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Editora Poisson

Gestão da Produção em Foco


Volume 18

1ª Edição

Belo Horizonte
Poisson
2018
Editor Chefe: Dr. Darly Fernando Andrade

Conselho Editorial
Dr. Antônio Artur de Souza – Universidade Federal de Minas Gerais
Dra. Cacilda Nacur Lorentz – Universidade do Estado de Minas Gerais
Dr. José Eduardo Ferreira Lopes – Universidade Federal de Uberlândia
Dr. Otaviano Francisco Neves – Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais
Dr. Luiz Cláudio de Lima – Universidade FUMEC
Dr. Nelson Ferreira Filho – Faculdades Kennedy

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


G393
Gestão da Produção em Foco– Volume 18/
Organização Editora Poisson – Belo
Horizonte - MG: Poisson, 2018
258p

Formato: PDF
ISBN: 978-85-93729-92-8
DOI: 10.5935/978-85-93729-92-8.2018B001

Modo de acesso: World Wide Web


Inclui bibliografia

1. Gestão da Produção 2. Engenharia de


Produção. I. Título

CDD-658

O conteúdo dos artigos e seus dados em sua forma, correção e confiabilidade são
de responsabilidade exclusiva dos seus respectivos autores.

www.poisson.com.br

contato@poisson.com.br
Sumário
Capítulo 1: Um estudo da aplicação de enterprise Information Systems
Patterns à modelagem de sistemas de automação ............................ 7
Everton Alves Miranda, Jean Felippe Dias de Melo, Rodrigo Andrade Stellet, Aline Pires
Vieira de Vasconcelos, Rogerio Atem de Carvalho

Capítulo 2: Uso de técnicas de previsão de demanda em uma


microempresa do ramo de pets .......................................................... 23
Castelar Junior, Camila Barros, Nathan Gerhard Cavalcanti, Adailson Guilherme Teófilo

Capítulo 3: Determinação do mix de produto via programação linear:


estudo de caso de um laticínio na cidade Bambuí – MG ................... 35
Ivana Leite de Menezes, Luís Otávio da Costa Rodrigues, Cláudia Melo de Faria,
Merelayne Karoline da Silva Oliveira Ferreira, Brunna Luyze Tristão de Melo

Capítulo 4: Ferramenta de detecção de padrões de planicidade utilizando


redes neurais....................................................................................... 43
Arlei Fonseca Barcelos, Eduardo Sidney Dias, Hugo Shokychi Toshimitsu, Ramon Alves dos
Santos , Julio Cesar Ávila de Oliveira

Capítulo 5: Otimização aplicada à Logística: uma metanálise ........... 52


Jaqueline Daniela de Oliveira Fonseca, Lívia Maria de Pádua Ribeiro

Capítulo 6: Análise da capacidade produtiva de um processo de


manutenção por meio da simulação de eventos discretos ................. 63
Jussara Nepomuceno Lima, Rafael Pinheiro Amantéa

Capítulo 7: Análise sobre a cadeia produtiva de serviços na entrega de


contêineres em terminal alfandegado ................................................. 77
Matheus Palmieri Gobbetti, Viktor Doll Schwenck

Capítulo 8: Gestão de operações de serviços: aplicação de conceitos e


ferramentas em uma empresa do mercado de terceira idade............ 86

Tiago Fonseca Albuquerque Cavalcanti Sigahi, Stephan August


Sumário
Capítulo 9: Métodos Integrados de Produção x Qualidade da Produção
e Políticas de Gestão de Defeito: Revisão com Enfoque em Demanda e
Qualidade. ........................................................................................... 96
Edson Itamar Dutra, Alexandre Frugeri, Flávio Amaral, Tainara Tange Alves Xavier,
Paulo Sérgio de Arruda Ignácio

Capítulo 10: Contribuições de design thinking na identificação e


solução de problemas no terceiro setor .............................................. 104

Thayna Felizardo, Nathalia Silva, Ricardo Miyashita

Capítulo 11: Análise das falhas em máquinas de costura industriais


utilizando-se o FMEA para a redução ou eliminação da manutenção
corretiva ............................................................................................... 118
Kelly Aparecida Torres, Eduardo Geraldo Ferreira do Nascimento, Erika Loureiro
Borba, Fabricio Molica de Mendonça, Pablo Luiz Martins

Capítulo 12: Aplicação da ferramenta FMEA em um hospital privado 127


Lucas Gomes Pereira, Luísa Gomes Ferreira, Débora Rosa Nascimento

Capítulo 13: Aplicação da Metodologia Heijunka no controle de


estoques do processo produtivo de uma empresa do segmento
metalomecânico .................................................................................. 137
Juan Pablo Silva Moreira, Saulo Fonseca Soares, Célio Adriano Lopes, Janaína
Aparecida Pereira

Capítulo 14: Avaliação de custo-benefício para manutenção em


tanques de hidrocarbonetos de transferência e estocagem ............... 148
Aluisio dos Santos Monteiro Júnior, Marcello Gonçalves de Castro, Denise Loyola
Silva Monteiro, João Orlando Rodrigues Menezes

Capítulo 15: Estoques de pallets: uma análise visando a redução de


custos em uma empresa de papel e celulose ..................................... 159
Fernando Cesar Mendonça,Ivana Salvagni Rotta

Capítulo 16: Análise de Manuais de Treinamento de Integração de


Indústrias Brasileiras ........................................................................... 170
Alice Alves Oliveira, Carlos Alberto Serra Negra
Sumário
Capítulo 17: Clima e cultura organizacional: um estudo de caso em
uma empresa de materiais de construção .......................................... 181
Jair Paulino de Sales, Micaelle Nayara Dias Rodrigues, Jucier Gonçalves Júnior, Ana
Leice da Silva Souza, Kelvin Alexandre de Oliveira Brito

Capítulo 18: Análise crítica do arranjo físico do setor de acabamento da


empresa New Center Stamping........................................................... 189
Gabrielle França Pinheiro de Queiroz, Leandro Lisboa Matos, Flávio Henrique Pereira
Calado, João Pedro Chaves de Oliveira, Thayanne Alves Ferreira

Capítulo 19: Produção de modelos impressos em 3D para fabricação


de moldes de fundição do aluminio ................................................... 199
Gustavo Antonio Bombana, Nabi Assad Filho, Tânia Maria Coelho

Capítulo 20: Gestão de processos em unidades de informação: uma


análise bibliométrica ............................................................................ 205
Leonardo de Jesus Loura Fagundes, Augusto da Cunha Reis

Capítulo 21: Análise da elicitação de requisitos e planejamento da


implantação de um ERP: estudo de caso em uma indústria metal
mecânica ............................................................................................. 223
Sérgio Augusto Faria Salles, Leandro da Silva Maciel, Fábio Carneiro Escocard, Aline
Pires Vieira de Vasconcelos, Rogério Atem de Carvalho

Capítulo 22: Comparação numérica x experimental de borracha para


coxins automotivos .............................................................................. 235
Wellington Antonio Soares de Lima, Luiz Eduardo Nicolini do Patrocinio Nunes,
Valesca Alves Correa

Autores............................................................................................. 245
Capítulo 1
UM ESTUDO DA APLICAÇÃO DE ENTERPRISE
INFORMATION SYSTEMS PATTERNS À MODELAGEM DE
SISTEMAS DE AUTOMAÇÃO1
Everton Alves Miranda
Jean Felippe Dias de Melo
Rodrigo Andrade Stellet
Aline Pires Vieira de Vasconcelos
Rogerio Atem de Carvalho

Resumo: O Enterprise Information Systems Pattern Framework (EIS Pattern


Framework) é uma ferramenta didática para modelagem de sistemas, suporte ao
desenvolvimento e teste de códigos reutilizáveis, visando principalmente o
desenvolvimento de sistemas de Enterprice Resource Planning (ERP). O mesmo
evoluiu das experiências obtidas no desenvolvimento do FOS-ERP (Free/Open
Source ERP System) denominado ERP5. Tentativas de aplicá-lo a modelagem de
sistemas pertencentes a outro domínio não são conhecidas. Este trabalho visa
analisar a possibilidade de extensão do uso do EIS Pattern Framework como
ferramenta para a modelagem de sistemas automatizados industriais. A
metodologia utilizada consistiu da pesquisa bibliográfica sobre aplicações EIS
genéricas (incluindo os métodos de modelagem utilizados e a sua correlação com
sistemas automatizados) e sobre os detalhes específicos do EIS Pattern Framework
(abrangendo seus aspectos históricos e técnicos). A partir disso, foram efetuados
testes de aplicação de modelagem via BPMN e via EIS Pattern Framework sobre um
mesmo sistema de automação, culminando em uma avaliação comparativa para a
referida aplicação. Partindo do entendimento de que as vantagens de um novo
modelo devem ir além de sua facilidade de entendimento e de construção, a
abordagem avaliou também o desenvolvimento de facilidades para a geração de
código. Ao final da análise, chegou-se ao entendimento de que a proposta não
apresenta uma relação custo x beneficio atraente para aplicação no domínio dos
sistemas de automação industrial.

Palavras chave: EIS Pattern Framework, ERP5, Ontologia, Elicitação de Requisitos,


Modelagem de Sistemas Automatizados.

1Artigo previamente apresentado no XIV SEGeT (Simpósio de Excelência em Gestão e Tecnologia) e selecionado
para publicaçã devido a sua relevância na temática proposta. Disponível também em
https://www.aedb.br/seget/artigos2017.php?pag=240
8

1. INTRODUÇÃO Seção aborda o estudo de caso realizado, o


qual trata-se de um sistema de automação,
As técnicas de modelagem são capazes de
possuindo 3 subseções: a primeira aborda o
representar as características de um sistema
mapeamento através de métodos
(e em alguns casos, também o seu
consagrados, a segunda trata especificamente
comportamento), permitindo, tanto o registro
dos detalhes sobre a modelagem via EIS
da condição estrutural atual, quanto de suas
Pattern Framework, enquanto a terceira
condições históricas (possivelmente alteradas
Subseção demonstra o mapeamento do
por sucessivas atualizações), assim como,
sistema proposto, via a referida metodologia;
possibilitando também o registro das
Por fim, a quinta Seção refere-se as
condições estruturais esperadas nas
conclusões.
atualizações futuras. A representação destas
últimas é especialmente útil devido a permitir
uniformização de seu entendimento entre os
2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
diferentes stakeholders e desenvolvedores
envolvidos em um projeto (seja ele de criação 2.1. MÉTODOS DE MODELAGEM PARA USO
ou evolução de um sistema), permitindo GERAL
inclusive documentar este entendimento de
Existem diferentes métodos para modelagem
forma vinculada a um escopo de contratação
de sistemas, possuindo cada um o seu
de serviços para o aprimoramento do
conjunto particular de vantagens e
software. Outra importante vantagem da
desvantagens. Os métodos mais modernos,
utilização de uma modelagem adequada está
obviamente fornecem características de
na possibilidade de efetuar simulações de
qualidade mais evoluídas, porém, o tempo
comportamento e testes de desempenho,
necessário para o desenvolvimento do modelo,
colaborando na identificação precoce de
assim como, o seu custo, continuam sendo as
falhas ou inconsistências, minimizando assim,
principais limitações para a ampliação do uso
custos de correção.
de modelagem. Todavia, é importante ressaltar
O Enterprise Information Systems Pattern que o tamanho destas limitações está
Framework (EIS Pattern Framework) é uma diretamente associado à amplitude das
ferramenta didática para modelagem de vantagens e funcionalidades que cada tipo de
sistemas, suporte ao desenvolvimento e teste modelagem pode disponibilizar.
de códigos reutilizáveis, visando
O desenho em escala foi um dos primeiros
principalmente o desenvolvimento de sistemas
métodos de modelagem a ser aplicado. Seu
de Enterprice Resource Planning (ERP).
emprego é essencial em muitos ramos da
O objetivo deste trabalho é analisar a engenharia (como por exemplo: nos das áreas
possibilidade de extensão do uso do EIS de mecânica, civil, elétrica e eletrônica), assim
Pattern Framework como ferramenta para a como, nas áreas de arquitetura e agrimensura.
modelagem, não somente, de sistemas do Este tipo de modelagem, inicialmente
ambiente empresarial, mas também, de disponibilizada em formato 2D, permite,
ambientes relacionados aos sistemas àqueles com domínio de suas técnicas,
automatizados industriais. A problemática a registrar, expressar e transmitir idéias,
ser testada é: O EIS Pattern Framework pode fornecendo efetividade a comunicação e
mostrar-se tão eficiente para modelagem de servindo, após a adequada aprovação dos
processos em sistemas de automação quanto modelos, como documentos que farão parte
é para processos de negócios empresariais? do ciclo de vida do componente, sistema ou
A hipótese inicial é que a resposta seja equipamento.
afirmativa.
Com o avanço da informatização, os métodos
Este artigo esta estruturado da seguinte forma: de modelagens, ditos clássicos, evoluíram
Além desta introdução, existem mais quatro consideravelmente, reduzindo o tempo de
seções. A segunda Seção trata da confecção, aprimorando características e,
fundamentação teórica sobre modelagem, principalmente, reduzindo o custo destes
sendo dividida em 2 subseções: A primeira modelos iniciais. Obviamente, quando se opta
versa sobre métodos de modelagem voltados por agregar novas funcionalidades a um tipo
para aplicações gerais, enquanto a segunda de modelagem, há algum incremento de custo.
trata de métodos de modelagem para sistemas Por isso, de forma análoga à realidade de
de informação; A próxima Seção explica a qualquer decisão empresarial, a definição pela
metodologia de pesquisa utilizada; A quarta utilização (ou não) e, principalmente, a seleção

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da melhor metodologia de execução da representação pelos métodos de desenho


modelagem devem obrigatoriamente passar mais tradicionais.
por uma análise de custo x benefício, de forma
Atualmente, esta tecnologia tem obtido um
a garantir a viabilidade técnica-econômica e o
especial destaque na modelagem de sistemas
retorno do investimento.
industriais complexos, pois além de identificar
Os avanços obtidos podem ser evidenciados, com clareza qualquer possível interferência
por exemplo, nas aplicações do tipo CAD física (por exemplo, as entre tubos, acessórios,
(Computer Aided Design), as quais permitem equipamentos e elementos estruturais em uma
desenvolver modelos tanto em formato 2D, planta de processo), tem sido utilizada com
quanto em 3D, adicionando inclusive, opções muito sucesso, tanto na identificação de falhas
de deslocamento de ponto de vista ergonômicas (como por exemplo: dificuldade
(movimentação de câmera), tornando possível ou impossibilidade de acesso/visualização de
criar maquetes eletrônicas das instalações medidores, válvulas e equipamentos), quanto
(Figura 1). A evolução citada agregou grande na verificação do espaçamento necessário
facilidade de “leitura” e entendimento do para desmontagem e retirada de
modelo, permitindo um enorme incremento na equipamentos durante as campanhas de
interação com uma clientela que não dominava manutenção, seja ela de ordem preventiva ou
as convenções e técnicas utilizadas na corretiva.

Figura 1: Maquete eletrônica de planta de processo

Outro método de grande importante é o de de controle, mediante à simulações de


modelagem matemática (Figura 2), o qual já é comportamento dinâmico e à previsões de
consagrado no desenvolvimento de sistemas desempenho para os sistemas.

Figura 2: Modelo matemático de sistema mecânico e elétrico

No que tange aos sistemas de automação 3 são especificamente relacionados a


industrial, existe uma quantidade considerável determinados tipos de sistemas automáticos.
de diferentes desenhos, diagramas, Neste exemplo se podem observa três
fluxogramas e outras representações que sistemas com comportamento parecido, sendo
conjuntamente, modelam um sistema. um pneumático (na parte superior esquerda),
Diagramas como os exemplificados na Figura um hidráulico (à direita) e um eletropneumático

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(parte inferior). A exemplo do que acontece na pela utilização de seus modelos em softwares
área de eletrônica, o projeto destes tipos de de simulação.
sistemas torna-se consideravelmente facilitado

Figura 3: Diagramas Pneumático, Hidráulico e Eletropneumático

Outra forma bastante utilizada para modelar o blocos lógicos (Figura 4) podendo-se modelar
comportamento de um sistema é através de sistemas discretos ou contínuos.

Figura 4: Modelagem por blocos lógicos

Dentre os documentos (modelos) mais os quais são equipamentos microprocessados


utilizados para o registro e entendimento do dedicados à automatização e controle de
comportamento automático de um sistema, o sistemas. Este tipo de modelo (Figura 5) é
“diagrama lógico” possui destaque especial, confeccionado utilizando-se de blocos lógicos
por ser amplamente utilizado na programação adaptados de forma a exprimir os significados
de Controladores Lógicos Programáveis (PLC), adicionais necessários.

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Figura 5: Diagrama Lógico

Conforme a norma IEC 61131-3, os citados Outro bom exemplo de linguagem de


PLC podem ser programados através de seis programação capaz de facilitar a codificação
linguagens diferentes. A linguagem de é a realizada por Funções Gráficas de
Diagramas de Blocos Funcionais (Function Sequenciamento (Sequential Function Chart –
Block Diagram – FBD) é parecida com a SFC) a qual, por ser derivada do Diagrama de
representação do diagrama lógico, e por isso, Petri, também guarda grande similaridade com
apresenta considerável facilidade para a a representação (modelo) do sistema. (Figura
codificação das informações documentadas 6)
em forma de software. A programação em
Dentre as outra linguagens padronizadas
diagrama Ladder (LD), por sua vez, se
ainda existem duas linguagens textuais (Texto
assemelha muito à representação utilizada no
Estruturado – ST e Lista de Instruções – IL).
modelo do projeto elétrico do sistema,
fornecendo também facilidades para a
codificação destes tipos de sistema.

