valha-me já contra vós o pavor
que de vós hei, que8 nunc’ ousei dizer
a coita que me fazedes haver,
que neguei sempr’ há i mui gram sazom.

E, se m’ esto contra vós, mià senhor,


nom val, quer’ eu a Deus rogar porém
que me valha (que vos em poder tem,
5 No manuscrito "em". A preposição correta semelha "por". A construção "por quanto" é a que se utiliza em português antigo para exprimir oposição entre algo
que se dá com frequência e algo que se dá pouco ou nunca. Cf. p.ex. A11/B101: "nunca del prix, por quanto mal eu por el prendo, nem um bem".
6 No manuscrito "em". Mas com o verbo "guisar" rege sempre a preposição "de".
7 No manuscrito "das". Mas deve concordar com a forma verbal "faz".
8 Consecutiva (tal pavor hei de vós que nunca ousei...).
e que vos fez, das do mundo, melhor
falar, senhor, e melhor parecer);
e, se m’ esto contra vós nom valer,
nom me valrá log’ i se morte nom.

174 (A84; B188a; 125,7)

Cuidava-m’ eu que amigos havia


muitos no mundo; mais, mao pecado!,
nom hei amigos; ca, pois tam coitado
jaço morrend’, alguém se doeria
de mim, que moir’ e nom ouso dizer
o de que moir’ a quem9 me faz morrer
(nom lho dig’ eu nem por mim home nado).

E os amigos em que m’ atrevia,


de que me tenh’ em al por ajudado,
nom lho dizem; mais, se tam acordado10
foss’ algum deles, bem mi_ajudaria
se lho dissess’, e nunca i perder
podia rem, e poderia_haver
mi, per esto, tolheito d’ um cuidado.

Mais aquest’ é cousa mui desguisada;


ca nom sei eu quem tal poder houvesse,
pois mià senhor visse, que lhe soubesse
dizer qual coita, poi-la vi, mi_há dada;
ca, pois que viss’ o seu bom parecer,
haver-lh’-ia log’ eu d’ escaecer
e dizer-x’ ante por si (se podesse).

E bem cuid’, aquant’ é meu conhocer,


que, pois foss’ u a podesse veer,
que rem do meu nem do seu nom dissesse.

175 (A85; B189a; 125,38)

Qual dona Deus fez melhor parecer,


e que fezo, de quantas outras som,
falar melhor e em melhor razom
(e com tod’ esto11 melhor prez haver),
e mais mansa das que eu nunca vi,
aquesta fezo desejar a mi
Deus por jamais nunca coita perder.

9 A lição de B é melhor, mudando a copulativa "e" por "a", considerando que o trovador exprime na cantiga a impossibilidade de dizer a sua coita à sua senhor e
não de dizê-la a qualquer outra pessoa (cf. as estrofes seguintes: "não lho dizem", "que lhe soubesse dizer"). Aliás, se não for assim não faria sentido a
continuação "nem por mim home nado".
10 Decidido, determinado.
11 Há melhor prez pois fala melhor e em melhor razom.
Nom me fez Deus tal dona bem querer,
nem mi_a mostrou, se por aquesto nom:
por haver eu e-no meu coraçom
mui grave coita já mentr’ eu viver.
Porém, cativo!, mal dia naci
que viverei (mentr’ eu viver) assi
por que-no nunca per mim há saber.

Nem já per outre no-no saberá;


ca eu a outre nunca o direi,
per bõa fé, mais atanto farei:
negar-lh’-ei sempr’ atá que moira já;
e, se12 mi_o hom’ adevinhar puder,
e pois a vir, e tal esforç’ houver
que lh’ ouse rem dizer, por si dirá;

ca bem sei eu, u outra rem nom há,


que tal esforç’ haverá qual eu hei
quando a vejo, que per rem nom sei
que lh’ i dizer. E el assi fará,
se per ventura lhe dizer quiser
algũa rem: ali u estever
ant’ ela todo lh’ escaecerá;

ca, pois vir, assi Deus a mi perdom,


o seu fremoso parecer entom,
Demo x’ o lev’ o que lh’ al nembrará!

176 (A86; B190; 125,52)

Senhor, per vós sõo maravilhado


porque vos pesa de vos bem querer;
e a Deus devo muit’ a gradecer
porque mi_a esto, senhor, há chegado:
que vos vejo por vos preguntar ém
e por vos ar-dizer log’ outra rem:
ca vos nom quero bem pelo meu grado.

Mais, mià senhor, fui desaventurado,


u me vos Deus fez primeiro veer,
que me nom fez log’ i morte prender;
ca per aquesto fora eu guardado
(ou por perder, senhor, entom o sem),
ca nom temera_a vós despois nem quem
hei a temer por vós, mao pecado!

E, mià senhor, por Deus (que mais loado


fez vosso prez pelo mundo seer

12 A conjunção "se" aplica-se às 3 orações seguintes: "se mi_o home adevinhar puder, e (se) pois a vir, e (se) tal esforç’ houver..."
e vós das outras donas mais valer),
pois eu, cativo, desaconselhado,
se-no meu grado vos quero gram bem,
dizede-me: por que vos pesa ém,
quand’13 eu, senhor (que mal dia fui nado)

nom atendo de vós (por que me vem


muito de mal) mentr’ eu viver porém14
se nom desej’ e afám e cuidado?

177 (A87; B191; 125,2)

Ai eu, coitad’!, e por que vi


a dona que por meu mal vi?;
ca, Deu-lo sabe, poi-la vi
nunca já mais prazer ar-vi,
per bõa fé, u a nom vi;
ca, de quantas donas eu vi,
tam bõa dona nunca vi

(tam comprida de todo bem),


per bõa fé: esto sei bem.
Se Nostro Senhor me dé bem
dela!, que eu quero gram bem,
per bõa fé; nom por meu bem,
ca, pero que lh’ eu quero bem,
nom sabe ca lhe quero bem;

ca lho nego po-la veer;


pero no-na posso veer!;
mais Deus, que mi_a fezo veer,
rog’ eu que mi_a faça veer;
e, se mi_a nom fezer veer,
sei bem que nom posso veer
prazer nunca se-na veer;

ca lhe quero melhor ca mi;


pero no-n’ há saber15 per mi
a que eu vi por mal de mi,

nem outre, já mentr’ eu o sem


houver; mais, se perder o sem,
direi-o com míngua de sem;

ca vedes que ouço dizer:


que míngua de sem faz dizer

13 Valor condicional: se, uma vez que.


14 Por vos querer gram bem.
15 Nos manuscritos claramente "no-no sabe"; mas não concorda com o começo da segunda finda, que exige o futuro: "nem (o há saber per mi) outre já mentr’ eu
o sem houver". Cf. A56/B167bis: "nunca o per mim há saber".
a hom’ o que nom quer dizer.

178 (A88; B192; 125,48)

Se eu soubess’, u eu primeiro vi
a mià senhor e meu lum’ e meu bem,
que tanto mal me verria porém
como me vem, guardara-me log’ i
de a veer, amigos; pero sei
ca nunca vira, nem vi, nem verei,
tam fremosa dona com’ ela vi.

Mais, amigos, mal dia foi por mi,


pois me por ela tam gram coita vem
que bem mil vezes no dia me tem,
meus amigos, desjuïgad’ assi
que nem um sem nem sentido nom hei,
e quand’ acordo16, amigos, nom sei
nem um conselho pois haver de mi.

Em tal coita qual m’ oídes dizer


me tem, amigos, se Deus me perdom,
des que a vi (que nom visse!); ca nom
vi nunca dona tam bem parecer
nem tam fremoso, nem tam bem falar.
Por tal dona qual m’ oídes contar
moir’ eu, e nom lhe posso rem dizer.

Ca, se a poss’ algũa vez veer,


quanto cuid’ ante no meu coraçom
que lhe direi escaece-m’ entom;
ca mi_o faz ela tod’ escaecer:
tanto a vejo fremoso falar
e parecer, amigos, que nembrar
nom me posso se nom de a veer.

E, se me Deus quisesse dar seu bem


dela, já lh’ eu quitaria porém
seu Paraís’ e outro bem-fazer17.

179 (A89; B193; 125,40)

Que alongad’ eu ando d’ u iria


se eu houvesse guisado d’ ir i
que viss’ a dona que veer querria!
(que nom visse!, ca por meu mal a vi);
de que m’ eu mui sem meu grado parti
16 Quando me torna o juízo.
17 Livraria-o de me dar Paraíso ou outra recompensa.
e mui coitad’, e foi-s’ ela sa via
e fiquei eu, que mal dia naci.

E que preto que mi_a mim d’ ir seria


u ela é (pero long’ é d’ aqui)
se soubesse que veer poderia
ela (que eu por meu mal dia vi,
ca de-lo dia ‘m que a conhoci
sempre lhe quige melhor toda via
e nunca dela nem um bem prendi).

Nom lh’ ousei sol dizer como morria


por ela, nem lho diz outre por mi;
e com mià morte já me prazeria,
pois nom vej’ ela, que por meu mal vi;
ca mais val morte que viver18 assi
com’ hoj’ eu viv’; e Deus, que mi_a podia
dar, nom mi_a dá, nem al que lh’ eu pedi;

e por qualquer destas19 me quitaria


de mui gram coita que sofr’ e sofri
por ela, que eu vi (por meu mal dia)
mais fremosa de quantas donas vi.
Direi-a já, ca já ensandeci:
Joana ést’, ou Sancha, ou Maria,
a por que eu moir’ e por que perdi

o sem; e mais vos end’ ora diria:


Joám Cõelho sabe que é ‘ssi.

180 (A90; B194; 125,53)

Senhor, queixo-me com pesar


grande que hei de20 que vos vi,
e gram dereito per-faç’ i;
e mais me devia queixar

eu desse vosso parecer


que tanto mal me faz haver.

E queixo-me dos olhos meus


porend’, assi Deus me dé bem.
Com medo nom me21 vos queix’ ém,
mià senhor, nem me queix’ a Deus

eu desse vosso parecer

18 A lição de B é a correta. Comparar a morte com morrer não faz sentido. Aliás, a construção "viver como hoje eu vivo" é mui frequente em todo o corpus.
19 Por morrer ou por al que lh’ eu pedi.
20 A lição dos manuscritos é correta: hei pesar porque vos vi.
21 A lição se/xe dos manuscritos é errada, pois refere-se à primeira pessoa: não me queixo eu disso a vós.
que tanto mal me faz haver.

E queixo-m’ a22 meu coraçom


porque me faz gram bem querer
vós, de que nunca pud’ haver
bem; e queixo-me com razom

eu desse vosso parecer


que tanto mal me faz haver.

181 (A91; B195; 125,25)

Moir’ eu; e praz-me, se Deus me perdom;


e de mià mort’ hei eu mui gram sabor
por nom sofrer mui gram coita d’ amor
que sofri sempre no meu coraçom,
ca log’ aquesta coita perderei.

E, amigos, direi-vos outra rem:


pesa-me muito que nom veerei,
ante que moira, meu lum’ e meu bem.

Soía-m’ eu mià morte recear


e havia gram sabor de viver;
e ora moir’ e praz-me de morrer,
e nom querria já mais viv’ andar,
e de23 que moiro gram prazer end’ hei.

E amigos, direi-vos outra rem:


pesa-me muito que nom veerei,
ante que moira, meu lum’ e meu bem.

De24 me prazer com mià morte razom


faç’ eu mui grande, par Nostro Senhor;
ca sei de pram que, pois eu morto for,
log’ esta coita perderei entom
e quem ora temo nom temerei.

E amigos, direi-vos outra rem:


pesa-me muito que nom veerei,
ante que moira, meu lum’ e meu bem.

E quero-vos ora desenganar


qual ést’ o bem que querria25 veer26:

22 "Queixo-m’ em meu coraçom" não é correto, pois significa queixar-me dentro do meu coraçom, e não queixar-se a meu coraçom (=queixar-me a Deus, da
estrofe anterior), que é o que o trovador quer dizer.
23 Nos manuscritos "do". Mas o trovador refere-se a que sinte prazer por morrer, como se depreende dos versos anteriores.
24 A lição de B semelha a correta, pois na construção "fazer razom" rege a preposição "de".
25 No manuscrito "queria". O verbo seer em presente exige "querria". "Queria" por "querria" é habitual em B.
26 Em B é frequente o erro no que diz respeito aos verbos haver/veer. Só assim faz sentido a estrofe. Note-se que nas anteriores estrofes o trovador não nomeia
a senhor e, portanto, só no final revela qual é esse "lume e bem" que quereria ver antes de morrer. Elimina-se o pronome pessoal, desnecessário.
é mia senhor do mui bom parecer,
e que me faz mià morte desejar,
e que nunca mais veer poderei.

E amigos, direi-vos outra rem:


pesa-me muito que nom veerei,
ante que moira, meu lum’ e meu bem.

182 (A92; B196; 125,46)

Se Deus me valha, mià senhor,


de grado querria seer
sandeu; por quant’ ouço dizer:
que o sandeu nom sabe rem
d’ amor nem que x’ é mal nem bem,
nem sabe sa morte temer:
porém querria ‘nsandecer;

e por nom sofrer a maior


coita das que Deus quis fazer,
qual a eu sempr’ hei a sofrer
por vós; e rog’ a Deus porém
que me faça perder o sem
e pavor que hei de morrer,
ou me nom leixe mais viver.

E Deus nom me leixe viver


se eu a ‘nsandecer nom hei;
ca, se viver, sempr’ haverei
coita d’ amor (direi-vos qual:
gram coita, se me Deus nom val),
e, se for sandeu, perderei
a gram coita que d’ amor hei.

Ca, des quand’ eu ensandecer,


se verdade dizem, bem sei
ca nunca pesar prenderei
nem gram coita d’ amor nem d’ al,
nem saberei que x’ éste mal,
nem mià morte nom temerei.
Deus!, e quand’ ensandecerei?

183 (A93; B197; 125,36)

Pola verdade que digo, senhor,


me querem mal os mais dos que eu sei:
porque digo que sodes a melhor
dona do mund’; e verdade direi:
já m’ eles sempre mal podem querer
por aquesto, mais enquant’ eu viver
nunca lhes tal verdade negarei

se27, mià senhor, enquant’ eu vivo for


eu28 nom perder aqueste sem que hei,
mal pecado!; de que nom hei pavor
(de o29 perder (e o nom perderei)),
ca perderia, pe-lo sem perder,
gram coita que me fazedes haver,
senhor fremosa, des que vos amei.

E, mià senhor, quem vos nunca viu tem


que vos louv’ eu por vos prazentear;
e Deus, senhor, nom me dé vosso30 bem,
nem outro bem que me podia dar,
se vos louv’ eu por aquesto31, senhor;
mais por quanto sodes vós a melhor
dona do mundo me32 vos faz loar.

184 (A94; B198; 125,50)

Senhor fremosa, pois vos vi


houve tam gram coita d’ amor
que nom fui ledo nem dormi,
nem houve d’ outra rem sabor;
sempre cuidando, mià senhor,
em vós, que fez Deus a melhor
dona de quantas donas vi,

per bõa fé. Entendo bem


aquest’; e posso bem jurar,
senhor, e nom mentir porém,
ca nom vos vou prazentear,
mais quero-vos desenganar:
sobre todas vos quis Deus dar,
senhor, bondad’ em todo bem.

E, pois que assi éste já


que vos Deus feze mais valer
de quantas outras no mund’ há,
verdade vos quero dizer:
pero Deus meta seu poder
27 Nos manuscritos a conjunção condicional aparece deslocada no princípio do seguinte verso. Se não fosse assim, a oração seria redundante com a repetição
da fórmula "enquant’ eu viver/enquant’ eu vivo for" na primeira parte da construção condicional.
28 Sem a conjunção "se" (que pertence ao verso anterior) o verso é hipométrico. O pronome pessoal "eu" é apropriado pois o infinitivo (poder) pode-se referir à
primeira ou terceira pessoas.
29 Nos manuscritos "de o nom perder", o que faz o verso hipermétrico. A dupla negação não é ajeitada aqui. O trovador não tem pavor de perder o sem.
30 "Vosso" e não "de vós", pois "vosso bem" opõe-se a "outro bem".
31 No manuscrito "sobr’ aquesto". Sobre (=em cima, acerca de, a respeito de) não é apropriado aqui. Por aquesto = por vos prazentear.
32 No manuscrito "esto vos faz loar". Mas falta o pronome átono "me", que é necessário: faz a mim loar-vos. Um copista pudo ser confundido pola complexidade
da construção, pois a oração "por quanto sodes vós a melhor dona do mundo" funciona como sujeito (faz-me loar-vos por quanto sodes vós...).
por outra tam bõa fazer
come vós, no-na fará33 já.

185 (B199; 125,28)

Nostro Senhor, e por que me fezestes


nacer no mundo?, pois me padecer
muitas coitas e mui graves fezestes
des quando me fezestes ir veer
ũa dona mui fremosa que vi;
por que moiro, ca nunca dona vi
com tanto bem quanto lhe Vós fezestes,

per bõa fé; ca melhô-la fezestes,


e mui melhor falar e parecer,
de quantas outras no mundo fezestes
(e em dõair’ e em mui mais valer);
e, Nostro Senhor, mais vos ém direi:
punh’ em dizer mais34 já nunca direi
tanto de bem quanto lhe Vós fezestes;

ca de melhor conhocê-la fezestes,


mais mans’ e mais mesurada seer,
de quantas outras no mundo fezestes:
sobre todas lhe destes tal poder.
Nom vos poss’ eu contar todo seu bem,
nem35 vos poss’ eu dizê-lo mui gram bem
que lhe Vós, meu senhor, fazer fezestes,

ne-no36 gram mal que Vós a mim fezestes


(pois mi_a fezestes tam gram bem querer),
nem37 tanto bem quanto lhe Vós fezestes;
ne-no meu mal no-no posso dizer,
nem como moiro no-no direi já,
nem ar-direi a dona nunca já
por que moiro, que me veer fezestes.

186 (B200; 125,23)

Meus amigos, direi-vos que m’ avém,


e como moir’ (e conselho nom hei)
por ũa dona; mais nom vos direi
seu nome; mais tanto vos direi ém:
ést’ a mais fremosa que no mund’ há;
33 No manuscrito "faria", o que faz o verso hipermétrico. Além disso, concorda com a forma verbal "meta" (meta/meter-fará; metesse-faria).
34 No manuscrito "ca" (mais vos direi: empenho-me em dizer que já nunca direi...), o que não faz muito sentido. A conjunção deve ser adversativa (empenho-me
em dizer todo o bem que lhe fizestes mas nunca poderei dizer todo).
35 No manuscrito "nom". O correto é "nem", pois liga várias orações negativas. O mesmo erro repete-se nos seguintes versos.
36 No manuscrito "Douo" ou "Dono", que deverá ser erro por "No-no". Vid. nota 35.
37 Vid. nota 35.
e, meus amigos, mais vos direi já:
é mais comprida de tod’ outro bem.

Por atal moir’; e nom lhe digo rem


de como moir’; e como lho38 direi?,
ca, se a vejo, tam gram sabor hei
de a veer, amigos, que porém
quando a vejo quam fremosa é
e a vejo falar, per bõa fé,
tẽendo-lh’ olho39 saio de meu sem.

Aquesta dona fezo Deus nacer


por mal de mim, assi Deus me perdom,
e por mal de quantos no mundo som
que virem o seu mui bom parecer
(ca lhes averrá ende com’ a mi,
que lhe quis40 tam gram bem des que a vi
que me faz ora por ela morrer).

Pero nom ous’ esta dona dizer


por quê já moir’; e vedes por que nom:
porque hei medo no meu coraçom,
pois que o corpo perço, de perder,
meus amigos, quanto vos eu direi:
se souber que lhe bem quero, bem sei
que já mais nunca me querrá veer.

E, pois que moiro querendo-lhe bem,


quanto a vir tanto mi_haverei ém
(ca outro bem nom atend’ eu d’ haver).

187 (B201; 125,24)

Meus amigos, hoimais quero dizer


a quantos me vẽerem preguntar
qual ést’ a dona que me faz morrer,
ca nom hei já por quê o recear;
e saberám qual dona quero bem.
Direi-a já, ca sei que nulha rem
nom hei porém, mais ca perç’, a perder.

E que mais hei, do41 que perç’, a perder?:


o corpo perç’, e, quant’ é meu cuidar,
nom há i mais, nem posso mais saber,
nem maior perda nom poss’ eu osmar.
Mai-la dona por que eu42 moiro, bem
38 No manuscrito "lhi", mas o pronome é necessário aqui.
39 Tẽer-lhe o olho ou tẽer-lhe olho = olhá-la fixamente (cf. História Troiana: teverom-lhe sempre o olho por veer que faria) .
40 No manuscrito "quigi", que faz o verso hipermétrico.
41 No manuscrito "de". O pronome é necessário aqui.
42 O verso é hipométrico.
lhe faz Deus tanto quant’ eu já per rem
nunca direi, ne-no seu parecer;

ca tanto a fez Deus bem parecer


sobr’ outras donas, e melhor falar
sobre quantas eu já43 pude veer,
que direi mais (e pês a quem pesar):
mui mai-la fez valer em todo bem
(ca lhe fez El que lhe nom míngua rem
de quanto bem dona dev’ a44 haver).

188 (A95; B202; 125,37)

Por mui coitado per-tenh’ eu


quem vai querer bem tal molher
que seu serviço nom lhe quer,
per nulha guisa, gradecer.
E, mal pecad’!, assi viv’ eu
coitad’ (e quê demo me deu
coita po-la nunca perder?);

nom por al se nom polo seu


bom parecer da mià senhor,
que nunca home viu melhor
nem tal. Se Deus me leix’ haver
dela bem e me mostr’ o seu
bom parecer!, que lhe Deus deu
por já sempr’ a mim mal fazer.

Ca Deu-la fez, por mal de mi,


mais fremosa de quantas som
no mundo, se Deus me perdom;
e vedes que mi_ar-fez porém:
fez-mi_a veer por mal de mi
(ca nom por al), ca, poi-la vi,
nunca m’ ar-paguei d’ outra rem

se nom dela; de que assi


estou como vos eu direi:
que todo quant’ haver cuidei
dela, poi-la vi, hei-o ém.
Vedes por que o dig’ assi:
cuidei dela, des que a vi,
haver gram coita sem seu bem.

Ca nunca dela cuidei al


haver, par Deus (que pod’ e val),
erg’ esta coita que me vem.
43 No verso há uma sílaba a menos. "Já" é apropriado aqui, pois acrescenta a ideia de "até agora" (de quantas até agora pude ver).
44 No manuscrito "dev’ haver", que faz o verso hipométrico.
189 (A96; B203; 125,4)

Ai eu, que mal dia naci


com tanto mal quanto me vem
querend’ ũa dona gram bem
que me fez mal des que a vi!,
e faz, e nom s’ ém quer quitar,
e ora faz-me desejar
mià mort’ e alongar de si.45

E, mal pecado!, viv’ assi


coitad’, e sol nom acho quem
se doia de mim; e per rem
mià senhor nom se dol de mi;
e al me faz: se lhe pesar
faz outr’, a mim se vem queixar
porém, que culpa nom hei i.

E por gram coita tenh’ atal


eu, que sol nom lh’ ouso dizer
o gram mal que me faz haver;
e desejo sempre mais d’ al
de lho dizer, mais hei pavor
de pesar muit’ a mià senhor
e calo-m’ ante com meu mal.

Mais rog’ a Deus, que sab’ o mal


que me mià senhor faz sofrer,
que El me faça ‘nsandecer
(pois que m’ outro bem todo fal)
ou morrer se sandeu nom for;
ca esto me será melhor,
pois que m’ ela nem Deus nom val.

