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06/07/2016 COMO OS YUPPIES HACKEARAM O ETHOS HACKER — Medium

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Dec 19, 2015 · 14 min read

COMO OS YUPPIES HACKEARAM O ETHOS

HACKER

Johann Moritz Rugendas

ualquer infraestrutura controlada por uma elite tecnocrata suscita


Q questionamentos. De certa maneira, vai provocar aqueles que querem
saber como ela funciona, que gostam de transgredir e também aqueles que
valorizam o princípio do acesso aberto. Tome como exemplo a rede telefônica
americana dos anos 60: uma vasta infraestrutura física, dominada por uma
corporação monopolista chamada AT&T. Um jovem recruta da Força Aérea
chamado John Draper — também conhecido como Capitão Crunch —
descobriu que era possível manipular o sistema de tons de discagem,
utilizando apitos de criança encontrados na caixa de cereais Cap’n Crunch. Ao
apitar o tom correto no fone ele conseguia fazer ligações de graça, furando o
sistema de segurança da AT&T.

John Draper foi um dos primeiros phone phreakers, um grupo heterogêneo de


nerds empenhados em explorar falhas no sistema e obter acesso livre. Aos
olhos da sociedade convencional, esses tais phreakers eram apenas
delinquentes juvenis mesquinhos. No entanto, suas ações foram sendo
incorporadas ao folclore da cultura hacker moderna. Draper deu a seguinte
declaração em uma entrevista concedida em 1995:

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Eu estava realmente interessado em saber como a companhia telefônica operava.


Eu não tinha interesse em prejudicar ou roubar o serviço.

No livro “Hackers: Heroes of the Computer Revolution (1984)”, o jornalista


americano Steven Levy foi mais longe e alçou Draper como um ícone do
verdadeiro espírito hacker. Levy estava então tentando aprimorar, em
princípios, o que ele acreditava constituir a “ética hacker”. Um dos princípios
era o chamado “hands-on imperative”:

Hackers acreditam que lições essenciais podem ser aprendidas sobre os sistemas
— e sobre o mundo — desmontando coisas, observando como elas funcionam e
utilizando esse conhecimento para criar coisas novas e ainda mais interessantes.

Por todas as declarações de inocência, Draper deixava claro que sua


curiosidade era de fato subversiva. Ela representava uma ameaça à ordem, à
hierarquia de poder do sistema. Os phreakers estavam abrindo a estrutura da
informação e fazendo isso mostravam um desrespeito calculado pelas
autoridades que detinham o controle sobre ela.

Esse espírito foi levado ao contexto contemporâneo da internet, que afinal


consiste em computadores conectados uns aos outros através de uma
estrutura física de telecomunicações. A internet promete acesso aberto à
informação e comunicação online entre os usuários. Ao mesmo tempo, ela
serve como uma ferramenta para corporações monopolistas e para a
vigilância governamental. Os exemplos mais conhecidos de hackers
contemporâneos estão em grupos como Anonymous e WikiLeaks. Esses
cypherpunks e cryptoanarquistas são nativos da internet. Eles lutam — ao
menos em princípio — para proteger a privacidade individual e para tornar
transparentes as estruturas de poder.

Essa dinâmica não é exclusiva da internet. Ela está em muitas outras esferas
da vida. Considere os engraçadinhos que adulteram catracas de estações de
trem, para que fiquem desbloqueadas e outros possam passar sem pagar. Eles
podem até não se autodenominarem hackers, mas eles carregam uma ética do
desdém em relação a sistemas fechados em que cidadãos estão submetidos.
Essa subculturas, próximas à cultura hacker, não se vêem necessariamente em
termos políticos. No entanto, elas compartilham uma tendência comum no
sentido de uma criatividade rebelde, voltada para aumentar o poder daqueles
menos favorecidos.

Ao contrário de uma revolta aberta para a libertação de um líder, o impulso


hacker se expressa através de um conjunto de pequenos atos de insurreição,
muitas vezes realizados por indivíduos disfarçados de maneira criativa para
evitar retaliações das autoridades. Uma vez que você entende isso, você
passa a ver hacks por toda a parte. Eu vejo na capoeira. O que é isso?
Uma dança? Uma luta? É um hack que surgiu no Brasil colonial, como

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uma maneira que os escravos tinham de praticar uma arte marcial sob o
pretexto de estarem dançando. Sob a abordagem da rebelião, isso
denota atos sutis de desobediência, como os descritos por James Scott em
Weapons of the Weak: Everyday forms of Peasant Resistance (1986).

