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BRIZULLA
Leonel Brizola e Luís Inácio Lula

O SAMBA DA DEMOCRACIA
ou
A PARAFERNÁLIA DO POPULISMO

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A maior livraria
da Paraíba
Fone: (083) 241. 1423/222.4438
Home Page:
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GILBERTO VASCONCELLOS

Leonel Brizola e Luís Inácio Lula

O SAMBA DA DEMOCRACIA
ou
A PARAFERNÁLIA DO POPULISMO

PAJELANÇA
,,

BRIZULLA - O SAMBA DA DEMOCRACIA

© GILBERTO VASCONCELLOS

COORDENAÇÃO EDITORIAL - WANDERLEY LOPES


CAPA - GIRAFA E GALLINO

PRODUÇÃO:
Wanderley P. Lopes
Giba
Chico Barriga dos Anjos
Zé Pereira

AGRADECIMENTO:
Getúlio Vargas
JK
Jango
Glauber Rocha
Brizola
Lula

Composição, fotolito e impressão - Gráfica Brasiliana


Direitos desta edição reservados à Editora Pajelança - Brasília-DF

1989
\'

Para meu amigo Brandão Monteiro, na


seqüência folclórica de Bequemão,
dedico, consagro e boto fé.
,r
"Leonel Brizola está destinado ao poder
mais por razões místicas do que por
razões políticas"

Glauber Rocha
ENSAIO SOBRE O SENTIMENTO
DA ESPERANÇA NA ELEIÇÃO DE 1989
SUMÁRIO

Prefácio - Tela Quente da Política . .. ........... ... .... ..... ........ ... . ...... .. .... ... . . 15
1 - Até Jesus Cristo começou com uma missão nacional............................... 21
2 - Agora não é depois .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. 23
3 - A questão religiosa ........................................................................... 31
4 - D~ ~ntr.opofagi_a à vampi~a~em........................................................... 33
5 - Dire1ta 1nconsc1ente da m1dm.............................................................. 35
6 - O kinema e a espada ........................................................................ 39
7 - O Príncipe da sociologia entre Claúdio Abramo e Glauber Rocha .. .. .. .. .. .. . 43
8 - Chovendo no molhado...................................................................... 49
9 - Modernidade, bicho-papão do atraso .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. . 55
10 - Contribuição desinteressada .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. . 59
11 - Mutirão acústico em defesa da Pátria ................................................... 61
12 - Só o jumento não tem superstição....................................................... 63
13 - Sociologia do carisma....................................................................... 65
14 - Jazigos e covas rasas......................................................................... 69
15 - Geografia da paranóia .. .. .... .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. 75
16 - O dólar é nosso............................................................................... 77
17 - O povo e as eleições ......................................................................... 83
18 - Falência de tudo por causa de todos.................................................... 85
19 - Poranduba da ditadura ...................................................................... 89
20 - Democracia ou o reinado do Demônio .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. .. . 93
21 - Retorno ao reprimido ....................................................................... 97
22 - Operação dicionário . .. .. .. .. . .. .. . .. .. . .. . .. . .. . .. . .. .. . .. .. . . .. .. .. .. .. . .. .. .. . .. . . . .. . . . . . 99
23 - Diversos mas não adversos ................................................................. 101
24 - As aves não inventam vôos ................................................................ 105
25 - Mistificação do labirinto ................................................................... 107
26 - Voto feminino urbano ....................................................................... 111
27 - I !ove you Erundina .......................................................................... 113
28 - Sarampão Escandinavo ...................................................................... 121
BRIZULLA NÃO RIMA
NO PRIMEIRO TURNO

Diante da ambigüidade contida no anagrama BRIZULLA, a


inteligêucia megera que assessora a editora Pajelança pede ao distinto
autor um esclarecimento sobre o título desse livrinho.
Meu Deus
É preciso explicar tudo!
BRIZULLA é uma palavra criada por mim com o objetivo de
sublinhar a síntese histórica do trabalho no Brasil; equivale a uma mistura
ou a um paralelo de Ogum com São Jorge, reunindo os nomes de Leonel
Brizola e Luís Inácio Lula.
BRIZULLA é a dialética do trabalho, diria o filósofo Arthur
Giannoti, ou seja, os dois grandes líderes do trabalhismo na batalha para
reduzir a exploração do capital perverso. Decorre daí que esse anagrama
político está em guerra contra a burguesia canalha, suja, corrompida.
A duplicação do I na palavra BRIZULLA nasce da substituição do
o do Brizola pelo u do Lula, cujo resultado fonético agrada nossos ouvidos
tão excessivamente musicais.
BRIZULLA é uma espécie de devil music da mouca contempora-
neidade.
O sol já pode viver perto da lua como se fosse quase o espírito
absoluto da época em que estamos porcamente atravessando. A totalidade
social e cultural.
BRIZULLA é também ruído quando não há possibilidade de
sinfonizar Leonel Brizola & Luís Inácio Lula.
O cineasta do povo, Glauber Rocha, escrevia Brizolla com I duplo.
Em homenagem ao Kinema revolucionário, BRIZULLA é a metáfora
da água na luta de classes, através da repetição da consoante líquida:
o fonema I que o povo brasileiro não fala, quiçá por preguiça ou economia
lingüística.
Existe um espaço BRIZULLA na sociedade civil que perdoa até
mesmo os deslizes prosódicos de um político honrado como Aureliano

13
Chaves, quando fala na TV dos probremas da Petrobrás diante da classe
média anticomunista.
No idioma tupi-guarani, que foi falado no Brasil até o século XVIII,
não havia a letra I, de modo que o padrinho remoto do anagrama
BRIZULLA é o venerando padre José de Anchieta.
Qui se ressemble s'assemble. BRIZULLA é a gramática da
convergência democrática. Os candidatos da esquerda devem pender para
o mesmo vértice, caso contrário a direita poderá tomar o poder através
do voto.
O povo arrepia quando ouve falar na palavra BRIZULLA supra-
partidária, advertindo os candidatos Brizola & Lula para a triste confusão
entre massa e classe. O povo não quer desaparecer na massa, nem o
homem quer desaparecer na classe. Por conseguinte, os partidos de
esquerda pisam na bola quando colocam Lula & Brizola em campos
adversos.
Se Brizola não chegar no segundo turno, e Lula chegar, a direita
~caba ganhando a parada. Se Brizola chegar no segundo turno, e Lula
tirar-lhe o tapete, Brizola corre o risco de dançar.
, E ~e por acaso a disputa no segundo turno for entre Brizola & Lula?
A1, entao, eu tiro o chapéu pro povo brasileiro.

14
TELA QUENTE DA POLÍTICA

Escrevo este prefácio ao mesmo tempo em que assisto na TV o


programa gratuito dos candidatos a Presidente da República, o assim
chamado comício eletrônico, que não tem nada a ver com a epilepsia
de Machado de Assis.
Que coisa impressionante!
Não basta falar em mudança. O lance da mudança torna-se retórico.
Abstrato. Um régue vazio. Isso porque no Brasil dos últimos anos (de
1964 para cá), quando muda alguma coisa - a vida do povo piora. Muda
para pior. Então a palavra mudança torna-se suspeita. Todos os candi-
datos querem mudança.
Acontece que para muita gente mudança é mudar de casa, de ap,
de quarto, de maloca. É um pé no saco.
Luís da Câmara Cascudo nunca mudou de casa.
Na TV tudo é muito igual. O que me apavora. Som. Imagem.
Linguagem. Os mesmos temas repetidos por todos os candidatos, a
exemplo da criança, da cadeia, da escola, da corrupção, do novo, etc.
A linguagem da política eleitoral é a tela quente da Globo.
Analisada sob o ponto de vista da montagem audiovisual, a
performance dos candidatos de esquerda pouco difere da dos candidatos
da direita. O povo brasileiro não curte Revolução Francesa. Por isso não
entende o que significa "candidato da direita".
O programa eleitoral tem uma estrutura de programa de auditório.
~ua dramatis persona é a subestética das telenovelas, onde as cancionetas
funcionam como ilustração e sem vínculo orgânico com o que se passa
no vídeo.
A paráfrase sem graça da Rede POVO do PT em relação à Rede
Globo, por carecer de dimensão crítica (plim, plim, plim, plim), reforça
a estética da direita hegemónica.
15
Lamentavelmente o PT ainda não conseguiu dar um trato político
aos olhos e ouvidos de Villa-Lobos e Glauber Rocha, os artistas proletários
do povo.
Ouvir o desejo do povo.
O PT parece acreditar que o tema já é suficiente para assegurar a
posição política de esquerda. Resulta daí a imagem de Luís Inácio Lula
como um ventrílogo metalúrgico dos marxólogos paulistas que fizerall}
carreira com teses equivocadas sobre o populismo de Getúlio Vargas. E
uma pena que o simpático Luís Inácio não pense politicamente com a
sua própria cabeça de pernambucano, o que faz com que ele seja
colonizado pelas elites universitárias que adoram Marlon Brando & Coca-
Cola.
Ah, se fosse um pouquinho mais caudilho - e menos
democraticamente despersonalizado - Lula seria de Norte a Sul aclamado
pelos doutores anônimos. O povão gosta da resposta na ponta da língua.
Raciocínio instantâneo. Em cima da bucha. Pá, buf.
O partidão coloca Villa-Lobos no som, mas opera com uma
montagem pré-estética da fome, ficando por isso aquém da estética do
sonho, portanto sem atingir o inconsciente da linguagem coletiva. O
programa de Roberto Freire não consegue juntar dialeticamente o aspecto
social com o aspecto místico, sendo também colonizado pelo marxismo
irreligioso, para quem a crendice ou a superstição é sinônimo de alienação
obscurantista.
Por puro preconceito iluminista, o partidão não junta Gorbatchev
com ~!it.ônio Conselheiro, assim como não vai além da mera "denúncia"
da m1sena, o que não difere substancialmente do pastelão sentimentalóide
da má-consciência tucana, ou da caretice bacharéu em cima do "cine
verité" de Ulysses Guimarães.
. O cinemanovista Zelito Viana precisa dar de presente ao líder Roberto
Fr~1re a crítica glauberiana ao materialismo histórico. Marx substituiu
Cnsto por uma santa prostituta: a moeda.
Seria bastante aconselhável nosso querido Roberto Freire subir a
serra de Petrópolis para conversar com o historiador Dirceu Lindoso sobre
o ateísmo na obra de Karl Marx. A palavra comunista contém uma
parafern_ália de sentido baixo-astral para os usuários da língua portuguesa
no Brasil.
Imaginemos o seguinte diálogo:
- Você é comunista?
- Eu não sou comunista porque eu não tenho nada o que dividir.
O partidão deveria abolir a palavra comunista de seu léxico político.
Isso evidentemente se quiser tomar de fato o poder, e não apenas preparar.
boca para ocupar os altos cargos com carro oficial. _A fofoca de que
16
comunista brasileiro é tarado por um opala preto. Além da fama de ser
sovina quando bota a mão no bolso.
Paulo Maluf é o Brecht da direita com a sua radionovela estruturada
em mensagem de parábola meio realismo socialista, cujo xaxado caipira
comunica mais do que a fala do candidato.
Que home é esse?
Aí o bicho aparece chutando lata de lixo, e em cada latão escrito
"incompetência'', "inflação", "miséria", etc., - parodiando com seu sapato
vulcabrás o Rambo imperialista de seu discípulo Fernando Collor, que
segue à risca os enlatados da Globo, a TV formadora do público sub-
americano de Roliudi.
O problema de Fernando Collor é não saber olhar para a câmera
por falta de convicção naquilo que está falando. Qualquer camelô de
esquina é mais convincente.
Por desconhecer a gramática, Collor vacila na sua fala de colegial
que decorou o texto. É ruim demais. Sobretudo em comparação com o
seu adesivo publicitário, cuja grafia é uma mistura da Coca-Cola com
a arquitetura de Brasília na duplicação geométrica do "~'. espécie de ícone
do Congresso Nacional. Não é por acaso que a família de JK colloriu.
Enfim, Collor é muito fraco na oblação. Um ícone sem nenhum som
surtiria melhor efeito se ele - Collor - não aparecesse nunca no vídeo,
mantendo a fábula publicitária do "caçador de marajá" contada em
discurso indireto livre.
É curioso constatar como ele dispensa adeptos fanáticos em sua
candidatura. Apenas dispõe de seguranças, e não de militantes. Trata-se
de um fetichismo imagético que pode ganhar eleitores potenciais, mas
exclui a paixão política. Ou melhor: sua paixão política é eunuca. Ninguém
briga por causa dele, a não ser obviamente a mídia, que é seu cabo eleitoral
eletrônico.
- Por que você vota no Collor? A resposta fatalmente é: ah, eu
voto porque voto, e acabou.
O eleitor collorido não quer explicar seu voto e, nessa recusa da
explicação, ele experimenta a volúpia collorida: trata-se de um candidato
recente que não tem nada a ver com o passado. Nisso Collor e seu eleitor
estão em uníssono. Ambos sentem prazer em não terem história; é mais
do que a idéia joyceana de que a história é pesadelo - a história não
existe.
O desempenho televisivo de Guilherme Afif (que se esqueceu de
registrar o e no AFIFE, correndo o risco de dançar por causa disso) é
um kitsch piegas de pastor protestante em missa eletrônica, fazendo o
gênero fleugmático do bom-mocismo liberal. Uma mistura charlatã de

17
Flávio Cavalcanti com Sílvio Santos que não paga imposto de renda e
que nunca leu a obra completa de José Guilherme Merquior.
O Ronaldo Caiado deveria ser filmado apenas em plano americano
dentro de um boeing enchendo a cara com sangue de boi Bauru. Basta
compará-lo a um candidato que não usa retórica e nem jingles
mirabolantes, como é aliás a explanação do professor Celso Brant. Aulas
sobre o imperialismo e o Terceiro Mundo em que falta no entanto o
elemento épico. A dicção em voz baixa (num tipo de som litótico) que
não é capaz de associar a didática, politicamente verdadeira, com número
de votos.
É comovente ver um antiimperialista com esse nome meio anglo
engraçado: Celso Brant. O seu programa de TV deveria passar todos os
dias no horário da Xuxa, para a criançada aprender nacionalismo e o
que é remessa de lucros.
Pagar ou não pagar a dívida externa é uma questão secundária. O
aspecto realmente fundamental é abolir a dívida, pois se estamos devendo,
então temos de pagar. O povo brasileiro pensa assim: se deve, tem que
pagar. Quem mandou pedir emprestado?
Uma jogada entre bancos não é capaz de abolir a dívida. A auditoria
popular da dívida externa requer necessariamente uma derrama em cima
da classe dominante safada que levou propina depois da queda trágica
de João Goulart.
Infelizmente o voto atrapalha muita gente boa de tomar o poder.
No Brasil, a democracia pelo voto é um caminho complicado, embora
talvez não haja outra alternativa histórica, conforme tem insistido o mestre
~arcy Ribeiro na linha de Rousseau & Montesquieu, e em sentido
diametralmente oposto aos depoimentos de seu grande amigo Glauber
Rocha, tantas vezes cético e reticente em relação ao modelo ocidental
de democracia pelo voto popular.
O direito de comer três refeições por dia pode ser alcançado através
do voto, mas o povo agora em 1989 vota faminto e sujeito à mistificação
da TV. Afinal, sejamos realistas: o próprio Fernando Lyra considera
Rob~rt_o M~rinho superinteligente. Imperador do capitalismo moderno
bras1.le1ro, eis o que é o dono da Rede Globo. Nada mais justo, do ponto
de ~1sta capitalista, que Roberto Marinho queira fazer seu candidato
presidente da República, assim como todo candidato quer evidentemente
ser apoiado por ele, exceto Leonel Brizola que, por razões místicas está
impossibilitado de aceitar o apoio político do inimigo de Jango.
E se no segundo turno, por acaso, der BRIZULLA? Quem Roberto
Marinho apoiará: Lula ou Brizola?

18
Tudo é possível na política brasileira. O barco vai para onde tem
que ir. Quem sou eu pra dar dica a um político experiente que não costuma
perder eleição.
Prefiro errar na minha modesta literatura provinciana do que assistir
à vitória da direita no dia 15 de novembro de 1989. Eu sei que não há
democracia sem democracia no sistema das comunicações, porém não
concordo que a TV faz o candidato. A começar pelo critério utilizado
para escolher o melhor programa de TV.
Se Leonel Brizola resolver pautar seu programa de TV, tal qual os
dos outros candidatos (inserção de musiquinhas, personalidades notórias,
técnica de publicidade multinacional, crianças brincando com os lírios
do campo, etc.), aí então ele estará caindo na armadilha da oficialização
audiovisual de sua candidatura, ou seja, vítima da ideologia videoclipe
do imperialismo tecnológico.
Tomara que o Briza saiba fazer uso de seu espaço falando sozinho
- e pausadamente - o mínimo sobre o máximo, e não o máximo sobre
o mínimo, que é característica da técnica retórica da telenovela brasileira,
o radionovelão teatralizado da Rede Globo.
E sem Globo não há Manchete.
Fernando Barbosa Lima conhece de cor e salteado o Kinema de
Glauber na Roma de Fellini.
Que barato Brizola citar Castro Alves com sorriso de estadista. O
mesmo pique comovido do discurso da Legalidade.
Rádio na TV sempre com a bandeira do PDT na abertura:
- Fala, Brizola.
Não precisa de mais nada. Realismo por realismo, já temos telejornal
diário na Globo, reportagem direta que não elege nenhum candidato.
Faço pajelança que o D'Ávilla não se esqueça de rever a mensagem
que o Kinema lhe mandou no programa "Abertura". Linguagem de TV
não é só dose. Chega de revolução francesa. Chega de revolução soviética.
Agora a hora é da feijoada Brizola & Lula.
Vem cá Brizulla!

19
ATÉ JESUS CRIS'fO COMEÇOU COM UMA
MISSAO NACIONAL

É fundamental investigar sem preconceito a acepção da palavra


transe, palavra de origem francesa com significado de momento aflitivo
na vida de um indivíduo ou de um povo.
Antes do cinema, Roger Bastide fala do transe religioso em sua
sociologia do candomblé, mas com Glauber Rocha essa palavra transe
corporifica a instabilidade metafísica, simbólica, estética de um continente.
A instabilidade da consciência em transe é um fenômeno complexo,
ao mesmo tempo racional e irracional, cuja axiologia não é apenas
negativa. Por exemplo quem está em desordem afetiva, mentalmente
desequilibrado, estado psico-existencial em que falta equilíbrio. Mas será
que o contrário do transe é a serenidade, a paz de espírito, a ausência
de fissura?
Nos estudos de religião, transe aparece em conexão com o fenômeno
da possessão, principalmente segundo a teologia popular.
Num terreiro de candomblé é a "caída do santo". O espírito invisível
se "acosta", baixa no devoto, é o "acostamento" que denuncia a mudança
no timbre da voz. O espírito quer comunicar. A vinda do "mestre do
além" é uma atuação hiperterrena. Não se trata de uma criatura de sangue.
No catimbó o "mestre do além" acosta ou desacosta. O transe faz parte
de um processo de transmissão de determinados saberes. O "mestre da
mesa" no catimbó está habituado ao transe porque é um ser poderoso
e com "Força". De acordo com Luís da Câmara Cascudo, em seu clássico
ensaio Meleagro, "no mestre da mesa" o transe é sempre provocado pelas
profundas inalações do fumo ou respiração forte, cadenciada, olhos
fechados.
O acostamento do transe varia conforme a prática religiosa. No caso
do catimbó nordestino e da magia branca, a possessão não tem a
dramaticidade espetacular que é própria dos candomblés baianos ou das
macumbas no Rio de Janeiro. Nesses, a filha de santo, como receptora
dos orixás, desmaia, sacode, ronca, faz careta em plena possessão do Deus

21
africano. Enfim, no fenômeno da possessão entram fatores imponderáveis
que produzem o transe. Eis a síntese estabelecida magistralmente por Luís
da Câmara Cascudo: ':<\ impressionabilidade mestiça, aguda e plástica,
está nos catimbós diminuída pela ausência do ritmo, tão poderoso nos
candomblés e macumbas. Não há instrumento nos catimbós e apenas
música cantada em uníssono, atua como elemento de transbordamento,
possibilitado pela contagem psychicum".
Como é que funciona a política na Terra do Transe? Estar com a
consciência em transe significa estar com o diabo no corpo? A função
unificadora da televisão chegou a tal ponto que eliminou as "arcaicas"
manifestações de bruxaria e encantamento?
A ciência, em nossos dias astronáuticos, desmoraliza Satanás ao
tentar convencer que é impossível a possessão, espontânea ou provocada.
Todavia, o povo continua acreditando na existência do Diabo.

22
AGORA NÃO É DEPOIS

Desde 1965, em todos os lares, no campo e na cidade, rola o mes-


mo som e a mesma imagem. O cinesta Glauber Rocha alertou, mais de
uma vez, que o monopólio audiovisual da Rede Globo é uma cadeia pa-
ra o Brasil, ou seja, a Globo é o nosso gulag capitalista que substitui
a antiga função colonizadora do cinema roliudiano, sendo simultanea-
mente um poderoso aliado interno do imperialismo.
1986, um ano antes de ser vitimado pelo enfarte de jornal, Cláudio
Abramo - o jornalista que inspira o personagem Paulo Martins de Ter-
ra em Transe - adverte sobre o perigoso fetiche dos meios de comuni-
cação de massa. - Meu caro, ele me dizia, cuidado para não exagerar
o tal poder da mídia. O povo que assiste a morte de Tancredo Neves pela
TV acha que ele morreu há 50 anos antes de Getúlio Vargas.
Se isso for verdade, a mentalidade analfabeta do povo brasileiro não
deveria desaparecer nunca; deveríamos fazer o máximo para preservá-
la. Sem analfabetismo não existiria Gilberto Freyre, nem João Guima-
rães Rosa. A mentalidade analfabeta - não a mentalidade ignorante -
serve de proteção aos influxos idiotas da mass mídia. Então, haveremos
de convir que o homem do povo analfabeto sente dificuldade em enten-
der o que se passa in-vídeo. Eu vejo em São Paulo o pintor paulista Cláu-
dio Tosi defender a tese da campanha Leonel Brizola off colour, pois
a cor atrapalha como informação. A cor não informa. Diante do vídeo
idiota, o povão mistura os tempos do verbo. Passado. Presente. Futuro.
O Brasil barroco é um Brasil ainda meio analfabeto. Nélson Rodrigues
era radicalmente contra o fim do analfabetismo.
Antes da Globo atuar como fator de manipulação eleitoral, mes-
mo depois das eleições fraudulentas de 1986, seria extremamente falso
afirmar que a mídia manipula inteiramente a mentalidade popular. To-
mara que estejamos ainda no século de Gil Vicente, e não atrás de trio
elétrico. ·

23
Todo cuidado é pouco para não mistificar a capacidade de escuta
na era do orelhão. Tudo bem que sejamos o País da música; o problema
é a existência de um país over-miuzikal que ainda não ouviu o mel~or
de sua música. Olhaí o melancólico Celso Furtado que colocou Heitor
Villa-Lobos numa nota de 500 cruzados.
Antes que os doutores da Nova República pontifiquem solenemen-
te que o ordeiro povo brasileiro carece de memória, é preciso esclarecer
o que significa a noção de tempo na mentalidade popular. Nossa memó-
ria coletiva tem menos a ver com o fator temporal do que com o poder
da imaginação. É a imaginação que constitui o fundamento da ciência
do povo. Ou, como diz o refrão: fortis imaginatio generat casum. O po-
vo nunca julga um acontecimento ao pé da letra. A praga de urubu ofi-
cial não mata o cavalo de Getúlio Vargas. Mesmo em São Paulo, onde
a era Vargas não é vista com simpatia pela imprensa e pela universidade,
as camadas populares não deixam de se interessar pela interpretação mís-
tica do suicídio do ex-presidente. Por que o sangue do Getúlio correu?
Os poetas líricos costumam acusar a memória como fonte de seus
males, enquanto muita gente acha que o povo vive na pior porque não
tem memória. Portanto, gente sem memória estaria sempre caindo nas
armações mistificadoras, tal qual aconteceu com a Nova República e seu
plano cruzado, proeza de eleger com o cadáver fresco de Tancredo Neves
o Pemedobê em quase todos os Estados, inclusive o senador Fernando
H. Cardoso, "príncipe da sociologia", segundo o cineasta Glauber Ro-
cha em sua hagiografia profana de 1974. É curioso como ele anuncia
a vinculação ideológica de Fernando H. Cardoso à tradição política li-
beral de Rui Barbosa e Joaquim Nabuco, menos pela questão do siste-
ma de governo do que pela bandeira do pensamento colonizado. O ardil
parlamentarista para obstruir o caminho de Leonel Brizola a presidente
da República em 1988 corresponde à retórica dos abolicionistas da es-
cravidão negra 100 anos atrás.
O fantasma do "caudilho", na cabeça sociológica do senador Fer-
nando H. Cardoso, é um resíduo antimilitar de fundo edipiano. A re-
pentina conversão do sociólogo ao parlamentarismo se faz em nome da
suposta modernização dos partidos políticos.
Fernando H. Cardoso é amigo e admirador de Leonel Brizola, as-
sim como eu sou amigo e admirador do sociólogo paulista, embora re-
conheça que Fernando H. Cardoso pisa na bola quando julga precon-
ceituosamente Getúlio Vargas e Jango Goulart. Colonizada pelos pro-
fessores franceses antipopulistas, a sociologia de São Paulo é a anti-
jangarana, ou, como diria o Xará de Apipucos: falta-lhe a veneranda
vocação de transar com a senzala, por conseguinte é uma sociologia que
carece até do necessário requinte aristocrático próprio da casa grande.

24
C: 0 ~vém lembrar que Gilberto Freyre teve a intuição belíssima de não
viaJar na posteridade ao lado de Joaquim Nabuco, passando-a habilmente
ao senador Affonso Arinos de Melo Franco. Este aceitou, sem o menor
pudor ou constrangimento, a sucessão espiritual do apolíneo Joaquim
Nabuco. A conversão tardia do senador Fernando H. Cardoso ao siste-
ma P~rlamentar de governo revela o fim da sua legítima ambição de querer
~m d1~ s.er presidente da República. O ex-sociólogo da dependência do
impenahsmo é o antijango da Nova República. Segundo a manha mon-
t~da por Fernando Henrique Cardoso, o sistema parlamentar - ao in-
ves de atrapalhar - favoreceria a atµação de Leonel Brizola como chefe
da nação. Acontece que até ele mesmo às vezes desconfia da sua convic-
ção parlamentarista, assim como vê com ceticismo a caudatária admira-
ção pelo avoengo líder Ulysses Guimarães. No esquema ideológico do
parlamentarismo anti-Leonel Brizola não há lugar nem para a paixão
nem coisa alguma relacionada à fé religiosa. Fernando H. Cardoso é um
cientista político que, do ponto de vista supersticioso, só acredita nele
mesmo, mas mesmo assim há ocasiões em que ele titubeia.
O único intelectual parlamentarista digno de respeito que existiu no
Brasil chama-se Manoel de Oliveira Lima, mas ele queria um sistema de
governo parlamentar com monarquia tipo D. Pedro II, e não com essa
parafernália de palradores parlamentares que aboliram de vez a consul-
ta ao dicionário.
Não há dúvida alguma de que a proposta parlamentarista do Pe-
medobê é vista com profunda antipatia pelo povo. Este, no fundo, é mais
chegado na abolição definitiva da câmara dos deputados e do senado.
O povo prefere um general que seja popular do que uma câmara de lords
marajás. Os adeptos do parlamentarismo consideram tal forma de go-
verno o único dispositivo para evitar o fenômeno do caudilhismo. Trata-
se de uma manobra jurídico-política dos constituintes de direita contra
a preferência popular pelo caudilho Leonel Brizola. Resta saber no en-
tanto o que significa caudilho ou caudilha. O caudilho é o líder que pos-
sui o dom de conduzir o povo. É a chefia com capacidade de lideranç_a.
Pode ser um chefe militar, ou um chefe civil. Getúlio Vargas, ou senao
o pacífico João Goulart. Com efeito, o golpe militar de 1964 foi um gol-
pe articulado com objetivo de cortar as cabeças dos caudilhos popula-
res. Depois das Cabeças Cortadas é que surge no cenário nacional o prín-
cipe parlamentarista da sociologia, evidentemente enciumado diante da
aura popular que cerca o nome de Leonel Brizola.
Ex-aluno de Roger Bastide e Florestan Fernandes nas ciências so-
ciais da USP, o senador Fernando H. Cardoso está farto de saber que
foi sob o domínio caudilho de Getúlio e de Jango que os trabalhadores
brasileiros avançaram em suas conquistas sociais, de modo que a cha-

25
mada dominação carismática exercida pela personalidade do caudilho
não é absolutamente incompatível com a democracia e o avanço social
modernizador. Todavia a carreira palaciana do senador Fernando H. Car-
doso o leva a estigmatizar o caudilhismo em nome da preservação das
instituições democráticas, como se o caudilho fosse um líder sado-
masoquista responsável pela intervenção manu militari. Por conseguin-
te, o sistema parlamentar de governo - segundo o ex-príncipe da socio-
logia - neutralizaria a tomada caudilhista do poder, assim como evita-
ria o perigo dos golpes militares. Words! Words! Words!
Cascata antipopular do sociólogo que, lançado por Franco Mon-
toro e Ulysses Guimarães, fez carreira em cima do mote antiautoritaris-
mo, e que agora, encastelado na cúpula do Pemedobê, investe de modo
autoritário contra a vontade popular de eleger o presidente da Repúbli-
ca. Convertido ao parlamentarismo depois de sua passagem pelo Sena-
do, Fernando Henrique Cardoso se diz preocupadíssimo com a possibi-
lidade da manipulação de massa caso haja plebiscito popular para deci-
dir a escolha parlamentarismo ou presidencialismo. Curiosamente o so-
ciólogo se elege senador em 1986, ou seja, nas eleições manipuladas pe-
lo plano cruzado e pela mídia global. Aliás, segundo ele, é no caudilhis-
mo latino-americano in abstrato (não no caudilho concreto que se cha-
ma Leonel Brizola) que se encontra o virtual perigo autoritário. Assim,
a regressão real politik do pensamento sociológico de Fernando Henri-
que Cardoso não o deixa ver onde germina o verdadeiro câncer do auto-
ritarismo no Brasil: na simbiose globo/Planalto Sarney e Pemedobê. Qual
a relação do ardil parlamentarista contra a candidatura de Leonel Brizo-
la a presidente da República em 1988 e a reflexão de Glauber Rocha so-
bre o janguismo de 1978? É digno de nota que o cineasta coloca num
mesmo plano a linguagem dos brazilianists e do Cebrap, assim como ma-
nifesta o desejo de filmar Fernando H. Cardoso sem roupa na Fronteira
do Uruguai, tirando-o simbolicamente do templum citadino para a sin-
taxe do fanum rural. É bem provável que o cineasta e o sociólogo nunca
tenham se encontrado pessoalmente; é provável também que o sociólo-
go não tenha nunca visto sequer um filme do cineasta, nem o clássico
Deus e o Diabo na Terra do Sol, que Glauber estava montando quando
veio a intervenção militar em 1964. O filme significa o revide estético
contra a política de direita de Carlos Lacerda, mas um Lacerda filmado
com o material da posse de José Sarney governador do Maranhão em
1966. Certamente José Sarney não é o Jango do nordeste, assim como
o sociólogo Fernando H. Cardoso não é o Carlos Lacerda de São Paulo.
A sociologia da USP parece que não se sensibilizou tanto quanto o ki-
ncma diante da queda de Jango. Aliás, a tragédia jangarana não como-
veu os bacharéis paulistas, nem Franco Montoro, nem Ulysses Guima-