190 (A97; B204; 125,51)

Senhor fremosa, venho-vos dizer,


de quanto mal a mim faz voss’ amor,
que me digades vós, ai mià senhor,
por Deus (que vos deu tam bom parecer,

mià senhor fremosa): que prol vos tem


a vós de quanto mal me por vós vem?

E, pois vos eu amei des que vos vi


e amo mais de quantas cousas som,

45 Faz-me desejar mià morte e faz-me alongar de si.


dizede-mi_ora, se Deus vos perdom:
pois vos eu outro mal nom mereci,

mià senhor fremosa, que prol vos tem


a vós de quanto mal me por vós vem?

Pero, senhor, nunca vos eu ousei


de mià coita nulha rem ementar
que mi_a mim fez o voss’ amor levar;
mais, pois per vós tam muito de mal hei,

mià senhor fremosa, que prol vos tem


a vós de quanto mal me por vós vem?

191 (A98; B205; 125,33)

Par Deus, senhor, já eu nom hei poder


de nom dizer de quanto mal me vem
por vós (que quero melhor d’ outra rem);
que me fez Deus por meu mal bem querer,
ca me fazedes já perder o sem
e o dormir, senhor, e praz-vos ém,
e trage-m’ em gram coita voss’ amor.

Tod’ este mal me por vós vem, senhor.

Amor me faz viver em coita tal


por vós, senhor, se Deus de mal m’ ampar,
qual eu já nunca poderei mostrar
mentre viver pero nom punh’ em al;
e a vós praz de coraçom porém,
porque me trag’ Amor tam em desdém
e faz-m’ haver de mià morte sabor.

Tod’ este mal me por vós vem, senhor.

192 (A99; B206; 125,18)

Mais de mil vezes cuid’ eu e-no dia,


quando nom posso mià senhor veer,
ca lhe direi se a vir, toda via,
a mui gram coita que me faz sofrer;
e, poi-la vejo, vedes que mi_avém:
nom lhe digo de quanto cuido rem
ant’ o seu mui fremoso parecer,
que me faz quanto cuid’ escaecer;

ca, poi-la vejo, nom lhe digo nada


de quanto cuid’ ante que lhe direi
(u a nom vej’); e, par Deus, mui coitada-
mente viv’; e, por Deus, i46 que farei?;
ca, poi-la vejo, cuido sempr’ entom
no seu fremoso parecer, e nom
me nembra nada, ca todo me fal,
quanto lhe cuid’ a dizer, e dig’ al.

193 (A100; B207; 125,47)

Se eu a Deus algum mal mereci


gram vingança soub’ El de mim prender;
ca me fez mui bõa dona veer
e mui fremos’, e ar-fez-me desi
que lhe quis sempre d’ outra rem melhor,
e, pois mi_aquesto fez Nostro Senhor,
ar-fez ela morrer, e leixou mi

viver no mund’; e mal dia naci


por eu assi e-no mundo viver,
u Deus sobre mim há tam gram poder
que m’ e-no mundo faz viver assi
sem ela, ca bem sõo sabedor
d’ haver gram coita mentre vivo for
pois nom vir ela, que por meu mal vi.

E por meu mal, amigos, nom morri


u eu primeir’ oí dela dizer
que morrera; ca podera perder
vedes qual coita per morrer log’ i:
a coita de quantas Deus fez maior,
em que vivo polo seu amor
pero que nunca bem dela prendi.

194 (A101; B208; 125,6)

Ai, mià senhor e meu lum’ e meu bem!,


per bõa fé verdade vos direi
(e, senhor, nunca vos eu mentirei,
ca vos quero mui melhor d’ outra rem):
nom me dé Deus de vós bem, nem de si,
se nunca tam fremosa dona vi
come vós, e confonda-me porém.

E, mià senhor e meu lum’ e meu bem,


pero que m’ eu muitas terras andei
nunca i tam fremosa dona_achei

46 Verso hipométrico nos manuscritos. Cf. p. ex. B956/V543: "nom me dizedes o que i farei"
come vós, per que me muito mal vem;
e fez-vos Deus nacer por mal de mi,
senhor fremosa, ca per vós perdi
Deus e amigos e esforç’ e sem.

Ca nunca eu no mundo pud’ achar,


des quando me vos Deus fezo47 veer,
dona que me fezess’ escaecer
vós (a que Deus no mundo nom fez par,
ca vos fez de todo bem sabedor);
e, se nom, Deus nom me dé voss’ amor
nem vosso bem, que me faz desejar.

E mal m’ ach’ eu (que nom querria_achar)


de toda rem se vo-l’ eu vim dizer
por bem que nunca de vós cuid’ haver;
ne-n’48 ar-digo por vos prazentear,
mais porque dig’ a verdade, senhor,
ca vos vejo parecer mui melhor
das outras donas e melhor falar.

E tod’ aquesto por mal de mim é;


ca morrerei cedo, per bõa fé,
por vós (ca me vej’ ém de guisa_andar).

195 (A102; B209-210; 125,3)

Ai eu, coitad’!, e quand’ acharei quem


me dé conselho como possa ir
a um logar u eu querria ir
e nom posso?; nem ar-poss’ achar quem
me dé conselho como possa ir
veê-la dona, que por meu mal vi,
mais fremosa de quantas donas vi;

e por que moiro querendo-lhe bem,


ca tam fremosa dona nunca fez
Nostro Senhor de quantas donas fez,
nem tam comprida de tod’ outro bem.
Por esta moiro que Deus atal fez;
e nom lho disse, se me valha Deus,
ca nom ousei, assi me valha Deus;

ca me quis ante mià coita ‘ndurar


ca me perder com tam bõa senhor,
a que deu tanto bem Nostro Senhor.
E quero-m’ ante mià coita ‘ndurar;
mais rogarei tanto Nostro Senhor:
47 Nos manuscritos "fez". Verso hipométrico.
48 "Ne-n’ ar" e não "nem ar", pois o pronome é necessário. Cf. "vo-l’ eu vim dizer", na mesma estrofe.
que El me lev’ u a possa veer;
ca muit’ há já que nom pude veer

nem um prazer, ca nom fui a logar


u a eu viss’, e por aquesto nom
vi nunca mais prazer; nem já mais nom
mi_ar-veerei se nom for a logar
u veja ela; ca sei eu que nom
verei prazer e sempr’ haverei mal
se nom vir ela, que vi por meu mal.

E, meus amigos, se nom ést’ assi


nom me dé Deus dela bem nem de si.

E, se nom, leve Deus u som os seus


estes meus olhos, que vejam os seus.

E, se os virem, verám gram prazer,


ca muit’ há que nom virom gram prazer.

Leve-os Deus cedo, que pod’ e val,


u verám ela, que tam muito val.

196 (A103; B211; 125,41)

Que muit’ há já que a terra nom vi


u ést’ a mui fremosa mià senhor!,
de que m’ eu trist’ e chorando parti,
e muit’ anvidos e mui sem sabor,
porque me disse que me partiss’ ém
a49 mià senhor e meu lum’ e meu bem,
mais fremosa das donas que eu vi.

E, meus amigos, por meu mal a vi


das outras donas parecer melhor;
e fez-mi_a Deus veer por mal de mi,
meus amigos, ca, de pram, na50 maior
coita do mundo viv’ hoje porém,
como querer-lhe melhor d’ outra rem
e nom veê-la51,_amigos, u a vi.

Mais, u mi_a Deus primeiro fez veer,


mais me valvera de morrer entom,
pois que mi_a Deus tam gram bem fez querer
que bem mil vezes, se Deus me perdom,
esmoresco no dia, que nom sei

49 A lição de B é a correta, pois o trovador não se dirige à sua senhor nesta cantiga. "A mià senhor" funciona como objeto direto do verbo "dizer": porque me disse
a mià senhor que me partiss’ ém (da terra u ela é).
50 Nos manuscritos "a", seguramente por contato de duas consoantes nasais. A construção é sempre "viver em coita".
51 Nos manuscritos "e no-na vej’ amigos". A construção exige o infinitivo (como querer-lhe...e veê-la). "E no-na veer" faria o verso hipermétrico.
que me faço nem que digo (tant’ hei,
amigos, gram coita po-la veer).

197 (A104; B212; 125,17)

Joana dix’ eu, Sancha e Maria,


em meu cantar, com gram coita d’ amor;
e pero nom dixe por qual morria
de todas três, nem qual quero melhor,
nem qual me faz por si o sem perder,
nem qual me faz ora por si morrer,
de Joana, de Sancha, de Maria.

Tant’ houve medo que lhe pesaria


que nom dixe qual era mià senhor
de todas três, ne-na por que morria,
ne-na que eu vi parecer melhor
de quantas donas vi e mais valer
em todo bem. No-na quige dizer,
tant’ houve medo que lhe pesaria.

E pero mais tolher nom me podia


do que me tolhe; pero m’ hei pavor. 52
Tolhe-mi_o corpo, que53 já nunca dia
éste, nem noite, que haja sabor
de mim nem d’ al. Que mi_há mais a tolher?
Nom54 vej’ ela, que moiro por veer,
que ést’ o mais que me tolher podia.

E por aquest’ eu viver nom querria,


per bõa fé; ca vivo na maior
coita do mundo des aquele dia
que a nom vi, ca nom houve sabor
de mim nem d’ al nem vi nunca prazer;
e, pois me vej’ em tal coita viver,
Deus me cofonda se viver querria!

Ca esta dona me tolheu poder


de rogar Deus; e fezo-me perder
pavor de morte, que ant’ eu havia.

198 (A105; B213; 125,32)

Ora vej’ eu que fiz mui gram folia


e que perdi ali todo meu sem,
porque dixe ca queria gram bem
52 Tenho pavor ainda que não me poderia tolher mais do que me tolhe.
53 Que = de maneira que.
54 A lição de B é a correta, pois o verso anterior semelha acabar com uma pergunta.
Joan’, ou Sancha, que dix’, ou Maria;
ca, por aquesto que eu dix’ ali,
me soube log’ ũa dona desi,
daquestas três, que por ela dizia.

E, porquant’55 eu esto dixe, devia


mort’ a prender, per bõa fé, porém
(porque dixe ca queria gram bem
Joan’, ou Sancha, que dix’, ou Maria);
ca, por aquesto que eu fui dizer,
mi_houv’ o gram bem que lhe quer’ a saber
esta dona que ante nom sabia.

Ca nom soubera que lhe bem queria


esta dona se nom por meu mal sem,
porque dixe ca queria gram bem
Joan’, ou Sancha, que dix’, ou Maria;
e, des que soub’ esta dona por mi
ca lhe queria bem, sempre desi
me quis gram mal (maior nom poderia)

por mui gram bem que lhe quis toda via


des que a vi, que me soube porém
(porque dixe ca queria gram bem
Joan’, ou Sancha, que dix’, ou Maria);
e, des que houv’ esta dona poder
d’ o mui gram bem que lh’ eu quero saber,
nunca mi_ar-quis veer des aquel dia.

199 (A106; B214-215; 125,43)

Que muitos os56 que mi_andam preguntando


qual ést’ a dona que quero gram bem!:
se é Joana, se Sancha, se quem,
se Maria; mais eu tam coitad’ ando
cuidand’ em ũa destas três, que vi
polo meu mal, que sol nom lhes torn’ i
nem lhes falo se nom de quand’ em quando.

E vou-me d’ ontr’ as gentes alongando


por tal que me nom preguntem porém,
per bõa fé, ca nom por outra rem;
e vam-m’ elas, a meu pesar, chamando,
e preguntando-m’, a pesar de mi,
qual ést’ a dona que me faz assi
por si andar em gram coita ‘m que ando.

55 Porquanto = porque.
56 Nos manuscritos há uma sílaba a menos. Considerando que "que muitos" equivale a "quam muitos" aqui e segue-se um "que" relativo, o pronome átono "os" é
necessário.
E faço-m’ eu delas57 maravilhado:
pois m’ i nom ham conselho de põer,
por que morrem tam muito por saber
a dona por que eu ando coitado?
Nom lhe-la digo por esta razom:
ca por dizer-lha, se Deus me perdom,
nom m’ i58 porrám conselho, mal pecado!

Porém tod’ home devia_acordado,


que sem houvesse, daquest’ a seer:
de nunca ir tal pregunta fazer;
ca, per pouc’ ém, seria castigado
castigar-s’ ém pelo seu coraçom:59
qual pera si nom quisesse que nom
dissess’ a outre nunca per seu grado.

E elas vam-me gram pesar dizer


(no que lhes nunca prol nom há d’ haver),
per que destorvam mim de meu cuidado.

Mai-lo que vai tal pregunta fazer


Deu-lo leixe molher gram bem querer
e que ar-seja d’ outre preguntado!

200 (A107; B216; 125,31)

Ora vej’ eu que xe pode fazer


Nostro Senhor quanto xe fazer quer,
pois me tam bõa dona fez morrer
e mi_ora fez veer outra molher,
per bõa fé, que amo mais ca mi;
e nunca me Deus valha, poi-la vi,
se me nom fez tod’ al escaecer.

Tanto a vi fremoso parecer


e fremoso falar que sol mester
nom m’ houvera, per rem, de a veer60;
e, se vos eu verdade nom disser,
nom me dé Deus dela bem nem de si:
ca nunca tam fremosa dona vi
de quantas donas pude conhocer.

E por atal cuido sempr’ a viver


em grave coita mentr’ eu vivo for,
ca me fez ela mui gram coita_haver;
de que jamais nom será sabedor

57 A lição dos manuscritos é correta. "elas" = "as gentes".


58 O advérbio "i" sempre faz parte da construção "põer conselho".
59 Pois, por pouco que dissesse, seria castigado (aconselhado, ordenado) polo seu coração castigar-se desto (emendar-se desta forma): qual pera si...
60 Que oxalá não a tivesse visto.
nunca per mim, ca eu nom lha direi,
mal pecado!, nem amigo nom hei
que lha nunca por mim queira dizer.

Ca me nom poss’ hoj’ amigo saber


(nem mi_o quis nunca dar Nostro Senhor)
tal que por mim lhe fezess’ entender
com’ hoje moiro polo seu amor;
e, pois que eu tal amigo nom hei,
morrer poss’ eu; mais nunca lho direi
pero me vejo por ela morrer.

Pero, se lho por mim dissess’ alguém,


bem cuido dela que nom desse rem,
nem por mià morte nem por eu viver.

201 (A108; B217; 125,26)

Nom me poss’ eu, mià senhor, defender


que me nom mate cedo voss’ Amor
se m’ eu de vós partir, ai mià senhor!,
pois mi_aqui vem ante vós cometer;

ca, pois mi_Amor ante vós quer matar,


matar-xe-mi_á se me sem vós achar.

E, mià senhor, al vos quero dizer


de que sejades ende sabedor:
nom provarei eu, mentr’ eu vivo for,
de lhe fogir, ca nom hei ém poder;

ca, pois mi_Amor ante vós quer matar,


matar-xe-mi_á se me sem vós achar.

Pois mi_ante vós em tam gram coita tem


e me tolheu, mià senhor, o dormir,
nom quer’ eu já provar de me partir
d’ u fordes vós, ca faria mal sem;

ca, pois mi_Amor ante vós quer matar,


matar-xe-mi_á se me sem vós achar.

202 (A109; B218; 125,39)

Quantos hoj’ eu com amor sandeus sei


dizem, se Deus me leixe bem haver,
que a dona lhes fez o sem perder
melhor de quantas hoje no mund’ há.
Se verdad’ é, sei eu a dona já;

ca tal dona, se Deus a mi perdom,


nom há no mundo se mià senhor nom.

Ainda vos outra cousa direi:


a todos estes eu ouço dizer
que a melhor os fez ensandecer
dona do mundo; mais, se verdad’ é,
log’ eu a dona sei, per bõa fé;

ca tal dona, se Deus a mi perdom,


nom há no mundo se mià senhor nom.

Se verdad’ é que eles por atal


dona qual dizem perdero-no sem:
pola melhor do mund’, e som porém
sandeus e nom ham d’ outra rem sabor,
nom som sandeus se nom por mià senhor;

ca tal dona, se Deus a mi perdom,


nom há no mundo se mià senhor nom.

203 (A110; B219; 125,22)

Mentre nom soube por mim mià senhor,


amigos, ca lhe queria gram bem,
de a veer nom lhe pesava ém
nem lhe pesava dizer-lhe "senhor";
mais alguém foi que lhe disse por mi
ca lhe queria gram bem, e desi
me quis gram mal e nom mi_ar-quis veer.
Confonda Deu-lo que lho foi dizer!

De me matar fezera mui melhor


quem lhe disse ca lh’ eu queria bem,
e de meu mal nom lhe pesava ém
e fezera de me matar melhor;
ca, meus amigos, des que a nom vi
desejo morte, que sempre temi,
e hei tam gram coita po-la veer
qual nom poss’, amigos, nem sei, dizer.

A esta coita nunca eu vi par


(ca esta coita peor ca mort’ é,
e porém sei eu bem, per bõa fé,
que nom fez Deus a esta coita par);
ca, pero vej’ u é mià senhor, nom
ous’ ir veê-la, se Deus me perdom,
e nom poss’ end’ o coraçom partir
ne-nos olhos, mais nom ous’ alá ir.

E, quand’ a terra vej’, e o logar,


e vej’ as casas u mià senhor é,
vedes que faç’ entom, per bõa fé:
pero mi_as casas vej’, e o logar,
nom ous’ ir i, e peç’ a Deus entom
mià morte muit’ e mui de coraçom,
e choro muit’, e hei-m’ end’ a partir,
e nom vou i nem sei pera u ir.

204 (B220; 125,12)

Eu me cuidava, quando nom podia


a mui fremosa dona mià senhor
veer, ca, se a viss’, eu lhe diria
com’ hoj’ eu moiro polo seu amor;
mais vi-a tam fremoso parecer
que lhe nom pude nulha rem dizer,
catando quam fremoso parecia.

Esto me fez quant’ eu dizer queria


escaecer, ca nom outro pavor;
e, quand’ eu vi quam fremoso dizia
quanto dizer queria e melhor
de quantas donas Deus fezo nacer,
ali nom houv’ eu siso nem poder
de lhe dizer que por ela morria.

E des que a vi o primeiro dia


nom me guardei, nem fui ém61 sabedor,
nem me quis Deus guardar, nem mià folia,
nem este meu coraçom traedor
que mi_a depois conselhou a veer;
e por aquest’ hei já sempr’ a viver
em maior coita que ante vivia.

E, meus amigos, por Santa Maria,


des que a vi muito me vai peor;
ca sequer ant’ algũa vez dormia
ou havia d’ algũa rem sabor
(que hoj’ eu, cativo!62, nom poss’ haver);
e tod’ aquesto m’ ela fez perder,
e dobrou-xe-m’ a coita que havia.

205 (B221; 125,16)


61 No manuscrito "ende", o que faz que o verso tenha uma sílaba a mais.
62 Claramente no manuscrito, com a haste do "t" curta e uma leve separação entre a segunda e terceira sílabas.
Já eu nom hei hoimais por que temer
nulha rem Deus; ca bem sei eu del já
ca me nom pode nunca mal fazer
mentr’ eu viver (pero gram poder há),
pois que me todo63 tolheu quanto bem
eu atendia no mund’; e porém
sei eu ca me nom pode mal fazer.

Ca tam bõa senhor me foi tolher


qual el já e-no mundo nom fará
nem já no mundo par nom pod’ haver;
e, quem aquesta viu, já nom veerá
tam mans’ e tam fremos’ e de bom sem;
ca esta nom menguava nulha rem
de quanto bem dona devia_haver.

E, pois tam bõa senhor fez morrer,


já eu bem sei que me nom fará mal;
e, pois eu del nom hei mal a prender
e a gram coita que hei me nom val
por ela (pois que mi_a fez morrer Deus),
el se veja em poder de judeus
como se viu já outra vez prender!

E tod’ home que molher bem quiser,


e m’ est’ oir e amém nom disser,
nunca veja, de quant’ ama, prazer!

206 (B222; 125,1)

Ai, Deus, que grave coita de sofrer!:


desejar mort’ e haver a viver
com’ hoj’ eu viv’, e mui sem meu prazer,
com esta coita, que me vem tanta.
Desejo mort’ e querria64 morrer

porque se foi65 a Rainh’-Ifanta66.

A esta coita nunca eu par vi:


desejo morte pero viv’ assi,
per bõa fé, a gram pesar de mi.
E direi-vos que me mais quebranta:
desejo morte, que sempre temi,
63 Tirou-me todo quanto bem tinha importância para mim no mundo.
64 "Queria" no manuscrito. Sendo que o tempo empregado é o presente, "querria" é mais apropriado.
65 O verbo "ir" pode significar aqui "partir" ou "morrer" (empregado neste sentido no pranto de Pero da Ponte B988/V576).
66 O emprego da rima assoante (exceto nas cantigas de amigo) é mui improvável. A conversão de "Iffãta" em "ffrãta" (como se lê na primeira ocorrência do refrão)
semelha possível. Se esta cantiga for pranto (o que não é claro, pois constituiria um pranto atípico) poderia aludir à morte de Berenguela, mãe de Fernando III,
que foi rainha de Castela e senhora do "Infantado" (conjunto de bens da infanta, que formavam um reino dentro do reino). Note-se que a cantiga anterior e
posterior no manuscrito são, além de invetivas contra Deus, prantos atípicos (sem muitos dos elementos próprios do género), nesse caso com motivo da morte
da dona amada.
porque se foi a Rainh’-Ifanta.

Ai, coitado com quanto mal me vem!,


porque desejo mià mort’, e porém
perdi o dormir e perdi o sem,
e choro sempre quand’ outre canta.
E mais desejo morte d’ outra rem

porque se foi a Rainh’-Ifanta.

207 (B223; 125,30)

Nunca Deus quis nulha cousa gram bem,


nem do coitado nunca se doeu
pero dizem que coitado viveu;
ca se s’ el del doesse, doer-s’-ia
de mi, que faz mui coitado viver
a meu pesar, pois que me foi tolher
quanto bem eu e-no mund’ atendia.

Mais, enquant’ eu já vivo for, porém


nom creerei que o Judas vendeu
nem que por nós na cruz morte prendeu,
nem que filh’ éste de Santa Maria;
e outra cousa vos quero dizer:
ca foi coitado nom quero creer67,
ca do coitad’ a doer-s’ haveria.

Ainda vos del direi outra rem:


pois quanto bem havia me tolheu,
e quant’ el sempre no mund’ entendeu
de que eu mui gram pesar prenderia,
per bõa fé, d’ ali68 mi_o fez prender,
por esto nom quer’ eu per el69 creer,
e quanto per el crive fiz folia.

E, se el aqui houvess’ a viver


e lh’ eu porém podesse mal fazer,
per bõa fé de grado lho faria.

Mais, mal pecado!, nom hei ém poder,


e nom lhe poss’ outra guerra fazer;
mais por torpe tenh’ eu quem per el fia.

JOÁM NÚNEZ CAMANÊS


67 Nom quero creer que foi coitado.
68 De quanto no mundo eu prenderia gram pesar.
69 Creer em el.
208 (A111; B224; 74,1)

De vós, senhor, querria eu saber,


pois desejades mià mort’ a veer
e eu nom moir’ e querria morrer,

que me digades: que farei eu i?

Com mià morte me seria gram bem,


porque sei ca vos prazeria ém;
e, pois nom moiro, venh’ a vós porém,

que me digades: que farei eu i?

Por mià morte, que vos vi desejar,


rog’ eu a Deus sempr’, e nom mi_a quer dar;
e venho-vos, mià senhor, preguntar,

que me digades: que farei eu i?

Por mià morte roguei Deus e Amor,


e nom mi_a dam por me fazer peor
estar convosc’; e venh’ a vós, senhor,

que me digades: que farei eu i?

