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com/lacanempdf

Françoise Dolto

No jogo
do desejo
Ensaios clínicos

Tradução
de Vera Ribeiro
Psicanalista

2� edição

f'ditora átira
Série

Temas
Volume 51

Editor
Nelson dos Reis

Editor-assistente
lvany Picasso Batista

Preparação dos originais


Katia Mari Miaciro

Revisão
Mareia Cruz Leme
Sandra Soares Garcia
Simone Soares Garcia

Digitação
José Aparecido Amorim da Silva

Projeto Gráfico
Margarete Gomes

Editoração Eletrônica
Valdemir Carlos Patinho

Capa
Laura Cardoso Pereira

© Éditions du Seuil, 1981


Título original: Au jeu du désir - Essais diniques

ISBN 85 08 06030 O
1996
Todos os direitos reservados
Editora Ática
Rua Barão de Iguape, 110 - CEP 01507-900
TeL: PABX (011) 278-9322 - Caixa Postal 8656
End. Telegráfico "Bomlivro" - Fax: (011) 277-4146
São Paulo - SP
Nesta obra, leremos ensaios psicana)íticos de estilos muito
diferentes: eles são o testemunho de um trabalho de 30 anos (1946-1978).
Trata-se de artigos, estudos e conferências, a maioria dos quais
foi publicada em revistas cujas edições se tornaram impossíveis de encontrar.
Tudo o que está publicado neste volume foi relido e
retrabalhado. Portanto, não deverá causar surpresa se aqui encontrarmos,
vez por outra, desenvolvimentos mais amplos do que na publicação original.
Não encontraremos, neste primeiro volume, diversos
trabalhos: sobre a regressão (195 8), sobre a libido feminina (1960), sobre
as pulsões de morte (não publicado) e sobre a evolução do narcisismo, do
nascimento até a velhice (não publicado).
O ensaio que leremos sobre personalogia e imagem do corpo é o
primeiro esboço (publicado em 1961) de um trabalho clínico e teórico que
venho desenvolvendo desde então, concernente à imagem do corpo e ao
esquema corporal, trabalho este que confio publicar dentro em breve.
Assim se inicia a edição do que considero, entre ensaios e seminários, como
0 testemunho de meu questionamento contínuo durante meu trabalho

de psicanalista: questionamento e reflexões teóricas que lego aos


psicanalistas, meus colegas.
Sumário
1. A propósito da função simbólica das palavras 7
Pequena história verídica de um bebê, um chapéu e uma
primeira gargalhada 7

2. Palavras e fantasias 12

3. As sensações cenestésicas de bem-estar ou mal-estar, origem dos


sentimentos de culpa 17
Comer sozinho e com asseio 30
A autonomia da criança em suas necessidades excrementícias 31
Idade da motricidade corporal e manual voluntária 36

4. Personalogia e imagem do corpo 52

5. A dinâmica das pulsões e as chamadas reações


de ciúme quando do nascimento de um irmão mais novo 83
Observação de Jean 83
Observação de Robert 89
Observação de Gricha aos 20 meses 93
Estudo psicanalítico dessas observações e elaboração de uma nova hipótese 105
Conseqüências ulteriores do ciúme no nascimento do irmão mais novo: sua inter­
ferência no Édipo 111
Conclusão 113
6. Tratamento psicanalítico com a ajuda da boneca-flor 115
Primeira observação 115
Segunda observação 128
Discussão dessas duas primeiras observações concernentes à utilização da boneca-flor
em psicoterapia psicanalítica 137
Comparação entre as duas observações 145
Observações parciais ou resumidas acerca do emprego da boneca-flor
em outros casos 150
Observação, em adultos, de alguns comportamentos provocados
pelas bonecas-flores 158
Conclusão e hipóteses de trabalho 162

7. O complexo de Édipo, suas etapas estruturantes e seus


acidentes 167
O período pré-edipiano 168
O período edipiano 180
A resolução do complexo de Édipo 194
O período de latência: da resolução da crise edipiana à puberdade 197
Período pubertário e adolescência 204

8. A gênese do sentimento materno: esclarecimento


psicanalítico da função simbólica feminina 210
Algumas imagens ancestrais do amor materno 21O
A imagem cultural dos sentimentos maternos como suporte do narcisismo do ser no
mundo 213
A abordagem clínica 218

9. No jogo do desejo, dados viciados e cartas marcadas 229

10. Amância e amor 280


Em sua ref�ência ao desejo sexual na infância e na idade adulta 280
_".�:.o.�:

6
1
A propósito da função
simbólica das palavras*

Pequena história verídica de um bebê, um chapéu e uma primeira


gargalhad;i .
�--
'
'
�" /

,
Fre�g m.creveu que é no jogo dó Fort! Da/'-
,_ , . --- em francês "Coucou! Ah,
. .

le v�à!" 1 -�1J��mLªQr::jgem da ling!}ªg�m.


/' Os fonemas coucou!, que significam "sumiu", exprimem a certeza, com-
partilhada com outro ser humano, da existência do objeto, enquanto o "Ah, le
voilà!" [achou!] significa "eu o reconheço, de novo, eu, ele, tu, nós, na ausên-
�it1 �-11ª E��se!}ç(::
Lembro-me com emoção de uma brincadeira com um bebê de nove meses,
que encontrei certo dia' num jardim público com sua mãe. Estava sentado em
seu carrinho. Na época, eu era uma moça muito jovem. Ele não me conhecia.
A mãe dizia que era lento e arisco. Ainda não falava e, para distraí-lo, dei-lhe
meu chapéu, que, segundo me parecia, havia atraído sua mão direita e seu
olhar. E lhe disse:
-Chapéu-, ao lhe apresentar o objeto, mas o menino não quis tocá-lo.
Depois, mudei a posição do objeto no ar, à distância, o que modificou sua forma
e seus contornos, e repeti:
-Chapéu.
O menino, que de início não quisera tocar no objeto, estendeu novamente
a mão direita, a mesma que havia estendido quando o chapéu ainda estava em

*Publicado em Pratique eles Mots, agosto de 1969.


1 Em português, "Sumiu! Achou!" (N.T.)

7
NO JOGO DO DESEJO

minha cabeça e, agora confiante, aceitou que eu fizesse essa mão tocar no chapéu,
sem retirá-la. Em seguida, o chapéu foi depositado por mim diante dele, sobre
a cobertura do carrinho. O menino o observou atentamente, sem tocá-lo, com
as duas mãos pousadas sobre a cobertura, de um lado e de outro. Enquanto con­
versava com a mãe dele, aproximei o chapéu de sua mão esquerda, que ele re­
tirou, mas deixando a direita junto do objeto. Disse-lhe então:
- Pegue o chapéu.
E, com minhas mãos, aproximei o chapéu das suas.
Ele me olhou, talvez intrigado com esse contato táctil, e deixou as mãos
como eu as havia posicionado. Eu lhe disse:
- É, o chapéu da moça.
Depois, recoloquei o chapéu em minha cabeça. O menino estendeu as duas
mãos. Entreguei-lhe o objeto e, todo satisfeito, ele o segurou. Passou a levantá­
lo com as duas mãos, de braços estendidos, e a fazê-lo cair novamente sobre a
cobertura do carrinho, tornando a levantá-lo e a deixá-lo cair mais uma vez. A
cada um desses gestos, eu dizia:
- Bonito chapéu.
Ele parecia extasiado, muito ocupado com o objeto. Após um breve mo­
mento desse jogo, mais depressa do que seria possível descrever em palavras,
lá estava o chapéu sendo lançado borda afora, à direita do carrinho. A mãe
comentou:
- Essa é a brincadeira favorita dele; é por isso que não lhe dou nada: tu­
do é imediatamente jogado no chão.
Já o bebê olhava visivelmente na direção de minha cabeça, procurando ali
rever o chapéu. Apanhei-o do chão para entregá-lo ao menino, mas ele não es­
tava mais interessado. Cobri-me então com o chapéu, continuando a falar com
sua mãe, quando, alegre, ele pareceu novamente querê-lo. Agitava os braços,
com a fisionomia animada e balançando-se no assento do carrinho, olhando para
o chapéu. Entreguei-lhe o objeto, que foi prontamente jogado no chão por di­
versas vezes seguidas, para sua grande alegria. Já não havia necessidade de que
eu o recolocasse na cabeça. A criança esperava por seu reaparecimento, olhan­
do para mim, para mim e para minhas mãos, silenciosamente absorta; depois,
tão logo o objeto era colocado sobre a cobertura do carrinho, o menino, con­
vencido, decidido e rápido, jogava-o no chão. Em certo momento, eu lhe disse:
- Chapéu no chão!
E tornei a apanhá-lo, como antes. O menino me olhou, atento, sério, um
pouco confuso, antes de repor as mãos no chapéu. Mas, feito isso, lá estava o
objeto no chão, e a criança aguardava, tranqüila.

8
A PROPÓSITO DA FUNÇÃO SIMBÓLICA DAS PALAVRAS

Vocês acham que agora já sabem tudo dessa história? De modo algum!
Rindo, eu disse ao menino:
- Jacques jogou outra vez o chapéu no chão! Oh!
Então, enquanto eu me abaixava para apanhar o chapéu, o bebê se incli­
nou, com esforço, agarrando-se com as duas mãos na borda do carrinho, para
olhar o objeto que eu apanhava. Já um pouco cansada da brincadeira, disse-lhe:
- Não, agora acabou. . .
· O menino aceitou e voltou a sua postura quase imóvel, olhando com
ar indiferente o chapéu recolocado em minha cabeça. Mas não tinha acabado . . .
Continuei a conversar com sua mãe e o bebê, de tempos em tempos,
resmungav:a alguma coisa, agitava-se no assento, sacudindo o carrinho ou
acompanhando com os olhos alguma outra criança no jardim que gritasse ou
corresse.
Querendo retomar a conversa com ele, perguntei-lhe:
-Chapéu?
Olhou-me sem se mexer. Estendi-lhe o chapéu. Ele fez cara de quem não
queria pegá-lo, contentando-se em olhá-lo com ar indiferente . . . Então, para fa­
zer alguma coisa, e surpresa por ele não mais querer pegar o chapéu nem jogá­
lo no chão, voltei a dizer num tom claro, mostrando-lhe o objeto à distância,
com o braço esticado:
-Chapéu!
O menino me olhou. Depois, fazendo o objeto desaparecer rapidamente
atrás de mim, falei:
-Não tem mais chapéu!
E, voltando a mostrá-lo:
-Chapéu!
E assim sucessivamente:
- Chapéu! Não tem mais chapéu!
Foram cinco ou seis vezes, não sei. Estávamos os dois, eu e Jacques, aten­
tos à brincadeira; mas ele nada manifestava, nem em termos motores, nem por
sua mímica. Parei então e disse:
-Bom, não tem mais chapéu.
Ele aguardou um momento. Depois, começou a se agitar no assento, re­
mexendo os braços, com pequenas inspirações seguidas por expirações rápidas.
Tomando isso como um pedido, fiz reaparecer o chapéu, dizendo:
-Chapéu!
E o deixei imóvel, bem à vista. Jacques voltou a se agitar. Tornei a fazer
o objeto desaparecer, dizendo:

9
NO JOGO DO DESEJO

-Não tem mais chapéu!


Seguiu-se uma pausa. O bebê se agitou e considerei isso um pedido. Era
exatamente o que ele desejava: a aparição "chapéu", seguida pelo desapareci­
mento "não tem mais chapéu". Expressava-me seu desejo agitando-se, sem emi­
tir nenhum som, mas eu o entendia.
Continuamos nesse joguinho por um bom tempo! Depois, para me di­
vertir, querendo, por assim dizer, fazer uma piada, comecei a pronunciar os mes­
mos fonemas, invertendo os gestos que os acompanhavam. E me divertia em dizer:
-Chapéu! - enquanto fazia o objeto desaparecer, e -Não tem mais
chapéu! -enquanto o mostrava. De repente, e pela primeira vez em sua vi­
da, Jacques pôs-se a rir às gargalhadas, o que, como vocês podem imaginar,
surpreendeu tanto a mim quanto a sua mãe! Uma gargalhada! Uma garga­
lhada que era interrompida, como um arrulho em sua garganta, à espera do
que eu ia fazer.
Separei então as palavras dos gestos por completo, ora fazendo com que se
correspondessem, ora não. A cada vez que dizia "Chapéu!" ao exibir o objeto e
"Não tem mais chapéu!" ao escondê-lo, Jacques se mostrava contente e sério,
espreitando e aguardando. Mas, toda vez que eu dizia o contrário do que fazia,
reprisava-se a hilaridade às gargalhadas. Na verdade, tanto para esse bebê co­
mo para mim, foi uma boa diversão.
Essa historinha vivida deixou-me a lembrança de que um bebê pouco
comunicativo de nove meses, através da linguagem e mesmo sem pronunciar
ele próprio as palavras, pode tornar-se senhor de seu desejo; de que um bebê
que ainda não fala não só é capaz de brincadeiras motoras e verbais em harmo­
nia com outro ser humano, como também já conhece a contrâdição entre o di-
. to e a experiência da realidade�riaf�;�����i di.ss_o.aidéia d�-qll� essa
;;me�1:ir_i1.;, par�çe
_ i1:1troduzfr ne>j�sº a dimensão humanade c�_i.npF_c.i�adeque
d�__tQQQ__o seu valor aos sujeitos qt1e são senhores ·da realidade. É exatamente
;í que e�ti a origem do jogo de palavras: na verdade, jogo de sujeitos que
são senhores das coisas e as submetem a sua função simbólica, que podem gozar
tanto ou mais com a contradição do que com a confirmação. É a origem do
humor . . . O chapéu era de feltro lanoso, "aveludado", de cor marrom-escura;
algo diz à psicanalista em que me transformei que esse chapéu, como coisa e
como palavra, era intensamente significativo para um bebê observador de nove
meses, ainda obrigado a guardar silêncio e que ainda não tinha controle de seus
esfíncteres.
. . . Quantas perguntas são suscitadas por essa história de palavras e de um
chapéu entre uma mocinha alegre e um menininho galhofeiro de nove meses:

10
A PROPÓSITO DA FUNÇÃO SIMBÓLICA DAS PALAVRAS

- Por que se sentira ele, sendo moreno, filho de pais morenos, e tendo
eu cabelos escuros, atraído por aquele chapéu marrom colocado sobre minha
cabeça, sendo que de início lhe fora indiferente quando eu o separava de minha
cabeça?
- Por que só se interessou pela "coisa em si" por eu a ter nomeado e sub�_
- - �zeti�� '!- sH_a _observação, variando-lhe os contornos e a posição e repetindo os fone-
mas? Talvez ele já conhecesse a palavra "chat" [gato} e a palavra "peau" [pele},
ou "pot" [pote}; ou será que a palavra "chapeau" [chapéu} nunca havia acom­
panhado a percepção daquele objeto e um tal intercâmbio com outro ser hu­
mano? Ele próprio não usava nenhum boné ou gorro.
- Por que teria assinalado um momento de surpresa ao me ouvir pro­
nunciar a palavra "chapéu", seguida de "no chão", que aliás não pronunciei em
tom zangado, antes de recomeçar a mesma brincadeira? Seria porque sua mãe
o privava dos objetos, por medo de que ele os jogasse no chão?
-Por que ele só olhou para o lugar onde o chapéu havia caído, e onde eu
o apanhava vez após outra, depois que pronunciei as palavras "Jacques jogou o
chapéu no chão"?
- Por que teria ele aceito renunciar à brincadeira que havia ocupado sua
atenção, depois de haver assim observado o lugar e a recuperação do chapéu, e
por que teria assumido imediatamente o ar de quem nos havia esquecido, ao
chapéu e a mim?
- Por que, quando pensei em recomeçar a brincadeira, ele lhe foi indife­
rente? Seria porque, como sua mãe, eu o tinha privado do que ele sabia ter jo­
gado "no chão", depois de ter tido uma confirmação visual disso?
- Por que o jogo "chapéu-não tem mais chapéu", à distância e sem que ele
tocasse no objeto, voltou a tornar este último muito interessante?
- Por que, sobretudo, aquele riso, expressão nova e exclusivamente hu­
mana? Por que, conhecendo a palavra da coisa, os fonemas de sua presença e de
sua ausência, teria ele achado tão engraçado brincar de mentir comigo, e eu, de
mentir com ele?
,,,,--, --=- Que seriam aqueles arrulhos da garganta, fímbrias do riso às gargal):iªgas
que ele guardava em seu íntimo, esperando, modulando-os suavemente, sustan­
do-os e, depois, recusando-se a rir novamente, e só permitindo que eles se fundis-
���tra vez numa gargalhada quando a experiência era contraditória ao dito?
- Por que o bebê podia ser inteligente, mas ainda desprovido de meios
de comunicar o que desejava e o que pensava, assim parecendo lento e arisco
aos olhos de uma mãe inteligente?
-E há ainda muitos outrÓs "porquês" . . .

11
'"'·
�. . .

Pa lavras e fa ntasias *
Março de 1 967: viagem aos Alpes, vagões-leito, compartimento de dois
leitos.
Pai e mãe, ambos com 2 5 a 30 anos, rostos bem delineados; ela, sem maiores
coquetismos, cabelos meio longos e soltos. Duas belas crianças bem desen­
volvidas, aparentemente com seis e três anos. Os quatro usam roupas de esqui.
As duas crianças têm cabelos cortados curtos. Meninos ou meninas? Impossível
saber. Os dois têm apelidos que bem poderiam ser nomes de gatos ou cães: di­
gamos, Jajá e Riri.
É manhã: em uma hora deveremos chegar. Todo mundo se prepara no
vagão. Jajá e Riri já estão equipados, impacientes.
O comissário do trem passa e anuncia:
- Não se apressem, estamos com duas horas de atraso.
Decepção da pequena família. Riri e Jajá, ambos libertos de seus bonés e
casacos de neve, põem-se a correr pelo corredor; o pai e a mãe fumam em frente
a seu compartimento e parecem ansiosos:
- Que vamos fazer? A essa hora, o ônibus terá ido embora e teremos que
esperar pelo das 1 1 horas. Devíamos ter dito ao padre Fulano que viesse nos
buscar de táxi.
- Já imaginou, esperar num frio desses com as crianças!

*Publicado em Pratique des Mots, 1967, n. 1 (esgotado).

12
PALAVRAS E FANTASIAS

-Não se aflija tanto, há sempre a sala de espera!


-É, mas ela não tem aquecimento!
-A gente encontra um calefator . . . Não somos os únicos, não se inco-
mode. Você fica na estação, perto do calefator, e eu telefono para o padre Fulano
para que ele venha nos apanhar.
Com ar preocupado, os adultos tornam a entrar na cabina. Um momento
de silêncio entre as crianças e depois, com a voz excitada, a mais velha diz:
- Oh! Nós vamos ver os soldados-barracas 1 ! Puxa, isso vai ser bom! E
depois, os cowboys, e depois os índios!
A menor segue a deixa, pronunciado mal as palavras:
-E aí, eles tocam tambô e coneta!
E põe-se a imitar o som do clarim a plenos pulmões.
-Riri, cale a boca! -grita uma voz de dentro da cabina.
Mas Riri corre, perseguido por Jajá. E caem, e riem, e saltam, e quando
voltam a se postar diante da cabina dos pais, Jajá pergunta:
-A gente chega logo? Nós vamos ver eles? Eles vão 'tá lá?
Depois, por sua vez, o menorzinho:
-Como que eles podem atirar se eles têm zero braços 2? Puxa, eu queria
ver isso . . . É, sim! Como é que eles podem?
Riri se interroga, angustiado por fantasias de corpos mutilados.
-A gente vai ver -consolam-se um ao outro.
Os pais, sem ouvidos, permanecem mudos diante dessas perguntas con­
cernentes a significantes insólitos, sala de espera e calefatores, geradores fan­
tasmáticos, contentando-se com um simples:
-Ora, calem a boca!
A porta do compartimento é fechada, depois de haver tragado Riri e Jajá,
difíceis de conter em sua exuberância. Nas paradas sucessivas, os viajantes
descem; há ainda, para toda essa gente em jejum, o aperto em torno dos carri­
nhos de serviço. O pai-pelicano, que já voltara duas vezes de mãos abanando,
traz enfim café e sanduíches. Todos se fecham, se alimentam, e então as cri­
anças tornam a sair e o tema dos soldados-barracas continua a se desenvolver.
A cada estação, os olhos ávidos procuram ver, e cada um se tranqüiliza como
pode:

1 No original, salle d'attente e soldats-tente (sala de espera e soldados-barracas), cuja semelhança fonética se perde
na tradução. (N. T.)
2 O francês zero de bras (zero braços, nenhum braço) inverte foneticamente o brasero (calefaror) empregado pelos
pais no diálogo entreouvido pelas crianças. (N. T.)

13
NO JOGO DO DESEJO

- Eles não estão aqui, não é aqui que a gente vai descer, eles vão estar lá
onde a gente vai descer, um general também, com seu cavalo-barraca', todo
pomposo e sem braços.
O sonho continua. Por fim, chegamos. Riri e Jajá são novamente apara­
mentados. Escuta-se "Dê-me sua perna . . . a outra . . . Vamos, fique quieto".
Os dois adultos estão prontos, ambos com as mochilas nas costas, o pai
com uma valise debaixo do braço:
- Jajá, não solte o papai.
A mãe segura Riri num dos braços, como se subitamente ele não mais
soubesse andar, e, sob o outro braço, carrega uma coisa quase tão grande quan­
to Riri, uma espécie de monstro de trapos estofado, com uma cabeça tão volu­
mosa quanto o corpo e quatro membros informes, tudo de cor indefinida.
Todos descem, não sem que a mãe tenha chamado Jajá para lhe enfiar nos
braços sua "boneca" esquecida - outro embrulho grande, revestido qual sal­
sicha com uma cobertura imunda de onde saem longos pêlos amarelentos, ca­
belos hirsutos que circundam um rosto desbotado, de aparência remotamente
humana. Jajá parece indiferente e, agarrando-se com uma das mãos ao casaco
do pai, deixa que seja estorvado o único braço que lhe resta, bem mais preo­
cupado com o esperado espetáculo do que com tudo o mais. Na plataforma, a
manada de migrantes que somos, sobrecarregados como burros de carga, avança
em direção à pequena estação. O trem apita e torna a partir.
Saída da estação. Lá está o ônibus. Balbúrdia. O ônibus se enche. A teste­
munha que sou ocupa um assento. A pequena família procura um lugar, mas é
preciso pensar em tudo: não se colocar perto de uma janela, porque a criança
pequena sentiria frio, mesmo com a janela fechada; tampouco em cima das ro­
das, porque sacolejaria muito.
- Você, com ]ajá, fique do lado da passagem, para o caso de ela se sentir
mal.
(Portanto, é uma menina).
- Mas, escute, ela nunca passou mal num ônibus.
- É, mas, depois de uma noite na estrada de ferro, eles não estão no seu
estado normal, e depois eles não fizeram . . . enfim . . . espero que Riri espere até
chegarmos, porque ele precisa do vasinho dele, mas Jajá . . .
A mãe se angustia com fantasias de defecação. Jajá está aniquilada, de­
cepcionada, sem dúvida, mais arriada sobre o corpo do papai do que em seu co-

3 No original, cheval-tente, que remete ainda uma vez a salle d'attente e soldats-tente. (N. T.)

14
PALAVRAS E FANTASIAS

lo; chupa distraidamente o polegar e, revirando os olhos, acompanha os pas­


sageiros que se acomodam. O corredor separa o lugar de Papai-Jajá e Mamãe­
Riri. Estou à esquerda de Mamãe-Riri. Riri está deitado como um lactente gi­
gante, atravessado no colo da mãe; chupa vorazmente o polegar e fixa os olhos
no perfil do pai. Como o grande fetiche atrapalha sua visão do pai, mantém a
cabeça soerguida. A mãe se apercebe disso e dá o fetiche ao pai, que se levanta
para colocá-lo no bagageiro. (Não seria uma espécie de tartaruga?) Os olhos de
Riri acompanham todos os movimentos do pai.
Descubro que Riri tem três anos e é um menino (sua irmã tem seis). A
mãe o embala como se tivesse seis meses. E, ainda há pouco, ele estava falando
como uma criança de 1 8 ou 20 meses.
O ônibus está cheio. Muitas pessoas estão de pé. O motorista diz:
-Cheguem mais para trás; ainda há lugares vagos, é só vocês abaixarem
os bancos móveis4 •
Assim, podemos sentar-nos, cinco em cada fileira. Um urro súbito é emi­
tido à minha direita: Riri, furioso, largou seu polegar. O senhor que acabara de
sentar-se leva um susto.
- É que o senhor escondeu o papai dele - diz a mãe com um sorriso
tímido e em tom choraminguemo (ou adulador?). - Ele não consegue viver
se deixar de ver o pai.
O senhor inclina o tronco para a frente, para que Riri-tirano veja seu deus,
visão esta que é sua única referência fálica tranqüilizadora.
Nesse meio tempo, durante a pequena agitação, as palavras do motorista
redespertaram as fantasias de vida social de Jajá. Deixando sua aparência
aniquilada sobre o pai, com a boca aberta e o polegar a vinte centímetros dela,
endireitada em seu assento, Jajá estica o pescoço para olhar. Interrogativa e com
ar muito interessado, pergunta:
-Por que vamos bater neles5? Você também, papai? Vamos bater neles?
Todo mundo?
Depois de "sala de espera" e "calefator", é "abaixar os bancos móveis" que
alimenta as fantasias sádicas de Jajá.
-Vamos, cale a boca! -diz o pai.
A vigilância de alguns segundos se desfaz; mas a grande e incômoda
boneca-mendiga é passada, por intermédio do senhor-corredor, para Mamãe-

4 No original, rabattre les strapontins (abaixar os bancos móveis) e on va les battre (vamos bater neles), que aparece
logo adiante na pergunta de Jajá. (N. T.)
5 Ver nota de tradução anterior. (N. T.)

15
NO JOGO DO DESEJO

Riri, que a aperta contra o peito. Tranqüilizada por ver a acolhida protetora da­
da a seu fetiche amado, Jajá se espoja sobre o pai e tenta mergulhar na indife­
rença ao mundo.
-A senhora está um bocado sobrecarregada - diz minha boca à mu­
lher. -Isso não é muito cômodo.
- Ah, é, diz ela, cada um precisa de seu boneco todas as noites . . . sem is­
so eles não dormem; então, é melhor carregar . . .
Mas eis que o senhor do banco móvel, cansado de ficar dobrado para a
freme, endireita-se em seu assento. Novos urros de aflição de Riri. O senhor
volta a se encolher. Riri se acalma e seus olhos se fecham. E a mãe, ansiosa,
dirige-se ao marido:
-Você sabe onde está a garrafa térmica? Ele com certeza vai sentir sede,
ainda temos uma hora e meia pela freme.
O pai, envergonhado, confessa ter colocado as mochilas e as malas na tra­
seira do ônibus. Angústia da mãe. Ela fantasia a sede do filho. Felizmente,
começamos a andar. Riri, de olhos semicerrados, relaxou a nuca e fica quieto.
Após as palavras da mãe, um sobressalto retira Jajá do sono por um mo­
mento, para dizer pipi. Os olhares angustiados dos pais se entrecruzam. É ab­
solutamente impossível se mexer. Aceitação tácita, resignada, de uma inun­
dação provável. Tímidas injunções lamurientas de adiamento. É papai que fala
com Jajá. Esta, novamente entorpecida, adormece, sonhando, sem dúvida, com
os soldados-barracas saltitando em seus cavalos empinados, com os braços cor­
tados a zero e batendo em todo mundo.
Quantos filhos-fetiches, de pais que cuidam apenas de suas necessidades­
rainhas, escutam, assim, palavras de sentido misterioso, indutoras de fantasias,
atentos que estão aos adultos-senhores -palavras que eles engolem com os ou­
vidos, tal como a goela de um cão engole moscas, desejos-voyeurs perdidos num
deserto de não-comunicação!

16
:l
J· . -
As sensações ��nestésica;'tle
bem-estar ou maí-eslar,- ori gem
dos sentimentos de cul p a *

Durante estas jornadas 1 , falamos nas modalidades do sentimento do er­


ro, ou seja, do sentimento (consciente) de culpa, assim como das estreitas re­
lações entre esse sentimento consciente e aquilo que os psicanalistas, não ten­
do ainda encontrado um termo melhor, chamam sentimento inconsciente de cul­
pa; mostramos também as relações deste último com o mecanismo fra�is­ ele
so e os senti,rne�tos �os cómplexós de inferiorid�de. Q Pr, Lªfargue,_ falou no
{�piziguame�tÕ-que as religiões -sobretudo a religião católica -podem tra­
zerào sentimênto de culpa inconsciente entre os fiéis . Eu gostaria, como psi­
canalista de crianças, de trazer minha modesta contribuição para esse estudo,
a partir de algumas observações clínicas das primeiras manifestações do sen­
timento de culpa.
Quando a criança, com a ajuda dos qualificativos bom ou mau, bonzi­
nho ou malvado, começa a exprimir julgamentos morais sobre seus atos e os
de outrem, esses julgil-!U�.Q.fOS -�gªQ�mpre ligados a uma m ímica, declara­
da ou oculta, de aqi:i_iescênct{\>u rejeiç_�, ou mesmo de revolta. Isso impli­
ca que a crianç� tem, po;-� IáCio;·ã-;;:oção de uma liberdade de escolha (ela

* Psyché, n. 1 8/19, 3� ano, Paris, abril-maio de 1948.


1 Essa comunicação foi feita no contexto de jornadas organizadas por Psyché em Royaumonr, tendo como tema
o estudo da culpa (j aneiro de 1 948) .

17
NO JO G O DO DESEJO

acredita ter sabido que teria sido possível não agir), e que, por outro, busca
a confirmação vinda de outrem - um irmão mais velho ou um adulto, de
preferência o adulto-genitor a quem ama, por depender dele para seu bem­
estar, e em quem, por esse fato, ela confia a priori - sobre o julgamento que
formulou. O adulto parece "contente" ou "descontente" ? Isso é o que im­
porta. Se o adulto está contente, tudo bem, a criança se sente boazinha; se
não está, isso é ruim, a criança se sente má.
Inversamente, é curioso constatar que, quando uma criança decreta que
uma coisa (e não um ato, nem uma pessoa) é "boa" ou "má", não pede a opinião
dos adultos. Ela pode não estar de acordo com os julgamentos estéticos, gusta­
tivos ou sensoriais dos adultos, e até mesmo opor-se a eles sem dificuldade (sal­
vo nos casos de uma educação que despreze muito a liberdade do indivíduo).
Daí podemos deduzir que a escala de valores "bem-mal" não depende, no
psiquismo, das mesmas normas de elaboração das escalas de valores "bom-mau",
"agradável-desagradável" e "bonito-feio" 2 •
No que concerne às percepções gustativas, elas são percepções diretas, li­
gadas a nossas singularidad�s individuais, e que, e� �ista disso, s�ntimos co­
mo absolutas, isto é, sem referência a outrem. Os biólogos chegam até a afirmar
que certos gostos são atávicos3 ;,
--- ---Quanto ao senti�ento de bem ou mal que acompanha qualquer ato, ele
constitui o começo de uma escala de valores que se constrói no contato rela­
cional com o meio. Essa escala é elaborada em cada um de nós por uma sucessão
de experiências de linguagem e, às vezes, simultaneamente, de linguagem e
sensoriais; experiências vividas, de qualquer modo, no contato com os outros, ou
seja, em relação com o meio social que serve de testemunha, com o ambiente.
A criança nunca tem certeza do que está bem ou mal; tem certeza apenas do }
que lhe traz algo de bom ou de mau para viver, isto é, para sentir; e esse sentir/

2 No cocante a esta última escala de valores, "bonico-feio", ela mereceria um estudo parcicular, pois se vincula
si11111ltaneamente com valores experimentados e fixados de maneira su�jetiva e com valores atribuídos àquilo que
os outros expressaram através da linguagem. A verdade é que o gosco estético, visual e musical pode escapar à
determinação por parte dç outrem e, em vista disso, permanecer autônomo. Existem, sem dúvida, conforme
as crianças e conforme a díade mãe-filho, matriz da relação com o adulro tutelar, sensibilidades mais ou menos
afinadas com a influência em matéria da música e da linguagem.
3 Entretanto, realizou-se nos Estados Unidos uma experiência sobre o modo como um novo alimento é apresen­
tado a crianças de dez a onze meses de idade, e se observou que essas crianças recusavam-se a gostar desse novo
alimento (fígado de vicelo) quando a pessoa que o apresencava a elas não o apreciava, ainda que em nada demons­
trasse sua aversão. Trata-se, portanto, de uma emoção fóbica inconscientemente sugerida. A experiência demons­
tra que ela não deixa vestígios e que a criança que tiver descoberto um alimento com uma pessoa que goste dele
passará a aceicá-lo, em seguida, mesmo que ele lhe seja oferecido por uma pessoa que não o aprecie.

18
AS SENSAÇÕ E S CEN ESTÉSI CAS . . .

é experimental, ao passo que o bem e o mal só podem ser inculcados através de


uma linguagem que iniba a experimentação: uma linguagem que impeça a cri­
ança de fazer ou repetir esta ou aquela experiência.
De qualquer modo, o fato é que a criança que começa a falar no bem e no
mal não nasceu ontem, já é um ser muito complexo. Por conseguinte, é im­
portante, depois de haver sublinhado as diferenças que nos parecem existir en­
,tre esses dois tipos de escalas de valores -"bom-mau" e "bem-mal" -, voltar­
mo-nos para suas relações, estudando as etapas da evolução da criança com relação
ao bom e ao mau, desde seu nascimento até a formação de seus primeiros julgamentos cons­
ci entes sobre o bem e o mal (julgamentos proferidos por outrem, que ela ouve; jul­
gamentos formados por sua própria experiência, mas só exprimíveis a partir dos
1 2 a 1 8 meses; e depois, os formados com a ajuda de palavras dos outros, mas
não antes de dois anos e meio a três anos).
Observar, nesse caso, nunca é nada além de observar comportamentos. A
psicologia infantil, a psicologia dos muito pequenos, apóia-se exclusivamente
no critério da mímica e dos gestos da criança, já que, até essa idade, o ser hu­
mano não pode exprimir-se de outra maneira. O bebê se dirige para as coisas e
os seres quando é a pri ori positivo em relação a eles, isto é, quando as coisas lhe
despertam o apetite e quando os seres o atraem. Mas, quando o bebê se opõe
ativamente, seria superficial concluir da í que não se sente atra ído, a menos que
se entenda por isso que o que ele sabe não amar é-lhe imposto contra sua von­
tade. Neste último caso, a criança se defende por algum tempo. Certos bebês
logo se submetem por toda a vida; outros o fazem a contragosto, e cedo ou tarde
se rebelam. Mais genericamente, opor-se a alguma coisa pode ser, na criança,
sinal de uma forte atração por essa coisa, misturada com o medo, em razão das
discordâncias de todos os tipos a que poderia levar um ato que, em seu con­
texto, recorda-lhe uma experiência que já acarretou conseqüências desagradáveis
(efeitos sensoriais, reprimendas, discordância ou agressividade por parte dos
adultos).
Na presença de uma coisa ou de uma pessoa que lhe pareça boa, por estar
associada a referências conhecidas, e portanto reasseguradoras, a criança se sente
bem e apresenta uma m ímica de calma, expansão, desabrochamento, repouso.
Ao contrário, o que lhe parece mau lhe traz mal-estar, provocando nela uma
m ímica de tensão, fechamento, crispação, excitação e fuga, seja através do movi­
mento, seja pelo desvio do olhar, acompanhado por uma defesa com as mãos
(caso ela já conte com a possibilidade gestual).
Todas as observações conduzem, por outro lado, à seguinte constatação:
seja ele consciente ou inconsciente, o sentimento de culpa, tanto no adulto

19
NO JOGO DO DESEJO

quanto na criança, é subentendido pelo medo -medo de um mal a ser sofri­


do, de um golpe ou dor imaginados, de um perigo fantasiado, de um mal-es­
tar ligado à representação clara ou confusa das conseqüências implicadas pelo
próprio desejo de certos atos, cujos riscos o sujeito memorizou através de seu
próprio corpo. Assim, éi_f!:lportimte estudar as expressões da vida, d(: un:i: ser hu­
mano, bem como as relaçõ�::; que se estabelecem para ele entJ(: e�sa§_(:�1,ressões
e o; estados de bem-estar e mal-estar. É somente através dos estudos clínicos
da,�iii�_�Jogê��9 dos estados inconscientes de bem-estar e mal-estar que acom­
panham as etapas do desenvolvimento primário que compreenderemos os ele­
mentos psicossomáticos (a angústia e suas manifestações orgânicas individuais)
que entram em ação no sentimento inconsciente de culpa. Nasce uma criança.
Ela é um agregado sintético e organizado de células que funcionam segundo as
leis do movimento progressivo, obedecendo a ritmos alternados, leis estas que
servem para a perseveração do ser e para seu crescimento até um estado de ma­
turidade que será caracterizado pela fecundidade. Todos esses movimentos se
inscrevem no tempo e no espaço,Zt a yigv;e c:ara,ct�riza por ll_IIIª nwdificação
CQntínua,do__�stado interno. Cabe acrescentarmos que, seguindo um certo rit­
m_°-1 ()_9r��f1:���?�xfê_ri�enta necessidades relativas-� seµ-�re��i��if<?_: __ -- -
A sensação de uma necessidade provoca uma excitação, que desencadeia
movimentos apropriados para permitir sua satisfação: no lactente, a boca se abre
e se orienta, estendendo-se em busca do seio. O que quer que encontre de preên­
sil, �-lactente o aperta entre suas mandíbulas e mama. Se vem um l íquido, ele
bebe. Essa satisfação traz � calma, com a expressão visível de bem-estar e a m ími­
ca de dilataçã� repo�1��da�-S�b�mos que isso é bom para ele. O que não aplaca
sua tensão, ou seja, aquilo que não o satisfaz, ao_ _C()!}t_nftiu,Jhe é _rui��l� se
crispa e chora; poderíamos dizer que, nesse estágio, que chamamos �a li­
bido impele o ser a se exprimir-pelo_chor-o. O choro é bom, pois alivia a tensão
libidinal oraL Um movimento alternativo imprimido ao corpo do bebê (o em­
balar) também é bom; acalma uma tensão energética difusa, que não é fome
nefil sede, e que não se satisfaz numa mamada.
u�-�bjet� pàra chupar, que atenda à necessidade reflexa de sucção (ex­
pressão geral de tensão libidinal nessa idade, e que pode ser de desejo e, portan­
to, independente da necessidade), também acalma o bebê. É "bom", enquanto
a não-satisfação da fome não se reconverter num desprazer, ao cabo de algum
tempo, pois o prazer de chupar não o saciará enquanto a sucção for seca.
Entretanto, a sucção de um bico seco pode enganar a fome por algum tempo.
Vemos aí, no ser humªno1 a possibilidade que o engano tem de satisfazer um
d�sejo, S�IIl Sat:Ísf�;er a necessidade: por vezes, quando a criança chÔra-;-l por
---
20
AS SE NSAÇÕES CENESTÉSICAS . .

desejar uma presença, e não porque tenha fome, sono ou necessidade de ter sua
fralda trocada.
A satisfação de todas as necessidades vegetativas inerentes à vida é senti­
da como "boa" e agradável, aquém e além de qualquer escala de valores estéti­
cos e morais. É o caso das necessidades de ar, água, nutrição, luz, sombra, ativi­
dade e repouso, ou da necessidade ritmada de vig ília e sono. É o caso também
.· das necessidades de movimento, que concernem, de início, aos movimentos im­
primidos ao corpo do bebê ainda incapaz de movimentos voluntários e, depois,
a seus próprios movimentos, à medida que ele se desenvolve do ponto de vista
neuromuscular.
Em todos os seres humanos e em cada idade, o aparecimento dessas ne­
cessidades é espontâneo e obedece a ritmos; seu aparecimento repetido obedece
também ao ritmo individual, sendo a não-satisfação ou a satisfação em ritmo
inadequado sentidas como más. Quando o bebê que sente fome e chora não re­
cebe nutrição, seu organismo fatigado, ao cabo de algum tempo, se esgota.
Sedento e faminto, o pequenino pára de chorar e parece não mais experimen­
tar necessidade. A fome, por força de fazê-lo sofrer, deixa de ser "boa". A cri­
ança não apenas não mais procura tomar o alimento que lhe é oferecido, como
pode também chegar a não mais experimentar o impulso de comer. Permanece
então inerte, sem mímica, com os olhos abertos, incapaz até mesmo de chorar,
podendo até chegar à morte por inanição. Portanto, o que é bom pode perder
seu valor quando o organismo sofre demais por não ser satisfeito. Há uma ini­
bição do apetite em suas próprias origens, um retrocesso da expressão libidinal
por "desinvestimento" do tubo digestivo e uma fixação regressiva da libido nos
sentidos de percepção passiva: audição e visão; depois, mais tarde ainda, na ár­
vore respiratória e circulatória; e finalmente, vem o sono da inanição.
Pensa-se com muita freqüência que é através do mecanismo nutricional
que o bebê manifesta suas primeiras reações de ser vivo. O exemplo do bebê
que morre de inanição -que, lastimavelmente, algumas pessoas puderam ver
em filmes nestes últimos anos -mostra que a necessidade de ar e o desejo de
comunicação com o outro, pelo olhar e pela audição, são mais essenciais do que
o instinto de nutrição; e também que o sono, vindo após um período de insô­
nia angustiada, é a t�adução de um movimento de refúgio dentro de si, quan­
do nada mais é esperado das relações psíquicas ou substanciais com o mundo
exterior, já que este último, durante um tempo excessivamente longo, não
trouxe intercâmbios vivificantes. É então que a criança volta as costas para a
busca fora dela mesma e mergulha num sono fisiológico que pode chegar à
morte. Nos casos em que há fome, não no plano nutricional, mas no plano da

21
NO JOGO DO DESEJO

relação psíquica com a mãe, vemos as crianças entrarem no autismo, sem que
de nada sejam privadas no tocante a suas necessidades. Trata-se de crianças
desritmadas quanto ao desejo de relação de linguagem com o adulto; após um
período intenso de desejo e não trazendo o mundo exterior nenhuma resposta,
elas renunciam e passam a não ter mais que trocas fantasmáticas com suas
próprias sensações viscerais, mostrando-se então indiferentes ao ambiente que,
não obstante, atende a suas necessidades.
Sabemos que, no nascimento, o ritmo cardiofetal dá lugar a um ritmo
card íaco inteiramente diferente, desde a primeira inspiração. O nascimento se
faz acompanhar de uma modificação anatômica do coração, que é a obliteração
da fossa de Botal. Ao mesmo tempo que se produz essa modificação da anato­
mia, da fisiologia e do funcionamento visceral da criança, esta se separa ativa­
mente do organismo materno; há uma suspensão dos batimentos sangüíneos
no cordão umbilical e se instala uma relativa autonomia orgânica. A dissocia­
ção dos ritmos cardiorrespiratórios, que são os sinais preliminares da angústia,
encontra-se em certos estados do adulto: nos ansiosos, o ritmo cardíaco é per­
turbado com grande freqüência, assim como a respiração é inibida. A mímica
do indivíduo que experimenta uma surpresa penosa ou um choque emocional
é clássica: ele tem uma inspiração brusca, violenta e bloqueada, ao mesmo tem­
po em que, com a boca aberta, leva a mão ao coração e seu olhar se desloca co­
mo que para dentro dele mesmo.
O ritmo respiratório, portanto, aos olhos do observador, é a primeira
manifestação do "bom" fora do útero materno. Ou pode ocorrer que, mesmo
no plano mais primitivo dessas manifestações vitais, a criança experimente
um mal-estar perigoso e até mortal. O movimento respiratório é, ao que
parece, uma função passiva e natural em si mesma; mas é preciso que haja
condições ótimas de ar e temperatura para que a inspiração tenha o valor do
"bom" . Tudo aquilo que, no recém-nascido, é "bom" e corresponde a um rit­
mo interno eufórico acarreta, como dissemos, uma m ímica de distensão.
Quando as condições (temperatura, higrometria) são más, observamos na
criança uma m ímica de crispação que corresponde a um sentimento de mal­
estar. Eis aqui um exemplo:
Em dezembro de 1 944, somente em Paris, cerca de mil recém-nascidos
com zero a dois meses de idade morreram numa mesma noite, em decorrência
de uma bronquite aguda provocada por uma queda de temperatura de vários
graus, quando j á fazia muito frio. O "bom" da respiração transformou-se subita­
mente em "mau" para esses bebês tão pequeninos, e o mecanismo respiratório
se inibiu.

22
AS SENSAÇÕES CEN ESTÉSICAS . . .

Diante dos perigos naturais, o ser humano exibe uma mímica de crispação
e inibição de seus ritmos vitais. Do ponto de vista somático, constatamos que,
na bronquite aguda de que falei, os alvéolos pulmonares se crispam numa
reação de fechamento, ao passo que a vida precisaria exteriorizar-se dilatan­
do-os, em vista da inspiração. A existência desse duplo mecanismo gera a con­
gestão dos alvéolos, o escorrimento do soro e a obstrução das vias respiratórias,
que acarreta a sideração do mecanismo vital. Vemos aparecer espuma nos
lábios do recém-nascido; o coração e rodo o sistema cardiovascular, ligados
desde a primeira respiração à árvore brônquica, ficam também disrítmicos.
Mecanicamente, a hematose sangüínea se processa mal e a criança se asfixia.
Assisti a essa luta pela vida num bebê de quatro semanas, que sofreu o ataque
desses grandes frios numa época em que não dispúnhamos de aquecimento;
esse bebê conseguiu, graças ao balão de oxigênio, e talvez também graças a
sua grande calma natural, cruzar aquelas horas perigosas que foram fatais para
tantas outras crianças de sua idade, naquela mesma noite. Nos oito dias que
se seguiram, o bebê que pudera beneficiar-se do balão de oxigênio, no qual o
colocamos por períodos cada vez menos prolongados, recuperou completa­
mente a saúde. Mas, nessa criança, que foi subseqüentemente criada sem di­
ficuldade; apresentou-se uma crise de asma aos seis meses de idade, por ocasião
do aparecimento de seus primeiros dentes; e, toda vez que ela experimenta­
va um mal-estar orgânico qualquer, este era acompanhado por uma crise de
asma. Curiosamente, foi aos dois anos, por ocasião de uma forte coqueluche,
com os acessos de tosse asfixiante característicos, que a asma desapareceu
definitivamente.
Tive em tratamento diversas crianças asmáticas, sujeitas a crises mais ou
menos freqüentes, que costumavam durar três a quatro dias. No decurso de seu
tratamento psicanalítico, empreendido por outras razões (enurese, distúrbios
do caráter, escolaridade precária), essas crianças apresentavam crises de asma
que sobrevinham subitamente, quer durante as sessões, quer nos dias interca­
lados. E essas crises se caracterizavam por sua duração curta (ou muito curta):
às vezes, quando ocorriam durante a sessão, duravam apenas alguns minutos.
Tenho atualmente em análise uma criança que faz crises de asma com duração
de 1 O a 1 5 minutos, o que nunca lhe havia acontecido antes de seu tratamen­
to. Toda as vezes que pudemos assistir, ela e eu, no decurso de uma sessão, ao
aparecimento e desaparecimento de sua asma, ou ao desaparecimento de uma
asma com que ela se vinha debatendo há alguns dias, tratou-se de emoções as­
sociadas a sentimentos inconscientes de culpa, que eram, por sua vez, ressonân­
cias de um mal-estar-de-viver ligado às camadas mais arcaicas de sua persona-

23
NO JOGO DO DESEJO

lidade. Parece que, nos asmáticos, estamos diante de seres muito precocemente
sensíveis às relações emocionais e psicológicas com seu ambiente parental, e que
se sentiram precocemente em perigo afetivo por ocasião de manifestações orgâni­
cas, na idade do estágio oral passivo (ter fome ou necessidade de que as fraldas
fossem trocadas, por exemplo). Essa de que falei há pouco é uma criança cujo
pai e vizinhos não conseguiam suportar que chorasse. A mãe, que não tinha
querido habituá-la com a chupeta (pensando, com ou sem razão, que isso seria
muito ruim), ficava angustiada a cada vez que a criança começava a chorar. Após
dois ou três meses, a criança havia "compreendido" e estava totalmente inibi­
da em seu choro. Tornou-se absolutamente silenciosa, expressando-se apenas
através do olhar. Contudo, algumas semanas depois, a asma havia tomado o lu­
gar do choro, todas as vezes em que ela precisava exprimir urna necessidade ou
um mal-estar vegetativo na ausência da atenção de outrem.
Quando um complexo de castração se instala num terreno em que o mal­
estar já se exprimiu, por exemplo, pela ameaça de falta de ar, o sentimento in­
consciente de culpa pode despertar distúrbios somáticos cardiorrespiratórios.
Num grau menor de profundidade, ou melhor, de anterioridade no estágio
oral, o mal-estar-de-viver pode traduzir-se numa alteração do ritmo do peris­
taltismo digestivo, da dinâmica do apetite, da digestão, da micção e da defe­
cação espontânea.
Temos uma tendência a dizer "a criança": a criança precisa disto, a criança
precisa daquilo. É incompreensível ouvir-se falar dessa maneira quando se tem
experiência com recém-nascidos. Os lactentes diferem extremamente entre si
quanto às necessidades que têm de leite, tanto em quantidade como em qua­
lidade. Não existem normas. Mesmo nessa idade, a fome e a sede não se con­
fundem. Um certo lactente chora para beber água, e não leite, mas isso não é
levado em conta. Se vocês fizerem a experiência de colocar duas mamadeira·s, '
uma com leite puro e outra com água, ambas com a mesma temperatura mor­
na, ao alcance de um lactente de oito ou dez dias (não experimentei com bebês
mais novos), e se lhe oferecerem uma e a outra, perceberão que, quando o bebê
mama uma delas e depois não a quer mais, ele aceita bem a outra, deixa-a, acei­
ta a primeira, recusa-a para retornar a outra, e assim regula perfeitamente a
diluição do leite que lhe convém, até sua saciação. Agora que muitas crianças
são alimentadas na mamadeira e que as mães se mostram muito respeitadoras
das prescrições de horário e quantidade fixadas por tabelas estabelecidas, como
se todos os lactentes fossem iguais, as crianças são muito mais traumatizadas
do que na época -infelizmente ultrapassada -em que a lactante dava o seio
quando o bebê chorava, pois o leite que ele tornava, dessa maneira, era o leite

24
AS S E NSAÇÕES CEN ESTÉSICAS . . .

que ele próprio fazia subir ao seio daquela que o nutria. No que concerne a meus
próprios filhos, tendo sido muito rapidamente obrigada a acrescentar ma­
madeiras a meu leite, constatei que a diluição necessária do leite diferiu mani­
festamente em cada um deles, e que a criança a quem era dada a liberdade de
fazer ela mesma sua diluição a fazia perfeitamente bem. Mas é também preciso
saber que, se a quantidade de líquido assim diluído varia segundo as
crianças, a quantidade de cada mamada varia também conforme o horário do
dia, mas permanece, numa mesma criança, quase sempre a mesma nos mesmos
horários. Isso serve para demonstrar até que ponto a inteligência do bebê é
grande e está inteiramente a serviço de sua sobrevivência desde o estágio oral,
defendendo o equilíbrio de sua vida digestiva e a confiança que circula na re­
lação interpsíquica que ele mantém com a mãe.
A criança sadia chora por necessidade, carência, desejo, alegria e , às vezes,
dor, mas sem crispação. O adulto experiente e a mãe normalmente intuitiva
sabem muito bem fazer a distinção entre esse choro sadio, estênico, não-an­
gustiado, não-crispado e não-doloroso, que expressa as necessidades da vida (ne­
cessidade de ter as fraldas trocadas, de beber, de comer, pedido de companhia,
de ser tomado nos braços), e o choro de sofrimento (as "cólicas" do lactente, as
dores de ouvido, as dores de dente). É preciso respeitar os gritos da criança,
pois, graças a eles, ela nos estimula a descobrir o que lhe falta, por menos que
confiemos em suas expressões e saibamos descobrir o que elas pretendem sig­
nificar. Quando não chegamos a compreender a razão dos gritos de uma cri­
ança, não devemos de modo algum responder-lhe com nossos próprios gritos,
nem exercer uma brutalidade de gestos para reprimir nela a expressão que não
compreendemos: trata-se, para essa criança, de uma manifestação de vida, seja
�la, a expressão de um pedido ou de um mal-estar; e chorar é melhor para ela
do que não chorar, mesmo que não compreendamos o que isso signifique. Se,
por efeito de uma coerção, a criança sensível se abstém de chorar, a inibição ins­
tala-se nela, como conseqüência da natureza de sua relação com o adulto ama­
do de quem ela depende; e ela pode transformar-se numa espé�ie de reflexo
condicionado, passível de perverter seus ritmos vitais, seus ritmos somáticos.
O que é naturalmente "bom" no plano das estimulações torna-se, para essa cri­
ança, estreitamente associado com o "mau", e, de maneira absolutamente in­
consciente, e eu diria até mesmo cibernética, instala-.se a equação vida = peri-
go; ou ainda, no plano dinâmico, desejar = indesejável; e, no plano afetivo, amar
= "fazer mal" ou "atormentar".
É possível inibir o choro espontâneo do lactente, e isso constitui, na rea­
lidade, nessa idade oral, um trauma que pode provocar não só uma perversão,

25
NO JOGO DO DESEJO

mas até mesmo uma inversão dos ritmos vitais, pelas quais se prejudica seria­
mente o desenvolvimento ulterior do indivíduo. Condenar a expressão livre do
pequenino no estágio oral, e até mesmo mais tarde, antes da idade da fala, é
condenar em sua origem toda a expressão da libido, tal como esta deveria des­
dobrar-se através dos estágios posteriores - anal, uretral e genital. Todo ser
psico-afetivo é vulnerável em seu primeiro brotamento, nesse brotamento saí­
do do grão em germinação que se destina a converter-se no tronco da árvore;
mais tarde, tudo transcorrerá de maneira diferente, quando os ramos secundários
forem atingidos pela poda.
Admitamos que tudo tenha transcorrido bem no primeiro estágio da vida:
recebimento de ar e de alimento, defecação sem angústia; e que o desenvolvi­
mento ulterior, tanto caracterológico quanto somático, tenha sido, até a idade da
descoberta espontânea da motricidade, inteiramente satisfatório. Surgem então
os movimentos dos braços e das pernas, e os gestos de mãos que pegam, levam à
boca, arremessam, rasgam papel, etc. Quando esses movimentos da criança não
são livres, ela se sente constrangida em seus modos motores de ser e de se ex­
pressar. Quando chorar desencadeia o sofrimento da repressão, quando reme­
xer-se traz o sofrimento da interdição da motricidade, a criança se submete, mas
tem seu ritmo perturbado, tanto no plano digestivo quanto no plano respiratório,
ainda que consiga permanecer tranqüila como lhe é imposto pela severidade
daquela que a nutre.
Além disso, o choro não é a única expressão desse movimento espontâneo
e gratuito de que todo bebê e toda criança pequena têm necessidade. A criança,
nesse estágio digestivo em que ainda não fala, comunica-se com o mundo através
da boca. Da mesma forma que vive destruindo aquilo que engole e se sente à
vontade com a mãe ao engolir o que vem dela, para de.struí-lo, transformá-lo e
fazer disso sua própria carne, também as manifestações de sua libido, trans­
ferida para os pequenos objetos que estão a seu alcance (sobretudo aquilo que,
como se costuma dizer, cai-lhe nas mãos), far-se-ão na base de sucções, colo­
cações na boca, destruições dentárias; e, em se falando de mãos, rasgar, destroçar
e depois arremessar serão as vias pelas quais a criança poderá interessar-se por
tudo aquilo que a cerca. Basta que se condene essa atividade com gritos ou sacu­
didelas bruscas para que sobrevenha o desentendimento com o adulto: a dor in­
fligida pelos tapas na mão ou pelas pancadas no corpo de uma criança muito
barulhenta ou muito agitada, ou que, por exemplo, tenha quebrado um obje­
to inadvertidamente deixado ao seu alcance, é sentida como uma condenação
que ataca a expressão de sua vida. Suas estimulações internas posteriores de vi­
ver e se desenvolver, caso ela seja sensível e tenha memória, despertarão nela a

26
AS SENSAÇÕES CENESTÉSICAS . . _

ameaça. Assim, a criança inibirá todas as suas expressões mímicas, vocais e ges­
tuais. Será uma criança quieta, uma criança que ninguém escuta: uma criança
de quem também se diz, em linguagem psicanalítica, que sofreu uma castração
simbolicamente mutilante no plano anal.
É importante permitir à criança de 1 O a 1 5 meses que destrua, rasgue e
quebre, certamente admitindo perder alguma coisa e protegendo de seus ataques
os objetos preciosos ou os que sejam perigosos para ela. Essa atividade espon­
tânea lhe dá prazer: deve ser respeitada ao máximo possível. Numerosos obje­
tos de textura variável devem ser fornecidos para sua manipulação. Deve-se pro­
porcionar-lhe matéria-prima. A restrição da atividade às vezes vandálica dos
pequeninos é necessária, sobretudo num apartamento sem espaço; mas essa res­
trição deve ser parcial e sempre compensada por outra possibilidade de que a
criança exprima sua vida, em particular as conversas com sua mamãe. Quantas
vezes ouvimos dizer: " não toque!", "não mexa!", "comporte-se!", "fique quie­
to!" E quantas vezes vemos berços sem brinquedinhos, sem nada de atraente
para manipular ou colocar na boca! É a negação de qualquer possibilidade de
criatividade e de concentração mental posteriores. Quantos bebês, salvo pela
mamada e pelas trocas das fraldas, permanecem sozinhos e sem nenhum inter­
câmbio durante horas? Mais tarde, tornar-se-ão instáveis ou excessivamente
passivos; pois esse é, conforme a natureza da criança, o resultado de uma edu­
cação tão pouco humanizante e tão pobre em matéria de companhia ou de
palavras.
Em nossas sociedades urbanas, é desde o berço e, mais ainda, a partir da
aquisição da marcha que aparece a coerção na educação. O que é bom para a
criança torna-se mau para ela a partir de então, por causa dos adultos, e é por ela
ligado ao sentimento de um perigo. A criança, para obedecer, inibe por algum
tempo seus movimentos expressivos, mas as pulsões de vida então se acumulam
sem se exprimir para o exterior. Estando as exigências instintivas em conflito
com as exigências da "moral" do comportamento imposto pelo adulto, isso le­
va a criança a regredir, ou seja, a se exprimir de modo mais infantil. Ela grita e
bate os pés, em vez de modular a voz em busca da linguagem; cai sentada no
chão, remexendo as pernas e os braços por flexão sobre o tronco, como um be­
bezinho lactente. Por vezes, rola no chão, regredindo ao estágio (de menos de
seis meses) anterior à posição sentada. É ao conjunto desses comportamentos que
chamamos "caprichos". A criança pode, desse modo, através de estágios regres­
sivos, encontrar uma certa satisfação orgânica de suas pulsões; o "capricho" lhe
traz a satisfação necessária ao aplacamento de sua tensão libidinal; mas já se tra­
ta de uma criança neurotizada.

27
NO JOGO DO DESEJO

Os primeiros "caprichos" são "normais": são, para a criança, uma maneira


de traduzir o sofrimento que lhe causa sua impotência de fazer com que seu de­
sejo seja compreendido, ou o ver-se contrariada pelo mundo exterior. Existem
crianças que se enraivecem e fazem caprichos por não conseguirem trepar nu­
ma cadeira, embora ninguém as impeça disso; é contra elas mesmas, contra sua
própria impotência que sua cólera se exprime. Lastimavelmente, o adulto se
equivoca com freqüência quanto ao sentido do desejo da criança (crê, por
exemplo , que a criança está pedindo sua ajuda, e se mostra "solícito") ou quan­
to à significação a ser atribuída às reações caracterológicas de agressão, cólera e
oposição. Vê nisso uma manifestação dirigida contra ele: essa criança é geniosa,
tem má índole, mau caráter. O adulto adota então, sob a capa da educação, uma
atitude repressora, ou se comporta como um moralista depressivo e cheio de
pregações, que instala definitivamente a criança num modo decididamente
agressivo de reação à imagem do adulto-modelo, adulto que é sentido por ela
como violento a seu respeito, antivida e, acima de tudo, desprovido de alegria.
Ao contrário, basta que o adulto deixe os caprichos se desenrolarem -quan­
do não os tiver podido evitar -, que conserve sua calma e sua compaixão, para
que os caprichos cessem, mesmo numa criança muito violenta, sobretudo quan­
do ela percebe que o adulto não sentiu medo e não ficou zangado (a criança tem
medo da violência dele). Assim, ela é colocada numa situação de confiança; o
adulto pode então, através de palavras, explicar-lhe o que se passou. Procurámos
descobrir com a criança o que a encolerizou, e essas palavras vêm em socorro de
seu sentimento de impotência. A compreensão do adulto, que também se ex­
prime no tom de sua voz, calma, compassiva e desdramatizante, reconcilia a
criança com seu sofrimento e sua raiva, que então passam muito depressa.
Auxiliada por esse adulto, que não se opõe a priori ao que ela deseja e que, ao
contrário, mostra-lhe o caminho do sucesso, orientando seus gestos sem fazê­
los em seu lugar, a criança sai do impasse em que a havia colocado sua im­
potência de se sair bem. De experiência em experiência e graças à assistência
do adulto tutelar, as cadeias associativas motoras, vinculadas às palavras e à ob­
servação, organizam a inteligência psicomotora a serviço dos desejos lúdicos e
utilitárics.
Lembro-me de um momento da educação de meu filho mais velho, que,
desde cedo, gostava muito de andar. O menino se recusava a ser colocado em
seu carrinho quando saíamos. Erroneamente, achei que não havia mais sentido
em que eu ou sua babá carregássemos o carrinho que ele já não queria. Para
minha surpresa, ele desenvolveu, no decurso de uma ou duas saídas com a pes­
soa que o levava a passear quando isso me era impossível, um estilo de reação

28
AS SENSAÇÕES CENESTÉSICAS . .

que poderia ter-se tornado muito penoso. Repentinamente, sentava-se n o chão


ou rolava na terra e até na lama, caso tivesse chovido. Até então, eu nunca ti­
nha visto essa criança mostrar-se caprichosa. Eu mesma tive uma experiência
com seu capricho. E, como não dispunha do carrinho e ele já era grande demais
para que eu o carregasse no colo, fiquei sem saber o que fazer. Então, aguardei,
contentado-me em olhá-lo a rolar no chão, assim, sob o olhar atônito dos pas­
santes, surpresos ao verem uma mãe observar impassivelmente o filho que cha­
furdava na lama, sem ralhar com ele. E fiz bem, porque, ao cabo de talvez qua­
tro ou cinco minutos, ele parou e olhou para suas mãos cheias de lama, e de­
pois para mim, a seu lado, que o aguardava sem compreender. E, sem chorar
nem gritar coisas ininteligíveis, ele se pôs de pé e correu em minha direção,
muito contente, como se nada tivesse acontecido. Fiz o mesmo. Em seguida,
falei com ele e lhe perguntei: o que foi que aconteceu? E essa criança inteligente
e receptiva me respondeu, em seu jargão que eu já compreendia, que não sabia;
que, de repente, não havia mais pernas. E compreendi o seguinte: ele ficava
aborrecido por ter um carrinho, pois já não o queria mais, mas meu papel era
levar o carrinho, porque, de tempos em tempos, suas pernas ficavam cansadas
e ele ainda sentia necessidade de se sentar e ser empurrado. Foi o que fiz nos
passeios seguintes: quando saíamos de casa, ele não ficava satisfeito ao ver que
estávamos levando o carrinho; queria ser "grande"; mas, como eu não lhe pe­
dia qtie se sentasse e colocava no carrinho seu brinquedo e minha bolsa, para o
caso de necessidade, ele não prestava mais atenção. Depois, ao cabo de uns quinze
minutos de caminhada, com um jeito perfeitamente natural, ele vinha sentar
no carrinho. Isso não durava muito: ele percorria assim uns cem metros, talvez,
e depois queria tornar a andar e empurrar ele mesmo seu carrinho, ou se insta­
lar nele de vez em quando, para descansar enquanto era empurrado. Se eu tivesse
deixado para lá o que se havia instalado, o menino teria perseverado nesse caráter
que parecia estar-se tornando caprichoso, o que ele absolutamente não era.
Aquilo que ele desejava ardentemente era-lhe impossível de assumir por mais
do que um momento, já que o fatigava muito; os "caprichos" pararam imedia­
tamente e seu caráter alegre e uniforme voltou a ser o que era. Assim, existem
crianças que têm caprichos por serem muito ativas: elas desejam uma atividade
que seu corpo ainda não é capaz de assumir sem cansaço por um tempo pro­
longado. Há outras que são caprichosas por um excesso de desejo de passivi­
dade, e que se sentem perseguidas pelo ritmo ou pela atividade que o grupo ou
o adulto lhes impõem. Vocês nunca verão duas crianças iguais. É pela com­
preensão e, sobretudo, pelo respeito para com os ritmos da atividade da criança,
pelo respeito por sua liberdade, toda vez que esta não atrapalha realmente a vi-

29
NO JOGO DO DESEJ O

)O, e pela compreensão mútua em benefício de um entendimento


z penas exigindo o que é indispensável , é por tudo isso que um ser
_)de desenvolver-se de maneira satisfatória, com a natureza que lhe
é sem ser recriminado por ela. Respeitado na liberdade de seus rit­
mu:., uc was necessidades e de seus desejos, ele respeita também a liberdade e
os desejos de outrem.

Comer sozinho e com asseio


No estágio anal - o do desejo de motricidade e de domínio muscular do
ambiente -, a criança apresenta, alternadamente, períodos de passividade
durante os quais sua atividade é tranqüila, sem grande motricidade, e períodos
em que seu tônus exige desgastar-se no movimento (corridas, saltos, subidas
íngremes, etc.). A criança deseja agir sozinha, comer sem ajuda, a princípio com
as mãos e, depois, mais ou menos desajeitadamente, com um instrumento.
Evidentemente, é um dado civilizatório que se dê a ela um instrumento, e é
por identificação com o adulto que ela vem a se servir dele. É nesse estágio que
a criança descobre sua possibilidade de destreza manual . Decerto não é possí­
vel exigir que a criança coma sempre com asseio, e com a ajuda de um instru­
mento; exatamente o mesmo ocorre com a marcha, que ela não pode manter
continuamente e para a qual tem necessidade de repousos compensatórios fre­
qüentes e de variações de ritmo: ela começa com o talher e termina com os de­
dos. Que a criança não seja colocada à mesa com os adultos desde muito cedo
não tem importância. Educar uma criança, com o objetivo de permitir que se
sente à mesa comum para ali fazer suas refeições com os pais, consiste justa­
mente em saber aguardar seu desejo e, sobretudo, o momento em que ela se
comporte sem fadiga, como um adulto. E isso é um avanço para a criança, que
assim assinala a aquisição de seu domínio. Ao contrário, quando ela "tem" de
comer corretamente e "comportar-se bem", sem que consiga fazê-lo, surgem
as repreensões ou a retirada da mesa como punição. Isso não é bom. A falta de
destreza infantil, o enfado, o "não ter fome", não são bons nem maus. Não
suportar uma contenção prolongada, não ser capaz de coordenação motora apli­
cada por muito tempo, tudo isso faz parte da condição natural da infância.
Repreendida por aquilo que não pode evitar, a criança se deprime e reage
mostrando-se instável, o que é um sinal da angústia provocada por essa edu­
cação que contraria os ritmos, ou então reage com uma passividade prolon­
gada, deixando que os al�mentos sejam colocados em sua boca pela mãe e não
mais exercendo o desejo de motricidade ou de fala, que provocam brigas com
o adulto.

30
AS SE N SAÇÕES CENESTÉSI CAS . . .

E , como a criança não exerce sua destreza, continuará, naturalmente, a co­


mer sem asseio, embora comer asseadamente seja específico da ética humana.

A autonomia da criança em suas necessidades excrementícias


Quando se sente segura, a criança consegue relaxar com facilidade: urina
e defeca ao mesmo tempo em que sorri e tagarela com as pessoas a quem ama.
É a primeira linguagem do contentamento e da segurança. A criança sente que
é "bom para ela" defecar, e é importante que não imagine que isso tem algum
valor aos olhos do adulto. A micção e a defecação devem ser deixadas perfeita­
mente à vontade. A defecação e a micção nos ritmos que lhes são próprios cons­
tituem, para a criança, a tradução espontânea das características de sua vida no
estágio anal ativo, e ela não pode ter controle autônomo delas antes da aquisição
completa de seu sistema nervoso, ou seja, aos 22 a 24 meses (refiro-me aqui a
uma criança cujo tônus muscular tenha permitido a marcha espontânea desde
a idade de 1 0 meses). Quando a criança começa a exprimir a motricidade de
seus músculos voluntários, ela percebe espontaneamente que pode sustar, re­
tardar, inibir ou, ao contrário, provocar a defecação e a emissão de urina. A cri­
ança pode ser estimulada, pela presença das fezes em seu períneo, a "empurrar"
o excremento para fora, mas pode também brincar de empurrar a partir do mo­
mento em que, por ocasião de numerosas defecações espontâneas, sente o pra­
zer do funcionamento de seus músculos perineais: para ela, trata-se de um
exercício lúdico, comparável a suas outras brincadeiras, que consistem, na mes­
ma época, em trepar em tudo, arrastar ou empurrar objetos, mudar as cadeiras
de lugar, manipular, enfim, tudo aquilo que encontra.
Nesse momento do estágio anal podem nascer neuroses obsessivas, caso o
adulto, em vez de orientar a destreza manual e gestual da criança - ou sua des­
treza no falar e no cantar -, imponha um ritmo artificial à defecação e à micção.
A criança pode submeter-se a essas diretrizes, no interesse de preservar uma re­
lação agradável com o adulto, mas as próprias fontes de sua autonomia futura
são assim contrariadas.
Sei que o que estou dizendo há de parecer inteiramente revolucionário
para muitas lactantes e muitos pediatras . Não obstante, a experiência agora fei­
ta com inúmeras crianças é conclusiva e, no plano do desenvolvimento da cri­
ança sem culpa, é certamente uma verdade.
Examinei o caso de uma família em que a mãe exigia, desde os primeiros
dias de vida, a defecação e a eliminação de urina em horários regulares. Ela ra­
lhava, chegando até mesmo a dar tapas no recém-nascido recalcitrante, e feste­
java a expulsão obediente. Nessa família, a criança que atendi - um menino de

31
NO JOGO DO DESEJO

oito anos - tinha tido controle completo aos sete dias de idade e, desde então,
nunca havia sujado ou molhado as fraldas; contudo, aos 14 ou 1 5 meses, pouco
depois da descoberta da marcha, bastante tardia nele, tinha-se tornado esquisi­
to. Lastimavelmente para o menino, nunca mais voltara a sujar as calças ou a ca­
ma. Aos 1 8 meses, mostrava-se obcecado com o voyeurismo: espiava sob as
saias das mulheres e apalpava os fundilhos dos homens, o que muito inquietava
sua família, que o repreendia continuamente. Aos oito anos, era esquizofrênico;
não falava, mas cantarolava com a boca fechada; ouvia discos e nada nem ninguém
lhe interessava. Tomei conhecimento de que a filha mais velha da família tinha
sido criada da mesma maneira. Assim, tivera controle esfincteriano até os cinco
meses, porém, a despeito de uma educação idêntica, recusara-se terminante­
mente, a partir daquele momento, a se deixar regular em sua excreção. Ao preço
de desavenças e repreensões, havia salvo sua linguagem verbal e motora.
Readquirira o controle por volta dos três anos, ou seja, dez meses mais tarde que
as crianças de quem jamais se exigiu a continência esfincteriana. Nessa mesma
família, havia ainda um outro menino, criado da mesma maneira; ao contrário
da menina, havia aceito a continência até os 1 5 meses, mas depois perdera essa
aquisição precoce e, insensível às repreensões, permanecera sem nenhum con­
trole esfincteriano até a idade de cinco anos e meio. A freqüência à escola (tive­
ram de procurar uma escola que, a despeito dessa incontinência diurna de xixi
e cocó, quisesse aceitá-lo) o levara, em poucos dias, a um comportamento per­
feitamente adaptado, tanto em termos da continência esfincteriana quanto da
fala, que nunca pudera ser adquirida (confiantemente) em casa. Vejam vocês co­
mo, numa mesma família, crianças de sensibilidade diferente - dois meninos
e uma menina - puderam reagir diferentemente à mesma educação traumati­
zante. A mãe não era desumana, nem tampouco o era a empregada que tinha a
seu serviço. Ocorre que haviam recebido do pediatra conselhos de adestramen­
to precocíssimo e os haviam aplicado de maneira absolutamente obsessiva.
Sem chegar a esses extremos, muitas mães ou educadoras acreditam ser
bom - embora, ao contrário, isso possa ser o que há de mais nocivo - "ades­
trar" logo a criança em tudo: tanto em jamais comer fora das refeições quanto
em jamais colocar nada na boca e em adquirir o controle esfincteriano. No en­
tanto, sabemos que o desenvolvimento do sistema nervoso central não termina
antes da idade de 1 8 meses e, muitas vezes, de dois anos a dois anos e meio.
Sabemos perfeitamente que, nas crianças, o desenvolvimento da medula espi­
nhal só chega a seu termo em torno dessa idade. É só a partir do momento em
que o sistema neuromuscular está acabado que se pode dar educação a uma
criança, e nunca antes disso. Até esse momento, a elevada especialização das

32
AS SENSAÇÕES CEN ESTÉSICAS . .

terminações nervosas que chegam até os membros inferiores, às regiões cutâneas


perineais, às nádegas, a todas as regiões periféricas em geral e aos pés e às mãos
em particular, não está acabada. Antes desse acabamento anátomo-fisiológic�
do sistema nervoso, a aquisição da motricidade e da coordenação não provém
do livre exerc ício de uma descoberta pela própria criança, vivenciada por ela
como um prazer (ou seja, corno a possibilidade de contrair ou relaxar, volun­
tária e ludicamente, os músculos que comandam o comportamento esfincteria­
no e · o comportamento motor em geral). Assim, quando, com o ob jetivo de
adquirir a continência esfincteriana, ela aceita deixar-se adestrar, ela sofre uma
espécie de enxerto, em seu próprio plexo sacro, das palavras de um adulto que
a "sugestiona", mas não a "educa". Uma criança sensível, psíquicamente dota­
da, aceita essa sugestão e essa dependência patogênica, por causa do mal-estar
afetivo que lhe inspira qualquer discórdia com o adulto amado; mas é uma cri­
ança que aliena seu desejo no desejo do adulto.
As crianças submetidas a um adestramento precoce não mostram desem­
baraço nem graça em seus movimentos. São apáticas ou instáveis e não demons­
tram nenhuma destreza acrobática ou manual delicada. Falam mal e têm um
vocabulário pobre; silenciosas ou choronas, desajeitadas em tudo, caracterizam­
se até por uma ausência de modulação da voz e por urna relativa inexpressivi­
dade m ímica do rosto. São uma espécie de robôs, cujas mães mostram -se às
vezes encantadas, manipulando-as pelo gesto e pela voz sem conversar com elas
e cujo desenvolvimento posterior é problemático, pois apresentam um retard�
simultâneo do desenvolvimento afetivo, verbal e psicomotor. Todas as crianças
sadias apresentam, por volta dos dois, três ou quatro anos, o mais tardar, um
período de oposição à mãe. Ora, nessas crianças submetidas a um adestramen­
to precoce, essa oposição estruturante -que, via de regra, é apenas verbal e
sustenta o advento do "eu sozinho", contribuindo para a afirmação de uma au­
tonomia adaptada - apresenta as características de uma oposição visceral e
neuromuscular. Por quê? Porque não é a um simples interlocutor nem a um
simples auxiliar, de quem recusam a ajuda ou a sugestão, que elas se opõem,
mas a uma pessoa que tomou lugar no próprio corpo da criança; e é nessa idade
que aparecem os distúrbios graves (às vezes psicossomáticos, às vezes carac­
terológicos) de inibição e dependência, que terão continuidade na impossibili­
dade de acesso ao eu e ao tu (que permanecem confundidos): não há advento da
identidade do sujeito. Os distúrbios da fala e os chamados distúrbios psico­
motores complicam-se com distúrbios da personalidade, que compõem oguadro
da pré-psicose infantil, agravada, por sua vez, pelas reações ansiógenas do meio
ambiente.

33
NO JOGO DO DESEJO

A criança que é poupada de uma disciplina esfincteriana imposta pelo


adulto tem o privilégio de crescer sem nenhuma das desavenças afetivas que
costumam ocorrer, cinco ou seis vezes por dia, entre o adulto e a criança, quan­
do a mãe quer conseguir esse asseio antes da hora. Tal criança não tem vergonha
de suas funções corporais, não sente medo de seus movimentos e, como é filha
do homem, não visa senão a se identificar com o adulto em tudo o que obser­
va de seus comportamentos\ e se torna muito senhora de seu corpo e suas mãos,
ao mesmo tempo em que sua linguagem falada se desenvolve. Tentei ajudar
muitas mães. Infelizmente, quando lhes é dito que deixem a criança à vontade
em sua maneira de comer e de expelir excrementos, elas entendem que isso quer
dizer: não cuidem dela jamais. E, exatamente ao contrário, isso significa: cui­
dem muito dela, mas daquilo que ela faz, do que diz e do que deseja. Falem,
conversem com ela a propósito de qualquer troca sensorial, inclusive no que
concerne aos alimentos e aos excrementos, de maneira que ela compreenda,
quando suas fraldas forem trocadas, para onde vão esses excrementos que saem
dela. A respeito de tudo o que acontece com o corpo e com o mundo que a cer­
ca e que ela observa, que haja uma comunicação falada, gestual, lúdica, de pes­
soa a pessoa. Que a criança tenha brinquedos, que descubra as cores, as formas,
a música, a dança, a acrobacia, etc. ; que possa entregar-se à manipulação hábil
de tudo o que estiver a seu alcance. A experiência mostra que, quando uma cri­
ança se torna capaz de subir ou descer sozinha quatro ou cinco degraus de uma
escada doméstica comum (e basta ela ser armada para que a criança se mante­
nha ocupada durante horas), e quando descobre sozinha o prazer de brincar com
a água tranqüilamente, por horas a fio, essa criança adquire espontaneamente
a higiene esfincteriana. Ela é asseada porque isso é natural e lhe agrada, e porque
a inscreve numa identificação com os adultos a quem pergunta: o que você faz
nisso que se chama "privada"? O adulto lhe explica, e a criança deseja fazer o
mesmo. Nesse momento, nada é mais fácil do que lhe mostrar que, se ela tirar
as calças, fá-lo-á tão bem quanto o adulto. (Para não falar nas mães de meninos
sem braguilhas, nas inúmeras mães que põem arreios em seus filhos, em vez de
vesti-los de maneira a que eles se vistam e se dispam sozinhos com facilidade!)
Quando chega o dia, o dia em que a criança espontaneamente tem capacidade
para isso e o deseja, a higiene esfincteriana é adquirida em menos de 24 horas
de atenção da mãe. Qual é a vantagem? É que não se trata, como na criança
adestrada, d� uma conquista que ela precisará perder no dia em que quiser ser

4 É por isso que a criança pequena deve viver nos aposentos comuns e assistir às atividades dos maiores e dos
adultos, durante todo o tempo em que não atrapalhe, por sua própria atividade, a atividade dos outros.

34
AS SE NSAÇ Õ ES CENESTÉSICAS . .

autônoma, porém de uma conquista adquirida definitivamente, após todas as


aquisições de autonomia, motoras, manuais e corporais, e da linguagem fala­
da; e, sobretudo, quer ela preserve a aquisição ou venha e perdê-la, essa con­
quista não será marcada pela idéia de um "bem" ou de um "mal": é perfeita­
mente natural para um bebê não ser asseado, e é inteiramente natural, para urna
criança em crescimento, adquirir o asseio e ir ao mesmo lugar que os adultos
para satisfazer suas necessidades, em vez de satisfazê-las, de maneira humi­
lhante, num vaso, diante de todo o mundo.
Todos os macacos hornínidas têm continência, assim como os mamíferos
superiores selvagens. A deposição de seus excrementos no espaço tem, na vida
dos mamíferos que vivem em bandos, a significação de um investimento do es­
paço de seu território. Eles depositam os excrementos na periferia de uma zona
que desejem delimitar como sendo a sua. Somente o ser humano e os animais
domésticos ignoram essa manifestação de domínio e essa utilização espacial
odorífera de seus excrementos, por força de um entrave precocemente imposto
ao prazer orgânico das funções naturais. Quanto aos animais domésticos, por
um lado, eles não têm mais que defender o espaço vital de seu bando, e por ou­
tro, os homens os adestram de maneira a conservar limpos os locais de habitação.
Em decorrência da função simbólica humana, existe para a criança, quando es­
sas funções são deixadas livremente a seu critério, uma transferência identifi­
catória do interesse pelos excrementos para o interesse por todo o "fazer" lúdi­
co industrioso, lingüístico; uma transferência para o domínio inteligente dos
materiais, de tudo o que se encontra a seu alcance por intermédio das mãos; es­
tas, colocadas a serviço de seu pensamento, transformam-se em instrumentos
de todo esse "fazer", associado de maneira inovadora e inventiva ao desejo de
linguagem, de comunicação e de criatividade. O que é apenas uma necessidade
repetitiva e sempre parecida perde seu interesse: assim ocorre, quando é chega­
do o momento, com as necessidades de excreção. Em psicanálise, dizemos que
a mão do homem coloca-se inicialmente a serviço das pulsões orais, levando tu­
do à boca, depois das anais, manipulando, fragmentando e aglomerando, à
maneira da execução e da criação de formas e conjuntos de formas para o pra­
zer dos olhos, o prazer de apalpar, o prazer da fabricação industriosa, todos eles
característicos da espécie humana. Uma educação com fins de adestramento é
uma anti-educação desumanizante.
Para o filho do homem que vive em bons termos com o meio, quando são
respeitadas suas primeiras necessidades naturais e seus desejos, a imitação espon­
tânea do comportamento de outrem é uma identificação por prazer e por ins­
tinto gregário. No que concerne às crianças pequenas, não é preciso recorrer

35
NO JOGO DO DESEJO

(e infelizmente a isso recorremos com demasiada freqüência) a nada além da


imitação, propensão natural primitiva comum ao homem e ao macaco, e não
ao adestramento e à utilização da dependência gregária como meio de educação.
É fatal que uma criança procure imitar os outros, mas a educação deve afastá­
la dessa categoria simiesca de imitação, humana, é certo, mas que nada tem de
especificamente humano. Ao contrário, valorizar as diferenças entre os indiví­
duos, apoiar as iniciativas inventivas, a aquisição do sentido das palavras, a am­
pliação do vocabulário, a reflexão servida pela observação associada à linguagem,
a atividade manipulatória e gestual, lúdica e industriosa, é nisso que consiste
uma educação que não é adestramento. A descoberta da natureza das coisas e
das leis da realidade, constantemente confrontada com o desejo e a imaginação,
coloca a criança diante dos limites das possibilidades de seu corpo, de seu
domínio sobre si mesma e sobre a realidade que a cerca, e nisso reside o que é
próprio da inteligência humana.
Todo adestramento é um tempo perdido para o homem ou a mulher que
estão em devir na criança. A liberdade solta, amparada pela afeição jovial, pela
tolerância dos adultos para com as crianças e pelo exemplo que eles dão de um
comportamento ético, de palavras coerentes com seus atos, é isso que educa as
crianças, e não o adestramento.

Idade da motricidade corporal e manual voluntária


A criança, ao crescer, depara com perigos reais, independentes dos com­
portamentos que tenham em relação a ela os adultos que a cercam. Alguns
exemplos nos mostrarão que sua maneira de reagir a esses perigos varia muito
de um ser para outro.

O perigo do fogo
Jean tinha nove meses quando, pela primeira vez, ficou atentamente ab­
sorto observando a incandescência de uma chapa de fogão. Tratava-se de uma
chapa aquecida à lenha, que se torna progressivamente incandescente e, por­
tanto, perigosa. Catherine tinha 1 4 meses quando a mesma coisa lhe ocor­
reu.Tanto para um como para o outro, com X meses de distância, as coisas se
passaram de maneira análoga. Um e outro se aproximaram do fogo, intrigados,
observaram, querendo saber mais, experimentar e tocar, à medida que o calor
aumentava, como fazem todas as crianças. A mamãe explicou à menina, como
fizera com seu irmão, que aquilo era perigoso e que não se podia tocar no me­
tal, cada vez mais quente, pois se correria o risco de se queimar. Nas duas vezes,
com ambas as crianças, falou-se e se observou, e nem Jean nem Catherine se

36
AS S ENSAÇÕES CEN ESTÉSICAS . . .

queimaram. Para ambos, as coisas se desenrolaram d a mesma maneira: cada um


aproximou a mão da chapa, sentiu o calor, e depois aproximou ainda mais a
mão, fazendo uma expressão de sopro, como uma onomatopéia comprobatória:
eles compreenderam e nunca mais se aproximaram dessa chapa, que era im­
possível de cobrir.
A mesma coisa ocorreu com Grégoire quando ele tinha pouco menos de
10 meses de idade. Era uma criança muito mais instintiva, que sentia necessi­
dade, desde seus primeiros meses de vida, de pegar os objetos para tocá-los e
fazer experiências concretas, tácteis (mais tarde, essa criança, diante de qual­
quer afirmação, queria verificar por si mesma, para em seguida anunciar, com
ar convencido: "É verdade"). As duas outras crianças, isto é, o irmão mais ve­
lho e a caçula, acreditavam no que lhes era dito, até o dia em que os acasos da
experiência as levassem, quer a fazer uma crítica dessas informações, quer a dar­
lhes seu assentimento, ou ainda, de repente, a descobrir de maneira táctil, sen­
sorial, a prova de uma verdade que já houvessem registrado verbalmente e na
qual, além disso, tivessem acreditado. Já vemos aí a distância entre espíritos
diferentes. A experiência do fogo com Grégoire é, para mim, uma lembrança
inesquecível. Como fizera com seu irmão, eu lhe disse: "Não se deve tocar na
chapa: ela esquenta, esquenta e vai ficar tão quente que vai queimar". E Grégoire
olhou, pousou sua mão e me disse: "Isso quema, quema . . . " A chapa, efetiva­
mente, foi esquentando cada vez mais, porém ele não reduziu sua verificação
do dito; inquietei-me: até onde iria? Grégoire sorria com ar satisfeito, diver­
tido, matreiro, retirando a mão enquanto dizia "quema", mas nem por isso
deixando de recolocá-la na chapa. O calor aumentou progressivamente. Por fim,
ele se queimou um pouco. Achei que isso seria suficiente; ele fez uma expressão
de ligeiro sofrimento e eu lhe disse: "Pois é, queima, você não deve tocar mais".
No entanto, tão logo diminuiu um pouco a sensação do "quente demais na
mão", lá foi ele de novo. Tentei impedi-lo com palavras; não houve meio. Ele
acabou colocando a palma da mão na chapa cada vez mais quente, e é claro que
se queimou, a ponto de chorar e ficar sentido. A dor não durou, pois foi uma
queimadura de primeiro grau, mas ele ficou com uma bolha na palma da mão
e na polpa dos dedos. Precisei colocar um curativo, que ele conservou durante
oito dias e que absolutamente não o incomodou. Parecia muito contente por
ter-se queimado e levava toda pessoa que chegava até a chapa, explicando, "Isso
quema", "É verdade", com um ar convencido e muito, muito interessado, vi­
sivelmente satisfeito com sua experiência. Quando pude retirar-lhe o curativo,
Grégoire não sentia mais necessidade da mão. Continuou a mantê-la afastada
de si, como um detalhe incômodo de sua anatomia. Foi preciso que um dia,

37
NO JOGO DO DESEJO

quando ele estava ocupado com uma brincadeira, eu repusesse bruscamente sua
mão em ação. Como me olhasse com ar surpreso, relembrei-lhe o incidente da
chapa: ele reagiu fitando a mão, e depois olhou-me novamente, risonho, feliz
com sua redescoberta, e foi a partir desse momento que recomeçou a servir-se
da mão queimada. Nunca mais voltou a tocar na chapa.
Essa experiência me ensinou muito sobre a incrível capacidade de adap­
tação das crianças (essa tinha 1 O meses, situando-se o incidente alguns dias antes
de sua descoberta da marcha) à ausência de um de seus membros superiores: es­
sa ausência foi imediatamente integrada na compleição motora, sem perturbar
a atividade. Ora, tratava-se da mão direita, e o menino era destro. Também
podemos constatar que, quanto à experiência com o fogo e à integração de seu
perigo, essas três crianças de idades próximas reagiram de maneiras diferentes.
É psicologicamente importante deixar a criança livre (naturalmente, supervi­
sionando-a sempre), falar com ela e, caso se machuque, cuidar dela com com­
paixão e sem repreendê-la; mas é também absolutamente essencial deixar que
ela corra seus riscos e sinta por si mesma os efeitos da experiência que fez. Tocar
no fogo não é proibido pela consciência moral, mas pela prudência; e a prudên­
cia se adquire, seja pela crença a priori na palavra do outro, minimamente veri­
ficada, seja por experiência própria, caso essa palavra não seja suficiente. Não é
mal queimar-se -isso faz mal, o que é bem diferente. Por certo não convém
que o adulto impeça a criança de correr riscos reais (com a ressalva de que ele
não deve provocá-los e de que as conseqüências não devem ser demasiadamente
brutais), pois os riscos reais -nem mais nem menos sofridos para quem os as­
sume do que diz o adulto, por sua própria experiência ou pela de outrem, em
suma, por seu saber -fazem parte do conhecimento do mundo; e o risco fan­
tasiado, previsto, confrontado com a realidade, conformando-se em seus efeitos
ao que se disse dele, é formador. A ameaça de uma intervenção punitiva, caso
a criança queira efetivamente testar por si mesma a veracidade de uma afir­
mação sobre o perigo, não é educativa. Todas as crianças gostam de observar
por si e todas as crianças gostam de experimentar, em graus variados. Quando
há um perigo, é necessário advertir a criança para ele, mas sem jamais enganá­
la. É útil que ela possa convencer-se por si só, desde que se trate de um risco
calculado, corrido sob a vigilância do adulto, que faz com que essa tentativa se­
ja acompanhada de palavras explicativas, até que a criança tenha adquirido a
convicção da veracidade de sua afirmação. Ora, a vida cotidiana não apresenta,
logo de início, riscos mortais para os bebês cuidados por um adulto. Os únicos
riscos que eles correm, quando podem fazê-lo livremente, contribuem apenas
para ensinar-lhes a prudência, ao mesmo tempo que a confiança na palavra do

38
AS SENSAÇÕES CENESTÉSICAS . .

adulto, palavra cuja dimensão d e verdade será confirmada pela própria expe­
riência da criança, tal como a tiver tentado com toda a liberdade de iniciativa,
até o ponto sem retorno em que adquira o conhecimento autêntico e autônomo
de seus próprios limites diante da realidade das coisas.

O perigo do desnivelamento
Jean, aos sete meses de idade, viu-se repentinamente sozinho no nono ou
décimo degrau da escada que sobe ao andar superior de nosso prédio (esgueirara­
se de gatinhas pela porta de entrada, que por descuido ficara aberta para o pata­
mar). Procurei-o pela casa e, depois, não o encontrando e vendo a porta entre­
aberta, fui até o patamar e o avistei, muito surpresa por achar aquele bebê de
sete meses tão longe e tão alto. Eu não sabia que ele era capaz de tais desem­
penhos. Seu rosto, radiante de prazer pelo esforço bem-sucedido, crispou-se
subitamente à minha visão, sua boca se abriu, redonda, sem chorar, e seus
olhos se arregalaram, carregados de angústia, e me fitaram, inquietos, sem dú­
vida, por verem meu rosto a uma certa distância do seu, através das grades do
corrimão, e em posição mais baixa que a dele; para essa criança, até então cria­
da num apartamento, era uma experiência desconhecida estar nessa situação in­
sólita: achar-se em posição mais elevada que o rosto do adulto, sem estar no
colo dele.
Uma coisa é certa: enquanto ele estava ocupado em trepar nos degraus e não
me via, a expressão de seu rosto era radiosa e triunfante; foi só depois de me avis­
tar que ficou com um ar angustiado. Apressei-me então em subir, tomei-o nos
braços, cumprimentei-o, abracei-o e lhe disse que ele poderia refazer a subida.
Fiquei perto dele; dando-lhe assistência e colocando em palavras todos os gestos
que ele fazia para subir a escada. Assim, a lembrança do perigo permaneceria as­
sociada, na mente do menino, a um esforço árduo, mas bom; a alguma coisa no­
va, porém passível de ser dominada; a uma situação insólita, mas que ele pudera
superar, e a um desempenho, portanto, de que poderia orgulhar-se. É certo que,
se eu tivesse adotado uma atitude de medo e o houvesse repreendido, Jean teria
guardado desse desempenho motor, do qual tomara sozinho a iniciativa, arrisca­
da e bastante excepcional para uma criança de sete meses, um sentimento de cul­
pa. O medo do adulto aborrecido teria vindo confirmar e agravar o mal-estar ini­
cial de uma situação de desnivelamento e isolamento insólitos, o que, num es­
paço recém-experimentado, nada tinha de repreensível. Jean teria provavelmente
guardado dessa experiência o medo de empreender novas acrobacias. É claro que
eu, como mãe, passei a vigiar a porta de entrada, mas, dali em diante, a escada
doméstica passou a ser freqüentemente armada e o menininho se divertia trepan-

39
NO JOGO DO DESEJO

do nela, despencando e subindo novamente, e seus esforços o cativavam. Durante


horas, ele assim brincava de vencer sua dificuldade, e depois sua brincadeira pas­
sou a consistir em arrastar seus ursinhos e outros animais de pelúcia, instalá-los
nos degraus da escada e, quando eles caíam, tornar a descer para apanhá-los; vocês
não fazem idéia da paixão que esse menino de sete meses era capaz de investir
para vencer esportivamente todas essas dificuldades. Ao mesmo tempo, ele des­
cobriu fonemas da linguagem, uma profusão de onomatopéias, para exprimir tu­
do o que tinha a exprimir de sua alegria, às vezes me chamando para que eu fos­
se constatar o que acontecera com todos os seus brinquedos e com ele.
Foi uma criança que se desenvolveu muito depressa.

O perigo dos contatos sociais


Jean chegou ao jardim de infância. Tinha dois anos e meio. Havia lá uma
menina de sete anos, chamada Bernadette, retardada intelectual e motora em
decorrência de um traumatismo obstétrico, e parcialmente hemiplégica. Era
uma menina muito grande para um jardim de infância e tinha uma mania de­
plorável: armada com um bastão em seu único braço sadio, golpeava todos os
recém-chegados, de preferência na cabeça. A professora do jardim de infância,
adepta de métodos novos, gostava de deixar que as crianças se arranjassem so­
zinhas umas com as outras, só intervindo para separá-las quando havia um
perigo real.
No primeiro recreio, Bernadette submeteu Jean ao tratamento habitual
fornecido aos recém-chegados.Jean correu para se esquivar de seus golpes, dizen­
do, "Uh-lá-lá, uh-lá-lá", e os dois passaram o recreio assim, um correndo atrás
do outro. Toda vez que as crianças eram deixadas a sós durante um pequeno in­
tervalo, recomeçava a mesma manobra. No terceiro dia de escola, a famosa
Bernadette ainda não se havia cansado da brincadeira, mas também não lograra
êxito em atingir Jean. E Jean ainda não se defendera, para surpresa da profes­
sora, pois as outras crianças (talvez mais velhas do que ele ao ingressarem na es­
cola) costumavam refugiar-se junto dela, onde Bernadette não ousava aproxi­
mar-se. A professora me falou sobre a situação: deveria ela proibir os ataques
de Bernadette, acabar com aquela história, incitar Jean a responder à violência
com violência, ou a vir refugiar-se junto dos adultos, já que ele não fazia espon­
taneamente nem uma coisa nem outra? Achei - do mesmo modo que ela,
aliás - que ainda deveríamos esperar para ver. Nesse terceiro dia, quando fui
buscar Jean na escola, ele me disse, em prantos, que não queria voltar lá no dia
seguinte, mas sem me confessar o verdadeiro motivo. Durante essa pequena
crise de angústia, era seu contato posterior com a sociedade das crianças que es-

40
AS S E NSAÇÕES CENESTÉSICAS . .

tava em questão, _assim como a escola, onde, durante os horários de aula, ele se
comprazia muito.
Foi por isso que, no dia seguinte, apesar de suas lágrimas, tornei a levá-lo
à escola, só que chegando propositadamente com um certo atraso, quando a tur­
minha toda já estava em aula; disse-lhe que voltaria para apanhá-lo e que levaria
um bombom para ele. Assim o recoloquei diante do conflito a ser resolvido.
Era o quarto dia. Um pouco inquieta, fiquei na porta por um instante, para ou­
vir se meu filhinho tão angustiado iria irromper em prantos; afinal, sou mãe, e
teria pensado em alguma coisa. Mas não ouvi nada e, às 1 1 e meia, voltei para
buscá-lo. Quando cheguei, Jean se aproximou de mim, muito contente, e me
perguntou: "Você trouxe o bombom? " "Trouxe, procure." Ele olhou em meu
bolso e o achou. "Você não tem outro?" "Procure mais. " E, em meu outro bol­
so, encontrou um segundo bombom. Disse-lhe: "Não chega um para você?"
"Não, precisa um para minha amiga." "Ah! é?" "Posso dar a ela?" "Claro que
sim. " E ele foi dar seu bombom a uma menina. Eu ainda não conhecia a pe­
quena Bernadette e, aliás, não cheguei a vê-la nesse dia; só iria travar conheci­
mento com ela alguns dias depois. Voltamos então para casa e, no caminho,
Jean declarou, entusiasmado: "Ah, eu adoro minha escola! Puxa, foi bom eu ir
hoje de manhã! . . . Ah, que bom que é a escola! E depois, eu gosto de todas as
namoradas! . . . E também, sabe . . . a Bernadette não queria acreditar que o bom­
bom era para ela!" Pois muito bem. Eis que Bernadette se tornara sua amiga.
Ele não me disse mais nada. E, desde então, ficava sempre todo contente por ir
à escola.
A professora das crianças, alguns dias depois, contou-me o que havia acon­
tecido. Propositalmente, no dia de sua hesitação angustiada, eu tinha levado
Jean à escola logo depois do horário de entrada em sala, e as outras crianças já
estavam sentadas em suas mesas. Para grande surpresa da professora, que escu­
tara o barulho da porta da entrada, a porta da sala que dava para o corredor fo­
ra escancarada, mas . . . nada! O retardatário não aparecia. A moça havia espe­
rado um segundo, com todas as crianças voltando-se para olhar, e a porta per­
manecendo aberta: e nada ainda! Foi então que, após um momento, meu Jean
apareceu na soleira, com as pernas afastadas, os braços balançando, o tronco
muito ereto e a cabeça erguida, dizendo com firmeza à platéia: "Atenção, hoje
eu estou nervoso, hein, cuidado! " E, feita essa declaração, foi sentar-se em seu
lugar. A criançada estava atônita. E as crianças repetiam umas às outras:
"Cuidado, hoje o Jean Dolto 'bonzinho' está nervoso! " A professora me falou
do quanto a divertiram essa entrada e esse lema, que passava de boca em boca:
"Cuidado, o Jean Dolto bonzinho está nervoso! " De qualquer modo, o resulta-

41
NO JOGO DO DESEJO

do foi que, durante o recreio, Bernadetce não se arriscou a persegui-lo com seu
bastão e, a partir desse dia, Jean ficou sossegado. E o bombom que veio pedir­
me era para Bernadette, que não ousou aceitá-lo. Jean tinha precisado explicar
à professora: "Diz a ela que eu estou dando pra ela, ela não quer acreditar, es­
tou dando pra ela" . A partir desse dia (segundo me contou a professora), Jean
e Bernadette se transformaram numa dupla de amigos; ele a ajudava, por
exemplo, a fazer tudo aquilo em que ela era desajeitada: os nós, os laços, as do­
bras . . . Um sucesso que foi a razão de Jean estar tão contente com essa conquista
e com esse domínio de seu medo, diante daquela primeira experiência de vida
social! Essa prova angustiante, que, com seus próprios meios, ele, tão pequeno,
aos dois anos e meio de idade, diante daquela menina grande, fora capaz de en­
frentar e superar, constituíra para ele um verdadeiro triunfo sobre sua angús­
tia. Uma vez ultrapassada, deixara o menino não apenas feliz e apaziguado, mas
também grato àquela que tinha sido a causa de tudo e que lhe tinha permiti­
do adquirir aquela experiência.
Essa observação nos revela que cada criança tem seu tipo de reação em face
de um elemento do ambiente que lhe causa problemas. É importante (e o
exemplo da atitude do irmão de Jean diante do fogo o demonstra) respeitar em
cada uma seu modo de reação particular, e jamais impor ou aconselhar um mo­
do de defesa padronizado. A criança encontra em sua natureza a reação que lhe
é própria, mesmo quando colocada em situação de inferioridade real. Recebendo
a confiança do adulto, sempre consegue, cedo ou tarde, reagir com seus recur­
sos próprios, sem ser abatida por um sentimento complexual de inferioridade
que é estranho à situação real, que exige que ela encontre sozinha sua adaptação
particular a cada provação. O perigo (Bernadette, no exemplo precedente, de
quem Jean estava cansado de fugir em todos os recreios) foi superado, não de
maneira motora, mas, poderíamos dizer, de maneira mental. Bernadette era o
elemento perigoso do qual era preciso desembaraçar-se e que causava proble­
mas a Jean. Ele não teve a idéia de pedir socorro. Aprendeu a se haver com a
natureza que lhe era própria e que fizera com que as outras crianças, testemunhas
da manobra durante três dias, dissessem que ele era "bonzinho". Isso, aliás, era
verdade. Durante três dias, Jean tinha procurado evitar as bastonadas e, como
era muito ágil, efetivamente o conseguira, ainda que, diante da persistência da
dificuldade e como Bernadette lhe estragasse os recreios, tivesse passado a ter
medo da escola.
Algum tempo depois, por ocasião da chegada à escola de outro aluno no­
vo, Jean me disse que, como de costume, Bernadette correra atrás dele com seu
bastão. Aproveitei para lhe falar - o que ele próprio nunca fizera - sobre es-

42
AS SENSAÇÕES CENESTÉSICAS . .

sa menina maior do que os outros. E Jean me declarou: "Ela é chata, a Bernadette,


batendo assim nos outros, mas, sabe, ela não é má; ela tem um braço e uma per­
na que não funcionam direito". Vemos aí muito claramente que ele reagiu, em
suma, como teria feito diante de qualquer problema de segurança trazido por
um perigo real, e que parecia já ter arranjado para si uma explicação sobre a
agressividade motora da menina, que era uma espécie de gigante naquela tur­
ma de primeiro ano do jardim de infância; era corno se ele houvesse com­
preendido, espontaneamente, que urna criança inválida podia utilizar sua força
para compensar seu sentimento de .inferioridade.