26
rães, nem Mário Covas, nenhum "histórico" do Pemedobê deu muita bola
para a derrubada do caudilho gaúcho que negociou e teve de aceitar a
imposição anticonstitucio1:al do parlame~tarism~, em vez de ter reagido
na hora contra essa armaçao parlamentansta, qmçá com o apoio popu-
lar e do exército progressista. Fernando H. Cardoso, professor de socio-
logia na USP, antes de sonhar com o parlamentarismo da Nova Repú-
blica, não chegou nunca a se perguntar: por que o Tango Jango é uma
tragédia? O único intelectual paulista próximo da jangarana chama-se
Cláudio Abramo e por sinal, não foi aluno de Florestan Fernandes nas
ciências sociais da USP, assim como é evidente o desencontro entre o
folclore de Deus e o Diabo na Terra do Sol e a pasta sociológica de Marx
e Weber from USP. A vertente bacharel-sociológica do Pemedobê que
articula o golpe parlamentarista de 1988 reedita contra Leonel Brizola
a tragédia que derrubou João Goulart? Ou será que o golpe branco ar-
mado pelos constituintes parlamentaristas repete a hostilidade ao caudi-
lhismo como farsa?
Em 1966 Glauber pós-sincroniza a voz de José Sarney: uma voz fan-
tasma, ou seja, o som não entra em sintonia com a imagem, o discurso
de posse do governador do Maranhão é acusticamente inintelegível em
função da reprodução retórica da miséria nordestina. Em 1978 o cineas-
ta queria saber a relação entre a tragédia de Jango com o projeto sonoro
de Villa-Lobos, que anunciava a utopia, mas que o imperialismo matou
em 1964. No recurso desesperado e antipopular do parlamentarismo em
1988 onde é que entra a mão do imperialismo? A linguagem brazilianis-
ta da USP - Cebrap, segundo Glauber Rocha, repercute a epistemolo-
gia da Ford junto com a ontologia do Boeing. Trata-se de uma sociolo-
gia que tem bode de Cristo, destilando um sarcasmo esnobe contra o cai-
pira Cristão que nunca viajou de avião.
A manobra autoritária do parlamentarismo é fruto de um ressenti-
mento psíquico contra o caudilho popular e aristocrata que consegue tran-
sar com a Carmem Miranda e a Elizabeth Taylor.
Glauber Rocha omite por elegância a princesa Maria Tereza Gou-
lart na dramaturgia trágica de Jango, que, se não fosse a perfídia parla-
mentarista, teria realizado um programa de reformas que realizaria as
vias do socialismo democrático no Brasil. Se não tivesse acontecido o
golpe de 64, o cineasta Glauber Rocha teria sido, no governo de Jango,
o maestro Heitor Villa-Lobos de Getúlio Vargas. Se não tivesse aconte-
cido o golpe parlamentarista em 1961, e que antecipou a intervenção mi-
litar em 1964, Glauber Rocha não filmaria a derrota do nacional-popular
caudilhismo em Terra em Transe, ou seja, a reflexão científica mais pro-
funda que apareceu até agora sobre o golpe de 64 e o fim definitivo do
janguismo em 1968. Nós, em 1988, ainda não saímos de Terra em Tran-

27
se. É impossível entender a farsa democrática e meio bufona da Nova
República sem a derrota do populismo em Terra em Transe. Infelizmen-
te para o Partido dos Trabalhadores de São Paulo, os sociólogos anti-
populistas da USP escreveram bobagens elitistas sobre o populismo de
Villa-Lobos, de Getúlio, de Jango, ignorando o filme premonitório mon-
tado pelo Kaudilho do nosso cinema. A única coisa que causa pane na
paranóia de José Sarney é a fala do líder visionário, e não o fortaleci-
mento de uma sindical proletária marxista. O povo brasileiro continua
precisando de um chefe, de um líder, de um Messias, de um caudilho.
A loucura é um Luís Inácio Lula parlamentarista, não um Leonel Brizo-
la populista. Isso porque populismo no Brasil é povo, ao contrário do
que dizem os sociólogos elitistas americanizados do PT, quase todos eles
influenciados pela ideologia brazilianista do Cebrap.
Assim o PT, colonizado pela ideologia da Ford critica a política po-
pulista, criticando com isso a política do povo, vendo no carisma popu-
lar de Leonel Brizola o inimigo.
Por conseguinte a sociologia antipopulista do PT se confunde com
a retórica Pemedobê. Os professores Florestan Fernandes e Francisco Wef-
fort estão ideologicamente muito mais próximos de Fernando H. Car-
doso do que de João Goulart e de Getúlio Vargas. Sob esse ângulo, o
PT sociológico fecha mais com a Rede Globo do que com o caudilhismo
nacional-popular de Leonel Brizola. O PT de São Paulo acha que o fil-
me Terra em Transe é antimarxista, assim como o deputado Luís Inácio
não gosta do autor de Deus e o Diabo na Terra do Sol. O sociólogo Fer-
nando H. Cardoso e o senador Porfírio Dias de Terra em Transe, aliado
da consciência imperialista norte-americana. Como sem povo não há che-
fe, o golpe parlamentarista quer podar o chefe para fortalecer o partido,
mas o povo não acredita em partido. Daí que a tramóia parlamentarista
é uma revolta contra a figura do pai líder, porém não é a favor do ma-
triarcado. Do ponto de vista simbólico não se pode também dizer que
o Pemedobê parlamentarista seja simpático à aliança fraterna e revolu-
cionária. O senador Mário Covas não entende que a democracia só nas-
ce da relação dialética entre os vários corpos. Homens e mulheres preci-
sam de um líder que libere o povo, e não essa elite paulista liberal colo-
nizada que reivindica muito menos do que o mais faminto nordestino
em São Paulo, eis o ensinamento contido na jangarana de Glauber Ro-
cha, que anuncia a vinda de Leonel Brizola do exílio como governador
do Rio de Janeiro em 1982.
Nenhum outro intelectual brasileiro, acadêmico ou não, pesquisou,
escreveu, refletiu, escarafunchou tanto a misteriosa figura de João Gou-
lart quanto o cineasta Glauber Rocha. Com a morte do cineasta em 1981,
o fluxo Janglauberocha não desaparece contudo, da vida nacional em

28
1988, pois a Nova República se proclama antiautoritária e, ao mesmo
tempo, é complacente diante da derrubada de Jango. O janguismo não
acabou em 1968, conforme se vê pela discussão em torno da escolha pre-
sidencialismo ou parlamentarismo. O candidato Luís Inácio Lula, que
substitui a farinha de mandioca pela pizza em São Paulo, está completa-
mente por fora da épica jangarana, repetindo que nem papagaio de fogo
o que lhe foi dito pelos professores de sociologia do PT e do Pemedobê.
Ora, antes de embarcar na onda brazilianista do antipopulismo, o líder
metalúrgico deveria refletir sobre os equívocos ideológicos da elite inte-
lectual paulista em relação a Getúlio Vargas e João Goulart. O que o
deputado Luís Inácio Lula ainda não se perguntou diante do espelho foi
o seguinte: os sociólogos antipopulistas da USP estavam aonde em 1964?
Antes de Jango cair, eles já eram antipopulistas? Quem ensinou a ban-
deira do antipopulismo aos sociólog9s da USP? É inconcebível a uma
liderança trabalhista como a de Luís Inácio Lula desconhecer a fofoca
de que o sociólogo Francisco Weffort em 1964 queria mandar um tele-
grama protestando contra os generais golpistas do seu João Goulart. Trata-
se de uma desinformação que, além de comprometer a seriedade cientí-
fica dessa sociologia, atrapalha demais o processo da democracia social,
porque os sociólogos antipopulistas continuam não sabendo de que la-
do vem o golpe da direita.
Por não saber como e de que lado se desenvolve essa retórica anti-
populista em São Paulo, o comitê central de Luís Inácio Lula quer dar
uma de avanço sindical moderno, mas acaba neocolonizado pela mesma
consciência americana que sabotou João Goulart. Ao repetir que o atra-
so social é o populismo da liderança caudilha (Vargas, Jango, Brizola),
Luís Inácio Lula se autoaliena da sua própria libido de raízes populares.
Diante da resistência ideológica ao seu ethos regional nordestino, o líder
metalúrgico assume a linguagem dos sociólogos brazilianistas de São Pau-
lo.
O desafio mais importante hoje das esquerdas no Brasil ~o_nsiste
em encontrar uma terapêutica política para livrar o líder Luís Inac10 Lu-
la da fobia antipopulista contra Leonel Brizola. Não há nada objetiva-
mente em São Paulo que impeça tal aliança política, aliança que seria
um perfeito acorde musical em torno dos nomes Lula e Brizola, ou seja:
BRIZULLA JÁ!

29
A QUESTÃO RELIGIOSA

De boca em boca corre o boato de que existe uma atitude hostil


da Igreja "progressista" - o segmento católico do PT - que vê com
olhos desconfiados Leonel Brizola, como se este fosse um líder político
desprovido de fé, homem ímpio, incrédulo, herético. Sem Deus, portan-
to.
O reconhecimento do caráter socialmente progressista da candida-
tura Leonel Brizola entra em colisão com o "fantasma" da incredulida-
de. Ainda que tal "fantasma" não corresponda à verdade, trata-se de uma
imagem ilusória veiculada pelos bispos católicos de direita e, paradoxal-
mente, repercutida - nJma atitude teórica preconceituosa - pelo setor
laico universitário da chamada esquerda antipopulista, ou seja, a USP
que faz, em larga medida, a cabeça do PT em São Paulo. De outro lado
- o que é sem dúvida mais grave - o setor progressista da Igreja reco-
nhece a opção de Leonel Brizola pelos oprimidos, mas ao mesmo tempo
se apavora com o espectro da liderança ímpia, como se o tão difundido
carisma do candidato a presidente da República fosse uma qualidade es-
pecial de liderança atribuída pelo demônio.
Acrescente-se a esse quadro, confuso e fantasmagórico, a idéia (com-
partilhado pelos setores urbanos intelectuais da modernidade classe mé-
dia) de que Leonel Brizola é uma mistura de Virgolino Lampião e Antô-
nio Conselheiro, sanguinário, primitivo, desordeiro, indisciplinado, per-
sonalista, bárbaro, autoritário. Evidentemente os antibrizolistas menos
fanáticos reconhecem a dimensão carismática de sua personalidade, muito
embora em momento algum se pergunte se tal carisma - que é próprio
de uma individualidade excepcional - foi conferido pelo povo tendo em
vista a necessidade coletiva ou a utilidade da sociedade. Os setores pro-
gressistas da Igreja, mais cedo ou mais tarde, com certeza deverão per-
guntar se o carisma ou a aura que envolve o nome Leonel Brizola não
resultaria de uma motivação mágico-pacífica contida em seu pensamen-
to político, portanto radicalmente adverso a movimentos de violência.

31
A esse respeito é digno de nota que não há espaço para a sublevação po-
pular em seu programa político-ideológico. Ao contrário, homem ordei-
ro, pacato, cordial, equilibrado, calmo, Leonel Brizola é um candidato
que acredita na via pacífica e democrática das transformações sociais.
De resto, se a ala progressista da Igreja reparar no sincretismo do
nosso sentimento religioso, será fácil admitir que até mesmo o homem
ímpio, como escreveu o romancista José de Alencar, é forçosamente um
cristão no Brasil. Ora, católico por princípio, Leonel Brizola inúmeras
vezes tem demonstrado o maior acatamento pelo povo civilizado. De-
corre daí a necessidade de sublinhar, para que São Paulo veja e ouça com
atenção, o perfil cordial e extremamente polido do ex-governador da Gua-
nabara que, no ano do plano cruzado perdeu (ao lado de Darcy Ribeiro)
as eleições com elegância impecável, respeitando todas as regras e eti-
quetas do jogo democrático.
A ideologia antibrizolista fanática, tão difundida pelos donos de
jornal e TV, precisa ser desmontada e desmistificada em todos os níveis
do discurso, pois ainda que a mídia eletrônica da Globo não faça por
completo a cabeça do povo, cumpre não esquecer que na boca do pobre
tudo são vozes, de modo que é preciso combater esta outra versão fan-
tasmagórica que o pinta com as cores de um candidato bicho papão, ateu,
violento, grosso. Quanto a essa pérfida armação, basta contudo Leonel
Brizola mostrar a São Paulo sua larga experiência de urbanidade e cor-
tesia em vários países do mundo. Um estadista, disse com toda razão
o professor Darcy Ribeiro. Se o paradigma ideal do civilizado for, como
parece que é de fato, o alterego dândi da internacional São Paulo, então
o estadista Leonel Brizola está em casa, embora sabedor que o Brasil -
mais do que São Paulo - precisa muito dele como Presidente da Repú-
blica.

32
DA ANTROPOFAGIA À VAMPIRAGEM

No início da campanha de 1986, Fernando Gabeira é lançado num


debate Globo, no qual ele sai muito bem (maior sucesso) - escolhido
como o melhor debatedor, segundo a TV e os jornais, e esse troço cha-
mado público. Assim, no Rio de Janeiro, o candidato verde passa a ser
o candidato quente da TV. Quase todos os artistas do primeiro escalão
da Globo o apóiam sem restrição, tendo inclusive cabo eleitoral star de
telenovela. Os compositores milionários da MPB SHELL, diante de um
Gabeira verde, começam a fazer teoria:
- Já pensou se ele ganha!
- O que acontece?
- Será um acontecimento internacional.
A fim de namorar as gatinhas, a rapaziada bota botom na camisa
e vai à luta - pois o melhor partido para namorar é o P-TV, cujos adep-
tos e militantes apontam jubilosamente o "novo", o "moderno", o "dife-
rente".
Cineastas, ex-participantes do Cinema Novo, poetas marginais, lo-
quetes em geral repetem o slogan: "quem fuma, quem senta, quem chei-
ra, vota no Gabeira", a opção alternativa. Portanto, fora dessa opção -
segundo os ecológicos -, estaria o antigo populismo de Darcy ou adi-
reita do Moreira Franco.
Com objetivo de repetir o sucesso alcançado na TV Globo, Fernando
Gabeira - eufórico irradiante - participa de um debate no rádio JB,
aborda o tema da maconha, certamente a partir de uma pesquisa reali-
zada pelos estatísticos do P-TV, que aponta na herbácea de origem asiá-
tica o vegetal preferido pela população carioca.
No folclore brasileiro, a marijuana é o ópio do pobre.
Dia seguinte ao debate no rádio, o Jornal do Brasil anuncia, em
manchete de primeira página, que o candidato do P-TV é a favor da libe-
ralização da <liamba. Essa declaração provoca escândalo. Ao perceber
que o tema popular da maconha, ao invé~ ··e render votos, deixa os elei-

33
tores perplexos, Fernando Gabeira ratifica sua mensagem, introduzindo
a sutileza semântica em torno da distinção jurídica: liberar ou discrimi-
nalizar...
Liberar a maconha seria loucura; o que o P-TV na verdade deseja
é descriminalizá-la, ou seja, o usuário da erva não deve ser considerado
um meliante porque dançou com um baseado na boca.
Tal qual acontece no México, a grifa (também chamada de oliuk-
qui) é sonhadora.
Fernando Gabeira processa o jornal, ganha a parada, fica provado
que o mancheteiro errou; na manchete trocou descriminalizar por libe-
rar, não obstante permanecer a dúvida se optara o mancheteiro pelo co-
loquial liberar, ao invés do impopular descriminalizar, ou se foi má-fé
da direção dq jornal com o objetivo de cortar a onda do candidato ver-
de, de quem não se pode falar que seja um exímio degustador ou conhe-
cedor da malva usada pelos gatunos e vagabundos, antes de tornar-se
curtição contracultural da rapeiz pós-udiestoque.
Até o episódio teatral da marijuana, Fernando Gabeira ia otima-
mente bem nas páginas do Jotabê, tanto no noticiário político do pri-
meiro caderno, quanto no caderno B da frescura cultural. Com efeito,
a leitura do jornal passava a idéia de que o candidato verde gozava de
urna indisfarçável simpatia pelos redatores das notícias. Quem conhece
jornal sabe o que significa redigir um texto com ou sem simpatia. Nin-
guém que trabalha na imprensa acredita na existência da objetividade
.iornalí5tica, nem tampouco acredita que possa haver algum jornal im-
parcial e independente. Mesmo sendo "pluralista" (para usar o jargão
dos filhos dos proprietários que fizeram pós-graduação), o jornal fatal-
mente acaba optando por uma perspectiva partidária, e comprometida.
A chamada linha "pluralista" da grande imprensa é uma ideologia de
vendedor.
O povo não é bobo.
Abaixo a Rede Globo!

34
DIREITA INCONSCIENTE DA MÍDIA

No Rio de Janeiro, síntese insana da democracia brasileira, existe


rico que é culpado de ser rico e pobre que não é culpado de ser pobre.
Ao rico que não sente culpa de ser rico, Fernando Gabeira evidentemen-
te não quer dizer chongas; todavia significa muita coisa para quem quer
liberar ideologicamente a consciência culpada dos ricos.
Infelizmente a política, no Brasil, se converteu numa mutreta esta-
tística baseada em pesquisa imbecil de opinião pública, que é uma he-
rança reacionária dos cursos de ciências sociais & econômicas. Por con-
seguinte, não há mais lugar para reflexão ideológica, nem tampouco pa-
ra se formar matéria cultural, em virtude do imediatismo realpolitik das
conjunturas. Isso está resumido na conhecida advertência - '~gora não
é hora de abrir o jogo". Assim, em vez de se prestar atenção ao caráter
ideológico da campanha, ouve-se apenas a tática imediata. Fernando Ga-
beira, candidato da zona sul, almeja subir sozinho, narciso artilheiro, quiçá
um autor bem-sucedido na misteriosa fábrica da notoriedade sediada no
Rio e em São Paulo. Inconscientemente, porém, o candidato da moda
articula-se no campo ideológico da direita porque a eleição no Rio de
Janeiro polariza a direita (Moreira Franco) e a esquerda (Darcy Ribei-
ro). Não há margem para a terceira-via mirabolante, a não ser que utili-
zemos o humor a Millôr Fernandes: o partido verde faz parte da esquer-
da conservadora. Com efeito, se essa semântica esquerda e direita ainda
vale de alguma coisa, então esquerda é esquerda e direita, direita. Tal
qual, aliás, a palavra democracia: dispensa qualquer adjetivo. O resto
é mistificação.
Longe de mim com isso dizer que Fernando Gabeira seja um moço
sem qualidades; ao contrário, deve ser uma pessoa interessantíssima e
de um fascínio irresistível, magnético, pois certamente não teria se des-
tacado com tanta notoriedade intelectual, a ponto de seu bestseller O
Que é isso Companheiro ter sido comparado a Memórias do Cárcere,
de Graciliano Ramos.

35
Um aspecto positivo na atual conjuntu_ra po!ítica ~ a exi_stênci~ de
dois escritores candidatos, se bem que Gabe1ra seJa mais um Jornahsta-
repórter, enquanto Darcy Ribeiro é um intelectual de formação acadê-
mica: um antropólogo. Será que, antes de 1981, alguém iria ousar criar
no Rio de Janeiro um partido-verde? Se não me engana a memória, o
verde é lançado depois que o cineasta Glauber Rocha morre vindo de
Sintra.
Ora, quem viu, ou quem ouviu, q_u quem le~ alguma coisa do fa~e-
cido, lembrará que o autor de RIVERAO era radicalmente contra a exis-
tência de um partido ecológico no Brasil, conforme depoimento do au-
tor Maurício do Vale, no filme (1980) A Idade da Terra.
Se o Gabeira ainda fosse crioulo, então estaríamos diante de uma
novidade absoluta na política brasileira depois de Dutra.
Antes do seqüestro do embaixador norte-americano imortalizado
no treiler O que é isso Companheiro, o filme Terra em Transe, de 1967,
antecipa alguns aspectos da campanha carioca de 1986, não obstante o
filme ter sido visto pelo psicanalista Hélio Pellegrino como se fosse um
"porre de maconha", num artigo do Jotabê, escrito em 1968, mas publi-
cado depois de 1981. O cineasta não teve tempo de ler o artigo e, na ver-
dade, tampouco importa se, nessa época, Glauber Rocha ainda não ha-
via puxado fumo, assim como carece de importância saber se Hélio Pel-
legrino viu o filme careta, como se o diretor estivesse louco. O que im-
porta, acima de tudo, é a diferença: Fernando Gabeira, em Terra em Tran-
se, era o mestre Cláudio Abramo encarnado no poeta e jornalista Jardel
Filho. Paulo Martins, metralhadora na mão, recita Mário Faustino, mostra
o beco sem saída da luta armada. Com o riso safado, Glauber dizia a
João Ubaldo que seu filme Terra em Transe, anterior à Chinesa do Go-
l dard (que se passa dentro de um apartamento), foi o responsável pelo
maio de 68 francês, muito embora Jardel Filho, o intelectual do filme,
inspirado em Cláudio Abramo, fosse um intelectual tipicamente brasi-
leiro, portanto refratário ao método da luta armada.
No final dos anos 70, a grande imprensa noticiava, através do Pau-
lo Francis, que Glauber estava a fim de lançar no Brasil um partido çlos
intelectuais. Aí então Francis deu-lhe uma alfinetada, ironizando o delí-
rio do cineasta, dizendo que essa idéia já tinha sido antecipada na Gré-
cia antiga ou na Roma de Fellini. Curiosamente a importância da cam-
panha supereasy-going de Fernando Gabeira em 1986 reside no fato de
ser um intelectual profissional o candidato ao governo. Tudo bem que
ele, em dias ásperos, tenha trampado como metalúrgico na Suécia, mas
não há dúvida de que o trabalho profissional do candidato verde é o tra-
balho intelectual, ou seja, ele se projetou na vida nacional como autor
de um bestseller, aclamado pela crítica e pelo público.

36
Em 1967, o filme Terra em Transe mostra que não é preciso neces-
sariamente passar pela cadeia para o intelectual entender o País. Darcy
Ribeiro se identifica com as forças-progressistas do Rio de Janeiro, po-
rém não deixa de criticar a perspectiva catastrófica do socialismo, ao mes-
mo tempo em que realiza a arquitetura revolucionária do Cieps, a Colu-
na Prestes da educação.
Enquanto intelectual profissional da esquerda Conservadora, resta
ainda a esperança otimista de que Fernando Gabeira não contribua para
eleger o PM do B da maldade no Rio de Janeiro, renunciando ao melan-
cólico papelão de EXU modernoso do professor Darcy Ribeiro, pois, em
relação ao Moreiraço, o candidato verde tem se comportado ideologica-
mente como um autêntico homem cordial.
Armadilha do voto útil? Absolutamente. Seja do ponto de vista in-
telectual, ou em termos de sangue doado ao povo brasileiro. Darcy Ri-
beiro é um candidato de resposta, não apenas por ser o candidato do
povão, mas porque ele é o melhor. Com todo respeito pelo filósofo Luís
Carlos Maciel, discordamos de que a candidatura de Fernando Gabeira
represente um avanço na modernização da política; a modernidade do
candidato verde deve ser analisada pelo padrão estético-ideológico de Terra
em Transe, e não pela picaretagem écologique do internacional Conh Ben-
dit. E, além dCJ mais, esse negócio de moderno, modernidade, moderni-
zação não deve ser critério existencial ou axiológico, pois é uma ideolo-
gia escrota do imperialismo, tanto que foi divulgada entre nós pelo so-
ciólogo francês Jacques Lambert, o precursor do colapso do populismo
na USP. Acrescente-se agora apenas o pesadelo verde sub-Berlim, e esta-
rá delineado o quadro ideológico da direita, através da crítica baixo ní-
vel élo PT ao populismo de Leonel Brizola.
Lamentavelmente o PT-Rio, por falta de criatividade política, tem
insistido na xaropada da modernidade ou do populismo, revelando-se
um partido teoricamente colonizado pelo amável imperialismo francês,
enquanto na indumentária verdejante é o udistoque californiano que abra-
ça a Lagoa Rodrigo de Freitas. Essa salada ideológica, nos Eisteitis, dá
no canastrão do Reagan com a sua esposa passeando de lancha iupi. O
cineasta Luís Carlos Barreto sabe que a campanha do partido verdl! é
um filme americano de Wim Wenders co-produzido com capital fran-
cês. Não {preciso ser um tremendo semiólogo da Puc para sacar que
a combinação consumista do marxismo carioca com o exílio écologique
revela-se na própria sigla pavorosa: P-TV é o partido da TV. Que TV?
É a TV Globo o veículo da modernidade consagradora do candidato verde
que nasce como uma estrela num pífio debate.
Assim a TV - que é responsável pela fraude eleitoral - elege seu
melhor debatedor, enquanto produz materialmente a campanha da di-

37
reita do Moreira Franco. A palavra de ordem chave do partido verde,
descriminalização, é um truque semântico da contracultura norte-
americana. O jornalista Samuel Weiner não iria permitir jamais uma man-
chete com essa palavra compridona na capa do jornal. Compreende-se
a nostalgia da contracultura por Berkeley nos anos 70, tão sentida pelo
mineiro Afonso Romano Santana, que se emociona com o abraço de ta-
manduá à beira da Lagoa. Todavia, a TV Globo, câncer nacional do ci-
nema, está a fim de liquidar com os CIEPS, portanto o P-TV simbolica-
mente funciona como uma metástase do cinema, desejo inconsciente de
tornar-se a pombajira do Darcy Ribeiro. Ivan Cardoso, cineasta do ter-
ror, dirá que P-TV é Vampo ideológico, paixão de vampirizar os temas
da esquerda num canal de direita, eis o barato do partido verde que es-
pelha os segmentos reais da classe média carioca. Não há ninguém que
não tenha um pé na Globo, tal qual o cinema americano antigamente:
não é preciso nem ter ido nunca ao cinema para ser neocolonizado.
Darcy Ribeiro implodiu ideologicamente o monopólio Global da
mídia; ela é um sistema, uma cadeia, um gulag, enfim, totalidade diante
da qual não há meio termo: Globo or not Globo, that's the question.
Isso significa que não é possível separar política de cultura, nem tam-
pouco adianta meter o pau politicamente no doutor Roberto Marinho
e, por outro lado esquizô, tolerar os artistas ideológicos do Gulag Glo-
bal.

38
O KINEMA E A ESPADA

Conta o diplomata Arnaldo Carrilho, em artigo publicado no livro


de Sylvie Pierre, o engraçado comentário que fizera Glauber em Paris,
1969, por ocasião do seqüestro do embaixador norte-americano Charles
Elbrick no Rio de Janeiro, a respeito dos olhos verdes do Maringhela,
filho da mistura de um italiano com mulata baiana. Arnaldo Carrilho
e seus amigos, naturalmente no calor da hora, aplaudiam a façanha do
ato guerrilheiro, enquanto Glauber apontava-lhes a perspectiva do recru-
descimento da repressão militar e, rindo, dava um dose nos olhos verdes
de Maringhela, que seduziam as mulheres. Além dessa ênfase sacana no
fenômeno da sedução, Glauber percebe em 1969 - quando os militares
estavam no auge do poder - que a abertura política seria deflagrada
dentro das Forças Armadas. Cinco anos depois, em Roma, 1974, ele iria
abrir o jogo publicamente: "o exército é a vanguarda armada do povo".
O impacto causado por essa declaração foi enorme, principalmen-
te no meio político-cultural das esquerdas, porém vale sublinhar que, desde
1967, no filme Terra em Transe, o exército surpreendentemente não é vis-
to como o principal agente demoníaco do golpe de abril de 1964. Há,
portanto, conforme lembrou Arnaldo Carrilho, uma continuidade na re-
flexão glauberiana a respeito da atuação das Forças Armadas na socie-
dade brasileira. Daí o paradoxo simbólico que até hoje é difícil enten-
der: Jango não era antimilico. A grande cagada foi a briga comprada
pelo exército contra o Jango e suas reformas de base. O traje de Antônio
das Mortes, Deus e o Diabo, Dragão da Maldade, lembra o gaúcho ma-
ragato que, no folclore do sul, é o líder de oposição. O pai de Leonel
Brizola e o pai de Glauber poderiam ter se encontrado na Coluna Pres-
tes. Quando é que nós vamos chegar com o cavalo de Getúlio no obelis-
co de Brasília? Antônio das Mortes é um personagem complexo que fundiu
Sartre e Lampião, o intelectual e o fascínora brigam lado a lado, o pro-
fessor faz aliança com o matador de cangaceiro. O Dragão da Maldade
é um filme influenciado pela Chinoise do Godard. Antônio das Mortes

39
é a dialética da justaposição histórica que abole a antinomia Arcaico/Mo-
derno. Quem é o Dragão da Maldade? Quem é o Santo guerrei~o? ~o
começo Antônio das Mortes é o Dragão da Maldade, em segmda e o
Coronel latifundiário, Antônio das Mortes se apaixona pela Santa e car-
rega o cadáver do cangaceiro.
É curioso que Glauber considere Leonel Brizola melhor do que Mi-
guel Arraes, embora Brizola - segundo o cineasta - nunca tenha pen-
sado na importância da cultura revolucionária, ou seja, é bem provável
que o ex-governador da Guanabara nunca tenha visto filme nem lido ne-
nhum livro de Glauber Rocha. Mas, não obstante isso, as referências são
sempre elogiosas "Brizola não abre mão de suas convicções socialistas
e nacionalistas, independentemente de partidos ou submissão a dirigis-
mos internacionais". Isso foi dito quando Carter deu asilo político a Bri-
zola. A divergência entre este e Jango ocupa a cabeça de Glauber, cha-
mando a atenção para os motivos profundos dessa amizade truncada du-
rante 11 anos. Sobre isso vale acrescentar que a questão de metodologia
política é secundária: revolução na marra ou na maciota? Ou através do
voto? Segundo o cineasta, os cientistas sociais brasileiros são extrema-
mente caretas porque não conseguem explicar os conflitos tribais gaú-
chos entre Brizola e Jango. Enquanto elogia a abertura Geisel, Glauber
critica Fernando Henrique Cardoso por elaborar uma teoria do autori-
tarismo brasileiro, quando o essencial não reside no caráter autoritário
do regime. Em 1979, artigo publicado no Correio Braziliense escreve o
seguinte: "No Brasyl, o gancho do Pentágono é o Centro Brasyleyro de
Pesquisas, que funciona em São Paulo". Nesse mesmo artigo, a propósi-
to da famosa economista do cruzado: "Dona Maria da Conceição Thva-
res resolveu negar o Brasil em nome dos interesses de Eduardo Kennedy".
/ Um ano antes, 1978, artigo engraçadíssimo denominado "Pryncype da
Krecya", Folha de São Paulo, ele escreve "Quando eu filmar a Odysseya
convidarei o professor Fernando Henrique Cardoso para o papel de se-
dutor embora não saiba se o Pryncype topa contracenar nu com Ariad-
ne no Labyryntho do Centro Brazyley de Pesquys, complex e polêmico
nucly do Pensamento Krytyk Nacional. O professor Fernando Henrique
Cardoso disse que não era soprador de novidades nos ouvidos do
Pryncype. Claro: o Pryncype é ele, assim o batizey no Peru em presença
do magnyfico Darcy Ribeiro. Uma tese que a Cebrap não aceita e por
isso não consigo me entender com o Pryncype: a Revolução de 64 come-
çou na Guerra do Paraguai".
Glauber Rocha e Fernando Henrique Cardoso poderiam ter se en-
contrado pessoalmente para discutirem sobre José Sarney, o produtor de
Terra em Transe que ocupa o lugar do príncipe que reina mas não gover-
na durante a Nova República.