209 (A112; B225; 74,3)

Nom me queredes, mià senhor,


fazer bem enquant’ eu viver,
e, pois eu por vós morto for,
nom mi_o poderedes fazer;

ca nom vi eu quem fezesse


nunca bem se nom podesse.

Podedes-vos nembrar bem leu


de mim, que sofro muito mal
por vós; e digo-vo-l’ ant’ eu,
que, pois, me nom faredes al;

ca nom vi eu quem fezesse


nunca bem se nom podesse.

Podedes-vos nembrar de mim;


depois mià morte, sem al rem
e se eu faça bõa fim,70
nom me faredes outro bem;

ca nom vi eu quem fezesse


nunca bem se nom podesse.

Fazede-m’, e gracir-vo-l’-ei,
bem mentr’ ando vivo; ca nom
mi_o faredes, eu be-no sei,
pois eu morrer: por tal razom:

ca nom vi eu quem fezesse


nunca bem se nom podesse.

210 (A113; B226; 74,6)

Rogaria eu mià senhor


por Deus que me fezesse bem;
mais hei dela tam gram pavor
que lhe nom ouso falar rem,

com medo de se m’ assanhar


e me nom querer pois falar.

Diria-lh’ eu de coraçom
como me faz perder o sem
o seu bom parecer; mais nom
ous’; e tod’ aquesto mi_avém

com medo de se m’ assanhar


e me nom querer pois falar.

Pois me Deus tal ventura deu


que m’ em tamanha coita tem
Amor, já sempr’ eu serei seu;
mais no-na rogarei porém,

com medo de se m’ assanhar


e me nom querer pois falar.

FERNÁM GARCIA ESGARAVUNHA

211 (B227; 43,11)

Quand’ eu mià senhor conhoci,


e vi o seu bom parecer

70 "sem al rem e se eu faça bõa fim" = sem dúvida.


e o gram bem que lhe Deus dar
quis por meu mal, log’ entendi
que por ela ensandecer
me veeriam, e levar
grandes coitas e padecer.

Pero que eu soub’ entender,


quando os seus olhos catei,
que por ela (e nom por al)
me veeriam morte prender
(porque m’ ém71 log’ i nom quitei),
d’ u72 a nom viss’, e que o mal
que hoj’ eu sofro receei

muit’, e er-temi73, eu74 cuidei,


com mui mal sem que houv’ entom,
que podess’ eu sofrer mui bem
as grandes coitas que levei
por ela e-no coraçom;
e provei-o; e pois, quand’ ém
me quis partir, nom foi sazom

de m’ ém partir, ca ‘m outra rem


nom pud’ eu cuidar des entom.

212 (B228; 43,2)

A que vos foi, senhor, dizer por mi


que vos queria mao preço dar
(do que eu quer’ agora_a Deus rogar),
ponh’ eu dela (e de mi outrossi)

que El i leixe mao prez haver


a quem mal preço vos quer apõer.

Que75 a gram torto me vosco mizcrou!,


e que gram torto vos disse, senhor!;
porém serei sempr’ a Deus rogador
de mim (e dela, que m’ esto buscou)

que El i leixe mao prez haver


a quem mal preço vos quer apõer.

71 No manuscrito "porque me log’ i". Exigido pelo verbo "quitar": quitar-se de algo/alguém.
72 A construção "quitei d’ u a nom visse" não faz sentido, e, se a substituirmos por "quitei d’ u a visse" os tempos verbais não concordam. O condicional sim
concorda com o imperfeito do conjuntivo: "me veeriam morte prender d’ u a nom visse". D’ u = quando = u.
73 No manuscrito "muiter".
74 No manuscrito "mais eu cuidei". A oração inicia-se no princípio da estrofe anterior com "pero que" (ainda que): Pero que eu soube entender...que me veriam
por ela morrer...e (pero) que o mal que hoje eu sofro receei...eu cuidei. Um copista, devido à complexidade sintática da oração, pudo ter acrescentado a
conjunção adversativa "mais" interpretando que esta começava na terceira estrofe e não na segunda (Muit’ er-temi, mais eu cuidei).
75 No manuscrito "A que a gram torto". Além de que o verso tem uma sílaba a mais, a oração ficaria inacabada, pois no terceiro verso da estrofe começa uma
nova oração.
Mais torne-se na verdade76, por Deus!;
ca vos nom disse verdad’, e o sei.
Log’ eu dela, e de mim, rogarei
a Deus, que vejam estes olhos meus!,

que El i leixe mao prez haver


a quem mal preço vos quer apõer.

213 (B229; 43,20)

Tod’ home que Deus faz morar


d’ u ést’ a molher que gram bem
quer, bem sei eu ca nunca tem
gram coita no seu coraçom,
pero se a pode veer77
- mais quem end’ há long’ a viver:
aquesta coita nom há par -;

ca, pois u ela ést’78 estar


pode, nom sabe nulha rem
de gram coita; ca, de pram, tem
assi e-no seu coraçom:
qual bem lhe quer de lho dizer,
e nom pode gram coita_haver
enquant’ em aquesto cuidar.

E quem bem quiser preguntar


por gram coita, mim pregunt’ ém,
ca eu a sei; vedes per quem:
per mim e per meu coraçom;
e mià senhor mi_a faz saber,
e o seu mui bom parecer,
e Deus, que m’ ém fez alongar

por viver sempr’ em gram pesar


de mim e por perder o sem,
com’ haver79 a viver sem quem
sei eu bem no meu coraçom
ca nunca já posso prazer,
u a nom vir, de rem prender.
Vedes que coita d’ endurar!

E o que atal nom sofrer


no-no devedes a creer
de gram coita, se i falar.

76 A mezcra transforme-se na verdade (quer dizer, descobra-se a verdade).


77 Desde que a possa veer.
78 No manuscrito "hei d’ estar", o que não faz sentido.
79 "Como" pode introduzir um infinitivo reformulador explicativo. Cf. p. ex. A120/B236: "com’ haver sempr’ a desejar".
214 (A114; B230; 43,13)

Que grave cousa, senhor, d’ endurar,


pera quem há sabor de vos veer!:
per nulha rem de nom haver poder,
se nom mui pouco, de vosco morar,
e esso pouco que vosc’ estever
entender bem, senhor, se vos disser
algũa rem, ca vos dirá pesar!

A mim avém80, a que quis Deus guisar


d’ haver gram coita já mentr’ eu viver,
pois a vós pesa de vos eu dizer
qual bem vos quero; mais a Deus rogar
quer’ eu assi, ca assi m’ é mester:
que El me dé mià morte, se nom der
tal coraçom a vós d’ ém nom pesar.

E, mià senhor, por Deus, que vos falar


fez mui melhor e melhor parecer
de quantas outras donas quis fazer,
por tod’ aqueste bem que vos foi dar,
vos rog’ hoj’ eu por el que, pois El quer
que vos eu ame mais d’ outra molher,
que vos nom caia, senhor, em pesar.

215 (A115; B231; 43,14)

Quem vos foi dizer, mià senhor,


que eu desejava mais al
ca vós, mentiu-vos81; se nom82, mal
me venha de vós e de Deus,
e, se nom83, nunca estes meus
olhos vejam nem um prazer
de quant’ al desejam veer!

E veja eu de vós, senhor,


e de quant’ al amo, pesar,
se nunca84 no vosso logar
tive rem no meu coraçom,
atanto Deus nom me perdom
nem me dé nunca de vós bem85,
que desej’ eu mais d’ outra rem.

80 A mim acontece isto (esta grave cousa de endurar).


81 A sílaba que falta pode-se ler na margem do códice de Ajuda.
82 Se não vos mentiu.
83 Se não me vier mal de vós e de Deus.
84 Se alguma vez.
85 Esta expressão semelha cumprir a mesma função que outras do teor "se Deus me perdom", "se Deus me valha", etc. Reforçam a veracidade do que o trovador
diz. Quando começadas por "tanto/atanto" a oração é negativa (cf. B63: "tanto Deus nom me defenda").
E, per bõa fé, mià senhor,
amei-vos muito mais ca mi;
e, se o nom fezess’ assi,
de dur verria_aqui mentir
a vós nem m’ iria partir
d’ u eu amass’ outra molher
mais ca vós; mais, pois que Deus quer

que eu a vós queira melhor,


valha-m’ El contra vós, senher86,
ca muito me per-é mester!

216 (A116; B232; 43,16)

Senhor fremosa, convém-mi_a rogar


por87 vosso mal, enquant’ eu vivo for,
a Deus, ca me faz tanto mal Amor
que eu já sempr’ assi lh’ hei de rogar:
que El cofonda vós e vosso sem,
e mim, senhor, porque vos quero bem,
e o Amor, que me vos faz amar.

E por88 vosso sem, que em mim errar89


vos faz tam muito, serei rogador
a Deus assi: que cofonda, senhor,
el muit’, e vós, e mim, em que errar
vos el90 faz tanto. E al mi_ar-convém
de lhe rogar: que ar-cofonda quem
me nom leixa convosco mais morar;

e os meus olhos, a que91 vos mostrar


fui eu, por que viv’ hoje na maior
coita do mundo, ca nom hei sabor
de nulha rem u vo-lhes92 eu mostrar
nom poss’; e Deus cofonda mim porém,
e vós, senhor, e eles, e quem tem
em coraçom de me vosco mezcrar.

217 (A117; B233; 43,17)

Senhor fremosa, quant’ eu cofondi


86 Nos manuscritos "senhor". O normal é que a finda siga o esquema métrico dos últimos versos da estrofe final ou do refrão, se o houver. Cf. B407/V18, onde se
empregam as formas senhor/senher na mesma cantiga por causa da rima.
87 Causal: Por causa do vosso mal.
88 A palavra "por" está deslocada nos manuscritos e se acha mais à frente neste verso. A construção "E por vosso sem (por causa do vosso sem)...serei rogador"
é análoga à da primeira estrofe "convém-mi_a rogar por vosso mal (por causa do vosso mal).
89 Que em mim errar vos faz tam muito = em que errar vos el faz tanto (mais à frente na estrofe). O vosso sem faz-vos errar em mim (tratar-me mal, falhar-me).
90 O pronome "el" alude ao sem e não a Deus.
91 Que = quem aqui (mostrei aos meus olhos vós).
92 Quando eu não posso mostrar vós a eles.
o vosso sem, e vós, e voss’ amor,
com sanha foi que houve, mià senhor,
e com gram coita, que me faz assi,
senhor, perder de tal guisa meu sem
que cofondi vós, em que tanto bem
há quanto nunca d’ outra don’ oí.

Mais valha-me contra vós, por Deus, i,


vossa mesura, e quam gram pavor
eu hei de vós, que sode-la melhor
dona de quantas e-no mundo vi;
e, se mi_aquesto contra vós nom val,
senhor fremosa, nom sei hoj’ eu al
com que vos eu ouse rogar por mi.

Mai-la mesura, que tanto valer,


senhor, sol sempr’ a que-na Deus quer dar,
me valha contra vós, e o pesar
que hei, senhor, de quanto fui dizer;
ca, mià senhor, quem mui gram coita tem
no coraçom faz-lhe dizer tal rem
a que nom sabe pois conselh’ haver,

com’ hoj’ eu faço. E muit’ estou mal,


ca, se mi_assi vossa mesura fal,
nom há i al, senhor, se nom morrer.

218 (A118; B234; 43,1)

A melhor dona que eu nunca vi,


per bõa fé, nem que oí dizer,
e a que Deus fez melhor parecer,
mià senhor ést’; e senhor, das que vi,
de mui bom preço e de mui bom sem,
per bõa fé, e de tod’ outro bem
de quant’ eu nunca d’ outra don’ oí.

E bem creede, de pram, que é ‘ssi;


e será já enquant’ ela viver;
e que-na vir e a bem conhocer
sei eu, de pram, que dirá que é ‘ssi.
Ainda vos de seu bem mais direi:
é muit’ amada, pero que nom sei
que-na tam muito ame come mi.

E por tod’ esto mal dia naci:


porque lhe sei tamanho bem querer
como lh’ eu quer’, e vejo-me morrer,
e no-na vej’, e mal dia naci.
Mais rog’ a Deus, que lhe tanto bem fez,
que El me guise com’ algũa vez
a veja, e, d’ u93 m’ eu dela parti,

com melhor coraçom escontra mi.

219 (A119; B235; 43,12)

Quam muit’ eu am’ ũa molher


no-no sabe Nostro Senhor,
nem ar-sabe quam gram pavor
hei hoj’ eu dela, cuido-m’ eu;
ca, se o soubesse, sei eu
ca se doeria de mi,
e nom me faria assi
querer bem a quem me mal quer.

Pero que dizem que negar


nom xe lhe pode nulha rem
que El nom sábia, sei eu bem
que aind’ El nom sabe qual
bem lh’ eu quero, nem sab’ o mal
que m’ ela por si faz haver;
ca, se o soubesse, doer-
s’-ia de mim, a meu cuidar.

Ca Deus de tal coraçom é


que, tanto que sabe94 que tem
e-no seu mui gram coita_alguém,
que logo lh’ i conselho pom;
e por esto sei eu que nom
sab’ El a coita que eu hei,
nem eu nunca o creerei
por aquesto, per bõa fé.

220 (A120; B236; 43,8)

Hom’ a que Deus bem quer fazer


nom lhe faz tal senhor amar
a que nom ouse rem dizer
com gram pavor de lhe pesar;
ne-no ar-faz longe morar
d’ u ela é sem seu prazer,

com’ agora mim faz viver,


93 Nos manuscritos "a veja ced’ e, u m’ eu". Em primeiro lugar, "algũa vez" e "cedo" semelham termos excluíntes. Pode ser "como a veja alguma vez" ou "como a
veja cedo", mas não ambas. Em segundo lugar, o trovador não pede a Deus ver a sua senhor no mesmo lugar no que se afastou dela, mas pede-lhe que a
deixe ver e que, nesse momento, ela tenha melhor vontade com ele do que quando ambos se afastarom. Por isso, a preposição "de" (melhor de quando eu me
parti dela) é necessária.
94 No momento em que sabe.
que me nom sei conselh’ achar
com tam gram coita de sofrer
em qual m’ eu ora vej’ andar,
com’ haver sempr’ a desejar
mais d’ outra rem de a veer.

Mais nom pod’ aquesto saber


se nom a quem Deus quiser dar
a coita que El fez haver
a mim, des que me foi mostrar
a que El fez melhor falar
do mund’ e melhor parecer.

221 (A121; B237; 43,18)

Senhor fremosa, que sempre servi,


- se Deus me leixe de vós bem haver,
pero mi_o vós nom queredes creer -
des aquel dia, senhor, que vos vi,

sem vosso grado me vos faz Amor


(e se-no meu) querer gram bem, senhor.

E, mià senhor, - assi Deus me perdom


e me dé cedo, senhor, de vós bem,
que eu desejo mais que outra rem
des que vos vi, mià senhor - des entom

sem vosso grado me vos faz Amor


(e se-no meu) querer gram bem, senhor.

E, mià senhor, - assi m’ ajude Deus


escontra vós, que me faz tant’ amar
que nom sei i conselho que filhar -
des que vos virom estes olhos meus

sem vosso grado me vos faz Amor


(e se-no meu) querer gram bem, senhor.

222 (A122; B238; 43,5)

Meu Senhor Deus, venho-vos eu rogar,


co-na maior coita que nunca vi
haver a home: havede de mi
doo, Senhor, e nunca tal pesar

me façades, meu Senhor Deus, veer,


per que eu haja o corp’ a perder.
Ca estou eu hoj’ a mui gram pavor
de o veer; e meu sem ést’ atal
de vos rogar por est’ e nom por al:
que nunca tal pesar de mià senhor

me façades, meu Senhor Deus, veer,


per que eu haja o corp’ a perder.

E bem sei eu, de pram, ca se fezer


mià senhor o que tem no coraçom,
ca perderei eu o corpo; mais nom
tam gram pesar nunca, se vos prouguer,

me façades, meu Senhor Deus, veer95,


per que eu haja o corp’ a perder!

223 (A123; B238bis; 43,19)

Se vos eu amo mais que outra rem,


senhor fremosa, que sempre servi,
rog’ eu a Deus, que tem em poder mi
e vós, senhor, que me dé vosso bem.

E, se assi nom éste, mià senhor,


nom me dé vosso bem nem voss’ amor.

Se vos eu amo mais d’ outra molher


nem ca outr’ home, mais ca mim nem al,
rog’ eu a Deus, que muito pod’ e val,
que El me dé vosso bem, se quiser.

E, se assi nom éste, mià senhor,


nom me dé vosso bem nem voss’ amor.

224 (A124; B239; 43,15)

Se Deus me leixe de vós bem haver,


senhor fremosa, nunca vi prazer

des quando m’ eu de vós parti.

E fez-mi_o voss’ amor tam muito mal


que nunca vi prazer de mim nem d’ al

des quando m’ eu de vós parti.

95 Mais nom me façades veer tam gram pesar nunca.


Houv’ eu tal coita no meu coraçom
que nunca vi prazer, se ora nom,

des quando m’ eu de vós parti.

225 (A125; B240; 43,3)

Des hojemais já sempr’ eu rogarei


Deus por mià mort’, e, se mi_a dar quiser,
que mi_a dé cedo; ca m’ é mui mester,
senhor fremosa, pois eu per vós sei

ca nom há Deus sobre vós tal poder


per que me faça vosso bem haver.

E já eu sempre serei rogador


des hojemais pola mià mort’ a Deus,
chorando muito destes olhos meus;
pois per vós sei, fremosa mià senhor,

ca nom há Deus sobre vós tal poder


per que me faça vosso bem haver.

Ca, enquant’ eu cuidei ou entendi


ca me podia Deus vosso bem dar,
nunca lh’ eu quis por mià morte rogar;
mais, mià senhor, já per vós sei assi

ca nom há Deus sobre vós tal poder


per que me faça vosso bem haver.

226 (A126; B241; 43,10)

Punhei eu muit’ em me quitar


de vós, fremosa mià senhor,
e nom quis Deus nem voss’ amor;
e, poi-lo nom pud’ acabar,

dizer-vos quer’ eu ũa rem,


senhor, que sempre bem quige:
or sachïez veroiement
que je soi votr’ home lige.96

De querer bem outra molher


punhei eu há i gram sazom,
e nom quiso meu coraçom;
e, pois que el nem Deus nom quer,

96 Francês antigo: Sabede, de pram, que eu som vosso vassalo.


dizer-vos quer’ eu ũa rem,
senhor, que sempre bem quige:
or sachïez veroiement
que je soi votr’ home lige.

E, mià senhor, per bõa fé,


punhei eu muito de fazer
o que a vós forom dizer,
e nom pud’; e, pois assi é,

dizer-vos quer’ eu ũa rem,


senhor, que sempre bem quige:
or sachïez veroiement
que je soi votr’ home lige.

227 (A127; B242; 43,9)

Ora vej’ eu o que nunca cuidava,


mentr’ eu vivesse, no mundo veer:
vi ũa dona melhor parecer
de quantas outras e-no mundo vi,
e por aquela logo me parti
de quant’ eu al no mundo desejava.

E, se eu ant’ em mui gram coita_andava,


já m’ esta dona faz maior haver;
ca me fez97 Deus, por meu mal, entender
todo seu bem, e poi-lo entendi,
mais em tam grave dia foi por mi
ca mais coitad’ ando ca ant’ andava.

E, u eu vi quam fremoso falava


e lh’ oí quanto bem disse dizer,
tod’ outra rem me fez escaecer,
per bõa fé: pois lh’ eu tod’ est’ oí
nunca lh’ ar-pude rogar des ali
por nulha rem do que lh’ ante rogava.

228 (A128; B243; 43,7)

Nem um conselho, senhor, nom me sei


a esta coita que me faz haver
esse vosso fremoso parecer;
e, pois aqui tamanha coita hei,

u vos vejo, fremosa mià senhor,

97 Nos manuscritos "faz". O correto deverá ser "fez", pois segue-se "e poi-lo entendi". Quer dizer, depois de que Deus lho fez entender, entendeu-o.
que farei já des que m’ eu d’ aqui for?

E perdud’ hei o dormir; e o sem


perderei ced’, aquant’ é meu cuidar,
que nom sei i conselho que filhar;
e, pois mi_aqui tamanha coita vem,

u vos vejo, fremosa mià senhor,


que farei já des que m’ eu d’ aqui for?

E nunca eu tamanha coita vi


haver a home, se Deus me perdom,
aqual hoj’ eu hei no meu coraçom
por vós; e, pois tal coita hei aqui,

u vos vejo, fremosa mià senhor,


que farei já des que m’ eu d’ aqui for?

LAIS DE LEONORETA

229 (B244)

Senhor genta,
me tormenta
voss’ amor em guisa tal
que tormenta
que eu senta
outra nom m’ é bem nem mal,
mai-la vossa m’ é mortal.

Leonoreta98,
fim roseta,
bela sobre toda fror;
fim roseta,
nom me meta
em tal coita voss’ amor!

Das que vejo


nom desejo
outra senhor se vós nom,
e desejo
tam sobejo
mataria um leom,
senhor do meu coraçom.

Leonoreta
fim roseta,

98 No encontro vocálico há ditongo, pronunciando-se o "e" átono como "i", do mesmo jeito que os pronomes átonos "me" e "te" se ditongan ante "a" ou "o".
bela sobre toda fror;
fim roseta,
nom me meta
em tal coita voss’ amor!

Mià ventura
em loucura
me meteu de vos amar;
é loucura
que me dura,
que me nom poss’ ém quitar,
ai fremosura sem par!

Leonoreta,
fim roseta,
bela sobre toda fror;
fim roseta,
nom me meta
em tal coita voss’ amor!

JOÁM LOBEIRA

230 (B245; 71,3)

Nom pode Deus, pero pod’ em poder,


poder El tanto, pero poder há:
já d’ ũa99 dona nom me tolherá
bem, pero pode quanto quer poder;
e100 sei eu del ũa rem, a-la-fé:
que, pero El pod’ em quanto deus é,
seu bem que perça nom pod’ El poder.

E pero é sobre todos maior


senhor em poder de quantos eu sei,
nom pod’ El poder, segund’ apres’ hei,
- pero é deus sobre todos maior -
que me faça perder prol nem gram bem
daquesta dona, que m’ em poder tem,
pero pod’ El em poder mui maior.

E pero Deus é o que pod’ e val,


e pode sempre nas cousas que som,
e pode poder em toda sazom,
nom pod’ El tanto, pero pod’ e val,
que me faça perder, esto sei eu,
da mià senhor bem; pois me nunca deu

99 No manuscrito falta a preposição "de", pois o trovador alude ao bem da dona e não a ela própria, como se depreende do resto da cantiga.
100 No manuscrito, o verso tem uma sílaba a menos.
poder101 em tanto, pero tanto val.

231 (B246; 71,2)

Muitos que mi_oem loar mià senhor,


e falar no seu bem e no seu prez,
dizem eles que algum bem me fez;
e dig’ eu: o bem do mundo melhor

me fez e faz, assi Deus me perdom,


desejar, mais em outra guisa nom.

Fal’ eu da sa bondad’ e do seu sem;


e dizem-m’ eles, quand’ esto dig’ eu,
que bem me fez, porque sõo tam seu;
e dig’ eu: o bem sobre todo bem

me fez e faz, assi Deus me perdom,


desejar, mais em outra guisa nom.

232 (B247; 71,5)

Se soubess’ ora mià senhor


que muit’ a mi praz d’ eu morrer
ante ca sa ira temer
(que houv’, e102 que sempre temi
mais ca morte, des que a vi),
pesar-lh’-ia mais d’ outra rem
d’ eu morrer, pois a mi praz ém.

Est’ entend’ eu do seu amor;


ca, des que a vi, vi-lh’ haver
sempre pesar do meu prazer
e sempre sanha contra mi;
e por est’ entend’ eu assi:
que da morte, que m’ ora vem,
pesar-lh’-á porque é meu bem:

desto sõo já sabedor.