Os perigos de amar
Após esses exemplos de perigos externos, de perigos motores no contato
com os outros, eis aqui alguns perigos inscritos na natureza afetiva dos seres
humanos, que podem igualmente ser fonte de sentimentos inconscientes de
culpa, se não deixarmos a criança, também nesse aspecto, ao livre sabor de seus
processos autônomos de defesa.
Num artigo sobre "o ciúme do irmão menor"S, falei sobre o sentimento
de perigo experimentado pelo irmão mais velho diante da idéia de amar um ir­
mão ou irmã recém-nascidos. Amar implica uma identificação de si mesmo com
o objeto de amor. A tentação de amar uma pessoa menor do que ela, imagem
involuída dela mesma, incita a criança maior a uma regressão a seu próprio es­
tado de infans. Assim, o mais velho tem que recusar o amor pelo recém-chega­
do e atacá-lo, para se defender do risco incluído a priori nesse sentimento
amoroso. Amá-lo causa-lhe um dano subjetivo energético. Até então, fora-lhe
bom ter vontade de se identificar amando, pois a criança nunca vira em casa al­
guém menor que ela, mas sim, ao contrário, imagens humanas mais evoluídas;
já de um bebê, se essa palavra não fosse precária, diríamos que ele parece in­
voluído . . . O amor por um ser cujo desenvolvimento é testemunha de uma época
ultrapassada é perigoso para aquele que o contempla. Ele tem que se defender
do outro, agredi-lo ou desprezá-lo, ou pelo menos ignorá-lo. Se a criança
olhar para um menorzinho e amá-lo, ou irá esforçar-se por descobrir o meio
de se defender desse perigo, dessa tentação de involução, ou irá sucumbir a ela.
Quando uma criança ama alguma coisa, ela ama o provar, o comer, e é impor­
tante que possa ser ativa, que tenha o direito de imaginar que irá morder e
comer aquilo que ama.

5 Cf. p. 83.

43
NO JOGO DO DESEJO

Jean, na ocasião dessa observação, tinha três anos e dez meses, e sua irmãzi­
nha contava três meses; parecia gostar dela (já tinha vivido e superado seu ciúme
de um irmão mais novo, por ocasião do nascimento de seu irmão Grégoire).
Disse-me com expressão extasiada: "Estou pensando em quando a gente vai co­
mer minha irmãzinha; puxa! ela ia ser tão boa de comer! Diz, mamãe, quando
é que a gente vai comer ela?" Considerando que a Páscoa, a festa mais próxima,
estava distante, respondi: "Bem, na Páscoa nós vamos ver". E pensei comigo mes­
ma: "Ainda temos dois ou três meses; daqui até lá, ele terá mudado de idéia". E
Jean, durante dois ou três dias seguidos, voltou ao assunto: "É verdade? A gente
vai comer ela na Páscoa? É, mamãe? Ela é tão boazinha, tão boazinha! " E con­
templava a irmã com ar enternecido. Eu retrucava: "Talvez . . . vamos ver". Jean,
feliz, renovava as demonstrações de afeição e ternura de irmão mais velho para
com a caçula, protegendo-a dos ataques de seu irmão mais novo, então em ple­
na reação de ciúme diante do bebê. Duas semanas depois,Jean me disse: "Lembra,
mamãe, que quando eu era pequeno (havia passado duas semanas) eu dizia que
queria comer ela? Mas ela é muito boazinha, a Catherine. Se a gente comesse ela,
não tinha mais ela para amar e para abraçar, não é?" E Jean dava risadas por poder
dizer "quando era pequeno"! A partir desse momento, sua atitude diante da ir­
mãzinha teve maiores nuanças: em seus momentos de dominação, ele a em­
purrava, ao passo que, nos momentos de enternecimento, fazia-me constatar quão
engraçada e bonitinha ela era.
Na idade em que Jean fantasiou seu desejo de comer a irmã, predomina­
va também nele -que contava três anos -um desejo viril, que se esboçava
em cutucar as mulheres, sobretudo a empregada atenciosa de quem gostava
muito. Acompanhava suas intenções e seus gestos lúdicos com ameaças alegre­
mente fantasiadas: "Marie, vou estourar o seu bumbum! " E, armado de um cabo
de vassoura, perseguia-a rindo sozinho, mas sem nunca se aproximar a ponto
de encostar a vassoura na saia de Marie. Esta, muito amável, também ela mãe
de família, fazia a cama, arrumava a casa e quase não dava atenção ao que ele
dizia, ocupada com seus afazeres. Num dia em que a moça estava em equilíbrio
precário perto da cama, Jean passou perto dela e, dessa vez, empurrou-a com
ambos os punhos; Marie caiu sentada na cama e Jean, triunfante, gritou de ale­
gria e correu para um amigo de seu pai, que estava presente: "O senhor sabe,
eu sou grande! Dei um murro na Marie e ela caiu. Sou quase um homem! "
Assim estabeleceu ele, com vistas a afirmar sua personalidade, o contato com
um adulto masculino completamente sexuado, para lhe declarar seu sucesso
num desempenho em que, como varão apaixonado e orgulhoso de seu poder,
triunfara sobre uma representante do sexo feminino. Todo o comportamento

44
AS SENSAÇÕES CENESTÉSICAS.

desse menino proveio de incitações espontâneas, "boas" , emanadas dos ritmos


da própria vida e de desejos masculinos dos estágios motor, oral, anal e uretral.
Não só ele era um menino de convívio muito fácil, e a irmãzinha a quem quise­
ra comer não tinha por ,que se queixar dele nem de seu comportamento com
ela, como também a criada Marie, que às vezes ria com ar aborrecido (e sempre
divertido) das declarações do garoto, não tinha nenhum problema com ele. Jean
era extremamente gentil e prestativo para com ela, assim como afetuoso. Nessa
idade, de fato, ele sonhava ao mesmo tempo comer, cutucar, bater e derrubar
aquela a quem amava - ser o vencedor. Sem dúvida, repreensões ou punições
por esse tipo de afirmações fantasmáticas, quando os atos do menino não eram
nocivos, teriam sido prejudiciais a sua autoconfiança e a sua possibilidade de
viver num clima de harmonia no seio da fam ília e da sociedade, quando, em
seus atos, ele se mostrava cooperativo e sem problemas inter-relacionais, tanto
em casa quanto na escola.
Outro exemplo: Grégoire tinha 20 meses quando sua irmãzinha nasceu.
Ela não tinha mais de alguns dias quando, vendo-a segurar a mamadeira com
os pequenos movimentos dos dedos que têm os recém-nascidos nessa idade,
Grégoire se precipitou para o indicador esticado do bebê e, com uma dentada,
mordeu-o a ponto de sangrar. Inquietei-me pelo dedo, e a menina, é claro,
largou a mamadeira e começou a berrar, porque aquilo lhe doeu extremamente.
Grégoire ficou como que transtornado, inquieto, angustiado diante do que eu
iria dizer e pronto para se rebelar: recurvado, tinha no rosto uma expressão real­
mente "carregada". Eu lhe disse: "Venha, olhe como sua irmãzinha está con­
tente por ter um irmão tão forte. Agora que você já é forte assim, um dia poderá
defendê-la se alguém a atacar". A expressão de Grégoire então se relaxou e ele
esticou o tronco; depois, escutando os gritos do bebê a quem machucara tanto,
disse: "Ka6 dói, chola", pôs-se a fazer beicinho como um bebê e, por sua vez,
começou a chorar. Prossegui: "É claro que ela está sentindo dor, porque você é
muito forte para ela, mas ela sabe que foi porque você a achou tão boazinha que
quis comê-la". Ele me olhou, surpreso, e me respondeu: "É!" Continuei: "Mas
isso não é possível; ela está viva, e a gente não come as pessoas". E ele: "Tem
de consolar!" E começou a se esforçar por fazer isso, pronunciando palavras de­
licadas, e bem depressa o conseguiu. Mesmo assim, o dedo do nenén levou três
ou quatro dias para sarar por completo. Depois disso, Grégoire nunca mais
mordeu a irmãzinha nem qualquer outra pessoa. Vemos aí que um gesto saído
de uma intenção agressiva, mas originando-se numa intenção amorosa, foi

6 "Ka" era sua maneira de chamar Catherine, então apelidada de "Katinka" por seu pai.

45
NO JOGO DO DESEJO

bruscamente sentido como ruim, por ter causado sofrimento a uma irmãzinha
por quem o menino se interessava, e que todo esse interesse e esse amor
mostraram-se enraizados num desejo oral perigoso. Sem dúvida, tratava-se tam­
bém de um sentimento de ciúme, mas, ao mesmo tempo, o menino estava a
caminho de uma identificação com as pessoas mais velhas de seu sexo.
Se eu, a mãe, me tivesse zangado (aliás, repreendi-me bastante por não ter
evitado o perigo, tão absorta que estava em dar a mamadeira), um gesto do­
loroso para a irmãzinha, mas que não era bom nem mau em si, e que provinha
tão-somente de uma fantasia de consumo oral impulsivo no irmão mais velho,
ter-se-ia associado à idéia de que ele era portador de um perigo real e, portan­
to, de que ele, Gricha, era mau. Na verdade, ele mesmo se sentiu triste e em
perigo, por identificação imediata com o objeto vivo agredido, mas não se sen­
tiu culpado. Pelo menos, sua culpa deu lugar muito depressa a urna compreensão
de seu (suposto) impulso, verbalizada por mim: "Ele queria comer a irmãzi­
nha" . "É." Enquanto Jean, seu irmão mais velho, contentou-se (seis meses de­
pois e com quase quatro anos, e não como Grégoire aos 20 meses) em imagi­
nar e falar de uma irmãzinha a ser comida depois de bem cozinhada, como um
belo peru de Natal, Grégoire, muito mais novo, teve necessidade de uma ten­
tativa de execução imediata e sensível, análoga à de sua experiência com o fo­
go. Ter causado dor à irmã lhe fez mal, por sua vez, e a seqüência toda permi­
tiu que a educação desempenhasse seu papel nesse pequeno incidente.

Outro exemplo da dificuldade de amar


"Piranha!", disse Jean, que logo faria três anos, a Marie, pessoa que começara
a trabalhar para sua mãe naquela manhã. É que Marie queria ajudá-lo a subir na
cadeira para comer. Queria amarrar-lhe o guardanapo. Em suma, impedia-o de
agir sozinho nas coisas que lhe diziam respeito e que, antes de sua entrada na casa,
ele executava sozinho. O incidente - a palavra "piranha" gritada na cara da mu­
lher - causou bastante estardalhaço. Ouvindo Marie falar alto, corri até a cozi­
nha, onde ela me contou o que tinha acontecido. Surpreendi-me, não sabendo que
Jean conhecia aquela palavra, e lhe perguntei: "Você sabe o que quer dizer pira­
nha?" Ele não respondeu. Mais tarde, fiquei sabendo que ele ouvira a palavra ao
escutar a própria recém-chegada falar de uma outra pessoa com a arrumadeira.
"Não", disse-me ele, "mas, sabe, ela não quer deixar eu subir na minha cadeira,
não deixa a gente fazer nada sozinho". Expliquei-lhe que a palavra queria dizer
que Marie seria tão suja, tão asquerosa, que ele nunca teria sequer vontade de tocá­
la, nem de olhá-la, nem de gostar dela. Então, ele disse: "Ah, bom! Não, não é is­
so! Marie também é muito boazinha!"

46
AS SENSAÇÕES CENESTÉSICAS . .

"Piranha" , na cabeça do menino, era concebida como "antivida". Marie o


impedia de exprimir sua vitalidade motora, de se afirmar. E, em sua opinião,
era preciso defender-se dela. E como se defender, a não ser pronunciando uma
palavra que havia apreendido justamente no vocabulário daquela mulher, quan­
do ela falava de sua antiga patroa, que, em sua opinião, tinha sido uma pira­
nha com ela ) Marie era uma mulher sensível e tinha ficado magoada com o que
acontecera entre ela e Jean, sem conseguir compreender que um menino de três
anos já pudesse fazer tantas coisas sozinho. Ainda não se dera conta da maneira
como ele era criado, e que, aliás, posteriormente, muito lhe interessou, pois ela
própria tinha filhos que haviam permanecido dependentes até muito tarde, de­
vido à sua atitude superprotetora.
Depois desse incidente, que não parecia totalmente encerrado, pois eu ain­
da não conhecia essa moça o bastante para lhe fazer longos sermões, o almoço
de Jean foi concluído às pressas e ele veio me procurar. Tornei a lhe falar sobre
o episódio e ele voltou a me dizer o quanto achava Marie boazinha, embora ela
fosse "muito chata, porque não deixa nós fazer nada sozinho" (ele dizia "nós"
mesmo quando falava apenas de si; seu irmãozinho, bem menos desenvolto que
ele, ficava muito contente em parasitar essa pessoa e se deixar ajudar - "ela
não nos deixa fazer nada sozinho"). Ouvi o relato de Jean e lhe disse: "Sabe, a
Marie ficou sentida, porque pensou que você a achasse uma piranha de verdade.
Piranha é uma ofensa. Por isso, seria bom você pedir desculpas a Marie". Nesse
momento, para minha surpresa, Jean respondeu, com ar radicalmente discor­
dante e claro: "Não, nunca! " Surpresa com sua reação, aborrecida e temendo di­
ficuldades posteriores entre Marie e ele, não falei mais nada, deixando as coisas
ficarem como estavam, e Jean foi embora furioso. Voltou dez minutos depois,
com o ar sofrido de quem não está orgulhoso de si, e resmungou entre dentes:
"Dei desculpas a ela. " "Como? Que foi que você deu a Marie?" (não entendi
bem) Ele repetiu: "Dei desculpas a ela." "Ah, está bem, está bem, Jean." "Não,
não está bem, não!", fez ele, com ar deprimido e grossas lágrimas correndo pelas
faces: "Não está bem, não!" Sem compreender o que ele estava sentindo, fiquei
quieta e ele chorou por um momento, absorto em si mesmo, olhando pela janela,
até que voltou a se dirigir a mim: "Não está bem, mas a Marie estava muito
triste de eu dizer piranha, e eu não queria que ela ficasse triste!" O tom em que
Jean disse "não está bem" soou profundamente verdadeiro. De fato, ele não se
sentira nem um pouco envergonhado por pedir perdão, ou antes, como disse
com bastante justiça e sem se enganar quanto ao sentido do que tinha a dizer,
por ter dado seu perdão, mas por ter sido obrigado a reparar um dano moral
que causara inocentemente, ao se defender legitimamente. É desnecessário di-

47
NO JOGO DO DESEJO

zer que ele e Marie, aquela mulher simples, tornaram-se os melhores amigos
do mundo, pois Jean era uma criança repleta de carinho; apenas já era ricamente
dotado de uma grande autonomia.

Experiência da perda de uma coisa amada


O teu e o meu
Jean recebeu, por volta dos dois anos e meio, seu primeiro fuzil de brin­
quedo, que havia desejado ardentemente e do qual tinha grande orgulho. Não
devemos esquecer que Jean nascera durante a guerra e que tinha 1 9 meses no mo­
mento da Libertação e da entrada das tropas do general Leclerc em Paris, que pas­
saram sob as janelas do apartamento. Esse fuzil era, para ele, a possibilidade de
se identificar com os soldados do general De Gaulle, como ele dizia. Assim, le­
vou o fuzil para o Jardim de Luxemburgo. Na hora de subir num carrossel, em
vez de entregá-lo à avó, com quem tinha o hábito de passear e que, portanto,
pediu-lhe o fuzil, declarou: "Não, isso não é para mulheres!", e colocou o brin­
quedo no chão. Após sua volta nos cavalinhos, procurou em vão pelo fuzil e não
o encontrou (na época, era um brinquedo muito raro, cuja fabricação fora proibi­
da durante a ocupação alemã; todos os meninos deviam ter inveja desse brinque­
do). A avó, ao voltar para casa com Jean, me disse: "Estou desolada! Jean perdeu
o fuzil, e você vai ficar muito aborrecida"; e me contou como tudo acontecera. Ela
sabia que tínhamos tido muita dificuldade para conseguir o brinquedo. Perguntei:
"E Jean, será que está aborrecido?" - "Que nada! Imagine!", retrucou sua avó
em tom reprovador: "Quando eu disse que era uma besteira ele ter perdido o fuzil
e que a culpa era dele, por não ter me entregado o brinquedo, ele respondeu: 'não
faz mal, tem alguém que achou e que deve estar muito contente!' " "Por mim",
comentei (entrementes, Jean tinha chegado e assistia a meu diálogo com minha
mãe), "não vejo porque eu deva ficar mais aborrecida do que Jean; o fuzil era dele,
já que o tínhamos dado a ele. E, se Jean está contente, eu estou contente. É ver­
dade que com certeza deve haver um menino muito contente por ter agora um
belo fuzil". E não se falou mais no assunto.
Uns quinze dias depois desse incidente, Jean pareceu sair de um sonho em
que estivera mergulhado por alguns minutos e me disse: "Se eu não tivesse pos­
to meu fuzil no chão, ainda podia brincar com ele . . . eu ainda queria muito
brincar com ele." - "Numa outra vez, quando você gostar muito de alguma
coisa, você vai prestar atenção para não perdê-la." "Ah, vou! ", respondeu-me.
O incidente do fuzil estava encerrado e tinha trazido uma experiência. O
menino havia adquirido, por identificação com aquele que o encontrara, o ver­
dadeiro sentido do valor de um objeto seu; ao contrário, se fosse repreendido por

48
AS SENSAÇÕES CEN ESTÉSICAS . .

ter perdido o brinquedo, sem ter ainda a possibilidade de sentir-se privado dele
(e a verdade é que, até então, ainda não se dera conta disso), teria ficado apenas
com um sentimento de culpa imposto pelo adulto: um sentimento artificial­
mente enxertado, sem nenhum valor moral para ele, sem relação com erro al­
gum, pois deixar ou não que outra pessoa carregue nossas coisas nada tem a ver
com a moral, e não há erro algum, quando se gosta muito de algo, em perdê-lo.
Através dessa experiência, Jean teve a possibilidade de aprender o sentido da res­
ponsabilidade por seus atos, e também de aprender sobre o valor de um bem
possuído e perdido, lamentado por nós mesmos. Se muitas crianças têm tanta
dificuldade em aprender o sentido do teu e do meu, é porque o desejamos in­
culcar cedo demais. Ora, a aquisição dessas idéias é feita ao mesmo tempo em
que a da responsabilidade. Antes de adquirir um senso de responsabilidade so­
cial, é preciso ter adquirido o de uma responsabilidade individual, com relação
a si mesmo e a seu próprio bem. Como pudemos constatar ao vivo, a liberdade
de a criança ser a juíza exclusiva de seu atos, quando estes têm efeitos apenas no
plano afetivo e para si mesma, é a única atitude que pode permitir-lhe uma ex­
periência particular de suas relações com os objetos, os seres e as coisas. É pre­
ciso, antes de mais nada, que a criança deseje um objeto, e depois, tendo-o re­
cebido, que o perca, e tendo-o perdido, que lastime essa perda, para que, através
dessa experiência, no dia em que tomar consciência dela (vimos que, para Jean,
isso exigiu quinze dias), a criança adquira, independentemente de qualquer sen­
timento de culpa, a noção de sua própria responsabilidade.
Este estudo não teve outro objetivo senão transmitir as observações que
pude fazer no dia-a-dia e as reflexões que elas me sugeriram. Pareceu-me im­
portante encontrar as fontes do sentimento de culpa nas primeiras sensações fi­
siológicas pré-verbais do mal-estar de viver. As condições fisiológicas da vida
no filho do homem têm suas exigências intrínsecas, às vezes contraditórias. O
mal-estar é inerente à condição humana, quaisquer que sejam as circunstâncias
externas em sua contingência. Essas experiências podem ser liberadoras da li­
bido e fontes de criatividade, ou, ao contrário, acumuladoras de libido sob ten­
são e refreadoras da potência criativa, conforme o sujeito seja ou não autoriza­
do a exprimir sua angústia e seja ou não apoiado para encontrar por si mesmo
um sentido para elas, e sobretudo um meio de triunfar sobre elas. O ambiente
que mais ajuda é aquele que desenvolve ao máximo um clima de confiança, um
clima em que se tenha o direito de exprimir-se livremente, mesmo que a ex­
pressão dada pela criança seja uma expressão de sofrimento físico, afetivo ou
mental. Vê-se que, diante de tudo isso, o "adestramento" evita a experiência e
não permi te a aquisição da autonomia.

49
NO JOGO DO DESEJ O

Quando fiz meus estudos, havia um serviço de pediatria em que o médi­


co-chefe, o professor Ribadeau-Dumas, um dia decidiu que as enfermeiras, in­
dependentemente de quaisquer cuidados a serem prestados, dedicassem cinco
minutos, duas vezes por dia, a cada criança de que estivessem encarregadas: cin­
co minutos para brincar com elas ou, se fossem pequenas demais para brincar,
para lhes dirigir a palavra, afagá-las, tagarelar, sorrir -em suma, para estabe­
lecer com elas uma relação agradável, à parte qualquer cuidado de enfermagem
administrado a seus corpos: uma relação maternal e amável, qualquer que fos­
se a receptividade aparente do pequeno enfermo. Isso causou muita surpresa no
hospital e, naturalmente, todos os externos falavam dessa experiência. As en­
fermeiras aceitaram e, para surpresa geral, nesse serviço, que tanto admitia
recém-nascidos quanto crianças de dois a três anos, a mortalidade teve uma que­
da espetacular. Essas trocas afetivas, à parte qualquer administração de ali­
mentos ou cuidados, pareceram ser, para todos os bebês, momentos de revigo­
ramento da vitalidade. As trocas de ordem psíquica, no simples n ível da voz,
da mímica e do gesto, são, nas crianças afetadas por doenças graves, talvez os
momentos mais eficazes para a recuperação de sua vitalidade profunda. O pro­
fessor Ribadeau-Dumas, ao introduzir esse novo estilo de relação entre as en­
fermeiras e os bebês, havia descoberto alguma coisa que vai no mesmo sentido
do que eu disse aqui. Como pudemos ver através de todos os exemplos anterio­
res, as trocas afetivas vivificantes consistem, antes de mais nada, em deixar à ·
criança a possibilidade de se exprimir livremente pela voz, pela mímica, pelo
gesto e, mais ainda, por qualquer ato, desde que este não represente um grave
perigo imediato para ela ou para os outros. Sem dúvida, a educação não se re­
duz a isso, mas, sem essas trocas reasseguradoras, lúdicas e gestuais, que podem
até se dar sem a fala, sem a troca de vocalizações, não existe, entre adultos e cri­
anças, nenhum vínculo interpsíquico humanizante.
Quando o adulto não deposita confiança nas expressões que a criança dá
de sua vitalidade, e confiança a ponto de falar com ela, por mais doente e pe­
quenina que seja, a ponto de autorizar as manifestações de alegria ou sofrimento
próprias da criança, sem reprimi-las; quando o adulto não entra em contato afe­
tivo e verbal com a criança, independentemente das manipulações necessárias
de seu corpo, que não incluem forçosamente uma comunicação interpsíquica,
a criança fica impossibilitada de adquirir confiança em si como um ser da lin­
guagem e do desejo, essencialmente distinto de seu corpo, na medida em que
este a constitui apenas como um ser das necessidades.
A total dependência do ser humano no início de sua vida é uma cilada para
muitas mães, que não respeitam na criança nem a particularidade do ritmo das

50
AS SENSAÇÕES CEN ESTÉSICAS . . .

necessidades, nem a expressão natural e espontânea dos desejos, que, sobre um


fundo aparentemente semelhante em todas elas, despertam e se exprimem dife­
rentemente em cada uma. A sugestionabilidade da criança diante daquela que
a alimenta e de seu meio tutelar é uma da vias pelas quais a natureza humana,
a expressão autônoma da vitalidade, a sensibilidade e a inteligência são muito
precocemente pervertidas em algumas crianças criadas por mães ansiosas, per­
feccionistas e possessivas. Todos os métodos de adestramento precoce são no­
civos, pois, cedo ou tarde, urde-se na criança a culpa por viver. No decurso das
sensações cenestésicas precoces de mal-estar inconsciente, a angústia visceral se
enreda, como uma linguagem pré-verbal, nas trocas com o meio: trocas ini­
cialmente alimentares e, depois, motoras, bem antes de serem verbalizadas pela
própria criança, que, no entanto, é sensível às palavras desde o nascimento, se­
jam elas de confiança ou de reprimenda; a criança capta perfeitamente sua
carga emocional, sua carga de amor e de respeito por sua pessoa em desen­
volvimento, ou, ao contrário, o que elas comportam de rejeição censória a suas
manifestações virais.
Graças a um banho de palavras, sempre de ajuda, relacionadas com as
experiências físicas e que assim apóiem as iniciativas motoras, a criança es­
capa aos sentimentos inconscientes precoces de culpa, que, quando presentes,
só podem retirar-lhe o ritmo e entravar o acesso vivificante ao conhecimen­
to de sua identidade, às características naturais de seu sexo, ao domínio
autônomo de seu dizer e seu agir, ao exercício de sua inteligência observado­
ra, discriminadora e criadora, ao exercício de sua imaginação inventiva e de
sua autonomia responsável - coisas que devem desenvolver-se, todas elas,
fora de qualquer culpa de ordem mágica ou mórbida, passível de sobrecar­
regar com a neurose o caráter e a saúde dos mais dotados e dos mais preco­
ces, psíquicamente, dentre os seres humanos.

51
4
Personalogia e
imagem do corpo*

Associando-me a todos aqueles que o leram e escutaram, quero agradecer


ao Dr. Lagache por seu estudo magistral sobre a evolução da estrutura da per­
sonalidade segundo a obra de Freud.
Vimos ali um Freud que procurava apreender de perto, como clínico, a
descrição dos dados caracterológicos e comportamentais de seus pacientes, e
buscar, por inferência e interferência, sua motivação provável. A elaboração de
sua teoria seguiu esse trabalho de observação e de estudo dinâmico. A comu­
nicação da teoria aos pacientes era um meio, para Freud (assim corno para muitos
cios primeiros analistas), de ajudar seus pacientes a se compreenderem e a se re­
conhecerem como seres humanos, isto é, como seres inadvertidamente con­
duzidos - através de perturbações emocionais que, até então, a seus olhos e
aos olhos de todos, eram desprovidas de qualquer lógica - por uma lógica de
articulações decifráveis. A uma lógica consciente e racional, Freud trouxe co­
mo complemento uma lógica nova - a da dinâmica afetiva e irracional. Esse
estudo do inconsciente humano poderia comparar-se a um estudo do regime
subterrâneo das águas, sugerindo que as fontes das correntes que aparecem na
superfície são tão bem explicáveis quanto as características da vegetação.
Essa exploração já havia tentado o homem, e cada civilização tinha encon­
trado uma explicação própria para ela. Até Freud, o homem de ciência só bus-

*Publicado em La Psychanalyse, v. VI, PUF, 1 9 6 1 , IV. Uma elaboração ulterior, apresentada no Congresso de
Psicanálise de Royaumont em 1 974, será proximamente publicada, revisada e corrigida, pela Édicions du Senil.

52
PERSONALOGIA E IMAGEM DO CORPO

cava as motivações de seus atos em sua participação cósmica e geográfica, por


um lado, e em seus pensamentos ponderados e seus sentimentos lúcidos, por
outro, mas não em seus sonhos; estes, com suas imagens e seus efeitos, eram do
domínio da magia e ficavam entregues aos adivinhos. Até Freud, não procurá­
vamos seguir uma pessoa "sã" nas imagens que ela fazia de si mesma e do mun­
do quando seu corpo não estava em ação, fosse no sonho ou nos momentos de
relaxamento do controle. Tudo isso eram apenas disparates, feitiçaria ou coisas
do âmbito do sobrenatural. Freud retirou do ser humano essa frágil máscara de
robô moral, articulado, mais ou menos harmonizado com tarefas com que para­
mentar-se ao acordar, e a substituiu pela verdade palpitante dos desejos insacia­
dos que clamam no silêncio dos sonhos. Esse mesmo homem, considerado tão
verdadeiro - e amiúde mais verdadeiro - dormindo quanto desperto, Freud
o ajudou a assumir sua face verdadeira, nos tropeços e nas caretas incontroláveis
que explicam os sobressaltos ou os desajustes da máscara. A convivência res­
peitosa com os neuróticos, que esse homem justo teve a coragem de designar
como semelhantes, conduziu-o a elaborar uma teoria dinâmica da pessoa hu­
mana, ao cabo da qual os gestos exprimem uma verdade que a consciência ig­
nora, e que a linguagem falada (específica da espécie) só consegue manifestar no
sujeito através de palavras que são testemunhas contaminadas de emoções não
superadas, por sua vez decorrentes de experiências vividas.
O Dr. Lagache nos mostrou que a conceituação de Freud, ligada a uma
época determinada e a uma determinada língua, cuja tradução para o francês é
freqüentemente penosa, estava também ligada a uma medicina mais precisa, a
uma compreensão mais correta do homem pelo homem.
A personalogia de Freud nos parece ter logrado cruzar as abscissas da tópi­
ca com as ordenadas da dinâmica, e descrever numa curva a trajetória da per­
gunta que todo ser humano formula a todo outro ser de sua espécie (inclusive
a si próprio e, nesse caso, a experiência pessoal é pior que a do outro) - essa
pergunta que ele se formula e reformula do nascimento até a morte, ou seja,
durante todo o tempo de duração de sua relação com o mundo. Essa pergunta
é a mesma, quaisquer que sejam suas formulações, desde o início da encarnação
até a extinção das relações: "Onde está isso que me dá a condição de ser?" Todo
homem "sadio" o é na medida em que, procurando essa resposta em outro lu­
gar que não em si mesmo, encontra, ao formular a pergunta, a coragem de vi­
ver na esperança de resolvê-la. Todo homem "doente" é aquele em quem a bus­
ca desgastada altera a autenticidade da pergunta ou a autenticidade da espera
da resposta. A curva, aqui, é a da libido: trajetória da pergunta de um ser hu­
mano encarnado na busca de sua complementação. Sim, esse corpo da pessoa,

53
NO JOGO DO DESEJO

do qual a tópica e a dinâmica da teoria de Freud não falam expressamente, esse


corpo da pessoa está constantemente subjacente, no imaginário, a qualquer co­
municação inter-humana. A partir do momento em que a expressão é verba­
lizável e em que as palavras ditas por uma pessoa são compreendidas por ou­
tra, poderíamos supor que elas se comunicam autenticamente, já que parecem
entender-se. Mas Freud não esqueceu a linguagem do corpo e dela nos mostrou
testemunhos clínicos evidentes.
Portanto, se a pergunta pode ser formulada na linguagem verbalizada, ela
também o é na linguagem pré-verbal e paraverbal que é a li nguagem do corpo.
Freud nos mostrou como a libido, em sua busca de complementação jamais
permanentemente satisfeita, estrutura um homem ou uma mulher, digamos,
como corpo, coração e mente, e os hierarquiza em sua forma e em seu fun­
cionamento. Essa hierarquia é efêmera, sempre reformulável, imposta pela
condição específica da espécie e pelas condições contingentes do ambiente hu­
mano, isto é, pelas relações simbólicas a que o ser humano, desde sua concepção,
é submetido por aqueles que o cercam.
Um homem ou uma mulher é um ser vivo, tão mais humano (e poderíamos
acrescentar, no tocante à "gente grande", tão mais altamente humano) quanto
mais rara seja a qualidade de sua lucidez e mais intolerável a intensidade de sua
penúria. Em outras palavras, um ser humano é tão mais evoluído quanto maior
é sua angústia, e a expressão desta é tão impossível de calar que, para além de
seu corpo, mediador primeiro entre ele e o mundo, ele procura sons, gestos,
sinais e linguagens mediadores, para, ao mesmo tempo, traduzir sua angústia
e transcendê-la numa expressão inteligível, para se relacionar com os outros e
para, enfim, deixar vestígios que informem os que vierem depois.
Seu apetite de viver, fonte de sua busca de um complemento dinamogênico,
ensina-lhe que a aproximação exultante da satisfação, seguida pelo encontro
orgástico numa experiência efêmera de libertação de sua tensão de ser, é uma
morte. A experiência repetitiva da atração excitante, provocada pelo comple­
mento da imagem de seu corpo, leva-o, através do ato de união que acalma sua
tensão, ao desaparecimento do que era sentir-se em seu corpo: ao despojamen­
to sensorial da imagem do que lhe pertencia fora desse ato.
A memorização do objeto complementar ausente (após a ruptura entre a
imagem e o que era suporte dela até a plena realização mortífera do desejo) o
impele, numa esperança imaginária, a se inclinar, fora de seu tempo e de seu
espaço, para um outro que nunca deixe de apaziguá-lo. Essa busca hierogâmi­
ca de completude, criadora de exaltação, o conduz sempre da alegria ao luto,
pois traz, depois de ser vivida - existe um depois -, a dolorosa experiência

54
PERSONALOGIA E IMAGEM DO CORPO

da recuperação da consciência, dessa consciência ligada a um corpo momen­


taneamente esquecido e aliviado de seu peso, mas ainda profundamente imer­
so na dor de sua incompletude, de seu mutismo, de sua solidão ilimitada:
vivendo numa alternância rítmica pulsátil absurdamente monótona e irriso­
riamente tranqüilizadora, encarcerado, enfim, em sua prisão carnal de saída
intranspon ível.
Por mais cedo ou mais tarde que observemos um ser humano no curso de
sua vida, por mais pobre ou mais rico que ele seja em corporeidade, os mesmos
processos são identificáveis. Realizações episódicas e extremamente pequenas,
sempre buscadas, permitem a repetida experiência, ínfima e espec ífica, de uma
liberação das tensões localizadas no corpo. O "sentir" desse corpo, relaxado ou
voltado para o lugar em que se formula a pergunta única: "Onde está isso que me
dá a condição de ser?" , esse sentir se modifica sob o impacto da atração do obje­
to, do qual espera a conjunção iminente com ele: a percepção anterior do peso
é substituída por uma percepção da forma que acompanha a fonte dessa modi­
ficação, e a imagem dessa forma substitui aquilo para o qual ele estava volta­
do. E é a essa ausência instantânea da percepção sensorial, concomitante à con­
junção que permite a satisfação, é a essa modificação do sentir-se pela perda de
todo ou parte do corpo, suporte mediador da pergunta, que chamamos viver:
ainda que se trate precisamente de morte.
O que chamamos morrer, na verdade, nada mais é do que a cessação dos
meios de um retorno imaginário ao suporte do desejo: a perda da imagem do
corpo, perda que nos atrai a todos desde nosso nascimento, é a atração invencível
que nos coloca, através da busca de complementação que visa a sua realização,
além dos limites imagináveis de nosso corpo.
Se Freud precisou atingir a metade de sua vida para relatar aos seres hu­
manos a descoberta daquilo a que chamou instinto de morte, não foi porque en­
velhecesse em seu corpo, no sentido de que envelhecer signifique declinar,
diminuir a clarividência. Cansado, como Moisés, de esperar pelo ataque, Freud
descobriu o sentido dessa espera. Para todos aqueles que esgotaram repetitiva­
mente as experiências estruturantes de um nível de percepção, o narcisismo liga­
do a esse nível torna-se insuficiente e faz-se então necessária uma mudança, con­
secutiva à maturidade adquirida: a morte se converte no meio escolhido de uma
mudança estrutural.

O ser humano que sobrevive à ruptura umbilical do cordão vital, em sua


forma de feto, procura às cegas, fora de sua forma própria, estendendo a boca
em todas as direções, a fonte do líquido quente que apaziguará o vazio que lhe

55
NO JOGO DO DESEJO

corrói as entranhas. Está iniciado o ciclo de alegria-luto, sinônimo de vida e


portador de seu fruto.
A substancial complementação obtida e a saciedade afastam momen­
taneamente a consideração da simples satisfação corporal; e a complementação
sutiP dos corações pode então ser o primeiro fruto eventual -quando o obje­
to permanece próximo - dessa desqualificação momentânea da zona erógena
digestiva.
O afeto do amor é o fruto simbólico do dom materno substancial ao cor­
po do lactente esfaimado. Quando, depois do apaziguamento, a mãe continua
a cuidar do bebê num dom de presença, de calor e de escansões audíveis, ela lhe
permite aceder - graças ao desaparecimento do lugar (a boca) por onde ele se
liga carnalmente a ela - ao sentido sutil desse vínculo: o amor. A palavra
"coração" simboliza, para o ser humano, o lugar contínuo e imaginário, o con­
ti nuum onde se arrima seu narcisismo: aquele onde se formula a indagação so­
bre O sentido da complementação dos sentidos e de onde se espera a resposta.
Esse lugar dos afetos traz o nome da víscera pulsátil abrigada por trás das ma­
mas, entre os braços que nos dão o primeiro abraço - víscera ligada à mais
antiga corrente de trocas, que vive antes do suspiro e só morre depois dele.
Co�preendemos, a partir daí, que a imagem do corpo se constitui em refe­
rência à visão efetiva do rosto materno e aos referenciais sensoriais repetida­
mente trazidos pela presença da mãe2 •
A pergunta primeira, recolocada no nível das complementações afetivas,
traz, por sua vez, a descoberta efêmera e repetida de um coração-a-coração que
se desgasta, deixando, em lugar da luz do rosto materno, a obscuridade do
adormecimento dos sentidos. Entre sonos e despertares, no clima da presença
afetiva materna, a imagem do corpo se enriquece com novas descobertas de
zonas erógenas, que desaparecem e reaparecem no contato com nosso objeto de
amor, donde nosso nascimento para a noção do tempo vivido, assim como para
nossos afetos correlatos.
A cada descoberta de sensação que o rosto materno autentica, a realização
efêmera ligada a isso desperta ou adormece o coração, conforme o rosto da mãe

l Entendo por substancial a materialidade do alimento e dos excrementos, objetos parciais de troca. Por sutil, en­
tendo O olfato, a audição e a visão, pelos quais o objeto é percebido à distância. As pancadas e as carícias per­
tencem aos dois registros.
2 É por isso que, quando a mãe desaparece, o lactente, que até então se conhece apenas na referência emocional
a ela, morre na imagem de seu próprio corpo, elaborada nas relações com a mãe, embora seu corpo carnal so­
breviva.

56
PERSONALOGIA E I MAG EM DO CORPO

se anime ou se congele, conforme as mímicas e as sonorizações de paz ou de


zanga gue acompanhem as satisfações ou as frustrações do prazer sensorial. Assim
se constrói a imagem do corpo no que ela tem de duradouro, nos tormentos e
nas alegrias do corpo e, depois, do coração. É nesse momento do desenvolvi­
mento gue se constitui o narcisismo vital ou primário. Um rosto em algum
outro lugar, no gual nos miramos, acompanha-nos para sempre desde a primeira
mamada, e serve de esteio visual para o gue é sentido e se organiza em nossa
massa corporal, formal e funcional.
As metamorfoses dessa imagem complexa serão expostas mais adiante. Os
tormentos do desejo e os tormentos do coração, em sua articulação com os seres
escolhidos do ambiente, impelem à busca de uma imagem gue sempre se con­
forme, simultaneamente, ao narcisismo vital, experimentado repetidamente, e
à atração por uma expressão nova numa realização mais acabada, até a con­
sumação prometida pelo chamamento do dom incondicional, total e irruptivo
das forças vitais, a partir do último lugar erógeno descoberto: o lugar genital.
A experiência a ser então superada é a ameaça interna de dissociação en­
tre a imagem formal do corpo sexuado e a imagem da renúncia ao funciona­
mento desse lugar erógeno, no momento do Édipo, já gue a valorização afeti­
va do sujeito sexuado é narcisicamente aumentada ao preço de sua desvaloriza­
ção efetiva, e já gue essa renúncia assina o pacto da integração social do sujeito.
Esse acesso social valorizador é ligado à existência de um corpo privado de com­
plementação sexual e consagrado à mediação cultural no gue concerne a todas
as relações inter-humanas.
O apelo à superação da imagem do corpo anteriormente construída, no
momento da resolução edipiana, é vivido como uma morte para o mundo dos
valores (o coração), como uma perda do rosto ou como uma castração simbóli­
ca. O amor conjugal é o primeiro fruto dessa mutação. O casal é uma nova cons­
ciência do corpo de cada cônjuge, e a criança gue dele nasce é o fruto aparente
dessa mutação. Com ela, efetua-se o deslocamento narcísico do corpo do geni­
tor para o corpo do gerado. A imagem do corpo do genitor amoroso se amplia,
tendo por referência as necessidades de seus filhos -lugar gue, por sua vez, é
uma armadilha para o narcisismo sadiamente ligado às referências atuais e um
perigo para o coração, pois o desenvolvimento da nova geração desespacializa e
destemporaliza o adulto gue nela se mira. Ele pode ser contaminado no espelho
e reencontrar a imagem arcaica de seu corpo, à gual não renunciou completa­
mente, com seus afetos passados, pré-edipianos, homossexuais ou incestuosos.
Quando essas realizações e seus perigos são superados, dia após dia, e quan­
do todas as mutações se consumam, a realização máxima afirma-se na trans-

57
NO JOGO DO DESEJO

cendência do "Eu" finalmente livre, em sua coincidência total com o grito ex­
piratório que o desvencilha do retorno ao jogo das imagens ilusórias nascidas
do condicionamento sensorial. É a morte, libertadora da armadilha da imagem
do corpo e de suas mutações.
Tudo o que acabo de dizer pode parecer distante de meu tema: relações
da personalogia com a imagem do corpo. Mas é, ao contrário, o próprio centro
do tema, e tentei resumir aqui sua expressão essencial, a mais densa, pois esse
tema nos leva aos limites extremos em que a psicanálise cede lugar às especu­
lações metafísicas.
Cremos que foi desse condicionamento, a princ ípio sentido por Freud nele
mesmo e reconhecido por ele em todos os seus semelhantes, que nasceram seu
método e, depois, a teoria decorrente de suas experiências, movendo-se ao sa­
bor das necessidades acarretadas pelo método.
Não foi por acaso, mas antes por uma intuição de gênio, que Freud estu­
dou as forças em ação nos comportamentos aberrantes dos pacientes, escutan­
do-os falar deitados - num possível relaxamento, como dizemos hoje em dia
- e sem ver a pessoa que os escutava.
Essa posição é, para o corpo, a mais antiga e repetidamente conhecida,
aquela em que o ser humano vivencia em seu berço, desperto, as emoções -
estruturantes para o sujeito -da presença e da ausência do outro, desde o nasci­
mento até a aquisição da marcha. É a posição que todos reassumimos por cer­
ca de um terço de nosso tempo de vida, e aquela que assumimos para pensar
nossa história e para rememorá-la no limiar do sono. Nessa posição, as referên­
cias sensoriais atuais da pessoa (respiratórias, olfativas, auditivas, cardiovascu­
lares, tácteis, peristálticas) são suas únicas percepções; sensorialmente, o sis­
tema fica quase fechado em si mesmo, sem outras trocas substanciais que não
as respiratórias. Freud permitia que seus pacientes fumassem e, ao que parece,
dava-lhes seus cigarros preferidos - único consumo permitido ao analisando,
numa época em que a regra da abstinência sexual genital o colocava numa forte
tensão erótica latente. Essa posição deixa o paciente livre de solicitações do mun­
do externo, sem necessidade de maior domínio de seu corpo e de suas emoções
do que na fase pré-sono.
Nessa postura corporal, as relações "intra-sistêmicas personalógicas", se­
gundo a expressão lagacheana, são predominantes. O que fica em aberto nesse
sistema, caso ele esteja sob tensão, se exprime ou tende a se exprimir sob a for­
ma de uma busca de complementação na pessoa do analista, simultaneamente
presente no tempo e no espaço e ausente da visão - presente por sua massa
passiva e respirante, e ausente das manifestações cinéticas.

58
PERSONALOGIA E I M AGEM DO CORPO

Em todos os pacientes adultos, essa posição é a que mais permite o desen­


cadeamento de uma relação emocional específica -a transferência -, que o es­
tudo dos enunciados, mais ainda no que eles ocultam do que no que exprimem,
permite pôr em evidência. O objetivo dessa análise é explicitar ao paciente o mo­
do de relação exemplar que ele busca ou de que foge - o modo de relação sig­
nificativo de sua situação "personalógica intersistêmica". As vezes, é por meio
de sensações cenestésicas e corporais que se manifesta essa transferência.
Lembro-me da análise de um adulto afetado por graves distúrbios psicos­
somáticos, que buscou a análise muito desejoso de nada esconder. Era um bom
analisando, que falava abundantemente e se submetia à regra fundamental. Sen­
tia-se feliz por vir, dizia, e só experimentava uma ligeira hesitação consciente.
Lembro-me da intervenção de minha parte que acabou por desencadear nele a
consciência do que era a vivência transferencial e que, de repente, remeteu-o ao
cerne de sua história. Esse homem, que chegava sempre com as mãos secas e
saía com as mãos molhadas, falou-me um dia sobre sua transpiração, sem ousar,
por isso mesmo, apertar minha mão ao se despedir, porque a dele, segundo disse,
estava inteiramente molhada. Repito que ele era confiante e falava profusa­
mente. Fiz-lhe uma observação: "Talvez tudo isso que o senhor está me dizen­
do seja para esconder de mim e do senhor que 'eu o faço suar'. Por que não me
diz isso?" Toda a sua vida inter-humana erigia-se sobre uma relação masoquista
e passiva, sobre a busca de uma aniquilação que visava a valorizá-lo eletiva­
mente, de uma consumação preferencial que lhe desse o valor de um rival edi­
piano triunfante.
Nesse caso, como em outros, as palavras conscientemente sinceras eram
instrumentos, paredes, outras estruturas, moedas juntadas como pedrinhas ao
sabor do crescimento num meio cultural. Em suma, a linguagem falada era um
meio a serviço, não da comunicação, mas da recusa do encontro com a pessoa
da analista (intersistemia) e com sua própria pessoa (intra-sistemia). Foi o re­
curso verbal à imagem do corpo banhado em suor que deu sentido à linguagem
muda em que seu corpo e o meu serviam de intermediários entre nossas duas
pessoas. Essa intervenção lhe permitiu analisar sua resistência a qualquer en­
contro verdadeiro, mecanismo de defesa inconsciente de uma estrutura fóbica.

A noção da imagem do corpo nos veio da prática da psicanálise com cri­


anças neuróticas.
A técnica da associação das idéias verbalizadas, numa criança deitada num
divã, não é exeqüível com proveito nesses casos, pois, antes dos sete anos, a cri­
ança, privada da possibilidade de ação, não consegue abster-se da visão do in-

59
NO JOGO DO DESEJO

terlocutor sem adormecer ou sem agir tomando seu próprio corpo como objeto,
a ponto de se masturbar, direta e efetivamente.
Para que apareça a busca simbólica do complemento, quando a estrutura
ainda não está acabada (o que exigiria que a criança tivesse vivido o período
pós-edipiano), faz-se necessário um material mediador entre o corpo da criança
e ela. Esse material mostrou-se, pouco a pouco, de utilização mais interessante
do que se supusera de início: uma ocupação paralela, que permitisse o relaxa­
mento e um discurso fácil e não-controlado.
Nunca demos às crianças, durante as sessões de tratamento, objetos
fabricados.
Tendo partido para a análise de crianças com a atitude a pri ori de analü,ta
de adultos, da análise da expressão verbalizada de colocações livres e da análise
dos sonhos, todas as contribuições representativas nos pareciam um parasitismo
inútil. Mas a experiência nos ensinou que a expressão verbal da criança não de­
veria, na análise, ser o único mediador aceito.
Eis, portanto, o quadro da sessão: uma mesa, tendo como matéria-prima
papel, lápis e massa de modelar. O analista, não no campo visual da criança,
mas de lado, só participa da sessão por sua receptividade a tudo o que é dito,
desenhado, modelado, executado, imitado e "gesticulado" pela criança, a quem
a regra fundamental - depois de a criança aceitar claramente comparecer para
se curar daquilo que ela própria sente como um obstáculo no caminho de sua
realização - é assim formulada: "Diga em palavras, desenhos ou modelagens
tudo o que você pensar ou sentir enquanto estiver aqui, até mesmo aquilo que,
com outras pessoas, você sabe ou acha que não se deve dizer".
Durante longos anos, registramos esses desenhos e modelagens (dos quais
fornecemos um esboço aqui) como associações livres, testemunhas adjacentes
da vivência transferencial, provavelmente relacionadas com os ditos proferidos,
que são amiúde muito diferentes dos temas desenhados e modelados. Também
sucede à criança falar sobre suas criações, que então nos parecem ser sonhos ex­
temporâneos, decorrentes da relação analítica de transferência, que o estudo do
conteúdo latente permite explicitar.
A acumulação de tais documentos não poderia deixar de despertar nossa
mente para a linguagem paralógica ou ilógica das formas, para as sensações e
emoções que elas evocam, como uma espécie de sonho desperto, ilustrado em
vez de ser descrito, repleto do sentido específico de cada criança na situação "in­
tersistêmica" e "intra-sistêmica" que lhe é própria, segundo os termos de Lagache.
É assim que crianças fisicamente sadias, autoras de representações de cor­
pos humanos adoecidos nas quais se projetam, fazem-nos compreender que é

60
PE RSONALOGIA E IMAGEM DO CORPO

assim que elas se sentem na situação transferenciaP. Será que o supereu dessas
crianças suprime delas uma parte do corpo? Ou seu eu ainda é arcaico? Será que
o analista, na condição de outra pessoa, substitui pessoas introjetadas, ou será
que é complementar ou semelhante� Quando as crianças desenham corpos in­
completos para neles projetarem sua pessoa, elas podem ser capazes de emprestar
um corpo mais completo que o seu ao analista, sentido como complementar.
Quando, ao contrário, suas representações fragmentadas ou regressivas devem­
se i proibições superegóicas, a pessoa do analista é representada sob uma for­
ma castradora, perigosa, associada a uma imagem do corpo mais arcaica do que
aquela em que as crianças representam a si mesmas.
Pouco a pouco, com o passar dos anos, através dessas representações grá­
ficas e plásticas do corpo, anteriores à primazia do erotismo genital, uma nova
compreensão veio à luz, uma compreensão da criança na situação de relação
através do seu corpo. As fantasias ligadas ao desenho e à modelagem livres são
emocionalmente articuladas com a situação de transferência para o analista, o
que permite a reevocação libertária de emoções inconscientes ansiógenas, fonte
de perturbações neuróticas.
Ainda que conscientemente, através de palavras, uma criança possa di­
zer (no teste de Binet-Simon) "uma mamãe é uma mulher que nos dá comi­
da", ela também pode mostrar-nos, nas relações inconscientemente vividas e
representadas no desenho, que sente sua mãe como uma bruxa prestes a en­
venená-la; ou, quando é fóbica, pode representá-la como uma pantera prestes
a devorá-la, assumindo ela própria a forma de um coelho; ou então, a mãe é
uma corça que a criança, como caçador, está matando, etc. Ainda que outra
criança possa dizer que seu pai "trabalha para trazer dinheiro para nós e tam­
bém existe para nos corrigir quando não fazemos as coisas direito", nada é
mais verdadeiro, no sentido da vivência emocional, do que representar esse
mesmo pai, na modelagem, sob a forma de um móvel incômodo e inútil, uma
poltrona sem solidez que perde os pés quando nela queremos sentar. Lembro­
me de um menino que, num desenho de sua família, representou a si mesmo
e à mãe como dois seres humanos, ao passo que o pai era um hemi-homem
perigoso, fortemente preso a uma hemi-árvore. Nesse caso particular, o pai
era, de fato, tão regredido pelo alcoolismo, que o menino não podia identi­
ficar-se com ele sem tornar-se, ao mesmo tempo, delinqüente e passivo; as-

3 Talvez seja interessante saber que as crianças realmente afetadas, como as portadoras de poliomielite ou as mu­
tiladas, não introduzem anomalias em suas representações da imagem do corpo, salvo quando, além disso, tra­
ta-se de crianças neuróticas . O desenho e a modelagem da criança em análise são um material pré-consciente
e inconsciente, para falarmos em termos de tópica; ora, a invalidez é consciente.

61
NO JOGO DO DESEJO

sim, ilustrou sua situação "intra-sistêmica" edipiana. O eu desse menino não


podia desenvolver-se sadiamente em direção a uma situação edipiana, pois
lhe faltava um pai (situação intersistêmica) que fosse uma pessoa verdadeira,
um ser humano masculino e socializado, com um eu responsável. O menino,
que apesar disso queria preservar esse pai como imago, desenvolveu-se, não
através do investimento de seu corpo genital, mas sim reinvestindo falica­
mente as zonas erógenas viscerais (vegetativas) anteriormente abandonadas:
os sintomas que o levaram ao médico foram a encoprese e a enurese. As ima­
gens do corpo visceral foram associadas, em seu funcionamento passivo ou
ativo, mas anti-social, com as representações vegetais, ao mesmo tempo que
com as representações paternas. Isso não impediu que esse menino se com­
portasse como um possível assassino do pai, graças a uma cinestesia que era
eficaz na fam ília, porém não socializada, e que portanto era perigosa para qual­
quer pessoa que constituísse um obstáculo à satisfação de seus desejos.
Submetido -por seu próprio desenvolvimento às pressões do desejo edipiano,
ele devia querer impedir o pai de possuir genitalmente a mãe. De fato, o bêba­
do se afigurava a todos os familiares, e sobretudo a sua mulher, como um
agressor perigoso, sádico e destrutivo, não somente na ótica da criança (e na
situação fantasmática), mas também na realidade. A eficácia cinética do meni­
no efetivamente protegia a mãe e os irmãos menores dos golpes do pai. O me­
nino, mais forte que o pai embriagado, sentia-se então desprotegido diante
das pressões de seu desejo incestuoso; mas a imago paterna estava à espreita,
naquilo que era uma presença visceral no interior da própria criança, mistu­
rando-se com ela para desempenhar o papel castrador (intra-sistémico): uma
mãe não pode desejar mais um menino sempre sujo do que um adulto eter­
namente bêbado. Esse menino, deixado por sua própria conta, evoluiria para
uma psicoce ou uma delinqüência, ambas efetivamente afastadas por sua neu­
rose, cujos sintomas orgânicos levaram-no ao psicanalista.
Através desses exemplos, vemos como as noções abstratas da tópica -
isso, eu, eu ideal, ideal do eu, supereu -são alegoricamente ilustradas. Essas
ilustrações, com as associações e fantasias que as animam, trazem-nos a con­
firmação cotidiana da visão genial de Freud. Muito embora se trate de ins­
tâncias, temos a comprovação delas, e essa palavra traduz perfeitamente sua
força presentificadora.

Essas instâncias ou forças presentificadoras são diretamente tang íveis em


todas as composições livres, gráficas ou plásticas, que são também verdadeiras
fantasias representadas.

62
PERSONALOGIA E IMAGEM DO CORPO

O mediador dessas presentificações , nas representações alegóricas,


mostrou-se específico: é a referência ao corpo, quer ele esteja direta ou indireta­
mente implicado em sua existência anedótica atual4 . Propomos, portanto,
chamar a esse mediador imagem do corpo.
A observação dos desenhos livres, obtidos em mais de 20 anos de nossa
prática psicanalítica, permitiu-nos compreender que, por trás das situações ale­
goricamente representadas, uma outra coisa estava simbolicamente incluída.
Tratava-se de uma representação daquilo que é sentido, da maneira como isso
decorre, para cada um, das condições próprias de seu corpo, da maneira como
cada um leva a imagem em seu inconsciente como um substrato simbólico
de sua existência, independentemente de sua atualização numa expressão
dinâmica.
O corpo material, lugar do sujeito consciente, a todo instante o espacia­
liza e o temporaliza. A imagem do corpo, ao contrário, está fora do lugar e fora do
tempo, como imaginário puro e expressão dos investimentos da libido.
Ainda que haja na mímica uma influência da imagem do corpo sobre o
próprio corpo, visível para outrem (o que pode tornar-se uma linguagem cons­
ciente, como nos atores profissionais), falo aqui somente das representações
culturais, dos desenhos e modelagens feitos com a ajuda de outra matéria-pri­
ma que não o próprio corpo. Todas as idéias mobilizam afetos inconscientes
e, para exprimir uma idéia, os afetos mobilizados projetam-se em formas que,
nascidas de nosso imaginário, comunicam-se com o imaginário de outro ser
humano, por intermédio da imagem do corpo que nele está inconsciente­
mente implicada. Qualquer representação de uma dada coisa, ser, criatura,
situação ou idéia que reconheçamos como conforme, isto é, como atingindo
seu objetivo evocador ou representativo para nós mesmos e para outrem, é a
imagem ou uma das imagens que podemos fazer disso para nós mesmos,
revestida (ou contaminada) por nossas sensações em relação a essa coisa, esse
ser, essa criatura ou essa idéia.
A imagem inconsciente do corpo é uma síntese viva, permanentemente
atual, de nossas experiências emocionais repetidamente vividas através de sen­
sações erógenas eletivas, arcaicas ou atuais de nosso corpo; uma emoção evo­
cadora atual orienta a escolha inconsciente das associações emocionais subja­
centes que ela permite que aflorem. Somente depois do Édipo é que a imagem
do corpo é projetável na representação humana completa. O eu do sujeito está
então definitivamente ligado à imagem humana monossexuada específica, que

4 Isto é, quer encomremos ou não no desenho ou na modelagem as formas do corpo humano. Cf. mais adiante.

63
NO JOGO DO DESEJO

se conforma à fisiologia do corpo material. A representação dele pode ser ínte­


gra, mesmo que um acidente ou doença ocorridos depois dos quatro anos te­
nham deixado inválido o corpo da pessoa que desenha (experiência com jovens
com poliomielite), portanto, a imagem do corpo parece decorrer de elaborações
simbólicas das relações emocionais com ambos os pais, e não das relações sen­
soriais propriamente ditas com eles. Ao contrário, um adulto fisicamente sa­
dio, com relações emocionais perturbadas por uma neurose, pode ser incapaz
de ligar a representação de uma cabeça à representação de um corpo humano,
ou até de representar uma silhueta completa, no movimento do andar, por
exemplo. Não se trata, nesse caso, da execução do desenho ou da modelagem:
trata-se da impossibilidade de uma representação do movimento, ainda que no
mais primitivo dos estilos.
Além disso, a imagem do corpo pode projetar-se em todas as represen­
tações, quaisquer que sejam elas, e não somente nas representações humanas.
Assim, o desenho de um objeto, um vegetal, um animal ou um ser humano é
feito, ao mesmo tempo, à imagem daquele que o desenha e de como o dese­
nhista gostaria que isso fosse, conforme o que ele se permite esperar da coisa
desenhada. Sem a psicanálise (e mesmo depois dela, pois sempre lhe restam re­
sistências residuais), um ser humano é incapaz de imaginar seja lá o que for, ou
de admitir que uma coisa qualquer seja representada não importa de que
maneira, e ficar satisfeito com isso, e dizer: é isso mesmo (o representado, repi­
to, não significa aqui, obrigatoriamente, o desenho figurativo).
Todas essas representações estão simbolicamente ligadas às emoções
estruturantes da pessoa humana, através das sensações de realização valoriza­
das no decurso da evolução libidinal, a qual confere a primazia a zonas eróge­
nas eletivas (lugares do corpo) e a desloca de determinados locais do corpo para
outros, à medida que ocorrem o crescimento e a evolução de cada um no
corpo de seu sexo, e conforme a atração, fora deste, pelo sexo de um outro
corpo'.
De todas essas representações, pareceu-nos que algumas são extrema­
mente precoces; tão logo o desenvolvimento neuromuscular permite a uma
criança segurar um lápis ou manipular a massa de modelar, ela nos forne­
ce uma expressão visível dessas representações. Mas, aquilo que ainda não é
gráfica e plasticamente expressável já é, há muito tempo, uma linguagem
interior.

5 É por isso que a imagem do corpo não é o "esquema" corporal, ainda que o esquema corporal contribua para
sua elaboração.

64
PERSONALOGIA E IMAGEM DO CORPO

Essas possibilidades de representação, uma vez adquiridas, persistem por to­


da a vida do sujeito e, à medida que ocorre a evolução, colocam-se a serviço da
complexa linguagem representada pelo desenho de um adulto. Alguns adultos que
já não sabem desenhar ainda são capazes, como o prova a relação falada dos sonhos
com as fantasias, de imaginar e fazer descrições verbais; sabem procurar nos artis­
tas a liberação de uma expressão mediadora que eles próprios possuíram na idade
da organização infantil e, depois, pré-púbere da libido, e que perderam com a pri­
mazia da organização genital; sabem, enfim, comover-se com o espetáculo do mun­
do, e por intermédio da imagem inconsciente do corpo, estabelecem contato com
tudo aquilo que, no mundo que os cerca e nas obras artísticas, assume para eles
um sentido emocional.
Foi na observação dos desenhos de crianças e através das correspondências
flagrantes entre a clínica e seus desenhos que pôde vir à luz essa noção do cor­
po de relação imaginado, desde seu esboço até seu término. A representação
gráfica que poderíamos chamar pré-consciente e consciente é muito posterior
à simbolização inconsciente ainda não representável pelo sujeito, que já é con­
temporânea, ao que parece, da vida fetal. As representações plásticas da imagem
do corpo fetal só aparecem por volta dos três anos, após a aquisição da autono­
mia vegetativa e cinestésica do corpo da criança em relação ao corpo da mãe.
As reações clínicas psicossomáticas precoces são esclarecidas quando as com­
preendemos como uma linguagem da qual o próprio corpo é o mediador, em
relação a uma imagem do corpo que as perturbações intersistêmicas tornam en­
ferma. Nas produções de certos psicóticos, podemos encontrar essas imagens
arcaicas em estado de isolamento. Nas crianças e adultos, também as encon­
tramos, porém raramente isoladas, e, no contexto de uma transferência analíti­
ca, elas aparecem combinadas com representações muito mais evoluídas, diante
das quais muitas vezes passam despercebidas. São as associações fornecidas a
propósito desses fragmentos de desenho ou de modelagem que permitem con­
siderá-los como reminiscências da imagem do corpo arcaico da época fetal e oral
precocíssima.
Assim, muitas das emoções oriundas do contato do homem com a natureza
devem-se à vivência pré-histórica inconsciente do sujeito e despertam nele a
reatualização de uma imagem do corpo simbiótica, dos estágios fetal, olfativo,
oral passivo e anal passivo.
A imagem do corpo como corpo humano só aparece tardi amente na evolução libi­
dinal, confirmando a constatação clínica de que a criança só sabe se é menina
ou menino aos três anos, e considera sua pertença à raça humana como um ca­
so particular de sua relação com os pais, o que não impede, na vida imaginária,

65
NO JOGO DO DESEJO

a superposição disso com sua pertença ao mundo das coisas, dos vegetais e dos
animais. É com a instauração do complexo de Édipo que a magia substitutiva
das formas deixa de atingir a imagem do corpo humano (representativo do eu)
em seu simbolismo sexuado. O eu ideal (e às vezes o ideal de eu) é representa­
do sob formas humanas; mas o isso e o supereu permanecem ambíguos em suas
representações, continuando o imaginário a emprestar-lhes formas arcaicas da
imagem do corpo.
Tudo o que é próprio do isso, por natureza ou por recalcamento, é ima­
ginado como representável nos quatro elementos, como um substrato cósmico;
depois, é representado no mundo mineral e vegetal, apreendido como não ten­
do intencionalidade em relação aos seres humanos, ainda que possa ser destru­
tivo ou clemente, imagem desértica ou de exuberância fecunda, conforme as
emoções orgânicas e o momento vivido pelo sujeito. Com a instauração da situa­
ção edipiana, as instâncias são freqüentemente representadas por animais (o
CAT6 utiliza esse mediador) e, ames de sua resolução, podem ser representadas
pelo gorila e pela macaca, conforme o sexo do sujeito.
Massa, ritmo, intensidade e velocidade são os apanágios da imagem mais
arcaica do corpo vivido; assim, como representação do isso, podemos ver os rit­
mos do traçado, as linhas abstratas, os ritmos de descarga e a força de decalque
do traço, em que a velocidade e a intensidade desempenham um papel. O afe­
to se exprime, em sua qualidade, pelas cores, e em sua intensidade, pelos va­
lores das cores.
Do isso indiferenciado diferencia-se um pré-eu, ao mesmo tempo em que
o bebê reconhece sua mãe, por ela lhe provocar a fome que ela mesma sacia. É
pelas sensações do corpo, numa dialética inter-humana, que se presentifica o
eu, inicialmente heterônomo e, depois, autônomo.
Foi através da observação e de uma documentação muito extensa que se
evidenciou para nós a exi stênci a de uma i magem do corpo memorizado vi vi do, pre­
sentificando o pré-eu e depois o eu, e sempre senti da como dupla, num vi venciado
passi vo e num vivenciado ativo. Essas duas imagens, entrecruzadas como a trama
e a urdidura de um tecido, ambas igualmente indispensáveis para o que é sen­
tido por um sujeito sadio, podem ser afetadas, uma ou outra, pelas barreiras do
supereu; podem ser exaltadas, uma ou outra, pela atração do ideal do eu; e po­
dem ser invadidas pelo isso.
Trata-se:
1 ) de uma imagem do corpo em repouso, livre de qualquer tensão, a que

6 Teste que utiliza imagens sirnacionais de animais.

66
PERSONALO GIA E I MAGEM DO CORPO

chamamos imagem de base em cada estágio considerado, e na qual predomina a


noção de massa formal: lugar de segurança contínua;
2) de uma imagem ligada a esta, oscilante como as tensões, imagem de fun­
cionamento, imagem descontínua em que predomina a noção de zona erógena
sob tensão e em busca da realização que aplaque a tensão.
A imagem de base, quando o sujeito a encontra representada num objeto,
pode ser reconhecida por ele numa explosão narcísica de alegria e de exaltação
no sentido estrito, que se traduz por uma mímica distendida e saltitante das
mãos ou do corpo inteiro, e por uma atração violenta pelo ato de estreitar o
objeto e de colocá-lo em contato com a zona erógena investida na fase em
questão: na boca, entre os braços, entre as pernas (como acontece com as bo­
las, os bastões, os animais de pelúcia, as bonecas, os carrinhos, etc .). Essa ima­
gem e suas representações ligam-se simultaneamente ao eu, em sua função de
espacialização narcísica, e ao eu ideal.
A imagem de funcionamento é uma representação de zonas erógenas ativas de
emissão ou recepção: de zonas erógenas de expressão, perceptíveis como tais, e
de zonas erógenas de impressão que somente o sujeito percebe; o que assim se
representa são as emoções de agressão ou as emoções de paixão. Ela pode ser
fantasmaticamente colocada pela criança a serviço do eu, numa ação criadora,
ou a serviço do supereu, numa ação inibidora.
As representações das relações intra-sistêmicas podem utilizar várias imagens
do corpo basal e funcional nas situações de vida. Da mesma forma, as relações
intersistêmicas familiares, escolares e sociais podem utilizar numerosas ima­
gens do corpo e zonas erógenas projetadas conforme as relações intra-sistêmi­
cas, transferidas para as relações intersistêmicas.

Retornemos ao estudo da gênese das imagens do corpo, nas sensações preco­


ces de uma fome aplacada pela mãe. As sensações de apelo à complementação
digestiva (oral) associam-se a percepções sensoriais que se repetem a cada
refeição, e que se tornam, para a criança, simbólicas de seu corpo na situação
de mamar. A falta dessas referências é, para ela, a ausência da boca-de-mamar.
Assim, certo bebê recém-nascido, alimentado no seio e separado de sua mãe
fazia três dias, recusava, ou melhor, não queria nenhum alimento, embora es­
tivesse faminto. Ele havia perdido o "reflexo", ou antes, o comportamento pós­
natal característico de abrir a boca à procura do seio. Esse "reflexo" (?) foi re­
cuperado pelo bebê graças à apresentação de uma mamadeira envolta numa
peça de roupa recém-usada por sua mãe, mamadeira esta que o lactente es­
faimado esvaziou de uma só tragada. A imagem de seu corpo digestivo e re-

67
NO JOGO DO DESEJO

ceptivo por complementar estava ausente, pois a complementação espec ífica


de sua cavidade olfativa pelo odor da mãe não fora previamente obtida. Era
preciso haver uma resposta materna à pergunta colocada no lugar da zona eró­
gena olfativa, para que a questão vital da complementação alimentar pudesse
colocar-se no lugar da zona erógena digestiva, situada em sua totalidade de
sa ída (a boca), de funcionamento rítmico e de continente -o estômago vazio
por encher.
A vivência dessa idade é avaliável por nós através de seus resquícios
no imaginário. Sua representação gráfica e plástica nos é dada pelas crianças
maiores, que, na situação de transferência analítica ou nas situações de aban­
dono ou de fome, podem dar um testemunho de suas sensações corporais ar­
caicas, sendo inconscientes delas como são, mas estruturadas por elas.
O papel dos olhos, das orelhas e do nariz como zonas erógenas contem­
porâneas da zona oral não tem sido muito estudado. Eles parecem ligar-se ao
sentido tranqüilizador ou intranqüilizador das satisfações e das insatisfações
sentidas nessas zonas erógenas ou na massa corporal. Daí decorreria uma noção
contínua do valor, através de suas variações sistemáticas.
Parece, a julgar pelas observações do desamparo parcial ou total, psi­
cotizado pelo afrouxamento ou pela ruptura da simbiose pós-natal, que a
função de absorção digestiva da criança do estágio oral precoce está liga­
da à percepção discriminatória olfativa da mãe e, depois, a sua percepção
auditiva e táctil, bem como a seus ritmos cinestésicos espec íficos ao cuidar
da higiene e ao carregar o bebê, além de seus ritmos pessoais ao oferecer o
líquido nutritivo.
Voltemos à observação anterior. Após a ruptura da d íade simbiótica visí­
vel mãe-filho, a zona erógena olfativa foi complementada pelo odor específi­
co da mãe, embora ela estivesse ausente. Esse odor, portanto, é símbolo da mãe:
através dele, a mãe é presentificada; através dele, a pessoa da mãe introjetada
nas amamentações prévias torna-se presente em seus efeitos criativos. A com­
pletude olfativa cria a presença imaginada dos mamilos maternos ausentes, ao
mesmo tempo em que retoma a presença do tubo digestivo faminto e capaz
de mamar, que também se havia ausentado: a imagem deles estava alienada
na criança, na ausência do corpo materno.
Uma hierarquia espaço-temporal, nascida das condições de presentificação
simbólica da mãe, aparece a í; é uma imagem do corpo já complicada, da ordem
do "pré-eu" e do "isso". Um tempo de latência acompanha a repleção gástrica,
antes que o lactente entre no sono da digestão. Tão logo a repleção se comple­
ta, o lactente emite sons da laringe - uma espécie de ronronar, conhecido por

68
PERSONALOGIA E IMAGEM DO CORPO

todas as mães de todas as latitudes, que aquelas dentre as quais que são mater­
nais costumam ecoar em uníssimo, associando-os a frases carinhosas.
Depois do vaso comunicante que vai do corpo ao ventre, há o que vai
de rosto a rosto. Nesse mesmo intervalo, a criança satisfeita, estando segu­
ra por ser carregada e banhando-se no odor e nas sonorizações vocais da mãe,
expele também, no pólo cloacal, o conteúdo excrement ício. Estar no colo
a�arreta para o bebê experiências tácteis que restauram a existência externa
de seus limites tegumentares, no mesmo momento em que o reto experi­
menta a sensação do vazio acarretado pelo movimento peristáltico do tubo
digestivo. Esse movimento, autônomo, une os dois pólos do tubo digestivo
pelas vias internas, enquanto a pessoa da mãe, externa por sua massa e seus
membros, que apalpam e seguram, une a massa total do corpo da criança nu­
ma sensação táctil e de densidade. Através dessa sucessão de experiências e
alegrias, dessa cadência pré-eu ausente/pré-eu presente em segmentos alter­
nantes de corporeidade, a d íade mãe-criança se presentifica repetidamente na
vivência r ítmica incorporado-desincorporado e peristaltificado. O movi­
mento peristáltico, interno, ativo, visceral e mucoso, é contínuo (do lado da
criança) e se encontra com os movimentos variáveis, descontínuos, externos,
cutâneos e cinestésicos passivos (do lado da mãe). O que persiste das sen­
sações -sua permanência -deve-se às saídas e aos tegumentos. As saídas,
que não podem funcionar sem a presença do outro, tornam-se locais privi­
legiados do corpo, locais de expressão, sinais ou símbolos, conforme os atos
reativos da mãe e as emoções reconfortantes ou incômodas com que ela acom­
panha inconscientemente a maternagem.
Assim, as satisfações orgânicas da criança podem gratificá-la ou despojá­
la em sua imagem do corpo, conforme os afetos inconscientes atuais da mãe.
A necessidade ou o desejo que ela tenha do filho para sentir-se inteira podem
esvaziá-lo, sendo a criança, para ela, um substituto fálico ou o substituto de
uma imagem sentida como mutilada, caso seu cônjuge já não a satisfaça, nem
erótica nem emocionalmente. Qualquer que seja o sexo da criança, essas
emoções inconscientes a privam mais ou menos profundamente de sua ima­
gem do corpo em processo de constituição. A pessoa maternalizante, s ímbolo
de satisfação substancial, passa então a ser, ao mesmo tempo, símbolo de uma
descorporização mutilante. Essa fórmula, específica de cada relação entre uma
dada criança sexuada e uma dada mulher maternalizante, serve de origem à
primeira imagem do corpo do pré-eu, no que ela tem de absenteizada ou frágil
em relação a uma dada parte do corpo; é esta que terá, no desenrolar da vivên­
cia, que assumir transitoriamente uma primazia emocional. Essa fragilização

69
NO JOGO DO DESEJO

latente só aparecerá na época em que o referido lugar do corpo vier a servir de


suporte para a imagem funcional erotizada.
Esses ataques inconscientes à imagem do corpo, no esboço que dela se faz
nos estágios oral e anal passivos, orientam as reações de defesa da criança, es­
pecíficas também dessa etapa precoce; elas se exprimirão, caso a criança sobre­
viva até a idade edipiana, em termos edipianos de angústia, violação ou castração.
No momento da díade mãe-lactente, a criança sente-se oval ou esférica,
turgescente ou flácida, e tangencial ao corpo da mãe, que é outra esfera ovóide.
O clima de sua presença olfativo-auditiva é sentido como penetrando na mas­
sa corporal de maneira unificadora, para além das satisfações da penetração subs­
tancial do alimento, estando a primeira esfera centrada em torno de um único
pólo culminante, e a outra, que irá transformar-se na massa encefálica, centra­
da no cavum e em suas saídas (nariz, orelhas, boca), representáveis por um, dois
e, depois, três centros de trocas (e ainda não por cinco).
Mais tarde, o controle da musculatura fina das extremidades permitirá à
criança, e talvez ao artista, dar um testemunho de tudo isso através do dese­
nho e das técnicas de modelagem, que serão, por sua vez, herdeiros do resto -
culturalmente valorizado -da atividade excrementícia incorporada no eu.
Pela observação das crianças pequenas, logo vemos essas extremidades dis­
tais, mãos e pés, funcionarem à maneira de mandíbulas preênseis, e o corpo in­
teiro exprimir sua busca de uma resposta por intermédio do movimento rit­
mado e contínuo, derivado do movimento peristáltico transposto para as di­
versas partes fragmentadas do corpo.

Figura 1 . Traços primitivos retos e curvos, em sua combinação figurativa.

As primeiras e mais precoces representações gráficas do sentimento de vi­


ver dentro do corpo são linhas finas, retas, como hastes delgadas de ervas, com
um traçado calcado no início e depois levantado, como vírgulas alongadas, e a
seguir, vaivéns que formam garatujas. A representação do funcionamento da
inteligência (integração perceptiva) é uma linha retorcida sobre si mesma, num
grafismo de espiral mais ou menos bem executada (figura la).

70
PERSONALOGIA E IMAGEM DO CORPO

Em seguida vêm as linhas que delimitam espaços ovalados mais ou menos


fechados; o interior é feito por malhas largas dessas linhas entrecruzadas, que
ultrapassam, como longos filamentos, o limite da superfície, com centros de
integração (figura l b).
A modelagem relacionada com as representações nascidas nessa época
não passa de um esmigalhamento, sendo os pedaços espalhados. Nada disso
chega ainda a constituir imagens do corpo, mas sim representações funcionais
fragmentadas do pré-eu, ou ainda do isso, em processo de diferenciação. Essas
representações servem de base para fantasias que são esquecidas tão logo são
pensadas; a criança não se reconhece como autora delas, passado o minuto em
que as traça; ou, quando se reconhece como sua autora, declara que elas re­
presentam outras imagens que não as anunciadas no momento em que as
desenhava.
A primeira representação modelada e imaginada do corpo vivo, assumida
pela criança e reconhecida como tal em seguida, é um longo cilindro peristáltico
(uma serpente com inchações), formado por pedaços emendados, imagem do
corpo digestivo mucoso, que avança tanto através da mãe quanto através da cri­
ança, sendo o alimento sentido como esférico antes de ser fragmentado, por as­
sociação com a massa encefálica da mãe e com o seio, e novamente esférico após
a passagem pelo tubo digestivo e a expulsão que o entrega à mãe. Essa é a re­
presentação do pré-eu, um desenho infantil que expressa situacionalmente
dois pronomes: eu-tu (figura 2).

F igura 2. Primeiras representações modeladas da i magem do corpo digestivo funcional.

O pré-eu ideal, nessa idade da díade, é representado pela forma fixa de uma
bola dotada de uma cauda apical. Essa hierogamia, promovida perenemente pelo ima­
ginário, será a primeira representação do ser humano: no grafismo, é o círculo com
uma cauda; na modelagem, uma cereja, um joão-teimoso ou um cogumelo; a
dinâmica da imagem inscrita nessa modelagem é representada pela torsão "es­
tética" do pseudópode sobre a massa (figura 3).

71
---------
NO JOGO DO DESEJ O
modelagem

9
desenho
__..._..._

segurança
9 9, C?
torsão estética

------
o uº v'-/ 1
modelagem desenho
-..
insegurança


torsão arrancamento explosão
ruptura
Figu ra 3. Primeiras representações da " pré-pessoa " e de suas experiências libidinais me­
diatizadas pela imagem do corpo/díade digestiva mãe-filho.

O pré-supereu, herdeiro da angústia da perda da mãe olfativa, após a perda


da mãe placentária com quem foi abandonado o cordão umbilical, faz-se repre­
sentar por um arrancador que separa as duas partes complementares: como
mandíbula, garra, faca ou tesoura. A parte esférica, segurança básica da
hemidíade que é a criança, pode explodir por despedaçamento (como as mem­
branas amnióticas), e a parte caudal pode desaparecer por deglutição ou des­
pedaçamento, como o bolo alimentar ou o bolo fecal. O agente dessa angústia
é mágico: veneno, fantasma, etc., agente penetrante visível ou invisível, repre­
sentado por uma sensação (a vertigem, por exemplo) ou por seu efeito - a in­
terrupção de alguma coisa que era sentida como vida ou condição do viver, ou
seja, a irrupção do insuportável.
O ideal do pré-eu é a potência total [onipotência} na segurança total; é re­
presentável pela expansão sem limites, pelo preenchimento das superfícies, pe­
lo encaixamento, pela bela casa, pelo barco bonito. É por isso que a experiên­
cia prolongada de u_ma necessidade insatisfeita de reencontrar a díade mãe-cri­
ança, que pode provocar o bloqueio da vida substancial, pode também provo­
car a morte simbólica por deglutição, a destruição intra-sistémica da massa úni­
ca por absorção dela mesma em seu próprio pólo absorvente, e a explosão da
imagem do pré-eu. É a perda de uma imagem do corpo que é resíduo da ex­
periência fetal, antes mesmo da instalação de um narcisismo primário (díade
introjetada durável para além das seqüências da ausência materna).
Esse risco de morte por perda da referência à sede de viver (cujas premis­
sas puderam ser observadas no exemplo, citado acima, de uma impossibilidade

72
P E R SONALOGIA E I MAG E M DO CORPO

de mamar num lactente separado da mãe há três dias) não é o instinto de morte:
é a morte efetiva, por privação de uma parte da imagem do corpo; o retraimento
regressivo para as imagens anteriores revela-se inútil e estéril, e essas imagens
arcaicas incompletas são abandonadas, por sua vez, pelo desgaste passivo de uma
expectativa de complementação (substancial e emocional) valorizadora, que
demora demais a chegar. (A viabilidade intra�sistêmica se esgota, nesse caso,
.Pela perda do objeto de encontro intersistêmico.)
Inteiramente inverso é o fruto das experiências de saciações regulares. As
zonas erógenas ficam turgescentes, por serem satisfeitas em ritmos que convêm
(esses ritmos são específicos de cada díade mãe-criança, e é nesse sentido, com
relação a uma simbólica de ritmos mais ou menos bem estabelecidos, porém
compatíveis com a saúde da criança, que o supereu da mãe instrumenta o fun­
cionamento biológico de seu feto e, depois, de seu lactente).
A certeza continuamente repetida da reconstituição da díade, durante a
saciação substancial, leva a criança, essa hemidíade, a introjetar o outro e a tomar
para si como objeto perene, desde então, a presença do outro memorizado. Mas
esse objeto, esse pré-eu, submetido somente ao corpo e limitado pelos tegu­
mentos e pela densidade da massa, torna a fechar o sistema e traz a angústia su­
peregóica já citada (deglutição do pré-eu, imagem básica, por suas próprias
zonas erógenas, que são imagens dinâmicas do funcionamento).
A avidez de contato com a mãe pelas vias sensoriais, antes, durante e de­
pois da amamentação, durante o período que separa a repleção digestiva do
sono, aumenta a cada dia. Essas zonas erógenas de acompanhamento aprendem
a permanecer sob tensão, para sobreviver ao distanciamento ou à ausência da
voz e da presença corporal da mãe que se segue à refeição.
Um lactente a quem a mãe não rejeita com gritos ou gestos bruscos, quan­
do ele exprime seu sofrimento ou sua alegria, desenvolve um segundo registro
-o do vaso comunicante entre as sensações emocionais vocalizadas e imitadas
em eco e as modulações das palavras da mãe, seus mimos e a expressão de seu
rosto. O bebê arrulha lindamente e se porta bem. Exprime, através de uma pré­
linguagem, a existência do "bem-estar", para além das satisfações e das pequeni­
nas insatisfações substanciais. Essas emoções podem preencher as ausências mo­
mentâneas do corpo tumescente, trazidas pelas inevitáveis experiências de per­
da de ritmo e de disfunção substancial na díade entre mãe-nutrição-excremento (sub­
jetiva) e mãe-suporte-da-criança (objetiva) , no estágio das sensações digestivas
voluptuosas. Assim, o lactente cria para si uma segunda díade, de comunicação
não-substancial, que está associada à primeira, mas pode independer dela. É a
geração do eu intuitivo pelo pré-eu que fecunda o amor sentido na maternaliza-

73
NO JOGO DO DESEJO

ção. O narcisismo desloca-se do substancial (carnal) para o emocional, que às vezes se


torna o mais importante e se exprime numa palavra: "bom" ou "ruim".
A introjeção da díade emocional, associada com numerosas sensações gus­
tativas, tácteis, auditivas, visuais e cinestésicas, abre para a criança o registro
fundamental do narcisismo secundário, graças ao qual a atitude educativa da pes­
soa rnaternalizante poderá trazer urna segurança amorosa, à parte o adiamento
das satisfações carnais. Trata-se de urna elaboração simbólica e ética - bom,
bonito/mau, feio - do próprio corpo hierarquizado pelo rosto da mãe. A par­
tir daí, todos os obstáculos a urna saciação substancial, provenientes de condições
materiais e dos limites do corpo, são sentidos corno perigosos, desde que falte
ao desprazer carnal a compensação do aplacarnento emocional levado por urna
mãe carinhosa a seu bebê sofrido e deixado sozinho. A díade substancial nar­
císica associada à satisfação das necessidades (pré-eu ideal) pode dissociar-se ou
romper-se, acarretando o mesmo desastre para a díade da comunicação no es­
tágio da pré-linguagem, associada com o desejo, díade essa cujo pré-pensamento
narcísico ter-se-á constituído durante as ausências momentâneas do apoio
materno.
Voltemos à representação gráfica e plástica das relações mãe-filho, que dei­
xamos na forma circular com um traço perpendicular descentrado: a bola com
urna cauda.
A essa etapa de representação segue-se a das duas bolas (na modelagem, e de no
00

desenho), que parece ser a representação do narcisismo primário. Urna das bolas
está associada à massa abdominal, que está implicada em relação às nádegas e à
cloaca no contato com a mãe, e cujas zonas de existência são delimitadas pelos
"palpos" tegurnentares e pela boca mucosa, bem corno pelos seios (figura 4).

8 a b e d
Figura 4. O narcisismo primário/imagem do corpo da dialética oral estruturante, articu­
lação de turgescências esféricas e fálicas.

Assistimos então ao aparecimento de pontos de interesse: as saídas do ros­


to, sendo um ponto ou um furo desenhado no centro e, depois, dois, lado a la-

74
PERSONALOGIA E IMAGEM DO CORPO

do, na bola encefálica, e um furo central na bola abdominal. Em seguida, três


pontos ou três furos representando os sentidos, dois olhos e uma cavidade.
Também nesse momento, o orifício umbilical dá lugar a dois e, depois, três
furos verticais; a massa escura dos cabelos e a observação das orelhas impelem
a criança a dotar o personagem de um chapéu, caso represente um boneco, e de
orelhas, quando representa um animal (na maioria das vezes, um gato).
O bastão que dera lugar à segunda bola desloca-se e serve, multiplicado,
para representar os membros - a princípio quatro, nos dois sexos, e depois cin­
co, sobretudo no menino, cujo pólo genital começa a se fazer sentir narcisica­
mente e é representado como um membro de função e valor particulares.
A noção de eu animal a serviço de um eu ideal humano j á é chegada, em­
bora a noção cognitiva ponderada da pertença a um sexo ainda não tenha surgi­
do: o pai e a mãe são, para a criança, cognitivamente, seres familiares comple­
mentares de sua vida funcional, mas não corporeidades sexuadas. A represen­
tação dos membros é feita, primitivamente, corno apêndices comestíveis, den­
teados, pontiagudos ou esburacados na ponta, antes de aparecer sob a forma de
flores, com duas, três e, depois, cinco pétalas, representando os cinco dedos,
dentre os quais o dedo em oposição ainda não tem representação. Os membros
são aquilo que atinge a mãe substancialmente, com sensações discais do corpo
da criança, e são tangenciais ao corpo da mãe; estão associados à alimentação,
tanto no caso dos membros superiores quanto no dos inferiores, e depois sofrem
uma discriminação experimental, ficando os membros inferiores associados à
função excrementícia. Os membros, por não se separarem do corpo por des­
pedaçamento, não são consumíveis e se diferenciam do bolo alimentar e do bo­
lo fecal. Nem as mãos e antebraços, que servem para comer, nem os membros
inferiores, que servem para evacuar, desaparecem com o advento do asseio.
Portanto, não são divisíveis nem passíveis de consumo.
É preciso aguardar a idade da percepção comparativa da forma do sexo
para que a fantasia arcaica de consumação ou de divisão do corpo, em associa­
ção com o digestivo superegoicizado pela mãe, seja erotizada como boca boa
(que sabe escolher o que é bom para comer) ou corno boca má (que dilacera e
morde o que é mau), para que o bicho-papão seja sentido como devorador de
mãos e de tudo que com elas se assemelhe quando a criança faz "coisa feia" (ou
seja, não valorizada como boca boa aos olhos da mamãe).
Quando a noção de sexo aparece implici tamente, senão explicitamente, a ilus­
tração disso é visível de imediato, tanto na modelagem quanto no desenho: os
de sexo masculi no têm uma bengala ou um cachimbo, e as meni nas têm uma bolsa ou, às
vezes, uma bola (figura 5).

75
NO JOGO DO DESEJO


ir. � �;· fJ'

. . .. NU\
cinestésico
/�

.
sexuados


sexuados

Figura 5. Imagens do corpo pré-edipiano narcísico, genitalizado. A pessoa é representa­


da pela vertical idade do eixo do rosto, em continuidade com a verticalidade do
eixo do corpo simétrico. A imagem do corpo pré-genital é representada por
animais.

Quanto à representação da díade emocional, ela está ligada às cores e à es­


tética. "Esse garoto não tem sorte", disse um menino de 24 meses, ao ver e es­
cutar uma megera que gritava com o filho por ele ter levado um tombo; "ele
tem uma mãe feia, ela é vermelha". A harmonia apaziguadora das tensões in­
tersistêmicas e intra-sistémicas mãe-filho se expressava, para ele, no "azul" com
que qualificava as mulheres bonitas7 •
É a partir do investimento cinestésico confirmado que o eu da crianfa mais se con­
funde com o corpo, nas situafÕes dinâmicas que ela conhece; nestas e no curso da rea­
lização erótica sádico-anal, sublimada ou não (colhendo flores ou frutas, indo
ao mercado, indo passear). A identificação com a mãe, por introjeção do com­
portamento dela, permite ao eu investir em si mesmo como objeto, investir
em sua estrutura (que é gráfica e plasticamente representada como barco, casa,
móveis) e em seu funcionamento autônomo (animal, objeto mecânico, trem,
automóvel, avião).
A criança que fala de si na terceira pessoa, fazendo sempre, fatalmente,
apenas o que a mãe lhe diz para fazer ou o que ela faz, essa criança diz "não" no
exato momento em que fala de sua pessoa com o pronome "eu" [moi} seguido
de um verbo: "Eu quer isso, eu quer aquilo"8 . Ela identifica sua unidade, sen-

7 Qualquer que fosse a cor de suas roupas.


8 [Em francês, "Moi veux ci, moi veux fa".J Esse chamado eu [moi], consrituído em referência ao outro, chamado
cu [toi], esrá ligado ao verbo na segunda pessoa, e não, como se poderia supor, na terceira (auditivamenre con­
fundidas em francês) ou na primeira. Esse moi pode também ligar-se ao verbo no infinitivo. [Convém notar que
a língua francesa usa dois pronomes de primeira pessoa, moi e je. O moi, forma tônica, pode ocupar diversas
funções na frase e, por isso mesmo, também se traduz, em português, por me e mim; é esse o termo que aparece
na versão francesa das instâncias psíquicas da segunda tópica freudiana - moi, 1unnoi e ça (eu, supereü e isso).
O je ocupa sempre a função sintática do sujeito e, na linguagem psicanalítica (sobremdo francesa e marcada
pelo lacanismo), é o sujeiro do inconsciente, o sujeito por excelência. (N.T.)}

76
PERSONALOGIA E IMAGEM DO CORPO

tida como autônoma e atuante, com o excremento que se desprende do pólo


cloacal. Separa-se da fatalidade da aquiescência e descobre a liberdade do "não".
Essa ruptura estênica é uma realização que, quando provém de um desenvolvi­
mento infantil aceito pela mãe (e não rejeitado ou suportado por ela com resig­
nação), traz os frutos do advento do pronome "eu" [je}, cuja aquisição se man­
tém mesmo quando o corpo recém-autonomizado é rejeitado pela mãe ou se
di.stancia dela. É no per íodo de maturação dessa realização da autonomia
cinestésica que há uma sensibilidade para a separação da mãe e que, quando se
produz uma separação entre mãe e filho, ela constitui um trauma psicofisio­
lógico. Esse novo eu fala de si na primeira pessoa, apoiado num eu ideal que se
conforma à espécie e se projeta na imagem do corpo de um irmão mais velho
do mesmo sexo, imaginariamente solidário com o genitor desse sexo, que, até
o Édipo, confunde-se com o ideal de eu. Ele continua incapaz de se assumir co­
mo sujeito em condutas hierarquizantes, se, após a rejeição narcisicamente sen­
tida pelos adultos na presença do "não" manifestado pela criança, a massa
volumétrica dos adultos for tomada por sensações de depressão, que eles re­
fletem, direta ou indiretamente, através de agressões camufladas. A depressão
do adulto é sentida e imaginada no corpo da criança, por contaminação especu­
lar, como uma perda da turgescência da esfera encefálica ou da esfera abdomi­
nal, uma perda da turgescência fálica dos membros esqueléticos e também do
sexo (tanto na menina quanto no menino), contaminando perigosamente com
a desvitalização o corpo da criança (o eu ideal castrador oral herda imagens do
supereu oral de função cortante e devoradora, que é reforçado, inibindo um eu
ideal anal de aceitação da separação). O eu recém-promovido ao dom ínio da
cinestesia, a serviço da identificação com uma pessoa ativa, corre então o risco
de se desviar do ideal de eu anal para retornar a um pré-eu sem hierarquia. A
conquista bem-sucedida da autonomia é representada numa imagem do corpo
em que a hierarquização entre a massa encefálica (com o rosto), tornada inse­
parável da massa ventral prolongada pelos membros, é sustentada por um fali­
cismo oral agressivo que encima a cabeça (coroa, boné ou chapéu de ponta). Os
membros são representados como portadores de s ímbolos sexuais, camuflados
como objetos úteis, em virtude de um falicismo agressivo, anal e oral (forqui­
lhas, pás, machados, fuzis, pistolas, facas).