Hackear parece ser um prática com raízes muito profundas — tão primitiva e
originalmente humana quanto a desobediência. O que torna tudo isso ainda
mais perturbador hoje é que o “hackear” para ter sido hackeado.

Apesar dos apelos à “inteligência coletiva” e de grupos sem face como o


Anonymous, o arquétipo do hacker é essencialmente o de um indivíduo
tentando levar uma vida mais potente e menos alienada. Estamos falando de
um espírito outsider, que busca realizar suas potências através de caminhos
alternativos aos definidos pelo mainstream.

Talvez seja imprudente dar uma essência à este personagem. Uma gama de
pessoas muito diferentes entre si podem pensar sobre si mesmos nesses
termos — do nerd solitário mexendo em um rádio faça-você-mesmo em uma
garagem, ao jornalista investigativo imerso em revelações políticas
bombásticas. Entretanto, não me parece um comportamento hacker objetivar
uma espécie de empoderamento convencional, como arrumar emprego em
uma corporação blue-chip enquanto lê Os Sete Hábitos das Pessoas Altamente
Eficazes. O impulso hacker é crítico. Ele desafia, por exemplo, as ambições
corporativas.

No meu livro, O Guia Herético das Finanças Globais (2013), eu utilizei essa
imagem do hacker como um modelo para os leitores que desejam desafiar o
sistema financeiro global. Existe uma tendência de enxergar o maquinário do
capital global como complexo, incapacitante e alienante. O método
tradicional de contestá-lo se dá através da criação de grupos — como o Occupy
Wall Street — para influenciar os políticos e a mídia. Mas isso cria uma
dinâmica familiar: o ativista devotado contra os interesses arraigados da elite
empresarial. Cada grupo então se define contra o outro, estabelecendo então
uma guerra de trincheiras fixas. Esses ativistas acabam sendo frequentemente
desmoralizados, principalmente do ponto de vista da inabilidade em impactar
o sistema. Eles criam uma identidade baseada em uma espécie de martírio,
que os mantém na superfície através de uma solidariedade fetichizada com
outros na mesma posição.

Eu fui atraído pelo arquétipo hacker, pois ao contrário do ativista tradicional


que se define em oposição os sistemas existentes, ele opera de maneira
oblíqua. O hacker é ambíguo, especialista em se desviar dos limites
estabelecidos, incluindo as linhas de batalha ideológicas. É um espírito
malandro, subversivo e de difícil definição. O espírito hacker não vai ao
encontro de algum fim reformista específico, é uma maneira de ser no mundo.

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Tomemos por exemplo a subcultura do aventureiro urbano, narrada por


Bradley Garrett na obra Explore Everything: Placehacking the City (2013). A
busca por rotas incomuns — através do sistema de esgoto por exemplo — é
excitante porque você pode ver coisas que supostamente não lhe trariam
interesse. A curiosidade leva a lugares aonde não existem relações de
pertencimento. Isso então se transforma em uma afirmação das práticas de
desafio às normas sociais. O subproduto dessa investigação é um
conhecimento pragmático. O rompimento de padrões de pensamento permite
que você visualize o que está por trás das interfaces a sua volta, chegando
assim mais perto da realidade do nosso mundo social.

O hacker modifica a máquina para que ela se autodestrua, ou a programa para


frustrar seus donos, ou disponibiliza o seu uso para aqueles que não tem acesso.

Esta é uma sensibilidade útil para ser cultivada frente aos sistemas que criam
barreiras ao acesso, sejam elas psicológicas, políticas ou econômicas. No
contexto de um sistema complexo — computacional, financeiro ou do
submundo — a divisão política é sempre entre os que agem por dentro do
sistema, ativos e bem organizados, versus os que agem por fora do sistema, de
forma passiva e difusa. Os hackers desafiam esse binarismo buscando o
acesso, seja literalmente através da derrubada das cercas— invasão — ou
através da redefinição das fronteiras entre o que é ou não permitido. Podemos
chamar isso de apropriação

O poder econômico constrói uma complexa máquina de vigilância e controle.


O ativista ludita poderia destruí-la através da rebelião. Já o hacker, explora e
modifica a máquina para que ela se autodestrua, ou a programa de forma que
frustre os objetivos do dono, ou libera o acesso para que não detém a posse da
máquina. A ética hacker é portanto um composto. Não é meramente uma
curiosidade exploratória, ou uma aberração rebelde, ou uma inovação
criativa necessária ao sistema. Ela emerge da insterseção entre esses três itens.