Figura 6: Programa em Sequential Function Chart

2.2. MÉTODOS TRADICIONAIS DE tanto os requisitos (funcionais e não


MODELAGEM PARA SISTEMAS DE funcionais), quanto as restrições, diretivas e
INFORMAÇÃO domínio do projeto.
Quando se representa sistemas Conforme já exposto em Oliveira (2013), os
informatizados, um dos métodos mais requisitos funcionais descrevem o que o
utilizados é a modelagem através do produto deve fazer, ou seja, que ações
mapeamento dos processos de negócio processuais ele deve tomar, enquanto os
envolvidos. Este método busca identificar, requisitos não funcionais representam as

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propriedades que o produto deve possuir para etapa foi a aplicação das modelagens
desempenhar adequadamente as funções baseadas em BPMN ao sistema proposto. Na
requeridas. O conceito de restrições de terceira etapa, foram efetuados testes de
projeto refere-se às limitações sobre a aplicação do EIS Pattern Framework ao mesmo
especificação do produto, as quais são sistema, culminando em uma avaliação de
derivadas da relação do produto com seu custo x benefício da referida aplicação.
entorno; as diretivas de projeto são as forças
No inicio do desenvolvimento do trabalho foi
associadas ao negócio e o domínio do projeto
realizado um levantamento de informações
representa as condições nas quais o projeto
sobre o funcionamento do sistema utilizado no
deverá ser executado.
estudo de caso, e a partir destas informações,
Os recursos disponibilizados pela BPMN utilizando-se de BPMN, foi desenvolvido o
(Business Process Model and Notation) têm mapeamento “AS IS”, o qual, por sua vez,
facilitado consideravelmente a representação serviu de base para a realização do processo
e entendimento do comportamento do sistema, de elicitação dos requisitos e para o
mostrando-se mais eficientes do que os desenvolvimento do modelo “TO BE”.
pertencentes ao diagrama de atividades da
Após a pesquisa bibliográfica e a utilização de
UML (Unified Modeling Language), o qual não
BPMN para mapeamento e registro do modelo
possui tantos recursos para esse tipo de
de negócio, buscou-se modelar o sistema e
modelagem. Nos sistemas em fase de
avaliar os resultados desta modelagem quanto
desenvolvimento, é comum realizar-se o
à facilidade de construção e de entendimento,
mapeamento do estado atual do sistema (AS
assim como, quanto a possibilidade de
IS) e do sistema que se espera obter após a
agregar facilidades para a geração de código.
intervenção (TO BE). Apesar das vantagens
apresentadas pelo BPMN, mantem-se a Por fim, foi realizada a análise comparativa dos
utilização da UML, devido às facilidades modelos.
disponibilizadas pelos diagramas de casos de
uso (USE CASE) e de classes.
3.1. DETALHAMENTO DA PESQUISA
BIBLIOGRÁFICA
3. METODOLOGIA DA PESQUISA
Para a pesquisa sobre o estado da arte, foi
A pesquisa em curso aborda o detalhamento escolhida a base SCOPUS e definida uma
do EIS Pattern Framework e de sua aplicação string de busca construída a partir das
em paralelo à aplicação de outros métodos de palavras e termos entendidos como chaves
modelagem, sobre um sistema de automação para a representação dos objetivos. Na
industrial específico, objetivando emitir um primeira tentativa foi utilizada uma string
parecer quanto a sua eficiência comparada a composta por três termos, obtendo-se um
de outros métodos. resultado de 82 fontes de pesquisa, porém
buscando-se um maior refinamento, utilizou-se
A metodologia iniciou-se com uma pesquisa
uma nova string que recebeu um quarto termo
bibliográfica sobre o estado da arte das
e retornou 21 fontes.
aplicações de EIS, os métodos de modelagem
utilizados nas mesmas e a sua correlação com A Figura 7 apresenta a quantidade de
sistemas automatizados. Em paralelo foi resultados obtidos na busca individual e em
realizada uma pesquisa sobre os detalhes do cada combinação das palavras chaves
EIS Pattern Framework, abrangendo seus utilizadas na primeira tentativa, assim como o
aspectos históricos e técnicos. A próxima resultado consolidado da segunda tentativa.

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Figura 7: Resultados obtidos por combinação de filtros

Partindo desse segundo resultado foram aderência aos objetivos. Assim, o resultado
definidos os critérios de priorização e exclusão convergiu para um total de 6 artigos, os quais
privilegiando os artigos com maior número de foram analisados de forma integral (vide
citações e excluindo aqueles nos quais o Tabela 1).
Abstract não demonstrava adequada

Tabela 1: Fontes de pesquisa selecionadas após aplicação dos critérios de priorização / exclusão
Nº Citações Ano Título

1 74 2008 The importance of business process modeling in software systems design

An ontology-driven framework towards building enterprise semantic information


2 20 2013
layer

Semantics enactment for interoperability assessment in enterprise information


3 8 2012
systems

Agent-based workflow approach to the design and development of cross-


4 7 2013
enterprise information systems

From a high level business process model to service model artifacts: A model-
5 7 2012
driven approach

Recalling the rationale of change from process model revision comparison – A


6 0 2017
change-pattern based approach

Quanto à pesquisa histórica e técnica sobre os O sistema objeto do estudo visa o


detalhes do EIS Pattern Framework, a qual monitoramento de dados ambientais em
demanda um vínculo maior com o ambientes lagunares, mais especificamente, o
conhecimento que já está consolidado, do que monitoramento do volume fitoplanctônico, o
com o ainda em construção, foram priorizadas qual será determinado através da medição da
as referências indicadas por um especialista foto-fluorescência.
da área.
A escolha do método de medição baseou-se
em dois motivos: o primeiro e que, no
fitoplâncton existem diversos pigmentos
4. O ESTUDO DE CASO
fotossintéticos (Ex: as clorofilas a, b e c, os
4.1. CARACTERÍSTICAS DO SISTEMA carotenos, as xantofilas, entre outros), sendo a
MODELADO clorofila a, o principal pigmento fotossintético
de todos os organismos que realizam
fotossíntese com libertação de oxigénio.

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Devido a isso, ela tornou-se amplamente trabalho de Leeuw, Boss e Wright (2013)
utilizada para estimar a biomassa também endossa essa segunda motivação.
fitoplanctónica em águas doces superficiais
Na atualidade, o processo do referido sistema
(INAG, 2009); O segundo motivo é que, a
é realizado, quase que integralmente, de forma
medição da fotofluorescência, mediante a
manual, mas, a partir deste momento, este será
sensibilização por LED com o adequado
totalmente automatizado.
comprimento de onda, apresenta-se como um
método adequado e relativamente barato para Utilizando-se do método de entrevista foi
a interpretação do volume de clorofila a em realizado o levantamento do funcionamento
corpos de água bruta (PUIU et al., 2015). O atual do sistema, o qual foi representado no
diagrama “AS IS” conforme a Figura 8:

Figura 8: Mapeamento “AS IS”

Partindo desse primeiro diagrama, mediante salvamento remoto; e uma restrição de


ao uso da técnica de Brainstorming, foi projeto, a qual exige um baixo custo de
concluída a elicitação dos requisitos do construção para cada unidade a ser fabricada.
sistema, resultando nos seguintes requisitos
Após as investigações de soluções, baseadas
funcionais: reconhecimento do
nos requisitos e restrições elicitados, foi
posicionamento do sistema, data e hora da
decidido que o sistema será composto por
medição (através do GPS); medição da
uma unidade de processamento, um sensor de
temperatura; medição da foto-fluorescência;
foto-fluorescência, um sensor de temperatura,
armazenamento local dos dados e envio dos
um módulo de GPS, uma unidade de leitura e
dados para armazenamento remoto.
gravação de cartão SD e uma antena de
Foram identificados também: um requisito radiofrequência. O modelo “TO BE” pode ser
não-funcional relativo a confiabilidade que, por visto na Figura 9.
sua vez, motivou o requisito funcional de

Figura 9: Mapeamento “TO BE” do sistema a ser implementado

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Todo o sistema ficará embarcado em uma boia como núcleo, cinco entidades de negócios.
de deriva, a qual terá liberdade para deslocar- São elas, Recurso, Nó, Caminho, Movimento e
se livremente na superfície da lagoa, Item.
realizando medições em pontos aleatórios,
Conforme Carvalho e Monnerat (2007), o ERP5
sendo o intervalo entre as amostragens
foi concebido para ser um framework muito
definido na configuração do sistema.
flexível para o desenvolvimento de aplicações
O processo de funcionamento inicia-se com a empresariais, e neste sentido, deve ser
leitura do posicionamento via GPS e suficientemente abstrato para abranger todos
inicialização de um registro, o qual conterá os conceitos básicos de negócios, sendo
também a data e a hora da mesma. A próxima adaptável a vários modelos sem incorrer em
etapa é a medição da temperatura da água e altos custos de mudanças e manutenção.
a concatenação do resultado ao registro já
O ERP5 foi desenvolvido por um grupo de
inicializado. A terceira medição é a relativa à
empresas e instituições de ensino e pesquisa,
foto-fluorescência, sendo também
envolvendo países como França e Brasil,
concatenada ao registro.
sendo um projeto de código aberto que tem
Após a montagem do registro, o mesmo deve por objetivo oferecer soluções de alta
ser gravado em um cartão SD e, logo após, tecnologia e custo acessível para as empresas
enviado via antena de RF para o sistema de interessadas em adotar um sistema integrado
armazenamento remoto. de gestão (SANTOS et al., 2010).
Concluído o envio haverá uma confirmação do O referido framework representa uma
salvamento remoto, porém, abordagem simplificada que, baseada em
independentemente da recepção da modelos, fluxos de trabalho simplificados e alto
confirmação, o sistema deve prosseguir com nível de reutilização, é capaz de reduzir não
sua sequência, destruindo o registro apenas o esforço de programação, mas
temporário e reiniciando o ciclo de medição também o número e a complexidade das
após a contagem do tempo configurado entre tarefas de modelagem, aumentando a
medições. produtividade, facilitando o gerenciamento e
minimizando os erros de modelagem e
codificação a partir do uso intensivo de
4.2. METODOLOGIA DE MODELAGEM VIA EIS ferramentas altamente integradas
PATTERN FRAMEWORK (MONNERAT; DE CARVALHO; DE CAMPOS,
2008).
Um framework tem como proposta direcionar o
processo de modelagem a partir das O EIS Patterns consiste em um framework
especificações (requisitos funcionais, simplificado, focado em testar novas técnicas
requisitos não funcionais, processos de para desenvolver EIS Flexíveis, e sua
negócio e restrições) e, após a adequada concepção teve como inspiração os conjuntos
análise, transformar esses dados em de Lego, ou seja, blocos de construção
especificações formais de sistemas de básicos que podem ser combinados com
informação (OLIVEIRA, 2013). entidades diferentes. O mesmo foi construído
em torno de três conceitos abstratos
O EIS Pattern Framework evoluiu das
essenciais (Recurso, Nó e Movimento), cada
experiências obtidas no desenvolvimento do
um com três subclasses, as quais representam
ERP5 que, por sua vez, se caracteriza como
dois conceitos "opostos" derivados e um
um ERP Livre de Código Aberto (Free/Open
terceiro que funciona como agregador destes
Source ERP System – FOS-ERP) baseado em
dois primeiros (CARVALHO; JOHANSSON,
um modelo de ontologia unificado que possui
2013).

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Figura 10: Ontologia representativa do núcleo do EIS Pattern (CARVALHO; JOHANSSON, 2013)

A ontologia do EIS Patterns Framework foi Transformação: é um movimento dentro de um


representada conforme a Figura 10 e seus nó, ou seja, a fonte e o destino são o próprio
conceitos são interpretados conforme a lista nó; representa a transformação por máquina
abaixo: ou por trabalho de um recurso. Ex.: perfurar
uma placa de metal ou escrever um relatório.
Recurso: é tudo o que é usado para a
produção. Tem um papel passivo, sendo Transporte: é um movimento de recursos entre
responsável por armazenar dados de recursos dois nós distintos. Ex.: transferência de um
de produção. Pode ser caracterizado como: componente de uma estação de trabalho para
outra ou envio uma ordem do fornecedor para
Material: produto, componente, ferramenta,
o cliente.
documento, matéria-prima, etc;
Processo: é um conjunto de transformações
Operação: operação humana ou de máquina,
e/ou transportes, ou seja, um processo de
bem como seus derivados;
negócio.
Kit: é um conjunto de recursos materiais e/ou
O conceito Nó pode ser estendido através do
imateriais. Ex.: pacotes de serviços e
padrão Decorator. A extensão do conceito
componentes para fabricação.
Recurso dá-se através de subclasses,
Nó: é algo que transforma recursos. Tem um enquanto o conceito Movimentos é estendido
papel ativo, sendo responsável pela execução através da configuração.
das operações de produção. Pode ser
A Ontologia demonstra uma cadeia de
caracterizado como:
relacionamentos que denota como o núcleo
Pessoa: funcionário, pessoa de contato do implementa os processos de negócios: "um
fornecedor, operador de perfuração, etc; Processo coordena o(s) Nó(s) para executar
a(s) Operação(ões) que, por sua vez, opera(m)
Máquina: hardware, software, equipamento de
em Item(ns) de Trabalho". O significado
perfuração, conta bancária, etc;
semântico dessa cadeia é que os objetos de
Organização: é um coletivo de máquinas e/ou Processo controlam, sob determinadas
pessoas. Ex.: célula de fabricação, condições, objetos de Nó que realizam
departamento, empresa, governo, etc. operações para transformar ou transportar
Recursos. Isto leva a outra relação especial
Movimento: é uma transferência de um recurso
que é: "um Movimento encapsula uma
entre dois nós. Tem uma função de
Operação", o que significa que um objeto de
coordenador, sendo responsável por gerenciar
Movimento encapsulará a execução de uma
os nós enquanto trabalham em recursos. Pode
Operação. Em termos práticos, uma Operação
ser caracterizado como:
é a descrição abstrata de uma operação de

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


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produção, que é implementada através um ou da semântica dos modelos elaborados (YAHIA


mais métodos de objetos de Nó. Quando essa et al., 2012).
Operação é disparada por um objeto de
Conforme já expresso em Barjis (2008), se um
Processo, ela difere a execução real para um
modelo consegue capturar o fluxo do
método de objeto de Nó pré-configurado e
processo, todas as atividades principais,
essa execução é registrada por um objeto de
iniciadores e executores de cada atividade,
Movimento, que armazena todos os
ordem pontual de atividades e resultados
parâmetros, como por exemplo, data, hora e
criados (saída) por cada atividade, ele
resultados dessa execução. Portanto, uma
aumenta consideravelmente a probabilidade
Operação é um conceito abstrato que pode ser
da obtenção de um projeto adequado.
configurado para atribuir uma execução
diferenciada, para diferentes métodos ou de Não é suficiente apenas conceber as
diferentes objetos, de acordo com as atividades de negócios ligadas por fluxos de
intenções de cada instância de processo de controle do processo. Para representar a
negócios específico. Em outras palavras, uma totalidade dos requisitos, uma definição de
abstração de processo de negócios mantém processo deve indicar explicitamente todas as
sua lógica, enquanto resultados específicos entidades que participam no processo. Esses
podem ser obtidos mediante a configuração requisitos devem ser transformados, sem
(CARVALHO; JOHANSSON, 2013). perda de informações, em especificações
semânticas, das quais, diferentes
Esse mecanismo permite que um determinado
componentes de software podem ser
modelo de processo de negócios possa ser
derivados (SOLTANI; BENSLIMANE, 2012).
configurado para ser implementado de
diferentes maneiras (de acordo com diferentes A análise da bibliografia demostrou que as
contextos), para diferentes aplicações, até pesquisa estão muito focadas em como
mesmo em tempo de execução. automatizar a geração de códigos a partir de
modelagem baseada em alguma ontologia
É importante notar que neste ambiente, os
específica. Os trabalhos de Barjis (2008);
Processos controlam os elementos ativos, os
Soltani e Benslimane (2012); Wang, Shen e
Nós, que por sua vez operam em cima dos
Hao (2006) e Yahia et al. (2012) demostram
elementos passivos, os Recursos.
diferentes propostas que, de alguma forma,
Em termos de programação, isso significa que almejam este objetivo. Os estudos de Wang;
os Processos são configuráveis, os Nós são Shen; Hao (2006) abordam também a
estendidos e os Recursos são tipicamente interoperabilidade entre diferentes sistemas,
classes do tipo “data bag”. assim como, o trabalho apresentado por Song,
Zacharewicz e Chen (2013). Não se encontrou
pesquisas relevantes sobre a aplicação
4.3. A NOVA MODELAGEM DO SISTEMA específica de ontologias à modelagem de
sistemas de automação.
A modelagem é um pré-requisito para permitir
a compreensão comum do sistema, em suas Mediante ao exposto, foi realizado um teste da
várias interações, a fim de "fornecer as modelagem através da ontologia EIS Partten,
informações certas, no momento certo, no partindo da total ausência de referências
lugar certo". No entanto, é comum observar-se anteriores. O resultado pode ser observado
problemas oriundos da falta de compreensão na Tabela 2 e na Figura 11.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


18

Tabela 2: Mapeamento dos conceitos utilizados na ontologia


CONCEITO MAPEAMENTO
Monitoramento_de_água Processo
Composição_de_Registro Transformação
Sistema_de_Monitoramento Kit
Boia_de_Deriva Máquina
Modulo_GPS Máquina
Obter_dados_GPS Operação
GPS Item_de_Trabalho
Kit_Medição_Temperatura Máquina
Medir_Temperatura Operação
Sensor_de_Temperatura Item_de_Trabalho
Kit_Medição_Foto-fluorescência Máquina
Sensor_de_Foto-fluorescência Item_de_Trabalho
Salvamento Transporte
Salvar_Localmente Operação
Cartão_de_Memória Item_de_Trabalho
Salvar_Remotamente Operação
Transmissor_de_RF Item_de_Trabalho