O papel de sustentação do eu ideal, normalmente ligado à turgescência das


imagens do corpo basal e do corpo de funcionamento cinestésico e sexual, é
exercido pelo comportamento, estênica e emocionalmente complementar, que
têm entre si os adultos, pai e mãe. A criança os sente, de início, como uma díade

77
NO JOGO DO DESEJO

bicéfala, depois bicorporizada, e depois como uma associação complementar e


articulada de potências, que ela representa sob a forma mítica do rei e da rai­
nha em seus desenhos, modelagens e fantasias.
Os pais permitem, na maioria dos casos (quando deixam a criança dizer
"não", embora ela aja "sim" em sua identificação com a pessoa de seu sexo, eu
ideal), que a autonomia seja conquistada, na plena consciência que a criança
passa a ter de suas formas corporais e de suas localizações (sensoriais) eróticas.
A hierarquia ética, herdada do narcisismo secundário, visa a atingir o eu
ideal sexuado, com a ajuda das proibições do supereu oral e anal, proibições es­
sas colocadas a serviço de um ideal de eu sexuado. As proibições do supereu são
vividas como imagens de perigos (quedas, esmagamentos, porretes, chicotes,
armas) que inibem o funcionamento erótico da imagem do corpo associada ao
eu. Essas inibições são tranqüilizadoras e temporárias e permitem uma acu­
mulação da tensão, numa prudência comportamental que reforça uma imagem
básica de segurança, o que preserva a criança de qualquer neurose fóbica. Essa
acumulação de energia permite à criança chegar à primazia da zona erógena
genital, que a faz engajar-se, a despeito da angústia de castração e por causa
dela, na situação edipiana. O eu genital é freqüentemente representado como
animalizado - o centauro que rapta uma mulher -, enquanto o eu ideal tem
forma humana: Apolo (como no frontão do templo de Olímpia); o pré-eu anal­
uretral é representado como bandido, ao passo que o eu ideal anal-uretral o é
como guarda; o índio e o mocinho são uma outra versão disso; o isso é repre­
sentado como macaco antropóide ou macaca - conforme o sexo - ou como
mamífero não-verticalizado e perigoso, num clima geográfico inóspito, vulcão
ou rio. A imagem do corpo basal, em qualquer idade, é representada pela casa,
pelo barco e pelo automóvel; às vezes, as características do rosto são transpostas
para estes, o que é prova de uma presentificação do eu ideal subjacente a qual­
quer estrutura mediadora das relações do sujeito com o mundo ambiente.
Este é um trabalho apenas esboçado com respeito à imagem do corpo. Não
posso aprofundar-me mais no quadro atual, mas penso que alguns exemplos
ajudariam a compreender a utilidade desse estudo em sua aplicação clínica.
I. Uma criança vê um pote de geléia que ela deseja. A vontade a impele a
estender a mão. Surge a noção do que é proibido pela mãe, e a criança leva as
mãos às costas, como que para evitar a ferida nascísica (por introjeção) em que
suas mãos incorreriam por causa das mãos mais fortes da mãe. Nesse exemplo,
vemos, ilustrada por um gesto, a imagem que a criança tem de seu corpo co­
mo um eu atraído pelo objeto do desejo (a geléia gratificante), um objeto, para
o eu ideal, daquilo que é bom de comer. Mas a mãe, ideal do eu, é lembrada, e

78
PERSONALOGIA E IMAGEM DO CORPO

o supereu entra em ação. A criança adia seu desejo; mais tarde, comerá a geléia
em condições socializadas.
O supereu pode ser contundente, castrador e queimante, como no exem­
plo desta quadrilha que agrada às crianças: "o gato vê o assado, o assado tenta
o gato, o gato põe a pata no assado, o assado queima a pata do gato". Vemos aí
uma função inibitória, ligada ao fato de que o objeto do desejo é proibido, por
pertencer ao adulto que é o eu ideal.
II. Um menino de três anos brinca sozinho, passeando disfarçado de guer­
reiro -de quepe, cinturão e espada (de conformidade com o eu ideal susten­
tado por um ideal de eu anal e genital ainda homossexual). Diz-se soldado do
general De Gaulle (estamos no ano de 1946; após a libertação de Paris, à qual
ele assistiu). Esse mesmo menino fala com outras pessoas exibindo simbolica­
mente suas micções estênicas, cuja trajetória, segundo ele garante, vai muito
longe, e as qualifica de "xixi do general De Gaulle". Note-se que o supereu age
de conformidade com o ideal de eu, que exclui a valorização do excrement ício
em si, e que o menino na verdade não está se exibindo no ato de urinar. O ato
de excreção não tem mais nenhum interesse ligado a uma exibição diante dos
adultos, como acontecia com as crianças menores, já não estando o investimento
anal do próprio corpo em conformidade com o eu ideal do estágio anal. O ato
narcisizante para o eu toma obrigatoriamente o sentido da identificação com
os adultos (o ir-se tornando genital). O supereu, nessa economia, funciona para
ocultar o ato no que ele tem de excrementício e, contraditoriamente, para ver­
balizá-lo com orgulho no que ele tem de honroso, em identificação com o adul­
to genital, tal como a criança o supõe.
Pois bem, esse menino, assim situado em sua economia intra-sistémica
(como diria Lagache), foi testemunha, após uma conversa telefônica, de uma
emoção depressiva e envergonhada de sua mãe, que havia cometido um erro
corriqueiro: o esquecimento de um convite. O rosto da mãe ensombreceu-se.
O menino quase não parecia prestar atenção a ela, absorto que estava em sua
brincadeira. Mas se inquietou e começou a girar em volta dela, olhando-a de
soslaio. Seu rosto "mimetizou" o da mãe e, em seguida, ele lhe dirigiu a palavra,
perguntando qual a causa da mudança. A mãe começou por despachá-lo: "Não
é nada." "É, sim, você está com a cara meio . . . " "Meio o quê?" "Meio não con­
tente com você." "É", respondeu a mãe, e explicou a conversa telefônica, os ami­
gos que tinham esperado por ela e por papai na véspera para jantar . . . "Que é
que o papai vai dizer?", perguntou o menino à mãe. "Ele vai ficar aborrecido
comigo" respondeu ela, "e terá razão". Diante dessas palavras, o menino se afas­
tou, e depois voltou, com a expressão dura, grave, estenicamente agressiva, rete-

79
NO JOGO DO DESEJO

sado em sua postura vertical, com um ar perseguido, e disse, jogando aos pés
da mãe todos os seus atributos de guerreiro: "Está bem, se você não está con­
tente com você e se papai está aborrecido com você, nunca mais vou ser solda­
do do general, vou ser sempre mau, não vou ter fuzil, nem cinturão, nem ca­
pacete, nem bandeira, nem sabre: eu vou ser um nada".
O supereu estava ligado às experiências anteriores: a uma imagem do cor­
po em que a identificação com a mãe ainda desempenhava um papel, antes do
não que exprime a recusa de ser como as mulheres, antes do sim ao eu ideal (ser
forte como os libertadores) com que o pai, macho da espécie e chefe da família,
se confundia, ou seja, a um eu ideal sustentado pela atração do ideal de eu (que,
nessa idade, consiste em ser grande como o papai, para casar com a mamãe e
ter filhos dela). Mas, diante de uma experiência sentida como uma ferida nar­
císica para a mãe, o menino sentiu-se "contaminado" pela desvalorização dela.
Essa contaminação traduziu-se, antes de qualquer reflexão para se defender dela,
pelo mimetismo do rosto. Era preciso rejeitar a mãe castrada, tal como papai a
rejeitava; mas, em vez de continuar adornado com os atributos da virilidade, o
menino se desfez deles e os rejeitou, jogando-os no chão, como que excremen­
tíciamente. O eu, cuja autonomia ainda era frágil, voltou a obedecer à antiga
mãe castradora, supereu ideal do eu retrógrado, que trouxe frutos a que
poderíamos chamar descriadores: "eu vou ser um nada".
Os restos da panóplia permaneceram no chão. A mãe não manifestou deso­
lação nem cólera; disse apenas que não eram aqueles apetrechos de soldado no
chão que iriam modificar o que ela estava sentindo, e que não diria o contrário
para agradá-lo. O menino se afastou, mudo, embirrado e grave.
Passaram-se alguns minutos. A criança refletia em silêncio. Voltou:
"Escuta, depois que papai tiver ralhado e que você tiver mandado as flores, você
ainda vai ficar contente com você?" "Claro que sim. " "E o papai vai dizer que
você é uma boa mulher? " "Claro. " "E você vai rir de novo?" "Vou. " "Então, eu
ainda sou soldado do general De Gaulle", e voltou para sua brincadeira dinâ­
mica. Aquela pessoa em devir tinha retomado sua estenia hierarquizada; a
experiência intersistêmica que havia abalado a economia intra-sistémica fora
ultrapassada; embora a mãe seguisse seus próprios ritmos, suas emoções, e con­
tinuasse com a fisionomia perturbada, o filho sabia que o abalo do casal não es­
tava em jogo. A segurança tinha voltado. A pessoa estava a caminho, até a re­
solução edipiana.
É depois desta última crise - depois da resolução edipiana - que se pode
falar de tópica, tal como esta foi classicamente elaborada por Freud e explici­
tada pelo Dr. Lagache.

80
PERSONALOGIA E IMAGEM DO CORPO

A imagem do corpo fica então definitivamente ligada à especificidade hu­


mana monossexuada e conforme à fisiologia corporal de todos os seres huma­
nos do mesmo sexo. O eu não pode identificar-se, através de seus comporta­
mentos sociais, com outro corpo que não o seu próprio, embora possa, em sua
relação narcísica consigo mesmo, imaginar-se conforme a todas as etapas an­
teriormente experimentadas e a todas as representações introjetivas ou proje­
tivas imagináveis.
O eu ideal é imaginado num corpo pronto para ser genitalmente atraí­
do por todas as pessoas do outro sexo que sejam esteticamente aceitáveis, com
exceção da mãe.
O ideal de eu está ligado ao êxito de uma fecundidade engajada, carnal, afe­
tiva e social, na dignidade das trocas éticas inter-humanas. É alegoricamente re­
presentado, numa imagem idealizada, com atributos gloriosos, radiantes, que
enfeitam a corporeidade humana.
Que acontece com o supereu? Depois do Édipo, ele é a consciência moral,
tão inseparável do sujeito quanto seu próprio corpo; é o sentimento de sua res­
ponsabilidade, que barra, através de um sentimento (sadio) de culpa, tudo aqui­
lo pelo qual, identificando-se com seus amigos e seus eventuais descendentes,
ele não poderia felicitar-se, e que faria com que, identificando seus antepassa­
dos e seus pais consigo mesmo, não tivesse o sentimento de honrá-los.
Como herdeiro do supereu dos estágios precedentes, o supereu genital in­
tervém, deixando o eu envergonhado de seus atos, tomados como sendo uma
incontinência quando ele infringe suas barreiras. Quando o supereu está au­
tenticamente a serviço da hierarquia genital, sua imagem inibidora só aparece
nas situações articuladas com comportamentos edipianos teoricamente ultra­
passados, mas, apesar disso, ainda capazes de entrar em ressonância.
Não obstante, o supereu mantém por toda a vida seu papel inibidor, sob
os auspícios do juiz, do policial, das leis sociais e do "que é que eles vão dizer".
Quanto ao eu ideal, vê-lo-emos animar as relações e todas as atividades
culturais graças às quais o indivíduo obtém para si elementos de complemen­
tação emocional tranqüilizadora nas situações de grupo.
O ideal de eu, como indica seu nome, é perenemente inatingível, pois o
eu percebe não ser tão completo quanto sua corporeidade. Isto, ligado ao eu
dentro e com esse corpo, faz com que ele deseje o para-além-do-eu, numa rea­
lização mort ífera da imagem basal, instaurada em proveito de uma sensação de
existir mais legitimamente narcísica, e numa imagem de funcionamento que
o conduz para além do próprio corpo e de seus vãos apelos ao objeto que o com­
plementaria para sempre.

81
NO JOGO DO DESEJO

Este esboço de estudo da imagem do corpo, ligado aos dados da perso­


nalogia freudiana, parece-me dever suscitar outras investigações. A conclusão
que já se pode tirar, na prática, permite compreender e verbalizar situações ain­
da sem solução terapêutica possível: refiro-me aos distúrbios psicossomáticos,
aos estados psicóticos, aos distúrbios da integração social, aos perversos e aos
delinqüentes que são intelectual e fisicamente sadios.

82
S·..

A dinâmica das pulsões e


,,..�

as
chamadas reacões de ciúme
q uando do nascimento de um
irmão mais novo*
Observação de Jean
Jean (que se denomina Titi) 1 tem 2 1 meses. Um irmãozinho (ou irmãzi­
nha) está para nascer. Toda vez que a mamãe cuida do enxoval, Jean, como que
por acaso, apodera-se de objetos e os espalha pelo quarto, onde os pisoteia.
Quando a mãe cuida das roupas dele, isso jamais acontece. Jean foi preparado:
a irmãzinha que está para chegar gosta muito dele e talvez lhe traga um pre­
sente: "É, um tamião (caminhão) gande com uma pota, de abir e fechar a pota".
A irmãzinha vem a ser um irmãozinho, mas trouxe em seu berço o caminhão
grande com uma porta. Alegria pura. Jean, enternecido, toma o bebê nos braços,
senta-se perto da mãe e faz festas no recém-nascido, tocando-o por toda parte
com seu indicador, no nariz, nas orelhas, na boca, e dizendo: "Bebê tem nariz,
bebê tem boca", etc. Anda para lá e para cá com um bebê de celulóide para o
qual jamais olhara até então, e não o abandona.
À noite, Jean não passa bem. Ele, que em geral gosta de se ocupar sozi­
nho e correr por toda a casa, quer ser carregado no colo e, sobretudo, não sen­
tado, mas deitado; se o sentamos ou o colocamos sobre suas pernas, deixa-se
cair, abatido e choroso, e diz num tom monótono: "Titi não pode andar, Titi
está triste". Não se consegue extrair mais nada dele. Visivelmente, não escuta

*Publicado em P,yché, n. 7, 9 e 10, Paris, 1947 (esgotados; versão revista e corrigida).


1 De Fúti, apelido afetuoso dado por seu pai.

83
NO JOGO DO DESEJO

nada, está psicologicamente fechado a tudo e a todos, muito vermelho e sem


febre. Tem os olhos fechados e leva as mãos às orelhas e à cabeça, como alguém
que sofre. O tom monótono é substituído por gritos de angústia quando ten­
tamos deitá-lo. Uma vez que, apesar disso, acaba adormecendo no colo, nós o
colocamos na cama, onde ele dorme um bom sono.
Na manhã seguinte, tem um comportamento muito positivo em relação
ao irmãozinho e a seu bebê de celulóide, que coloca no berço ou arrasta consi­
go por toda a parte; mostra-se alegre, vivaz, carinhoso e atento às histórias, co­
mo de hábito. Passa o tempo todo ao redor da cama da mãe. À noite, nada de
particular a ser assinalado.
Terceiro dia: ele assiste à primeira mamada. Ao ver sua mãe dar o seio,
imobiliza-se, fica roxo, violáceo, e se contorce um pouco, com os olhos saltan­
do das órbitas, mudo de emoção. Após uma pausa, com a garganta apertada,
diz com voz angustiada:
-Não, comer mamãe, não.
-Que é isso? - diz a mãe - Ele vai beber leite no seio da mamãe.
Quando você era pequeno, também fez a mesma coisa.
A enfermeira e a mãe tratam de fazer o recém-nascido mamar.
-Venha, você também quer?
Ele se aproxima, esboça o gesto de se debruçar sobre o seio e, de repente,
como que tomado de pânico, vai-se embora para a cozinha, onde, balbuciante,
tenta explicar à empregada o que aconteceu. Ela, vendo-o assim agitado e des­
gostoso, tomado de uma gagueira insólita, pega-o no colo e o consola, sem
saber exatamente o que ele tem. Ao cabo de alguns minutos, a criança acal­
mada parece haver esquecido o incidente; não gagueja mais. O resto do dia é
excelente. Mas Jean não olha mais para seu bebê de celulóide, que colocou de­
baixo da pilha de brinquedos.
No quarto dia, à mesma hora da véspera, Jean está novamente ali, perto
da mãe (desde ontem, não teve oportunidade de assistir a uma mamada). A
princípio, fica olhando e, ao ver o bebê aproximar-se do seio, começa a en­
rubescer, vira ostensivamente a cabeça e sai do quarto rapidamente, sem dizer
nada, como se estivesse com um torcicolo. Vai até a cozinha refugiar-se nos
braços da empregada, que não o questiona, contentando-se em afagá-lo. Ele fala
gaguejando por um bom tempo, e depois a gagueira cessa. Em seguida, o dia
corre bem, exceto pelo fato de que Jean cria dificuldades para sair, quando,
geralmente, gosta muito d_isso; uma vez do lado de fora, pede para ser carrega­
do no colo e depois se recusa a entrar novamente em casa, sentando-se no chão.
Se a pessoa que está com ele espera sem repreendê-lo, a oposição cede e, após

84
A DINÂMICA DAS PULSÕES . .

alguns minutos, ele se levanta sozinho, tão alegre quanto antes. E m suma, faz
ligeiros "caprichos" , aos quais, até então, não estava sujeito. Diríamos que há
como que uma barreira interior.
Na manhã do quinto dia, sempre à mesma hora, a enfermeira entra com
o bebê para a mamada. Jean se retira imediatamente do quarto, como se hou­
vesse um incêndio, corre para a empregada, gagueja, e, dessa vez, a gagueira
não cede. Não o repreendemos. Ele às vezes faz birra por não conseguir emitir
�s palavras que quer, e desiste, ou então se encoleriza contra si mesmo, ou con­
tra o adulto que não espera a frase sair de sua boca e lhe dá o que ele parece es­
tar pedindo. Recusa o objeto dado ou joga-o no chão, até que a frase seja dita,
só o aceitando depois que respondemos a ela. Às vezes, faz uma mímica, para
andar mais depressa, ou vai buscar sua canequinha para dizer que quer beber
alguma coisa. Noutras vezes, ainda, os gestos que o ajudam a ultrapassar a bar­
reira da gagueira são: fechar os olhos, flexionar o tronco sobre a bacia, dobrar
um membro inferior e movimentar os braços de cima para baixo, com os co­
tovelos dobrados e os punhos cerrados.
Os dias correm. Diante do irmão, de alguma forma, Jean tornou-se neu­
tro. O caminhão trazido pelo irmão é estimado, e é preciso colocá-lo na cama
de mamãe. Jean abre a portinha, diz que entrou no caminhão, torna a fechá-la
e faz os gestos de quem está ao volante, exclamando para si mesmo: "Cuidado,
galinhas, cuidado, senhoras ! " Repete com freqüência que foi o irmãozinho
quem lhe deu o "tamião gande". Não gagueja nunca ao falar sozinho ou sobre
seu caminhão. Aos visitantes que chegam, mostra o caminhão, leva-os pela mão
até a porta do quarto em que está o bebê e diz: "ali"; ou então leva-os até o
berço, quando a porta está aberta, mas não fica. Olha para as pessoas que olham
para o bebê, sorri ao vê-las sorrirem, mas ele próprio não olha para o bebê.
Convidado por elas a fazê-lo ou a falar do irmão, ele encontra, como que por
acaso, alguma outra coisa para fazer. Quando a enfermeira retira o bebê de sua
caminha, Jean olha atentamente para o lugar vazio, coloca seu caminhão na ca­
ma do irmãozinho e tenta trepar no berço sozinho. Não o conseguindo, pede a
um adulto, mostrando a cama: "Titi dentro, pala tamião", que parece significar:
para apanhar o caminhão. Quando lhe entregamos o caminhão, ele o recoloca
no berço e recomeça a manobra. Quer ser colocado na cama do bebê com seu
caminhão. Nós o pomos ali, mas, ao sentir-se colocado no berço, diz imediata­
mente, assustado, como se a cama estivesse pegando fogo: "Não, não, Titi den­
tro não", torna a pegar seu caminhão e vai-se embora.
Com os adultos, mantém-se parecido consigo mesmo, sempre muito ape­
gado à mãe e à empregada, a quem conhece desde que nasceu, positivo como

85
NO JOGO DO DESEJO

antes e sem maiores problemas em relação ao pai e ao médico, que o faz sair
do quarto da mãe toda vez que chega. Jean não procura prejudicar o irmão.
Fica satisfeito em ver os outros cuidarem do bebê. Chama algum adulto quan­
do o bebê chora, para que o consolemos, mas evita qualquer contato direto.
É apenas com a babá que existem dificuldades: ela procura chamá-lo à razão
quando ele não quer sair, quando pára na rua, quando não quer voltar para
casa ou quando não quer comer. Diante de suas reações de inibição, para­
lisação ou negativismo, ela tenta de fato ralhar com ele e vencer pela força.
O menino cede, aos gritos, e o clima fica pesado durante horas. Quando o
adulto tolera e aguarda sem insistir e sem se zangar, ·a oposição dura pouco.
O menino resolve sair dela num impulso que parece libertá-lo: "Titi vai sair",
ou "Sim, Titi vai ver mamãe", com ar convencido e satisfeito.
Desde o nascimento do irmão, seu apetite, que era regular e muito leve,
embora ele seja um belo menino musculoso, tornou-se caprichoso e irregular;
em alguns dias, inexiste, em outros, é muito bom. Mas, também nesse caso,
depois de ter pedido alguma coisa, ele a recusa. Quando insistimos, distrain­
do-o com alguma história, ele engole durante algum tempo e depois vomita.
A mamadeira é a única forma de alimentação pela qual implora e, tal como seu
irmãozinho (a mãe não tem leite suficiente), não quer tomá-la sozinho, mas no
colo, passivamente, com o olhar vago e um ar de profunda beatitude. Depois,
manifesta uma grande gratidão, alegre e altiva: "Titi tomou mamadeira como
Gricha" .
Tendo evacuações intestinais regulares, ele era asseado desde a idade de um
ano, sem nenhum adestramento particular. Torna-se irregular em seus horários
de evacuação e, por causa disso, suja as calças; não apenas não parece aperceber­
se de sua necessidade de defecar, como, também em relação ao xixi - que geral­
mente pedia para fazer, tendo apenas às vezes alguns esquecimentos -, não tem
mais nenhum controle. As observações que lhe fazemos não o surpreendem.
Responde: "É, tem que pedir xixi", com um ar convencido, mas recomeça a se
sujar. Ao cabo de apenas alguns dias, embora continue irregular em seus horários
de evacuação intestinal, Jean começa a pedir para fazer cocô, ou melhor, pede
"xixi" em lugar de cocô. Mas o xixi-nas-calças persistiria, com algumas pausas,
por vários meses. Em algumas ocasiões, duas ou três vezes seguidas, ele se mo­
lha depois de passados apenas alguns minutos do momento em que esvaziou a
bexiga; noutros dias, mostra-se asseado e continente o dia inteiro.
Em suma, três semanas após o nascimento do irmão, apelidado de Gricha,
Jean parece feliz, mas gagueja intensamente. A presença do irmão não o de­
sagrada e até lhe traz um certo interesse positivo pelas pessoas que aparecem.

86
A D I NÂMICA DAS PULSÕES . .

Sempre sabe o que o irmãozinho está fazendo e participa isso a todos. Quando
a mãe cuida do bebê, ele quer ajudá-la, trazer-lhe os objetos necessários para a
limpeza. Um dia, ocorre um incidente que poderia ter prejudicado o bebê: Jean,
como gosta de fazer, ao colocar seu caminhão no berço do irmão, deixa-o cair
sobre o rosto do bebê, que, apesar de não se ferir, começa a chorar. A mamãe,
que Jean foi chamar, pega o bebê, afaga-o e, com o outro braço, acaricia tam­
,bém o maior, explicando que o irmãozinho está muito contente por Jean lhe
emprestar seu caminhão, mas é pequeno demais para fazer outra coisa além de
chorar para dizer isso. Jean responde então: "Não tem dodói", tendo com­
preendido que machucou o bebê.
- Talvez ele também tenha um pouco de dodói. O caminhão é grande,
para meninos grandes, e pode fazer mal ao pequenos.
Uma vez acalmado o bebê e recolocado em seu berço, nunca mais houve
nenhum incidente perigoso, e os objetos levados para o irmãozinho eram sem­
pre colocados nos pés do berço.
O momento decisivo nas relações entre Jean e seu irmãozinho sobreveio
no vigésimo primeiro dia depois do nascimento: no vigésimo dia, quando a mãe
entrou com Jean no quarto dele para colocá-lo na cama, ele a puxou, com um
ar de conspirador meio receoso, e disse:
- Olha o que Titi fez.
Mostrou-lhe então, levantando as cobertas da cama da empregada, que
dormia no mesmo quarto que ele, o bebê de celulóide. A mãe disse:
- O que é isso?
- É uma bincadela boa pra Amone (é uma boa brincadeira para Simone).
E, com o mesmo ar de conspirador, tornou a cobrir o boneco, deu uma boa
gargalhada e se deitou. "Que é que ela vai dizer?", perguntou a si mesmo, e riu,
abafando o riso, contente por ver que mamãe ria.
- Não pode contar pra ela.
Mamãe prometeu. Depois, no instante em que ela ia saindo, Jean pediu
para se levantar e foi pegar o bebê de celulóide, retirou-o de seu esconderijo,
tornou a cobrir a cama de Simone e se deitou, abandonando sua idéia.
- Boa-noite, mamãe.
Na noite do dia seguinte, vigésimo primeiro dia, à mesma hora que na
véspera, exatamente antes de se deitar, Jean puxou a mãe pela mão e levou-a até
junto da cama de Simone, onde havia recolocado o bebê de celulóide, mas dessa
vez sem cobri-lo. Riu novamente de sua boa idéia. A mamãe não entendeu grande
coisa, mas riu em uníssono. Jean puxou-a então pela mão, que mantinha bem
apertada, e disse:

87
NO JOGO DO DESEJO

-Vamos ver o que ela vai dizer.


Não queria que a mãe o largasse e foi até a cozinha, para dizer, gaguejan-
do muito fortemente, com um ar a um tempo amedrontado e divertido:
- Amone, vem ver.
A empregada disse:
-O quê?
- Vem ver.
Ela obedeceu. Jean a levou até sua cama, sempre segurando a mão da mãe;
visivelmente, tinha um pouco de medo do que ia acontecer. Simone viu o be­
bê de celulóide em sua cama e disse:
-Ah, o que é isso? -, com ar surpreso e descontente, o que alegrou Jean.
-É, é . . . , é Gui, Gui, Guicha, Guicha.
- Ah! -fez Simone, com ar reprovador.
- Guicha tomou lugar de Amone.
- E o que é que nós vamos fazer? -perguntou ela.
E ele respondeu de imediato:
-Tem de mandar embora.
A empregada olhou para a mamãe. A mãe disse:
- Mas é claro, Jean tem razão.
Então, Simone agarrou o bebê de celulóide e jogou-o no chão.
Imediatamente, Jean largou a mãe, precipitou-se sobre o boneco, jogou-o num
canto, pegou-o novamente, esmurrou-o e deu-lhe pontapés, rindo a mais não
poder, com uma enorme e abundante gargalhada. Um verdadeiro linchamen­
to sádico. Mamãe e Simone riram, bastante surpresas, e depois deixaram Jean
entregue a seu acerto de contas, indo refazer a cama de Simone, que ele desar­
rumara um pouco. Qual não foi a surpresa das duas, cinco minutos depois, ao
verem Jean apanhar o bebê de celulóide, que pouco antes fora objeto de sua ir­
ritabilidade sádica, e pôr-se a embalá-lo maternalmente nos braços, passeando
pelo quarto de um lado para outro:
-Nana, meu Guicha bonzi nho, nana, meu Guicha bonzi nho, nana!
A gagueira havia desaparecido. Jean deitou-se contente e não voltou a
dizer mais nada.
No dia seguinte, ainda sem gagueira: o desaparecimento fora definitivo.
Desde esse dia, o irmãozinho assumiu um interesse real aos olhos de Jean, que
se tornou realmente um irmão mais velho. Seu vocabulário ampliou-se muito
depressa, em duas semanas, e os amigos que não o tinham visto nesse meio tem­
po ficaram surpresos com a transformação e a expansão ocorridas em Jean, que
contava então 22 meses.

88
A D I NÂM ICA DAS PULSÕES . .

Habitualmente, observamos crianças já doentes, que reagem a uma edu­


cação corretiva que os pais acreditaram ter de adotar em relação a seus com­
portamentos. Portanto, temos diante de nós casos complicados. Quanto a mim,
eu tivera a oportunidade de ser psicanalisada antes de ser mãe.
Com Jean, fiquei de olhos abertos - olhos sem idéias preconcebidas -
e não tentei fazê-lo camuflar suas reações: observei-as, mas nunca o culpei por
elas. E aprendi muito.

Observação de Robert
Dois meses depois disso, dessa ab-reação e dessa liquidação do conflito de
Jean após o nascimento do irmão, trouxeram-me um menino de dois anos que
apresentava distúrbios violentos de caráter e uma agressividade perigosa em re­
lação a um irmãozinho de três meses. Exatamente as idades respectivas de meus
dois filhos. Mas Robert já vivera três meses no conflito, complicado pelas reações
educativas do meio ambiente: "Você é malvado, ele é tão pequenininho! É feio
ser ciumento, isso aborrece a mamãe". Em suma, todo o arsenal de punições,
privações, etc., com a mãe evitando segurar o bebê diante do irmão, por causa
das grandes reações de agressividade que isso desencadeava (quebra de objetos,
pontapés na mãe e, quando ela desviava os olhos, tapas no recém-nascido, belis­
cões, puxões de cabelos, tentativa de afogá-lo na banheira e de lhe enfiar uma
tesoura nos olhos). Assim, em pouco tempo, Robert perdeu tudo o que havia
adquirido e se tornou cada vez mais apatetado, embora, antes do nascimento
do caçula, tivesse sido uma criança precoce. Pálido, falando baixinho diante de
mim, para monopolizar a mãe e para que ela não falasse com a doutora, ele havia
também perdido o apetite e fazia xixi e cocô nas calças.
Não tomei essa criança em tratamento psicanalítico, mas decidi aconse­
lhar à mãe um comportamento que deveria permitir que o menino ab-reagisse.
Disse a mim mesma: se a hipótese que tenho sobre o conflito do ciúme estiver
correta, eis aqui uma oportunidade de verificá-la.
Disse à mãe que mudasse completamente de atitude (um tio psicanalisa­
do que eu não conhecia, e que havia aconselhado a mãe a vir consultar-se comi­
go, aceitou ajudá-la): Robert não é malvado - ele está sofrendo. Recomendei­
lhe, quando visse um gesto agressivo de Robert diante de um objeto perten­
cente ao irmão, que, em vez de culpá-lo, fizesse uma fala em "negativo\ Que
dissesse, por exemplo: "As coisas de Pierrot ficam espalhadas por toda parte".
Caso as pessoas elogiassem o bebê, que ela dissesse a meia-voz: "Pierrot, Pierrot,
é sempre ele que as pessoas admiram. E, no entanto, ele não sabe fazer nada
senão dormir, comer e sujar as fraldas. É que as pessoas são bobas, como se um

89
NO JOGO DO DES EJO

bebê fosse tão interessante assim". Quando Robert se colocasse por um mo­
mento em oposição a alguma pessoa, que ela não tomasse a dianteira, mas o
deixasse viver sua reação, sem emitir juízos sobre sua maldade; que simples­
mente o deixasse escutar: "Coitado do Robert, isso não é de surpreender. Desde
que Pierrot chegou, a vida está toda ao contrário, nada é como antes; é forçoso
que ele não saiba mais o que fazer". Sobretudo, recomendei que ela não evitasse
oferecer seus cuidados ao bebê diante de Robert, como vinha se empenhando
em fazer para não despertar o ciúme do mais velho. Ao contrário - e isso era
o que me parecia mais importante nessa terapia psicológica -, era importante
que ela fizesse gestos maternais em relação ao bebê, trocando-lhe as fraldas e
dando-lhe a mamadeira, mas sempre emi tindo a seu respeito juízos desfavoráveis, num
tom extremamente gentil, toda vez que Robert estivesse presente. Isso não pode­
ria fazer mal ao bebê, e poderia fazer muito bem a Robert. Por exemplo, se ela
afagasse o recém-nascido, se dissesse: "Como são bobas as mamães, por gostarem
de pequerruchos que não sabem fazer nada, como Pierrot. Só mesmo uma mamãe
para amar esses embrulhinhos que não servem para nada senão chorar, comer e
fazer xixi e cocó".
Diante dessas recomendações, a mãe ficou um pouco desnorteada e me
disse: "Acho que, se eu der razão a Robert, ele vai simplesmente matar o ir­
mãozinho, no ponto em que está agora". Expliquei que não se tratava de dar
razão a seus atos, mas de fazê-lo compreender, através de palavras, os motivos
que o moviam: de dizer palavras exatas sobre seu sofrimento. Aconselhei-a a
fazer uma tentativa, ao menos por dois ou três dias. Em caso de fracasso, não
haveria outra solução senão separar Robert do ambiente familiar e psicanalisá­
lo, em condições muito desfavoráveis nessa idade .. Eu esperava que o menino
tornasse a ser positivo em relação aos adultos, sobretudo em relação à mãe, e
que a partir daí recuperasse o sono, o apetite e o ritmo digestivo.
Propus que, sem presentear Robert com ela e sem que ele a visse ser trazi­
da, fosse deixada num canto da casa uma boneca do gênero bebê, inquebrável,
um "boneco" de 30 a 3 5 centímetros; que se tivesse o cuidado de atrair a atenção
de Robert para ele, e que ninguém se importasse com o que ele pudesse fazer
com o boneco. Previ que talvez o menino tivesse necessidade de um objeto
transferencial sob a forma de um ser humano, para nele se desvencilhar de sua
necessidade de fazer mal ao irmão.
O resultado ultrapassou todas as nossas esperanças. Ao cabo de três dias,
a mãe me telefonou, dizendo ter havido uma melhora considerável no estado
de Robert, um aparente relaxamento e uma recuperação da saúde. De início, a
mudança de atitude da mãe deixou-o estupefato e completamente desampara-

90
A D I NÂM I CA DAS P U LSÕES . .

do em meio a uma reação de oposição. Depois, seu comportamento tornou-se


neutro diante do irmãozinho. Por fim, ao ouvir a mãe formular observações
agressivas ou depreciativas sobre o bebê, começou a contradizê-la: "Não, não é
verdade que ele não sabe nada, ele é muito bonitinho" . A mãe me perguntou o
que responder. Aconselhei-a a não seguir a opinião dele, a não aquiescer, mas
simplesmente a dizer: "Você acha? Bom, você é um bom irmão mais velho" .
E m 9ito dias, os papéis s e haviam invertido. Era Robert quem defendia o ir­
mão e reprovava a mãe por suas observações maldosas.
Em poucos meses, Robert deu um salto à frente em sua evolução. Quando
voltei a vê-lo, estava completamente transformado: adorava o irmão e todas as
crianças pequenas em geral, e a mãe lhe confiava o bebê com toda a segurança.
Como havia ocorrido com meu filho, seu vocabulário se desenvolvera e, tam­
bém como para ele, as noções de ontem e de amanhã e de antes e depois ha­
viam adquirido sentido. O futuro havia aparecido em sua linguagem, logo se­
guido pelo "eu".

Antes do nascimento de Jean, por minha formação psicanalítica, eu sabia


que a criança reage agressivamente diante do recém-chegado e exprime sua
reação por uma inversão: "É ele que é mau e que não gosta de mim". Portanto,
considerava sadias as reações agressivas pré-natais, e evitei o efeito negativo do
nascimento com o presente trazido pelo recém-nascido, presente esse escolhi­
do e esperado por Jean. Assim, tudo transcorreu nas melhores condições pos­
síveis. E Jean acolheu magnificamente seu irmão. Houve, por um lado, esse
presente do caminhão, que lhe permitiu fantasias imaginativas de potência
dinâmica, e por outro, a identificação com os adultos, que também acolheram
o recém-nascido com alegria.
O bebê de celulóide era, em minha opinião, o filho dele, tal como mamãe
tinha seu próprio filho. Em seguida, assisti a tudo o que relatei mais acima sem
compreender. Senti o sofrimento psicológico que tudo isso traduzia, mas perce­
bi que havia um sentido e uma necessidade interior naquilo tudo. Não saben­
do como ajudá-lo, esforcei-me por não prejudicá-lo. Esperava que a gagueira
passasse algum dia e não descartei a eventualidade de uma psicanálise poste­
rior para esse fim. O episódio libertário do linchamento do boneco de celulóide,
batizado, na ocasião, com o nome do irmão, depois de Jean fazer com que a res­
ponsabilidade cúmplice fosse assumida pela empregada e pela mãe, explicou­
se, a meus olhos, pela carga de agressividade recalcada. Era o ciúme - e eu en­
tendia por isso a rivalidade com relação à mãe. Era o destronamento sentido -
um "ele tomou o meu lugar" - que, a meu ver, explicava a agressividade.

91
NO JOGO DO DESEJO

Essa compreensão, ou antes, essa interpretação das coisas, que hoje creio
ser falsa, ou pelo menos muito parcial, permitiu-me, entretanto, em face do grave
caso de Robert, aconselhar um comportamento libertador. Robert "gesticulava"
o negativo, mas era censurado por isso desde o início. Já que era normal que ele
tivesse sentimentos hostis, pensava eu, mais valeria permiti-los: sua exterio­
rização seria menos perigosa, se ele não fosse obrigado a lutar contra um senti­
mento de culpa inculcado pelos adultos. Os instintos agressivos não têm meios
de se transformar, mas apenas de se intensificar, quando não se expressam. Mais
valeria evitar ó recalcamento e romper o círculo vicioso no qual, por não admi­
tir a legitimidade deles, Robert destruía a si mesmo. A rápida cura de Robert
pareceu-me ser a prova da justeza de minha interpretação. Mas essas duas ob­
servações continuavam a levantar numerosos problemas para mim.
Por exemplo, que mecanismo estivera em jogo para que Jean, como Robert,
demonstrasse tanta agressividade contra os objetos pertencentes ao bebê (agres­
sividade precocemente manifesta antes do nascimento do caçula, no caso de Jean,
e depois neutralizada e absolutamente não-aparente como tal até o dia do lin­
chamento)? Que mecanismo funcionara na perda das aquisições, no profundo
desregramento do apetite e das evacuações e na perda da sensibilidade esfincte­
riana? Que mecanismo havia atuado nos acessos de oposição passiva aos ritmos
de vida habituais (pelos caprichos)? Como é que, logo depois do linchamento per­
petrado contra o objeto batizado de irmão, Jean havia demonstrado diante desse
objeto uma ternura tão atenciosa, e a tinha manifestado igualmente, em segui­
da, em relação à criança viva, em termos definitivos, ao mesmo tempo em que
sua gagueira, no decurso dessa cena, desaparecera por completo? Como é que
Robert, que era tido como egoísta, senão perverso, e que constituía um perigo
real para seu irmão, havia-se transformado, após a justificação verbalizada de suas
emoções agressivas pela mãe, num menino generoso e fraterno, não apenas com
o irmão, mas também com todas as crianças, mostrando-se então uma criança
muito dotada? São muitos problemas, aos quais agora creio poder responder.
Era nesse ponto que se achavam minhas reflexões quando se ofereceu a
oportunidade de eu observar o comportamento de Gricha, meu segundo filho,
no nascimento de sua irmã, aproximadamente com a idade que tinha Jean quan­
do de seu nascimento. Como seus temperamentos eram inteiramente diferentes,
as reações, no fundo semelhantes, traduziram-se por outros meios. Foi o ter vis­
to de perto a vida dessas duas crianças, assim como o tê-los visto triunfar num
mesmo trabalho de adaptação, que me permitiu apreender, ao menos segundo
creio, o jogo das intricadíssimas forças psíquicas e instintivas que se traduz no
comportamento da chamada criança "ciumenta".

92
A DI NÂMICA DAS PULSÕES . .

Observação de Gricha aos 2 0 meses


A família Dolto espera um terceiro filho. Esperamos uma irmãzinha.
Gricha nunca fala sobre isso. Ele não sabe falar muito bem, e são antes as brin­
cadeiras motoras e rítmicas, as canções, os animais e a comida que dominam
sua atenção. Ele se interessa pelos caracóis, para esmagá-los, e pelos dadás2 , cu­
ja visão extasia todo o seu ser. Numa manhã do mês de agosto, nasce a irmã­
únha e Gricha vai ver sua mamãe. Sabe muito bem o que aconteceu, mas não
parece prestar nenhuma atenção. Deita-se perto da mãe, com os olhos perdidos
no vazio, e se encolhe junto a ela. Esse comportamento é absolutamente novo
nele: desde os seis meses, Gricha nunca se deixou afagar por mais de dez se­
gundos; prefere dançar, correr, rir e brincar. Portanto, encolher-se passivamente
como um pinto, com o olhar perdido, é sua primeira reação. O berço de Katinka
fica no canto do quarto de mamãe. Mamãe fala sobre isso com Gricha e lhe diz
que a irmãzinha lhe trouxe um presente. Nenhuma reação. Ele não olha uma
vez sequer na direção dela. Não vai ver o bebê. Sonha. Mamãe manda trazerem
o presente: é um automóvel. Gricha fica contente, só isso. Pega o brinquedo,
diz "cao vemê" (carro vermelho) e mal o observa. Não insistimos. No colo da
empregada que vem ver sua irmã, ele é levado até junto do berço. Será que
olha? Não tem nenhuma reação. Aperta o carrinho vermelho. No quarto de
mamãe, Gricha se comporta como um personagem de um filme em câmera
lenta.
Essa desatenção patente para com a irmã continua, muito embora, como
de hábito, ele imite seu irmão, o qual, por sua vez, mostra-se inteiramente posi­
tivo. No próprio dia em que a irmã nasce, Gricha faz cocô na cama durante a
sesta - acidente que não acontecia já havia um ano. Mostra-se muito humi­
lhado e envergonhado, embora, o que é muito importante, não lhe tenha sido
feita a menor censura. Quando se levanta na manhã seguinte, descobrimos, co­
mo depois da sesta da véspera, um grande cocô em sua cama e, desapontado e
descontente, ele o mostra a Henriette, a empregada, de quem gosta e por quem
é amado. Esta constata o acontecido e, sem repreendê-lo, vem me avisar, trazen­
do Gricha no colo. Não o repreendo e ele se precipita em minha direção, en­
colhendo-se a meu lado na cama, com o olhar sonhador e sem falar no bebê Ka,
que, justamente, ainda não está em meu quarto. Depois, quando seu pai entra
no quarto, Gricha não se mexe e age como se não nos ouvisse falar. É então que
Henriette vem buscá-lo para o café da manhã e o vê junto a mim. Ela diz:
- Mas, como ele está calmo! Não é possível, esse não é ele!

2 Cavalos.

93
NO JOGO DO DESEJO

-É sim -responde a mãe, -é o Gricha, mas é um Gricha triste, por


causa da Katinka.
Então, Gricha se volta para mim e diz uma frase que só fui compreender
na manhã seguinte, quando, ao acordar, ele a repetiu a propósito do grande cocô
em sua cama; uma frase que, provisoriamente, tomo por um desejo, sob a for­
ma de negação do nascimento da irmã: "Não tem bebê Ka".
No dia seguinte, reproduz-se o mesmo incidente da cama (eu me havia
recusado a permitir que lhe colocassem fraldas, tanto por causa do calor do mês
de agosto quanto para não levar o menino a regredir). Nessa terceira manhã,
portanto, a mamãe vai levantá-lo ao acordar, e é a ela que ele comunica seu de­
sapontamento, mostrando o cocô: "Por que Gricha não tem bebê Ka?" (Por que
Gricha não fez um bebê como a mamãe?).
Consolo Gricha como posso. Digo-lhe que os bebês não são cocôs, que ele
próprio nascéu como Katinka e foi um lindo bebezinho, e não um cocô. Que
os cocôs são sempre parecidos, que não crescem e não comem, e lhe conto al­
guma coisa, no discurso alegre que acompanha a higiene. Assim, o dia inicia­
do com a mamãe de pé, tal como antes, transcorre muito bem. Gricha recupera
sua voz e sua vivacidade, mesmo em meu quarto, e não torna a subir em mi­
nha cama, onde, não obstante, repouso por alguns momentos.
Nessas três primeiras noites, ele havia dormido muito mais que de hábito;
no quarto dia, retoma seu ritmo normal. Ele, que já tinha um bom apetite,
põe-se a comer sem parar e engole montões de queijo branco (por ele denomi­
nado "ama bian"1). Adormece a cada colherada e só acorda para colocar outra
porção na boca, adormecendo logo em seguida (ele come sozinho): o espetáculo
é cômico. Desde o nascimento da irmã, ele tem também uma grande avidez
motora: sobe e tenta descer sozinho de uma escada de pedra em caracol, sem
corrimão, que conduz ao quarto da enfermeira, onde se encontra o berço de
Katinka, sua irmã. Ouvimo-lo fazer sozinho sua subida, falando consigo mes­
mo: "Bebê Ka, bebê Ka". Chegando ao topo, arranha a porta e diz: "Ali bebê
Ka". Mas, se abrimos a porta e ele entra, é para ir em direção à enfermeira, e
não ao berço. Quando ela diz, "Katinka está dormindo", ele fala à meia-voz e
com ar interessado: "Bebê Ka naná! " Depois vai-se embora, repetindo a todo
o mundo: "Bebê Ka naná!" Adora puxar as pessoas em direção ao quarto: "Ali
bebê Ka", e olha sorrindo a figura deles quando contemplam o bebê, mas ele
próprio não o olha (exatamente como fazia Jean). No quarto dia, pede para
tomar mamadeira (havia-se separado da mamadeira muito antes de seu irmão;

3 De fromage blanc, em francês. (N. T.)

94
A DINÂMICA DAS PULSÕES . .

desde a idade d e dez meses, recusara-a completamente). Não sabe mais ma­
mar, o que muito o aborrece. Fica furioso com o bico da mamadeira, que tem
de ser retirado; bebe diretamente no gargalo. Não obstante, torna a pedir a
mamadeira três ou quatro vezes nos primeiros quinze dias, então renuncian­
do a ela, por não saber mamar. Anuncia, orgulhoso, a seu irmão:
- Mim tomou mamá (eu tomei a mamadeira).
Vem mostrá-la à mãe, depois de ter mandado recolocarem o bico na gar­
rafinha vazia, visivelmente orgulhoso de sua façanha.
Por volta do quinto dia, passa a se interessar pelas trocas de fraldas do be­
bê, sobretudo pelas fezes, a que chama "totô banco": "Ka totô banco" (Katinka
fez um cocó branco), anuncia a todos; e um cavalinho de puxar, teoricamente
branco, ao qual ele constantemente vai dizer bom dia, passa a ser "lindo dadá
banco". Gricha adora correr saltitando, exclamando para si mesmo: "Minha lin­
do dadá banco", o que quer dizer: o cavalo é lindo, da cor do cocô de Katinka,
e eu sou lindo como o cavalo da cor do cocô de Katinka, cor "bonita"4. Cabe
dizer que as fezes do bebê são o tema da conversa do obstetra, da enfermeira e
dos avós. É verão e mamãe não tem muito leite, de modo que a menina passou
para o leite de vaca. Terá ela fezes bonitas? Ela vai bem, está com as fezes boni­
tas. Essas são as frases que Gricha ouve falar. E eis a primeira declaração posi­
tiva que faz, tocando o traseiro da irmã no oitavo dia:
- Bonito bumbum Ka (Katinka tem um bumbum bonito).
Este é um julgamento que ele vai anunciar à mãe, com ar satisfeito:
"bonito totô banco", "e bi an, e bi an, beau tata bi an" (c'est bi en, c'est bi en, beau
caca blanc)l. A enfermeira é muito delicada e maternal com Gricha todas as
vezes que ele sobe a escada e vai arranhar-lhe a porta. Nunca faz comparações
entre ele e a irmã.
No décimo dia, à mesa, devorando seu queijo branco (ama bi an), enquan­
to a enfermeira deixou a refeição para ir cuidar do bebê, que estava chorando,
Gricha diz, com a boca cheia e um ar sonhador:
- Mim gota moça (gosto da moça).
Nesse mesmo dia, ou no dia seguinte, a enfermeira dá a mamadeira num
canto do quarto em que estou deitada. Gricha está sentado perto de minha ca­
ma e assiste à cena da mamadeira. De repente, levanta-se e avança, dizendo:

4 Há no francês uma homofonia entre bien (bonita, na acepção indicada), dada bian (cavalo branco) e ama bian.
(N. T.)
5 Também aqui o j ogo fonético bien-bian. Em português , "está tudo bem, tudo bem , é um bonito cocô branco".
(N. T. )

95
NO JOGO DO DES EJO

- Uh, uh, obo mau (uh, uh, eu sou o lobo mau). Como que para provo­
car medo no bebê. O bebê não se abala e continua a mamar. Gricha recomeça
sua m ímica agressiva e observa a reação no rosto da enfermeira. Ela responde a
esse olhar com muito acerto:
-A irmãzinha sabe que seu irmão mais velho é forte como um lobo, mas
ele não é mau de verdade. Ela não está com medo, está orgulhosa.
Gricha então empina o tronco, anda com grandes passadas pelo quarto e
depois se aproxima da irmã e quer segurar a mamadeira, para lhe dar de ma­
mar. Seu rosto está iluminado e a enfermeira deixa que ele o faça.
-Tinka bé (Katinka está bebendo). Mim é gande (eu sou grande).
Mas é para a mãe que olha ao segurar a mamadeira, à distância e com a
mão esquerda, ele que não é canhoto: está representando um personagem.
O incidente do lobo, entretanto, não está encerrado. Na manhã seguinte,
à mesma hora, os mesmos participantes se encontram no quarto. Quando a en­
fermeira se instala para dar a mamadeira, Gricha vagueia pelo quarto, cami­
nha até ela, torna a se afastar e, então, bruscamente, como na véspera, brinca
de lobo, aproximando-se muito do bebê.
A moça olha para mim e sorrimos. Será que Gricha nos viu? O bebê não se
altera, ocupado em mamar, com o braço esquerdo estendido e os dedos afasta­
dos, fora do colo da enfermeira. Então, mais depressa do que se poderia descre­
ver e sem uma palavra de alerta lúdico, Gricha morde o dedo indicador do be­
bê até sangrar. Katinka berra, a mamadeira cai e Gricha, apavorado, recua.
Olhando para baixo e com a cabeça baixa, ele espreita o bebê, a enfermeira e a
mamãe em sua cama; a mãe se levanta imediatamente, alarmada, e corre em di­
reção ao bebê. A enfermeira, muito surpresa, não diz uma palavra: o bebê sufo­
ca de tanto gritar. Olho para o dedinho arroxeado de Katinka, com as marcas
muito profundas dos dentes: sangra um pouco, mas não está tão mal. Volto-me
para Gricha, que faz beicinho, encolhido entre a parede e o berço, vou até ele e
o abraço. Trago-o para junto do bebê e digo, tanto à enfermeira quanto a ele:
- Gricha é um menino grande e muito, muito forte, que tem dentes que
mordem muito, muito forte. Katinka não tem dentes.
Enquanto isso, o bebê se acalmou e, embalado pela enfermeira, com lá­
grimas no canto dos olhos, volta a sugar avidamente sua mamadeira.
Gricha está todo "sem jeito"; olha para mim, triste, e olha para a enfer­
meira, de quem gosta muito; a mamãe lhe diz para olhar a mão de sua irmã­
zinha. Ele diz:
- Ela chola? Tem dodói neném Ka?
E refaz o beicinho, como que para chorar ele próprio.

96
A DINÂMI CA DAS PULSÕES . .

Respondo:
- Sim, a irmãzinha está com muito dodói. Gricha é muito forte e muito
grande, e ela é muito pequenininha, muito pequenininha. Katinka ama
Gricha.
- Oh, obo mau! - diz então Gricha, com ar convencido.
E eu:
- Sim, um lobo muito mau; ainda bem que ele foi embora!
E depois, dirigindo-me ao bebê:
- Acabou-se, Katinka; o lobo mau foi embora; Gricha é um irmão forte
e enxotou o lobo!
Como na véspera, quando, resserenado pelas palavras conciliadoras da en­
fermeira, ele desejara imitar o ato de dar a mamadeira, Gricha se aproxima do
bebê e se enternece com o dodói da mão.
- Não tem mais dodói?, inquieta-se.
- Não - diz a enfermeira, - está só um pouco marcado.
- Guicha irmão gande.
- Sim - diz a enfermeira.
- Guicha dá mamá.
- Sim.
Ele se coloca junto à enfermeira e, com ar muito atento, segura a ma­
madeira com a mão direita, olhando bem para o rosto que mama. Em seguida,
durante a higiene do bebê, percorre o quarto com grandes passadas, as mãos
atrás das costas (como vê seu avô fazer algumas vezes), o tronco ereto, a cabeça
erguida e, radiante, declara:
- Guicha é forte, Guicha irmão gande, Guicha deu mamá Katinka.
Já não a chama de "bebê Ka" nem de "Tinka" , mas pelo prenome de três
sílabas que toda a família dá à irmãzinha. Quando o pai chega na hora do al­
moço com o irmão mais velho, Jean, Gricha vai até ele, muito animado, e
narra em seu jargão o acontecimento da manhã, animadamente. O pai não
entende nada, é claro, mas o irmão mais velho capta muito bem a história e
a traduz para ele:
- Ele está contando que o lobo mordeu Katinka, que ela chorou e que
ele enxotou o lobo.
- Ah - diz papai, - muito bem. Não quero que o lobo coma a minha
Katinka.
E abraça Gricha, radiante, que o puxa pela mão até mamãe, pondo-se a
anunciar aos quatro ventos:
- Papai contente, obo embora. Obo mau!

97
NO JOGO DO DESEJO

Ocorre que nem mamãe, nem papai e nem a enfermeira estavam realmente
tranqüilizados! E estavam errados, pois, desde esse dia, Gricha tornou-se o mais
doce e mais confiável dos irmãos para sua irmãzinha.
Também desse dia data a regulação recuperada de seus esfíncteres. A não
ser pelas fezes na cama pela manhã, desaparecidas no quarto dia, o desregra­
mento do xixi e do cocó durante o dia durou menos de oito dias. Tudo corre
bem. Gricha volta a ser muito alegre, muito empreendedor, acrobático e brin­
calhão; seu vocabulário se desenvolve de maneira espetacular. Não mais se toma
pelo lobo, mas faz freqüentemente cabriolas, identificando-se com o cavalo bran­
co que pasta na campina vizinha, de preferência quando a família, reunida em
torno da irmãzinha, faz ohs! e ahs! ao ver seus primeiros sorrisos. Então, admi­
ramos o belo cavalo branco e Gricha, muito contente, vem reunir-se a papai e
mamãe e dizer suas palavras ao bebê, virando o rosto em sua direção:
- Olha, Katinka, Guicha irmão gande bonito dadá banco.
E a mamãe traduz a admiração da irmãzinha, para grande alegria de seu
irmão. O prazer de Gricha é sair com o avô ou o pai, de mãos dadas, para ir ver
o verdadeiro cavalo branco que pasta, vai, vem, faz cocó e corre pela campina.
Além do cavalo branco, Gricha tem duas outras distrações: vai à casa vizi­
nha ver os porcos no estábulo, espetáculo que ao mesmo tempo o fascina e as­
susta um pouco; e depois, mas infelizmente só nos dias úmidos, sai à procura
de caracóis. Arruma-os em coluna de dois, coloca-se diante deles e, com voz de
comando, exclama:
- Um! Dois! Cacóis! Guicha genelal cacóis, um! Dois!
Avança marcialmente, faz meia-volta e esmaga os que saem das fileiras,
contentando-se em repreender os outros. É desnecessário dizer que a tropa
não avança depressa e que, em pouco tempo, o "genelal" j á esmagou todos os
soldados.
Sem dúvida, não é irrelevante dizer que a palavra "cacol", que significa cara­
col para Gricha, foi muito valorizada para ele por uma moça que trabalhou para
mim e que se foi pouco depois das férias em que a irmãzinha nasceu. Ela dava o
nome de "caracol" ao pênis dos meninos, que Jean e Gricha chamavam de seu
"pipito", rindo entre eles porque Paulette chamava o pipito de caracol. Gricha
lhe dizia:
- Não, Paulette, pipito, cacol não.
Observe-se que Gricha não disse absolutamente nada sobre a ausência de
pênis em sua irmã. (Tinha 2 1 meses quando ela nasceu.) Foi Jean que, aos três
anos e meio, falou nisso, conhecendo bastante bem, há muito tempo, a dife­
rença sexual. Foi ele que, com dois anos e meio, no jardim de infância, quando

.98
A DI NÂMICA DAS PULSÕES . .

uma amiguinha lhe pediu para fazer pipi diante dela, satisfez-lhe muito galante­
mente a curiosidade e teve a surpresa de ver a pequena Agnes, inicialmente ad­
mirada, tomar-se de desespero e exclamar: "Mas, eu não tenho isso! Diz, quan­
do é que vai crescer?" Jean havia então respondido à menina, abraçando-a com
ternura: "Sabe, é porque você não tem que eu gosto de você: todas as meninas
são iguais, foi papai quem me disse. Os papais têm, mas as mamães, não, elas
são meninas". Ouvi essa história, que já datava de quase um ano, da professo­
ra do jardim de infância de Jean. Isso não impediu que, nos dias que se seguiram
ao nascimento de Katinka, Jean, assistindo à higiene da irmã antes da queda
do cordão umbilical, viesse dizer-me:
- Sabe, a minha irmãzinha tem um pipito!
- Ah, não me diga! - disse a mamãe divertida que eu era.
- É, sim, eu vi! Está no meio da barriga dela, lá onde eu tenho um bu-
raco. É sim, mamãe, eu garanto, Katinka tem um pipito! Sei que as meninas
não têm, mas a Katinka tem!
Foi o papai-doutor que lhe explicou as coisas, na manhã seguinte, na ho­
ra do banho. A história do cordão umbilical e da placenta o impressionou
muito.
Para mim, sua mãe, ele trouxe um lindo seixinho redondo, escolhido na
praia, que eu deveria conservar sobre meu ventre para curar minha bolsa de be­
bês, e acariciava o abdômen enfaixado da irmãzinha para ajudar na queda do
cordão anunciada por seu pai, apesar de um pouco decepcionado com o fato de
que a irmã "dele" não fosse uma exceção à lei natural. No primeiro banho da
irmã, quis ver com os próprios olhos o umbigo recém-cicatrizado, com um
olhar cúmplice dirigido ao pai.
Mas, voltemos a Gricha, que sofreu no coração e na carne o nascimento da
irmã, e que está no processo de superar essa prova. No vigésimo primeiro dia
de Katinka, ocorre um pequeno evento familiar: vamos dar banho no bebê. Ao
redor da tina, instalada sobre uma mesa, estão a enfermeira, o papai, a mamãe,
Jean, o irmão de três anos, a avó, o avô e a empregada, de quem Gricha é o fa­
vorito e, aliás, continuará a sê-lo. Gricha, no colo de Henriette, também quer
ver. Quando o bebê está dentro d'água, todo mundo sorri e se extasia de ad­
miração enternecida: vocês podem imaginar a cena . . . Já Gricha, com ar abor­
recido, desvia-se ostensivamente do espetáculo e, como se estivesse com um tor­
cicolo6, recusa-se a virar a cabeça em minha direção quando o chamo:
- Não, té não (não, eu não quero).

6 Aproximando-se da mímica de Jean quando da primeira mamada de Gricha no seio da mãe.

99
NO JOGO DO DESEJO

Mostra a porta e diz:


-M'imbora (vou-me embora).
Mas a empregada não quer; Henriette, a sua Henriette, exclama:
-Mas, olhe como é pequenina a sua irmãzinha, veja como é bonita!
Gricha, sempre em seu colo, começa então a escoicear, grita, bate nela com
todas as suas forças:
-Não ola não, não é monita, não monita Tinka7 (não quero olhar, ela
não é bonita).
Segue-se um capricho de extrema violência. Na noite seguinte, ele volta
a fazer cocó na cama, como nos primeiros dias. Esse acidente, felizmente, foi o
último e não teve continuação.
A partir do momento em que Gricha começa a se interessar pela irmãzi­
nha de maneira positiva, a exemplo de seu irmão e dos adultos, leva todos os
objetos que associa com ela para seu berço: mamadeiras, talco, escova, pente,
etc., tudo jogado por sobre a borda do berço, inclusive na cabeça do bebê. Quer
que todo mundo tenha consigo aquilo que lhe pertence. Sua irmã está com um
mês. Gricha parece havê-la adotado sem constrangimento, apresentando tam­
bém um comportamento idêntico ao do irmão mais velho, qualquer que fosse
a atitude deste.
Chega a volta às aulas. Jean vai à escola, para grande desespero de Gricha.
A prostração e as reações de oposição se alternam durante três dias. Ele quer ir
à escola também. A professora de Jean não pode aceitá-lo, porque ele é pequeno
demais. Certa manhã, ao acordar, ele pede que lhe ponham fraldas como na ir­
mãzinha e que seja novamente deitado em sua cama, o que se repete por vários
dias seguidos. Concordo. Para minha grande surpresa, ele fica muito feliz por
estar assim e agita os braços e pernas como um recém-nascido, imitando a mími­
ca de um débil mental, com a língua meio para fora e um ar abobalhado. Diz,
muito orgulhoso de si:
-Mim como Tati (sou como a Katy).
Quer que eu fique perto dele, só eu e mais ninguém, o que não é possível.
Observo-lhe que tampouco fico perto do berço da irmãzinha. Prometo vir vê-lo
entre meus compromissos. São nove e meia da manhã. Ele prefere permanecer
assim por quase uma hora. Depois disso, dizem-me que está me chamando. Vou
vê-lo. Ele diz em tom monótono, numa cantilena escandida8, "Mamãe, mamãe",

7 De início, ela fora Ka, e depois Katinka, mas, na cólera de Gricha, tornava-se Tinka.
8 Uma cantilena em dois tempos. Pelas análises de adultos e pelas observações de crianças, o ritmo concorda com
as pulsões internas.

1 00
A DI NÂMICA DAS PULSÕES . .

com voz sem colorido; mostra-se passivamente satisfeito em me ver e em se deixar


afagar. Proponho-lhe que saia da cama, mas ele se recusa. Como não posso ficar
mais do que alguns minutos, ofereço-lhe um álbum de figuras, que ele recusa.
A mesma manobra. Torna a me chamar ao cabo de meia hora, com o mesmo
tom. Certamente está ficando entediado, e vou até lá. São dez e meia da manhã.
Ele se expressa muito mal e, com grande dificuldade, compreendo que está pedin­
do uma mamadeira. Entrego-a e me ofereço alegremente para levantá-lo. Ele se
recusa e retoma sua posição deitada, com o bumbum ainda envolto em fraldas,
como uma criança muito pequena. E assim vai até as onze e meia. Às onze e
meia, encontro-o assemelhando-se ainda mais a um lactente, e ele emite
monossílabos. Chora e está molhado. Quando o sento em sua cama, diz:
-Não pode.
e torna a cair.
-Mim Tati (sou a Katy).
Decido então ir em seu auxílio, caso contrário ele se enterrará numa re­
gressão que, já agora, não mais o deixa orgulhoso (como no princípio), mas pe­
sa sobre ele, pelo estado de impotência em que caiu. Afago-o, abraçando-o em
sua cama e dizendo, "minha boa e pequenina Katinka". Ele volta a se assere­
nar. Torno a me levantar, dirijo-me até a porta e, voltando com um ar jovial,
fazendo de conta que não o vejo e apalpando-o, digo:
-Onde está ele, o meu garotão? A Katinka eu estou vendo, mas, onde
está Gricha? Onde está o meu grande Gricha?
Então, iluminado, tendo recuperado todo seu dinamismo, põe-se de pé
num salto em sua cama:
-Ati mim (olha eu aqui).
Estendo-lhe os braços. Ele se precipita para mim, pleno de exuberância.
Continuo a brincadeira, dizendo:
-Que travessa, essa irmãzinha! Ande, vá para seu berço, saia da cama de
Gricha! Você é pequena demais para estar nessa cama grande.
E Gricha ri com prazer. O restante do dia mostra que, durante essa ma­
nhã de regressão e de identificação com a caçula, da qual ele se libertou em
seguida, Gricha deu um salto em sua evolução. Entretanto, essa manhã deixou
vestígios numa leve gagueira.
A partir desse dia, ele se ocupa muito bem sozinho enquanto o irmão es­
tá na escola, e gosta de ajudar nas tarefas domésticas; também desse dia data
seu gosto animado pelos livros ilustrados, até então ignorados. E -fato im­
portante - ele descobre o famoso bebê de celulóide que tinha servido a seu ir­
mão quando de seu próprio nascimento e que, desde aquela época, ficara mais

101
NO JOGO DO DESEJO

ou menos relegado a um canto. Enquanto a irmãzinha estava fora do berço,


Gricha ali colocava "seu bebê", cobria-o e, trazendo uma cadeira, ninava o be­
bê, cantando. Quando voltávamos a levar a irmã para o berço, o bebê de celulóide
perdia para ele parte do interesse e era a irmã que ele embalava, com ou sem o
bonequinho de celulóide, ao qual chamava "meu bebê" ou "Guicha pequeno".
Quanto a ele mesmo, como dizia exibindo a barriga, ele era o "Guicha gande".
(O bebê não recebera o nome de Katinka.) Esse Guicha-já-crescido precisava
identificar-se, em todos os seus enunciados, feitos e gestos, com Jean. Sua agres­
sividade amorosa em relação ao irmão mais velho era muito nítida, e este às
vezes protestava em voz.,alta:
- Puxa, Guicha, me deixa em paz! Eu não posso mais fazer nada. Você
pega tudo com que estou brincando e você nem brinca! - E era verdade. Quando
o irmão mais velho cedia, Gricha, satisfeito por um segundo, começava ime­
diatamente a sofrer, pois Jean se ocupava com outra coisa e isso passava a ser o
que o atraía.
A leve gagueira de Gricha ainda se mantinha quando a irmãzinha esta­
va com cinco meses. Tive, nessa época, a oportunidade de estar constantemente
com meus filhos, já que uma coqueluche dos três havia aconselhado uma tem­
porada ao ar livre. A rivalidade de Gricha com Jean continuava tal como a des­
crevi. Os dois maiores estavam todo o tempo juntos. Isso às vezes levava a ce­
nas cômicas. De manhã, o banho de bacia! Gricha se precipitava para ser o
primeiro, já que sua situação familiar de segundo filho dava-lhe o desejo de
ser o primeiro em todas as atividades em que cada um tivesse sua vez. Passados
alguns dias, vendo que Jean não competia por esse lugar de primeiro, ele quis
esperar, como fazia o irmãc. Então, decidi começar por Jean. Desespero de
Gricha. Quando Jean era o primeiro, ele queria sê-lo, e quando Jean era o se­
gundo, queria sê-lo também. De modo que, para sair do impasse que ele cria­
va e que nos fazia rir, decidimos não mais falar em turnos, como primeiro e
segundo, mas em antes e depois, já que esses dois qualificativos no tempo não
lhe pareciam comportar superioridade nem inferioridade. Diga-se de passa­
gem que esse é um sistema a ser preservado e que foi inventado pelo próprio
Gricha. (Primeiro e segundo é absoluto. Antes e depois é relativo.)
Não houve mais problemas no que dizia respeito à irmã. Ela fora defini­
tivamente adotada; cuidar dela e interessar-se por ela era muito divertido, e já
não suscitava a tentação da regressão. Mas o problema continuava a ser a riva­
lidade com Jean. Por essa vida constante a dois, Gricha fazia grandes progres­
sos através da identificação com Jean, mas também gaguejava cada vez mais.
Jean fazia coisas arriscadas: trepava nos parapeitos, carregava o leite, punha-se

102
A DINAMICA DAS PULSÕES..

de pé em movimento no carrinho de crianças de dois lugares, escalava rochas.


Gricha tentava imitá-lo. Quando Jean, por prudência(?), queria opor-se a is­
so, Gricha gritava de raiva ou chorava de desespero. Mamãe era chamada. Eu
dizia que Gricha tinha todo o direito de fazer as mesmas coisas que Jean, se
pudesse. Mas o pobre Gricha, após as estréias excitantes que o colocavam em
sensação de perigo, pedia socorro e desistia. Essa renúncia, imposta pela reali­
,dade a uma necessidade inconsciente de compensação, era muito dura, e cada
um desses fracassos o deixava mais gago. Recusava-se a ser consolado. Através
desses incidentes, que colocavam o grupo na obrigação de observar seu com­
portamento ruidoso, desesperado e enraivecido, e portanto, de reconhecê-lo(e
que, ao mesmo tempo, tendiam a frustrar a mãe em seu poder de consolá-lo),
o que ele buscava era, por um lado, gastar sua energia de forma agressiva e, por
outro, compensar uma frustração de fracasso. Em suma, a situação era difícil.
Um noite, Gricha ficou quase mudo com a gagueira, a tal ponto que me
perguntei se aquilo iria piorar. Teve duas reações de compensação e de agres­
sividade, reunidas no plano digestivo, que malograram. Visivelmente, estava
procurando fazer eclodir uma cena libertária, mas com sentimentos de culpa que
faziam malograr a libertação esperada. Fazia alguns dias que, depois de me ou­
vir dizer à empregada que estávamos "apertadas de açúcar" para o final de nos­
sa temporada9, ele havia começado a querer comer açúcar no café da manhã; e,
como eu lhe opunha resistência docemente, ficava um pouco mais embirrado a
cada vez. Estávamos nesse ponto na noite da gagueira forte. No dia segui11te, no
café da manhã, Gricha serviu-se de dois torrões de açúcar, como de hábito, e me
pediu outro. Atendi-o.
-Mais um.
-Prove primeiro e, se você quiser, vamos ver.
Sem provar e partindo para o ataque, ele começou a chorar, depois a se
enfurecer, depois a chorar de novo, vencido e desesperado. Decidi-me e lhe
disse:
- Bom, está bem, se você acha que vai ser melhor assim, pegue tudo o
que precisar para que o café com leite fique bom.
Ele pegou um, depois dois, três, quatro, e depois cinco torrões de açúcar,
e colocou todos em sua caneca de uma vez. Tornou a pegar mais um, olhando
para mim. Não lhe dei atenção. Jean e a empregada fizeram o mesmo que eu.
Ele mexeu seu café, entornando a metade, e provou:
- Está bom -declarou, - muito bom.

9 Era início de 1947; ainda estávamos numa época de restrições e de cartões de alimentação.

103
NO JOGO DO DESEJO

Disse-lhe então:
- Coitadinho do Gricha, que a mamãe malvada está sempre privando.
Hoje, Gricha está contente: tem um café gostoso, e tanto pior para os outros.
Mas Gricha não estava contente. Não tinha conseguido criar o incidente,
e o café enjoativo foi abandonado logo depois de provado, sem que se dissesse
uma palavra. Na refeição do meio-dia, Gricha sentou-se no lugar da mãe. Deixei
que o fizesse, mas não ocupei seu lugar: instalei-me QUm lugar até então de­
socupado. Nenhum incidente. À noite, ele se sentou �m seu lugar de hábito,
mas com uma expressão sombria no rosto. Empurrou a sopa.
-Você não quer?
-Não.
Retirei-a dele. Chegou o prato seguinte.
-Tô sem fome.
Não lhe dei o prato. E, de repente:
-Mim quer a sopa.
Infelizmente, não havia mais sopa, mas o restante da refeição estava
disponível (cabe notar que, habitualmente, como muitas crianças, Gricha não
gosta muito de sopa). Então, irrupção do capricho: raiva, pontapés sob a mesa.
Conduzi-o até o quarto ao lado; ele deu sonoros pontapés na porta. Reabri­
lhe a porta e voltei para a mesa. Ele não ousou retornar. Falei à meia-voz:
-Não temos mais sopa, mas ainda há muito o que comer. Vou deixar o
Gricha voltar, se ele largar o gorila que não estava mais com fome e que esta­
va batendo em tudo no quarto.
Gricha, que estava faminto, aproveitou o convite, depois de uma peque­
na hesitação, e veio sentar-se outra vez à mesa. Nenhuma sanção. Mas, depois
do jantar, eu trouxe Gricha para perto de mim.
-Você ficou triste, meu bom menino, porque o gorila disse a Gricha que
a mamãe não gosta do Gricha, que a mamãe gosta do Jean. O gorila disse: Jean
é mau e mamãe é má. Coitadinho do Gricha! É verdade, Jean tem sorte em ser
grande.
Gricha se apiedou de si mesmo até as lágrimas. Continuei:
- A mamãe foi pequena e cresceu. Papai também. Todas as pessoas
grandes primeiro são pequenas. Os gorilas são bobos. Eles acham que são es­
pertos porque são fortes. O gorila que só diz coisas ruins, será que ele é forte?
- Ah, é sim! - respondeu Gricha.
- Você também precisa ser forte - disse-lhe. - Mostre-me como
você vai fazer pou-pou nele. (Gricha me bateu um pouco.) Mais forte, mais
forte!

104
A DINÂMICA DAS PULSÕES ...

Brincamos, e mamãe era o gorila. Eu dizia "ai, ai!" com voz disfarçada e,
ao mesmo tempo, felicitava Gricha com minha voz natural. Disse-lhe: "Bata
com mais força". Gricha ria muito. Jean não estava nada satisfeito por Gricha
me bater. Quis intrometer-se. Eu lhe disse: "Não, Jean, é o gorila de Gricha.
Ele se escondeu na mamãe", e ri, batendo em Jean por minha vez. Gricha esta­
va radiante. Chegou a empregada, que também entrou na brincadeira. Sugeri
que o gorila tinha escapado de mim; estava numa cortina, e depois nas roupas
de Jean, que foram linchadas; e deixei que a brincadeira prosseguisse entre as
crianças. Quando elas estavam cansadas de rir e de bater em tudo, fiz uma vo­
zinha disfarçada de gorila:
-Ora, eu quero tudo para mim, e nada para Jean, nada para Gricha, na-
da para Katy, nada para ninguém.
Retomei minha voz normal e respondi:
- Pode deixar, gorila, você vai ter os pou-pous de todo mundo.
As crianças vieram novamente me bater, rindo. Paramos, ofegantes. Gricha
quase não gaguejava mais. Estava vermelho de prazer e relaxado.
No dia seguinte, um menininho um ano mais velho que Jean veio brin­
car com as duas crianças e, dessa vez, foi Jean que - justo retorno das coisas
-ficou diminuído em relação ao amiguinho. Este, filho único, adotou Gricha
- ou será que se deu o inverso 1 Gricha estava todo contente. Talvez isso te-
nha sido, para ele, a conscientização de uma visão mais exata de Jean. Sua su­
perioridade já não era absoluta, pois Serge era mais capaz do que Jean em nu­
merosas provas musculares, entre outras, no balanço. Gricha viu que Jean não
ficou enciumado dessa superioridade de seu amigo prestigioso - ao contrário,
admirou-o - nem da amizade de Gricha por ele. E Gricha saiu desse dia com­
partilhado a três definitiva e completamente curado de sua gagueira. Ganhou,
de um dia para o outro, o uso corrente do passado simples, do imperfeito, do
futuro simples e do futuro do auxiliar ir 1º.

Estudo psicanalítico dessas observações e elaboração de uma nova


hipótese
Dessas três observações de crianças, que manifestaram aquilo a que gros­
seiramente chamamos ciúme e despeito, a segunda - a de Robert - nos
mostra um caso patologizado em função do intervencionismo dos adultos, que
queriam erroneamente impor ao irmão mais velho um comportamento social
de amor positivo, antes de haverem permitido a sua personalidade integrar,

10 Em seu uso na língua francesa, é claro. (N.T.)

105
NO JOGO DO DESEJO

sem perigo para seu equilíbrio, a noção afetiva de irmão. Além disso, quando
cotejamos duas das observações, de Jean e de Gricha (salvo no que concerne,
quanto a este, à questão da diferença entre os sexos), observamos semelhanças
profundas de reação, ao mesmo tempo em que diferenças na intensidade e na
rapidez do processo.
Até o presente, colocamos a ênfase sobretudo no ciúme devido à frustração
diante da mãe. O irmão mais velho, sentido-se destronado, não aceitaria um
sucessor, a quem consideraria como um intruso indesejável. Sem dúvida, esse
sentimento pode estar em jogo, mas não sem mediação, talvez. Por outro lado,
vi casos em que a criança absolutamente não fora destronada, porque, de qual­
quer modo, a mãe cuidava pouco dos filhos: o mais velho ficava com a empre­
gada toda para si, enquanto o recém-nascido era colocado aos cuidados de uma
enfermeira. Ora, as reações eram da mesma ordem. Dizem também que a de­
cepção de não encontrar um companheiro de brincadeiras de sua idade explica
o comportamento do mais velho em relação ao menor. Isso não é exato: a cri­
ança sabe muito bem, por instinto, que o bebê nasce pequenino, e não espera
por outra coisa (mesmo nos casos em que o adulto lhe falseia as idéias). Mas a
idéia de um bebê, ou sua representação em imagem (visual, sonora, táctil, etc.),
e o fato experimental e atual de sua presença real, viva e carnal, no espaço da
vida cotidiana, são duas coisas totalmente diferentes.
Preferimos partir da descoberta de Freud: a libido está ligada ao princí­
pio do prazer; é como se cada ser humano, desde o dia de sua concepção, es­
tivesse fadado ao desabrochamento de suas virtualidades genéticas, ou seja, co­
mo se o conjunto de suas forças de atração e repulsa visasse continuamente
- esse é o próprio sentido do desabrochamento - sua expansão. Em cada um
de nós, uma sensação de bem-estar, de prazer biológico (fisiológico e psi­
cológico), estaria ligada ao fato de existirmos e de nos sentirmos agir de
maneira favorável ao desabrochar de nossa experiência, ao passo que, sime­
tricamente, um mal-estar e um desprazer natural se manifestariam ao sentir­
mos que nossas ações estão em oposição às leis naturais da vida, do cresci­
mento, do desenvolvimento e da fecundidade. Caminhemos mais um passo
com Freud: é naquilo que é sentido como bem-estar biopsicológico, próprio
e inconsciente, que se enraíza o narcisismo primário: "sentido libidinal" in­
consciente, instintivo e inefável, que marca, para cada ser vivo, aquilo que es­
tá em harmonia com sua evolução autônoma, segundo seu capital genético.
Algo comparável ao que é, em sua ordem, a inteligência da planta no germe
fecundado, impelindo-o à realização do ciclo completo: crescimento, ma­
turidade, fecundidade, envelhecimento e morte (poderíamos dizer: "o senti-

106
A DINÂMICA DAS PULSÕES.

do do ir-se tornando na índole de seu sexo11 "). Tudo aquilo que, vindo do in­
terior ou do exterior, fosse conveniente a esse sentido seria vivenciado como
biodinâmico e desejável; tudo o que fosse estranho a esse sentido, sem opor­
se a ele, seria experimentado como biostático e neutro, sem satisfação; tudo
o que tendesse a se opor a esse sentido seria experimentado como impelindo
à involução, e desencadearia no sujeito, lutando então por sua vida, uma agres­
�ividade defensiva, dirigida contra o agente involutivo. Este último proces­
so seria de molde a mobilizar todas as forças instintivas, a ponto de poder
conduzir ao definhamento, à esterilidade e à morte, não sendo a morte em
questão a morte "invocada", como aquela que acalma os instintos de morte
após a realização do desejo, mas a morte como conseqüência de uma utiliza­
ção total das forças disponíveis, até o esgotamento da energia libidinal, colo­
cada, no caso, a serviço da proteção narcísica.
Ora, um processo psicológico primitivo faz com que o ser humano se iden­
tifique com o meio que o cerca. O primeiro tipo de amor é o amor-identificação:
ser, ter e fazer como o adulto tutelar e modelo, o que conduz a sua introjeção.
Até o nascimento de alguém mais novo, a criança nunca teve que sentir em si,
no perímetro de seu território-segurança, o mal-estar de precisar acolher a per­
cepção de uma outra forma humana menos evoluída que ela. Igualmente, iden­
tificar-se com um objeto de atenção e de amor nunca foi sentido por ela como
um entrave biodinâmico. E, na medida em que os adultos não tenham obstruí­
do sua expressão no mundo digestivo ou motor, ela nunca terá experimentado
um conflito entre sua atitude positiva em relação a eles e a sensação do que é,
para ela, um bem-estar evolutivo, como o "ir-se tornando na índole sexuada de
seu crescimento".
Quando aparece pela primeira vez no campo de sua afetividade alguém
mais novo que ela, e quando a criança se mostra positiva diante dele (como Jean,
no início), essa tomada de contato acarreta necessariamente uma identificação,
ou antes, um movimento interior, uma tentação de participação; esta irá ne­
cessariamente sublimar-se no modo libidinal da amância11 oral, modo frag­
mentário de incorporação-introjeção que, quando se trata de adultos, mantém
o narcisismo no sentido da progressão, mas que, nesse caso, leva o irmão mais
velho a uma identificação percebida como um perigo de involução. O sentido
libidinal biodinâmico, ao ser assim contrariado, desencadeia imediatamente um
mecanismo de defesa que, em estado puro, caso os adultos não intervenham,

11 Até a morte.
12 No original, ainzance, em contraposição a amottr, cf. cap. 10. (N. T.)

107
NO JOGO DO DESEJO

não é agressivo, mas neutro, e que constitui uma tentativa de ignorar o perigo,
evitando a consideração e o interesse por essa intrusão enigmática.
Isso explicaria o olhar perdido de Gricha, seus ouvidos ensurdecidos, seu
aninhamento junto à mãe, numa atitude siderada e ausente, e o desregramen­
to dos ritmos digestivos (o sentido peristáltico do funcionamento digestivo
pode ser invertido, com o aparecimento de vômitos, ou ter apenas seu ritmo al­
terado, com inapetência ou bulimia, constipação ou diarréia).
Do mesmo modo, a dose de atenção positiva dada desde o início por Jean
ao bebê, consecutivamente a sua identificação com os comportamentos dos adul­
tos (e sobretudo da mãe) em relação ao bebê, é que teria provocado nele uma
regressão involutiva violenta, uma perda do tônus muscular, um estado sub­
delirante de confusão mental e uma recusa dolorosa a ver, pensar e escutar (do­
lorosa pela força destinada a neutralizar, nos próprios lugares de sua penetração,
as emoções de efeito mimético involutivo). Essa neutralização (ou "esco­
tomização"), esse bloqueio dos sentidos que visa a torná-los impermeáveis ao
que seria prejudicial ao sujeito, parece-me objetivar-se perfeitamente num traço:
a criança mais velha evita olhar para o bebê real, sem por isso desinteressar-se
dele em pensamento. O visível prazer e a clara curiosidade no rosto da criança
mais velha, quando, ao olhar os adultos, consegue identificar-se com eles na
atenção deles para com o bebê, prova perfeitamente que não é a idéia do bebê
que é nefasta, mas sim a percepção direta, visual, auditiva e táctil de sua rea­
lidade carnal; em suma, a fusão da imagem real do bebê, representado como in­
capaz de certos movimentos, com a imagem inconsciente do corpo da criança
maior, esta sim, capaz desses movimentos, tanto em sua imagem estática de si
mesma, continente e que se mantém de pé, quanto em sua imagem funcional
dinâmica, cinestesicamente senhora do espaço. Ora, é essa mesma imagem in­
consciente do corpo que, ligada aos fonemas do nome, presentifica para a cri­
ança seu narcisismo do "ir-se tornando na índole de seu sexo".
A criança sofre então, pela primeira vez, a experiência da tentação deses­
truturadora. Identificar-se com todos os seres humanos de seu ambiente sem­
pre foi um prazer, e ela se lançou nessa experiência sem temor. Mas eis que -
oh, surpresa! - a brincadeira é perigosa 13 • A criança sente-se fascinada, cap­
tada, arrebatada por uma imagem involuída de si, que a devora e a dissocia de

l3 Note-se que um bebê cujo corpo está em funcionamento, mamando ou defecando, é olhável pelo irmão mais
velho com menos perigo. É uma imagem dinâmica, em termos polares e erógenos; é justamente por isso que
a criança já continente e capaz de comer sozinha torna-se incontinente e volta, com freqüência, a um estilo
de alimentação ultrapassado. Esse mimetismo é (inconscientemente) valorizado a seus olhos - porquanto o
bebê é um valor para os pais.

108
A DINÂMICA DAS PULSÕES . .

sua imagem do corpo, fazendo-a perder suas aquisições e até mesmo seu "sen­
tir" (seu sensório, como diria Pichon); ela "se esquece de si", "desconhece­
se" , e esses primeiros sintomas são o sinal de uma defesa vital narcísica, de
um compromisso dolorosamente sustentado entre as pulsões de vida ativas,
sendo que todas as percepções sensoriais investidas por essas pulsões fecham­
se para o perigo, e as pulsões de morte, que vêm em socorro das pulsões de
vida passivas, para reforçar a inércia da imagem inconsciente do corpo. Resta
então, como última defesa, a coisa do próprio corpo, que é absolutamente
necessário preservar de um gozo involucivo, que arriscaria arrastar a criança
para o masoqmsmo.
Que há em comllill nessas três crianças, portanto, no comportamento reati­
vo que nos mostram nossas observações típicas?
A criança em perigo biopsicológico fica infeliz, na exata medida em que
ela ama da maneira que até então lhe foi própria, ou seja, no absoluto. Se amar
é desejar "ser o outro" ou "tê-lo para si", ou ainda "fazer como ele", o encontro
com o recém-nascido traz, no plano das ressonâncias vitais imediatas, um ab­
surdo biológico, um contra-senso em relação à evolução. Várias conseqüências
decorrem daí, todas traduzindo a luta pelo direito de viver, talvez larvarmente,
mas pelo menos recusando uma introjeção que é sentida como dissolvente, de­
sestruturante, desimajante e esterilizante. Existem, a um tempo, a defesa pas­
siva e a defesa ativa - mas as manifestações desses dois tipos de proteção são
sempre mal-interpretadas pelo adulto a quem elas causam ansiedade. O adul­
to dá uma significação intencional, de ordem moral, a reações de hostilidade
que, entretanto, são sadias enquanto a dissociação não tiver sido compreendi­
da, ou seja, enquanto as pulsões em jogo não tiverem sido sublimadas e sim­
bolizadas pelo sujeito, que então compreende que "amar" e "identificar-se com"
não são fatalmente sinônimos. Ser positivo no contato afetivo, mas sem correr o
risco da perda energética - eis aí o problema a ser resolvido, e que aliás só o
será depois do Édipo, e mesmo assim não em sua totalidade 14 • Essa etapa es­
truturante, dita do ciúme, é inevitável, e é o sinal da inteligência da criança di­
ante de uma experiência nova. Conforme a criança, ela é mais ou menos es­
petacular. Pode-se afirmar que, quanto mais é vivida com intensidade (sem
acarretar reações perturbadoras por parte dos adultos), mais assistimos, em
seguida, à eclosão de uma personalidade potente e dotada de adaptabilidade.
Durante esse período, a criança tem necessidade de uma compreensão afetuosa

1 4 Observe-se que esse problema é o fermenco fundamental das rivalidades dinâmicas individuais, grupais e,
sem dúvida, também coletivas , como a lura de classes.

1 09
NO JOGO DO DESEJO

e discreta; é preciso, sobretudo, que os adultos não modifiquem em nada seu


comportamento em relação ao bebê, mesmo que esse comportamento cause
sofrimento ao filho mais velho, pois ele também preserva a diferença estrutu­
rante entre a dita criança e o adulto, que assim dá a contemplar uma imagem
de ser humano acabado, fora dos perigos da involução.
Essa associação ou essa clivagem entre o amor e a identificação-introjeção,
aliás, se dá por si só, após um tempo mais ou menos prolongado de perturbação
caracterológica e psicossomática. E, quando a criança é assistida, compreendi­
da e amada no decurso de seu processo regulador autônomo, o saldo só pode ser
positivo, após uma fase em que o comportamento caracterológico, sensorial e
motor traduz um encaminhamento penoso entre Caribde e Cila - Caribde: a
identificação com a mãe nutriz, que faz com que o mais velho sinta emoções
revoltosas em relação a sua natureza (o choque e a gagueira de Jean diante do
fato, antifisiológico para uma criança, e mais ainda para um menino, de sentir­
se comido, como o é a mãe pelo bebê; em Gricha, a humilhação de tentar em
vão dar à luz um bebê em sua cama, defecando ao acordar, como tudo o levava
a crer que sua mamãe tinha feito para trazer Katinka à luz); e Cila: a identifi­
cação com o lactente, com a agressão involutiva que essa identificação acarreta
(o abalo do tabu da antropofagia, tabu este que, por intermédio da mordida
castradora simbólica, é o fruto do desmame no pré-supereu). A criança repu­
dia, passiva e ativamente, o que vem de uma e da outra, esperando que, com a
ajuda de seu crescimento, a tensão biopsicológica lhe permita resolver o dile­
ma. Daí decorre, nos casos favoráveis, a liberação da autonomia do comporta­
mento, com seu corolário funcional: o sentido do relativo, correção do absolu­
to em que a criança vivera até então.
Essa mutação libidinal constitui o esboço da sublimação das pulsões eróti­
cas orais e anais. Vemos muito bem, nas três crianças, a aquisição do desem­
baraço numa situação a três' 5 (social, dialética e gramaticalmente), em substi­
tuição a uma situação a dois. E quando esse desembaraço ocorre na situação a
três, substituindo a situação a dois, o sentido da família e da sociedade nasce para
o sujeito. Isso foi típico em Robert e em Jean. Quando não se está internamente
impedido de pensar, de agir, de viver e de falar como os outros com quem se co-

1 5 Não se craca ainda da situação a crês pessoas, que caracterizará a situação edipiana; craca-se de uma situação
de crês centros disrinros de pulsões orais e anais, submetidas a sua ordem própria de desejo na escolha do ob­
jeto parcial transitório, necessário à realização libidinal. (Quando o objeto parcial é assimilável após o con­
sumo-despedaçamento, trazendo, por seu acréscimo ao corpo, a manutenção da vida, ele é o objeto oral. Quando
o objeto parcial é não-assimilável ou inútil, ou excessivo para ser guardado em si ou ao redor de si, e portan­
to para ser expulso ou rejeitado para fora de seu espaço, trata-se do objeto anal.)

1 10
A DINÂMICA DAS PULSÕES . . .

opera, podem-se manter relações sociais positivas sem ambivalência. Pode-se


ainda não ter tido nenhuma relação afetiva com seres humanos mais velhos ou
mais novos e, quando eles chegam até o sujeito, não lhes temer a aproximação.
As relações sociais são então comandadas pela necessidade que temos de viver e
de agir, ou seja, de trocar palavras, gestos e objetos parciais, em vista de nossas
leis internas de evolução. Há uma cooperação a dois e uma cooperação a três ou
a muitos. A recusa agressiva a priori dos outros desaparece, pois já não é preciso
defender a integridade da imagem do corpo. Cada um se sente forte por suas
próprias forças e caminha no sentido que sente como sadio para si. Se os outros
vão utilizar caminhos diferentes ou os mesmos, é problema deles. O sujeito se
sente livre e deixa os outros livres. É tudo isso que permite adquirir a experiên­
cia biopsíquica em que consiste, para cada um de nós, a emoção do amor por al­
guém menor, menos evoluído, menos dotado ou menos potente do que nós, e,
por extensão, por alguém diferente em tamanho, forma, dinâmica e desejos.
Essa experiência é necessária à assunção da noção do "outro" e, cedo ou
tarde, todo ser humano depara com ela em seu caminho. A chegada de um ir­
mão mais novo permite vivê-la enquanto é cedo, e dela sair liberado da neces­
sidade do absoluto nas relações sociais. Não cabe ao meio educativo senão deixar
a criança aceder a essa libertação interior, à autonomia de seu comportamento.
Um dos interesses dessa hipótese é que ela permite compreender as re­
lações entre o narcisismo e o sentido social. Se Robert tomasse o rumo da per­
versão ou de uma grave neurose narcísica, seria porque a perturbação de sua
confiança nos adultos parentais teria minado as bases dos componentes princi­
pais do Édipo, que não mais poderiam instaurar-se. A angústia de castração -
transformada em angústia de mutilação e de involução - atuaria sobre o nar­
cisismo primário sem relação com o Édipo, isto é, com a valorização genital do
pai e da mãe. Estando ainda muito perto da origem dos distúrbios, algumas
medidas psicológicas simples puderam salvá-lo. Mais tarde, ele teria necessita­
do de um longo tratamento analítico.

Conseqüências ulteriores do ciúme no nascimento do irmão mais


novo: sua interferência no Édipo
Na clínica infantil, constatamos que todas as crianças ditas normais rea­
presentam ou já apresentaram - quando aqueles que as cercam conseguem
lembrar-se dos fatos - sintomas caracterológicos ou psicossomáticos mais ou
menos graves, coincidindo (mas, na maioria das vezes, os sintomas são julga­
dos sem relação com o acontecimento) com o nascimento de um irmão mais
novo; e essas reações são sempre da ordem das que foram descritas aqui.

111
NO JOGO DO DESEJO

A ausência total de reação negativa aparente é tão ou mais grave do que


as grandes perturbações espetaculares. Ela é sempre o sinal de uma anulação
emocional que marca o início de uma reação obsessiva, ou mesmo o início de
uma reação de dissociação.
Na clínica pedopsiquiátrica e psiquiátrica, constatamos, ao aprofundar a
anamnese, que, na maioria das neuroses, as primeiras descompensações crôni­
cas surgiram alguns meses após a primeira "ocasião" de ciúme em relação a uma
criança menor, que se intromete no trio formado pelo pai, a mãe e a criança, ou
seja, no núcleo primário de estruturação. Esse ciúme, muito freqüentemente,
não é manifestado ou se manifesta numa inversão, isto é, numa atitude es­
petacularmente positiva, que, infelizmente, encanta os pais. É no momento do
desmame, da marcha ou da aquisição da fala (inteligência manifesta) do mais
novo - aparentemente amado - que se manifesta a neurose do mais velho:
ciúme ignorado que eclode em aflição, ódio, sofrimento e fracasso: por exem­
plo, quando o menorzinho entra na mesma escola que o mais velho, ou quan­
do o caçula tem um sucesso social ou amoroso.
Nas reações de ciúme de que falamos aqui, não vimos claramente o pa­
pel do ciúme em relação ao irmão mais novo numa estruturação edipiana em
vias de elaboração. É que, nas observações citadas, nenhuma das crianças havia
atingido a idade de três anos. É preciso saber - e nós o constatamos cotidia­
namente - que todo ser vivo (e, com mais razão, humano) valorizado pela
mãe, pelo pai e pelos outros adultos, sobretudo os adultos do mesmo sexo,
assume, aos olhos da criança mais velha, o valor de objeto de desejo libidinal
para o adulto-modelo em questão (suporte da imagem ideal de si para a cri­
ança). A criança interpreta esse desejo do adulto a partir do estágio libidinal
em que ela própria se encontra efetivamente, misturado com o desejo do es­
tágio seguinte, do qual ela tem intuitivamente a noção (sentido libidinal de
que o desejo visa ao inatingível falo simbólico). Para ela, portanto, esse de­
sejo está relacionado com o erotismo oral e anal: o bebê é um belo alimento,
o bebê é um belo excremento, o bebê é um fetiche precioso do objeto com­
plementar do desejo, tal como a criança o representa para si nesse momento.
Se, para o adulto, por sua presença, o bebê é fonte de alegria e de pleni­
tude afetiva (por sublimação emocional da libido oral), esse bebê é o modelo a
ser amado que se propõe à criança mais velha. Ele, o adulto, modelo do amante
e guia do bem-viver, gosta dessa insólita criatura sem dentes, que não fala.
Portanto, também eu devo amá-la, diz-se a criança mais velha.
Ora, até o aparecimento desse bebê no casal parental e na família, o rival
amado era sempre um irmão ou irmã mais velhos, ou um adulto; e, no caso de

112
A DINÂMICA DAS PULSÕES..

pais sexualmente sadios, era o adulto parental de sexo complementar. Em suma,


o pareamento desejável era um pareamento de adultos, identificando-se a cri­
ança com a cena primária da qual ela é o fruto vivo. Esse pareamento gênito­
genital de adultos de sexos complementares, do qual a criança tem desde sem­
pre a intuição em seu foro íntimo, e que ela gosta de metaforizar no conhecido
gesto de aproximar do seu os rostos de ambos os pais, em seus momentos de ter­
nura, esse pareamento sustenta, "para ela", seu desejo de ir-se tornando adulta à
1.magem deles, e sustenta a amância eletiva por papai-mamãe, biopsiquicamente
indissociável tanto de sua fonte libidinal quanto de sua coesão narcísica.
Com o aparecimento do irmão mais novo, a realidade libidinal, a atração
recíproca dos adultos do casal parental, pode ser destronada, pela importância
que assume para os pais, através da alegria, da angústia ou das perturbações que
acarreta, esse novo nascimento; pela importância desse bebê cuja imagem in­
voluída é, às vezes, quando o recém-nascido é uma menina e o precedente é um
menino, também mutilada na ótica da criança, que infere de sua nudez con­
templada o perigo da mutilação sexual (interpretada segundo os critérios de
realização e frustração do desejo oral ou anal, ou de frustração concernente ao
prazer ou à própria zona erógena em perigo, sempre de acordo com as fantasias
desses estágios arcaicos). Em outras palavras, é o próprio valor do sexo que se
afigura desprezível, quando não é mantido por aquilo que a criança intui do
desejo recíproco de pais que continuam a ser amantes.

Conclusão
O nascimento de um irmão mais novo (como quer que tenha sido prepara­
do) sobrevém como uma tempestade súbita no céu sereno em que o pai e a mãe,
aliás sol e terra, serviam de referências inter-relacionais para a verticalidade
axial do mundo animado e inanimado, onde a criança se conhecia garantida em
sua imagem do corpo.
No entanto, é graças a esse acontecimento - o nascimento do mais novo
-que a criança imediatamente mais velha, normalmente perturbada por maior
ou menor prazo, poderá, pela própria perturbação acarretada por esse nasci­
mento, superar o perigo de uma amância erótica e de um fetichismo que esprei­
tam os seres humanos.
Pertencer ao mundo das relações humanas permite superar a experiência
fantasmática, integrando a lição do risco, o que é traduzido pela súbita eclosão
da sintaxe gramatical do passado e do futuro, dos pronomes relativos, das orações
subordinadas, do vocabulário e da memória (traço nodal do eu, engodo não mais
espacial, porém temporal, do narcisismo específico de cada ser humano).

113
NO JOGO DO DESEJO

A clínica pedopsiquiátrica nos ensina, enfim, que essa tempestade pode


transmudar-se em cataclismo, quando as reações sadias de adaptação da criança
ao nascimento de um irmão mais novo despertam angústia, censura e rejeição
real por parte dos adultos, desses mesmos adultos de quem depende sua estru­
tura, necessária e momentaneamente abalada.
Esse cataclismo, é em termos intensamente edipianos que o percebemos
no adulto e na criança maior, ao passo que é nas premissas do Édipo que ele
provoca, a posteriori, a desvalorização ética da dialética genital.
Terminaremos apelando para a experiência humana e clínica de todos aque­
les que nos lêem, convidando-os a refletirem sobre as particularidades carac­
terológicas, para não dizermos a neurose de caráter, dos filhos "únicos", criados
sem ter que rivalizar com um irmão mais novo e sem ter que fazer face à agres­
sividade ciumenta, porém formadora, de um irmão mais velho próximo: sem­
pre detectamos neles os vestígios de um sofrimento latente de ciúme, não su­
perado e intricado, oral e analmente, em sua genitalidade.

1 14
Trata mento p sica na l ítico com a
a i uda da boneca-flor *

Primeira observação
Trouxeram-me uma menininha de cinco anos e meio, chamada Bernadette,
que apresentava uma aparência de grande retardo mental: confabulava conti­
nuamente e suas associações verbais faziam pensar na esquizofrenia; entretan­
to, havia um contato afetivo, de tipo agressivo (sempre negativo), sobretudo
com respeito a sua mãe.
A criança, alta e magra, mantinha a cabeça inclinada (torcicolo congêni­
to?); apresentava um estrabismo interno bilateral, seqüela de uma hemiplegia
dita obstétrica (?); seu braço esquerdo ficava dobrado, com a mão esquerda so­
bre o antebraço, e ela arrastava um pouco a perna esquerda. Falava com voz
monocórdia (sem modulações), gritando como se fosse surda, com a boca crispa­
da num sorriso estereotipado, e os enunciados que proferia nesse tom esganiçado
mostravam uma ausência total de senso crítico e de adaptação à vida social. A
menina sofria de uma suposta anorexia mental, recusando-se a comer; quando
era forçada ou quando ela mesma se forçava a engolir os alimentos, estes, em
geral, eram parcialmente vomitados, quer de imediato, quer passados quinze
minutos ou meia hora.
Bernadette, que nascera a termo, manifestou desde o nascimento uma re­
cusa a mamar ou a beber de colherzinha; quando tinha cinco dias, fizeram uma

*Revue Française de Psychanalyse, n. 1 , 1 949.