40
Os dois diósouros conversando na maior, Castor e Pólux, serenida-
de absoluta, assunto extremamente grave que envolve a agonia inespera-
da de Tancredo Neves vídeo-crucificado como presunto político da Globo.
A ousadia de José Sarney foi ter dado dinheiro para um louco dire-
tor de cinema colocá-lo no poder.
E se Glauber gostasse mais do Figueiredo do que do Tancredo Ne-
ves?
Quem é o enganador da História?
1979, Glauber avisa que Tancredo Neves poderia vir a ser a comé-
dia de Carmem Miranda que trai Getúlio para dar pro Wall Disney.
Não permitiremos a formação de nenhum exército paralelo, nem
UDR criando Vietnã no campo, nem Roberto Marinho imperador das
comunicações. Dessa atitude diante da mulher amante, resulta o thana-
tos da Nova República com a posse de Sarney sem o transe da ressurrei-
ção.
Se alguma mulher pudesse segurar a loucura de Glauber Rocha, pro-
vavelmente José Sarney não seria o presidente da República. O anuncia-
dor da abertura política não vê a abertura acontecer. Já não está mais
aí vivo quem a anunciou.
O que vem primeiro: a tragédia ou a comédia?
Esquilo ou Aristófanes?
Segundo Glauber, a tragédia é Jango, o drama shakespeariano. No
entanto ele poupa Leonel Brizola ao deixar de filmá-lo em Terra em Transe.
E nesse filme estão os preceitos para o futuro comportamento político
da tribo: Carlos Lacerda é Paulo Autran, Magalhães Pinto é Paulo Gra-
cindo, Miguel Arraes é José Lewgoy.
E o assassino mythyko de Glauber Rocha?
Surpresa verificar que três anos depois do golpe de 64, o general
Mário Lago não é o vilão de Terra em Transe. Segundo a lógica fabulati-
va do filme, quem realmente dá o golpe são os políticos civis da burgue-
sia aliada às multhsxplintimperialistas. O poeta intelectual pequeno bur-
guês, J ardel Filho, se suicida porque não entende a natureza do processo
político.
Em Terra em Transe Glauber se mata como poeta anárquico, po-
rém o filme não investe contra as Forças Armadas.
O artista-transgressor-revolucionário dos anos 60 não responsabili-
za o Exército pelo golpe político D'Eldorado.
E o meia oito tão decantado pelo Jornalista Zuenir Ventura? Se-
gundo Glauber, o meia oito guerrilheiro revela a submissão do intelec-
tual latino-americano aos modismos internacionais. Como o amoralis-
mo é um sinal de alto desenvolvimento intelectual, Regis Debray converteu-
se no Paulo Martins do De Gaulle.

41
Depois do Transe, vem a transa.
No Correio Braziliense, 1978, "Gone with the wind", Glauber co-
menta o caso de Eldrige não sei das quantas, líder dos Panters negros,
que se declara da Cia quando andou por Cuba.
- "Por isso sempre desconfiei de Herbert Marcuse e os filósofos
de 1968. Hoje os próprios autores do grande Teatro se confessam desilu-
didos pelas incendiárias verdades marxlenistas daqueles tempos criados
pelo gênio de André Malraux e pela terníssima Cia, personagem de to-
das as literaturas do mundo civilizado. Psicanaliticamente, 1968 foi uma
explosão fálica contra o patriarcalismo. A submissão intelectual das van-
guardas latino-americanas a um filósofo fabricado por De Gaulle, Regis
Debray, lançou o Kontinente Sul na espiral guerrilheira que sacrificou
revolucionários aos interesses sino soviéticos e euryankes, deixando Nues-
tras Américas fechadas nas guerras civis: militares e povo degladiados
entre políticos corruptos, intelectuais drogados, estudantes torturados,
proletariado a serviço das elites populistas".
Em Li~boa, 1981, doente, hospitalizado, Glauber Rocha escolhe doze
nomes de intelectuais que deveriam elaborar a Constituinte revolucioná-
ria, caso o General Figueiredo topasse fechar a Câmara dos Deputados
e e Congresso, pois sem a fusão do saber intelectual com o poder militar
não haveria democracia no Brasil.
O modelo da burguesia civil liberal desnacionalizada é o reino da
manipula~ão do voto popular. Quase dez anos depois, a candidatura de
L_eonel Bnzola confia na opção da maioria. Revolução pelo voto. Toda-
VIa, a opção da maioria terá que se expressar por uma atitude nitida-
m~nte refratária aos interesses dos meios de comunicação de massa, ou
seJa: quem é bobo? O povo ou a Rede Globo?

42
O PRÍNCIPE DA SOCIOLOGIA
ENTRE CLÁUDIO
ABRAMO E GLAUBER ROCHA

Um professor, de quem não me recordo o nome, sentado ao lado


do filósofo Bento Prado, me cutuca o ombro a fim de imputar-me gen-
tilmente a visão paranóica ou conspiratória da contemporaneidade bra-
sileira, como se fosse delírio persecutório a idéia de que o plano cruzado
foi mentalizado para manipular as eleições a favor do PMDB.
- Quer dizer que eu sou arcaico-jacu? E o plano cruzado é a
modernidade?
A crise não é somente falta de grana no bolso. A crise também é
de linguagem: a patota economista do cruzado, ou a vertente tucana da
sociologia, se julga guardiã da modernidade, assim como estigmatiza Leo-
nel Brizola de político antiquado e antimoderno.
Já dizia um lord inglês que as palavras governam os homens. As-
sim, diante da babel do vocábulo impróprio - o populismo - resolvi
radicalizar essa zoeira semântica para zerar a candidatura bode expiató-
rio. Nós todos estamos cansados de saber que um político pensa apenas
o presente, enquanto um verdadeiro estadista pensa o futuro. E o ex-
governador da Guanabara, como já mostrou Darcy Ribeiro, é um
estadista.
Cada um a seu modo. Meu modo de analisar a política é esse. Não
considero a política o reino da trapaça. A ideologia de não querer o po-
der soa como uma ideologia tão sinistra quanto a convicção equivocada
de que o poder é intrinsecamente maligno.
Não sou uma besta completa de acreditar que Leonel Brizola vai-
resolver-de-uma-hora-para-outra-todos-problemas-do-País. Também não
compartilho do pessimismo de que nesta terra todos roubarão depois do
aparecimento da palavra ágio, cuja razão de ser desqualifica qualquer
boa intenção racional do diabo economista.
Agradável surpresa agora, precisamente oito anos sem rever meu
amigo Luís Bresser, a quem agradeço no meu pequeno ensaio O Xará
de Apipucos, sempre gentil, sorridente, reencontro-o nesta tarde memo-

43
rável, cujo organizador (do simpósio) é Matheus Shirtts, rindo do meu
encontro afável com Luís Bresser, ex-ministro da economia de Zé Sar-
ney. Um dia você vai me contar o que é a passagem pelo poder. Estamos
em campos opostos na política mas continuamos amigos: Você é Tuca-
no, eu voto no Brizola. A amizade continua.
A todo mundo aqui no Simpósio cansei de perguntar quem trouxe
para o Brasil a palavra populismo. Pasmo, ninguém menciona o nome
de Jacques Lambert e de Gino Germani. Será que todo mundo aqui está
surdo como uma porta? Matheus me pergunta se eu quero pegar o dia-
bo pelo ouvido.
- Não é nada disso, eu digo pra ele é que eu estou a fim de escre-
ver tese de pós-livre-docência sobre a sociologia da sociologia populista
e, afinal de contas, surpreendo-me ao verificar que noohum intelectual
nesse simpósio conhece a saga populista, como se o populismo fosse uma
criança de paternidade desconhecida: um filho das urtigas.
O professor Octávio Ianni se limitou a dizer-me que a palavra po-
pulista nascera na América Latina. Evidentemente não é minha inten-
ção assistir o autor do Colapso do Populismo bater com a mão na boca
numa atitude de autopunição teórica.
- Matheus, plis, qual é o lapso freudiano da moderna sociologia
em São Paulo? Matheus ri. Todo norte-americano ri pra caramba nos
trópicos, ou como dizia Leons Trotsky: a vida é bela! Aí vem chegando
o célebre Francisco Weffort: Vamos tirar o chapéu.
- Como vai?
- Tudo bem.
Estamos em controvérsia sobre a questão do populismo de 1930 até
os anos 2000. Especialista no assunto, Weffort é o professor que abafou
ª.b.anca da ciência política em São Paulo. Cobra criada. Em estado de
dic1oná.rio o que significa a palavra populismo? Weffort quer saber co-
/ mo assim em estado de dicionário? Eu digo que essa é uma expressão
usada pelo Carlos Drummond de Andrade, valendo a denotação da pa-
lavra: em estado de dicionário. Aí ele diz o seguinte: populista é aquele
que ama o povo, o amante do povo.
Fico pensando com os meus botões se na Rússia ocorreu o mesmo
fenômeno com a palavra narodnik. Sei apenas que a prática narodnil<
russa é de natureza rural, mas não sei se a investida de Lênin contra o
populismo imprimiu uma carga negativa à palavra narodnik.
- Weffort, outra pergunta para esclarecer essa confusão semânti-
ca: a crítica do PT a Leonel Brizola inclui a crítica ao populismo?
- Sim, ele me diz, acrescentando que nessa crítica está incluída a
questão da autonomia sindical não atrelada ao Estado.
44
Eu digo a Weffort que vou a Belo Horizonte consultar o cientista
político Otávio Dulci para certificar-me se o pecado de Getúlio Vargas
foi realmente ter atrelado o Sindicato ao Estado. A crítica do PT a Leo-
nel Brizola gira em torno do papel exagerado que o populismo confere
ao Estado, assim como o PT nasce em São Paulo com uma acentuada
ideologia antiestatal. Com base na experiência do governo João Gou-
lart, o PT enfatiza há anos que a fraqueza do populismo é a existência
de uma mobilização de massa sem uma correspondente organização das
classes populares.
Não me consta que o projeto político de Leonel Brizola subordina
o sindicato ao Estado, assim como não consigo visualizar a possibilida-
de de vitória de nenhum sindicato organizado contra os Brucutus pas-
seando nas ruas. Ademais, a crítica marxista do PT à ausência de orga-
nização política das classes populares, durante o governo de Jango Gou-
lart, lembra o devaneio juvenil de achar que, no dia da revolução socia-
lista brasileira, a massa insurgente irá detonar a luxuosa adega do chan-
celer Abreu Sodré.
É inegável a função colonizadora que o marxismo-leninismo exerce
em nossas elites intelectuais. Não que Marx deva ser jogado no lixo, mas
é que entre nós, a palavra burguesia carece de valor expressivo, ou seja,
o povo prefere marajá, que é uma picaretagem eleitoreira do Fernando
Collor, o senhor de engenho alagoano pós-moderno que fala sem sota-
que nordestino. Alguns dos meus bons amigos do PT me perguntam se
eu não tenho receio de vir a me desiludir com Leonel Brizola na presi-
dência do Brasil. Eu não vejo além dele outra opção progressista no atual
cenário político brasileiro. E, aqui para nós, não há nada que Lula faça,
em termos de avanço social trabalhista, que o líder do PDT não possa
fazer. Mesmo se Lula fosse marxista integral, como Leandro Konder ou
Carlos Nélson Coutinho, pois o lance decisivo da atualidade brasileira
não é a alternativa socialismo ou capitalismo.
Leonel Brizola já disse repetidas vezes que irá governar também com
gente que não pertence a nenhum partido político. Talvez os melhores
quadros intelectuais e administrativos estejam fora das estruturas parti-
dárias. Convém não esquecer que o próximo presidente d_a República irá
governar sob os limites bacharéis da atual Constituinte. Como não exis-
te salvador da pátria, Leonel Brizola não deve ser visto idealisticamente
como o epicentro da história, porém se não houvesse a renúncia de Jâ-
nio e o golpe de 64, a eleição presidencial de 1965 teria sido disputada
entre ele e Carlos Lacerda, grande batalha eleitoral de Itararé que não
aconteceu.
O Rio de Janeiro se lembra de Glauber Rocha anunciando (progra-
ma "Abertura") a volta de Leonel Brizola do exílio. Infelizmente o ci-

45
neasta não viu a posse do governador da Guanabara em 1982, no entan-
to registrou em alguns textos a precocidade da trajetória de Jango Gou-
lart, em comparação com o caráter maduro e demorado da trajetória de
Leonel Brizola ao poder. A interrupção de 1964 não foi suficiente para
conduzi-lo ao desespero político.
Ele dá volta por cima em 1989 se conciliar o erudito e o popular
através de uma síntese folclórica. A respeito da dimensão folk da sua
personalidade, basta preparar a sabedoria do homem em lidar com o fa-
tor tempo na política. É impressionante a ausência de precipitação, sen-
do um ótimo político que sabe jogar na hora agá, apontando no vídeo
para o presidente do PMDB: - o doutor Ulysses é o avô do Plano Cru-
zado. E Brizola ao dizer isto é aclamado porque foram os economistas
do doutor Ulysses que bolaram o plano cruzado.
Durante a conversa c.om Francisco Weffort, evoco a situação ambí-
gua da sociologia antipopulista de São Paulo: Fernando Henrique Car-
doso, tucano, e Weffort, petista. O que há em comum? O que sobressai
na linha tucana é antes a ojeriza ao caudilho latino-americano do que
a idéia de que o populismo entrava a mobilização de classe, enquanto
no sociólogo do PT observa-se o fetiche acadêmico da classe social.
. Comento com meu amigo Weffort um artigo publicado na revista
VeJ~, o nome do autor eu já não me lembro - trata-se de um argentino
metido a besta que leu o Facundo by Sarmiento e trabalha no Cebrap.
O doutor cientista político argentino deita maior papo furado que nun-
ca em sua vida foi peronista, portanto não alimenta nenhuma ilusão quan-
to ao populismo, contrapondo-o à modernidade ocidental. Segundo o
tucano argentino, a proposta de governo de Leonel Brizola é uma pro-
P.osta ~r~aica., embora ele não explique o que significa arcaísmo na teo-
na polit1ca, limitando-se apenas a sublinhar superficialmente que o po-
pulismo durante a campanha eleitoral é diferente do populismo no poder.
. Será que o Partido dos Trabalhadores vai embarcar nessa falsa an-
ti~f.mia c~tre modernidade e populismo? Seria faltar com o mínimo de
~gi I~ade mt~lectual afirmar que Newton Cardoso é um neo Jango Jaca
d usso po~uhsta? Vale a pena citar as doutas palavras do ilustre governa-
or de Minas Gerais. "O conceito de populismo democrático. Eu não
estou ~uito agarrado ao dicionário". Por aí se vê o quanto é ridículo
0
us.o !~devido da palavra populista, assim como a dificuldade de
considera-la um elogio. Eis o que escreve Leonel Brizola num artigo do
Jornal .do B.rasil no final de 1988 "Construir milhares de escolas e pro-
m~v~r mvanavelmente a educação pública ao longo de toda a vida é uma
pratica populista? Ou populismo é iludir as pessoas, em troca de votos,
com aparentes benefícios, que logo se voltam contra elas próprias, como
ocorreu com o plano cruzado?".
46
Aí gentilmente vem chegando o economista Paulo Singer que pon-
dera: Leonel Brizola atacou corretamente o plano cruzado por razões
equivocadas.
- Meu caro Paulo, é demais a filigrana da teoria econômica para
quem não tem tempo a perder na vida.
As classes dominantes temem os dividendos políticos que Leonel
Brizola poderá obter por ter sido o primeiro cidadão brasileiro a perce-
ber a falácia do plano cruzado. Quanto à natureza da manipulação elei-
toral por decreto, não há dúvida de que o Plano Cruzado acertou o alvo.
Do camarote brasilianista, Richard Morse pergunta à tecnoburocracia
subsoviética responsável pelo plano inflação zero:
- É isso a democratização da economia?
Em Belo Horizonte, homenagem a Hélio Pellegrino e Pedro Nava,
subo Bahia, desço floresta. A vida é esta, subir Bahia descer floresta.
Em Belo Horizonte, por causa talvez do crepúsculo o PT tem uma
aura boêmia. Sylvie Pierre, a biógrafa famosa do Glauber, fofoca em Paris
que um dia eu ainda serei candidato a Senador pelo PT mineiro.
- Há, há, há.
E ninguém mais se lembra de que Jacques Lambert agradece seu
amigo de Minas, Darcy Ribeiro, no prefácio ao livro Os Dois Brazyz,
a bíblia sociológica do antipopulismo em São Paulo. Hélio Jaguaribe
está por fora ao colocar na mesma panela ideológica Adhemar de Bar-
ros e Leonel Brizola. Jacques Lambert é melhor cientista do que Hélio
Jaguaribe, assim como Roger Bastide dá de dez a zero na sociologia pro-
vinciana e cosmopolita de São Paulo. Por provinciano entenda-se aquilo
que disse Fernando Pessoa: admiração irrestrita pelo progresso e entu-
siasmo pela modernidade. "Um parisiense não admira Paris; gosta de
Paris". Basta observar nossa intelligentsia sociológica que, em nome da
modernidade, se insurge contra o populismo e abomina ser identificada
·com o modo de vida caipira. Que é caipira? Cai-pira, o envergonhado
de si mesmo, o capinador do mato, o tímido, o habitante do interior, o
homem ou a mulher da roça. Os discípulos sabichões que não citam Jac-
ques Lambert são mais realistas do que o rei, pois o sociólogo Francês
no final dos anos 60 dizia que, não obstante a rápida industrialização,
o Brasil ainda era um país essencialmente agrícola.
Hoje em dia a produtividade agrícola é menor do que a industrial.
A população vive mais na cidade do que no campo assim como a UDR
é a sala de visita da FIESP.
Ao contrário do que aconteceu com Roger Bastide, o professor de
sociologia na USP que foi salvo por uma mãe de santo baiana, Jacques
Lambert acaba sendo vítima da esquizofrenia entre o Brasil velho e o
Brasil novo, projetando na anfibologia da palavra populista a incompreen-

47
são do suicídio de Getúlio Vargas. O sociólogo francês do pólo moder-
no tropical confunde demagogia com populismo.

E O BRASIL ANTIGO?

É difícil explicar cientificamente o atraso mental de Jacques Lam-


bert que publica seu livro sobre o País perversamente duplo depois da
queda de Jango Goulart e do filme Terra em Transe. Daí a acusação in-
justa e abstrata contra o príncipe deposto em 1964: mais agitação social
do que reforma de base. Agita, porém não organiza; fala, porém não
faz; promete, porém não cumpre. Quando em 1988 lemos o livro de Jac-
ques Lambert a impressão é a que Jango Goulart ainda não caiu em abril
de 1964. E o sociólogo francês atribui ao populismo o estágio pré-
democrático, cuja população rural - submetida durante longos anos ao
~oronelismo -, vai para a cidade se manipular pela retórica populista
a cata de voto.

48
CHOVENDO NO MOLHADO

Prestaria inestimável serviço à pátria amada quem investigasse os


motivos pelos quais a palavra populismo (cuja circulação começou no
ambiente universitário da sociologia) ganhou tanta popularidade com a
hegemonia cultural dos meios de comunicação de massa durante os anos
80. Isso revela a importância social e política que assumiu a sociologia
brasileira nos últimos 20 anos. Afinal essa palavra quase mágica - o
populismo - é tão recorrente que chega a ser o pomo de discórdia entre
os partidos trabalhistas de esquerda. Não há político que se preze que
não queira ser chamado de candidato popular. No entanto, a maioria
acha abominável o estigma do populista. Mas por que não se abomina
também o popularismo? E o programa político populário? Seria então
o caso de indagar aos doutores da sociologia: que tal ser populista de
elite? Na verdade, o que existe é uma enorme mistificação em torno dis-
so tudo, tal qual aconteceu entre nós com a palavra golpe que virou re-
volução em 1964.
Centenas de teses acadêmicas, de inegável nível teórico, foram pro-
duzidas pela USP; nenhuma delas, no entanto, extravasou o âmbito uni-
versitário como as teses que tematizaram a ascensão e o colapso do po-
pulismo. É um mistério a notoriedade extra-acadêmica que alcançou no
País inteiro a reflexão sobre o populismo realizada pelos professores da
USP. Que esses professores tenham indiscutíveis méritos intelectuais não
há dúvida, porém o que soa esquisito é a veleidade científica de suas te-
ses antipopulistas que, em última análise, visavam explicar historicamente
o golpe militar de 64. Sobre isso não importa o fato de que nenhuma
tese sociológica em São Paulo explicou realmente o que se passou em
1964. Seria forçar um pouco as coisas dizer que existe uma sociologia
do golpe de 64.
Desconfio que entre os professores de sociologia e política da USP,
raro aquele que se preocupou deveras com o que estava acontecendo, ou
seja, que estivesse por dentro do que significava a sinistra subversão mi-

49
litar que derrubou Jango Goulart. A estrutura do poder montada em
Brasília não interessava aos acadêmicos de ciências sociais. Jango e sua
tragédia estavam tão distantes quanto a Lua. A chamada politização da
faculdade começa depois de 1964. Paradoxalmente, o golpe de 64 cai de
pau em cima da Filosofia da USP, onde não havia motivo algum que
despertasse o ódio dos militares contra os pacatos e inofensivos profes-
sores de sociologia e política que estavam fazendo monografias sobre o
negro, ou no máximo lendo Karl Marx como método. Então o grande
enigma a ser decifrado é o seguinte: os professores de sociologia, aliena-
dos politicamente em relação à prática do poder janguista, era no entan-
to, visceralmente alérgicos ao populismo. De onde teria vindo essa aler-
gia que tomou conta do corpo acadêmico da USP? Não me consta que
nessa Faculdade de Filosofia houvesse tradição intelectual refratária ao
populismo, pelo menos da parte do antigo professor Roger Bastide que,
no livro Brasil 1erra dos Contrastes, não vê com maus olhos a política
'.le Getúlio Vargas. Os sociólogos da USP que se tornariam ferrenhos anti-
p()pulistas abstratos encontraram em algum lugar ou em algum livro es-
se mL 1te, posto que eles não conspiravam politicamente contra o governo
.Tango, nem tampouco apresentavam uma alternativa radical às "Refor-
mas de base". Isso quer dizer que os antecedentes da aversão ao populis-
mo não resultam da análise concreta da conjuntura política janguista,
da q~al os professores estavam completamente desconectados. Será que
tal v1m5, abstrato e acadêmico, foi inoculado pela leitura tropical de Max
Webe~ sobre a dominação carismática?
E difícil acreditar nessa hipótese, mas, em todo caso, a sociologia
da USP se politiza via marxismo em função das medidas repressivas do
golpe de 64 e, somente alguns anos depois da queda do Jango, é que a
experiência populista passa a ser estigmatizada, às vezes até mesmo co-
/ mo um dos fatores responsáveis pela contra-revolução militar.
A birra das elites intelectuais com o populismo em São Paulo é um
fenômeno ideológico tão complexo que, além de obstáculo à moderni-
zação da sociedade, é também tido como deplorável herança arcaica que
atrapalha a moderna organização dos trabalhadores. Então vai se deli-
neando um quiprocó de equívocos a ponto de se configurar o falso dile-
ma: modernidade ou populismo? O que equivale a dizer: Deus ou o Diabo
na Terra da garoa.
A fundação do Partido dos Trabalhadores em São Paulo tem mui-
t~ a ve~ com esse clima hostil ao processo político janguista da sociolo-
gia antipopulista da USP. Ora, esse pessoal de formação européia elitis-
!ª pega o bonde da história andando, ou melhor, 64 atropela a vidinha
mtr~-acadêmica da rua Maria Antônia, assim como a futura direção do
Partido dos Trabalhadores estará nas mãos de uma liderança que prefere
50
falar em classe social do que em povo, pois povo vale populi, que por
sua vez dá em populismo. Sob esse ângulo meio cômico de chanchada
- mas de efeitos comprometedores para a construção da democracia
no Brasil - surge a figura do líder sindical Luís Inácio Lula como um
filho prodígio da Senzala pernambucana educado na crítica coloniza-
dora e antipopulista dos professores de sociologia da USP. Bom pernam-
bucano que é - do ponto de vista psicológico - o jovem Lula sonha
um dia em ser o Gilberto Freyre da economia política. Obrigado a emi-
grar de Pernambuco para São Paulo, ele começa a entrar em contato com
a ciência política das elites paulistas. Em vez de dar uma de mero work-
class desfrutável nas festas mundanas do Morumbi, Luís Inácio Lula -
que se diz marxista - aproveitará mais ou menos o seu tempo livre para
se politizar, estudando os textos indicados pelos professores de sociolo-
gia da USP, e evidentemente herdando deles alguns cacoetes ideológi-
cos, dentre os quais a birra neurótica contra o caudilho latino-americano.
Luís Inácio Lula não herdou a temática da integração do negro na
sociedade de classes, porém embarcou com tudo nas interpretações so-
ciológicas da USP a respeito das contradições da política de massas no
Brasil de 30 a 1964, sobretudo o trinômio democracia populista/lideran-
ça carismática e emergência do caudilho. Ora, esse trinômio da política
de massas reaparece como fantasma vinte e cinco anos depois, sendo cri-
ticado às duras penas - e indistintamente - por diversos partidos polí-
ticos; pelo PT, pelo PMDB, pelo PSDB, pelo PC, pelo PSB, pelo PV, etc.
A tipologia sociológica do populismo, montada por Octávio Ianni,
ou por Francisco Weffort, coloca num mesmo saco de gatos, ou seja,
sob a mesma rubrica, políticos de massas com perfis ideológicos tão di-
ferentes como Adhemar de Barros, Getúlio Vargas, Jango Goulart, Jâ-
nio Quadros e Leonel Brizola. Seja de esquerda, de direita, de centro,
seja carona; histriônico, etílico, trata-se de um mesmo estilo populista
de política, o qual teria entrado em colapso no ano de 1964 com a subi-
da dos militares ao poder. Acontece todavia, que tal colapso é mais um
lapso sociológico da USP do que uma análise histórica rigorosa da na-
tureza da "crise" brasileira. A rigor, o populismo parece um morto a quem
é preciso matar-se de novo. Tanto isso é verdade que a ressurgência na
década de 80 de Jânio Quadros como prefeito de São Paulo torna-se in-
concebível à luz do epitáfio sociológico do populismo made in USP. Não
deixa de ser curioso constatar que o candidato a prefeito de São Paulo,
derrotado pelo Doutor Caligari da Vila Mariana, é justamente o soció-
logo Fernando Henrique Cardoso, um dos eminentes teóricos da "de-
pendência estrutural", expressão pomposa através da qual a intelligent-
sia, antipopulista, quer designar a essência da dominação político-
econômica a partir de 1964. O retorno esquisito de Jânio Quadros ao

51
poder como prefeito deve-se muito mais aos desacertos das interpreta-
ções sociológicas sobre o populismo do que normalmente se imagina,
ou seja, de que existe - por incrível que pareça - uma conexão em São
Paulo entre o desenvolvimento da sociologia e as aprontações teatrais
de Jânio Quadros. Não importa que sejam, às vezes, adversos na briga
pela disputa do poder. Jânio Quadros é a minerva perversa da sociologia
paulista, cuja revisão crítica não se realizará jamais sem que se explique
os motivos do alcaide desvairado suscitar tanta tensão nas gentes de São
Paulo. Com certeza o efeito popular de sua esdrúxula linguagem deve
fascinar a intelligentsia sociológica que almeja tomar o poder através do
voto. Mas, ao contrário do que sucede com Luís Inácio Lula, que leva
a sério o sofisticado aparato conceitua! da USP, é provável que Jânio
Quadros nunca tenha lido nenhuma linha de nenhum sociólogo.
Um dos aspectos intrigantes da crítica sociológica antipopulista em
São Paulo é a sua inequívoca atitude axiológica francamente favorável
à atuação do empresariado industrial como agente do progresso. Talvez
essa atitude simpática da sociologia se deva ao fato de que o empresa-
riado é uma classe bem definida na estrutura social, ao passo que a per-
sonalidade populista atua mais diretamente no comportamento da mas-
sa do que com as contradições de classe social. Segundo a fraseologia
sociológica, a fase da democracia populista é a política de massa, e não
a polít_ic~ de partido que se orienta por determinados interesses de clas-
se. D.ai ~ ~mpropriedade de se falar em partido político p9pulista, embo-
ra S~Ja hcito referir-se à existência de político populista. E evidente o for-
m_ahsmo dessa sociologia que dita as regras de catédra, baseando-se in-
teiramente no post-factum, e a lamentar que a esquerda brasileira até 1964
(de Ge!úlio a Jango) confundiu massa com classe, e não se aprof~ndou
n~ fenomeno da consciência de classe. Tivesse Jango lido Gramsci e Lu-
t~~s, a esqu~rda brasileira teria substituído o princípio reformista da mo-
ihdade ~ocial pelo princípio revolucionário da contradição de classe.
Me_lhor amda - nesse esquema colonizado da sociologia - era que, no
mern ,de. uma leitura e outra, tivesse irrompido uma guerra civil como
n~ Russia. Todo tipo de piada é permitido diante dessa prosápia acadê-
mica que em 1964 não sabia se os generais estavam contra ou a favor
de Jango. Apesar de inteiramente por fora do processo político de 1961
a 1964, os professores de sociologia (a partir de 1964 até 1967) irão ela-
b~ra~ as suas teses totalizantes e pretensiosas sobre as raízes sociais e eco-
n?~icas do golpe de 64. Assim, ao invés de cuidarem da crítica ao colo-
mal!~mo mental (que na USP sempre foi débil, com exceção de Paulo
E_mi~i~ Salles Gomes), os doutores da sociologia descobrem o bode ex-
piatono da "Dependência Estrutural": o populismo. Inclusive, segundo
eles, o modelo socialista era uma possibilidade real no Brasil, mas não
52
emplaco_u p_orque a esquerda - atrelada à política populista, portanto
sem rad1cahzar a luta de classes - não compreendeu o sentido da in-
dustrialização brasileira. Donde se conclui, como num passe de mágica,
que das ruínas da democracia populista nasce a ditadura da burguesia
associada ao imperialismo das multinacionais.
Por mais apego à lógica que demonstre a exposição científica da
sociologia antipopulista, há um furo epistemológico nessa má importa-
ção marxista da teoria dialética das classes: o fetiche da contradição. Is-
so prova que até mesmo o marxismo pode ser um agente colonizador
que atrapalha a democracia no Brasil, conforme aliás demonstrou em
vários livros o mestre Roger Bastide. Este sociólogo francês foi infeliz-
mente substituído pela sociologia industrial do Allain Tourdine nos cur-
sos hodiernos de ciências sociais, assim como foi através de Gino Ger-
mani que nos chegou a difamação preconceituosa contra a existência na
América Latina do líder caudilho, o condotiero dos pampas gaúchos,
o condutor do povo, o chefe civil ou militar. Às vezes eu me pergunto
se o balé antipopulista da USP sociológica não é uma paranóia elitista
inimiga do folclore, pois no sul a figura lendária do caudilho se origina
do gaudério, assim como no Nordeste o jagunço cangaceiro é uma in-
venção sertaneja. O cineasta Glauber Rocha já dizia, num artigo belíssi-
mo sobre o romancista José Lins do Rego, que a prosa brasilianista da
sociologia substitui o ciclo épico do cangaço, ou seja, o boom sociológi-
co dos anos 60, fabricado pela ideologia automobilística dos Eisteiteis,
e uma armação neocolonialista para eliminar do nosso imaginário a lin-
guagem do romance nordestino de 1930. Vale lembrar aqui que Glauber
Rocha, a pedra dentro do sapato da intelligentsia paulista, tinha inten-
ção de filmar Richard Morse, o historiador americano de São Paulo, no
papel de um bandeirante dissoluto plantador de fumo em Piancó para
ajudar o Brasil a pagar a dívida externa. Da USP, depois de 1967, ano
de Terra em Transe, a sociological prosa não aceita o populismo porque
este faz a união ou aliança dos contrários. Vinte e cinco anos mais tarde,
eis que a elite universitária do Brasil inteiro tende a repetir essa idéia eli-
tista de que o grande defeito do candidato Leonel Brizola seria substi-
tuir a política de classe pela indiferenciação social da massa sob a lide-
rança carismática.
O que se deve discutir em 1988 são as razões institucionais da sedu-
tora hegemonia que exerce a crítica antipopulista nos cursos de ciências
sociais. O infeliz estudante de ciências sociais encontra uma vasta biblio-
grafia metendo o pau no povo populista. Educados no Instituto of La-
tin American Studies, Columbia University, New York, os sociólogos bra-
sileiros adoram a teoria das classes, e evidentemente odeiam a experiên-
cia concreta populista de 30 a 1964. No País da carestia o carisma popu-

53
lista dissolve a noção de classe. Em 1988, Fernando Collpr, que é o Fer-
nando Gabeira de Alagoas, seduz a juventude quando cutuca o marajá,
mas poupa a burguesia. Os professores e alunos de ciências sociais des-
conhecem o significado da palavra "populista" em estado de dicionário.
Então configura-se o seguinte paradoxo: o conceito sociológico de po-
pulismo é aceito sem que a palavra populista seja entendido. Os intelec-
tuais do Partido dos Trabalhadores perguntam a todo instante pelo pa-
radeiro da classe social revolucionária:
- Gente, cadê o proletariado?