E ar-prazer-mi_á d’ eu103 saber,
des que eu mort’ assi104 prender,
quem lhe sofrerá des ali
tantas coitas com’ eu sofri:

101 No manuscrito "pod’ el". O verso anterior acaba com "nom me deu" e não "nom mi_o deu". Portanto, falta o objeto direto do verbo dar "deu-me poder".
102 No manuscrito "houvi". O "e" átono é normalmente representado como "e" em Ajuda e como "i" nos apógrafos italianos. No encontro vocálico com a copulativa
"e" produz-se elisão.
103 No manuscrito "deo", com uma sílaba a mais no verso. O pronome "o" é desnecessário.
104 No manuscrito o verso tem uma sílaba a menos. Substituir "des que" por "des quando" não é ajeitado, pois produzir-se-ia elisão vocálica (des quand’ eu).
Desde que na cantiga já se aludiu à morte do trovador nos versos anteriores, pode-se conjecturar o advérbio "assi". Cf. B610bis/V213: "e pois em tal razom hei
por dona de prender mort’ assi".
eu creo que lhe falrá quem;
pero m’ ela tev’ em desdém

des que a vi. E, se pavor


eu nom houvesse de viver
(o que Deus nom leixe seer!),
diria quanto mal prendi
dela por bem que a servi,
e dela105 com’ errou o sem
contra mi; mais nom me convém.

233 (B248; 71,1)

Amigos, eu nom posso bem haver,


nem mal, se me nom vem de mià senhor;
e, pois m’ ela faz mal e desamor,
bem vos posso com verdade dizer

que a mim avẽo em guisa tal


que vi todo meu bem por gram meu mal.

Ca vi ela, de que m’ assi avém


que já nom poss’, assi Deus me perdom,
d’ al haver bem nem mal se dela nom;
e, pois end’ hei mal, posso dizer bem

que a mim avẽo em guisa tal


que vi todo meu bem por gram meu mal.

Pois bem nem mal nom m’ é se nom o seu,


e que mi_o bem falec’ e o mal hei,
e pois meu tempo tod’ assi passei,
com gram verdade posso dizer eu

que a mim avẽo em guisa tal


que vi todo meu bem por gram meu mal.

234 (B249; 71,7)106

- Venh’ eu a vós, mià senhor, por saber,


do que bem serv’ e nom falec’ em rem
a sa senhor e lh’ a senhor faz bem,
qual deles deve mais a107 gradecer.
- Amigo, mais dev’ o bem a valer;

105 E (diria) dela com’ errou o sem = e (diria) como errou ela o sem (cf. p. ex. B1488/V1100: "ca vos direi do peom como fez"). No manuscrito "diria", com uma
sílaba a mais. A opção "e de como errou" não semelha ajeitada, porque: a) na construção "dizer como" não se usava a preposição "de". b) Elisão "com’ errou",
pois não há pausa.
106 Jogo de palavras. Na expressão "servir bem", o amigo entende "bem" como advérbio e a senhor entende "bem" como substantivo.
107 Uma sílaba a menos no verso. Dever gradecer = dever a gradecer. Cf. "deve mais a gracir" no refrão.
ca, se o bem dad’ é por o servir,
o servidor deve mais a gracir.

- Quem bem serve, senhor, sofre gram mal


e grand’ afám, e mil coitas sem par,
onde devia bom grad’ a levar
se mesura da sa senhor nom fal.
- Amigo, mais é o bem e mais val;

ca, se o bem dad’ é por o servir,


o servidor deve mais a gracir.

ROÍ QUEIMADO

235 (A129; B250; 148,10)

Nostro Senhor Deus, e por que neguei


a mià senhor quando a eu veer
podia e lhe podera dizer
muitas coitas que por ela levei?;
ca já eu tal temp’ houv’, e atendi
outro melhor, e aquele perdi,
e outro tal nunca já cobrarei.

Ca já eu tal temp’ houve que morei


u a podia eu mui bem veer,
e u a vi mui melhor parecer
de quantas donas vi nem veerei;
e pero nunca lh’ ousei dizer rem
de quantas coitas levei por gram bem
que lh’ eu queria, e quer’, e querrei

mentr’ eu viver. Mais já nom viverei


se nom mui pouco pois que a veer
eu nom puder, ca já nem um prazer
de nulha cousa nunca prenderei;
ca nunca Deus quer que eu cuid’ em al
se nom por quê lhe nom diss’ o gram mal
e a gram coita que por ela hei.

Mais a que sazom que m’ eu acordei!,


quando a nom posso per rem veer
nem quando nom poss’ i conselh’ haver.
Mais eu, cativo!, e que receei?;
ca nom mi_havia porend’ a matar,
nem ar-havia peor a estar
dela do que m’ hoj’ estou, be-no sei.
Mais de que podia peor estar?,
pois eu nom vej’ aquela que amar
sei mais de mim nem quantas cousas sei.

236 (A130; B251; 148,4)

Deste mund’ outro bem nom querria,


por quantas coitas me Deus faz sofrer,
que mià senhor do mui bom parecer
que soubess’ eu bem que entendia
como hoj’ eu moir’; e nom lho dizer eu
nem outre por mim, mais ela de seu108
o entender. Mais como seria?109

E, se eu est’ houvess’, haveria


o mais de bem que eu querria_haver:
sabê-lo ela bem sem lho dizer
eu, e nom atender110 aquel dia
que eu atend’, ond’ hei mui gram pavor
de lhe dizer "por vós moiro, senhor";
ca sei que por meu mal lho diria,

ca senhor hei que m’ estranharia


tanto que nunca_haveria poder
de lh’ ar-falar, nem sol de a veer.
E mal me vai, mais peor m’ iria.
E por esto querria eu assi
que o soubess’ ela, mais nom per mi,
e soubess’ eu bem que o sabia.

E rog’ a Deus e Santa Maria,


que lhe souberom tanto bem fazer111,
que bem assi lho façam entender;
e, com tod’ est’, ainda seria112
em gram pavor de m’ estranhar porém;
e, par Deus!, ar-jurar-lh’-ia mui bem
que nulha culpa i nom havia

de m’ entender, assi Deus me perdom,


nem no gram bem que lh’ eu quer’; e entom
com dereito nom se queixaria.

237 (A131; B252; 148,24)

Senhor, que Deus mui melhor parecer


108 Por si própria.
109 Como seria possível ela o entender se eu ou outra pessoa não lho dizermos. Cf. a mesma construção em A250.
110 Em B "atendesse", o que não faz sentido. Em A "atenderia", com uma sílaba a mais. O infinitivo "atender" concorda com o "saber" do verso anterior.
111 A versão de B parece preferível, pois assim evita-se a repetição da palavra rimante "haver".
112 Aqui com o significado de estar, viver.
fez de quantas outras donas eu vi,
ora soubéssedes quant’ eu temi
sempr’ o que ora quero cometer:
de vos dizer, senhor, o mui gram bem
que vos quero, e quanto mal me vem,
senhor, por vós, que eu por meu mal vi.

E sabe Deus que adur eu vim i


dizer-vos como me vejo morrer
por vós, senhor, mais nom poss’ al fazer.
E, vel por Deus, doede-vos de mi!;
ca por vós moir’, esto sabede bem;
e, se quiserdes, mià senhor, porém
nom me devíades leixar morrer.

E, já que vos comecei a dizer


bem que vos quero, se vos nom pesar,
senhor fremosa, quero-vos rogar
que vos nom pês, por Deus, de vos veer
nem de falar vosc’ (e faredes bem
e gram mesura, e, quant’ é meu sem,
tenho que nom há por que vos pesar).

E, mià senhor, por eu vosco falar


nunca vós i rem podedes perder,
e guarredes mim; e, se o fazer
quiserdes, quero-vos desenganar,
senhor: todos vo-lo terrám por bem.
E, mià senhor, mais vos direi eu ém:
muito perdedes vós em me perder;

ca mi113, senhor, havedes vós mui bem,


como que vos114 nom hei a custar rem
e servir-vos-ei já mentr’ eu viver.

238 (A132; B253; 148,9)

Fiz meu cantar e loei mià senhor


mais de quantas outras donas eu vi;
e, se por est’ ham queixume de mi
as outras donas, ou mi_ham desamor,
hajam de seu quem delas diga bem
e a quem façam muito mal porém,
ca bem assi faz a mim mià senhor,

a mais fremosa dona nem melhor


de quantas hoj’ eu sei, per bõa fé.
E vejam quê farám, ca já ‘ssi é;
113 Pronome tónico. Havedes mi = Havedes-me (oposto a "me perder" do verso anterior).
114 Pois vos nom hei a custar rem.
e, se me por aquest’ ham desamor,
hajam de seu que-nas louv’ e entom
nunca lhes porém façam se mal nom,
ca nom faz a mim a minha melhor.

E, se m’ eu hei, de mi_a loar, sabor,


nom ham porém por que se mi_assanhar;
mais ar-hajam de seu que-nas loar
e a quem hajam porém desamor,
com’ a mim faz aquela que eu já
loarei sempr’, e sei bem que nom há,
de fazer a mim bem, nem um sabor.

Ca, se m’ algum bem quisesse fazer,


já-que-quer115 m’ ém fezera entender
des quant’ há que a filhei por senhor.

239 (A133; B254; 148,1)

Agora viv’ eu como querria


veer viver quantos me querem mal:
que nom vissem prazer de si nem d’ al,
com’ eu fiz sempre des aquel dia
que eu mià senhor nom pude veer,
ca se nunca116 depois ar-vi prazer
Deus nom me valha (que poderia).

E quem vivess’ assi, viveria,


per bõa fé, em gram coita mortal,
ca ‘ssi viv’ eu por ũa dona qual
sab’ hoje Deus e Santa Maria
que a fezerom melhor parecer
de quantas donas vi, e mais valer
em todo bem; e bem veeria

quem visse mià senhor, e diria,


eu o117 sei bem, por ela que é tal
como vos eu dig’; e, se me nom val
Deus (que mi_a mostre!), já nom guarria
eu mais no mundo, ca nom hei poder
de já mais aquesta coita sofrer
do que sofri, e desejaria

muito mià mort’ e querria morrer,


por mià senhor (a que prazeria)

e por gram coita em que me viver


115 Nos manuscritos "já que que": alguma cousa.
116 Alguma vez.
117 O pronome é necessário. Uma sílaba menos nos manuscritos.
vejo por ela (que perderia).

240 (A134; B255; 148,22)

Sempr’ ando cuidand’ em meu coraçom


com’ eu iria mià senhor veer
e em como lh’ ousaria dizer
o bem que lh’ eu quero; e sei que nom
lh’ ousarei end’ eu dizer nulha rem,
mais veê-la-ei pouc’ e ir-m’-ei ém
com mui gram coita no meu coraçom;

tal que, se a vir, quantas cousas som


e-no mundo nom mi_ham de guarecer
de morte pois lhe nom ousar dizer
o bem que lh’ eu quero. E porém nom
me sei conselho, nem sei ora bem
se prove d’ ir i, se nom, e meu sem
e meus conselhos todos aqui som.

E assi guaresc’, há mui gram sazom,


cuidando muit’, e nom sei que fazer;
mais pero, pois lhe nom hei a dizer
o bem que lh’ eu quero, tenho que nom
é mià prol d’ ir i; mais sei al porém:
que morrerei se a nom vir. E quem
sofreu tantas coitas tam gram sazom?

Eu (e nom outre), porque me118 nom tem


por seu; e moiro, se Deus me perdom.

241 (A135; B256; 148,11)

Nostro Senhor, e ora que será


de mim?, que moiro porque me parti
de mià senhor mui fremosa, que vi
polo meu mal? E de mim que será,
Nostro Senhor?, ou ora que farei?;
ca, de pram, nem um conselho nom hei,
nem sei que faça, nem que xe será

de mim, que moiro e nom me sei já


nem um conselh’ outro se nom morrer.
E tam bom conselho nom poss’ haver,
pois que nom cuido nunca veer já
esta senhor, que por meu mal amei
des que a vi, e am’, e amarei

118 Nos manuscritos mi_o. O pronome não faz sentido.


mentr’ eu viver; mais nom viverei já

mais des aqui, de pram, per nulha rem,


cuidando sempre no meu coraçom
no mui gram bem que lh’ hoj’ eu quer’, e nom-
na veer ne-na cuidar já per rem
a veer. E com aqueste cuidar
cuid’ a morrer, ca nom poss’ hoj’ osmar
com’ eu possa viver, per nulha rem.

Poi-la nom vej’ e cuid’ em quanto bem


lhe Vós fezestes em tod’, ar-cuid’ al:
em com’ a mim fezestes muito mal:
pois já quisestes que lh’ eu tam gram bem
quisesse, me fazerdes119 alongar
de a veer, e tam a meu pesar.
Nostro senhor, u me faredes bem?

A-la-fé, nenlhur, aquesto sei já;


ca, se a nom vir, nunca verei bem120.

242 (A136; B257; 148,18)

Por mià senhor fremosa quer’ eu bem


a quantas donas vej’, e gram sabor
hei eu de as servir por mià senhor
que amo muit’; e farei ũa rem
porque som donas: querrei-lhes fazer
serviço sempr’ e querrei-as veer
sempr’ u puder e dizer delas bem

por mià senhor, que quero mui gram bem;


que servirei já mentr’ eu vivo for,
mais, enquant’ ora nom vir mià senhor,
servirei as outras donas porém,
porque nunca vejo tam gram prazer
com’ em veê-las, pois nom hei poder
de veer mià senhor, que quero bem.

Ca, de pram, est’ é hoj’ o mais de bem


que hei, pero que sõo sabedor
que assi morrerei por mià senhor
veend’ as outras, perdendo meu sem
por veer ela, que Deus quis fazer
senhor das outras em bem parecer
e em falar e em tod’ outro bem.
119 Fazerdes-me alongar de a ver despois de fazerdes que a quisesse gram bem. Em A "nom mi_o fazerdes", em B "nom mi_o fazer". Mas o pronome não faz
sentido nem o advérbio negativo, pois o mal que Deus lhe fez ao trovador é fazê-lo alongar de a ver, como se depreende do começo da estrofe: "poi-la nom
vejo".
120 A lição de B semelha preferível, pois o trovador parece fazer um jogo de palavras com o verbo veer (que pode significar ver ou experimentar, obter). Cf.
A133/B254: "e bem veeria quem visse mià senhor".
E por aquesta cuid’ eu a morrer:
a que Deus fez, por meu mal, tanto bem.

243 (A137; B258; 148,12)

Nunca fiz cousa de que me tam bem


achasse come de quanto servi
sempr’ ũa dona, des quando a vi,
que amei sempre mais ca outra rem;
ca, de pram, quanto no mundo durei,
os dias que a servi gaanhei
(e tantos houv’ end’, a prazer de mi).

E tenho que me fez Deus mui gram bem


em me fazer tam bõa dona_amar,
e de a servir, e nom m’ enfadar
nem tẽer-lh’ o mal que me faz em rem,
e de me dar coraçom de tẽer
por bem quanto m’ ela quiser fazer,
e atender temp’ e nom me queixar.

E, de pram, sempre des que lh’ eu quis bem,


maior ca mim e com maior razom,
sempr’ eu cuidei que verria sazom
que lh’ ousaria eu algũa rem
dizer do bem que lh’ eu quer’; e estou
atendend’ aquel temp’ e nom chegou;
pero estou led’ em meu coraçom

porque quero tam bõa dona bem,


de que sei ca nunca me mal verrá;
ca, se morrer por ela, prazer-mi_-á.
Se mi_ar-quiser fazer algũa rem
como nom moira, fará mui melhor;
e be-no pode fazer mià senhor;
ca tod’ aqueste poder be-no há,

e em fazer em mim quanto quiser,


e em valer mui mais d’ outra molher
em parecer e em tod’ outro bem.

244 (A138; B259; 148,23)

Senhor fremosa, vejo-vos queixar


porque vos am’ e amei pois vos vi;
e, pois vos desto queixades de mi,
se ém dereito121 queredes filhar,

aqué-m’ aqui e-no vosso poder!

Pois vos de mim nom queixades por al


se nom porque vos quero mui gram bem,
e vejo que vos queixades porém,
senhor de mim e meu bem e meu mal,

aqué-m’ aqui e-no vosso poder!

Senhor, se vós tẽedes por razom


d’ eu por aquesto já morte prender,
nom hei eu quem me de vós defender;
e porém, coita do meu coraçom,

aqué-m’ aqui e-no vosso poder!,

em que fui sempr’ e hei já de seer.

245 (A139; B260; 148,3)

De mià senhor direi-vos que mi_avém:


porque a vejo mui bem parecer
tal bem lhe quer’, onde cuid’ a morrer;
e, pero que lhe quero tam gram bem,

ainda lh’ eu mui melhor querria


se podesse...mais nom poderia.

Ca lhe quero tam gram bem que perdi


já o dormir, e, de pram, perderei
o sem mui cedo com coita que hei;
e, pero que tod’ aquesto perç’ i,

ainda lh’ eu mui melhor querria


se podesse...mais nom poderia.

Ca lhe quero bem tam de coraçom


que sei mui bem que, se m’ ela nom val,
que morrerei cedo, nom há i al;
e, com tod’ esto, se Deus me perdom,

ainda lh’ eu mui melhor querria


se podesse...mais nom poderia

per nulha rem, par Santa Maria!;


ca, se podesse, log’ eu querria.

121 Vingança.
246 (A140; B261; 148,2)

Cuidades vós, mià senhor, que mui mal


estou de vós; e cuid’ eu que mui bem
estou de vós, senhor, por ũa rem
que vos ora direi (ca nom por al):

se morrer, morrerei por vós, senhor;


se mi_ar-fezerdes bem, há quê122 melhor?

Tam mansa vos quis Deus, senhor, fazer,


e tam fremosa, e tam bem falar,
que nom poderia eu mal estar
de vós por quanto vos quero dizer:

se morrer, morrerei por vós, senhor;


se mi_ar-fezerdes bem, há quê melhor?

Amo-vos tant’ e com tam gram razom,


pero que nunca de vós bem prendi,
que cuid’ eu est’; e vós que nom é ‘ssi;
mais tant’ esforç’ hei no meu coraçom:

se morrer, morrerei por vós, senhor;


se mi_ar-fezerdes bem, há quê melhor?

247 (A141; B262; 148,5)

Direi-vos que mi_avẽo, mià senhor,


i logo, quando m’ eu de vós quitei:
houve por vós, fremosa mià senhor,
a morrer; e morrera, mais cuidei

que nunca vos veeria desi


se morress’, e por esto nom morri.

Cuidand’ em quanto vos Deus fez de bem


em parecer e em mui bem falar
morrera eu; mais, polo mui gram bem
que vos quero, mais123 me fez Deus cuidar

que nunca vos veeria desi


se morress’, e por esto nom morri.

Cuidand’ em vosso mui bom parecer


houv’ a morrer, assi Deus me perdom;
122 A palavra "aqué" não faz sentido aqui, pois significa "eis aqui". "há quê melhor?" = "quê há melhor? (do que isso)?".
123 Advérbio de quantidade aqui: Deus fez com que cuidasse mais em que nunca vos veria do que em quanto El vos fez de bem em parecer e mui bem falar.
e polo vosso mui bom parecer
morrera eu, mais acordei-m’ entom

que nunca vos veeria desi


se morress’, e por esto nom morri.

Cuidand’ em vós houv’ a morrer assi,


e cuidand’ em vós, senhor, guareci.

248 (A142; B263; 148,19)

Preguntou Joám Garcia


da morte de que morria,
e dixe-lh’ eu toda via:

- A morte desto se m’ ata:


Guïomar Afonso Gata
ést’ a dona que me mata.

Pois que m’ houve preguntado


de que era tam coitado,
dixe-lh’ eu este recado:

- A morte desto se m’ ata:


Guïomar Afonso Gata
ést’ a dona que me mata.

Dixe-lh’ eu: - Já bem124 vos digo


a coita que hei comigo:
per bõa fé, meu amigo,

a morte desto se m’ ata:


Guïomar Afonso Gata
ést’ a dona que me mata.

249 (A143; B264; 148,17)

Pois que eu ora morto for,


sei bem ca dirá mià senhor:

- Eu sõo Guïomar Afonso!

Pois souber mui bem ca morri


por ela, sei ca dirá ‘ssi:

- Eu sõo Guïomar Afonso!

124 Falta uma sílaba à lição de A. Pode-se completar com a lição de B mudando "bõo" (que será erro) por "bem" (em verdade vos digo).
Pois que eu morrer, filhará
entom o soqueix’ e dirá:

- Eu sõo Guïomar Afonso!

250 (B265; 148,15)

O meu amigo, que me mui gram bem


quer, assanhou-s’ um dia contra mi
muit’ em dõado; mais del125, que s’ assi
a mim assanha, sei eu ũa rem:

se soubess’ el quam pouc’ eu daria


por sa sanha, nom s’ assanharia.

E porque nom quig’ eu com el falar


quand’ el quisera, nem se mi_aguisou,
assanhou-s’ el; e126, de pram, bem cuidou
que me matava; mais, a meu cuidar,

se soubess’ el quam pouc’ eu daria


por sa sanha, nom s’ assanharia.

Porque me quer gram bem de coraçom


assanhou-s’ el; e cuidou-m’ a fazer
mui gram pesar; mais devedes creer
del, que s’ assanha, se Deus me perdom:

se soubess’ el quam pouc’ eu daria


por sa sanha, nom s’ assanharia.

251 (B266; 148,16)127

VAASCO GIL

252 (A144; B267; 152,4)

Muit’ aguisad’ hei de morrer;


e nom tenho mià mort’ em rem
(ante me prazeria ém),
pois sem meu grad’ hei a fazer

125 No manuscrito "el". A preposição "de" é necessária aqui. Cf. B1034/V624: "E ben sei del que non cataria".
126 No manuscrito "mais". Uma conjunção adversativa não faz sentido aqui. A razão desta estrofe é paralela à da seguinte estrofe com a conjunção copulativa "e":
"e cuidou-m’ a fazer mui gram pesar".
127 Poema mui provavelmente espúrio no final do cancioneiro de Roí Queimado. Precedido dum quadro com o nome "Cartuxo", que poderá ser o nome do autor.
Emprega-se a forma evoluída "minha" e não mià, rima vogal aberta/fechada, estrutura inusual, não há qualquer relação métrico-estilística com as cantigas de
Roí Queimado.
a mià senhor mui gram pesar,
ca lhe pesa de a amar.

E mià senhor gram pesar há


de que lhe quer’ eu mui gram bem;
e a mim gram coita m’ ém vem,
mais pero de fazer hei já

a mià senhor mui gram pesar,


ca lhe pesa de a amar.

E grave dia eu naci


com quanto mal me faz Amor;
ca por el, mentr’ eu vivo for,
hei já sempr’ a fazer assi:

a mià senhor mui gram pesar,


ca lhe pesa de a amar.

E nunca m’ end’ eu partirei,


ca nom quer o meu coraçom
nem Deus; e, se Deus me perdom,
a meu pesar, a fazer-lh’ hei

a mià senhor mui gram pesar,


ca lhe pesa de a amar.

E nom me poss’ end’ eu quitar


de lhe fazer este pesar.

253 (A145; B268; 152,10)

Que partid’ eu serei, senhor,


de nunca já veer prazer,
des quand’ ora partido for
de vos falar e vos veer!

E partido serei log’ i


d’ haver sabor d’ al nem de mi.

E partir-s’-am os olhos meus


de nom veer de nulha rem
prazer pois que os partir Deus
de vós, senhor, que quero bem.

E partido serei log’ i


d’ haver sabor d’ al nem de mi.