115
NO JOGO DO DESEJO

tentativa de vencer essa recusa e a criança começou a vomitar sangue: "Ela tam­
bém perdia sangue pelo ânus", disse-me a mãe. Os vômitos de sangue duraram
uns dez dias, sendo a criança alimentada apenas por gotejamento rectal de soro
glicosado e injeções subcutâneas de soro de Quinton. Foi tratada com fricções
de mercúrio. Ao cabo de dez dias, conseguiu reter algumas colheradas de leite
misturado com água, que foram progressivamente aumentadas, mas conti­
nuou a se alimentar mal.
Aos dois meses e meio, o bebê começou a se desenvolver bem, mas sem
recuperar o peso que apresentara ao nascer; dos três aos sete meses, a menina
pareceu sadia, esperta e adiantada. Depois, com sete meses, observou-se que
ela não usava nem a mão nem a perna esquerdas. Os pais tinham a impressão
de que, até então, o bebê vinha esperneando com os dois braços e as duas per­
nas. Constatou-se igualmente um estrabismo bilateral interno. A menina foi
colocada em tratamento com sulfarsenol. Não se encontrou nenhum sinal
laboratorial no sangue dos pais ou da criança. Seus primeiros dentes ir­
romperam aos seis meses. Com sete meses, foram-lhe dadas papinhas; ela apre­
sentou então espasmos do piloro, e vomitava tudo o que se assemelhasse a
uma papa espessa (purês, compotas de maçãs, etc.). A alimentação recomeçou
a ser difícil.
Com dez meses, começou a falar. Com um ano, a andar, porém titubean­
do, e a marcha se estabeleceu com extrema dificuldade. A menina tinha crises
de vômito, atribuídas pelos médicos, ora a espasmos pilóricos, ora a crises
acetonêmicas características. De um ano a 18 meses, a alimentação e os pro­
gressos foram relativamente satisfatórios, levando-se em conta essas dificul­
dades; depois, aos 18 meses de idade, a criança passou 1 5 dias recusando qual­
quer alimento e qualquer bebida. Esses 1 5 dias foram muito angustiantes
para a família e para a menina, que queria comer e chorava por não poder fazê­
lo. Ao cabo de 1 5 dias, num estado inquietante de desnutrição, ela vomitou
um bolo de massa crua, que, provavelmente engolira na cozinha, sem teste­
munhas. Por volta dessa época, teve uma crise de nervos por ocasião da visi­
ta de um médico que foi vê-la de motocicleta, crise esta com espasmos da
glote e ameaça de asfixia. Durante muito tempo, a menina guardou desse
episódio um verdadeiro pavor do barulho das motos e, toda vez que ouvia
uma delas, mesmo na cama, fazia crises de angústia e pânico. Como tinha a
visão muito precária, em decorrência de seu estrabismo, foi a essa visão defi­
ciente que se atribuíram suas numerosas angústias (por exemplo, o pavor de
subir escadas, de dormir no escuro e de largar a mãe, a quem, não obstante,
recriminava incessantemente como má).

116
TRATA M E NTO PSICANALÍTICO . .

Na época da consulta, ela era, em suas brincadeiras, uma criança de tipo


paranóico, sempre castigando suas bonecas. Além da mãe, moravam em casa
uma empregada, com quem ela se mostrava muito difícil, e uma irmã de 20
anos, que ela dizia "detestar" e de quem tinha ciúme. Gostava muito, segundo
me disseram, do pai, a quem tratava como um coleguinha, e também gostava
da companhia de um menino de sua idade, Bertrand, que morava no prédio e
qu,e ela chamava de irmão, identificando-o com seu pai. Esses dois personagens
eram confundidos por ela num mesmo amor possessivo e sádico.
Diante desse quadro, no qual vi predominar a organicidade desde o nasci­
mento, não me ocorreu (tendo eu ainda apenas uma modesta experiência na psi­
canálise de crianças) que um tratamento psicanalítico pudesse ter alguma ser­
ventia; mas a mãe, que fizera análise durante mais de dez anos e ouvira dizer
que, nos Estados Unidos, certas crianças retardadas eram tratadas pela psi­
canálise, insistiu em que eu me encontrasse com a menina pelo menos durante
algumas sessões.

Vi Bernadette pela primeira vez ern 18 de novembro de 1 946. Ela estava


com a mãe; não tivemos contato a sós. Nisso, meus filhos contraíram coqueluche
e, corno Bernadette ainda não fora contaminada, qualquer projeto de tratamento
teve de ser adiado. Na ocasião em que eu poderia tê-lo retornado, a menina via­
jou, corno fazia todos os invernos, para o Sul. A mãe me deu notícias: "O esta­
do de saúde de Bernadette é estacionário; fez-se urna tentativa de colocá-la num
jardim de infância, onde ela é aceita com dificuldade; não participa de nenhum
exercício ou brincadeira coletivos e é incapaz de se integrar, tanto do ponto de
vista motor quanto do caracterológico".

28 de março de 1 94 7, segunda sessão, primeira em que vejo a menina a sós.


Ela não parece dar importância a minha pessoa, falando consigo mesma num
monólogo esganiçado, no estilo que descrevi mais acima. Desenha um pinheiro
inteiramente abstrato (diz "pinheirar" 1 em vez de desenhar): um triângulo ver­
melho e amarelo, que só tem verde nos contornos; desenha formas que chama
de casas, em meio às quais coloca "bolas que explodem as casas". Confabula so­
bre "suas três filhas, seus dois bebês que sempre coisarn na boca, quebram a bo­
ca ou a barriga". A mãe precisa ausentar-se numa viagem, e falo disso com
Bernadette: ela parece encantada com a partida da mãe, muito contente com a

1 Essa é urna das formas da chamada linguagem esquizofrênica: os substantivos são declinados corno verbos, o
que mostra que, para a criança, rodo substantivo inclui urna dinâmica.

117
NO JOGO DO DESEJO

perspectiva de um desejo assim fantasiado: "papai sozinha" . Que sentido atribuir


a esse sintagma? Vemos aí a expressão de seu desejo de ser uma menina que
tem o pai somente para si. Seu corpo de menina é vivido por ela como sede da
zona erógena oral e como tubo digestivo, confundidos com o corpo da mãe, que,
tendo partido, absenteíza sua necessidade e seu desejo de comer, colocando em
perigo o viver, digamos, somático; o desejo sexual genital feminino associa-se
ao masculino personificado na figura do pai, com seu sexo, na representação que
ela faz de sua própria pessoa - como se, graças à presença do pai, sem a mãe,
ela possuísse os dois sexos.
Bernadette apresenta então uma coqueluchezinha de pequena gravidade,
com tosse coqueluchóide e sem os catarros característicos, mas que a obriga a
suspender suas saídas e, portanto, suas sessões comigo. Depois que a mãe via­
jou, Bernadette teve tamanha crise de angústia que não conseguia mais comer
o que quer que fosse sem vomitar imediatamente. Seu pai teve a idéia de fazê­
la rabiscar uma suposta "carta" à mãe, e a menina logo conseguiu comer. Quando
manifestava angústia em comer, "escrevia" à mãe, por sua própria iniciativa, e
a angústia cedia, permitindo a alimentação.
Um dia, a mãe telefona do exterior, para onde tivera que se deslocar; ime­
diatamente, Bernadette passa a cuspir de maneira compulsiva.

1 1 de maio, terceira sessão. Bernadette já não tosse e retomou suas sessões.


Nesse dia, observo: bom estado, medo do retorno da mãe: "Quando mamãe não
está, eu como melhor".

20 de maio, quarta sessão. Ocorreu um pequeno incidente: a mãe de seu


amiguinho, por causa de um problema entre as empregadas, aborreceu-se com
os pais de Bernadette e se opôs a que o menino e ela voltassem a se ver. Teme­
se um forte trauma, mas Bernadette vem a meu consultório. Na escola, onde
concordaram em readmiti-la, ela não faz amizades e não acompanha o ritmo
dos outros, mas gosta de freqüentá-la. Torna-se também muito mais gentil com
o pa1.
2 de junho, quinta sessão. Ela parece em bom estado. A mãe voltou.
Bernadette exprime muitos sentimentos negativos a seu respeito: "Mamãe não
quer que eu coma, ela quer olhar no meu cardíaco, ela é má, está sempre queren­
do mexer no meu coração, mas não sou eu que estou dizendo isso, foi a maca­
ca que disse" . A menina deve ter ouvido falar em cárdia, a propósito de seus es­
pasmos digestivos, e faz associações verbais entre cárdia, cardíaco, coração, ven­
tre e casa: "as bolas perigosas que explodem as casas". Mostrando o peito, diz:

118
TRATAME NTO PSICANALÍTICO . .

"A gente faz explodir tudo isso para ver dentro do coração, é para cuidar". Forja
toda uma fabulação sobre a reprodução sexuada, a propósito das folhas de pi­
nheiros que são plantadas na terra e germinam. Entre outros enunciados es­
quizóides, nem todos os quais eu saberia relatar, ela diz: "Se eu morrer, vou vi­
ver dentro da minha filha". Exprime, ao final da sessão, muitas coisas negati­
vas sobre a empregada: "Malvada, tem que matar ela".
Suspensão do tratamento durante o período longo de férias.

1 4 de outubro, sexta sessão. A menina retorna; passou um verão melhor, diz


a mãe, e está menos difícil o seu convívio social. Continua com o mesmo as-·
pecto muito anormal: a voz gritada e monótona, assim como as fabulações comi­
go e com todo o seu círculo, permanecem inalteradas. Reprova o pai por não
escutá-la, nos seguintes termos: "Não se alue". Retomou a escola, onde estão
dispostos a aceitá-la, desde que ela a freqüente apenas durante parte do dia e
não participe nem das brincadeiras coletivas, nem das sessões de trabalhos ma­
nuais (escola de tipo ativo). Comigo, ela confabula sem cessar e dá a impressão
de estar cada vez mais esquizofrênica. É ciumenta, mas de maneira adaptada:
os únicos enunciados que exprime com sintaxe compreensível são do tipo vinga­
tivo, em relação, entre outras coisas, a um de meus filhos, cujo choro ela escu­
ta, ou em relação às crianças que brincam num parque recreativo que pode ser
visto de minhas janelas.
Decido fazer sessões quinzenais, único ritmo compatível com as possibi­
lidades familiares.

20 de outubro, sétima sessão. Um dia, ela havia falado na "macaca" que dizia
uma porção de coisas ruins sobre sua mãe. Dessa vez, a macaca, que é uma meni­
na, parece ter uma existência alucinatória. Essa menina-macaca é muito má, e
só não é muito má com a menina porque a ama enormemente; ela gosta tanto
de Bernadette que quer entrar nela. Quer aproveitar-se do momento em que
Bernadette come para ser comida junto com as outras coisas, e, se Bernadette
comer a macaca, transformar-se-á em macaca. Bernadette encontrou-me quan­
do eu estava entrando em meu prédio e ficou furiosa por constatar que eu
existo "de verdade". "Se a doutora existe, é porque a macaca existe"; é que, quan­
do Bernadette volta para casa, ocupo tanto espaço em suas fabulações quanto a
macaca. Quando ela acaba de comer, a mãe a vê batendo no próprio estômago
com murros fortes: está batendo na macaca para fazê-la sair. Doravante, só se
ocupa de suas fabulações; suas bonecas e seus animais não mais têm interesse
para ela. (Quando chegou a meu consultório, detestava suas bonecas e seus brin-

1 19
NO JOGO DO DESEJO

quedos, mas dormia com um urso e um gato de pelúcia.) Todos os desenhos que
faz para mim representam formas abstratas, ornadas de letras e números eroti­
zados: alguns são maus ou feios; desde o pinheiro do primeiro dia, os vegetais
não aparecem mais em seus desenhos, nem tampouco as representações de ani­
mais e as representações de construções. Na escola, onde se está iniciando a
aprendizagem do alfabeto, ela se torna malvada e se mostra mais inadaptada
que no ano anterior.
Diante desse comportamento inteiramente narcísico, em que a afetividade
é marcada unicamente pelo sinal negativo, fico impressionada com o aspecto
paranóico, autista e ansioso que vai assumindo o caráter da menina. É nesse mo­
mento que tenho a idéia de lhe dar uma boneca-flor. Eis como me ocorreu a
idéia.
Ao longo de minha experiência analítica, tanto com adultos quanto com
crianças, pude observar, a propósito do desenho livre - que constantemente
sustenta a clínica nas minhas sessões -, que o interesse depositado nas flores
e a identificação com uma flor, mais especialmente a margarida, sempre acom­
panham o quadro clínico do narcisismo.
Constatei, a propósito de crianças anoréxicas (e pude fazer a mesma ob­
servação a propósito dos sonhos de dois adultos), que todas elas fazem, em seus
desenhos livres, imagens de flores ou plantas cujos caules apresentam, num ní­
vel qualquer, uma solução de continuidade com o solo ou com o recipiente nu­
tritivo, e que, quando pergunto ao sujeito em que lugar ele se situaria no de­
senho, se ali estivesse representado, ele se projeta na flor com o caule cortado.
Nas meninas maiores ou nas mulheres narcísicas, as flores cortadas e ornadas
de laços preponderam sobre qualquer outra projeção, seja no desenho livre, se­
ja nos quadros que elas dizem preferir.
Quando a mãe me disse, diante de Bernadette, que ela não gostava mais
de seus animais nem de suas bonecas, tive a idéia de responder: mas talvez
Bernadette quisesse uma boneca-flor, não é? Nesse instante, Bernadette saltou
de alegria e disse, no auge da excitação da felicidade: "Sim, sim, uma boneca­
flor, sim, sim . . . " "Mas, o que é isso?" perguntou a mãe; e eu: "Não sei, mas
parece que é do que ela gostaria".
O narcisismo das crianças com libido de tipo masculino (menino ou meni­
na com complexo de virilidade) prefere projetar-se em flores fálicas (lírio, jun­
quilho, lírio-do-vale). As rosas e as anêmonas convêm à autoprojeção no caso
da libido narcísica de tipo feminino; quanto às margaridas, elas são as primeiras
representações florais de todas as crianças, meninas ou meninos. Parecem sim­
bolizar a libido de um sujeito que ainda não tomou consciência de seu tipo de

120
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . . .

genitalidade (ou que recalca essa tomada de consciência). Assim, sugeri à mãe
que confeccionasse uma boneca que, em vez de ter rosto, braços e pernas cor de
carne, fosse inteiramente revestida de tecido verde, até e inclusive na parte que
representa a cabeça; que não tivesse rosto e fosse coroada com uma margarida
artificial; essa boneca deveria ser trajada com roupas que evocassem tanto o
menino quanto a menina: por exemplo, tecido azul e rosa, calças e saia ao mes­
i;no tempo, tudo confeccionado com o mesmo tecido.

4 de novembro, oitava sessão. Bernadette voltou com sua boneca-flor com


corola de margarida, que ela chama de "Rosine" - portanto, feminilizando-a.
Diz-me - a mim, desta vez, e não mais falando de lado, embora ainda com
sua voz gritada e sem modulações - que essa boneca é horrível, má, e me
conta que, desde que ela chegou a sua casa, tem sido um inferno. Rosine,
prossegue ela, diverte-se em bater nas bonecas humanas e nas bonecas ani­
mais. A boneca que ela mais detesta é Marie Christine, seu bode expiatório
(a própria menina tem um nome composto, cuja primeira parte é Marie, sendo
Bernadette apenas o nome que lhe dou para a publicação de seu caso). Portanto,
Bernadette projetou toda a sua atitude caracterológica negativa nessa boneca­
flor e, a partir de então, pôde falar.
Pergunto:
- Você sabe porque ela é má?
- É por causa de um homem que tinha um bastão e que deu a ela idéias
ruins: um homem engraçado que tinha cara de lua.
(Lua e bastão: traseiro e pênis, uma genitália de menino? Ou uma esfera
despedaçável, como o seio materno arcaico, e um pênis perigoso, símbolos da
mãe e do pai, ambos fálicos?)
Lembramos que ela dizia ao pai, "Não se alue". Esse homem, portanto, é
o pai. Ao emprestar suas fantasias à boneca, cujo discurso ela me relata,
Bernadette pode dar livre curso a seus enunciados escatológicos, agressivos e
grosseiros.
Falamos da boneca-flor:
- Foi só esse homem que deu idéias ruins a ela?
Bernadette inclina-se então para mim e, com voz baixa, no ouvido - é a
primeira vez que a ouço falar baixo - sussurra:
- Ser má para ela se chama ser boazinha, porque ela tem um braço e uma
perna que não funcionam.
Continuo a lhe falar com voz normal e digo:
- Como é que isso faz ela ser má?

121
NO JOGO DO DESEJO

Bernadette me responde baixinho, no ouvido:


-Eu te disse que é a maneira dela de ser boazinha, de fazer mal aos ou­
tros. Ela não é má, ela está doente; você vai cuidar dela.
Bernadette vai embora, toda satisfeita por ter deixado a boneca com a
doutora que vai cuidar dela.

1 6 de novembro, nona sessão. Ela chega com um urso de pelúcia, que dis­
farçou como boneca humana. Cuida muito de seu "filho", tira-lhe o casaco para
que ele não sinta muito calor e o instala num canto do divã. A mãe teve tem­
po de me dizer, entre duas portas (a menina se precipitara num impulso para
meu consultório), que há 1 5 dias Bernadette se transformou, do ponto de vista
do caráter, e, acrescentou a mãe, "a transformação data do dia seguinte ao dia
em que Bernadette recebeu a boneca-flor, e principalmente do momento em
que a deixou com a senhora em tratamento. Naquele dia, ao voltar para casa,
Bernadette arrumou todos os brinquedinhos e desprezou um pouco (sem agres­
sividade) as bonecas humanas; tem-se mostrado muito cuidadosa com seus ani­
mais de pelúcia".
No início da sessão, Bernadette instalou-se à mesa e desenhou, dessa vez
em verde (e me dizendo, pela primeira vez, que gosta muito dessa cor), três
margaridas, que chamou de Papai, Mamãe e Bernadette, dizendo que "todas
três se amam".
-Como vai minha boneca-flor? -perguntou-me de repente.
-Você sabe, cuidei dela todos os dias, mas não há como uma mamãe para
conhecer seu filho. É você que vai me dizer como acha que ela está.
E retirei sua Rosine do armário. Assisti então a toda uma cena de mími­
ca. A menina falou baixo com a boneca, colocou-a junto ao ouvido para es­
cutar o que ela respondia, depois a fez dançar sobre a mesa e, de repente, com
uma voz modulada que eu não conhecia nela e que nunca a tinha escutado
usar, disse-me:
- Ela está curada, o braço e a perna dela funcionam muito bem, você
cuidou muito bem dela.
Depôs a boneca-flor ao lado de seu urso, no divã, e voltou a conversar
comigo. Mostrou-me sua mão parética, ainda meio em formato de garra, e
acrescentou:
- Ela é filha de lobo, então, para gostar, ela tem que arranhar, e como
ela gosta muito de você, a filha do lobo, ela vai te mostrar como ela é forte.
E pôs-se a cravar as unhas na pele de minha mão, dizendo:
- Não fica com medo, ela tem que ver sangue, porque ela gosta de você.

122
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

A voz permaneceu modulada, como permaneceria definitivamente.


Quando Bernadette viu as marcas de suas unhas em minha pele, ficou sa-
tisfeita e, para que o sangue aparecesse, continuou:
- Está doendo em você?
- Sim, um pouco, mas sei que ela me ama.
Então, com a mão direita, Barnadette acariciou minha mão marcada pelas
unhas de sua mão esquerda.
- Esta aqui é filha de humano, disse-me, falando sobre sua mão direita;
ela não ama nunca, nunca faz mal.

1 O de dezembro, décima sessão. Ótimos resultados escolares, melhora muito


nítida do ponto de vista motor. A menina já pode participar das atividades mo­
toras e coletivas sem perturbar a turma e sem que zombem dela. Faz, por ini­
ciativa própria, exercícios constantes com a mão e a perna esquerdas. Mostra­
se muito negativa contra minha filha mais nova (sabe, através de seus pais, que
tenho filhos; nunca os viu, mas escuta-os a correr e gritar, brincando pela casa,
e ouve a voz de uma criança de 1 8 meses, minha filha caçula).
- Gosto mais do meu coelho que do seu fedelho nojento! Você não acha
ele feio?
- Uma mamãe nunca vê os defeitos de seus filhos; mas, agora que você
me falou, talvez você tenha razão.
E ela, então:
- Olha meu filho que eu gosto.
E desenhou um coelho. E desse coelho, símbolo neutro de sensibilidade
amedrontada, fez uma carcaça com cabeça de gato, símbolo de sensibilidade
feminina.

8 de janeiro, décima primeira sessão. Ela desenha uma forma, sobre a qual diz:
- É um lobo-anjo, um homem ao contrário, é uma árvore bonita, é um
anjo dos anjos.
Tento levá-la a fazer um devaneio em que se imagine seguindo esse lobo­
anjo. Não há meios. Digo-lhe:
- Então, talvez você possa imaginar que está entrando na água - tema
fantasmático destinado a explorar os afetos do estágio oral, e talvez a desen­
cadear uma catarse pelo onirismo.
Bernadette adere imediatamente a essa forma de trabalho:
- Sim, sim, sim! Olha aqui! Estou dentro d'água e tem um peixe grande
que engoliu o rabo.

123
NO JOGO DO DESEJO

Encontra um outro peixe, enorme, que "muda" o primeiro, pois o primeiro


é muito infeliz. O peixe benfeitor dá de presente a Bernadette, em sua imagi­
nação, uma caixa contendo uma linda boneca. Ela termina dizendo, em tom de
lástima:
-Que pena que é um peixe, porque não é de verdade, e eu nunca vou ter
essa boneca que ele me deu.
Vemos aí, pela primeira vez, Bernadette fazer a diferença entre uma fan­
tasia e a realidade.

Décima segunda sessão. Ela profere inúmeros enunciados agressivos contra


sua irmã, uma jovem de 20 anos. Ao mesmo tempo, faz recortes de formas an­
gulosas e imita a picotagem e o esmagamento, sempre falando. Os animais fi­
gurados por seus recortes, pelo menos segundo ela diz, ora são feras selvagens,
ora sua irmã. Ela quer que "isso viva" e tenta fazer com que fiquem de pé. E
quando "isso vive, a gente pode fazer com que morra, as imagens vivas". "Isso
é feito para cortar", já que, na verdade, é papel. Em seguida, com a massa de
modelar, ela faz bolinhas a que chama "pipis". Digo-lhe:
-Ah, quantas bolinhas você têm?
E ela:
-Uma perto do pipi, duas perto do coração (mostrando-me os dois mami­
los sob suas roupas). Eu gosto muito deles, dos meus pipis, e eles também
gostam muito de mim.
E acrescenta três bolinhas a cada um dos animais recortados ou
desenhados.

28 de fevereiro, décima terceira sessão. Inicia-se agora uma série de sessões que
eu poderia chamar de puramente esquizofrênicas. Nem por um momento a
menina profere enunciados logicamente sensatos. Parece estar muito à vontade,
sem nenhuma afetação de confiança e sem trejeitos. Cito apenas alguns exem­
plos, escolhidos pelo conteúdo extremamente rico dos enunciados e dos gestos
que os acompanharam. Limito-me a escutar e a olhar, sem dizer palavra.
Ela desenha:
-Olha, isso é uma cadeira azul; não pode comer, porque, se a gente co­
mer, estoura tudo.
Desenha um sol marrom. É um menino que vem para o tratamento de­
pois dela, e de quem ela tem ciúme.
- Esse fedelho nojento, você nunca mais devia ver ele!
Fala de alguma coisa a que chama "pega-ratinhos". Nesse momento, to-

1 24
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

ca em seu estômago. Penso que é do estômago que está falando, e não digo na­
da. Ela desenha "oitos" horizontais e enche as páginas com eles - desenhos
que sempre vi acompanharem os estados obsessivos. Depois desenha linhas que
se embaraçam de tal maneira que não se consegue ver-lhes o começo nem o fim.
A todos esses gráficos não-figurativos ela associa enunciados de agressividade
oral, devoradora, que matam. Hoje não me disse bom-dia nem até logo, e a úni­
ca frase que me foi dirigida disse respeito ao "fedelho nojento", o clientezinho
que vem depois dela. Estamos, mudamente, em excelentes termos.

1 3 de março, décima quarta sessão. Bernadette chega contente, animada, e


começa a fabular a propósito da macaca que habita nela.
- A macaca quer cuspir, eu não. Mas é ela que me obriga. Tenho um ro­
lo dentro da cabeça.
Põe-se a salmodiar com expressões sorridentes e doces, à maneira de Ofélia.
Vai cantarolando, e eis algumas de suas frases: "Acabou-se o feitiço vilão . . . ",
modulada muito alegremente, com numerosas variações. E canta, "A árvore es­
tá consertada, o sol voltou . . . ", ainda modulando, e depois me diz com sua voz
normal: "Vou desenhar ela para você". Desenha uma árvore cujo tronco foi re­
mendado: "Viu? É a menininha salva pelo pai, é a filhinha do lobo. Você se
lembra da filhinha do lobo? O papai dela veio salvar ela". Desenha uma grande
flor amarela e diz: "Sou eu, a flor amarela". E, antes de ir embora, coloca pó­
de-mico (adora colocar pó-de-mico) na flor, rindo muito.
(Essa foi uma sessão em que, como na anterior, eu não disse uma palavra;
assisti a tudo atentamente, num acordo tácito.)
O pai e a mãe, que vêm buscá-la, pedem-me para espaçar as sessões.
Bernadette concorda. Marco um novo encontro para dali a um mês.

1 6 de abril, décima quinta sessão. Entre a décima quarta e a décima quinta


sessões, ocorreu em casa um grande acontecimento, ao mesmo tempo delirante
e catártico. Foi fora da presença da criança que os pais me fizeram o relato.
Bernadette quis que os pais e a empregada assistissem a uma cerimômia
que ela havia preparado inteiramente. Estava numa grande excitação e, dian­
te desse estado e de sua expressão desvairada, os pais haviam-se submetido.
Bernadette tinha instalado todas as suas bonecas e animais num semicírculo,
como espectadores, aos pés dos adultos, para os quais tinha trazido assentos.
Colocara no centro, em j ulgamento, a macaca - uma pequena figurinha de
sua arca de Noé, objeto de seu ódio, bode expiatório considerado responsá­
vel por seu impedimento de comer e de viver. Bernadette entregara-se então

1 25
NO JOGO DO DESEJO

a uma espécie de dança do escalpo, muito impressionante, nas palavras dos


pais, resgatando os gestos dos primitivos em suas cerimônias mágicas, dançan­
do ao redor da macaca com movimentos de mergulho, fingindo desabar so­
bre ela, até o momento em que, aos pontapés, destruiu a figurinha - se­
gundo me disse a mãe, servindo-se tanto da perna ruim quanto da boa. Mas
não conseguira destruí-la por completo. Exasperada com esse fracasso, ficou
num estado nervoso inquietante e suplicou ao pai gue a ajudasse. Este, após
uma pequena hesitação, pulverizou com algumas marteladas o pequeno ob­
jeto, mistura de chumbo e gesso. Essa "cerimônia" situou-se por volta das dez
horas da noite. Desde o momento em que perpetrou a destruição da macaca,
Bernadette se transformou, imediatamente apaziguada, produzindo-se nela
uma completa reviravolta nervosa. De excitada e trêmula de tensão que esta­
va, sobretudo no momento em gue temeu gue o pai não conseguisse destru­
ir completamente a figurinha, tornou-se totalmente calma e sorridente.
Passou uma noite excelente, depois de ter colocado seu macaco, outra figu­
rinha do zoológico, sob duas árvores (esse zoológico era, na verdade, uma ar­
ca de Noé composta de casais de animais). Disse então que o macaco agora
poderia descansar, finalmente, cercado pelos outros animais pacíficos da ar­
ca, e que esperava que seu pai comprasse uma macaca branca, gue seria uma
boa fêmea (a macaca linchada, tal como o macaco, era de tinta marrom, com
mamilos claros).
A sessão desse dia ainda teve um ar esquizofrênico. Foram-me contados
pedaços da história do linchamento, que eu não teria compreendido se os pais
não me houvessem feito o relato do psicodrama. Esses enunciados foram en­
trecortados por melopéias e gestos agressivos com a tesoura, o papel e os lápis;
e, com uma exultação gritante de triunfo, tudo isso foi acompanhado por um
descanso que trouxe de volta a calma.
- Até logo, Madame Dolto.
- Até logo, Bernadette.
- Até a próxima vez!
- Sim, até a próxima vez.

24 de abril, décima sexta sessão. Um mês se passou [sic}. Fora das sessões de
psicoterapia, o estado clínico de Bernadette, no dizer dos pais, é perfeito. Ela
fez tais progressos de adaptação social que, na escola, já não se faz diferença en­
tre ela e as outras crianças. Anda sozinha na rua, e a professora chegou até a lhe
confiar crianças menores para que ela as ajude a atravessar a rua, muito movi­
mentada, no trajeto gue as conduz até suas casas; a vida em casa parece desen-

1 26
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

rolar-se sem nenhum conflito. Desde o linchamento da macaca, a anorexia de­


sapareceu completamente.
Essa décima sexta sessão é dedicada à fabricação de uma profusão de ob­
jetos feitos em massa de modelar, todos com a forma de um cilindro alongado,
fálico. Bernadette me diz gue ninguém deve tocá-los. Qualguer pessoa gue o
fizer morrerá imediatamente. Utiliza toda a minha reserva de massa de mode­
lar, "para gue nenhuma outra pessoa possa fazer nada depois dela", e está vi­
sivelmente convencida da potência destrutiva desses objetos para gualguer ou­
tra pessoa gue não ela própria. Procura um lugar num armário gue há no con­
sultório para arrumá-los pessoalmente, para gue eu, ao guardá-los, não corra o
risco de ser morta, pois, se eu os tocasse, também morreria.

20 de maio, décima sétima sessão. Bernadette entra e vai ao armário procurar


seus objetos, gue não estão mais lá. A massa de modelar está em sua caixa habi­
tuaF. Encontrando-a, Bernadette não faz nenhuma pergunta e, em flagrante
contradição com a realidade, declara:
- É muito bom ninguém ter mexido nisso tudo gue eu fiz.
Nesse dia, cobre inteiramente a mesa com formas gualificadas de "bolsa".
Há uns vinte objetos côncavos, mais ou menos fundos e mais ou menos hemis­
féricos, tais como cumbucas, cestos, bacias, etc. Ela usa toda a massa de modelar
e me diz gue esses objetos gue fez poderiam matar-me, a mim e às mulheres. Diz:
-Tome muito cuidado com isso tudo gue eu faço, porgue tudo o gue eu
faço é mágico, menos a última coisa, mas essa eu não vou dizer a você. Essa será
verdade.
Cada um dos objetos é circundado por ela por um barbantinho retorcido
em forma de alça, barbante este gue ela me pediu e que lhe dei. O último ob­
jeto gue faz para mim é, muito nitidamente, um túmulo - uma lápide enci­
mada por uma cruz - e, embaixo dessa lápide, ela encerra uma pequena for­
ma fálica a gue chama espada. Não me diz uma só palavra e, antes de ir embo­
ra, desenha um revólver verde e azul e me diz:
- Isso não é perigoso para você, e depois é só uma imagem, não é de
verdade.

20 de junho, décima oitava e última sessão. Bernadette chega com uma se­
nhora idosa, gue pede para falar comigo. Acreditando gue essa mulher, gue

2 Não guardo os objetos fabricados pelas crianças. Quando elas me perguntam a respeito, djgo: ..Estamos no dia
de hoje; o que você fez da última vez não é o que tem de fazer hoje. Vamos ver, você também não sabe ...

1 27
NO JOGO DO DESEJO

freqüentemente a acompanha, tivesse algum recado dos pais a me dar, escu­


to-a na sala de espera. Bernadette corre para meu consultório. A mulher me
diz, desculpando-se muito por ter ousado pedir para falar comigo e chorando
de emoção, que Bernadette é, para ela, um verdadeiro milagre; que essa meni­
na, que ela viu nascer, era uma pobre e infeliz criança que todo mundo tinha
acreditado ser anormal para a vida, e que, agora, é a mais cativante, a mais
carinhosa e a mais inteligente das meninas.
Com efeito, Bernadette está muito bem. Seu apego por mim nada tem de
aparente e ela nunca mais falou em mim. Isso eu soube por sua mãe ao telefone.
Veio à sessão mensal de bom grado porque a hora tinha sido marcada. Veio para
me agradecer e me contar, tagarelando como uma menina que nunca tivesse esta­
do doente, as historinhas da escola: "e depois, você sabe, agora eu vou muito bem".
No momento atual, transcorridos quatro anos, a cura se manteve e a meni­
na vai-se desenvolvendo, segundo dizem, de maneira inteiramente normal;
acompanha a turma de sua idade e até freqüenta aulas de ginástica. Resta um
arrastar muito pequeno da perna quando ela corre, que mal se percebe quan­
do anda. O braço esquerdo mantém-se virado contra seu corpo, mas a menina
se ajeita usando-o para carregar alguma coisa, o que nunca fizera antes, já que
suas coisas eram carregadas, a seu pedido, pelas pessoas que estivessem em sua
companhia.
O caso que acabo de relatar fez-me refletir muito. É visível, e aliás isso foi
confirmado pelo círculo da menina, que o momento decisivo que modificou
seu comportamento situou-se na semana em que ela entrou em posse da boneca­
flor. Segundo o relato das sessões, parece que essa boneca-flor foi o suporte dos
afetos narcísicos feridos da idade oral. A agressividade oral e depois anal, volta­
da contra ela mesma, nessa criança adoecida por grandes distúrbios somáticos
do tubo digestivo, projetou-se naquela forma simultaneamente humana e ve­
getal. Seus enunciados extraordinários (sua maneira de ser boazinha, que con­
sistia em ser má para as bonecas animais e para as bonecas humanas) foram, para
mim, uma revelação. Diante dos resultados obtidos com essa menina, de quem
cuidei no consultório particular em minha casa, tive a idéia de me valer da
boneca-flor no hospital, num outro caso cujos sintomas se expressavam na zona
das pulsões orais.
É esse o caso que passo a relatar agora.

Segunda observação
No dia 1 0 de outubro de 1 947, Nicole foi levada para se consultar comi­
go no hospital Trousseau. Fora-nos encaminhada pelo hospital Henri-Roussel

128
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

por retardo mental e mutismo. Nicole era uma menina de cinco anos e dez
meses. Fora adotada aos quatro anos de idade, juntamente com seu irmão, 1 8
meses mais novo que ela, por u m casal estéril de pessoas muito honradas, de
nível econômico modesto. Seus antecedentes eram completamente desco­
nhecidos. Soubera-se apenas, no momento da adoção, que as duas crianças ti­
nham sido abandonadas 1 8 meses antes, quando Nicole ainda não tinha três
anos. A fratria comportava um terceiro bebê, que nenhum dos dois tinha co­
nhecido, pois ambos tinham sido entregues a uma família de criação bem antes
do abandono completo. Esse terceiro bebê - uma irmãzinha de um ano e
meio, na data dessa primeira consulta no hospital Trousseau - tinha o mes­
mo sobrenome do irmão e da irmã; os pais adotivos de Nicole e seu irmão dis­
puseram-se a adotá-la também, mas a casa de adoção já se havia encarregado
da menina, visto que, na época de seu nascimento, imediatamente seguido de
abandono, seu irmão e irmã mais velhos não eram conhecidos.
Bem antes da adoção, Nicole e seu irmão tinham sido confiados a pais de
criação indignos, no interior. Estes, segundo me foi dito, cuidavam de uma
dezena de outras crianças sem pais. Queixas dos moradores do vilarejo haviam
chamado a atenção para eles, a princípio em vão, mas, depois, com a morte de
muitos recém-nascidos, seguira-se um inquérito, porém com a lentidão habi­
tual. . . até que o casal fosse preso e as crianças, retomadas pela Assistência Pública.
Nicole fora então encontrada em estado de desnutrição grave, coberta de
parasitas e seminua. Quanto a seu irmãozinho, ele comia os próprios excre­
mentos e estava preso por uma corda à casa do cachorro, com quem disputava
a comida. Os pais de criação desonestos faziam tráfico dos cartões de alimen­
tação das crianças que lhes eram confiadas, bebiam e maltratavam as crianças.
Após algumas semanas de recuperação apressada num hospital, Nicole fora fi­
nalmente confiada (junto com o irmão) a seus pais adotivos, que a trouxeram
até mim.
Conhecendo esse passado recente, os pais não se haviam surpreendido, no
momento da adoção (nem tampouco o médico que fora com eles ao interior),
com o mutismo das crianças, com seu olhar ansioso e com os hábitos pseudo­
perversos que tinham: só sabiam comer no chão, com as mãos, ou colocando di­
retamente a boca no chão, e beber sem usar copos, lambendo à maneira dos ani­
mais. Fazia 1 8 meses que as duas crianças tinham sido adotadas. Seu médico é
que as encaminhara ao Henri-Roussel, e fora lá que uma pessoa que conhecia o
trabalho do hospital Trousseau as havia encaminhado para mim.
A situação era a seguinte: a menina dizia apenas uma sílaba por palavra
quando queria exprimir-se (quanto ao menino, não falava nada). Era extrema-

1 29
NO JOGO DO DESEJO

mente silenciosa e brincava sem o barulho característico das crianças. Era dis­
simulada e parecia ter uma perversão da sede (escondia-se para beber, às lam­
bidas, o óleo da máquina de costura da mãe que escorria no chão, a urina, a água
da louça, a água da lavagem da roupa e a água das valetas). Recusava-se a be­
ber água limpa, fosse num copo ou numa tigela. Dava-se bem com o pai ado­
tivo, a quem gostava de afagar, e com seu irmãozinho. Opunha-se passivamente
a tudo o que vinha da mãe adotiva, recusando-se a imitá-la e a ajudá-la nas tare­
fas domésticas e sujando as calças de xixi e cocó durante o dia; fazia seis meses
que a enurese noturna havia cessado episodicamente. Era absolutamente im­
possível colocá-la em contato com outras crianças. A menina se mostrava muico
má e, talvez inconscientemente, havia ferido e maltratado muitas delas.
Eis alguns exemplos do comportamento bizarro de Nicole diante de seu
sofrimento.
Um dia, ela machucou o cotovelo ao brincar com um auto-skif (trenzi­
nho). Coberta de sangue e com um ferimento muito profundo, não se queixou.
Foi a mãe que a encontrou nesse estado. Durante os cuidados médicos que se
seguiram, tendo o ferimento exigido alguns pontos de sutura, a menina con­
tinuou a fazer trejeitos, com a mesma expressão que ainda hoje vejo nela na con­
sulta: um sorriso estereotipado que nada traduz, a não ser angústia.
Noutra ocasião, ela pôs o pé na banheira onde a água fervendo acabara de
ser despejada, antes que a mãe acrescentasse água fria. Embora tivesse sofrido
uma queimadura de segundo grau, que a mãe percebeu, a criança não manifes­
tou nenhuma dor e, em sua linguagem, negou ter colocado o pé dentro d'água.
Levada ao médico, não se queixou durante as dolorosas sessões de curativos,
nem tampouco nos dias seguintes. Finalmente, em certo momento, emitiu este
juízo, falando com muita clareza: "Isto dói melhor que o braço".
No dia da consulta, nenhum teste foi possível, nem com a psicóloga nem
comigo mesma, tão estereotipado, afetado e obtuso era o comportamento da
menrna.
Pensei numa grande debilidade mental. Quando lhe propus que fizesse
grafismos livres, ela traçou pequenos ziguezagues e formas fálicas alongadas ou
quadrangulares. Mas eis que, para minha surpresa, pareceu procurar alguma
coisa . . . Era uma borracha que estava em minha escrivaninha, embora quase não
fosse visível. Dei-lhe a borracha; ela apagou a porção intermediária de suas pági­
nas de grafismos, deixando apenas as partes superior e inferior das páginas.
Diante desse comportamento, achei que se tratava muito mais de angústia, nes­
sa criança traumatizada, que de uma verdadeira debilidade, e passei a lhe diri­
gir a palavra como se ela fosse absolutamente normal. A partir desse momen-

130
TRATAMEI\JTO P S I CANALÍTICO . .

to, Nicole exibiu uma expressão facial extremamente vivaz. Sugeri à mãe, uma
vez a sós com ela, que não mais exigisse nada da menina - nem demonstrações
de afeto, nem um esforço de adaptação à vida, como se poderia exigir de uma
criança de sua idade -, que não mais lhe pedisse para falar e não mais procurasse
abraçá-la, mas simplesmente a tratasse como uma criança muito pequena, que
soubesse apenas andar; e que estivesse sempre satisfeita com ela, qualquer que
fosse seu aparente negativismo.
Eu disse à mãe que queria ver o pai adotivo e que era absolutamente
necessário falar abertamente com as crianças sobre essa adoção (pelos ditos de
Nicole, ela os tomava a ambos por seus verdadeiros pais; quanto aos pais ado­
tivos, eles desejavam mais que tudo que as crianças não tivessem conhecimen­
to de sua adoção e que se acreditassem seus filhos verdadeiros). Conversei um
pouco com a mãe; ela chorou diante da idéia de que minha concepção fosse
diferente da sua e temeu que o marido não quisesse vir, caso isso fosse uma
condição imposta por mim para tratar da criança. Eu lhe disse: "Não é uma
condição; eu gostaria de falar com ele e nós falaremos juntas; penso que será
necessário fazê-lo, mais dia menos dia; vamos ver. Mas traga a criança nova­
mente; não direi nada a ela antes que vocês dois estejam de acordo". Falamos
sobre as possibilidades de retorno. A mãe tinha pensado que daríamos remé­
dios à menina. Disse-lhe que se tratava de uma psicoterapia e expliquei um
pouco o que era isso. Eles moravam muito longe de Paris e não poderiam voltar
com freqüência, mas ela iria tentar. Partiu um pouco mais sossegada.

25 de outubro. Quinze dias depois, um teste se fez possível, estando a mamãe


por perto para traduzir a linguagem da criança, ininteligível para outras pes­
soas que não seus parentes próximos, e que fazia lembrar a linguagem de um
bebê de aproximadamente 18 meses. Todas as palavras eram arranhadas e to­
das as consoantes eram pronunciadas como dentais. O teste Binet-Simon, com
as respostas assim traduzidas, indicou seis anos.
A mãe me informou que, quando falara sobre a consulta com o pai da meni­
na, ele se havia mostrado compreensivo, e que, sem esperarem para me ver, os
pais tinham falado diante das crianças sobre a época infeliz em que haviam acre­
ditado que jamais teriam filhos, e depois, sobre o dia em que tinham tido a ale­
gria de saber que havia duas crianças sem pais num determinado hospital, que
lhes seriam dadas se eles quisessem aceitá-las. As crianças, enquanto os pais con­
versavam, não pareciam dar nenhuma atenção ao que eles diziam. Alguns dias
depois, Nicole viera aninhar-se junto à mãe, abrira-lhe a blusa - o que a mãe a
deixara fazer, atônita - e começara a mamar, o que havia emocionado imensa-

131
NO JOGO DO DESEJO

mente essa mulher. Enquanto a menina permaneceu assim aninhada contra ela,
a mãe lhe falou sobre aquilo que, com o marido, tinha dito dias antes. Falou tam­
bém sobre a antiga mãe, sobre as freiras do hospital e sobre as senhoras amáveis;
em suma, Nicole restabeleceu contato com toda a parte de seu passado anterior
à colocação na casa dos pais de criação cruéis, de quem "não falamos", disse a mãe,
"pois não saberíamos realmente o que dizer a eles", e também com o período hos­
pitalar que precedera a adoção.
Diante de mim, na consulta, Nicole fez muitos trejeitos, sempre com o
mesmo sorriso congelado nos lábios e com um olhar ansioso em direção à por­
ta'. A mãe voltou, como era costumeiro no final da consulta com a menina, e
eu disse algumas palavras, como: "Nicole está melhor e talvez gostasse de ten­
tar ir à escola maternal como as outras meninas". E disse à mãe: "Continue a
ser tolerante: a senhora está vendo como isso é bom para ela".

9 de dezembro, terceira sessão. Seis semanas se passaram. Estagnação com­


pleta. Os pais são bem-intencionados, mas pouco compreensivos. Uma escola
maternal, previamente sondada, recusou-se a aceitar a menina, por ela ser de­
masiadamente inadaptada em termos sociais. Havendo Nicole dito, certo dia,
que sua antiga mãe era má, os pais passaram a se valer de um leitmotiv de chan­
tagem: "Se você não for asseada e boazinha, vai voltar para lá".
Já o irmãozinho era fisicamente bem desenvolvido para quatro anos.
Adaptara-se bem ao novo ambiente e aos novos pais, e era freqüentemente cita­
do como exemplo para a irmã mais velha. Ele começou a falar, sem dificuldades
de pronúncia. As duas crianças se davam muito bem.
Estamos em 9 de dezembro e pude constatar com Bernadette, em meu
consultório em casa, os resultados obtidos com a boneca-flor. Nicole me pare­
ceu ter sido ferida por sua relação com a ama-de-leite na idade oral, e sugeri
em sua presença que a mãe lhe fabricasse uma boneca-flor, da qual fiz um
croqm.
Ao ouvir falar desse significante, boneca-flor, Nicole, como fizera
Bernadette, pulou de alegria na mesma hora.

3 de janeiro, quarta sessão. Aproximadamente três semanas depois. A trans­


formação foi completa desde a boneca-flor. Entretanto, a atitude da menina
desnorteia e inquieta gravemente a mãe. Com efeito, Nicole às vezes aperta

3 Nessa época, eu sempre via a criança a sós durante parte da sessão, mesmo que civesse antes conversado com a
mãe. Penso ter agido errado nessa ocasião e, atualmente, não mais agiria assim.

132
TRATAMENTO PSICANALÍTICO ..

a boneca-flor nos braços, comprimindo-a compulsivamente contra o peito.


Em outros momentos, atira-a na rua ou nos banheiros. Tentou jogá-la no fo­
go. Tem longos concilíábulos mudos e cochichados com essa boneca, objeto
de emoções ambivalentes e agressivas. Quando a mãe constata alguma tra­
vessura, Nicole abandona as mentiras denegatórias de antes e acusa a boneca­
flor, que passou a ser a única responsável por tudo o que a mãe reprova nela.
Diante da mãe, que me conta tudo isso na presença da criança, repito as
palavras ouvidas da boca de Bernadette:
- Mas, a senhora com certeza compreende que a maneira de ser boazi­
nha, numa boneca-flor, é o que os seres humanos chamam de besteiras. A gente
fica aborrecida, mas, para ela, isso não é ruim. É por querer ser boazinha que
ela faz coisas ruins.
Nicole fica absolutamente radiante com o que digo. Aquiesce. Volta-se
para a mãe, com gestos de confirmação do que eu disse, e acrescenta, quase que
distintamente:
-Pois é, é isso, eu não sabia explicar a você.
A mãe fica espantada, mas, como é positiva, mostra-se meio que dispos­
ta a tudo, ainda que a situação a atordoe.
Informa-me então que, quinze dias atrás, a boneca-flor havia desapareci­
do, o que a deixara aborrecida, porque ela mesma a tinha confeccionado. Todo
mundo - inclusive a própria Nicole, aparentemente - acreditava que ela es­
tivesse perdida.
Como o pai e a mãe adotivos haviam comprado tudo o que podiam para
agradar as crianças durante todo esse tempo, o que era uma coisa inédita para
Nicole, ela se interessara por animais de pelúcia e por bonecas humanas.
Sentira-se também atraída pelas tarefas domésticas, querendo agir como a mãe.
Pois bem, no momento de sair de casa para vir a meu encontro, eis que
pedira à mãe que colocasse a escada junto ao armário, para apanhar a boneca­
flor que estava em cima do móvel, "porque a Sra. Dolto vai ficar contente de
ver ela e curar ela completamente. Eu não queria mais ela assim! "
Chegou até a dizer à mãe, ao sair de casa, que me daria a boneca, que a
deixaria comigo; mas, no momento de sair da consulta, tornou a pegar a boneca­
flor e mandou que ela me dissesse até logo.
Durante essa sessão, os grafismos de Nicole mostraram progressos consi­
deráveis. Eram quadros construídos, casas construídas e cores bem empregadas.

20 de abril, quinta sessão. Quatro meses se. passaram. A mãe não pudera
voltar: a viagem era muito dispendiosa e, como Nicole estivesse bem, em sua

1 33
NO JOGO DO DESEJO

opinião, aquilo podia esperar. Progressos consideráveis, disse-me a mãe. Trouxe­


me uma pequena valise cheia de esculturas de plastilina que Nicole havia feito
em casa. Na última sessão, eu tinha aconselhado a mãe a comprar massa de mo­
delar. Essas esculturas poderiam ser atribuídas a uma criança de dez a doze anos.
Todas representavam animais, e sobretudo os animais selvagens vistos no jardim
zoológico. Nicole falava muito bem. Dissera à enfermeira, por exemplo, "Eu
vou muito bem. E a senhora, como vai?", com uma dicção perfeita.
Mas um pequeno drama havia ocorrido. Ao mesmo tempo em que desco­
brira as alegrias da escultura, Nicole começara a esculpir seus excrementos e a
pintar com eles as paredes do quarto das crianças, assim como os pés, o estra­
do e a cabeceira de sua cama e da de seu irmão. A mãe, furiosa e perturbada,
inicialmente a punira, obrigando-a a ficar na cama por uma hora. Depois, co­
mo a menina houvesse recomeçado o processo nesse intervalo, passara a deixá­
la na cama por várias horas. Em seguida, como isso não adiantasse nada e a
menina continuasse a fazer a mesma coisa nos dias seguintes, a mãe a excluíra
da mesa familiar às refeições, a pretexto de que ela cheirava mal. Parecia que,
para Nicole, o que a mãe dizia ou fazia não tinha nenhuma relação com sua ne­
cessidade de pintar o quarto das crianças com suas fezes. Não sabendo mais o
que fazer e não podendo vir ao hospital Trousseau, a mãe decidira deixá-la de
pijama e deitada em seu quarto por dez dias seguidos. Ao mesmo tempo, re­
conhecera que, toda vez que entrava no quarto, Nicole estava de pé com algu­
ma coisa para se distrair, e que ela própria, confusa com os acontecimentos, já
não estava aborrecida, mas desanimada.
Ao me contar isso, a mãe não parecia agressiva, e não devia ter-se mostra­
do muito má, a julgar pelo bom entendimento que havia entre ela e Nicole en­
quanto os fatos me eram narrados. Mas Nicole não conseguia renunciar a suas
brincadeiras excrementícias e sua mamãe não sabia como sair desse impasse.
Era só colocar-lhe as roupas e a menina as sujava de fezes.
Pareceu-me então que Nicole estava passando pela mesma fase que se havia
caracterizado, em Bernadet�e, por uma identificação com os animais, sendo os
afetos negativos suportados, no caso de Bernadette, pela macaca-bode expia­
tório. Assim, aconselhei a mãe de Nicole a fazer para ela uma boneca animal,
constituída por um corpo humano estofado de marrom ou cinza, vestida com
uma roupa que não fosse específica de menino ou de menina - calças e saia,
por exemplo, feitas no mesmo tecido -, e que tivesse, em lugar de uma cabeça
humana, uma cabeça de animal à escolha da menina. Essa idéia me ocorreu
porque, durante a consulta comigo, Nicole havia carregado no colo um urso
vestido, mas sem cabeça, e a mãe me dissera que, em casa, quando quis recos-

1 34
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

turar a cabeça no lugar, Nicole a havia arrancado de imediato, preferindo o ani­


mal acéfalo. Isso me fez pensar que o corpo animal sem cabeça corresponderia
aos instintos do estágio anal, não dominados, e que um corpo de aparência hu­
mana, mas com uma cabeça de animal, permitiria uma projeção catártica das
frustrações do estágio anal sofridas por essa criança.

Junho a novembro. De fato, no mês de junho, eu soube por uma carta da


mãe que, desde a fabricação da boneca animal, com corpo humano e cabeça de
"coelha" (escolha feita pela menina, depois de haver hesitado entre coelho e
gato - vide Bernadette), as brincadeiras excrementícias haviam desapareci­
do. Soube também que a criança, que continuara a esculpir com a massa de
modelar, havia começado, em especial, a se interessar enormemente pelos afa­
zeres domésticos e progredira muito na. escola, havendo obtido sucesso inclu­
sive numa tentativa escolar de colocá-la numa classe intermediária entre a ma­
ternal e o curso preparatório (o vilarejo não contava com uma verdadeira es­
cola maternal): a diretora, após uma tentativa de alguns dias, dissera à mãe
que a menina agora lhe parecia inteiramente adaptada e até dotada de uma in­
teligência particularmente viva; que era muito hábil com as mãos, em com­
paração com as outras crianças, que a professora a achava divertida e cativante,
e que ela fora imediatamente aceita pelas outras crianças.
Não obstante, ocorrera um incidente - do qual também tomei conheci­
mento nessa carta de junho - que havia inquietado os pais e a professora por
um momento: um belo dia, Nicole se recusara a comer. A mãe, depois de in­
sistir um pouco e em vão, havia pensado em mim e nos episódios anteriores e
resolvera deixar Nicole agir como quisesse. Isso tinha acontecido no início da
semana. Passara-se o dia sem que Nicole quisesse comer ou beber nada, mas ela
havia continuado alegre, gentil e cooperadora, e tinha ido à escola. À noite, a
mãe lhe dissera:
- Você deveria beber leite ou água.
E Nicole respondera:
- Ainda não.
No dia seguinte, a mesma manobra. Na escola, Nicole se mostrara cansa­
da e não quisera brincar na hora do recreio. Dissera à professora:
- Mamãe me proibiu de comer até sábado.
A professora, que conhecia as dificuldades de Nicole - os quinze dias em
que ela permanecera deitada por punição, no episódio das brincadeiras excre­
mentícias -, não havia ficado muito surpresa. Nos dias subseqüentes, Nicole
continuara a ser muito gentil, sempre se recusando a comer e exigindo sentar-se

135
NO JOGO DO DESEJO

à mesa, mas sem aceitar o prato e os talheres. A mãe, ao cabo de três dias, começara
a se inquietar. Nicole sentava-se à mesa, observando sobretudo o pai enquanto
ele comia, mas também a mãe e o irmão, com olhos de lobo e, segundo as palavras
da mãe, uma grande intensidade e uma grande fascinação no olhar. Acompanhava
o garfo que ia do prato à boca, observando como se mastigava e como os alimen­
tos desapareciam. A mãe, ignorando que Nicole tinha falado com a professora,
propusera-lhe repetidamente que comesse ou bebesse alguma coisa:
- Você vai ficar cansada demais e não conseguirá mais ir à escola.
Mas esbarrava sempre na recusa da criança.
Assim, Nicole recusava-se a comer, mas ia à escola. Quando voltava para
casa, a mãe a encontrava sentada ou deitada. Na quinta-feira, extenuada, havia
enfim aceitado - somente com a mãe, que a ajudara a beber, pois ela não que­
ria fazê-lo sozinha - uma caneca de café com leite pela manhã e às quatro ho­
ras da tarde, e, antes de se deitar, tinha bebido dois copos grandes de água,
dizendo à mãe:
- No sábado eu vou comer, isso vai ter acabado.
"Eu teria gostado de levá-la à senhora no hospital Trousseau, mas não foi
possível", escreveu-me a mãe. A própria Nicole lhe declarou: "Não vale a pena
dizer isso à doutora; é preciso eu não comer".
Na sexta-feira à noitinha, ao sair da escola, muito fatigada, ela anunciara
à professora, que se indagava o que estaria acontecendo:
- Amanhã vou poder comer, mamãe me disse.
No sábado, esfaimada, Nicole voltara a comer bem, dessa vez sem tornar
a falar no incidente.
Algum tempo depois, a mãe encontrou a professora e esta lhe contou a
história do "Mamãe não quer que eu coma até sábado". Teria ela agido daque­
la maneira para fazer sua mãe adotiva ser mal vista?, perguntou-me a mãe de
Nicole. "Não creio", respondi-lhe: "Acho que a mãe que não queria que ela
comesse não era a senhora, mas uma idéia de mãe que datava da época em que
ela passou fome na casa dos pais de criação".
Seja como for, no sábado em que voltou a comer, Nicole disse à professo­
ra, "Pronto, agora eu posso comer", e acrescentou as seguintes palavras, que a
professora repetiu à mãe, sem entender o que ela desejara dizer: "Desse jeito, a
chata está morta, e agora não me chateia mais".
Foi depois desse episódio que a cura se revelou completa. Não tive notícias
até o mês de novembro de 1 948, quando, a nosso pedido, foi-nos respondido:
"A menina está passando muito bem, quase já sabe ler, tudo está correndo bem
em casa e em sociedade, e o irmãzinho está seguindo o mesmo caminho".

1 36
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

Discussão dessas duas primeiras observações concernentes à uti­


lização da boneca-flor em psicoterapia psicanalítica*
Forneci em detalhes o protocolo dos dois primeiros tratamentos em que
utilizei a boneca-flor, como um elemento deliberadamente introduzido na te­
rapia psicanalítica para servir de suporte à transferência.
Disse como me ocorreu a primeira idéia de recorrer a esse objeto, a propósi­
to do caso particular de Bernadette. O encadeamento subseqüente dos fatos
pareceu-me tão notável, no tocante à rapidez da evolução do tratamento, que
eu quis experimentar uma segunda vez o mesmo procedimento no caso de
Nicole, a quem atendi no hospital Trousseau, embora a conduta desta fosse, a
julgar pela aparência, diametralmente oposta à de Bernadette; mas esse caso me
parecia corresponder a um diagnóstico psicanalítico idêntico: comportamento
histérico procedente de uma ferida narcísica no estágio oral, que impedira a in­
tegração das normas comuns aos seres humanos de nossa sociedade, normas es­
tas que supõem a sublimação das emoções próprias desse estágio, uma subli­
mação fundamental no que concerne à estruturação do psiquismo.
A tentativa foi um novo sucesso. O estudo comparado das duas obser­
vações me pareceu digno de ser empreendido muito de perto.

Caso Bernadette. Podemos distinguir duas fases.


Na primeira fase, tudo acontece nas sessões; na segunda, o trabalho é feito
tanto em casa quanto nas sessões.

Primeira observação. Assistimos, no intervalo de um instante (um instante


preparado por todo um trabalho antes que se efetuasse a transferência para a
boneca-flor, suporte que, nessa situação, desempenhou o papel de objeto auxi­
liar da médica), ao desaparecimento da fonação monocórdia, ao desaparecimento da
mímica cristalizada num sorriso estereotipado e ao desaparecimento da posição
da cabeça em torcicolo, posição esta que a menina havia exibido desde a aquisição
da postura ereta e da marcha. Todos esses desaparecimentos se revelaram defini­
tivos. Quanto à voz, o surgimento de modulações e de entonações seguiu-se à
transformação, de maneira igualmente definitiva.
Como se produziu essa reviravolta?
Retomemos a observação. Na oitava sessão, houve o episódio da voz sus­
surrada, com a boca de Bernadette em meu ouvido. Esse sussurro, que foi di-

* Rev11e Française de Psychanalyse, n. 1 , 1950 (revista e ampliada).

1 37
NO JOGO DO DESEJO

rígido a mim, mas que esteve na origem de sua transformação vocal com todas
as outras pessoas, fora precedido por outro comportamento, pelo qual a meni­
na parecia ter percorrido a distância que a separava do livre acesso às trocas
lingüísticas. Antes de falar comigo, não sobre ela mesma, mas sobre aquela
menina insuportável e má, Bernadette realmente havia, no princípio, esco­
tomizado minha presença: o ser com o qual começou a exprimir verdadeira­
mente o que sentia foi a chamada boneca-flor "malvada", ou antes, como
mostrariam os acontecimentos seguintes, ela mesma, projetada na boneca-flor,
no decurso da cena muda e imitada de "conversa" da boca à corola e da corola
ao ouvido. A menina traduziu as emoções instintivas de agressividade, libe­
radas graças à projeção do sentimento de culpa na boneca. Assim, nesse colóquio
com ela mesma (com um eu auxiliar que a referia ao eu ideal que era a mãe, falan­
do com o eu pelo lado do isso, ou melhor, do pré-eu frustrado), ela como que perdoou
a si mesma por ser palco de emoções desajustadas. Depois, expressou a mim, ain­
da sem dar som a sua voz, a relação de causa e efeito que havia entre sua enfer­
midade corporal (intricada por ela com a angústia arcaica, em conluio com a
angústia primária de castração, condição de toda menina) e seus distúrbios de
adaptação à sociedade, nas condições que lhe eram próprias. Pôde também ex­
primir seu sentimento de frustração em relação às outras meninas, tanto no
plano da vida vegetativa quanto nos das vidas motora e afetiva: um sentimen­
to que havia acarretado uma angústia de insegurança precoce nas relações vi­
tais em todos os seus aspectos, bem como feridas narcísicas igualmente preco­
ces, senão para ela, pelo menos para seus pais e para os médicos ansiosos.

Segunda observação. Após essa transformação ocorrida na esfera oral, assis­


timos ao desaparecimento da aparência doentia, da acentuada falta de desenvoltura
dos movimentos e de sua descoordenação - de todos os sintomas motores que
deixavam a menina inapta para a vida em coletividade, fazendo dela um es­
petáculo para os outros, que não podiam deixar de observá-la por todos os lu­
gares por onde passava.
Entretanto, a fraqueza congênita do lado esquerdo, organicamente enfer­
mo, a paresia, a ligeira atrofia e os distúrbios vasomotores persistiram. Somente
a atitude psíquica afetiva da criança diante de seu corpo se modificou, e bastou para
transformar o aspecto de sua enfermidade, não só do ponto de vista estático,
mas também do ponto de vista das funções dinâmicas, de modo que a menina
pôde, dali em diante, integrar-se na comunidade social e compensar, através da
inteligência e da comunicação, a desvantagem acarretada por essa enfermidade
anatômica que pesava sobre sua vida, comparada à das outras crianças.

1 38
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

Terceira observação. O comportamento de Bernadette com as pessoas de seu


círculo modificou-se a partir do momento em que ela projetou na boneca-flor­
bode expiatório tudo o que a fizera sofrer nas experiências vividas. Ela pôde in­
teressar-se pelos outros seres (a princípio, por seu urso de pelúcia) de maneira
maternal. Deixou de detestar todo mundo, como dizia e fazia.

Quarta observação. O tipo e a evolução da transferência que a menina viven­


ciou em relação à boneca-flor são muito particulares. Creio que o objeto vege­
tal impõe ao sujeito uma atitude particular, que gera toda a originalidade e
eficácia curativa do método. Mas o que também cabe observar é que a cabeça
da boneca não tinha olhos, nariz, nem boca - nenhuma saída de comunicação
- e que ela não tinha pés, mãos, frente ou costas. Creio que isso é extrema­
mente importante, se considerarmos que o pequenino lactente não sabe que
tem rosto: o rosto do que ele sente é o de sua mãe. Também nesse caso, não
existe rosto. Uma criança que já se viu no espelho, ao contrário, é apoiada para
não projetar na boneca-flor sua pessoa de hoje: pode projetar nela seu senti­
mento inteiramente arcaico.
Bernadette fez a boneca-flor suportar, por projeção, toda a carga culpabi­
lizadora pelos estragos de que seu círculo tinha sido vítima. Ela era assim. Era
sede de sensações dolorosas, que provinham, de um lado, de seu estado visce­
ral e motor, e de outro, de sua experiência atual: angústia de castração ligada
ao complexo de Édipo. A tudo isso, a boneca-flor "reagiu" em lugar de
Bernadette, mas de uma forma isenta, no que dizia respeito à menina, de qual­
quer intencionalidade, e sem nenhuma finalidade oposicionista ou negativista.
"A maneira dela de ser boazinha se chama, para os outros, ser má." Parece que é es­
sa impossibilidade de projetar nesse objeto atos deliberadamente bons ou maus,
e portanto, intenções - uma ética dada pela mãe desde a idade oral, quando
ela fala com a criança -, que responde pela eficácia da projeção do sujeito nu­
ma figura vegetal humanizada. Creio que poderíamos chamar primeira etapa à
fase de neutralização do supereu, que até então bloqueava a expressão da cri­
ança, tanto mímica quanto vocal.

Quinta observação. Assistimos em seguida, graças ao apagamento do su­


pereu, à conquista da livre expressão das intenções motoras que eram julgadas
más pelo eu (em ligação com o eu ideal, introjeção dos pais). Antes de encon­
trar sozinha a solução, na projeção de si mesma sobre um animal nefasto,
Bernadette tomou consciência de sua ambivalência, ou, como creio ser mais exa­
to dizer, da dualidade existente nela.

1 39
NO JOGO DO DESEJO

Enquanto a mão do lado enfermo expressava seu amor por mim de maneira
sádica (arranhar e morder até tirar sangue - "é o jeito dela de amar"), num es­
boço de desejo canibal e destruidor, a mão direita, no lado sadio, traduzia o
amor através da ternura e dos afagos.
De acordo com um ou outro lado do corpo, parético ou não, a apreensão,
pela consciência do sujeito (Bernadette), de um mesmo impulso positivo em
relação ao outro (o eu como objeto, como pessoa inteira), de uma mesma
emoção, encontrava uma expressão contraditória, resultante da confluência de
dois processos contraditórios de identificação com o objeto amado. Daí o fato
de Bernadette apreender simultaneamente seu próprio eu e o objeto amado à
maneira da dualidade ética, o que em contrapartida acarretava, pelo choque,
um conflito de sensações e percepções. A criança estava a par de tudo isso e se
confrontava com impulsos de conseqüências tanto boas quanto más (por vezes,
mais más do que boas). Preferia ignorar a realidade, penosa demais e perigosa
demais para o sentimento de sua unidade interna. Sentia essa unidade como
que adoecida por sua hemiplegia. Assim, Bernadette reproduziu comigo os
traumas reiterados de seus primeiros dias de vida. A experiência demonstrou
que essa revivescência lhe permitiu liberar a libido que permanecera fixada
nesse estágio. Não só o trauma do nascimento tinha sido violento, como tam­
bém as primeiras pulsões vitais - mamar, beber (vividas com angústia pelos
pais) - tinham provocado sofrimento digestivo e vômitos de sangue. É com­
preensível que, em Bernadette, qualquer impulso no sentido de viver melhor,
qualquer "vontade", desencadeasse uma angústia ligada a um sentimento de
ameaça, de sofrimento, de perigo e de perda da integridade. Para a lactente
Bernadette, viver tinha sido equivalente a sofrer. O que lhe restara disso era o
sentimento de que tudo o que é vida é ameaça, tudo o que é bom e tentador
está envenenado, até mesmo a própria mãe: "Quando ela está perto, eu não me
sinto bem, e quando ela não está, continuo não me sentindo bem".
Para Bernadette, desvencilhar-se da mãe, da presença dela, ligada desde a
origem às experiências dolorosas da idade oral, era, por associação, tentar en­
contrar o direito de viver tranqüila e de se livrar do sofrimento. Vemos aí a
fonte da atitude paranóica de Bernadette diante da mãe, a origem de sua ati­
tude sem saída, pois, dentre os adultos que cercavam a menina, a mãe e o pai
eram os únicos que procuravam compreendê-la e ajudá-la, malgrado as grandes
dificuldades trazidas pela criança. Ela própria, Bernadette, amava as pessoas de­
les como sujeitos, mas a presença corporal dos pais estava associada a seu cor­
po sofredor. Bernadette transformara-se num sujeito que só se sentia coerente
num desejo perverso (sem castração) do eu, tal como se projetava na macaca.

140
TRATAMENTO PSICANAL ÍTICO . .

Sexta observação. A boneca-flor, convertendo-se no suporte dessa perversão,


livrou Bernadette, em grande parte, da dimensão negativa de sua ambivalên­
cia em relação a sua verdadeira mãe, e de um efeito contrário de angústia de
culpa. A menina libertou-se de seu caráter paranóico pela projeção nos animais: a fi­
lha-do-lobo, projeção do objeto parcial mão esquerda do corpo, lado enfermo
(nona sessão), e a macaca, personagem fantasmático que representava o eu,
frustrado por não ser semelhante aos outros seres humanos.
Ao quadro clínico de criança odiosa, despótica, caótica, briguenta,
perseguida-perseguidora, jamais relaxada, sucedeu-se, após a perda de interesse
na boneca-flor-bode expiatório, uma etapa de apaziguamento.
A segunda fase do tratamento consistiu, após o desinvestimento da
boneca-flor, no investimento positivo dos bonecos animais, com exclusão de
um só deles - imagem perseguidora que era, na realidade, um personagem
imaginário, cuja representação ela havia encontrado na pequena figurinha de
seu zoológico-arca de Noé: o macaquinho marrom em miniatura que tinha
mamilos visíveis, ao passo que o outro macaco em miniatura, cônjuge dessa
macaca, não os possuía.
Essa foi uma fase absolutamente independente de qualquer intervenção
de minha parte. Compreendi essa etapa como necessária, na medida em que
ela introduziu o suporte de uma projeção para as emoções do estágio anal.
A macaca era o bode expiatório dos sentimentos de culpa angustiantes li­
gados às pulsões sexuais de Bernadette, confusamente consciente do ponto
de partida dessas pulsões em sua zona ano-urogenital 4 . Essa zona talvez fos­
se também a sede de uma inferioridade da forma, de uma "enfermidade",
nesse caso em relação ao homem (seu pai, "o homem-lua com um bastão", e
Bertrand, seu amiguinho, que eram constantemente assemelhados um ao
outro nos enunciados da menina e, ao que parece, confundidos num mesmo
modo de apreensão afetiva, sendo ambos percebidos como meninos, pos­
suidores de pênis).
A macaca foi para Bernadette, a princípio, suporte de suas emoções agres­
sivas em relação à mãe. Essa agressividade, atribuída a um ser exterior, deve ser
aproximada da atribuída à mão esquerda do próprio corpo (nona sessão). É sádi­
ca em virtude das boas intenções. É por amar Bernadette que a macaca quer
penetrar nela pela boca e, através de sua presença, transformá-la em fêmea ani­
mal, assim privando-a de qualquer futuro feminino humano (que se constrói,

4 Desde a primeira infância de Bernadette, a observação do bumbum do bebê angustiava os pais (emissão de
sangue pelo ânus).

141
NO JOGO DO DESEJO

nas meninas, pela cumplicidade harmoniosa com a mãe e pela introjeção e iden­
tificação com ela).

Sétima observação. Após a ocorrência da fantasia da macaca (décima quar­


ta sessão), que se seguiu a comportamentos maternalizantes centralizados no
coelho, e (na décima terceira sessão) ao comentário sobre as três boli nhas -
clitóris e mamilos -, a menina pareceu traduzir seu temor de que a maca­
ca, símbolo de uma atitude feminina inimiga das normas sociais, penetrasse
nela junto com os alimentos, em virtude da absorção afetiva (introjeção de
emoções angustiadas) da mãe desde os primeiros dias de vida de Bernadette.
A macaca serviu de objeto de projeção do mal-estar de viver de que era pre­
ciso fugir: do mal-estar que acompanhava todos os cuidados com o corpo,
tanto na esfera oral (no rosto) quanto na esfera anal (nas fraldas). De fato, a
criança se nutria das emoções que acompanhavam todos os cuidados presta­
dos pela mãe a seu corpo. E, naquilo que sentia, todas as satisfações corpo­
rais ou sofrimentos que experimentava sozinha consigo mesma, em seu berço,
na ausência da mãe, tinham o rosto, o aspecto aparente da mãe. Quando tu­
do corre bem com o recém-nascido, a mãe que sacia sua fome e sua sede, e
que fica satisfeita com as fezes bonitas do bebê, associa-se ao prazer de vi­
ver no estado vegetativo passivo por todo o corpo, ao mesmo tempo em que
se associa ao prazer do funcionamento das zonas oral e anal.
A nutrição, impossível, dolorosa e perigosa, e o sangue nas fraldas trans­
formaram a mãe e as pessoas que cuidavam de Bernadette, no decurso de suas
experiências digestivas (inclusive o médico de motocicleta), em seres desen­
cadeadores de angústia e insegurança - portanto, de emoções negativas liga­
das a sua presença na realidade. Inversamente, telefonar para a mãe ou escre­
ver para ela era tranqüilizador. A mãe da etapa oral foi revivida pela primeira
fase de transferência positiva para o objeto vegetal imaginário, quando eu
disse: "talvez ela quisesse uma boneca-flor", e Bernadette pulou de alegria:
"sim, sim, sim, uma boneca-flor! " (aliás, exatamente como Nicole, mais
tarde). A materialização desse objeto imaginário permitiu descarregar sobre
ele, na realidade, a angústia da díade mãe-lactente e, depois, permitiu desin­
vesti-la, uma vez exprimida toda a agressividade. Creio ter compreendido
que, na etapa projetada sobre a macaca, tratou-se do mesmo processo, mas
dessa vez com a mãe arcaica da etapa anal.
No caso de Nicole, foi "Mamãe que não quer que eu coma". Na verdade, para
Bernadette, a "Mamãe" não era a mãe da realidade, pois, quando esta lhe falta­
va, a criança comia ainda menos do que quando a mãe estava em casa, e só en-

1 42
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

contrava uma relativa possibilidade de aplacar sua grande fome presentifican­


do-a em suas fantasias, pensando nela (a carta durante a ausência). Nesse re­
torno consolador à relação amorosa com o objeto falante inteiro, com a mãe re­
al, a menina pôde enfrentar - estando subjetivamente mais force (ao partici­
par da força tranqüilizadora de sua verdadeira mãe, imaginada e com quem ela
falava, e portanto, presente em pensamento, mas não no espaço, em função do
resquício de angústia que sua presença trazia) - o perigo real oculto no ali­
mento, articulado com a vida vegetativa-perigo (mãe-perigo) da primeira in­
fância, da qual seu corpo conservara a lembrança.
A partir do momento em que a figurinha de mamilos claros do macaco de
gesso apelidado de macaca, objeto real, suportou a responsabilidade culpada do
investimento negativo da libido anal em relação à mãe, a criança pôde sentir­
se no direito (e portanto, responsável, mas não culpada) de lutar contra suas
emoções edipianas com uma agressividade sádico-anal, e de lutar contra a lem­
brança da mãe ansiosa com seu bumbum e, mais tarde, com suas anomalias mo­
toras. Bernadette o fez em nome de seu eu, já enriquecido pela agressividade
oral, recolocada a seu dispor a partir da boneca-flor, e sustentado por sua iden­
tificação com os adultos e com o meio circundante, que a amavam por ela mes­
ma, a despeito de sua enfermidade.
Assim, ela pôde reencontrar o amor terno pela mãe e a faculdade de co­
mer livremente, a qual, em termos fisiológicos, tinha sido um problema dos
primeiros dias de vida, sem dúvida ligado a um traumatismo neonatal (ou a
uma doença neurológica já no fim da vida fetal). Quase que de imediato,
Bernadette demonstrou um comportamento gestual de menina cooperadora,
em casa, e de mulher que ajudava as crianças, na escola.

Oitava observação. A necessidade da cerimônia mágica do espetacular lin­


chamento da macaca parece ter sido a de ab-reagir toda a libido anal investida
no sintoma obsessivo (a anorexia), intricada com a dificuldade de relações so­
ciais narcisizantes, pela impossibilidade de uma motricidade desenvolta na
idade da aquisição da marcha.
No decurso dessa cerimônia, tudo o que representava para a criança a so­
ciedade, o mundo real (os pais, a empregada) e o mundo fantasmático (seus
brinquedos, seus animais e suas bonecas) participou, ou seja, compartilhou
como espectador, na cena psicodramática de Bernadette, da responsabilidade
pelo julgamento e pela execução infamante e radical. Esses espectadores pas­
sivos foram uma força tranqüilizadora, foram testemunhas que concordavam
com Bernadette. O pai , ao se decidir a agir e expulsar o fetiche do mal, per-

143
NO JOGO DO DESEJO

mitiu-lhe consumar o assassinato da parte negativa anal que estava nela e que
a tornava, malgrado a outra parte, paranóica. Dessa cena surgiu um supereu
unificador, frágil, porém sadio, ou seja, adaptado tanto às exigências do eu
quanto às de um eu ideal ainda pré-edipiano, mas já genital e feminino, garan­
tia da responsabilidade pós-edipiana de um ideal de eu adaptado à sociedade.
O esmagamento definitivo da macaca marrom malvada por seu bom marido
macaco (também marrom, porém bom - e sabemos que Bernadette tinha
desenhado o sol marrom) foi um ato sádico perpetrado em cooperação com o
pai. Essa ajuda necessária do pai foi uma espécie de coito no plano das fan­
tasias sexuais da idade anal, pelo qual se reduziu à impotência a imagem ne­
fasta da fêmea arcaica do macaco bom, ou seja, segundo creio, a mãe, intro­
jetada, projetada e fantasiada como origem do sentimento de culpa edipiano.
Ora, a mãe, que na realidade era aquiescente, porquanto assistiu à cena, com­
passiva e atenta a Bernadette, provou não poder confundir-se com a mãe
fantasmática.
O fato indubitável é que, dessa cena de linchamento da macaca tão espe­
cialmente investida, Bernadette emergiu transformada e aceitou as realidades
sociais. Sua adaptação social, segunda etapa do tratamento, do qual a primeira
fora a readaptação da criança a ela mesma, está visivelmente ligada a essa des­
truição da macaquinha marrom, na qual ela havia concentrado a fantasia da
macaca que queria penetrar em seu corpo pela boca; da mesma forma, as mu­
danças na maneira de ser e de se exprimir (postura, mímica, gestos, voz) tinham
estado ligadas ao episódio da boneca-flor amada e depois renegada, embora não
julgada responsável. Por fim, a essa projeção da ética e do narcisismo oral feri­
do pôde seguir-se uma "cura total pela doutora".
Se relatei as declarações da senhora que acompanhava Bernadette, é porque
elas exprimiram bem a rapidez da transformação radical da menina para seu
círculo familiar.
Algumas das pessoas que leram essa observação me perguntaram: "E o es­
trabismo, que aconteceu com ele?"
Eis os fatos: quando Bernadette chegou a mim, fazia seis meses que esta­
va em tratamento de reeducação através de um método de ginástica ocular de
origem inglesa, e seu estrabismo interno, embora muito evidente para mim,
estava, no dizer da mãe, muito melhor em relação ao que tinha sido. Infeliz­
mente, ao sair da primeira visita a meu consultório, toda a aquisição desses
meses de reeducação se perdeu. Com a retomada materna dos exercícios re­
comendados, a "correção" voltou a ser precariamente efetuada, mas não se man­
teve. Após o episódio da boneca-flor, o estrabismo diminuiu muito e, no final

144
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

de 1 948, talvez com a ajuda dos exercícios, a menina não apresentava mais do
que um ligeiro estrabismo monocular mal perceptível, e somente nos momen­
tos de maior fadiga.

Comparação entre as duas observações


Se compararmos agora as duas observações, ficaremos impressionados
com a analogia do processo de cura psico-sensorial em N icole e em Bernadette.
Não dispomos de uma observação tão detalhada de Nicole quanto de
Bernadette, já que tive apenas cinco sessões com a primeira, distribuídas num
período de sete meses. Lembro-me de que, no hospital, essas sessões em meu
ambulatório realizavam-se diante de um público exclusivamente constituí­
do de alguns psicanalistas, à parte a supervisora. A criança sentava-se à mes­
ma mesa quadrada que eu, não frente a frente, mas à minha esquerda, no la­
do da mesa perpendicular ao meu. Atrás de mim, uma parede. Atrás da cri­
ança, ninguém. Em frente a ela, uma janela. Sob a janela, à minha direita e
em frente à criança, portanto, quatro ou cinco pessoas de jaleco branco como
eu. A enfermeira circulava pelo aposento.
Os pais que acompanhavam a criança sentavam-se ao lado dela, em
cadeiras colocadas à sua direita e à minha esquerda, durante a primeira parte
de cada visita. Na segunta parte, a criança ficava sozinha comigo e com os
assistentes, que tinham apenas um papel de presença muda.. Ílra freqüente,
na chegada e na saída, as crianças dizerem bom-dia e até logo a todos. No
conjunto, e salvo alguns casos excepcionais, a platéia confundia-se comigo
numa mesma coloração transferencial. Apenas à enfermeira, que entrava e
saía, muito discreta, das salas de espera e de consulta, poder-se-ia atribuir
um valor um pouco diferente.
No caso particular de Nicole, os conselhos sobre a verdade a ser dita às
crianças quanto a sua adoção foram dados à mãe fora da presença da menina, ao
final da primeira consulta, na qual eu tivera, inicialmente, uma conversa com
a criança na presença da mãe.
O que me impressionou nesses dois casos foi a atitude semelhante das duas
crianças diante da boneca-flor: muito positiva a princípio, depois ambivalente e, por fim,
negativa, quando a boneca-flor foi tomada como bode expiatório, responsável, mas não
culpado, pelas pulsões mal adaptadas da criança. A recuperação da mobilidade
da mímica traduziu o desaparecimento da angústia; depois veio a desobstrução
da liberdade de expressão oral laringo-faríngea: ruídos e, em seguida, a fala; por
fim, a expressão verbal perfeita, sem que houvesse nenhuma interferência de
reeducação da fala. E houve a mesma atitude de renegação da boneca-flor, que

1 45
NO JOGO DO DESEJC

era atirada para longe dos olhos, mas trazida à Sra. Dolto para que a curasse e
a tornasse, portanto, novamente aceitável para a criança que a amava, apesar de
sua "perversão" - que a criança justificava em seus enunciados.
Com Nicole, deu-se o desaparecimento da perversão do paladar, da dip­
somania e da perversão das sensações (vide o "isso dói melhor" : ela sentia a dor
física, masoquisticamente, como agradável). A construção de uma personali­
dade semelhante à de outras crianças projetou-se então nos grafismos, expressão
de uma sublimação oro-uretro-anal. Todas essas transformações foram permi­
tidas pela transferência, para a boneca-flor, das emoções agressivas perversas
que tinham sido impostas à criança em questão na idade oral. Por fim, durante
os quatro meses que separaram a quarta sessão da quinta, o trabalho psicanalítico
prosseguiu sozinho, sem exigir uma visita ao hospital Trousseau. Por con­
seguinte, as etapas foram as mesmas para Nicole e para Bernadette.
Vejamos a comparação mais de perto:

1 . Em Bemadette, os impulsos motores sádicos, socialmente maus, foram


projetados em duas fantasias: uma macaca, animal-fêmea-imaginária que a figu­
rinha do zoológico em miniatura serviu para representar, e uma filha-de-lobo
imaginária, representada pela mão enferma.
Já Nicole fabricou numerosos objetos pequeninos, que representavam, de
maneira plasticamente muito bem-sucedida, animais selvagens mas neutros,
efetivamente vistos no zoológico. Isso correspondeu a uma sublimação ou à in­
tegração de parte da libido sádico-anal (a destreza manual), ao passo que, no
mesmo momento, Nicole investiu outra parte notável dessa mesma libido anal,
ao redescobrir o interesse por suas fezes e pelas brincadeiras excrementícias, até
então ligadas a sintomas ansiosos não-integráveis no eu, que não tinham podi­
do passar por um estágio de recuperação valorizadora.
Seria possível falarmos aqui em libido do eu e libido do objeto, termos intro­
duzidos por Freud para distinguir dois modos de investimento da libido, con­
forme ela tome por objeto a pessoa propriamente dita ou um objeto externo?
Não creio, pois ainda não existiam, nem numa, nem noutra, um eu ou um ob­
jeto. Mais precisamente, se havia em Bernadette uma relação de objeto, esta era
sobrecarregada pela relação com um objeto que parasitava seu eu em decorrên­
cia de sua enfermidade: um objeto arcaico matemo, misturado com seu eu; para
Nicole, ainda não havia eu, já que a menina não falava.
Em Bernadette, havia uma enfermidade que passava, se assim podemos
dizer, pela linha mediana do corpo: um lado do corpo não estava no mesmo ní­
vel de pré-eu que o outro. Um lado,do corpo - o lado paralisado - não dis-

1 46
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

punha da fala e era representado pelo animal que não tinha a fala. Em Nicole,
ao contrário, nenhum dos dois lados do corpo, que era sadio, detinha a fala.
Quanto a Nicole, ela não parece ter tido uma intenção maligna nem ob­
jetivado expressar uma oposição agressiva a sua mãe adotiva, com suas brin­
cadeiras excrementícias, mas sua afeição pela mãe e seu desejo de se integrar na
vida comum da família eram demasiadamente tensos. Nicole ainda não tinha
um eu ideal, ou ele era frágil demais, ao lado do prazer erótico-anal bruto que
suas brincadeiras lhe asseguravam. Não esqueçamos que essa menina tinha si­
do abandonada por sua genitora quando do nascimento de seu irmão e que, vin­
do este a segui-la de perto no abandono, ambos foram posteriormente negli­
genciados, rejeitados e maltratados por pais de criação indignos. A mãe de cria­
ção não investiu na linguagem os funcionamentos eróticos sádico-anais.
Em Nicole, tal como em Bernadette, a solução foi encontrada espon­
taneamente; a transferência afetiva para um boneco aüimal de forma humana
fez com que o comportamento se modificasse e permitiu à criança adaptar-se
às normas da sociedade. Nicole fez por si mesma a projeção num coelho, depois
de haver hesitado em relação ao gato. Foi de propósito que não sugeri a idéia
da macaca, talvez erroneamente, mas prefiro sempre deixar que a criança con­
duza suas próprias fantasias. Bernadette fez uma contração das duas represen­
tações, coelho e gato, combinando um e outro num só desejo durante a décima
sessão. Ela já tinha entre seus brinquedos pessoais, antes do tratamento, uma
arca de Noé com numerosos casais de animais. Mas isso não aconteceu com
Nicole, e vimos como esta se valeu de uma visita feita na realidade ao zoológi­
co de Vincennes para encontrar objetos de projeção que ela mesma fabricou.
Parece que, nesses dois casos, o processo de cura pela boneca-flor foi o
seguinte:
- liberação das emoções terno-sádicas próprias da ética canibalesca da
idade oral;
- recuperação de um narcisismo sem angústia, sucedendo-se a uma si­
tuação de narcisismo ansioso fóbico.

2. Em Bernadette, a angústia tentava ah-reagir na agressão a outrem, nu­


ma atitude ativamente perversa (sádica) perante o meio ambiente e passiva­
mente perversa (masoquista) perante ela mesma.
Em Nicole, a angústia se manteve dentro dos limites da recusa a falar
com os adultos, vivenciados como perigosos; ela não os atacava, mas se es­
quivava sem externalizar agressividade; em relação a si própria, parecia evi­
tar perceber que existia, mas não se detestava; ao contrário, sua dipsomania

1 47
NO JOGO DO DESEJO

traduzia, numa forma regressiva, sua busca de identificação com um animal,


bem como sua busca de compensar as frustrações passadas através do retorno
a uma primeira mãe, da época em que ela não tinha as mãos a seu dispor, em
decorrência da não-motricidade do lactente. O gesto de mamar o seio da mãe
adotiva indica bem que Nicole tinha sido uma lactente sadia antes de ser en­
tregue aos primeiros pais de criação, mas que não tinha havido um processo
de desmame (castração oral, cuja sublimação é a relação oral com a mãe para
além da eliminação do contato da boca com o mamilo).

3 . Uma vez recuperado o narcisismo oral e estando a criança, desde então,


livre para se exprimir sem se sentir culpada, o pré-eu sentiu-se reforçado pela
energia agora utilizável das pulsões anteriormente fixadas no estágio oral do
desenvolvimento da libido, doravante castradas e simbolizáveis. A partir daí,
as relações se deram sem angústia, e cada uma das meninas pôde evoluir para a
expressão das emoções do estágio anal.
Em Bernadette, a exteriorização das pulsões assumiu uma forma verbal
(ver a oitava sessão), numa tradução grosseira e escatológica de fantasias delin­
qüentes, delirantes e obsessivas.
Em Nicole, isso se traduziu sob a forma da coprofilia compulsiva, ma­
nual e irresistível.
Mas, em ambas, tratou-se da exteriorização narcísica das pulsões do
estágio anal.

4. Nas duas meninas, a adaptação à sociedade se fez pela dissociação das


emoções instintivas em dois grupos: aquelas que não eram aceitáveis para o su­
pereu foram projetadas numa fi;ura animal até então amada; cada criança par­
ticipou da escolha dessa figura, mas, diríamos, como passivamente seduzida,
homossexualmente passiva: a figura animal desempenhou, no fundo, o papel
de um eu auxiliar arcaico para as pulsões pré-genitais femininas e passivas; de­
pois, num segundo tempo, a figura animal foi sacrificada como bode expiatório,
carregada de toda a culpa da criança quanto a "seu ser".
Para Bernadette, a presença da macaca, sem que ela tivesse nada a ver
com isso, estragava a vida de todas,as outras criaturas. Quanto a sua mão en­
ferma, chamada filha-de-lobo (representação da oralidade canibalesca neutra),
sua maneira de amar era subentendida por uma espécie de ética sanguinária
(talvez a ética fetal, vampiresca, e a do recém-nascido, canibalesca, mas tam­
bém a ética do tempo em que uma mamãe colhia e pegava para si o sangue
nas fraldas). A macaca representava um desejo impotente de comunicação in-

148
TRATAMENTO PSICANALÍTICO. .

terpsíquica de sujeito a sujeito, e a garra filha-de-lobo representava o desejo


parcial pelo objeto parcial.
Penso que as duas figurinhas sacrificadas foram bodes expiatórios, tan­
to da culpa motora anal quanto da culpa pelas pulsões genitais edipianas,
impotentes para serem ditas, já que essa culpa provinha da rivalidade com
a mãe atual.
Em Bernadette, essa projeção foi carregada de extrema tensão. A macaca
era totalmente inaceitável.
Em Nicole, tratou-se de um urso. Este seria inaceitável se provido de uma
cabeça, mas se tornava aceitável mediante a decapitação - mutilação que sim­
bolizava a supressão da consciência de sua responsabilidade e até da culpa por
suas pulsões ano-vaginais.
Como não aproximar esses fatos da imagem que essas crianças pretendiam
dar de si mesmas ao mundo exterior, e também da maneira como ambas se si­
tuavam em relação à sociedade antes do tratamento? Bernadette tinha sonhos de
potência mágica, de superioridade mágica, negando a existência da realidade;
queria toda a massa de modelar somente para si e se pretendia forte e aterro­
rizante. Nicole, ao contrário, dava-se ares de uma grande débil, patologicamente
passiva, gozando por ser rejeitada, por ser dolorosamente ferida, desconhecida,
impotente (chegou até a ficar dez dias na cama), frágil e pequena. Bernadette
era perverso-paranóica, enquanto Nicole era perverso-masoquista.

5. A cura, em ambas, seguiu-se ao investimento ternamente positivo num


mamífero assustadiço e amável, doce de acariciar, indefeso e cheio de atrativos
-o coelho, mais ou menos aparentado, afetivamente, no dizer de ambas, com
o gato; este é um símbolo quase genericamente encontrado da sexualidade fe­
minina, da zona erógena vulvar que busca provocar carícias, movida por pul­
sões parciais eróticas passivas; gato e coelho: dois animais extremamente mei­
gos, sendo o coelho mais fóbico do que o gato, que, quando algo o desagrada,
esquiva-se e foge.

Sei que este estudo crítico e todos estes comentários prestar-se-ão a dis­
cussões. Aliás, é com esse objetivo que os formulo. De minha parte, só o que
importa são os processos de cura. Mas, no que concerne aos fatos e às obser­
vações que os acompanham, refleti à minha maneira, como faz cada um de nós
diante de qualquer experiência.
Quando tive a experiência dessas duas curas clínicas, ainda não sabia quais
seriam suas conseqüências remotas, nem que a cura seria definitiva para as duas

149
NO JOGO DO DESEJO

meninas. Perguntava-me se não se teria tratado, com a introdução desse objeto


transferencial, da utilização, de um modo mágico, de uma de minhas próprias
projeções.
Teriam os fatos sido os mesmos, se a boneca-flor tivesse sido atirada no
circuito afetivo do sujeito por outra pessoa, homem ou mulher, que não eu mes­
ma? Não seria aquela boneca vegetal, para a criança, o suporte de uma idéia
proveniente de mim e, portanto, um objeto que me representava em parte, e
que, em vista disso, seria apenas um dos aspectos das transferências particu­
lares? Não teria a boneca-flor nenhum papel em si mesma? Era preciso fazer
observações mais munerosas. Dediquei-me a isso, e encarreguei também alguns
dos assistentes que haviam testemunhado a evolução do caso de Nicole em meu
ambulatório de me trazerem suas observações. A resposta a essa pergunta me
parece ter sido dada pela observação de Jeanne.

Observações parciais ou resumidas acerca do emprego da boneca­


flor em outros casos

Observação 1 : M onique, sete anos.


Examinada em nosso ambulatório no hospital Trousseau, havia dois anos
que apresentava uma incontinência urinária permanente e, no início do trata­
mento, uma incontinência temporária da matéria fecal, que não persistiu. A
enfermidade da criança, já em idade escolar e com excelente nível mental, acar­
retava passagens pelos serviços de urologia e intervenções dolorosas de uso de
sondas, separação da urina e lavagem da bexiga. A princípio, tinha-se diag­
nosticado a presença de colibacilos. Eles desapareceram rapidamente. Mas a in­
continência permaneceu inalterada. Após o fracasso das medicações orgânicas,
a suspeita de simulação ou pitiatismo levou a um chamado tratamento de psi­
coterapia armada, através de injeções dolorosas com fins de intimidação.
Também aí, malogro total. Em suma, após esses dois anos, a menina foi en­
caminhada a nosso serviço, tanto por sua incontinência urinária rebelde quan­
to por seu comportamento.
Monique apresentava uma expressãof uma postura fixas, que eram real­
mente notáveis. A inibição da mímica era completa. A voz era inaudível, tan­
to na escola quanto em casa. A menina tinha insónias que iam até as duas ou
três horas da madrugada. Era lenta, apática e com aparência sempre tristo­
nha, embora jamais chorasse e jamais se queixasse. Sua passividade era tal que
a menina - com idade mental superior em dois anos a sua idade real, no teste
de Binet-Simon - era incapaz de acompanhar o ritmo da escola, tanto por

1 50
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

seu comportamento e m relação aos outros quanto e m virtude d e seu ritmo de


trabalho. Não falava nunca, nem com os adultos, nem com as crianças. Quando
lhe eram feitas perguntas, às vezes respondia um "sim" aspirado ou não res­
pondia nada, mas nunca dizia "não" ou qualquer outra coisa. Sua inexpres­
sividade gestual, mímica e sonora era total.
Ficava sozinha por horas a fio, imóvel e silenciosa, remexendo nos obje­
tos sem olhá-los. Contudo, fazia seus deveres corretamente, mas muito deva­
gar, desde que eles lhe fossem impostos. Não brincava com bonecas e não ti­
nha nenhum objeto querido. Comia com regularidade, pouco, e sem mostrar
nenhuma gula. Nunca era ativamente oposicionista. Gostava de sua família
- do pai, da mãe e do irmão dois anos mais velho -, e essa família se dizia
sem conflitos.
Vinha regularmente ao ambulatório, bem trajada, "impecável". A mãe era
conscienciosa, sem doçura, sem graça, sem indulgência, inquieta, ativa e rabu­
genta, e sempre pronta, com uma olhadela, a fazer sinais para que a filha se por­
tasse direito ou tirasse os cotovelos da mesa. Era uma mãe visivelmente obceca­
da com a idéia de limpeza e das boas maneiras, que dizia: "Não saberíamos co­
mo puni-la, nada lhe interessa" e "Se nos aborrecemos? Quanto mais nos abor­
recemos, mais ela fica idiota durante o dia e menos dorme à noite". Mas essa
mulher amava sua filha e sofria por vê-la "sempre triste e diferente dos outros".
As sessões eram mudas. Monique se sentava, olhava para mim e desenhava, a
meu pedido.
A transferência melhorou um pouco a situação: a incontinência diurna de­
sapareceu imediatamente e depois, muito depressa, a incontinência noturna;
mas nunca fazia contato social, mímico ou verbal com ninguém, nem mesmo
comigo (à parte o "bom-dia, senhora, até logo, senhora", sempre enunciado na
aspiração, quando a mãe estava presente, e apenas ao chegar e ao sair). É ver­
dade que, como expliquei em outro ponto, eu não ficava sozinha com a meni­
na no hospital. Os desenhos de Monique eram sem vida, como sua autora. Eram
a representação estereotipada de objetos comuns; os traços eram rígidos, sem
que ela jamais dissesse o que aquilo representava. Por vezes, ela escrevia: pa­
nela, mesa. Nunca havia nenhuma variação, nunca desenhos imaginativos, nun­
ca temas inventados nem sonhos, e nunca a presença de cores.
Ao cabo de algumas sessões, Monique era visivelmente muito positiva em
relação a mim. A mãe dizia que só mesmo para vir à consulta é que ela demons­
trava "menor lentidão". Fiz com que lhe fosse dada uma boneca-flor. Ela mostrou
imediatamente uma grande fixação positiva nesse objeto: não mais se separou
dele, dormia com ele e veio com ele ao ambulatório na sessão seguinte.

151
NO JOGO DO DESEJO

A mãe anunciou que, desde que lhe fora dada a boneca, a menina estava
mais alegre; ela a havia surpreendido cantando sozinha por diversas vezes. A
mãe se retirou e permaneci com Monique; propus-lhe que me contasse uma
história inventada. Como sempre, isso foi impossível e ela se manteve calada.
Disse-lhe:
- Deixe-se levar por sua boneca-flor. Talvez ela leve você, e você poderá
me contar para onde ela a leva.
A barreira rompeu-se imediatamente. A menina tornou-se muito loquaz
e enunciou sua fantasia sem demora, num ritmo rápido. Contou-me tudo o que
a boneca-flor fazia e o que tinha dito a ela. Havia longas pausas atentas, em que
ela acompanhava seu devaneio.
Eu:
- E aí, o que aconteceu ?
Ela emendava prontamente. Chegou a fantasiar uma história rica em con­
teúdo analisável e, em algumas sessões, foi por intermédio dos enunciados e dos
atos emprestados à boneca-flor que se exprimiram as emoções agressivas da
criança.
A melhora social e a autonomia da menina deslancharam. Sua mímica ges­
tual e seu ritmo de vida se animaram. A angústia cedeu. Infelizmente para a
mãe! Ao chegar à consulta, diante da filha, a mãe falou de todos os progressos
que via e, em seguida, disse:
- Mas, veja só, a mocinha agora se permite me dar respostas tortas, dis­
cutir minhas ordens; a mocinha sorri quando a repreendo; a mocinha mente,
briga com o irmão e, acredite se quiser, sua boneca-flor, de quem ela faz de con­
ta que gosta quando vem aqui, é encontrada por toda parte, inclusive nos ba­
nheiros e embaixo de todas as minhas coisas. Minhas coisas. E depois, ela não su­
ja mais nas calças, mas agora suja as roupas e ficou bagunceira e desarrumada;
ela, que era tão aplicada, está assumindo uns modos muito feios. Ah, mas como
ela era bonitinha, antes!

