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Lição Primeira

o dom de escrever

Toda a gente pode escrever? - Poderemos ensinar a escrever?


- Como nos tornamos escritores. - Prim~iras condições para
escrever.

Uma pergunta nos ocorre desde já: devemos escrever?


Não será mau serviço favorecer as tendências para
se cobrir de letras o papel?
Não haverá bastantes escritores?
Será preciso avisarmos os que escrevem mal?
Estamos inundados de livros. Que será a literatura,
quando toda a gente a praticar?
Ensinar a escrever não será impelir o próximo a
publicar tolices?
Não será rebaixar a arte o pô-la ao alcance de todos,
e não a amesquinharemos, tornando-a mais acessível?
Eu próprio protestei numa obra especial contra essa
doença de escrever, que nos invade e que fez desanimar
o público.
Há nisso evidentemente um perigo, mas o abuso de
uma coisa não prova que ela seja má.
Toda a gente fala e nem todos são oradores.
A pintura vulqarizou-se, mas nem todos são pintores.
Nem todos os músicos fazem óperas.
8 A ARTE DE ESCREVER

É excelente ensinar-se a escrever; tanto pior para


aqueles que degradem o mester.
Demais, aqueles que quiserem seguir os conselhos
dados nesta obra, deverão aplicar-se a escrever bem,
e aqueles que se aplicarem serão obrigados a escrever
pouco.
Estamos, portanto, ao abrigo de qualquer censura.
Depois, podemos escrever, não só para o público,
mas para nós próprios, para satisfação pessoal.
Aprender a escrever bem é aprender também a jul-
gar os bons escritores.
Primeiramente, haverá a vantagem da leitura.
A literatura é um atractivo, como a pintura e a
música, uma distracção nobre e permitida, um meio de
dulcífícar as horas da vida e os enfados da solidão.
Outra objecção talvez me façam: os teus conselhos
serão bons para as pessoas de imaginação, visto que
a imaginação é faculdade essencial; mas dará acaso
imaginação àqueles que não a têm? e esses como terão
estilo?
A resposta é fácil.
Aqueles que não tiverem imaginação passarão sem ela.
Há um estilo de ideais, um estilo abstracto, um estilo
seco, formado de nítida solidez e de pensamento puro,
que é admirável!
É a questão de se escolherem outros assuntos.
Pascal, ainda que tivesse apenas escrito as Pro-
víncias, seria grande escritor.
O Emílio, de Rousseau, é uma obra-prima de língua
literária.
La-Bruyêre e principalmente Montesquieu são, neste
género, modelos imortais.
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A ARTE DE ESCREVER 9

Cada um pode, portanto, escrever conforme as suas


faculdades pessoais.
Esta poderá apresentar discussões abstractas. Aquele
poderá descrever a natureza, abeirar-se do romance,
dialogar situações.
Se não vê claramente as suas aptidões, se se emba-
raça na alocuçâo, consultará amigos competentes e, em
último caso, este livro, que foi feito para o ajudar, para
o formar e para o revelar a si próprio.
Quem souber redigir uma carta, isto é, fazer uma
narrativa a um amigo, deve ser capaz de escrever, por~
que uma página de composição é uma narrativa feita
ao público.
Quem pode escrever uma página, pode escrever dez.
E quem sabe fazer uma novela deve saber fazer um
livro, porque uma série de capítulos é uma série de
novelas.
Portanto, qualquer pessoa que tenha mediana aptidão
e leitura, poderá escrever, se quiser, se souber aplicar-se,
se a arte a interessar, se tiver o desejo de emitir o que
~L vê e de descrever o que sente.
A leitura não é uma ciência inatinqível, reservada
a raros iniciados e que exija grandes estudos prepa-
ratórios.
É uma vocação, que cada um traz consigo e que
desenvolve, mais ou menos, segundo as exigências da
vida e as ocasiões favoráveis.
Há muita gente que escreve mal.
E muita há, que poderia escrever bem, mas que não
escreve e não pensa em tal.
Pessoas ordinárias, mordomos como Gourville, cria-
das de quarto como a senhora Hausset, como [ulião,
-
o A ARTE. DE ESCREVER

criado de Chateaubríand, velhos soldados, Marlob, Ber-


nal Díaz. deixaram-nos descrições vivas e interessantes.
O dom de escrever, isto é, a facilidade de exprimir
o que se sente, é uma faculdade tão natural ao homem
como o dom da fala.
Ora, se toda a gente pode contar o que viu, por que
não poderá rescrevê-lo?
A escrita não é senão a transcrição da palavra
falada, e é por isso que se diz que o estilo é o homem.
O estilo mais bem descrito é, as mais das vezes, o estilo
que se poderia falar melhor.
Assim o entendia Montaigne. Nunca vos ímpressío-
nastes com o desembaraço, que os aldeões empregam
nas suas narrativas, quando se servem da sua lingua-
gem natal?
As pessoas do povo, para exprimir coisas por que
passaram, têm certas palavras e originalidades de expres-
são e uma criação de imagens, que espantam os pro-
fissionais.
Se qualquer mulher de coração, a primeira que se
encontrar, escrever a alguém sobre a morte de uma
pessoa querida, fará uma admirável narrativa, que
nenhum escritor poderá imitar, quer seja Chateaubriand,
quer seja Shakespeare.
Afonso Daudet e Goncourt procuraram por toda
a parte, em volta de si, esse som do verdadeiro ini-
mitáveI.
Goncourt copiava servilmente os diálogos que ouvia.
As mais belas palavras de Manon Lescaut foram
pronunciadas certamente.

