Você está na página 1de 202
~ WILL DURANT autor de A HISTORIA DA CIVILIZACAO / ® ] y ppl cos ae DA FILOSOFIA Um brilhante e conciso relato das vidas e idéias dos grandes fildsofos 10 Ocidente — de Platao a Bertrand Russell - escrito por um dos maiores etc A i SS Fae ia A a ie Pcs 4 —. ir A HISTORIA DA FILOSOFIA Nas paginas iniciais de A Historia da Filosofia, Will Durant adverte © leitor para o fato de nfo ser esta uma hist6ria completa da filosofia, mas uma tentativa de humanizar o conhecimento, concentrando a hist6- tia do pensamento especulativo em torno de certas personalidades domi- nantes. Nao infundada era a preocupagio do autor, fruto de uma época em que o conhecimento humano se tornara incontrolavelmente vasto ¢ cada vez mais inacessivel ao leigo. E foi esse pblico numetoso ¢ nao es- pecializado que acolheu, com grande entusiasmo, a primeira publicacao desta obra, em 1926. Ainda hoje, mais de seis décadas depois, A Histd- ria da Filosofia se constitui numa das mais importantes sinteses do pen- samento filoséfico ocidental. Durant nao excluiu de sua abordagem uma certa dose de humor, “no apenas porque a sabedoria no € sabia quando espanta o diverti- mento, mas porque o senso de humor, nascido da perspectiva, se torna um parente préximo da filosofia’’. E foi buscando a leveza e a simplici- dade das palavras que ele compiés este livro, abrangendo desde a anti- guidade classica até a atualidade, concentrando num dnico volume as idéias fundamentais de Platao, Arist6teles, Francis Bacon, Spinoza, Vol- taire, Kant, Schopenhauer, Spencer, Nietzsche e muitos outtos. As areas tradicionais da filosofia — logica, ética, estética, politica e metafisica — s4o contempladas a luz do discurso e da vida dos préprios filésofos. O- caratet inttodut6rio, mas extremamente abrangente desta obra, confere- Ihe o inegavel mérito de despertar, naqueles que a desfrutam, um teal interesse pela leitura dos grandes filésofos : Durante treze anos, Will Durant proferiu palestras sobre histétia, . literatura € filosofia, que lhe proporcionaram’a base para seus trabalhos posteriores. O grande sucesso de A Hist6ria da Filosofia permitiu-lhe aposentar-se do magistério e dedicar-se, ao lado de sua esposa Atiel Du- rant, a0 grandioso levantamento histérico que seria concretizado nos on- ze volumes que compdem A Historia da § adie Por WILL ¢ ARIEL DURANT A HISTORIA DA CIVILIZACAO Vol. I — Nossa Heranga Oriental Vol. I! — Nossa Heranga Classica Vol. Ill — César e Cristo Vol. IV — A Idade da Fé _ Vol. V— A Renascenga Vol. VI — A Reforma Vol. VII — Comeza a Idade da Razao Vol. VII — A Era de Luis XIV Vol. IX — A Era de Voltaire Vol. X — Rousseau e a Revoluga@o Vol. XI — A Era de Napoledo WILL DURANT A HISTORIA DA FILOSOFIA Traducao de LUIZ CARLOS DO NASCIMENTO SILVA 2*EDICAO EDITO RA RIO DE JANEIRO : He tae CIP-Brasil. Catalogacao-na-fonte ‘Sindicato Nacionat dos Editores de Livros, RJ. Durant. Will, 1885-1981 D954 A hist6ria da filosofia / Will Durant; tradugo de 2ed. Luiz Carlos do Nascimento Silva — 2*ed. — Rio de Janeiro : Record, 1996. “Tradugdo de: The story of philosopiy ISBN 85-01-03516-5 i 1. Filosofia — Historia I Tito. DD — 109 CDU — 1091) Titulo original norte-americano ‘THE STORY OF PHILOSOPHY ‘Todos os direitos reservados. Publicado mediante acordo com Simon & Schuster, New York. Copyright © da Tradugio, 1991 by Distribuidora Record S. A. Copyright © da Ifngua inglesa, 1926, 1927, 1933 by Will Durant Copyright renovado em 1954, 1955, 1961 by Will