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DOS CRIMES CONTRA A HONRA

FASETE
MAURILO SOBRAL
maurilosobral@gmail.com
NOÇÕES INTRODUTÓRIAS
 Honra subjetiva versus honra objetiva
 Diferença entre calúnia, difamação e injúria:

Calúnia Difamação Injúria

Imputar a alguém a Imputar a alguém a Ofender a dignidade, o


prática de um fato prática de um fato decoro de alguém com
criminoso específico (não criminoso) a atribuição a ela de
que a pessoa não ofensivo a sua conceitos negativos
cometeu reputação (fere-se a honra
(fere-se a honra (fere-se a honra subjetiva- estima
objetiva) objetiva) própria)
CALÚNIA
 “art. 138: Caluniar alguém, imputando-lhe
falsamente fato definido como crime”
 Responde pela mesma pena aquele que propala ou
divulga a calúnia.

A conduta criminosa consiste em imputar falsamente a


alguém a prática de um crime.
- a imputação deve ser falsa;
- deve ser imputação de um crime (não podendo ser de
uma contravenção)
Aquele que propala ou divulga – leva ao conhecimento
de outras pessoas.
ELEMENTOS DO TIPO DE CALÚNIA
 Sujeito ativo: qualquer pessoa
 Sujeito passivo: qualquer pessoa que possa praticar “fato
definido como crime”
- A questão dos inimputáveis:
Entende que podem ser sujeito passivo: Bitencourt,
Mirabete e boa parte da doutrina contemporânea.
- A questão da pessoa jurídica:
Hoje se admite a capacidade penal de pessoas jurídicas (CF,
art. 225, § 3° e art. 173, § 5°), de modo que ela poderia
figurar como sujeito passivo. Decisões em vários sentidos
nos tribunais.
OBS: Pune-se a calúnia contra os mortos (mas o suj. passivo
é a família)
 Objeto jurídico: a honra
ELEMENTOS DO TIPO DE CALÚNIA
 Elemento normativo: “falsamente” -> o acusado
pode querer provar que o fato é verdadeiro,
informando que ele ocorreu e que a pessoa
imputada efetivamente é a responsável
 Elemento subjetivo: dolo (intenção de caluniar)

 Consumação: quando terceiro que não a vítima


tomar conhecimento do fato, porque o que se
protege é a honra objetiva!
A EXCEÇÃO DE VERDADE
 Vimos que o acusado pode provar que o que
imputa a pessoa é verdadeiro. Como faz isso?
Um dos meios é a exceção, uma “forma de defesa
indireta, pois não atacam o núcleo do caso penal”
(LOPES Jr, 2012, p. 512).

 Através da exceção de verdade, o sujeito


que caluniou pode provar que a pessoa
realmente praticou o crime.
O ELEMENTO SUBJETIVO DO INJUSTO: O
ANIMUS CALUNIANDI

 Para se configurar o crime contra a honra, é


necessário que haja o animus de ofender, não se
punindo, conforme a doutrina, Animus jocandi,
animus narrandi, animus defendendi etc.
O ADVOGADO E OS CRIME CONTRA A
HONRA

 ESTATUTO DA OAB:
Art. 7° -
§ 2º O advogado tem imunidade profissional, não
constituindo injúria, difamação ou desacato puníveis
qualquer manifestação de sua parte, no exercício de sua
atividade, em juízo ou fora dele, sem prejuízo das
sanções disciplinares perante a OAB, pelos excessos que
cometer. (Vide ADIN 1.127-8)
 CF:

Art. 133. O advogado é indispensável à administração


da justiça, sendo inviolável por seus atos e
manifestações no exercício da profissão, nos limites da
lei.
O ADVOGADO E OS CRIME CONTRA A
HONRA
 3. Nos crimes contra a honra, é imprescindível a demonstração da
intenção de ofender ou, no caso da calúnia, de se imputar a prática
de crime. 4. A informação de que a impetrante do mandado de
segurança era esposa de servidor do gabinete do juiz-querelante foi
trazida pelo paciente no contexto da defesa elaborada em favor de seu
cliente e de modo objetivo, não se extraindo dela a imputação de
prática de crime pelo magistrado. 5. A configuração do delito de
calúnia exige a imputação expressa de prática de crime, cuja
falsidade é de conhecimento daquele que faz a assertiva. 6.
Atipicidade e falta de justa causa no tocante à calúnia configuradas.
7. É entendimento pacífico que o advogado, na sua atuação, não
comete os crimes de injúria e difamação, por força da imunidade que
lhe é conferida pelo art. 7º, § 2º, da Lei n. 8.906/1994 (Estatuto da
Ordem dos Advogados do Brasil). 8. Situação, ainda, em que, embora
o advogado tenha se utilizado de forte retórica em sua petição, dela
não se extrai nenhuma intenção dolosa de macular a honra objetiva
ou subjetiva do querelante, sendo as críticas restritas à decisão
impugnada e à sua atuação no processo. (STJ, HC 213583 / MG, Dje.
06.08.12)
JURISPRUDÊNCIA -ADVOGADO
Ementa: HABEAS CORPUS - CALÚNIA CONTRA
FUNCIONÁRIO PÚBLICO EM RAZÃO DE SUAS
FUNÇÕES - IMUNIDADE - IMPOSSIBILIDADE -
TRANCAMENTO - CONCEDIDA A ORDEM.
1- A imunidade concedida aos advogados pelo artigo 133, da
Constituição Federal não abrange o crime de calúnia,
conforme entendimento desta Corte.
2- O crime de calúnia não se configura quando não há
ação dirigida com o fim de atingir a honra da vítima,
não havendo, desta forma, intenção de caluniar.
3- Concedida a ordem. (HC 96763 / RS - Relator(a):
Ministra JANE SILVA (DESEMBARGADORA CONVOCADA
- Data do Julgamento: 22/04/2008) (grifos nossos)
Dessa forma, diante da atipicidade da conduta a turma, por
unanimidade, concedeu a ordem.
NÃO SE ADMITE A EXCEÇÃO DE VERDADE
 § 3º - Admite-se a prova da verdade, salvo:
 I - se, constituindo o fato imputado crime de ação
privada, o ofendido não foi condenado por
sentença irrecorrível;
(em outros termos: o ofendido foi absolvido por
sentença recorrível)
 II - se o fato é imputado a qualquer das pessoas
indicadas no nº I do art. 141; (presidente da
república e chefe de estado estrangeiro)
 III - se do crime imputado, embora de ação
pública, o ofendido foi absolvido por sentença
irrecorrível.
NÃO SE ADMITE EXCEÇÃO DE VERDADE
 Isso quer dizer que a pessoa que caluniou não
pode tentar provar por outro meio que as
imputações são verdadeiras?
DIFAMAÇÃO
 “Art. 139. Difamar alguém, imputando-lhe fato
ofensivo a sua reputação”