No que se refere às questões de modelagem, classe original, uma solução utilizando o


com foco na capacidade de representação e padrão Decorator pode fornecer novo
interpretação do funcionamento do sistema, comportamento, em tempo de execução, para
entendeu-se que o método atendeu exigências objetos individuais. A utilização de Decorator
semelhantes às definidas nos fragmentos facilita a configuração do sistema, no entanto,
extraídos dos trabalhos de Barjis (2008); normalmente, é necessário lidar com muitos
Soltani e Benslimane (2012) e Yahia et al. pequenos objetos.
(2012), os quais foram citados acima.
A utilização de decoradores permite, de
O próximo passo da análise foi verificar a acordo com a necessidade da lógica do
aplicabilidade metodológica para a processo, associar e/ou dissociar diferentes
implementação do código. responsabilidades a objetos de Nó, permitindo
que: o mesmo objeto, com o mesmo
identificador, seja utilizado durante todo o
A metodologia mais usual de programação, processo de negócio, não havendo
oriunda de modelos baseados em UML, necessidade de criar diferentes objetos de
costuma estender um comportamento de uma diferentes classes. Além disso, é possível
classe a partir da criação de subclasses da seguir o mesmo objeto durante todo o seu ciclo
mesma, porém, esta técnica pode conduzir à de vida, inclusive por meio de diferentes
hierarquias de classe complexas e processos de negócios, pois, depois que um
consideravelmente difíceis de manter. objeto é criado e validado, ele manterá sua
identidade para sempre. Essa realidade traz
Conforme expresso em Carvalho e Johansson
facilidade na realização de auditorias.
(2013), enquanto o uso de subclasses adiciona
um comportamento a todas as instâncias da

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


19

Figura 11: Nova Modelagem do Sistema

Devido ao entendimento de que as vantagens


de um novo modelo devem ir além de sua
Os decoradores devem manter um conjunto de
facilidade de entendimento e de construção,
regras de associação, o qual é responsável
agregando, principalmente, facilidades para a
por permitir ou proibir que novas
geração de código. As tentativas de
responsabilidades sejam atribuídas aos
implementação de código foram direcionadas
objetos específicos. Assim, apenas se um
a utilização dos Decoradores, buscando o
determinado objeto respeita as regras de
adequado suporte às abstrações de alto nível,
associação de um determinado Decorador, ele
condizentes com o EIS Pattern Framework.
poderá ser decorado pelo referido Decorador.
O entendimento alcançado foi que, apesar da
A avaliação realizada tomou como base, entre
demonstração da capacidade do EIS Pattern
outras premissas, algumas considerações
Framework gerar modelos representativos
expressas em Soltani e Benslimane (2012), as
para sistemas de automação, a utilização de
quais definem que o desenvolvimento de um
um novo método de modelagem só se justifica,
aplicativo corporativo em grande escala (por
caso ele consiga trazer vantagens em relação
exemplo: aplicações de Enterprise Information
aos métodos com uso já consagrado.
Systems), sempre começa com a abstração de
mais alto nível, nas quais se encontram a Chegou-se à conclusão de que a modelagem
especificação e a representação do negócio proposta não apresentou vantagens
sob a forma de modelos de processos de significativas, principalmente pelo
negócios. Em paralelo, Carvalho e Campos reconhecimento de que os conceitos utilizados
(2009) expõem que, a maior parte do pelo EIS Pattern Framework utiliza um grau de
desenvolvimento e customização de software abstração excessivamente elevado, o qual
é feita através de ciclos de vida interativos e apesar de demonstrar-se eficiente para
incrementais, nos quais não há limites claros sistemas compatíveis (como por exemplo: os
entre a fase de definição dos requisitos e as sistemas de gestão, os financeiros, os de
fases de projeto preliminar, tampouco, entre a alocação de recursos, os de fluxo de materiais,
fase de projeto detalhado e as de etc), não se enquadra bem aos sistemas de
implementação. automação, os quais, por pertencer a um
domínio de aplicação muito diferente (sendo

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


20

compostos por elementos essencialmente Movimento), cada um com três subclasses, as


concretos), não têm facilidade para incorporar quais representam dois conceitos "opostos"
níveis de abstração tão elevados e, por isso, derivados e um terceiro que funciona como
acabam não sendo favorecidos pelo uso dos agregador destes dois primeiros.
decoradores.
O objetivo desta pesquisa foi analisar a
Partindo-se de todo o exposto, identificando os possibilidade de extensão do uso do EIS
benefícios inexpressivos apresentados e Pattern Framework como ferramenta aplicável
prevendo uma geração de custos adicionais à modelagem de ambientes relacionados aos
(normalmente associados a treinamento da sistemas automatizados industriais, avaliado
equipe com foco em uma mudança de tanto a facilidade de construção e de
metodologia ou em uma quebra de entendimento do modelo, quanto a
paradigma), considerou-se a aplicação do EIS possibilidade de favorecimento à geração de
Pattern Framework como não recomendado código.
para sistemas de automação.
Foi percebido que devido ao fato dos sistemas
de automação pertencer a um domínio de
aplicação muito diferente (sendo compostos
5. CONCLUSÕES
por elementos essencialmente concretos), os
O EIS Pattern Framework evoluiu das mesmos não apresentam facilidade para a
experiências obtidas no desenvolvimento de incorporação de níveis de abstração tão
um FOS-ERP (Free/Open Source ERP System) elevados quanto os utilizados no EIS Pattern
denominado ERP5, o qual consiste em um Framework.
framework simplificado, focado em testar
Assim, apesar de EIS Pattern Framework ter
novas técnicas para desenvolver EIS Flexíveis.
demonstrado capacidade para gerar modelos
A sua concepção foi baseada na utilização de
representativos de sistemas de automação,
blocos de construção básicos, os quais podem
entendeu-se que o mesmo não traz vantagens
ser combinados com entidades diferentes,
expressivas que justifiquem sua aplicação aos
sendo construído em torno de três conceitos
referidos sistemas.
abstratos essenciais ( Recurso, Nó e

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Gestão da Produção em Foco - Volume 18


22

Capítulo 2
USO DE TÉCNICAS DE PREVISÃO DE DEMANDA EM UMA
MICROEMPRESA DO RAMO DE PETS
Castelar Junior
Camila Barros
Nathan Gerhard Cavalcanti
Adailson Guilherme Teófilo

Resumo: A Central Banho e Tosa é uma empresa que atua no ramo de serviços de
banho e tosa em pets e conta com a colaboração de 5 funcionários. Inicialmente, a
empresa conquistou mercado através do marketing face-to-face e também com a
entrega de panfletos. Todavia, com a crescente demanda pelos serviços oferecidos,
a divulgação da empresa passou a acontecer através da reputação da mesma na
região de atuação. Frente à crescente competitividade do mercado atual,
consequência do processo de globalização e dos avanços tecnológicos, é essencial
que as organizações empresariais, principalmente, as micro e pequenas empresas,
invistam no desenvolvimento do seu planejamento estratégico, a fim de aumentar o
seu nível de serviço ao cliente e se diferenciem no mercado perante aos seus
concorrentes. Portanto, o objetivo desse artigo é auxiliar uma microempresa do setor
de pets a planejar de forma mais eficiente seus serviços. Para isso, fez-se uma
pesquisa de campo e, a partir dos dados levantados, aplicou-se técnicas de previsão
de demanda como, regressão linear simples e suavização exponencial simples,
utilizando-se a ferramenta de análise de dados do Excel. Por meio da soma
acumulada dos erros de previsão de cada método adotado, escolheu-se àquele que
apresentava o menor valor e, a partir disso, sugeriu-se propostas de melhoria como
a implementação do MRP.

Palavras-chave: Planejamento e Controle da Produção, Regressão Linear Simples,


Suavização Exponencial Simples, Erros de Previsão.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


23

1. INTRODUÇÃO auxiliará o planejamento do serviço oferecido,


com o objetivo de diminuir custo na obtenção
A falta de previsão de demanda leva a
de produtos e melhorar a qualidade de
organização a um baixo nível de serviço, pois
atendimento aos clientes.
o não-atendimento aos clientes devido à
ausência de materiais, diminui a confiabilidade A variabilidade entre a demanda real e a
da empresa e também a qualidade do banho e demanda prevista é inerente à previsão, visto
da tosa, acarretando perda de clientes e, que que o futuro não é determinístico. Para
consequentemente, queda na receita da minimizar as diferenças existentes entre essas
organização. demandas, a análise de erros estatísticos foi
utilizada para a escolha do melhor método de
Segundo o Serviço Brasileiro de Apoio às
previsão.
Micro e Pequenas Empresas (SEBRAE), o
empreendedorismo vem crescendo muito no
Brasil e é fundamental sua participação na
2. REVISÃO DA LITERATURA
economia. No setor de serviços, mais de um
2.1. PREVISÃO DE DEMANDA
terço da produção nacional (36,3%) tem
origem nos pequenos negócios. Previsão de demanda utiliza dados do
passado para projetar a demanda no futuro. A
A grande competitividade no mundo atual
partir da montagem de um cenário provável é
exige que as empresas entrantes no mercado
possível planejar, implementar e controlar
aumentem a eficiência de seus processos,
atividades.
com a finalidade de alcançar um nível de
competitividade e, consequentemente, . “O planejamento e controle das atividades
garantir seu crescimento. dependem de estimativas acuradas dos
volumes de produtos e serviços a serem
A empresa analisada foi a Central Banho e
processados. Tais estimativas ocorrem
Tosa, inaugurada em 2009, e que atua no ramo
tipicamente na forma de planejamento e
de serviço de banho e tosa em cachorros e
previsões” (BALLOU, 2006, pg 241). Segundo
gatos. Ela se encontra em Niterói-RJ.
ele, previsão é vital para a empresa como um
O estudo foi realizado para inserir na todo e é a medida que proporciona a entrada
microempresa ferramentas de previsão de básica para o planejamento e controle de
demanda para ajudá-la a planejar seus todas as áreas funcionais, entre as quais,
serviços de forma mais eficiente. A regressão Logística, Marketing, Produção e Finanças.
linear e a suavização exponencial simples
Para se obter uma boa previsão de demanda,
foram utilizadas e os cálculos foram feitos no
é preciso entender o comportamento do
programa Microsoft Excel®.
mercado e ter desenvolvido a capacidade de
A série histórica disponível para esse estudo análise e interpretação dos dados históricos.
foi de 14 meses com os serviços realizados. Na Tabela 1, está demonstrado um método
Com esses dados, previu-se uma demanda conforme Tubino (2000) sugere para realizar a
para os três meses seguintes. Tal previsão previsão de demanda.

Figura 1 - Sequenciamento para fazer previsão de demanda

Fonte: Adaptado de Tubino (2000)

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


24

Tabela 1 - Explicação passo a passo para fazer uma previsão de demanda.


Razão da necessidade da previsão, que produto será previsto, que
Objetivo dos dados
acuracidade, que detalhamento e que recursos estarão disponíveis.
Identificar e desenvolver a técnica que melhor se adapte aos dados
históricos do produto.
Coletar informações de forma sistemática, com procedimentos

Coleta e análise dos definidos e fontes seguras.


dados  Buscar uma base histórica grande;
 Acompanhamento da demanda pelos produtos da empresa;
 Substituir variações extraordinárias de demanda pela sua média;
 Tamanho do período de mensuração dos dados.
Deve-se ponderar principalmente o custo e acuracidade.
Posteriormente a disponibilidade dos dados, dos recursos
Escolha da técnica de
computacionais, experiência passada, disponibilidade de tempo para
previsão
coletar, analisar e preparar os dados e período de planejamento para a
previsão.
À medida que as previsões forem sendo alcançadas pela demanda

Monitoramento do real, deve-se monitorar a extensão do erro entre a demanda real e a


modelo prevista, para verificar se a técnica e os parâmetros empregados ainda
são válidos.
Deve-se tomar extremo cuidado na obtenção das previsões.
Obtenção das
Utilizar métodos estatísticos adequados para se obter as previsões
previsões
adequadas para determinado horizonte.
Fonte 2: Tubino (2000)

O objetivo é determinado quando é feito um Quando o modelo é escolhido e obtém-se


diagnóstico e análise sobre o serviço ou previsões, o controle e monitoramento é feita
produção para que se defina os problemas e para garantir que o erro entre o a demanda real
necessidades de melhoria. Dessa forma, é e a prevista sejam pequenas e caso se tornem
definido o porquê de se fazer uma previsão. grande, um novo ciclo de análise deverá ser
Para a previsão, o levantamento de dados feito.
deve ser feito de forma que se alinhe com o
objetivo.
2.2. TÉCNICAS DE PREVISÃO
Cada valor levantado carrega consigo uma
significação, além da quantitativa, qualitativa. Existem diversas técnicas de previsão de
Por isso, a análise dos dados deve ser feita de demanda. Dentre elas, as técnicas qualitativas,
forma tentar excluir pontos que podem tornar a que se baseiam em critérios subjetivos, e
previsão menos precisa. Por exemplo, em um técnicas quantitativas, que utilizam a série
serviço de venda, quando um dia não há histórica de dados, a fim de estruturar
venda, não significa necessariamente que não modelagens matemáticas. A característica
houve demanda para aquele dia, mas sim geral de todas as técnicas são, de acordo com
podendo ter outros fatores como: falta de Tubino (2000):
produto em estoque, promoções em dias
 As causas que influenciaram no
anteriores, feriados que não houve serviço e
passado continuarão a influenciar no
entre outras significações agregadas aos
futuro;
dados.
 As previsões não são perfeitas;

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


25

 A acuracidade diminui com o aumento escolha da técnica assim como no


do período; monitoramento.
 A previsão para grupo de produtos é A seguir, serão tratadas as técnicas de
mais precisa do que para os produtos previsão usadas nesta obra e a metodologia
individualmente. usada para definir a melhor técnica de
previsão para o estudo de caso.
Para a escolha da técnica é necessário levar
em consideração o objetivo, coleta e análise
de dados.
2.3. REGRESSÃO LINEAR SIMPLES
Por exemplo, no objetivo é definido a restrição
O método de regressão linear simples consiste
de custo para fazer a previsão. Isso irá
em analisar o efeito das variáveis de previsão
impactar diretamente na escolha da técnica
(variáveis independentes) sobre as variáveis
que esteja dentro dessa restrição. A coleta é
de demanda (variáveis dependentes). A
outro fator que afeta o tipo de técnica a ser
correlação existente entre essas variáveis é
usada pois dependendo do tipo de dados que
estabelecida através de uma equação
existirem, que podem ser levantados ou não e
matemática. Esse método também é
dentre os dados qual tamanho da precisão que
conhecido como “ Método dos Mínimos
esses dados carregam.
Quadrados”. Na figura 2, há uma
Além do objetivo e a coleta, o erro que cada representação gráfica do modelo descrito:
técnica tem é importante tanto quanto na

Figura 2- Modelo de regressão linear

De acordo com Graeml (2007), a previsão é Onde:


obtida por meio da equação da reta, que leva
a = coeficiente de nível de demanda
em consideração o nível de tendência das
demandas passadas, como ser visto nas
fórmulas abaixo:
Onde:
Di = demanda do período i
Di = demanda do período i
Pi = período i
a = coeficiente do nível da demanda
n = número de períodos considerados
b = coeficiente de tendência da demanda
Pi = período i
E os coeficientes a e b da equação da
Portanto, por meio da fórmula acima, minimiza-
demanda são calculados por meio da fórmula:
se a soma do quadrado da diferença entre os
dados reais e a linha de tendência resultante e,
assim, é possível utilizar a regressão linear
simples para prever valores futuros a partir de
dados históricos.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


26

2.4. SUAVIZAÇÃO EXPONENCIAL SIMPLES resultando em uma série projetada mais


irregular.
O método de suavização exponencial simples
se baseia na média ponderada, em que os Sendo assim, a suavização exponencial
pesos decrescem geometricamente com o simples geralmente é utilizada para a previsão
passar do tempo. Dessa forma, cada nova de curto prazo, pois é necessário o registro de
previsão de demanda é baseada na previsão apenas um número para representar o
anterior, acrescida da diferença entre a histórico da demanda e dar continuidade a sua
demanda real e a estimativa do período aplicação, sendo capaz de se adaptar às
anterior, corrigida pela constante de mudanças nos dados da previsão.
suavização.
A equação que representa a situação descrita
2.5. ERROS DE PREVISÃO
acima é:
Segundo Slack (1997), qualquer que seja o
grau de sofisticação do processo de previsão
de uma empresa, é sempre difícil utilizar dados
históricos para prever futuras tendências,
Onde: ciclos ou sazonalidades. Isso ocorre porque
todo modelo de previsão de demanda possui
= Previsão para o período ; um erro, inerente ao método que será usado.
= Previsão para o período ; Para Fernandes & Godinho Filho (2010), o
sistema de previsão deve ser controlado a fim
α= Constante de suavização; de se determinarem os erros que estão
ocorrendo nas previsões. A escolha do
= Demanda do período . método, bem como medidas de controle de
Segundo Quelhas et. al (2008), a constante α, erros são maneiras de ter um grau de
denominada constante de suavização da confiança na previsão. Será abordado a seguir
previsão, varia entre uma faixa de 0 a 1 e medidas de erros para a comparação entre
determina se a curva de projeção será mais ou modelos de previsão obtidos, culminando na
menos suave. Valores próximos de zero escolha do modelo mais adequado a série
implicam em menores correções de previsão, temporal analisada. A literatura possui várias
que irão resultar em uma curva de projeção medidas de erros, entretanto neste trabalho
mais suave. Por outro lado, valores próximos serão utilizados os encontrados na tabela 2:
de um produzem maiores correções,

Tabela 2 - Fórmulas do s erros.