Observação 2: Anne, cinco anos e meio.


Foi trazida para a consulta pela enfermeira da creche maternal, onde per­
manecia de manhã à noite fazia dois meses. Apresentava distúrbios psicopáticos.
Instável, retardada, quase sem controle esfincteriano e sem contato afe­
tivo com os adultos a seu redor. Com uma única criança, um menino menor
do que ela, mostrava-se atenciosa, monopolizadora, despótica e ciumenta­
mente agressiva. Em alguns momentos, era perigosa para os outros, pela in­
consciência de seus gestos bruscos. Nunca exibia um sorriso; a voz era sem

1 52
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

modulação, era uma linguagem para ela mesma, feita de sílabas difíceis de
entender. Impossível obter dela a menor obediência às ordens coletivas: sen­
tar, deitar, participar de uma brincadeira, vestir-se. Além disso, recusava
qualquer alimento e tinha crises nervosas violentas e impulsivas quando se
tentava fazê-la comer. Não obstante, tinha boa saúde e não era magra de­
mais; parece que comia à noite, com a mãe.
A menina nascera durante a guerra, filha de um casal israelita de artesãos
que trabalhavam com peles, de idade bem avançada, em pleno período da
perseguição. Expulsos de Paris, os pais haviam fugido por toda a França. Por
ocasião do nascimento de Anne, havia dois filhos, de 1 5 e 1 7 anos. O segundo,
que partira para a Palestina, fora morto em combate quando a pequena Anne
tinha três anos. Os pais não saíram de um luto patológico, mesclado com reivin­
dicações agressivas a respeito desse filho morto, que, tendo partido contra a
vontade deles, jamais quisera escutá-los e não tinha medo de nada. Só ele, pela
afeição que a menina lhe dedicava e que sentia por ela, era capaz de fazer com
que Anne obedecesse. Atualmente, o irmão de 20 anos continuava a ser o úni­
co na família "de quem ela tem medo", disse a mãe, "mas ele é duro com ela e
a machuca, batendo nela". "Ela parece procurar isso."
Quando a criança nasceu, a mãe não tinha como alimentá-la. Tinha difi­
culdade de conseguir leite: sendo judia, seus cartões de alimentação não estavam
em ordem. Anne havia apresentado, desde a saída da maternidade, distúrbios di­
gestivos graves e contínuos até os cinco meses, e um nervosismo extremo. Aos
cinco meses, como estivesse num estado desesperador, a mãe a confiou a uma as­
sistente social, que prometeu levá-la para uma creche da Cruz Vermelha na Suíça.
Anne permaneceu lá até os 1 8 meses, sem rever a mãe e sem que esta tivesse qual­
quer notícia dela. Lá, tornou-se calma, esplêndida e alegre, sem problemas - is­
so foi o que disseram à mãe quando, finda a guerra, a criança lhe foi devolvida.
Agora, em oito dias, ela havia perdido o equilíbrio, não dormia mais, re­
cusava-se a comer e perturbava a família com seus distúrbios de caráter, sua
agressividade passiva, sua obstrução contínua a qualquer atividade da mãe e
com a inquietação que causava a esta, além da insônia que acarretava para to­
dos (todos moravam num único cômodo), inclusive para os clientes do hotel
onde viviam: alguns estavam pedindo a saída da família.
Desde então, a idade mental e caracterológica permanecera inalterada. O
par mórbido e angustiado mãe-filha reinstalou-se, como nos primeiros meses.
A mãe não pôde retomar nenhum serviço doméstico por causa da filha, de quem
ninguém queria cuidar. A escola a havia recusado. A mãe confiou-a durante o
dia a uma creche da Cruz Vermelha, lembrando-se da Cruz Vermelha suíça e

153
NO JOGO DO DESEJO

na esperança de que sua filha se reeducasse ali, como da primeira vez. Mas ia
buscá-la todas as noites.
Não havia como submeter Anne a um tratamento psicanalítico, em decor­
rência da situação material da família. Foram conselhos pedagógicos e uma su­
pervisão psiquiátrica que a assistente social da Cruz Vermelha veio solicicar­
nos. Aconselhei à responsável pela creche onde a menina ficava de manhã até a
noite, como fizera nos casos de anorexia mental, que se fabricasse para ela uma
boneca-flor e que se observassem suas reações.
De início, a boneca foi amada de maneira muito ciumenta. A menina não
a abandonava. Depois, manifestou uma grande agressividade injuriosa em re­
lação à boneca. Na refeição que se seguiu à cena agressiva, Anne tomou a sopa
sozinha pela primeira vez e pediu para ser servida novamente.
A partir desse primeiro dia, a boneca foi o centro das emoções afetivas
da criança. Anne se mostrava positiva e atenciosa, ficando sentada a vestir a
boneca por até meia hora consecutiva, e falando com ela com palavras bem
adaptadas , que não empregava jamais. Em seguida, era muito agressiva: ba­
tia na boneca, pisoteava-a e a atirava longe, indo depois apanhá-la e afagá­
la. À medida que se davam essas descargas ambivalentes, a anorexia desa­
pareceu por completo, a linguagem tornou-se compreensível e as reações pas­
saram a ser mais sadias. A criança se estabilizou. Um dia, "enraizou" a boneca,
segundo disse, num monte de areia, e a partir de então se mostrou positiva
em relação a todo o meio ambiente e começou a se interessar pelos animais
de pelúcia da creche e pelas brincadeiras coletivas. Uma nota lingüística: de­
pois de ter voltado a procurar a boneca-flor que havia "enraizado" (raça, racis­
mo)\ ela pediu à estagiária da creche, surpresa, um pedaço bonito de pano
para vestir o "tórax" da boneca-margarida.

Observação 3: a propósito de algumas crianfas de idades diferentes, psiquicamente


bem adaptadas.
Antes dos três anos, uma grande atração: uma atração preferencial pela
boneca-flor em relação às outras bonecas. As crianças reagem a elas, para quem
as observa, como reagiriam com bonecas humanas ou com bonecos animais que
lhes interessassem. A diferença está no ímpeto com que se voltam para essas
bonecas, enquanto sempre exibem um período de pausa, de observação e de he­
sitação diante de bonecas animais ou humanas novas.

5 No original, "enracinée (>'ace, racisme)". Aqui a autora joga com a semelhança fonética entre o radical do ver­
bo enraizar e do substantivo raiz (racine) e os substantivos citados entre parênteses. (N. T.)

1 54
TRATAM ENTO PSICANALÍTICO.

Após os três anos, as bonecas-flores não têm grandes atrativos para as


crianças sadias e não despertam particularmente sua curiosidade. Elas são pas­
sivamente positivas em relação às bonecas, exibindo um ar meio condescen­
dente: "Olhe, ela não tem boca! " "Veja, ela não tem olhos! " "Como é que ela
consegue comer ?" "Olhe, ela não tem mãos! " "Olhe, ela não tem bumbum! "
Depois, virando-as de cabeça para baixo, as crianças lhes afastam as pernas e
dizem: "Olhe, ela não tem nada! " Às vezes, chegam até a rasgar o espaço entre
as peri:ias e investigam a paina existente no interior: "Ela não tem nada!" Depois,
desinteressam-se delas e vão cuidar de alguma outra coisa.

Observação 4: Georges, seis anos.


Retardo global de dois anos, tanto do ponto de vista psicomotor quanto
do ponto de vista do peso e da estatura. Nenhum distúrbio do caráter. Muito
positivo e afetuoso com os pais, que gostam muito dele, e com os três irmãos
menores, que são "normais" (ou seja, que se portam bem e não apresentam
problemas).
A mãe o traz a mim para receber conselhos pedagógicos.
Em meu consultório, enquanto a mãe fala, ele se diverte fazendo uma
pirâmide, apoiada na parede, com tudo o que encontra em meu armário de
apetrechos (dos quais não me sirvo em psicoterapia, mas que muitas vezes uti­
lizo para o diagnóstico de crianças). Os fantoches são colocados na base da
pirâmide, seguidos pelas bonecas humanas, depois as bonecas animais - ur­
so, coelho, lobo e carneiro - e, por fim, coroando a pirâmide, as três bonecas­
flores: a azul e a rosa, cada uma de um lado da boneca-margarida, que domi­
na o amontoado. Tudo isso é feito em total mutismo, enquanto a mãe fala
comigo. Depois, ele nos interrompe e diz à mãe, mostrando-lhe as bonecas­
flores: Elas é que são as rainhas, e aquela, a margarida, é a mais bonita. Eu
também queria uma.

Observação 5 : J eanne, seis anos.


Devo esta observação à gentileza da Sra. C., diretora de uma nova escola.
A observação se passou sem o conhecimento de Jeanne.
Menina inteligente, com boa escolaridade no curso elementar, mas com
inibição de qualquer expressão verbal, mímica e motora livres. Filha única, si­
lenciosa e sensível. Pais muito ocupados, cada um por seu lado, fora de casa.
Quando saem, Jeanne, não sendo dia de aula, desce para a casa da avó ou fica
sozinha e faz as refeições na casa da avó. Quando os pais voltam, está pronta
para subir com eles e ir-se deitar.

155
NO JOGO DO DESEJO

Na escola de tipo ativo, que a agrada muito, chegou há algumas semanas


uma boneca-flor para a turma do maternal. A notícia se espalhou entre as ou­
tras crianças e cada qual teve diante da boneca reações diferentes. Jeanne ficou
fascinada. "Como é bonita! ", exclamou. Segurou a boneca, apertando-a contra
o peito por um momento, e depois a deixou e tornou a sair com sua turma. Essa
escola tem uma cantina aberta ao meio-dia, na qual muito poucas crianças da
idade de Jeanne ficam para almoçar. Um dia, a diretora se inquietou por não
vê-la no recreio que se segue ao almoço. Saiu à sua procura e, vendo a porta da
classe maternal entreaberta, olhou. Jeanne se esgueirara sozinha para dentro e
estava perto do armário de brinquedos. Havia apanhado a boneca-flor e falava
com ela em voz alta, repreendendo-a, fazendo-lhe uma verdadeira cena de ódio,
aos gritos, cena esta absolutamente inesperada naquela criança meiga, que
ninguém jamais vira ser oposicionista ou agressiva. A diretora não se deixou
ver, foi embora, escutou ainda as palavras veementes da criança durante algum
tempo, depois, a menina saiu e voltou para o recreio, onde se pôs a brincar muito
ativamente com as outras crianças. Desde então, aproximadamente a espaços
de três ou quatro semanas, a menina voltava à sala do maternal no horário pos­
terior ao almoço. Tornava a pegar a boneca-flor, com a qual fazia uma cena.
Essa boneca lhe serviu de objeto de projeção para uma agressividade liberado­
ra, feita de queixas reivindicatórias. A menina a censurava por ser egoísta, por
não cuidar dela, por esquecê-la e por deixá-la sozinha. Durante os intervalos
das cenas que fazia com a boneca-flor, Jeanne absolutamente não cuidava dela,
não parecia vê-la e, sobretudo, nunca falou dela com ninguém. O mais notá­
vel é que, de cena em cena, a menina se tornou mais alegre, mais comunicati­
va com o meio, mais vivaz em sua motricidade ocular e muito mais expressiva
na fala com todo mundo, ela que era tão tímida.

Observação 6: François, nove anos e meio.


Observação que devo à gentiliza do Dr. B.
Criança apática, inibida, de comportamento pueril; retardo social e esco­
lar; idade no teste não-verbal: onze anos; idade no Binet-Simon: sete anos.
Aprendeu a ler aos seis anos com uma professora e com a mãe. Lia muito mais
depressa com a professora do que com a mãe (fato freqüente, aliás, nessa idade,
nos meninos que estão vivendo o complexo de Édipo). Em abril de 1 946, aos
sete anos, após um episódio infeccioso, François não mais soube ler nem escrever.
Passados dois arios e meio, parecia não haver progredido mentalmente. O Dr.
B. o recebia regularmente para psicoterapia em seu consultório do hospital. O
menino quase não aderia ao tratamento; "não lhe desagrada vir", dizia a mãe.

1 56
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

E m 9 de maio de 1 949, o Dr. B . deu a François uma boneca-flor.


Entre os dias 9 e 1 3 , data da sessão seguinte, surgimento de uma anore­
xia quase completa, que muito inquietou a mãe. Esta reagiu violentamente con­
tra esse novo sintoma.
No dia 1 3 de maio, o Dr. B. aconselhou a mãe a ser tolerante com esse
sintoma passageiro e, sem dúvida, necessário para a evolução da criança.
Em 1 6 de maio, a anorexia desapareceu. O Dr. B. teve uma primeira sessão
de éontato real com François, cuja imaginação e expressão verbal foram com­
pletamente desbloqueadas. A mãe constatou sua nova alegria. O tratamento
evoluiu muito depressa, com a recuperação da agressividade oral e, depois, anal,
como vimos nos outros casos.

Observação 7: Marie-Claire, seis anos.


Observação que devo à gentileza da Srta. G.
Criança conduzida à psicoterapia por uma neurose de angústia (fobia, ob­
sessão). As principais fontes de angústia de Marie-Claire eram: medo de que sua
mãe caísse na água, medo de se envenenar ao chupar os dedos e medo dos meni­
nos, de quem não podia aproximar-se e com quem não conseguia falar. Medo de
abraçar o pai ou o avô, bulimia, necessidade obsessiva de ser servida em primeiro
lugar e de levar alimentos nos bolsos e nas mãos, por medo de lhe faltar comida;
insónias até depois de meia-noite, com choro inconsolável e sem que ela dissesse
se tinha pesadelos.
Menina nascida de oito meses, aleitamento artificial. Durante toda a
primeira infância, berrava após cada mamadeira para receber mais. Entretanto,
o médico que acompanhava a criança proibiu a mãe de reforçar a dose de leite.
A menina adormecia de cansaço, depois de chorar muito.
Aos oito meses, diarréia grave durante o verão. Em seguida, desenvolvi­
mento aparentemente normal, embora Marie-Claire fosse nervosa e agitada.
Todos os incidentes de saúde desde então acusam sintomas digestivos (família
hepática, segundo disse o médico).
Na psicoterapia, em dois meses e meio, enorme melhora. As sessões eram
ocupadas pela encenação das seguintes fantasias: roubar a comida da irmãzi­
nha, beber leite, comer frutas e papinhas; morar num chalé na montanha cuja
adega fosse um subterrâneo repleto de lojas, onde houvesse muitos alimentos
e brinquedinhos; fazer provisões.
A boneca-flor foi dada a Marie-Claire depois desses dois meses e meio de
tratamento, portanto, durante o processo de melhora.
Imediatamente, Marie-Claire quis destruí-la.

1 57
NO JOGO DO DESEJO

- No começo ela não era bonita, mamãe não fez ela como eu queria. Eu
queria uma pérnla e ela fez sete.
Relegou agressivamente a boneca a um canto e não quis voltar a vê-la
(mesmo assim, não lhe arrancou seis pétalas, como fazem muitas crianças com
as pétalas das margaridas verdadeiras).
Após uma semana, Marie-Claire voltou a falar espontaneamente de sua
boneca-flor.
- Não vejo ela mais, estou muito contente. Ela é feia e má, bate em to­
das as outras bonecas, dá tapas nelas; não se pode mais viver com ela.
Após duas semanas, a menina ainda voltou a falar, durante a sessão, sem­
pre espontaneamente, sobre a boneca-flor (que continuava a não querer ver).
- Ela é má. No começo, tinha quatro estômagos. Eu vi, olhando pela gar­
ganta dela. E depois ela fez leite e também xixi, e depois fez manteiga e tam­
bém cocô.
Srta. G.: - E o que ela come?
Marie-Claire: - Ela só come ervas, e só um talinho por dia.
Foi procurar a boneca para bater nela e, em seguida, atirou-a no cômodo
vizinho, para que ela não atrapalhasse a brincadeira.
E Marie-Claire curou-se muito depressa de todos os seus distúrbios
fóbicos.

Observação, em adultos, de alguns comportamentos provocados


pelas bonecas-flores

Observação 1 : Srta. S.
Pedi a uma professora de desenho das escolas públicas, que também é artesã
de bonecas por vocação, que me fabricasse alguns exemplares de bonecas-flo­
res. Ela mostrou certa resistência, que racionalizou argumentando sobre a feiúra
do objeto, sua invendabilid8de, etc. Expliquei-lhe que aquilo era para crianças
"anormais", cuj as mamães não eram muito hábeis para confeccioná-las.
Consegui então que me fabricasse algumas. A moça veio entregar-me os mo­
delos e me contou, sorridente, a seguinte história.
- A princípio, achei isso idiota, posso lhe dizer. Mas, já que era para
malúcos, não tinha importância que fosse monstruoso. Nisso, fiquei irritada,
eu que JlUnca me irrito com crianças. Aliás, é comum eu ficar irritada com as
bonecas que faço, e sempre resolvo minhas cóleras descarregando nelas, como
se elas pudessem me compreender. De vez em quando, no fim do dia, elas ou­
vem poucas e boas! Bom, mas eu nunca tinha ficado tão irritada como fiquei

158
TRATAM ENTO PSI CANALÍTICO . .

com essa. Uma noite, estava com os nervos em frangalhos. Era como se estivesse
com os nervos amarrados no estômago e a cabeça em fogo. Não conseguia fa­
zer nada, não conseguia parar, não sentia fome, estava com dor de cabeça, já não
enxergava com clareza e andava pelo quarto com a boneca na ponta dos braços,
sacudindo-a sem conseguir falar. (Mostrou-me o gesto que se faz ao sacudir a
salada úmida numa peneira para escorrê-la.) De repente, senti a cólera aumen­
tar. Tive vontade de lhe dizer desaforos. Coloquei-a de frente para meu rosto,
como quando, ao fabricá-las, agarro as outras bonecas, e de repente, lá estava
eu rindo sozinha, rindo, rindo, e que gargalhada! Minha cólera cedeu comple­
tamente. "Minha filha," disse a mim mesma, "é melhor você ir jantar e passear,
é disso que você está precisando." Eu estava com muita fome e na mesma hora
preparei meu jantar, cantando.
E concluiu:
- Se isso funciona assim com as pessoas que estão furiosas e que não são
loucas, eu disse a mim mesma que pode fazer bem às crianças doentes. Eu não
teria acreditado, antes de passar por aquela cólera. As bonecas comuns, quan­
do brigo com elas, não fazem minha irritação passar tão depressa. Também é
preciso dizer que nunca senti tanta raiva delas quanto dessa. E olhe, agora não
me incomoda mais fabricá-las; gosto mais de fazer as outras, mas também as
acho bonitas.

ObservafâO 2: M. B., 35 anos.


Observação da Sra. M., psicanalista.
Depressão muito grande. Choque desde a morte do pai, quando ele tinha
1 6 anos. Submeteu-se sem sucesso a eletrochoques e narcoanálise. Colocado
diante de uma boneca-flor, disse:
- Não consigo entrar em contato com seres sem cabeça; eles não têm
consciência e não vejo seus olhos. Ela me irrita, essa flor. Tenho vontade de
cortá-la. Mas não posso querer mal a elas (sic), não posso fazer-lhes mal. Isso me
produz um incômodo considerável. Quando imagino uma flor macho e fêmea
que se unem, isso me parece incompleto. Incompleto porque há apenas uma
força cega que os orienta. A cabeça, é isso que impede a força cega. Uma coisa
que não pode ser controlada, isso torna a gente ridícula.
Essa sessão pareceu ter produzido um desbloqueio. Visivelmente, ele ti­
nha vivenciado alguma coisa que o emocionara muito, que o incomodara muito.
Nas sessões seguintes, começou a contar tudo o que havia sentido como cas­
trações na infância. Liberou-se cada vez mais e conseguiu falar. Um tratamen­
to psicanalítico anterior não havia trazido nenhum progresso e lhe era impos-

1 59
NO JOGO DO DESEJO

sível falar. No presente, progressos enormes em dois meses; ele traz sonhos e
faz associações. Tomou-se possível uma análise clássica.

Observação 3 : Srta. F.
Observação da Sra. M.
Trinta anos. Agorafóbica. Tem medo de matar a mãe. Quatro anos de
psicanálise antes de procurar a Sra. M. Um dia, a paciente fez espontanea­
mente uma modelagem após uma fantasia sádica: uma flor com um bebê
dentro. Na sessão seguinte, viu no consultório de sua psicanalista uma
boneca-flor.
- Isso não se parece com coisa alguma. O que acho mais terrível é essa
pretensão de se parecer com uma criatura humana. É absurdo querer viver quan­
do não se é inteligente. É uma coisa que dá pesadelos, náuseas . . . Os homens
podem lutar com outros homens, mas não contra esses seres. Isso me faz pen­
sar em todas as pessoas mutiladas e horríveis. É uma cópia precária do que de­
veria ser, normalmente.
Falou em seguida sobre sua análise anterior:
-A análise com X era um suplício para mim. Eu ficava completamente
perturbada. O médico dizia que eu devia ter uma opinião sobre ele e que devia
comunicá-la a ele. Atroz! Tentei representá-lo para mim como uma mente pu­
ra. Eu sentia calor da cabeça aos pés, a coisa não saía, eu sentia a cabeça vazia,
e ele me dizia que isso não era verdade, que era preciso a gente se expor penosa­
mente diante de um homem. Eu me esforçava por apreender a personalidade
dele. O terrível era o silêncio. Eu ficava na situação de um garoto que fosse levar
uns tapas.

Observação 4.
Observação enviada por um psiquiatra hospitalar dos Estados Unidos. Essa
observação foi acompanhada por algumas fotografias de um rapaz e de suas
primeiras reações à boneca-flor.
Rapaz esquizofrênico; absorto em si mesmo; não falava com ninguém. Não
conseguia sair. Diante da porta de seu quarto, hesitava mais de meia hora para
transpor a soleira. Movia-se com ar misterioso e cristalizava os gestos a meio
caminho, imobilizando-se. Insónias. Comia pouco, indiferente ao que comesse.
Parecia q'l'lerer falar ao se aproximar dos enfermeiros, mudava de idéia e ia em­
bora. Fazia seis meses que não falava mais. Seu médico foi ao Congresso de
Psicanálise de Londres, no qual apresentei a primeira comunicação sobre a
boneca-flor.

1 60
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

Ele providenciou para que uma boneca fosse confeccionada por uma en­
fermeira e a deu ao rapaz, que produziu ruídos guturais de alegria, apertou a
boneca-flor contra o peito, afagou-a, abraçou-a, colocou-a sobre a cabeça e
passeou com ela; depois, sentou-se, colocou-a para dançar sobre seus joelhos,
deitou-se no chão e a fez caminhar sobre seu corpo; não mais se separou dela e
foi à cidade com os outros doentes, mostrando a sua boneca-flor tudo o que lhe
pudesse interessar. Em alguns momentos, contava-lhe histórias, colocava-a no
bolso do casaco, e ela passou a ser a companheira graças a quem ele podia en­
trar em contato com todo mundo. Dizia aos outros o que a boneca-flor pensa­
va deles e entabulava conversas graças a isso. Passou a jogar cartas e jogava muito
bem, o que só se veio a saber depois que ele já estava há três anos nesse mesmo
hospital; quando tinha uma dificuldade, conversava com sua boneca-flor para
saber que carta deveria jogar.

Observação 5.
Gentilmente oferecida pelo médico responsável por um manicômio hos­
pitalar no campo.
Mulher jovem, que ingressou no hospício aos 1 7 anos e tem hoje 32.
Ninguém mais vai visitá-la. Meu correspondente a conhece há dois anos.
Segundo a equipe, ela se encontra no mesmo estado desde sua admissão: anoréxi­
ca, extremamente inibida, parada e indiferente. Há cinco anos não se ouve o
som de sua voz. É acordada pela manhã e se senta; é levada à mesa e apenas
belisca a refeição; esmigalha o pão, indiferente a qualquer instrução. Às vezes,
aceita algum alimento dado pela enfermeira, que a faz comer. Outras vezes,
não. É levada de volta a sua cadeira e colocada na cama. O médico-chefe leu a
observação que publiquei sobre a boneca-flor. Teve a idéia de experimentar com
essa doente. Passando para visitá-la, disse-lhe:
-Tenho uma coisa para a senhorita,
e lhe depositou nos joelhos urna boneca-flor. Ela não se mexeu o dia inteiro,
permanecendo a boneca em seu colo. Quando tentaram separá-la da boneca para
que fosse levada para o almoço, ela chorou. A enfermeira devolveu a boneca e
ela se acalmou. À noite, para deitá-la, a mesma coisa. Quando a boneca lhe era
retirada, ela chorava. No terceiro dia, escondeu a boneca no colo e se deitou
com ela. Cerca de uma semana depois, quando o médico tornou a passar, a
doente fez a boneca dizer:
- Bom-dia, doutor.
E ele respondeu à boneca:
- Bom-dia.

161
NO JOGO DO DESEJO

A doente sorriu. À tarde, levantou-se e foi colocar a boneca na janela; se­


gredou-lhe algumas palavras, sorrindo, e depois foi à rouparia pedir linha,
agulha e tecido, pois queria fazer um vestido para sua boneca. Falou com as en­
fermeiras sobre o que a boneca pensava e queria. Disse de suas frustrações: que
a boneca estivera doente, que todos a tinham esquecido, felizmente ela iria con­
solá-la, etc. Três meses depois, ocorreu o clássico episódio de cólera e briga com
a boneca-flor. A doente decidiu deixá-la em seu armário e passou a ir às oficinas
e, depois, a jogar bola. A anorexia desapareceu. Ela se tornou cooperadora e can­
tarolava ao fazer a arrumação. Recuperou oito quilos e há boas esperanças.

Conclusão e hipóteses de trabalho


Após o estudo crítico de minhas duas primeiras observações e de muitos
outros casos em que a boneca-flor foi utilizada (citei aqui apenas alguns), acre­
ditei ser possível desenvolver a hipótese que se segue com respeito a sua ação
terapêutica.
A representação plástica figurada de uma criatura vegetal, com forma hu­
mana no corpo e forma floral na cabeça, sem rosto, mãos ou pés, permitiria à
criança e, em geral, a todos os seres humanos, a projeção de emoções instintivas
que tivessem permanecido fixadas no estágio oral da evolução da libido, ali fi­
xadas pelo fato de a história vivida do sujeito ter bloqueado a evolução pre­
cisamente nesse estágio, ou tê-lo feito regredir para ele.
Essa projeção e as reações dela resultantes em relação à boneca conduzi­
riam o sujeito à ab-reação de uma libido oral que teria permanecido patogeni­
camente ativa, inibidora para ele, não-sublimável e não-integrável ao "eu".
A experiência parece demonstrar que a libido oral assim liberada teria sua
origem, conforme o caso, quer em emoções historicamente vivenciadas na fase
oral do desenvolvimento afetivo do indivíduo, etapa esta que é acompanhada
por grandes frustrações, quer num estágio posterior do desenvolvimento, após
um 11ecalcamento da libido, que se traduz numa regressão de tipo oral ou anal,
passivo ou ativo, capaz de assumir diversas formas: enclave psicossomático, vis­
ceral, inibição motora ou caracterológica, bloqueio da expressão de fantasias e
de emoções associadas às do estágio oral e ano-uretra! - fantasias e emoções
sempre pré-edipianas.
O comportamento do sujeito diante dessa figura, que ele supõe ser dota­
da de pensamento e sentimentos, lhe permitiria, numa primeira fase, tomar cons­
ciência de suas emoções instintivas, manifestando-as; e, a partir daí, ele poderia
reagir com respeito a essa manifestação, cuja responsabilidade lhe teria sido as­
sim artificialmente retirada. Poderia, em suma, exprimir uma culpa desva-

1 62
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

lorizadora, quando suas emoções despertassem nele um sentimento de mal-es­


tar, e procurar então encontrar uma solução para elas, sem ser, como antes, ao
mesmo tempo, o palco da emoção instintiva e o responsável pelo mal-estar que
a acompanha.
Com efeito, o sujeito que exprime, em nome de um outro objeto, emoções
pelas quais não se reconhece conscientemente responsável pode tirar daí o bene­
fício do distanciamento e da "reflexão". O termo reflexão deve ser entendido
• no sentido sobredeterminado de imagem refletida, como num espelho, e de
pensamento que vem se reinflectir em sua fonte - o sujeito. A partir daí, do
ponto de vista da tensão energética, após a exteriorização que descarrega a angús­
tia, a fonte do pensar e do sentir, o eu, deixa de se assemelhar ao que era antes
dessa exteriorização, esmagado sob o efeito da tensão provocada por uma libido
recalcada ou impotente para se exprimir e se sublimar.
Essa hipótese talvez não valha grande coisa. Ela me ajudou a dar uma in­
terpretação aos fatos que observei e relatei. Parece-me ter sido confirmada pelas
observações que pude fazer em seguida e que outros fazem cotidianamente, quer
se trate de associações espontâneas no domínio vegetal, feitas por adultos for­
tuitamente colocados na presença da boneca-flor, quer de sua utilização deli­
berada com crianças, seja no meio familiar ou escolar, seja no decurso de uma
psicoterapia. Minha hipótese parece-me igualmente confirmada pelos casos de
adultos neuróticos em psicoterapia, ou para os quais o tratamento psicanalíti­
co havia estagnado antes da introdução da boneca-flor. Ela é particularmente
impressionante no caso de certos grandes ansiosos, com quem as tentativas de
tratamento psicanalítico clássico haviam fracassado, em decorrência de sua im­
possibilidade de falar.
Podemos destacar uma constatação geral: a boneca-flor provoca a exte­
riorização de pulsões predominantemente orais, e certamente também anais,
por um intricado mecanismo de identificação-projeção, combinado com a es­
cotomização do supereu atual, ou melhor, com uma diminuição de sua força
coercitiva, diminuição esta suficiente para permitir a expressão da libido que
ele mantinha recalcada.
Sem dúvida, mesmo quando as reações são aparentemente nulas, há um
desencadeamento de fantasias mais ou menos conscientes. Num dos casos que
observei, os sonhos da noite seguinte ao dia em que a adulta viu a boneca-flor
foram enriquecidos por uma agressividade pré-genital em seu conteúdo ma­
nifesto, e as associações da paciente trouxeram, em conjunto, emoções do está­
gio oral e recordações daquela coisa bizarra que se assemelhava a uma flor, avis­
tada no outro dia e à qual nenhum significado tinha sido atribuído, nem por

1 63
NO JOGO DO DESEJO

ela, nem por mim. Essa paciente em análise havia percebido o objeto no cesto
de brinquedos e dissera apenas:
- O que é aquilo?
- É um brinquedinho; você sabe que também atendo crianças.
- Como é estranho!
Era tudo o que a paciente tinha dito.
A anorexia mental e os distúrbios da fonação por angústia, assim como os
estados ansiosos com predomínio de sintomas psicossomáticos que afetam o
tubo digestivo, melhoram muito depressa e cedem com rapidez, desde que o
comportamento do meio ambiente permaneça tão neutro quanto possível às
reações inesperadas do sujeito.
Nos casos aqui assinalados, a rapidez do tratamento psicoterápico foi notá­
vel. Entretanto, o processo de cura foi exatamente o de qualquer tratamento
psicanalítico.
Quando, após uma primeira experiência, utilizei pela segunda vez a
boneca-flor, pareceu-me que a abreviação do tempo necessário ao tratamento,
ou melhor, do número de sessões, que considerei indubitavelmente ligada à
boneca-flor, já era um aspecto muito interessante na psicoterapia psicanalítica.
Num tratamento psicanalítico clássico, a transferência, analisada ao ser
eletivamente dirigida à pessoa do psicanalista, permite ao sujeito, com o tem­
po, reviver as emoções de todas as etapas históricas de sua evolução libidinal.
Essa situação transferencial permite ao sujeito ab-reagir suas pulsões recal­
cadas, compreender-se através dessas ab-reações e abandonar seu modus viven­
di neurótico, para adotar um outro, mais relacionado com as realidades do
mundo externo atual e com sua situação presente, cal como se realiza no dia­
a-dia, e não mais tal como ele a percebia através de fantasias que remontavam
à primeira infância.
Entretanto, freqüentemente nos deparamos, em certos sujeitos a quem
chamamos narcísicos, com resistências devidas a uma angústia cuja tensão uma
sucessão de psicanalistas não logra êxito em descarregar, seja porque o sujeito
não consegue explicitá-las suficientemente, seja porque não encontra na pessoa
do psicanalista, que tem para ele uma realidade social muito pregnante, um su­
porte para as emoções instintivas pré-genitais, seja, ainda, porque a linguagem
(palavras, imagens e gestos) que traduz as emoções pré-genitais está demasia­
damente distante da linguagem do eu da personalidade pós-púbere e cons­
ciente, que ocupa atualmente uma parte importante na libido do sujeito. É
igualmente possível que as emoções dos estágios pré-genitais (sobretudo no que
concerne ao estágio oral e ao estágio anal em seu início), por serem emoções ob-

1 64
TRATAMENTO PSICANALÍTICO . .

jetais de participação, tenham necessidade, para se exprimir na transferência,


de uma reciprocidade de comportamento, que é, sob outros aspectos, prejudi­
cial ao andamento do tratamento psicanalítico.
Penso nos adultos emudecidos na análise e também muito inibidos na vi­
da, que são induzidos a falar e a se exprimir de maneira absolutamente trans­
bordante quando lhes pergunto: "O que você acha disso?", mostrando-lhes uma
boneca-flor que coloco em suas mãos. A princípio, eles se manifestam pela mími-
. ca e, de repente, começam a falar - às vezes, a explodir em palavras agressivas
ou enternecidas, diante da figuração concreta de uma criatura imaginária que,
se vivesse, seria, por natureza, como eles próprios se tornaram em função da
angústia, desprovida da fala e sem liberdade de ação. Pouco a pouco, tudo o que
trazem em si de negativo ou de positivo, de ilogicamente emotivo, de agressi­
vo ou de terno, porém indizível, e que não podia encontrar outra expressão a não
ser a angústia, encontra saída num conteúdo analisável, rico em associações afe­
tivas, emotivas, sensoriais, cenestésicas e de jogos fisionômicos. A boneca-flor
parece ser, portanto, um objeto mediador que abre caminho para a expressão desse
tipo de emoções pré-lógicas.

Enfim, a utilização das bonecas-flores pode ser de grande valia na psicote­


rapia analítica, como no início de uma psicanálise clássica, para fazer com que
o sujeito capte ao vivo, por sua própria experiência imediatamente vivenciada,
o que são os fenômenos de projeção, identificação e transferência. Penso nos pa­
cientes que nos procuram em desespero de causa, a conselho de seus inúmeros
médicos organicistas, com um diagnóstico de doenças psicossomáticas. Um de­
les (com úlcera digestiva) disse-me um dia, e com muita razão:
- Mas, eu não sou maluco, tenho a cabeça perfeitamente no lugar, não
estou aqui para ser tapeado, e não sou um doente imaginário; tenho coisas de­
mais por fazer para ter tempo de ficar-me escutando!
Tendo avistado uma boneca-flor no canto de uma mesa de meu consultório,
e percebendo meu olhar que observava seu olhar atraído pelo objeto, disse, meio
rindo, meio sério:
- Isso é um brinquedo? Ou é para fazer testes? (Estava desconfiado.)
Não lhe respondi e coloquei o objeto em suas mãos. Ele o pegou, olhou-o,
estupefato, literalmente "atordoado", e depois, passado um momento, com um
suspiro entrecortado, disse:
- Ah, essa agora! . .. Ora essa! Veja só! Isso é completamente idiota . ..
Eu lhe peço desculpas, vou-lhe dizer o que isso está fazendo comigo, veja só!
Mas, isso é coisa de doido, esse negócio aí! Ah, não, não venha gozar com a

1 65
NO JOGO DO DESEJO

minha cara! Isso não é para mim, esses troços! Mas, é verdade, talvez a se­
nhora cuide de loucos de verdade, não é? Ora, veja só o que vocês descobrem,
vocês, médicos de malucos !
E depois:
- Ha! Ha! Ha! Ha! Deixe-me dar uma risada!
E entrou em cheio no mundo de suas fantasias. Falamos de sua vida, do
início de seus distúrbios, etc. Voltou na semana seguinte. Divã. E, logo de saída:
- Sabe, aquele negócio, a boneca, sei lá o que é, esse troço que tem jeito
de mulher sem cabeça. . . essa coisa verde, tipo uma flor, uma margarida, eu
acho, sabe . . . isso me perturbou. E depois, eu, que não sonho nunca, porque
minha úlcera sempre me acorda, sabe, eu estava começando uma crise quando
vim aqui na semana passada e, sabe, aquilo me deixou muna boa. E depois,
comecei a ter uma porção de sonhos. Isso lhe interessa?
E ei-lo entrando em análise.

1 66
7 1
.

O
,

com p lexo de Ed i po,


suas eta p a s estrutu ra ntes
e seus acidentes *

O complexo de Édipo é considerado, desde que Freud inaugurou o cam­


po da psicanálise, como o fenômeno central do período sexual da primeira in­
fância, entre os três e os seis anos. Ele é de importância crucial para o ser hu­
mano, no que concerne à organização da personalidade. É quando, para a cri­
ança, cruzam-se as problemáticas de sua identidade sexual e de sua pessoa so­
cial. Quando se fala numa criança de três anos, supõe-se que ela já possua a lín­
gua materna e que se saiba menina ou menino; essa criança come sozinha, o
mesmo que todos comem, faz suas necessidades sozinha, está adaptada no es­
paço familiar, sabe o endereço de sua casa e se orienta em seus arredores. Seus
gestos são hábeis e seu andar é desenvolto. Uma criança de três anos conhece
seu sobrenome, o dos pais. Verbaliza seus atos. As ações dos outros são, para
ela, linguagem. Ela é movida pelo desejo de crescer à imagem de todas as pes­
soas que, a seus olhos, detêm um valor de modelo, com as quais se identifica e
em cuja companhia se sente feliz. Embora seja atraída pelos animais, da mes­
ma forma que pelas crianças, escolhe conscientemente seus modelos na espécie
humana, entre seus familiares, e particularmente entre seus pais, irmãos mais
velhos e as pessoas que seus pais respeitam. Desde o momento em que se sabe
menina ou menino, as pessoas valorosas de seu próprio sexo são, para ela, mo­
delos privilegiados. Fala freqüentemente em se casar, ou, pelo menos, fala dis­
so no futuro com aquele de seus pais que é do sexo complementar ao seu. Esse

*Artigo escrito em 1968 para a revista Pratique des Mots, revisto e ampliado em agosto de 1 97 3 .

1 67
NO JOGO DO DESEJO

desejo, dito edipiano, ou seja, incestuoso, absolutamente não é fonte de culpa


para ela; ao contrário, é a abertura para sua personalidade em devir e constitui
a trama das histórias que ela gosta de contar e ouvir contar.

O período pré-edipiano
Foi preciso relembrar tudo isso para deixar claro que quando, aos três anos,
uma criança não atingiu, completamente ou pelo menos em parte, esse nível
de desenvolvimento, ela não é ainda capaz de entrar no que a literatura psi­
canalítica descreve como complexo de Édipo, isto é, na problemática reflexa 1
de sua condição sexuada; ainda não está no término de sua fase de organização
pré-edipiana.
Pode-se tratar de um atraso simples, aliás inteiramente relativo, em relação
a uma norma "abstrata e estatística". Nesse caso, nem a criança nem os pais
são angustiados, e o ambiente familiar permanece caloroso. Mas, no sistema
francês atual de escolarização à moda ocidental, a idade civil de três anos é a
do chamado ingresso "normal" na escola maternal, e, nesse ponto, a rejeição,
pelas professoras, de uma criança ainda não autônoma nessa idade e que não
saiba exprimir-se, ou ainda incapaz de suportar o contato com a sociedade fo­
ra da presença do pai, da mãe ou de uma pessoa da família, pode ser causa de
angústia para os pais. Em certos casos, não podendo a criança explicar-se ver­
balmente, seu ser de linguagem - pois ela é sempre movida pelas funções
simbólicas - se expressa através de reações psicossomáticas, pelo mutismo ou
pelos gritos, pela anorexia ou pela defecação ou micção irreprimíveis. Esses
sintomas, reativos a uma situação ansiógena para a qual as crianças não estão
preparadas, de modo algum apontam para um retardo grave do desenvolvi­
mento. Podem até ser muito menos graves do que a ausência de sintomas em
outras crianças bem vistas pelas professoras, mas que nem por isso sentem em
menor grau uma angústia igualmente viva, sem ousarem manifestá-la, e de­
senvolvem então problemas fóbicos duradouros. Infelizmente, a professora e
os colegas, apoiados numa regulamentação escolar que caminha nesse sentido,
rejeitam como inapta para conviver com os estudantes da mesma idade (ditos
adaptados) a criança que, tendo cruzado os três anos, reage à escola com tais
sintomas. Pior ainda: a mãe e o pai zombam do filho, ou então, sentindo ver­
gonha dele, angustiam-se - a tal ponto que ele se sente culpado. Essa nova
angústia dos pais pode acarretar, numa criança até então sem problemas sub-

l Referência ao estádio do espelho descrito por Lacan; o que a criança vê de si no espelho cem que ser confrontado
com o que ela sente.

1 68
O COMPLEXO DE ÉDIPO . .

jetivos ou somáticos, sintomas reacionais, seguidos de distúrbios neuróticos


regressivos e duradouros.
As crianças atrasadas que vivem no campo são poupadas dessa experiên­
cia excessivamente precoce: os pais esperam que elas cheguem aos seis anos -
idade da escolaridade obrigatória - para colocá-las na escola; o desenvolvi­
mento desses atrasados simples prossegue então sem choques, em família, no
contato com a natureza e com a vizinhança. Para eles, o chamado nível psicos­
social "de três anos" é atingido um pouco mais tarde, sem nenhum dano para
a continuidade da evolução emocional, intelectual e caracterológica, quaisquer
que tenham sido as razões do atraso. Nas cidades, infelizmente, o problema é
diferente: excluída da escola, a criança vive isolada, ferida pela segregação; as
moradias são pequenas, a criança atrapalha os adultos e, acima de tudo, des­
conhece o contato com os animais, a proximidade das plantas, a vida: não se
desenvolve. As mães, mesmo quando não trabalham, negligenciam a providên­
cia de levar a criança para brincar com seus pares, como seria necessário, du­
rante três a quatro horas por dia; não pensam nem em lhe dirigir a palavra,
nem em brincar com ela, física e manualmente - coisas que, no entanto, se­
riam indispensáveis. Nesse sentido, seria urgente que se generalizassem nas
cidades os jardins-escola arejados, onde pais e filhos fossem aceitos juntos e
onde, em contato com outras crianças e outros pais, assistidos por uma equipe
de apoio conveniente, eles descobrissem os modos inter-relacionais mais fa­
voráveis ao desenvolvimento daqueles que ainda não atingiram o nível de lin­
guagem e de autonomia ao qual habitualmente se atribuem - com razão -
"três anos".
As crianças traumatizadas por uma primeira experiência de contato de­
masiadamente precoce com a escola maternal tornam-se fóbicas à escola e a
qualquer contato social; manifestam distúrbios psicossomáticos, em função dos
quais se é obrigado a hospitalizá-las, ou distúrbios de caráter, que fazem com
que sejam conduzidas quase que de imediato a um consultório médico­
pedagógico. Nas grandes cidades ou em seus arredores, abriram-se inúmeros
consultórios desse tipo. Entretanto, eles não podem substituir o meio educati­
vo em tempo integral.

Ao lado desses retardados simples, há outras crianças que são obrigadas a


freqüentar a escola sem terem ainda a maturidade necessária para tirar proveito
dela, e que não exibem distúrbios imediatamente perceptíveis, mas que se de­
bilitam num ambiente que as angustia e que, sendo na aparência mais indife­
rentes do que medrosas, abstêm-se de estabelecer relações ou de se comunicar,

1 69
NO JOGO DO DESEJO

sem no entanto incomodar a turma, portanto, não alertam as pessoas que as cer­
cam. Daí uma nova ordem de dificuldades. Fechando-se ciumentamente em
fantasias regressivas, elas se afundam no que virá a ser uma debilidade psico­
motora ou uma debilidade mental e de linguagem. É somente aos seis anos,
idade do ingresso obrigatório na "escola grande" - a escola primária -, que
a imaturidade afetiva, já complicada pela neurose, fornece o quadro de um re­
tardo que impede a criança de acompanhar a turma do curso primário.
Isso talvez seja um fracasso afortunado, se considerarmos que outras cri­
anças, fóbicas, sem relações motoras e tão mudas quanto receosas, ainda assim
aprendem, por medo de desagradar, a ler e escrever; estas não deixam de de­
senvolver neuroses em surdina. Ora, desta vez, seu caso (já que são "bons alunos")
não alerta nem a escola, nem os pais; a neurose obsessiva irá declarar-se muito mais
tarde, na pré-puberdade, e será mais grave; um atraso escolar precoce, que alerte
mais imediatamente os adultos, para quem o fracasso escolar e a expulsão da
escola trazem problemas materiais, obrigaria a que se fizesse uma consulta para
a criança e se cuidasse dela.
Convém saber que uma reeducação ortofônica ou psicomotora não pode
ajudar, por si só, todas essas crianças, a menos que a mãe ou, em sua falta, o pai
ou um irmão mais velho, ou até uma avó ou um avô, coopere com a pessoa en­
carregada da reeducação. Também é preciso que os distúrbios da criança, seus
distúrbios fóbicos e seus distúrbios de não-comunicação, sejam recentes e
reativos a acontecimentos ocorridos somente depois da idade de dois anos e
meio a três anos, e que esses distúrbios não sejam seqüelas de distúrbios mais
antigos aos quais não se tenha prestado atenção, e que agora seriam reabilitáveis
exclusivamente através de uma psicoterapia psicanalítica, com o pai, a mãe e a
criança sendo atendidos em conjunto, a princípio, e depois separados, em função
dos progressos da criança. Esta última terá de ser orientada para a autonomia
em sociedade, e é sua individuação sexuada psicomotora e lingüística que a con­
duzirá ao Édipo.
De fato, antes da entrada no período edipiano, se uma pessoa estranha, se­
ja ela educador ou psicoterapeuta, em contato direto com a criança, vier a as­
sumir importância para ela, rompendo o triângulo pai-mãe-filho, isso acarretará
o risco de retardar a evolução inconsciente da criança para uma estruturação li­
bidinal sexuada, pois essa estruturação só pode efetuar-se favoravelmente na
conjunção familiar triangular.
Não sendo observada essa prudência, a criança é remetida a uma posição
erotizada de recém-nascido, e quanto mais adquire desenvoltura lingüística e
psicomotora, mais se distancia da possibilidade de ingressar no Édipo, haven-

1 70
O COMPLEXO DE ÉDIPO . .

do sua relação com a reeducadora ou com o terapeuta desvalorizado definitiva­


mente seu pai e sua mãe como objetos de estima e de identificação.
A técnica corrente de reeducação ou psicoterapia em entrevistas a sós com
a criança, portanto, só é isenta de perigo após a aquisição da autonomia com­
portamental completa e do domínio da língua materna, tal como falada em
família e utilizada com os colegas da mesma idade. É comum vermos certas
reeducações, efetuadas aos seis a oito anos de idade, surtirem efeito no plano da
fala e da motricidade e, depois, passado um tempo de latência, tornarem-se
causa de distúrbios neuróticos graves, certamente mais graves do que teria si­
do o atraso escolar. Esse tipo de distúrbio eclode entre os dez e os quatorze anos.
É um efeito da angústia de castração pré-edipiana, ou seja, uma angústia rela­
cionada com o desenvolvimento das pulsões infantis dos primeiros anos, que
está na base dos distúrbios da criança; além disso, pode tratar-se de distúrbios
devidos à angústia edipiana propriamente dita, mas, de algum modo, a eroti­
zação da relação com a educadora mascarou isso, fez as vezes de uma prótese por
um bom tempo, e polarizou o narcisismo da criança numa relação de sedução;
a criança terá feito na reeducadora uma fixação transferencial pseudomaterna e,
assim, nunca terá tido oportunidade de resolver uma situação triangular; de
modo que, por ocasião do impulso pubertário, quando os conflitos edipianos já
deveriam ter sido vividos, eles assumem, levando-se em conta a maturidade
física do pré-adolescente, uma acuidade tanto maior quanto mais o desejo in­
cestuoso houver assumido uma violência inédita, numa criança doravante ca­
paz de passar ao ato. Assim, o fracasso do pré-adolescente que não consegue
adaptar-se à sociedade de um modo criativo provém da atuação de urna angús­
tia de castração que não pôde ser vivida nem superada na idade de seis anos. O
conflito edipiano que eclode na puberdade pode então levar à delinqüência ou
a distúrbios psicóticos.

Desde a idade de três anos, e até em idade mais precoce, o atraso no de­
senvolvimento psicossocial pode ser acompanhado de angústia, o que se traduz
nos distúrbios do sono, da respiração (asma), do apetite (anorexia, fobias ali­
mentares), da regulação excrementícia (constipação, diarréia emocional) e da
linguagem (gagueira, palatalização, etc.); tudo isso é acompanhado por insta­
bilidade e distúrbios do caráter (agressivo, destrutivo ou exageradamente pas­
sivo). A brincadeira não aparece e a mímica se faz ausente, não exprimindo dor
nem alegria: o olhar permanece fixo e a expressão do rosto fica congelada num
sorriso aparvalhado, ou traduz uma tristeza pálida; trata-se então de uma cri­
ança que sofre de uma neurose pré-edipiana. Seria nocivo considerá-la débil, a

1 71
NO JOGO DO DESEJO

pretexto de ela ser assim rotulada nos testes e em seu grupo de idade escolar.
Pior ainda é isolá-la das crianças de sua idade ditas adaptadas. Seu estado exige
com urgência urna psicoterapia psicanalítica, à qual por vezes se acrescenta urna
reeducação; mas é absolutamente imperativo que a criança permaneça em sua
família e na escola comunitária; deve-se evitar que ela seja matriculada numa
escola "especializada", onde todas as crianças sejam afetadas por distúrbios da
função simbólica, e todas por razões diferentes.

Se todas as dificuldades que evocamos até aqui não são muito espetacu­
lares, resta dizer que é freqüente urna neurose infantil constituir-se na época
da primeira infância, no nascimento ou por ocasião do desmame, quando da
aquisição da continência esfincteriana, no nascimento de um irmão mais no­
vo, ou ainda, por ocasião de urna mudança da babá, de afastamentos sucessivos
dos pais, de algum acidente grave ou até mesmo de um luto. Só que essa neu­
rose pode passar despercebida no início de sua estruturação; é possível que os
distúrbios sejam negligenciados, por não incomodarem as pessoas do am­
biente, como é o caso dos distúrbios passivos em que a criança se fecha em si
mesma. Nem os pais nem os médicos se apercebem de nada. Ao ingressar na
turma, entretanto, em meio às outras, os traços bizarros dessa criança, embo­
ra inteligente, eclodem; sua instabilidade ou sua impossibilidade de se adap­
tar à escola fazem com que ela passe por débil, coisa que ela não é (mesmo nos
testes). Mas foi em sua própria identidade, enquanto sexuada e radicada em
sua genética, que ela não se construiu nos vinte primeiros meses de vida; cons­
truiu-se como um objeto e se ignorou como sujeito. Trata-se de uma neurose
grave: não sendo tratada, poderá, com a maturação física da criança, evoluir
para a psicose.
Ainda hoje, muitos pediatras, quando os pais falam de nervosismo, insta­
bilidade caprichosa, falta de apetite e apatia de seus filhos pequenos, optam por
medicações sintomáticas, embora esses distúrbios sejam uma linguagem que
exprime um sofrimento; somente a psicoterapia precoce da relação filhos-pais
seria eficaz e, sobretudo, resolutiva para esses distúrbios, permitindo à criança
desenvolver-se.
Há sempre uma intricação da angústia de pa�s-e-filhos nesses casos de
neuroses muito precoces. E aqui, a inadaptação da criança, patente apenas
no momento do ingresso na escola primária, é algo completamente dife­
rente de um retardo afetivo simples. Não se trata, de modo algum, das cri­
anças - decerto pouco dotadas intelectualmente, mas alegres e vivendo bem
- de uma família em que existam boas relações com pais tranqüilizadores,

1 72
O COMPLEXO DE ÉDIPO . .

mas na qual, simplesmente, o vocabulário seja pobre. A criança afetada por


uma neurose infantil é ansiosa desde longa data, muitas vezes medicada, e
a chegada à idade fatídica da escola obrigatória, que ela é incapaz de acom­
panhar, só faz evidenciar para todos uma sintomatologia de desamparo. Num
meio escolar urbano, bem provido de consultórios médico-pedagógicos, es­
sas crianças devem seguir uma psicoterapia psicanalítica, sem dúvida asso­
ciada com contatos freqüentes entre o psicoterapeuta e os pais: qualquer
reeducação pode ser nociva antes de um "desbastamento" pela psicoterapia
analítica.

A psicoterapia psicanalítica baseia-se no estabelecimento de uma transfe­


rência: transferência, quanto à criança, de suas relações simbólicas passadas para
a pessoa do terapeuta; ela é conduzida pela livre expressão (desenho, mode-
lagem) das pulsões recalcadas. Estabelecida a transferência, cabe basicamente /
ao psicanalista decodificá-la para a criança, explicitá-la para ela.
Se a psicoterapia psicanalítica é de fato a via real para tirar a criança defini­
tivamente da dificuldade, também é preciso que o meio social e familiar con­
tinue a ter, em relação à criança, exigências educacionais efetivas: que ele a apóie
atentamente, mediante a proibição das manifestações desejantes, desde que es­
tas se traduzam em atos fora da lei; é preciso que a vigilância educacional não
seja relaxada, caso contrário, as fantasias, atuadas sem nenhum controle, farão
de qualquer público-testemunha um espelho cúmplice. Os pais e educadores,
portanto, devem sempre verbalizar as proibições que proferem contra os atos
anti-sociais da criança: mordidas, antropofagia disfarçada em aucofagia, co­
profagia, perversão do paladar, agressão sádica, nidação corporal, intimidades
sensuais demasiadamente pueris com os adultos, pais ou familiares, intimidades
incestuosas ou fora da lei, ações perversas com outras crianças ou com animais
domésticos, roubos ou depredações. É necessário que o pai, a mãe ou seus subs­
titutos educativos ajudem e apóiem a criança, para que ela venha a se exprimir
de outra maneira que não através dessas manifestações regressivas, que devem
ficar reservadas às sessões de tratamento com o psicanalista, em relação ao qual
a criança revive uma época ultrapassada e transfere pulsões pertencentes a eta­
pas bem anteriores de sua evolução perturbada. É prejudicial, fora dessas ses­
sões, que as pessoas encarregadas da educação da criança fechem os olhos a es-
ses comportamentos.
A relação transferencial, em contrapartida, não pode ser utilizada para/
a repressão ou para a moralização. O psicanalista não pode e não deve de­
sempenhar no real um papel de educador. Digamos mais uma vez: é o grupo

1 73
NO JOGO DO DESEJO

·::;., social - escola, pais - que tem a autoridade de direito. De início, a au­
toridade fica reservada aos pais; eventualmente, é delegada aos educadores,
mas somente os pais podem provocar a instauração dos termos do complexo
de Édipo, pelo qual é absolutamente i�dispensável que a criança passe para
se curar. Para aceder às posições do Édipo, é sempre necessária, nesses casos
de pré-psicose infantil, uma psicoterapia analítica; ela é que irá permitir à
criança, por outro lado, aceitar a educação. Entretanto, mais uma vez, deixar
que uma criança caracterologicamente inadaptada faça o que bem entender,
a pretexto de que está em psicoterapia, é sentido pela própria criança como
uma rejeição ou um abandono por parte dos pais, mesmo quando eles pagam
pelo tratamento, e mais ainda quando é a escola que aconselha a psicoterapia,
que os pais encaram como um serviço social gratuito com o qual à. sociedade
- \)hes impõe anonimamente que beneficiem seu filho, e no qual eles de modo
algum estão implicados.

Quando os pais não se sentem implicados, é porque se trata de distúrbios


inconscientes tanto neles quanto na criança. A psicanálise dessas crianças
mostra, com efeito, que a origem dessas neuroses precoces agudas pré-edipia­
nas (que, quando não tratadas, a rigor não são outra coisa senão a entrada na
,,psicose) situa-se em etapas decisivas do desenvolvimento da criança pequena
-etapas de mutação libidinal que coincidiram, no tempo, com experiências
familiares ou sociais, com perturbações afetivas que afetaram a mãe ou o pai
e.m momentos em que, ao contrário, eles deveriam ter mantido um clima de
stgurança. O bebê ou cria�ça pequena passa então a ser habitado por pulsões
libidinais de morte, muito momentâneas; são experiências por que passam to­
dos os seres humanos e, nos casos habituais em que os recém-nascidos são as­
sistidos pelos pais, a mutação se faz sem deixar vestígios, após algumas horas
de distúrbios regressivos; em contrapartida, uma criança deixada a sós consi­
go mesma, sem o auxílio de uma presença humana atenta e compassiva, nos
movimentos em que seu desenvolvimento passa por fases de mutação devidas
a seu crescimento físico, não pode nem aceder a uma simbolização de suas pul­
sões, nem abandonar os modos arcaicos de satisfação pertencentes à fase prece­
dente do desenvolvimento.
O tratamento psicoterápico de wna criança, mesmo que tenha que ser in­
dividual e transcorrer em entrevistas singulares, como acontece depois dos sete
anos de idade, não pode ser feito sem contatos confiantes entre o psicanalista da
criança e os pais dela, pelo menos até os oito anos e, em geral, até a puberdade.
Com efeito, é indispensável que os pais, desculpabilizados, compreendam os pro-

1 74
O COMPLEXO DE ÉDIPO . .

blemas que o filho tem de enfrentar, para que não se desliguem, ajudem-no e, ao
mesmo tempo, se compadeçam das angústias que ele atravessa. As vezes, sucede
a um dos pais, conscientizando-se, nessas entrevistas com o psicanalista, de difi­
culdades que teve na infância, ou que tem atualmente, perceber que ele não con­
segue assumir seu papel parental sem uma angústia muito grande - coisa de
que �té então não se dera conta - e descobrir que muitas das dificuldades reati­
vas da criança se devem a sua própria angústia. Nesses casos, ele mesmo pode de­
mandar e iniciar um tratamento psicoterápico e tirar proveito deste, não mais
apenas para a criança doente, mas também para si mesmo. Nessas ocasiões, a psi­
coterapia dos pais deve ficar a cargo de outra pessoa que não o psicanalista da cri­
ança; a neurose da criança, nesta última eventualidade, terá desempenhado o pa­
pel de detector de uma neurose grave de um dos pais, neurose esta já instalada
bem antes do nascimento da criança.
Se os pais sempre têm de estar associados e, algumas vezes, pessoalmente
implicados no tratamento de seus filhos, é porque continuam e devem conti­
nuar a assumir, através do exemplo e de suas atitudes repressivas ou de apoio,
seu papel de instância educadora. Na falta, por parte do psicoterapeuta, de
palavras que explicitem o papel insubstituível dos pais, sucede a estes recor­
rerem inteiramente, em tudo o que concerne a seu filho, à pessoa que fornece
o tratamento; isso torna o tratamento impossível e, talvez, até mais nocivo do
que sua ausência. Também há casos em que pais a quem a escola impõe que
levem seu filho para ser consultado rejeitam categoricamente a psicoterapia que
lhes é aconselhada. Quando se trata de uma criança que não atingiu a maturi­
dade esperável de um menino ou menina de oito anos (podendo, portanto, tratar­
se de crianças de até 1 2 anos de idade real), é conveniente não empreender a
psicoterapia contra o desejo implícito e sobretudo explícito do pai - ou da
mãe -, a menos que a criança já não viva em casa e esteja confiada a alguma
instituição educacional onde os pais quase não venham vê-la. Empreender uma
psicoterapia contra o desejo do pai ou da mãe colocaria essa criança numa situa­
ção perversa em relação ao casal edipiano; é preferível falar claramente com a
criança sobre suas dificuldades e sobre as prováveis razões dos pais para recusar
a psicoterapia, e permitir-lhe, dentro de alguns anos, reformular ela própria
uma demanda de tratamento - a menos que a criança, caso se tenha tido opor­
tunidade de falar duas ou três vezes com ela antes de iniciar um tratamento psi­
coterápico, peça para sair do meio familiar, ou que, com efeito, o próprio geni­
tor resistente ao tratamento seja constantemente posto em perigo pelo cresci­
mento, dentro de casa, do filho ou filha cuja maternidade ou paternidade não
possa assumir.

1 75
NO JOGO DO DESEJO

De qualquer modo, parece-nos inoportuno negligenciar o respeito pela


autoridade dos pais no atual estado da legislação2 • De resto, é comum uma sim­
ples reeducação ser aceita pelos pais. Embora não constitua mais do que um
paliativo arriscado, ela às vezes permite à criança fazer alguns progressos e de­
pois conseguir - pela reabilitação narcísica que esses progressos levam aos pais,
através do filho que eles acreditavam definitivamente incurável - a autoriza­
ção para empreender um verdadeiro tratamento psicanalítico.
Por que não pode o analista empreender a psicoterapia de uma criança de
' menos de treze anos sem o assentimento dos pais? Porque, se a criança trans­
fere seu passado para o analista, a fim de revivê-lo, o impacto da relação parental
triangular, na realidade presente, deve continuar dominante.
Os pais são e devem continuar a ser responsáveis pela criança perante a lei:
é isso que constrói sadiamente a criança no presente. O tratamento psicanalítico,
que joga com as pulsões passadas, de nada serve em matéria de educação e de
instrução.

Outros pais mostram-se desejosos de uma psicoterapia e cooperam. Nos casos em


que a criança é levada à psicoterapia pelos pais (justificadamente inquietos), cabe
à criança, ao cabo de duas a três sessões, decidir se quer continuar ou não. Caso
não queira continuar, os pais é que deverão comparecer em seu lugar, quer ela
os acompanhe ou não, e seu tratamento passará pela intermediação das pessoas
com base nas quais ela elabora os componentes energéticos de seu Édipo. Quando
uma criança apresenta neuroses pré-edipianas ou edipianas graves, isso levanta,
para o psicanalista, o problema de ele se abster de fazê-la beneficiar-se de um
tratamento que sabe ser inteiramente indicado; mas isso não é razão para impor
à criança um tratamento pessoal de que ela se defenda. Talvez o respeito por es­
sa recusa prepare um tratamento em melhores condições, mais tarde.
Também é possível que os pais ou a sociedade tenham confiado a criança a
um internato; torna-se então indispensável que o psicanalista veja os educadores,
substitutos parentais, pois é com eles que a criança vivencia na atualidade seu
complexo de Édipo, ou melhor, que o prepara, ao transferir para esses educadores
pulsões que deveriam ser vividas em relação a seus pais. A transferência, nesse ca­
so, é passada ao ato, o que é inteiramente diferente do que acontece muna psi-

2 Na verdade, os pais continuam a ser o eu ideal da criança até a idade em que a lei auroriza legalmente o jovem
a deixá-los e a assumir a responsabilidade por si mesmo fora do controle deles (maioridade ou emancipação).
Poderíamos admitir urna legislação que, sem culpar os pais, corno faz a medida da "retirada da autoridade
parental", aurorizasse os filhos a saírem do domicílio familiar para viver em comunidades conrroladas por edu­
cadores, com poderes delegados pelo Estado.

1 76
O COMPLEXO DE ÉDIPO . .

canálise. No tratamento psicanalítico, trabalhamos a partir da transferência de


pulsões anteriores às do momento presente, ao passo que os educadores se servem
da transferência atual de pulsões que, antes dos sete anos, ou seja, antes da reso­
lução do complexo de Édipo, deveriam ser dirigidas aos pais, se eles estivessem
presentes, e que só podem ser lateralmente dirigidas aos educadores. A relação
com os pais e educadores tem precedência sobre a relação dual que permite con­
d!-!zir o tratamento psicoterápico. A relação com o psicoterapeuta articula-se na
fàntasia, ao passo que a relação com os educadores é vivida na realidade. Exatamente
por essa razão, é necessário reduzir ao mínimo indispensável a freqüência das
sessões de psicoterapia, para que a relação criança-terapeuta não se torne o centro
das preocupações familiares ou das preocupações da criança, e para que o lucro
secundário que esta retira do saber-se alvo da preocupação temporal e econômi­
ca dos pais não anule a experiência do trabalho psicanalítico, que tem por obje­
tivo primordial permitir à criança, pelo desrecalcamento de todas as suas pulsões,
adaptar-se à realidade de sua situação atual. No curso do tratamento de uma neu­
rose pré-edipiana, as pessoas da mãe e do pai devem continuar a ser, para a cri­
ança, a referência predominante com respeito à atuação cotidiana, dentro e fora
da família, de suas pulsões e da experiência que a criança tem delas. A criança
tem de se construir a partir dessa relação posta em prática com seus educadores,
uma relação que constitui sua experiência e que o tratamento psicanalítico alivia
das fantasias arcaicas e dos sentimentos de culpa que a fazem regredir a situações
da primeira infância; no tratamento, de fato, através da transferência psicanalíti­
ca, ela pode comunicar as emoções que remontam a esse período passado.
No tratamento, a expressão que a criança dá a suas pulsões e a sua transfe­
rência para o analista passam, em particular, pelo desenho e pela modelagem,
através das brincadeiras e dos enunciados, e através das angústias que ela ex­
perimenta ao comparecer às sessões nos dias em que afloram as pulsões de morte
- angústias que fazem dessas sessões justamente as mais importantes. Quando
os pais ou os educadores encarregados da criança não compreendem a im­
portância do tratamento psicanalítico, eles correm o risco de não levá-la no mo­
mento em que a criança cria algum obstáculo. Ora, é nos dias em que ela está
conscientemente mais hesitante em comparecer à sessão que o conteúdo desta
é mais libertador. Por tudo isso, compreende-se corno é difícil a psicoterapia
de crianças, muito mais que a de adultos. Ela exige, por parte dos pais, um
cuidado real com a evolução dos filhos e um entendimento vindo do coração,
entendimento que, felizmente, muitos pais possuem.
Curada de sua neurose oral e anal, a criança, caso isso ainda seja necessário,
poderá beneficiar-se sem perigo de uma reeducação especializada no que con-

1 77
NO JOGO DO DESEJO

cerne aos sintomas instrumentais residuais, ou para compensar algum atraso


escolar, que o tratamento psicanalítico jamais será capaz de compensar.
Quando o tratamento corre bem e vemos a criança adaptar-se dia a dia a
seu meio escolar e familiar, é igualmente importante - quer a criança o so­
licite ou não - espaçar as sessões de psicoterapia analítica, para lhe permitir
experimentar sua autonomia sem recorrer ao apoio de uma catarse de suas pul­
sões no tratamento.
Nunca se pode afirmar que o tratamento de uma criança está terminado;
tudo o que podemos dizer, num dado momento, é que, no estado atual das
coisas, é bom suspender por algum tempo a freqüência ao psicanalista, ainda
que, de tempos em tempos, ele tenha de estar com os pais para ajudá-los a man­
ter as sublimações da criança e a suportar reprimi-la em algumas de suas mani­
festações, sobretudo quando se evidenciar a instauração dos componentes do
Édipo. O psicanalista deverá então ajudar os pais a apontarem à criança a
proibição do incesto, ou seja, a instaurarem a castração edipiana. Somente de­
pois da resolução edipiana é que se pode ter certeza de que a neurose pré-edi­
piana da criança foi verdadeiramente curada e de que sua evolução posterior
tem toda a probabilidade de correr bem.
Uma criança curada de uma neurose pré-edipiana, e que aceda ao Édipo,
pode viver sua angústia de castração de maneira crítica, o que, vez por outra, é
gerador de ansiedade para os pais ou educadores responsáveis, sobretudo se estes,
tendo visto a criança gravemente enferma nos primeiros anos de vida, temerem
uma recaída. A angústia que os pais vivenciam ao dirigirem os comportamen­
tos do filho, ao controlá-lo, corrigi-lo ou tratá-lo com severidade, deve ser ana­
lisada, assim como seus medos de traumatizá-lo, medos estes que podem acar­
retar, por parte deles, o abandono de seu papel educativo e do papel repressor
,· que eles têm de desempenhar em relação às manifestações incestuosas da cri­
ança. Esta última, ao contrário, tem uma necessidade absoluta - pois isso a
liberta de sua angústia de castração - de que os pais, e sobretudo o pai, pos­
sam assumir e manter as tensões estruturantes de seu desejo: de que eles po­
nham fim às atitudes tolerantes, indulgentes ou superprotetoras, e até mesmo
cúmplices, que haviam adotado (justificadamente) durante a doença.
A angústia dos pais é, por vezes, realmente neurótica: sua não-intervenção
educacional, em nome dos eventuais traumas que eles correriam o risco de causar
aos filhos, constitui um dos problemas de nossa época. É a partir de noções psi­
cológicas e psicanalíticas difundidas na literatura e mal-compreendidas que
muitas crianças sadias, chegando ao estágio do complexo de É dipo, não con­
seguem sair da crise, simplesmente por causa de pais que fracassam em seu pa-

1 78
O COMPLEXO DE ÉDIPO.

pel de educadores; os pais, nesse momento, deixam de apontar às crianças a


proibição do desejo incestuoso - uma proibição que se aplica tanto aos irmãos
e irmãs (sejam eles ou não do mesmo sexo) quanto aos pais. Essa angústia, que
impede os pais de educarem os filhos, traz o risco, em nosso dias, de levar os
primeiros, no momento da crise edipiana, a cederem à chantagem carac­
terológica ou psicossomática de crianças até então sadias e sem problemas; o
período edipiano, no momento de sua resolução, é sempre um período crítico,
Assim, esses pais retardam - e, às vezes, entravam - a resolução da angústia
de castração característica da crise do complexo de Édipo no que ela tem de ine- !.
vitável. A criança, angustiada por suas pulsões a serviço do desejo incestuoso,
provoca os pais e, astuciosamente, cria obstáculos para impedi-los de viver em
paz, obstáculos a sua intimidade de casal. Ela pode, por exemplo, ter sonhos de
angústia e, em nome de suas insónias, perturbar as noites dos pais. Pode ainda
rebelar-se contra a atenção dada a um irmão mais velho ou mais novo e reivin­
dicar exclusivamente para si um amor que acredita caber-lhe de direito. Nesse
momento, há numerosas manifestações histéricas. Os pais acreditam estar agin­
do bem ao evitar deixar essa criança enciumada: "Isso poderia traumatizá-la".
É perfeitamente correto que, nos períodos da crise edipiana propriamente di­
ta, na idade de seis ou sete anos (ou quando dos ressurgimentos da crise edi­
piana na adolescência), não seja a criança, por fazer "cenas" e provocar senti­
mentos de culpa, que venha a mandar em casa. Alguns pais, nesse contexto,
procuram se livrar de seu papel educativo, que consiste, antes de mais nada, em
dar o exemplo, assumindo seu próprio desejo. O pai, esgotado, retarda a volta
para casa depois do trabalho e sai sozinho aos domingos para se distrair, fugin­
do dos dramas; ou então, afasta punitivamente a criança, por ela estragar a har­
monia conjugal. Mas o problema se recoloca a cada volta para casa.
Infelizmente, também há pais que entregam a um filho mais velho, que
pode ter sete a quatorze anos, sua autoridade tutelar. O irmão menor torna-se
então presa do mais velho e passa a desempenhar, para este último, o papel
imaginário de uma progenitura incestuosa, desde então superprotegida ou sadi­
cizada. Quanto ao pseudogenitor, isso o deixa ansioso: ele procura furtar-se às
leis da criatividade, do trabalho escolar e da inserção social que são próprias de
sua idade; desarticula a autoridade paterna, ao mesmo tempo em que a imita
com o irmão mais novo. Em resumo, as atitudes demissionárias dos pais são
sempre pagas pela criança com um fracasso autopunitivo inútil, prejudicial a
seu desenvolvimento.
O papel do psicanalista, quando lhe são levadas essas crianças em plena
crise edipiana, não é cuidar pessoalmente da criança, mas apenas vê-la o bas-

1 79
NO JOGO DO DESEJO

tante para compreender o que está acontecendo e apoiar o casal parental, per­
mitindo à criança - algo em que freqüentemente os pais não pensam - es­
capar das tensões familiares através de atividades externas. Poder afirmar sua
personalidade fora de casa, fazer amigos e escolher livremente as atividades que
correspondem a seus desejos do momento, tudo isso ajuda consideravelmente
a criança. É verdadeiramente lastimável que nossas infra-estruturas sociais não
prevejam atividades lúdicas organizadas para as crianças de cinco a oito anos.
Pertencer a organizações de lazer só é possível, entre nós, a partir dos oito anos;
ora, muitas crianças tirariam extremo proveito de algumas escapadas do meio
familiar no momento da fase edipiana. Evidentemente, é muito mais fácil
aceitar, nesse tipo de agrupamentos, crianças no período de latência, mas, ao
contrário, é por ocasião das crises edipianas que os pais teriam maior necessi­
dade de revezamento com jardins-escola e com oficinas ocupacionais in­
teligentemente concebidas, onde as crianças pudessem descobrir suas possibi­
lidades de autonomia.
Uma criança de cinco anos é sempre muito inteligente, mesmo que não
saiba comunicar aquilo que pensa: ela tem necessidade de ser apoiada em sua
inserção social por brincadeiras criativas e, poderíamos dizer, apenas por elas.
Necessita igualmente de conversas sobre o que sente e não sabe dizer muito
bem, sobre tudo o que lhe interessa; mas há que ter prudência: nesse período,
em que a criança ainda vive muito em suas fantasias, é preciso ter o cuidado de
não tirar proveito disso para sugestioná-la ou criticá-la diretamente em seus in­
teresses fantasmáticos e nas fórmulas gramaticais que ela emprega para falar de
tudo o que imagina. O essencial é zelar para que ela se tome orgulhosa de seu
sexo, orgulhosa de tudo aquilo que faz dela, em suas fantasias, uma menina ou
um menino de valor. Nessa idade, os raciocínios moralizantes só devem aplicar­
se aos comportamentos da realidade, e nunca aos comportamentos fantasniáti­
cos, pois, quando as conversas educativas transformam-se em discursos morais,
elas deslocam bruscamente a criança de uma vida imaginária que lhe é necessária
para uma realidade na qual se pretende ac;uá-la, e ela acaba se convencendo de
que seus pais querem proibir-lhe essa vida imaginária, que é, na verdade, a
garantia de sua adaptação futura às leis da vida social.

O período edipiano
Admitamos que a criança, menina ou menino, tenha atingido, na idade
civil de três anos, o nível de desenvolvimento que descrevi anteriormente3 : é

3 Cf. p. 167.

1 80
O COMPLEXO DE ÉDIPO . . .

uma criança sadia e alegre, que entra na fase edipiana de sua evolução, que é
um período de crescimento imaginário; ela observa todos os detalhes do com­
portamento e da vida dos outros e observa igualmente a natureza.

A menina
Essa é a idade em que a garotinha descobre que é menina, não porque is­
so lhe seja dito, nem por ter um nome feminino, nem por causa de seu pen­
teado ou seus vestidos, mas em decorrência de seu sexo, que não é como o dos
meninos. Até essa primeira experiência, ela via no próximo um semelhante
sob todos os aspectos: simplesmente menor ou maior do que ela no tamanho.
A esse "suposto semelhante" que foi o menino, que ela agora descobre ter um
pênis, a menina inveja. Sua decepção é sempre inquieta e, muitas vezes, mani­
festa. A menina sempre tem, nesse momento, necessidade de ouvir palavras
simples, vindas de um adulto, de preferência sua mãe, que lhe digam a ver­
dade sobre sua conformação sexual: que essa conformação é a de todas as meni­
nas, que mais tarde se tornarão mulheres, e que a conformação que ela pôde
observar neste ou naquele menino é a de todos os homens. É importante que
ela seja cumprimentada pela acuidade de sua observação. A menina se certifi­
ca, a partir daí, da esperança de que, mais tarde, terá seios como as mulheres,
e também de que trará filhos ao mundo, como sua mãe; mas é-lhe impossível
imaginar que esses filhos sejam outra coisa senão excrementos singulares, mági­
cos, procedentes de uma ingestão oral.
Para a maioria das meninas, essa descoberta do próprio sexo, quando
traz o assentimento e as palavras tranqüilizadoras da mãe, marca o ingresso
- que elas fazem com orgulho - na arena feminina. Então, elas se cercam
de amigas, que são ao mesmo tempo suas rivais. Ficam um pouco ame­
drontadas diante dos meninos, que lhes parecem fortes e belos; gostam de
ser aceitas na comunidade das mulheres, com quem compartilham, ao mes­
mo tempo, o papel mítico de sedutora e o papel exemplar de esposa e mãe
perfeita: aspecto duplo da potência fálica devolvida ao corpo das mulheres,
o qual, por outro lado, esconde no lugar do sexo, na misteriosa prega vul­
var, o clitóris, que as meninas descobrem e a que chamam "botão". Essa des­
coberta as leva a sonhar com um futuro fálico imaginário e até com con­
cepções partenogênicas. Muitas meninas gostam de se excitar através de
fricções não só do clitóris e da vulva, mas também dos botões mamários
erécteis, o que alimenta sua ilusão de um falomorfismo de seu sexo. O de­
sejo vulvo-vaginal de serem penetradas articula-se com essas fantasias
masturbatórias.

1 81
NO JOGO DO DESEJO

A masturbação das meninas pode nunca ser observada pelos adultos, e


muitas mulheres negam tê-la praticado em sua primeira infância; não obstante,
ela existe, de um modo sadio, nos limiares do sono ou durante o sono: e deve
ser respeitada.
Nesse desejo masturbatório, as meninas buscam inconscientemente a re­
lação com o falo simbólico, do qual o pai se tornou representante. Por todo o seu
comportamento, a menina mostra que seu desejo é identificar-se com o mode­
lo feminino; sendo menos impelida que os meninos a uma regressão carinhosa
para a mãe, ela desenvolve, inconscientemente subtendida pela ação das pulsões
fálicas, orais e anais, uma curiosidade que deve ser desculpabilizada. O desloca­
mento das pulsões para essa curiosidade é salutar: ele respalda o acesso ao domínio
perfeito da linguagem ("as meninas falam pelos cotovelos"), assim como ao
domínio manual e corporal e também ao gosto pela competição feminina. Nas
atividades domésticas, a menina quer imitar a mãe e as irmãs mais velhas e fa­
zer as coisas tão bem ou melhor do que elas. As mães que impedem as filhas de
três anos de ajudá-las, ou até de fazerem em seu lugar as tarefas domésticas, não
sabem até que ponto prejudicam seu desenvolvimento posterior. São exatamente
as pulsões orais e anais que se transferem para todo esse comportamento. Quanto
às pulsões vaginais passivas, elas entram igualmente em ação; a menina procu­
ra ativar o interesse dos homens, do pai, dos irmãos, com sua graça, seu co­
quetismo e com a procura do "belo" que ela dá a ver, com o objetivo de seduzir
os representantes do outro sexo.
A menina investe de amor fetichista suas bonecas humanas. Com elas de­
sempenha sadicamente seu papel maternal tutelar, que tende para uma catarse
de fantasias narcísicas compensatórias de sua impotência: ela alimenta um cer­
to rancor pela mãe, sobretudo quando existem irmãos visivelmente favorecidos
pela natureza e que a fazem sentir a superioridade que têm. Quanto a sua infe­
rioridade de "pequena" em relação aos "grandes", trata-se de uma inferioridade
real e, para que a menina se desenvolva bem, não deve ser sentida de maneira
terrivelmente cruel.

O menino
Passemos agora à entrada do menino no Édipo.
Desde a idade de dois anos, dois anos e meio, ele já descobriu a existência
de seu pênis eréctil e o prazer que este lhe proporciona através das manipulações
lúdicas a que o submete. Aos três anos, ele descobre que as meninas não têm
pênis e, a partir de então, valoriza ainda mais esse precioso apendicezinho, que
considera como um instrumento glorioso, com função exclusivamente urinária.

1 82
O COM PLEXO DE ÉDIPO . .

Entretanto, a existência de ereções independentes da micção (e que, a partir dos


dois anos e meio, em geral, o impedem justamente de urinar) levanta-lhe um
problema. Essa região do corpo é misteriosa para ele; é magicamente erógena,
mas, quando é erógena, deixa de ser funcional: que pode significar isso?
Orgulhoso de seu órgão e se formulando perguntas a respeito dele, todo meni­
no procura exibir-se. Essa exibição, valorosa para ele, é também uma pergunta
muda sobre o sentido a ser dado às ereções. Sendo assim, como é que os adul­
tos não apreciam sua conduta? Será que não sabem que isso que ele está exi­
bindo é o que tem de mais belo para mostrar, o que tem de mais precioso? Por
que não lhe explicam o sentido desse orgulho que o anima, orgulho que ele
percebe estar justamente na índole peculiar de seu ser no mundo?
Na primeira vez que o menino divisa o sexo de uma menina, ele acredita
ter enxergado mal e crê que a menina avistada de relance é, na realidade, dota­
da de um pênis oculto, que ainda não cresceu. Quando o menino é corajoso o
bastante para ousar realmente olhar de perto o sexo de uma menina, ela própria
desejosa de se instruir e confiando inteiramente no amiguinho, este experi­
menta, ao observá-la de visu e de tactu, uma angústia real, em virtude da hiân­
cia que constata. Vê nela uma mutilação e sente uma angústia especular, no
exato lugar de seu próprio sexo: angústia de que seu sexo possa ser eliminado
pela vontade dos pai::;, pois, nessa idade, a criança imagina que tudo obedece à
vontade dos pais. O menino tem absoluta necessidade de que os adultos - sua
mãe, mas sobretudo seu pai - confirmem explicitamente, através de palavras,
a exatidão de suas observações sobre as meninas, e que lhes expliquem o senti­
do a ser dado a suas ereções: ao mesmo tempo, o sentido erótico e o papel fu­
turo na paternidade - que é coisa de homem, já que o desejo do homem é o
prelúdio da concepção dos filhos e comanda a maternidade.
As crianças - os meninos mais precocemente do que as meninas - pre­
cisam ser instruídas sobre o destino recíproco e complementar dos sexos: isso
as leva a compreender sob um prisma inteiramente diferente, e também a aceitar,
a intimidade que une seus pais e os casais enamorados que tanto despertam sua
curiosidade. Saber que a diferença anatômica entre os sexos conota seus futu­
ros papéis respectivos na fecundidade é o que faz com que as meninas e os meni­
nos entrem no complexo de Édipo. O menino se inscreve então na arena dos
homens, tal como a menina na das mulheres.
Contudo, no plano das fantasias, o menino admite lentamente e com di­
ficuldade que sua mãe tão amada, com quem até então se identificava e que
acreditava ser absolutamente onipotente, pelo lugar preponderante que ela
ocupa nos pensamentos do pai, não é, nem ao menos ela, uma exceção. Sentado

183
NO JOGO DO DESEJO

em seu colo, com a imaginação desnorteada pela impotência como um barco à


deriva, ele repousa a cabeça no peito da mãe, comovedor refúgio onde encon­
tra amparo para se tranqüilizar e esperança de se tornar um homem suficiente­
mente forte para se casar com ela: o menino não consegue imaginar que ela não
tenha, ao menos ela, além dos seios, um sexo semelhante ao seu. Assim evoluem
os devaneios dos meninos de três anos, enquanto eles executam o trabalho men­
tal de admitir a realidade de uma mãe sem pênis, enquanto se rendem à reali­
dade de que sua mãe foi menina e de que seu pai foi, como eles, um menino,
cuja mãe não foi outra senão a que hoje é a avó paterna.
Esclarecido sobre essas questões por ditos verdadeiros, o menino precisa
ainda, a partir desse momento, ser informado sobre o papel futuro das ereções,
que manifestam o fato de que seu pênis é um sexo, e não mais simplesmente
um faz-xixi, como ele acreditara até então: suas glândulas sexuais, sensíveis em
seus testículos, e que, sem palavras valorizadoras, ele supõe serem receptáculos
de excrementos, terão um papel fecundante na idade do homem - papel fe­
cundante sem o qual as mulheres nunca poderiam ser mães.
Quando digo que essas explicações devem ser dadas aos meninos mais ce­
do que às meninas é porque, como eles só captam o que é visível, como a gravidez,
a maternidade e o aleitamento, a fecundidade é, a seus olhos, um fenômeno
mágico, de ordem digestiva, reservado exclusivamente às mulheres. O menino
não esclarecido sobre o papel do desejo paterno fica numa posição de inferio­
ridade, de frustração: a função materna lhe parece ser a única a ser concreta­
mente gratificada. O menino tem de viver um luto nesse momento, que é o lu­
to de sua identificação com a mãe; ora, não poderá vivê-lo com força e eficácia
senão tendo a possibilidade de ver em seu pênis, fonte de volúpia, outra coisa
além de um brinquedo.

Certamente, a menina, por sua vez, aceita com despeito a descoberta de


sua conformação sexual; entretanto, nela, a angústia de mutilação imaginária e
a decepção que ela experimenta diante de seu peito achatado são rapidamente
compensadas pela esperança da maternidade, a respeito da qual ela constrói a
fantasia de uma onipotência partenogênica. Quando a mãe goza do amor do pai
(o rei, sendo ela a rainha) e quando, além disso, o pai presta alguma atenção à
filha, esta inveja na mãe as prerrogativas de companheira, as atenções amorosas
de seu marido e suas intimidades na cama. A conduta da filha em relação à mãe
irá calcar-se na conduta desta em relação ao pai, ou na da educadora em relação
a tudo o que pode conferir-lhe poder social. A menina, nesse caso, está numa
escola de mulheres. Os ursos de pelúcia e as bonecas, a partir de então equiva-

1 84
O COMPLEXO DE ÉDIPO ..

lentes a objetos homossexuais ou projeções dela mesma, são susbstitutos com­


pensatórios para sua inferioridade de criança, em particular para a ausência de
seios (substitutos do falo que falta). Para que as bonecas percam seu papel de
fetiche anal ou uretra!, substituto do pênis faltoso, e possam desempenhar um
papel fantasrnático estruturador do desejo genital (desejo que, nesse momen­
to, é falocentrípeto), é preciso que haja um pai real para a menina, ou, na falta
dele, que ela saiba, por informação da mãe, que foi gerada por um homem, que
justamente desejou que essa mãe a concebesse.
Urna menina criada sem que jamais se fale do pai ou da linhagem paterna,
por uma mãe que viva sozinha ou com outras mulheres, cresce aparentemente
melhor, na primeira e segunda infâncias, do que um menino na mesma situação.
Até a puberdade, pelo menos, sua libido feminina irá supervalorizar o falicismo
feminino pré-genital (oral e anal) e a homossexualidade passiva ou ativa, sobre­
tudo se ela não tiver um patronímico diferente do sobrenome de solteira da mãe.
Na falta do pai, ela orientará suas pulsões libidinais heterossexuais para a se­
dução dos meninos de sua idade e, enquanto permanecer ignorando a proibição
do incesto, para a de seus irmãos, se existirem. Poderá ainda voltar-se para os
homens que cortejam sua mãe, entrando então em franca rivalidade com esta -
uma rivalidade não marcada pela proibição do incesto, já que nenhum desses
homens é seu pai.
É indispensável, para que a menina aceda ao nível de primazia do genital
que a fará ingressar no Édipo, que ela se sinta orgulhosa dos atrativos que tem
para os homens. E só poderá chegar a isso através da revelação do papel fecun­
dador do homem. É preciso que esse papel lhe seja explicado a tempo, ou seja,
antes dos sete anos (ao passo que essas explicações deverão ser dadas ao meni­
no a partir dos quatro anos). Os homens que cortejam a mãe, caso esta não se­
ja casada com o pai, ou o marido tardio da mãe, que dá a esta seu sobrenome,
assumirão, na estrutura libidinal da filha, o lugar aparente do genitor, e, se es­
ses homens conservarem uma atitude casta diante da criança, é em relação a eles
que ela irá viver a proibição do incesto. Só então sua feminilidade e seu desejo
assumirão seu verdadeiro valor simbólico.
Numa menina que nunca tenha tido a oportunidade, na infância, de vi­
ver com um homem e uma mulher que compartilhassem sua existência, os fun­
damentos da estrutura genital inconsciente não podem ser elaborados: essa
menina, criada no gineceu, não poderá servir, se vier a se tornar mãe, de ima­
gem estruturante para a libido de seus filhos. Sua angústia imporá a seus filhos
e filhas uma propensão para o recalcamento do desejo. Sem dúvida, ela conti­
nuará sendo uma mulher-menina, ou se tornará uma mãe com a feminilidade

1 85
NO JOGO DO DESEJO

aniquilada, ou ainda uma mãe autoritária - aquilo a que, em psicanálise,


chamamos mãe fálica: uma mulher que apenas suporta sua vida sexual, ou que,
quando não é frígida, é volúvel, ciumenta em relação às filhas, possessiva,
apaixonada pelos filhos e eternamente insatisfeita com o marido que a mantém
em casa; uma mulher que pratica o "bovarismo", erotiza sua prole e, para sus­
tentar seu narcisismo, que permaneceu infantil, assume o lugar simbólico do
substituto peniano. Quando fica em casa, ela raramente o faz por amor a seu
homem, mas em razão da posição que isso lhe confere: criada por uma mãe
solteira ou por uma mulher abandonada, e sempre havendo sofrido na infância
com sua situação social, quer distinguir-se da mãe. Seus filhos, não importa o
que aconteça com o pai, são amputados no todo ou em parte de suas pulsões
ativas, fálicas, orais e anais; apresentam distúrbios precoces da linguagem e da
motricidade - em outras palavras, uma inadaptação precoce às leis da lin­
guagem verbal e gestual. Essas crianças só podem ser salvas por um tratamen­
to psicanalítico conjunto delas mesmas e da mãe. Durante o trabalho analíti­
co, a mãe revive, ao verbalizá-la, sua angústia infantil de filha sem pai, que es­
capou à castração estruturante que teria valorizado sua feminilidade. Desprovido
de objeto, seu ciúme edipiano ter-se-á deslocado para seus filhos: ela não su­
porta, porque isso a angustia, que eles acedam a seu próprio desejo, a sua própria
estruturação edipiana, tão inquietantes lhe parecem, para ela mesma, as fan­
tasias incestuosas necessárias ao desenvolvimento de seus filhos; aliás, ela não
deixa de inquietá-los com essas fantasias e de culpá-los por elas.
A transfer€ncia que essas mães fazem para o psicanalista, homem ou mu­
lher, quando ele as escuta por elas mesmas (aliás, o psicanalista não separa es­
sa escuta da escuta da criança ouvida por ela mesma), permite a reestruturação
da vida simbólica da criança, que se cura rapidamente. A questão, nesse pon­
to, é que a mãe continue a vir, para acabar de compreender seu próprio retar­
do afetivo. Ela viverá com o analista uma transferência pré-genital, transferên­
cia esta que lhe permitirá reassumir, em relação ao cônjuge, seu lugar próprio
de adulta; falará com o psicanalista como falava com a mãe quando era peque­
na; ora, esta não podia responder-lhe como o psicanalista, que explica e inter­
preta a angústia infantil. Assim, ela recuperará o direito a sua libido genital e
se sentirá narcisicamente reabilitada pela relação com o analista, de quem poderá
então fazer o luto.
No caso dessas mães, é interessante que o trabalho seja feito com seus fi­
lhos mais velhos; freqüentemente, esses mais velhos foram abandonados com
uma avó ou entregues a uma mãe de criação, por ocasião de algum incidente de
saúde. A criança assim confiada a uma avó ou mãe de criação pode ter-se desen-

186
O COMPLEXO DE ÉDIPO . . .

volvido perfeitamente. É o que acontece quando ela é educada entre outras cri­
anças, na casa de uma avó cujo marido esteja vivo. O único inconveniente da
situação, nesse caso, terá sido a ausência de qualquer relação filial com o pai e a
mãe: o complexo de Édipo terá sido elaborado em relação a outras pessoas. Em
contrapartida, quando os vínculos educacionais são constantemente rompidos,
quando a mãe, infantilizada, não pára de retirar a criança de sucessivos guardiães,
mudando-lhe a residência a torto e a direito, a criança fica ferida em sua vida
simbólica; e quando, depois dela, nascem na família outras crianças de quem a
mãe decide cuidar, produz-se nela uma descompensação. O psicanalista certa­
mente precisará ver esses filhos mais velhos algumas vezes, para ajudá-los a su­
portar as modificações libidinais que se produzam no seio da família.

Do mesmo modo, um menino criado sem pai, pela mãe ou num gineceu
de tias e avós, não encontra em casa, quando chega à idade da descoberta do sexo
feminino a partir das meninas, nenhum correspondente-homem, e seu desen­
volvimento se ressente disso. Ele apreende seu pênis como um simples faz-xixi
erógeno e, em geral, não ousa formular nenhuma pergunta a ninguém. Permanece
agarrado às saias da mãe até muito mais tarde que os outros, ainda mais que a
mãe, não tendo um homem, geralmente tem para com esse menino - o que,
aliás, também ocorre com a avó - uma atitude possessiva e de rivalidade com
as outras mulheres, na qual o menino pressente um perigo mutilador.
Cedo ou tarde, esses meninos sempre precisam de uma psicoterapia para
sair de suas dificuldades. Quando o acaso os leva ao consultório, o médico deve
falar com eles (o que aliás deveria acontecer sistematicamente, por ocasião da
visita médica escolar obrigatória), explicar-lhes o que é a diferença entre os se­
xos, e falar sobre o destino particular de sua mãe; deve dizer-lhes porque ela
vive sozinha, que um dia ela foi desejada por um homem e que foi por isso que
eles vieram ao mundo; que esse homem, por uma razão desconhecida do médi­
co (mas que a mãe poderá agora explicar-lhes, ali mesmo, aproveitando a con­
junção triangular da consulta médica), não pôde assumir o encargo da educação
dos filhos, e talvez nem mesmo dar-lhes seu nome.
Ser esclarecido sobre o papel paterno inicial - paterno ao menos por esse
desejo que fez com que a mãe engravidasse dele -, sobre esse papel primor­
dial do pai ausente, permite ao menino abandonar as identificações com as mu­
lheres que o criam e orientar esse processo para outros objetos: meninos maiores
que ele e, sobretudo, a pessoa fantasiada do genitor real, do homem que fez com
que ele fosse seu filho, mesmo que tenha permanecido na ignorância dessa pa­
ternidade, ao mesmo tempo que filho da mulher que ele havia escolhido, de-

187
NO JOGO DO DESEJO

sejado e, talvez, amado, antes de desaparecer. Mesmo que haja em casa um ou­
tro homem, um avô, um tio ou um namorado da mãe, e mesmo que a criança
porte o sobrenome do pai morto ou desaparecido, é indispensável que essa reve­
lação seja feita; o menino precisa dessa entrada em jogo de um terceiro para
garantir sua virilidade e assumir seu sexo. Na falta de palavras verdadeiras so­
bre o genitor real, quer este último seja identificado ou não, o menino corre o
risco de permanecer na ignorância do papel do homem na procriação: quando
carrega o nome de um homem morto ou desaparecido que não é o sobrenome
da mãe, sente-se estranho a esta; e, não havendo nenhum correspondente pa­
terno para apoiar sua educação, a virilidade não poderá desabrochar nem as­
sumir um valor social.
Na ausência de explicações sobre o papel do desejo do pai com respeito à
mãe, sobre seu papel procriador, não é dada ao menino uma lei que lhe permi­
ta fundamentar, conforme sua natureza (falocentrífuga), seu narcisismo viril.
Na falta dessa informação, alguns meninos, embora criados por ambos os pais,
continuam a acreditar que os papéis se distribuem assim: a mãe dá a vida e dá
de comer, enquanto o pai ganha dinheiro. Quando a mãe trabalha e também
ganha dinheiro, a criança pode acreditar que a presença do pai em casa depende,
em todos os aspectos, da boa vontade da mulher. Quantas vezes escutamos es­
sas crianças de quatro ou cinco anos dizerem à mãe, após uma discussão conju­
gal: "Mas, por que não é um outro homem que dá dinheiro a você? "
O patronímico d o pai, simultaneamente usado pela esposa e pelos filhos,
e que marca com o nome da linhagem paterna a descendência de um casal, só
assume valor simbólico na economia libidinal das crianças (e só respalda a éti­
ca genital inconsciente, e depois consciente) a partir da revelação do papel pro­
criador do pai. Esse papel procriador assume então um estatuto de valor ine­
rente ao sexo masculino. Enquanto o sexo feminino tem, de imediato e em si
mesmo, um valor considerável, graças ao apego da criança - menina ou meni­
no - à mãe durante os primeiros anos de vida, é o valor do patronímico, na
medida em que ele se transmite, que funda o orgulho masculino do menino, e
seu narcisismo de macho aí encontra sua fonte: saber-se filho de seu pai dá ao
menino o direito de se identificar, a partir de então, com os homens; opera-se
uma inversão em sua estrutura quando ele abandona as identificações com a
mãe, primeiro modelo adulto.

Sempre na perspectiva dos processos que levam ao Édipo, no momento


em que o menino adquire, através do pai, a noção do valor de seu desejo de
homem, sustentado por sua conformação sexuada, ele se torna subitamente oposi-

188
O COM PLEXO DE ÉDIPO . .

cionista em relação à mãe. Essa oposição distingue-se nitidamente do nega­


tivismo gue os meninos e meninas manifestam por volta dos 1 8 meses a dois
anos, após a aquisição confirmada da marcha. Quando os meninos reconhecem
gue a mãe não tem pênis, eles dificilmente aceitam, a partir daí, obedecer às
instruções maternas, ou até simplesmente ter gue obedecer às mulheres. Em
contrapartida, obedecem cegamente, como se costuma dizer, às instruções e às
ordens paternas. Quando o pai não sustenta seu lugar dentro de casa, os meni­
nos podem tornar-se temperamentais, a menos gue um educador masculino
para guem orientem desde então seu desejo homossexual pré-genital saiba di­
rigi-los e, substituindo o pai gue falta, saiba fazer a mãe ser respeitada, expli­
cando gue ela os concebeu junto com o pai e lhes deu a vida para gue eles se
tornassem homens. A verdade é gue, mesmo quando respeitam a mãe, os meni­
nos tendem a desvalorizar a obediência às mulheres. Obedecer à mãe sem referir
seu desejo de menino a um pai estimado pode, quando o menino se submete a
isso, em vista de uma autoridade muito acentuada da mãe, acarretar um recal­
camento das pulsões pré-genitais e genitais masculinas e preparar, no menino,
um Édipo gue se resolverá por identificações femininas, abrindo caminho para
uma homossexualidade passiva e sempre inconscientemente incestuosa. Os
meninos criados sem pai e gue não passaram por esse período de oposição, re­
solvendo-a pelo recurso a tun educador masculino, susbstituto do pai, correm
o risco de permanecer submissos por toda a vida a uma mãe fálica autoritária,
o gue lhes impede a realização de sua virilidade.
Lembremos, portanto, gue os meninos sempre manifestam, a partir do
momento em gue valorizam o papel sexual do pai, uma oposição acentuada à
mãe, às irmãs mais velhas e às mulheres em geral, mesmo nas famílias mais
equilibradas. No caso de casais frágeis, isso pode acarretar na mãe um estado
depressivo, gue ela exterioriza no estilo "perseguida-perseguidora", com reações
em cadeia gue afetam as relações dos cônjuges. O menino fica então em maus
lençóis: os termos do complexo de Édipo são malcolocados, o pai reprova a mu­
lher por sua falta de autoridade, mostra-se cansado de suas gueixas e é agressi­
vo em relação ao filho, a guem trata como um animal doméstico; o menino, em
contrapartida, só pede para ser amado pelo pai, e o gue espera dele são es­
clarecimentos; o pai deve explicar ao menino porque exige dele o respeito à
mãe: porque, como sua mulher, ela é encarregada por ele, em sua ausência, de
fazer respeitar a ordem gue ele ditou. O filho só guer estar em harmonia com
a mãe e, quando o pai fala com ele dessa maneira, pode abandonar suas atitudes
temperamentais e estabilizar-se; o gue ele não guer mais é ficar cegamente sub­
metido à mãe, como quando era pequeno; consente em lhe obedecer, agora,

1 89
NO JOGO DO DESEJO

porque seu pai o exige, e porque esse pai confia em que seu filho respeite sua
bem-amada.