E partir-s’-á meu coraçom


de nunca d’ al rem se pagar
(e partir-s’-á ém com razom)
des quando vos eu nom falar.

E partido serei log’ i


d’ haver sabor d’ al nem de mi.

254 (A146; B269; 152,11)

Que sem mesura Deus é contra mi!;


pois que me faz sempre pesar veer,
por que me leixa no mundo viver?
Mais, pois me vejo que x’ El quer assi,

quant’ eu hoimais no coraçom tever


negá-lo-ei e direi-lh’ al que-quer.

E, quant’ El sabe que me pesará,


poi-lo El faz (por xe me mal fazer
e por al nom), quero-vos eu dizer
se eu puder o que lh’ end’ averrá:

quant’ eu hoimais no coraçom tever


negá-lo-ei e direi-lh’ al que-quer.

E des hoimais nom pod’ El saber rem


de mià fazenda se nom devinhar,
pois El assi quer migo guerrejar;
mais vedes que vo-lh’ eu farei porém:

quanto eu hoimais no coraçom tever


negá-lo-ei e direi-lh’ al que-quer.

255 (A147; B270; 152,13)

Senhor fremosa, nom hei hoj’ eu quem


vos por mim queira mià coita mostrar,
nem eu, senhor, nom vos ous’ i falar;
pero quero-vos rogar d’ ũa rem:

que vos prenda doo de mi


por quant’ afám por vós sofri.

Por quanta coita, bem de-la sazom


que vos eu vi, sempre por vós levei,
se vos prouguer ora rogar-vos-ei,
senhor, por Deus, por est’ e por al nom,
que vos prenda doo de mi
por quant’ afám por vós sofri.

Ai, mià senhor, lume daquestes meus


olhos, que eu vi sempre por meu mal!,
nom vos ous’ eu por mim falar em al;
mais, mià senhor, rogo-vos eu por Deus

que vos prenda doo de mi


por quant’ afám por vós sofri.

Havede vós doo de mi


por quant’ afám sofr’ e sofri!

256 (A148; B271; 152,17)

Se vos eu ousasse, senhor,


no mal que por vós hei, falar,
des que vos vi128, a meu cuidar,
pois fôssedes ém sabedor,

doer-vos-íades de mi.

E porque nunca estes meus


olhos fazem se nom chorar,
u vos nom vêem, com pesar,
se o soubéssedes, por Deus,

doer-vos-íades de mi.

Com’ é quite129 meu coraçom,


se nom em vós, d’ em al cuidar,
se vo-l’ eu ousasse mostrar,
por mesura (e por al nom)

doer-vos-íades de mi.

Mais nom vos faç’ eu ém130 saber


de quanto mal me faz Amor
por vós, ca m’ hei de vós pavor;
ca, se vo-l’ ousasse dizer,

doer-vos-íades de mi.

257 (A149; B272; 152,2)

128 Falar no mal que por vós hei des que vos vi.
129 No manuscrito "quanto", que não faz sentido aqui. Se eu vos ousasse mostrar como o meu coração não pensa senão em vós.
130 Em A "faç’ eu saber", em B "faç’ ém sabedor". Cf. B1579/V1111: "ca me fazem ém sabedor de vós que havedes bom sem".
Estes olhos meus hei mui gram razom
de querer mal enquant’ eu já viver,
porque vos forom, mià senhor, veer;
ca depois, nunca, se Deus me perdom,

pud’ eu em outra rem haver sabor


erg’ em cuidar em vós, ai, mià senhor!

Desses vossos olhos e destes meus


me vẽo sempre coita e pesar
poi-los meus forom os vossos catar;
ca desi, nunca, se me valha Deus,

pud’ eu em outra rem haver sabor


erg’ em cuidar em vós, ai, mià senhor!

258 (A150; 152,5)

Muito punhei de vos negar,


senhor fremosa, o gram bem
que vos quero; mais já per rem
nom hei poder de me guardar

que vos nom haja de fazer,


do bem que vos quero, saber.

Quisera-m’ eu que foss’ assi


que podesse meu coraçom
encobrir; mais nom me perdom
Deus se já poss’ al fazer i

que vos nom haja de fazer,


do bem que vos quero, saber.

Ca entend’ i eu por meu mal


que vós parecedes melhor
de quantas eu vi, mià senhor;
pero nom poss’ i fazer al

que vos nom haja de fazer,


do bem que vos quero, saber.

Tal bem vos quero que bem sei


per rem que nom posso guarir;
pero nom me poss’ ém partir,
mais é ‘ssi que poder nom hei

que vos nom haja de fazer,


do bem que vos quero, saber.
Já131 todo nom sei hoj’ eu quem
o podesse dizer, per rem;

e negara-vo-l’ eu, mais nom


quis Deus ne-no meu coraçom.

259 (A151; 152,15)

Senhor fremosa, pois pesar havedes


de que vos amo mais ca mim nem al,
direi-vos gram verdad’ (e, se nom, mal
me venha de vós, que me mal queredes):
nom vos quer’ eu pelo meu grado bem.
E, mià senhor, pois que vos pesa ém,
dizer-vos quer’ eu a quem vos tornedes:

a vós, senhor, que tam bem parecedes,


e a quem vos fez parecer assi
que quantas donas e-no mundo vi
de parecer toda-las vós vencedes
(e de bom prez e de falar melhor).
E, pois Deus tanto bem vos fez, senhor,
de vos amar nom me vos ém queixedes;

ca nom é em mim132, mao meu pecado!,


nem quer Amor que m’ ém possa quitar,
nem Deus, senhor, nem vosso semelhar;
ca me tẽem de tal guisa forçado
que me vos fazem mui de coraçom
querer gram bem; e, se Deus me perdom,
nom vos faç’ i pesar pelo meu grado.

E, mià senhor, se Deus fosse pagado


d’ eu de gram coita guardado seer,
nom me mostrara vosso parecer,
nem vós, senhor, que eu, mal dia nado,
por meu mal vi e destes olhos meus133;
e, pois vos vi, nunca despois quis Deus
que perdess’ eu gram coita nem cuidado.

E gram coita, como a perderei?;


pois que vos pesa porque vos amei,
sei, se viver, que viverei coitado.

131 No manuscrito falta a primeira letra da finda, que poderá ser "j" ou "c". O que se afirma na finda semelha que não é consequência da estrofe anterior. Cf.
A26/B119: "Ca já toda, per nulha rem, no-na poderia saber per mim".
132 Não posso fazer outra cousa, não depende da minha vontade.
133 Por meu mal e por mal destes olhos meus.
260 (A152; 152,16)

Senhor fremosa, quero-vos rogar,


por aquel deus que vos feze nacer
e mui melhor das outras parecer
donas que El em este mundo fez,
e mui mansa e de mui melhor prez,
que vos nom pês de vos eu muit’ amar.

Por vosso prez e por Deus, mià senhor,


e por mesura e por quanto bem
vos El foi dar, rogo-vos eu porém
que, se vos hoj’ eu faço pesar i
em vos amar, mià senhor, mais ca mi,
que me nom façades ém sabedor.

E, se me vós quiserdes consentir


que vos am’ eu, direi-vos ũa rem:
i me faredes aquel maior bem
daqueste mund’ e que mais desejei
des que vos vi; e mais vos ém direi:
sol por atanto vos quer’ eu servir.

261 (A153; 152,14)

Senhor fremosa, pois m’ hoj’ eu assi


vejo morrer, que contra vós gram bem
que vos quero nom me val nulha rem,
nem mui gram coita que por vós levei
des que vos vi, atanto vos direi
(e vedes que coita de sofrer i134

hei135, mià senhor): nom devia perder


eu contra vós por vos querer melhor
ca mim nem al, nem haver136 d’ al sabor
se nom de vós e de poder guarir137
u vos vej’; e haver-m’-ei138 a ‘ncobrir
de vós e d’ outre de mi_o entender.

E, mià senhor, como vos eu disser


estou139 de vós: des quando vos amei
todo sabor do mundo perdud’ hei,
e nom mi_ar-pude d’ outra rem pagar
se nom de vós; e convém-mi_a guardar
134 No manuscrito este verso está por erro no final da segunda estrofe, com uma sílaba a menos. Deverá rimar com o "assi" do primeiro verso.
135 A copulativa "e" aqui não faz sentido e sim o verbo "haver" (haver coita de sofrer).
136 nem (por nom) haver d’al sabor.
137 sabor de poder guarir u vos vejo.
138 No manuscrito "e haver-m’ a ‘ncobrir". Mas a construção "nom devia perder contra vós por haver-m’ a encobrir" não semelha fazer sentido (deveria ser "nom
devia perder por me encobrir de vós"). Aliás, a construção parece ser paralela com a dos últimos versos da seguinte estrofe ("e convém-mi_a guardar"). A coita
do trovador consiste em sentir o que sente e ter de encobri-lo.
139 Cf. p. ex. "ca estou de vós como vos direi" (A172/B323).
de mi_o saberdes quant’ eu mais puder.

262 (A154; 152,1)

Ai, mià senhor!, quero-vos preguntar:


pois que vos ides e eu nom poss’ ir
vosco per rem, e sem grad’ a partir
m’ hei eu de vós e de vosco morar,
ai eu, cativo!, por Deus, que farei?,
ai eu, cativo!, que nom poderei
prender conselho pois sem vós ficar?

Nom sei hoj’ eu tam bom conselhador


que me podesse bom conselho dar
na mui gram coita que hei d’ endurar
u vos nom vir, fremosa mià senhor;
ai eu, cativo!, de mi que será?,
ai eu, cativo!, que hei por vós já
viver em coita mentr’ eu vivo for?

Os meus olhos nom poderám140 veer


prazer enmentr’ eu vivo for, per rem,
pois vos nom virem, meu lum’ e meu bem;
e, por aquesto, querria saber:
ai eu, cativ’!, e que será de mi?,
ai eu, cativ’!, e mal dia naci,
pois hei de vós alongad’ a viver.

263 (A155; 152,6)

Nom soube que x’ era pesar,


se me valha Nostro Senhor,
quem Deus nom fez a seu pesar
longe viver de sa senhor,
u lhe nom possa rem dizer
da coita141 que o faz viver
mui trist’ e mui coitad’ andar.

Nem142 ar-soube parte d’ afám,


nem de gram coita nulha rem,
o que nom sofreu est’ afám
de nom poder per nulha rem
veê-la senhor que bem quer;
e quem tal coita nom houver
o al nom lh’ é coita, de pram.
140 A construção aqui requer o verbo em futuro. Cf. final da primeira estrofe: "nom poderei prender conselho pois sem vós ficar". Deverá-se eliminar uma sílaba. A
copulativa "e" do princípio do verso não é necessária (a segunda estrofe também não começa com "E").
141 No manuscrito "coita ‘m". A preposição "em" seria correta se os verbos "viver" e "andar" carecessem dos complementos "mui triste" (viver) e "mui coitado"
(andar). "Andar em coita mui coitado" não faz sentido.
142 No manuscrito "nom". Mas aqui "nem ar" quer dizer "nem tampouco", pois a estrofe anterior começa por "nom".
Esta tenh’ eu pola maior
coita do mund’, a meu cuidar,
e nom pod143’ i haver maior;
e no-no quer’ eu em cuidar
esto per nulha rem meter,144
mais por verdade o dizer
como quem end’ é sabedor;

ca me fez Deus coitas saber


porque mi_as fez todas sofrer,
e tenh’ end’ esta por maior.

264 (A156; 152,8)

Punhar quer’ ora de fazer


a meus olhos mui gram prazer
(que lhes nom fiz há gram sazom),
ca lhes quero fazer veer
a senhor do meu coraçom.

Pero sei bem, u nom jaz al,


que lhes verrá ém muito mal
que os nom pod’ ém guardar rem145;
mais de tod’ esto nem146 m’ ém chal,
ca eles x’ o buscarom bem.

Quand’ eles virom mià senhor


muit’ houverom ém gram sabor,
mais no-nos quise Deus quitar
de grand’ afám e de pavor
que pois houverom d’ endurar.

JOÁM PÊREZ DE ABOIM

265 (A157; 75,12)

Nostro Senhor, que mi_a mim faz amar


a melhor dona de quantas El fez,
e mais fremosa e de melhor prez,
e a que fez mais fremoso falar,
El me dé dela bem, se lhe prouguer,
ou mià morte (se m’ aquesto nom der)
me dé, por me de gram coita quitar.

143 No manuscrito "pud’ i". É a maior coita do mundo e nom pode haver maior no mundo.
144 Não é porque o queira pensar por algum motivo (não é conjetura teórica), mas porque sei que é verdade (por experiência própria).
145 Do qual nom os pode guardar rem.
146 Nom me importo por tudo isto. Cf., p. ex., Demanda do Santo Graal: "De sa beldade, disse ela, nem m’ ém chal".
E, se m’ El aquesto nom quiser dar
que lh’ hoj’ eu rogo, rogar-lh’-ei assi:
que lhe possa, com’ ela quer a mi,
querer; ca esto me pode guardar
da mui gram coita que eu hei d’ amor;
e, se m’ esto nom der Nostro Senhor,
por que me fez El tal senhor filhar?

Be-no sei eu: fez-mi_o por se vengar


de mi (per est’ e nom per outra rem).
Se lh’ algum tempo fiz pesar, porém
me leixa_assi desamparad’ andar
e nom me quer contra ela valer.
Por me fazer maior coita sofrer
me faz tod’ est’ e nom me quer matar.

JOÁM SOÁREZ CÕELHO

266 (A158; 79,19)

Em grave dia, senhor, que vos vi,


por mi e por quantos me querem bem!;
e, por Deus, senhor, que vos nom pês ém
e direi-vos quanto per vós perdi:
perdi o mund’ e perdi-me com Deus,
e perdi-me com estes olhos meus,
e meus amigos perdem, senhor, mi.

E, mià senhor, mal dia eu naci


por tod’ este mal que me por vós vem!;
ca per vós perdi tod’ est’ e o sem;
e quisera morrer e nom morri,
ca me nom quiso Deus leixar morrer
por me fazer maior coita sofrer,
por muito mal que me lh’ eu mereci.

E-na mià coita, pero vos pesar


seja, senhor, já-quê vos falarei
(ca nom sei se me vos ar-veerei):
tanto me vej’ em mui gram coita_andar
que morrerei por vós, u nom jaz al.
Catade, senhor: nom vos estê mal,
ca polo meu nom vos venh’ eu rogar;147

e ar-quero-vos ora conselhar,


per bõa fé, o melhor que eu sei:
147 Não vos zanguedes, pois não venho rogar-vos por mim (mas por vós). O sentido depreende-se da seguinte estrofe. Cf. B499/V82: "nom vos venh’ esto dizer
polo meu, mais porque vos está mal".
metede mentes no que vos direi:
quem me vos assi vir desamparar
e morrer por vós, pois eu morto for
tam bem vos dirá por mi "traedor"
come a mim, por vós, se vos matar.

E de tal preço guarde-vos vós148 Deus,


senhor e lume destes olhos meus,
se vos vós ém nom quiserdes guardar.

267 (A159; 79,37)

Meus amigos, que sabor haveria


d’ a mui gram coita ‘m que vivo dizer
em um cantar que querria149 fazer!;
e pero direi-vos como querria,
se Deus quisesse, dizê-lo: assi
que houvessem todos doo de mi
e nom soubessem por quem mi_o150 dizia.

E por esto rogo Santa Maria


que m’ ajud’ i, e que me dé poder
per que eu torne na terra viver
u mià senhor vi em tam grave dia,
sem outras coitas que depois sofri;
ca nom vivera rem do que vivi
se nom cuidando com’ i tornaria.

Mas cativ’ eu!; de melhor que querria


de poder eu na terra guarecer
u a cuidass’ eu a poder veer,
de151 mil dias, ũa vez em um dia?
Já eu est’ houv’ e perdi-o per mi,
mas tam mal dia ante nom perdi
os olhos e quant’ al no mund’ havia!;

ca, par Deus, mẽor míngua me faria.

268 (A160; 79,45)

Pero m’ eu hei amigos, | nom hei nem um amigo


com que falar ousasse | a coita que comigo
hei, nem ar-hei a quem | ous’ ém mais dizer; e digo:

de mui bom grado querria_a um logar ir


148 Uma sílaba a menos. A palavra "vós" aparece na margem do manuscrito. Aqui "vós" funciona como complemento, não como sujeito.
149 No manuscrito "querria ora fazer", com duas sílabas a mais.
150 No manuscrito "porque me dizia". O pronome é necessário (por quem dizia o cantar).
151 No manuscrito "dos mil dias". Aqui semelha que tem valor partitivo (que há melhor do que viver na terra onde pensa que a pode ver, ainda que for muito
pouco?: de mil dias, uma só vez um só dia).
e nunca m’ end’ ar-vĩir.

Vi eu viver coitados, | mas nunca tam coitado


viveu com’ hoj’ eu vivo | (ne-no viu home nado)
des quando fui u fui; | e aqué-vo-lo recado:

de mui bom grado querria a um logar ir


e nunca m’ end’ ar-vĩir.

A coita que eu prendo | nom sei quem atal prenda,


que me faz fazer sempre | dano de mià fazenda:
tod’ aquest’ entend’ eu152; | e quem mais quiser entenda:

de mui bom grado querria a um logar ir


e nunca m’ end’ ar-vĩir.

De cousas me nom guardo, | mas pero guardar-m’-ia


de sofrer a gram coita | que sofri de-lo dia
des que vi o que vi; | e mais nom vos ém diria:

de mui bom grado querria a um logar ir


e nunca m’ end’ ar-vĩir.

269 (A161; 79,20)

Eu me cuidei, u me Deus fez veer


esta senhor (contra que me nom val),
que nunca me dela verria mal.
Tanto a vi fremoso parecer,
e falar mans’ e fremos’ e tam bem,
e tam de bom prez e tam de bom sem,
que nunca dela mal cuidei prender.

Esto tiv’ eu que m’ havia valer


contra ela; e todo mi_ora fal,
e demais Deus153; e viv’ em coita tal
qual poderedes mui ced’ entender
per mià morte, ca moir’ e praze-m’ ém;
e d’ al me praz: que nom sabem por quem,
ne-no podem jamais per mi saber.

Pero vos eu seu bem queira dizer,


todo nom sei154, pero convosc’ em al
nunca fale155; mais fezo-a Deus qual
El melhor soube no mundo fazer.
Ainda vos al direi que lh’ avém:

152 No manuscrito "eu entendo". Nesta posição na estrofe os hemistíquios têm 6 sílabas e são agudos.
153 Falha-me tudo o anterior e, além disso, Deus.
154 Não sei dizer todo o seu bem, embora não fale noutra cousa.
155 No manuscrito "falei". O verbo tem de estar no presente de subjuntivo e não no passado para fazer sentido.
todas as outras donas nom som rem
contra ela, nem ham já de seer.

E esta dona, poi-lo nom souber,


nom lhe podem, se torto nom houver,
Deus nem ar as gentes culpa põer;

mai-la mià ventur’ e aquestes meus


olhos ham i gram culpa, e ar156 Deus,
que me fezerom tal dona veer.

270 (A162; 79,42)

Ora nom sei no mundo quê fazer,


nem hei conselho nem mi_o quis Deus dar,
ca nom quis El u me nom quis guardar,
e nom houv’ eu, de me guardar, poder;

ca dix’ eu ca morria por alguém,


e dereit’ é157 de lazerar porém.

Ca nom fora tam gram cousa dizer


se se mi_a mim bem houvess’ a parar
a mià fazenda158; mas quem Deus guardar
nom quer nom pode guardado seer;

ca dix’ eu ca morria por alguém,


e dereit’ é de lazerar porém.

E mal dia eu entom nom morri


quand’ esto dix’ e quando vi os seus
olhos. Pero nom dix’ i mais, par Deus,
eu159 esto dix’ em mal dia por mi;

ca dix’ eu ca morria por alguém,


e dereit’ é de lazerar porém.

Ca, des aquel dia ‘m que a eu vi


(que nom visse!) daquestes olhos meus,
nom perdi coita, ca nom quiso Deus,
nem perderei, ca eu mi_o mereci;

ca dix’ eu ca morria por alguém,


e dereit’ é de lazerar porém.

156 No manuscrito há uma sílaba a menos. Estrutura paralela à da primeira finda: "Deus nem ar as gentes" vs. "mià ventura, meus olhos e ar Deus".
157 No manuscrito "dereit’ hei". Mas o sentido aqui é "ser justo" (seer dereito) e não "ter razão" (haver dereito). Cf. B738/V339: "gram dereit’ é de lazerar porém".
158 Se me tivesse ido bem não tivesse dito que morria por alguém.
159 No manuscrito "e esto". A conjunção copulativa não faz sentido. Embora não disse mais acerca disso (disse que morria por alguém, mas não disse por quem),
prejudicou-me tê-lo dito.
271 (A163; B316; 79,43)

Pelos meus olhos houv’ eu muito mal,


e pesar tant’ e tam pouco prazer
que me valvera mais no-nos haver
nem veer nunca mià senhor nem al.

E nom mi_há prol de queixar-m’ end’ assi,


mais mal dia eu dos meus olhos vi!

Ca per eles houv’ eu mui pouco bem;


e o pesar que me fazem sofrer,
e a gram coita, nom é de dizer160;
e queixar-m’-ia, mais nom hei a quem.

E nom mi_há prol de queixar-m’ end’ assi,


mais mal dia eu dos meus olhos vi!

E a senhor (que me forom mostrar)


de quantas donas Deus quiso fazer
de falar bem e de bem parecer,
e por que moiro, nom lh’ ouso falar.

E nom mi_há prol de queixar-m’ end’ assi,


mais mal dia eu dos meus olhos vi!

272 (A164; B317; 79,38)

Nom me soub’ eu dos meus olhos melhor,


per nulha rem, vingar ca me vinguei;
e direi-vos que mal que os matei:
levei-os d’ u veíam sa senhor161.

E fiz seu mal e do meu coraçom,


por me vingar deles e por al nom.

Ca me nom podiam per nulha rem,


sem veê-lo mui bom parecer seu,
fazer gram mal. Mais que lhes ar-fiz eu?:
levei-os d’ u a viiam porém.

E fiz seu mal e do meu coraçom,


por me vingar deles e por al nom.

E-na sazom que lhes eu entendi


que eles haviam de a veer
maior sabor, pero me de fazer
mui grave foi, levei-os eu d’ ali.
160 Não é o momento de o/a dizer. Cf. A175/B326: "e já é de dizer".
161 Afastei-os de onde viam a sua senhor.
E fiz seu mal e do meu coraçom,
por me vingar deles e por al nom.

E na vingança que deles prendi


gram mal per-fiz a eles e a mi.

273 (A165; B317bis; 79,40)

Nunca coitas de tantas guisas vi


como me fazedes, senhor, sofrer;
e nom vos queredes de mim doer;
e, vel por Deus, doede-vos de mi!

Ca, senhor, moir’, e vedes que mi_avém:


se vos alguém mal quer quero-lh’ eu mal, | e quero mal quantos vos querem bem.

E os meus olhos, com que vos eu vi,


mal quer’, e Deus, que me vos fez veer,
e a morte, que me leixa viver,
e mal162 o mundo porquant163’ i naci.

Ca, senhor, moir’, e vedes que mi_avém:


se vos alguém mal quer quero-lh’ eu mal, | e quero mal quantos vos querem bem.

A mià ventura quer’ eu mui gram mal,


e quero mal ao meu coraçom,
e tod’ aquesto, senhor, coitas som,
e quero mal Deus porque me nom val.

Ca, senhor, moir’, e vedes que mi_avém:


se vos alguém mal quer quero-lh’ eu mal, | e quero mal quantos vos querem bem.

E tenho que faço dereit’ e sem


em querer mal quem vos quer mal e bem.