A palavra “hacker” se afirmou na era da tecnologia da informação (TI) e dos


computadores pessoais. O subtítulo de uma obra fundamental escrita por
Steven Levy - Heroes of the computer revolution - imediatamente situou os
hackers como os cruzados da cultura geek computacional. Enquanto alguns
dos princípios que ele descreveu eram amplos - como “desconfie da
autoridade” ou “promova a descentralização” - outros eram distintamente
centrados nos computadores: “Você pode criar arte e beleza em um
computador”, “toda informação deveria ser livre”.

Desde então as representações mais populares do hacker seguiram a linha de


Levy. O romance cyberpunk de Neal Stephenson intitulado Snow Crash
(1992), descreve o personagem Hiro como “o último hacker freelancer”. O
filme Hackers (1995) apresenta um coletivo de “computer ninjas”, que
dialogam entre si com os jargões do Rap. O estereótipo que então começou a

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ser construído era de um gênio precoce, que utilizava seu conhecimento para
controlar certas situações ou entrar em disputa com outros hackers. Esse
estereótipo se mantem popular nos dias de hoje. No filme do James Bond
Skyfall (2012), o personagem gadget-master Q é reinterpretado pelo ator Ben
Whishaw como um jovem hacker munido de um laptop, controlando linhas de
código com uma eficiência quase sobrehumana, tendo seu próprio cérebro
conectado diretamente ao computador.

De acordo com a mídia sensacionalista, a ética hacker se confunde com o ato de


violar a segurança do computador.

Em certo sentido, era através dos computadores que os hackers se realizavam,


ao menos na imagem popular. Só que os computadores também se
identificavam com a sua ruína. Se o mainstream não tivesse vinculado de
forma tão forçada a imagem do hacker à tecnologia da informação, talvez ele
não teria sido tão demonizado ao longo do tempo, ou ao menos amenizaria a
perseguição.

Os computadores e, especialmente a internet, são meios primários de


subsistência para muitos. Portanto é compreensível a repulsa das pessoas em
relação à imagem do hacker criminoso “bicho-papão”, do bandido covarde
que viola a segurança dos computadores para roubar e causar danos. Não
importa que a “verdadeira” cultura hacker - como encontramos nos
hackerspaces, maker-labs e comunidades de software livre pelo mundo -
tenha no ato de invadir um computador apenas uma manifestação do desejo
de explorar, além das fronteiras estabelecidas. Nas mãos da mídia
sensacionalista, a ética hacker é confundida com o ato de violar a segurança
dos computadores. Qualquer um que faça isso, independente da ética
subjacente, é um hacker. Assim, uma única manifestação, de um elemento
único do espírito hacker, é divulgada como um todo…

Através das lentes do pânico moral, emerge a narrativa dos hackers como um
exército contra os computadores. As primeiras características são a
agressividade e a imoralidade. Como se proteger deles? Como ratificar a
narrativa tradicional do bem contra o mal? Criando o estigma de uma classe
de invasores da propriedade privada. Então surge a construção dos hackers
white-hat, gênios da computação voltados para o bem comum.

Aqui é onde uma segunda forma de corrupção começa a emergir. A


construção idealista desse “hacker do bem” aparece de forma conveniente,
porque em nosso mundo informatizado temos visto a emergência de uma
gigantesca, competitiva e agressiva indústria de tecnologia, que tem uma
obsessão por inovação. Este é o reino das startups, do investimento de alto
risco, da pesquisa corporativa e seus departamentos de desenvolvimento.
Estão aqui também subculturas do Vale do Silício, onde vemos o espírito

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rebelde sucumbir ao que talvez seja a única força capaz destruí-lo: a


gentrificação.

A gentrificação é o processo pelo qual ameaças nebulosas são pacificadas e


transformadas em dinheiro. Sua forma pura trata da interferência em práticas
que não se adequam ao mainstream - uma vizinhança violenta, rituais
indígenas ou práticas como a do Parkour por exemplo. Este processo vai então
se repetindo e tomando consistência. Elementos de práticas que não ameaçam
à ordem são isolados, formalizados e incentivados; enquanto os que não se
encaixam no modelo são rechaçados e impedidos.

