Você está na página 1de 4

Resenha Crítica: Mulheres Negras e Feminismo – Bell Hooks

Camila Santos de Oliveira

Em Mulheres Negras e Feminismo, Bell Hooks através de uma retrospectiva histórica


resgata a contribuição pouco mencionada das mulheres negras no debate do movimento
americano de igualdade social e, direitos das mulheres, além de analisar o impacto do
sexismo e imperialismo racial e sua construção e difusão de estereótipos que
prevalecem no imaginário até hoje. Para elucidar essas práticas, a autora resgata o
discurso de Sojourner Thuth. Desse discurso histórico saiu o titulo do livro de Hooks
Não sou eu uma mulher?.

Sojourner foi uma das primeiras feministas que diante a desaprovação pública de
homens e mulheres brancas expressou através de evidências o quanto argumentos que
suponham a inferioridade física contra a ideia de direitos iguais para as mulheres não se
aplicavam a realidade das mulheres negras escravizadas, visto que além de ser
objetificada e sofrer violência e abusos físicos, detinham a mesma carga de trabalho dos
homens negros escravizados. Sojourner se tornou a personificação do quanto às
mulheres negras mais do que qualquer outro grupo feminino do século XIX estiveram
conscientes da opressão sexista. A segregação racial presente até mesmo no movimento
de mulheres por parte das mulheres brancas impossibilitou a formação coletiva
organizada das mulheres negras nesses espaços. Esse tem sido o centro das discussões
contemporâneas sobre os limites do feminismo frente às posições sociais e as
experiências das mulheres negras. Hooks inclusive faz uma crítica a existência de um
coletivo “mulheres” no presente que pratica a exclusão das mulheres negras do
conhecimento e da política feminista. A autora chama atenção para as relações de
opressão e dominação entre mulheres que resultam no silenciamento das mulheres
negras. Apesar dos historiadores contemporâneos não pouparem seus esforços em
enfatizar tendenciosamente a justificativa que as mulheres negras no século XIX
estariam mais envolvidas no trabalho anti-racista e isso de certo modo implicou na sua
pouca atuação nas atividades dos direitos das mulheres. Pouco se dizia ao modo como
as relações nesses espaços detinham um caráter substancialmente racista de modo que
as mulheres negras não eram reconhecidas ou obtinham voz equivalente às mulheres
brancas mesmo nos assuntos que circundavam os direitos das mulheres. Originalmente
as mulheres negras estiveram solidamente envolvidas no movimento de mulheres. A
leitura enfatizada por esses historiadores não foge da visão imperialista racial de ocultar
e apagar as evidências históricas e, exaltar e fazer prevalecer a leitura da mesma por um
eurocentrismo. Na medida em que Hooks avança se faz presente ao longo do capítulo a
forte presença de várias feministas negras que viam, apesar das circunstâncias de
exclusão racial, que os direitos das mulheres só seriam alcançados se houvesse uma
única frente unida. Visto que existia nos grupos de mulheres brancas e negras em suas
medidas de reforma similaridades, apesar das mulheres negras terem um esforço
múltiplo diante aos problemas raciais específicos presentes no imaginário sexista
americano. O corpo das mulheres negras sofreu um processo de hipersexualização com
a difusão de estereótipos, que ocasionou na objetificação desses corpos por parte dos
homens brancos e negros. Por ventura disso, os grupos de mulheres negras eram mais
radicais devido a essa circunstância criada pela opressão racial e sexista.