274 (A166; B318; 79,9)

Atal vej’ eu aqui ama chamada


que de-lo dia em que eu naci
nunca tam desguisada cousa vi,
se por ũa destas duas nom é:
por haver nom’ assi164, per bõa fé,
ou se lho dizem porque ést’ amada;

ou por fremosa ou por bem talhada


162 Subentende-se "quero": "e mal (quero) o mundo...".
163 Porquanto = porque.
164 Ama é o seu nome (ou apelido) real.
(se por aquest’ ama dev’ a seer,
é-o ela, podede-lo creer);
ou se o é po-la eu muit’ amar;
ca bem lhe quer’, e posso bem jurar:
poi-la eu vi, nunca vi tam amada.

E nunca vi cousa tam desguisada


de chamar home ama tal molher
(tam pastorinh’ é165), se lho nom disser
por tod’ esto que eu sei que lh’ avém:
porque a veja_a todos querer bem
ou porque do mund’ é a mais amada.

É-o de Deus166 como vos eu disser:


que167, pero me Deus bem fazer quiser,
sem ela nom me pode fazer nada.

275 (A167; B319; 79,8)

As graves coitas, a que-nas Deus dar


quer, e o mal d’ amor, gram bem faria
se lhe desse (pero nom lhe daria)
com quem ousass’ em sas coitas falar
em tal guisa que lho nom entendesse
com que-no falass’ e que se doesse
del; mais nom sei de Deus se poderia.

Pero sei bem, aquant’ é meu cuidar,


a quem esto desse ca lhe daria
mais longa vida, e que lh’ i faria
daquelas coitas haver mais vagar;
e nom sei al per que sem nom perdesse
que-nas168 houvess’ e cedo nom morresse,
e per esto cuido que viveria.

Destas coitas eu podia falar


come que-nas padece cada dia,
mais nom é tempo já nem me valria;
mais guarde-se quem se puder guardar,
e nom s’ esforc’ em senhor que prendesse
a melhor nem que melhor parecesse
deste mundo, ca peor lh’ i faria.

275bis (A168; B319b; 79,8)169


165 Tam novinha/jovem é.
166 Nos manuscritos falta uma sílaba e não faz sentido (é-o de como vos eu disser). Significará: é mais amada do que Deus, no sentido que vos vou dizer.
167 É causal.
168 Quem tivesse estas coitas. Em A "que mais houvesse", o que não faz sentido. Em B "se as houvesse", mas nesse caso faltaria o pronome "alguém" (per que
sem nom perdesse alguém se as houvesse).
169 Não são findas da cantiga anterior, mas uma cantiga composta de versos emparelhados e uma finda.
Em tam grave dia senhor filhei
a que nunca "senhor" chamar ousei!

Desta coita nunca eu vi maior:


morrer e nom lh’ ousar dizer "senhor";

ca, de pram, moiro querendo-lhe bem


pero nom lh’ ous’ ém dizer nulha rem;

ca dizer-lho cuidei ou a morrer,


e, poi-la vi, nom lh’ ousei rem dizer;

ca por mais mià prol tenho de morrer.

276 (A169; B320; 79,50)

Senhor, por Deus (que vos fez parecer,


per bõa fé, mui bem, e bem falar),
que vos nom pês de vos ém preguntar
desto que querria de vós saber:

se me fazedes por al, senhor, mal,


se nom porque vos amo mais ca mim nem al,

per bõa fé, nem ca os olhos meus


(e, se vos menço, Deus nom me perdom).
Senhor de mim e do meu coraçom,
dizede-m’ esto, se vos valha Deus:

se me fazedes por al, senhor, mal,


se nom porque vos amo mais ca mim nem al,

nem ca outr’ home nunca_amou molher.


E, se por est’ é, mal dia naci!;
mas empero, senhor, que seja_assi 170,
saber-mi_-o quer’ eu de vós, se puder:

se me fazedes por al, senhor, mal,


se nom porque vos amo mais ca mim nem al.

277 (A170; B321; 79,11)

Com’ hoj’ eu vivo no mundo coitado


nas graves coitas que hei de sofrer
nom poderia outr’ home viver,
nem eu fezera temp’ há i passado171;
170 Mas embora seja assi...
171 Nem eu teria vivido assim há tempo.
mais quando cuid’ em qual mià senhor vi,
em tanto viv’ e em tanto vivi172,
e tenho m’ ém173 das coitas por pagado.

Empero quand’ eu, e-no meu cuidado,


cuido nas coitas que me faz haver,
cuido mià mort’ e querria morrer,
e cuid’ em como fui mal dia nado;
mais quand’ ar-cuid’ em qual mià senhor vi,
de quantas coitas por ela sofri
muito m’ ém tenho por aventurado.

E em seu bem, per mi seer loado,


nom há mester d’ eu ende174 mais dizer
ca Deu-la fezo qual melhor fazer
soub’ e-no mund’; e bem maravilhado
será, quem vir a senhor que eu vi,
pelo seu bem, e bem dirá per mi
que bem dev’ end’ a Deus a dar bom grado

de quantas coitas por ela sofri.


Se Deus mi_a mostre como a já vi
seendo com sa madr’ em um estrado!

278 (A171; B322; 79,13)

Desmentido m’ há ‘qui um trobador


do que dixe da ama, sem razom
- de cousas, pero, e de cousas nom -;
mais u menti quero-mi_-o eu dizer:
u nom dix’ o meo do parecer
que lh’ i mui bõo deu Nostro Senhor.

Ca, de pram, a fez parecer melhor


de quantas outras e-no mundo som,
e mui mais mansa, e mais com razom
falar e riir e tod’ al fazer;
e fezo-lhe tam muito bem saber
que de175 todo bem é mui sabedor.

E por esto rogo Nostro Senhor


que lhe meta e-no seu coraçom
que me faça bem, poi-l’ a ela nom
ouso rogar; e, se m’ ela fazer
quisesse bem, nom querria seer
rei, nem seu filho, nem emperador,

172 Construção "viver em..." (viver em coita, etc.). O trovador pode (e pudo) viver na medida em que cuida/cuidou em qual senhor viu.
173 A lição dos manuscritos é correta. Estrutura paralela à da estrofe seguinte: "tenho-m’ ém das coitas por pagado" vs. "m’ ém tenho das coitas por aventurado".
174 Em A "de o ende", em B "de o ém". "De o" deverá ser erro por "d’ eu", pois o pronome "o" não faz sentido.
175 Com saber/sabedor usa-se a preposição "de" e não "em". Cf. p. ex. A101/B208: "ca vos fez de todo bem sabedor".
se per i seu bem houvess’ a perder;
ca sem ela nom poss’ eu bem haver
e-no mundo, nem de Nostro Senhor.

279 (A172; B323; 79,48)

Senhor e lume destes olhos meus,


per bõa fé, direi-vos ũa rem
(e, se vos mentir, nom me venha bem
nunca de vós nem d’ outre nem de Deus):

de-lo dia ‘m que vos nom vi,


mià senhor, nunca despois vi

prazer nem bem; ne-no ar-veerei


se nom vir vós enquant’ eu vivo for,
ou mià morte, fremosa mià senhor;
ca estou de vós como vos direi:

de-lo dia ‘m que vos nom vi,


mià senhor, nunca despois vi,

per bõa fé, se mui gram pesar nom,


ca todo quanto vi me foi pesar
e nom me soube conselho filhar;
e direi-vos, senhor, des qual sazom:

de-lo dia ‘m que vos nom vi,


mià senhor, nunca despois vi

(nem veerei, senhor, mentr’ eu viver,


se nom vir vós ou mià morte) prazer.

280 (A173; B324; 79,49)

Senhor, o gram mal e o gram pesar,


e a gram coita e o grand’ afám,
pois que vos vós nom doedes de mi,
que por vós sofro, morte m’ é, de pram,
e morte m’ é de m’ end’ assi queixar:

Tam grave dia, senhor, que vos vi!

Pois estas coitas eu hei a sofrer


que vos já dixe, mais ca morte m’ é,
pois que vos vós nom doedes de mi;
e morte m’ é, senhor, per bõa fé,
de que vos ar-hei aquest’ a dizer:

Tam grave dia, senhor, que vos vi!

Porque vejo que cedo morrerrei


daquestas coitas que vos dixe já,
pois que vos vós nom doedes de mi,
vedes, senhor (mui grave me será
de o dizer, pero a dizê-l’-ei):

Tam grave dia, senhor, que vos vi!

281 (A174; B325; 79,39)

Noutro dia, quando m’ eu espedi


de mià senhor, e quando mi_houv’ a ir
e me nom falou nem me quis oir,
tam sem ventura foi que nom morri

que se mil vezes podesse morrer


mẽor coita me fora de sofrer.

U lh’ eu dixe "com graça, mià senhor"


catou-m’ um pouc’ e teve-m’ em desdém;
e, porque me nom disso mal nem bem,
fiquei coitad’, e com tam gram pavor

que se mil vezes podesse morrer


mẽor coita me fora de sofrer.

E sei mui bem, u me dela quitei


e m’ end’ eu fui e nom me quis falar,
ca, pois ali nom morri com pesar,
nunca jamais com pesar morrerei;

que se mil vezes podesse morrer


mẽor coita me fora de sofrer.

282 (A175; B326; 79,14)

Deus, que mi_hoj’ aguisou de vos veer


e que é da mià coita sabedor,
El sab’ hoje que com mui gram pavor
vos dig’ eu est’ (e já é176 de dizer):

Moir’ eu, e moiro por alguém;


e nunca vos mais direi ém.

176 Lição de A. Já é momento de ser dito.


E, mentr’ eu vi que podia viver
na mui gram coita ‘m que vivo d’ amor,
nom vos dizer rem tive por melhor;
mais dig’ esto, pois me vejo morrer:

Moir’ eu, e moiro por alguém;


e nunca vos mais direi ém.

E nom há no mundo filha de rei


a que d’ atanto devess’ a pesar,
nem estranhidade d’ hom’ a filhar177
por quant’ éste178 que vos ora direi:

Moir’ eu, e moiro por alguém;


e nunca vos mais direi ém.

283 (A176; B327; 79,12)

Da mià senhor, que tam mal dia vi


(como Deus sabe), mais nom direi ém
ora daquesto, ca me nom convém179;
nem me dé Deus bem dela nem de si

se hoj’ eu mais de bem querria_haver


de saber o mal (e de me tẽer

por seu) que me faz180; ca doo de mi


haveria, e saberia bem
qual é gram coita ou quem perd’ o sem;
e nom me valha per que-no perdi

se hoj’ eu mais de bem querria_haver


de saber o mal (e de me tẽer

por seu) que me faz, que tam pret’ está


de mi mià morte (como veerám
muitos, que, pois, mià coita creerám);
e pero nom me valha quem mi_a dá

se hoj’ eu mais de bem querria_haver


de saber o mal (e de me tẽer

por seu) que me faz; e no-no saber


nunca per mim nem pe-lo eu dizer.

177 Não há boa dona a quem devesse pesar tanto como isto, nem que devesse zangar-se com alguém (cf. B3: "se porém sanha tal filhou de mim") por isto que
vos vou dizer.
178 Lição de B. A lição de A não faz sentido. "Por quanto é que vos ora direi" = "Por quanto vos ora direi".
179 Não direi dela mais a este respeito do que a vi em mal dia.
180 De que ela soubesse o mal que me faz.
284 (A177; B328; 79,36)

Meus amigos, quero-vos eu mostrar


com’ eu querria bem da mià senhor
(e181 nom me valha ela, nem Amor,
nem Deus, se vos verdade nom jurar):

Bem querria que me fezesse bem,


pero nom bem u perdess’ ela rem.

E mais vos direi: o que pod’ e val


me nom valha se querria viver
e-no mundo, nem nem um bem haver
dela nem d’ outre, se fosse seu mal.

Bem querria que me fezesse bem,


pero nom bem u perdess’ ela rem.

Ca182 me semelha cousa sem razom,


pois algum home mais ama molher
ca si nem al, se183 bem por seu mal quer;
e por aquest’ é ‘ssi meu coraçom:

Bem querria que me fezesse bem,


pero nom bem u perdess’ ela rem.

285 (A178; B329; 79,15)

Dizem que digo que vos quero bem,


senhor, e buscam-me convosco mal;
mais rog’ a Deus, senhor (que pod’ e val,
e que o mund’ e vós em poder tem):

se o dixe, mal me leixe morrer;


se nom, senhor, quem vo-lo foi dizer!

E venh’ a vós chorando destes meus


olhos com vergonha, e com pavor
e com coita, que hei desto, senhor,
que vos disserom; e rog’ assi Deus:

se o dixe, mal me leixe morrer;


se nom, senhor, quem vo-lo foi dizer!

Nom me sei ém d’ outra guisa salvar,

181 A lição dos manuscritos é correta.


182 A lição de B é correta. Em A falta a primeira letra.
183 Nos manuscritos "seu bem por seu mal", o que não faz sentido. A oração é condicional (semelha-me cousa sem razom se um home que ama a uma mulher
mais que ele próprio quer bem em troca do mal da mulher). "Pois" funciona como condicional aqui.
mais nunca o soub’ home nem molher
per mim, nem vós; e Deus, se lhe prouguer,
rog’ eu assi quanto posso rogar:

se o dixe, mal me leixe morrer;


se nom, senhor, quem vo-lo foi dizer!,

e lhe faça atal coita sofrer


qual faz a mim e nom184 ouso dizer!

286 (A179; B330; 79,46)

Por Deus, senhor, que vos tanto bem fez


que vos fezo parecer e falar
melhor, senhor, e melhor semelhar,
das outras donas, e de melhor prez,

havede vós hoje doo de mim!

E porque som mui bem quitos os meus


olhos de nunca veerem prazer
u vos, senhor, nom puderem veer,
ai, mià senhor!, por tod’ est’ e por Deus,

havede vós hoje doo de mim!

E porque nom há no mund’ outra rem,


que esta coita houvess’ a sofrer
que eu sofro, que podesse viver,
e porque sodes meu mal e meu bem,

havede vós hoje doo de mim!

JOÁM PÊREZ DE ABOIM

287 (A180; 75,20; 157,47)185

Senhor, por quanto mal me por vós vem,


dizede-mi_ora, se Deus vos perdom,
esto que vos rog’ eu de coraçom
(e terrei que me fazedes gram bem,186

que me vós nunca quisestes fazer):

184 Nos manuscritos "no-no". Semelha que o pronome é incorreto aqui. Nom ouso dizer atal coita.
185 Perdeu-se a primeira estrofe da cantiga (e só a primeira, pois a parte conservada começa com a primeira ocorrência do refrão).
186 Conjetural, seguindo o modelo das seguintes estrofes.
em187 que m’ houvestes188 de me mal querer?189

Por Deus e por mesura e por mi,


dizede-m’ esto que vos vim rogar,
e tal rogo nom vos dev’ a pesar
(e terrei que me fazedes bem i,

que me vós nunca quisestes fazer):


em que m’ houvestes de me mal querer?

Por aquesto que vos rogo, senhor,


dizede-mi_-o, ca vos nom jaz i mal
nem vos rog’ eu que me digades al
(e terrei que me fazedes amor,

que me vós nunca quisestes fazer):


em que m’ houvestes de me mal querer?

E vedes por que o quero saber:


por me guardar de vos pesar fazer.

288 (A181; 75,21; 157,51)

Que sem meu grado m’ hoj’ eu partirei


de vós, senhor, u me vos espedir!,
como partir-me de quanto bem hei
e saber bem ca, des que vos nom vir,

ca nunca já poderei gram prazer,


u vos nom vir, de nulha rem veer.

Porque entendo que vos prazerá


m’ haverei ora de vós a quitar,
mais nunca hom’ em tal coita será
com’ eu serei mentre sem vós morar;

ca nunca já poderei gram prazer,


u vos nom vir, de nulha rem veer.

E rog’ eu Deus, que tam de coraçom


me vos fez amar des quando vos vi,
que El me torn’, em algũa sazom,
u vos eu veja; ca bem sei de mi

ca nunca já poderei gram prazer,


u vos nom vir, de nulha rem veer.

187 "Em" é complemento causal aqui. Cf. p. ex. B180: "em que tẽedes por razom de me leixar morrer d’ amor e me nom queredes valer?".
188 No manuscrito "vistes", o que não faz sentido. A pergunta concorda com a finda (quero saber por que me quisestes mal para o evitar no futuro e fazer-vos
pesar). Cf. p. ex. B952/V540: "ca já vos sempr’ haverei de querer bem".
189 Por alguma razão o copista não indicou no manuscrito a repetição do refrão.
289 (A182; 75,15; 157,38)

Per mi sei eu o poder que Amor


há sobr’ aqueles que tem em poder,
ca me faz el tam coitado viver
que muit’ há i que houvera sabor

que me matasse; mais por me leixar


viver em coita nom me quer matar.

Porque sei eu que faz el outrossi


aos outros que em seu poder tem
com’ a mi faz, porém me fora bem,
per bõa fé, des que o entendi,

que me matasse; mais por me leixar


viver em coita nom me quer matar.

Porque sei bem que nunca prenderei


dela prazer, per el190, nulha sazom,
porém querria, se Deus me perdom,
o que vos digo (por esto que sei):

que me matasse; mais por me leixar


viver em coita nom me quer matar.

290 (A183; 75,7; 157,16)

Dizem-mi_as gentes por quê nom trobei


há gram sazom, e maravilham-s’ ém;
mais nom sabem de mià fazenda rem;
ca, se bem soubessem o que eu sei,
maravilhar-s’-iam logo per mi
de como viv’ e de como vivi
(e, se mais viver, como viverei).

Mais no-no sabem; nem lhe-lo direi


enquant’ eu viva já per nem um sem,
mais calar-m’-ei com quanto mal me vem,
e sempr’ assi mià coita sofrerei;
ca eu nom quero mià coita dizer
a quem sei bem ca nom mi_há de põer
conselho mais do que m’ eu i porrei.

E o conselho já o eu filhei
que eu i porrei, ca ‘ssi me convém

190 Per el sei bem que nunca prenderei prazer dela.


morrer coitado como morre quem
nom há conselho, com’ hoj’ eu nom hei;
e esta morte melhor me será
ca de viver na coita que nom há
par (ne-na houve nunca, eu o sei).

E melhor ést’, e mais será meu bem,


de morrer ced’, e nom saberem quem
é por quem moir’ e que sempre neguei.

RODRIGO EANES REDONDO

291 (B331; B335; 141,2)

Hom’ a que Deus coita quis dar


d’ amor nunca dev’ a dormir;
ca já u sa senhor nom vir
nom dormirá, e, se chegar
u a veja, esto sei bem:
nom dormirá per nulha rem,
tant’ há prazer de a catar.

Em aquesto poss’ eu falar,


ca muit’ há que passa per mi;
ca des que mià senhor nom vi
nunca dormi, e, se mostrar
algũa vez Nostro Senhor
mi_a quis, houv’ i tam gram sabor
que nunca mi_al pôde nembrar.

Já o dormir mentr’ eu durar


hei191 perdudo; pois ést’ assi
que u a nom vi nom dormi,
e, poi-la eu vir, a192 provar
no-n’ hei per rem. E, por Deus já,
dizede-me: quem dormirá
com tam gram prazer ou pesar?

292 (B332; 141,1)

De-lo dia, ai amiga!, | que nos nós de vós partimos,


foi-se nosco voss’ amigo; | e, per quanto nós oímos,
ai amiga!, que chorava,193 | e per quanto nós del194 vimos,
191 Falta o verbo no manuscrito. Cf. p. ex. A279: "que o dormir já o hei perdudo".
192 No manuscrito "poi-la nom vejo". Mas o trovador opõe nas estrofes quando a vê e quando a não vê (em ambos casos não pode dormir, que por prazer quer por
pesar). O tempo verbal correto é o futuro do conjuntivo (se a vejo no-no provo vs. se a vir no-no hei a provar). "Pois" tem valor condicional, como "se" nas
estrofes anteriores.
193 Em toda a cantiga alude-se a que o amigo chorava, mas não dizia o por que chorava.
194 Faltam duas sílabas. Cf. estrofa seguinte: "per quant’ eu del conhosco".
queredes que vo-lo diga?:
nunca tam leal amigo | d’ amiga vistes, amiga.

U nos partimos chorando | (vós, e nós chorando vosco),


e el, mui se-no seu grado, | houve-s’ entom d’ ir conosco,
muit’ a el vos assanhastes195; | mais, per quant’ eu del conhosco,
sempre serei de seu bando;
que enquanto vós chorastes | nunca el quedou chorando196.

Come vós desi chorava, | e ia-s’ apartar soo,


e catava-m’ el os panos | que eu tragia, com doo 197;
mais, pero o preguntavam, | por que chorava nego’-o;
mais a mim no-no negava;
e, por esto, som certãa | ca, ‘miga,198 por vós chorava.

293 (B333; 141,7)

Senhor, por Deus vos rogo que queirades


saber um dia como199 mià ventura
é contra vós, a que quero melhor
de quantas cousas Deus quiso fazer;
e, mià senhor, nom vos ous’ a dizer
rem da mui201 gram coita que me vós dades;
200

e por vós morrerei per202 tal ventura.

Pero203 est’ é de que vos vós guardades:


de nom fazerdes se nom o melhor
e de nom catardes204 por outra rem,
atanto creede vós bem de mi:
que mui pequena prol per-tenh’ eu i:
pois Deus nom quer que a mim bem façades,
que vós em al façades o melhor.

Ca205, mià senhor, quanto mais bem fazedes


atanto fazedes a mim levar
maior cuidado no meu coraçom
em desejar o bem que vos Deus deu;
e, mià senhor, atanto lhe rog’ eu:
que vejades qual torto me fazedes

195 Conjetural. Cf. B630/V231: "Assanhei-m’ eu muito a meu amigo".


196 Nunca parou de chorar.
197 A ordem normal seria "olhava com doo (chorando, com pena) os panos que eu vestia (por lhe lembrarem a sua amada?).
198 "amiga, que por vós chorava" tem uma sílaba a mais. Se mudarmos a ordem e trocarmos "que" polo sinónimo "ca", o encontro vocálico pode produzir a queda
da primeira vogal de "amiga".
199 Duas sílabas a menos. Cf. B859/B445: "mais mià ventura tal é contra vós que..."
200 No manuscrito "nem". Cf. p. ex. B125: "assi mi_avém que nunca lh’ ouso dizer rem".
201 Falta uma sílaba.
202 Falta uma sílaba. "Per" semelha a preposição mais adequada. Per tal ventura = por tal sorte/destino. Cf. p. ex. B391/V1: "desi eu passarei per mià ventura".
203 No manuscrito "este e de que vos", o que não faz sentido. Se considerarmos que a ideia da segunda parte da estrofe se opõe a ideia da primeira parte (vós só
fazedes bem, mais eu não tiro proveito disso), é possível que falte a conjunção adversativa "pero".
204 "catar por" = interessar-se/importar-se por. Só se interessa por fazer o bem.
205 Falta uma sílaba. A estrutura é causal, pois o trovador exprime a razão pola qual não tira proveito do bem-fazer da senhor.
de me fazerdes tal coita levar.

294 (B334; 141,3)

O que vos diz, senhor, que outra rem desejo


no mundo mais ca vós, est’ é o mui sobejo
mentiral que-no diz; ca, u-quer que eu sejo,
sem vós nom me sei eu e-no mundo guarida,
e, se vou u vos vej’ e quand’ a vós eu vejo,

ar-vej’ eu206 i quem trage207 mià mort’ e mià vida.

E208 foi-vo-lo dizer o que há grand’ enveja


porque vos quer’ eu bem; e nom sabi_a sobeja
coita que me vós dades, que209, u-quer que seja,
no coraçom me dá voss’ amor tal ferida
que quando vos eu vejo, assi Deus me veja,

ar-vej’ eu i quem trage mià mort’ e mià vida.

