Você está na página 1de 5

António Contador

Hugues Decointet
Simeon Nelson
Pedro Penilo
Anabela Santos
Julião Sarmento
Carlos Sousa

Curadoria
Mário Caeiro

objet perdu
28.01.2010 – 13.03.2010
PLATAFORMA REVÓLVER

Objet Perdu. A arte que é contemporânea suspeita da relevância dourada que a indústria lhe
oferece. Prefere o caminho da imaginação (Marcuse), resistindo à mercantilização da sua
processualidade e aferindo o seu valor enquanto estratégia cognitiva. Ela irrompe com um sentido
de auto-poiesis que a projecta para a escuridão do futuro. Ela é o território da autosuficiência do
dispositivo. Sacrifício e perda, esta é a arte que se perde para (não) se encontrar.

objet perdu
Segunda a Sábado das 14h00 às 19h30
Rua da Boavista 84, 3.º | 1200-068 Lisboa
T.: +351 213 433 259
M. +351 961 106 590
plataformarevolver@gmail.com
www.artecapital.net/plataforma.php
Nota sobre os artistas e as obras

Na PLATAFORMA, a arte é um campo de encontros, linguagem em aberto, ideia em construção. A dimensão íntima do
espaço convidou a uma exposição radicada na ideia de objecto, da obra de arte ancorada num circuito simbólico em que
conhecimento, partilha, comentário, decorrem na proximidade de objectos particulares. Objet Perdu é uma exposição
que labora a partir daquela premissa, mas tomando-a como um território contingente, em que um par de referências e
hipóteses, deixadas em suspenso – como num aforismo, ou num poema –, colocam cada obra em diálogo não apenas com as
outras, com o espaço e a sua identidade, mas ainda com um argumentário acerca da contemporaneidade da arte.