54
MODERNIDADE, BICHO PAPÃO DO ATRASO

Jangarana (mil e tantas páginas sobre a Era Vargas) de autoria de


Glauber Rocha, se encontra inédita no tempo Glauber, Rio de Janeiro.
Obtê-la, não é uma operação fácil, porque D. Lúcia, mãe de Glauber,
anda injuriada com o Briza e o Darcy. É necessário um verdadeiro tra-
balho diplomático para eliminar as arestas e, assim estabelecer a paz de-
finitiva entre Leonel Brizola e Glauber Rocha, cuja posteridade no meio
da juventude brasileira é maior do que o nome de Tancredo Neves. Seria
um desastre para a campanha de Brizola se porventura os inimigos ex-
plorarem desavenças póstumas entre um e outro, o nome do caudilho
genial do Kinema não pode de forma alguma ser cooptado pela direita.
Ademais, Glauber nos legou uma série de programas de TV, intitulados
''Abertura", que deverão servir de modelo para a invenção política da cam-
panha na TV. Isso porque essa é a única experiência televisiva realizada
no Brasil com uma estética anti-Globo. Não podemos repetir o equívoco
da campanha de Darcy Ribeiro, que se insurgiu politicamente contra a
Rede Globo mas, esteticamente, foi a favor do monstro global do ponto
de vista do som e da imagem. Ora, por que Darcy Ribeiro não incorpo-
rou os ensinamentos da estética nacional-populista do seu amigo Glau-
ber Rocha, o único inimigo da Rede Globo em nosso cinema?
Precisamos consultar e materializar o legado estético ideológico de
Glauber Rocha, porque aí se encontra o roteiro imprescindível para ele-
germos Leonel Brizola presidente da República. O PDT não deve tratar
o material estético dos artistas revolucionários como se fosse um mate-
rial politicamente inútil o que seria uma demonstração insensata de tati-
cismo sem teoria. É claro que não basta o conhecimento da obra políti-
ca de Glauber; todavia sem conhecê-la, não poderemos realizar o salto
histórico em que estamos todos engajados. Convém não esquecer que
a vitória eleitoral de Leonel Brizola implica necessariamente a derrota
de Roberto Marinho no campo da comunicação audiovisual. Daí a ur-
gência que temos de, no setor audiovisual, buscar todos os subsídios pa-

55
ra enfrentá-lo. Ora, nenhum outro intelectual brasileiro pensou tanto a
emergência do monopólio áudio televisivo do que o autor de Deus e o
Diabo na Terra do Sol. É na reflexão nacional-populista de Glauber Ro-
cha que se encontra a desmontagem do gulag global implantado no Bra-
sil a partir de 1965. Ora, essa desmontagem estético-ideológica foi reali-
zada sob uma perspectiva anti-imperialista e, ao mesmo tempo, com a
intenção de reabilitar o sentido original da palavra populismo que, na
ótica de Glauber Rocha, ganha uma dimensão nitidamente positiva. "Povo
para mim precisa de chefe, quer dizer, a dependência do patriarcalismo,
a necessidade de um messianismo. Depois aqueles sociólogos no Brasil
esculhambaram o populismo, porque o populismo no Brasil é povo e is-
s? é uma atitude altamente elitista, porque populismo é povo. Quando
digo populismo digo povo. Quando o cara critica a política populista,
ele critica a política de povo", disse Glauber Rocha em entrevista de 1973.
Tais palavras carecem de divulgação urgente. Olhaí o melancólico exem-
plo do PT, colonizado pelos sociólogos marxistas elitistas de São Paulo,
qu~ rep:·oduz hoje a crítica equivocada ao populismo de Leonel Brizola,
ass~m como o PMDB - na sua versão intelectualizada - repete a ideo-
logia brasilianista do Cebrap contra o nacional-popular caudilhismo.
Em 1978, eis o que revela o cineasta de Cabezas Cortadas: "eu vivo
uma fase P'>íquica de mergulho no janguismo, quero saber o que houve,
0
qu~ eu herdei. Quando fiz Deus e o Diabo na Terra do Sol desabou
~m ~n~a de mim um golpe, uma revolução, por quê? Quem me antece-
: eu· Eu quero saber quem são esses fantasmas todos que armaram essa
jogad~ desde a época em que Getúlio se matou. Eu não aceito as versões
'° Ce;m.1p, dos brasilianistas, acho que essas versões são parecidas. Eu
:i~~ro a versão mítica, entendeu, eu quero saber exatamente por que Ge-
10
:~ e,creveu aquela carta, o significado daquele sangue como fecunda-
/ - or da alma brasileira"
P .. ~eria uma enorme burrice prescindir do fator beleza durante ou de-
d º? ª campanha política, sobretudo deixar selado a versão mítica-
! e ir;~te-folc!órica elaborada pelo gênio do nosso cinema. "João Gou-
1
i~t ~ 0 herdeiro dos mais altos astrais de Getúlio Vargas". A obra de
au er com a qual precisamos articular um dos pontos essenciais da
1
c:~ Panha audiovisual de Leonel Brizola, anunciada desde 1978, não foi
ª e O Presente momento ainda assimilada. "Quando sair um romance
q~e eu ~screvi sobre o Jango, que chama Jango, um romance de mil pá-
g as;r nego vai querer realmente me eliminar da vida brasileira".
t, . campanha de Leonel Brizola, fadada a se tornar um fato sócio-
1
es ~! c~-religioso-cultural, exige alto nível de reflexão teórica que já foi
12
rea t ~ ~ pelo pensamento político de Glauber Rocha. Por que então não
ma ena11zá-la? Observe-se, por exemplo, o que ele disse em 1977 sobre
56
os sociólogos do Cebrap que estão ou no PT ou no PMDB: "eles fazem
estudos sob uma viagem materialista grosseira da história, porque acham
que aqui é uma reprodução do sistema econômico ocidental, sem levar
em conta a antítese irracional da emergência terceiro-mundista, inclusi-
ve a tradição do modo de produção africana e árabe nos bolsões brasi-
leiros mais profundos". Não é senão por esse motivo de ordem sócio-
místico que, sem Deus, o Senador parlamentarista Fernando Henrique
Cardoso é levado a sentar-se no trono do prefeito Jânio Quadros.
A linguagem da campanha de Leonel Brizola não deve menospre-
zar os processos místico-religiosos da sociedade brasileira. Se não hou-
ver tratamento inteligente do imaginário audiovisual do povo teremos
o triunfo argentário da Rede Globo nas próximas eleições. É sempre bom
lembrar, do ponto de vista da produção do som e da imagem, que o PC
de 1968 está trabalhando atualmente na burocracia da Rede Globo. Ao
invés de ser encarado como ofensa, o recado (1979) de Glauber a Leonel
Brizola aparece como uma mensagem interessante que poderá incorporar-
se na organização dos signos durante a campanha. "Brizola devia vestir
um camisolão e descer num candomblé, fumar um charuto, beber uma
cachaça como todo o povo brasileiro. Entrar num barato. Não pode fi-
car fazendo política no Leblon. Ele tem de botar o escritório político
numa macumba. Se ele fizer isso pode ser um a ayatolá-babalorixá. Aya-
tolá é uma visão muçulmana de babalorixá de umbanda, que é uma vi-
são brasileira". Incorreria num erro crasso de interpretação do sincretis-
mo religioso popular quem entendesse tal recado num sentido irônico-
jocoso. Basta reparar na importância religiosa do culto jejê-nagô para
as camadas populares do Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco. De babá,
de banlá, de pai é a origem do termo babalorixá, o mestre, o guia, o go-
vernador, o administrador.
Acredito que Fernando Barbosa Lima não terá nenhum prurido grã-
fino em realçar, durante a campanha, o lado profeta da personalidade
de Leonel Brizola.
O povo, em sua sabedoria clássica, já o batizou adivinho do cruza-
do, aquele que antes de todo mundo pressentiu e denunciou o fracasso
do plano econômico. Tenho absoluta certeza de que não é fácil eliminar
o perfil fatalista e astrológico da cultura popular brasileira. Está escrito!
O povo ama o fatalismo. O profeta D. Sebastião é padrinho da cidade
do Rio de Janeiro.
Se a campanha de Leonel Brizola reverter a semântica política da
direita, e assumir plenamente a dimensão positiva do vocábulo caudi-
lho, o mesmo ocorrerá com a fé popular inesgotável na palavra messiâ-
nica, posto que não existe candidato político sem promessas, e sem o
correspondente anúncio de castigos e prêmios. Afinal, pensando bem,

57
a promessa política, ou o plano pregoeiro do futuro governo não dei-
xam de ser uma modalidade de profecia.
À vezes me ponho a pensar no fato do Briza ser um gaudério, o
vaga mundo, o guacho, o gaúcho. Nômade. Sem moradia. Observo in-
clusive que essa feição errante, ambulatória, infixa, do líder, o povo adora:
- Você pensa que o homem tá lá, vai ver ele já tá noutro lugá! Isso sig-
nifica que Leonel Brizola possui o fácies do folclore na aceitação coleti-
va. Temos então um candidato que é um mito, no bom sentido do mito.
Segundo a concepção popular, nenhum mito no Brasil é um mito-de-
presença, sedentário, inamovível, e sim um mito de movimento, de am-
bulação, ou seja, nenhum mito entre nós tem pouso fixo. Às vezes, fico
imaginando na transcrição imagética desse carisma folclórico e errante
de Leonel Brizola.
É claro que uma campanha presidencial antiglobo exige do candi-
d~to uma conduta de maestro, múltiplo, polivalente, redondo, onde se
m1stu~am tradições dos pajés e falas dos babalorixás, e, ao mesmo tem-
po, seJa um acorde musical como síntese de cidade e do campo, ou se-
não um amálgama do elemento erudito e do popular, enfim, a sinfonia
da esperança no povo.
. Resulta daí que o procedimento mais adequado para a campanha
SeJa o procedimento nuclear, através do qual a mensagem política sobre
f atuali~a~e .é apresentada além do princípio da contradição. Se de um
dad~ ~ h1s~ona an?a de boeing, de outro lado ela também anda de c~rro
e 0 1. Ha melodia e há batucada. Ogum e São Jorge. Por consegumte,
~eremos na campanha uma montagem nuclear que incorpora os elemen-
jos contr~ditórios da realidade, porém sem subordinar-se ao princípio
e(xclusao, tipo oito ou oitenta. A propósito, está certíssimo Leonel Bri-
~o ~.ª? sublinhar que a próxima eleição presidencial não passa pela con-
/ -r~ içao entre capitalismo e socialismo. Não é essa a opção que está na
?~oe°\ ~ ?ia, nem tampouco nos parece correto pontificar a priori que
...., ne nzola é um candidato anticlasse média.

58
CONTRIBUIÇÃO DESINTERESSADA

No salão Nobre da Reitoria, USP, São Paulo, julho de 1988, por


ocasião do seminário sobre a Democratização da Economia, sob a dire-
ção do brasilianista Richard Morse, tive o imenso prazer de encontrar
a Fina Flor da intelectualidade paulista responsável pela conceituação
e divulgação do mote populismo a partir dos anos 60. Estavam todos
lá reunidos: Octávio lanni, Francisco Weffort, Paulo Singer, Luís Bellu-
zo, Luís Bresser Pereira, Carlos Guilherme Mota, numa feijoada episte-
mológica temperada de tucanos, petês e pemedobês, ou seja, a cúpula
da cúpula. É a sopa no mel para testar se estou ou não falando bobagem
ao escrever este balanço melodramático sobre as cabeças sociológicas ilus-
tres do País. De repente passa por mim a "musa do cruzado", Maria da
Conceição Tavares, a amante imaginária de Edward Kennedy, segundo
o depoimento de Glauber Rocha - que não teve tempo de assistir às
lágrimas de crocodilo da "musa" chorando no vídeo da Globo em 1986.
- E aí Conceição?
Ela faz um gesto de desprezo e não me dá a menor bola. Que mu-
lher esquisita, penso comigo, a "musa do cruzado" não vai querer falar
com um pé-rapado como eu, que não sou do partido do doutor Ulysses.
Se Roma viveu séculos sem médico, por que não haveremos de viver sem
economistas? Nem que ela chore pitanga eu vou acreditar no diagnósti-
co científico da famosa professora.
Esta eu não engulo!
Não sou gato escaldado em ciência econômica, mas me lembro muito
bem do papelão da dançarina Conceição no baile do cruzado. A câmera
da Globo na cara da cientista que leu Salário, Preço e Lucro do Karl Marx.
- "A pessoa que auxiliou Leonel Brizola a calcular a diferença en-
tre preços e salários não passa de um economistazinho de araque", disse
ela com todo charme sex-luso na TV Globo. Com o plano cruzado, se-
gundo Jorge Amado, José Sarney tornou-se o presidente mais popular
do Brasil.

59
E Getúlio Vargas rola na cova nessa hora em que erra o romance
junto com a chamada ciência moderna. Por que Jorge Amado atacou
Leonel Brizola se o efeito cruzado passou a perna nas diretas-já?
Jorge Amado tem bode do Brizola por causa dos seus ciúmes de
romancista em relação ao caudilho Luís Carlos Prestes. A esperança an-
da a cavalo, como diz um bom gaúcho. Baiano, no Rio Grande do Sul,
não sabe montar, aliás Jorge Amado também não se ligou muito na fi-
gura de João Goulart, aliás ninguém aqui da USP parece gostar do pre-
sidente deposto em 1964. Maria da Conceição Tavares, com seu incons-
ciente romanesco, entra em perfeita sintonia com o inconsciente argen-
tário çio maior romancista vivo do Brasil.
E o único cara que leva vida de escritor classe internacional, muita
grana a acumular mas sem ter nunca financiado sequer um super-oito
de um discípulo de Glauber Rocha na Bahia. E lá navegava com bosta
grande e merda rala, a tradução bárbara e escatológica de Casa Grande
& Senza!a, onde me vejo aí focalizado a partir do Wc, o lugar de ''Au-
gusta pnvada", como diria o poeta Murilo em A idade do serrote.
- Quem é o vice do Ulysses?
. Isso dá uma amarelinha agônica no momento em que a intelligent-
sia da USP vira tucana.
- E o vice do Ulysses?

60
MUTIRÃO ACÚSTICO EM
DEFESA DA PÁTRIA

Este projeto para a campanha à Presidência da República apóia-se


na idéia de que a fé (ou a convicção, ou a ideologia) entra pelos ouvidos.
Somos um povo de formação eminentemente oral, em que audição torna-
se mais importante do que a imagem. Somos um povo mais radiofônico
do que televisivo. Portanto, o material acústico assume extraordinária
importância na estratégia da campanha eleitoral. Sob esse âng'-!lo, ·uma
campanha política se confunde com uma campanha sonora. E o con-
fronto de um som contra outro som. Daí a necessidade de se encontrar
a moldura sonora mais adequada para a campanha, tendo em vista a
dimensão continental do País e sua diversidade regional. Não se deve cer-
tamente esquecer a idéia da unidade cultural que aglutina as várias par-
tes da nação, porém é fundamental - num primeiro momento - pen-
sar na geografia acústico-musical de cada Região ou de cada Estado. Sul.
Centro-Sul. Nordeste. Norte. Litoral. Sertão.
Para cada Região, uma modalidade de som, de locução, de discur-
so, de jingle, de slogan, de dicção fonocomentada, em que o nome do
candidato (e o seu ideário político-ideológico-cultural) apareça sempre
com o maior apelo possível de persuasão popular. A mensagem da pro-
paganda eleitoral terá que devolver ao homem regional brasileiro a iden-
tidade sonora, ou a comunicação oral, de sua própria Região. A esse res-
peito, convém lembrar que a psicologia do homem do povo brasileiro
é profundamente regional. Resulta daí que a escolha do Repertório
Acústico-Musical, em termos de persuasão popular, deve estar em con-
formidade com a inserção regional do eleitor.
Para cada Região um tipo diferente de gênero musical dentro do
nosso populário acústico. No Rio Grande do Sul uma marcha, no Nor-
deste um côco , no Rio de Janeiro um pagode, em São Paulo um samba
- ou quiçá um roque - no Pará-Amazônico um merengue, em Minas
Gerais uma modinha. Não apenas a diversidade de pausa e ritmo, mas
também a diversidade de vozes, de pronúncia, de sotaque.
61
DO MATERIAL A SER UTILIZADO

Sabemos todos que uma campanha política não é um concurso de


estética, inclusive ninguém garante que uma mensagem esteticamente bem
elaborada surta melhores efeitos persuasivos. Todavia não convém a uma
campanha eleitoral prescindir do fator beleza. Um dos índices de popu-
laridade de Leonel Brizola reside na sua fala. O povo está convicto de
que ele fala bem. Enfim, o povo acha belo o discurso de quem sabe fa-
lar. Mesmo quando lhe fazem mudo, é eloqüente no gesto, espécie de
Charlie Chaplin da política.

DE COMO EVITAR O RISCO DA INCOMPREENSÃO POPULAR

O modo mais eficaz de evitar o perigo da mensagem eleitoral não


~heg.ar até? P.ovo é utilizar cnm criatividade o que já foi feito, do ponto
e vista acust1co-musical, pelo folclore do próprio povo. As frases fei-
tas. Os provérbios. As parlendas. As cantigas dos Vaqueiros e Cantado-
res. Por que não apropriar-se da acústica do Boi Bumbá? O boi conti-
~~a sendo uma obsessão para o homem brasileiro. O boi concorre em
O
t da arte popular. O boi é o grande protagonista da nossa mais comple-
a an?a dramática.
h . ?Is out~o procedimento que poderá ser utilizado durante a campa-
â ª· azer a Justaposição de um assunto da atualidade com uma forma
c~ ;xpr~ssão popular. Elaborar, por exemplo, um romanceiro demonía-
m cima do fracasso do Plano Cruzado na economia, de que resultou
ruc1·r·1cado. O povo na cruz.
0 povo c

62
SÓ O JUMENTO NÃO TEM SUPERSTIÇÃO

Lembro do toró que vitimou o Rio de Janeiro, Nova Iguaçu, Petró-


polis. Diante da alagação surge espontaneamente a voz popular: - Agua-
ceiro! Aguaceiro! O nome responsável é o Moreira, que foi atrasar o fe-
riado do Santo São Sebastião. Também o homem foi pôr a mão no ca-
lendário do santo. Tudo castigo. São Sebastião injuriou-se. Desabou o
temporal.
É preciso ouvir o povo com o máximo requinte e simbolicamente
devolver ao povo sua própria interpretação mas sem esquecer que, na
mentalidade popular, a interpretação é muito mais importante do que
a explicação dos fenômenos e das causas. Isso significa que na ótica po-
pular o elemento maravilhoso é mais normal do que o natural, assim
como o inconcebível pode tornar-se verídico. Por conseguinte, a dimen-
são sobrenatural deverá ser incorporada durante a campanha como po-
lítica de massa. Vejamos a questão da morte de Tancredo Neves, cujo
nome é referência obrigatória na futura sucessão presidencial. A grande
mídia explorou, sem o menor escrúpulo, a agonia do ex-presidente que
não exerceu o poder um dia sequer. Pois bem, e a retentiva popular diante
desse acontecimento fúnebre? Será que o povo brasileiro em 1988 já se
esqueceu de Tancredo Neves? Certamente não se esqueceu, embora tal-
vez não seja nem mais lembrado o ano exato em que ele morreu. Então,
qual a interpretação popular a respeito da sua morte? O que circula na
boca do povo, de norte a sul do País, é o comentário sobre a morte ma-
tada, e não a morte morrida, do ex-presidente.
Trata-se de uma morte provocada pela vontade malévola dos altos
figurões que o cercavam bem próximos ao poder. Segundo aquilo que
o povo diz, um urubu pousou na sorte do Doutor Ulysses que assistiu
de perto a tramóia do assassinato. Pouco importa a quem seja atribuída
a autoria do assassinato mítico. A mentalidade popular não acredita na
morte espontânea de Tancredo Neves. Afinal, como tem insistentemente
o Planaldo repetido nas horas de desespero, o mandato de José Sarney

63
é um mandato que foi legado pela providência divina, de modo que o
lançamento teatral do plano inflação zero é um sucedâneo perverso do
enterro do ex-presidente em São João Del-Rey.
O excelente livro Brizola Tinha Razão, do jornalista Leite Filho, já
nos revelou que desde o começo a Nova República desgovernou o país
tendo em mira o "fantasma" do caudilho popular, perseguindo-o para
com isso ganhar mais tempo no cargo de presidente. Acontece que o po-
vo brasileiro mantém viva a memória pela imaginação, e não pela análi-
se da burocracia estatal.
Leonel Brizola foi proibido de falar na televisão porque sabia de
tudo. Resulta dessa interpretação coletiva a respeito da matéria sobrena-
tural à necessidade do Movimento Nacional Leonel Brizola não esque-
cer os nomes de Getúlio Vargas e Tancredo Neves, ainda que o candida-
to do PDT seja mais próximo ideologicamente de Getúlio.

64
SOCIOLOGIA DO CARISMA

A indústria cultural não faz inteiramente a cabeça do populário na-


cional, por mais que a economia esteja de cabo a rabo internacionaliza-
da. Aliás, a economia no Brasil esteve sempre internacionalizada na tran-
sação financeira. Não constitui novidade alguma saber que hoje em dia
o que atrapalha o País é a internacionalização da sua economia inflacio-
nada. Até aí nada de novo no pedaço. A vida já era cara em 1501.
O finado Cláudio Abramo, que tinha birra do Mário de Andrade,
contou-me que no Palácio Bandeirantes os funcionários da casa assisti-
ram à morte televisionada de Tancredo Neves. A conclusão a que chega-
ram é que Tancredo Neves havia morrido antes de Dão Pedro II. Aos
sociólogos vendidos ao poder antipopular da mídia, Cláudio Abramo
dá um banho de jornalismo contemporâneo, a saber: o imaginário do
povo não é um mero epifenômeno da tecnologia. Sobre isso girava inva-
riavelmente a discussão política a respeito do carisma que o povo depo-
sita em Leonel Brizola, vendo nele a herança de Getúlio Vargas e Jango
Goulart.
Não é hora agora de discutir se o homem corre perigo, mas se por
um infortúnio da sorte ele desaparecer do cenário, vai ser ruim de arru-
mar outro para substituí-lo. Intoxicados de teoria política européia, os
marxistas identificam esse pressentimento popular com manifestação pa-
tológica de personalismo. Segundo os politicólogos marxistas e weberia-
nos, o mal do Brizola é centrar todo o poder em torno de si mesmo, em
cima da sua pessoa. Personalidade centralizadora. Autoritário. Persona-
lista. Caudilho.
Várias vezes eu chamava a atenção de Cláudio Abramo que, nessa
crítica a Leonel Brizola, a direita argentária apresentava, e continua ain-
da apresentando, os mesmo esteriótipos que a esquerda antipopulista,
quer na versão petista, lukacsiana católica, trotskista, frankfurtiana: a
persona de Leonel Brizola é do demônio. Seria o caso então de pergun-
tar a esses cascateiros da democracia impopular, se a Rede Globo não

65

1
------,
tem como eixo a personalidade lucrativa do doutor Roberto Marinho.
E o grande industrial Antônio Ermírio de Moraes é menos personalista?
Existe algum jornal brasileiro que não seja o espelho pessoal do seu pro-
prietário? Como já dizia Napoleão, duzentos anos antes de Horeztez
Cuercya catar boiada em Pedregulho: o trono é do homem!
Não há como escapar da opção Leonel Brizola no final dos anos
80. A favor ou contra todo mundo se liga nele, única esperança tribal
possível no momento,' pelo menos em condições de quebrar o clima de
apati.a, de desânimo, de pessimismo. O que coloca alguns setores .d.a ~la.sse
dommante em pânico é o seguinte paradoxo: o homem ser arqm-m1m1go
da TV Globo e, ao mesmo tempo, exímio comunicador de massa na TV.
O problema do ceticismo generalizado é se espraiar ainda mais o tipo
do cético boçal que acredita que ninguém dá jeito no País, terra ingover-
nável, povo burro, classe política corrupta. - Política é isso mesmo!
O desafio eleitoral de Leonel Brizola consiste em furar o sistema
global de comunicação implantado há mais de vinte anos, e hoje com
eno~me poder de sedução, cativando o cinema, a música popular, a uni-
~ersi_d~de, a Constituinte, os partidos políticos de esquerda, os .críticos
hteranos. Convenhamos que não é fácil a um indivíduo, por mais dota-
do de carisma que tenha junto ao povo, enfrentar sozinho uma rede tec-
n~lógica industrial financeira superpoderosa. Onde é que a Rede Globo
nao chega? Num cafundó onde não haja luz elétrica, mas mesmo assim
ela penetra porque chega pelo radinho de pilha. A ditadura militar con-
cedeu a um canal de televisão a integração ideológica do Brasil de ponta
ª ponta. Contra esse ato insano do General Golbery, o único intelectual
que se manifestou indignado foi o cineasta Glauber Rocha (1965) com
ª sua estética da fome. A maioria absoluta não abriu a boca. Aceitou
~ monopólio como algo natural, não questionou do ponto de vista polí-
tico essa geografia audiovisual centralizadora. A melancólica história da
nossa cultura, um ano após o golpe militar, pode ser contada através da
progr~ssiva dissipação do sentimento de ódio contra o gigante Global.
E.º d.ragão da maldade made in Brasil que disputa o antigo merca-
do a~d1ov1sual do imperialismo roliudiano. Esse ponto de fusão (e o si-
multaneo descolamento no mercado) da Rede Globo com a Roliudi Pic-
ture. constitui a herança maior do golpe militar. Na jangarana trágica,
escnta por Glauber Rocha, o símbolo do bode é a televisão. Em sua pe-
ça de !eatro (1974), Glauber retrata um Jango que perdoa os militares,
mas n~,º p~rdoa o proprietário da Rede Globo. Em 1986, Darcy Ribeiro,
outro gemo da raça" (epíteto esse também da autoria de Glauber Ro-
cha) foi derrotado pelo voto popular. Compreende-se a reconciliação tea-
tral de Jango com os militares, pois o inimigo continua sendo a Rede
Globo enquanto partido político. Durante a Nova República, na "tran-
66
sição" ao voto popular, a TV converte-se num aparelho ideológico de
Estado. O principal acontecimento político da Nova República é a con-
versão da mídia em partido político. O processo de simbiose da empresa
privada com o Estado é uma relação orgânica, sólida, objetiva. Em ter-
mos de som e imagem, a natureza simbólica desse processo estabelece
um laço indissolúvel entre a mídia e a política, o espetáculo e a manipu-
lação. Decorre daí que uma fraude eleitoral se confunde cada vez mais
com uma armação do sistema de comunicação. Quem dá o tom e a sin-
tonia ao ministério das comunicações é o dono da mídia nacional. Nes-
se contexto, a política in-vídeo é mais importante do que frescurada ba-
charel na constituinte. Daí a pergunta que o jovem genro do Amaral Pei-
xoto fazia nos bancos escolares da Puc carioca: a televisão decide o re-
sultado das eleições?
O sistema monopolístico brasileiro da mídia, o aparelho audiovi-
sual de Estado, é mais poderoso do que o sistema de comunicações na
União Soviética, embora mister Gorby seja o gatão mundial da mídia,
e não o brejeiro Zé Sarney.
A confluência conspiratória da Rede Globo com o plano cruzado
produziu a derrota de Darcy no Rio de Janeiro? Se a resposta é sim, en-
tão o processo de desgaste da classe política estende-se também ao des-
prestígio dos meios de comunicação de massa, ou seja, os meios de co-
municação da política. A direita civil na Nova República tem sob seu
controle o áudio in-vídeo. Contudo ela olha, invejosa e com pavor a per-
formance persuasiva de Leonel Brizola na TV. E a hipótese de Leonel
Brizola não precisar aparecer nem in-vídeo para empolgar a massa elei-
toral? Em se tratando de um "fantasma", ou de um espectro como dizia
Karl Marx, resta saber se a candidatura do homem, em âmbito popular,
cresce a despeito de não ser um candidato simpático a nenhum meio de
comunicação de massa. Se isso efetivamente acontecer, então o quadro
eleitoral fica bastante complicado para qualquer outro candidato, ainda
que tenha a mídia a seu favor. O prestígio popular de Brizola - nome
forte num partido político fraco - conforme pontifica o cientista social
Francisco Weffort em São Paulo, desenvolve-se por modo próprio, à mar-
gem portanto da sua própria filiação partidária, e também acima de qual-
quer aliança política que ele porventura faça. É justamente isso o que !

apavora a teoria política da USP versada nos manuais do marxismo eu-


ropeu: a possibilidade do carisma de determinada pessoa ser capaz de
transcender o partido, a classe, a mídia. Afinal, que loucura é essa? No-
me, numen, essa simples aura que se depreende de um nome pode levar
o candidato a arrebentar a boca das urnas.
Teórico paulista do partido dos trabalhadores, homem honrado, bom
amigo, meu ex-professor da USP, Francisco Weffort é uma parte impor-

67
tante da cabeça de Luís Inácio Lula, enfiando-lhe por vício acadêmico
a minhoca do populismo que só serve para dificultar o gesto mais inteli-
gente da esquerda brasileira nos últimos anos: o gesto de desfraldar a
Bandeira Brizulla em São Paulo. Juntos Brizola e Lula. Não há nada so-
cialmente importante que impeça tal aliança. Não há nenhuma deman-
da político-ideológica do PT que a candidatura de Brizola não possa sa-
tisfazer na era da preparação de um Brasil socialista e livre. Então por
que não fazê-Ia? Por que não? Simplesmente porque baixa de repente
a coisa neurótica do antipopulismo, a sociologia esquemática do bona-
partismo é repetida ad-nausem: com Brizola vamos juntos na batalha
de assegurar as condições de uma democracia no Brasil, mas não vamos
juntos na tomada do poder. Nessa oposição, acadêmica e colonizada,
ao populismo de Vargas/Jango/Brizola, o PT cai in love nos braços pea-
gadês do PM DO B, grã-fino, empresarial, novaiorquino. Acontece to-
davia que o talentoso Fernando Henrique Cardoso não é mais o prínci-
pe da sociologia.
Para o bem e felicidade dos sete milhões de nordestinos em São Pau-
lo, a categoria sociológica do populismo não convence nenhuma pessoa
do povo a não votar em Leonel Brizola. Nem a estudantada da USP nos
jornais tem a menor idéia do que significa esse vocábulo populismo, a
infeliz invenção dos dois Brasis feita pelo francês Jacques Lambert nes-
sa tese etnocêntrica que denuncia o colapso, não a glória do populismo.
Aí razão cabe ao professor Darcy Ribeiro que já passou um bom esbre-
gue nas ciências sociais de São Paulo. Imaginem vocês, num programa
de ~elevisão, Leonel Brizola perguntar a Luís Inácio Lula: - O que é po-
pulismo? Para a situação não ficar constrangedora, o melhor recurso é
mv~rter a axiologia da palavra: popul, populare. Populismo significa sim-
patia pelo povo, então populista é uma qualidade muito positiva. Ami-
go do povo. Não é senão graças ao sentimento populista que temos esta-
t~to, CLT, décimo, os direitos, estabilidade. O que está por trás dessa
disc~ssão imbecil sobre o populismo é que o PT paulista não consegue
explicar o carisma de Leonel Brizola através da análise de classe.