Durant ~ Proibida a exportagao desta edigdo para Portugal, Europa, colnias portuguesas 0 resto do mundo. oa @ = Direitos exclusivos de publicagio em lingua portuguesa para 0 Brasil adquiridos pela DISTRIBUIDORA RECORD DE SERVIGOS DE IMPRENSA S.A. Rua Argentina 171 — 20921-380 Rio de Janeiro, RJ —Tel.: $85-2000 que se reserva a propriedade literdria desta tradugo Impresso no Brasil ISBN 85-01-03516-5 PEDIDOS PELO REEMBOLSO POSTAL Caixa Postal 23.052 — Rio de Janeiro, RJ — 20922-970 A MINHA MULHER Seja forte, minha companheira... para que possa ficar Inabalada quando eu cair; para que eu possa saber Que os estilhacados fragmentos de minha cangio Tém em vocé melodia mais bela; Para que eu possa dizer ao meu corac3o que voct comesa Onde eu, ao morter, acabo, € passa a compreender mais. ’ PREFACIO A SEGUNDA EDICAO AMERICANA Apologia Pro Libro Suo 1 Meus editores pediram que eu aproveitasse o ensejo proporcionado por uma nova edigao de A Hist6ria da Filosofia para discutir a questao geral dos ‘‘e: ” @ ana- lisar algumas das deficiéncias do volume. Sinto-me satisfeito por esta oportunidade de reconhecé-las e de expressar, com toda a debilidade de simples palavras, a gratidéo que sempre sentirei pela generosidade com a qual, apesar de tantos defeitos, 0 pi- blico americano receben este ivro. Os “‘esbogos”’ surgiram porque um milbao de vozes clamavam por eles. O co- swhecimento humano tornou-se incontrolavelmente vasto; cada ciéncia gerou uma dlizia de outras, cada qual mais sutil que as demais; o telescépio revelou estrelas e sistemas em nimero tal, que a mente do homem nio consegue conté-los ou dar-lhes nomes; @ geologia falou em termos de milboes de anos, quando os homens, antes dela, ha- viam pensado em termos de milhares; a fisica descobrin um universo no domo, ¢ @ biologia encontrou um microcosmo na célula; a fisiologia descobriu um mistério inesgotavel em cada 6rgdo, e a psicologia, em cada sonho; a antropologia reconstruin @ insuspeitada antighidade do homem, a arqueologia desenterrou cidades e estados esquecidos, a historia provou que toda histéria é falsa ¢ pintou uma tela que s6 um Spengler ou um Eduard Meyer podia ver como um todo; a teologia desmoronou, € @ teoria politica rachou; a invengdo complicou a vida e a guerra, ¢ as doutrinas eco- némicas derrubaram governos ¢ inflamaram o mundo; a propria filosofia, que antes bavia convocado todas as ciéncias para ajuda-la a formar uma imagem coerente do mundo e fazer um retrato atraente do bem, achou que sua tarefa de coordenagao era prodigiosa demais para a sua coragem, fugiu de todas essas frentes de batalha da ver- dade ¢ esconden-se em vielas obscuras e estreitas, timidamente a salvo dos problemas e.das responsabilidades da vida. O conhecimento humano tornara-se demasiado para a mente humana. Tudo que restou foi o especialista cientifico, que sabia ‘‘mais e mais a respeito de menos ¢ menos"’, e 0 especulador filoséfico, que sabia menos e menos a respeito de mais e mais. O especialista passou a usar antolhos a fim de isolar de seu rato de visto 0 mundo intetro, & excegdo de um pequenino ponto, ao qual colou o nariz. Perdeu-se a perspectiva. Os ‘‘fatos”’ substituiram a compreensio; e 0 conbecimento, dividido em mil fragmentos isolados, ja nao gerava sabedoria. Toda ciéncia, e todos os ramos da filosofia criaram uma terminologia técnica que s6 era inteligivel para os seus adeptos exclusivos; 2 medida que os homens iam aprendendo mais a respetto do mundo, viam-se cada vex menos capaxes