El210 ia-vos dizer cousa mui desguisada:


de211 seer outra rem no mundo desejada
de mi como vós sodes; mais vós, mesurada,
fremosa e mansa, e d’ outro bem comprida,
no-no creades: u vos vejo212, bem talhada,

ar-vej’ eu i quem trage mià mort’ e mià vida.

De mim podedes vós, senhor, seer servida,


se vos pesar mià mort’ e vos prouguer mià vida.

Se vos pesar mià mort’ e vos prouguer mià vida,


com’ em outro tempo foi, dar-m’-edes guarida.213

295 (B336; 141,5)

Pois s’ ora214 faz que eu viver aqui


poss’, u nom poss’, assi Deus me perdom,
veê-la senhor do meu coraçom,
e porém nom moiro, dig’ eu assi
206 No manuscrito "vejo eu i", mas deverá haver elisão vocálica. "Ar"=igualmente, também.
207 "Trager" significa "possuir" aqui.
208 No manuscrito há uma sílaba a menos.
209 Causal: É sobeja, pois...
210 No manuscrito há uma sílaba a menos.
211 No manuscrito "e", mas esta estrutura "desguisada+infinitivo" requer a preposição "de". Cf. A166/B318: "nunca vi cousa tam desguisada: de chamar home Ama
tal molher".
212 Falta o verbo, que deverá estar em presente. Deve eliminar-se "ca", pois há uma sílaba a mais.
213 Conjetural. O modelo devia estar mui estropiado neste passo. Se o verbo "dar" está correto, é provável que estiver em futuro para concordar com o futuro do
conjuntivo do verso anterior. Cf. anteriormente: "sem vós nom me sei e-no mundo guarida". Cf. p. ex. B544/V147: "que me queira dar guarida de mort’ ou de
melhor vida". É usual as palavras rimantes repetirem-se nas findas.
214 "Se" indica sujeito indeterminado. "Fazer-se" tem o sentido de "acontecer" aqui (pois ora acontece que eu posso viver aqui), como se deduz do refrão.
(por atal cousa que passa per mi):

pois s’ esto faz e nom posso morrer,


toda-las cousas se podem fazer

que som sem guisa; ca sem guisa é


de215 viver eu u nom veja os seus
olhos, que eu vi por aquestes meus
em grave dia; mais, pois assi é
que eu nom moiro já, per bõa fé:

pois s’ esto faz e nom posso morrer,


toda-las cousas se podem fazer

que som sem guisa; ca, u vou cuidar


em qual a vi e haver a guarir
u a nom vej’, a mià morte partir-
m’ ém nom devia com este pesar;
mais, pois nom moiro, bem posso jurar:

pois s’ esto faz e nom posso morrer,


toda-las cousas se podem fazer

que som sem guisa; mais também viver


pod’ o morto se x’ o Deus quer fazer.

ESTEVAM REIMONDO

296 (A185; 75,17; 157,42)216

Pois m’ em tal coita tem Amor


por vós, dizede-me, senhor,

que vos nom doedes de mi:


em que grave dia vos vi,
que vos nom doedes de mi?

E, pois m’ el em tal coita tem


por vós, ai meu lum’ e meu bem,

que vos nom doedes de mi:


em que grave dia vos vi,
que vos nom doedes de mi?

Ai, coita do meu coraçom!,


dizede, se Deus vos perdom,
215 A construção é "seer/nom seer sem guisa de" .
216 Provavelmente o autor desta cantiga é Estevam Reimondo, tal e como expõe Dulce Fernández Graña (tanto polo lugar que ocupa no cancioneiro de amigo,
entre Joám Soárez Cõelho e Joám Lôpez de Ulhoa, como pola grande semelhança com a cantiga "Amigo, se bem hajades" de Reimondo).
que vos nom doedes de mi:
em que grave dia vos vi,
que vos nom doedes de mi?

Ai, lume destes olhos meus!,


dizede-mi_agora, por Deus,

que vos nom doedes de mi:


em que grave dia vos vi,
que vos nom doedes de mi?

ROÍ PÁEZ DE RIBELA

297 (A186; B337; 147,13)

Por Deus vos quero rogar, mià senhor


(que vos fezo, de quantas donas fez,
a mais fremosa nem de melhor prez):
Pois todo bem entendedes, senhor,

entended’ ora ‘m qual coita me tem


o voss’ amor porque vos quero bem.

E, se o vós, mià senhor, entender


esto quiserdes, haveredes i,
a meu cuidar, algum doo de mi.
Pois vos Deus fez tanto bem entender,

entended’ ora ‘m qual coita me tem


o voss’ amor porque vos quero bem.

E, mià senhor, tempo seria já


de vos nembrardes de me nom leixar
em tam gram coita com’ eu viv’ andar.
E, mià senhor, vel por mesura já,

entended’ ora ‘m qual coita me tem


o voss’ amor porque vos quero bem.

298 (A187; B338; 147,10)

Nunca_assi home de senhor


esteve com’ hoj’ eu estou:
hei, d’ ir u ela é, sabor
mais d’ outra rem, e, pois i vou,
nom lh’ ouso dizer nulha rem
pero lhe quero mui gram bem.

E cuido-lh’ eu sempr’ a dizer,


quando a vir, per bõa fé,
a coita que me faz haver;
e, pois que vou u ela é,

nom lh’ ouso dizer nulha rem


pero lhe quero mui gram bem.

Quanta coita e quant’ afám


m’ ela no mundo faz levar
bem lhe cuid’ eu dizer, de pram;
mais, pois m’ ant’ ela vej’ estar,

nom lh’ ouso dizer nulha rem


pero lhe quero mui gram bem.

299 (A188; B339; 147,6)

De mià senhor entend’ eu ũa rem:


ca me quer mal, assi Deus me perdom;
mais pero sei e-no meu coraçom
ca mi_o nom quer porque lhe quero bem 217;

ca me nom quis nunca, nem quer, creer,


per nulha rem, que lhe sei bem querer.

Mais quer-me mal polo que vos direi:


porque me diz que lhe faço pesar
de a veer nunca nem lhe falar218;
ca mi_o nom quer por al, eu be-no sei;

ca me nom quis nunca, nem quer, creer,


per nulha rem, que lhe sei bem querer.

E, des quand’ ela fosse sabedor


do mui gram bem que lh’ eu quis poi-la vi,
pero me mal ar-quisesse desi
terria-m’ eu que estava melhor;

ca me nom quis nunca, nem quer, creer,


per nulha rem, que lhe sei bem querer.

300 (A189; B340; 147,15)

217 Não me quer mal porque eu lhe queira bem (pois não acredita nisso).
218 Por a ver alguma vez e lhe falar.
Quando vos vi, fremosa mià senhor,
logo vos soube tam gram bem querer
que nom cuidei que houvesse poder,
per nulha rem, de vos querer melhor;

e ora já direi-vos que mi_avém:


cada dia vos quero maior bem.

E, porque vos vi fremoso falar


e parecer, logo vos tant’ amei,
senhor fremosa, que assi cuidei
que nunca vos podesse mais amar;

e ora já direi-vos que mi_avém:


cada dia vos quero maior bem.

Amei-vos tant’, u vos primeiro vi,


que nunca home tam de coraçom
amou molher; e cuidei eu entom
que maior bem nom havia já i;

e ora já direi-vos que mi_avém:


cada dia vos quero maior bem.

301 (A190; B341; 147,17)

Tam muit’ há já que nom vi mià senhor,


e tam coitado fui poi-la nom vi,
que ũa rem sei eu mui bem de mi:
pero me faz muito mal seu amor,

a maior coita de quantas hoj’ hei


perderia se a viss’, e o219 sei.

Pero que m’ ela nunca fezo bem,


nem mi_o fará já enquant’ eu viver,
tam gram sabor hei eu de a veer
que, se a visse, sei eu ũa rem:

a maior coita de quantas hoj’ hei


perderia se a viss’, e o sei.

E vej’ a muitos aqui razõar


que é220 mais grave coita de sofrer
veê-la hom’ e rem nom lhe dizer;
mais, pero lh’ eu nom ousasse falar,

219 A lição de B é a correta. Em A "se a visse u sei", o que não faz muito sentido. Além disso, é inevitável a elisão vocálica neste caso. A estrutura "e o sei"/"eu o
sei" é mui habitual no corpus. Cf. p. ex. A129/B250: "nem ar-havia peor a estar dela do que m’ hoj’ estou, e o sei".
220 Nos manuscritos "que a mais grave". Se deslocarmos o verbo "seer" para o verso seguinte, este seria hipermétrico. O infinitivo "veer" não aceita sinérese.
a maior coita de quantas hoj’ hei
perderia se a viss’, e o sei.

302 (A191; B342; 147,19)

Um dia que vi mià senhor


quis-lhe dizê-lo mui gram bem
que lh’ eu quer’, e como me tem
forçad’ e preso seu amor;

e vi-a tam bem parecer


que lhe nom pude rem dizer.

Quant’ eu puge no coraçom


me fez ela desacordar;
ca, se lh’ eu podesse falar,
quisera-lho221 dizer entom,

e vi-a tam bem parecer


que lhe nom pude rem dizer.

Seu medo, poi-la vi atal,


que houve, me tolheu assi;
ca lhe quisera falar i
de como me faz muito mal,

e vi-a tam bem parecer


que lhe nom pude rem dizer.

Pero m’ ela nom tem por seu,


mui gram verdade vos direi:
meu mal ést’ e222 quanto bem hei;
e fora po-lo dizer eu,

e vi-a tam bem parecer


que lhe nom pude rem dizer.

303 (A192; B343; 147,18)

Tanto fez Deus a mià senhor de bem


sobre quantas no mundo quis fazer
que vos direi eu ora que mi_avém:
pero m’ eu vejo por ela morrer,

nom querria das outras a melhor


eu querer bem por223 haver seu amor;

221 Nos manuscritos "quisera-lhe", mas o pronome é necessário: quisera-lhe dizer quanto puge no coraçom.
222 Ela é meu mal e meu bem.
e nom amar mià senhor, que eu vi
tam fremosa, e que tam muito val,
e em que eu tanto bem entendi.
Pero que punha de me fazer mal,

nom querria das outras a melhor


eu querer bem por haver seu amor.

Pero que dela nem um bem nom hei,


e assi moir’, e me nom tem por seu,
tam muito val sobre quantas eu sei
que, pois me Deus tam bõa senhor deu,

nom querria das outras a melhor


eu querer bem por haver seu amor.

Ca me faz Deus tam bõa dona_amar


que me val mais veê-la ũa vez
que quanto bem mi_outra podia dar;
e, poi-la Deus tam bõa dona fez,

nom querria das outras a melhor


eu querer bem por haver seu amor.

304 (A193; B344; 147,3)

A mià senhor, a que eu sei querer


melhor ca nunca quis hom’ a molher,
poi-la tant’ am’ e mi_o creer nom quer,
Nostro Senhor, que há mui gram poder,

me dé seu bem se lh’ eu quero melhor


ca nunca quis no mund’ hom’ a senhor.

E, se nom é ‘ssi224, me leixe prender


por ela morte, ca nom m’ é mester
d’ eu viver mais se seu bem nom houver;
mais Deus, que pod’ a verdade saber,

me dé seu bem se lh’ eu quero melhor


ca nunca quis no mund’ hom’ a senhor.

Porque lhe fez as do mundo vencer


de mui bom prez e do que vos disser:
de parecer mui bem u estever,
Deus, que lhe fez tam muito bem haver,

223 Aqui a estrutura com "por" pode ser substituída por uma estrutura com gerúndio ou com a conjunção copulativa "e": não quereria amar a melhor das outras
donas e haver seu amor/havendo seu amor (o amor da outra dona). Cf. a cantiga A195/B346, do mesmo trovador.
224 Se nom lhe quero melhor ca nunca quis no mundo hom’ a senhor. O "a" de "assi" é frequentemente elidido. O copista pudo achar incorreto "si" e corrigi-lo por
"no".
me dé seu bem se lh’ eu quero melhor
ca nunca quis no mund’ hom’ a senhor.

305 (A194; B345; 147,16)

Quant’ eu mais donas mui bem parecer


vej’ u eu and’ (e entendo ca som
mui bõas donas, se Deus me perdom),
e quantas donas mais posso veer,

atant’ eu mais desejo mià senhor


e tant225’ entendo mais que é melhor.

E mià senhor, a que-na Deus mostrar,


u vir das outras as que ham mais bem,
bem verá que cab’ ela nom som rem;
e, quant’ eu ouç’ as outras mais loar,

atant’ eu mais desejo mià senhor


e tant’ entendo mais que é melhor.

E Deus Senhor, que lhe tanto bem fez,


u a juntar com quantas no mund’ há
das melhores, tant’ ela mais valrá;
e, quant’ eu vej’ as outras mais de prez,

atant’ eu mais desejo mià senhor


e tant’ entendo mais que é melhor.

306 (A195; B346; 147,4)

A mià senhor, que mui de coraçom


eu amei sempre des quando a vi,
pero me vem por ela mal desi,
é tam bõa que Deus nom me perdom

se eu querria no mundo viver


por226 lhe nom querer bem ne-na veer.

Pero dela nom atend’ outro bem


ergo veê-la, mentr’ eu vivo for227;
mais, porque amo tam bõa senhor,
Deus nom mi_a mostre, que a ‘m poder tem,

225 Nos manuscritos "atanto", o que supõe uma sílaba a mais.


226 Aqui a construção com "por" pode ser substituída por uma estrutura com gerúndio ou com a preposição "sem": sem lhe querer bem nem a ver/não lhe
querendo bem nem a vendo.
227 Nom atendo outro bem mentr’ eu vivo for ergo veê-la.
se eu querria no mundo viver
por lhe nom querer bem ne-na veer.

Porque desejo de veê-los seus


olhos tam muito que nom guarrei já,
e porque ontre quantas no mund’ há
val tam muito, que nom me valha Deus

se eu querria no mundo viver


por lhe nom querer bem ne-na veer.

307 (A196; B347; 147,11)

Os que mui gram pesar virom, assi


com’ eu vejo da que quero gram bem,
porque sei eu ca morrerom porém,
maravilhado me faço per mi,

pois todo vejo quanto receei,


como nom moiro se de morrer hei.

Da mià senhor e do meu coraçom


porque me Deus já todo faz veer228
per quant’ eu logo devera morrer,
maravilho-m’ (e faço gram razom),

pois todo vejo quanto receei,


como nom moiro se de morrer hei.

Porque cuidava, se viss’ um pesar


de quantos vej’ ora de mià senhor,
que morreria ém pelo mẽor,
dereito faç’ em me maravilhar,

pois todo vejo quanto receei,


como nom moiro se de morrer hei.

E, pois me nom pod’ a coita que hei,


nem Deus, matar, jamais nom morrerei.

308 (A197; B348; 147,2)

A guarir nom hei, per rem,


se nom vir a que gram bem
quero; ca perço o sem

228 O sentido é o seguinte: Porque me Deus já todo faz veer da mià senhor e do meu coraçom per quant’ eu logo devera morrer (cf. noutros versos: vejo pesar da
que quero gram bem, de quantos pesares vej’ ora de mià senhor). "Maravilho-me da mià senhor como nom moiro" não faz sentido (seria "maravilho-me da mià
senhor como nom me faz morrer", por exemplo).
poi-la nom vej’, e229 me vem
tanto mal que nom sei quem
mi_o tolha, pero m’ al dem;
mais Deus mi_a mostre porém
cedo, que a ‘m poder tem!

E, se eu mià senhor vir


(a que me tolh’ o dormir),
se eu ousasse, pedir-
lh’-ia logo que guarir
me leixass’ u a servir
podess’ eu; mais consentir
nom mi_o querrá, nem oir,
mais leixar-m’-á morrer ir.

309 (A198; B349; 147,12)

Par Deus, ai, Dona Leonor,


gram bem vos fez Nostro Senhor!

Senhor, parecedes assi


tam bem que nunca tam bem vi
(e gram verdade vos dig’ i,
que nom poderia maior).

Par Deus, ai, Dona Leonor,


gram bem vos fez Nostro Senhor!

E Deus, que vos em poder tem,


tam muito vos fezo de bem
que nom soub’ El no mundo rem
per que vos fezesse melhor.

Par Deus, ai, Dona Leonor,


gram bem vos fez Nostro Senhor!

Em vós mostrou El seu poder:


qual dona sabia fazer
de bom prez, e de parecer,
e de falar, fez-vos, senhor.

Par Deus, ai, Dona Leonor,


gram bem vos fez Nostro Senhor!

Com’ antr’ as pedras bom rubi,


sodes antre quantas eu vi230;
e Deus vos fez por mal de mi,
229 Nos manuscritos "poi-la nom vejo, me vem". A conjunção copulativa é necessária, pois o sentido será: Nom hei a guarir se a nom vir, pois, desde que a nom
vejo, perço o sem e me vem tanto mal que...".
230 Vós sodes antre quantas eu vi como um bom rubi é antre as pedras.
que há comigo desamor.231

Par Deus, ai, Dona Leonor,


gram bem vos fez Nostro Senhor!

JOÁM LÔPEZ DE ULHOA

310 (A199; B350; 72,2)

A mià senhor (que me foi amostrar


Deus por meu mal, por vos eu nom mentir,
e que sempr’ eu punhei de a servir)
muit’ houve gram sabor de m’ enganar;
ca me falou, primeir’ u a vi232, bem,
e, pois que viu que perdia o sem
por ela, nunca m’ ar-quiso falar.

E, se m’ eu dela soubesse233 guardar


quando a vi, punhara de guarir234;
mais foi-m’ ela bem falar e riir,
e falei-lh’ eu, e no-na vi queixar
nem se queixou que a chamei "senhor",
e, pois me viu mui coitado d’ amor,
prougo-lhe muit’ e nom m’ ar-quis catar.

E, pois me queria desamparar,


quando a vi mandasse-me partir
logo de si e mandasse-m’ end’ ir!;
mais nom lhe vi de nulha rem pesar
que lh’ eu dissesse, tam bem me catou235,
e, pois viu que seu amor me forçou,
leixou-m’ assi desamparad’ andar.

E deferença dev’ end’ a filhar


tod’ home que dona fremosa vir
de mim; e guarde-se bem de nom ir
(com’ eu fui log’) em seu poder entrar,
ca lh’ averrá com’ avẽo a mi:
servi-a muit’, e, pois que a servi,
fez-mi_aquesto quant’ oídes contar.

311 (A200; B351; 72,13)

Quand’ eu podia mià senhor


231 A orde sintática normal seria: E Deus, que há comigo desamor, vos fez por mal de mi.
232 Quando a vi pela primeira vez.
233 Tivesse sabido.
234 Teria tentado salvar-me, fugir.
235 Tam bem me catou que nom lhe vi pesar de nulha rem que lh’ eu dissesse.
veer, bem desejava ‘ntom
dela e-no meu coraçom;
e nom querria já melhor

de lhe falar e a veer,


e nunca outro bem haver.

Chorava236 ‘ntom dos olhos meus,


com tanto bem, desejand’ al;237
e sofr’ agora muito mal;
e nom querria mais de238 Deus

de lhe falar e a veer,


e nunca outro bem haver.

Eu perdia entom o sem


(quando lhe podia falar)
por seu bem, que me desejar
fez239 Deus; me fezess’ este bem

de lhe falar e a veer,240


e nunca outro bem haver!.

312 (A201; B352; 72,3)

Ando coitado por veer | um home que aqui chegou,


que dizem que viu mià senhor; | e dirá-me se lhe falou.

E falarei com el muit’ i


em quam muit’ há que a nom vi.

Por amor de Deus!, que-no vir | diga-lhe que sa prol será


de me veer; e veê-l’-ei | porque a viu, e falar-mi_-á.

E falarei com el muit’ i


em quam muit’ há que a nom vi.

Ca muito per-há gram sabor, | quem senhor ama, de falar


em ela, se acha com quem; | e porém vou aquel buscar.

E falarei com el muit’ i


em quam muit’ há que a nom vi.

Pero sei eu dela, de pram, | ca nom m’ envïou rem dizer;


mais do hom’ hei eu gram sabor, | porque a viu, de o veer.
236 Nos manuscritos "chorand’ entom", o que será erro. O verbo deverá estar no imperfeito do indicativo, tal qual nas outras estrofes (desejava’ ntom / chorava
‘ntom" / perdia entom).
237 O sentido será: Tinha entom o bem de lhe falar e a ver, e chorava desejando outro bem maior.
238 Nos manuscritos "mais a Deus". A preposição correta é "de".
239 Nos manuscritos "faz". É evidente que o trovador já não deseja esse bem maior. A confusão faz/fez é usual nos manuscritos.
240 O sentido será: Oxalá Deus me fizesse agora este bem de lhe falar e a ver, assim como no passado me fez desejar o seu bem.
E falarei com el muit’ i
em quam muit’ há que a nom vi.

Ca nunca vi, des que a vi,


outro prazer se a nom vi.

313 (A202; B353; 72,14)

Quand’ hoj’ eu vi per u podia ir


a essa terra u é mià senhor
(e u eu d’ ir havia gram sabor),
e me d’ ali241 nom podia partir,

chorei tam muito destes olhos meus


que nom vi rem, e chamei muito Deus.

Preto fui ém (que podera chegar,


se eu ousasse, ced’ u ela é),
mais houve gram coita, per bõa fé;
e, pois d’ ali me nom ousei quitar,

chorei tam muito destes olhos meus


que nom vi rem, e chamei muito Deus.

Por mal de mim, hoj’ eu o logar vi


per u iria, se ousass’, alá.
Pero m’ ela nom fez bem, nem fará,
catand’ alá direi-vos que fiz i:

chorei tam muito destes olhos meus


que nom vi rem; e chamei muito Deus,

que me valess’; e nom quis El assi,


nem me deu rem de quanto lhe pedi.

314 (A203; B354; 72,10)

Nostro Senhor, que me fez tanto mal,


ainda me podia242 fazer bem
se mià senhor, per que m’ este243 mal vem,
eu visse ced’; e nom lhe peç’ eu al,

ca, se eu fosse fis de a veer,


241 Em B "d’ aqui". A lição de A semelha a correta. Podem-se diferenciar tres locais: onde mora a senhor, onde está o trovador agora e onde estava quando viu por
onde podia ir vê-la (um local perto de onde mora a senhor). O advérbio "ali" referira-se a este último local (estava perto mas não ousou chegar aonde mora a
senhor).
242 Nos manuscritos "poderia", o que supõe uma sílaba a mais. Ainda que o condicional é o tempo verbal mais apropriado, é utilizado por vezes o imperfeito do
indicativo no seu lugar. Cf. p. ex. A89/B193: "e Deus, que mi_a podia dar, nom mi_a dá nem al que lh’ eu pedi".
243 A lição de B é a correta. Em A "per quem este mal vem". "Que" era usado em vez de "quem" naquela altura e falta o objeto indireto.
nom querria do mundo mais haver.

Por quanto lh’ eu roguei e lhe pedi,


quand’ eu podia veer mià senhor,
nom lho peço, nem querria melhor
de mi_a mostrar u m’ eu dela parti;

ca, se eu fosse fis de a veer,


nom querria do mundo mais haver.

Ca muit’ há já que lh’ eu sempre roguei


por outro bem (e nom mi_o quis El dar)
de mià senhor, e foi-mi_ora guisar
que a nom vej’ e no-na veerei;

ca, se eu fosse fis de a veer,


nom querria do mundo mais haver.

E rogo-lh’ eu que, se lh’ a El prouguer,


mostre-mi_a ced’; e quanto mal me fez
nom será rem se m’ oir esta vez
meu Senhor Deus e mi_a mostrar quiser;

ca, se eu fosse fis de a veer,


nom querria do mundo mais haver.