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Uma ocasião, ouvi um camponês comparar o ruído
A ARTE DE ESCREVER u
do trovão com o ruído que fazia «um bocado de pano
que se rasgava».
As nossas antigas canções populares. de que G. Don-
cieux nos prepara uma sábia reconstituição e uma edição
definitiva. são obra anónima de poetas obscuros.
Portanto. se toda a gente pode escrever. com muita
mais razão o podem fazer as pessoas medianamente
cultas. as pessoas que têm leitura e que amam o estilo.
a gente moça que faz versos elegantes ou regista os
seus pensamentos num diário íntimo.
Há certa classe de gente. que. dirigida e ensinada,
poderia determinar e aumentar as suas aptidões. e ter
talento. até.
Muitos ignoram as suas forças. porque nunca as
experimentaram. e estão mesmo longe de imaginar que
poderiam escrever.
Outros. mal ajudados ou dissuadidos da sua voca-
ção. desanimam por se reconhecerem medíocres, sem
um guia que 'os aperfeiçoe.
Conheci três mulheres. que nunca tinham escrito uma
linha e que sorriam de incredulidade. quando as acon-
selhei a escrever. Supunham-se incapazes de ter talento.
Decidiram-se a começar o seu diário. segundo pre-
ceitos e fórmulas técnicas. e hoje fazem descrições vivas.
em relevo. muito notáveis. que sõmente a sua modéstia
se obstina em conservar inéditas.
Quase todas as pessoas escrevem mal. porque não
se lhes demonstrou o mecanismo do estilo. a anatomia
da escrita. nem como se encontra uma imagem e se
constrói uma frase.
Impressionei-me sempre com a quantidade de pessoas
que poderiam escrever e que não escrevem. ou escrevem

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12 A ARTE DE ESCREVER

mal. por não terem alguém que as desimpedisse das


ligaduras, em que 'estão comprimidas.
Há estilos ínexperientes, que espalham pérolas e
ouro e fazem surgir plantas vivazes por entre as ervas
incultas.
Descobrir o Filão, tirar o diamante. sachar a terra,
nada é, e é tudo.
Quando se refazem as frases, quando se descobrem
as imagens, quando se limpa o estilo e quando se reu-
nem as palavras, que estupefacção!
«Nunca ninguém nos disse tal!»
E ficam maravilhados de ver o precipitado verda-
deiro. sólido. brilhante. que é só deles. e que se mostra
no fundo do cadinho, depois da operação.
A necessidade de um guia é absoluta para as nature-
zas vulgares. porque então não se trata de génios. nem
de futuros grandes homens. aos quais nada se ensina,
porque prescindem de tudo, mas daqueles que têm uma
vocação vulgar, e que podem duplicar o talento pelo
esforço e pelos conselhos .
Molíére interrogava a sua criada; Racine consultava
Boileau.
Flaubert ouvia Bouilhet.
Chateaubriand sujeitava-se a Fontanes.
Resolvi ser guia, para aqueles que não podem ter
outros.
Há quinze anos que luto com as palavras e que
escrevo romances, novelas e artigos de crítica, feitos
e refeitos, com encarniçamento.
A minha experiência pessoal pouco vale certamente.
Parece contudo que eu poderia ser útil a outros
A ARTE DE ESCREVER 13

e que haveria proveito em publicar o que eu tinha


aprendido por mim só.
O resultado destes anos de leitura e de trabalho
servirá certamente àqueles que principiam a estudar a
arte de escrever, àqueles que se preparam para isso pro-
fissionalmente e àqueles que querem gozar essa arte,
como amadores.

Lição Segunda

Os Manuais de Literatura

Os Manuais de Literatura. - O que eles deveriam ensinar.-


Ensinam a escrever? - As demonstrações técnicas. - Há um
estilo único? - Como conhecer as nossas próprias aptidões?

Os antigos Manuais de literatura alongavam-se des-


medidamente em frisar as diferenças dos diversos estilos,
o estilo simples, o estilo figurado, o estilo moderado.
Pesavam e discutiam a força das expressões, a qua-
lidade das imagens.
Ensinavam a distinguir o género épico do género
dramático, lírico, dídáctíco,
Insistiam sobre os caracteres da ode ou da epopeia.
Nada disto tem proveito, nem vale a pena ocupar-
mo-nos de tal.
Também insistiam muito sobre o estudo dos mode-
los, dizendo:

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