68
JAZIGOS E coms RASAS

Enquanto a miséria por comparação medrar nas ciências sociais e


políticas, nós não sairemos tão cedo dos dois Brasis, o livro do francês
brasilianista, Jacques Lambert, que, por sinal, influenciou o historiador
norte-americano de São Paulo, Richard Morse. Tenho maior admiração
por todos os estudiosos estrangeiros da nossa mátria pátria. Aprendi is-
so com os livros de história do mestre Manoel de Oliveira Lima. Não
sou xenófobo. Mas, por outro lado, não me agrada intelectual boçal co-
lonizado que não gosta do Brasil, a não ser quando este caminha rumo
à subcaricatura dos Eisteitis e Oropa.
Sou amigo do norte-americano Matheus, o pós-brasilianista obnu-
bilado pela luz do Sumaré, alí perto da inesquecível rua Apinagés onde
fui feliz outrora. Eu moro em São Paulo desde 1968 quando vim do inte-
rior estudar estética acústica nas ciências sociais da USP. Fora ou dentro
dos barracões universitários de Pinheiros, estou convicto de que na rea-
lidade são mais de dois Brasis, sobretudo pela multiplicação industrial
dos trezentos e poucos de que falava Mário de Andrade.
A Universidade de São Paulo é uma coisa muito séria para ser ata-
cada em bloco só por causa da ideologia antipopulista que não gosta
de trepar com o povo. O professor Jacques Lambert, o teórico do popu-
lismo na América Latina, é sem dúvida nosso Tocqueville. Mas além de-
le, em Lyon, na França, existe Roger Bastide, que veio também ensinar
sociologia na USP antes dos dois Brazyz. Brasil Novo. Brasil Arcaico.
Brasil atrasado. Brasil evoluído.
De 1939 a 1967 Jacques Lambert vive uma parte de seu tempo em
São Paulo, ficando amigo do Darcy Ribeiro, o chefe da casa civil de Jango
Goulart, Darcy Ribeiro é amigo de Jacques Lambert, autor da tipologia
sociológica sobre a América Latina, sobretudo a teoria dualista que fo-
caliza a evolução do coronel-cacique-populista na vida política nacio-
nal. É digno de nota constatar, como se vê em 1988, que o vôo da imagi-
nação sociológica segue o mesmo roteiro traçado pelo autor de Os Dois

69
Brasis. Muitas teses em política e sociologia, publicadas a partir de 1967,
recapitulam o esquemão binário do ilustre francês que não gostava do
Rio Grande do Sul, implicando com a indisciplina do boiadeiro gaúcho,
o gaudério errante sem lar fixo. Antes de Jacques Lambert chegar ao
Brasil, ninguém por aqui falava em populismo; no máximo se falava em
popular ou popularesco. Hoje qualquer militante do moderno Partido
dos Trabalhadores já ouviu falar mal do populismo como um sistema
político brega e autoritário. Nêgo repete maquinalmente a justificativa
do ato sublime de votar - contra ou a favor - sem saber as fontes. Nê-
go repete que nem papagaio que o populismo é o fim da picada, mas
não vai nunca ao dicionário para saber o que significa a palavra popu-
lista. Os teóricos do PT repetem a mesma coisa que os pensadores do
PMDB. A única diferença é que a elite tucana se apavora com o enorme
prestígio do líder caudilho. Embora padeça de uma síndrome narcisa crô-
nica, a social-democracia tucana declara sua repulsa à personificação do
poder e ao culto da personalidade. Por conseguinte, o caudilho (sinôni-
mo de líder gaúcho) é identificado com sobrevivência arcaica. A direita
tucana em São Paulo teme o condotieri das massas populares.
A confusão semântica é de tal ordem insana que até o Jânio (que
não gosta de povo) vira populista. Acontece porém que caudilho não pode
ser um bunda mole qualquer que renuncia.
. Se Getúlio Vargas foi a expressão de liderança caudilha, então o cau-
dilho prefere a solução mais digna e trágica do suicídio a ser compelido
a deixar o poder. É das páginas sociológicas de Jacques Lambert a aver-
são à liderança caudilha, mas também o fascínio pela fala que faz do
caudilho um líder popular.
Sociologicamente é uma idiotice conceber a emergência do Kaudy-
)ho depois que a televisão unificou o País. O grande bolero caudilho e
imperador do Brasil chama-se doutor Roberto Marinho.
É preciso prestar muita atenção à política vocabular senão a gente
dança o cruzado de novo. Se caudilho não for necessariamente sinôni-
mo de tirano, Glauber Rocha pode ser considerado um legítimo caudi-
lho do Kinema. Tudo depende do ponto de vista: populismo é povo. E,
como diz o folclore: saber mais que o povo é privilégio do Espírito Santo.
Quantos livros Fernando Henrique Cardoso tinha lido em 1964? O
que estava fazendo em 1964 o sociólogo Florestan Fernandes? Qual era
a do Octávio Ianni em 1964? E o fluxo libidinal de Francisco Weffort
em abril de 64? Essas perguntas são procedentes do fundo do coração,
pois é lamentável verificar que a sociologia do populismo é uma chan-
chada que debocha da grossura do povo com o pior sarcasmo da elite.
Paralelamente à linha chanchada da sociologia about populismo,
rola o nascimento do kinema que, em abril de 1964, estava montando
70
Deus e o Diabo na Terra do Sol, filme que seria censurado pelo governa-
dor Carlos Lacerda, aliás personagem fantasma em 1967 de Terra Em
Transe. Apesar da censura do governo Jango Goulart em cima de Barra-
vento durante um ano, Glauber Rocha escreve elogio de mil e poucas pá-
ginas à jangarana e, no final dos anos 70, acredita na ressurreição do
ex-presidente deposto.
O que é o colapso do populismo by Octávio Ianni à luz do Jango
de Glauber Rocha?
O caro eleitor de 1989 que ponha a mão na consciência antes de
proferir besteiras colonizadas sobre a experiência narodiniki de Getúlio
a Goulart. Em 1971 há o encontro de Glauber Rocha com Leonel Brizo-
la, encontro rememorado numa entrevista (1979) em Porto Alegre. O ci-
neasta diz o seguinte: "Eu acho uma pessoa altamente sensata. Estive
com ele apenas uma vez no Uruguai, fui levado a ele por Edmundo Mo-
niz. Brizola vivia num apartamento pequeno. Me recebeu muito bem.
Eu fiquei inclusive surpreso porque eu tinha a visão do Brizola como
incendiário castrista. Ele se revelou um homem altamente sensato, hu-
manista, racional". Além de anunciar a abertura política (e Geisel, o fu-
turo presidente da República), diz Glauber nessa entrevista o seguinte:
"O Tancredo é o maior enganador do País". Tancredo Neves gostava de
Carmem Miranda, gosto altamente colonizado que Glauber não engo-
lia, ao contrário da adoração por Jango, o homem bom comido pelo
povo durante o carnaval. Evidentemente, o cineasta sabia que João Go-
lart era a Casa Grande do Vargas e, detalhe importante, mesmo que não
fosse a Senzala, Leonel Brizola não entra como personagem da sua fil-
mografia, ou seja, Brizola não fará parte do cenário melancólico de Ter-
ra em Transe. O Vieira é o Miguel Arraes de terno branco, charuto nos
dedos, governador da província de Alecrim, representado pelo ator José
Lewgoy. Porfírio Dias é o ditador financiado pelo imperialismo da Ex-
plint, e que no filme rodado na Espanha em 1970, Cabezas Cortadas,
retorna como Diaz II na pele do general Franco enlouquecido antes de
morrer cantando o bolero "La vida es una roleta".
A Filosofia de esquerda da USP costuma pontificar que Glauber
em Terra em Transe filma as contradições do populismo, assim como em
Cabezas Cortadas ele filma a agonia de um caudilho pirado. E Glauber
filmou Terra em Transe com nojo, sentido vontade de vomitar diante do
astral etílico e corrupto de Eldorado. Terra em Transe filma Jango, J.K.,
Jânio, Lacerda, Adhemar de Barros, José Sarney, mas não filma Leonel
Brizola, nem tampouco aparece tematizado na peça de teatro "Jango uma
tragédia".
Em 1978 Glauber alerta-o, através de uma entrevista de jornal, pa-
ra não desbarbarizar seu discurso político em função do léxico peagadê

71
brasilianista da sociologia. Atenção Leonel Brizola, diz Glauber, seja uma
mistura de babalorixá e yhatolá que o povo votará em massa. Atenção,
cuidado: a linguagem da sociologia não atinge a comunicação popular.
O objetivo sacana do Imperialismo é tentar sociologizar a fala do Brizo-
la. Atenção.
- Não entra nessa fria de falar em "segmento arcaico do entulho
autoritário". Glauber situa Leonel Brizola no campo maravilhoso do fol-
clore, insistindo para que ele continuasse falando igual um vaqueiro can-
tador, assumindo a função de guia, mestre, zelador, pai, babalaô da tri-
bo brasileira.
A sociologia colonizada metida a grã-fina, desconhece a origem épica
do populismo. Inútil procurar os vestígios do Sr. Franco Montoro nos
jardins edênicos de Simon Bolivar. Por incrível que pareça, dentre as ca-
beças dos caudilhos populares cortadas destaca-se a do cineasta Glau-
ber Rocha que, com o golpe de 64, viu sua carreira política interrompi-
da: J~ngo, uma tragédia! Aí, trinta anos depois, a mídia anti~getulista
em Sao Paulo pinta o líder populista como exu da democracia.
~ estética do suborno, que é típica da imprensa anti-Getúlio Var-
gas, enge o sarcasmo como forma de gozar o povo, daí a visão iupi con-
servadora, veiculando sempre o estigma do popular como fonte de mau
gos~o. Para esse pessoal do sub-rock tropicanalha, enquanto houver po-
pulista no Brasil não haverá verdadeira modernidade. Porém, acontece
0
seguinte nisso tudo: ou as palavras perderam o sentido, ou eu fi9uei
maluco de vez. Por que não pode existir populista moderno ou caudilho
democrata? Depois do plano cruzado falar em manipulação do voto po-
pular é brincadeira ...
Justiça seja feita ao sociólogo Jacques Lambert, que não foi pro-
fessor de pós-graduação de Horeztez Cuercya. Em seu livro funcionalis-
ta so?re a América latina encontra-se a sutil distinção entre bons e maus
ca~?!lhos: Q~a~do o sociólo~o dos d~is ~rasis escreve o c~lebre tratado
po .1tico-tipolog1co, Leonel Bnzola esta exilado no Uruguai com 45 anos
( de idade, mas ele não analisa a trajetória política do cunhado de Jango
Goulart, assim como a sociologia antipopulista da USP guarda silêncio
t~tal a _respeito do seu pensamento nacionalista. E, apesar de todas as
pichaçoes de baixo nível o nacionalismo é a raiz do futuro do Brasil.
Não há outra saída. O ~elhor produto do Brasil ainda é o brasileiro.
. Penso em Carlos Guilherme Mota, autor cosmopolita de A Ideolo-
gia da Cultura Brasileira, com certeza tentarei persuadí-lo de que o mais.
co~pleto intelectual hoje em São Paulo chama-se Richard Morse. Dou
aqm o meu alô, não só por ser ele um exímio bailarino nas festas calien-
tes de Eldorado, mas por acreditar que o paulista é o mais brasileiro de
todos os brasileiros e brasileiras.
72
Atenção.
Maragatas e Maragatos, já dizia o padre Antônio Vieira: o espelho
é o demônio mudo. Richard Morse ama o mulheril erótico latino-
americana e, malgrado o espelho pornô partido da cunhã, ele sabe que
a Cia das Letras racha com a possibilidade de compreensão da identida-
de cultural, a compreensão da América Latina pelos intelectuais latino-
americanos. Richard Morse é o caudilho arlequim das letras e ciências
sociais de São Paulo. O espelho fatal do Narciso latino-americano é a
Paulicéia desatinada, cujo centro é novaiorquino, e a periferia califor-
niana. E como o demônio primeiro foi anjo e depois demônio, então
segue-se a idéia de que o brasilianist é o espelho falado do intelectual
paulista que escolhe como alter-ego o luxo e a mais-valia. Richard Mor-
se é um norte-americano estudioso do Brasil que se permite ao luxo de
tirar sarro da racionalidade ocidental, ele vê com os olhos de um come-
diante cheio de humor a fome, a miséria, o atraso. A visão dualista e
esquizofrênica de Jacques Lambert é substituída pela unidade do amor-
próprio colonizador que leu Serafim Ponte Grande. Um dia as namora-
das anglosaxônicas de Richard Morse expulsam-no dos Eisteitis e o co-
locam dentro de um paquete rumo à Cuba. Aos futuros punks, dirigidos
pelo general Franco Copolla, resta o desejo de bater a caçuleta no sweet
hell do Terceiro Mundo.

73
GEOGRAFIA DA PARANÓIA

Se o anjo da guarda da democracia corre fora da mídia, então eu


confio no aforisma de Marcel Mauss: é popular aquilo que não é ofi-
cial. Leonel Brizola não aparece em Terra em Transe porque ele não to-
mou até hoje nenhuma atitude contra o povo.
Um grande líder num partido político trabalhista pequeno, fraco,
pouca grana, poderá chegar ao poder e governar com gente de outros
partidos, ou de partido político nenhum.
Leonel Brizola, presidente da República, governará tendo a mídia
como principal adversário político. Este é um desafio que Vargas enfrentou
em sua época: a imprensa vai atrapalhar um bocado. Mas José Sarney
governou com uma imprensa a seu favor e, mesmo assim, foi um desas-
tre.
A americanização das eleições durante os anos 80 mostra que a po-
lítica é um apêndice da comunicação de massa.
O pensamento audiovisual alternativo ao esquema globo deve pe-
gar o que há de melhor da Globo.
O que há de melhor na Globo?
A Globo vai bem.
O Brasil vai mal.
Há rolando por aí a fofoca das colunas de jornais de que se, na
hora final da campanha, a Globo perceber que a parada já está decidida
a favor do Brizola, haverá um acordo cordial de cavalheiros: Roberto Ma-
rinho tentará compor com o próximo presidente da República. Seja quem
for, se não houver, no entanto, acordo nenhum - e se Roberto Marinho
continuar vivo - então o governo Leonel Brizola estará fadado a per-
manecer como um governo não oficial do ponto de vista da comunica-
ção televisiva.
É preciso observar a Geografia do Novo Poder em função do ·mo-
nopólio das comunicações.

75
De Brasília, Leonel Brizola preside o destino da nação, enquanto
no Rio de Janeiro, sede da Rede Globo, o Doutor Roberto Marinho edi-
ta a fabricação das notícias. Assim, teremos duas capitais do poder: Rio
de Janeiro e Brasília.
Se o Rio de Janeiro continuar um reduto eleitoral brizolista, então
outro canal de televisão cumprirá o papel de veículo da proposta Leonel
Brizola. O que é possível fazer, depois da Constituinte elaborada, no cam-
po das comunicações? A partir de 1989, pela primeira vez teremos um
governo federal dissociado da Rede Globo. Noutras palavras, o Poder
Central não se apresentará em simbiose orgânica com o poder da mídia
global.
Leonel Brizola prometeu cortar o laço de submissão entre o poder
supremo da República e o dono do monopólio da comunicação audiovi-
sual. O próximo presidente da República carece de um plano audiovi-
sual para enfrentar ou conviver à margem do monopólio global. Desde
1965 a Rede Globo coloniza a cabeça da opinião pública. Não se trata
apenas do poder de eleger alguns de seus candidatos, mas sim de interfe-
rir na carne e no comportamento dos seus milhões de telespectadores.
Os milhões de eleitores são também telespectadores que estão habi-
tuados a um padrão global de estesia.
Esta estesia faz parte de uma norma audiovisual implantada no Brasil
desde 1965.' Uma norma que faz sucesso, inclusive fora do Brasil, como
acontece com as novelas de TV.
. Paralelamente à interiorização psicológica dessa norma audiovisual,
existe um forte apelo sócio-místico em torno da candidatura Leonel Bri-
zola.

76
O DÓLLAR É NOSSO

O percurso do demônio ou a batalha entre o bem e o mal, passa


necessariamente pela questão do populismo e sua anfibologia semântica.
Demônio, em grego, significa sabedoria. Sábio demo. Nós vivemos
numa colônia multinacional diabólica, cuja estrutura mental é acentua-
damente supersticiosa. Embora reapropriado por mãos eruditas, o pac-
to divino com o diabo nasce no folclore, sendo transmitido oralmente.
O diabo, tal como a fé, entra pelas oiças. O povo continua acredi-
tando que não pode existir religião sem milagre. De Minas Gerais, Belo
Horizonte, Otávio Dulci insiste para que eu explicite didaticamente o ob-
jetivo da minha viagem.
Não quero absolutamente o retorno daquilo que aconteceu até 1964.
Meu objetivo é exorcizar das ciências sociais o conceito de populis-
mo, implodindo esse conceito de ponta a ponta, para deixar a sucessão
presidencial em 1989 livre dessa mistificação acadêmica que mais atra-
palha do que ajuda o debate político.
Depois deste livrinho, ninguém mais poderá usar a palavra popu-
lismo ou caudilho impunemente. Quer para o bem, quer para o mal. Desta
tarefa ficarei muito contente se conseguir eliminar do dicionário a pala-
vra populismo. Ainda que eu não consiga tal proeza, resta-me o consôlo
de mostrar, depois de ter examinado atentamente a sociologia acadêmi-
ca a respeito, que o populismo é uma forma sem conteúdo, espécie de
um vulto fantasmático, ou senão o único jeito possível de fazer política
no Brasil. De Jacques Lambert a Francisco Weffort ou Octávio Ianni,
é absolutamente insatisfatória e superficial a análise do fenômeno Getú-
lio Vargas, como se na passagem da ditadura do estado novo para a for-
ma legal de governo, o líder gaúcho dissolvesse seu perfil personalista,
tornando-se a encarnação pavorosa do populismo. Este quando chega
ao poder a aparência de esquerda do seu discurso se perde e, seguindo
a fatalidade do destino, converte-se em ditadura, portanto em traição à
massa popular, já que a raiz da demagogia populista encontra-se na de-

77
cantada impotência histórica da pequena burguesia, conforme o mode-
lo de análise extraído do 18 Brumário by Karl Marx.
Como não há no Brasil nem camponês nem pequena burguesia, e
até hoje não pintou no pedaço nenhuma guerra civil, então a Paidéia
anti-narodinik da nossa sociologia utiliza-se de um vocábulo incerto que
é aplicado a movimentos políticos distintos e a distintas épocas históri-
cas. No balaio populista entra o diabo: Getúlio Vargas, Newton Cardo-
so, Jorge Amado, Darcy Ribeiro, Fafá de Belém, etc.
A ciência política, acentuadamente urbanóide, culpabiliza a massa
que sai do campo para tornar-se massa de manobra na cidade sob a lide-
rança carismática. Se não fosse portanto, o coitado do Jeca Tatu, matu-
tão politicamente e perdido na urbs easy-rider, o discurso populista não
iria seduzir a sofist polis sem saneamento básico. Tudo que é bosta se
dissolve no ar.
Classe.
Nação.
Povo.
Karl Marx não meteu o pau na "idiotia rural"?
Sim, mas o jovem Marx casou-se com uma moça provinciana, as-
sim como o velho Marx não citou Juiz de Fora no Kapytal.
Aproveito a ocasião para evocar a conversa que tive com o físico
~ésar Lates em Campinas, revoltado com o prestígio da sociologia na
imprensa paulistana.
Agora é a hora do Pacto Social. Minha empregada doméstica não
1 me pede mais aumento de salário!
A sociologia marxista das classes sociais, que almeja abolir as clas-
ses, defronta-se com um problema sério de linguagem, pois entre nós não
ter _classe significa o fim da picada, ou seja, quem não tem classe não
esta com nada. Daí a birra da nuestra sociologia em relação à natureza
coligacional do populismo que dilui as fronteiras das classes em nome
da nação e do povo. Os símbolos da unidade populista, a nação e o povo
acabam por dissolver os antagonismos entre capital e trabalho, portanto
são símbolos abstratos que não devem ser manejados por um partido
político de inspiração trabalhista. Sob esse ângulo vale a pena observar
que a sociologia da pós-modernidade acusa os líderes populistas de con-
siderarem o imperialismo (ou o colonialismo) como bode expiatório da
miséria brasiliana. Assim, os líderes populistas seriam políticos deliran-
tes paranóicos, e com visão conspiratória da história, enxergando em to-
dos os momentos de crise a manipulação sorrateira ou descarada da Cia.,
da KGB, do FMI. Ao invés desse delírio persecutório em cima do que
é capaz de armar o monstro do Imperialismo na América Latina, o que
vemos nos últimos anos é a tendência à despolitização do inimigo exter-

78
no. Quanto mais o País se internacionaliza na derrama financeira do bank,
menos se fala ou se comenta sobre a dominação imperialista.
A teoria sociológica da modernização reproduz a ideologia do so-
cius bank internacionalizante, portanto refratária à emergência de um
populismo nacionalista na América Latina.
Aos meus amigos sociólogos do PT de São Paulo, com os quais dia-
logo nesse pequeno ensaio, pois o PT é meu principal interlocutor, apro-
veito a ocasião para alertar a galera trabalhista que o marxismo-leninismo
(quando aborda a experiência populista de 30 a 64) é vítima do funcio-
nalismo anglo-americano que fragmentou a compreensão da América
Latina.
Quem denunciou isso não fui eu. Quem denunciou isso de modo
documentado, como prefaciou Antônio Cândido, foi o brasilianist Ri-
chard Morse, o historiador da cidade de São Paulo. Maria Benevides Vi-
tória, com quem aliás aprendi muito na USP, colega minha de ciência
política nos anos 70, sabe evidentemente que não tem o menor cabimen-
to científico estigmatizar in abstrato o populismo como anomalia, ou
como um desvio perigoso em relação ao pluralismo das democracias
liberais.
A conotação da palavra populismo como algo negativo aparece na
teoria dualista de Jacques Lambert que divide o País em setor arcaico
e setor moderno. Segundo ele, enquanto prevalecer o universo arcaico-
tradicional, teremos a emergência de um líder messiânico e caudilho. Trinta
anos depois o tucano Fernando Henrique Cardoso repete as mesmas te-
ses binárias de Jacques Lambert, colocando a culpa no sistema presi-
dencialista, o qual favoreceria o aparecimento do caudilho que, por sua
vez, é responsável pela instabilidade política da América Latina. Segun-
do o ex-príncipe da sociologia, somente o parlamentarismo conseguiria
eliminar a sedução do caudilho. Se o carisma é o demo, então vamos
eliminar esse obstáculo à estabilidade política latino-americana. Essa é
a lógica que preside a atitude de cortar as cabeças dos caudilhos. Getú-
lio, Jango e... Leonel Brizola.
Nesse meio termo surge a figura complexa de Jânio Quadros, que
é batizado equivocadamente de populista de direita, quando na verdade
ele é apenas de direita. Afinal, não basta possuir capacidade de manipu-
lação popular para ser considerado populista.
J ânio Quadros execra o povo brasileiro. Se voltar à Presidência, ele
vingará o povo, levando-o à guerra. No fundo do seu transe etílico existe
um egoísmo brutal de vingar o povo que não o carregou nas costas em
1961.
No caso de Jânio Quadros é impróprio falar em aliança espúria,
ou na substuição da classe pela massa. Os militantes do PT sabem que

79
entre Jânio Quadros e Leonel Brizola existe um abi~mo; ?ânio Qua~ros
é um político da classe dominante, conforme advertm vanas vezes o Jor-
nalista Cláudio Abramo.
Jânio Quadros é responsável pelo antipopulismo nas forças ~rma-
das. Jânio Quadros é refratário à idéia de representação, embora seJa um
ator de teatro. Jânio odeia a representação democrática e, no íntimo, não
acredita no dispositivo do voto, ainda que o voto seja a seu favor. Nada
há de mais esquisito do que o doutor Caligari fazer o jogo da anti-
representação: na rua, ele pára o tráfego e vai - ele mesmo - pegar
a caneta e multar os automóveis. Não existe instância alguma de autori-
dade delegada: a autoridade é ele. O que reside é a persona, não o cargo,
a função, o papel. Jânio atrai a população paulistana porque sabe ex-
plorar o inconsciente policial da cidade de São Paulo.
A psicologia da massa do paulistano, parodiando Wilhelm Reich,
não foi enganada; ela desejou sexualmente trepar mais uma vez com Jâ-
nio Qµadros.
E bem verdade que a alternativa em São Paulo era Fernando Hen-
rique Cardoso, o sociólogo que acredita mais na estatística do que no
folclore. Em sua desastrosa campanha eleitoral, Fernando Henrique Car-
doso não ouviu as lições sobre o transe de seu mestre Roger Bastide, nem
viu também as imagens sócio-místicas by Alexandre Nevisky do Sertão,
de modo que cioso da sua personalidade de político moderno, e por ca-
recer inteiramente de um substrato demoníaco, foi levado a menospre-
zar o coeficiente superticioso da mentalidade popular. Eu amo São Pau-
/ lo, but é inegável a aura policial da bandeirante city: a polícia dá tesão
em muito mais gente do que se imagina quando Jânio Quadros toma
0
poder como um Borba Gato viajado, esnobando as previsões empíri-
cas das pesquisas sociológicas. Jânio Quadros ama Londres, cidade on-
de ele não tem nenhum voto.
A aura classe média que envolve a libido policial em São Paulo se
confunde com o tesão pelo nababo milionário. O candidato que já é ri-
co pelo menos não precisa roubar quando estiver no poder, eis a boçali-
dade democrática tão explorada pela mídia, que se enche de grana com
a atual mistificação das pequisas do IBOPE. Não se discute ideologia.
O que interessa é a estatística, o candidato se confunde com a sua per-
centagem no mercado da opinião. A ideologia é número. Ascender ou
d_espencar das pesquisas, eis o destino do candidato enquanto número
cifrado pelos organismos capitalistas de pesquisa.
Nem a República de Weimar da Alemanha, de Theodor Adorno se
compara, em termos de modernidade eleitoral, com o sofisticado pro-
cesso tecnológico da República Zé Sarney. Não se trata apenas de de-
nunciar essa faceta repressiva do iluminismo nos trópicos (o fetiche da
80
racionalidade numérica que caracteriza o monopólio da comunicação
de massa), mas sim o perigo que representa a atitude moderna e "cientí-
fica" de se apontar previamente, através das pesquisas eleitorais, a can-
didatura derrotada. Isso, bem entendido, num país em que existe, de modo
generalizado a idéia maluca do voto perdido.
Ninguém quer perder o voto. ,
Voto perdido é aquele voto que não elege o candidato vitorioso. E
o voto inútil. O Brasil pós-moderno entra desatinado na ditadura do mar-
keting eleitoral. O pesquisador da Data Folha não consegue olhar para
o pesquisador do IBOPE sem caírem ambos na gargalhada.