Pedro Penilo tem uma já longa carreira nas artes visuais e intermedia – é um artista consagrado no quadro dos anos 90 da Arte
Checa. Em Portugal tem apresentado projectos diversos, sempre constituindo uma reflexão – e uma intervenção – no campo da
comunicação como território sígnico, destacando-se a sua reinvenção quotidiana da linguagem dos pictogramas e a sua
crítica acutilante do modus operandi dos media. A instalação anunciação, afeganistão, construída com folhas de jornal
manipuladas, constitui um novo comentário crítico do autor à subversão pelo capitalismo da missão original da
comunicação social. Para Penilo, o empório mediático, monopolista e global substituiu a narração e explicação
dialéctica da realidade pela produção de realidade, pela sua própria narrativa e auto-explicação através dos
dispositivos da esteticização, da mutilação, da codificação e da artificialização, ou seja, da reprodução de ideologia.
António Contador como Penilo, move-se na percepção performativa dos afectos e do
envolvimento generoso do intelectual na esfera pública. Apresenta seis discos de vinil 45 rotações, contendo a leitura de
outros tantos postais da Praia da Rocha, em Portimão, datados de entre 1919 a 1971.
Hugues Decointet, francês, reflecte sobre o estatuto da imagem em movimento enquanto modalidade da cultura visual. O
seu projecto Branca de Neve, dedicado a César Monteiro (e Robert Walser), em pré-produção desde 2004, é uma
aproximação às possibilidades ainda inexploradas do cinema. Screen Paintings, apresentada pela primeira e única vez na
FIAC em Paris, em 2006, é uma instalação vídeo e luminosa que desloca certas noções do cinema para a pintura: o écran
revela-se uma tela; a luz da projecção torna-se uma forma colorida fixa; os desenhos de palavras tornam-se imagens
animadas. Trata-se de um conjunto de telas sobre as quais se encontram pintadas formas monócromas: impressões da
projecção de imagens vazias, fixas, de um filme projectado a partir de ângulos ligeiramente diferentes. O artista pintou
estas formas com uma tinta especial invisível à luz natural: as telas são aparentemente brancas. Mas, colocadas na
obscuridade e iluminadas por raios ultravioletas (‘Luz Negra’), os quadros tornam-se objectos luminosos.
Simeon Nelson é britânico, residindo em Londres. É docente de Escultura na Universidade de Hertfordshire. Durante
uma residência artística na Royal Geographical Society, que durou 15 meses, investigou milhares de mapas, os mais
antigos já do século XV. A partir de uma abordagem dos mapas que consideram localizações físicas para lugares míticos,
assim como da evolução da cartografia ocidental, nasceria o projecto «Cryptosphere», que o artista encara como «a soma
de toda a informação retida e escondida num determinado sistema». Neste seu corpo de trabalho, é particularmente
importante a localização kairótica do mitológico e do ornamental no mundo temporal. Cryptosphere é uma estrutura
arquitectural inspirada na cartografia, procurando criar ornamentos que a estrutura modular permite transformar numa
forma de ocupação extremamente versátil do espaço – um não-lugar ambíguo, part of and yet not part of the Earth…
Carlos Sousa concluiu recentemente o Curso de Artes Plásticas na ESAD.CR. O seu trabalho introduz no quotidiano da
nossa relação com os dispositivos um conjunto de situações-limite, construídas como formas de ‘redenção do acaso’. O
artista mostra uma obra nova, após a recente exposição individual Do robots have electric dreams?, realizada na
Biblioteca FCT-UNL no Campus de Caparica, igualmente com curadoria de Mário Caeiro.
Anabela Santos concluiu em 2008 o Curso de Artes Plásticas da ESAD.CR. Em 2009, integrou a colectiva
TERROIR/GRAFFITTI, na Biblioteca FCT-UNL, em que apresentou os novos desenvolvimentos do seu trabalho sobre o
tema da pena/leveza. Anabela Santos define assim o seu trabalho actual: Fixa no próprio movimento, a pena perde-se
num encontro entre ela e o olhar do espectador. Um destino uma origem, um passo de queda numa elevação, um peso
afeiçoado à sua leveza; questões ou afirmações que se perdem ou se encontram, numa linguagem onde permanece um
misterioso caminho que agarra a leveza para esta não cair. Na exposição, apresenta uma de uma série de três serigrafias
de grandes dimensões e um conjunto de gravuras/desenhos a caneta sobre papel.
Julião Sarmento é um dos mais incontornáveis artistas portugueses, com uma carreira internacional afirmada já desde
os anos 80. A sua linguagem sugestiva mas despojada, o seu sentido da encenação do corpo e do erotismo, o rigor
conceptual e uma constância que nunca chegou a transformar-se em academismo, conferiram ao seu trabalho um carácter
icónico que por vezes impede a informalidade de novos encontros com uma obra particularmente aberta à interpretação.
Peça variável – 5 intervenientes, integrou a Alternativa Zero em 1977. Pela tónica na processualidade, pela
dispersividade do seu gesto artístico, a obra integra-se perfeitamente numa ideia de arte de vanguarda tal como esta era
entendida na viragem para os anos 80. Constituindo uma abordagem oblíqua e convivial dos temas do corpo e do desejo
que marcarão a carreira do artista, o que importa para esta mostra é que ela explicita a hipótese de uma meta-
discursividade sobre a dimensão social característica da arte contemporânea. A sua inserção na mostra é ainda uma
homenagem a Ernesto de Sousa, precisamente o operador estético que afirmou em Portugal, com a Alternativa Zero, a
exposição colectiva como modelo curatorial crítico.
Lista de obras em exposição

ANTÓNIO CONTADOR

Praia da Rocha, 2009


6 discos-postais de 45 rotações da Praia da Rocha (1919-1971)
18X18 cm Capas PVC, 19,5X19,5 cm
Masterização: José Moz Carrapa/2009

6 postais da Praia da Rocha em Portimão que vão de 1919 a 1971 lidos por Davide Balula, Inês Vasques, José Sandoval, Laurence Perrillat, Inês Amado &
Pedro Viana e Sílvia das Fadas em 2009. As leituras foram gravadas. As gravações foram masterizadas por José Moz Carrapa e depois impressas em disco de
vinil 45 rotações a um exemplar cada.