A chave de qualquer processo de gentrificação são os recém-chegados, que


gradualmente reduzem o risco percebido de um determinado espaço. O
processo em questão começa quando artistas e desiludidos decidem
abandonar a sociedade mainstream e viver em áreas marginalizadas. Apesar
de seus impulsos contraculturais eles sempre carregam consigo traços da
cultura dominante, quer seja a cor da pele ou o desejo por um bom café. Isso
por sua vez cria a semente para certos mercados se enraizarem. Um café com
WiFi surge perto de um centro comunitário somaliano por exemplo. É como se
esse café emitisse sinais à sociedade mainstream, de que aquela área é menos
alienígena do que costumava ser.

Se esse ciclo for repetido centenas de vezes, o risco percebido das construtoras
e dos yuppies vai gradualmente erodindo. De repente, chega o ponto de
inflexão. Através de uma miríade de ações individuais, sem o controle de
qualquer pessoa, o exótico se torna seguro: interessante, cool, excitante, mas
não ameaçador. Torna-se disponível para um voyeurismo despreocupado,
como um tigre transformado em um animal de zoológico… a imagem do
tigre, o vestido de tigresa super na moda… Algo parece gentrificado quando
essa estética superficial do tigre substitui a autêntica experiência de estar em
seu habitat.

Então não estamos falando apenas de imóveis. Nas lojas de cosméticos de


Oxford Street, em Londres, você pode encontrar produtos anunciados com
símbolos pagãos de adoração a mãe-terra. Por que esses símbolos são
encontrados nos templos do consumismo, adornando produtos criados para
neutralizar e controlar processos corporais? Eles estão sendo gentrificados. O
paganismo ainda existe, mas no mainstream tais imagens estão limpas de
qualquer contexto subversivo.

Estamos testemunhando a gentrificação da cultura hacker. O hacker, como


personagem da contracultura, tem servido cada vez mais aos interesses de
uma classe empreendedora yuppie. Nenhuma dúvida de que isso começou de
maneira inocente. A associação da ética hacker com as startups pode ter
começado através de um autêntico impulso contracultural, mas como toda a
gentrificação, o afluxo cada vez maior de indivíduos descompromissados para

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este cenário resultou numa ênfase crescente aos elementos mais neutros, em
detrimento dos mais subversivos da cultura hacker.

O Vale do Silício tem acolhido, por um lado, um grande número de experts


formados nas melhores universidades, que de maneira muito precária se
consideram os rebeldes contra os modelos tradicionais de fazer negócio. Por
outro lado, temos aqui também um grande repositório de capital de risco.
Grupos se engalfinham pelo dinheiro dos investidores, em uma tentativa
explícita de formar redes monopolistas - como as criadas pelo Google e
Facebook - com o propósito de alcançar lucros extraordinários para os seus
fundadores e investidores que aportaram os recursos, e quem sabe para
grandes corporações que irão adquirí-las.

A definição do empreendedor de startup de tecnologia como “hacker”, faz parte de


um sistema de duplipensar emergente do Vale do Silício.

Nesse contexto econômico, a curiosidade, a inovação e a experimentação


contínua são virtudes essenciais. Esse elemento da cultura hacker é
comprovadamente atraente como modelo de atuação. Características como a
tendência ao empoderamento individual e o apreço por soluções inteligentes,
se assemelham às características do empreendedor. Neste cenário, o aspecto
disruptivo do hacker pode ser colocado em termos schumpeterianos: os
inovadores, motivados pelo sucesso, buscam dissolver velhos paradigmas
através de uma “rebelião” elitista.

A indústria da tecnologia define o termo “hacking” como a inovação


disruptiva realizada por empreendedores empolgados, que amam fazer
coisas. Não há nada revolucionário aí: apenas maneiras eficientes de resolver
problemas em prol do lucro. Esse campo gentrificado não é apenas uma
narrativa individual cool. É também um modelo de negócio útil, que ajuda a
indústria da tecnologia a se distinguir da agressividade de Wall Street e
arrebanhar recém-formados.

Na verdade, a definição reescrita do hacker como empreendedor de startup,


forma parte do sistema duplipensante do Vale do Silício: cada startup se
apresenta como um “azarão” no mercado, mas ao mesmo tempo existe a
consciência de pertencimento à uma gigantesca estrutura de poder da
indústria de tecnologia em um nível coletivo. E assim vemos uma perda
gradual dos aspectos críticos do hacking. Quem disse que o hacker não
poderia assumir posições de poder? O Google se esconde por trás dessa
“identidade hacker”, com executivos jogando ping-pong em modernas
cafeterias, mas que ao mesmo tempo comandam uma cadeia global de
controle da rede.