Essa difícil fase pré-resoluciva edipiana, que vai dos três anos e meio aos cin­
co ou seis anos, em que o desejo de autonomia do menino começa a se especificar,
tanto está sujeita a pulsões ainda homossexuais quanto a pulsões heterossexuais
emergentes, e a relação do filho com a mãe e do filho com o pai permanece dual.
Não se trata ainda do auge da crise edipiana, pois o menino está longe dela; a re­
solução da oposição transitória (passagem necessária) em relação às mulheres e à
mãe depende da solidez das relações de confiança recíproca entre os cônjuges e
do lugar mantido pelo pai na educação, na qual seu papel não é o mesmo que o
da mulher, embora esteja de acordo com o dela. É prejudicial que essa passagem
se arraste por muito tempo: quando isso ocorre, o problema vem sempre de uma
carência paterna.
Quando é apoiado pelas duas instâncias tutelares - o pai e a mãe -, o
menino sublima facilmente suas pulsões e chega ao nível escolar e de adaptação
social que é próprio de sua idade -três a seis anos; quando sua educação é bem
controlada pelo pai, seu caráter se molda para se adaptar à vida familiar; ao mes­
mo tempo, ele acede à autonomia em suas brincadeiras e nos atos da vida co­
tidiana, tem atividades próprias e rejeita com orgulho qualquer superproteção
materna, o que não o impede em absoluto de continuar a ser prestativo, pois
ele tem cada vez mais confiança em si mesmo e em seus pais.
A descoberta das leis da natureza que regem os sexos, esclarecida por
palavras verídicas e simples sobre o papel do pai no início de sua vida4, per­
mite que os meninos e meninas submetidos à autoridade paterna, e que amam
seus pais, cresçam à imagem dos adultos que vivem dentro de casa.
Certos pais, apaixonados pela educação sexual, impõem a seus filhos, sob
qualquer pretexto, muitos detalhes anatômicos ou fisiológicos sobre o fun­
cionamento s�xual no ato da procriação, detalhes estes que as crianças de crês a
seis anos absolutamente não pedem. Trata-se, antes, de dar-lhes o desejo de
crescer dentro da índole própria de seu sexo, índole essa que se encarna, a seus
olhos, nos pais. Meninas ou meninos, o que eles querem é se afirmar, diferen­
ciando suas maneiras e seus gostos; por sentirem orgulho de sua filiação, seu
sobrenome marca claramente que eles são filhos ou filhas de seus dois genitores;
seu narcisismo sexual é bem instaurado, e o projeto que eles fazem de se casar
com o genitor desejado sustenta as pulsões genitais por meio de fantasias in-

4 São exatamente essas palavras que dão sentido e valor ao desejo sedutor, rão narcisizante para a menina.

1 90
O COM PLEXO DE ÉDIPO . .

cestuosas. As crianças são então movidas pelo desejo dominante de competição


amorosa com o genitor do mesmo sexo, com quem procuram indentificar-se
em todos os aspectos, sonhando conquistar suas prerrogativas junto ao outro.
Na mais simples brincadeira, os meninos imitam os homens e as meni­
nas imitam as mulheres; assumem o papel dos adultos de seu sexo e dão prefe­
rência a seus pais, a quem imitam, tanto como o casal particular que eles com­
põem quanto em sua vida social. Sonham suplantar o genitor do mesmo sexo
n; atenção, interesse e amor que lhe são dedicados por seu cônjuge. O dese­
jo, aqui, é claramente incestuoso; em geral, é verbalizado - sem nenhuma
culpa - nos momentos de ternura e nas brincadeiras erotizadas de disfarce
ou desnudamento; é muito perigoso culpabilizar essas brincadeiras, sobretu­
do quando elas se desenrolam entre crianças da mesma idade e fora da pre­
sença dos pais, como geralmente acontece. Essas brincadeiras eróticas imagi­
nárias, voyeuriscas e tácteis entre crianças não têm nenhum impacto perver­
sivo; muito pelo contrário, perversivo é o interesse que os pais demonstram
pelo que acontece nelas .
A diferença de tamanho em relação ao adulto, a exigüidade dos testícu­
los, a ausência de características sexuais secundárias e, nas meninas, a ausência
dos seios, desempenham um papel inferiorizante ansiógeno. Certos pais às vezes
acreditam agir bem a� impor a prática familiar do nudismo, que é, na verdade,
humilhante para as crianças, pelo menos até os oito ou nove anos, pois elas são
obrigadas a confrontar suas fantasias com a realidade. Essa inferioridade, en­
tretanto, é para a criança um dos elementos que irão ajudá-la a adiar, a deixar
em suspenso a atuação de seus vagos desejos de um corpo-a-corpo gênito-geni­
tal, de procriação incestuosa com o pai ou a mãe - desejos que compõem a tra­
ma de suas fantasias masturbatórias.
Vemos como o sentimento de inferioridade natural, nascido da pequenez
do corpo e do sexo da criança em relação ao corpo e ao sexo dos adultos, ajuda
a adiar a satisfação do desejo e a projetá-la num "mais tarde, quando eu for
grande", ou "quando eu crescer" . Permite também que a criança, não super­
valorizada pelo genitor do sexo oposto, adquira, para compensar, as qualidades
de eficiência que são apanágio do adulto, esse modelo invejado. Dá-se a aquisição
de uma destreza manual e de um vocabulário gestual e ideativo, que compen­
sa a impossibilidade de aquisição do vocabulário genital. As crianças se apóiam
então na esperança de uma conquista lenta e segura do adulto desejado, através
do "dar-lhe prazer": a criança terá "merecido" desalojar o adulto rival de suas
prerrogativas, merecido assumir seu lugar, tão cobiçado, no casal. A esperança
da queda do rival é freqüentemente verbalizada, e o adulto sorri amarelo ao ou-

191
NO J O G O DO DESEJO

vir dizer: "Quando você morrer, eu vou ser marido da mamãe", ou "Quando
você morrer, eu é que vou ser mulher do papai".
Nesse período de estruturação edipiana, que é o das fantasias incestuosas,
a criança de ambos os sexos passa por decepções. Há em seu comportamento
uma alternância de atitudes sedutoras em relação ao genitor do sexo oposto e
de submissão e fidelidade prudente ao genitor do mesmo sexo -que a criança
espera que lhe transmita seu saber, e de quem ainda pede proteção. Poderíamos
dizer que, em família, quando há crianças de ambos os sexos, a homossexuali­
dade e a heterossexualidade incestuosas se alternam permanentemente, ou até
coexistem constantemente. As brigas se sucedem às reconciliações, e a com­
petição está sempre presente.
Ao mesmo tempo, com seus amiguinhos, a criança gosta de encenar situa­
ções fantasmáticas em que seus pais assumem a aparência de heróis míticos:
reis, rainhas, príncipes e princesas de poderes indiscutíveis. Esses jogos de iden­
tificação reconstituem um trio familiar no qual a criança se arroga o papel que
lhe parece mais lisonjeiro e mais agradável: é a famosa brincadeira de papai e
mamãe. Por vezes, em vista das pulsões homossexuais e heterossexuais, as cri­
anças invertem os papéis - coisa com que não nos devemos inquietar se, por
outro lado, na realidade, elas estiverem "à vontade em sua pele". Há também a
brincadeira de médico, que permite todas as intimidades tácteis. As brincadeiras
de sociedade e as brincadeiras físicas são pretextos para um prazer narcísico, mági­
co e mítico, aparentemente experimentado em comum: na verdade, cada um
brinca por si, num psicodrama que nada mais é que a encenação do sonho edi­
piano. As brincadeiras sensuais normais entre as crianças sempre se revestem de
uma certa culpa; a sensualidade se afigura à criança como privilégio dos adul­
tos, e ela teme que eles a encarem com certa desconfiança, exatamente como a
própria criança sente ciúmes das intimidades que, furtando-se mais ou menos
de seus olhos, os pais concedem um ao outro no quarto conjugal; ela também se
mostra invejosa das prerrogativas que um saber mágico sobre os mistérios da vi­
da e da morte confere ao médico.
A morte é, com efeito, um assunto que as crianças que atravessam a crise
edipiana gostam de abordar. Elas percebem com clareza do que se trata no to­
cante aos animais e vegetais de que extraímos o alimento, mas, quando ainda
não assistiram à morte em sua família, ignoram o que ela pode significar para
os seres humanos. As crianças gostam muito de brincar de morte, de perpetrá­
la e sofrê-la e de imitar a agonia: trata-se de fantasias muito estruturantes.
Infelizmente, quando descobrem essas brincadeiras, muitos pais acreditam ter
filhos P,erversos.

1 92
O COMPLEXO DE ÉDIPO . . .

A s crianças brincam de guerra e brincam de prisioneiros submetidos a vence­


dores cruéis, que exigem resgates e cobram prendas. Brincar de matar para co­
nhecer o corpo, brincar de explorar o corpo e o sexo dos outros, brincar de cuidar
ou de ser cuidado e encenar a vida social, tudo isso é indispensável para a criança
que vive a crise edipiana. Brincar de professora, de comerciante, de polícia e ladrão,
todas essas brincadeiras são também jogos sociais, graças aos quais as crianças ace­
dem à compreensão das funções na sociedade e dos direitos que essas funções
conferem.
Voltando à morte: quando elas abordam sem cessar esse assunto, que
constantemente erotizam, é porque a morte é o perigo maior que poderia ser
acarretado, em sua inexperiência, por qualquer transgressão de ordem mo­
tora; mas é também porque, em seus devaneios, a morte elimina o rival in­
cômodo. A morte real de um dos pais, ocorrendo durante esse período, é
sempre um trauma: parece corresponder angustiantemente às fantasias da
criança, que, a partir daí, atribui a seus próprios pensamentos uma potência
mágica; essa morte ocorrida na realidade parece significar, para ela, o ad­
vento de sua onipotência ideativa a seu direito de dar a conhecer seus dese­
jos incestuosos. Esse trauma reforça a angústia de castração; a criança se con­
sidera punida ou, ao contrário,· apoiada, doravante, num desejo incestuoso
sem obstáculos. A culpa é ainda mais agravada pela ausência real de um dos
pólos do triângulo edipiano: deixa de existir neste um suporte para as pul­
sões libidinais genitais. O genitor viúvo (mas isso pode produzir-se igual­
mente nos casos de divórcio, quando esse divórcio conduz à partida sem ex­
plicações ou ao desaparecimento de um dos cônjuges), por seu turno, con­
tribui ao menos momentaneamente, através de suas reações de abandono e
de agressividade inconsciente contra si mesmo, que acompanham o traba­
lho do luto, para bloquear a instauração dos termos do complexo de É dipo:
a criança não compreende que esse adulto viúvo ou abandonado não substi­
tua de imediato o cônjuge desaparecido, a tal ponto ela, criança, necessita
dele. Com muita freqüência, opera-se então na criança uma regressão ainda
mais grave que a do genitor entregue à própria sorte: a criança o reinveste
de toda a carga afetiva e o genitor faz coro a isso, o que provoca uma re­
gressão da criança aos estágios anteriores da libido. Todo luto provoca mo­
mentaneamente essa regressão. Mas as pulsões genitais não têm como ficar
enlutadas, e o pequeno Édipo, em luto pelo rival, torna-se um proprietário
patogênico do genitor que continua vivo .
Faz-se então necessário que uma terceira pessoa - um médico, um ami­
go, um padrinho ou màdrinha - mantenha com a criança conversas salvado-

193
NO JOGO DO DESEJO

ras, falando claramente com ela sobre a morte, sobre o desaparecimento de seu
pai ou sua mãe; é preciso que a criança seja assegurada de que isso aconteceu
em virtude do destino pessoal do adulto em questão, e de modo algum se de­
veu aos pensamentos dela ou a sua falta de amor. Uma criança não consegue se
recuperar de um dito do tipo "Você matou seu pobre pai" (ou "sua pobre mãe").

A resolução do complexo de Édipo


A resolução do complexo de Édipo interfere, no auge do conflito in­
terno, na economia libidinal: o desejo incestuoso da menina, de gestar um
filho do pai, e o do menino, de dar um filho à mãe, confrontam-se com obs­
táculos reais a sua colocação em prática. Assim, é preciso que a proibição do
incesto seja proferida por um adulto em quem a criança deposite confiança;
de fato, ela está no auge da angústia impotente e no auge do desejo de su­
perá-la. Essa é uma crise que provoca sintomas provenientes da frustração
da criança e da reativação de pulsões arcaicas, reforçadas pela tensão genital.
Na primeira vez que a criança ouve a enunciação da proibição, recusa-se a
acreditar nela: continua a fantasiar que, mais tarde, por força de sua potên­
cia sexual chegada à completude, ela atingirá seus objetivos; mas, quando
lhe explicamos que a lei da proibição do incesto rege todas as vidas humanas,
ela começa a acreditar. "Mas, papai se casou com a mamãe! " "Sim, casou-se
com sua mãe, mas não com a mãe dele ! " Reflexões similares surgem nas
famílias em que os pais se chamam mutuamente de "papai" e "mamãe", e
nas quais, por conseguinte, a criança até então acreditara estar vivendo, de
algum modo, com irmãos e irmãs mais velhos.
A angústia de castração é endógena: ela sobrevém em todas as crianças,
independentemente de tudo o que lhes possa ser dito e de qual seja a conste­
lação familiar. Ela é a angústia da extinção ou da perda do desejo, quando não
há mais zonas erógenas a serem descobertas. A criança já fez a investigação com­
pleta de suas possibilidades eróticas físicas5 •
E, a partir daí, o próprio lugar de onde nasce seu desejo genital, o lugar se­
xual por excelência em seu corpo - ou, diríamos, em seu esquema corporal -
torna-se, a seus olhos, desprezível e enganador. O menino fica angustiado com
a presença dos testículos, que já não têm nenhum sentido, uma vez que ele não
pode dar um filho a sua mãe; a menina se angustia com suas entranhas femini­
nas, que nunca poderão carregar o filho desse pai superestimado. Deve-se dizer

S Não estaria a magia tentadora da droga, entre os adolescentes, enraizada na miragem de um erotismo infini­
to, sempre a ser descoberto, a fim de escapar à castração, que é a condição dos seres humanos )

1 94
O COMPLEXO DE ÉDIPO . .

à criança que o que ela experimenta fo i também experimentado por seus pais da
mesma maneira, na idade dela: eles próprios estão submetidos à proibição do in­
cesto, nos objetivos sexuais que possam ter em relação aos filhos ou filhas; na fal­
ta dessas explicações, o risco de desvalorização e anulação definitiva do desejo
espreita a criança.
Note-se aqui o perigo que os pais fazem a criança correr durante sua es­
truturação edipiana, quando lhe "dão" (verbalmente) um recém-nascido, ir-
' mão ou irmã, e mais ainda quando a família liga a criança a esse irmão mais
novo por vínculos de apadrinhamento - vínculos certamente espirituais, mas
que, aos olhos de uma criança de três a oito anos, conferem-lhe autoridade
parental sobre o afilhado recém-nascido. Para a criança mais velha, ser padri­
nho ou madrinha é apenas um engodo, que distorce o luto que ela teria que
fazer do filho incestuoso imaginário. Quanto ao afilhado, mais tarde, a instau­
ração dos termos do Édipo for-se-á para ele em condições precárias, pois esse
irmão mais velho, que pensa ter direitos, irá tentar manter sobre ele uma au­
toridade parental, minando no afilhado o amor pelos pais reais. Repitamos: a
crise edipiana deve resolver-se no luto definitivo e radical de todas as fantasias
e de todos os devaneios em torno das trapaças possíveis com a proibição do
incesto.

Aceitar essa lei que rege a sociedade dos seres humanos - a lei da proibição
absoluta e permanente da realização do desejo incestuoso - não é fácil. Em
nossos dias, infelizmente, a proibição do incesto não é freqüentemente explici­
tada nas palavras dos adultos. Assim, sem o conhecimento dos pais (e até mes­
mo com sua cumplicidade cega), as crianças contornam essa interdição, nã9 obs­
tante inscrita na ética humana inconsciente, através de brincadeiras sexuais
genitais entre irmãos e irmãs, brincadeiras homossexuais ou heterossexuais.
Seguem-se sempre distúrbios, pelo menos transitórios, que entravam a sim­
bolização das pulsões - a simbolização que deveria fazer eclodir a personali­
dade social. Mais ainda: inúmeros pais contradizem em atos a proibição verbal
do incesto (apesar de muito presente na linguagem corrente), através de com­
portamentos que eles acreditam ser brincadeiras inocentes e que, na verdade,
são intimidades sensuais difusas que eles se permitem, para seu próprio pr?i>.J
zer, com as crianças que são seus filhos, e a quem eles perturbam. Eles fingem \
acreditar, a pretexto de não haver nelas um contato nitidamente genital, que \,
as brincadeiras sensuais sedutoras ou ternas são inocentes. Essas brincadeiras, '/;
infelizmente, passada a idade de quatro ou cinco anos, são incendiárias; e, pe- ti
lo menos depois dos seis anos, são perigosas. Trata-se, para a criança, de exci-

195
NO JOGO DO DESEJO

tantes sexuais: os pais parecem fazer um convite ao incesto; a criança imagina­


tiva, sedutora-seduzida, vê nisso um esboço de práticas que parecem atender a
um desejo incestuoso, para o qual, por sua vez, os pais parecem apontar. Isso é
particularmente grave no caso do filho único cujos pais se tratam mutuamente
por "mamãe" e "papai", desdenhando, na linguagem familiar corrente, seu pa­
pel de amantes e de cônjuges; assim, a criança perde todo o referencial lingüís­
tico quanto a seu lugar de filho ou de filha.
A crise edipiana se resolve, ou não, conforme a maneira como a criança é
apoiada pelos ditos dos pais: somente uma atitude verdadeiramente casta com
respeito a ela esclarece o conflito. Quando a crise se resolve rapidamente, em
boas condições, sempre sobrevém, no auge da angústia de castração, um sonho
que se repete duas ou três vezes: é o sonho da morte dos pais. Ele manifesta o
desejo de renunciar definitivamente ao objeto de identificação primário e às
pulsões genitais de alvos homossexuais e heterossexuais. Esse sonho angustia a
criança, mas faz parte do processo de resolução edipiana. Quando tudo corre
bem, a angústia cede por completo. Mas é raro a criança renunciar a seus dese­
jos incestuosos até mesmo em suas fantasias, pois, geralmente, isso elimina o
prazer que ela retirava de uma masturbação até então normal. A resolução do
complexo do Édipo é a aceitação da proibição do incesto; essa aceitação é mais
ou menos bem ancorada no inconsciente: quando os pais não se desprendem to­
talmente de seus sentimentos possessivos, a adaptação da criança continua sub-
\• metida a suas autorizações.

A potência criadora, no trabalho e nas atividades culturais, também de­


pende da resolução do complexo de Édipo: as pulsões genitais da criança,
castradas em sua meta incestuosa, irão investir-se, com todo o seu impacto nar­
císico, nas atividades sociais.
A criança compreende que tem, diante da lei do sexo, um estatuto de
igual: igual a seus pais e igual aos pais de seus pais. A partir daí, ela pode subli­
mar, ou seja, pode transpor para a ordem simbólica, que se descortina diante
dela, a força de suas pulsões barradas pela interdição do incesto. Essa subli­
mação permite a seu desejo ter o direito "de cidadania" ; após a puberdade, que
lhe é anunciada, quando a criança estiver "formada", sua maturação lhe per­
mitirá encontrar parceiros sexuais no mundo extrafamiliar, exatamente como
aconteceu com seus pais na juventude deles, depois de eles próprios terem
abandonado seus sonhos incestuosos com a pessoa daqueles que hoje são os
avós da criança. Aceitar essa lei fundamental da vida em sociedade dá acesso,
por assim dizer, a todas as outras liberdades, não somente no domínio da fan-

196
O COM PLEXO DE ÉDIPO . . .

rasia, mas na realidade; conseguir conquistar essas liberdades - eis o efeito


da resolução edipiana.
A renúncia à vida imaginária, que até então havia respaldado a criança ao
longo de seu desenvolvimento, é sempre dolorosa. Essa renúncia é grandemente
facilitada quando existe entre os pais um bom entendimento sexual, quando
seus temperamentos se harmonizam e quando, tanto em sua intimidade quan­
to em seu comportamento de educadores, seus papéis se afiguram comple­
·mentares. Nos casos em que os pais não se entendem, a criança corre o risco de
ser, para um deles, frustrado em sua relação conjugal, o suporte imaginário de
compensações consoladoras. Quando os pais estão brigados ou divorciados, ela
pode ainda ser objeto de reivindicações possessivas por parte de cada um dos
cônjuges. Isso agrava o sentimento de culpa da criança, quando, como é per­
feitamente natural, ela começa a se desligar de sua dependência infantil. A cri­
ança se sente culpada por assumir o direito de não mais se interessar por seus
pais. Seu desejo genital é exacerbado pela obrigação em que ela se sente de con­
solar aquele de seus pais que foi abandonado ou rejeitado pelo outro. Assim,
ela sente que continua, como no passado, a agradar a um e não agradar ao ou­
tro: para ela, essa é uma situação conflitiva, que a impede de resolver comple-
tamente o Édipo.

A resolução do complexo de Édipo deve, portanto, ser acompanhada pe- iJ


lo sentimento de liberdade: liberdade de abandonar a infância e de abandonar ! :
a dependência fatal do eu ideal dos pais. Convém dizer que, para os pais, essa
é também uma crise cujas conseqüências eles têm de suportar. É preciso que se
opere uma mudança em seu papel tutelar. Com bastante freqüência, eles se sen­
tem infelizes com o desligamento dos filhos, embora se regozijem pelo fato de
eles encontrarem na realidade amigos e interesses. Quantas vezes ouvimos os
pais suspirarem: "Já não temos filhos, estamos ficando velhos! " A criança pode
sentir-se culpada por abandonar esses pais deprimidos, para ir em direção aos
companheiros de sua idade e para se voltar, em sua admiração e amizade, para
adultos que não façam parte da família. A criança ouve os pais indagarem: "Que
é que você vê nessa gente que nós não temos?"

O período de latência: da resolução da crise edipiana à puberdade


É raro a renúncia ao desejo incestuoso ficar clara para a consciência da
criança de seis a sete anos, mas ela é visível: trata-se, então, de uma criança
cheia de vitalidade, que em algumas semanas amadurece. Gosta dos pais, sem
dúvida. . . Os pais também gostam dela, é claro . . . Mas, entre a vida dos pais

1 97
NO JOGO DO DESEJO

e a da criança, uma linha é traçada. Eles têm um bom relacionamento, mas já


não existem as antigas reações passionais da criança em relação aos pais; ela es­
quece de abraçá-los para lhes dizer boa-noite; pela manhã, não diz bom-dia.
Nem por isso deixa de estar em harmonia com eles. Os pais que sabem res­
peitar esses momentos decisivos da resolução edipiana são raros . Contudo, é a
eles que a confiança do filho dará as maiores alegrias, nos cinco ou seis meses
futuros; a partir daí, já não temendo regredir a posições de dependência in­
fantil, a criança mantém com eles diálogos confiantes, isentos de qualquer ba­
julação. Para muitas dessas crianças, esse seria o momento de colocá-las num
internato por um ou dois anos, desde que esse internato desse ampla margem
para as brincadeiras e que as crianças pudessem ter nele alegrias comparti­
lhadas. Isso lhes permitiria desligarem-se completamente de sua vida de cri­
anças pequenas e afirmarem sua femi nilidade ou virilidade nascentes e sua
autonomia.
Na maioria das crianças, por elas permanecerem no meio familiar, há um
período de recalcamento das pulsões sexuais genitais. Esse recalcamento é acom­
panhado de um distanciamento em relação à fracria: até então, elas viam nos ir­
mãos e irmãs seus companheiros prediletos de brincadeiras. Agora, há em relação
ao genitor do sexo oposto um jeito de tratá-lo com frieza, ao mesmo tempo em
que uma valorização incondicional das palavras e ações do pai em sociedade. O
pai parece ser, de direito, o dono da casa. A criança sente, mesmo que não queira
reconhecê-lo conscientemente, que o pai é o promotor da vida doméstica e, aci­
ma de tudo, ele é socialmente valorizado como o detentor do nome, o organizador
da família. Com freqüência, sua profissão, fonte principal de renda para a família,
acrescenta-se a suas prerroga :ivas de mediador reconhecido entre a família e a lei
do grupo social em que ela se integra - lei, aliás, sobre a qual a criança gosta de
se instruir.
Nos casos de separação ou divórcio, a troca de sobrenome da mãe refreia
a resolução do complexo de Édipo; pior ainda: quando, no decurso dessa crise,
a própria criança muda de nome - por exemplo, pelo fato de a mãe desposar
um homem que reconheça a criança -, essa mudança de nome constitui um
verdadeiro trauma. A criança, pela lei, compartilha o destino da mãe, e, para a
menina, é como se o novo pai se casasse tanto com ela quanto com sua mãe; o
recém-chegado se arroga direitos sobre uma criança que, justamente, já não é
criança.

Nos casos mais satisfatórios e mais freqüentes, a adaptação à proibição do


incesto e o abandono total das intimidades sedutoras por parte dos pais são

198
O COMPLEXO DE ÉDIPO . . .

acompanhados por um abrandamento das pulsões sexuais, graças a uma espé­


cie de estase fisiológica que se opera na criança, com a suspensão fisiológica do
desenvolvimento das gónadas em relação ao desenvolvimento do corpo. Segue­
se um período fecundo e calmo, mais ou menos colorido por uma homossexua­
lidade casta, submissa e admiradora em relação ao genitor do mesmo sexo; a
sensibilidade heterossexual preservada é sempre casta. A criança é atenciosa para
com o genitor do sexo complementar, não quer decepcioná-lo e, pela admiração
que tem por ele, não pode ser decepcionada por ele sem sofrimento.
Quando os pais anunciam a proibição do incesto, deve-se explicitar que
essa lei barra tanto o desejo sexual dos pais - e qualquer pretensa prerrogati­
va possessiva deles sobre a pessoa da criança - quanto o desejo da própria
criança. Isso se aplica também no que diz respeito aos avós: certos avós inces­
tuosos de ambos os sexos são muito perigosos. É preciso dizer à criança: "Você
não é obrigado, de modo algum, a se sentar no colo de sua avó ou de seu avô;
pior para eles; eles que segurem o gato, o cachorro, etc.".
Por outro lado, é igualmente necessário esclarecer à criança que, mais tarde,
ela terá o direito de escolher o cônjuge que quiser, sem que seus pais, irmãos
ou irmãs tenham qualquer coisa a dizer sobre essa escolha.

A resolução do complexo de É dipo, quando não é entravada pelos geni­


tores, pelos parentes próximos ou pelos irmãos, é concomitante à queda dos
dentes de leite, queda incômoda e momentaneamente antiestética, mas se­
guida (exatamente como a crise edipiana) por uma renovação: a renovação
da dentição.
A criança que resolveu bem o complexo de Édipo não tem angústia e já
não tem pressa de crescer; suas preocupações se concentram em sua vida social
presente, em seus contatos com as crianças de sua idade. Graças à ordem in­
consciente e consciente que a proibição clara e aceita do incesto instaura na li­
bido apaziguada da criança, são despertados interesses eletivos pelas crianças
de sua faixa etária, assim como pelos adultos que contribuem para seu desen­
volvimento, respeitando sua pessoa: mestres, educadores, professores e irmãos
mais velhos que a iniciem nas técnicas esportivas ou culturais. Nunca é demais
dizer que é do conhecimento claro da lei da proibição do incesto que decorre a
potência ordeira das pulsões. É esse conhecimento claro que dá à criança o sen­
tido de sua promoção, de pleno direito, à condição de cidadão, e que permite
que todas as suas energias se modifiquem em busca de expressão simbólica: tra­
balho, aquisições culturais voltadas para o sucesso social, atividades criativas
de todos os tipos, manuais e intelectuais, e atividades lúdicas ou esportivas na

199
NO JOGO DO DESEJO

busca de relações com os companheiros da mesma idade ou com as pessoas do


ambiente, todas elas marcadas, como a criança, pela proibição do incesto, e as­
sim valorizadas. Os vínculos familiares assumem desde então pleno sentido para
a criança, que começa a se interessar por eles e a fazer perguntas para que eles
lhe sejam esclarecidos.
É comum haver uma aquisição repentina da orientação temporal, mes­
mo que, até então, a criança não soubesse sequer dizer as horas. A orientação
espacial torna-se mais clara. As brincadeiras mudam de estilo: a criança bus­
ca a dificuldade e se inicia em técnicas industriais ou artísticas que procura
dominar; em tudo isso, é menos o prazer obtido do que a comunhão de pon­
tos de vista éticos ou estéticos com os companheiros da mesma idade que do­
mina a consciência. As satisfações solitárias narcísicas, doravante, são menos
valorizadas pela criança do que as satisfações que ela tem quando acompanha­
da, junto aos colegas que escolheu, em suas atividades lingüísticas, lúdicas e
culturais. Essa é a idade em que a criança descobre a amizade, uma amizade
generosa, mas não desprovida de possessividade recíproca; a amizade, aliás,
tem tanto valor quanto a fidelidade entre amigos que se escolheram livre­
mente. Algumas trocas são feitas em função da amizade, e é grave os pais se
oporem a elas, pois é preciso frisar que os amigos escolhidos pelos pais não têm
para a criança, de maneira alguma, o interesse que podem ter os amigos es­
colhidos por ela mesma, fora de casa.
Em relação aos adultos jovens de seu sexo, a criança desenvolve, nesse mo­
mento, admirações românticas. Escolhe para si, nas histórias e na História, heróis
valorosos, na maioria das vezes do mesmo sexo que ela, e que são modelos e es­
teios de sua imaginação aventureira. Ela tem a coragem de se mostrar ostensi­
vamente indiferente às crianças do sexo oposto, desdenhosa e às vezes agressi­
va, mas experimenta, vez por outra, sentimentos amorosos, tímidos e apaixo­
nados: amizades heterossexuais não declaradas, mas sempre emocionantes, cu­
ja lembrança muitas vezes é mais viva, na idade adulta, que a das primeiras se­
duções e conquistas sexuais da fase pós-pubertária.
O período de latência se encerra com o impulso pubertário -impulso fi­
siológico, transformação física do jovem ou da mocinha, que faz ressurgirem os
.problemas da crise edipiana; esta, caso tenha sido bem resolvida, é então reen­
! cenada por alguns dias ou algumas semanas; e, no caso inverso, traz novamente
à luz e reproduz todas as dificuldades antigas. Voltaremos a essa questão.

É preciso falar, neste ponto, sobre o papel do dinheiro em seu impacto edipiano. O
dinheiro é uma potência que tem origem inconsciente na libido anal. Como

200
O COMPLEXO DE ÉDIPO . .

objeto parcial erótico e narcisizante para a criança, as fezes são desprovidas de


qualquer característica genital. Entretanto, pela proximidade da região geni­
tal, são investidas de maneira particular (em anatomia, essa região e os nervos
ou vasos que a servem são denominados ora de sacros, ora de pudendos).
O dinheiro-poder aquisitivo começa a interessar às crianças por volta dos
três anos, mas poderíamos dizer que lhes interessa em termos absolutos e sem
referência ao trabalho, nem ao preço relativo deste ou daquele objeto que elas
desejam; a criança fala em dinheiro, em ter muito dinheiro, em ser rica, em não
ter nenhum e em ser pobre. Para ela, dez moedas de um franco valem mais do
que uma nota de dez francos.
Por volta dos seis a sete anos, no período pré-crítico do É dipo, tendo sido
adquirido o sentido da competição, o dinheiro se torna objeto de prestígio, de
um prestígio ligado a um exibicionismo menos arriscado, quando desperta in­
veja, do que o prestígio sexual aliado à exibição, o qual, pelo menos na fanta­
sia, pode traduzir-se na mutilação do invejado pelo invejoso.
Isso explica por que, por volta dos seis anos - idade, entre nós, da esco­
laridade obrigatória e também da angústia endógena de castração genital-edi­
piana -, pertencer, através do dinheiro, como os pais, a uma classe social a
que estão ligados certos sinais externos de riqueza torna-se sensível para a cri­
ança: a riqueza ou a pobreza mesclam seus valores narcísicos com os valores
fantasmáticos ligados às pulsões genitais envolvidas no Édipo. O que o pai e
a mãe possuem ou não, dentre aquilo que pode ser adquirido com dinheiro,
altera, positiva ou negativamente (sempre de maneira sobredeterminada pelo
conformismo gregário, que faz com que a criança se interesse pelas diferenças
sociais aparentes e pelo estilo de comportamento público dessas diferentes
classes sociais), o eu ideal que o pai e a mãe representam sexualmente; a cri­
ança, por dependência natural e co-natural, espelha, na fase edipiana, seu
próprio valor no deles, e, inversamente, os pais sentem-se orgulhosos do va­
lor que o filho adquire na vida em relação às outras crianças. É por isso que o
dinheiro, que é precisamente um valor, desempenha um papel na constelação
do complexo de Édipo. No momento da castração edipiana, da crise, o valor
genital do pai castrador é distorcido, portanto, por esse outro valor, anal, que
é o poder do dinheiro, sobretudo quando a criança é testemunha de uma re­
lação conjugal em que a estima e o amor parecem estar diretamente liga­
dos, nas conversas do casal parental, à presença ou à ausência de conflitos
pecuniários.
Nessa época - dos seis aos sete anos -, quando o vínculo amoroso en­
tre os pais não é nem de ordem simbólica, nem de ordem cultural, quando pre-

201
NO JOGO DO DESEJO

dominam os vínculos orçamentários ou os problemas financeiros, a criança fi­


ca tentada a cometer furtos para compensar o sentimento de inferioridade que
constata em seus pais, os quais, ao que lhe parece, desejam algo por que não
podem pagar. Esses furtos traduzem a ferida narcísica insuportável que a cri­
ança experimenta, não tanto por sua impotência real no plano do desejo inces­
tuoso, mas por receber a castração proibidora do incesto de um pai desvalorizado
pelos enunciados da mãe - seja qual for, aliás, o verdadeiro padrão de vida da
família. Quando os pais não se estimam mutuamente, a identificação do meni­
no com o pai ou da menina com a mãe torna-se sem importância, e o furto de
dinheiro permite à criança evitar sua angústia narcísica. Com esses furtos, as
crianças buscam obter para si o que falta ao objeto edipiano que elas idealizam,
mas que não assume para o cônjuge o lugar que a criança gostaria de vê-lo ocu­
par. Os furtos de dinheiro são uma reafirmação do ter e do poder, quer esse di­
nheiro sirva para adquirir objetos compensatórios diversos, quer, como ocor­
re com os furtos generosos, distribuídos entre os amigos, sirva para fazer-se
apreciar e amar.
Esse pequeno distúrbio banal do caráter, quando ninguém lhe dá atenção,
pode impedir a criança de se desenvolver em direção à genitalidade. Repreendida
e punida, em vez de compreendida, a criança se torna presa de furtos compul­
sivos e culpados. Às vezes, esses furtos são mais nitidamente orientados para a
manutenção da genitalidade: anéis, produtos de maquiagem e jóias entre as meni­
nas, e lapiseiras, instrumentos utilitários e cigarros entre os meninos.
Esse furtos existem tanto entre os filhos de famílias ricas quanto entre os
de famílias pobres. Infelizmente, têm como efeito culpabilizar tanto uns quan­
to os outros, que sabem que o furto é uma falta social, e essa culpa agrava seus
sentimentos de inferioridade real, ao mesmo tempo em que a ação irreprimí­
vel alivia os sentimentos de inferioridade imaginários.
A importância atualmente dada ao dinheiro em nossa sociedade tem
como efeito afastar a criança de relações de amizade que possam estabele­
cer-se fora de qualquer consideração sobre a classe social, de afinidades nasci­
das de uma comunhão de interesses culturais ou lúdicos. O valor atribuído
ao dinheiro, mais do que às pessoas, traz o risco de distorcer o desejo, cujo
destino é se articular no campo das crianças de todas as classes, na criativi­
dade e na cultura.
A ruína ou a falência do pai, quando sobrevém no momento da crise edi­
piana, é sentida como uma desonra social; é um desmoronamento da potência
simbólica do pai castrador, que pode também, na falta de apoio moral pelo
restante da linhagem, ou por parte de amigos fiéis que tenham preservado sua

202
O COMPLEXO DE ÉDIPO ..

estima pelos pais sofridos, provocar as mais graves perturbações somáticas ou


mentais na criança. Os efeitos desse trauma marcam as crianças de ambos os
sexos, sobretudo quando ele ocorre durante a crise edipiana ou no início da
puberdade. Depois dessa experiência, vemos as crianças se tornarem adoles­
centes passivos ou agressivos: duas atitudes caracterológicas que podem acar­
retar a delinqüência juvenil, que então mascara o desamparo dos revoltados,
em confronto com uma lei que eles sentem como injusta em relação a seus pais.
Em sua vida fantasmática, há uma identificação, uma supervalorização in­
teiramente imaginária da imago materna e paterna, numa verdadeira super­
compensação pela degradação social da família.
Qualquer mudança súbita de situação acarreta esse tipo de repercussões,
quer o pai seja jogador, beba, seja infiel ou perca seu emprego. O desemprego,
a doença ou os acidentes graves desvalorizam o pai no imaginário da criança -
esse pai que é a garantia da lei no momento da castração genital. Assim, a ima­
gem do pai não mais pode dar suporte ao desejo de prestígio, que compensaria
no filho a provação edipiana.
Durante a fase de latência, entre oito e treze anos, e no início da ado­
lescência, os pedidos de psicoterapia para crianças que "estavam indo bem até
então" são sempre motivados por situações que fizeram o pai decair de sua
posição fálica, posição esta cuja manutenção seria essencial para o ingresso da
criança na ordem simbólica. Quando a anamnese revela que a criança já apre­
sentava dificuldades de adaptação antes dos oito anos, constatamos que esses
distúrbios, na época, não tinham parecido exigir um tratamento psicanalítico:
"com a puberdade, tudo se ajeitaria".
Isso não é verdade: só se "ajeitam" na puberdade (desde que não se trate de
neurose obsessiva ou histérica muito precoce) os distúrbios das crianças cujos
pais tenham continuado a ser garantes de uma posição fálica indiscutível e re­
conhecida pela sociedade. Na primeira infância, o valor genital da mãe é sem­
pre irrefutável, quaisquer que sejam o comportamento desta e as relações do
casal. Mas, entre os seis e os oito anos, a criança compara sua mãe com as outras
mulheres e começa a colocar em questão seu valor genital, enquanto a atitude
que a mãe tem na família em relação ao pai pode obstaculizar o reconhecimen­
to da posição fálica deste último6 • A mãe desempenha um papel deletério quan­
do desvaloriza o marido ou quando se abate diante das dificuldades com que de­
para externamente: para a criança, após os oito anos, torna-se impossível en-

6 O fato de as crianças terem, hoje em dia, um contato predominante com educadoras e professoras do sexo fe­
minino agrava esse problema.

203
NO JOGO DO DESEJO

veredar com confiança por seu futuro de menino ou de menina, que a aproxi­
mação da puberdade a obriga a valorizar.
Por outro lado, a autoridade do pai pode ser achincalhada por vias mais in­
sidiosas: isso acontece, por exemplo, quando a mãe cúmplice apóia, sem o co­
nhecimento do pai, os malfeitos dos meninos mais velhos. Além disso, quando
alguns primogênitos, meninas ou meninos, trabalham pouco ou não fazem na­
da, ocupando assim um lugar de parasitas que o pai ou a mãe apóiam por fraque­
za, sem exigir deles uma contribuição efetiva em casa ou resultados pré-profis­
sionais, o filho mais novo vê nisso o exemplo da sedução exercida sobre os pais:
quando o pai e a mãe permitem que os mais velhos vivam dessa maneira, estes
impõem aos que vêm depois o exemplo da delinqüência doméstica, da delin­
qüência em relação à lei social. Ter vergonha da própria fratria é uma experiên­
cia narcísica que desvirtua a resolução do complexo de Édipo. A vergonha de
um ataque à honra do nome da família afeta as pulsões genitais, tanto em sua
relação com o narcisismo quanto em sua relação com a ordem simbólica, que se
constitui em torno do valor paterno.

Período pubertário e adolescência


A realidade das pulsões genitais entre 12 e 14 anos ou mais, na idade das
modificações corporais aparentes e do desenvolvimento das gónadas, desperta
nos adolescentes em formação as fantasias narcísicas residuais que datam da crise
edipiana e, quando essa crise foi malresolvida, desperta os próprios termos do
complexo de Édipo, tal como se constituíram na fase pré-edipiana. Conforme o
caso, a ênfase se colocará, entre os adolescentes, quer numa recusa do desejo pe­
lo outro sexo, em função do ressurgimento de uma angústia endógena de cas­
tração ligada ao desejo recalcado, quer numa contestação da autoridade do pai" ou
dos professores (objetos transferenciais de ordem paterna), que é a luta contra
uma agressão homossexual que os submeteria, por sedução passiva, a uma de­
pendência perigosa, no momento em que seu desejo (justificado) de autonomia
torna-se irrefreável. O desejo que surge com a puberdade também os precipita,
às vezes sem nenhum senso crítico, na admiração erotizada por colegas mais ve­
lhos do mesmo sexo ou pelos da mesma idade, de quem se tornam servos e
seguidores fanáticos, e que são ídolos para eles. Esses adolescentes não reconhe­
cem a natureza homossexual dessas emoções, pois reprovam a homossexualidade.
Trata-se de uma agressão, da repetição de um comportamento erótico, que
ressurge porque o período fisiológico de latência não foi precedido por uma re­
solução completa do complexo de Édipo; as pulsões genitais, fossem elas ho­
mossexuais ou heterossexuais, foram apenas postas na penumbra.

204
O COMPLEXO DE ÉDIPO..

Podemos dizer que, com a eclosão da puberdade, o indivíduo humano de


ambos os sexos retorna ao nível de estruturação que lhe era próprio antes da re­
solução edipiana, a qual só pôde efetuar-se graças ao retraimento fisiológico das
pulsões. De qualquer modo, mais cedo ou mais tarde, o complexo de Édipo pre­
cisa resolver-se, para que o sujeito possa assumir de maneira responsável todas
as suas pulsões, inclusive as pulsões genitais. Ora, a proibição do desejo não foi
compreendida por essas mocinhas ou esses rapazes como um "isto é proibido
porque é incestuoso"; eles não preservaram o orgulho de seu desejo genital, não
compreenderam com clareza que é apenas o incesto que é proibido, e não, de
maneira alguma, o erotismo e a sensibilidade genital. É por isso que as pulsões
genitais, quando retornam com a puberdade e não mais podem passar des­
percebidas, freqüentemente herdam a desvalorização ética que recai sobre os
outros tipos de sensualidade, sobretudo a sensualidade anal.
Os adolescentes de ambos os sexos, muito preocupados com eles mesmos
e com a imagem que exibem, revivem dolorosamente, e muitas vezes com re­
volta, as restrições sociais que atingem não só o desejo sexual, mas também as
inclinações afetivas. A maturação fisiológica suscita neles o sentido, até então
não experimentado, da responsabilidade individual por seus atos. Eles gosta­
riam de ser os únicos iniciadores destes, sem nenhum controle parental, talvez
por medo de regredir, mas também por estarem convencidos de não poderem
ser compreendidos pelos pais, justamente no momento em que quereriam li­
bertar-se de sua tutela. É-lhes necessário, portanto, colocar à distância os pais
e qualquer adulto que possa procurar controlá-los. Para a maioria dos adoles­
centes, compreender é uma palavra que significa compartilhar um mesmo mo­
do de ver, estar em uníssono; ora, eles não querem mais ser colocados em pé de
igualdade com os pais e, sobretudo, não querem rivalizar com eles em relação
a seus novos objetos amorosos.
Os adolescentes se aglomeram em bandos em que a roupa, a fala e as
preferências são ostentadas como semelhantes, o que significa: "Nós, da pa­
tota, nós nos compreendemos, somos iguais". Na verdade, nesses grupos, as
relações entre os indivíduos se dão especularmente e as conversas concernem
principalmente aos pais, aos obstáculos à independência que eles não param
de criar, e aos meios encontrados em conjunto para projetar e viver aventuras.
Período difícil, em que se reivindica uma liberdade que se tem pavor de as­
sumir, pela consciência confusa ou clara dos riscos que ela implica. É a época
em que se tem que romper com a identificação com os pais para conquistar
a identidade própria e suas responsabilidades; queimando aquilo que se ado­
rou - fuga necessária das fantasias incestuosas remanescentes -, pretende-

205
NO JOGO DO DESEJO

se, inversamente, conquistar a estatura valorosa da sedução, tal como defini­


da pelos critérios indiscutíveis "da turma".
Esses critérios de valor, aliás, muitas vezes são o oposto diametral dos da
patota vizinha, amiúde rival, que reúne outros meninos e meninas da mesma
idade. Esses bandos se agrupam segundo as classes sociais ou segundo as con­
vicções religiosas ou políticas, isto é, sob a bandeira de um poder real ou su­
posto: neles, todos obedecem sem discussão a um mesmo ideal. Portanto, nes­
sa idade, o mais difícil é chegar a um juízo autônomo; diríamos até que um
adolescente que exprime um juízo autônomo, seja qual for, viveu experiências
que já fizeram dele um adulto jovem.

A crise da adolescência - pois certamente se trata de uma crise - na­


da mais é que uma forma particular assumida pelo conflito entre as pulsões
genitais heterossexuais e as pulsões genitais que permaneceram homossexuais.
Nos casos mais satisfatórios, as pulsões homossexuais são vividas em relação a
uma imagem de si reputada como agradável para o próprio sujeito, caso ele
fosse do sexo oposto. Nas moças, trata-se também do confronto entre as pul­
sões passivas arcaicas, orais e anais, e as pulsões passivas genitais: as pulsões
orais reavivadas podem abandonar a vagina (que teve, desde o início, tal co­
mo a boca, as características anatômicas de um receptáculo circularmente eréc­
til, voltado para a preensão) e reinvestir a região oral, sob a forma de bulimia
ou de anorexia. Da mesma forma, no rapaz, as pulsões fálicas genitais podem
reativar as pulsões ativas orais e anais: desenvolve-se então uma curiosidade
muito grande pela velocidade, pelas descobertas, pela música e pelos ritmos,
mas também uma agressividade combativa que, sem que isso tenha sido clara­
mente desejado, pode chegar à delinqüência homicida.
O final da crise edipiana é a renovação da castração das pulsões dos estágios pré­
genitais, como situadas fora da lei, e das pulsões genitais, no que elas têm de incestuoso.
O consenso e a lei acrescentam a isso, em maior ou menor grau, as proibições
que atingem as relações sexuais entre parentes próximos (primos, primas, tios
e tias da mesma idade).
Essa crise assume um caráter particular em cada menino e cada menina, e
não é outra coisa senão a forma dinâmica assumida, em família, pela pretensa
ingratidão dessa idade, ligada a uma dependência ainda efetiva, que só é tran­
qüilizadora na medida em que o adolescente a renegue verbalmente, mesmo
que necessite dela materialmente.
O acesso à responsabilidade individual só pode apoiar-se no exemplo do
genitor do mesmo sexo (ou de um irmão ou irmã mais velhos) quando ele está

206
O COMPLEXO DE ÉDIPO ..

engajado na competição sexual e no respeito à lei. Além disso, a confiança em


si, apoiada pelo genitor do outro sexo, ou por um parente lateral que não sin­
ta ciúme do progresso do adolescente ou da adolescente (desde que esse adulto
não se assuste com as afirmações passionais, pseudo- ou efetivamente revolu­
cionárias, ligadas a um interesse novo pela coisa social), é certamente o que mais
desculpabiliza e desangustia os jovens. A susceptibilidade dos adolescentes é
ainda maior, na medida em que eles necessitam de toda a sua energia para en­
frentar a nova competição sexual, ?iante de seus rivais: é a idade dos artifícios
do vestuário, às vezes próximos do travestismo, destinados a compensar o sen­
timento de insegurança com um exibicionismo de potência, julgado, no espe­
lho, indiscutivelmente sedutor.
O adolescente tem de resolver em definitivo a problemática de seu sexo e
de suas novas exigências, nos planos simultâneos da realização de seus desejos
sexuais e de suas fantasias de sucesso, diante de uma lei social também exigente
e que não propõe aos jovens, pelo menos em nosso país, nada além de um suces­
so escolar, pré-profissional ou esportivo, de qualquer modo não remunerável
por lei.
O adolescente e a adolescente precisam, em particular, para atender à ín­
dole de seu sexo, aprender a perceber o chamado do desejo, no outro e neles
mesmos, e a dominá-lo através de experiências amistosas e amorosas e de fixa­
ções sucessivas, cada vez mais adaptadas à intuição profunda de sua sensibili­
dade. É assim que eles se procuram; e, nessa sua situação instável, feita de varia­
ções emocionais constantes, os sintomas histéricos, ora benignos, ora sérios,
servem de catarse para os conflitos pulsionais.
Nesse trabalho de adaptação subjetiva, objetivado pelas reações dos ou­
tros, os adolescentes, nos casos mais favoráveis, obedecem a uma ética ordena­
da pelos valores culturais de sua época: valores que, aliás, eles têm consciência
de contribuir para elaborar. Esses valores nascentes, que assumem no dia-a-dia
a imagem de um absoluto convincente, regem a escolha dos companheiros de
ambos os sexos que eles procuram para experimentar sua sensibilidade fora da
família e para afirmar, assim, sua potência civil e criativa.
As fantasias de fuga, as fantasias de suicídio e as fantasias de triunfos se­
xuais ou culturais alimentam normalmente a imaginação dos adolescentes, so­
bretudo durante o período masturbatório inevitável que acompanha a puber­
dade, e do qual, mais tarde, eles se sentem envergonhados. A masturbação,
solitária ou não, é um sucedâneo reles, ao qual eles se censuram por ainda estar
reduzido, mas que, não obstante, é mais conveniente do que contatos sexuais
passageiros para muitos deles - aqueles a quem as pulsões imperiosas e coo-

207
NO JOGO DO DESEJO

fusas ainda não permitem uma focalização duradoura num objeto preciso, o
qual, por conseguinte, teria que atender a critérios tão absolutos quanto móveis,
e mais narcísicos do que intersubjetivos. O fato de ser abandonado - de ser
"chutado" por uma moça, para o rapaz, ou por um rapaz, para a moça - é uma
provação narcísica, talvez ainda mais grave na medida em que os adoles­
centes em questão sabem muito bem que esse parceiro não seria, para eles, o
que lhes convinha; mas todos querem ser aquele que abandona, e não o que é
abandonado.
Está fora de dúvida que as imagens parentais educativas são vistas, em
nossa época, como entraves ao desejo de autonomia, mesmo que, na realidade,
os pais não pretendam desempenhar um papel repressivo. Imaginar-se reprimi­
do é necessário ao adolescente para se afirmar. Mas a repressão real o coloca em
perigo: ela pode impor a suas fantasias e explorações emocionais um recalca­
mento intensivo, passível de acarretar uma regressão à fase anterior da evolução
- à fase de latência, obediente e calma, sob a égide do lar parental.
Inversamente, existe para o adolescente o risco de sentir-se catapultado, proje­
tado no imaginário por uma reação de independência súbita, que ele ainda não
é capaz de assumir de um modo que coloque todas as suas chances a seu favor;
às vezes, essa é uma tentação efetivamente perigosa, que os pais ou o adoles­
cente se vêem forçados a evitar, pois enfrentar a realidade continua a ser uma
coisa arriscada. Que o rapaz ou a moça, em suas fantasias ou fabulações, des­
preze os riscos dessa confrontação com a realidade, isso é uma coisa necessária;
mas basta eles se sentirem desafiados, antes do prazo simultaneamente deter­
minado por seu desejo e sua experiência, para que responsabilizem os pais por
isso, com ou sem razão. A repressão parental se origina na fantasia do risco cor­
rido pelos jovens e induz o adolescente à atuação, enquanto, sem a repressão,
ele se contentaria em falar de seus projetos e fantasiar suas explorações. Quando
os pais toleram esse momento difícil, o adolescente se compraz em negociar
com eles suas autorizações, para poupar seu fôlego e também porque, tanto aos
olhos de seus companheiros quanto diante de si mesmo, ele pode assim justi­
ficar os limites de sua audácia.
Em algumas sociedades, a proibição do trabalho remunerado antes dos 16
anos e, em certas camadas sociais, a continuação dos estudos profissionais até
depois dos 20 anos, prolongam artificialmente a crise da adolescência. A rea­
lidade respalda as fantasias de castração dos adolescentes e permite a certos pais
desempenharem abusivamente um papel inibidor em relação aos jovens, que
deveriam experimentar livremente sua responsabilidade. Esses pais atrapalham
seu progresso, em nome de uma autoridade que freqüentemente se mostra mais

208
O COMPLEXO DE ÉDIPO..

pesada e coercitiva do que tinha sido nos anos correspondentes à fase de latên­
cia; é a própria angústia dos pais que asfixia os filhos, quando, ao contrário, sua
experiência deveria ajudá-los a confiar nos jovens que se sentem tentados a to­
mar a iniciativa nas dificuldades reais e contraditórias que eles têm de enfrentar
para se tornar adultos. O nível de maturidade adulta - ou seja, o nível em que
as palavras e os atos são coerentes, em que a responsabilidade pelos atos é ple­
namente assumida, depois de claramente estudados todos os riscos -só é atingi­
do lentamente, através de experiências da realidade que excluam uma proteção
familiar excessiva. O rapaz e a moça devem poder suportar com confiança os
inevitáveis fracassos reais, as desilusões e as decepções a seu próprio respeito:
eles podem superá-los graças ao apelo imperioso do desejo que suscita seu en­
gajamento, mas só podem responder a esse apelo quando têm probabilidades
de êxito e quando um desejo forte e livre respalda sua coragem; qualquer sen­
timento de culpa e de angústia, em relação a pais que externem sua própria in­
quietação ou, pior ainda, profetizem dissabores, retardará o engajamento.

209
8 .. .., , ·

A gênese do senti m ento


materno: esc l a rec i mento
psica na lítico da fu nção
si m ból ica fem i n i na *

Algumas imagens ancestrais do amor materno

O mundo pagão
O Ter. Na história romana, a mãe dos Gracos é citada como exemplo. A
uma romana nobre e rica que, exibindo suas jóias, dera mostras de sua riqueza
e queria ver as dela, ela disse, depois de chamar seus filhos: "Eis aqui minhas
jóias mais belas". Aí discernimos a orientação da cultura: a riqueza e a potên­
cia, entre os romanos, constituíam um valor; para que uma mãe fosse lendária,
portanto, ela devia considerar seus filhos como um "bem", isto é, como obje­
tos de sua propriedade, pois a riqueza em si era valorizada pela idéia de potên­
cia, e esta, por sua vez, era associada à estética do parecer.

O mundo judaico-cristão
O Ser. Salomão, em sua grande sabedoria, respondeu a duas mulheres que
reivindicavam a posse de uma mesma criança: "Pois bem: que ele seja partido
em dois e cada uma receberá a metade". Uma delas aquiesceu, mas a outra ex­
clamou: "Não, deixe-o viver, nem que eu tenha que ser privada dele! " Esse é o
primeiro e autêntico grito de amor materno humano que aparece citado na
história de nossa civilização: o da mãe que anima e encoraja o Ser vivo.

*VII Congresso de Psicoprofilaxia Obstétrica, Mônaco, 1967.

210
A GÊNESE DO S ENTI M E NTO .

Mas a vida corporal não é, entre os seres humanos, a única que a mãe dá
e sustenta. A mãe dos Macabeus, que incitou seus filhos à morte, para que não
se submetessem à vontade de um príncipe que exigia deles uma oferenda aos
ídolos, é também freqüentemente citada como exemplo. A mãe escolhe e pro­
move, para seu filho, mais ainda a vida ética do que a vida carnal, quando as
duas estão em contradição.
Além disso, existe a Virgem Maria, cuja iconografia tem servido de mode­
lo partenogênico - erroneamente, é claro - para tantas mães cristãs, e tam­
bém para muitas outras que, sem serem cristãs, foram formadas no mesmo cli­
ma cultural. As magníficas inflexões desse poema sobre a bem-aventurada ges­
tação que é o Magnificat não têm sido suficientemente aproximadas daquilo que
as determinou culturalmente: a espera de um povo em que homens e mulheres
sabiam-se escolhidos para a aparição - mas como? e por quem ? - de um
Salvador. Maria, encontrando sua prima Isabel, que trazia no ventre o feto de
João Batista, sentiu estremecer em seu seio o feto que viria a ser Jesus. Ora, esse
mesmo João Batista tinha por missão preceder a Jesus, preparar o povo para sua
chegada e conferir-lhe a investidura paterna para seu destino exéepcional di­
ante dos homens de todos os tempos, no batismo no Jordão, referindo-se à água
que corre, ao cordeiro do sacrifício e à pomba da paz e do amor. Sobre esse cân­
tico de glória de Maria, a grávida, esquecemos que ele é o grito de alegria ar­
rancado de uma mãe muito jovem e inocente, que encontra outra mãe, esta,
madura, que lhe dá sua bênção. A Visitação, como a tradição denominou esse
encontro, mostra-nos essas duas mulheres, ultrapassadas por acontecimentos
dos quais são, ao mesmo tempo, testemunhas e humildes fontes carnais.
Mas, em nossa tradição cristã, dessa bela história contada de boca em bo­
ca e que animou as vigílias de grupos reunidos junto às lareiras do inverno, re­
tivemos apenas a história de uma mãe sem genitor humano, adorando o filho,
seu deus, a quem ela alimenta e cujas fraldas troca sob o olhar devoto que ca­
racteriza os avós maternos e paternos, simbolizado por seu casto esposo, José,
que costumamos representar meio calvo e com a cabeça praticamente branca.

O Poder. Antes do Renascimento, na pintura, as Madonas com a criança,


coroadas e hieráticas, faziam referência, graças à presença de anjos adoradores,
a um lugar extratemporal; e, na escultura, mãe e filho eram representados
postados num trono real, adornado com rubis e pedras preciosas; muito poucos
homens e mulheres, salvo os que nascessem num trono, podiam reconhecer-se
nessas representações. Com o Renascimento, o tempo se atualiza e o espaço se
humaniza em torno dessas duas figuras, que ganham vida. Daí em diante, o

21 1
NO JOGO DO DESEJO

pintor e o escultor fixam os traços humanos de suas esposas ou amantes, e os


objetos humildes da vida cotidiana são associados aos brocados e rendas que
continuam a referir essa Virgem-mãe a seu destino real mágico, no qual tudo
é riqueza e poder material celestializado.
Amor materno possessivo e ciumento, exibicionista do ter e da riqueza, segundo o
exemplo romano.
Amor materno como sustentáculo do ser carnal e do ser espiritual dos filhos, no
exemplo das mães da Bíblia.
Poder real, triunfo comum da mãe e do filho, nas imagens arcaicas cristãs, ain­
da referidas a um tempo e um lugar inacessíveis, iniciatórios de um coração-a­
coração desprovido de palavras, senão de olhares, perfumes e cânticos, numa
cumplicidade fusional adorável. Esquecimento total da realidade de sua hu­
manidade pelo artista e pelo devoto. Tais são, até o Renascimento, as imagens
religiosas da maternidade.

A co-naturalidade. Foi então que nasceu um grande poeta intimista:


Francisco de Assis, hippie doce e genial que, pela primeira vez, inventou o presé­
pio, psicodrama da natividade em que o mundo cósmico, atualizado, festejava
o bem-aventurado nascimento, recolocando em seu lugar humilde os homens
necessários - não somente o pai e os pastores, mas também a pobreza e a na­
tureza que alimenta, o boi e o asno, e os presentes para a alegria de todos os
sentidos: a luz, os perfumes, o alimento dos corpos, os cordeiros e o queijo. No
odor quente de esterco e de estábulo, que a tradição havia negligenciado, resti­
tuiu-se a cada um, se quisesse sentir nele a poesia disso, seu coração de bebê
choramingando junto a uma mãe e um pai perfeitamente humanos, deuses
primeiros de cada um de nós, também eles transcendidos pelos acontecimen­
tos e mudos de estupefação. Quanta humanidade nesse espetáculo! E, no en­
tanto . . . Será que algum de nós, ao ver um presépio, consegue imaginar uma
conversa entre os adultos representados - o pai, a mãe, os pastores e os reis?
Mal conseguimos imaginar o balido de um cordeiro, um galo cantando ao longe.
Se a natureza vibra, ressoa e murmura com respeito, é o silêncio dos homens
que impressiona: é como se eles acedessem, no recolhimento, ao mistério de sua
fecundidade, ao mistério do verbo. Ali, a única palavra, a um tempo humana e
espiritual dos pais, é seu filho, que os une por um vínculo vivo no tempo e no
espaço. Esse bebê frágil atualiza a união e a confiança recíproca, confundidas
com um pequenino corpo nu depositado no feno. O presépio, para a humanidade
cristã, marcou um tempo zero num lugar zero. A criança, novo homem que se
inaugurava, estava ali, em sua aparição, contemplada por toda a criação. Era es-

212
A GÊNESE D O SENTI M E NTO

ta que acabava de partejá-la; e o lugar da mãe, distante dela, exprimia O res­


peito de uma pessoa por outra, como também o fazia o lugar do pai e dos vizi­
nhos que acorreram para saudar o recém-nascido.
O presépio de S. Francisco, em suas múltiplas dimensões, foi portador,
através do tempo, do sentido mais evoluído de uma maternidade generosa e
não fusional: nem potente, nem possessiva, nem solitária, mas humilde e res­
peitosa. Ao mesmo tempo em que à soéiedade de sua época, representada por
pobres e ricos, pelos incultos e pelos magos, a criança também era dada pela
mãe ao esposo, unido a ela na emoção reconhecedora e na responsabilidade
pela tutela do filho. Um filho que, como todo ser humano, revelava-se a men­
sagem de uma trindade criadora: espiritualidade, humanidade e cosmo,
promessa de verdade numa palavra e em atos que, assumidos pelos pais, origi­
navam-se na humildade do destino aceito.
No Renascimento, inteiramente influenciado pela Roma antiga, o sagra­
do tendia para as representações carnais, enquanto a representação do pai humano con­
tinuava a ser negligenciada, em prol do vínculo carnal e rejubilante, cada vez mais
valorizado, entre o filho-rei, mais adulado que adorado, e sua mãe, também ela
adulada por ele, ambos unidos numa co-naturalidade de potência estética e emo­
cional. Graças a essas imagens, cujas estampas adornaram tantos lares, o meni­
no recém-nascido recebeu uma justificativa religiosa, estética e social para sua
fantasia de antes dos três anos - a de pertencer a uma mãe partenogênica e
fálica -, e a menina recebeu uma justificativa para a fantasia que cultiva des­
de os três anos de idade: a de se igualar à mãe em potência, brincando com uma
boneca imaginada viva; seu desejo anal narcísico ficou sem referência à geni­
talidade ou à união sexual dos corpos, e seu desejo infantil de "fazer" e de "ma­
nipular" um objeto fálico, supostamente partenogênico, foi justificado pela
cultura.

A imagem cultural dos sentimentos maternos como suporte do nar­


cisismo do ser no mundo
Estudemos agora os sentimentos maternos nas palavras e relatos exemplares
de nossa cultura, tanto os que transmitem histórias tidas como verdadeiras co­
mo os contos propostos à imaginação das crianças.
A beleza dos traços, a dedicação à prole, levada ao extremo da renúncia a
qualquer interesse por seu próprio destino de mulher, a consagração de todas
as energias à preservação, sobrevivência e proteção dos filhos ante os perigos
com que os ameaçam o destino, o acidente ou a malevolência, tais são, nas
histórias e nos contos, as qualidades da "boa mãe" ideal.

213
NO JOGO DO DESEJO

Essa mãe - sempre considerada como a única encarregada das tarefas edu­
cacionais - sustenta o desenvolvimento de seu filho, inicia-o nos perigos que
o ameaçam e o orienta para a aquisição de um poder social.
Essas imagens simplistas, herdadas da observação do instinto materno ani­
mal, às quais se acrescentam o culto do bem falar e das boas maneiras em so­
ciedade, visam mais precisamente a seduzir a imaginação das meninas e a preser­
var sua identificação com modelos. Lastimavelmente, essas imagens não levam
em conta o papel predominante da relação de cada criança com seu pai e de ca­
da mulher-mãe com "seu homem".
Até as imagens das "mães más", egoístas, malévolas, incapazes de ajudar,
feias (ou bonitas, mas, nesse caso, vilmente coquetes), sadicamente rivalizantes,
e exigindo desempenhos impossíveis - imagens estas que visam a impedir as
meninas de lhes imitar o modelo -, apresentam, na maioria das vezes, mu­
lheres sem um cônjuge legal; ou então, quando elas o têm, são madrastas a quem
um pai cego encarrega da educação de uma filha que perdeu sua mãe biológica.
De fato (e contrariando a verdade), quase todos os seres humanos, de am­
bos os sexos, continuam a ratificar a confusão mítica de sua mãe com essas ima­
gens edificantes, e a temer o casamento e a progenitura. Pode-se dizer que a
imagem da mãe bela, bondosa, serena, dedicada, sorridente, boa cozinheira,
costureira e dona-de-casa, meiga com os sofredores, e totalmente dissociada
de sua relação de amante com o pai da criança e de seu desejo de adulta por
um adulto, continua a ser exibida nas galerias do coração. A causa disso deve
ser buscada no fato de que a magia é própria dos vínculos estruturantes da lin­
guagem pré-verbal que liga o lactente à mãe, esta em comunicação corporal
linguageira com seu feto e seu bebê.
Essa vivência arcaica da pessoa humana está associada ao fato de que os
fonemas da língua materna são indissociáveis, inconscientemente, das carícias
e das reprimendas, do clima gerado pelo caráter da mãe, cujas alternâncias de
serenidade e tensão escandem as manifestações vitais e emocionais do lactente.
As expressões do bebê, seu choro e seus sorrisos, dirigidos ao adulto materna­
lizante, recebem ou não resposta. Seu corpinho que sobrevive, movido pelas de­
mandas de cuidados e de alimento, recebe, além disso, uma informação mími­
ca, auditiva e comportamental. É nessa linguagem pré-verbal entre a mãe e seu
filho, sinal indelével dos valores do bom e do mau para o corpo (cruzados com
os do bem e do mal para o clima emocional), que estão imersas as relações en­
tre a mãe e o lactente. Os desaparecimentos da mãe, seguidos por seus retornos,
trazem ao filho segurança e autoconfiança, pois, seja quem for a mãe nutriz, ela
é o outro que garante a segurança do espaço conhecido.

214
A G Ê N E S E DO S E NTIM ENTO . .

Se a assistência contínua d a mãe, assim como sua superproteção ansiosa,


dificultam a simbolização de sua presença pela criança, sua ausência excessiva­
mente prolongada também tem um efeito nefasto, pois, sem a mãe, o bebê já
não se sente "ser", depois de um certo tempo que é variável para cada criança. O
"presente" da criança se enraíza nas relações repetidas com uma mesma pessoa,
relações estas que exigem ser renovadas num ritmo específico para cada bebê (e
que dependem mais da criança que da mãe). O único sinal de que se encontrou
o ritmo adequado, a princípio, é o bom apetite do lactente - sua fome física
- e, mais tarde, a alegria manifestada por ele na ocasião dos reencontros.
De ausência em presença e de presença em ausência, a criança se informa
sobre seu ser na solidão, reduzida como está exclusivamente às referências de
seu corpo, às quais acrescenta, quando ela está ali, a presença da mãe - primeiro
outro com quem a criança se comunica. A solidão, quando se prolonga, torna­
se sinônima da necessidade de ver a mamãe, promessa da ingestão de líquidos
e de cuidados reconfortantes. Os sons e os fenômenos que acompanham esses en­
contros, e que permanecem nos ouvidos da criança para além da saciedade e do
bem-estar corporal, constituem as franjas da presença tutelar. Desde que seu
desenvolvimento fisiológico o permita, a laringe do lactente emite, por sua vez,
sons dentre os quais alguns ecoam os sons ouvidos da mãe, outros a fazem ressur­
gir do desconhecido onde ela desapareceu, e outros ainda dão à mãe vivas sa­
tisfações, que ela se esforça por provocar novamente em seu bebê. Essa seleção
vocal e auditiva, seguida por brincadeiras do corpo e da mímica, valoriza a
aquisição da língua chamada materna. Inteiramente desperto, depois da di­
gestão, o lactente vai tagarelando e, para seus próprios ouvidos, emite sons que,
ecoando a voz materna, restituem-lhe a ilusão de que o calor radiante da pre­
sença dela voltou a se atualizar: as palavras que, posteriormente, articulam os
grupos de fonemas percebidos pela mãe e retomados por ela, com o sentido que
ela lhes atribui, significam para a criança a lembrança de sua presença benéfi­
ca e tutelar, a segurança na ausência dela e a possibilidade de descobrir, por
uma evocação sonora que é promessa de futuro, o mundo que a mãe conhece e
do qual continua a participar.
Tais são, para cada um de nós, quando lactentes, os tormentos do amor e
sua superação, através de uma fala que é comunicada - na falta de um com­
panheiro eleito - ao ambiente (ou seja, aos próprios ouvidos da criança); essa
fala, por uma espécie de magia, ajuda-nos a superar o mal-estar da imensa
solidão.
A experiência da saciedade corporal, fazendo distanciar-se a presença queri­
da, aguça o desejo, que não está ligado aos órgãos passíveis de se saciar, mas às

215
NO JOGO DO DESEJO

percepções sensoriais periféricas, plano em gue a criança, fora do sono, sofre


com o distanciamento da mãe. Todos os objetos do ambiente, todas as per­
cepções gue ela vivificou por sua presença, tornam-se então extensões dessa mes­
ma presença e presentificarn a segurança conhecida, desde gue o desenvolvi­
mento da criança lhe permita dominar a preensão, associada às palavras gue
guiaram seus primeiros sucessos. Alguns objetos são privilegiados e deverão
acompanhar a criança em seus deslocamentos e na hora de dormir. Graças a eles
- fetiches, até certo ponto, a que chamamos objetos transicionais -, a criança
acede à autonomia, a uma tolerância cada vez maior para com a separação da
mãe, e à conservação da serenidade, na certeza de reencontrá-la.
O desmame inaugura essa separação; a comida e a deambulação voluntária
introduzem a criança na autonomia física. A continência esfincteriana e os cuida­
dos com seu próprio corpo confirmam esse processo; a cada etapa em que é acei­
ta e apoiada por urna mãe que sabe renunciar, sem rejeitar nem abandonar, a
separação introduz a criança na vida social, gue impõe manhãs ou tardes, dias
inteiros e até semanas de segurança ritmados pelo reencontro com aquela que
o bebê sabe sempre amorosa, mesmo que ela esteja momentaneamente invisí­
vel, por estar ocupada em outro lugar.
Se detalhei meio longamente esse despertar para o mundo da comunicação
e para um narcisismo tranqüilizador, precisamente porque ligado às formas,
palavras e climas emocionais da comunicação com esse primeiro outro que me­
diatiza toda a vida relacional, foi para deixar clara a importância da mãe e seu
papel vivificante, a um tempo mágico e civilizador, e absolutamente insubsti­
tuível. Mais tarde, quando a mãe dos dentes de leite está longe, e mais ainda
quando está morta, os seres humanos ficam sujeitos ao luto de um ser que, em
seu inconsciente, foi parte de sua história: o ser indelével que, em sua infância,
co-carnal a seu corpo e fonte de sua linguagem, deu origem a sua autoconfiança
e ao sentido de suas palavras.
Durante o trabalho do luto, urna nova magia, ligada ao contra-senso da
morte, ao eterno não-retorno, bem como à angústia do incognoscível em que
desaparecem os mortos, faz com que os seres humanos poetizem qualquer lem­
brança daquilo que vivenciaram, carnal e inconscientemente, com a mãe de­
saparecida. Eles recriam um feitiço encantatório, luminosamente aureolado
de surrealismo imaginário e fonemático, que, decompondo sua realidade para
recriá-la sem cessar, toca na autenticidade de seu ser, naquilo que ele tem de
essencial.
Todos os entes queridos falecidos acham-se além da comunicação senso­
rial e verbal e, por isso, associam-se aos fenômenos cósmicos descobertos por

216
A G Ê N E S E DO SENTIM ENTO . .

nossos sentidos, que recolocam o homem numa condição comum a todas as es­
pécies vivas. Assim, as festas e os aniversários são, para todos os seres humanos,
sinais de amor e uma linguagem de alegria vivificante, para além das experiên­
cias mortíferas que o tempo impõe. A desrealização que ameaça o ser humano
- que o ameaça de ser permanentemente privado da referência perceptiva e
sensorial ao ser humano a quem deveu seu aparecimento carnal neste mundo e
seu acesso à linguagem falada - cria uma angústia quando das regressões decor­
rentes das experiências de vida, regressões estas que o fazem desejar reencon­
trar-se em sua integridade anterior, refugiado em sua meninice. Para comba­
ter essa angústia, o homem e a mulher esquecem o que vivenciaram nas expe­
riências ligadas ao contato com a pessoa social de sua mãe e, ajudados pelos
artistas, resgatam os mitos impessoais da maternidade, que a cultura conser­
va, transmite e vivifica pelas artes e pela literatura, linguagens das fantasias.
Outros recursos - como as religiões, reservatórios de certezas ritualisticamente
mantidas - sustentam a estrutura social e afetiva dos seres humanos nas ex­
periências de abandono, transferindo para potências tutelares de socorro espiri­
tual o apelo nostálgico à mãe arcaica e revitalizante, que, nas horas daquela
primeira infância impotente e ignorante, sabia consolar as aflições físicas e as
desesperanças.
Quando a pessoa real da mãe, em decorrência de uma morte prematura,
não deixou vestígios no filho órfão, ou quando, embora estivesse viva, as re­
lações com ela foram tão dolorosas que o adulto mal-amado recalcou-lhes a lem­
brança, esses adultos orfanados ou mal-amados já não recorrem senão a mitos
impessoais positivos ou negativos, e não guardam nenhuma lembrança pessoal
dolorosa. Os mitos negativos em nada mais afetam a co-naturalidade do sujeito
com a pessoa da mãe falecida. A infância! Ah, aquilo é que eram bons tempos!
É com os cônjuges, a princípio, e depois com suas filhas, que esses adultos re­
vivem emocionalmente, por uma projeção dos vínculos de co-naturalidade car­
nal, associada à imagem da castidade sexual genital, suas emoções amorosas
antigas, recalcadas e inconscientes em relação à mãe. Da mesma maneira, o
homem e a mulher atualizam, em seus vínculos com os filhos do sexo mas­
culino, as emoções inconscientes desaparecidas, vivenciadas na primeira infân­
cia em relação ao pai e aos irmãos varões.
Creio que tudo o que descrevi até aqui está na origem do que há de in­
tangível no valor positivo conferido ao sentimento materno, no qual os seres
humanos quiseram ver o protótipo da pureza de uma emoção sagrada. Sua pre­
tensa perfeição, associada a um ideal masoquista nas meninas e mulheres -
perfeição que os homens, mais ainda que as mulheres, comprazem-se em enal-

217
NO JOGO DO DESEJO

tecer - é um mico, exatamente como o mico da pureza das emoções infantis,


ou seja, de uma não-inferência de sexualidade nas emoções filiais das crianci­
nhas imaturas, no que diz respeito à genitalidade procriadora. Quantas mu­
lheres ainda se orgulham de ser mais mães do que esposas, embora com isso exi­
bam, ajudadas por valores sociais aceitos, uma neurose pré-genital, fetichista,
obsessiva ou histérica típicas!
Entre os homens, os equivalentes dessas mães seriam aqueles que se van­
gloriam de ser mais potentes no trabalho que no amor, mais cidadãos consu­
midores do que amantes e criadores. Mas nosso propósito aqui é o problema
das mães, e não o dos pais.
Dito isso, podemos indagar-nos, como psicanalistas, se essa mitologia ma­
terna não é um engodo, uma máscara poetizada da morte que se liga, desde nos­
sa primeira hora até a última, para lhe dar seu sentido pleno, à face da vida.
Uma face para-enganar-a-morte, num sujeito decaído na carne. Sua única me­
diação na Terra.

A abordagem clínica
A psicanálise permitiu estudar, através do comportamento das meninas
durante a evolução que as impele à condição de mães, as emoções autênticas e
por vezes mascaradas que esse comportamento exprime.
Permitiu também, pelo estudo de mães adultas cujos filhos se desenvolvem
mal, descobrir que elas experimentam, inconscientemente, emoções desvita­
lizantes e ansiógenas quanto a seus filhos, paralelamente a comportamentos
"normais", isto é, não-chocantes para o meio ambiente e, às vezes, até muito
delicados. E permitiu ainda descobrir o que se oculta de sentimentos realmente
muito positivos, em relação aos filhos, por trás de comportamentos julgados
"anormais" pelas próprias mães, que às vezes se envergonham ou se assustam
com eles, ou pela sociedade que os testemunha. A verdade dinâmica de cada
caso particular é muito distante do protótipo proposto pelas imagens de Épinal
e pelas imagens míticas culturais. (É certo que essas imagens carregam uma
verdade dinâmica comum, que herdamos de nossos ancestrais, porém transmi­
tida de maneira abstrata ou fantasmática, e da qual é preciso, para resgatá-la,
decifrar as alegorias ou decodificar as narrativas simbólicas. A esse respeito, a
psicanálise, com seus estudos - ainda jovens - permite ingressar na concre­
tude das realidades vivas.)
Os sentimentos de uma mulher por seu filho constituem, em essência, um
modo de linguagem que instrumenta todos os gestos e todas as palavras que a
mãe dirige ao filho. Essa linguagem pré-verbal é, ao mesmo tempo, produto

218
A GÊNESE DO SENTIMENTO . .

da educação da menina e suscitada pelo momento presente - o qual depende


da relação com o genitor da criança e com o meio atual, tanto familiar quanto
sociocultural. Como produto, essa linguagem - o sentimento materno - é
inconscientemente ensinada e se constitui na infância, no contato com e a
exemplo das mulheres das duas linhagens (materna e paterna) da menina, se­
gundo as relações de identificação ou a recusa da identificação da criança com
as mulheres de sua família e com as mulheres que são suas nutrizes e, depois,
\mas educadoras. Todas essas mulheres tutelares, esquecidas pela menina trans­
formada em adulta, marcam com fixações sucessivas suas emoções femininas
em evolução e as estruturam, não apenas na gestualidade, mas também e so­
bretudo num modo de ser e de sentir.
Esse sentimento materno, que, em seu intuitivismo, tanto interessa aos
obstetras e aos pediatras, é uma linguagem do corpo das mulheres, que pode
e sabe responder à natureza, tal como representada por um homem fecundador.
Não se deve esquecer que uma mulher de corpo adulto pode receber um filho
sem tê-lo desejado conscientemente, e até sem haver desejado conscientemente
o contato gonádico e genital com o homem de quem o concebe. Apesar disso,
essa jovem não-anuente no ato sexual pode ser uma excelente mãe, no sentido
estrito de gestante e lactante. O apelo de seu corpo, o desejo inconsciente de
fecundidade, estava nela sem o seu reconhecimento, pronto para responder à
implantação do óvulo e a suas conseqüências, e talvez a responder a isso ain­
da mais emocionalmente por não existir nenhum homem que concentre seu
desejo 1 •
Todo sentimento que se experimenta está ligado ao narcisismo, isto é, ao
centro coerente de "mesmidade", conhecido e reconhecido, que cada um iden­
tifica em si para conservá-lo. Esse "instinto", ou melhor, essas pulsões conser­
vadoras estão ligadas ao amor próprio e articuladas com a estima por essa mesmi­
dade, reconhecida como o si-mesmo. Ora, na criança, o narcisismo está ligado
ao bem-estar do corpo, gradativamente valorizado em relação às percepções in­
conscientes e conscientes concernentes a sua pessoa e a seu comportamento; re­
firo-me com isso às palavras e à atitude do meio ambiente - provisão e pro­
teção. O fato de urna menina sobreviver até os três anos, auxiliada por urna mu­
lher adulta, é acompanhado pelo sentimento de "ser um valor" para essa mãe,
qualquer que seja o comportamento dela a seu respeito e a respeito da sociedade.
A criança fixa-se nela e a encara como uma "mamãe", fonte dela própria e sím-

1 Vi uns cartõezinhos sociais que algumas dessas mães enviam para anunciar o nascimento de um filho: 'ºA Srta.
Fulana cem a alegria de anunciar o nascimento de seu filho ou de sua filha X (fecundação artificial)".

219
NO JOGO DO DESEJO

bolo de sua sobrevivência. Melhor: a criança faz parte do desejo de sua mãe, e
a mãe, do desejo de seu filho (mãe é tomada aqui no sentido estrito de auxiliar
nutriz para o "ir-se tornando" da criança; na realidade, trata-se da mãe tutelar,
no sentido de "mamãe").

Aos três anos, os filhos do homem, independentemente do corpo, são


atentos às formas, aos nomes que lhes são dados e, em particular, à forma de
seu corpo; descobrem a diferença sexual entre as meninas e os meninos. A
ausência do pênis nas meninas, que é a única verdadeira diferença entre os pe­
quenos seres humanos nessa idade, levanta um problema para as crianças de
ambos os sexos. Essa é a idade em que a atração pelo crescer, sentido como um
valor imanente para a criança, menina ou menino, impõe-lhe valorizar essa
forma protuberante, que expressa as emoções numa região que, à parte as ex­
pulsões excrementícias e o prazer de tocá-la, não parece ter para os outros ne­
nhum valor além do valor urinário espetacular, traço que o adulto parece des­
valorizar. Que acontece então com o desejo, emoção pregoante que se focaliza
ali em certos contatos, emoção que só é visível pela ereção nos meninos? Esse
pedacinho que falta, e do qual a menina pode ignorar por muito tempo que a
mãe é desprovida, assemelha-se às duas outras protuberâncias do corpo que a
mãe apresenta em seu peito, e cuja erectilidade, experimentada pela boca do
lactente na primeira infância, deixa no inconsciente traços indeléveis. Instruída
por suas sensações tácteis investigatórias, a menina descobre que, na falta do
pênis, ela possui, no lugar homólogo ao dos meninos, um botão eréctil, tal co­
mo os tem nas extremidades dos seios, ainda inexistentes e achatados em sua
forma.
O clitóris e os bicos dos seios tornam-se então, para a menina, os locais de
seu narcisismo sensual, enquanto o sentimento desvalorizante da ausência do
pênis contribui para manter as fantasias de valor compensatório, tanto concer­
nentes às aparências especulares - estênicas e sedutoras - de seu corpo in­
teiro quanto à linguagem bem articulada, à mímica vivaz e à destreza manual
na arrumação: em suma, a tudo aquilo que pode fazer com que ela seja falica­
mente apreciada, a despeito de sua decepção especular genital. Através da lin­
guagem falada, ela compreende que é apontada pelos fonemas de um prenome,
por pronomes e adjetivos que a integram - a ela, que até então era neutra, exa­
tamente como os menininhos: "bebê", depois "criança" - na parte feminina
da humanidade. O coquetismo narcisizante das meninas, sua destreza mani­
pulatória, sua graça corporal desenvolta e seu investimento fetichista nas
bonecas - pequenos falos compensatórios a quem elas gostam de oferecer cuida-

220
A GÊNESE DO SENTIMENTO . .

dos, roupas bonitas e observações educativas, imitando mãe - são o sinal de


uma integração bem-sucedida daquilo a que os psicanalistas chamam castração
primária2 • As primeiras manifestações, no que concerne ao círculo materno, de
seu comportamento com as bonecas e com as crianças pequenas, que ela gosta
de proteger e de manipular, são a compensação valorizada dessa castração, que
enternece o grupo adulto e a valoriza como futura mamãe.
Mesmo que seja débil mental ou neurótica, isto é, que tenha permaneci­
do 'no estágio evolutivo de menina para quem o pai ainda não tem um valor
erótico claro, e mais ainda quando é criada num gineceu, a menina pode, de­
pois que seu corpo torna-se adulto, sentir-se narcisizada por ser fecundada e, se
não tiver uma debilidade motora, cuidar maternalmente de um bebê. Mas é
preciso que o cheiro do leite e das fezes do lactente não lhe desperte uma re­
pugnância olfativa e táctil.
Inúmeras mulheres, muito evoluídas sob os pontos de vista social, civil e
intelectual, e que manifestam genuínos sentimentos maternos tutelares pelas
crianças mais velhas, não são - e nem conseguem ser - boas mães para as cri­
anças pequenas, em particular para seus próprios bebês. Desde a decepção nar­
císica proveniente da descoberta de sua forma genital, durante a primeira in­
fância, elas elaboraram inconscientemente o recalcamento de qualquer percepção
olfativa de uma região considerada vergonhosa, a tal ponto que esse recalcamento
ficou realmente cravado em seu corpo. Supervalorizando a cultura e a promoção
social no que elas têm de comum a ambos os sexos, essas mulheres sentem, em
relação ao que a seu ver é apenas corpo, uma repulsa fóbica, em particular quan­
to aos odores do leite e de sua região urogenital, e estendem essa repulsa ao cheiro
do corpo de seus bebês incontinentes e infantes. São as mães más da primeira
infância.
Os sentimentos maternos positivos pelos bebês enraízam-se em percepções
sentidas como agradáveis - percepções olfativas, auditivas, visuais e tácteis do
corpo do lactente e de suas funções naturais, alimentares e excrementícias; e es­
sas percepções são narcisizantes, quando se trata de seu próprio filho, para qual­
quer mãe que seja normalmente mulher. As feridas narcísicas experimentadas
e não superadas na idade de três anos, inversamente, nas mulheres que se tor­
nam mães, estão na origem de muitos distúrbios somáticos de seus bebês. Ao
menor incidente e à visão da menor sujeira, elas têm que repreender, limpar e
desinfetar seus filhos: essa é a luta obsessiva que travam contra as censuras que

2 A descoberta e aceitação de seu sexo não- peniano, ao qual as que conseguem dar-lhe um nome chamam de "o
buraco e o botão".

221
NO JOGO DO DESEJO

dirigem a si mesmas, como nutrizes e educadoras excessivamente tensas, que


gritam, reclamam, higienizam e fazem do urinol o presidente do berçário, co­
mo seu mestre ético. A vida vegetativa e os primórdios da motricidade são re­
pletos de angústia perto dessas mães coisificantes, que gostariam de ter bebês­
bonecos; muitos retardos sensório-motores dos lactentes apáticos ou chorões são
conseqüência disso.
Outras meninas, em vez de um recalcamento acompanhado de repulsa pela
região genital, passam a depreciar a feminilidade como tal e tudo o que a ca­
racteriza em seu meio social. A aceitacão ou o desejo de fecundidade ficam se­
parados de seu substrato - o valor estético e social da pessoa da mãe e de seu
sexo - e a fecundidade passa a ser o único objetivo obsessivamente valoriza­
do. Transformadas em mulheres, elas confundem os cuidados a serem presta­
dos a um bebezinho-rei com seu próprio valor, e só se sentem narcisizadas por
serem amamentadoras e mães. Essas mulheres sempre precisam de um bebê e,
em nome dele, negligenciam o marido e os filhos mais velhos. Os outros fi­
lhos, com ciúme do recém-nascido, são induzidos a permanecer, quer sejam
meninos ou meninas, como objetos passivos e exclusivos da mãe, e a valorizar
sua dependência regressiva das vontades dela. Ao crescer, eles se tornam fan­
toches de qualquer outra instância que, alienando-lhes a liberdade, lhes confi­
ra segurança na dependência.

Após os três anos, toda menina orgulhosa de ser menina (o que prova que
superou a ferida narcísica da ausência do pênis) vê descortinar-se para ela um
destino na identificação com o comportamento social da mãe; representa-se nos
desenhos com bonecas e bolsas, o que constitui uma expressão gráfica da intui­
ção de que ela tem um sexo-receptáculo (os meninos, por sua vez, são dese­
nhados com cachimbos, bastões ou armas).
Uma menina desse tipo entra em campo como mulher; quando não tem
que recalcar as emoções da masturbação mamilar e clitoridiana - o que ocorre
quando, por sorte, a mãe ou qualquer outra instância educadora não observa e
estigmatiza o prazer que ela retira disso - ela se sente completa, graças a suas
bonecas, e se desenvolve através de comportamentos que tendem à aquisição
das conquistas que fazem da mãe, dentro de casa, uma potência eficaz, indus­
triosa, arrumadora e administradora. Em "jargão psicanalítico", dizemos que
ela se orgulha das potências manuais e gestuais, orais, anais, uretro-clitori­
diano-vulvares e fálicas femininas.
Ela ainda não tem a noção de que o nascimento se dá pelas vias genitais
ocas (útero e vagina). Assim, elabora fantasias de concepção digestiva oral e de

222
A GÊNESE DO SENTIMENTO . .

parturição umbilical ou anal (expulsiva por defecação), ou ainda sádica, com a


abertura do ventre por explosão ou pela faca do cirurgião. Quando vê mulheres
grávidas, ela imagina que é uma criança vesical ou intestinal que está se de­
senvolvendo nos corpos das futuras mamães. De suas crenças inconscientes in­
fantis, persistem, nas mulheres adultas, representações anatomicamente falsas
das vias genitais, que acarretam, por ocasião de suas gestações e partos, com­
plicações urinárias e intestinais psicossomáticas. Durante seus partos, elas são
palco de mecanismos musculares contrariados pela representação imaginária,
defecatória ou urinária, que elas tinham do parto sem saber, representação es­
ta que é inconscientemente redespertada quando elas sentem as dores do par­
to, associadas a cólicas intestinais e ao clássico "faça força, senhora".
A menina que cresce na ambiência exclusiva da mãe, modelo identifi­
catório e amado, pode nunca chegar a descobrir a volúpia vaginal. Esta se liga,
na menina, ao desejo pelo pai, depois de lhe ter sido possível valorizar a atração
que experimenta por um pênis centrípeto que a penetraria no lugar de seu de­
sejo, focalizado na vagina. Na maioria das vezes, não é isso que acontece. As
meninas imaginam que o poder de atração das mulheres sobre os homens provém
de seu "peito", que as roupas íntimas habilmente cortadas servem de "suporte"
para sua sedução, e sonham possuir seios erécteis, para rivalizar edipianamente,
através de suas belas formas, com os da mãe.
A masturbação do clitóris, esse botão em seu sexo, imaginariamente referi­
do ao pênis que elas não possuem, e dos dois "botões" de seu peito achatado,
que as fazem empalidecer de inveja diante da idéia dos seios que elas também
não têm, desvia a imaginação das meninas de seu desejo claro, presente na con­
cavidade de sua vagina, de um pênis que as penetre voluptuosamente. A zona
orbicular vaginal é eréctil desde a vida na fase de lactação, mas o desconheci­
mento da realidade da vida sexual dos adultos até esse momento, na maioria
das meninas, obriga o desejo atrativo vaginal a permanecer sob a mediação va­
lorizada da linguagem, ainda mais que, na língua francesa, a palavra que de­
signa esse lugar de volúpia tornou-se, com suas três letras, sinônima de desqua­
lificação insultuosa! 3
Não sei se a educação sexual dada às crianças modificará as representações
imaginárias pré-pubertárias, mas, até o presente, o desejo de ser fisicamente pe­
netrada só se atualiza em suas deturpações fóbicas de rapto e de violação - fan­
tasias virginais clássicas, acompanhadas por terrores noturnos nas meninas sen-

3 A palavra a que se refere a autora é con, também preservada na língua portuguesa (de Portugal) como cono -
"vulva", e igualmente usada como linguagem insultuosa ("babaca"). (N. T.)

223
NO JOGO DO DESEJO

sualmente mais dotadas; fantasias que alimentam a culpa neurótica pubertária


e a passividade erótica mais ou menos fóbica da menina-moça, numa combi­
nação de atrevimento e timidez igualmente sedutores para os rapazes, com os
quais ela aparenta não se importar.
A descoberta do vínculo sexual que une a mãe ao pai e as mulheres a seus
amantes é o ponto decisivo que, na vida das meninas, faz desvanescer-se o inte­
resse pelas bonecas e valoriza a procura de valores sentimentais e de relações
emocionais com os meninos. Essas relações afetivas são acompanhadas pela ex­
citação de desejos, que trarão a confirmação, a exaltação ou o enfraquecimento
do valor social da menina, conforme a consciência que ela possa adquirir deles
graças às palavras das mulheres a quem estima, na medida em que as sinta co­
mo verdadeiras, pois são essas respostas que a ajudam a dominar suas emoções
femininas, valorizando-as como tal - emoções que passam então a se concen­
trar no desejo na região da vagina, ou que a obrigam a ignorá-las, se elas lhes
forem descritas como vergonhosas e desvalorizadoras .

A menina tem consciência de sua imaturidade física e da desproporção


entre seu sexo e o dos adultos; e esquece (mais do que recalca) seu desejo de
receber, tal como a mãe, um filho de seu pai. Ela vive até a puberdade na com­
petição com os meninos e meninas de sua faixa etária, com emoções eróticas
flutuantes e sempre divididas entre, de um lado, a admiração pelas mulheres
sedutoras, de quem espera que lhe revelem a origem de seu poder, e de outro,
a admiração pelos homens adultos que compõem o círculo de seus pais e que
tanto a atraem, assim como pelos rapazinhos que ela valoriza por sua aparên­
cia estética máscula, ou pelas observações narcisizantes que eles lhe dirigem.
O papel de um pai amoroso, que valorize tanto as conquistas sociais das filhas
(conquistas de potência industriosa) quanto seu desempenho escolar, sem chan­
tageá-las a fazer isso para agradá-lo, sem jogar sua sedução sobre elas e sem
culpá-las por suas ambições sedutoras nascentes, é - mais ainda que uma mãe
atenciosa - formador para a mocinha, que, já não sendo criança e ainda não
sendo adulta, é extremamente sensível a tudo o que seu pai pensa e exprime a
respeito dela ou das mulheres que ela toma por modelos.

Com o desenvolvimento dos seios e o surgimento das menstruações, a


mocinha adquire uma consciência quase clara de seu futuro destino feminino e
materno: é nesse momento que as palavras ditas por uma mãe não neurotiza­
da, feliz por iniciar sua filha em seu destino de mulher e de futura mãe, ou as
palavras angustiadas de uma mãe neurótica e, pior ainda, a ausência de qual-

224
A GÊNESE DO SENTIMENTO . .

quer palavra, terão um efeito narcísico, umas valorizadoras e outras, ao con­


trário, degradantes; de qualquer modo, elas terão um efeito indelével, seja qual
for o estilo do pai. A época do surgimento das regras realmente constitui, para
a menina, um novo nascimento, que a introduz na sociedade e num novo es­
tatuto de linguagem - paraverbal, em nossa cultura - no que concerne a to­
dos os seus relacionamentos, tanto com mulheres quanto com homens. A lei da
proibição do incesto com o pai, os irmãos e os tios é então dolorosamente viven­
ciada (ou revivida), trazendo tensões familiares para o trio pai-mãe-adolescente:
repreende-se a mocinha pela distância que ela adota em relação aos membros
masculinos da família, assim como por sua susceptibilidade às menores obser­
vações deles. A iniciação verbal, feita por uma mulher que não é a mãe, é sen­
tida como muito desagradável, pois é percebida como uma intromissão na vi­
da secreta e como castradora em relação aos sonhos incestuosos. A iniciação fei­
ta pela mãe, quando esta é frustrada em sua vida de mulher, ou quando é frígi­
da, é apreendida como uma ferida, pois a filha (na opinião da mãe) saberia amar
o pai com desejo. Até uma iniciação verbal bem feita, formulada por uma mu­
lher celibatária homossexual, é sentida como mentirosa, a tal ponto as palavras
femininas transmitem secretamente as emoções das experiências sexuais.
Qualquer palavra, mais ainda na mulher do que no homem, é inconsciente­
mente acompanhada por uma emoção de valor exemplar, percebida pela sensi­
bilidade de uma jovem atenta.
A angústia ou a segurança nos sentimentos femininos e maternos - sen­
timentos indissociáveis, nas mulheres, após a eclosão de seu funcionamento ge­
nital e de suas leis - estão ligadas à linguagem pela qual essas mulheres re­
cebem a confirmação de sua natureza e a confirmação ou a refutação das promes­
sas dessa natureza.
Quando a moça, tornada corporalmente mulher, sente-se em segurança,
sua libido afasta-se sadiamente, por algum tempo, do valor narcísico que re­
presenta a maternidade como tal, independentemente de uma fixação amorosa.
Desconfiemos das moças que querem se casar para ter filhos: elas são retardadas,
de estilo materno-fetichista obsessivo ou histérico - menininhas moralmente
impúberes, que compensam um sentimento de impotência civil (ou sua frigidez)
com fantasias maternais.
É do homem que consegue emocioná-la sexualmente que renasce na mu­
lher, de uma outra maneira - na mulher adulta, tanto no que concerne ao in­
consciente quanto à expressão consciente dos sentimentos maternos -, junta­
mente com o desejo por ele, o desejo de um filho, desejado por ambos e que se­
ja testemunha de seu amor compartilhado. Ela deseja um filho exatamente desse

225
NO JOGO DO DESEJO

homem. Quando o bebê nasce, ela procura descobrir sua semelhança com o
homem amado e com as pessoas da família dele, assim como com as pessoas de
sua própria família. Maternaliza esse bebê como uma nova pessoa, nascida dela
e do homem a quem ama, a deseja para ele um destino separado do seu: está
madura para os sentimentos maternos adultos.
Contudo, um grande perigo ainda espreita essa jovem, já apaixonada e
pronta para ser mulher, que é a armadilha da maternidade real. É o perigo de
uma regressão, em função da qual ela possa identificar-se com esse feto impo­
tente, com esse bebê passivo, que, fazendo esmaecerem seus sentimentos con­
jugais, provocará -. segundo o esquema de Freud, em decorrência do desin­
teresse libidinal da adulta - frustração, angústia e regressão. É também o peri­
go de uma regressão passiva e masoquista, que pode ser despertada pelas ex­
periências desnarcisizantes que ela vive em seu próprio corpo deformado e em
seu rosco marcado. O cotidiano da gravidez, a angústia da parturição e, depois,
o aleitamento e a dependência das necessidades regulares da criança constituem
uma porção de armadilhas, passíveis de acarretar a completa regressão da mu­
lher apenas a seu papel de mãe, sobretudo quando o exemplo materno que ela
recebeu deu-lhe uma imagem carencial, e quando ela própria, na época pré­
nupcial, não adquiriu a rapidez e a destreza manuais e dos afazeres domésticos
tão necessárias numa casa abençoada com filhos pequenos.
O marido frustrado, por sua vez, é sede de angústias; ameaçado pela re­
gressão, ele reinveste seu antigo estilo de vida celibatário, que tanto o gratifi­
cava, para preservar sua integridade sexual; se a perdesse, isso o desnarcisizaria
ainda mais que o abandono de sua mulher em favor do lactente. A conseqüên­
cia desse comportamento é, em geral, a agressividade ou a depressão e, secun­
dariamente, o desinteresse conjugal e paterno. A mãe fica então entregue a seu
consolador, o bebê-falo, e este a ela, tal como a boneca um dia servira de con­
solo para o luto peniano. O sentimento materno regride, para perigo maior do
trio - e sobretudo do futuro ser humano social, que se torna o senhor in­
condicional e o brinquedo favorito da mãe. Nesse caso - e principalmente
quando a mãe, frígida antes da gravidez ou ainda apenas ditoridiana, não con­
seguiu, após a parturição reveladora da potência feminina (como felizmente
acontece na maioria da vezes), tornar-se enfim adulta e vaginal -, a mulher
negligencia simultaneamente o pai da criança e sua própria pessoa, para orien­
tar sua sexualidade exclusivamente para o papel de criada. Escrava de seu filho
e de sua casa, ela valoriza um papel masoquista, fonte de degradação feminina,
e sua maternidade desempenha, a partir daí, um papel desorganizador em re­
lação ao casal. Por mais que nasçam filhos nessas condições, a degradação se

226
A G Ê N E S E DO S E NTI M E NTO . .

acentua. Ela é freqüentemente atribuída à fadiga e às condições econômicas.