HUGUES DECOINTET

Screen Paintings
Uma instalação vídeo luminosa, 2006-2010
Pinturas em photocryl sobre tela (80 x 120 cm), lâmpadas UV, projecção de vídeo digital, loop 1’30’’, dimensões variáveis

SIMEON NELSON

Cryptosphere, 2008
Contraplacado recortado a laser, folha de aço galvanizada 0.6mm 700 cm(c) x 200 cm(a) x 500 cm(l)
Cryptosphere resultou de uma residência artística na Royal Geographical Society em Londres, no ãmbito de um projecto com curadoria de Jordan Kaplan /
Parabola.

PEDRO PENILO

anunciação, afeganistão, 2010


Técnica mista, papel de jornal

ANABELA SANTOS

Série #9, 2009


Gravura e caneta sobre papel, 15 x 21 cm

Vazio #9, 2009


Serigrafia em papel fabriano, estrutura em aluminio.150 cm x 850 cm

Pena de chumbo, 2007


(parte do processo / exercício)
Materiais diversos, dimensões variáveis

JULIÃO SARMENTO

Peça variável – 5 intervenientes, 1976


Folhas de papel dactilografadas, com fotografias e desenhos montados num painel 97,2 x 347,5 cm
Col. Isabel e Julião Sarmento, em depósito na Fundação de Serralves – Museu de Arte Contemporânea, Porto.

CARLOS SOUSA

Clas A CL 25W 230V e27, 2010


160 x 55 x 45 cm x2. Estruturas de madeira, câmara de vídeo, TV, lâmpada incandescente 25W, sensores de movimento
Objet perdu. Ao encontro do infinito da arte short edit

Objet trouvé. No jargão artístico, a expressão evoca uma solução imprevista que culmina uma demanda plástica. É uma
súbita manifestação formal da serendipidade de um processo mais ou menos inconsciente. Na sua imediaticidade, o
termo não deixa porém de pressupor a possibilidade de a arte ser um processo de achamento. E aí é um argumento, ou
até um programa, acerca de como a arte surge, se configura e se institui.
Desde a deriva conceptual que o que mais importa na arte não são os objectos que o imaginário da história vai
consagrando, sob a forma de espectros retinianos, mas sim a sua artisticidade, uma qualidade de artefacto e de produção
artísticos que exige a compreensão simultânea da complexidade da sua contingência e processualidade. Parece-me que a
missão da arte, o seu desígnio cultural e civilizacional, aparece cada vez mais como uma ideologia de encontro com o
mundo que a este se impõe como simultaneidade de impulso vital, labor e instituição, e em que a obra não é coincidente
com o objecto.
Na arte, a articulação conceito/objecto, de acordo com determinadas configurações que os artistas propõem, realiza o
sortilégio de expandir o carácter confinado que tendemos a associar à representação, à objectificação. Entre a ansiedade
mística da criação e o controlo estético do encontro (o dispositivo), a arte é a aparição de um acontecimento cuja
operacionalidade é medida pela capacidade de atingir o estatuto de cognição. Importa portanto que a arte assuma o seu
carácter de linguagem e surja como ferramenta e como ofício de encontro com o mundo, dispositivo que afirma a sua
própria legitimidade.

Objet perdu. Ao reunir este conjunto de artistas e obras num projecto de exposição, tive a intenção de objectivar o que
atrás sugiro ser a essência da própria arte contemporânea. Com efeito, a ideologia dominante na contemporaneidade
confere ao objecto um sentido que passa por atribuir à arte um papel específico no/como mercado, na/como indústria
cultural, na/como comunicação. Mas não deixa de fazer parte da experiência da contemporaneidade o exigir-se à fruição
cultural que o espectador seja convidado a elaborar, a partir do seu próprio entendimento das obras, um argumentário, o
argumentário crítico e construtivo de que as obras se tornam a manifestação. Assim, quando se me impôs colocar as
obras num argumentário persuasivo, era minha intenção valorizar nos objectos a expor não a sua inscrição num
continuum histórico – o de uma qualquer genealogia estética, nomeadamente face ao objet trouvé –, mas captar, na
sincronia, o seu ethos de laboração mimética.