Onde:
de previsão ( ) for distante de zero, isso
Di é a demanda real do período i; indica que a previsão é tendenciosa,
denunciando um problema com a técnica de
é a demanda que foi prevista para o previsão. Mas se essa somatória tiver uma
período i; oscilação com taxa constante, entende-se que
cada previsão está subestimando ou
N é a quantidade de períodos. superestimando a demanda numa taxa
Fernandes e Godinho Filho (2010) concluem constante.
que quando a somatória acumulada dos erros

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


27

A seguir, a série histórica deste estudo de caso método adotado, optando-se por aquele que
será analisada sob a ótica de alguns tipos de apresentasse o menor valor, pois esse seria o
previsão, e os erros serão levantados para mais preciso. E, baseado no método
cada método utilizado. Entende-se que aquele escolhido, foram feitas previsões para os
que obtiver a menor soma acumulada dos períodos seguintes e, consequentemente,
erros de previsão será a metodologia mais sugeridas propostas de melhorias, com o
adequada para prever a demanda por serviço intuito de aumentar o nível de serviço ao cliente
da empresa tratada. e oferecer vantagem competitiva à
organização.
Por meio de uma pesquisa de campo, foi feita
3. METODOLOGIA
uma reunião com os gestores da
O estudo realizado começou com a definição microempresa do setor de pets, procurou-se
do objetivo e, depois, com a coleta e análise entender sobre o funcionamento da
dos dados. Em seguida, foi aplicada o uso das organização, identificando-se os problemas de
técnicas e o julgamento da melhor técnica para gestão como, a falta de um método quantitativo
esses dados. A ordem lógica do passo a passo de previsão de demanda e levantando-se os
para fazer a previsão está representa na Figura dados da série histórica da empresa, tais
3. como, quantos serviços realizados no dia,
nome dos clientes e seus respectivos pets e
Por meio de uma pesquisa de campo, foi feita
preço por cada serviço realizado, para se
uma reunião com os gestores da
aplicar as ferramentas de previsão em
microempresa do setor de pets, procurou-se
questão.
entender sobre o funcionamento da
organização, identificando-se os problemas de A partir disso, foram registrados os dados, com
gestão como, a falta de um método quantitativo o auxílio da planilha do Excel e, por meio da
de previsão de demanda e levantando-se os ferramenta de análise de dados, foram
dados da série histórica da empresa, tais aplicados os métodos de regressão linear
como, quantos serviços realizados no dia, simples e suavização exponencial simples, a
nome dos clientes e seus respectivos pets e fim de prever a demanda dos serviços
preço por cada serviço realizado, para se oferecidos pela organização. Essas técnicas
aplicar as ferramentas de previsão em foram propostas para a empresa por serem de
questão. fácil aplicação, dado que a empresa já
A partir disso, foram registrados os dados, com disponibiliza o suficiente para implementar tais
o auxílio da planilha do Excel e, por meio da métodos.
ferramenta de análise de dados, foram Por fim, foram comparadas as somas
aplicados os métodos de regressão linear acumuladas dos erros de previsão de cada
simples e suavização exponencial simples, a método adotado, optando-se por aquele que
fim de prever a demanda dos serviços apresentasse o menor valor, pois esse seria o
oferecidos pela organização. Essas técnicas mais preciso. E, baseado no método
foram propostas para a empresa por serem de escolhido, foram feitas previsões para os
fácil aplicação, dado que a empresa já períodos seguintes e, consequentemente,
disponibiliza o suficiente para implementar tais sugeridas propostas de melhorias, com o
métodos. intuito de aumentar o nível de serviço ao cliente
Por fim, foram comparadas as somas e oferecer vantagem competitiva à
acumuladas dos erros de previsão de cada organização.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


28

Figura 3 - Fluxograma da metodologia

4 ANÁLISE DOS RESULTADOS 4.2. OS PROBLEMAS ENCONTRADOS


4.1 HISTÓRICO DA EMPRESA Devido ao pequeno espaço físico disponível e
à grande demanda pelos serviços, os gestores
A Central Banho e Tosa possui 7 anos de vida
compravam grande quantidade de materiais e
(criada em 2009) e conta com o apoio de 3
tinham dificuldade de armazená-los, gerando
funcionários e 2 sócios. São atribuições dos
problemas no fluxo de pessoas e animais
sócios gerenciar a loja, atender às ligações,
dentro do estabelecimento e custos de
realizar o banho e tosa nos animais e
estoque, reduzindo a receita da empresa. A
transportar alguns de seus clientes em
previsão de demanda ajudará os
domicílio. Os funcionários auxiliam nos
empreendedores a tomar decisões de compra
serviços gerais, no banho e na tosa, quando há
no momento certo, eliminando as dificuldades
uma sobrecarga de trabalho para os sócios. A
de fluxo no ambiente de trabalho e os custos
loja funciona de terça à sábado das 9:00h às
de estoque, aumentando a eficiência
19:00h e é aberta sempre por um dos sócios.
operacional da organização.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


29

4.3 LEVANTAMENTO E REGISTRO DOS levantados dados, tais como, quantos serviços
DADOS realizados no dia, nome dos clientes e seus
respectivos pets e preço por cada serviço
Com base em uma agenda, contendo os
realizado e, a partir deles, foi feito o gráfico de
registros do histórico de demanda dos
demanda dos serviços ao decorrer do ano de
serviços fornecidos pela organização, foram
2015.

Figura 4 -Série histórica.

A proposta dos autores é, a partir dos dados O primeiro passo foi registrar todos os dados
levantados, implementar técnicas quantitativas para uma planilha do Microsoft Excel ®, de
de previsão de demanda para a empresa. forma a indicar o mês e a quantidade de
serviços oferecidos, de acordo com a Tabela
3:

Tabela 3- Quantidade de banhos por mês.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


30

A avaliação dos dados foi feita a partir de 4.4. PREVISÃO USANDO REGRESSÃO
observação dos valores, em gráficos, para ter LINEAR SIMPLES
uma primeira ideia do comportamento da
Usando complemento do Excel a partir dos
demanda ( Figura 4). A partir disso, duas
dados que alimentaram a planilha foram
técnicas foram implementas para a previsão
gerados os erros quadráticos (EQM),
de demanda: regressão linear simples e
Absolutos (DAM), Médio (EAMP), relatórios de
suavização exponencial simples.
dados e gráfico:

Figura 5 - Representação da regressão linear simples dos dados.

Pela regressão feita, tem-se uma reta com a = Os coeficientes para este modelo de previsão
307,96 e b = 0,4154. Com isso, a previsão do estão apresentados na Figura 6:
10º mês para uma demanda de 398 é 312,10.

Figura 6- Relatório de análise da regressão linear simples gerado pelo Excel.

Consolidando todos os dados, obteve-se:

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


31

Tabela 4- Erro relacionado à regressão linear simples

Tendo em vista os erros relacionados ao O valor usado para a primeira previsão foi a
método, a seguir eles serão comparados com média entre o primeiro e o segundo valor da
os erros do outro método. demanda;
O valor de alfa utilizado foi o que melhor
minimiza os erros relacionados à previsão.
4.5. SUAVIZAÇÃO EXPONENCIAL SIMPLES
Este valor foi de 0,54.
Para esta técnica, foram considerados dois
fatores:
Tabela 5 - Erros relacionados à suavização exponencial simples
Período Demanda Previsão Erro
1 331 282,5 48,5
-
2 234 308,8442569
74,84425694
3 304 268,1903119 35,80968812
4 296 287,6414382 8,358561834
-
5 269 292,1816464
23,18164643
6 300 279,5898268 20,41017316
7 343 290,676236 52,32376396
8 369 319,0974872 49,90251278
9 378 346,2035618 31,79643817
10 398 363,4747688 34,52523122
-
11 287 382,2282031
95,22820306
12 377 330,5020948 46,49790518
-
13 265 355,7588528
90,75885279
-
14 204 306,4604087
102,4604087
EQM DAM EAMP

3404,06 51,04268874 0,180367977

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


32

Na figura 7, está representado, graficamente, simples e suavização exponencial simples, a


o comportamento da previsão em relação à fim de prever a demanda dos serviços
demanda. Por meio de uma pesquisa de oferecidos pela organização. Essas técnicas
campo, foi feita uma reunião com os gestores foram propostas para a empresa por serem de
da microempresa do setor de pets, procurou- fácil aplicação, dado que a empresa já
se entender sobre o funcionamento da disponibiliza o suficiente para implementar tais
organização, identificando-se os problemas de métodos.
gestão como, a falta de um método quantitativo
Por fim, foram comparadas as somas
de previsão de demanda e levantando-se os
acumuladas dos erros de previsão de cada
dados da série histórica da empresa, tais
método adotado, optando-se por aquele que
como, quantos serviços realizados no dia,
apresentasse o menor valor, pois esse seria o
nome dos clientes e seus respectivos pets e
mais preciso. E, baseado no método
preço por cada serviço realizado, para se
escolhido, foram feitas previsões para os
aplicar as ferramentas de previsão em
períodos seguintes e, consequentemente,
questão.
sugeridas propostas de melhorias, com o
A partir disso, foram registrados os dados, com intuito de aumentar o nível de serviço ao cliente
o auxílio da planilha do Excel e, por meio da e oferecer vantagem competitiva à
ferramenta de análise de dados, foram organização.
aplicados os métodos de regressão linear

Figura 7- representação gráfica da previsão pela suavização exponencial simples

4.6. ANÁLISE DE RESULTADOS partir disso, o melhor método será escolhido. O


resumo da análise feito se encontra na tabela
A partir dos erros calculados, observaram-se
6:
os erros que cada tipo de previsão gera. A

Tabela 6 - Comparação entre erros de cada método.


Método EQM DAM EAMP
Regressão linear simples 3099,405338 46,96295133 0,16137221
Suavização exponencial simples 3404,063479 51,04268874 0,180367977

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


33

Em sumo, todos os erros da suavização prever a demanda do Central Banho e Tosa. É


exponencial simples são maiores que os da possível observar, então, a previsão de
regressão linear simples. Logo, escolhe-se o demanda para o serviço para os próximos 3
método de regressão linear simples para meses, na tabela 7:

Tabela 7 - Previsão para os meses seguintes.

Período Mês/Ano Previsão

15 mar/16 314

16 abr/16 315
17 mai/16 315

Importante ressaltar que o modelo de preocupando cada vez mais com a


suavização exponencial simples não será implantação do estudo de previsão de
descartado, pois o monitoramento da demanda. A ausência de insumos gera o não
demanda sob a ótica de ambos os modelos atendimento às expectativas dos clientes e,
deve ser periodicamente revisado. Isso consequentemente, prejudica os
permite que se identifique mudanças de desempenhos confiabilidade e qualidade da
mercado, sazonalidades inesperadas e valide organização, podendo diminuir a receita da
a escolha de qual método é o mais apropriado mesma. Para isso ser implementado, de fato,
para realizar a previsão. deve ocorrer o acompanhamento entre a
previsão e a demanda real da microempresa.
Para futuros estudos, será aplicado ao suporte
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
da previsão de demanda ferramentas de
A partir de uma série histórica, o uso de análise e controle. Como, por exemplo, o uso
técnicas quantitativas para a previsão de da metodologia de gráfico de controle para
demanda torna-se uma forma eficiente para avaliar quando o modelo deverá ser revisto.
elaborar futuros cenários em um serviço ou
A partir do monitoramento, caso haja falha do
produção. E com auxílio dessas leituras
modelo de regressão linear e do alisamento
desses cenários, é possível melhorar o nível de
exponencial, outros modelos poderão ser
atendimento ao cliente e basear todo um
aplicados de forma a precisar do resultado
consumo de insumos de forma a diminuir o
final da previsão.
desperdício e o custo.
Baseando-se na melhor previsão de demanda
E, por isso, a previsão de demanda constitui
encontrada e análise dos gestores da
uma importante ferramenta no planejamento e
microempresa, será implementado o MRP
controle da produção, pois viabiliza uma
(Material Requirement Planning ) para manter
política de gestão de estoques eficiente para a
os níveis de estoque ideais, de modo que a
compra dos insumos necessários à
produção não seja afetada por falta de
concretização do serviço oferecido pela
componentes e que o espaço de
Central Banho e Tosa. Devido ao seu potencial
armazenamento não seja ocupado
de redução de custos (materiais, físicos,
desnecessariamente.
logísticos, etc.), a Central Banho e Tosa está se

REFERÊNCIAS
[1]. ÀS, SEBRAE-SERVIÇO BRASILEIRO DE [3]. FERNANDES, Flavio Cesar Faria;
APOIO. MICRO E PEQUENAS EMPRESAS. Gestão GODINHO FILHO, Moacir. Planejamento e controle
ambiental, 2013. da produção: dos fundamentos ao essencial. São
Paulo: Atlas, 2010.
[2]. BALLOU, Ronald H. Gerenciamento da
cadeia de suprimentos: planejamento, organização [4]. GRAEML, Alexandre R.; PEINADO,
e logística empresarial. Bookman, 2006. Jurandir. Administração da produção: operações

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


34

[5]. industriais e de serviços. Curitiba: UnicenP, [9]. SLACK, Nigel, HARRISON, Alan,
2007. JOHNSTON, Robert. Administração da Produção.
São Paulo: Atlas, 1997.
[6]. LUSTOSA, L.; MESQUITA, M.A.;
QUELHAS, O.; OLIVEIRA, R. Planejamento e [10]. TUBINO, Dalvio Ferrari. Manual de
controle da Produção. Rio de Janeiro: Editora planejamento e controle da produção. 2.ed. São
Elsevier, 2008. Paulo: Atlas, 2000.
[7]. Participação das Micro e Pequenas [11]. VIEIRA, João Antônio Soares, et. al.
Empresas na Economia Brasileira – 2014 – SEBRAE Previsão da demanda de um hotel três estrelas na
cidade de Marabá utilizando ferramentas para
[8]. QUELHAS, OSVALDO L.G.: Apostila do
planejamento e controle da produção. In: ENEGEP,
curso de Planejamento e Controle da Produção do
35, Fortaleza – CE. Anais... Fortaleza, 2015.
curso de Engenharia de Produção UFF, 2015.
Disponível em
http://www.abepro.org.br/biblioteca/TN_STP_206_2
21_26692.pdf. Acesso em 10/03/2016.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


35

Capítulo 3
DETERMINAÇÃO DO MIX DE PRODUTO VIA
PROGRAMAÇÃO LINEAR: ESTUDO DE CASO DE UM
LATICÍNIO NA CIDADE BAMBUÍ – MG
Ivana Leite de Menezes
Luís Otávio da Costa Rodrigues
Cláudia Melo de Faria
Merelayne Karoline da Silva Oliveira Ferreira
Brunna Luyze Tristão de Melo

Resumo: O presente artigo pesquisa acerca da programação linear em conjunto com


a pesquisa operacional a fim de encontrar o mix de produto ótimo, maximizando os
lucros de um laticínio situado na região Centro-Oeste de Minas Gerais. O estudo de
caráter quantitativo utilizou-se do auxílio de software baseados em programação
linear em conjunto com referências bibliográficas, considerando os lucros de cada
produto e as restrições da empresa, como matérias prima e carga horária de mão de
obra disponível, para alcançar o objetivo. Após compilados os dados coletados junto
à gerência da empresa gerou-se o relatório, o qual evidenciou a dependência da
empresa com o Iogurte em relação à produtos como doce de leite de 500g, doce de
leite de 300 g, doce de leite pastoso de 350g, todos fabricados pelo laticínio.