315 (A204; B355; 72,9)

Juro-vos eu, fremosa mià senhor,


se Deus me leixe de vós bem haver
(e se nom, leixe-me por vós morrer),
que244, pois fui nado, nunca dona vi
tam fremosa come vós, nem de mi
tam amada com’ eu vos sei amar.

E, pois vos amo tanto, mià senhor,


se vós quiserdes quero-vos dizer
qual coita me vós fazedes sofrer;
e nom queredes que vos eu fal’ i;
e nom poss’ eu muito viver assi
que nom moira mui ced’ ém com pesar

que hei mui grande desto, mià senhor:


de que me nom queredes gradecer
de vos servir nem de vos bem querer.
E dizedes, de quanto vos servi,
que fiz mal sem que atant’ i perdi;
e empero nom me poss’ ém quitar;

244 Nos manuscritos "se", o que não faz sentido: juro-vos eu que...
nem quitar-m’-ei245, enquant’ eu vivo for,
de vos servir, senhor, e vos amar.

316 (A205; B356; 72,5)

Em que afám que hoj’ eu viv’!; e sei


que, enquant’ eu e-no mundo viver,
afám e coita hei sempre d’ haver;
vedes por quê: por quanto vos direi:
por ũa dona que eu quero bem,
atal per que hei perdudo meu sem
e por que hei mui cedo de morrer;

ca me dá tal246 coita que, de pram, sei247


que nom poss’ eu muit’ assi guarecer;
ca ela já nom m’ há bem de fazer,
ne-no atendo, ne-no haverei,
nem rog’ a Deus eu já por outra rem
se nom por morte que me dé porém
(se perderei coita pois que morrer);

ca, sem248 al, já eu esto be-no sei


(ca mi_o faz Deus e mià senhor saber,
que me fazem atal coita sofrer
qual vos eu digo): que nom poderei
aquesta coita, que m’ em coita tem,
perder por al se me cedo nom vem
mià mort’; e porém querria morrer;

ca, per quant’ eu de mià fazenda sei,


o melhor é pera mim de morrer.

317 (A206; B357; 72,11)

Nostro Senhor, que nom fui guardado


d’ eu em tal tempo com’ este viver!,
que o que soíam por bem tẽer
ora o tẽem por desguisado!,
que este mund’ é já tornad’ em al!,
que todo prez tẽem ora por mal!;
a que mal temp’ eu sõo chegado!

Que mal fui eu desaventurado

245 Nos manuscritos "nem quitarei". Falta o pronome nesta construção.


246 Nos manuscritos "ca me dá coita", mas a estrutura é comparativa: "tal...que". Cf. p. ex. A82/B186bis: "e dá-me tal coita que nom sei de mim conselho prender".
247 Em A "de pram, bem sei", em B "de pram, me sei". Com a adição de "tal", o verso seria hipermétrico. "Me sei" não faz sentido. "Bem" é redundante, "de pram"
já funciona como intensificador.
248 Nos manuscritos "per al", mas "por al" repete-se dentro da mesma frase no penúltimo verso da estrofe. "Sem al" = sem dúbida, certamente.
que em tal tempo fui gram249 bem querer
atal dona de que nom poss’ haver
bem e por que ando mui coitado!;
e as gentes, que me vêem andar
assi coitado, vam ém posfaçar,
e dizem: "Muit’ anda namorado".

De mim ham já muito posfaçado,


porque sabem que lhe quero gram bem
(que me deviam a preçar porém,
e porém som mais pouco preçado);
e viv’ em coita (nunca maior vi),
e mià senhor nom me quer valer i,
e assi fiquei desamparado.

E esta coita tem-me chegado


a mort’; e nom guarrei per nem um sem,
pois mià senhor nom quer por mi dar rem,
de que eu sempr’ andei enganado.
E moir’; e, pois preto da mort’ estou,
muito me praz, que enfadado vou
deste mundo que é mal parado.

318 (A207; B358; 72,4)

Coita_haveria se de mià senhor


quando a visse cuidass’ haver bem
e nom podess’250 eu veê-la per rem;
mais251 end’ agora tam gram coita hei

como, se dela bem cuidass’ haver,


nom morreria mais po-la veer;

o que nom cuido mentr’ eu vivo for


(ne-no cuidei nunca des que a vi):
d’ haver seu bem; e, pero ést’ assi,
hei tam gram coita d’ ir u ela é

como, se dela bem cuidass’ haver,


nom morreria mais po-la veer;

nem andaria mais ledo, de pram,


do que eu ando porque cuid’ a ir
u ela é, que moiro por servir;
e assi moiro po-la veer já

249 O verso é hipométrico. Cf. na seguinte estrofe: "porque sabem que lhe quero gram bem".
250 Nos manuscritos "poder", (infinitivo ou futuro do conjuntivo), o que é incorreto neste caso.
251 Nos manuscritos "pois". "Pois" exprime causalidade, mas aqui a construção é adversativa. O normal é sentir o desejo de ver a sua senhor se cuidasse haver
bem dela, mais ele sente um desejo maior de a ver embora saiba que nunca jamais haverá bem dela.
como, se dela bem cuidass’ haver,
nom morreria mais po-la veer.

Pero entendo que faço mal sem


em desejar meu mal come meu bem.

319 (A208; B359; 72,17)

Se eu moiro be-no busquei,


porque eu tal senhor filhei:
ũa dona de que já sei
que nunca posso bem haver;
e sempre lh’ eu gram bem querrei,

e dereit’ é d’ assi morrer.

De que m’ eu podera quitar


se m’ ende soubesse guardar,
mais havia de lhe falar
gram sabor, e de a veer;
e tornou-se-m’ em gram pesar,

e dereit’ é d’ assi morrer.

U a primeiramente vi
mui fremosa, se eu d’ ali
fugiss’ e nom ar-tornass’ i,
assi podera mais viver;
mais nom cuidei que foss’ assi,

e dereit’ é d’ assi morrer.

Quando a filhei por senhor


nom me mostrava desamor,
e ora muit’ há gram sabor
de mià morte cedo saber;
porque fui seu entendedor,

e dereit’ é d’ assi morrer.

E veerá mui gram prazer


quando m’ agora vir morrer.

320 (A209; B360; 72,18)

Sempr’ eu, senhor, roguei a Deus por mi


que me desse de vós bem, e nom quer;
mais quero-lh’ al rogar, e, pois souber
que lh’ al rogo, al me dará log’ i;

ca lhe rog’ eu que nunca me dé bem


de vós, e cuido que mi_o dé porém.

E per aquesto quero eu provar


Deus, ca muit’ há que lhe por al roguei
de vós, senhor; mais ora veerei
se me tem prol de o assi rogar:

ca lhe rog’ eu que nunca me dé bem


de vós, e cuido que mi_o dé porém.

Pois assi é que m’ El sempre deu al,


e al desej’ eu no meu coraçom,
rogar-lh’-ei est’, e cuidará que nom
será meu bem e dará-mi_o por mal;

ca lhe rog’ eu que nunca me dé bem


de vós, e cuido que mi_o dé porém.

FERNÁM FERNÁNDEZ COGOMINHO

321 (B361; 40,8)

Nom me queredes vós, senhor, creer


a coita que me fazedes levar;
e, poi-la eu já sempr’ hei a sofrer,
nom me tem prol de vo-lo mais jurar;

mais Deus, que tolh’ as coitas e as dá,


El dé gram coita_a quem coita nom há!

Nom252 me creedes qual coita sofri


sempre por vós, nem quant’ afám levei;
e veed’ ora quê faredes i,
ca nunca vo-lo já mais jurarei;

mais Deus, que tolh’ as coitas e as dá,


El dé gram coita_a quem coita nom há,

e lha253 nom tolha enquanto viver!


E sei eu254 bem que viverá mui mal,
ca ‘ssi fig’ eu des que vos fui veer;
e, pero vo-lo juro, nom me val;

252 No manuscrito "E nom me creedes". Verso hipermétrico. Copulativa desnecessária.


253 No manuscrito "la".
254 No manuscrito "seu bem", o que não faz sentido. A razão do trobador exige o verbo "saber": Pois ele viveu mui mal desde que a viu, sabe bem que outrem
também viverá mui mal.
mais Deus, que tolh’ as coitas e as dá,
El dé gram coita_a quem coita nom há!

322 (B362; 40,1)

Ai, mià senhor!, lume dos olhos meus,


u vos nom vir, dizede-me, por Deus:

i255 que farei?


(eu, que vos sempr’ amei)

Pois m’ assi vej256’, u vos vejo, morrer,


dizede-m’: u vos nom puder veer,257

i que farei?
(eu, que vos sempr’ amei)

Eu, que nunca outra soube servir


se nom, mià258 senhor, vós: u vos nom vir,

i que farei?
(eu, que vos sempr’ amei)

323 (B363; 40,10)

Quem me vir e quem m’ oir


que algũa molher amar
nom se vaa dela quitar;
ca, pois que se dela partir,
sei eu mui bem que lhe verrá
coita (que par nom haverá)
des que se longe dela vir.

E, se m’ end’ alguém pedir


a conselho, per bõa fé,
direi-lh’ eu quam gram coita é;
pero quem s’ ém quiser sair
será já quite d’ ũa rem
d’ u a nom vir: de veer bem,
e quite de nunca dormir.

255 O refrão pode dispor-se num verso (em função da métrica) ou em dous versos (em função da rima farei/amei). O verso é hipométrico. O termo "i" é empregado
por vezes nesta construção, significando "então, no que diz respeito a isso, etc". Cf. p. ex. A111/B224: "que me digades: que farei eu i?".
256 No manuscrito "vi". O tempo correto é o presente.
257 Conjetural. No manuscrito os versos não rimam (morrer/rem). Restaurar a rima supõe alterar consideravelmente um dos dous versos, sob a hipótese de um
deles ter-se perdido na transmissão da cantiga e ser acrescentado por um copista. O argumento do primeiro verso aparece noutras cantigas e não parece
possível manter o mesmo argumento achando uma palavra rimante em "em". Cf. p. ex. A275: "pero m’ assi vejo, per bõa fé, morrer por vós". A proposta de
Nobiling para o segundo verso é estranha e forçada: "queirades-me dizer".
258 Falta uma sílaba. A palavra "eu" (que semelha riscada no manuscrito) neste verso será erro, pois já está no príncipio do verso anterior.
Esto259 sei eu bem per mi;
ca vo-lo nom digo por al,
mais porque sei eu já o mal
que vem end’ a quem s’ end’ assi260
vai; ca muitas vezes porém261
perdi o dormir e o sem,262
cativo!, porque m’ ém parti.

324 (B364; 40,6)

Muitos ham coita d’ amor,


mai-la do mundo maior
eu mi_a houve sempre doita;
ca x’ há i coita de coita,
mai-la minha nom é coita!263

Muitos vej’ eu namorados


e que som d’ amor coitados,
mai-la mià264 coita x’ é forte;
ca x’ há i morte de morte,
mai-la minha nom é morte!

Muitos me vej’ eu que ham


gram coita e grand’ afám,
mai-lo meu mal: quem viu tal?;
ca x’ ham eles mal de mal,
mai-lo meu mal nom é mal!

325 (B365; 40,9)

Pois tam muit’ há que mià senhor nom vi


e me mais vejo no mundo viver,
e m’ eu tam gram coita pude sofrer,
per bõa fé, pois dela nom morri,

já mais por coita nunca rem darei;


ca, por gram coita_haver, nom morrerei.

E, quando m’ eu da mià senhor parti,


nom cuidava esse dia chegar
viv’ aa noit’; e vejo m’ ar-andar
259 No manuscrito "e esto". A conjunção copulativa não e necessária. O primeiro verso de cada uma das estrofes parece ter 7 sílabas e não 8 como o resto dos
versos. As elisões em "quem m’ oir" e "m’ end’ alguém" são obrigatórias por causa da prosódia medieval.
260 A parte final da estrofe está mui estropiada e as soluções só podem ser conjeturais. No manuscrito "a quem s’ ém vai". A rima deve ser em "i" (rimando com
"mi" e "parti"). Nobiling propôs deslocar "x’ assi" (que está no verso seguinte) para o final deste verso e suprimir "s’ ém" (a quem vai-x’ assi). Mas a ordem "vai-
x’ assi" é incorreta após "quem". Deveria ser "a quem x’ assi vai". Se conservarmos "én/ende" (ir-se d’ ali), poderemos deslocar o verbo para o seguinte verso.
261 No manuscrito "ca muitas vezes perdi". A rima não pode ser em "i". Por isso o verbo se desloca para o seguinte verso. Nobiling propôs "perdi sem". A
expressão "perder o sem" sem o artigo é mui rara.
262 A expressão "perder o dormir e o sem" é habitual.
263 O sentido será: há coita de coita (algo maior do que a simples coita, um nível superior: sofrer coita da própria coita de amor), mas a minha é tão grande que
não cabe na definição de coita.
264 No manuscrito "minha": incorreto, além de fazer o verso hipermétrico.
vivo; e, pois tal coita padeci,

já mais por coita nunca rem darei;


ca, por gram coita_haver, nom morrerei.

E, pois esta que vos digo sofri,


bem devo, de pram, a sofrer qualquer
outra coita qual me Deus dar quiser;
ca, pois, per esta, morte nom prendi,

já mais por coita nunca rem darei;


ca, por gram coita_haver, nom morrerei.

326 (B366; 40,7)265

Nom am’ eu mià senhor, par Deus,


por nunca seu bem asperar;
mais fui com ela começar;
e é já ‘ssi266, amigos meus:

que nom hei eu end’ al fazer


enquant’ ela puder viver.

No-na amei, des que a vi,


por nunca dela_haver seu bem;
mais vedes: de guisa mi_avém,
meus amigos, que ést’ assi:

que nom hei eu end’ al fazer


enquant’ ela puder viver.

No-na amo, per bõa fé,


por nunca seu bem haver já,
ca sei bem que mi_o nom fará;
mais mià fazenda já ‘ssi é:

que nom hei eu end’ al fazer


enquant’ ela puder viver.

Ca demo m’ em267 cabo prender


foi, de pram, u a fui veer!

Porque s’ ela nom quer doer


de mim, mal dia foi268 nacer!

265 A última estrofe desta cantiga são, na realidade, duas findas, pois a rima é a do refrão/última finda e não segue o esquema métrico das estrofes.
266 No manuscrito falta a conjunção copulativa. A pausa entre o verso anterior e este seria estranha. Aliás, o "a" de assi é frequentemente elidido após "já". Cf.
verso final da terceira estrofe.
267 Em cabo = finalmente, por fim. No manuscrito falta o sinal de nasalidade sobre o "e". Um demo acabou por me prender quando a fui ver. O sentido será similar
a "mal dia a fui ver".
268 Assim consta no manuscrito. A construção habitual é "mal dia fui nacer" e também é possível que aqui o manuscrito esteja errado. Mas também pode estar
correto, levando em conta que no refrão o trovador exprime que não poderá fazer outra cousa enquanto viver a senhor.
E sei de mim com’ há269 seer:
viver coitad’ e pois morrer.

327 (B366bis; 40,11)

Vẽerom-m’ ora preguntar


meus amigos por que perdi
o sem; e dixe-lhes assi
(ca o nom pud’ i mais negar):

"A mià sobrinha me tolheu


o sem, por que270 ando sandeu".

Quem bem quiser meu coraçom


saber, por que ensandeci
pregunte-me271; ca bem log’ i
lhe direi eu assi entom:

"A mià sobrinha me tolheu


o sem, por que ando sandeu".

RODRIGO EANES DE VASCONCELOS

328 (B367; 140,6)

Senhor de mi e do meu coraçom,


dizedes que nom havedes poder,
per nulha guisa, de me bem fazer.
Poi-lo dizedes, nom dig’ eu de nom;

mais, mià senhor, dizede-m’ ũa rem:


como me vós podedes fazer mal | nom me podedes assi fazer bem?

E, mià senhor, mui gram poder vos deu


Deus sobre mim; e dizedes, senhor,
que me nom podedes fazer amor.
Poi-lo dizedes, creo-vo-lo eu;

mais, mià senhor, dizede-m’ ũa rem:


como me vós podedes fazer mal | nom me podedes assi fazer bem?

E, mià senhor, já vos sempre dirám,


se eu morrer, que culpa_havedes i;
e vós dizedes que nom ést’ assi.
269 No manuscrito "com’ há de seer". O verso é hipermétrico. Cf. B854/V440: "e sei de mi com’ há seer".
270 A mià sobrinha, por que ando sandeu, me tolheu o sem.
271 Pregunte-me por que ensandeci (o motivo).
Poi-lo dizedes, assi é, de pram;

mais, mià senhor, dizede-m’ ũa rem:


como me vós podedes fazer mal | nom me podedes assi fazer bem?

E, mià senhor, nunca eu direi rem


de contra vós, se nom perder o sem;

mais272, mià senhor, quem hom’ em poder tem


e lhe faz mal pode-lhe fazer bem.

329 (B368; 140,1)

Aquestas coitas que de sofrer hei,


meu amigo, muitas e graves som;
e vós mui graves, há i gram sazom,
coitas sofredes. E porém nom sei,

d’ eu por vassalo e vós por senhor,


de nós qual sofre mais coita d’ amor.

Coitas sofremos: assi273 nos avém


(eu por vós, amigo, e vós por mi),
e sabe Deus de nós que ést’ assi.
E destas coitas nom sei eu muit’ ém,

d’ eu por vassalo e vós por senhor,


de nós qual sofre mais coita d’ amor.

Guisado tẽem de nunca perder


coita meus olhos e meu coraçom;
e estas coitas, senhor, minhas som.
E deste feito nom poss’ entender,

d’ eu por vassalo e vós por senhor,


de nós qual sofre mais coita d’ amor.

330 (B368bis; 140,4)

Preguntei274 ũa dona | eu como vos direi:


"Senhor, filhastes ordem, | e já porém chorei".
Ela entom me disse: | "Eu nom vos negarei
de com’ eu filhei ordem, | assi Deus me perdom:
fez-mi_a filhar mià madre; | mais o quê lhe farei?:

272 No manuscrito "ca". Mas a construção é adversativa. Cf. o começo do refrão.


273 No manuscrito "e assi". O verso é hipermétrico e a conjunção copulativa é desnecessária. A ordem normal seria: Assi nos avém: coitas sofremos (eu por vós,
amigo, e vós por mi).
274 "Preguntar" é sinónimo de "dizer" aqui.
trager-lh’-i275 eu os panos, | mais nom no276 coraçom".

Dix’ eu: "Senhor fremosa, | morrerei com pesar,


pois vós filhastes ordem | e vos ham de guardar".
Ela entom me disse: | "Quero-vos ém mostrar
como serei guardada | (se nom, venha-me mal):
esto, porque chorades, | bem devedes cuidar:
tragerei eu os panos, | mais no coraçom al".

E dix’ eu: "Senhor minha, | tam gram pesar hei ém


porque filhastes ordem | que morrerei porém".
E disse-m’ ela logo: | "Assi me venha bem,
como serei guardada | dizer-vo-lo quer’ eu:
se eu trouxer os panos | nom dedes porém rem,
ca terrei o contrairo | e-no coraçom meu".

PERO MAFALDO

331 (B369; 131,2)

Ai, mià senhor!, vẽem-me conselhar


meus amigos como vos eu disser:
que vos nom sérvia; ca nom m’ é mester,
ca nunca rem por mi quisestes dar.
Pero, senhor, nom m’ ém quer’ eu quitar

de vos servir e vos chamar "senhor",


e vós faredes depoi-lo melhor.

E todos dizem que fiz i mal sem,


ai, mià senhor!, de quanto comecei:
de vos servir; e no-nos creerei,
mentr’ eu viver, nunca: por ũa rem:
ca, mià senhor, me faz Deus mui gram bem277

de vos servir e vos chamar "senhor",


e vós faredes depoi-lo melhor.

E mais me dizem do que me vos deu


por mià senhor que me fez i gram mal;
pois m’ esto dizem, dizem-m’ assi al:
"No-na serviades nem sejades seu".
Com278 tod’ esto, nom me partirei eu
275 O manuscrito está correto. O tempo verbal é o infinitivo, pois o futuro já está incluído na pergunta: "o que lhe farei?". O pronome "lhe" funciona como dativo
ético.
276 Falta no manuscrito. A ideia principal da cantiga será: vestirei os panos no corpo (hábito de freira) mas não no coração. A senhor será encerrada mas
continuará a amar no seu interior.
277 No manuscrito "que me fez e mui bem". "Que" deverá ser erro, pois é redundante (o verso começa por "ca"). "Bem" é substantivo aqui; portanto "mui bem" é
incorreto (deverá ser "mui gram bem" ou "muito bem"). Falta o sujeito do verbo "fazer", que é normalmente Deus ou a senhor. Cf. p. ex. A137/B258: "E tenho
que me fez Deus mui gram bem...de a servir e nom m’ enfadar". O verbo fazer deverá estar em presente, para condizer com "e vós faredes depois".
278 No manuscrito "por", mas aqui a frase é adversativa (com todo esto = porém, contudo). Cf. último verso da primeira estrofe.
de vos servir e vos chamar "senhor",
e vós faredes depoi-lo melhor.

E, mià senhor, conselha-me mui mal


quem mi_o conselha; mais farei-m’ eu al.

332 (B370; 131,3)

A mià senhor, que eu por meu mal vi,


fezo-a Deus senhor de mui bom prez
e mais fremosa de quantas El fez,
per bõa fé; todo [por mal de mi]279

a fezo Deus de muito bem senhor


e das melhores donas a melhor.

Por atal moir’; e direi-vos eu al:


fez-lhe tod’ est’, e fez-lhe muito bem
e-na fazer dona de mui bom sem
e mui mansa; e todo [por meu mal]

a fezo Deus de muito bem senhor


e das melhores donas a melhor.

E nom me foi Nostro Senhor mostrar


os seus olhos, de pram, por bem dos meus,
mais por meu mal; e assi quiso Deus
[por me fazer maior coita levar]

a fezo Deus de muito bem senhor


e das melhores donas a melhor.

333 (B371; 131,8)

- Senhor, por vós e polo vosso bem,


que vos Deus deu, vem muito mal a mi.
Por Deus, senhor, fazed’ o melhor i!
- Vedes, amigo, quê vos farei ém:

se vos por mi, meu amigo, vem mal,


pesa-m’ ende, mais nom farei i al.

- Senhor fremosa, mais vos ém direi:


o vosso bem e vós e voss’ amor
me dam gram mal que nom podem maior.
- Já vos dixe quanto vos ém farei:

279 As últimas palavras das estrofes (delimitadas por colchetes) são simultaneamente final da estrofe e começo do refrão.
se vos por mi, meu amigo, vem mal,
pesa-m’ ende, mais nom farei i al.

- De vos pesar, senhor, bem ést’ e prez,


pero nom poss’ eu per tanto viver
se vós i mais nom quiserdes fazer.
- Já vo-lo dix’ e direi outra vez:

se vos por mi, meu amigo, vem mal,


pesa-m’ ende, mais nom farei i al.

De que me pesa cuid’ eu que é mal;


demais, amigo, demandardes-mi_al.

334 (B372; 131,7)

Senhor do mui bom parecer,


maravilho-m’ eu do gram mal
que me fazedes por meu mal;
e quanto-lo ouvem dizer,
senhor, ar-maravilham-s’ ém

de me fazerdes sempre mal


e nunca me fazerdes bem.

Ca vós ouç’ ende cousecer


de me fazerdes tanto mal
a muitos, a que é gram mal
em perder vosso conhocer
em mim e nom guaanhardes rem

de me fazerdes sempre mal


e nunca me fazerdes bem.

E, mià senhor, quantos eu vi


todos me dizem que é mal
de me fazerdes tanto mal;
e maravilham-s’ outrossi
se vo-lo conselhou alguém

de me fazerdes sempre mal


e nunca me fazerdes bem.