81
O POVO E AS ELEIÇÕES

O glorioso e ordeiro povo brasileiro vive o seguinte paradoxo: vê


com profunda desconfiança a existência de eleição mas, ao mesmo tem-
po, é um teimoso eleitor. Ele adora votar, é um obstinado eleitor, porém
desconfia da eficácia das eleições. As eleições de nada servem junto com
a péssima fama de que goza a clase política. O povo acha a carreira par-
lamentar uma ocupação de gente desonesta, egoísta, mau caráter. Ne-
nhum presta!
O brasileiro não diz nunca em quem vai votar na hora agá. Des-
confiado, improvisador, quando diz antes em quem vai votar, aí então
vota no candidato vitorioso. Isso é uma loucura porque a antecipação
lúdica da vitória surge como uma defesa sentimental mais forte do que
a idéia que temos de voto consciente de voto convicto de voto otário,
de voto comprado. Decorre daí que a 'eleição, do ponto 'de vista psicolo-
'

gico, tende a se confundir com um ato de fantasia do eleitor. Cada cabe-


ça uma sentença. A eleição converte-se num jogo, como se votar foss~
um ato ludens. Se for para ganhar na aposta, o homem brasileiro dá no
em pingo d'água; mas detesta obrigação de voto, assim como acha ridí-
culo o dever de eleitor, e inútil o compromisso de votar.
Não há uma ciência das eleições no Brasil. Ao que tudo indica, em
nossa história republicana, uma eleição não tem nada a ver com outra
eleição. De nada vale realizar um esclarecimento, minucioso e analítico,
sobre o passado eleitoral. Isso porque a reminiscência está sempre au-
sente; é débil nossa sensação do pretérito. Tampouco sentimos saudades
eleitorais dos tempos idos. Afinal, qual o motivo dessa especificidade
nacional da democracia? a resposta é difícil e varia conforme as circus-
tâncias, todavia cumpre não esquecer que nascido no mês de janeiro de
1501, o brasileiro é o mais jovem eleitor do planeta. Trata-se de um elei-
tor tipicamente adolescente, e psicologicamente incapaz de abstrair a con-
temporaneidade, denunciando a idolatria por tudo aquilo que é recente
ou do que acabou de acontecer. Assim, temos um verdadeiro culto do
83
recentismo, mas nenhum abandono íntimo diante do que é recente. O
homem brasileiro, conforme definiu tão bem o folclorista Luís da Câ-
mara Cascudo, é um "parasito do contemporâneo". O que passou, pas-
sou. Deixemos o passado para o passado. Não foi Machado quem disse
que os mortos ficam bem onde caem? Impelido a não se desgrudar nun-
ca do presente, o homem brasileiro ama loucamente a unidade do ritmo
nas paradas, nos desfiles, nas procissões. O ponto de ligação tribal, aquilo
que une religiosamente a coletividade, é a pontuação rítmica, variando
apenas o andamento, seja da gaiola ao espaço livre, seja do galho da goia-
beira para o alçapão. O roteiro desse vôo é quase sempre em diagonal,
e nunca voando com facilidade na linha direta. Adia-se o amanhã. Ano
que vem. O venerando jeitinho far-se-á por acaso. Tudo por acaso e, na
seqüência imprevisível dos acontecimentos, as técnicas de podação - todo
mundo se podando um ao outro, invocando às vezes o lance do destino,
da sorte, da providência, declarando maquinalmente que não há solu-
ções definitivas. A terra evidentemente é boa, em se plantando tudo dá,
mas acontece que o povo não presta, salvo aqui a gente e os nossos amigos.

84
FALÊNCIA DE TUDO POR CAUSA DE TODOS

Talvez fosse mais razoável dizer que por causa de alguns poucos ir-
responsáveis chegássemos ao estágio inadimplente, ao sentimento cole-
tivo da falência, embora sejamos ainda tolerantes e flexíveis com adis-
tinção sentimental entre povo e governo, cuja distinção aliás é proble-
mática em qualquer lugar do mundo.
Cada povo tem o governo que merece.
A história nos ensina a desconfiar da história, sobretudo depois que
se ouviu em demasia, durante os últimos 30 anos, a frase célebre de Karl
Marx: A história só' se repete como farsa. Pois sim ... Ulysses Guimarães
e Jânio Quadros foram colegas de Academia em São Paulo. O novo, in;
forma Fernando Pessoa, não se contrapõe ao velho, e sim ao antigo. E
sempre bom imaginar que o bandeirante Borba Gato jogou Castelo Bran-
co do alto de uma ribanceira.
A ousadia do pensamento de Glauber Rocha (1939-1981) merece ser
louvada nesses tempos de ceticismo baixo astral e desalento generaliza-
do. "Hegel transformou Cristo num Deputado", disse o cineasta em 1979,
investindo contra o prestígio intelectual da palavra dialética: "Marx, bur-
guês germanyjuday-ko que se casou com a virgem Jenny, símbolo de mo-
ralismo provinciano".
"Esposando Jenny, Marx estava certo de que não seria corneado,
eis o drama sexual do gênio capitalista. Marx comeu a criada, o filho
nasceu e Engels assumiu a paternidade pra não sujar o nome do chefe
da Internacional. Para Engels, o milionário britânico que proletarizou
o selvagem Marx, o sexo era pekado".
Na mentalidade popular contemporânea, a ética da chamada "classe
política" anda mais suja do que pau de galinheiro. Vivemos esse para-
doxo de uma Constituinte "moderna", "progressista", "civilizada", jun-
to com a má fama dos que a elaboraram: - bando de marajás!
O atual Brasil de 1980 assemelha-se a Portugal do século XVII com
Xuxa and Pelé: ladrões grandes enforcando ladrões pequenos. Nação di-
vidida entre bandidos e oportunistas.

85
Não espanta o registro do jargão sociológico incorporado ao lin-
guajar da plebe assalariada: •!.._ Gatunos de colarinho branco!", a~usa
o boy amarelinho da firma multinacional citando o sociólogo Wnght
Mills.
A temperatura psíquica do País favorece o aparecimento da crítica
de teor moralista em cima da corrupção e da safadeza. Para desgraça
da direita pós-ditadura militar, não vingou nenhum líder histérico-retórico
do tipo Carlos Lacerda.
A "crise" não é só falta de grana no bolso; mas inclui também a
questão do poder das idéias, que se tornou motivo de chacota com a im-
plantação da moeda cruzado e a desastrosa experiência do ':.\.gio system":
de um lado a plus-valia esperta, de outro lado o agiotário.
Ainda bem que antes das eleições de 1989, das civilizadas Minas
Gerais, o cientista político Otávio Dulci escreve um ensaio brilhante so-
bre a confusão semântica em torno do populismo.
A UDN e a Bossa Nova.
O populismo e a Niueivi.
A nova onda e a Globo.
Eis o grande mérito de Otávio Dulci: fazer a desmontagem, a ana-
tomia do fantasma populismo, que continua sendo o espectro político
da transição democrática. Quem batizou a criança de populista foi o po-
lítico mineiro Pedro Aleixo? Em São Paulo, o pai da idéia terá sido Gino
Germani? Que é o Fernando Henrique da Argentina, o sociólogo italia-
no neo-liberal-capitalista-cosmopolita, autor de uma famosa teoria da
modernização, anglo-americana e antipopulista, para a América Lati-
na. O que funde a cuca da modernidade no Brasil é que a sedução por
um regime autoritário faz parte da tradição política que se insurgiu con-
tra os governos populistas. Para extirpar o demônio do populismo, a éti-
~a li~eral-conservadora não vacila, se preciso for, em apelar para os meios
Ilegais da violência e do golpe, branco, vermelho, cruzado.
Em Belo Horizonte, Otávio Dulci matou a charada ao revelar que,
no vocabulário da ciência política, a noção de golpe é uma noção anti-
populista. A tese de Otávio Dulci, embora mantendo a cordialidade ci-
vilizada em relação ao inegável papel inovador dos mestres da sociolo-
gia da USP, surge como um molotov epistemológico nas Ciências So-
ciais dos últimos 40 anos. Na verdade, os inimigos ideológicos do regi-
me democrático populista são os intelectuais golpistas das elites, os teó-
ricos autoritários da modernização. É o caso de Gino Germani, cuja obra
serviu para justificar sociologicamente a queda de João Goulart: Segundo
ele, a democracia populista é um desvio no caminho da modernização
das instituições políticas. Ora, essa ideologia funcionalista e neocoloni-
zada, por incrível que pareça•, faz a cabeça da oficialidade militar tecno-
86
burocrata. Até mesmo a Escola Superior de Guerra se deixa seduzir pela
cantada modernizante da UDN antipopulista.
O cientista Otávio Dulci derruba o edifício teórico antipopulista mon-
tado pelos sociólogos da USP à medida que revela os responsáveis inte-
lectuais pelo golpe militar de 1964, ou seja, os teóricos civis liberais con-
servadores apavorados com a "instabilidade" política do regime popu-
lista. Até o aparecimento em 1986 do livro A UDN e o antipopulismo
no Brasil, a sociologia da USP sempre considerou o populismo como
o vilão responsável pelo desastre de 1964. A teoria do autoritarismo bra-
sileiro, elaborado pelo Cebrap durante os anos 70, é uma espécie de su-
cedâneo peagadê da resistência antipopulista da UDN que colocou tra-
gicamente as Forças Armadas contra João Goulart, aliás, um afável e
cordial caudilho que não era inimigo do exército.
Da autópsia do Janguismo, feita corajosamente pelo cineasta Glauber
Rocha, pode-se tirar a mesma conclusão do ponderado e gentil cientista
mineiro Otávio Dulci: o Brasil só vai dar certo quando exorcizar, na prá-
tica política, o fantasma do populismo. Segundo Glauber Rocha, Jango
Goulart é um herói trágico que não desperta nenhuma simpatia na intel-
ligentsia sociológica de São Paulo. No fundo, a sociologia adorou que
Jango tivesse caído, pelo menos é isso o que se conclui ao julgar o que
a ciência política escondeu a respeito da ascensão e colapso do populis-
mo.
A sociologia não tem culpa disso?
Ninguém tem culpa de nada, a noção de culpa se dissipou com a
modernidade pós-1964. Como já dizia o esquecido filósofo Tobias Bar-
reto: - a sociologia é uma frase!
O que está em jogo não é apenas a necessidade de desmontar a má
consciência dos cientistas sociais da USP, mas sim a mistificação dessa
linguagem que se baseia na reprodução servil do Dezoito Brumário de
Karl Marx, sobretudo o conceito marxista de Estado bonapartista e mo-
dernizante aplicado ao "Ciclo Populista" de 1946 a 1964, ou seja, a tran-
sição da política dos "Notáveis" para a política de massa. A intelligent-
sia sociológica abomina o obscurecimento dos interesses de classe no re-
gime populista, em particular a ausência de uma política autônoma de
classe, ou seja, a falta de hegemonia de uma classe, o que acaba por con-
ferir ao Estado o papel de árbitro das classes.
Essa retórica acadêmica não enxerga que existe o homem dentro
da massa, aliás a crítica sociológica antipopulista é mais chegada na classe
do que na massa.
Getúlio Vargas nunca empregou o termo "populista".
É inegável a existência de uma inveja fálica da parte das elites anti-
getulistas que não conseguem ejacular um líder de massa.
87
Nós estamos precisando de uma psicanálise do antipopulismo so-
ciológico. O ideal seria a psicanálise dessa invejalibidinal empeendida
por uma mulher psicanalista. Para não cair na mistificação do pau-grande-
Brasil, mas sem deixar por outro lado de retratar a brochada que carac-
teriza o sarcasmo antipopulista do pensamento sociológico. Para variar,
foi Glauber Rocha quem deu esse "close" no amor de cama em João
Goulart, comparando-o com a fofoca das mulheres mal-amadas de Car-
los Lacerda.
A Nova República é brocha. Se correr solta a livre manifestação da
vontade popular, não há dúvida de que a preferência é pelo populismo
garanhão.
Tem muita gente boa que torce por ver implantado um matriarca-
do populista no Brasil. Tenho absoluta certeza de que, se vivo fosse, Os-
wald de Andrade iria vibrar com a dimensão feminina do Brizolão, que
é simbolicamente o pai substitutivo da criança pobre.
A utopia civilizada do antropólogo Darcy Ribeiro deu certo: é feliz
a combinação Home/Feme no Ciep, sublime criação Diadorim desse mi-
neiro órfão de pai que, em agosto de 1954 - com o suicídio de Getúlio
Vargas - descurtiu a perspectiva catastrofista das esquerdas sentimen-
tais que pintam a Revolução como o dia violento de se virar a mesa.
Darcy faz. É justo o slogan. Trata-se de um intelectual que realiza
as idéias, põe em prática aquilo que mentaliza em teoria. Não espera che-
gar o tal dia da Revolução.
Darcy faz a obra acontecer. Ele sabe que esse negócio de populis-
mo é manha da direita modernizante, liberal e tecnocrata. ·
Minha admiração por Leonel Brizola: ter indicado um intelectual
so~isticado como Darcy Ribeiro para disputar o governo do Rio de Ja-
neiro em 1986. Voltaire no Poder, Leonel Brizola jogou tudo em cima
da dialétic~ i.luminista dos Cieps, apostando no sonho da Educação Po-
pular Brasileira: Darcy Ribeiro, discípulo do grande Anísio Teixeira, edu-
cador das massas tal qual seu amigo maestro, Heitor Villa-Lobos. Ades-
graça das eleições passadas em que ganhou o brasilianista Moreira Franco
(colega na PUC do cineasta Sérgio Santeiro) é que o plano cruzado·pe-
gou Darcy Ribeiro de surpresa. O plano cruzado foi bolado pela patota
economista e empresarial da Unicamp que tem ódio do charme de Darcy
Ribeiro. De um modo geral os professores em São Paulo não perdoam
Darcy por ter dado força no projeto Universidade do Brasil.

88
PORANDUBA DA DITADURA

Florestan Fernandes precisa inteirar-se de que a crítica ad populis-


mo no Rio de Janeiro é uma política burguesa cooptada pelo doutor Ro-
berto Marinho. Os discípulos de Florestan acentuam que não há, em sua
sociologia, um tópico destinado à reflexão sobre o Estado, embora ele
tenha condições de pensar a TV Globo como partido político plutocrá-
tico. Por linhas tortas, o limite - tanto de Florestan quanto de Suplicy
- é a hegemonia acústico-sentimental da TV Globo. No entanto, a crí-
tica anticapitalista aos meios de comunicação de massas é a única estra-
tégica política importante de oposição em São Paulo, sem a qual o PT
não erguerá a moral para pleitear o governo. Basta observar, na farsa
eleitoral de 1986, que o marketing empírico das pesquisas realizadas pe-
los jornalões substitui progressivamente o texto pela estatística, até che-
gar no clímax da modernidade concebida pela grande imprensa: o pre-
domínio absoluto do gráfico. No Rio de Janeiro, elo mais fraco da Nova
República, entre o cinismo e a má consciência, o editor Zuenir Ventura
justifica, através de um relativismo de frase feita, a revolta da população
contra a empresa de notícias: se assim é, assim lhe parece a farsa eleito-
ral da Nova República. O jornalista apolíneo Carlos Castelo Branco te-
me pelo futuro de seu emprego, pois a pesquisa eleitoral é capaz de aca-
bar definitivamente com a opinião do articulista político. Manipulada
'segundo os caprichos dos donos dos jornais, a pesquisa de opinião pú-
blica é um negócio da China para a classe política, não obstante o custo
da informação aumentar com a vulgaridade ideológica. Em São Paulo
caberá ao setor politicamente saudável do PT a desmontagem dessa mis-
tificação capitalista, assim como ao pessoal udigrudi da Vila Madalena
caberá o boicote organizado aos assinantes imbecis dos jornalões, única
panfletagem possível para mudar a realpolitik mercenária da grande im-
prensa. Em última instância, o eleitorado é o caro leitor que traz anún-
cio classificado aos jornais. Portanto, a hipocrisia em torno da atitude
pluralista da grande imprensa significa pluralidade de anunciantes ricos.
89
O ódio anti-Globo desencadeado no Rio de Janeiro em 1986 deixou de
ser apenas uma encucação paranóica de alguns videntes mortos, como
Hélio Oiticica, Torquato Neto, Glauber Rocha. O leitor atribui ao jor-
nal a nobre tarefa de fazer sua cabeça, ou seja, de formar a opinião pú-
blica. Assim, a opinião pública converte-se na imagem do jornal, círcu-
lo vicioso de lá pra cá. De fato, é uma cadeia formada de grandes jor-
nais & televisões que dividem entre si o mercado da comunicação. Se a
imprensa abdica de interferir na formação da opinião pública, então a
imprensa não é chongas, posto que não se pode dizer que jornal seja
literatura. A relação interna do jornal é o reflexo dessa estrutura empre-
sarial que desqualifica a opinião pelo cálculo comercial, inclusive as pes-
quisas entre os leitores para saber a quantas anda o ibofe de determina-
do articulista. Conforme o ibofe, o jornalista vai para o olho da rua,
mas se tiver boa cotação entre os leitores, aí então obtém promoção sa-
larial por ser um bom vendedor. Quem vende e quem não vende, eis o
new jornalism da Nova República. O baixo nível da imprensa brasileira
é o espelho da nossa decadência cultural; todavia há um aspecto positi-
vo nisso: o descrédito generalizado. Tudo indica que a imagem deprecia-
tiva será a imagem da imprensa no futuro. Oxalá um dia se chegue na-
quele estado dadaísta em que a notícia atrapalha.
Jornal enche o saco!
O desafio das forças progressistas consiste em saber deslocar o es-
paço da política para outro lugar que não os meios de comunicação de
massa. Eis a questão fundamental do PT em São Paulo e do PDT no
Rio de Janeiro: o que fazer para minar politicamente a mídia?
Em São Paulo, talvez por causa da influência jesuítica no PT, exis-
te _uma miopia crônica a respeito da política audiovisual, assim como
existe uma moucura estrutural em relação à importância do ouvido, o
ó~gão reprodutor da sociedade. O PT paulista carece de imprensa, de rá-
dio, de TV. Alguns de seus membros assinam colunas em jornais. Os ba-
dalados figurões do PT comentam a política da sociedade mas nunca
comentam a política da comunicação ou a comunicação da política. Por
que não fazer que nem Moçambique, que chamou Jean-Luc Godard pa-
ra cuidar do audiovisual?
Se o Lula chamar o Godard para vir a São Paulo, ele certamente
virá implantar a TV do PT. Por que não?
Não é difícil ao deputado Lula compreender a luta de classes como
luta entre som & imagem. Amigo de Glauber Rocha, Jean-Luc Godard
sabe falar o português de Noel Rosa, além de abominar a Rede Globo,
conforme o recado que ele mandou ao ministro Celso Furtado: - cen-
suram minha Virgem Maria mas deixam a Globo no ar!
90
E eu, que já ouvi de Octávio Frias Filho, em 1978, a frase lapidar
sobre opinião pública: - "só idiota escreve carta pra jornal".
Para Jean-Paul Sartre, o colonialismo é um sistema de comunica-
ções. Jean-Luc Godard queria tocar fogo no cinema. Glauber arremata
o lance: não é preciso nem ter ido nunca ao cinema. A ideologia do co-
lonislismo sai de cena dos anos 70 em diante, nenhum dono de jornal
brasileiro leva a sério o nacionalismo, ou a questão da identidade cultu-
ral do povo brasileiro. O Brasil é visto como um mercado, apenas um
serviço espaço onde se ganha dinheiro, mera ocupação profissional. Po-
bre de quem acredita no jornalismo. Ilusão perdida. A imprensa está ca-
da dia mais desacreditada. No entanto, a pesquisa empírica dos jornais
orienta a sondagem da opinião pública.
Recorde-se o episódio engraçado ocorrido nas eleições à prefeitura
de São Paulo. Eufórico, o príncipe da sociologia senta no trono antes
da hora, quiçá por não ter visto nunca Eisenstein, ou por confiar de-
mais na previsão empírica dos votos. Em geral, o homem brasileiro po-
bre não diz em quem vai votar antes das eleições.

91
DEMOCRACIA OU O REINADO DO
DEMÔNIO

O grande lance não é desmontar analiticamente a falácia elitista e


autoritária do antipopulismo, mas sim explicar porque as forças arma-
das que, em 1930, tinham perfil populista, trocaram os pés pelas mãos
ao desfecharem o golpe antidemocrático contra o populismo em 1964.
Ora, como diz o povo, o segredo do bom cavalo consiste justamente em
não meter os pés pelas mãos. A tragédia talvez exija o teatro como inter-
pretação histórica, e não a sociologia que, até o presente momento, na-
da disse de valioso que interpretasse o suicídio de Getúlio Vargas e a queda
de Jango Goulart. Diga-se de passagem que o pontó de discórdia entre
o sociólogo Fernando Henrique Cardoso e o cineasta Glauber Rocha gi-
ra em torno da interpretação histórica do golpe militar. As razões do golpe
de abril, segundo o cineasta, estariam na Guerra do Paraguai. O exército
brasileiro foi enganado pela retórica liberal da UDN, que pintou a lide-
rança popular trabalhista com o espectro do comunismo e da subversão.
Era portanto completamente dispensável a contrarevolução militar de ca-
ráter preventivo em 1964. Esta somente ocorreu porque alguns generais
embarcaram na retórica liberal-autoritária da UDN, cuja obsessão era
extirpar as promessas dos caudilhos e dos líderes populistas. Quem sabe
a contrarevolução de 1964 não será nosso 1917 de cabeça para baixo? I
Por que Glauber Rocha concebe o ex-presidente João Goulart como per-
sonagem trágico? Não é apenas porque Jango mancava de uma perna
e não podia dar o salto histórico. Na ópera do populismo deposto, o trá-
gico exige como mise-en-scene o teatro de Nélson Rodrigues: "O gatuno
é uma fatalidade do desenvolvimento", ou seja, Jango, por formação in-
telectual, era amigo do exército, mas foi vítima do amor recusado por
alguns generais brasileiros colonizados pelo Pentágono de Kennedy e Lin-
don Jonhson. Anos depois, no exílio, João Goulart (apresentado por
Darcy Ribeiro) queixa-se a Glauber Rocha da ingratidão do exército bra-
sileiro, que não soube compreendê-lo em 1964. Jango Goulart resistiu
em reagir ao golpe militar antipopulista por motivos de Paz e Amor. Não

93
houve derramamento de sangue porque Jango recusou a pegar em ar-
mas e evidentemente tal recusa está fundada em razões afetivas profun-
' . , .
das, inclusive o receio de provocar fratura violenta na umdade do exerci-
to, instituição que seria responsável por uma guerra interna civil dentro
do País. Esse confronto bélico de um exército constitucional janguista
contra um exército insurgente, anticonstitucional, iria fatalmente frag-
mentar a grande unidade inter-regional do nosso território, fragmenta-
ção que somente ajuda os imperialismos estrangeiros das nações hege-
mônicas. Jango Goulart não reage à ofensiva do setor subversivo e anti-
populista das forças armadas por causa da sua convicção em manter in-
tacta a unidade territorial, que foi conquistada pelo Império, apesar da
estúpida Guerra do Paraguai, aliás decretada injustamente de sopetão,
sem nenhum aviso prévio da parte de Solano Lopes.
É preciso compreender a personalidade do ex-presidente gaúcho co-
mo um estadista pacífico, cordial, afável, e não um bandoleiro, sangui-
nário, golpista, subversivo, centralizador. Em abril de 1964 a "Guerra Re-
volucionária'', no interior de um exército populista versus um exército eli-
tista, traria nefastas conseqüências para toda população, principalmen-
te os setores pobres, os carentes, as classes médias que ignoravam o que
estava se passando com a queda de Jango e a implantação de um mode-
lo de desenvolvimento antipopulista.
Para se ter uma idéia do alcance histórico provocado pela retórica
moderna e neoliberal da UDN lacerdista, basta imaginar que a elite dos
professores de sociologia da Universidade de São Paulo não tinha em
1964 a mais vaga idéia de que setor do exército havia dado o golpe. Até
mesmo os professores especialistas em Ciências Sociais e Políticas esta-
vam completamente por fora dos acontecimentos da trágica jangarana.
Nas escadas da Faculdade Maria Antônia, Francisco Weffort pergunta-
va atônito a Fernando Henrique Cardoso:
- Afinal, de onde vem o golpe?
Nenhum professor de sociologia, entre 1961 e 1964, se dispõe a po-
lemizar publicamente com a alternativa antipopulista e reacionária apre-
sentada pela acústica de Carlos Lacerda. É deveras esquisito que nenhum
professor especialista em Weber, Marx, Durkheim, tivesse a iniciativa de
dialogar com as Forças Armadas, a fim de conter ideologicamente o golpe
antipopulista. Os estudantes de Ciências Sociais pegavam no sono, to-
das as noites, embalados pela voz de Carlos Lacerda discursando contra
a reforma agrária, o perigo vermelho, a morte da família, caudilhos co-
mendo criancinhas ...
Não se deve menosprezar o efeito persuasivo da passional retórica
lacerdista, inclusive junto aos ouvidos dos militares sequiosos de retóri-
ca. Todavia a UDN não deixa uma teoria sobre o populismo no Brasil.
94
Essa tarefa teórica caberá aos sociólogos da USP que, a partir de 1967,
começam a formular suas teses a respeito da liderança populista como
bode expiatório do golpe de 64. Então, se a UDN do Rio de Janeiro é
a prática política antipopulista, a sociologia da USP em São Paulo será
a teoria antipopulista dessa prática, porém formulada quando o vilão
do populismo está morto a partir de abril de 1964. A infra-estrutura da
política udenista corresponde à superestrutura da sociologia que teoriza
o enterro difícil do morto populista. Trata-se de morto-vivo, fantasma,
alma penada, errante que desafia no entanto o epitáfio oportunista e apres-
sado da teoria sociológica insensível ao fluxo descolonizador da janga-
rana nacionalista.
O moderno pensamento sociológico made in USP, influenciado por
Gino Germani e Jacques Lambert, parece que tem mais tesão no elitis-
mo do Carlos Lacerda do que no caudilho Jango Goulart. Ao contrário
do que ocorrerá no período entre 1967 e 1974, com o Kinema Novo, que
nasce em setembro, 1964, ou seja 6 meses depois do golpe, quando Glauber
Rocha, aos 25 anos, estava absorvido na montagem de Deus e o Diabo
na Terra do Sol.
Quando é que as Forças Armadas começam a ser objeto de estudo
e reflexão do Kinema? Em Terra em Transe, 1967, três anos após o gol-
pe, Jango Goulart não aparece no filme, assim como não se pode dizer
que Terra em Transe seja um filme antimilitar. Ao que tudo indica, o
cineasta começa a refletir sobre o papel das Forças Armadas a partir do
seu mergulho profundo, durante os anos 70, na tragédia do janguismo:
por que o homem bom pro povo foi derrubado pelos militares? Mas os
militares foram seduzidos pela retórica liberal antipopulista de Carlos
Lacerda, que no íntimo da sua psiquê ambígua sentia atração passional
por Antônio das Mortes, o espelho mítico de Lampião, o perverso ban-
dido do povo, segundo nosso folclore. Em 1976, Glauber acusa a esquerda
do Rio de Janeiro de não saber compreender o amor recusado de Carlos
Lacerda por Corisco e Antônio das Mortes. A vingança diabólica de Car-
los Lacerda virá com a reação fascista de Dias (Paulo Autran) em Terra
em Transe: o tirano de direita não precisa mais servir nem ao poeta nem
ao jornalista de esquerda. No filme, através do personagem Paulo Mar-
tins (Jardel Filho), Glauber Rocha se mata como poeta ao exorcisar o
transe do exu Carlos Lacerda, político genial e permanentemente em busca
de uma ideologia, sobretudo porque a esquerda carioca perdeu o auto-
móvel no Country Club.
O suicídio de Getúlio Vargas em 1954 é o destino do poeta suicida
que pergunta: - e o papel das mulheres na Tragédia Jangarana? Maria
Thereza transforma-se em Princesa no Tango Jango, Danusa Leão no
filme a Idade da Terra sente asco dos homens. As mulheres não são res-

95
ponsáveis históricas pelo golpe de abril em 1964. Carlos Lacerda nunca
teve fama de garanhão, lírico, conquistador. Por outro lado, o setor
"Bossa-Nova" da UDN sempre preferiu o estômago ao sexo. Então, psi-
canaliticamente falando, estabelece-se uma clivagem entre o poder polí-
tico e o poder sexual, como se a potência estivesse fora do lugar certo.
Na década de 80, durante a Nova República, o poder declara que já não
tem poder.