Palavras-chave: Pesquisa Operacional; Maximização dos Lucros; Laticínio.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


36

1. INTRODUÇÃO compreender, explorar ou descrever


acontecimentos e contextos complexos, nos
Diversas turbulências econômicas vêm
quais estão simultaneamente envolvidos
ocorrendo desde o início da década de 2010,
diversos fatores.
nas quais o Brasil está inserido. Tais fatores
afetam diretamente o consumo e a produção O objeto de estudo da pesquisa é um laticínio
interna do Estado, levando ao aumento de localizado na cidade de Bambuí-MG, que
preço e diminuição no consumo de bens e possui produção diversificada de produtos,
serviços. tendo como principais o iogurte, o doce de leite
e o requeijão. Esses se diferenciam através do
Não longe dessa realidade, a indústria láctea
volume do recipiente e das características
foi fortemente afetada e, consequentemente,
físicas.
grandes e pequenas empresas do ramo
tiveram redução em seus ganhos e passam A metodologia desta pesquisa ainda baseia-se
por dificuldades para se manterem ativas. em pesquisa bibliográfica sobre os assuntos
Portanto, essas empresas necessitam de de mais importância aqui abordados: História
novas ferramentas e metodologias para que da indústria Leiteira e do laticínio; Definição de
possam ganhar destaque no mercado. Pesquisa operacional e sua aplicabilidade;
programação linear e visita in loco para
Ademais, para suprir essas necessidades,
acompanhamento visualização e análise do
novas tecnologias são implementadas
processo produtivo como um todo. Entrevista
rotineiramente, auxiliando no controle e
com o proprietário do objeto de estudo
avaliação da produção assim como em sua
objetivando conhecer os interesses do mesmo
otimização, o que torna o ramo já competitivo,
em relação ao mercado; e por fim elaboração
ainda mais desafiador. Logo, uma hipótese a
de um modelo de otimização através de coleta
ser utilizada é a Pesquisa Operacional,
de dados que se propõe a oferecer um melhor
ferramenta que segundo Hillier e Lieberman
mix de produtos, maximizar o lucro da
(2013) teve importantes impactos na melhora
empresa utilizando recursos oferecidos pela
da eficiência de inúmeras empresas ao redor
pesquisa operacional em conjunto com a
do mundo.
programação linear.
A pesquisa operacional é definida segundo a
O Brasil, atualmente, é um produtor de leite
SOBRAPO (Sociedade Brasileira de Pesquisa
com destaque no cenário econômico mundial
Operacional) como ciência aplicada voltada
(o sexto maior) conforme dados
para a resolução de problemas reais. Tendo
disponibilizados pela Embrapa (2004). A
como foco a tomada de decisões, aplica
atividade que começou com características
conceitos e métodos de outras áreas
extrativistas, no século XVI, vinda da Europa
científicas para concepção, planejamento ou
para as colônias portuguesas, é dos principais
operação de sistemas para atingir seu objetivo.
agronegócios do Brasil.
Deste modo acredita-se na efetivação da
Na década de 1990, em que ocorreram os
aplicação da Pesquisa Operacional no
aspectos mais pertinentes para os laticínios
Laticínio em pesquisa, para aprimorar o mix de
brasileiros, o tabelamento do preço do leite,
produção a fim de encontrar “o que” e o
que prevalecia desde 1945, acabou, devido a
“quanto” produzir.
crise fiscal do governo. Além disso, com a
Neste estudo propõe-se a criação de um plano chegada dos laticínios internacionais no Brasil,
ideal de produção para um laticínio, através da especialmente a partir dos anos 90, as
utilização da programação linear com a indústrias locais, que tinham o caráter de
implantação de um mix de produção, que tem agricultura familiar, tiveram que se adaptar a
a função de maximizar os lucros num ambiente nova realidade, e se reestruturaram na
com várias restrições: demanda, capacidade atividade leiteira doméstica, produzindo novos
instalada, mão de obra disponível e matéria produtos, para atender melhor às expectativas
prima. dos clientes.
Sendo assim, a concorrência criou um
ambiente competitivo no ramo e ocasionou
2. MATERIAS E MÉTODOS
então, investimentos em tecnologia e aumento
A pesquisa é denotada como estudo de caso. da produtividade e da qualidade dos produtos,
Segundo Araújo et al. (2008), trata-se de uma a partir de capital privado e de políticas
abordagem metodológica de investigação públicas. Outros aspectos relevantes na
especialmente adequada quando procuramos história da indústria láctea no Brasil, foram a

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


37

desregulamentação do mercado de leite e a utilizada para encontrar o lucro máximo ou o


estabilidade econômica, que impulsionaram o custo mínimo em situações na quais temos
consumo e a produção dos laticínios. diversas opções de escolha sujeitas a algum
tipo de restrição” (PRADO, 2007).
Segundo a Pesquisa da Pecuária Municipal do
IBGE, realizada em 2011, a evolução da Sendo assim é necessário formular uma função
produção de leite no Brasil nos últimos vinte linear, onde devem ser definidas as variáveis
anos (1990-2010) apresentou um crescimento que determinam de modo eficiente a
de mais de 50%, sendo que de 1990 a 2000 distribuição de recursos, é nomeada como
ela cresceu apenas 5,3%, já de 2001 a 2011 função objetivo. Também é necessário definir
(estimativa) cresceu 11,8%, mais que o dobro. uma relação entre as atividades e os recursos
que as mesmas utilizam, estas são definidas
As empresas que atuam no mercado buscam
em equações ou inequações, sendo uma para
cada vez mais otimizar a produção para
cada recurso, estas recebem o nome de
conseguirem se manter no mercado, segundo
restrições. E por fim é determinado a não
(ARENALES, 2007,p.13) “O cenário
negatividade, restrição que garante que as
competitivo no qual o Brasil está inserido
variáveis não assumam valores negativos.
demanda às instituições nacionais
Desta maneira, “A formulação (modelagem)
aprimoramento na utilização de instrumentos e
define as variáveis e as relações matemáticas
conceitos modernos de gerenciamento”,
para descrever o comportamento relevante do
dessa forma busca-se a maximização do lucro
sistema ou problema real” (ARENALES, 2007,
a um custo mínimo. Surgiu-se então vários
p. 4). Logo, Kerrigan, Norback (1986) conclui
estudos que visam auxiliar no suprimento
a importância da PL como ferramenta de
dessas necessidades, como por exemplo a
gestão na alocação de recursos para
pesquisa operacional, que é caracterizada
processamento de produtos lácteos.
pelo seu ponto de vista abrangente, visando
assim resolver problemas com a melhor É necessário levar em consideração alguns
solução para a organização como um todo, processos que interferem diretamente no
segundo Hillier e Lieberman (2013). Tendo processo e na empresa, como: tempo de
como foco a tomada de decisões, aplica produção, mão de obra, matéria prima,
conceitos e métodos de outras áreas demanda, tempo de maquinário
científicas para concepção planejamento ou disponível, todos conhecidos como recursos
operação de sistemas para atingir seu de fabricação. Ressalta-se que as informações
objetivo”. compostas abaixo foram informadas pela
gerência da empresa.
Devido a grande quantidade de aplicação da
Pesquisa Operacional, pode-se organizá-la em Diante dessas condições que são internas ao
diversas esferas. Contudo, cada aplicação processo, se torna necessário um
aborda modelagens diferentes. Há estudos e planejamento de produção levando em
aplicações em áreas com problemas de consideração todos esses fatores,
mistura, logística, planejamento da produção, considerando ainda restrições externas como
programação de projetos entre outros. a de mercado, que possui uma variante muito
grande, influenciando diretamente na saída e
Em virtude de sua vasta área de atuação e
vendas dos produtos. Uma vez colocada
simplificação na interpretação dos dados
todas essas restrições em evidência, fica fácil
dispostos, motiva-se no presente artigo o
gerar um resultado mais apurado para a
emprego dessa ferramenta em um laticínio
empresa. Portanto o presente estudo visa
com foco no planejamento de produção. O
estabelecer uma programação semanal para
problema de mix de produção consiste na
cinco tipos de produtos ofertados pela
obtenção da maior margem de lucro,
empresa: iogurte (900 ml), iogurte (200ml),
considerando as limitações da empresa, como
doce de leite pastoso (300 gramas), doce de
matéria prima, mão de obra, instalações e
leite pastoso (500 gramas) e doce de leite de
demanda do mercado.
tablete (350 gramas). Para a produção das
Uma técnica empregada na Pesquisa mercadorias citadas anteriormente são
Operacional é a Programação Linear (PL), necessários dois recursos principais: Matéria
utilizada em problemas de otimização, estes prima (leite), mão de obra/maquinário os quais
problemas visam determinar soluções ótimas, apresentam, algumas restrições conforme a
geralmente maximizando lucros, ou tabela 1:
minimizando custos.“A PL é uma ferramenta

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


38

TABELA 1 - Limitações Semanais de Recursos


Recursos Disponibilidade
Matéria Prima (Leite) 3640 litros
Mão de Obra / Maquinário 10560 minutos
Fonte: Autores (2016)

É importante ressaltar que os demais dos cálculos foi levado em consideração 4


ingredientes e suas respectivas quantidades funcionários, com uma carga horária semanal
necessários para a fabricação dos produtos de 44 horas cada somando um total de 10.560
ofertados pelo laticínio foram minutos semanais.
desconsiderados, uma vez que não se obteve
Através disso, calcula-se a quantidade de
acesso, e não interferem de forma grotesca na
produtos produzido por minutos mostrado na
solução, não sendo interpretados como
tabela 2:
limitantes pela empresa. Em relação a mão de
obra é importante citar que para a realização

TABELA 2 - Relação Produção X Minutos


Produto Tempo (Minutos)
Iogurte (900 ml) 0,0216
Iogurte (200 ml) 0,0066
Doce de Leite Tablete (300g) 0,0214
Doce de Leite Pastoso (300g) 0,04167
Doce de Leite Pastoso (500g) 0,1111
Fonte: Autores (2016)

Lê-se a tabela 2 da seguinte forma: “para No entanto é necessário saber também quanto
produzir 1 unidade de iogurte são necessários cada produto utiliza de matéria prima, logo, a
aproximadamente apenas 1,30 segundos, que partir dos dados obtidos temos a tabela 3, que
são 0,0216 minutos”. Assim, para todos os indica quanto cada produto gasta de leite.
demais produtos.

TABELA 3 – Produtos X Matéria Prima


Produtos Matéria Prima / Unidade (litro)
Iogurte (900 ml) 0,9
Iogurte (200 ml) 0,2
Doce de Leite de Tablete (350g) 0,83
Doce de Leite Pastoso (300g) 0,7
Doce de Leite Pastoso (500g) 1,19
Total 3,82
Fonte: Autores (2016)

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


39

Para que fosse possível o cálculo do lucro, o laticínio tem, como por exemplo, despesas
proprietário cedeu os dados que obtinha, que variáveis (energia elétrica, água, matéria
resultaram na tabela 4, sendo que na parte de prima, transporte) e despesas fixas (mão de
custo já está incluso todos os gastos que o obra).

TABELA 4 – Custo X Lucro


Custo Unitário
Produto Preço de Venda (R$) Lucro Unitário (R$)
(R$)
Iogurte (900 ml) 2,20 3,75 1,55
Iogurte (200 ml) 0,68 1,00 0,32
Doce de Leite Tablete (350g) 1,79 3,50 1,71
Doce de Leite Pastoso (300g) 2,03 3,50 1,47
Doce de Leite Pastoso (500g) 3,13 5,00 1,87
Fonte: Autores (2016)
A empresa possui uma certa demanda mínima para ofertar iogurtes (200 ml) nas escolas,
uma vez que a mesma possui uma licitação resultando na tabela 5.

TABELA 5 - Variáveis
Quantidade Mínima produzida
Produtos Variável
semanalmente (unidade)
Iogurte (0,9 litro) 1000 X1
Iogurte (0,2 litro) 500 X2
Doce de Leite Tablete (350g) 120 X5
Doce de Leite Pastoso (300g) 140 X3
Doce de Leite Pastoso (500g) 84 X4
Fonte: Autores (2016)

Logo, todas as demandas devem ser Para análises de dados será utilizado o
obrigatoriamente atendidas mesmo que não software Lingo. Este software que se utiliza do
representem uma maior margem de lucro. Método Simplex é uma ferramenta complexa
desenvolvida com o objetivo de projetar e
O método Simplex foi publicado em 1974, com
resolver problemas representados em modelos
novos métodos, implementações e aplicações
matemáticos, o qual busca a solução ideal
em várias áreas (planejamento da produção
para as adversidades encontradas.
industrial, logística e finanças, por exemplo),
hoje em dia é uma das principais ferramentas A partir dos dados obtidos foi possível
computacionais para resolver problemas de desenvolver um Modelo Matemático, obtendo
programação linear (ARENALES, 2007). uma solução ótima para a empresa, ou seja, foi
realizado um plano de produção que
Entende-se por método simplex técnicas
atendesse às restrições, mas que ainda assim
utilizadas para resolução ótima de um modelo
conseguisse o maior lucro para o Laticínio
de Programação Linear. Consiste em encontrar
(Algoritmo 1).
um valor ótimo pesquisando um subconjunto
de valores dentro de um conjunto de possíveis
alternativas aceitáveis.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


40

Algoritmo 1: Função de maximização e restrições do problema

Definir a solução ótima do sistema


Max 1.55X1 + 0.32X2 + 1.47X3 + 1.87X4 + 1.71X5
st
0.9X1 + 0.2 X2 + 0.7X3 + 1.19X4 + 0.83X5 <= 3640
X1 + X2 <= 2000
0.0216X1 + 0.0067X2 + 0.0214X3 + 0.1111X4 + 0.0417X5 <= 44
X2>= 500
X3>= 140
X4>= 84
X5>= 12
end

RESULTADO E DISCUSSÕES através da manipulação do programa Lingo,


que utiliza da programação linear.
Com a obtenção do modelo e com o auxílio dos
dados previamente obtidos e apresentados, foi Após o funcionamento do programa, que levou
possível a construção de fórmulas que em consideração todas as restrições e
moldassem o problema, que foi resolvido condições obteve-se o seguinte relatório
apresentado na Figura 01.

FIGURA 1 – Relatório obtido através do software Lingo.

Fonte: Autores (2016).

Observa-se que a quantidade de produção ao fato de que os produtos não apresentam


ótima foi a mesma que a de demanda mínima, lucratividade como este. O resultado é
com exceção do Iogurte (900 ml), isso deve-se demonstrado na tabela 6:

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


41

TABELA 6 – Relação da quantidade mínima a ser produzida


Quantidade Mínima indicada a ser
Produtos Quantidade Mínima produzida
produzida
Iogurte (0,9 litro)x1 1000 1081
Iogurte (0,2 litro)x2 500 500
Doce de Leite Tablete (350g)x5 120 120
Doce de Leite Pastoso (300g)x3 140 140
Doce de Leite Pastoso (500g)x4 84 84
Fonte: Autores (2016)

O resultado pode ser justificado pelo alto lucro reduzindo gastos e aumentando o lucro,
ou menor tempo de produção ou ainda disponibilizando verbas para que possam ser
necessidade de menor quantidade de reinvestidas na própria empresa e adquirir
recursos em comparação aos outros produtos. capacidade de concorrer em mercados ainda
Sendo assim o mais viável para a empresa mais disputados.
seria investir na produção de iogurte (900 ml),
Com a análise da produção, respeitando as
uma vez que a quantidade de leite produzida
restrições (recursos disponíveis e demanda
é praticamente a mesma comparada ao
semanal mínima), chegou-se, através da
produto final.
ferramenta Lingo, a um novo Mix de Produtos,
É importante ressaltar que a empresa trabalha com finalidade de obter retorno do maior lucro
com uma receita, logo a produção segue a possível para o laticínio.
mesma, resultando em uma certa quantidade
A utilização da programação linear em
de produtos que é colocada como demanda
conjunto com a pesquisa operacional auxiliará
mínima. O restante da matéria prima é voltado
a empresa não apenas com a otimização do
para a produção de iogurte.
mix de produção, mas também, no processo
Caso a demanda semanal seja alterada, com de tomada de decisão. Com a aplicação
pedidos extras, ou redução dos mesmos, a correta e interpretação das variáveis existentes
produção ótima pode ser facilmente alterada, em qualquer empresa, os resultados
pois conforme for necessário altera-se da encontrados evitam o acúmulo de produtos em
produção de iogurte, retirando ou adicionando estoque e a perda de matéria prima, por
matéria prima para o mesmo. Evitando-se o exemplo.
desperdício de leite (fonte principal da
Sendo assim, é imprescindível a aplicação da
empresa). Logo, o mix de produtos seria
pesquisa operacional nas empresas, pois ela
alterado de forma sutil, sempre visando a
realiza uma combinação de todos os fatores,
melhor eficiência da empresa.
buscando eficiência produtiva, além de servir
de base para pesquisas que buscam
investimentos futuros, como a programação de
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
uma produção ideal e outras possibilidades de
Respondidos tais questionamentos, percebe- melhoria nos processos.
se a idealização da otimização da empresa,

REFERÊNCIAS
[1]. ARAÚJO, Cidália et al. Estudo de Caso. [2]. ARENALES, Marcos et al. Pesquisa
Métodos de Investigação em Educação. Instituto de Operacional: para cursos da engenharia. Rio de
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Acesso em: 03 nov. 2016

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


42

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em: 30 nov. 2016. rasil/2015>. Acesso em: 06 de março 2017.
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J. Introdução à Pesquisa Operacional. 9. ed. São laticínios pelo planejamento do mix ótimo de
Paulo: Mcgraw Hill, 2013. 1028 p. produtos lácteos e precificação dos componentes
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06 mar. 2017.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


43

Capítulo 4
FERRAMENTA DE DETECÇÃO DE PADRÕES DE
PLANICIDADE UTILIZANDO REDES NEURAIS*
Arlei Fonseca Barcelos
Eduardo Sidney Dias
Hugo Shokychi Toshimitsu
Ramon Alves dos Santos
Julio Cesar Ávila de Oliveira

Resumo: Uma das características de qualidade mais importantes das bobinas de


aço é a planicidade. Essa pesquisa visa confirmar a hipótese de desenvolver e treinar
uma rede neural capaz de identificar padrões de planicidade de bobinas laminadas,
propiciando o aumento do padrão de qualidade e inovação tecnológica. A
metodologia aplicada para alcançar os resultados almejados baseou-se em
experimentos realizados com informações de bobinas reais, sendo utilizados
softwares distintos para o desenvolvimento do projeto, validando os resultados
obtidos através de análises de desempenho, com a correlação entre respostas
conhecidas e as obtidas com a utilização da rede neural, assim como, a análise do
erro médio quadrático das respostas obtidas com a aplicação, sendo simulados na
etapa de treinamento da rede neural ou verificados experimentalmente com a
execução da ferramenta desenvolvida.