Ora, embora estas exerçam uma pressão real, outras mulheres, nas mesmas
condições, não fazem nenhuma regressão, e seus filhos, por mais numerosos que
sejam, formam uma família no seio da qual cada um logo se autonomiza em
sociedade. E as mulheres de meio abastado, providas de empregadas domésti­
cas, estão tão ou até mais sujeitas do que as outras a esse estilo desorganizador
e neurótico de maternidade.
A lei social, em nossos dias, desempenha um papel de suporte da mãe, re­
forçando-lhe a consciência daquilo que foi a alteridade da pessoa de seu filho.
A lei dá nome e direitos a esse filho, e obriga a mãe a apresentá-lo regularmente
nesses templos da ciência em que se realizam as consultas dos lactentes. Além
do desmame, estas impõem a provação das agressões físicas profiláticas que são
as vacinações dos bebês. Depois disso, a sociedade impõe a freqüência à escola,
onde a criança aprende a se separar da mãe, descobre a preeminência do pa­
tronímico legal, as leis do casamento e da filiação, a lei da proibição do inces­
to e a honra que deve a seus genitores - todos eles traços contraditórios, às
vezes, com o estilo de amor infantil que a primeira infância confundiu com a
virtude da dependência. As leis sociais, portanto, vão no sentido de uma au­
tonomização e individuação da criança.
Mas, que podem as leis conscientes, se os homens e as mulheres, os médi­
cos e os professores nas escolas, não fazem com que as obrigações sociais a que
mães e filhos são submetidos sejam acompanhadas de observações diretamente
dirigidas à mulher, observações que a coloquem em guarda contra os senti­
mentos excessivamente atentos e superprotetores que ela pode experimentar
em relação ao filho, a essa carne de sua carne de quem ela se torna, em alguns
casos, cada vez mais escrava? Que quero dizer com isso? Parece que algumas
dessas pessoas incentivam o cuidado obsessivo e o interesse fetichista. Que médi­
co pede ao pai que acompanhe sua mulher e seu filho? E, mesmo quando se tra­
ta de um conselho pedido por um menino crescido ou por um adolescente,
quantos deles fazem referência à opinião do pai ou pedem para entrar em con­
tato com ele, nem que seja por telefone? Que professor pede ao pai que vá vê­
lo ao sair do trabalho, para conversar com ele sobre seus filhos? E , até pouco
tempo atrás, que parteira ou obstetra aceitavam a presença do pai junto à
parturiente?
A simbiose mãe-feto, bem como o sentimento materno, só se tornam e
se mantêm humanos quando a "díade" mãe-filho da primeira infância - se­
gundo as palavras do Dr. Berge -, que abarca uma realidade sensorial e psi­
cossomática, é constantemente articulada pelo ambiente da mulher e por ela

227
NO JOGO DO DESEJO

própria com o pai da criança ou com o cônjuge legal, em caso de divórcio. O


grande perigo surge quando a referência terceira dessa díade mãe-filho é uma
mulher de quem a mãe é dependente, ou é uma das avós, materna ou paterna,
o que sinaliza para a criança o estado de infantilismo de seus pais.
O ser humano, saído de uma trindade de desejos inconscientes, o novo ser
humano que preside inconscientemente o advento de sua própria autonomia, desde o apare­
cimento do organizador nofeto, esse ser humano em processo de encarnação, já meni­
na ou menino, corre o risco de entrar no engodo perversivo da mãe, quando es­
ta, por medo de não ser, sem ela ou ele, mais do que uma insatisfeita sexual, faz
da criança um objeto exclusivo de seu próprio desejo. Ou então o bebê pode ser,
já menos perversamente, desde seu nascimento, um objeto de necessidades im­
periosas a satisfazer, em detrimento dos ritmos do restante da família e, sobre­
tudo, da vida do casal; pois o desejo expresso da criança em relação à mãe -
para ele, uma deusa que dá o alimento e a segurança vital - deve ser marcado
pela lei do desejo presente, que é o do homem adulto, cônjuge ou amante: uma
lei que é salutarmente dissociadora para a delicada díade da amamentação pro­
longada; do mesmo modo, deve imprimir-se a lei da fecundidade potencial reno­
vada, que se impõe graças ao homem adulto, e que separa a mãe, facilmente es­
crava, de um lactente que cresce exclusivo e ciumento, impondo-lhe irmãos e
irmãs. Sem essas experiências da realidade genital e social, a criança, menina ou
menino, permanece como um lactente prolongado, atado por um vínculo ima­
ginário incestuoso e esterilizante a uma mãe infantilizadora e ansiógena.
Ao término deste estudo da gênese dos sentimentos maternos e de sua
evolução através de numerosos obstáculos e metamorfoses, retenhamos isto: o
sentimento materno adulto se constrói, no mínimo, como uma linguagem a
três vozes, à qual vêm unir-se as vozes familiares colaterais, cada uma delas
referida a sua própria triangulação inicial e atual. O sentimento materno, por
mais atencioso e amoroso que seja, só é vivificante para a criança quando coe­
xiste, na mãe, com sentimentos conjugais e com interesses culturais e sociais,
o que só se realiza na mulher que se tornou inconscientemente adulta no plano
narcísico. É o sentimento materno, portanto, que inicia e apóia autenticamente
a criança que é objeto dele, e que lhe permite tornar-se um sujeito satisfeito
com sua autonomia, com a conquista de suas responsabilidades e com a busca
de objetos de seu desejo fora da família: em outras palavras, orgulhoso de sua
condição humana.

228
9.,,,
..

No iogo do deseio,
dados viciados e
ca rtas m a rcadas *

Talvez não seja um erro, afinal, para falar com filósofos, não entender
nada de filosofia, e sobretudo nada "saber" dela, pois, se a filosofia tem um
sentido, esse sentido é originar-se em nosso inconsciente. Chego até a pensar
que talvez interesse aos filósofos conscientes conhecer alguém que, como to­
do mundo, talvez seja filósofo, mas apenas em seu inconsciente. Foi por essa
única razão que aceitei estar aqui com os senhores: eu, uma praticante da psi­
canálise aplicada aos que sofrem e que vêm pedir ajuda à psicanálise, para
conseguirem sentir-se sujeitos mais livres em seu sentimento de vive_r, e mais
eficazes diante _d_e st{� reaiid�de e de suas dificuldades cotidianas, repetida­
mente encontrad�s.·o trabalho de um psicanalista, como os senhores sabem,
realiza�se Ilumà formação a dois: o psicanalisando fala e o psicanalisado (ou
seja, o psicanalista) esrnta e estuda, através das expressões, das verbaljzações
e dos silêncios daq��le ·q�;Th� fala, aquil� a qu� chamamos transferência.
Não é Íneu objetivo, h�je, falar-lhes mais sobre esse aspecto, nem lh�; �Üzer
como a análise da transferência leva os analisandos, pela experiência, a reper­
correr sua história até as lembranças mais antigas de sua infância. Esse estu­
do permite ao psicanalista atestar verdades que são encontradas ao longo desse
trabalho, verdades que encontramos não apenas em alguns, mas em todos os

*Sessão de sábado, 22 de abril de 1972, na Sociedade Francesa de Filosofia.

229
NO JOGO DO DESEJO

analisandos. Trata-se de um jogo de camaleão ao qual se submete, no ima­


ginário dos pacientes, o psicanalista que os escuta, e que, alternadamente,
supõe-se que pense e reaja (ao que eles dizem e vivenciam) como lhes con­
vém, ou seja, como fez esta ou aquela pessoa de suas vidas, que lhes marcou
o desenvolvimento pela importância que teve na estrutura moral e experien­
cial deles. Esse estudo permite ver a que ponto o ser humano joga este jogo
muito conhecido: "eu te batizo de carpa, desde que possa comer-te" (e o
pior é que o psicanalista, na maioria das vezes, é mudo como uma carpa, e
não há consumo, mas sim análise, decodificação de sentidos). Acompanhando
a evolução do trabalho, vemos nessa formação a dois, de sessão em sessão, que
tipo de jogo de cartas um ser humano pode jogar e perder ao longo de toda
a sua vida, e como somos refogados, por assim dizer, na imaginação do su­
jeito. Vemos também que tipo de "consumo" esse paciente espera, segundo
acredita, ou que "consumo" deseja, e ao qual tenta entregar-se exemplarmente
com seu psicanalista, o qual, por sua vez, só faz escutar. Visto que seu papel
está bem definido, o psicanalista não responde satisfazendo a essa demanda
de "consumo"; tampouco atende ao desejo de seu paciente, tal como este o
propõe por suas demandas conscientes ou inconscientes; e então assistimos ao
fenômeno da remanência, qa re,gressão para a vida passada do sujeito, d_<1. reper­
cussão dê períod�s doloros�s � m;logrados como é este .em que ele não coo�
segue nos agradar. Trata-se de períodos em que houve um fiasco da sim­
bolização de seus desejos durante sua evolução, quer na infância, quer em fa­
�es recentes, no caso de neuroses menos graves. Esse papel do psicanalista é
obra do método descoberto por Freud; é sua aplicação qtie dá eficácia opera­
cional à experiência da análise.
O trabalho psicanalítico nos coloca diante do fato de que, se as necessi­
dades têm de ser satisfeitas na realidade por um consumo, há uma outra coisa
no ser humano, a que Freud cham()u libido, e que é o desejo. O desejo, que em
sua origem é sempre inconsciente, tal como a necessidade, também pede o apla­
camento de sua tensão numa realização, num consumo voltado para o prazer;
mas a característica do desejo é suportar a não-realização imediata e poder, por
isso, sofrer transformações contínuas, até se satisfazer de um modo. ou ele Oll,­
tro. O desejo insatisfeito, que assim permanece em estado de tensão, pode pois
ser reforçado e se esclarecer/Com isso, cada um de nós se torna capaz de in­
ventar e criar inconscienteme'nte meios de brincar com nosso desejo e de aplacá­
lo, quando não há resposta no ambiente. Esse jogo com o desejo é aquilo a que
assistimos numa análise, e é o que no� permite, por intermédio da linguagem
- que exprime os pensamentos tal como eles ocorrem e traduz as imagens do

230
NO JOGO DO DESEJO. DADOS . . .

sonho - -{§tudar todas as transformações do desejo que o sujeito escolheu em


sua vida imaginária e solitária, remontando no tempo aos primeiros desejos que,
insatisfeitos, deixaram vestígios em sua memória. ·
A função simbólica é fundadora do ser humano, e é ela que permite ao fi­
lho do homem, nascido impotente para sobreviver sem a tutela parental, de­
senvolver uma relação inter-humana de dependência fundamental primária
daqudes que desempenham, em relação a ele, o papel de provedores e, poste­
riormente, de tutores. Só tardiamente é que o ser humano consegue livrar-se
dessa tutela, se o compararmos com as crias das outras espécies vivas. A função
simbólica, ligada à memória, a qual, por sua vez, não é apanágio da espécie hu­
mana, faz com que toda satisfação ou insatisfação para o corpo tenha um valor
de linguagem para o filho do homem. Isso se dá por intermédio das percepções
viscerais recebidas da mãe desde a vida fetal, durante a qual as percepções au­
ditivas nada trazem senão o ruído feito pelas vozes do grupo e, em particular,
pelas vozes dos familiares da mãe - vozes que a criança reconhecerá após o ca­
taclismo de seu nascimento. A linguagem, portanto, está presente para o filho
do homem durante a vida fetal, ao menos auditivamente, com sensações de
bem-estar e mal-estar. Depois, a partir de seu nascimento, o lactente fica sub­
metido, ao mesmo tempo, a satisfações e insatisfações corporais, e ao banho
sonoro do grupo em que é educado e que, no dia-a-dia, o faz encarnar a lin­
guagem, se assim podemos dizer, junto com as sensações moduladas de prazer
e _de5-prazer cle viver em seu corpo físico, cujas percepções transformam-se, para
ele, numa linguagem passiva, agradável ou desagradável.
Tentemos compreender como se produz, no bebê que acaba de nascer, a
discriminação entre as necessidades vitais, sem as quais seu corpo pereceria, e
a inter-relação humana, sem a qual sua função simbólica não receberia "ali­
mentos" (elementos) lingüísticos(f.ro início da vida, os momentos de inter-relação
humana são obrigatoriamente concomitantes aos momentos de satisfação das necessida{e]?
O interessante é descobrir, é observar nos pequeninos o que a psicanálise nos
permite deduzir dos estágios mais remotos de sua história, que são vividos com
os adultos na relação analítica. No lactente, enquanto a necessidade é satisfeita, o
"..,,-� ,····-

desejo nunca o é1)pelo menos enquanto a criança__t1_ão 9orme. Mas o desejo se liga
......_

e se especifiéâ como diferente dá necéssidad�: em função da zona de ruptura úl­


tima entre o corpo da pessoa nutriz, que atende à satisfação da necessidade, e o
lugar de seu próprio corpo através do qual a criança satisfaz essa necessidade.
(1 psicanálise descobriu, em certos lugares do corpo, a origem, aparentemente co­
mum na relação de ser humano para ser humano, da necessidade e do desejo, e desco­
briu como o desejo se distingue da necessidade pela separação sentida nos limites

231
NO JOGO DO DESEJO

cutâneo-mucosos do corpo do bebê, a quem o seio da mãe é recusado após


cad:�!11ama�i�)
i_ Há uma origem comum, na relação inter-humana, de lugares de satisfação
da n;�;;;idade e do desejo, mas que são também lugares de sua distinção, pela existên­
cia_ do desejo, insatisfeito, enquanto a necessidade é saciada)Yoi a origem lo­
calizada dessas experiências discriminatórias para a distinção do desejo como
insatisfeito que induziu ao jargão psicanalítico que os senhores conhecem, e que
nos faz falar em pulsões orais, anais, uretrais e genitais. Sou obrigada a cumulá­
los com esses termos, embora desejasse não fazê-lo com filósofos, mas isso não
é possível, e os senhores compreenderão por quê.

Na criança pequena que mama para viver, para sobreviver, é possível, des­
de antes da primeira mamada, desde as primeiras horas de sua vida, distinguir a
existência do desejo e a inscrição da linguagem como um dado da relação inter­
humana que satisfaz o desejo. Há uma manifestação disso, sem dúvida espon­
tânea, já in utero: é o sorriso, que, tão logo o bebê nasce, pode iluminar-lhe o ros­
to. Essa careta, poderíamos dizer, dá aos adultos que a observam a fantasia de uma
alegria traduzida pela criança, isto é, já de uma linguagem que ainda não existe.
Quando verbalizamos em voz bem alta - a mãe, o pai ou a parteira que assis­
tem a esse sorriso - nossa alegria de ver o rosto da criança assim iluminado (em
minha observação, o lactente mais novo tinha sete horas de vida), assistimos a
uma coisa muito interessante. É preciso falar muito alto, caso contrário, o bebê
não perceberá o som de nossas palavras. Então, é só dizer - com aquela voz que
os senhores conhecem nas mulheres que circulam com suas cestinhas nos inter­
valos das sessões de cinema, gritando bem alto, "picolé, chocolate gelado!" -, é
só anunciar, nesse mesmo tom de voz, "Ah, que lindo sorriso!", uma única vez,
enquanto o bebê sorri, depois esperar alguns instantes e repetir, "Mais um lindo
sorriso?", com voz interrogativa, mas penetrante, para que se revele de imediato
o desejo de comunicação, e para que os cantos da boca do bebê hesitem e um sor­
riso luminoso se espalhe sobre seu rosto. Essa experiência pode ser repetida; ela
cansa o recém-nascido que ainda não é lactente, mas, se deixarmos transcorrer um
repouso compensador entre cada pedido, teremos, a cada incitação com a palavra
"sorriso", o mesmo resultado encantadorI Ê pronto: está estabelecido aquilo que
transforma em linguagem uma expressão mímica que, a princípio, não era uma
expressão lingüística inter-humana, mas que se transforma nisso graças ao en­
contro dos fonemas da linguagem, vindos da mãe, com sua percepção pelos ou­
vidos do bebê. Um pede, o outro responde: há uma expressão de desejos harmo­
nizados entre dois seres humanos dotados da função simbólica, e a palavra "sor-

232
NO JOGO DO DESEJO, DADOS ..

riso" transforma-se, para os dois, num símbolo do prazer que acompanha essa
mímic�::mxperimentei isso com meus próprios filhos, experimentei com crianças
que nã� eram as minhas, e as enfermeiras também o fizeram, e sempre com o mes­
mo sucesso, quando os bebês já estão em segurança com a pessoa que fala. Desde
o nascimento, portanto, algo de espontâneo, vindo do recém-nascido, pode en­
trar na comunicação lingüística. Ora, no caso do sorriso, bem antes da primeira
mamada, não se trata de um desejo originariamente ligado à necessidade ali­
�entar; trata-se, sim, de uma comunicação psíquica entre dois seres humanos e,
portanto, de uma potencialidade de linguagem. O.desejo é o apelo à comunicação in­
ter-humana.�organização
i
de uma resposta adequada ao apelo que une dois seres
vivos é a Í �g{iagem, e essa organização se deve à função simbólica, ao mesmo
tempo em que à memória. Portanto, o desejo de comunicação emocional sutil precede,
como acabo de lhes provar, a necessidade de uma comunicação assistencial substancial
do lactente (o leite no seio ou na mamadeira, e a manutenção de seu corpo em
resposta a suas necessidades). Sua necessidade de sono e sua necessidade de ali­
mentação e asseio irão organizar-se, graças à mãe, numa regulação das trocas, prin­
cipalmente digestivas, e acarretar, pouco a pouco, um conhecimento da mãe (ob­
jeto total) por intermédio do seio (objeto parcial), com um conhecimento da
aparência e dos ritmos do adulto nutridor e do clima tranqüilizante que cerca es­
sa díade mãe-filho. Tudo isso faz parte da linguagem dos desejos e das necessi­
dades do lactente em relação ao mundo externo. Esse mundo externo é humani­
zado pela voz dos adultos tutelares que se dirigem a sua pessoa, isto é, a seu ser
de linguagem reconhecido pelos outros\ .
A criança que nasce viável satisfez in utero, durante oito a nove meses, suas
necessidades de crescimento. Eu lhes disse que ela percebeu também os ruídos do
mundo externo, velados; mas, após o cataclismo do nascimento e o fe.cl:1,1.rpento
da perftisão umbilical, ela experimenta �a variação brusca _da temperatura, a
descoberta cio i;,e.so, a da luz, uma intensidade sonora aumentada das pc;rçepções
auditi;a:s-;·a m()dificação dos ritmos de seu coração e a depleção de seus pulmões,
ávidos de ar. A necessidade de respirar instala-se concomitantemente à pr�ssão
d�� �ós��i�s int��n�;· d� c:liafrag�� e do períneo, que, ao se �ovimentarem:
proy<:><::aJil ,1 prif!!eira <i�fe�,ação. Isso porque, se a criança in zttero �flg()le e. win,1 o
líquido amniótico, seu tub.9- digestivo .terminal só c;mite o couteµqgjQ!��t_i!Wl
qt1� �e. �:ll1?ulou, e q��-ch;mamos de mecônio, após o nasci!!l�nto. Sete horas de­
pois desse cataclismo, desse acontecimento irr�y�rsfr�1.<ll!�J 5> 9asci:111.epto, ou
talvez antes (não experi��nteÍ), ãquifo qt1� faz de uma mímica u�� Ü;g�agem
já pode ser inscrito como um código emocional inter-relacional para o círculo hu­
mano e a cnança.

233
NO JOGO DO DESEJO

Dequalquer modo, quer os adultos estejam ou não atentos a isso, organiza-se na


crianç;, um código de apelo e de resposta concernente a suas necessidades vitais) Ainda
ontem, pude assistir à projeção de um filme que será exibido sobre·a mater­
nidade num país africano . Fiquei muito interessada ao ver aqueles bebês cons­
tantemente nus, colados ao corpo da mãe dia e noite . É pele a pele, corpo a
corpo . Eles respiram e apalpam constantemente suas mães, que os carregam
bem firmados dentro de suas roupas, a ninhados contra elas. E o bebê fica com
as mãozinhas constantemente sobre o seio da mãe. Ora, nesse filme, em certo
momento, vemos uma criancinha muito pequena, mas que já não é um lactente.
Ela está dormindo e, enquanto dorme, sua mão como que alucina, diríamos,
um seio imaginário, o qual ela faz o gesto de apalpar, exatamente como vemos
fazerem todos os bebezinhos no corpo a corpo com suas mães. No filme, nesse
momento, a mãe está de costas para o filho, ocupada com outra coisa. Aí está
um gesto dos bebês africanos que não observamos entre nós. Em nosso meio,
o bebê chupa a língua ao dorm ir, faz de conta que está sugando o seio, com o
punho ou o polegar na boca para substituir o mamilo . Exatamente como o be­
bê africano , ele alucina sua relação com a mãe em sua vida imaginária : a mãe
f>resente para o desejo, a mãe em vias de satisfazer sua necessidade de mamar.
·. Todo o corpo da criança pode ser v iv ido como uma boca que apela para a co­
municação inter-humana do tocar, do apalpar � expressão do desejo, inde­
pendentemente da necessidade pregoante de satisfazer a fome e a sed-�,;, E é as­
sim que, dia após dia, hora após hora de encontros com a mãe e separarações
dela, e muito mais entre nós do que nos países negros, onde as crianças são
muito pouco separadas do corpo mater no, a criança, que deseja a continuação
do vínculo inter-humano e de comunicação com a mãe, é__i�p�!i_d� J??� e��� .
mesmo desejo a imaginar o apelo e a resposta passiva ou ativa do outro a quem
, ela deseja ; imaginação que, graças à memória, é uma mistura de fantasia, per­
cepção e lembrança. Ela brinca de imitar, de exprimir seu desejo, para o qual
falta-lhe o cheiro da mãe, falta a audição e falta a visão. Ela substitui a pre­
sença desejada e que lhe falta por uma percepção que a evoca. Na falta da mãe
presente, do seio na boca, o desejo dessa percepção táctil faz o bebê descobrir,
por exemplo , seu punho, depois seu polegar, substitutos a serem chupados, e
com isso ele suporta melhor o isolamento durante a ausência de comunicação.
Já existe uma linguagem intranarcísica, diríamos, uma espécie de memória da
presença da mãe e, se quisermos, uma espécie de masturbação, isto é, uma
tapeação gozosa solitária que sustenta o desejo na ausência da mãe nutriz , par­
ceira necessária para a satisfação corpo a corpo, boca a seio, psiquismo a psiquis­
mo. Todo mundo já viu bebezinhos que dormem, acordam, imitam a procu-

234
NO JOGO DO DESEJO, DADOS . .

ra do seio, choram por não o encontrar, ou pelo fato de sua mão desaj eitada
escapar-lhes da boca, e voltam a dormir sugando a língua, como se enfim
mamãe houvesse chegado. Não se trata de necessidade: trata-se do desejo de
se comunicar com o outro; é esse desejo que procura aplacar-se, diante da rea­
lidade impossível, da única maneira conhecida. E é essa a origem, a fonte da
simbolização. A imaginação recheia uma percepção parcial, graças à memó­
ria, . que recria a presença tranqüilizadora de uma totalidade existencial para
além da falta.
Que acontece com esse lactente? Ele ainda não é um sujeito. V amos chamá­
lo pré-sujeito. Esse seio que ele alucina ainda não é um objeto, mas, apesar dis­
so, representa a relação com a mãe; chamemo-lo pré-objeto ou objeto parcial. Há
uma relação simbólica entre esse pré-objeto e esse pré-sujeito; existe um códi­
go, elaborado no espaço-tempo, desse corpo alternadamente presente e ausente,
enquanto o bebê experimenta, seja a satisfação do bem-estar físico, que é a ne­
cessidade saciada, seja a insatisfação da necessidade, que clama por satisfação;
também é possível, na inexistência da necessidade, que falte a seu desejo a re­
lação sutil com a mãe. Essa relação cruzada de resposta à necessidade ou ao de­
sejo, ele a coordena, para seu prazer, através dos sentidos e das variações de per­
cepção já discriminadas. Essa simbolização da relação entre pré-sujeito e pré­
objeto serve para aplacar a tensão do simples desejo, pela imaginação da satis­
fação das necessidades vitais. E essa imaginação se contenta com o que há de
erótico na mamada - a sucção -, sem engolir o leite e sem sentir o cheiro da
mãe, que a mamada real permitiria.
O lugar do corpo da criança que foi separado do seio da mãe é, ao que
parece, o lugar de um apoio: a última lembrança da relação com a mãe. Esse lu­
gar - os lábios e o espaço nasolabial do rosto da criança - torna-se, quando
acariciado, o meio de enganar a criança quanto à presença materna. É também
para esse lugar que o lactente conserva a esperança de que o seio volte, de que
a voz da mãe e todo o seu corpo, associado a esse seio, irão voltar; e seu desejo
se traduz nesse apelo mudo: no chupar e no esboço do gesto mímico de amor
que constitui, para ele, a relação completa, de satisfação da necessidade e, ao
mesmo tempo, de segurança, aninhado no cheiro e no calor dos braços e do
corpo da mãe.
Os sentidos sutis do lactente, ou seja, aqueles que percebem à distância,
para além da separação, a presença da mãe, situam-se na massa cefálica. São os
olhos, os ouvidos e o nariz em sua dimensão olfativa. Como a função respiratória
não pode ser adiada sem que sobrevenha a morte, ao passo que beber, comer e
trocar as fraldas podem ser adiados por muito tempo, são as percepções olfati-

235
NO JOGO DO DESEJO

vas, as que são inevitáveis durante a inspiração, que constituem para a criança
o sinal da presença, na realidade, de seu outro eletivo: o objeto total que é a
mãe, como promessa de aplacamento da falta causada por seu desejo. Isso se dá
antes ou, talvez, concomitantemente às percepções decorrentes das pulsões pas­
sivas auditivas, para falar como psicanalista: aquelas que captam o ritmo dos
passos do adulto tutelar; talvez a criança já conheça esses passos e seu ritmo des­
de o tempo de sua vida fetal, pois esteve submetida ao ritmo de deambulação
do corpo da mãe. Esse ritmo dos passos da mãe que se aproxima a esse odor
dela, que a criança percebe à distância, fora do contato direto, fazem com que
o bebê europeu, colocado em seu berço, desenvolva um apelo mudo, uma vi­
gilância de suas sensações sutis, muito mais precocemente do que a criança
africana; e ele por certo também experimenta, com freqüência bem maior do
que a criança africana, o mal-estar de ver faltar a seu desejo a presença mater­
na. Como os senhores sabem, o ritmo do ninar acalma, no bebê europeu, o mal­
estar ligado à insegurança. Entre as crianças africanas, as mães não usam esse
recurso. Não seria esse ritmo de ninar o meio intuitivo que as mães e amas-de­
leite européias encontraram para dar a seus lactentes a segurança que eles ha­
viam conhecido, quando estavam dentro de seus corpos e elas os submetiam a
todos os seus ritmos de deambulação e atividade? Ou então, será que esse rit­
mo pendular, esse ritmo mantido pelo ninar, não corresponde ao ritmo rápido
do coração fetal, perdido no nascimento? Depois do nascimento, quando o be­
bê ouve bater em seus ouvidos o próprio coração, é com um ritmo mais lento
que o do coração da mãe, tal como ele o escutava através dos envoltórios da pla­
centa. ln utero, o bebê é embalado ao ritmo coartado desses dois corações, o seu
e o da mãe. Talvez os senhores não saibam que, nos Estados Unidos, pensou-se
nessa segurança auditiva que os bebês têm durante os nove meses da vida in­
tra-uterina; partindo da suposição de que os lactentes que nascem prematuros
se sentiriam em maior segurança ouvindo bater o coração de um adulto, os
norte-americanos prepararam salas de incubadoras em que, com efeito, as cri­
anças ouviam as batidas desse coração até o dia em que deveriam ter nascido.
Essa experiência demonstrou um índice de mortalidade bem menor nas in­
cubadeiras em que era ouvido o coração materno do que nas incubadeiras si­
lenciosas. Será que a escuta do coração materno já não é linguageira para o fe­
to humano, um elemento significativo para a função simbólica, prova de uma
relação inter-humana que satisfaz, na criança, um desejo de se comunicar com
"o outro", presente para a percepção auditiva como in utero, e confundido com
a necessidade de sobreviver? Não seria essa escuta uma tapeação de seu desejo,
como vem a ser, mais tarde, chupar os lábios e a língua na ausência do seio

236
NO JOGO DO DESEJO, DADOS..

materno? Tapeação do desejo, necessária à manutenção das relações estruturantes


inter-humanas e da função simbólica, e não tapeafão de uma necessidade oral, que
não existe nesse momento.
A escuta da voz da mãe, a percepção de seus ritmos e a olfação de seu odor
são, para a criança muito pequena, os meios de perceber eletivamente a aproxi­
mação e a separação dela. A visão vem depois. Quanto à mamada, ela pode ser
oferecida por uma pessoa intercambiável, sobretudo quando a criança toma ma­
m�deira. Os cuidados maternos e os ritmos daquela que os presta podem ser
diferentes a cada mamada, quando várias pessoas cuidam alternadamente da cri­
ança. Há então uma descoberta de diversas percepções coordenadas, que per­
mitem à criança, pela discriminação que faz delas, perceber a diferença entre
duas pessoas tutelares: em particular, distinguir a voz da mãe e a de seu com­
panheiro mais familiar, na maioria das vezes o pai, cuja voz já era reconhecida
pelo feto bem antes do nascimento. De qualquer modo, é indubitável que a
primeira percepção do bebê, no nascimento, é a da voz da mãe, e sua primeira
olfação é a do corpo e das vias genitais da mãe, pelas quais ele passa ao sair do
útero. O ritmo, segundo creio, ao lado do olfato, é a sensação mais nodal para a
segurança do feto transformado em recém-nascido, e será para ele o referencial
de sua primeira relação humana autentificadora. Talvez seja por isso que, em
nossa época, quando as crianças são tão amamentadas, trocadas e carregadas por
qualquer pessoa, assim como separadas das mães, que desde muito cedo começam
a trabalhar, elas têm tanta necessidade de brincar com seu desejo através do rit­
mo. Talvez seja essa a explicação da predileção dos jovens pelo jazz. Isso não era
assim antigamente, quando a melodia desempenhava um papel predominante
na música. Não será porque a mãe, ou uma mesma pessoa, provia simultanea­
mente o alimento e os cuidados durante longos meses? Atualmente, sendo a mãe
freqüentemente substituída por outras pessoas e indo a criança para creches, há
uma dicotomia do olfato e uma dicotomia da audição que obrigam o ser hu­
mano, para sua segurança total, a redescobrir a percepção original auditiva ute­
rina e a brincar com a invenção rítmica que seu desejo lhe sugere.
Esse "jogo com" uma sensação, acompanhado de rememoração, é próprio
da vitalidade simbólica em que se origina o desejo. Ele permite alucinar as pre­
senças amadas e brincar de "Cadê? Achou! ", repisando as percepções auditivas
dotadas de uma rememoração narcisicamente prazerosa. Esse jogo de um ser
desejante que solicita a resposta de outro desejante complementar é fundador
do sentido assumido pela função simbólica, em todos os climas e em todas as
épocas. É interessante estudá-lo no nível das pulsões orais. Por isso é que estou
falando mais detidamente do bebê de colo, porque, depois disso, todo mundo

237
NO JOGO DO DESEJO

conhece mais ou menos a contribuição da psicanálise. Quando se chega ao Édipo,


ou pelo menos a seu início, por volta dos dois anos e meio, três anos, todos co­
nhecem mais ou menos o esquema triangular conflitivo, o amor identificatório
com o genitor de sexo homólogo, e que é contraditório à luta rivalizante com
ele, para que se realize um desejo genital incestuoso. Essas hipóteses da teoria
psicanalítica são aceitas ou não, mas a observação de crianças pequenas, a par­
tir do momento em que elas andam e falam, confirma sua existência, muito
embora, em cada ser humano, as coisas aconteçam de maneira singular, tão sin­
gular quanto seu triângulo pai-mãe-filho específico.
Prefiro falar dos primórdios da vida, pois é aí que vemos como, obrigatoria­
mente, os dados são viciados, como afirmei; em outras palavras, para preservar uma
saúde psicossomática, um tônus psicossomático com que possa continuar a vi­
ver fisiologicamente, o ser humano, por ser dotado da função simbólica, inter­
naliza o código de sua relação com o outro, e ama a si próprio como é amado
por um outro; há nele um desejo fundamental de reencontrar, nessas percepções,
algo que lhe recorde a última relação de prazer em que ele-o outro, ele-sua mãe foram
um só, através de desejos harmônicos. Esse reencontro parece necessário ao ser hu­
mano, para que, no pré-sujeito, estruturem-se de maneira coesa a inteligência,
o corpo, o coração e a linguagem, antes dos cinco anos. É exatamente na idade
infantil que se origina a articulação do desejo com a função simbólica, assim
como suas armadilhas.
Certos seres humanos, a quem faltaram as relações simbólicas com o mun­
do inter-humano, embora eles tenham sido materialmente assistidos em suas
necessidades, não puderam exercer sua função simbólica no que concerne ao de­
sejo do mundo externo, pois as pessoas tutelares que cuidaram deles não sou­
beram iniciá-los nisso. Por essa razão, sua vida simbólica permaneceu, durante
semanas ou meses, sem um meio lingüístico. Os senhores hão de me dizer que
a criança não fala antes dos nove ou dez meses, mas é claro que não estou me
referindo à linguagem expressa pela criança: refiro-me às percepções signifi­
cantes com que sua função simbólica estrutura seu ambiente, quando o adulto
maternalizante sabe estar atento e responder a elas. Os bebês privados de uma
presença humana amorosa empregam seu desejo unicamente prestando atenção
a suas necessidades e às variações de suas sensações viscerais, que se tornam seus
únicos elementos de linguagem. As crianças maternalizadas com amor e com
linguagem armazenam em sua memória as percepções dos encontros auditivos
e visuais com pessoas que, por sua vez, também desejam manifestar-se a elas
através da linguagem e se comunicar com elas. As mães amorosas cantam e
falam de todas as suas atividades com os bebês, a quem paparicam e de quem

238
NO JOGO DO DESEJO, DADOS ..

cuidam . Alguns bebês , criados num deserto de palavras e de carinhos, fracas­


sam em seu ingresso na vida relacional, por motivos que aliás nem sempre são ,
como se diz, culpa da mãe, e que se devem a muitas condições que não é meu
objetivo enumerar nem desenvolver aqui.
A dependência diádica do lactente recém-nascido em relação ao adulto
nutridor, que é a mesma em todos os seres humanos , não é isenta de conse­
qüências: mesmo quando o adulto encara o bebê como uma pessoa, como um
homem ou uma mulher em desenvolvimento , destinado a se desligar (o que
nem sempre acontece : com demasiada freqüência, vemos bebês e crianças
servirem de fetiches ou animaizinhos domésticos para adultos que parecem só
cuidar deles para desfrutar de sua posse exclusiva, para abraçá-los, dar-lhes or­
dens, vesti-los e servir-se deles para parasitá-los, a fim de preencher sua própria
solidão); mesmo quando a amamentadora, seja ela a mãe ou não , considera o
bebê como um adulto sexuado em transformação, do qual ela tem o encargo e
a responsabilidade , mas não detém a posse ; o bebezinho que ainda não anda
sente-se, obrigatoriamente , um objeto parcial para sua nutridora - essa grande
massa cuja co-corporeidade lhe dá segurança existencial, e por cujos braços a
criança deseja ser apanhada e deslocada no espaço. O bebê não apenas se sente
em segurança ali, como também deseja da nutridora palavras e carinhos que ex­
pressem uma comunicação emocional. Sente-se um "objeto", embora seu dese­
jo já provenha de uma função de pré-sujeito de sua linguagem - linguagem
esta cujo desejo, que o bebê é impotente para manifestar, a não ser através do
choro, busca uma resposta.
O bebê acha-se em co(n)-vivência com a mãe quando fica mucosa a mu­
cosa e corpo a corpo , para a satisfação de suas necessidades vitais; mas, quando
ela se afasta, o bebê é como que desertado pela potência, sobretudo quando, fo­
ra desses momentos de contato corpo a corpo , a mãe rompe a comunicação cor­
poral com ele, sem lhe dar continuidade , durante o hiato que os separa, através
do interesse que manifesta por sua inteligência alvorescente e pelas modulações
de palavras que ele lhe dirige. Nesse isolamento , quando ele é brutal, depois
do "ficar sozinho" que se segue às refeições ou à higiene , a criança sente-se afe­
tivamente abandonada, e seu único desejo é o corpo-a-corpo com a grande mas­
sa portadora de alimento e segurança. Seu condicionamento de pequena mas­
sa, dependente da grande massa adulta, bem como seu estado de impotência
física, fazem do lactente um caso muito particular dentre os seres vivos, por sua
impotência para se exprimir, para manifestar seu desejo; e, no entanto , é a co­
municação inter-humana que o humaniza. A criança é tributária de "quem " de­
seje comunicar-se com ela. É tributária da disponibilidade emocional e/ou ma-

239
NO JOGO DO DESEJO

rerial do adulto tutelar para perceber o sentido de seus choros de bebê, quer se
trate de choros de necessidade ou de choros do desejo de companhia. Cada mãe,
cada ama-de-leite tem em si características diferentes, decorrentes de sua
história e, diríamos, dos dons naturais que constituem a particularidade emo­
cional da díade primária lactente-lactante, em cujo cerne as relações estrutu­
rarão passo a passo as vias das simbolizações de objeto e de sujeito, que, alter­
nando demandas e respostas, combinam-se para dar frutos estruturais no bebê,
através do conhecimento, da cumplicidade e da conivência nas atenções, nos
apelos, nas respostas e não-respostas, no reconhecimento mútuo dos dois como
seres humanos presentes um para o outro. O co-ser com a mãe, alternando-se
com o co-não-ser com ela, e dependendo das modalidades da díade, pode trans­
formar-se num "co-não-ter-se" ou num "co-ter-se" t para o bebê que aí se de­
senvolve fisicamente; isso depende, para ele, das extensões perceptíveis da pre­
sença sutil da mãe, retidas em sua memória, e das extensões auditivas ou das
presenças associadas com ela, agradavelmente ou não, que realmente per­
maneçam no espaço animado ou inanimado que cerca o bebê na ausência da
mãe. Há também a preensão possível dos objetos associados à presença da mãe
- os objetos, os brinquedinhos que ela própria tocou e manipulou enquanto
os nomeava e falava com seu filho, e que ficaram por perto depois que ela se
afastou; eles são, para o bebê, testemunhas da presença materna e, portanto, ele­
mentos lingüísticos, a um tempo fonemáticos e cinemáticos. Quando o bebê
"tem" "seus" objetos, intermediários da relação com a mãe, é como se ela con­
tinuasse presente quando se ausenta. Quanto às pessoas, quando ele as conhece,
por tê-las visto e percebido em harmonia com a mãe, o bebê as adota como subs­
titutos maternos, sobretudo quando a mãe e o pai, formando um casal, não são
percebidos por uma terceira pessoa tutelar da criança como rivais. Para "saber­
se ser" 2 e sentir-se em segurança, o lactente precisa estar, seja nos braços da mãe,
seja em contato com objetos que, por sua presença e suas palavras, ela tenha
"mamãezado", se assim posso dizer. É possível que ele se refugie nesses objetos
de maneira menos eficaz do que nos braços soerguedores da mãe, mas, ainda as­
sim, para o bebê, eles estão articulados com a convivência com ela e com uma
presença associada; em especial, eles sustentam o desejo, permitindo-lhe adiar
o reencontro com mamãe, sua satisfação maior. Uma criança que não tem na-

1 Vale assinalar, nessa palescra oralmente proferida pela autora, a conjugação de acepções permitida pela homo­
fonia de co-ne-s'avoi,· (co-não-rer-se) e co-ne-savoir (co-não-saber) e de co-s'avoir (co-ter-se) e co-savoir (co-saber).
(N. T.)
2 No original, se savoir être (cf. nora acima). (N. T.)

240
NO JOGO DO DESEJO, DADOS . .

da em seu berço, nem tem no espaço em que engatinha nenhum brinquedo com
que se divertir e brincar com seu desejo, nada que lhe recorde a presença da
mãe, dispõe apenas de seu choro, que é, ao mesmo tempo, a repetição das
provações de sua vida e a repetição dos apelos em que às vezes ela é atendida.
Esse choro é, para ela, o único substituto da companhia amada, o significante
que tudo traduz: necessidades e desejo. Com efeito, é no choro modulado (o sen­
tido da modulação do choro do bebê é "compreendido" pela mãe) que se ori­
gÍna o esteio do sujeito em seu próprio corpo individualizado.

O caso particular do lactente surdo. É por seus gritos não modulados que se
reconhece o bebê surdo. Hoje em dia, o diagnóstico da surdez dos lactentes é feito
muito precocemente, pois sabemos que a surdez é um fator de ingresso na debi­
lidade mental (como caso particular do autismo), não por causa do cérebro da cri­
ança, mas pela ausência de percepção da linguagem e dos sons da vida. Na cri­
ança surda, as potencialidades da função simbólica só encontram, para se exercer
na comunicação interpsíquica, respostas olfativas e tácteis (passivas) a seu dese­
jo. Ela não tem sequer a audição de seus próprios gritos. Desprovida de visão
durante as primeiras semanas, ela é obrigada, em sua vigília, no apelo mudo à
espera da mãe com quem deseja comunicar-se, a se contentar com os odores li­
gados às funções digestivas, alimentares e excrementícias. Acrescentamos ainda
que os adultos não são solicitados à comunicação por esses bebês do mesmo mo­
do que pelos bebês dotados de audição, cujo choro é modulado segundo suas ne­
cessidades e seus desejos.
É pior ainda para os que nascem não apenas surdos, mas cegos. Conheci
crianças desse tipo, consideradas grandes retardadas passivas e autistas, até o
dia em que o nascimento de um irmão mais novo, deixando-as literalmente lou­
cas de ciúme e inteligentemente perigosas para o recém-nascido, na ausência
da mãe, permitiu detectar sua dupla enfermidade (cf. a história de Helen Keller,
nos Estados Unidos, no século passado; a peça teatral Milagre no Alabama rela­
ta sua reinserção na linguagem pela Srta. Sullivan). Conheci outras crianças,
consideradas débeis ou pré-psicóticas, que nada mais eram do que míopes ou
hipermétropes, sem o conhecimento de seu círculo de familiares.
Mas, voltemos ao caso dos bebês nascidos sem enfermidades sensoriais orgânicas. O
bebê que cresce, quando a mãe soube preencher com a linguagem os momentos
de intervalo entre os cuidados corporais, esforça-se em seu berço, quando des­
perto e não esfaimado, por encontrar seu vínculo vocal com ela. Tenta dar a seus
próprios ouvidos a ilusão das palavras ouvidas ou moduladas: são exercícios da
língua, da boca, do cavum, de domínio da linguagem. É tão precoce esse desejo

241
NO JOGO DO DESEJO

de escutar outra vez as palavras da mãe, gue os fonemas não incluídos na língua
materna logo se tornam impronunciáveis para a maioria dos seres humanos de
uma dada região do globo, embora, originalmente, gualguer criança, nascida em
gualquer região e maternalizada em gualguer língua humana, seja capaz de pro­
nunciar os fonemas de todas as línguas. Quando uma criança é humanizada des­
de o nascimento pelas vocalizações e pelo falar da língua materna, os fonemas
desta, e somente eles, transformam-se para ela em símbolos do reconhecimento
mútuo de seu "ter a si mesma/ser em si mesma" e da mãe, esse ser iniciador nos
valores da vida. A mãe inicia a criança não só no aplacamento das necessidades
do corpo e das tensões do desejo, mas também, por seu afagos, pelas carícias e
pelas palavras que lhe dirige, no reconhecimento do pai, dos parentes e de todas
as pessoas com quem fala em presença da criança. Ela a inicia, por conseguinte,
na vida social. É essa alternância do desejo de comunicação, satisfeito na pre­
sença e insatisfeito na ausência, mas desde então esperado e fabulado, se assim
posso dizer, e cedo ou tarde seguido pelo retorno da satisfação de reencontrar a
mãe, é isso que organiza como um código de linguagem as possibilidades do que
somos forçados a denominar de sublimação das pulsões orais do desejo: pois é pre­
cisamente o desejo, tal como se organiza na oralidade, que encontra nela as raízes
da humanização, ou seja, a função simbólica é colocada a serviço da comunicação
de desejos entre os seres humanos.
São os fonemas - os "arrr", os "rlg" - que fazem com que a garganta, is­
to é, a laringe, seja percebida pela criança como distinta de sua faringe. Tudo isso,
sem dúvida, inconscientemente. É na laringe que se especifica o lugar do desejo e,
na faringe, o lugar da necessidade, na época das satisfações predominantemente orais.
Esses lugares entram numa dialética inconsciente diferente da que corresponde
à atividade olfativa. Por guê? Porque o apelo à mãe só pode ser feito pela voz
da criança se ela expelir o ar através do choro (laringe) e, ao expelir o ar, ela não
pode ficar atenta ao olfato no plano da mucosa pituitária. Ao emitir sons para
chamar a mãe, a criança se priva de uma inspiração atenta à eventual recepção
do odor dela. O odor esperado da mãe, ou olfativamente imaginado em sua
ausência, é algo a que o bebê tem que renunciar, para concentrar toda a sua
energia no choro, no choro destinado a fazer com que a mãe venha até ele, que
a chama.
Assim, nesse fenômeno do choro, incompatível com a atenção e a esprei­
ta olfativas, inscreve-se uma necessidade endógena de repressão em prol da
obtenção de um certo prazer. O próprio pré-sujeito reprime uma pulsão de ex­
pressão passiva (o olfato) para concentrar sua energia numa pulsão ativa, o
choro: chamar a mãe à distância e sustentar o desejo de vê-la voltar, com seu

242
NO JOGO DO DESEJO, DADOS . .

cheiro tão conhecido. O lactente é obrigado a ultrapassar, a negar de alguma


forma o apelo de seu desejo olfativo, para, nos casos mais felizes, obter a sa­
tisfação de seu desejo - ver retornar a mãe, que fala com ele, embala-o ou
toma-o nos braços . Essa aprendizagem da discriminação entre a laringe e a
faringe nem sempre é feita com facilidade. Temos uma demonstração disso no
caso dos bebês vomitadores ou cuspidores, que, em sua ânsia pelo retorno da
mãe,, em vez de chorar, devolvem o leite da mamada. Não é que tenham má
digestão. O estado de início de digestão, comprovado pelo aspecto talhado do
leite, deixa claro que se trata de um "erro de manobra", se assim posso dizer:
em vez do choro, com sua coluna de ar proveniente dos pulmões, é o leite, co­
luna de líquido recebida na relação corpo a corpo com a mãe, que é expelido,
como que a clamar pela presença daquela que o introduziu. Em muitos casos,
a simples presença da mãe junto ao berço elimina esse incidente da devolução
do leite depois da mamada. Tive uma demonstração disso com muitos lactentes
que pensávamos ter de tratar com medicamentos, pois, recolocados em seus
berços, vomitavam parte da mamada. Tratava-se de crianças que desejavam a
presença da mãe até o momento de serem tomadas pelo sono. Na verdade, já
eram pessoinhas civilizadas, que sentiam necessidade de uma conversa depois
do jantar, mas pessoinhas que caíam em sua própria armadilha, pois seu vômi­
to inquietava as mães. Através do distúrbio digestivo, elas conseguiam o que
queriam, mas, infelizmente, seu prazer era aliado à angústia da mãe. Por outro
lado, a laringe não era discriminada da faringe, permanecendo confundidos o
desejo e a necessidade. Vemos aí como muito cedo, no bebê humano, os da­
dos podem ser viciados no jogo do desejo, quando o gozo de um é obtido graças
à angústia do outro. As percepfões auditivas da criança, mais ainda do que suas
percepções visuais, introduzem seu conhecimento do espaço e, através do choro,
ela manifesta seu desejo à distância, tornando-se assim, às vezes, senhora do
deslocamento e do retorno da mãe desaparecida no espaço. As percepções au­
ditivas vão muito mais longe do que as percepções olfativas, e o bebê percebe
desde muito cedo ruídos distantes (até quatro ou cinco quilômetros; entre os
esquimós, essa acuidade auditiva dos bebês é muito conhecida: o urro do ur­
so é sempre detectado pelas crianças pequenas antes de ser perceptível aos ou­
vidos dos adultos); na verdade, a inteligência dos sentidos de um bebezinho é
extraordinária, comparada ao que será depois. As potencialidades intelectivas
concentradas nesses lugares de percepção - o olfato e a audição - são ex­
traordinárias no bebê, em relação ao que acontece com a inteligência quando
esta passa a dispor de muitas outras maneiras de perceber e comunicar. Desde
a origem e pela vida afora, o corpo faz de cada um de nós um espécimen da es-

243
NO JOGO DO DESEJO

pécie humana, movido por necessidades; o psiquismo transforma cada um num


ser desejoso de comunicação com outro psiquismo. O despertar da inteligên­
cia e da sensibilidade do ser humano depende das comunicações - das redes
de linguagem - que, de psiquismo a psiquismo, se estabelecem com a mãe,
de quem depende, em cada um de nós, qualquer experiência de nós mesmos
e do mundo dos seres humanos do qual ela é a mediadora, a começar pelo co­
nhecimento que dá do pai. Assim como toda atividade visceral ou motora é
motivada por uma tensão que busca aplacamento no espaço circundante (não­
humano ou humano), toda atividade psíquica é motivada por uma tensão li­
bidinal que descobre seu apaziguamento específico na comunicação psíquica
entre a criança e esse outro eletivo que é a mãe, associada a um outro adulto
com quem ela se comunica. A estrutura da linguagem como comunicação de­
pende, portanto, do ambiente humano e do desejo do outro em relação à cri­
ança, em resposta ao desejo da criança. A aquisição da linguagem relacional
perdura durante todo o tempo do crescimento e se realiza à custa das pulsões
e de seu objetivo de prazer: a prefiguração de sua realização, o adiamento (a
memorização), a castração ou a privação do objetivo inicial provocam variações
de tensão e transformações simbólicas educadoras.
A obtenção do prazer acalma as pulsões e abole por um momento o tem­
po e o espaço. O prazer da comunicacão interpsíquica é, no ser humano, um
substituto do prazer físico. Sendo ele dotado de memória, a prefiguração do
prazer, o adiamento de sua realização e até mesmo sua frustração, quando com­
pensada pelo prazer psíquico de se comunicar com outro psiquismo, tudo isso
inicia o ser humano no valor das trocas afetivas e intelectivas, inicialmente con­
fundidas com o valor único do prazer físico. A função simbólica, específica do
ser humano, permite substituir o prazer de um circuito curto do desejo, sen­
sual e imediato, por um circuito mais longo, que mediatiza as pulsões e lhes
permite retardar a obtenção do alvo primário, em nome de um novo prazer a
ser descoberto. É esse mesmo processo que permite evitar, por uma experiên­
cia memorizada, o desprazer ou a dor consecutivos à obtenção de certos pra­
zeres sedutores (o fogo, por exemplo). Todos esses processos de deslocamento,
adiamento e descobertas constantes, apoiadas e orientadas pelo adulto tutelar
com quem a criança deseja permanecer em harmonia, são processos de educação
e formação da linguagem, no sentido total do termo. Os fonemas que os acom­
panham ganham corpo, de algum modo, no dia-a-dia, deixando na memória a
herança sonora da relação educativa, as palavras associadas à experiência do pra­
zer ou do desprazer. Prazer do corpo e desprazer do corpo, um e outro se cruzam
com o bom ou o mau, conforme o prazer de satisfazer o desejo se harmonize

244
NO JOGO DO DESEJO. DADOS . . .

com o prazer da instância tutelar ou esteja em desacordo com ele. Assim, os


valores de bem e mal associam-se, na educação, tanto ao bom quanto ao mau.
Também aí os dados são viciados.
Parece que, muito precocemente, faz-se uma escolha entre os sinais, como
corolário à renúncia a emitir outros sinais, e que o bebê é capaz de discernir não
só as percepções, mas também seus meios de expressão. Também aí, a discrimi­
nação não se faz sozinha, mas depende da maneira como a mãe, como espelho
sonoro, faz um eco verbal ou dá uma resposta, perceptível para a criança, àqui­
lo que lhe diz respeito nas manifestações do bebê. Conforme o sentido de uma
linguagem seja admitido no que a criança manifesta, e que pode ser agradável
para a mãe, estando portanto em harmonia emocional com o bebê, ou de­
sagradável para ela, estando portanto em desarmonia com ele, organiza-se para
o bebê não só um modus vivendi com respeito a seu aspecto fisiológico, mas tam­
bém uma ordem concernente à fonação, no palato, na garganta, na boca, na lín­
gua, nas fossas nasais e nos ouvidos; tudo isso constitui o substrato orgânico,
funcional e instrumental, se assim posso dizer, da simbolização na aprendiza­
gem verbal, em sua musicalidade, e na aprendizagem do comportamento inrer­
humano, dentro do grupo familiar.
Quanto à linguagem mímica, referi-me a como esta poderia começar a se
organizar (no exemplo do sorriso) muito antes das percepções visuais claras, e
até antes das primeiras mamadas. Toda a linguagem mímica ordena-se num
esquema semelhante. Aquilo que, numa mímica espontânea do lactente, provo­
ca no adulto a fantasia de uma comunicação de alguma coisa vinda do bebê para
ele, é, por sua vez, expressado pelo adulto através de um sistema de fonemas
dirigidos à criança, ou enunciados sobre ela e dirigidos a outra pessoa. A cri­
ança não ouve distintamente as palavras, mas percebe de início os sons e, so­
bretudo, não sabemos de que maneira, percebe quando se está falando dela ou
de alguma coisa que lhe interessa. Quando falamos em passear, quando fala­
mos em sair, quando falamos sobre o gato e o cachorro, animais domésticos fa­
miliares, a criança muito pequena adota uma mímica que prova que ela ouviu
e que seus ouvidos estão afiados. No exemplo que dei há pouco, quando o adul­
to pronuncia as palavras "um belo sorriso", não é o sentido das palavras que a
criança ouve, a princípio: ela escuta "é-o ou i-i, com r"; é isso que, vindo do ex­
terior, acompanha para ela uma certa sensação, uma percepção interna con­
comitante ao sorrir. E é essa mímica, novamente cruzada com a evocação repeti­
da dos mesmos fonemas pela mãe, que produz na criança, tal como na mãe, a
alegria reconhecida de estarem juntas em harmonia. E éassim que coméça a comunicação,
originária do desejo.

245
NO JOGO DO DESEJO

De início, trata-se de uma manifestação espontânea, de uma comunicação


desejada pela criança, ou de uma demanda ligada à necessidade expressa por
seu corpo. E é com as reações que se seguem a essas manifestações espontâneas,
no adulto, que a criança pode ou não associar aquilo que percebe das palavras
vindas de fora. É isso que instaura, na criança, a origem da linguagem falada,
ou da linguagem gestual, da mímica facial e motora, ou até do fazer do corpo,
como o vômito, a micção ou a defecação.
A linguagem vocalizada forma o código da expressão audível; a linguagem
dos gestos e da mímica forma o código dos desejos sutilmente exprimidos que se
dão a perceber. Esses códigos, compartilhados pela mãe e pela criança, estruturam
imagens que são memorizadas. Essas imagens auditivas, olfativas, tácteis e visuais
de percepções diversas coordenam-se numa espécie de presença do pré-sujeito su­
til para ele próprio, que, a partir de então, se exprime por sua pequena massa car­
nal, tornada simbólica de seu desejo. Essa imagem do corpo, como a chamamos, per­
manece inconsciente, mas se articula com o esquema corporal, que se desenvolve dia
a dia, e instnunenta (enriquece, bloqueia ou ordena) com seus poderes a imagem
do corpo. A impossibilidade ou a possibilidade de aquisições psicomotoras ou
lingüísticas, à medida que o bebê se desenvolve, variam de acordo com cada díade
mãe-criança. As potencialidades desaparecidas nem sempre provêm de proibições
expressas: podem ter simplesmente permanecido fora do código, isto é, fora da
função simbólica, que elege algwnas delas e não desenvolve outras. As potenciali­
dades do esquema corporal que não são reconhecidas ou convocadas a se exprimir
pela mãe não se desenvolvem na imagem do corpo, mas desaparecem. Na verdade,
existe aí um processo de recalcamento de potencialidades sensoriais, semelhante
ao processo de recalcamento dos afetos a que assistiremos mais tarde. E esse recal­
camento das potencialidades não utilizadas na relação mãe-filho é o que, sempre
e obrigatoriamente, vicia os dados no jogo do desejo, e foi isso que eu quis dizer
inicialmente com o título desta conferência.
Em seguida, com a força que advém com o tempo na criança, no curso de seu
desenvolvimento fisiológico, ocorre wna elaboração das potencialidades do próprio
corpo, que se empenha em manifestar seu desejo de maneira cada vez mais deli­
berada, ainda que pré-consciente. O resultado é o esquema corporal, que rege a in­
dividuação de cada criança, conforme sua tolerância à separação, na solidão, e sua
redescoberta do espaço ambiental como um espaço comum, facultado a seu exer­
cício motor - espaço comum com o da massa do corpo materno, que a criança
observa em todas as suas ações e a quem imita. A criança descobre a cada dia novos
poderes nas variações das percepções que vêm recortar-se em torno de seu desejo,
e que irão caracterizar o prazer que ela tem e dominar sozinha o espaço: por seus

246
NO JOGO DO DESEJO, DADOS . .

meios físicos diretos o u indiretos, por suas ações sobre os objetos que a cercam, ou
ainda pelos meios vocais, manobrando o adulto à distância, a fim de obter dele a
realização de seus desejos, que ela ainda não pode controlar sozinha. Tudo o que
não é uma variação muito precisa e nitidamente perceptível de prazer ou de dor
transforma-se em hábito: transforma-se naquilo que é conhecido no espaço num
clima emocional de segurança, e a que a criança já não é particularmente atenta,
mas que, se lhe faltasse, iria deixá-la insegura. Nesse ambiente conhecido e re­
conhecido, onde seu ser está em segurança, tudo o que é uma nova percepção das
formas e cores, tudo o que é uma nova percepção táctil e motora, instrui a criança
sobre o mundo e sobre ela mesma, no prazer, na dor ou na indiferença. No seio
desse conhecido e reconhecido, as novas experiências e aquisições, assim como os
fracassos, marcam-se na memória com um valor intenso, pelas novas emoções que
vêm somar-se às que o bebê já conhecia e às quais não mais presta atenção. São
necessárias variações muito nítidas para que a criança possa discriminar as novas
percepções e prestar atenção a elas, e é preciso a presença de um outro, testemunha
visual e auditiva, para que ela possa procurar dominá-las através de todas as suas
faculdades lingüísticas. Assim, a criança estabelece sistemas referenciais de espaço
e tempo e emoções discriminatórias. As pessoas conhecidas são sinalizadas pela cri­
ança por seu cheiro e sua voz. Esses modos de reconhecimento prevalecem por um
longo tempo sobre a visão, ao contrário do que pensam muitas pessoas. A mãe, o
cônjuge da mãe e os familiares, articulados com a presença da mãe e percebidos
no ambiente em que ela se encontra, tornam-se formas móveis personalizadas,
homem ou mulher, adulto ou criança. A segurança atribuída pelo bebê ao ele­
mamãe, já estendida ao outro mais freqüentemente em contato com a mãe - o
pai - e aos familiares, estende-se em seguida ao conhecimento e reconhecimen­
to de qualquer outro que ela perceba na presença da mãe. Assim, a criança esta­
belece situações triangulares, de pólos intercambiáveis, nas quais ela mesma pas­
sa a ser, através de seu próprio corpo, conhecido e reconhecido como seu, o pólo
principal, existencial e permanente que representa a segurança, com a mãe in­
ternalizada. Desse modo, a mãe está, quer realmente, quer imaginariamente, co­
presente com a criança, toda vez em que esta entra em contato, mesmo na ausên­
cia materna, não apenas com o pai - em cujo ser toda criança que o conhece
percebe o vínculo privilegiado com a mãe e com o filho -, mas também com os
irmãos e irmãs, com os familiares e, em geral, com todas as pessoas conhecidas
como mantendo relações freqüentes com a mãe em sua presença. A criança ado­
ta a presença de todos eles, e a segurança que experimenta com sua mãe é esten­
dida a eles, não sem nuanças preferenciais pelas pessoas de sexo complementar,
qualquer que seja sua idade.

247
NO JOGO DO DESEJO

Essa triangulação inicial entre a criança, a mãe e o outro preferido pela mãe
está na origem da relação que se tornará a matriz (se assim podemos dizer) do cli­
ma emocional da criança em sociedade. Tudo isso faz parte de um clima de segu­
rança cuja falta torna a criança incapaz de trocas lingüísticas, mesmo que ela te­
nha as potencialidades para tal. Daí o erro, freqüentemente cometido, de se
tomarem por débeis mentais as crianças que vivem num clima de insegurança no
ambiente do casal parental, ou ainda aquelas cujas mães sentem-se angustiadas ao
se separar delas.
A convivência do bebê com grupos de pessoas, sua colocação em contato,
desde muito pequeno, com a sociedade e com todas as pessoas que seus pais fre­
qüentam, é excelente para o desenvolvimento simbólico e para as relações soci­
ais futuras da criança. Seu isolamento, ao contrário, num quarto fechado e si­
lencioso, a pretexto de que é preciso não lhe perturbar o sono, provoca um atra­
so do desenvolvimento e um medo ulterior dos contatos sociais, sobretudo com
adultos. Durante os nove meses de vida intra-uterina, o ser humano é mistura­
do com todos os ruídos da vida e com a vida de relação da mãe. Por que have­
ria, uma vez nascido, de ser tratado como um objeto precioso, ocultado dos
olhos de outrem e mergulhado no silêncio? Nada é mais nocivo à introdução do
bebê humano na vida de relação. Nenhum barulho de crianças brincando a seu
redor e nenhuma conversa de adultos são prejudiciais ao lactente; seu sono vem
no ritmo que lhe é necessário, desde que, ao nos dirigirmos a sua pessoa, não o
impeçamos propositalmente de repousar. Todos os ruídos do ambiente, durante
o dia, só fazem ajudá-lo a se desenvolver e se humanizar de maneira inteligente,
ou seja, de maneira inconscientemente lingüística. Também o passeio é indis­
pensável para o lactente. Quantas crianças vemos permanecerem encerradas, to­
das cobertas num quarto com as janelas abertas, a pretexto de que os sacolejões
são prejudiciais a seu cérebro pequenino? Ora, seu cérebro pequenino, in utero,
já viu outros abalos. E, carregada pela mãe ou num carrinho de criança, cujas
molas são preparadas para esse fim, o bebê fica muito melhor, misturado com a
vida da cidade, do que encerrado entre as quatro paredes de seu quarto. Creio
que o hábito da "segregação" dos bebês veio de nossos apartamentinhos em pré­
dios de vários andares. A preocupação causada pelo cuidado com os bebês provo­
cou nas mães a preguiça de levá-los para passear, carregando-os no colo, ou pen­
durados nelas em suportes apropriados, ou no carrinho, ou no "moisés". Não
levá-los para sair realmente poupa trabalho, mas, se as mães soubessem como se
paga caro por isso depois, com a retirada do interesse da criança pela vida social,
conheço muitas mães que passariam por cima de seu cansaço e de seu desejo de
paz e sossego. Infelizmente, isso não lhes é dito. Todos os contatos e percepções

248
NO JOGO DO DESEJO, DADOS..

que a criança possa ter com pessoas, animais e coisas despertam observações nela,
bem como a captação de diferenças perceptivas que, se forem objeto da fala da
mãe, constituirão, assimiladas pela criança à segurança existencial, o código da
linguagem das coisas, dos animais e dos seres humanos. Não quero esquecer as
árvores - sabemos muito bem corno os bebês gostam de desfrutar da visão da
folhagem e como os mais crescidos gostam de se enfeitar com ela e com as flo­
re�, que parecem despertar-lhes o primeiro gozo escópico. Desde a aquisição da
marcha, todas as crianças correm para as flores, para tocá-las, colhê-las e oferecê­
las a suas mamães como um presente inventado por elas. Como é triste que, em
nossas cidades, os jardins públicos considerem a grama proibida aos pequerru­
chos, que têm tanta necessidade do verdor; que a coleta das flores e o presente
que as crianças fazem delas sejam acompanhados, na maioria das vezes, por gri­
tos horrorizados das mães diante daquilo a que elas chamam vandalismo, em­
bora esse gesto provenha da inteligência do coração. É com meiguice que elas
devem levar a criança a compreender a necessidade de respeitar tudo o que é vi­
vo, e não com bravatas lamurientas que, posso afirmar, só fazem mal à criança,
que se sente incompreendida pelo adulto, e refreiam a expressão de seus primeiros
impulsos em direção à natureza, fonte e tesouro das emoções estéticas - emoções
tranqüilizadoras, com as quais os cidadãos urbanos são avaros em se comprazer.
Assim, acompanhei a inserção progressiva da criança desejante numa so­
ciedade que a convida à comunicação, desde que a trate, de direito, como um
interlocutor válido. Todas essas experiências contribuem para a assimilação pas­
siva do código da linguagem em sociedade, desde os primeiros dias da criança.
A função simbólica está em jogo, constantemente, durante todo o tempo de vigília da
criança; mas seu exercício, no seio da relação inter-humana cruzada, num es­
paço triangular particularizado em relação ao mundo social, está na origem da
organização lingüística, que eclodirá, a partir dos seis a sete meses, nos
primeiros fonemas voluntariamente emitidos para apontar os objetos e as pes­
soas parentais conhecidas. A relação amorosa, que é o nascimento dessa vida afe­
tiva de que as crianças dão testemunho muito precocemente, está, ela própria,
ligada ao desejo, experimentado como uma tensão promissora de satisfação
através da relação com o outro, e ligada à manutenção dessa tensão na modu­
lação das trocas, olhares, mímicas, gestos, sons e, finalmente, palavras orga­
nizadas em frases.
A relação amorosa nunca está ligada a uma satisfação imediata que atenda a uma
demanda manifestada pela criança. Na verdade, a satisfação do desejo corta o apelo
e a busca do outro, bem como a invenção de meios para expressá-los a ele. Satisfeito
o desejo, o apelo é suspenso. Quando o apelo é suspenso, não existe mais tensão

249
NO JOGO DO DESEJO

desejante, nem amor. Pode haver um gozo prazeroso, mas, quando esse gozo ain­
da não está engastado na linguagem - ou seja, quando não foi simbolizado nas
modulações trocadas com o outro, numa linguagem gestual e mímica ou numa
linguagem vocal e verbal - ele não deixa, num sujeito apaziguado com excessi­
va rapidez, nenhum traço utilizável para representar em sua memória a pulsão de
seu desejo. Quando uma tensão desaparece depressa demais, nem o desejo nem o
gozo são sentidos como "poéticos", isto é, criadores. A satisfação rápida de um
desejo, sem um intercâmbio entre as pessoas e sem palavras que permitam ao
imaginário o prazer compartilhado do gozo esperado da comunicação, reproduz
na criança a confusão entre o desejo satisfeito e a necessidade, com a qual, em sua
origem arcaica, o desejo era confundido. Em suma, o sujeito é remetido ao silên­
cio do corpo, por uma satisfação demasiadamente rápida do desejo na obtenção
do prazer substancial ou sutil.
Poderíamos falar num circuito curto da libido e em suas armadilhas para o dese­
jo, ao passo que o circuito mais longo, que comporta a comunicação por intermédio da lin­
guagem trocada com o outro, permite ao desejo as harmonias do gozo na inventividade.
Essa criatividade só é humanizante quando é inter-relacional, quando os seres
humanos separados se comunicam entre si, como duas margens por intermé­
dio de uma ponte, a qual, nessa imagem excessivamente estática para meu gos­
to, seria a linguagem, no sentido lato do termo. A linguagem é a comunicação
codificada por afetos, que invoca, desperta o sujeito no outro , através de repre­
sentantes de emoções, visuais e tácteis, de emoções feitas de atenção e interesse
recíprocos, conduzindo ao prazer da intercomunicação de coração a coração, in­
teligência a inteligência, entre a criança e seu primeiro outro - a mãe -, e
conduzindo à vontade estimulada de imitar (aprender) tudo aquilo de que a cri­
ança é testemunha: a maneira de sua mãe comunicar-se lingüisticamente com
o outro dela, seu cônjuge , e com os outros outros de seus pais, os de sua fratria
e os familiares.
Quando , fora dos momentos em que as necessidades vitais da criança exi­
gem que a mãe cuide de seu corpo, o adulto não presta atenção a ela, quando
não a desperta para a vida de relação psíquica e emocional, quando jamais brin­
ca com ela e não lhe dá objetos que nomeie e dos quais fale, iniciando-a na ma­
nipulação deles, engastando em palavras sua cor, seu cheiro, sua textura e sua
forma; quando o adulto é indiferente , ou quando está constantemente alme­
jando , através de repreensões breves, impor silêncio a um bebê que se aborrece
e que gostaria de se comunicar com ele, ou quando lhe dá imediatamente e sem
palavras uma satisfação corporal, esse adulto perverte os caminhos do desejo na
cnança.

250
NO JOGO DO DESEJO, DADOS . .

A ausência d e uma comunicação alegre da mãe a seu filho, que demonstra


o prazer cúmplice entre os momentos de satisfação das necessidades do corpo; ou
então, um gozo constantemente concedido às demandas da criança por uma mãe
totalmente dependente: eis aí dois estilos de maternalização igualmente nocivos.
Eles não despertam a criança para a idéia de que ela existe como sujeito de seu
desejo e se desenvolve através da linguagem e das trocas lúdicas, até chegar à cria­
tividade, que, pouco a pouco, irá torná-la inteligente, sensível e autônoma, capaz
de se interessar por tudo o que a cerca e de se comunicar com os outros, adultos
e crianças de seu ambiente. Um desejo que nunca encontra resposta senão nos
momentos indispensáveis das necessidades, nos quais é sempre anulado por tuna
satisfação corporal imediata, não é, em si mesmo, nem em sua tensão, nem em
seu gozo, "poético". Em outras palavras, não deixa nenhum traço na memória da
criança e se confunde com a necessidade. Esse desejo não se simboliza como amor
pela mãe. Permanece articulado com o próprio corpo, naquilo que ele tem de or­
ganicamente funcional, em sua acepção vegetativa ou animal. Porque, quando a
inteligência e a sensibilidade sutil, especificamente humanas, não são postas em
jogo nas trocas lingüísticas, o que se prepara é a eclosão de uma debilidade ideati­
va e psicomotora. O desejo, ao contrário, poderá ser poético, se fizer uma abertura para
a inventividade, criadora de mediações variadas e diferenciadas, de modulações
do prazer consigo mesmo, trocado pelo prazer do outro, pedido e concedido, que
é a sublimação do desejo no amor.
O amor, num bebê e numa criança pequena com menos de três anos, e até
depois disso, está sempre referido, à primeira vista, às satisfações do desejo oral
e do desejo anal (embora o desejo genital, no masculino ou no feminino, esteja
sempre latente aí, inconscientemente e nas entrelinhas, desde o nascimento). Eu
lhes disse a razão de usarmos esses termos em psicanálise: é que as zonas eróge­
nas sutis, onde se percebem as referências olfativas, gustativas, auditivas, visuais
e tácteis que irão reger a comunicação lingüística, são descobertas pela criança
e repetidamente mantidas, no prazer do corpo, por ocasião das satisfações subs­
tanciais das necessidades que o adulto cuidador lhe proporciona. A boca, as na­
rinas, os ouvidos e a cavidade associada aos olhos, todos situados na esfera ce­
fálica, constituem a zona erógena cutâneo-mucosa oral. A zona cutâneo-mucosa
nadegal, uro-excrementícia, contígua à zona genital, constitui a zona erógena
anal. Boca e ânus são lugares de tomada de contato e ruptura de contato, nos
limites do próprio corpo, por ocasião do aplacamento repetitivo das necessidades:
relações de contato e de ruptura com a mãe-seio-da-mãe, com a mãe-mãos-da­
mãe, já que ela está obrigatoriamente ligada às sensações erógenas dessas zonas
de entrada e saída do tubo digestivo, sendo os próprios seios e mãos, por isso

251
NO JOGO DO DESEJO

mesmo, zonas erógenas primárias, cujo funcionamento está ligado à fragmen­


tação do objeto parcial tomado na boca ou rejeitado como resto. É preciso com­
preender que existe, na época dessas etapas de organização oral e anal da criança
desejante, naturalmente dotada de função simbólica, uma estrutura libidinal que
se elabora de maneira potencialmente lingüística. A pré-personalidade da cri­
ança aí se forma e se informa sobre o mundo. É em relação aos pré-objetos parci­
ais - seios, bicos, alimento, mãos, fezes - e ao objeto total que é a mãe, como
grande massa portadora e perceptível à distância, que o pré-sujeito bebê, que
muito cedo aprende seu nome e responde a ele com uma atenção muito parti­
cular, "se etifica" e "se estetiza". Invento propositalmente esses verbos ativos.
Alimento e excremento, ter e fazer, num prazer compartilhado com a mãe nu­
tridora, são modalidades do verbo ser do pré-sujeito, inseparáveis de seu atri­
buto, que é a zona erógena da mãe (e vice-versa), ao mesmo tempo em que causas
do funcionamento do tubo digestivo, lugar de um sensório peristáltico de sen­
tido único - da boca, para ter e tomar, ao ânus, para fazer e dar. A massa cor­
poral é, confusamente, o lugar de percepções e sensações internas, em relação às
percepções e sensações superficiais dos tegumentos; ela é, em seu pólo oral, lu­
gar de olfação do objeto parcial alimentar, de preensão, gustação e deglutição;
depois, lugar de amassamento estomacal e de assimilação, até o fim do trânsito
intestinal, onde a produção e, finalmente, a expulsão do objeto parcial sólido ou
líquido, no pólo anal, suscitam novamente o olfato de maneira específica. Todas
essas sensações internas, ritmadas no início e no fim do processo digestivo pela
presença da mãe, são repetitivas, ao passo que os momentos intermediários en­
tre os cuidados alimentares e de higiene, momentos que a olfação leva a dis­
criminar, conjuntamente ou não com o odor da mãe, são substituídos pelas ten­
sões do desejo de comunicação com o objeto total que é a mãe, cuja presença é
o único consolo. Quando essa presença fala com.ª criança, sem a entrega parcial
de alimento, sem manipulação utilitária e sem cuidados de higiene excremen­
tícia, essa mãe que escuta e que olha se torna, para a criança, um prazer sutil,
alegria da comunicação coração a coração. Ao longo de todos os dias do bebê em
desenvolvimento, as sensações internas etificam-se em "bom-não-bom", que se
simbolizam, graças a uma angústia ou a uma euforia conjuntas com as da mãe,
em "bem-não bem", "fezes bonitas-fezes não bonitas" . . . Todas essas sensàções,
que cercam o clima emocional do viver fora dos processos digestivos em si, es­
tetizam-se em bonito/belo-não bonito/feio, em agradável-desagradável, em com
ela-sozinho. O tempo se investe em: espere, daqui a pouco, logo. O espaço se in­
veste em: presente, não presente, saiu, passear, fora, casa. O espaço é investido
ao se cruzar com o tempo, ritmado pelas idas e vindas da mãe, do pai, pelas

252
NO JOGO DO DESEJO, DADOS ..

refeições, pelas defecações e micções, pelo dia e pela noite. Trata-se de pares ini­
cialmente antinômicos, que, pouco a pouco, vão-se matizando com múltiplas
percepções-satélites, associadas à sonoridade das palavras e aos timbres das vozes
que as pronunciam. O mundo se organiza numa rede de percepções associadas
a presenças e, graças à linguagem, a valores éticos e estéticos.
Os senhores estão vendo como o estágio oral é um estágio lingüístico e
humanizante, desde antes da atividade motora; um estágio que torna pos­
síveis, em segurança ou não, conforme as modalidades de maternalização de
cada mãe, as manifestações do desejo da criança. Quando, graças a seu de­
senvolvimento neurológico, o bebê consegue utilizar as mãos, elas funcionam
como um substituto da boca preênsil e de seu esfíncter, soltando e rejeitan­
do os objetos quando os tem a sua disposição, enquanto sua inteligência e sua
sensibilidade, colocando-se a serviço do tato, assimilam as percepções da rea­
lidade preênsil. Todas essas experiências são "captadas" na estrutura ética e
estética anteriormente inaugurada através das palavras, que, vindas do adul­
to e guardadas na memória, engastam em palavras, mímicas e gestos signi­
ficativos os objetos preferenciais do bebê e suas diversas atividades lúdicas,
solitárias ou partilhadas com outrem.

Portanto, são as atividades passivas e ativas da criança, combinadas com as


percepções emocionais que emanam da mãe, que originam a linguagem nos es­
tágios arcaicos do desejo, na oralidade e na analidade: épocas de assimilação da
linguagem, e eu diria até de carnalização da linguagem das emoções, em relação
com as percepções do ambiente e com as sensações da vida e do funcionamento
corporal, no clima materno e familiar. Alguns bebês, algumas crianças con­
seguem sobreviver na ausência de trocas lingüísticas fora dos momentos de cuida­
dos, alimentação e higiene; outras, porém, cujo desejo de relação é mais preg­
nante, não suportam o modus vivendi que lhes é imposto, a solidão demasiada­
mente grande em que são confinadas; outras, ainda, não suportam a angústia ou
a perturbação rítmica que determinada babá ou mãe as faz sofrer, e tanto umas
quanto as outras manifestam isso através de distúrbios somáticos. Além disso,
há crianças que parecem acostumar-se com tudo e que suportam, sem manifes­
tações aparentes, a ausência de trocas simbólicas para seu desejo e a passividade
solitária a que ficam reduzidas. Elas têm uma expressão estereotipada, ficando
sérias diante de tudo, ou sorrindo para tudo, ou mais ou menos choraminguen­
tas, sem que ninguém lhes preste atenção. Aparentemente, são bebês e crianças
sadios, que comem, digerem, produzem bonitas fezes e dormem, indiferentes ao
mundo exterior. Vivem já não manifestando desejo, comem qualquer coisa e não

253
NO JOGO DO DESEJO

incomodam ninguém. Não têm nem a vigilância do desejo, nem atenção para
os rostos ou as percepções novas que sejam promissores do ter ou do fazer com
outrem. A ausência de resposta, que elas aceitaram prontamente, bem como a
ausência de modulação de seu prazer, trouxeram um triste fruto. Não ver e não
escutar o outro; não articular seu desejo com esse outro, que, simetricamente,
não deseja ver nem ouvir a criança, nem tampouco brincar com ela; ficar isola­
da no berço e não ser carregada no colo do adulto que passa, quando, levando o
bebê a passear, o adulto o iniciaria no espaço: todas essas faltas de um desejo do
outro, cruzado com o seu desejo, estruturam um sentimento de abandono, que
se torna, caso a criança o tolere sem manifestações de perturbação somática, um
modus vivendi de enfado latente, em que ela se sente em segurança. Essa segu­
rança, que é indispensável à sobrevivência do ser vivo, e mais ainda do ser hu­
mano, torna-se, para esse bebê, sinônima de seu berço, de sua caixa de bonecas
ou de sua cela carcerária, ritmada por suas vísceras, de sensações a que só ele pres­
ta atenção, pois elas condicionam (lingüisticamente, para o bebê, reduzido que
está a seu corpo) o retorno das refeições e a troca agradável das fraldas. Sua vida
simbólica permanece larvar, expressa em suas relações com o outro pela boca e
pelo ânus, reduzida a suas necessidades, sendo as trocas emocionais reduzidas ao
mínimo. Quando, mais tarde, advém sua maturação neurológica e muscular, que
ele só utilizará tardiamente, tudo lhe é motivo de angústia: de devoração, de cair
num buraco, de despedaçamento; qualquer movimento do outro ou dele próprio
implica o risco de feri-lo em sua segurança existencial. Nós o chamamos de re­
tardado; na realidade, ele desenvolve em surdina uma neurose fóbica, ou pior,
uma psicose, que alerta tardiamente os adultos, surpresos por verem uma cri­
ança que fora "tranqüila" por tanto tempo mostrar-se "inadaptada" à vida em
sociedade, à linguagem, ou mesmo a qualquer atividade corporal ou manual
lúdica, e sobretudo incapaz de se relacionar com os outros. Para esse tipo de cri­
anças, inventou-se, a fim de segregá-las, o conceito de "infância desajustada".
Dizem que elas nascem assim, que nasce uma criança desajustada a cada vinte
minutos. Isso é mentira. A não ser pelos raros mutilados neurológicos de nascença,
a maioria delas tornou-se desajustada à sociedade por causa da ausência de me­
diações simbólicas de seu desejo durante a primeira infância. Nos bebês que só
conhecem uma pessoa, a mãe, e que têm boas relações com ela, a ausência ma­
terna prolongada, seja qual for sua razão, a perda dessa pessoa única e do único
lugar conhecido com ela - a casa -, faz com que o fato de serem cuidados por
outra pessoa leve esses bebês a perderem toda a sua segurança existencial e as fa­
culdades relacionais já adquiridas. A mãe, único objeto conhecido com que eles
se relacionavam, lingüística e existencialmente, parece ir embora junto com a

254
NO JOGO DO DESEJO, DADOS . .

humanização deles, levando consigo uma parte da imagem d o corpo das


crianças: talvez a boca, o ânus ou o tubo digestivo - em suma, os lugares de
mediação do desejo. Quando o desaparecimento da mãe é demasiadamente pro­
longado, a criança não a reconhece quando ela volta e pode até sentir medo de­
la, o que, por sua vez, a traumatiza. Suas relações, com o tempo, podem resta­
belecer-se, mas, no psiquismo da criança, persistem para sempre os vestígios
desse .trauma, vestígios que depois a tornam hipersensível a qualquer ausência,
mesmo mínima, de todos os seus objetos de amor. Quantos bebês e crianças pe­
quenas são assim gravemente traumatizados pelas permanências em hospitais
e pelas trocas de babás!
Qualquer ruptura temporal no que concerne às pessoas amadas, qualquer
ruptura espacial com respeito aos lugares de segurança conhecidos desde o nasci­
mento, mas sobretudo entre os três meses e a idade da aquisição deliberada e
confirmada da marcha, é uma ruptura do sensório tranqüilizador, que é fundante
para o narcisismo. Para o sensório mínimo da criança, tempo e espaço simbolizam
sua existência coesa de indivíduo anônimo, fisicamente sadio, e de sujeito sim­
bólico nas trocas lingüísticas. A criança se escora nesse espaço-tempo, huma­
nizado pelo vínculo de convivência que harmoniza seu desejo com a presença
conhecida; e o trauma, diferente conforme cada criança, é descriador, seja de sua
saúde, seja de seu psiquismo, seja ainda de sua coesão dinamicamente articula­
da. Quando há psicose, a saúde física da criança é quase sempre perfeita. Quando
há neurose, corpo e psiquismo são mais ou menos alterados em seu funciona­
mento ou em sua potencialidade.
Quantos pediatras e pais são insensíveis à ausência de vida simbólica e
lingüística dos bebês, que são tratados como pacotes desprovidos do entendi­
mento das palavras! E como há crianças pequenas a quem não se explicam as
razões que impõem este ou aquele sofrimento psíquico que elas sentem, e que
não é possível evitar! Assim, em virtude das experiências fatais da vida (mu­
danças de ama-de-leite, internações hospitalares), ao não falar com a criança so­
bre elas, ou até ao enganá-la com palavras mentirosas, deixamos que se orga­
nizem, num pré-sujeito cujo desejo está desamparado e sem mediações, pro­
cessos descriadores, que eclodem, muito mais tarde, em distúrbios de adaptação
que teriam sido evitáveis.
Algumas mães atentas inquietam-se, com justa razão; responde-se a elas:
"Ele está comendo, bebendo, dormindo? O que mais a senhora quer? Ele está
nervoso? Dê-lhe calmantes! Ele não quer comer? Force-o. Fique zangada". E
por que não? Quando um relógio não anda, nós o sacudimos - só que isso rara­
mente é o bastante. Pelo menos, para uma criança que está traduzindo o mal-

255
NO JOGO DO DESEJO

estar de viver, isso não basta. É preciso que ela tenha compreensão e palavras
verdadeiras, ditas a sua pessoa, caso ela não fale, e trocadas com ela, se falar:
palavras concernentes ao sentido de seu sofrimento. O acesso à simbolização de
seu desejo é então possibilitado, para além de uma experiência nomeada e re­
conhecida, na segurança redescoberta da criatividade lingüística compartilha­
da com o outro. É preciso que seu desejo possa encontrar o caminho da comu­
nicação, possa realizar-se ao se exprimir a um outro que esteja atento à pessoa
da criança.

Foram as descobertas recentes da psicanálise que permitiram estudar a vi­


da simbólica do desejo no lactente e na criança pequena, inteiramente submeti­
dos como estão às relações com a mãe, com o cônjuge dela e com seus substitu­
tos tutelares, assim como ao espaço de vida que essas pessoas lhes garantem. Essa
época arcaica da vida dos adultos, na qual Freud viu a origem dos distúrbios
neuróticos, pode agora ser estudada pela observação no próprio momento em
que é vivida, tanto nos bebês como na criança mais velha. Quando uma criança
apresenta distúrbios, encontramos em sua primeira infância ainda próxima, se
pudermos conhecer sua história, os momentos determinantes dos fracassos da
simbolização do desejo ou dos traumas emocionais precoces dos quais a angús­
tia é o único testemunho. Essa época infantil do ser humano revela ser aquela
em que se enraízam a saúde, a inteligência e a sensibilidade potenciais, junta­
mente com o esboço arcaico das modalidades do desejo e com as armadilhas em
que este esbarra: desde os estágios oral e anal, já lingüísticos e já morais, por
concernirem ao ser, ao ter e ao fazer.
Esse homem ou mulher em devir que é toda criança encontra, no que con­
cerne à genitalidade, um primeiro estatuto de valor moral e social por volta dos
três anos, com o conhecimento claro de sua genitália e do desejo pelo qual suas
pulsões concentram nela o interesse e a busca do prazer: as palavras dos adul­
tos, respondendo a esse interesse, humanizam esse desejo nos seres humanos
dos dois sexos. É então que a criança ingressa na fase edipiana.

É indispensável que eu lhes fale sobre o termo castração, tal como é em­
pregado em psicanálise. Na linguagem não-psicanalítica, ele significa uma mu­
tilação das glândulas sexuais que acarreta a esterilidade física. Em psicanálise, o
termo significa uma proibição do desejo em relação a certas modalidades de obtenção do
prazer, proibição esta que tem um efeito harmonizante e promovedor, tanto do desejante,
assim integrado na lei que o humaniza, quanto do desejo, ao qual essa proibição abre
caminho para gozos maiores. Ora, uma vez que o desejo, como os senhores hão de

256
I\J O JOGO DO DESEJO. DADOS.

ter compreendido, existe desde a origem, mas concentra-se nas zonas erógenas
orais e anais do corpo, falamos, em psicanálise, em castrações oral e anal. Que
queremos dizer? Não se trata de mutilações, mas sim, no tocante a certas modali­
dades de realização do desejo, de proibições de efeito "simboligênico", palavra
que não está no dicionário, mas deveria estar. Essas proibições visam ao que se­
ria prejudicial, a curto ou a longo prazo, para o sujeito ou para os outros. Todo
ser humano é inconscientemente movido pelo desejo de crescer e vir a ser. "Aí
onde estás, quero chegar": esse é seu modo inconsciente de se relacionar com o
adulto. Sim, responde a realidade, representada pelos pais educadores, mas des­
de que abras mão do prazer com que te comprazes, para descobrires o prazer que
está reservado àquele que serás e de quem eu, teu pai ou tua mãe, sou a garan­
tia; e podes aceder a isso renunciando a tua segurança atual, essa que deves ao
prazer conhecido. O desejo, portanto, enquanto humanizante, comporta sempre
o risco como condição de acesso; é um jogo no qual quem perde, ganha, parece
afirmar o educador. Infelizmente, algumas vezes, aquele que perde não ganha,
ou então, quem ganha fica fora do jogo, privado de parceiro. Ora, a vida exige
que a troca continue, que o jogo conserve sua graça e que o jogador preserve o
gosto de jogar e a esperança de ganhar: que o jogador conserve o poder da apos­
ta e, se ganhar, que esse ganho não o isole do jogo, que ele possa novamente ar­
riscar seu ter por um novo vir-a-ser mais promissor.
Existem numerosas restrições ao desejo no ser humano civilizado. As res­
trições variam segundo as formas de educação. Mas, em todo os seres humanos,
há momentos de transformação no que concerne às modalidades do desejo: é a is­
so que, em psicanálise, chamamos castrações. Ocorrendo no momento oportuno
do desenvolvimento, seu efeito suscita a eclosão das sublimações do desejo.
O nascimento pode ser considerado como a primeira castração. Há uma
cesura do cordão umbilical. Há uma separação irreversível primária entre o fe­
to e seus envoltórios placentários. No seio da mãe, o desejo - já presente -
encontra satisfações suficientes para continuar a viver. Após a revolução do nasci­
mento, o desejo do feto se transmuda em desejo do lactente pelo seio. Ele pas­
sa por tudo o que já descrevi com respeito ao estágio oral: inicialmente passi­
vo e depois ativo, a partir da mordida voluntária; e pelo estágio anal passivo e
depois ativo, na medida do desenvolvimento neurológico do esquema corporal
e da motricidade. Até o desmame, o desejo da criança, inicialmente confundi­
do com suas necessidades, discrimina-se mais ou menos delas, conforme a qua­
lidade das relações com a mãe, como lhes mostrei.
O desmame é a castração oral, e é simboligênico quando o lactente, para
quem o desejo do seio da mãe fica então rigorosamente proibido, desenvolve-

257
NO JOGO DO DESEJO

se ainda melhor em termos físicos, por um lado, graças a sua nova alimentação,
e por outro, já possui muitos elementos sutis e lingüísticos de gozo no inter­
câmbio com a mãe. A partir daí, essa proibição do corpo a corpo traz um fruto
simbólico, e a relação ainda melhor com sua imagem adulta, representada pela
mãe aos olhos da criança, suscita a elaboração de uma verdadeira linguagem
codificada com ela e humaniza as trocas emocionais entre as duas. Ao contrário,
o desmame é traumatizante para o desejo quando a eliminação desse corpo a
corpo rompe as relações de linguagem e o prazer da comunicação com a mãe,
visados pelas pulsões desejantes da criança. E isso porque, para que essas pul­
sões possam sublimar-se, é necessário que essa proibição de coaptação da zona
oral com o objeto parcial materno permita ao desejo, fixado na zona oral, uma
relação de linguagem acompanhada de prazer, que equivale a um avanço cada
vez maior. A criança se descobre desejante num corpo separado do corpo da
mãe, com a qual a comunicação é a mola de sua vida e o atrativo de seu ser, que
se autonomiza dela; nenhuma parte da mãe lhe pertence mais, porém a criança
pode apreendê-la em sua totalidade emocionante: a fala se organiza.
A castração anal é a separação da mãe no que tange à dependência das ne­
cessidades excrementícias e, depois, é o fim do corpo-a-corpo ligado à as­
sistência manual materna em tudo o que concerne ao vestir, à higiene, à
manutenção do corpo e à satisfação tanto das necessidades quanto dos prazeres
corporais. A sublimação do desejo anal daí decorrente é o fazer industrioso e
lúdico, lingüístico e cultural - prazer compartilhado tanto com a mãe quan­
to com os outros. A castração anal passa por um momento nodal que Lacan foi
o primeiro a evidenciar: é a experiência do espelho. Com efeito, até ter-se visto
no espelho e estar consciente de que a imagem escópica é exatamente a que ela
dá a ver, com os limites visíveis e palpáveis de seu próprio corpo, tal como ali
refletido, a criança ignora que tem essa aparência e esse rosto. É engraçado, mas
é verdade: ela se sentia um rosto mimético daquele com que seu desejo esta­
va harmonizado; quanto a seu corpo, sentia-o também mimético daquele com
que desejava identificar-se. Os espelhos são as armadilhas do desejo da criança, e
talvez de toda a nossa vida de civilizados, pois obrigam a criança, nas primeiras
vezes em que os descobre, a conhecer o aspecto que ela exibe: o de um pequeno
estranho, desconhecido dela, surgido magicamente em seu campo visual, e
com quem ela não pode se relacionar. Quando a criança se deixa apanhar pela
armadilha de sua aparência no espelho, pode ficar fascinada com essa descoberta
e, sobretudo quando é desprovida de companheiros de sua idade, absorver-se
na contemplação de sua imagem, como engodo da presença de um outro. O
perigo menor do espelho é, além de suscitar na criança caretas que a divertem

258
NO JOGO DO DESEJO, DADOS . .

ou amedrontam, incitá-la, pela auto-sedução, a descobrir o truque mentiroso


das mímicas faciais voluntárias . Ela pode esforçar-se por representar, como um
ator, as expressões que exibe para ocultar o que deseja, a fim de manipular o
outro, em vez de permanecer autêntica naquilo que sente e exprimi-lo. Assim,
seu desejo pode alienar-se num mascaramento para o outro (ou para ela própria,
que, no espelho, faz-se testemunha de suas atitudes, de suas mímicas aparentes),
em detrimento daquilo que ela sente e experimenta autenticamente no con­
tàto com outrem. Essa mistificação do desejo pelas pulsões escópicas , trans­
formadas em fonte de gozo pela auto-admiração ou pela autocrítica da aparên­
cia que exibimos, desempenha um grande papel em nossa sociedade e aliena
nosso narcisismo, submetendo à primazia de valores aparentes "normali­
z;i.dores" aquilo que nós mesmos, ou o outro a nosso lado , experimentamos e
sentimos : Quer essa aparência, destinada a manipular os outros, diga respeito
à classe social ou ao papel, uma vez transformada em valor social, ela bloqueia
em muitas pessoas a originalidade autêntica da sensibilidade e a espontanei­
dade de seu estilo reativo e do desvelamento de seu desejo, de modo que elas
se tornam incapazes de se comunicar e se relacionar com o desejo do outro : os
valores das mascaradas espetaculares - embora se trate de máscaras - trans­
formam-se em seu meio de se fazerem aceitas na sociedade . Mas, voltemos à
criança. A experiência do espelho, quando superada por ela sem cair na ar­
madilha, funciona como uma castração simboligênica, pois separa a criança de
sua ilusão de ser co-corporal com a mãe ou com qualquer outro objeto deseja­
do, a ponto de se confundir com eles. Ela lhe confere sua identidade, pela
perenidade de seu rosto imutável. É a primeira clivagem entre a realidade e o
imaginário, o possível e o impossível; haverá muitas outras, mas esta é a
primeira que afeta sua pessoa, ao lhe revelar sua aparência individualizada no
espaço, sob a forma de uma criança.
A experiência do espelho, nos casos em que a criança supera a surpresa
de não encontrar ali outra criança viva e de descobrir qual é a aparência de sua
pessoa para o outro, permite-lhe adquirir uma autonomia até então impossí­
vel, pois ela se descobre em sua totalidade integral, mesmo na ausência de
qualquer companhia . A criança se descobre dissociável da ajudante necessária,
que até então lhe era indispensável para ter um sentimento de completude .
Esse efeito promovedor e libertário só pode advir quando a mãe, por seu lado,
suporta a autonomia da criança em relação e ela e, com suas palavras, não dá
mais valor à aparência (à imagem da pessoa da criança, tal como esta a pôde
observar no espelho) do que à pessoa da criança, nas situações de relação com
ela e com os outros.