Em «What is the Contemporary?» [What is an apparatus?, Stanford, 2009], Agamben recorre à imagem do céu
estrelado para definir como contemporâneo [aqui o artista] aquele que não se deixa encandear pelos pontos
luminosos, mas concentra a sua atenção no escuro do firmamento. Consciente, de acordo com a Astrofísica, de
que nesse negrume há tantas ou mais luzes, que apenas não são visíveis porque se afastam mais rapidamente do
que a velocidade da luz que emitem, tal artista tem por referente algo que sabe existir mas que por alguma razão
os do seu tempo são incapazes de conceber, ou que preferem ignorar: To perceive, in the darkness of the present,
this light that strives to reach us but cannot – this is what it means to be contemporary […] to be contemporary is a
question of courage, because it means being able not only to firmly fix your gaze on the darkness of the epoch, but
also to perceive in this darkness a light that, while directed toward us, infinitely distances itself from us. A produção
cultural e artística surge então portanto como acção mais ou menos relevante na medida em que relativiza os valores do
seu tempo e nesse tempo inscreve uma ansiedade única e particular, apontada ao vazio. Segundo Nietzsche (e Barthes), o
sentido cultural da relevância, quando olha com ansiedade crítica o negro no céu, implica a imediata constatação da
irrelevância da proposição do seu saber, uma vez que opera de acordo com valores que a sociedade do seu tempo não é
capaz de vislumbrar. Acerca daqueles que são genuinamente contemporâneos, afirma Agamben: They are thus in this
sense irrelevant [innatuale]. But precisely because of this condition, precisely through this disconnection and this
anachronism, they are more capable than others of perceiving and grasping their own time. Em concreto, e seguindo a
lógica de Agamben, o artista tem de desconfiar do reconhecimento para se manter não relevante, mas precisamente
irrelevante. Só assim persiste uma voz do futuro e do que vem.

Somos portanto criadores contemporâneos na exacta medida em que soubermos ser ao mesmo tempo, e de acordo com
diferentes contextos e situações, relevantes e irrelevantes. É a atenção à emergência desta consciência específica do
anacronismo que nos permite traçar de forma dinâmica um percurso e nos define a posição, sempre relativa, perante o
nosso tempo. A expressão objet perdu encadeia assim a filiação dada-surrealista, o contexto institucional da proposta e o
humor do desencontro com a contemporaneidade, no anacronismo de um trocadilho.

Daí que a obra que escolhi de Julião Sarmento, surja hoje, no a posteriori da minha anamnese, como um ‘achado’, um
momento epifânico. Ela personifica o carácter da condição artística como contemporaneidade.
Peça variável – 5 intervenientes [1976; Alternativa Zero, 1977] ostenta já o traço característico da encenação do corpo
que determinará o cerne da obra futura de Julião. Ela é uma aproximação ao tema do desejo e da sua encenação que
caracterizará as suas intervenções de afirmação e maturidade. No contexto da minha abordagem do infinito da arte, a
peça é porém particularmente interessante porque é o artista a inscrever a sua identidade através da visão que os outros
têm dele. Nela, a multiplicidade dos olhares aprofunda a dimensão performativa de um auto-retrato caleidoscópico.
Enquanto auto-retrato conceptual – autopoiético –, revela uma instrumentalidade do próprio campo da arte, com um
sentido que o tempo confirmaria. Peça… é um postulado que alia o exercício existencial a uma estratégia cognitiva de
achamento de uma função para a arte.