Palavras-chave: Laminação; Planicidade; Rede neural.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


44

1 INTRODUÇÃO Para Braga et al. (2000)[2], o neurônio artificial


proposto por Pitt e McCulloch é uma
O sistema nervoso humano é responsável
simplificação de um neurônio biológico, com
pelas principais funções de controle do nosso
sua descrição matemática resultando em um
organismo, sendo constituído por uma unidade
modelo de neurônio com “n” entradas,
básica chamada neurônio. O neurônio é
representando os dendritos, e com apenas
responsável por diversas funções conhecidas,
uma saída.
sendo a de maior destaque a cognição. A
cognição é a capacidade do cérebro humano Para simular o comportamento das sinapses
armazenar informação e formar o aprendizado. de cada entrada do neurônio artificial, existem
pesos acoplados cujo os valores podem ser
Redes Neurais Artificiais, segundo Haykin
inibitórios ou excitatórios, determinando em
(2001)[1], é uma técnica de Inteligência
que grau o neurônio deve considerar o sinal de
Artificial desenvolvida na década de 40 pelo
disparo naquela conexão.
matemático Walter Pitts e o neurofisiologista
McCulloch. Eles objetivaram associar um Um neurônio biológico dispara quando a soma
neurônio biológico a um circuito eletrônico. dos impulsos que ele recebe ultrapassa o seu
Posteriormente, esse modelo teve limiar de excitação. O corpo do neurônio, por
readequação para um modelo computacional sua vez, é simulado por um mecanismo
associado. simples que faz a soma dos valores recebidos
pelo neurônio (soma ponderada) e decide se o
A tentativa de simular o sistema nervoso
neurônio deve ou não disparar seu sinal,
humano possibilitou atribuir às máquinas a
comparando a soma obtida ao limiar do
capacidade de adquirir aprendizado e o
neurônio.
reconhecimento de padrões, ou seja, a Rede
Neural Artificial é um conceito matemático que A Figura 1 mostra um modelo de neurônio
trabalha na modelagem de um sistema real artificial, onde segundo Haykin (2001)[1], é
com base no conhecimento específico sobre possível identificar os elementos básicos que
um assunto em questão, visando o estão descritos abaixo.
processamento de dados de forma semelhante
ao do cérebro humano e disponibilizando à
uma aplicação específica.

Figura 1. Modelo de um neurônio artificial

Fonte: Haykin, 2001

No modelo da Figura 1, é representado um pelas respectivas sinapses do neurônio,


conjunto de elos de conexão (ou conjunto de formando uma espécie de combinador linear.
sinapses), cada um caracterizado por um peso
Uma função de ativação é utilizada para
ou força própria. Especificamente, um sinal xm
restringir a amplitude da saída de um neurônio.
na entrada da sinapse conectada ao neurônio
A função de ativação é também referida como
k é multiplicado pelo peso sináptico wkm.
função restritiva, já que, restringe (limita) o
A representação do sinal de somatório realiza intervalo permissível de amplitude do sinal de
a adição dos sinais de entrada ponderados saída a um valor finito.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


45

O bias, representado por bk, tem o efeito de eram difíceis ou suscetíveis a erros na sua
aumentar ou diminuir a entrada líquida da avaliação pelo homem.
função de ativação, dependendo se este
2 MATERIAIS E MÉTODOS
assume, valores positivos ou negativos,
respectivamente. O sistema de detecção de planicidade,
implantado na laminação a frio da siderúrgica
Adentrando ao meio siderúrgico, de acordo
analisada, realiza as medições das tensões
com Silva (2008)[3], a qualidade da
nas bobinas pelo método de contato através
planicidade de uma bobina é um defeito
de um rolo medidor (rolo shapemeter), onde
claramente percebido e que vem sendo
esse efetua as medições dessas tensões em
demandada em tolerância cada vez mais
seções transversais do material. Com a
restrita pelo mercado. Sendo caracterizadas
utilização deste sistema para verificar a
estas anormalidades principalmente pela
conformidade de um material torna-se
presença de ondulações resultantes da
necessária a realização das seguintes etapas:
acomodação de regiões mais alongados, que
costumam se concentrar em regiões do centro a) Um operador realiza a análise visual do
ou nas bordas das bobinas. A planicidade produto durante todo o processo de produção;
pode ser determinada pela diferença de
b) Ao detectar algum defeito visível, é
alongamento ao longo da largura através de
reportado qual bobina que apresentou desvio
uma unidade adimensional chamada I-Unit, ao
de padrão de qualidade;
qual está relacionado com a altura e o
comprimento das ondulações. c) Com as informação da bobina identificada
visualmente pelo operador, um técnico
Existem várias causas que podem levar ao
especialista de processo analisa a imagem
surgimento do defeito de planicidade na tira.
tridimensional da bobina (carta) e retém ou não
Modella et al. (2013)[4] destaca as seguintes
o material.
causas: ajuste inadequada da abertura entre
os cilindros; flexão dos cilindros de laminação; O Sistema apresentava oportunidade de
distribuição inadequada do sistema de ganhos, pois algumas bobinas inadequadas a
refrigeração. produção, não detectadas visualmente pela
operação, eram entregues aos clientes
Dessa forma o projeto desenvolvido busca
internos/externos, gerando reclamações e não
aplicar o referido método de inteligência
conformidade.
artificial a favor da automatização do processo
de classificação de padrões de planicidade
dos materiais produzidos no Laminador de
2.1 CLASSIFICAÇÃO DE PLANICIDADE
Tiras a Frio número 3 da CSN apoiando a
tomada de decisão, aplicando a modelagem As informações de tensões das bobinas,
adequada de forma que este sistema absorva coletadas pelos sensores de campo, são
através de um treinamento, padrões processadas por um controlador proprietário
adequados e inadequados de planicidade. dedicado, disponibilizando-as em telas de
Podendo após esta etapa, inferir uma resposta supervisório e em um banco de dados em MS
quando estimulado com padrões semelhantes. SQL Server, sendo estes dados utilizados em
Buscando, além da automatização do software de análise de sinal. É utilizado um
processo, o aumento no padrão de qualidade software que exibe um gráfico em três
do material produzido, podendo inserir através dimensões, que descreve a distribuição das
das entradas da rede neural desenvolvida tensões nas secções longitudinais ao longo da
mais parâmetros de planicidade os quais não bobina interpolando todos os dados de forma
eram avaliados, ou ainda, aqueles os quais gráfica. Na Figura 2 é apresentada a imagem
gráfica gerada pelo Sistema de plotagem 3D.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


46

Figura 2. Imagem interpolada de uma Bobina

Fonte: Sistema de plotagem 3D

O padrão de classificação de planicidade de descrita através de um procedimento


bobina é definida através de uma norma operacional que detalha as atividades
interna da siderúrgica em estudo, sendo conforme demonstrado na Tabela 1.

Tabela 1. Procedimento operacional para classificação de planicidade


Atividade Descrição
O operador deverá acompanhar o comportamento
Avaliar aplainamento na tela da IHM do operador na do aplainamento das bobinas através do monitor da
Figura 3 IHM ao longo do processamento da bobina,
verificando o formato da barra
Caso seja observado através das barras um perfil
irregular de aplainamento o operador do púlpito
Informar ao inspetor de qualidade em caso de deverá avisar o inspetor, que deverá verificar o
bobinas com suspeita de Falha de Planicidade aplainamento no sistema. Se a bobina apresentar
mais de 30% acima de 15UI, o inspetor deverá
segregar a mesma.

Figura 3. Tela do controle - IHM.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


47

2.2 VALIDAÇÃO DA APLICABILIDADE DA ultrapassem os 15 I-units, mas que apresentem


REDE NEURAL assimetria extremamente alta.
Para validar a aplicabilidade da rede neural Com o algoritmo de pesquisa pronto, foi
neste projeto, foi desenvolvido um banco de desenvolvida uma tabela base no MS Excel,
dados de treinamento para a RNA. As onde ficam gravados os dados coletados pelo
informações desse banco de dados foram Microsoft Query, contendo as informações de
coletadas de um servidor SQL Server da medições posicionadas transversalmente na
siderúrgica em estudo, utilizando o Microsoft bobina de aço. Além das medições
Query associados ao Excel. O algoritmo transversais, a base de dados da empresa
desenvolvido realiza as consultas das possui 4 campos referente aos índices de
informações das bobinas e realiza uma pré- qualidade das bobinas, denominados
estruturação dos dados antes de disponibilizá- qualidade: 1,2, 3 e 4. Esses itens descrevem a
lo em uma tabela do MS Excel. porcentagem da bobina que são menores que
10i-units, 15I-units, 20I-units e acima de 20 I-
Inicialmente o critério de avaliação de
units respectivamente. Essas medidas são
qualidade da bobina foi baseado na norma de
coletadas na bobina a cada 50m, ou seja, para
planicidade interna, onde em linhas gerais,
uma bobina que tenha comprimento de 6km,
classifica uma bobina como ruim quando
haverá 120 registros, ou linhas, para a referida
majoritariamente há ultrapassagem de algum
bobina.
ponto da bobina acima de 15 I-units. Foram
também inseridas no banco de dados as Para efetuar o treinamento da rede neural, fez-
bobinas com assimetria e bobinas que no se necessário sintetizar cada matriz a qual
decorrer da operação o inspetor de qualidade representava apenas uma bobina em uma
fossem retidas. única linha, sendo necessário para tal, a
utilização de métodos estatísticos. Foram
No decorrer do desenvolvimento do projeto, o
testados vários métodos estatísticos (média
critério de classificação foi alterado, se
aritmética, desvio padrão, média quadrática,
tornando mais flexível. Essa alteração foi
média aritmética somada ao valor da média
necessária devido a primeira versão da rede
quadrática e média aritmética dos valores
neural ter apresentado resultados positivos,
cúbicos), sendo o desvio padrão que
porém extremamente críticos. Dessa forma,
apresentou um desempenho superior na
com objetivo de flexibilizar a rede neural, o
validação e treinamento da rede neural. Para
critério para bobinas ruins foi alterado para:
otimizar os resultados, os fatores de dimensão
bobinas que possuíssem grandes seções as
da tira foram corrigidos pelos fatores
quais ultrapassassem 15 I-units ou mesmos
apresentados na Tabela 2.
grandes picos acima de 15 I-units; bobinas
com simetria irregular, mesmo que não

Tabela 2. Fator de ponderação nas dimensões da tira


Dimensão Fator
Espessura 10
Largura 1/100
Comprimento 1/1000

Com os valores das dimensões, multiplicado seja, a randomização das linhas do banco de
pelo seu respectivo fator de ponderação, dados, onde cada linha sintetizava uma
evitou-se possíveis distorções provocadas bobina. A randomização foi necessária para
pela diferença de escala das medições em que a rede neural não “decore” uma sequência
relação ao comprimento, largura e espessura, de bobinas, comprometendo o aprendizado.
ou seja, todas as entradas resultaram com
Foram criadas inicialmente redes neurais com
valores com a mesma ordem de grandeza.
4 neurônios na camada escondida. Realizando
Com os resultados obtidos e disponibilizado diversas simulações e verificações, variando
em uma matriz no Excel, a rede foi validada no principalmente o tipo de função de ativação da
software NeuroSolutions. Neste software foi camada escondida e camada de saída, foi
realizado à randomização das amostras, ou constatado que o melhor desempenho foi

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


48

obtido com redes utilizando funções de Com todos os dados inseridos no NNtools, o
ativação do tipo tangente hiperbólica na Matlab gerou a rede neural, a partir dos
camada escondida e sigmoidal na camada de parâmetros inseridos, como arquitetura de
saída. rede neural utilizada, número de camadas
escondidas, quantidade de neurônios por
Quanto a arquitetura de rede neural utilizada,
camada, tipo de função ativação, tipo de
as redes do tipo cascade feedforward
treinamento, tipo de função de adaptação,
apresentaram melhor resultado em
limites máximo e mínimo com base nos dados
comparação com as funções feedforward multi
de entrada principais, entre outros.
layer perceptron.
Com a rede neural criada, é acionada a função
Com a rede neural criada e treinada, foi
“Train” para executar o treino, a validação e o
validado seu desempenho. Para essa
teste da rede. Ao término do treinamento da
validação foi realizado antes da etapa de
rede neural, um gráfico é gerado,
treinamento a divisão do banco de dados em
apresentando o índice da média quadrática do
amostras de treinamento, validação e teste. As
erro. Outro parâmetro importante é o número
amostras de validação foram testadas pela
de épocas(quantidade de iterações para
rede neural e comparados seus resultados, já
treinamento) de treinamento, sendo desejável
que, para estas amostras a rede conhecia o
que este número seja um valor mais próximo
valor de saída. Para as amostras de teste, a
do configurado na aba “Training Parameters”.
rede não conhecia o valor de sua saída, ou
Esse processo foi realizado diversas vezes até
seja, se a bobina é boa (saída igual a 1) ou se
alcançar um resultado desejado. Em cada
é ruim (saída igual a 0), estimando uma
execução, a rede e os dados eram alterados
resposta avaliando assim o comportamento da
no decorrer do experimento.
rede neural real.
A utilização NNtool, apesar de simples e de
fácil manipulação, demostrou ser uma rotina
2.3 DESENVOLVIMENTO DA REDE NO extremamente demorada, pouco automatizada
MATLAB e apresentava limitações quanto aos tipos de
função de ativação disponíveis. Diante disso,
Com o projeto validado iniciou-se o
foi desenvolvido um algoritmo de busca
desenvolvimento da rede neural no Matlab,
automatizado no Matlab, de forma a facilitar e
utilizando inicialmente a ferramenta gráfica
maximizar o tempo de treinamento da rede
disponível no software, o NNtools. Dividiu-se o
neural.
banco de dados em 3 matrizes, com o auxílio
do próprio Excel. Cada matriz representa as Foi desenvolvido uma nova forma de
amostras de treinamento, amostras de treinamento, verificação e busca pela rede
validação e amostras de teste. Cada matriz foi neural, desenvolvendo este através de linhas
dividida em duas tabelas: tabela de entrada e de comando no Matlab. Esse novo programa é
tabela de saída. Como exemplo, as bobinas capaz, de forma automática, buscar a rede
selecionadas para amostras de treino com melhor coeficiente de desempenho, ou
possuem duas tabelas, uma com as entradas seja, menor erro médio quadrático entre as
da rede neural e uma com a saída da rede saídas da rede neural e o estado da rede. Este
neural, ou seja, os dados tratados pelos algoritmo é exemplificado na Figura 4.
respectivos métodos estatísticos e a saída
para cada bobina em boa “1” ou ruim “0”.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


49

Figura 4. Algoritmo Rede Neural – Matlab.

Com o desenvolvimento deste algoritmo base Server, as bobinas produzidas no laminador


foi possível a busca automática pela melhor nas últimas 24 horas.
rede, podendo ter liberdade quanto a
A aplicação desenvolvida faz o tratamento
parametrização da rede neural, além de
matemático das zonas de medição de cada
maximização do desenvolvimento do projeto. A
bobina através do método estatístico de desvio
busca é cessada quando o valor do erro médio
padrão, gerando uma tabela com todos os
quadrático está na faixa de valores
desvios. Com essa informação, o algoritmo
parametrizados, quando o número de
varre a matriz bobina a bobina e insere essas
tentativas era superior a 10 ou a qualquer
informações na entrada da rede neural
momento sendo necessário o usuário digitar as
implementada no MS Excel, processando
teclas “CTRL+C”, parando a execução do
estas informações e gerando uma saída
algoritmo. Encontrado o desempenho
identificando a bobina como “boa” ou “ruim”,
desejado para a rede neural, extraiu-se os
de forma quantitativa, sendo interpretada e
parâmetros como pesos e bias da rede neural
apresentada ao usuário de forma qualitativa
dispostos do Matlab exportando-os para o
nos estados do aplainamento citados. Esta
Excel, dando seguimento ao desenvolvimento
apresentação qualitativa dos dados dá-se
do projeto.
através de um relatório diário com as bobinas
classificadas nas últimas 24horas
apresentando seu item, data de
2.4 DESENVOLVIMENTO DA REDE NO EXCEL
processamento, estado quantitativo e
UTILIZANDO VBA
qualitativo classificado pela rede, bem como
O conceito fundamental da rede neural apresentando ainda o próximo equipamento o
aplicada neste projeto baseia-se em qual irá processar a bobina avaliada podendo
somatórios e multiplicações de matrizes. haver linhas onde o material deve receber um
Objetivando uma facilidade na sua tratamento mais crítico ou flexível. Todo esse
implementação prática e com os conceitos procedimento foi desenvolvido utilizado
anteriormente citados consolidados algoritmos customizados desenvolvidos na
implementou-se a aplicação no software no MS linguagem Visual Basic sobre a plataforma MS
Excel, associando a este o suplemento MS Excel. Na Figura 5, é apresentado o relatório
Query o qual tem um algoritmo em SQL o qual gerado pela aplicação.
é responsável por buscar no Servidor SQL

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


50

Figura 5. Relatório das bobinas boas e ruins gerado pela aplicação.

3 RESULTADOS E DISCUSSÃO de obra, aumento na qualidade do material


produzido com a redução de desvios de
Através dos softwares NeuroSolutions e do
qualidade e paradas emergenciais em outras
Matlab foi possível validar a exequibilidade
linhas de produção devido a aplainamento e
desse projeto e obter a rede neural que melhor
desnivelamento do material entregue, redução
se adeque a detecção de planicidade. Com
da influência humana na classificação das
essas informações, foi desenvolvida uma
bobinas produzidas no laminador,
ferramenta em Excel capaz de acessar
possibilidade de se ter um controle histórico do
automaticamente a base de dados da
aplainamento com a ferramenta de apoio
empresa, coletar informações das bobinas
desenvolvida e todos estes benefícios a custo
registradas no sistema de plotagem e gerar um
zero, caracterizando um projeto ZIAR – Zero
relatório das bobinas que são classificadas
Investimento e Alto Retorno. Traduzindo estes
como Boas e Ruins pela rede neural.
benefícios em números segue na Tabela 3 uma
Com a ferramenta obtém-se como resultados estimativa dos ganhos potenciais avaliados
potenciais aumento da produtividade da mão dos meses de janeiro à setembro, no ano de
2015.