A conduta incriminada consiste em atribuir a


alguém um fato que denigre a sua honra objetiva.
O fato não é criminoso, embora possa ser uma
contravenção.
ELEMENTOS DO TIPO DE DIFAMAÇÃO
 Sujeito ativo: qualquer pessoa
 Sujeito passivo: qualquer pessoa.
- A questão da pessoa jurídica:
Discussão jurisprudencial!
“Pela lei em vigor, pessoa jurídica não pode ser sujeito
passivo dos crimes contra a honra previstos no C. Penal.
A própria difamação, ex vi legis (art. 139 do C. Penal),
só permite como sujeito passivo a criatura humana.
Inexistindo qualquer norma que permita a extensão da
incriminação, nos crimes contra a pessoa (Título I do C.
Penal) não se inclui a pessoa jurídica no pólo passivo e,
assim, especificamente, (Cap. IV do Título I) só se
protege a honra das pessoas físicas. (Precedentes).
Agravo desprovido. (STJ, AgRg no Ag 672522 / PR,
Des. Rel. Felix FISCHER, d. j. 04.10.05)”
LEGITIMIDADE - QUEIXA-CRIME - CALÚNIA - PESSOA JURÍDICA -
SÓCIO-GERENTE. A pessoa jurídica pode ser vítima
de difamação, mas não de injúria e calúnia. A imputação da prática
de crime a pessoa jurídica gera a legitimidade do sócio-gerente para a
queixa-crime por calúnia. QUEIXA-CRIME - RECEBIMENTO -
ESPECIFICAÇÃO DO CRIME. O pronunciamento judicial de
recebimento da queixa-crime há de conter, necessariamente, a
especificação do crime. AÇÃO PENAL PRIVADA - INDIVISIBILIDADE.
A iniciativa da vítima deve direcionar-se à condenação dos envolvidos,
estendendo-se a todos os autores do crime a renúncia ao exercício do
direito de queixa em relação a um deles. QUEIXA-CRIME - ERRONIA
NA DEFINIÇÃO DO CRIME. A exigência de classificação do delito na
queixa-crime não obstaculiza a incidência do disposto nos artigos 383 e
384 do Código de Processo Penal. QUEIXA-CRIME - ATUAÇÃO DO
MINISTÉRIO PÚBLICO - NARRATIVA - AUSÊNCIA DE JUSTA
CAUSA. O fato de o integrante do Ministério Público, em entrevista
jornalística, informar o direcionamento de investigações, considerada
suspeita de prática criminosa, cinge-se à narrativa de atuação em favor
da sociedade, longe ficando de configurar o crime de calúnia.
(STF, RHC 83091 / DF, Min. MARCO AURÉLIO,
Julgamento: 05/08/2003 Órgão Julgador: Primeira Turma)
ELEMENTOS DO TIPO DE DIFAMAÇÃO
 Objeto jurídico: honra
 Elemento subjetivo: dolo (intenção de difamar)

 Consumação: quando uma terceira pessoa, que


não a vítima, toma conhecimento do fato, pois o
delito contra a honra objetiva.
A EXCEÇÃO DE VERDADE

 Na medida em que não se exige que o fato


difamante seja falso ou verdadeiro, não se fala
em exceção de verdade. Admite-se, entretanto,
que o acusado prove a veracidade das alegações
quando a vítima é um funcionário público, pois
interessa à administração não apenas que o
funcionário não pratique crimes, mas que atue de
forma proba.
“Art. 139. Parágrafo único - A exceção da verdade
somente se admite se o ofendido é funcionário
público e a ofensa é relativa ao exercício de suas
funções.”
A EXCEÇÃO DE NOTORIEDADE NA CALÚNIA
E NA DIFAMAÇÃO (ART. 523, CPP)

 A exceção de notoriedade é a possibilidade que


tem o acusado de demonstrar que o fato por ele
afirmado (na calúnia ou na difamação) já era de
domínio público, de modo que não haveria
possibilidade de se atentar contra a honra
objetiva.
INJÚRIA
“Art. 140. Injuriar alguém, ofendendo-lhe a
dignidade ou o decoro”

Injuriar significa ofender ou insultar. É quando a


pessoa é ofendida em sua honra subjetiva,
maculando o seu amor-próprio.
ELEMENTOS DO TIPO DE INJÚRIA
 Sujeito ativo: qualquer pessoa
 Sujeito passivo: qualquer pessoa, não se
admitindo a injúria contra pessoa jurídica,
afinal, esta não possui autoestima,
autoapreço.
- Inimputáveis: é preciso, no caso concreto,
averiguar se a vítima possui capacidade de ter essa
estima por si, de ter noção de decoro, de dignidade.
 Objeto jurídico: honra subjetiva
 Elemento subjetivo: dolo (intenção de injuriar)
 Consumação: quando a pessoa é atingida em sua
honra subjetiva, não se exigindo que um terceiro
tome conhecimento do ocorrido.
HIPÓTESES DE PERDÃO JUDICIAL
 § 1º - O juiz pode deixar de aplicar a pena:
I - quando o ofendido, de forma reprovável,
provocou diretamente a injúria;
II - no caso de retorsão imediata, que consista em
outra injúria.