Esse duplipensar atravessa a cultura mainstream corporativa com o


crescimento dos hackathons empresariais. Nós podemos encontrar gigantes

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como o Barclays, criando aceleradoras de startups e realizando hackathons de


tecnologias financeiras. Em fórums como o Tech Innovation Lab, realizado no
distrito financeiro de Canary Wharf em Londres, temos hackathons para
descobrir o “futuro das finanças”…ou em última instância o futuro dos
aplicativos de pagamento. Nesse contexto, a ética hacker é enterrada e
subsumida a ideologia do solucionismo, usando um termo do bielorrusso
Evgeny Morozov. Esse termo descreve uma visão de mundo como uma série
de problemas aguardando por soluções (lucrativas).

Esse processo de gentrificação se torna uma guerra de linguagem. Se os


recém-chegados possuem influência midiática suficiente para utilizar uma
versão vazia de certo conceito, existem grandes chances de que ele se
solidifique. Se transforma então em algo superficial, incapaz de desafiar as
convenções. Assim como em um passe de mágica, eu recebo um cartão de
visitas de um recém-graduado de Stanford onde está escrito, sem ironia:
“Fundador, investidor, hacker.”

ualquer processo de gentrificação apresenta inevitavelmente duas


Q opções. Você abandona tudo, deixa tudo para os yuppies e sai em busca
da próxima fronteira selvagem? Ou você tenta quebrar esse círculo,
desmascarando seus agentes e mobilizando protestos?

A resposta depende do quanto você se importa com isso. Vizinhanças em


bairros de imigrantes se importam o suficiente para se mobilizarem contra os
processos nefastos da gentrificação, mas quem se importa em preservar a ética
hacker? Para muitos o espírito hacker é estúpido e nonsense, um impulso
apenas individualista e não um movimento político autêntico. Que
importância tem se ele for gentrificado?

Precisamos confrontar uma ironia aqui. A gentrificação é um processo que


pega o selvagem e o coloca na jaula. Eu acredito que a cultura hacker é o
oposto disso, pois aspira subverter a ordem estabelecida para torná-la fluida e
selvagem novamente. Onde a gentrificação tenta erigir cercas ao redor das
coisas, o hacker tenta derrubar e redefinir constantemente. Essa últimas são
as duas grandes forças de resistência da sociedade humana. A gentrificação da
cultura hacker é…bem, talvez um hack perfeito.

Talvez eu tenha romantizado demais. Talvez o hacking nunca tenha existido


em uma forma pura para ser gentrificado. Pode ser que ele sempre tenha feito
parte do processo de comoditização capitalista. Talvez os hackers - como os
artistas desiludidos e os hipsters - sejam apenas uma vanguarda procurando
identificar o próximo investimento lucrativo. Talvez o hacking sempre tenha
sido um amálgama contraditório, que combina o desejo pelo o que é instável e
estranho por um lado, e de outro pelo o que é estável e certo. Certamente, na
concepção mainstream do hacking - seja na versão crimonosa ou na versão do
Vale do Silício - existe um fetiche pelo controle: uma elite de programadores

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ou empreendedores controlando o mundo de frente para telas, fazendo coisas


misteriosas ou “fantásticas”, que estão fora do alcance das pessoas comuns.

Então eu vou aqui fixar uma posição e dizer que o verdadeiro espírito hacker
não reside no Google, cujo objetivo é basicamente o lucro. O impulso hacker
não deveria tratar apenas de redesenhar produtos ou criar “soluções”. Um
hack despojado de intenções não-convencionais não pode ser um hack. Se
trata apenas de inovação em negócios, que fique claro.

O espírito hacker não-gentrificado deve ser um bem comum. Esse espírito


pode ser visto como marginal a nossa volta. Ele está na forma emergente de
produção entre pares e na cultura do faça-você-mesmo; nos makerspaces e
hortas urbanas. Estamos vendo a expansão da cultura do comum, que vai do
hardware a biotecnologia, passando pela impressão 3D como forma de
popularizar o design aberto. Em um mundo com conglomerados econômicos
cada vez mais gigantescos e imensuráveis, precisamos dessas formas
cotidianas de resistência. Hackear, no meu entendimento, é uma rota para
escapar das algemas do fetiche da lucratividade..

Go home, yuppies!

Autor: Brett Scott

Tradução livre de Ivan LP. Ensaio publicado originalmente em Aeon.

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