Tabela 3. Ganhos potenciais estimados para áreas clientes


Ganhos
Áreas Produção Acum.Set/2015 (t) Relação de ganho
Horas (h) Produção (t)
A 39,88 867 99500 0,87%
B 26,58 651 148500 0,44%
C 1,43 66 294000 0,02%
Total 68 1584 542000 0,29%

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


51

Com a Tabela 3 acima percebe-se os ganhos complementar o processo atual, gerando de


possíveis os quais poderiam ter sido forma tempestiva os resultados de planicidade
aproveitados no ano de 2015, gastos com das bobinas produzidas no período de 24h.
retrabalho e paradas ocasionadas por defeitos
Como melhorias futuras, sugere o
de planicidade entregues a clientes internos e
desenvolvimento de uma ferramenta que
externos, podendo estes terem sido evitados
integre a ferramenta desenvolvida e o software
com a utilização da ferramenta, transformando-
de plotagem 3D, disponível na empresa e a
se em ganhos para a empresa.
automatização do treinamento da rede neural,
podendo esta ser feita com a máxima
viabilidade e facilidade. Podendo ainda a
4 CONCLUSÃO
implementação realizar a classificação dos
A técnica de reconhecimento de padrão de defeitos por zonas, ou seja, classificar a bobina
planicidade utilizando redes neurais em boa ou ruim e informar a localização do
apresentou ser viável a sua implementação. defeito, diminuindo os desperdícios com
Atingindo seu objetivo inicial, com o viés de descarte.

REFERÊNCIAS
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70762008000200021.
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Redes Neurais Artificiais - Teoria e Aplicações. 2ª [4]. Molleda J, Usametinga R, García D. On-
Edição. Rio de Janeiro: Editora LTC; 2000. Line Flatness Measurement in the Steelmaking
Industry.Sensors, [s.l.], v. 13, n. 8, p.10245-10272,
[3]. Silva CN, Araújo FGS, Fagundes J Jr, Cota
ago. 2013. MDPI AG. DOI: 10.3390/s130810245.
AB. Efeito da flexão dos cilindros na laminação de
encruamento sobre a planicidade de tiras de

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


52

Capítulo 5
OTIMIZAÇÃO APLICADA À LOGÍSTICA: UMA
METANÁLISE

Jaqueline Daniela de Oliveira Fonseca


Lívia Maria de Pádua Ribeiro

Resumo: O objetivo deste trabalho foi identificar as contribuições práticas que a


otimização tem oferecido à Logística, nos últimos anos. Para tanto, foi adotada a
metanálise, que emprega técnicas quantitativas para realizar uma contagem de
materiais publicados, em um período de tempo estabelecido. A base de dados
utilizada foi o Portal de Periódicos da CAPES dos anos de 2012 a 2016. Foram
localizados 229 artigos, no entanto, foram selecionados para análise 13 artigos que
empregaram algum método de otimização e apresentaram uma aplicação prática às
diversas atividades ligadas à Logística. Dentre os principais resultados, identificou-
se que tais pesquisas são realizadas em várias partes do mundo, sendo aplicadas
variadas técnicas, em diferentes setores e ramos de atividade. Embora a redução de
custos seja o principal objetivo para a utilização da otimização, observa-se outras
implicações importantes para as empresas, como diminuição de tempo de entrega
e aumento do nível de serviço ao cliente.

Palavras chave: Otimização, Logística, Metanálise.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


53

1.INTRODUÇÃO pode resultar em menores custos e melhoria


de benefícios econômicos.
O termo Logística pode apresentar diferentes
significados, de acordo com o tamanho da A otimização aplicada à Logística iniciou-se na
organização considerada, com o segmento década de 1980 e tem avançado graças ao
econômico desta e com o nível hierárquico da desenvolvimento da computação e dos
pessoa que usa a expressão. Nesse contexto, algoritmos. O número de pesquisas que
a Logística está em todos os níveis da emprega a otimização para resolução desses
organização e envolve decisões estratégicas, entraves tem aumentado, considerando sua
táticas e operacionais e também colaborativas. utilidade. Os módulos cadeia de suprimentos e
As empresas têm de reconfigurar logística tem se tornado padrão em boa parte
continuamente sua estratégia e racionalizar os dos softwares destinados ao planejamento de
processos correlatos (BARTOLACCI ET AL, recursos, ou ERP (Entreprise Resources
2012). Conforme a definição de Bowersox et al Planning). Os aspectos práticos de otimização
(2007) citados por Quesada et al (2012, p. 38- e modelagem logística abarcam diversos
39), a Logística “é a responsabilidade de elementos. Dentre eles, o mais importante é o
projetar e administrar sistemas para controlar a conhecimento e experiência nos
posição geográfica e o movimento de procedimentos e organizações as quais se
matérias-primas, inventários em processo e quer submeter a estas técnicas. Podem ser
acabados, ao menor custo total”. A função utilizados softwares mais difundidos como o
logística abrange vários papéis que excedem EXCEL ou programas baseados em álgebra. A
as fronteiras, inclusive fonte e aquisição, e é otimização permite que decisões complexas,
importante nas atividades de gerenciamento ainda que rotineiras, sejam tomadas com
dos suprimentos (KULL; ELLIS, 2016). menor tempo, sem participação humana, ou
sem revisão humana, quando se trabalha com
A Logística é parte das operações de
um software confiável (BARTOLACCI ET AL,
negócios, tanto de fabricação, como de
2012; ZANNETTI JUNIOR ET AL, 2014). Galvez
serviços. Segundo, Bartolacci et al, (2012),
(2015) aponta que essa otimização deve
devido à complexidade da tomada de decisão
considerar todos os pontos de vistas de todos
nessa área, há uma demanda pela otimização
os atores (stakeholders). Wang et al (2017)
e como ela pode auxiliar na escolha e
complementam que a otimização não pode ser
implantação da melhor estratégia. O papel da
alcançada se não houver esforços de
otimização aplicada a logística é possibilitar
colaboração.
aos gestores fazer análises complexas e tomar
decisões mais precisas, tendo em vista todos O objetivo deste trabalho é identificar as
os enfoques que a atividade possui dentro da contribuições práticas que a otimização tem
instituição. A otimização compreende várias oferecido à Logística, nos últimos anos - 2012
técnicas, dentre ela, a Pesquisa Operacional. a 2016. Entende-se que essa pesquisa é
Por sua vez, Lenstra e Rinnooy-Kan (1981) relevante, pois permite identificar e divulgar as
apud Zannetti et al Junior (2014), lembram que efetivas contribuições que a otimização tem
a questão da insatisfação dos clientes frente à oferecido às diferentes áreas da Logística,
logística e os impasses para se superar esse demonstrando para organizações públicas e
problema são questões de elevada privadas o potencial de melhorias que podem
complexidade. Wang et al (2017) ser implementadas com sua utilização. Para tal
complementam que a otimização de uma rede intuito, foi empregada a metodologia de
de distribuição logística surge para melhorar a metanálise, por meio de consulta aos trabalhos
satisfação dos clientes, por meio de um projeto disponíveis no Portal de Periódicos da
de rede e alocação de facilidades razoáveis. A Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
simulação e otimização podem tratar de de Nível Superior (CAPES). Na Seção 2 são
problemas estocásticos e dinâmicos do apresentados um panorama sobre metanálise
mundo real, bem como lidar com restrições e o roteiro estabelecido para a realização da
complexas e ainda, permitir reproduzir e presente pesquisa. Na Seção 3 são feitas as
observar as propriedades do processo, para análises dos artigos incluídos para a
prever o seu comportamento (ILATI ET AL , metanálise. Na Seção 4 são apresentadas as
2014; SALAM; KHAN, 2016; SEDLÁČEK, discussões acerca dos resultados
2014). Nessa direção, Xiao-jun e Bin (2015) encontrados após a metanálise. Na Seção 5
discorrem que a otimização de rotas de são demonstradas as conclusões desta
distribuição logística é a chave para a pesquisa.
distribuição logística e sua seleção racional

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


54

2.METODOLOGIA Logística tem aproveitado das vantagens da


otimização. Os critérios para inclusão dos
Neste trabalho, optou-se pela abordagem
artigos foram: (a) a utilização de pelo menos
bibliométrica, que conforme defendido por
uma técnica de otimização para solução de
Pereira et al (2015), possibilita uma contagem
problemas ou melhorias na área logística e, (b)
de materiais publicados, em um dado período
aplicação prática a alguma das atividades que
de tempo, valendo-se de métodos
integram a Logística em algum contexto
quantitativos. Sob a ótica de Marchiori (2015),
organizacional.
trata-se de um estudo descritivo, pois se apoia
em um plano estruturado, a fim de mensurar
atributos referentes ao problema de pesquisa.
2.1. EXECUÇÃO
O tema a ser pesquisado na presente
metanálise são as aplicações da otimização à Foram realizadas as buscas no Portal de
Logística. Assim, a questão pesquisada foi: Periódicos da CAPES no mês de abril de 2017.
quais as contribuições práticas que os Optou-se pela busca, selecionado os
métodos de otimização podem oferecer às trabalhos que continham no título as palavras-
diversas atividades da Logística? Tal assunto é chave definidas. Foi utilizado o operador
relevante dado que as operações de produção booleano AND para combinar os descritores,
e distribuição envolvem grande volume de da seguinte maneira: Pesquisa operacional
recursos financeiros, materiais e humanos, AND logística; Otimização AND logística;
sendo indispensável que gere valor para a Optimization AND Logistics e Operational
empresa e para os clientes. Conforme a visão Research AND Logistics. Em seguida, foram
de Pozo (2010), a Logística pode criar excluídos os trabalhos que não eram artigos de
vantagem competitiva para a empresa, que periódicos, como editoriais e teses. Foram
por meio do gerenciamento estratégico da sua excluídos também aqueles que apareceram
cadeia de suprimentos, pode chegar a um mais de uma vez durante a pesquisa na base
patamar superior em relação aos seus de dados. Para a seleção dos artigos, foi
concorrentes. realizada, primeiramente, a leitura dos
resumos, a fim de identificar se o trabalho
Para se realizar tal trabalho, foram definidas as
atendia às duas premissas anteriores. Aqueles
seguintes palavras-chaves: “otimização”,
que não apresentava tais características,
“pesquisa operacional”, “logística”,
foram eliminados. Os resumos que
“optimization”, “operational research” e
apresentavam indícios de otimização aplicada
“logistics”. Optou-se por buscar textos em
foram analisados numa segunda etapa, em
língua portuguesa a fim de se conhecer como
que era lido o texto integral. Quando ficou
os autores nacionais estão atuando nessa área
certificado que a pesquisa se enquadrava nas
e conhecer como a otimização pode ser útil à
premissas estabelecidas, era classificado para
Logística, diante da realidade brasileira.
a metanálise, e quando se observava que não
Também se incluiu pesquisas em língua
adequava ao propósito deste artigo, era
inglesa por este ser um idioma muito
descartado. Foram encontrados 229 trabalhos,
conhecido e difundido e ser aceito para
dos quais 16 não eram artigos, 111 apareciam
publicações científicas (SILVA ET AL, 2014). A
mais de uma vez na busca e 89 não atendiam
base de dados onde foram coletados os
aos critérios acima estabelecidos. A terceira
artigos foi a base do Portal de Periódicos da
fase da metanálise pretendida é apresentada
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal
no próximo item.
de Nível Superior (CAPES), que permite
acesso gratuito a pesquisadores brasileiros,
ligados a uma Instituição de Ensino Superior.
3.APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DA PESQUISA
Quanto ao período, foi estabelecido o prazo
dos últimos cinco anos (2012 a 2016), para se Empregando as palavras-chave e os critérios
executar a presente pesquisa, objetivando-se escolhidos, foram obtidos, inicialmente, um
conhecer os casos mais recentes em que a total de 229 artigos, conforme a Tabela 1:

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


55

Tabela 1 - Total de artigos encontrados de acordo com as palavras-chave escolhidas


Palavras-chave Quantitativo de artigos
Pesquisa operacional AND 13
Logística
Otimização AND Logísitca 66
Optimization AND Logistics 121
Operational Research AND 29
Logistics
Fonte: Dados da Pesquisa (2017)

Percebe-se que as expressões “Otimização”, duas condições, prosseguia-se com a leitura


“Logísitica”, “Optimization” e “Logistics” do artigo, a fim de conhecer o método de
abrangem a maior das publicações otimização, os objetivos, o negócio da
encontradas, totalizando 187 trabalhos organização estudada e os resultados
(81,66 %). Após a pesquisa dos artigos que alcançados. Ressalta-se que muitos estudos
têm essas palavras no título, foi realizada a valeram-se de dados reais de empresas,
leitura dos resumos a fim de analisar se houve entretanto, foram realizadas apenas
o emprego de algum método de otimização e simulações computacionais. Após esse
alguma aplicação prática destes a temas processo, foram selecionados 13 artigos para
relacionados à Logística. Atendidas essas análise, apresentados na Tabela 2:

Tabela 2 - Artigos incluídos por palavras-chaves


Palavras-chave Quantitativo de artigos
Pesquisa operacional AND 01
Logística
Otimização AND Logísitca 01
Optimization AND Logistics 09
Operational Research AND 12
Logistics
Fonte: Dados da Pesquisa (2017)
Foram pesquisadas as publicações dos modo, considerou-se o intervalo entre 2012 e
últimos cinco anos, objetivando-se analisar as 2016, sendo identificado o quantitativo por ano
aplicações e contribuições mais recentes que demonstrado pelo Gráfico 1:
a otimização tem ofertado à Logística. Desse

Gráfico 1 - Quantitativo de publicações por ano

Fonte: Dados da Pesquisa (2017)

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


56

Quanto aos periódicos, é notável a computação e meio ambiente. Nota-se


heterogeneidade das áreas a que pertencem, também que há algumas revistas com foco em
abrangendo tanto temas pertinentes a sistemas para a área industrial, o que pode
otimização e pesquisa operacional, como significar que este campo já se interessa pelas
Logística e suas diferentes atividades. Há contribuições que a otimização pode lhe
também Journals especializados em oferecer. Na Tabela 3 é mostrada a
distribuição dos artigos classificados consoante o periódico e o ano em que foram publicados:

Tabela 3 -Artigos incluídos por periódico e ano


Revistas/Anos 2013 2014 2015 2016 Total %
Revista Administração Mackenzie 1 1 7,69%
Revista em Agronegócio e Meio
1 1 7,69%
Ambiente
Ecological indicators 1 1 7,69%
Promet – Traffic&Transportation 1 1 7,69%
Computers and Electronics in Agriculture 1 1 7,69%
Expert Systems with Applications 1 1 7,69%
The International Journal of Advanced
1 1 7,69%
Manufacturing Technology
Journal of Manufacturing Systems 1 1 7,69%
Industrial Management & Data Systems 1 1 7,69%
Transportation Research Part D 1 1 7,69%
Journal of Material Cycles and Waste
1 1 7,69%
Management
European Journal of Operational
1 1 2 15,38%
Research
Total 2 4 3 4 13 100,00%
Fonte: Dados da Pesquisa (2017)
O Quadro 1 apresenta os tipos de otimização demonstra as melhorias obtidas por meio da
que foram empregados nos estudos de caso utilização da otimização nos artigos
dos artigos selecionados. O Quadro 02 selecionados.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


Khan

(2014)
(2013)
(2016)
(2017)
(2016)
(2015)
(2014)
(2014)
(2013)

Ilati et

Galvez
Autores

Salam e

al (2016)
al(2014)

al (2015)
al (2016)
al (2015)

Wan et al

Mirakhorli
Frias et al

Zang et al
Oliveira et

Amiama et

Wang et al

Zhang et al

Ladier et al

Holzapfel et
Govindan et
X
Programação Linear Não Inteira
Mista

X
Análise de sensibilidade

X
Matriz Origem Destino

X
Modelo multiobjetivo,
multiperíodo e multiescalão

X
Método limite Epsilon

Algoritmo heurístico basedo em


genética

X
X
X
Fuzzy

Algoritmo multi-objetivo
X otimização de enxame de
partículas (MOPSO)
57

Algoritmo caminho evolutivo


X
X re-linking (EvoPR)
X

Metaheurística

X
X
X

Otimização baseada em
simulação

Fonte: Dados da Pesquisa (2017)


X
X
X
X
Programação linear inteira mista

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


X
Programação Binível

X
Processo analítico de rede
Quadro 1 - Tipologias de otimização empregadas

Processo hierárquico analítico


(AHP)

X
Otimização linear
X Algoritmo de otimização de
colônia de formigas
X Algoritmo genético
X
X
X

Cenários
X
X

Programação Linear
58

Quadro 2 - Melhorias obtidas por aplicação da otimização

Ladier et al (2014)
Wang et al (2014)
Frias et al (2013)

Mirakhorli (2014)
Ilati et al (2014)
Govindan et al

Holzapfel et al
Galvez (2015)

Salam e Khan

Zhang (2016)
Amiama et al
Oliveira Et al

Zang (2013)
(2015)

(2016)

(2015)

(2016)

(2016)
Melhorias Nº artigos

Redução de
X X X X X X X X X X 10
Custos
Não linearização
de custos de X 1
estoques
Redução de
valores
X 1
presentes dos
custos
Dimiuição de
impactos X X 2
ambientais
Aumento da
responsabilidade X 1
ambiental
Melhoria do nível
X 1
de satisfação
Diminuição de
X 1
tempo de espera
Redução do
tempo de X X 2
entrega
Redução do
tempo de X 1
resposta
Aumento da
tranparência do
X 1
processo de
precificação
Maximização do
X 1
custo-benefício
Aborgagem
conjunta de dois X 1
investimentos
Melhoria da taxa
X 1
de eficiencia
Diminuição do
tempo de X 1
decisão
Redução de
mão-de-obra X 1
necessária
Fonte: Dados da Pesquisa (2017)