-> esse segundo caso parece uma legítima defesa,


mas não é, pois a excludente se aplica somente ao
caso em que a agressão ainda persiste.
 Provocação. Retorsão (§1)

 O inciso I refere-se à injúria como forma de


revide à provocação (criminosa ou não) da vítima,
e o II, à retorsão, é dizer, revidar injúria com
outra injúria.
INJÚRIA QUALIFICADA (INJÚRIA REAL)
 § 2° - Se a injúria consiste em violência ou vias de
fato, que, por sua natureza ou pelo meio
empregado, se considerem aviltantes.
INJÚRIA PRECONCEITUOSA (TAMBÉM É
QUALIFICADA)

 § 3° - § 3o Se a injúria consiste na utilização de


elementos referentes a raça, cor, etnia, religião,
origem ou a condição de pessoa idosa ou
portadora de deficiência:
 Pena - reclusão de um a três anos e multa.

Há uma diferença em relação ao delito tipificado na


lei 7.716 (1989), que é o de racismo.
DISPOSIÇÕES GERAIS SOBRE OS CRIME
CONTRA A HONRA
 Art. 141 - As penas cominadas neste Capítulo aumentam-
se de um terço, se qualquer dos crimes é cometido:
I - contra o Presidente da República, ou contra chefe de
governo estrangeiro;
II - contra funcionário público, em razão de suas funções;
III - na presença de várias pessoas, ou por meio que facilite a
divulgação da calúnia, da difamação ou da injúria.
IV - contra pessoa maior de 60 (sessenta) anos ou portadora
de deficiência, exceto no caso de injúria.

Parágrafo único - Se o crime é cometido mediante paga ou


promessa de recompensa, aplica-se a pena em dobro.
NÃO HÁ CRIME DE DIFAMAÇÃO OU
INJÚRIA:

 Art. 142 - Não constituem injúria ou difamação


punível:
I - a ofensa irrogada em juízo, na discussão da
causa, pela parte ou por seu procurador;
II - a opinião desfavorável da crítica literária,
artística ou científica, salvo quando inequívoca a
intenção de injuriar ou difamar;
III - o conceito desfavorável emitido por funcionário
público, em apreciação ou informação que preste no
cumprimento de dever do ofício.
Parágrafo único - Nos casos dos ns. I e III, responde
pela injúria ou pela difamação quem lhe dá
publicidade.
RETRATAÇÃO E PEDIDOS DE EXPLICAÇÃO
(ARTS. 143 E 144)
 É possível o acusado se retratar em juízo no casos
dos delitos de difamação e calúnia.
 A retratação é um ato unilateral.
AÇÃO PENAL
 Regra: os crimes contra a honra são de ação privada,
procedendo-se mediante queixa-crime apresentada pelo
ofendido.
 Exceção:
a) Quando da injúria real resulta lesão corporal: pública
condicionada ou pública incondicionada, a depender da
lesão.
b) Quando a ofensa é contra o presidente da república:
pública condicionada a requisição do Ministro da Justiça.
c) Quando a ofensa é contra funcionário público: pública
condicionada ou privada. Súmula 714, STF: “É
concorrente a legitimidade do ofendido mediante queixa, e
do Ministério Público, condicionada à representação do
ofendido, para ação penal por crime contra a honra de
servidor público em razão do exercício de suas funções”.
d) No caso da injúria racial: pública condicionada.
CLASSIFICAÇÃO DOS DELITOS
CALÚNIA DIFAMAÇÃO INJÚRIA

Comum Comum Comum


Formal Formal Formal
Instantâneo Instantâneo Instantâneo
De conteúdo variado Comissivo Comissivo
Comissivo Doloso Doloso
Doloso De forma livre De forma livre
De forma livre
BIBLIOGRAFIA
 BITTENCOURT, Rafael. Tratado do Direito
Penal: Parte Geral, 2017.
 CUNHA,Rogério Sanches. Direito Penal. Parte
Especial, 2017.
 MASSON, Cleber. Curso de Direito Penal: Parte
Geral, 2017.