259
NO JOGO DO DESEJO

Preparada pelo testemunho de seu corpo, tal como lhe foi dado pelo es­
pelho, e tendo-se tornado atenta aos valores éticos e estéticos traduzidos na lin­
guagem - valores que questionam todas as modalidades de suas percepções,
de seu ser, de seu ter e de seu fazer, modalidades estas que, de globais que
eram em sua tenra idade, são agora buscadas na observação dos detalhes -, a
criança, aos três anos, apercebe-se da diferença sexual, diferença que a princí­
pio não percebe como tal. Ela a toma por uma diferença funcional urinária. As
meninas e meninos, para a criança, caracterizam-se por sua maneira diferente
de fazer xixi. Mas há também, em virtude de valores antinômicos com que ela
se habituou desde a infância, a questão do belo, do bem, do porquê e do "para
que serve isso": questão concernente à forma de sua genitália, por ela haver ob­
servado uma forma diferente em outras crianças. Para o menino, � claro, o pê�
nis é seu trunfo no jogo do desejo, pois ele descobriu o prazer que lhe oferece a
masturbação. Para ele, as meninas não têm "nada". Para as meninas, que com
razão se acreditam perfeitamente inteiras e bem constituídas, a descoberta do
pênis nos meninos parece uma desvantagem, e elas se perguntam por quê. Graças
a essa castração imaginária, as meninas, quer formulem ou não a outrem a
questão do porquê de sua falta, logo se tornam mais sagazes e curiosas do que
os meninos; e procuram compensar essa beleza menor com o coquetismo de suas
roupas e a sedução de seus gestos, já que falta sedução em seu sexo, pelo menos
em sua opinião de inocentes. Elas desenvolvem as potencialidades do desejo
feminino, que é ainda ignorado, sobre todos os valores estéticos do rosto e de
um belo comportamento gestual. Já os meninos, temendo uma privação má­
gica ou uma mutilação eventual, à semelhança da que vêem nas meninas,
atribuem a estas um valor menor: elas não são bonitas; e, por mais que ouçam
seu julgamento ser desmentido, eles se angustiam, temendo que um desa­
parecimento e mutilação peniana similares lhes advenham, seja em nome da
beleza, valor que eles desejam preservar e conquistar ainda mais, porém não ao
preço de perderem o pênis, seja em nome de um desfavorecimento ou de uma
punição que supõem que as meninas tenham sofrido.
Essas crianças vivem o que chamamos, em psicanálise, castração primária,
que é apenas imaginária. Essa castração primária, conquanto imaginária (pois na­
da lhes falta: trata-se, exatamente, de uma descoberta da realidade), será uma
alavanca para seu desenvolvimento simbólico, ou, ao contrário, um freio, con­
forme o adulto lhes diga ou não palavras verdadeiras sobre a existência e o· pa­
pel da diferença sexual. São necessários a cada criança, por volta dos três anos, o
conhecimento claro de sua genitália e a justificação, através de palavras, dos
efeitos sensíveis das emoções que ela discerne ali: emoções que dão valor ao ser

260
NO JOGO DO DESEJO, DADOS..

humano, quando ele é educado para dominá-las e servir-se delas de acordo com
a lei dos indivíduos de seu sexo. A visão que a criança tem de si e dos outros
pode ser falseada ou não, conforme as palavras dos adultos, pela descoberta de
sua genitália, do desejo e do prazer que para ali atraem seu interesse e sua ob­
servação, tanto a respeito dela mesma quanto dos outros. Por mais que a criança
ainda esteja próxima dos interesses lúdicos concernentes a suas necessidades ex­
crementícias e às trocas emocionais com o adulto sobre a aquisição do controle
delas, vista como um valor promovedor, ela corre o risco de englobar tudo o que
diz respeito à região sexual genital como fazendo parte daquilo que havia apreen­
dido, na educação esfincteriana, corno sujeira, desvalorizada diante do outro. É
por isso que o conhecimento claro, comunicado através de palavras verdadeiras,
da diferença sexual e de seu próprio destino futuro, nci papel de homem ou mu­
lher complementarmente genitores no seio da sociedade, faz-se então indispen­
sável a seu entendimento. Na falta dessas palavras, os efeitos sensíveis que a cri­
ança percebe na região sexual genital lhe parecem estranhos, e o prazer que ela
discerne ali, bem como a compreensão de que deseja tê-lo, parecem-lhe uma
emoção degradante, que pode ligar a sexualidade genital à vergonha pela vida
afora, em vez de iniciar a criança no sentido daquilo que ela será, uma vez chega­
da a maturidade, como pessoa convocada a dar a vida, tal como esta lhe foi da­
da: pelo genitor que era portador do mesmo sexo que ela, graças ao encontro
com o genitor de sexo complementar por ele escolhido.
Para sair da armadilha de seu desejo, os meninos precisam de palavras tran­
qüilizadoras vindas do pai; e, sobretudo, de palavras que lhes expliquem as ereções
que começam a lhes causar problemas. Com efeito, existe uma antinomia entre
a volúpia sentida em relação ao sexo e ao funcionamento urinário a que os meni­
nos o supõem exclusivamente destinado. Até os 25 ou 30 meses, os meninos uri­
nam em ereção ou não, e eis que, de repente, a emissão da urina em ereção tor­
na-se impossível. Essa frustração é ainda mais inquietante quando as mães, ven­
do o menino tocar seu sexo, qualquer que seja a razão disso, aconselham-no a ir
fazer xixi - justamente o que não lhe é possível. Assim, por seu passado, o sexo
masculino é confusamente coordenado, no imaginário, com o jato apaziguador
das tensões urinárias, mas também o é numa intuição confusa do futuro esper­
mático. Sem explicações claras sobre a genitalidade, a validade do desejo e aqui­
lo (eis aí o "para que serve isso") que é o destino da paternidade (em outras
palavras, ele deve ser instruído sobre as premissas de fertilidade contidas em seus
testículos), o menino mistura todas as suas idéias e fica marcado pela angústia.
A enurese, muito freqüente nos meninos e rara nas meninas, é um dos sintomas
do recalcamento inconsciente do desejo na vida diurna do menino, que, por es-

261
NO JOGO DO DESEJO

tar esse desejo preso numa armadilha, não consegue entrar verdadeiramente no
orgulho narcisizante e tranqüilizador de seu sexo, com seu valor estético e eróti­
co indubitável - a exemplo, em particular, do modelo conhecido que é, para
ele, seu pai ou o companheiro escolhido do desejo da mãe -, o que o conduziria,
dois ou três anos depois, ao complexo de Édipo e à castração secundária ou edipia­
na, nascimento humanizante de seu desejo genital em sociedade, que é a lei da proibição
do incesto. Antes disso, o menino descobre, quando se interessa pelas coisas do
sexo, que são as mulheres que "fazem os bebês", como dizem as crianças. Saber
que sua irmã e as meninas têm-lhes prometida essa prerrogativa é, para todos os
meninos, o momento da castração primária genital efetiva, imaginária, porém
verdadeiramente desvalorizadora, ao passo que a eventualidade da mutilação pe­
niana era apenas fantasmática . Como? ! Então as meninas e as mulheres são as
únicas que podem produzir esses cocôs mágicos que são os bebês ? Isso é repug­
nante e maravilhoso ! E depois, ele terá que descobrir que sua mãe , sua rainha,
sua deusa, não é uma exceção entre as mulheres: menina como as outras, torna­
da adulta, ela não tem pênis ! E ele que achava que mamãe tinha três ! É que, em
sua cabecinha, quando fica entregue a suas reflexões sobre as coisas da vida, ele
crê que os seios são pênis especiais: as vacas não têm quatro ?
Quanto às meninas que já superaram a desvantagem de não ter o triunfo
peniano, elas aprendem pela observação que as mães ficam com a barriga grande
antes de ter um bebê e que, em seguida, dão-lhe de mamar . Perguntam se serão
como as mamães , mais tarde, e recebem uma resposta tranqüilizadora . Quando
as meninas não recebem esclarecimentos sobre a realidade anatômica de seu
sexo, sobre um desejo e uma genitalidade cuja fecundidade não é uma questão
de tubo digestivo nem de partenogênese (e mesmo quando essa explicação é da ­
da, ou quando fica entregue a sua imaginação), quanta mais-valia é atribuída à
potência fálica de elas se tornarem mamães de bebês, de bebês que serão ape­
nas seus ! Quanta mais-valia imaginária é conferida, na falta do pênis , a essa
função de parturição futura, por elas concebida como oral e anal! "Somos nós
que fazemos os bebês, pronto, e os meninos, os papais, trabalham; nós é que so­
mos as mamães" (pois esposa e mãe se confundem , sobretudo nas famílias em
que os pais se tratam pelos vocábulos papai e mamãe), e "os bebês são nossos".
Muitas mulheres adultas nunca saíram dessa valorização funcional de parido­
ras da genitura e, a rigor, nunca saíram tampouco da homossexualidade de seu
desejo, que, na idade adulta, continua fixado na mãe , ou da heterossexualidade
do desejo fixado no pai. Essas mulheres são as antigas meninas que per­
maneceram num desconhecimento prolongado do valor do sexo, na ambigüi­
dade do desejo oral e anal e da necessidade de conceber filhos que se junta a is-

262
NO JOGO DO DESEJO, DADOS . .

so, confundida com a dependência da mulher em relação ao homem, para "ter"


filhos segundo a lei e "poder" assumi-los pecuniariamente. Tendo ficado sem
iniciação no que constitui a existência e o valor do desejo feminino e de seu
domínio, elas não foram iniciadas na lei da proibição do incesto, de um inces­
to que desejaram sem saber e que é vivido por toda a sua vida, de maneira ca­
muflada, ambígua, bajuladora, amorosa ou agressiva, decepcionada com o pai
-. o qual, por sua vez, através de uma reciprocidade consentida, amorosa ou
hostil, fixa-se na filha cuja ilusão se absteve de desfazer -, a não ser quando é
da mãe que essas mulheres continuam dependentes, de um modo ambivalente
e infantil. Seu desejo genital, às vezes em suas primeiras manifestações de cu­
riosidade, deparou com a proibição do prazer masturbatório; noutros casos, nem
isso. Elas são, no que concerne ao desejo, mudas e surdas para seu sexo, e frígi­
das com os homens no plano do erotismo genital.
Os senhores estão vendo a que ponto os dados são viciados e viciáveis ao lon­
go de toda a infância, o que terá conseqüências na adolescência e, mais ainda, na
idade adulta, na maternidade e na paternidade. Quanto às cartas, já existe no
Édipo o falso valor do trunfo imaginário que é o pênis uretral para o menino, cu­
jo gozo do funcionamento emissivo, que ele descobre ser espermático na puber­
dade, pode desconhecer para sempre o caráter eletivo da relação amorosa, sim­
bolizado na escolha de uma parceira. Há também o falso valor do trunfo imagi­
nário que é a fecundidade digestiva, para a menina, que, gozando com sua potên­
cia materna, pode desconhecer pela vida afora o desejo e o orgasmo nas relações
amorosas. E há ainda, para as meninas, a possibilidade de elas levarem uma vida
social adaptada ao trabalho e fecunda, mas imatura e irresponsável, por terem
guardado o baralho da infância, no qual os reis e rainhas conservaram as feições
de seus pais. Elas são mães abusivas ou negligentes, incapazes de orientar seus fi­
lhos para a aquisição de um desejo autônomo e responsável. São mulheres frustradas
e frustrantes. Quando os meninos permanecem fixados no valor narcísico uretral
que o pênis tem para eles, transferindo sua exibição narcísica para um talento ou
para as armas, eles podem, guardando o baralho da infância, sobretudo quando o
pai não é objeto do desejo da mãe, conservar o lugar preferencial no amor dessa
mãe, de quem continuam dependentes, e exercer sua sexualidade genital em de­
sejos homossexuais -desejos às vezes mais ou menos camuflados para a sociedade,
em que o homem toma para si uma mulher utilitária, escrava e parturiente de
uma prole advinda de coitos sem amor; infelizmente para seus filhos, esses ho­
mens são genitores sem ser pais simbólicos. Rivais dos filhos que crescem, eles
desencorajam nestes os desejos de valorização pessoal na sociedade, têm ciúmes
de seu sucesso e culpabilizam o desejo que os impele a assumirem sua própria

263
NO JOGO DO DESEJO

responsabilidade, desligando-se de uma tutela esmagadora, cautelosamente am­


bígua ou agressivamente desdenhosa em relação ao adolescente.
Admitamos que as crianças tenham sido informadas a tempo do valor com­
plementar, no desejo e no amor, do sexo masculino e do sexo feminino, por pais
que assumem seu desejo, se amam e se estimam; as crianças de ambos os sexos
são então confrontadas com o conflito edipiano. Mas saibam os senhores que, para
isso, é preciso que os outros dois pólos edipianos que compõem, para cada cri­
ança, a triangulação estruturante de seu desejo, sejam ocupados, um deles, por
uma mãe que deseje os homens e, em particular, o pai da criança (e que pelo
menos não desvalorize esse homem, caso, tendo-o desejado, tenha mudad.o de
parceiro), e o outro, por um pai que, na rivalidade maliciosa de suas filhas com
sua mulher, nunca as deixe supor que, para ele, elas são mais sedutoras que a
mãe. A proibição do incesto entre filhos e pais e entre as meninas e meninos de
uma fratria é sempre expressa, de maneira mais ou menos explícita, às crianças
de todas as sociedades. Ela é sempre expressa sem contradição comportamen­
tal quando os pais, por sua vez, castraram efetivamente seu desejo incestuoso
homo ou heterossexual, tanto em relação a seus próprios genitores quanto a seus
filhos. As crianças são observadores agudos e, acima de tudo, tentam evitar a
dor de ter que renunciar totalmente ao prazer suscitado, ao longo de toda a sua
infância, pela promoção de seu desejo, na imaginação e na esperança de con­
quistar a condição de adultos, para viver maritalmente com o genitor de sexo
complementar e ter filhos com ele. Esse projeto de todas as crianças é a alavanca
de seu desenvolvimento. Ora, eis que essas primeiras pessoas, tão amadas e tão
desejadas, lhes são proibidas, quando lhes advém o conhecimento claro da se­
xualidade genital. Quando elas chegam à idade de se mostrar e se sentir "uma
pessoinha", como costumam dizer, eis que têm que admitir, no caso do meni­
no, que mamãe nunca será sua mulher e que ele jamais será pai dos filhos dela!
Isso não é verdade! Não é justo! E papai não se casará com a filha, por mais que
toda menina espere isso e por mais que faça para seduzi-lo e agradá-lo; ele não
sente desejo por sua filha e não será papai de seus bebês, como a menina ima­
ginou que seria de suas bonecas! Isso não é justo! Não é verdade! É essa a angús­
tia de castração em que esbarra o desejo das crianças de cinco a sete anos, quan­
do, aos três anos, elas ingressaram no orgulho de seu sexo.
A castração edipiana é uma grande provação e, para aquilatá-la em sua pleni­
tude, é preciso, como eu, ter visto crianças até então sadias definharem ou terem
crises que parecem neuroses aos olhos daqueles que as cercam; com efeito, es­
tas podem deixar uma ferida narcísica por toda a vida, caso não haja palavras
claras sobre a lei universal que rege a sexualidade em sociedade e que valoriza

264
NO JOGO DO DESEJO, DADOS ..

o desejo e o prazer genital lícito fora da família, palavras que venham, em tem­
po hábil, retirar a criança de sete a nove anos do estado de impotência simbólica
ligado a uma castração não imposta ou mal-integrada, ou até abortada pelas brin­
cadeiras sedutoras carnais em família, geradoras de distúrbios psicológicos e às
vezes somáticos em cadeia.
Bem integrada na consciência clara e até nos devaneios eróticos, a castração
edipiana superada outorga às crianças o direito ao orgulho por sua genitalidade
futura, aquela com que a puberdade lhes comprovará, no corpo, que elas são,
de direito, iguais a seus pais perante a lei social, no que concerne ao desejo e ao
prazer sexuais. A vida imaginária é desbloqueada, a compreensão das coisas da
cultura se amplia e a criança ganha acesso às manifestações de curiosidade sim­
bólica provenientes do desejo incestuoso castrado: a criança em fase de latên­
cia, ou seja, a partir dos sete a oito anos (a idade da razão), carrega os frutos da
sublimação de seu desejo, numa utilização criativa e cultural das pulsões li­
bidinais de todos os estágios. Descobre as amizades extrafamiliares e nutre pe­
los pais um amor prudente e casto, tão mais confiante quanto mais os pais forem
tranqüilizadores e a incentivem em suas dificuldades na sociedade, sem jamais
ferir seu narcisismo, bem como na medida em que ela possa contar, quer seja
menino ou menina, com a discrição do genitor a quem faz confidências em
relação ao outro.
A criança da fase de latência, após a castração edipiana, ou seja, após a renún­
cia ao desejo incestuoso, desenvolve-se tão mais harmoniosamente quanto mais
as variadas perguntas sobre a realidade que ela procura conhecer forem devida­
mente ofertadas a sua curiosidade, pelos pais, pelos professores ou pelos livros,
e quanto mais sua vida imaginária, lúdica e industriosa, assim como suas
afinidades afetivas, forem respeitadas por seus pais. Mas, como os senhores sabem,
as crianças são fáceis de explorar por adultos perversos, que querem arrogar-se
direitos sobre seus corpos, quando não sobre sua consciência. E, no jogo do de­
sejo, chapeuzinho vermelho, seja menino ou menina, pode deparar com lobos.
É por essa razão que as crianças devem ser esclarecidas quanto a seus direitos pe­
rante os adultos que abusam dos delas, sejam eles pais ou professores; devem ser
despertadas desde muito cedo para a consciência da sexualidade perversa dos
adultos, para que se saibam, de acordo com a lei, no direito de não ceder, como
cúmplices traumatizados, a pessoas irresponsáveis, sejam elas seus pais ou pa­
rentes, que sempre aliam a seu comportamento perverso ameaças aterrorizantes
para a criança que falar com algum terceiro.
As brincadeiras sexuais entre crianças e adolescentes de idades próximas,
desde que não sejam irmãos ou irmãs (depois do Édipo), não oferecem nenhum

265
NO JOGO DO DESEJO

perigo físico ou moral para elas, ao contrário do que acreditam os adultos. que
querem inculcar nisso sentimentos de culpa. Ao contrário, as brincadeiras se­
xuais com adultos educadores para quem a criança tenha transferido seu dese­
jo filial, homo ou heterossexual, além de sua estima e sua admiração, revelam­
se tão perturbadoras, sedutoras ou vergonhosas para algumas crianças, que seu
narcisismo pode ficar bloqueado pelo resto da vida, se elas não forem livradas
a tempo dos sentimentos de culpa neuróticos que guardam dessas experiências.
A adolescência é o período em que a atitude ansiosa ou protetora dos pais é mais
perturbadora. Freqüentemente, mais valeria os pais procurarem ser ajudados
do que se inquietarem com os inevitáveis sintomas caracterológicos dos filhos
em relação a eles, quando a adolescência corre bem. A adolescência é como um
parto que não convém retardar. O adolescente experimenta a necessidade ab­
soluta de se desvencilhar da influência e do ambiente familiares, devendo o meio
respeitar sem críticas esse trabalho de desligamento'.
A masturbação solitária ou com os colegas não tem nenhuma importân­
cia nociva posterior, quando não é culpabilizada. É por isso que, já que ela é
sempre culpabilizada pelo próprio sujeito, são os adultos que devem afirmar
sua inocuidade. Ela é um recurso precário, é verdade, mas o erotismo mastur­
batório ou homossexual, na ausência de encontros heterossexuais, é um mal
menor do que a culpa diante da atividade erótica e menor do que o recalca­
mento da atividade sexual. Os senhores sabem, em contrapartida, a que pon­
to os "xodós" dos professores são importunados e, às vezes, segregados pelos
outros; e são obrigados a se defender disso por uma exacerbação de seu narci­
sismo. Quantas ciladas para o desejo!
E nem estou me referindo à cilada da religião, em nome da qual certos
adultos culpabilizam as crianças por seus desejos e seus prazeres, misturando o
misticismo com o incentivo ou a incitação a confundir Deus com um pai
castrador mutilante, não simboligênico, o que desenvolve nessas crianças uma
consciência pesada, baseada na proibição de gozar os prazeres de sua idade, e
pode levar outras crianças ao masoquismo, que esteriliza a espiritualidade in­
cluída no sentimento religioso do adolescente.
Chegada a puberdade, surgem em massa os obstáculos ao desejo que não foram
retirados pela proibição do incesto, liberadora do desejo por todos os objetos não
familiares, especialmente quando pais inábeis se tornam voyeurs das emoções se­
xuais e/ou amorosas dos adolescentes, para implicar com eles ou criticá-los, e quan­
do os rapazes e as moças não são claramente alertados para as questões do sexo, da

3 Qualquer que seja, como num parto, a inevitável inquietação que ele suscite.

266
NO JOGO DO DESEJO, DADOS . . .

procriação, das modalidades da fecundidade e dos modos de evitá-la. Em vez de


vigilância, é de liberdade e desculpabilização por seus erros que o adolescente e a
adolescente precisam, para que seu novo desejo, exposto ao desejo do outro, os leve
a adquirir confiança em si. É de um apoio moral discreto, em seus momentos de
retraimento e provações, que eles precisam. É muito nocivo para o futuro, salvo
raríssimas exceções, que os pais sejam confidentes de seus filhos adolescentes, pois
o rapaz ou a moça poderiam recair numa regressão infantilizante. Os jovens têm
necessidade de conversar com outros, e todas as facilidades para que participem
com eles de atividades lúdicas, esportivas, culturais e artísticas, nas quais os pais
não devem intrometer-se, são as melhores soluções para essas dificuldades da ado­
lescência, inevitáveis e muito enriquecedoras para a experiência de si e do outro
que o sujeito retira delas. A intromissão dos pais nos ginásios e cursos colegiais dos filhos
me parece, portanto, de extremo perigo para os jovens com mais de doze anos:
triste conseqüência de maio de 1 968!
Em seu desejo e seu dever de individuação e autonomia diante da sociedade,
os jovens a quem a escolarização, a proibição de trabalhar ou o desemprego dei­
xam na dependência pecuniária e de moradia em relação aos pais, chegando mes­
mo a uma adolescência prolongada, são apanhados na armadilha. Alguns só con­
seguem sair dela arriscando seu desejo em atividades delinqüentes ou em toxico­
manias - maneira de fugir, num narcisismo exacerbado e na exaltação do peri­
go, de uma vida sem responsabilidade e sem poder social ou criativo, à qual ficam
reduzidos por lei.
A fase que vai dos 1 5 aos 20 anos é a da organização definitiva da economia
libidinal. O engajamento do desejo é sustentado pelo narcisismo, anteriormente
estruturado no clima sócio-educativo e na família. O sujeito que se pretende
responsável tem que experimentar o confronto com a sociedade, para adquirir
os meios de se manter sozinho, de se desvencilhar por completo da dependên­
cia financeira e tutelar. Trata-se de adquirir o domínio das pulsões sexuais de
todos os níveis, reorganizadas pela meta social ambicionada, e sobretudo o
domínio das pulsões genitais, com vistas a obter potência no trabalho, potên­
cia emocional casta nas amizades, e potência sedutora e genital a serviço da con­
quista dos objetos de amor. Assim se podem estabelecer vínculos sólidos e livre­
mente consentidos de companheirismo, castos ou sexuais, em sociedade, fora
da órbita familiar.
Tudo isso explica por que essa fase é de eclosão defreqüentes distúrbios neuróti­
cos passageiros, às vezes até duradouros, quando a angústia do ambiente agrava o
sentimento de fracasso decorrente dos conflitos que provêm, no adulto jovem, ou
melhor, em todo adolescente crescido, de um supereu ainda arcaico, passível de

267
NO JOGO DO DESEJO

inibir as pulsões genitais que exigem do sujeito novos compromissos, em que ele
arrisque sua responsabilidade e saia do quadro de seu meio estritamente familiar.
Esse supereu se deve à internalização de mna moral de pré-púbere, agravada, em
nossa sociedade, pelas dificuldades efetivas para se desligar da dominação fami­
liar e das reações angustiadas dos pais. Essa é também a época da eclosão das no­
vas preferências , por vezes passageiras, de potência criadora artística, induscriosa e
cultural. A neurose pode eclodir quando há na realidade um impedimento às mo­
dalidades de criatividade desejadas, pois o desejo genital não encontra saída, e
nem tampouco a encontra o desejo de realizar um trabalho remunerado, assim
obtendo licitamente meios com que "sair". Sair, ir ao encontro dos outros e do
mundo, é a palavra-chave da felicidade nessa idade. Muitos jovens, no momento
da puberdade, aceitam adiar a consecução de suas pulsões genitais nos encontros
sexuais; por algum tempo, chegam a utilizar as tensões assim mantidas para sus­
tentar sua ambição de alcançar êxito na competição de sua faixa etária, com vis­
tas a obter uma promoção social. Para muitos, infelizmente, isso é uma cilada na
qual eles deixam que se desenvolva um supereu neurótico. Quando constatam
um fracasso relativo ou completo no êxito que ambicionam, eles experimentam
uma ferida narcísica que tem sempre um efeito regressivo. Todo ser humano pre­
cisa de uma quantidade suficiente de prazer; há que aplacar as tensões do desejo,
assim restaurando o narcisismo. Essa é a razão da delinqiiência juvenil, desconhecida
ou pública, pois a regressão mais próxima é a reativação das pulsões pré-genitais,
sobretudo nos adolescentes mal-assistidos na compreensão de sua experiência de
fracasso por pais indiferentes ou angustiados.
O supereu pré-púbere não está preparado para as vagas sísmicas das pul­
sões da puberdade. Pode ter erguido, na consciência do rapaz ou da moça (par­
ticularmente nos casos de Édipo mal-resolvido dos pais e, por conseguinte, dos
filhos, sobretudo quando estes vivem em contato estreito demais com esses pais
angustiados), barreiras consciente� - pretensamente morais - contra as pul­
sões masturbatórias, por elas serem a conseqüência de devaneios e fantasias eróti­
cos e pelo fato de, sejam quais forem as razões, os adolescentes sentirem vergonha
ou desapontamento em relação a elas, ou então sentimentos neuróticos de cul­
pa diante de uma realidade que dificulta os encontros reais entre jovens de am­
bos os sexos. Nesses encontros, eles obteriam o aplacamento de suas tensões no
contato com seus pares e relativizariam seus problemas pessoais, ao descobrir em
outrem problemas semelhantes, e sobretudo a alegria dos grupos de amigos; mas,
em vez de incentivá-los, muitos pais se opõem a isso e, desse modo, agravam a
falta de autoconfiança do jovem, que se reprime ou se descompensa. Há algo que
parece contraditório, na fase da puberdade e da adolescência, entre, de um lado,

268
NO JOGO DO DESEJO, DADOS..

a liberdade total da vida imaginária e mental e, de outro, a adaptação dos atos à


realidade e ao domínio dentro da lei, lei no sentido social do termo, e não como
lei parental. A liberdade do imaginário só é sadiamente compatível com a rea­
lidade dessa idade quando as fantasias podem ser comunicadas aos outros em
simbolizações artísticas, literárias, industriosas ou científicas . Trata-se de
domínios técnicos da linguagem, no sentido amplo do termo, de uma linguagem
que possa ser recebida e entendida, aceita, e que valorize o narcisismo do sujeito
eritre seus contemporâneos, a fim de que uma parte do desejo sexual - o exi­
bicionismo sedutor - seja aí sublimada e traga a seu autor a consideração e o
interesse que facilitam suas conquistas sexuais da realidade. Essa é também a
época das "vocações" em que se precipitam inconscientemente todas as pulsões
sexuais, às vezes por um mecanismo de defesa contra as pulsões genitais não va­
lorizadas em si mesmas; vocações que, às vezes, monopolizam tanta energia li­
bidinal, que justificam conscientemente para o sujeito a fuga à busca de objetos
amorosos e de oportunidades de contatos sociais. Todos conhecemos jovens que
assim se confinam em seus quartos, por vezes saindo-se brilhantemente nos es­
tudos, mas permanecendo totalmente infantis. O tempo assim perdido pelas re­
lações afetivas e sociais cobra um preço alto, mais tarde, nos fracassos amorosos
e familiares. É entre os 1 5 e os 20 anos que se organiza tudo aquilo que, nas pul­
sões libidinais, fica impedido, sejam quais forem os motivos conscientes ou in­
conscientes disso, de servir ao objetivo do corpo-a-corpo experiencial, e que, ain­
da por cima, por ser essa a idade do desejo genital, tem que ultrapassar o pra­
zer narcísico excll!sivo, que talvez fosse suficiente antes da puberdade, associa­
do a projetos imaginários e a devaneios mais ou menos conscientemente mas­
turbatórios, para se confrontar na realidade com o encontro com o outro em so­
ciedade. As pulsões desejantes, quando se trata do desejo genital, suscitam a bus­
ca de um prazer a ser conquistado, sendo todas as energias concentradas numa
realização que ultrapassa o prazer já conhecido. É a eclosão irreversível, no su­
jeito, do sentimento de assumir sua responsabilidade, e de assumi-la arriscan­
do-se. É por isso que, depois dos 1 5 anos, a masturbação é um prazer amesqui­
nhante e insatisfatório. Há uma necessidade de ultrapassar o repetitivamente
conhecido, as alegrias prolongadas da infância e do coleguismo, uma necessi­
dade de superação de si e do prazer solitário: em suma, o apelo do amor, a bus­
ca de um outro, também convocado - ele ou ela - para essa busca. É preciso
conseguir encontrá-lo, comprazer-se mutuamente e descobrir o prazer da relação
sexual, do gozo de amar em confiança, descobrindo sistematicamente uma reno­
vação do prazer vislumbrado ou conhecido. O gozo do desejo genital nunca se repete:
o sujeito luta por conseguir nele uma constante reafirmação de sua sedução e

269
NO J O G O DO D E S EJO

uma descoberta constantemente nova de si mesmo e do outro, para que o desejo traga seu
fruto de troca criativa. Para cada parceiro do casal, o ato físico é aparentemente
idêntico, no que concerne ao lugar de excitação que desencadeia o prazer; mas,
assim como a água que passa entre as margens de um rio nunca é a mesma, tam­
bém para a dinâmica emocional do gozo, no encontro sexual, o desconhecido -
que cada gozo pretende levar a descobrir - depende da qualidade de sensibili­
dade complementar dos parceiros, e dos efeitos - modificadores da potência
renovadora psicossomática - que cada um experimenta após os encontros
amorosos. Os encontros que se revelam sadiamente duradouros, e que fazem com
que os participantes que escolheram um ao outro desejem um companheirismo
mais ou menos prolongado, são aqueles em que cada um dos parceiros se sente
narcisicamente sustentado pelo outro, na descoberta dessa potência renovada de
auto-superação. O difícil é não regredir, um através do outro, para situações de
dependência recíproca. Toda vez que o desejo genital autêntico está em jogo,
existe um risco, pois o encontro do parceiro idôneo e duradouramente desejá­
vel é difícil. Existe o medo social do "que é que os outros vão dizer", mas, no fi­
nal das contas, trata-se sempre de um supereu neurótico projetado no outro, a
não ser quando se trata de uma falsa aparência de desejo genital, que a idade ci­
vil do sujeito pode dar a crer ao outro (ou a ele mesmo) e que, na verdade, nada
mais é que um retorno regressivo à segurança: trata-se, nesse caso, de não ter que
arriscar novamente uma solução que se tornou muito pesada, nem que arriscar
novas buscas.
Dos 1 5 aos 20 anos, portanto, toda essa economia libidinal se organiza no
sentido da busca do objeto de amor confiável e sempre novamente desejável, ou
seja, daquele ou daquela com quem viver assume o sentido renovado de prazeres
obtidos e compartilhados com ele ou com ela. Desde a castração edipiana, o meni­
no, com o sexo que lhe é peculiar, fica completamente desarmado, do ponto de
vista narcísico, se uma mulher não o reconhecer como desejável; a menina, com
o sexo que tem, fica completamente desarmada, narcisicamente, se wn outro mas­
culino não a reconhecer como desejável. É no desejo compartilhado, na presença
e nas satisfações mutuamente consentidas, que o desejo, havendo atingido seu
nível de genitalidade exercida, pode encontrar para si um terreno favorável e sus­
citar a conclusão da evolução psicossomática que caracteriza o adulto sadio. Sem
dúvida, o papel dos ideais parentais e sociais em voga é preponderante no incons­
ciente que informa a consciência - mais ainda, talvez, quando o indivíduo, por
narcisismo, empenha-se em lutar contra a sugestionabilidade e a contaminação
do pensamento características dos membros de sua faixa etária e de seu grupo ét­
nico, sugescionabilidade esta que é específica do adolescente. Por um lado, ele é .

270
NO JOGO DO DESEJO, DADOS . .

submetido aos ideais da moda e, por outro, quer ser completamente diferente do
pai e da mãe, pois a angústia de castração edipiana está à espreita. Nessas condições,
ele pode cair na armadilha da dependência absoluta de seu objeto de amor, mais
transformado em fetiche tranqüilizador do que numa pessoa a ser descoberta. O
rapaz ou a moça ludibriados por um supereu conformista transformam-se, então,
com a namorada ou o namorado, numa espécie de dupla, de díade, exatamente
como um bebezinho com a mãe ou o pai, embora estejam numa relação etária e,
às vezes, sexual complementar.
Esse "grude", quando se trata de parceiros do mesmo sexo, na maioria das
vezes é casto; pode acarretar uma homossexualidade passageira, mas não é ho­
mossexual quem quer; e essa etapa pode, ao contrário, liquidar definitivamente
com a homossexualidade narcísica da pré-puberdade, prolongada por demasia­
do tempo, fazendo com que ambos descubram suas discordâncias diante das no­
vas exigências que surgem, e descubram sua sensibilidade ao apelo do outro sexo,
ao qual se liga o perigo de entrar em rivalidade por um mesmo objeto. E é um
terceiro ou uma terceira que rompe, enfim, esse idílio narcísico. É justamente a
possibilidade de essa rivalidade ser exercida em objetos culturais, e não na ameaça
de castração ou de violação, ou no rapto sedutor de um objeto de desejo do ou­
tro sexo, que faz com que os adolescentes e jovens que escolheram um ao outro
por amizade mútua se tornem, na cooperação criativa, verdadeiros amigos, no
sentido de uma homossexualidade consciente ou não, sublimada e duradoura,
em vez de continuarem rivais ou abandonarem um ao outro, rompendo a amizade
por causa dessa rivalidade.
Há jovens que preferem sacrificar conscientemente o desejo heterossexual,
por medo do risco de perder a amizade homossexual cujas alegrias e prazeres eles
conhecem, numa sublimação cultural comum. Parece-lhes que a amizade casta,
combinada com algumas aventuras sexuais sem futuro (para fins profiláticos),
preserva neles o que eles têm de mais valioso, "de humano", comparado ao que
teriam de "animalesco" se viessem a se separar em nome de um amor. Esse é um
momento pelo qual alguns pagarão caro, mais tarde, num outro momento - que
certamente chegará -, quando as pulsões de morte, sempre latentes, começarem
a prevalecer sobre as pulsões de vida, isto é, quando chegar a idade adulta fisio­
lógica. A liberdade do celibatário tem suas vantagens, enquanto existem a ju­
ventude e a amizade, mas torna-se amarga quando o homem ou a mulher se en­
caminham para a velhice.
Os senhores sabiam que 2 5 anos são a idade do término do crescimento, a
idade da última ossificação? Há um período estacionário, dos 2 5 aos 3 5 anos, e
depois começa o declínio para a velhice. Ora, nesse momento - isso é líquido

271
NO JOGO DO DESEJO

e certo -, o indivíduo da espécie humana, que é também inteiramente sujeito


de sua história, é movido por um desejo que ele não conhece, um desejo incons­
ciente, provocado nele pelo apelo da morte. Ele não sabe disso. Mas, quem sabe
disso dentro dele são suas gónadas, que querem transmitir a vida. O homem ou
mulher passam a sentir "necessidade" de conceber um filho. E há então gestações
movidas pelo desejo de fecundidade, mesmo entre seres que não se amam, nem
do ponto de vista afetivo, nem do ponto de vista psicológico. Em alguns, a par­
tir dos 25 ou 30 anos, "isso" fala, isso fala no corpo, com uma premência cujo
objetivo consciente é unicamente a fecundidade. É um momento perigoso para
a cultura do sujeito, seja ele homem ou mulher. Esse novo desejo consciente, in­
dependente do amor por um parceiro, é extremamente perturbador: é o desejo
premente de gerar, quaisquer que sejam as condições das relações do casal. Trata­
se, ainda, apenas de um desejo imaginário: ter um filho, para o homem, e ter
uma filha, para a mulher, isto é, ter uma imagem perene de si mesmo, rela­
cionada com a auto-imagem juvenil, cujo ciclo está chegando ao fim. Pois bem,
esse ainda não é o momento de ser pai ou mãe, em absoluto, pois é exclusiva­
mente narcísico. Mas isso ele sempre será, dirão os senhores. E é verdade, mais
ou menos. Só que, nesse caso, trata-se de um filho para si mesmo, e isso é uma
armadilha terrível do desejo; pois, quando uma criança nasce num casal não es­
truturado na parceria e, mais ainda, quando o casal vive em desavença e tenta
consolidar através de um filho uma parceria que é simbolicamente decepcio­
nante para ambos, os pais são nascisicamente obrigados a se identificar com seus
papéis, materno ou paterno, e recaem na armadilha do amor dependente e pos­
sessivo em relação à criança, regredindo com ela a sua primeira infância pré-geni­
tal. Adulam e disputam a criança, em vez de criarem-na como um ser humano
e de permanecerem em seu nível de genitalidade adulta, com os seres de sua
própria faixa etária. Concentram sua libido, que regride, no objeto - menino
ou menina - nascido deles; este se torna seu fetiche, ou, segundo o jargão tão
caro aos psicanalistas, o falo da mamãe ou do papai, ou de ambos, que o dis­
putam. É isso que ocorre quando os filhos nascem cedo demais em relação à idade
do desejo genital de pais ainda imaturos, ou num casal não unido, nem mesmo
no inconsciente, por seu sucesso afetivo e sexual. Infelizmente, na linguagem
corrente, essas crianças são aquelas que chamamos de filhos desejados; ora, não
se diz, urbi et orbi, que é uma infelicidade nascer não desejado? Qual! Tudo de­
pende da qualidade do desejo dos pais um pelo outro. Será a criança o substitu­
to de um desejo e de um amor recíproco ausentes, ou será ela o símbolo da união
real de seus pais? Aí é que está a questão. É certo que, no ser humano, a função
simbólica se liga a tudo, inclusive à genitalidade carnal fecunda. A função sim-

272
NO JOGO DO DESEJO, DADOS. _ _

bólica ligada à procriação impõe ao ser humano que ele queira conceber um filho do ou­
tro, de sett parceiro livremente amado, e não um filho de si para si, exclusivamente
seu, ou para quem deixar sua herança depois da morte, execrando inteiramente
o cônjuge e sua família. Esse é um dos momentos do encontro daquilo a que
chamamos imagem do corpo, que é linguagem, com o esquema corporal, que é
o corpo. O corpo deseja conceber, quer se trate de um homem ou de uma mu­
lher, mas, estará a imagem do corpo marcada e humanizada pela castração? Em
caso afirmativo, a mãe psíquicamente sadia ama seu filho porque ele vem do
homem que ela amou, um homem de outra linhagem que não a sua; ela dese­
jou conceber um filho desse homem, a quem quer tornar pai, e não de um ou­
tro; quanto ao homem, ele quer conceber um filho por ser dessa mulher, a quem
ama, e por ser com ela que aspira a uma descendência. Hoje em dia, com os co­
nhecimentos científicos (mas isso sempre foi assim), pensa-se nas características
hereditárias das duas linhagens que os cônjuges representam. Isso é o que dizem;
mas não é nada disso. A idade autenticamente adulta de um casal significa que
um ou mais filhos são desejados e amados antecipadamente, como representantes
simbólicos de duas linhagens que se conjugaram, através de dois genitores har­
monizados no ato de amor procriador. Se os homens e mulheres esperassem por
esse momento para procriar, teríamos muito menos dessas histórias de posses­
sividade e regateio dos filhos que conhecemos nos divórcios. Esses raptos e chan­
tagens seriam impensáveis, se os pais tivessem atingido a maturidade de sua li­
bido genital em seu modo de pensar e no amor simbólico, no momento de con­
ceberem seus filhos. O divórcio é bastante pensável e não é um sinal fatal de neu­
rose, quando dois amantes nada mais têm a dizer um ao outro, nada de novo a
descobrir juntos, ou quando a parceria se revela prejudicial para eles; mas quan­
do os pais, como vemos freqüentemente, disputam os filhos entre si, isso prova,
por parte deles (e seu nível de inteligência em nada altera isso), uma afetividade
imatura. Eles são incapazes de respeitar a vida em seus filhos, a quem subme­
tem, no processo de estruturação, quando estes ainda são frágeis, a um estilo de
amor possessivo, oral ou anal, que nos mostra a que ponto essa civilização, tão
orgulhosa de sua ciência, é perversa em seu conjunto: essa é a palavra exata. E é
sempre a geração concebida que paga, com suas experiências, pela imaturidade
e pela perversão - infelizmente apoiadas pelas leis - das gerações chamadas
adultas. Haverá um remédio para isso? Será o infantilismo dos seres humanos o
preço de sua potência material? Será a irresponsabilidade de cada um o preço da
demografia crescente? Será o desfrutar da possessividade sado-masoquista em re­
lação aos filhos, tão nociva para seu desenvolvimento, o único remédio de nossa
sociedade para as insatisfações dos amantes e para as impotências dos pais?

273
NO JOGO DO DESEJO

Esbocei assim o quadro do crescimento do ser humano, até a conclusão de


sua maturidade fisiológica e simbólica. Os senhores podem ver quantas ciladas
são encontradas, quantas cartas são marcadas no jogo do desejo, ao longo de to­
da a evolução libidinal! Portanto, como é difícil viver!
Admitamos que, saindo de todos esses embustes, o sujeito tenha chegado,
seja homem ou mulher, a um nível de autonomia responsável, fazendo para si
um gmpo de amigos de ambos os sexos, conhecendo os prazeres e os sentimen­
tos do desejo satisfeito, e gozando, talvez até mesmo conhecendo o amor ver­
dadeiro, quando consegue ligar-se a um parceiro ou parceira realmente idôneos.
Vamos acompanhá-los. Eles têm boa saúde e se sentem à vontade em seu grupo
social. Precisam trabalhar para ganhar a vida, para custear suas necessidades e
desejos, enquanto continuam a se desenvolver. Vejam (e reflitam sobre isso a
partir de suas próprias vidas) quanta energia libidinal é necessária para conseguir
trabalhar e, portanto, quantos adiamentos da comunicação verdadeira com aque­
les que nos rodeiam. Como buscar satisfação para os desejos físicos ou psíquicos
insatisfeitos do casal? Os adultos jovens, nos casos mais favoráveis, estão mais
ou menos armados contra a angústia, quando seu narcisismo é valorizado pelo
trabalho e, depois, pelas relações de amizade. Isso foi o que eu lhes disse há pouco.
Suportar ser desvalorizado por um amigo, que nos magoa por preferir o amor à
amizade, cria um problema para o adolescente. Os amigos que rivalizam por
uma mesma moça são um problema remanescente do Édipo, mas são também
um problema na realidade. Salvo nos casos de neurose pré ou pós-edipiana, a
angústia de castração e a angústia de violação não existem mais no adulto jovem,
ou no vigor de sua idade; tampouco existe a angústia de morte prematura (a des­
peito dos acidentes de automóvel), salvo, talvez, nos momentos de revolução ou
de guerra. Essas angústias podem acontecer. Mas, afora isso, as pessoas sabem
que dispõem de linguagem suficiente para se defender entre si dessas angústias.
Em nossos dias, há uma angústia crescente da falta de trabalho, do desemprego;
ela impele a libido a se concentrar no desenvolvimento da consciência política,
o que é um recurso atual de amadurecimento das consciências; mesmo assim,
ela é um problema dramático para muitos adultos, carregados de responsabili­
dades familiares. Mas há uma angústia contra a qual os seres humanos nunca estão ar­
mados, qualquer que seja seu bem-estar econômico: é a angústia do desejo geni­
tal autêntico, e sobretudo a angústia da morte daqueles que lhe são caros, mais
do que a de sua própria morte, que não é, a bem da verdade, nada mais que uma
fantasia narcísica. Parece-nos que não se trata de fantasia quando tememos -
por ser ela às vezes previsível, antes da nossa - a morte daqueles que nos são
caros. É que, como eles são reais, sua morte será real, ao passo que nossa própria

274
NO JOGO DO DESEJO, DADOS ..

morte é uma fantasia. Sem dúvida, nós vamos morrer, mas será para os outros
que morreremos. Quanto a nós, não saberemos disso. Em contrapartida, quan­
to à angústia do sofrimento e da morte real daqueles que nos são caros, não sabe­
mos como defendê-los e a nós mesmos dela; refiro-me tanto à morte dos obje­
tos de nossos desejos quanto à dos objetos de nossa amância casta. Tampouco es­
tamos armados, na realidade, contra a angústia da perda de nossos haveres, de
nossos bens (poder atual que nos parece co-existencial) ou de nossas "economias"
(poder potencial). Estamos ainda menos armados contra a angústia ligada à im­
potência da velhice, ao desconhecido do tempo de decadência que precederá nos­
sa morte real, seu impacto, seu fardo sobre a felicidade daqueles por quem nos
sentimos responsáveis. Embora saibamos, por experiência adquirida, que
ninguém é insubstituível, cada um de nós se compraz em crer que o é. Sem dúvi­
da, em tudo o que fazemos, os outros nos substituiriam em caso de desapareci­
mento; mas, naquilo que nos concerne, temos consciência de ser insubstituíveis.
E isso é fatal, pois, em nosso sentimento de responsabilidade, nosso narcisismo
está comprometido. Os seres humanos guardam a angústia do fracasso da obra
iniciada. Por quê? Ora, porque sabem que esse fracasso provocaria dor e sofri­
mento naqueles que os amam, mesmo que eles aceitem correr o risco de que "is­
so não funcione", por serem muito potentes em seu desejo e, tanto pior, por jo­
garem o jogo; é esse o preço em que o sujeito incorre por desejar, e temos de as­
sumi-lo; mas existe a angústia de nosso fracasso e de suas conseqüências para os
outros. Como suportar todos esses motivos de angústia? Pois bem, simplesmente
os colocamos sob o nome de "destino inelutável". De desconhecido no espaço e
no tempo. Já que isso ameaça todo o mundo, não ameaça nenhum de nós. E nos
ajudamos nisso, ombro a ombro, com os sistemas de seguros, com pilhas de
"truques". Muito bem, isso pode servir como primeiros socorros, mas, mesmo
assim, não podemos escapar da angústia que é o destino de todo adulto da
espécie humana.
Lançados como são, no masculino e no feminino, no jogo do desejo, espi­
caçados pela angústia de sua morte individual certeira - pois a morte é, in­
conscientemente, sempre, e às vezes conscientemente, o aguilhão do desejo -,
os homens e mulheres agravam ainda mais, pelo desejo de uma fecundidade
carnal responsável e assumida, a trapaça inelutável, estruturalmente advinda
no início de suas vidas. Essa trapaça com o desejo é inevitável, pois foi ela que
lhes forneceu a todos, simultaneamente, o meio de se comunicarem e de se as­
senhorearem do mundo, e, através disso, da variedade, da riqueza e da multi­
figuração metafórica que têm para eles as modalidades do prazer, do gozo e do
sofrimento. O preço de sua função simbólica é que o equilíbrio psicossomático do ser hu-

275
NO JOGO DO DESEJO

mano é vulnerável. Ora, a saúde, no entanto, é valorizada como um direito, um


direito de todo cidadão! A felicidade é reivindicada como um direito de todo
indivíduo! Quanto à liberdade - sua fantasia mais cara, que ele reivindica por
seu desejo de usá-la (e não seria eu a contestar essa reivindicação), e da qual re­
prova todos os sistemas sociais por privarem os cidadãos -, que faz o ser hu­
mano com a liberdade que está sob o poder de seu desejo? Por narcisismo, os
menos neuróticos dentre nós tornam-se livremente artífices de uma prisão
real, que lhes proíbe a liberdade de seus desejos futuros e novos, mediante leis
oficiosas ou oficiais que eles defendem asperamente. As prisões fantasmáticas
de Piranesi, esteticamente admiráveis, não são mais que a simbolização de labi­
rintos onde não resta nenhuma liberdade, construídos, na intimidade da cons­
ciência, pelo jogo do desejo de todo ser humano. Os esforços que o homem
empreende para sair do aprisionamento das cidades, que seu desejo tornou su­
focantes, para gozar de um pouco de liberdade, mostram-nos seu resultado nas
estradas nos fins-de-semana. Quanto aos neuróticos, seu desejo é sofrimento,
mas, apesar disso, eles continuam a ter esperança, presos nas malhas da rede
que tricotaram, malhas dignas da estrutura do diamante. Isso prova que os
seres humanos sempre dependem da esperança que conservam na confiabili­
dade de seu desejo. Mergulham na ciência, herdeira da magia, em busca de
saber e de poder, tanto na ciência médica quanto política, e até mesmo nessa
que erroneamente chamamos ciência psicanalítica. Eles esperam, contrarian­
do toda a experiência adquirida, um gozo maior do que o ambicionado por es­
sa experiência. Será que se trata de um resto, de uma reminiscência idealiza­
da de sua confiança no pai e na mãe da primeira infância, que agora eles pro­
jetam em outros seres humanos - os sábios, os "grandes" , tão perplexos quan­
to eles com respeito a seu desejo?
A angústia, naquilo que tem de humanamente inevitável e inexorável,
em virtude da inadequação da realidade ao imaginário, é continuamente
tapeada pelos efeitos simbólicos e pelos poderes que eles criam: poderes que
queremos preservar para uso e controle do mundo, mas não sem uma angús­
tia pior e diferente, pois é coletiva e obriga o indivíduo de hoje, tão orgu­
lhoso de sua civilização, a compreender o papel da responsabilidade de cada
um no distúrbio de que ele sofre - uma responsabilidade que ele já não
pode rejeitar, através de sua atribuição a entidades maléficas e estranhas à
espécie humana. Tudo isso, a partir de Freud e dos estudos da dinâmica do
inconsciente que ele inaugurou, tudo isso que é nosso sofrimento, sabemos
provir unicamente do jogo inexorável do desejo, no qual, em relação a sua
esperança imaginária, o homem é um perdedor na realidade. Ele sabe por

276
NO JOGO DO DESEJO, DADOS..

experiência própria, ainda que fi nja não acreditar nisso, que sua esperança de
gozo traz armadilhas, na medida crescente de suas esperanças. Até a psicanálise e
suas descobertas, perturbadoras para o orgulho do homem e para seu narci­
sismo, os seres humanos podiam acreditar - exceto pelos sábios que sabiam,
e certamente também pelos filósofos -, os seres humanos podiam acredi­
tar, como crianças, que era a desobediência a um pai ou a uma mãe onipo­
tentes, que eles projetavam em Deus ou nos deuses, que os conduzia ao fra­
casso de seu desejo, e que obter o perdão, reconciliando-se, restabelecia sua
saúde narcísica. A economia do desejo se lançava na conquista do perdão a
ser obtido dessa instância tutelar. O homem esperava encontrar aí o direito
ao uso do desejo sem culpa, e o acesso à felicidade. Isso não é possível, se­
jam quais forem os holocaustos e os sofrimentos propiciatórios: os dados es­
tão viciados e as cartas, marcadas; o homem sabe, agora, que tudo aqui provém
de sua angústia de desejar.
A psicanálise - a peste, dizia Freud, que a inventou - é chegada. E eu,
que sou psicanalista, eu vivo, eu confio em meu desejo, ajo como se o desejo
fosse digno de confiança, o meu e o dos outros, sabendo que não o é. Porventura
a própria psicanálise não faz parte desses meios científicos de que tanto espera­
mos, ela que, por sua aplicação4 , permite, àqueles que já não podiam fazê-lo,
viver um pouco de seu desejo, ou vivê-lo tanto quanto aqueles que o vivem me­
lhor? Ela permite sanar ou desfazer angústias infantis ou mais recentes, que se
repetem sem cessar, e suportar as experiências no que elas têm de insuportável
para o narcisismo. Mas a psicanálise não traz nenhuma garantia de felicidade.
Se ela esclarece o ser humano quanto aos limites de seu poder e quanto aos limi­
tes de sua esperança, sempre lhe deixa a esperança. Se lhe dá um sentido mais
agudo de sua humanidade e de suas responsabilidades, não é capaz de eliminar
a angústia inerente ao desejo no que ele tem de autêntico. Essa esperança é
inextinguível, inerente ao desejo, por mais consciente que o homem se torne dos
limites de suas responsabilidades, de seus poderes e dos limites deles na reali­
dade. Existe sempre o inconsciente, que nunca obedece à razão; e acontece que
os dados são inelutavelmente viciados, e as cartas, inelutavelmente marcadas
no jogo do desejo. Será que essa esperança provém de estarmos unicamente ocu­
pados em nos desculpabilizar, para continuar narcísicos, crendo com isso exor­
cizar a angústia, ou de estarmos ocupados em conhecer nossa miséria, tida co­
mo fatal, sempre desejando dominar o mundo, esclarecer os enigmas do ser hu­
mano, sempre acreditando na potência do saber e buscando compartilhar uns

4 O tratamento psicanalítico.

277
�JO JOGO DO DESEJO

com os outros a esperança e o fracasso conjuntos desse saber, em nome de um


segredo que salve da morte?
Será que os homens, agora sem a referência a uma entidade pseudomater­
na-paterna desmistificada, não estão em busca, em sua paixão política, de uma
moral que permita, no homem de hoje e de amanhã, o surgimento de tuna res­
posta ao apelo por uma verdade, de wna justiça maior na relação de desejo en­
tre os seres humanos? Um apelo que eles associam, quer o saibam ou não, nas
respostas que fornecem, à promessa do acesso à felicidade - um acesso que con -
tinuam a esperar por natureza e que, no entanto, sabem ser inacessível pela própria
estrutura das vias do desejo - e a seu impacto na comunicação inter-humana,
convocado como é esse desejo a se transmudar em expressão simbólica, por urna
função natural do ser hwnano. Não estará a razão irracional de confiar no dese­
jo presa à sedução irresistível do prazer no amor, à surpresa confiantemente es­
perada de sua fecundidade, ao prazer físico pelo qual ele se torna procriador, e
no qual crê ilusoriamente provar instantes de imortalidade - ou ainda ao pra­
zer mental e estético de se acreditar criador? Essa fecundidade, que todo desejo
persegue e que somente o ser humano, dentre as criaturas vivas, pode conhecer
para além da impotência da fecundidade carnal, já que, homem ou mulher, ele
pode jogar seu desejo na procura da fecundidade cultural ou espiritual, será que
seu desejo não paga por ela com o preço - exorbitante, para muitos - da saúde
corporal perdida, da moral individual rebaixada e pisoteada, da razão abalada e
do coração enlouquecido? E, quando o ser humano quer furtar-se ao jogo do de­
sejo, em sua carne, em seu coração e em seu trabalho a serviço da vida, não lhe
resta outra escolha senão um jogo em que seu desejo é ainda mais falseado que
no do desejo arriscado na busca do desejo do outro. Há então o risco, simboli­
camente mortal para o coração, e às vezes para a inteligência, de o corpo ser
preservado do risco físico: o risco de um narcisismo preservado na falta de re­
lações inter-humanas "criadoras", como vemos na criança autista e no adulto
delirante. O processo "descriativo", acarretado pela ausência de relações dese­
jantes com o desejo do outro, pode sobrevir no estágio oral ou no estágio anal
da criança, ou mais tarde, no estágio genital, quando o narcisismo se poupa os
riscos do amor, furtando-se às experiências da castração. É o narcisismo "ento­
cado" da loucura vigiada, quando a realidade é suplantada por um imaginário
sem leis, e o da boa consciência moral, conservado na neurose; ou é o narcisismo
mortal do salto para a vida espiritual, em nome de um pretenso gozo para além
do prazer desprezado - o salto para wn narcisismo que, muitas vezes, é pior
que o de renunciar ao prazer ou malograr nele: o narcisismo da boa alma, con­
servada na segurança vigiada, para melhor gozar dela por não arriscá-la jamais.

278
MO JOGO DO DESEJO, DADOS . .

Que acontece então, no ser humano, com esse desejo, substantivo (!) que,
como um verbo, rima com jazer5 ? Que acontece com cada um de nós, sujeitos
ilusórios desse verbo que se diverte conosco? Não seremos, antes, objetos apaixo­
nados por uma chama que nos atrai, por esse desejo em gue nos consumimos
voluntariamente em nome de um prazer esperado, no qual viver ganha o sabor
de morrer? Que acontece com a esperança, gue sabemos por experiência ser um
engodo, com a esperança tenaz, senão em nós mesmos, pelo menos nos outros,
e ·que desafia nossa razão? Que acontece com nossa confiança em nosso próprio
desejo, que só avaliamos pelos riscos que assumimos de perder nossa segurança
- com essa ilusão de ser à qual nossa carne não pode aspirar? Onde pode ori­
ginar-se, afinal, essa esperança de uma autenticidade do gozo, cuja expectativa
perseguimos, já que, do desejo, jamais conhecemos nada além de um jogo cu­
jas cartas são sempre marcadas e os dados, sempre viciados?
Eu, indivíduo transformado em psicanalista pelas vias de meu desejo, ape­
lo para o senhores, filósofos: para essas perguntas que me são colocadas por mi­
nha prática e minha reflexão, haverá ou não uma resposta?

5 No original, désir e gésir. A rima, lascimavelmente, perde-se na tradução. (N. T.)

279
l o,..
... ·.
.

. _ry

Am â nc i o e a mor

Em sua referência ao desejo sexual na infância e na idade adulta


Édouard Pichon, médico psicanalista falecido em 1939, lingüista e au­
tor, com Damourette 1 , de uma gramática muito interessante, introduziu a
palavra amância2 para distinguir a ligação sem desejo sexual pelo ser amado
(quaisquer que sejam a amância, o amor, o desejo ou a indiferença do amado
por aquele que o ama), assim conservando, para a palavra amor, o sentido de
atração por um ser sexualmente desejado. Essa distinção não parece ter sido
retida desde então, o que é uma pena.
Na linguagem corrente, certas palavras se aproximam da distinção que
Pichon quis introduzir: falamos em corações aimants3 e em indivíduos
amorosos. Mas, ao nos exprimirmos assim, em nada prejulgamos o desejo se­
xual possível em pelo menos um dos sujeitos que amam, nem que o desejo

l De., Mots à la Pemée. Essai de Graimnaire de la Langue Franfaise. Ed. D'Artrey, 191 1 -1927.
2 No original, ai111ance. Em português, essa distinção é facilitada pelo uso dos verbos gostar e amar, verbos que
convém ter em mente na leitura do texto. (N. T.)
3 Apaixonados, amantes. (N. T.)

280
AMÂNCIA E AMOR

possa estar ou não unido ao amor em cada um dos amantes. Trata-se de uma
distinção, estabelecida por um observador, do que são as relações entre dois
seres humanos, mais do que de uma distinção que corresponda ao que um su­
jeito experimenta diante de um objeto; ou, para falar mais claramente, àqui­
lo que um ser humano sente diante de outro ser humano, quaisquer que se­
jam, neste último, a receptividade, a indiferença ou a resposta.
Antes do Édipo, amância e amor se confundem na criança. Esta experi­
r{-ienta desejos parciais, ativos e passivos, qualquer que sej a seu sexo. Sejam
eles satisfeitos ou não, o prazer ou o desprazer que a criança experimenta se
articulam com a libido pré-genital. Entretanto, confundido com esses dese­
jos parciais, já desponta um desejo genital; no menino, ele corresponde a uma
dinâmica fálica (centrífuga) em relação ao objeto desejado e está ligado à in­
tenção de atacá-lo, de penetrá-lo, ao passo que, na menina, o mesmo desejo
genital confuso atrai para o obj eto fálico (centrípeto) e se concentra na esprei­
ta da sedução que ela pode despertar no homem, seu objeto de desejo e de
amor, com vistas a ser escolhida, a obter em seu sexo a intromissão do pênis
e, com isso, tornar-se fecunda.
A partir daí, a psicanálise nos ensina que o desejo, a amância e o amor,
ainda que emanem de um dado ser vivo num corpo masculino ou feminino,
destinado a se tornar um sujeito consciente de seus desejos e de suas ligações,
podem ser inconscientes. Ela nos ensina também que o objeto do desejo par­
cial de um sujeito ou de um desejo passional nem sempre é vivo nem hu­
mano: pode ser uma coisa, como são para as crianças os ursinhos de pelúcia e
as bonecas, e, para o adulto, os objetos de valor importantes para seu bem­
estar emocional, para seu narcisismo, e que têm para ele um sentido não rela­
cionado com o que representam na sociedade, mas que é essencial para suas
fantasias (cf. os fetiches, o bestialismo, a necrofilia, etc.). O fato é que em to­
do vínculo, real, imaginário ou simbólico, existe necessariamente, de um la­
do, um sujeito, e do outro, um objeto. Mas, se às vezes podem existir dois su­
jeitos, nunca pode haver dois objetos. Para que haja desejo, amor, amância,
é sempre preciso que haja pelo menos, conscientemente ou não, uma pulsão
no indivíduo que a experimenta, e que, depois de ter evoluído e de ter-se tor­
nado "consciente", não mais se lembra dela. É por isso que a "palavra-valise"
que é "amor", por assim dizer, já não é suficiente para nos entendermos a par­
tir das descobertas da psicanálise. Sabemos que, em francês, podemos gostar
{aimer] de bife, de casa, do papai e da mamãe, podemos gostar {aimer] do ca­
chorro, gostar de amar, e poderíamos dar muitos outros exemplos: o .termo
se aplica a tudo.

281
NO JOGO DO DESEJO

A origem conjunta, no corpo do lactente, de necessidades localizadas e do


desejo total em relação ao objeto materno, por ocasião dos cuidados que a mãe
presta ao corpo do bebê, acarreta nele a distinção dos desejos parciais, satis­
feitos ou não, localizados, no momento em que ele experimenta satisfação nas
zonas sensíveis de seu corpo (zonas mucosas e cutâneas da visão, do paladar,
do olfato, da audição e do tato), fontes e locais de prazer ou desprazer, graças
à mãe-babá que zela por seu bem-estar e satisfaz suas necessidades. Portanto,
é o vínculo entre suas necessidades e o retorno da mãe a seu corpo que cria na
criança, em virtude da memória e da função simbólica, um código de dese­
jos parciais múltiplos, ligados ao prazer; um código que se cruza com o códi­
go estritamente repetitivo das necessidades. O bebê cria para si um código
sutil - olfativo, visual e auditivo, que implica uma distância do corpo -
concernente às relações repetitivas e transitórias com a mãe, enquanto a mas­
sa do corpo vivo assegura um continttum de percepções cenestésicas; esse con­
junto está na origem do que, feito o ingresso na simbolização, servirá de su­
porte para a dialética da amância e do amor, na criança, por seu primeiro ob­
jeto humano: a mãe. As divisões - interrupções e retornos, acréscimos de
alimento e retiradas de fezes - do corpo-a-corpo da criança com a mãe, no
tempo e no espaço, provocam nela, efetivamente, a simbolização na lin­
guagem, no sentido lato do termo: uma linguagem expressiva, que se instrui
pelas expressões mímicas, verbais e gestuais da mãe-modelo, que a elas res­
ponde e as suscita, à medida que o bebê conhece e reconhece a mãe.
A amância - como relação de sujeito a sujeito, fora de qualquer objeto
parcial - que o bebê desenvolve pela mãe instaura um campo imaginário in­
consciente que gira em torno dessa relação, apoiada nµma linguagem inte­
rior de fenômenos e de mímicas viscerais e motoras(o' que ele sente de suas
fu�ões corporais modela-se na articulação sensório-mental da língua mater­
n� comunicação parassimbólica entre a criança e seu primeiro objeto es­
tabelece um cruzamento constante entre o campo do imaginário e o campo
da realidade, do possível e do impossível, no que concerne ao prazer do con­
tato dos corpos através do tato, ou quando o bebê é carreg� Mesmo que-\
esse substancial táctil e preênsil esteja ausente, o desejo persiste no imagi- !
nário, e se elabora um campo simbólico feito de significantes verbais, es- /
cópicos, auditivos, olfativos e tácteis, desta vez fantasiados fora dos encontros \
corpo a corpo; nesse campo, as pulsões insatisfeitas encontram meios inter- \. 7
mediários de se expressar e de assumir o lugar do encontro: gritos, brincadeiras
sonoras, "lalações" em homenagem à ausente imaginada, brincadeiras de colo-
car as mãos na boca ou nos objetos espacialmente associados à presença da

282
AMÂNCIA E AMOR

mãe: brinquedinhos, mamadeiras, tecidos, roupas que lembrem a atividade,


o cheiro e a voz dela, espaços conhecidos com ela, objetos inanimados ou ani­
mados, e pessoas que, para a criança, estejam associadas à mãe.
Se a amância se estabelece num vínculo de segurança que une o sujeito
a seu próprio corpo, assim como a tudo o que está imaginária e simbolica­
mente associado, ao mesmo tempo, à presença (atual ou não) do objeto, o
, amor, por sua vez, implica o desejo de um reencontro do sujeito com o obje­
to, simultaneamente, nos campos do simbólico, do imaginário e da realidade4 .
A presença reencontrada reaviva para a criança novas relações com o objeto
de amor escolhido(§ amor, o sujeito sofre com a não-pre�nça do objeto, e
os objetos mediadores não são suficientes, como na amânc_i300_amo�_inten­
sifica_o _desejo de relações corporais e lingüísticas. O amor desperta o desejo
dos encontros-c�rp� � corpo com o objeto, conh�cido e a reconhecer, a re­
descobrir, em nome do prazer de uma satisfação dos desejos parciais e dos de­
sejos de linguagem, e também em nome do prazer de uma ab-reação das no­
vas tensões nascidas durante a ausência no corpo do sujeito, ligadas e dedi­
cadas por ele, não só à representação do objeto, mas também à necessidade da
presença corporal, conhecida, porém sempre redescoberta na linguagem . É a
esse conjunto de desejos, simultaneamente nesses três campos, que corres­
ponde o significante amor. O corpo-a-corpo, num erotismo cúmplice com o
objeto, é necessário para a simbolização, a manutenção e a renovação, tanto
da linguagem interna quanto do narcisismo do sujeito.
As sucessivas separações que ocorrem - desmame, marcha, alimentação,
manutenção autônoma do corpo (higiene geral e esfincteriana), deambulação
individual, brincadeiras solitárias e, em último lugar, separação total do cor­
po-a-corpo, tal como era fantasiado com vistas ao. prazer sexual, ao coito e à
fecundidade incestuosa - fazem com que a irreversibilidade temporal, alià'­
da à irreversibilidade biológica, produzam em cada criança, na realidade e
quanto ao futuro, a renúncia ao corpo-a-corpo sexual genital com os primeiros
objetos, em relação aos quais mis-t!:!ravam-se confusamente nela os desejos,a
aro_â....Q.s:j� e o amor. Foi isso que a psf;;:-�lLse dêõ.-círí:1ínoii de -r�soiução edipia-
! na: é quando, tanto no imaginário do sujeito-criança quanto no dos objetos
( familiares parentais, ascendentes e colaterais, estabelece-se a castidade das re­
)
i lações/ A criança descobre em relação a esses objetos, desligada dos prazeres
-seiis�is, uma amância que jamais a abandona; mas o amor, no senti�o se-
- -
--·-:--- ---- -- ----·-··-
- -· ·· · - - · -·. -- ------ • -� - �,-,_
�,-<-, �� -.. -
-

4 A autora usa aqui "la réalitê' , e não "]e rée/" (o real), como na tríade conceituada por Lacan.
(N. T.)

283
NO J O G O DO DESEJ O

xual (em sua realização física), emocional e passional do termo, relacionado


com a libido, tanto oral e anal quanto genital, é barrado', A partir desse mo­
we11._to decisivo na evolução do ser humano, sua amânc�� em relação a certos
seres e seu amor por outros se di5-tinguem. Os objetos para os quais ele trans­
fere a amância nâo são desejados, nem sensual nem sexualmente - no senti­
do de genitalmente. Quando um desejo por um objeto abala seu ser inteiro,
mental, afetivo e erótico, é de amor que se trata. Em suma, a amância é cas­
ta, porém lingüística e criativa; o amor é erótico e visa a obter uma satisfação
física, oro-anal, masoquista, sádica ou genital com o objeto amado que é fo­
co dos desejos; quando se trata do sentimento au_s_�ntic.o.,kamor, de é sem­
pre acompanhacio por um desejq geni� Portanto, o amor sempre tem, para
o sujeito, uma finalidade criativa no éampo simbólico e a intervenção passi­
va ou ativa do corpo, empenhado, na consumação, no desejo de um gozo do
objeto, que pode ser, além disso, procriador de uma vida humana, quando o
desejo sexual do sujeito encontra no objeto um desejo sexual correspondente
ao seu: é o coito. Quando, ao contrário, uma certa quantidade de desejos agres-
sivos pré-genitais, permanecidos fora da castração, busca sua satisfação no cor- i
po-a-corpo, o amor pode induzir aos chamados comportamentos perversos, \,
descriativos, mutilantes e mortíferos, em nome de um gozo confuso do su."' \
jeito à custa do objeto de amor ou de amância.
Evidentemente, pode haver no sujeito ��in�ia por um �bjei:ô indife­
rente ou hostil. Se o objeto, enquanto sujeito, também experimenta a amân­
cia, tem-se a amizade casta. Pode ainda haver no sujeito amância por um ob­
jeto q�·;xper'íin.enta desejo sem amância por ele. E, por último, pode haver
no sujeito amância por um objeto que por ele experimenta amor e desejo, e
que, por despeito narcísico, é impelido a comportamentos desejantes parci­
ais agressivos para com esse outro que não o deseja nem gosta dele com amor.
Essas eventualidades mostram toda a distinção que se produz, para o su­
jeito, entre o desejo do corpo-a-corpo, a amância que o leva a relações sim­
bólicas, e um amor que pode coexistir com a amância, mas não sem um de­
sejo de relações corporais com o corpo do outro, isto é, um desejo sexual, se­
ja qual for seu nível - oral, anal ou genital -, e quer esse desejo seja ou não
satisfeito pelo encontro com o objeto de amor e de desejo.
Explico-me: sabemos perfeitamente que pode haver amantes no que con­
cerne ao corpo-a-corpo, na realidade dos coitos, que nada experimentam senão
desejo um pelo outro, �.nã:o..amâuc;iª gq �mo�:
Pode haver pares de amantes em que um suporta o desejo do outro com
indiferença passiva, ou até de maneira passiva ou ativamente hostil. O obje-

284
AMÂNCIA E AMOR

to de desejo de um amante pode experimentar, em relação a este, uma amân­


cia sem desejo, ou ainda vivenciar desejo físico sem amor, enquanto aquele
com quem pratica o coito experimenta a seu respeito emoções a que ele per­
manece alheio. Em suma, a cumplicidade exclusiva no desejo não pressupõe
nem amância nem amor.
Também podem existir amantes em que um dos dois apenas deseja o
:Outro, enquanto esse outro sente amor e desejo por ele.
Pode haver amantes que experimentam, ambos, amor e desejo um pelo
outro; e esse amor pode ainda ser feliz ou infeliz, conforme se realize ou não,
em decorrência de um empecilho material, espaço-temporal ou social de seu
encontro carnal, ou seja, pela realização ou não de seu desejo no coito e no
gozo.
Quando há obstáculos aos encontros entre desejante e desejado, o vín­
culo de amor que cada um dos sujeitos experimenta em relação ao outro pode
ser simbolicamente elaborado, pela sublimação do desejo, em atos e palavras
que transcendem o impossível encontro corpo a corpo; uma linguagem me­
diatiza e exprime as emoções aceitas. Essa troca lingüística salvadora, por sua
vez, torna-se esteio de um vínculo de amância ou de amor que pode tornar­
se culturalmente criativo. Mas a distância e a separação entre dois sujeitos
que se desejam mutuamente também pode romper o esboço de um vínculo
amoroso que a tensão do desejo havia provocado.
,,,
,./,.;' Ó amor é sempre sintoma de desejo parcialmente sublimado, mas o de­
/,�ejo, em si mesmo, pode não ser nada além de uma relação imaginária do su­
(, Jeito com seu obj�t,C: ·
- · - Õs amantes podem ser pàrceiros de desejo numa realização homossexu­
al ou heterossexual. Mas o amor não corresponde ao sexo físico. Ele é subli­
mação libidinal. Um dos dois amantes pode suportar passivamente, sem de­
sejo pelo outro, o desejo de corpo-a-corpo que o outro realiza através de seu
corpo, por ser dominado e/ou por experimentar amância por esse outro que
o deseja, e que ele não quer deixar numa tensão dolorosa. Mas, nesse caso, ele
é sexualmene passivo, e isso tanto pode ocorrer numa relação de corpo a cor­
po homossexual quanto heterossexual.
Se esses dois significantes, amância e amor, entrassem em uso entre os
psicanalistas e na linguagem corrente, ficaria mais c).<i.rq_q_ue a amância é sem­
_pre casta quanto ao desejo, e sempre_J���:·:�.º�peração �a li�g�;_g'éõ'.;;,·no
-
_i�_rirído amplo do termo, ou sej�,- �ublirn_aÇ_ão do de§ejo. Nem p�r- i ;;�-; amán­
cia deixa de originar-se na transferência das relações parentais e das relações
com as irmãs ou irmãos, após a resolução edipiana, para objetos extrafami-

285
NO JOGO DO DESEJO

liares. A amância é sempre articulada, por aquele que a experimenta, com


um� homossexualidade ou uma heterossexualidade latente e/ou sublimada.
,fij..
amância dos pais que, em .sua libido, chegaram à maturação genital é
sempre casta em relação aos filhos/Suas relações corporais com os filhos são
a garantia da possibilidade, para e� tes, de receberem dos educadores parentais
a castração edipiana, qualquer que seja seu sexo. Quando o adulto parental
não experimenta uma ligação casta com seu filho, mesmo que lhe expresse o
contrário, promulgando verbalmente a lei da proibição do incesto, a criança
percebe que o desejo do adulto é incestuoso a seu respeito, ou seja, que seu
próprio desejo mobiliza o corpo do adulto, mesmo quando este o nega; as­
sim, a castração edipiana, expressa em palavras segundo a lei, não se inscreve
no corpo da criança nem em seu imaginário, que permanece aprisionado no
imaginário do adulto; a criança não porta os frutos simbólicos de uma cas­
tração dos primeiros desejos genitais, cujo benefício (pois o desejo genital
visa sempre à procriação) é a distinção entre a amância, sem ambivalência ou
conflito, e o amor, que, para além da interdição permanente do vínculo com
os corpos familiares, conduz a criança à prevalência progressiva das subli­
mações lingüísticas criadoras, culturais e sociais. No que tange às relações
que ligam educadores e crianças, a atitude dos primeiros resulta de uma trans­
ferência de amância parental genital casta para os "objetos-crianças" , sujeitos
reconhecidos de seu desejo, sua amância e seu amor e não destinados a esses
adultos, que não têm nenhum outro encargo senão o de educar, e não o de se
fazerem amar, a relação é sentida, no inconsciente da criança, como casta por
parte do educador, ainda que a criança possa experimentar desejos, ódio ou
amor por este; graças a isso, a criança é iniciada na interdição das relações per­
versas, ou seja, na proibição das relações que remetem a objetos imaginários,
articulados por cada um com a transgressão da proibição do incesto.
A relação narcísica estendida a um outro é uma relação exclusivamente
imaginária, por parte do desejante, e não traz frutos simbólicos; no que con­
cerne às relações do educador com o educando, isso significa que, em vez de
iniciar a criança em seu próprio desejo, para conduzi-la a sua autonomia de
livre sujeito de seu desejo, de sua amância e de seu amor, essa relação a retém
numa posição de objeto alienado ou servil do desejo do educador, que nela
buscar um prazer. Na medida em que existe sedução de um pelo outro, a li­
bido fica presa no campo do imaginário e não consegue, pelo menos a longo
prazo, portar os frutos culturais da sublimação, mesmo que, por força da se­
dução recíproca, a criança servil obtenha êxito numa disciplina, por exibi­
cionismo e docilidade funcional. A sedução ou a repulsa colocam o sujeito em

286
AMÂNCIA E AMOR

posição de dependência em relação ao objeto, ou esse objeto em relação ao su­


jeito que o seduz ou aterroriza; e a dinâmica, num ou noutro, ou em ambos,
sofre uma regressão para as posições infantis pré-genitais, posições anteriores
à lei em ambos os parceiros. A castidade, no sentido mais amplo, como não­
busca de um prazer em si nas relações inter-humanas, é, ao contrário, criadora
de amância e libertadora, em cada um, da ligação do desejo físico ao corpo
como exacerbação imaginária do amor, deixando a todos em liberdade no que
diz respeito a seu amor e seu desejo pelos outros.
Eu lhes disse que a criança, antes da resolução edipiana, confunde amân­
cia com amor, pelo fato de seu desejo estar empenhado no objetivo infantil
por excelência, que é a sedução do adulto parental. Aqueles que, na família,
em função da imaturidade dos pais, não sentiram a amância casta destes a seu
respeito, mas uma dependência de escravo em relação ao senhor, uma sedução
ou uma rejeição passional, transferem para os educadores a maneira de ser que
lhes foi característica diante dos pais; e, quando se apegam a um educador,
eles estabelecem uma fixação amorosa, ou, o que dá na mesma, uma fixação
de hostilidade. Ódio ou amor são manifestações do desejo ativo-repulsivo ou
ativo-atraente em relação à oralidade ou à analidade (sendo uma e outra
sofridas ou atuadas em relação à oralidade genital, nas meninas, ou à anali­
dade uretro-genital, nos meninos). Em outras palavras, na menina, o amor
humano homossexual e a desejância 5 homossexual pela mãe coexistem com a
amância impessoal do sujeito-menina pela mãe. Da mesma forma, a amância
pela pessoa do pai e o desejo heterossexual por ele coexistem e são a fonte da
fixação amorosa no pai. A menina transpõe, ou antes, transfere para os edu­
cadores dos dois sexos os mesmos sentimentos que nutre por seus pais, quan­
do não é libertada de seus desejos e de seu amor incestuosos pela castração
edipiana.
Quando sobrevém, com a puberdade, o aumento súbito das pulsões geni­
tais, a amância, por não colocar em jogo o desejo sexual, pode ser exprimida
e sublimada pelo prazer da menina nas relações criativas, deixando o amor e
o desejo livres para um objeto heterossexual extrafamiliar, futuro ou presente,
porém transitório. A moça experimenta um sentimento de amor ligado ao
desejo quando, inicialmente colocada pela amância diante de um objeto e da
procura de intercâmbios lingüísticos, culturais e criativos com ele, desen­
cadeia-se nela a concentração de seu desejo nesse objeto de amância (homo ou
heterossexual, aliás).

5 No original, désirance. (N. T.)

287
NO JOGO DO DES EJO

Graças a esses dois significantes, amância e amor, as relações entre os


adultos seriam mais bem enunciadas em sua especificidade; o estilo delas é
diferente, conforme digalll {espeito a homens ou mulheres.
Nas mulheres, a amâncià após a castração edipiana exprimiria as emoções
pelos objetos, femininos ou masculinos, que não despertam nenhum desejo
sexual nem sensual voltado para sua satisfação no contato corporal com o ou­
tro, mas apenas emoções interpessoais, de coração e apego, que se exprimem
em linguagem e criatividade, e não desencadeiam nenhuma rivalidade com
os outros sujeitos em contato inter-relacional ou interpessoal com os objetos
de amância. A cooperação social é típica da amância. A amizade, sustentada
pela amância entre as mulheres, entre os homens ou entre homens e mulheres,
permite a cooperação, as obras sociais e culturais, e deixa cada um livre para
seu amor e seu desejo, sem que a articulação do desejo ou do amor de cada
um com os objetos externos à amizade desperte despeito ou rivalidade.
Quando uma mulher atinge o nível da maturidade genital, quando concen­
tra seu desejo e seu amor por um ser amado em obras que são significantes
de uma concordância para os dois, ela pode ter relações de amância homos­
sexual casta com mulheres amigas, bem como amizades heterossexuais, sem
que isso a torne sensível ao desejo e amor eventuais de seus amigos masculi­
nos e femininos; não é que ela não compreenda a linguagem que estes ex­
primem, mas essa linguagem não desperta nela nenhuma resposta no plano
das emoções e do corpo. A amância casta permanece casta quando p.s pulsões
genitais, no amor e no desejo, estão totalmente empenhadas num objeto es­
colhido. A mulher, nesse caso, não atrai nem rejeita ou foge à amizade de
homens ou mulheres que experimentem desejo e amor a seu respeito: ela sim­
plesmente não é sensível a isso. Sua amância, ou seja, sua amizade por eles,
não se inquieta com suas eventuais reações temporárias de ciúme ou despeito,
e uma amizade casta e duradoura pode assim triunfar entre eles.
Também no tocante ao homem, a partir da puberdade e da súbita mani­
festação das pulsões genitais, que então se instalam em sua primazia, a exis­
tência de nossos dois termos - amância e amor - tem seu lugar.
A amância pode existir nas relações com objetos de ambos os sexos, sem
participação dos jogos de influência, possessividade, rivalidade ou desejo do
corpo-a-corpo sexual genital. A amância, no homem, corresponderia a
amizades com homens cuja homossexualidade foi sublimada na linguagem,
na cultura e na cooperação em obras comuns; e corresponderia a relações cas­
tas e amistosas com as mulheres com quem ele colabora em sociedade: a amân­
cia que ele experimenta por elas, e que se traduz numa amizade sincera, ca-

288
AMÂNCIA E AMOR

racteriza-se pela ausência de desejo carnal, assim como pela ausência de ri­
validade com respeito aos vínculos desejantes e amorosos que essas mulheres
possam ter com outros homens ou com outras mulheres.
Diversamente das mulheres, depois de elas atingirem o nível de sua fi­
xação genital amorosa num objeto, os homens que atingem esse mesmo ní­
vel são passíveis, apesar disso, de experimentar parcialmente desejos tran­
. sitórios, físicos e sexuais, pelas mulheres por quem sentem uma amância que,
· de modo geral, é casta. Isso provém do fato de que o objeto parcial externo
no corpo do homem (o pênis e o aparelho genital) continua a ser, para ele,
um objeto erótico que contribui para o narcisismo de sua pessoa privada e so­
cial. Uma mulher que não experimente nenhum desejo por esse homem pode,
sem se dar conta disso e exclusivamente por seu corpo, despertar seu desejo
se:imal, expresso pela ereção, mesmo quando, à parte isso, nas relações inter­
pessoais com essa mulher, tal homem está habitualmente numa situação de
amância e não sente amor por ela, nem imaginária nem simbolicamente. Ao
contrário da mulher, que, quando investida num amor, fixa-se no corpo e na
pessoa do amante, o homem nunca se fixa por completo (ou raramente o faz),
em corpo e sexo, na mulher a quem ama simbolicamente, mesmo que ela con­
tinue a ser-lhe desejável.
É possível que a razão dessa sensibilidade sexual parcialmente subtraí­
da pelo narcisismo peniano, que se harmoniza com a simbolização ligada à
pessoa inteira do homem, prenda-se ao fato de que, no homem, o aparelho
genital é externo ao corpo; mas talvez a diferença entre homens e mulheres
quanto a esse aspecto resida também em sua respectiva relação com o falo
simbólico - um falo que, sem dúvida, a criança só representa para a mulher
durante a gestação e a maternidade; já o homem em quem ela empenha seu
desejo e seu amor genital, dedicando-lhe na realidade sua potência procria­
dora imaginária e simbólica, permanece, para além da gestação e ao longo de
toda a educação inicial da criança, como o referencial da potência tutelar.
A dificuldade é que, no homem, sem o conhecimento do sujeito nem da
mãe, o amor - e não apenas o desejo incestuoso - pode ter sido marcado
pela proibição no momento da castração edipiana, que só deveria ter barrado
seus desejos no que eles tinham de incestuosos. Isso proviria de situações fa­
miliares particulares. Assim, ao despertar o desejo por uma mulher - não
um desejo parcial, mas um desejo pela pessoa inteira dessa mulher -, o amor
traduzido por esse desejo pode inibir no homem o próprio desejo eréctil, sem
que no entanto o homem consiga sublimar seu amor em amância pelo obje­
to desse desejo impotente. Daí decorre, para alguns, o perigo de desejar mu-

289
NO JOGO DO DESEJO

lheres que, em seus sonhos e fantasias, são apreendidas como munidas de uma
vagina denteada (referência a uma oralidade associada ao sexo da mulher co­
mo captadora do esperma, para com ele produzir, para seu prazer exclusivo,
um filho anal, e também referência ao narcisismo ferido da queda dos dentes
de leite que possa ter acompanhado, no menino, seu sentimento de ser
medíocre aos olhos do rival paterno, tanto por seu rosto quanto por seu sexo
e seu tamanho, ou de ser um objeto de desprezo para a mãe a quem amava
com amor; ele não sabia que a mãe só nutria por ele uma amância casta e que,
por isso, seu desejo não-sedutor e seu amor não-reconhecido não foram ridicu­
larizados quando ela deixou de retribuí-los nessa época edipiana; ele teria
guardado a esperança de que ela os retribuísse no dia em que, já "grande e
bonito como o pai", ele lhe manifestasse seu desejo de coito incestuoso). É
por não se haver explicado ao menino, quando criança, o desejo sexual liga­
do às ereções, que possibilitam a realização do desejo pelos objetos heteros­
sexuais, e por não lhe ter sido declarado, pelo pai e pela mãe, seu direiro ao
amor por todas as mulheres, exceto as da família, que se produz no homem
essa inibição, todas as vezes que ele ama e deseja a pessoa de uma mulher, ao
mesmo tempo que seu sexo.
Da mesma forma, o desejo pode surgir num homem por uma mulher,
sem que se estabeleça ou persista, após a satisfação sexual, nenhum vínculo
simbólico de amância duradoura, característica das relações castas, e nenhum
desejo ligado a um amor duradouro por essa mulher. É que o desejo, no
homem, pode implicar apenas o funcionamento erótico do objeto parcial pe­
niano e nada despertar além do cio, ou seja, da "necessidade" sexual, em vez
do desejo humano lingüístico e cultural: uma necessidade que faz com que o
homem sinta pulsões de morte (em virtude da absenteização do sujeito em
sua história) contra as quais é obrigado a lutar praticando um coito, movido
pelo que acredita ser um desejo masculino, na consumação pura de uma re­
lação sexual com o objeto que suscitou sua ereção (processo que pode levar ao
estupro . . . ). O corpo de uma mulher, seja ela quem for, em decorrência da
castração do desejo edipiano, pode presentificar esse desejo por sua beleza, e
esse corpo passa a ter um valor fálico aos olhos do homem, uma vez que, por
seus seios, está referido ao falo oral, e, por sua abertura sexual, ao falo que -
de maneira diferente - tanto falta ao menino quanto à menina para satis­
fazer plenamente seu narcisismo.
Isso se explica pela origem do narcisismo no menino, que parte de um
desconhecimento de que a mãe, diferentemente dele, não é portadora de um
pênis, pois a criança de ambos os sexos imagina os adultos como sendo feitos

290
AMÂNCIA E A M O R

à sua imagem e sentindo as mesmas sensações que ela. A menina, que não
tem pênis, não imagina que sua mãe o possua; mas o memno imagina a mãe
como fálica, donde sua ferida narcísica no dia em que avista o sexo fendido
de uma menina e descobre, muito chocado, que a mãe é desprovida de pênis.
Toda mulher é inconscientemente referida, na memória do sujeito, às
primeiras mulheres de sua vida; isso pode despertar no menino o trauma do
buraco sexual feminino, essa falta que ele percebeu um dia e que, por amor e
por reparação, teria desejado preencher. Na união dos corpos durante o coito,
ele recupera a ilusão, fundindo-se com uma mulher, de ser dotado de seios e
pênis em seu corpo, confusamente ambissexuado: é que o sujeito femini no ,
pelo desaparecimento d o tônus d e seu corpo d e mulher que goza, pode dar a
impressão, de algum modo, de um objeto desertado pela vida; é o homem
que, unido à mulher, sente-se duplamente presente - digamos, como um
hermafrodita -, o que constitui um apagamento da ferida sentida no mo­
mento da castração primária. Ele experimenta em todo coito um apazigua­
mento erótico e narcísico total, característico do gozo. Mas esse apazigua­
mento coital em nada pressupõe o estabelecimento de um vínculo simbólico
duradouro com esta ou aquela mulher que tenha sido sua por um instante.
Portanto, o homem pode representar ao mesmo tempo sua homossexua­
lidade arcaica e sua heterossexualidade com uma mulher, numa sensação de
prazer completo, sem nenhuma consideração pela pessoa e pelas emoções
daquela com quem pratica o ato sexual.
Do ponto de vista de seu narcisismo, o homem não sente o desamparo
da solidão enquanto consegue trabalhar, criar e aplacar seu desejo sexual, qual­
quer que seja sua parceira, mesmo que não a ame com amor nem com amân­
cia. Ele sustenta seu narcisismo e seu corpo pelo exercício de seu represen­
tante fálico, do qual é testemunha no próprio corpo (o pênis, objeto parcial,
é, em seu funcionamento, aos olhos do homem, a garantia de sua virilidade;
e, na aceitação de uma mulher de praticar o coito com ele, como com qual­
quer outro parceiro, no espelho que essa mulher assim lhe estende, ele se vê
sob um prisma favorável , desde que possa observar nesse espelho a imagem
de uma sedução que não desapareceu e que ele pode continuar a exercer, pois
todo coito, mesmo que seja a simples realização de um cio sem participação
simbólica, lhe reafirma o poder de uma virilidade intacta). É que sua erectibi­
lidade e a penetração na mulher, seguidas pelo orgasmo ejaculatório, são, a
seus olhos, garantias de sua potência.
A mulher, ao contrário, pode sentir o desamparo da solidão mesmo quan­
do seu corpo e seu sexo são desejados e satisfeitos por um homem na relação

291
NO JOGO DO DESEJO

sexual. Ela vivencia esse desamparo em dois tipos de situações emocionais:


primeiro, quando o homem não sente amância por ela, isto é, quando não a
conhece em sua especificidade de sujeito, fora do coito em que ele busca e en­
contra seu prazer, embora seja ela, como objeto, que lhe faculte esse prazer,
e às vezes manifeste que ele o proporciona; e segundo, quando ela não ama
seu parceiro nem outro homem com amor. No coito com um homem que lhe
é indiferente, tanto na amância quanto no amor, o corpo da mulher, enquanto
lugar de seu narcisismo, como que se mantém numa dignidade preliminar;
e é sempre valorizado como objeto pelo desejo de qualquer homem, nem que
seja por apenas um instante, o instante do coito; trata-se de um valor nar­
císico que, por vezes, provém do simples fato de ela ser escolhida por ele para
obter seu prazer. Mas, nesse caso, ela se sente um objeto, e o sujeito que a
habita fica solitário, privado das trocas lingüísticas feitas de prazeres sutis
compartilhados, que caracterizam todo encontro autêntico entre dois sujeitos.
Para a mulher, quando sua feminilidade só é valorizada pelo reconhecimen­
to exclusivo de seu sexo, o prazer que a união sexual lhe assegura é referido
- pela presença do parceiro - ao falo, graças à mediação do objeto erótico
parcial, o pênis do homem; seu narcisismo atual e imediato se preserva, mas
não seu narcisismo passado (lembrança) e futuro (projetos), ou seja, tudo aqui ­
lo que valoriza um ser humano, não como objeto, mas como sujeito de sua
história.
É por isso que, mais do que os homens, as mulheres são apanhadas na
armadilha de seu desejo genital, pelo prazer que retiram dele e por seu valor
reconhecido pela sociedade, sobretudo quando sua libido anal não está em­
penhada, além disso, num trabalho reconhecido como válido. Elas são em­
boscadas pela ligação erótica arcaica, pseudofilial, que sua ligação com um
homem pode significar. Desempenham então o papel de objeto sexual passi­
vo, servas do desejo peniano ativo do homem, que só acalma nelas as tensões
físicas. Podem ser emboscadas- por uma ligação erótica arcaica com os filhos,
sendo seu desejo consciente confundido com o amor materno. Da mesma for­
ma que, na época da entrada no Édipo, os fetiches representavam a relação
perdida com a mãe, o amor materno, nesse caso, é perverso, pois os filhos na­
da representam para a mãe além de fetiches de um desejo de maternidade não
satisfeito por seu pai . Esse luto não elaborado suscita a transferência, para um
parceiro infantil ou animal (por seu comportamento), do desejo de intromis­
são do pênis paterno e de fecundação por ele. Quando se tornam mães nessa
solidão amorosa e nessa frustração de seu desejo genital, elas ficam reduzidas,
para não perder tudo de sua sexualidade genital imaginária e daquilo que ain-

292
AMÂNCIA E AMOR

da constitui sua dignidade de mulheres responsáveis na sociedade, a regredir,


no que concerne a sua libido, para o investimento do próprio corpo e da "casa",
assim como para uma possessividade em relação a seus bens materiais e a seus
descendentes, que se exerce em detrimento da evolução pessoal e da sexuali­
dade genital deles, passando o desejo e o amcr a ser experimentados apenas
como um vazio. É a angústia da solidão, e de uma sexualidade feminina sem
a satisfação do amor compartilhado, que as embosca, assim, numa pseudo-fi­
delidade mutiladora.
Quando um homem de corpo adulto não ama ou não é amado, restam­
lhe seu corpo fálico e seu pênis fálico, ambos na realidade. O funcionamento
de seu sexo, no corpo-a-corpo dos coitos sem amância nem amor pelo obje­
to-parceira, preserva seu narcisismo (no espelho, quando se refere ao corpo de
um homem, e de um modo complementar fusional, quando se refere ao de
uma mulher). Assim, o homem é assegurado da perenidade de seu pênis, do
funcionamento eréctil e ejaculatório desse pênis erógeno, representante real
e narcisizado de seus vínculos imaginários com todos os objetos de sua amân­
cia desde a infância, assim como com o objeto parental primeiro de seu amor,
ligado à amância da época arcaica de sua vida. Podemos até dizer que, para a
sexualidade masculina, a masturbação, no caso de falta do objeto na realidade,
é passível, ligada a uma simples imagem, na ausência do corpo de uma par­
ceira real, de preservar o narcisismo do homem, no momento do funciona­
mento da descarga espermática que alivia as tensões localizadas em seu sexo.
Tanto que, no homem, quando ele é sadio no corpo, quando tem ocupações
físicas, exerce um papel socialmente satisfatório e tem um sexo que funciona,
o narcisismo se preserva e a solidão não é um infortúnio tão grande quanto
pode ser para uma mulher nas mesmas condições. A menina, com efeito, só
é referida ao falo por seu corpo, que ela investe de coquetismo (narcisismo do
rosto e da pessoa); mas, para seu sexo, é-lhe necessário um outro na realidade,
no qual seu desejo e seu amor fixem sua libido. Caso contrário, o desejo em
seu sexo confunde-se com suas necessidades, e o desejo de encontro pode sus­
citar nela apenas o desejo de seu próprio encontro coquete no espelho. Para a
menina que se tornou adulta do ponto de vista genital, uma referência ape­
nas imaginária é desestruturante e não sustenta o narcisismo de seu sexo. Além
disso, sem a resposta, na realidade, de um ser humano masculino que a dese­
je e que com ela satisfaça seu desejo sexual, a masturbação não lhe pode dar
o sentimento de reparação narcísica que comporta no homem. É-lhe necessário
ter um objeto simultaneamente de amância e de desejo, pois, com muito mais
facilidade do que o homem, ela está sujeita à regressão de seu desejo a posições

293
NO JOGO DO DESEJO

infantis narcísicas, a imagens dela própria ou de representantes dela mesma


(tanto hetero quanto homossexuais) quando criança. Tal é, na mulher, a ar­
madilha da maternidade, quando ela não está presa a um homem pelo dese­
jo e pelo amor. dele. A solidão, nos casos em que o coração da mulher não se
fixa na realidade num objeto fálico simbólico, ou, por outro lado, num obje­
to mediador do falo simbólico, gera nela o desamparo, com muito mais rapi­
dez do que no homem.
Há um outro recurso, tanto na mulher quanto no homem: é a subli­
mação das pulsões genitais. Mas essa sublimação só pode ser feita quando a
resolução edipiana marcou uma menina que fora anteriormente estrutura­
da, no tocante à genitalidade, por um amor pelo pai, e quando a resolução
edipiana permite grandes sublimações das pulsões arcaicas numa obra de
impacto social.
Podemos concluir deste trabalho sobre a amância e o amor, nos dois se­
xos, que a amância e o amor são necessários para a mulher, ao passo que o
homem pode contentar-se com a amância, sem se sentir frustrado. Os homens
castrados na infância dispõem, na vida, de meios para lutar contra o senti­
mento de frustração. As mulheres, quando duplamente castradas do pênis e
de um objeto que, referido ao falo simbólico, concentre seu amor, ficam su­
jeitas a sentimentos de frustração que sempre têm um efeito regressivo e des­
trutivo para seu narcisismo, ou seja, para sua coesão psicossomática. Isso talvez
explique o fato de a somatização ser um distúrbio da pessoa em fase de es­
truturação, comum nas crianças; talvez também explique porque, dos sete a
oito anos até a puberdade, os distúrbios psicossomáticos são muito mais fre­
qüentes nos meninos que nas meninas; e finalmente, a partir da puberdade,
os distúrbios psicossomáticos são muito mais difundidos nas mulheres que
nos homens: provas de um estado de frustração que age sobre o corpo no fun­
cionamento das necessidades, confundido com o objeto de um desejo que não
consegue transferir-se para um objeto externo a ela, para fixar sua relação com
o falo na realidade e no imaginário. As somatizações e os distúrbios funcionais
são então atribuídos, com desconcertante facilidade, às menstruações ou a seu
substituto moderno, a contracepção - ou seja, ao lugar visceral, campo do
falo imaginário. A função simbólica age projetando no soma a linguagem que
não tem um objeto com que se relacionar. A dor que investe as vísceras pro­
fundas das regiões do corpo permite às mulheres escapar do desamparo da
solidão, dando-lhes um objeto parcial de que cuidar dentro delas, corno alvo
de suas preocupações. As mulheres que já não têm filhos para criar, e que não
têm relações sexuais nem amorosas com um objeto masculino que as ame e

294
AMÂNCIA E AMOR

corresponda a sua ternura, cuidam de sua doença, que é sempre um pouco


mal de amor e que lhes serve de filho-fetiche a enaltecer. A doença psicos­
somática, nessas mulheres frustradas, torna-se objeto de transferência, tanto
do pênis do homem que lhes falta quanto do filho de quem elas se sentem
carentes.

295
F i g u ra determ i n a nte da Psica n á l i s e na
F ra n ça , F ra n çoise Dolto reu n i u neste l ivro
artigos, estudos e conferências - produzidos ao
longo de 30 a nos - que refletem, de maneira
representativa, seu itinerário como psicanal ista
de adu ltos e crianças.
Na diversidade desses ensaios estuda-se a
d istinção entre necessidades e desejos, tão facil­
me nte confu nd idos tanto no imagi nário da mãe
e dos educadores quanto no da criança. Revela­
se que a mola da h um a n ização reside no reco­
nhecimento do desejo, e não em sua satisfação,
que fica reservada apenas às necessidades . Mais
a inda, evidencia-se que o domínio que o adu lto
exerce sobre seu próprio desej o é a questão a
que cada criança o submete ao longo de toda a
educação.
N u m a a bordagem c l a ra de temas q u e
aj udam a esclarecer d istúrbios de comporta­
mento a presentados por cria nças, adolescentes
e adultos, Fra nçoise Dolto aponta os ca m i n hos
para uma educação construtiva, a ser posta em
prática a partir das pri meiras horas de vida do be-
bê, despertando na criança a noção de que ela
exi ste como sujeito de seu desejo.