Ainda que o despojamento formal de Julião Sarmento aparente nada ter a ver com a dimensão ornamental de um trabalho
que literalmente enche o olho, não é assim tão diversa a investigação de Simeon Nelson. Uma peça como Cryptosphere
(Mapping Paradise) [2008] é, tal como a de Sarmento, uma reacção retórica ao constructo social. Sustentada pelo
exercício do ornamental, do modular, da cientificidade da harmonia, Cryptosphere descarta na sua retórica kairótica
todos os elementos supérfluos para contrapor às veleidades da ciência cartográfica uma modalidade críptica do desenho e
da própria tradição escultórica. Ao projectar a hipótese de uma validade do ornamento e da própria arte no território
exclusivo da cultura científica, Nelson, afinal como Sarmento, também ele dá o seu tiro no escuro cognitivo.

Esta qualidade epistemológica – cujo alcance é a posteridade que confirma –, é menos evidente no regime de laboriosa
maturação que caracteriza os dois artistas mais jovens nesta mostra, Anabela Santos e Carlos Sousa. Isso poderá dever-se
à manifesta discrição com que ambos empreendem os seus projectos, em consciência de que o seu encontro com a sua
própria obra pode ainda não estar completamente consumado. Mas quero crer que isso se deve antes do mais ao facto de
que muito cedo interiorizaram uma convicção acerca dos respectivos processos de produção. O que procuram é o
encontro sempre renovado com a sua techne, que não abdica da eventualidade de uma metafísica do artifício.

Nestes termos, talvez os discos de António Contador os jornais de Pedro Penilo surjam mais enfáticos a comentar o
perdu da metáfora curatorial.

As memórias afectivas da Praia da Rocha são despojos de um real definitivamente perdido, cuja dimensão política é
exponenciada pela atenção poética ao referente humano. Na intimidade do espaço de exposição, funcionam como
exercícios sociológicos, cujo objecto de investigação é um real definido como palco de tensões sócio-culturais.
Estabelecendo uma continuidade evidente com a arte pública, esta intervenção de câmara reflecte a consciência de como
no mundo há constantemente algo que se perde (os objectos da nossa nostalgia) e algo que se encontra (a obra de arte
como inscrição emancipada). Aqui a consciência inscreve-se como mecanismo de comunicação, no território
eminentemente mental – e abstracto – da linguagem política; na concatenação de escritas e vozes de diferentes tempos,
sugere a importância micro-política da memória.

Também Pedro Penilo propõe uma reflexão crítica acerca da alienação. anunciação, afeganistão é um manifesto gráfico
que denuncia a neutralidade dos media, apresentados como maquinação de uma distância dramática que se interpõe entre
o real como entendimento do mundo e o mesmo mundo reduzido a um jogo de obscuridades e manipulação.
Apresentando-se como a reinvenção quotidiana do ciclo dos signos e dos símbolos, a peça pressupõe a fé do artista na
cadeia de comunicação, ainda que a consciência da justeza da luta não o impeça de permanecer no território de
irrelevância que a arte lhe assegura. O carácter artesanal da instalação confirma uma posição que projecta o activismo na
outridade do ofício artístico e já não na busca ilusória das vitórias meramente mediáticas que o tardo-capitalismo
cinicamente concede. Em Penilo, mas também em Contador, a diferença constrói-se num distanciamento face ao
mainstream e à sua ideologia.

Finalmente, regresso a Agamben para comentar a instalação de Hugues Decointet. O que pode interessar na arte
contemporânea contemporânea é a sua capacidade de citar o que no passado e no distante tem condições para encontrar
voz e forma num discurso autocrítico. O que importa é a arte recriar constantemente genealogias, olhos postos no infinito
do seu referente. Nada surpreendentemente, também nesta peça a serendipidade fez das suas. Apercebi-me, já depois de
seleccionada – aliás já durante a revisão deste texto… –, que os versos de Baudelaire que surgem nos écrans são de um
premonitório poema que anunciava, 25 anos antes da sua invenção, o cinema! Confirmava-se, in extremis, o sentido
desta obra na exposição. Ela representa o território da luz. Numa mostra que é no essencial, e propositadamente, de
objectos inanimados, ela é um cabinet apontado à intemporalidade sedutora do movimento.

Mário Caeiro Docente na Escola Superior de Artes e Design das Caldas da Rainha