96
RETORNO AO REPRIMIDO

Em Brasília, 1988 nasceu a idéia de escrever este livro sobre a con-


fus~o semântica, armada pela esquerda e pela direita, em torno _do po-
pulismo no Brasil. Não tive a menor dúvida na hora em que ouvi na ro-
doviária a pergunta: - Tá com Brizola ou tá com medo?
Asa sul.
Asa norte.
Brasília é um avião.
Tá com Brizola ou tá com medo? .
~ ideologia antipopulista não se origina no planalto central, e sim
no Rio de Janeiro, década de 60, com Carlos Lacerda, o líder da UDN,
e ~alvez o primeiro político a denominar em 1950 Getúlio Vargas de ça~-
dilho, e, mais tarde, Jango Goulart e Leonel Brizola de populistas. E ce-
lebre a sua declaração autoritária em junho de 1950: "O Sr. Getúlio Var-
gas, senador, não deve ser candidato à presidência. Candidato, não deve
~er eleito. Eleito, não deve tomar posse. Empossado, devemos recorrer
a Revo_lução para impedi-lo de governar". .
Eis a sacanagem autoritária do "ganha mas não leva", que anteci-
pará o golpe antipopulista de 1964 assim como reaparece, durante a Nova
República, com a perspectiva de Leonel Brizola eleger-se presidente em
1989. Carlos Lacerda, o gênio retórico da direita, é o responsável pela
confusão entre golpe e revolução. Não será surpresa verificar trinta anos
depois, que o seu ideário ideológico ressurge, mais ou menos intacto, nas
fileiras dos tucanos, dos pemedobês e até junto aos intelectuais do PT
e do PCdoB. Convém lembrar que o lacerdismo inspira também a dra-
maturgia do Kinema de Glauber Rocha. Entrevistado na Bahia, em 1977,
o cineasta diz o seguinte: "Carlos Lacerda me pareceu o mais contradi-
tório, o mais expressivo e liberal líder civil no Brasil, depois do Estado
Novo. Fiz o filme Terra em Transe inspirado nas vidas de Carlos Lacerda
e Miguel Arraes, representantes da direita e da esquerda na época de João
Goulart. Depois de Getúlio Vargas, Lacerda foi o maior líder que tive-

97
mos. Se tivesse se aliado a João Goulart, teria feito uma Revolução defi-
nitiva. Traiu Juracy Magalhães na convenção da UDN, apoiando Jânio
Quadros para candidato. Foi um erro. Se Juracy tivesse ganho, em lugar
de J ânio, o Brasil teria tomado outro caminho. Defendeu mais idéias do
que grupos econômicos, tendo sido responsável pela criação da indús-
tria do anticomunismo no Brasil. Nunca respeitou o povo. Foi um líder
de elite. Atribuo seu reacionalismo ao fato de ter rompido com os inte-
lectuais de esquerda de sua geração".
Isso é dito por quem sofreu na pele a censura do seu filme, Deus
e o Diabo na Terra do Sol, pelo então governador carioca Carlos Lacer-
da, a encarnação máxima do "Transe político-existencial" e inspirador
do personagem Dias, Paulo Autran, o tirano desmunhecado de Terra em
Transe. Carlos Lacerda foi o líder civil que modernizou o discurso da
direita no Brasil. O seu ataque liberal-autoritário a Vargas, como caudi-
lho fronteiriço, repete-se na oposição ao populismo "golpista" e antili-
beral de Jango e Brizola, assim como é de Carlos Lacerda a autoria da
conspiração antipopulista do parlamentarismo, tão caro aos tucanos
social-democratas da Nova República. Por incrível que pareça, na velha
UDN estão as raízes ideológicas de Fernando Henrique Cardoso, Fran-
co Montoro, Mário Covas e José Serra.
Populismo or not populismo, that's the question? Sem dúvida. Pe-
lo menos enquanto o candidato Leonel Brizola, cunhado por sinal de
Jango, estiver com chances de retomar o ciclo Getúlio Vargas, que foi
interrompido mas não extinto em 1964. O colapso do populismo não sig-
nifica a sua morte definitiva, tal como foi alardeado pela sociologia lai-
ca da USP. Tanto que a República Bossa Nova de José Sarney, apesar
de contar com o apoio da televisão, não é capaz de cortar o carisma po-
pular de Leonel Brizola pela raiz. E se esse carisma for de raiz sócio-
mística? Afinal, a Nova República pode não passar de mais um interreg-
no antipopulista que, ao invés de liberar, atarrachou o povo. Admitamos
que. a voz do povo seja a voz de Deus, principalmente no Brasil onde
o remo da política não está assim tão distante do processo de provocar
manifestação sobrenatural. Não importa que a população brasileira es-
teja hoje em dia muito mais no mundo urbano do que no mundo rural.
Aliás, pensando bem, um dos traços específicos do populismo no Brasi.l
é ter nascido urbano, ao contrário do russo, que nasceu rural.

98
OPERAÇÃO DICIONÁRIO

Somos governados pelas palavras. Então a consulta ao dicionário


torna-se fundamental, antes, durante e depois da campanha. Não nos
esqueçamos de que a crise brasileira é também crise de linguagem .. 0 que
é autoritário? Qual a definição de populista? E caudilho, o que signifi-
ca?
Autoridade é o direito de tomar decisões, o poder legítimo de se
fazer obedecer. É o caso do piloto de avião que exerce uma autoridade
racional. Inquestionável. Portanto sem autoridade é impossível viver.
Autoritário é o abuso da autoridade que procura se impor pela for-
ça. Despótico. Que manda sem o poder legítimo de mandar. Arrogante.
Violento. Ditatorial. Dominador. Golpista.
Populista é o amigo do povo.
Caudilho ou chefe, civil ou militar. Aquele que conduz o povo. Sem
líder não há povo.

99
DIVERSOS MAS NÃO ADVERSOS

Brasília, Congresso Nacional, elaboração da Constituinte, andan-


do pelos corredores de repente cruzo o deputado Luís Inácio Lula, can-
didato a presidente da República pelo Partido dos Trabalhadores. Na hora
me lembro do artigo de Glauber Rocha por ocasião do lançamento de
seu filme A Idade da Terra em São Paulo (1980).
- E aí, Lula, afinal você viu o filme que o Glauber queria que vo-
cê visse?
O maior representante da moderna classe trabalhadora brasileira
desconhece o maior cineasta brasileiro do povo. Lula não é marxista, mas
se diz antipopulista, pelo menos tem birra ideológica com o populismo,
de modo que seu pensamento não se situa nem no paradigma da luta
de classes, nem no paradigma do povo. E como é que a cabeça do líder
metalúrgico transa a questão da nação sem povo? Com toda sinceridade
eu disse a ele minha opinião. Muito simpático e gentil, mostrou-se inte-
ressado em conversar sobre o assunto, tendo em vista a aliança política
entre Leonel Brizola e Lula, a parceria Brizulla. Tal aliança não foi ain-
da realizada porque Lula vê com olhos desconfiados o que lhe parece
ser uma contradição abominável: Leonel Brizola - um nome forte co-
mo líder político - num partido político fraco: o PDT. Resta saber se
o partido do Brizola fosse forte toparia Lula fazer a aliança como vice-
presidente? Sem entrar no mérito do que significa partido político forte
ou fraco, Lula pensa mais ou menos o seguinte: se Leonel Brizola mor-
rer, acaba o PDT.
Assim, o que lhe apavora é a falta de continuidade política que su-
cederia após o desaparecimento do líder populista. Tal lacuna não se ob-
servaria junto ao PT porque, ao 'contrário do partido de Leonel Brizola,
o Partido dos Trabalhadores, desprovido de liderança carismática, tem
como base inamovível a classe operária do ABC paulista, o que se infere
desse raciocínio apolíneo é a idéia de que a prática política populista ca-
rece de um perfil bem definido de classe; daí a acusação de salada ideo-
101
lógica onde entram alhos e bugalhos, ou seja, os mais diversos segmen-
tos de classe e de não-classe.
o partido bolchevique, um ano antes da revolução soviética era um
partido político de pouquíssimos militant_es. Aí_ o líder metalúrgic,o re-
trucará: - sim, mas a vanguarda bolchevique tmha como sustentaculo
a classe operária russa... . _
Não importa a contradição de tal raciocínio para quem se diz n~o
marxista· o que importa assinalar, em sua crítica dogmática ao populis-
mo, é o f~tiche sociologizante da classe social e do partido político. Edu-
cado sentimentalmente nos textos - ou nas conversas - em que se des-
confia do magnetismo da personalidade (cuidado com o personalismo!
cuidado com o carisma do chefe!), Luís Inácio Lula acaba vítima do et-
nocentrismo dos sociólogos paulistas que foram colonizados pelos mes-
tres franceses do antipopulismo. O líder metalúrgico se insurge contra
o papel desempenhado pelas grandes personalidades na história, valori-
zando por outro lado a subordinação da liderança ao conceito, gregário
e orgânico, do partido político e da classe social. Diante disso não lhe
interessa a questão decisiva: haverá algum lance politicamente progres-
sista que Leonel Brizola como presidente da República não possa reali-
zar? Noutras palavras: o que o PT reivindica politicamente, caso chegue
ao poder, que Leonel Brizola não possa cumprir? Se a resposta for coisa
alguma, então o equívoco dogmático de Luís Inácio Lula atinge propor-
ções catastróficas, comprometendo seriamente a implantação da demo-
cracia no Brasil.
O falso argumento em torno de uma clássica continuidade de que
carece a prática populista (sujeita aos altos e baixos, imprevistos e rup-
turas), além de pressupor certa nostalgia pela organicidade do processo
social sueco ou suíço, lembra o raciocínio das nossas classes dominantes
e~ torno da eterna transição para abolir, de uma vez por todas, a irrup-
çao do transe, fanático, místico, carismático, populista, bárbaro, selva-
gem. Nesse aspecto a mentalidade do líder metalúrgico tem muito mais
a ver com a nossa inserção regional desequilibrada do que sonha a vã
filosofia internacionalizante da intelligentsia petista. Por força do desti-
no, Luís Inácio Lula substitui o paladar da farinha de mandioca nordes-
tina pela pizza paulista da aristocracia operária. Trata-se de uma ruptu-
ra definitiva com a imutabilidade alimentar sertaneja, ou vencer o garfo
sofisticado dos simpósios kyubanos?
Embora não se diga intelectual marxista, a cabeça de Lula foi poli-
da pela sociologia marxóloga de São Paulo, que até hoje não gerou ne-
nhum pensador político sensível à psicologia regional do trabalhador bra-
sileiro. Do seringueiro vermífero amazonense, de que falava Mário de
Andrade, ao torneiro mecânico competente da professora Marielena Chauí

102
de Pindorama. Do ponto de vista anímico - sentimental, a sociologia
marxóloga da USP é o anti-Lula de Pernambuco. Tanto que os seus pro-
nunciamentos políticos reproduzem as teses sobre o colapso populista,
e não as lições regionalistas da sociologia morena de Casa Grande & Sen-
zala. Em termos epistemológicos, o anthropos marxólogo expulsa o ethos
regional. Finalmente o Luís Inácio Lula antipopulista pode ser conside-
rado um lídimo economista com PHD em Cambridge, vítima ideológica
do pesadelo colonizador dos dois Brazys by Jacques Lambert, o soció-
logo Francês que traz para a USP a paidéia do populismo, retomada mais
tarde pelas teses acadêmicas de Francisco Weffort e Octávio lanni a par-
tir de 1964. Lapso colonialista da USP, a parafernália sociológica sobre
o populismo também fornecerá à intelligentsia do PMDB os esterióti-
pos ideológicos contra a liderança caudilha. Sem ter nada a ver com is-
so, o trabalhador metalúrgico do ABC irá, contudo, repercutir essa mi-
xórdia da sociologia acadêmica, precursora da Nova República com Fer-
nando Henrique Cardoso, o príncipe da sociologia no Senado. Até mes-
mo o grande mestre Florestan Fernandes entra na dança, pois não sub-
mete a uma crítica rigorosa a debilidade da consciência descolonizadora
na USP, que comeu gato por lebre ao colocar de escanteio o sociólogo
do transe, Reger Bastide, professor aliás que não deu deslumbrada im-
portância ao tema do populismo, sendo inclusive bastante simpático ao
velho Getúlio Vargas. Depois que a modernidade sociológica pousou no
parlamento durante a Nova República, não há dúvida de que Reger Bas-
tide votaria em Leonel Brizola para presidente da República.
É preciso botar os pratos limpos sem o temor de ferir as susceptibi-
lidades e vaidades pessoais. Não é por acaso que Reger Bastide, o baba-
lorixá das ciências sociais na USP, livrou-se do estigma anticaudilho, si-
nônimo de tirano golpista antidemocrático.
Ora, enquanto a farra antipopulista permanece confinada nos li-
mites dos barracões acadêmicos, a dominação cultural colonizadora não
se revela tão grave politicamente como agora em que se discute a pers-
pectiva da união ou desunião dos partidos trabalhistas de esquerda. Se
o argumento que impedir tal união das esquerdas for a falsa questão do
populismo, então temos de tirar o chapéu para a extraordinária capaci-
dade de persuasão sub-colonizadora da USP sociológica que fez a cabe-
ça laica do PT. A única coisa que depõe contra essa hegemonia da USP
sociológica, enquanto ideologia antipopulista de Luís Inácio Lula, é sa-
ber que o maranhense José Sarney (influenciado talvez pelo fantasma
do Bequimão em São Luís) morre de pavor diante da voz, folk e fanum,
do líder Leonel Brizola.

103
AS AVES NÃO INVENTAM VÔOS

Epicentro da vida política contemporânea, a candidatura Leonel Bri-


zola suscita a discussão entre a ciência do povo e as esquerdas marXólo-
gas e marxistas do Brasil.
O que significa, em termos eleitorais, a sabedoria do povo? Eis a
questão nuclear do Folclore: o que é o "Lore" do povo?
Conta o historiador Moniz Bandeira (Leonel Brizola e o Trabalhis-
mo) que o pai do candidato a presidente da República fora degolado por
ser um revolucionário maragato no Rio Grande do Sul.
Que é maragato?
A palavra maragato está incluída no Dicionário do Folclore Brasi-
leiro de Luís da Câmara Cascudo, valendo adepto do partido libertado.r,
ou senão originário da Maragateria, Espanha, povoado de Santa Luzia
no Uruguai. Maragato é uma palavra composta: Marca, em castelhano,
quer dizer limite de um reino. Escreve Luís da Câmara Cascudo: "Mar-
cos eram, portanto, as lindes de um país. Daí maragato, os homens da
fronteira ou das lindes de um país. João Ribeiro esposou doutrina con-
trária, também corrente na Espanha, de que a palavra tinha origem céti-
ca. Dava-lhe a forma primitiva de mare-kat, isto é, designativa do ho-
mem que cavalga, que anda a cavalo, que monta a cavalo".
Maragato é sinônimo de oposição, significa título honroso no Ric
Grande do Sul, a origem do homem vestido de bombacha, além da cal-
ça bombacha, lenço vermelho, chapelão de abas largas, sombrero, an-
cho, jaleco curto, cinturões ornados de moedas de ouro, modelo da bota
de potro. Maragateria. Cristãos primitivos. Mudejares provenientes de
uma região do Nilo Maragath.
Os maragatos atravessam o Atlântico e muitos deles irão participar
da Coluna Prestes, ou pelo menos colaboradores ou simpatizantes da lon-
ga marcha revolucionária. Segundo Luís da Câmara Cascudo, "os fun-
damentos étnicos e culturais dos Maragatos constituem, em alta percen-
tagem, uma incógnita. La enigmática Maragateria, concluiu Júlio Car-

105
AS AVES NÃO INVENTAM VÔOS

Epicentro da vida política contemporânea, a candidatura Leonel Bri-


zola suscita a discussão entre a ciência do povo e as esquerdas marXólo-
gas e marxistas do Brasil.
O que significa, em termos eleitorais, a sabedoria do povo? Eis a
questão nuclear do Folclore: o que é o "Lore" do povo?
Conta o historiador Moniz Bandeira (Leonel Brizola e o Trabalhis-
mo) que o pai do candidato a presidente da República fora degolado por
ser um revolucionário maragato no Rio Grande do Sul.
Que é maragato?
A palavra maragato está incluída no Dicionário do Folclore Brasi-
leiro de Luís da Câmara Cascudo, valendo adepto do partido libertado.r,
ou senão originário da Maragateria, Espanha, povoado de Santa Luzia
no Uruguai. Maragato é uma palavra composta: Marca, em castelhano,
quer dizer limite de um reino. Escreve Luís da Câmara Cascudo: "Mar-
cos eram, portanto, as lindes de um país. Daí maragato, os homens da
fronteira ou das lindes de um país. João Ribeiro esposou doutrina con-
trária, também corrente na Espanha, de que a palavra tinha origem céti-
ca. Dava-lhe a forma primitiva de mare-kat, isto é, designativa do ho-
mem que cavalga, que anda a cavalo, que monta a cavalo".
Maragato é sinônimo de oposição, significa título honroso no Rio
Grande do Sul, a origem do homem vestido de bombacha, além da cal-
ça bombacha, lenço vermelho, chapelão de abas largas, sombrero, an-
cho, jaleco curto, cinturões ornados de moedas de ouro, modelo da bota
de potro. Maragateria. Cristãos primitivos. Mudejares provenientes de
uma região do Nilo Maragath.
Os maragatos atravessam o Atlântico e muitos deles irão participar
da Coluna Prestes, ou pelo menos colaboradores ou simpatizantes da lon-
ga marcha revolucionária. Segundo Luís da Câmara Cascudo, "os fun-
damentos étnicos e culturais dos Maragatos constituem, em alta percen-
tagem, uma incógnita. La enigmática Maragateria, concluiu Júlio Car-

105
ro. No Rio Grande do Sul, popularmente, quem não é chimango, parti-
dário do governo, é maragato, oposicionista".
A infância de Leonel Brizola no Rio Grande do Sul tem muito a
ver com insurgência revolucionária dos maragatos em 1923. Escreve Moniz
Bandeira: "Leonel Rocha, camponês comissionado no posto de general
e que mais tarde respaldaria a Marcha da Coluna Prestes, comandou a
luta armada naquela região e José Brizola, partidário da Aliança Liber-
tadora, uniu-se a seu exército provisório, deixando em casa mulher e os
cinco filhos, o último dos quais, ainda sem nome definitivo, com pouco
mais de um ano".
O menino Leonel Brizola nasce a 22 de janeiro no ano de 1922. Seu
pai, José Brizola, esteve próximo de ser combatente da Coluna Prestes,
tal qual aconteceu de fato com o pai de Glauber Rocha, Adamastor An-
drade Rocha, a quem é dedicado o artigo sobre Grifith, autor do filme
Nascimento de uma Nação in Século do Kinema.
Para explicar o foco narrativo do seu romanceiro Riverão Sussua-
rana, o cineasta Glauber Rocha assinala "Meu pai foi um soldado fra-
cassado da Coluna Prestes. Ora, fui criado ouvindo suas histórias; e mais
tarde li sobre o assunto. Então resolvi escrever do ponto de vista do meu
pai, aquele soldado pobre e anônimo".
Leonel Rocha, o carajoso caudilho maragato, dá cobertura à Colu-
/
na Prestes. O camponês e tropeiro José Brizola morre degolado, e deixa
/
o filho caçula sem nome, herdando mais tarde por conta própria o nome
do líder: Leonel Brizola. Se o poder do nome atua como presença mági-
ca (Nomen, Numen), isso significa que não devemos subestimar o Fol-
clore da Superstição. Segundo a ciência do povo, "o nosso nome é o nosso
tabu imediato", (Luís da Câmara Cascudo, Superstição no Brasil).

106
MISTIFICAÇÃO DO LABIRINTO

A polissemia contida na palavra populismo deixa todo o mundo


letrado confuso, principalmente os estudantes e os professores progres-
sistas de ciências humanas. Com efeito, se a gente der uma olhada no
Dicionário, populismo é a "política fundada no aliciamento das classes
sociais de menor poder aquisitivo", ou senão determinado partido polí-
tico que defende ou diz defender as classes populares.
A autópsia da atitude populista, que começa com Getúlio Vargas
e João Goulart e continua com Leonel Brizola, revela a ambigüidade de
sentido do ponto de vista lingüístico. A elite antipopulista, formada de
intelectuais que nascem remediados na classe média, insiste em enfati-
zar o pré-requisito demagógico para conseguir aliciar as classes popula-
res. A intelligentsia grã-fina, cuja libido encontra-se inteiramente espe-
cializada na cópula com gente rica, tende a sentir inveja e ciúmes da lín-
gua populista que seduz o voto do pobre. É por isso que, entre outras
coisas, o grande ideal das classes dominantes, liberais e social-democratas
é a existência de eleições no Brasil, mas sem o perigo desse maldito tran-
se populista que atrapalha a estabilidade das instituições políticas. A
contra-revolução de caráter preventivo em 1964 deve ser vista como uma
contra-revolução que se propôs a erradicar a potência aliciadora da lin-
guagem de J ango e Brizola.
À força, pelo golpe manu-militar, a elite civil liberal-marxóloga-
social-democrata corta momentaneamente a possibilidade da potência
populista materializar suas promessas políticas e ideológicas.
Em 1964 as principais cabeças cortadas são as cabeças dos líderes
populistas, enquanto a sociologia acadêmica antipopulista aplaude o ci-
vil colapso do populismo, não obstante condenar a intervenção do exér-
cito. Noutras palavras menos eloqüentes, o pensamento sociológico mo-
derno acha bem feito o regime populista ter entrado em colapso com
a derrubada de Jango. Segundo as análises sociológicas, cabe ao gover-
no João Goulart a culpa do golpe de 64, porque foi um governo que pro-
vocou a agitação política de massa, e não a agitação política de classe.
Trata-se de um raciocínio abstrato, mera aplicação inadequada do "tipo
107
(

ideal" weberiano, construído por quem passou inteiramente ~lheio_ à vi:


da política em 1964. A sociologia da USP sobre o fracasso Jangmsta e
pós-factum. Os sociólogos metapopulistas não estão interessados em ex-
plicar o destino trágico e sim preocupados apenas em testareII: os ~on-
ceitos de suas teses acadêmicas. Evidentemente o senador Magalhaes Pmto
nunca leu o marxista Francisco Weffort, aprendendo em outras fontes,
sobretudo com Pedro Aleixo, o ABC do antipopulista convicto. Porém
a versão sociológica universitária cumprirá o papel de conceder legitimi-
dade científica ao colapso do populismo, de modo que de repente em
São Paulo delineia-se a falsa alternativa: ou se é moderno ou populista.
Assim, de acordo com as teses sociológicas antipopulistas, o avanço his-
tórico da sociedade brasileira corresponderia à superação do modelo po-
pulista de desenvolvimento. Isso significa, do ponto de vista demopsico-
lógico, que a sociologia do desenvolvimento de Fernando Henrique Car-
doso está mais próxima ideologicamente de Carlos Lacerda, e longe da
social-democracia trabalhista de João Goulart. Por conseguinte, antes
de 1967, o jornalista Carlos Lacerda, o intelectual orgânico da UDN ca-
rioca, poderia já ser considerado príncipe da sociologia do desenvolvi-
mento em São Paulo, ou senão legítimo patrono fundador do PT anti-
populista. Em termos de atualidade, não há dúvida de que a mistifica-
ção sociológica do populismo é responsável pelo retorno sepulcral de Jânio
Quadros, o famoso ator histórico que nunca foi, no entanto, político po-
pulista, nem mesmo político populista de direita, pelo simples motivo
de que o doutor Caligari da Vila Mariana odeia o povo.
É do ministro da cultura José Aparecido a estratégia de lançamen-
to da candidatura Jânio Quadros à Presidência da República. Trata-se
/ da mesma estratégia antipopulista da UDN que o levou pela primeira
vez ao palácio Oscar Niemeyer, de onde renunciou, recitando Shakes-
peare com a cara cheia de uísque. Ou terá sido a renúncia, como diz o
povo, provacada pelas "Forças Ocultas" da 51?
~N~ jangarana,. Glauber Rocha diz que, aos 21 anos, em 1960, votou
no Jamo para presidente: Mas diz que a renúncia não tem a grandeza
épica do suicidário Getúlio Vargas. Curiosamente o cineasta fala muito
pouca coisa do complexo e misterioso personagem Jânio Quadros, a não
ser da sua posse como presidente da República garantida pelo governa-
dor Leonel Brizola, além do general de Porto Alegre, Machado 'Lopes,
e o norte-americano John Kennedy. Segundo Glauber, a "carta pífia" es-
crita por Jânio Quadros no dia da renúncia é uma cópia malandra do
21 de agosto de G~túlio Vargas, de quem Jânio quis dar uma de Chu-
p1m, bancando o tirano mártir com intenção de vir a ser carregado nas
costas pelo povo.

108
O saudoso jornalista Cláudio Abramo, meu amigo e também ami-
go de Carlos Lacerda, odiava o bacharel Jânio Quadros por causa do
seu anticomunismo reacionário.
Em 1970 o escritor Gabriel Garcia Marquez reclama pro Glauber
Rocha em Barcelona que a fraqueza da contemporaneidade literária bra-
sileira é a falta de um romance sobre o grande apronto passional do Jâ-
nio.
A extraordinária capacidade hipócrita e teatral do ator Jânio Qua-
dros consegue persuadir Chê Guevara a embarcar na loucura da guerra
de guerrilha na Bolívia. Infelizmente, nosso teatro colonizado ainda não
revelou a natureza do appeal popular de Jânio Quadros. É esquisito esse
seu retorno como o bom prefeito de São Paulo, eleito com a colabora-
ção dos ex-presidiários fazendo marketing político em cima da separa-
ção entre o álcool e a erva.
O que pega mais fundo na sensibilidade do povo: a birita ou o fumo?

109
VOTO FEMININO URBANO

Um dos tópicos essenciais da campanha de Leonel Brizola inclui


a questão da mulher. Antes de tudo porque a metade dos votos, ou mais
da metade, é voto feminino, fator que poderá decidir o rumo das elei-
ções. Resulta daí a necessidade urgente de se pensar a respeito do equilí-
brio entre o feminino e o masculino. Todos nós sabemos que tal questão
é bastante complexa, seja dentro ou fora da política; todavia, em se tra-
tando de Leonel Brizola - e a despeito de sua personalidade - existe
o virtual perigo de preponderar a imagem pública de um candidato ex-
cessivamente viril. Não se pretende com isso dizer que, em seu pensa-
mento político, esteja ausente a preocupação em relação à mulher na so-
ciedade brasileira. Afinal de contas, o CIEP foi mentalizado não apenas
para atender a criança carente, como também para liberar a mulher po-
bre, sobretudo a mãe solteira ou a mãe abandonada.
É inimaginável conceber o projeto educacional do CIEP sem o bi-
nômio mãe e filho. No entanto, apesar dessa límpida evidência, não houve
- durante a campanha do professor Darcy Ribeiro ao governo do Rio
de Janeiro - a devida ênfase na conexão mãe e filho. Ora, justamente
essa falha lamentável é o que não poderá suceder na próxima campanha
de Leonel Brizola, de modo que as eleitoras devem ser esclarecidas sobre
a motivação feminima que presidiu a criação dos Brizolões, ou seja, a
dignidade da mulher. É essa valorização do tempo da mulher o ponto
chave da campanha, sem esquecer que a sua auto-estima está, em larga
medida, baseada na educação dos filhos. Por conseguinte, o imaginário
Brizolão, elaborado inteligentemente pelo autor de Mayra, é profunda-
mente feminino.
Do ponto de vista da persuasão popular, o que está em jogo é o
seguinte: como mostrar de modo convincente que o candidato criador
do CIEP merece o voto feminino? Aí reside o desafio entre o que é ver-
dadeiro e o que é popular: de um lado, a verdade social do CIEP é a
liberação do tempo de trabalho da mulher pobre; do outro lado, o CIEP
é o sonho lúdico feminino.
Para uma mulher pobre, filho no Brizolão significa o paraíso.