de expressar, para seus semelhantes com instrugao, aquilo que haviam aprendido. O hiato entre a vida ¢ 0 comhecimento foi 7 PREFACIO do cada vex mais amplo; aqueles que governavam nao compreendiam aqueles = e aqueles que queriam saber néo compreendiam aqueles que sabiam. Em meio a uma erudigao sem precedentes, florescia a ignorincia popular, que esco- shia elementos seus para governar grandes cidades do mundo; em meio a ciéncias subsidiadas e entronizadas como nunca dantes, diariamente nasciam novas religioes, e velbas superstigaes recapturavam o terreno que haviam perdido. O homem comum viu-se obrigado a escolher entre um sacerdbcio cientifico balbuciando um pessimismo ininteligivel e um sacerdécio teolégico balbuciando incriveis esperangas. : Nessa situagdo, era clara a fungao do educador profissional. Deveria ter sido @ de mediador entre o especialista ¢ a nagao; aprender a linguagem do especialista, tal como o especialista aprendera a da natureza, a fim de derrubar as barreiras entre o conbecimento e a necessidade, e procurar para verdades novas termos antigos que to- das as pessoas com instrugao pudessem entender. Porque seo conbecimento se tornasse demasiado a ponto de nao ser transmitido, iria degenerar em escolastica e na docil aceitacao da autoridade; a humanidade resvalaria para uma nova era de fe, adorando @ uma distancia respeitosa seus novos sacerdotes; e a civilizagao, que tivera a espe- ranga de progredir com base em uma educagao amplamente disseminada, icaria precariamente baseada em uma erndigao técnica que se tornara monopélio de uma classe esotérica monasticamente isolada do mundo pela elevada taxa de natalidade da terminologia. No admira que 0 mundo inteiro aplaudisse quando James Harvey Robinson fez soar 0 toque de retirada dessas barreiras e de humanizagao do conbe- cimento moderno. Z ee 0 Os primeiros “‘esl ”, os primeiros esforgos de humanizario do conbecimento, foram os Diflogos re E possivel que os “‘eruditos” saibam que o Mestre es- creven dois conjuntos de obras — um, em linguagem técnica, para seus alunos ma Academia; 0 outro, um grupo de didlogos populares destinados a atrair 0 ateniense de cultura mediana para o ‘‘caro deleite’’ da filosofia. Para Platao, nao parecia cons- hituir um insulto @ filosofiao fato de ela ser transformada em literatura, representada como uma pega teatral, ¢ embelezada com estilo; e nenbum desdouro para a sua dig- nidade ao ser aplicada, mesmo de forma inteligivel, aos problemas vivos da moralidade ¢ do Estado. Por capricho da bist6ria, suas obras técnicas se perderam e as populares permanecem. Por ironia da hist6ria, foram esses didlogos populares que deram a Plasto @ repul ue gore nas escolas. Ora Daseat a carreira do resumo comeca com H. G. Wells. Os bis- toriadores nao sabiam o que faxer com The Outline of History; 0 professor Schapiro declarou que estava cheia de erros e classificou-a como obra de educagao liberal. tava realmente cheia de erros, como tende a estar qualquer livro que aborde um campo vasto; para uma $6 inteligéncia, porém, foi um desempenko assombroso e estime- Sante. O génio jornalistico do Sr. Wells havia aliado os volumes ao movimento paz internacional, e os inscrevera como uma equipe importante na meee educagao e a catastrofe”’. Ninguém queria a catastrofe, e todo mundo comprou 0 ero. A histéria tornou-se popular, e os historiadores ficaram alarmados. Agora, seri necessério que eles escrevessem de maneira tho interessante quanto H. G. Wellsix, 8 OSG