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A Estilística da Frase (Resumo)

A frase é uma forma de comunicação caracterizada por uma linha


melódica resultante de variações de entoação sobre uma sequência de
palavras. A unidade melódica pode ser formada de um ou mais grupos de
intensidade, com o tom passando de um grupo a outro, e podendo ser
marcadas por pausas lógicas, respiratórias ou expressivas. A extensão de uma
unidade melódica pode variar de uma palavra monossilábica a um conjunto de
várias sílabas. Não há critério na divisão das unidades, havendo certa margem
para a interpretação pessoal. Cada segmento melódico termina por uma
inflexão de voz, que pode ser de tom mais ou menos elevado ou mais ou
menos grave. A frase declarativa termina sempre por um tom mais grave,
caracterizando-se por esse abaixamento da voz. Muitas frases se dividem em
duas partes: prótase, que termina pelo som mais alto, e apódose, marcada pelo
tom descendente. A frase é simétrica se a prótase e a apódose têm número
equivalente de segmentos; assimétrica se uma é bem mais extensa que a
outra. O ritmo do discurso vem da combinação dos segmentos melódicos, do
seu número e extensão. As combinações são variadas e devem ser
consideradas nas análises estilísticas.
No texto são utilizadas como exemplo algumas frases de textos
literários, onde podemos perceber de forma clara a segmentação e as
características como uso de repetição, sinonímia, gradação, antítese,
paralelismo etc. Acompanhamos a análise dos segmentos melódicos e do
paralelismo em textos como a prosa de Olavo Bilac e de Miguel de Cervantes,
onde temos contato com binarismo e o paralelismo em diversas formas.
A concordância tem na língua portuguesa particular importância, pois
além de ser um fato gramatical, é também um fato estilístico, sendo ainda um
dos aspectos em que o uso culto e o popular da língua mais se distanciam,
constituindo uma marca de classe social. Inexistente em certas línguas, muito
reduzida em outras, a concordância não corresponde a uma obrigação lógica
ou natural, sendo uma questão de uso e tradição. A autora nos fornece a visão
de Jesus Belo Galvão, que distingue dois tipos de concordância: a lógico-
formal e a estilística. A concordância lógico-formal é estabelecida pela
gramática normativa, apoiada no uso comum, e imposta pela escola como a
correta. Já a concordância estilística é a que ultrapassa os limites da correção,
a que atende a necessidades expressionais particulares, a que oferece a quem
fala ou escreve possibilidades de escolha. Segundo o mesmo autor, existem
três casos em que se pode considerar a concordância estilística: concordância
por atração, concordância ideológica e concordância afetiva. A concordância
por atração ocorre quando o adjetivo e o verbo concordam não com o termo
que logicamente lhes determinaria as flexões, mas com um termo mais próximo
e de maior importância no contexto de quem fala ou escreve. Na concordância
ideológica, as flexões assumidas pelo verbo ou pelo adjetivo não são
compatíveis com os termos presentes na frase aos quais eles se prendem
gramaticalmente, mas com a ideia que eles despertam na mente de quem fala
ou escreve. Considerada às vezes anômala ou defeituosa, mas comumente
aceita e justificada, a concordância ideológica é vista pela estilística como um
recurso de expressão, uma possibilidade de particularizar um sentimento ou
pensamento. A concordância afetiva é a que se deve ao influxo da emoção.
Outros estudos estilísticos da concordância também são apontados por
diferentes autores. A concordância estilística acaba por chamar a atenção e ter
uma força expressiva por ser pouco frequente, sendo observada e estudada
por pesquisadores de grande importância.

MARTINS, Nilce Sant'Anna. A Estilística da Frase. In: Introdução à Estilística:


A Expressividades na Língua Portuguesa. 4. ed. São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 2008. p. 216-232.

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