111
I LOVE YOU ERUNDINA

O carisma político de Leonel Brizola é anterior à utilização que ele


possa ou não fazer da mídia durante as campanhas eleitorais. Do palan-
que ao vídeo: é o mesmo fluxo sonoro que se observa na campanha da
legalidade, através do rádio, até a espetacular denúncia na televisão do
Plano Cruzado. Resulta daí o dito popular engraçado, que aliás revela
o significado meio nebuloso da palavra candidato para o povo:
- Mesmo se o homem não se candidatar ele ganha!
Ninguém tão candidato à Presidência da República, legítimo can-
didato desde a década de 60, em que sua cabeça foi cortada pelo golpe
de 64. A despeito de tudo isso, o povo ainda pondera: Lioné Brizola?
- Se ele se candidatar, ele ganha. Deixou o homem falar, não tem para
ninguém; candidato imbatível, vitorioso. Os outros candidatos minguam
no minguante.
A eleição de 1989 será a primeira eleição para presidente da Repú-
blica com televisão em todo território nacional.
Quem souber fazer melhor uso do veículo televisivo leva vantagem;
todavia existe o grande perigo de ver a televisão como espírito santo.
A Imprensa; ·
A Mídia;
O lbope;
As pesquisas.
Os proprietários brasileiros da mass mídia não toleram o partido
dos trabalhadores e, conforme dizia Cláudio Abramo, sempre levaram
na gozação o líder Luís Inácio Lula, expressão de inteligência nordestina
popular, tal qual Dona Luíza Erundina, Alcaide Paraibana de São Pau-
lo no período democrático em que o próximo presidente da República
será eleito pelo voto popular. A direita está apavorada com o resultado
da eleição que levou o PT ao poder em São Paulo. Apavorada por causa
da passagem do voto de cabresto mistificado para o voto ideológico cons-
ciente.
113
Muda alguma coisa com dona Erundina na prefeitura de São Pau- '
lo? Sem dúvida. Antes de tudo, em termos do perfil antropológico do
voto, isso significa uma revolução: 1) Erundina é mulher numa cidade
falocrática.
2) Erundina é nordestina, paraibana, numa cidade onde a classe do-
minante internacionalizada odeia o nordeste, a não ser como mão-de-
obra explorada.
3) Erundina é uma senhora solteira que mora sozinha num bairro
de classe média baixa.
4) Erundina é marxista cristã (e mais cristã do que marxista) daí
a esperança do Partido dos Trabalhadores começar a pensar as contradi-
ções do País com uma linguagem sócio-mística de apelo popular.
5) Se for comparada com Luís Inácio Lula, from Pernambuco (es-
tado vizinho rival da Paraíba), Luíza Erundina talvez seja menos chega-
da à pizza do que à farinha de mandioca.
Isso significa que o discurso da prefeita de São Paulo está mais pa-
ra José Lins do Rêgo do que para Florestan Fernandes. Segundo o setor
sofist-light-grãfino do PT, ela é a humilde evangélica brega que não se
veste em boutique da moda, nem fala o jargão pós-moderno de Paris
de Nova York. Ora, como quem pega pesado no trampo em São Paulo
- quem realmente carrega o piano é a massa nordestina, então a pri-
meira prefeita da metrópole paulistana está no seu devido lugar, portan-
to ela não corre o risco de apaulistar-se em demasia a ponto de perder
de vista que São Paulo não seria o que é se não fosse o Brasil inteiro.
O ano decisivo de 1989 colocará na ordem do dia a velha questão sobre
a união inteligente das esquerdas: a união dos partidos trabalhistas:
PT(LULA) e PDT(BRIZOLA). Todo cuidado é pouco para assegurar tal
aliança. A prova dos nove desse concerto musical dependerá o futuro
imediato da nação. Há um forte pressentimento do povo em cima da do-
bradinha Brizola e Lula. Será o gol da democracia. Hélio Pellegrino passa
a faixa de campeão do acordo político feito sem ninguém pisar na bola.
Se já deu Brizulla na música da língua isso significa a possibilidade
do acordo na prática política das prefeituras sob a gestão de cada parti-
do. Enfim, troca de amabilidades com ambas as partes interessadas na
realização desse pactum inteligente, racional, legítimo, civilizado. Evi-
dentemente, as velhas raposas da direita pró-imperialista farão o diabo
para que tal aliança trabalhista entre São Paulo e Rio não se efetive de
modo elegante e cordial. Qual é hoje em dia o sonho do trabalhador
brasileiro?
Evidentemente são muitas as dificuldades que se interpõem entre
os dois grandes líderes trabalhistas. As dificuldades fazem parte da rela-
ção complexa entre mestre de discípulo. Vaidade. Egoísmo. Orgulho. Tu-

114
do isso pode ser superado: quem é o presidente da chapa? Os petistas
querem Lula, os pedetistas Brizola. Se a coisa for posta assim em termos
estreitos e meramente partidários chega-se a um impasse em torno da
ausência de critério justo e objetivo. Idade? Experiência? Sabedoria? Pa-
triotismo? Cada candidato fica na sua durante a realização do primeiro
round. Cada um comendo os votos do outro, mas conforme a sorte elei-
toral, Brizola e Lula, os candidatos da esquerda, poderão chegar a dis-
putar o segundo turno.
Brizola à esquerda do Lula.
Lula à direita do Brizola.
Ou vice-versa.
Quem vai na frente como presidente, quem vai atrás como vice. Cír-
culo vicioso que favorece o meio da campo de direita à procu~a de uma
candidatura para derrotar Brizola e Lula.
Janyu
Kovaz
Zylvio Zantoz
Paulo Francis?
Enquanto o doutor Roberto Marinho não escolher seu candidato
para derrotar o inimigo da Rede Globo, a tática a ser adotada pela mídia
é insuflar o ego tripi do Lula, mostrando a formidável façanha eleitoral
do PT.
- Aí está escancarado, em várias capitais do País, o testemunho
ou a prova de que o PT, conforme vem falando Luís Inácio Lula,
apresenta-se como a alternativa concreta para exercer o poder supremo
da nação.
O PT vai dar um banho de competência na Prefeitura de São Pau-
lo. Excelente equipe técnica especialista em resolver os problemas do
capitalismo.
A gestão esclarecida do PT fará inveja aos urbanólogos de Nova
York. Não haverá corrupção nenhuma. Maior cuidado com o capital pú-
blico. A melhor elite intelectual em São Paulo, pós-graduada em admi-
nistração e finanças pertence aos quadros teóricos do PT. Solução inte-
ligente para a metrópole paulistana.
Ao contrário da imprensa venal sou otimista em relação à capaci-
dade do trabalhador paraibano. Erundina é uma mulher inteligente que
se expressa com ótimo nível em ciências sociais. Apenas lastimo sua in-
genuidade em relação à sacanagem a mídia, colocando-a no "perfil do
consumidor" para falar de sabonete e mito sexual.
Erundina deveria se poupar desse vexame pornô-capitalista da im-
prensa que joga contra o PT no Rio de Janeiro e em São Paulo. Todos
os articulistas politicólogos malham sistematicamente o caráter estudantil-

115
operário-funcinário público do PT. No entanto, apesar de tudo, os líde-
res petistas são crédulos em relação à _ido_n~idade dos proprietários .de
jornais. A câmera da TV Globo é reac1onana quando mostra a prefeita
vitoriosa sendo entrevistada num banheiro do seu ap comprado no BNH.
A câmara reacionária da Rede Globo filma a Erundina como uma mu-
lher favelada em sua falta de intimidade.
A câmera promíscua da TV Globo não tem nenhum pudor em in-
vadir barraco de pobre. Ao contrário do recato respeitoso quan?o a TV
mostra o palacete do empresário Antônio Ermínio de Moraes. E lamen-
tável que essa semiologia obscena seja o ABC do PT em São Paulo, pois
a elite dirigente petista mantém uma relação sadomasoquista com a grande
imprensa. Esta sempre bate forte no PT, mas parece que o PT gosta de
apanhar da mídia safada. Tal quadro perverso é inexplicável à medida
em que Luíza Erundina ganha as eleições em São Paulo sem nenhum
apoio da imprensa. Mas ela vai a toque de caixa pedir a bênção aos pro-
fissionais corruptos dos jornalões, concedendo entrevista obá-obá da vi-
toriosa humilde em que não se comenta a política nefasta da comunica-
ção da massa. Ao ser entrevistada como prefeita eleita, Erundina parece
uma pobre coitada num programa de TV em que o céu é o limite, ao
invés de aproveitar a bela oportunidade para dizer que a estatística elei-
toral da grande imprensa é uma mistificação mercenária. Se esse com-
portamento vaselina em relação aos caciques da imprensa fosse da parte
de um esnobe petelaite seria compreensível, numa cidade como São Paulo,
em que a fina flor grã-fina do PT vive em paparicaçãa existencial com
a grande imprensa e a Rede Globo. O filho de um notável petista é editor
/ de política, a patroa é colunista, o noivo da filha dirige telenovela, e nin-
. guém se dá por achado nessa esdrúxula mistura de Rosa Luxemburgo
com Chico Anísio.
Se não há estatística que mostre o que é a dimensão real da misé-
ria, então eu acredito que a taxa de mais valia da mass mídia (em cima
do imaginário popular), durante os anos de ditadura e Nova República,
é infinitamente superior ao arocho salarial sofrido pela working class
do ABC paulista.
Por que cargas d'água Dona Erundina não manda às favas o mo-
nopólio burguês da Kumunykazão? Embora a fortuna eleitoral mude co-
mo o vento, está mais do que evidente que o PT, para obter o voto da
maioria, não precisou nem de instrumentalizar a grande imprensa em
São Paulo. Piove? Governo ladro ... E quem não participou do poder até
o governo Sarney, foi o PDT, e também foi o PT, posto que os outros
partidos (PFL, Tucano, PMBD) estiveram lá mamando nas tetas da No-
va República.

116
O povo é superior ao PDT, assim como a pátria está acima do PT.
A mídia farisaica vai querer atazanar o lance Brizulla. Evidentemente
a proposta ideal seria cada candidato das esquerdas ouvir de seu parti-
do: Leonel Brizola toma a iniciativa de propor:
- Lula, dê cá o seu vice que o PT democraticamente escolheu.
O PDT do Brizola também oferece seu vice-presidente à chapa do
Lula.
A orquestra trabalhista aplaude de pé o troca-troca dos vices. Não
há guarda-chuva contra tal sinfonia popular. Brizulla é um bloco histó-
rico gramsciniano que arrebenta a boca do balão em 1989.
Brizola por Lula
Lula por Brizola
Olho por olho
Dente por dente
Dente pro povo
O povo presidente.
Esta energia progressista em torno da convergência Brizulla não po-
derá cometer a asneira de deixar a direita ganhar a presidência em 1989.
Imagino no céu Luís Inácio Lula chegando lá, aí Leonel Brizola é
convidado para ministro das comunicações - mas, se porventura, der
Briza na cachola, aí o Ministério do Trabalho é do Lula.
Por que não?
Para refrescar a memória, a nação se lembra da relutância declara-
da de Luís Inácio Lula em não querer entrar de vice na chapa de Leonel
Brizola.

A GUERRA SEM FIM


Se o homem se chamasse Mário's Cova, quem sabe ele não t~ria
uma chance? Mas, por força do destino, a morte no Brasil não baila,
e a pior desgraça deste mundo, como diz a voz do povo, é morrer sem
cova própria. Dona Erundina, dançando com Eduardo Suplicy, um for-
ró, na Paraíba é objeto de gozação por parte dos tucanos neolacerdistas:
eis o casal narodnik do PT fazendo média com o baile dos pobres. As
duas facções teóricas da USP sociológica odeiam o populismo, porém
não tematizam em profundidade a questão do imperialismo. Isso por-
que elas admiram a internacionalização das classes empresariais e do ope-
rariado industrial em São Paulo. A classe capitalista industrial transfere
o sentido da representação e torna-se, ela mesma, classe dirigente. O mes-
mo fenômeno acontece paradoxalmente com o pólo oposto: Lula não
representa a classe operária, ele é a classe operária.

117
Leitor de Sérgio Buarque de Holanda (Raízes do Brasil), estou in-
teiramente precavido contra o fetiche do partido político: partido políti-
co fraco ou forte não é obstáculo à construção da democracia. Tanto is-
so é verdade que dois partidos políticos à construção da democracia. Tanto
isso é verdade que dois partidos políticos completamente distintos (PT
e PMDB) se unem na oposição furada ao chamado populismo de Leo-
nel Brizola. Um partido fala em nome do proletariado e o outro em no-
me do empresariado. Há algo esquisito aí, pois o conflito capital & tra-
balho se dissipa para enfrentar o demônio populista. Isso é ou não é
doideira?
Ou o simpático PT arruma outros argumentos diferentes dos do
PMDB contra o Karysma populysta, ou senão arquiva definitivamente
esse papo de urubu com bode.
Eu não sou culpado da revisão crítica da sociologia (de 1967 a 1989)
favorecer historicamente a candidatura de Leonel Brizola.
O argumento sobre o personalismo não tem a menor consistência.
Sérgio Buarque de Holanda, que aliás foi um dos fundadores do PT em
São Paulo, dizia que na História do Brasil um personalismo substitui outro
personalismo, então, tanto faz pessoas, pessoais, person, personália, per-
sona. Até o caminho para a divindade no Brasil é pessoal, conforme de-
monstrou Luís da Câmara Cascudo em 150 volumes sonoros.
Eis a pergunta que está na cabeça dos companheiros militantes que
elegeram dona Erundina: - Por que Brizola é melhor que Lula?
O próprio líder metalúrgico, ao se deitar para dormir, naquela con-
versa de travesseiro, pensa às vezes na possibilidade de deixar agora a
bola da vez para o maestro gaúcho. Afinal, Lula é ainda relativamente
/ jovem, então ele poderá ir na próxima eleição, depois de aprender com
a experiência humana de Leonel Brizola. Não se faz democracia só com
juventude. Essa cascata de gente jovem é demagogia do Fernando Col-
lor, como já foi do Fernando Gabeira.
- Brizola é grego, bicho!
Será que o Lula não saca que desde 1959, quando governador do
Rio Grande do Sul, Leonel Brizola peitou o imperialismo no episódio
Bond and Share? O Xatô telefona para o Juscelino dizendo que o John
Kennedy considera a atitude nacionalista do Brizola uma agressão aos
Esteites. Lincon Gordon conchava com Roberto Campos a cabeça do
líder maragato. Na época, Brizola tinha 37 anos e bagunça a geo-política
imperialista, insurgindo-se contra o holding das comunicações. Por isso,
entre outras razões (vá lá: sócio-místicas, diria Glauber Rocha), é que
Leonel Brizola está melhor equipado do que Luís Inácio Lula para diri-
gir a nação, ou seja, Leonel Brizola sabe pensar o País numa perspectiva
mundial: Brasil dentro do mundo e simultaneamente fora do mundo. E

118
nesse ponto reside o segredo: nacionalista, ele conhece mais a inserção
internacional do país do que o líder ex-metalúrgico internacionalista, por-
tanto o lance decisivo agora é quem consegue enfrentar com ousadia e
inteligência a arapuca imperialista da dívida externa.
Nem o empresariado nem o proletariado é capaz de negociar com
categoria a dívida externa. Trata-se de um paradoxo de natureza folcló-
rica, mas a razão dá-se a quem tem: Leonel Brizola possui mais cancha
como estadista do que Luís Inácio Lula para sentar à mesa dos nossos
gananciosos credores. Quando digo isso de caso pensado, sou evidente-
mente levado na galhofa pelos meus amigos do PT mineiro: - Você quer
pagar dívida externa com bumba-meu-boi.
A negociação folclórica da dívida externa não é apenas um desejo
meu, e sim um desejo coletivo: o modelo folclore de desenvolvimento.
O Brasil precisa do folclore mais do que a gente imagina nos bancos es-
colares ou no Congresso Nacional. Cada povo é a história de um cami-
nho. O nosso é o caminho do folclore. Deixemos por hora o mijaral (o
homem em geral) para o embaixador Rouanet curtir as suas noites e seus
dias iluministas em Copenhagen. Temos urgentemente de aproveitar, no
âmbito da economia, a lição do homem brasileiro como um complexo
miscigenado: ação mais decisiva sobre etnos do que sobre anthropos. Esta
é a razão pela qual considero Leonel Brizola um candidato mais próxi-
mo do folclore do que Luís Inácio Lula. Tenho por fundamento desta
preferência eleitoral a sentença sábia do mestre Luís da Câmara Cascu-
do: "O homem é universal fisiologicamente. Psicologicamente é region~l'.'
Posso estar redondamente enganado, mas Luís Inácio Lula (assim
como o PT e o marxismo made in Brasil) carece de um aprofundamento
regional da cultura brasileira, portanto, não consegue pensar a poten-
cialidade revolucionária da nossa inserção regional como povo. Quando
digo modelo folclore de democracia, digo o seguinte: o imperialismo se-
qüestrou a vocação regional do marxismo no Brasil. Tanto isso é verda-
de que, no plano do pensamento, não existe nenhum autor marxista com
paixão regional pelo Brasil. Os marxista brasileiros trabalhistas o~eram
com o País (na relação nacional/mundo) como se fosse uma t~ta!1d~de
desprovida de região. Daí a necessidade de sublinhar a sutil d1st~nçao:
o folclore é popular, porém nem tudo o que é popular é sabedoria fol-
clórica do povo. Em outras palavras, a Xuxa é popular, mas não é a mes-
ma coisa que o Saci-Pererê. Portanto, ressaltando tal distinção, não acre-
dito que Luís Inácio Lula, o operário, esteja mais à esquerda do que Leonel
Brizola, o engenheiro. . .
Ideologia de elite neo-colonizada, o marxismo infelizmente no Brasil
ainda não deu folclore, à semelhança do homem público que não leu a
Bíblia e, por isso, não consegue perceber que não há saída fora de Cristo.
119
Os bispos, os padres e os cardeais na Igreja católica, aqueles que
são simpáticos ao PT, querem colocar Luís Inácio Lula e Leonel Brizola
em pé de guerra. É uma atitude realmente esquisita, pois à Igreja cabe-
ria unir as esquerdas em nome de Cristo, inclusive corrigir o grande equí-
voco do clero politicamente progressista que sempre teve problema com
o trabalhismo de Getúlio Vargas. Resta saber se Luís Inácio Lula ouve
e acata o juízo dos padres refratários à herança do getulismo trabalhis-
ta. É preciso não esquecer que, na mentalidade coletiva, o sentimento
religioso independe da parafernália litúrgica. E, em termos de fé, vale
recordar que Leonel Brizola poderia ter sido um pastor católico ou pro-
testante. Todos nós estamos sabendo que a Igreja jantou politicamente
o marxismo no Brasil.

120
SARAMPÃO ESCANDINAVO

Mês de maio, 1989, tive a oportunidade de assistir em Juiz de Fora


uma palestra do Senador Mário Covas, o defensor do parlamentarismo
e da social-democracia. Mário Covas falava a uma platéia de estudantes
da Universidade Federal. Discurso calmo, frívolo, cool, nenhuma empol-
gação, quase que desprovido também de promessas, apenas a ênfase na
necessidade de juntar a ética com a vontade política.
Mário Covas parecia um professor de sociologia que leu Max We-
ber. Os gestos feitos com as mãos denotavam a mímica professoral da
USP, embora o senador paulista tenha estudado Engenharia na Escola
politécnica.
Ouviremos o Fernando Henrique Cardoso da engenharia discorrer
sobre as grandes virtudes da social-democracia européia, sem no entan-
to preocupar-se com a crítica marxista aos social-democratas, os traido-
res da classe operária, segundo Lênin.
E se alguém da platéia perguntasse a ele qual a diferença entre a
social-democracia e a democracia social? Seria um Deus nos acuda, por-
que social-democracia é uma expressão redundante, tautológica, pleo-
nástica.
A democracia, quando é realmente democracia, carece de adjetivo.
Caso contrário, seria pertinente contrapor social-democracia com
individual-democracia. Ou talvez pessoal-democracia. É difícil levar a
sério um partido político que não consegue transar direito com as pala-
vras e os conceitos, afinal é a linguagem dos políticos que nos governa,
de modo que o novo PSDB difere do antigo PMDB apenas na substitui-
ção do Movimento (M) pelo Social (S). A palestra de Mário Covas tam-
bém não demonstrou em nenhum momento a preocupação em estabele-
cer qual o traço específico da social democracia à brasileira, posto que
o ilustre conferencista em Minas Gerais apenas sublinhou as virtudes da
social-democracia dos países escandinavos. O público estudantil minei-
ro evidentemente boiou sem atinar para a mistura de salmão com angu.
121
A palavra chave do léxico político do senador é modernização. Mário
Covas acredita que o seu partido é um agente imprescindível da moder-
nização da sociedade brasileira. Ele apontou o atraso dos partidos polí-
ticos, assim como repudiou o atraso do Estado, ainda que relevando o
fato da modernização em algumas áreas da economia, como se hoje no
Brasil tivéssemos uma infra-estrutura econômica mais avançada do que
a superestrutura ideológica e política. No discurso sociológico de Mário
Covas estão ausentes três elementos: o nacionalismo, o regionalismo e
os meios de comunicação de massa. Ou seja, ele não se interessa pela
ocupação imperialista, pelas desigualdades regionais, e tampouco pelo
lamentável monopólio da mídia eletrônica. Em sua dialética bicuda so-
bressai apenas a antinomia abstrata entre o atrasado e o moderno. Sob
tal ângulo, Mário Covas é a Sandra Cavalcanti parlamentarista que ou-
viu o galo cantar com Jacques Lambert, o sociólogo precursor da atual
UDN tucana.
Fiquei deveras impressionado com a ausência de paixão intelectual
no candidato do PSDB, pois a única referência que ele fez intelectual-
mente foi o elogio ao seu colega Affonso Arinos, o Joaquim Nabuco
parlamentarista do PMDB que apoiou o golpe de 1964. Segundo Mário
Covas, o grande equívoco da esquerda na Constituinte foi não ter aceito
a tese do parlamentarismo que, por sua vez, reduziria o mandato de Jo-
sé Sarney para quatro anos. A mim não convenceu a convicção parla-
mentarista dos tucanos. Me pareceu algo oportunista sem nenhuma tra-
dição histórica libertária. Basta reparar na conversão tardia de Mário Co-
vas que, nas eleições para presidente em 1960, votou no Jânio Quadros,
/ o progenitor da deputada tucana Tutu Quadros. Eu observei que Mário
Covas ficou sem graça quando a platéia perguntou se ele tinha votado
em Jânio Quadros. O seu primeiro movimento instintivo foi não abrir
o jogo com o argumento de que o voto é secreto. Mas, em seguida, ele
acabou por confessar que votou no Jânio Quadros. Noutras palavras,
Mário Covas nunca votou nem votará em Leonel Brizola, mas já votou
no Jânio, e também participou do governo José Sarney, tendo a seu lado
Fernando Henrique Cardoso como líder do governo (PMDB) no Con-
gresso.
A esta altura da tucanagem, não me contive e perguntei ao senador
se ele tinha votado sim ou não no plebiscito do presidencialismo versus
parlamentarismo. Aí deu xabu no discurso do presidenciável que se fez
de desentendido, como se eu o tivesse imaginado congressista em 1963.
Desculpe, senador, mas eu gostaria de saber é o seu voto como cidadão:
sim ou não?
Incorporando o ruído na retórica de defensor do parlamentarismo,
ele respondeu constrangido que vojpu a favor do presidencialismo por

122
ocasião do plebiscito popular durante o governo João Goulart. Mário
Covas pré-64 deveria ter uns 34 ou 35 anos. Hoje deve estar entrando
na casa dos 60. Ora, se até o final dos anos 80 ele ainda não era parla-
mentarista, qual foi então o motivo da sua conversão tardia? O que Má-
rio Covas estava fazendo em 1964? Evidentemente o tucano presidenciá-
vel explora o fato de ter sido cassado pelos militares, mas, o que eu pude
observar nl:!ssa palestra é que ele não saca nada de João Goulart. Tal co-
mo a maioria da nossa classe política pós-64, Mário Covas se posiciona
contra a ditadura militar e, ao mesmo tempo, não lastima a queda do
ex-presidente João Goulart.
Do que eu entendi da sua resposta, confusa e prolixa, a respeito da
existência de um filão golpista nos defensores do parlamentarismo, é que
a renúncia de Jânio Quadros - junto com o veto dos militares à posse
do vice-presidente João Goulart - engendrou um parlamentarismo con-
juntural e de emergência para resolver a crise política do momento des-
tinado a uma breve existência, um parlamentarismo para mórrer ali, no
ato. Ao contrário do moderno parlamentarismo de agora, encabeçado
pelos dirigentes do PSDB, não tem nada a ver com o parlamentarismo
que os golpistas impuseram a João Goulart, cujo primeiro-ministro foi
Tancredo Neves, o mediador da crise política entre a renúncia de J ânio
e a posse de J ango. Terminada a conferência, cheguei no senador Richa
do Paraná e perguntei a ele se Tancredo Neves não contribuiu para o golpe
de 64 ao convencer João Goulart a aceitar o parlamentarismo em setem-
bro de 1961. Afinal de contas, caro senador, está na ordem do dia adis-
cussão se Ulysses Guimarães conspirou ou não a favor da derrubada de
Jango. A resposta do senador paranaense foi extremamente esquiva:
- Você não gosta de ninguém!
Não poderia supor o baixo nível intelectual da liderança tucana em
relação ao passado histórico, como se antes deles não houvesse história,
tal o fetiche oportunista e realpolitik do presente.
- Aqui, Mário Covas, parlamentarismo só com Dom Pedro Se-
gundo!
Meninos, eu ouvi, dia 5 de maio, 1989, em Juiz de Fora, Minas Ge-
rais, o representante da elite tucana proferir um monte de abobrinhas
e inverdades sobre João Goulart.
A sociologia social-democrata de São Paulo não lhe ensinou o que
se passou historicamente com o ex-presidente deposto em 1964, por~~e
a sociologia paulista (De Florestan a Fernando H. Cardoso, de Octav10
Ianni a Francisco Weffort) tem resistência psíquica e ideológica em rela-
ção ao charme trabalhista de Jango. A modernização tucana e o marxis-
mo colonizado do PT são duas correntes ideológicas que se identificam
nessa triste incompreensão histórica de Jango, principalmente a visão su-
123
perficial e preconceituosa de que o governo nacionalista do ex-pr~sidente
foi um desvio que colocou o Estado acima da sociedade civil. E esse o
lapso epistemológico colonizado da sociologia paulista que levou água
para o moinho do general Golbery em Brasília com a sua criação do plu-
ripartidarismo em 1979, que visava esquizofrenizar em estilhaços as for-
ças trabalhistas da nação. Donde se conclui que Mário Covas, Fernando
H. Cardoso e Florestan Fernandes estão mais próximos ideologicamente
do General Golbery do que do ex-presidente João Goulart, assim como
Tancredo Neves está mais para o Marechal Castelo Branco do que para
Leonel Brizola. Com Mário Covas certifiquei-me de que João Goulart
é também o espectro político que ronda a cabeça parlamentarista dos
tucanos que relutam em admitir que, na emenda parlamentarista, estava
inscrito o golpe contra Jango. A interpretação dos tucanos fetichiza a
renúncia de Jânio Quadros como se fosse um ato maluco e a-histórico.
Segundo Mário Covas, a tramóia parlamentarista em dois de se-
tembro de 1961, mediatizada por Tancredo Neves e Ranieri Mazzili, foi
apenas um mero dispositivo para resolver a crise política que se seguiu
a renúncia de Jânio Quadros. Não é à toa que Mário Covas despolitiza
a renúncia de Jânio Quadros. Meu Deus, será que do ponto de vista sim-
bólico, os dois ex-prefeitos de São Paulo terão algo em comum?
A renúncia insana de J ânio Quadros, segundo a ideologia tu cana,
faz parte do irracionalismo do vice-presidente ser de outro partido do
candidato a presidente. Assim, a concepção irracionalista da legislação
eleitoral, segundo a parlamentária dos tucanos, consiste no seguinte en-
godo: se o Milton Campos, da UDN, tivesse sido eleito, ao invés dope-
tebê João Goulart, provavelmente Jânio Quadros iria sossegar o peri-
quito golpista que o levou à renúncia. Mas a motivação conspiratória
de Jânio Quadros tinha por objetivo descartar-se do seu vice-presidente,
que era também presidente do Senado e líder do partido trabalhista de
Getúlio Vargâs. É por isso que o nosso etílico Luís Bonaparte aprovei-
tou a viagem de João Goulart à China Popular para desfechar o golpe
da renúncia a 25 de agosto de 1961.
No mesmo dia e mês do suicídio de Getúlio Vargas, Jânio Quadros
(de pileque na madrugada do dia 24) dá o ousado golpe da renúncia na
manhã seguinte. Por que não uma semana antes ou uma semana depois
do fatídico 24 de agosto? Será que somente dona Eloá sabia o que se
passava na cuca leviatânica do seu marido? Será que o plano diabólico
de Jânio Quadros não vazou para ninguém mais? É difícil conceber, de-
pois da psicanálise freudiana, que Jânio Quadros tenha sido o único ho-
mem na face da terra a conseguir guardar um segredo a sete chaves. O epi-
sódio misterioso da sua renúncia mostra que entre nós a farsa parlamen-
tarista é que antecede a tragédia janguista. Carlos Lacerda, na noite de

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24 de agosto, anuncia pela televisão que Jânio Quadros o convidaria pa-
ra dar um golpe gaullista contra João Goulart. Convém não esquecer
que os três ministros militares de Jânio Quadros impediram a posse ime-
diata de Jango à presidência, assim como colocaram obstáculos ao seu
regresso da China Popular. O general Odílio Denys, o almirante lacer-
dista Sílvio Heck, o brigadeiro Srum Moss, eram todos antigetulistas,
portanto estavam interessados em cortar a cabeça de Jango, "a asa es-
querda de Vargas". O arranjo parlamentarista encontrado para apaziguar
a crise da renúncia de Jânio Quadros - e aqui reside o cerne da questão
- foi urdido com a anuência de Ranieri Mazzili, o presidente da Câma-
ra, e o deputado Tancredo Neves, ex-ministro de Getúlio Vargas. A fór-
mula do compromisso parlamentarista foi sugerida pelos ministros mili-
tares janistas ou pelos deputados e senadores, entre os quais Tancredo
Neves?
O expediente anticonstitucional do parlamentarismo, embora de
agrado das lideranças udenistas pode ser visto como um trunfo golpista
de Jânio Quadros nas áreas ci~is e militares. Quem foi o pai da idéia
parlamentarista que cortou o barato de Jango no poder supremo da na-
ção? Se não houvesse o compromisso do parlamentarismo em 1961, Jango
nunca haveria de tomar posse como sucessor legítimo de Jânio Quadros?
Sobre isso, vale a pena transcrever o depoimento de Leonel Brizola (cita-
do pelo historiador Joaquim Felizardo, Último Levante Gaúcho): "A partir
do momento em que o III Exército assumiu aquela definição, começou
a perder a balança em favor da Constituição e da Legalidade. Criou-se
uma situação de resistência em todo o país. As mensagens da rede da
legalidade atingiram as consciências em toda parte(... ) foi nesse momento
que começou a prevalecer a nova investida de ufanismo, envolvendo o
próprio vice-presidente João Goulart, já então na Europa, a caminho
do Brasil, que resultou na adoção de um mal-ajeitado regime parlamen-
tarista de tão funestas conseqüências. Sempre achei que deveria evitar
o confronto que se apresentava iminente. Era necessário encontrar solu-
ção para a crise, mas de nenhuma forma violentando a Constituição co-
mo fez o próprio Congresso numa madrugada, ao instituir aquele regi-
me, retirando poderes legítimos do presidente. Esse episódio contém, sem
nenhuma dúvida, lições e ensinamentos de grande valor e da maior pro-
fundidade. Não sou eu, porém, o mais indicado para trazê-los à tona.
Tenho feito as minhas reflexões. É possível que mais adiante ainda ve-
nha a escrever um texto expondo as minhas observações".
Com objetivo de evitar a instabilidade política, o parlamentarismo
sugerido por Thncredo Neves em 1961 aparece como um dispositivo anti-
constitucional para enfraquecer o poder legítimo de João Goulart. Aliás,

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é nesse ponto que reside o motivo da divergência entre J ango e Leonel
Brizola: aceitar ou não o recurso golpista do parlamentarismo.
Jango ouviu as ponderações pessedistas mineiras de Tancredo Ne-
ves, e não acatou a posição legalista de Leonel Brizola, refratária ao sis-
tema parlamentar. O expediente conciliador do parlamentarismo é uma
invenção dos políticos civis ou estes foram obrigados a negociar a bata-
ta quente colocada pelo Exército? Os ministros militares, janistas e la-
cerdistas, deram uma prensa no Ranieri Mazzili: - Aqui, deputado, não
queremos que Jango volte da China e nem que ele tome posse. Nessa
hora alguém tirou do bolso a opção parlamentarista, que pareceu razoá-
vel tanto ao Congresso quanto ao Exército.
A conciliação malandra do parlamentarismo foi uma jogada que
deu viva voz ao fantasma das "força ocultas" de Jânio Quadros, cujo
objetivo também era descartar-se do seu incômodo vice-presidente, e que
iria convertê-lo, com o tempo, numa estrela política de segunda grande-
za no governo. É esse o lance do ódio, ciumento do pequeno-burguês,
do Jânio parvenu contra o Jango. O transe homossexual da renúncia de
Jânio Quadros é uma medida de caráter reativo à proximidade da sedu-
ção representada pelo brilho do seu rival político. Se Jânio Quadros, ao
invés de ter renunciado, tivesse morrido de morte natural, haveria clima
para a aceitação da proposta parlamentarista? Aqui é que a porca torce
o rabo, pois se esperou ingenuamente que Jânio Quadros fosse de ime-
diato abrir o jogo, e revelar os motivos da sua esdrúxula atitude. Toda-
via, a ciência política acabou por considerá-la uma renúncia sem causas.
A sociologia de São Paulo até hoje não foi capaz de elaborar uma análi-
se tipológica da sua aprontação etílica-paranóica-homossexual. O resul-
tado dessa lacuna gnoseológica é que o sociólogo Fernando Henrique
Cardoso, durante a década de 80, perdeu as eleições para prefeito de São
Paulo. A renúncia do ex-presidente, vinte e cinco anos depois, não foi,
portanto, julgada de modo negativo pela maioria da população. Como
não houve imaginação suficiente que interpretasse os motivos da renún-
cia, a memória coletiva infelizmente não a registrou como um aconteci-
mento significativo.

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A briga entre a mídia e o resto.


Silêncio. .
.. A guerra do fim do mundo.
A comunicação de Roberto Marinho
e Sílvio Santos. Do outro lado, a.
. conversa ágrafa do boca a boca. .
A língua certa do povo. O que não ,
está no templo careta da p9Iítica
oficial. . . ,.
O sol é o Brizola e .Lula é a lua. ...
·Brizulla !
A lua de mel popular.
O sol já pode viver pertó da lua.
Ê só o povo. querer, arrepia.'.. · · .
Brizulla.
·" · E se rião der Brizola nem Lula a
?.: direita ganha. · ·
A guerra sem fim ... ·

1,

Ili