PREFACIO Por estranho que paresa, dois deles escreveram O Professor Breasted, de Chy- cago e do Egito, revisou e melborou um velho livro didético, eo Professor Robinson Sex 0 mesmo; uma editora arrojada reunin a obra de ambos em dois belos volumes, deu-lhes um titulo cativante — The Human Adventure — ¢ publicon o melbor de todos os esbogos, uma obra-prima de exposi¢ao tao autorixada quanto uma alemae tao clara quanto uma gaulesa. No sex campo, nada igualou esses volumes até agora Enquanto isso, Hendrik Willem van Loon havia se langado & frente no mesmo Jerreno, com uma caneta em uma das maos, um lapis na outra, e um brilho nos olbos, Nao dava a minima para a dignidade e adorava muitissimo uma piada; rindo, ele recuou nos séculos, € assinalava sua moral por desenhos e sorrisos. Os adultos com- bravam A Historia da Humanidade para os filbos e liam-na as escondidas O mundo se tormava escandalosamente informado em matéria de historia. O apetite do leigo aumentou em relazao aquilo do que ele se alimentava, Havia, na América, milhes de homens e mulheres que nao tinham podido Sreqiientar uma faculdade e que tinham sede de conbecer as descobertas da histéria e da cibncia; até mesmo aqueles que haviam cursado a faculdade mostravam uma moderada fome de conhecimento. Quando John Macy publicou The Story of the World's Literature, msi- Shares de pessoas saudaram a obra como um genial e iluminativo levantamento de um campo fascinante. E quando A Historia da Filosofia apareceu, teve a sorte de pe- &ar essa onda de curiosidade em ascensdo e de ser aleada a uma popularidade nunca sonbada. Os leitores ficavam pasmos ao descobrirem que a Filosofia se mostrava in- seressante porque era, literalmente, uma questao de vida e morte. Comentavam com amigos, ¢, em pouco tempo, tornou-se moda elogiar, comprar e, até, ocasionalmente Jer este livro que tinha sido escrito para um piblico limitado. Em suma, Soi wm sue cesso tal, que nenhum autor que o tenha conbecido pode esperar repetir. Entao, veio a inundagdo. Esbogo seguiu-se a eshogo, historia seguin-se a hist6ria, ciéncia e arte, religido e leis tinham seus histoniégrafos, e 0 superficial ensaio de Beh- her foi avidamente transformado em A Historia da Religiio. Ums autor apresentow, em um 56 volume, um esbogo de todo 0 conbecimento, tornando, com isso, supér- Siuos Wells, van Loon, Macy, Slosson, Breasted e 0s demsis. O apetite do piblico ficou saciado muito depressa; ortticos e professores reclamavam da superficialidade e da pressa, ¢ instalou-se uma corrente submarina de ressentimento que atingiu todos os esbogos, do itltimo a0 primeiro. Com a mesma rapidex com que havia chegado, a moda mu- dou; ninguém ousava mais dixer uma palavra em favor da bumanizagdo do conhecimento; a deniincia dos esbogos era, agora, o caminho facil para uma reputazdo como critico; tornou-se elegante falar com delicada superioridade de qualquer livro de ndo-ficzdo que pudesse ser inteligivel. Comesara o movimento esnobe na literatura. mW Muitas das criticas eram desagradavelmente justas. A Historia da Filosofia estava, ¢ esti, cheia de defeitos. Primetro que tudo, era incompleta. A total omissdo da fi- tosofia escolistica era um ultraje, perdodvel apenas numa pessoa que tivesse sofrido muito com ela na faculdade ¢ no seminério e que depois demonsirasse ma vontade em relazao a ela por consideri-la mais uma teologia disfareada do que uma filosofia 4onesta, Ems certos casos (Schopenhauer, Nietzsche, Spencer e Voltaire) a exposigla 9