Hooks pontua o quanto as mulheres negras do século XIX acreditavam que o direito ao
voto as possibilitaria exercer uma mudança no sistema educacional. Com o objetivo de
alcançar essa mudança, apoiaram o sufrágio feminino. A efervescência continuou no
século XX, as mulheres brancas conquistaram o direito de voto e não houve mudanças
no destino da mulher na sociedade, pelo contrário, esse privilégio ajudou a manter o
imperialismo racista e patriarcal da ordem social. As mulheres negras tinham apoiado o
sufrágio da mulher e seus interesses tinham sido traídos, o “sufrágio da mulher” foi
utilizado como uma arma para fortalecer a opressão dos brancos sobre o povo negro. O
clima propiciou o renascimento do racismo e uma crescente intolerância que fez com
que as mulheres negras unissem esforços na resistência ao racismo. Por mais que, o
movimento dos direitos das mulheres, lutavam pela igualdade social, não eram
opositoras à ordem social e política dos Estados Unidos, enquanto as mulheres negras
eram obrigadas a denunciar a nação devido às suas políticas racistas. Na década dos
anos vinte, com a estabilidade do capitalismo houve um período de conservadorismo
hostil ao movimento de mulheres. No pós-guerra com a expansão econômica dos
Estados Unidos e seu domínio do mundo, todos os grupos de oposição sofreram
repressão. Na metade da década de XX, a luta pela libertação dos negros e a luta pelos
direitos das mulheres foram vistas como inimigas. As mulheres negras se desassociaram
da luta feminista, pois parecer radical significa ferir a libertação dos negros. Para ganhar
participação na existência do Estado-Nação eles sentiam que era necessário serem
conversadores e estabelecer comunidades utilizando o mesmo padrão que os brancos.
Empenhados em adaptarem-se a si próprios aos padrões instalados pela sociedade
branca dominante, os homens negros preocupavam-se em afirmar a sua masculinidade,
enquanto as mulheres negras eram obsessivas quanto a sua feminilidade e em assumir
uma subordinação na relação com os homens negros. Suas exigências eram claras: a
eliminação do racismo, não do capitalismo ou do patriarcado. As mulheres negras que
antes tiveram orgulho de suas capacitações tornaram-se descontentes com o seu destino.
Quando enfim na década de 60 houve a libertação dos negros, eles libertaram-se para
servir o sistema não se libertaram do sistema. Com a não modificação do sistema, a
estrutura se manteve enraizadamente racista, sexista e patriarcal. Quando o movimento
relacionado com o feminismo começou no final da década de 60, as mulheres negras
raramente participaram como grupo, o foco concentrado nos pensamentos anti-
feministas negros era tão persuasivo que mesmo as mulheres negras que quiseram
reestabelecer o movimento eram pouco mencionadas. De modo que o movimento
feminista recebeu um caráter de universalizar as pautas do movimento, essa
universalidade consistiria na afirmação de um padrão de mulheres brancas, as mulheres
negras viram-se em uma encruzilhada cansadas de ouvir sobre a força que as mulheres
detinha para mudar o mundo, quando na verdade não haviam mudando a elas mesmas.
Hooks apontam o quanto era necessário destruir essa psicologia de domínio que faziam
as mulheres permaneceram prisioneiras das mesmas estruturas que elas tinham
esperança de mudar. A autora pontua que se a uma necessidade de reacender o espírito
da luta feminista no século XIX, as mulheres negras do século XIX eram mulheres de
ação e não permitiram que o racismo e sexismo que sofriam a detivesse no seu
envolvimento político. O movimento feminista contemporâneo apesar de evidenciar o
impacto da discriminação sexista para com as mulheres estadunidenses, pouco fez para
elimina-la. Por ventura de todas essas problemáticas, atualmente as mulheres negras
temem o feminismo e se recusam a reconhecer o quanto têm a ganhar através da luta
feminista, visto que esse reconhecimento não lhes foi concedido enquanto mulher negra.

De modo bastante reflexivo e vislumbrando ideologicamente assegurar a libertação dos


padrões dos papéis sexista, de dominação e de opressão, Hooks acredita que titular-se
como feminista significa se reapropriar do termo que sofreu ao longo desses anos um
processo de deturpação por parte das mulheres brancas que buscavam adquirir o poder
que os homens exerciam e não compreender as especificidades das mulheres negras
como algo vital aos ser reivindicado dentro do movimento dos direitos das mulheres.
Referência Bibliográfica

HOOKS, Bell – Não sou eu uma mulher? – Mulheres Negras e Feminismo.


Tradução 2004, Edição 1981.