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


59

4.DISCUSSÕES DOS RESULTADOS DA empregam o estudo de caso, perfazendo


METANÁLISE 92,31% e apenas um aborda o método de
cenários (7,31%). Segundo Silva et al (2013),
Pela natureza do tema tratado, observa-se que
essa última técnica busca fazer definições
a totalidade dos trabalhos analisados aborda a
precisas e possíveis, que demonstram a
metodologia quantitativa, que consoante
situação atual e a futura, bem como
Marchiori (2015), apresenta dados numéricos,
passíveis de apreciações estatísticas. Já em o caminho para se atingir tal conjuntura. O
relação à pesquisa de campo, doze textos Gráfico 2 representa esse quantitativo:

Gráfico 2 - Quantitativo de artigos segundo a metodologia de pesquisa de campo

Fonte: Dados da Pesquisa (2017)

Quanto às técnicas de otimização trabalhos citaram os programas usados, sendo


empregadas, nota-se uma variedade, sendo observada uma multiplicidade destes. Apenas
apontadas vinte técnicas. A maior parte dos a plataforma MATLAB e LINGO foram citadas
trabalhos (69,23%) utiliza mais de um tipo de em dois casos, cada, embora o LINGO seja
otimização. As tipologias mais recorrentes usado em versões diferentes. Há situações em
foram a Programação Linear Inteira Mista, que foram usados mais de um programa para
Otimização baseada em simulação, Fuzzy e a otimização. O Quadro 3 relaciona os
Cenários. Em relação aos softwares, dez softwares empregados:

Quadro 3 - Softwares utilizados nos artigos analisados


Autores Softwares utilizados
Frias et al (2013) Advanced Integrated Multidimensional Lipschitz-Continuos Global
Modeling Software 3.11 (AIMMS) Optimizer (LGO 1.0)
Oliveira et al (2015) General Algebraic Modeling System -
GAMS
Govindan et al (2016) LINGO 14.0 opti-mization MATLAB MINITAB
16.0
Ilati et al(2014) Enterprise Dynamics discrete-event
simulation software
Amiama Et al (2015) Visual Basic SPSS SIGMA
Mirakhorli (2014) LINGO8 MATLAB
Salam e Khan (2016) Cargo Optimizer 4.27
Zhang et al (2016) Microsoft Visual C++ 6
Zang et al (2013) Super Decision software V2.2
Ladier et al (2014) IBM ILOG CPLEX Optimizers 12.2
Fonte: Dados da Pesquisa (2017)
No tocante às aplicações, observa-se que a indústria em cinco (38,46%). Em relação ao
diferentes setores foram pesquisados, ramo de atividade, há uma ampla variedade de
sobretudo os ligados aos serviços, que setores pesquisados. Destaca-se que os dois
representam metade dos estudos de caso. A artigos que mostram contribuições à
agricultura aparece em dois textos (14,29%) e agricultura retratam atividades do cultivo de

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


60

milho. As companhias logísticas e provedores demonstrando que a otimização aplicada à


de serviços logísticos são citados três vezes. É logística está difundida por quase todo o
interessante destacar que há trabalhos planeta. O Gráfico 03 explica a origem dos
oriundos de quase todas as regiões do mundo, artigos:

Gráfico 3 - Origem dos artigos analisados conforme o continente ou região

Fonte: Dados da Pesquisa (2017)

Quanto às atividades de Logística abordada além dos financeiros ou de produção. A


nos trabalhos, o transporte foi a mais própria aplicação de otimização à logística
recorrente (30,77%), seguida por rede reversa e à redução do uso de insumos reforça
logística, logística reversa e capacidade – esse fato (GOVINDAN ET AL, 2016; GALVEZ,
15,38% cada. Aparecem também as áreas de 2015; ZHANG ET AL, 2016). O estudo de
embalagem, colheita e programação da força Zhang et al (2016) abordou a maximização do
de trabalho. Isso corrobora com o fato de que custo-benefício do sistema logístico, tendo em
a Logística envolve diferentes tarefas, que vista os investimentos em infraestrutura
variam de acordo com o ramo e o porte da logística e modais com menores emissões de
organização. Há diversas aplicações dos CO2. O autor conclui que considerar os dois
métodos de otimização, sendo predominantes processos conjuntamente é mais eficaz que
o projeto de redes logísticas e logística reversa analisá-los separadamente. É relevante a
(30,76%). Entretanto, o objetivo de redução de utilização da otimização com o intuito de
custos é o mais frequente, por se tratar de diminuir o tempo de entrega e melhorar o nível
empresas privadas, embora em grande parte de serviço e satisfação dos consumidores, o
dos artigos, foi alcançada mais de uma que retoma a ideia de que a otimização pode
melhoria. Foram obtidos diferentes resultados, auxiliar os gestores a lidar com a
em cada caso, ressaltando que cada complexidade das decisões, face as
organização apresenta problemas exigências dos clientes (WANG ET AL, 2014;
particulares, inerentes a sua área de atuação. SALAM; KHAN, 2016). Já o trabalho de Ladier
Observa-se algumas particularidades et al (2014) revela a capacidade da otimização
inerentes à condição do país, como, por em diminuir o tempo de decisão, na resolução
exemplo, no artigo de Frias et al (2013) em que de problemas de alocação de mão-de-obra.
a carga tributária brasileira influencia no custo No artigo de Salam e Khan (2016), é notado
e no planejamento de uma rede logística. O que a otimização, além de reduzir tempo de
trabalho também retrata a não linearização dos resposta e de entrega, e de custo possibilitou
custos de estoque. uma formação de preço do pão com mais
transparência. O estudo de Zang et al (2013),
A questão da minimização dos impactos
após a aplicação da otimização à logística
ambientais e maximização da
reversa e capacidade de estações de
responsabilidade social também foi
tratamento de lixo, apresenta uma melhoria em
considerada como um atributo a ser otimizado,
eficiência em 111%.
revelando que a otimização envolve fatores

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


61

5.CONSIDERAÇÕES FINAIS diferentes ramos de atuação são abordados na


presente metanálise, bem como atividades
Este trabalho teve o intuito de identificar as
diversas integrantes da Logística, como
aplicações práticas que a otimização pode
logística reversa, planejamento de redes e
oferecer a Logística. Dessa forma, foi realizada
capacidade. Tal fato demonstra que a
uma metanálise, que é uma metodologia que
Logística e seus processos estão presentes
busca responder a certas questões com base
em variados tipos de empresas, em maior ou
na literatura existente sobre determinado tema.
menor grau de complexidade. Na presente
Foram encontrados, inicialmente, 254
metanálise foram incluídos trabalhos oriundos
trabalhos no Portal de Periódicos da CAPES.
de várias regiões do mundo, o que revela que
Após a exclusão de textos que não eram
a otimização aplicada à Logística está sendo
artigos e repetidos e a avaliação se atendia aos
pesquisada e implementada em escala
critérios de inclusão - utilização de uma
mundial.
técnica de otimização e aplicação prática –
chegou-se ao montante de 14 artigos incluídos Quanto aos resultados obtidos pela aplicação
para análise. da otimização, destaca-se a redução de
custos, que aparece majoritariamente.
Após a execução da metanálise, foi verificado
Entretanto, em boa parte dos estudos de caso,
que há uma crescente publicação de trabalhos
são apontados outros aspectos que também
nessa área. Parte considerável das pesquisas
foram otimizados, agregando valor à empresa,
são publicadas em inglês, embora nem
como redução de impactos ambientais e uso
sempre os autores sejam oriundos de países
de recursos, maximização da
ou instituições em que este idioma oficial seja
responsabilidade ambiental, diminuição do
este. Observa-se que há periódicos de várias
tempo de resposta e de entrega e melhoria da
áreas do conhecimento que publicam textos
satisfação do consumidor e melhoria em
com essa abordagem, sendo identificados,
eficiência. Assim, conclui-se que há diferentes
inclusive, journals que tratam
contribuições práticas que a otimização pode
especificadamente das contribuições da
oferecer à Logística, que variam conforme a
otimização à Logística. Também há grande
atividade considerada e o ramo de atuação da
variedade de técnicas de otimização e em
organização. Portanto, a otimização é uma
muitos casos, foi empregada mais de um
ferramenta de grande utilidade para melhorias
método para se implementar melhorias nas
em custo, eficiência e gestão da Logística.
organizações estudadas, e
consequentemente, diferentes softwares são Como limitação deste trabalho e também,
empregados. recomendação para futuras pesquisas, indica-
se incluir outras bases de dados para a busca
Quanto às aplicações, foi constatado que
de artigos e aumentar o período de tempo
metade dos casos estudados trata-se de
avaliado.
organizações que prestam serviços, seguidos
da indústria e agricultura. Instituições de

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Gestão da Produção em Foco - Volume 18


62

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Thai Logistics Service Provider. Industrial artigo aceito em 2016 para publicação, aguarda
impressão.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


63

Capítulo 6
ANÁLISE DA CAPACIDADE PRODUTIVA DE UM
PROCESSO DE MANUTENÇÃO POR MEIO DA
SIMULAÇÃO DE EVENTOS DISCRETOS
Jussara Nepomuceno Lima
Rafael Pinheiro Amantéa

Resumo: Atualmente, as empresas estão inseridas em um cenário que aumenta a


cada dia o nível da concorrência. As mudanças tornaram-se ainda mais frequentes
e com maior amplitude. Neste cenário, o setor de mineração, especificamente de
minério de ferro, tem passado por transformações advindas das mudanças no
mercado. Desta forma, os desafios de aumento de produtividade e redução de
custos são desdobrados dentro da empresa para as diversas áreas. Neste contexto
identifica-se a oportunidade e a necessidade de aprofundar os estudos em uma área
responsável pela reforma dos componentes de equipamentos de Mina em uma
empresa de mineração, pois existe um problema de restrição quanto à capacidade
produtiva da oficina para atender toda a demanda. Este trabalho tem como objetivo
geral modelar o processo de reforma de componentes de equipamentos de mina
utilizando a técnica de simulação por eventos discretos. Realizou-se a coleta dos
dados e tratamento estatístico das variáveis identificadas no modelo. Três cenários
distintos foram analisados buscando mais eficiência do processo. Constatou-se por
meio deste estudo, a existência de um desbalanceamento da carga de trabalho entre
as células de trabalho do processo de reforma dos Comandos Finais. Tal diagnostico
afeta diretamente o resultado de produção, deixando de atender à demanda do
cliente. Constatou-se também a existência de excesso de estoque parado no
processo. Conclui-se que a técnica de simulação contribui muito para a análise de
processos reais, permitindo identificar ineficiências e testar possíveis soluções antes
mesmo de realizar qualquer alteração no cenário real dentro da empresa.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


64

1. INTRODUÇÃO tomada de decisão assertiva, não se permite


ações que tenham como base tentativa e erro
Mesmo as organizações de sucesso, com
ou apenas experiências passadas e rotineiras
planejamentos estruturados e fundamentados,
(OZSAN et al., 2010). A pesquisa Operacional
têm passado por necessidades de revisões
é uma ciência interdisciplinar dedicada ao
permanentes, como forma de manterem-se
planejamento ótimo, com fortes ligações com
competitivas. Processos consagrados de
todas as áreas do conhecimento. Suas bases
planejamentos estratégicos têm passado por
estão na pesquisa e aplicação de estratégias
mudanças profundas, baseando-se cada vez
e métodos analíticos, numéricos e estatísticos,
menos em análises e fundamentos do
com objetivo de aprovar decisões racionais e
passado, e cada vez mais em alternativas
significativas em problemas de decisão de
sobre o futuro, ou mesmo prospectando um
diversos níveis de complexidade
futuro desejado (RANGEL, 2012).
(MURUGESAN, 2011).
Em função do atual cenário competitivo, é
A modelagem e simulação de sistemas é uma
possível perceber no ambiente de trabalho, o
das técnicas da pesquisa operacional que
impacto e as constantes exigências por
possui alta aplicabilidade em diversas áreas
melhores resultados nos processos produtivos
do conhecimento. O objetivo das técnicas de
e áreas de apoio, onde a equipe é direcionada
simulação de sistemas é quantificar a
a buscar maior segurança, melhor qualidade,
performance e melhorias de sistemas
menor tempo de entrega e menor custo. Desta
demonstrando os efeitos da tomada de
forma, os desafios de aumento de
decisão e da variação de parâmetros sobre o
produtividade e redução de custos para se
sistema em estudo, permitindo o correto
manterem competitivas no mercado são
dimensionamento e a otimização do mesmo
desdobrados dentro da empresa para as
(ARES et al., 2012).
diversas áreas, as quais buscam alcançar
seus desafios e contribuírem para os Técnicas como Dinâmica de Sistemas
resultados finais da organização. (GOODMAN, 1997) Simulação por Eventos
Discretos (CHWIF; MEDINA, 2015) e
Neste contexto identifica-se a oportunidade e
Simulação com Base em Agentes
a necessidade de aprofundar os estudos em
(RAILSBACK et al., 2006), possuem baixo nível
uma área responsável pela reforma dos
de exigência em conhecimentos matemáticos
componentes de equipamentos de Mina, os
e lógica de programação, permitem a
quais possuem uma vida útil estimada e
modelagem de sistemas reais por
quando chegam ao fim desta vida são
metodologias de baixa complexidade, além de
enviados para a reforma nas oficinas internas
possuírem softwares de baixo custo e
da própria empresa ou nos fornecedores
preparados para a modelagem e simulação
externos. No entanto, as oficinas internas são
em todos os níveis de complexidade. Tais
estratégicas para a empresa no atual cenário
fatores tornam atrativas tais técnicas para a
de redução de custos, pois a reforma interna
análise e otimização de sistemas nas diversas
apresenta nível de qualidade compatível com
áreas do conhecimento.
os fornecedores e o custo de reforma é
significativamente menor quando feita A modelagem e simulação de sistemas por
internamente. Portanto as áreas clientes estão Eventos Discretos é uma técnica que tem
cada vez mais priorizando a reforma dos como base a teoria de filas, o método de Monte
componentes nas oficinas internas e novas Carlo e possui como característica o baixo
demandas estão surgindo. nível de abstração em sua modelagem
(PRADO, 2014). Usualmente os sistemas
Identifica-se então, um problema de restrição
simulados são representados por fluxogramas
quanto à capacidade produtiva da oficina para
dos processos em estudo, permitindo a fácil
atender toda a demanda. Sendo assim, existe
visualização e modelagem do processo.
um desafio na área de aumentar a capacidade
Aplicações usuais envolvem o projeto e
produtiva da oficina para absorver novas
melhorias de linhas de produção, assim como
demandas, sendo necessário estudar de
o planejamento e programação de decisões,
forma mais aprofundada o fluxo do processo
permitindo uma melhor performance e
buscando o auxílio na identificação de
estabilidade durante o processo de otimização
gargalos e contribuição para tomada de
(STEINEMANN et al., 2013).
decisões no processo.
Assim, este trabalho visa modelar o processo
Em cenários de incerteza, escassez de
de reforma de componentes de equipamentos
recursos e consequente necessidade de

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


65

de mina utilizando a técnica de simulação de Este processo de reforma reduz a necessidade


eventos discretos. De maneira específica, de descarte e compra de componentes ao fim
realizar-se-á coleta de dados e tratamento da vida útil. Contribuindo para a redução de
estatístico das variáveis identificadas no custo das áreas clientes, responsáveis pela
processo para posterior simulação e análise de manutenção dos equipamentos de Mina e
sensibilidade dos parâmetros principais do Usina.
modelo construído.
Portanto, o processo de reforma dos
Comandos Finais deve atender à demanda
dos clientes, com qualidade, na quantidade e
2. METODOLOGIA
tempo necessário, garantindo a
2.1 O PROCESSO DE REFORMA DOS disponibilidade física dos equipamentos.
COMANDOS FINAIS
O processo de modelagem de simulação por
O sistema em análise pertence ao eventos discretos se inicia na representação
departamento responsável por realizar a do processo por meio da elaboração de
reforma dos componentes dos equipamentos diagramas ou fluxogramas para descrever as
de Mina e Usina em uma empresa de principais etapas e procedimentos do
Mineração. processo. Esta etapa tem como objetivo
localizar no sistema em estudo os processos,
O Comando Final é um dos componentes que
entidades, recursos e especificidades para
pertence aos caminhões fora de estrada. O
uma fiel representação da realidade no
objetivo do processo de reforma destes
ambiente simulado. Neste texto o sistema de
Comandos é garantir que o componente, ao
estudo (reforma do Comando Final) está
chegar ao fim da vida útil, seja reformado e
representado por meio do fluxograma a seguir.
retorne para o caminhão para operar mais um
ciclo de vida.

Figura 1. Representação do processo de reforma do comando final

A partir da necessidade de atender a uma Durante a desmontagem na célula 01 o


demanda do cliente o componente é comando é subdivido em seis partes, e duas
programado para reforma. A primeira atividade delas (Carrier e Freio) são direcionados para
realizada é a desmontagem e inspeção inicial as células 02 e 03 e as outras quatro são
do comando, utilizando o recurso de um processadas juntas na célula 01. Na célula 02
empregado e é realizada na célula 01. é realizada a atividade de desmontagem e

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


66

inspeção do Carrier e posteriormente a 05. Esta é a última atividade realizada no


montagem do mesmo. processo de reforma do Comando Final.
Na célula 03 é realizada a atividade de
desmontagem e inspeção do freio que é
2.2 COLETA DE DADOS
enviado para a célula 04 para conclusão da
atividade de montagem. Cada uma das células Para estudo do processo descrito acima
dispõe do recurso de um empregado para utilizando a técnica de simulação por eventos
realização das atividades. O Carrier e Freio discretos foram coletados os dados dos
após montados e o restante das partes do intervalos entre chegadas das entidades e dos
Comando são enviados para um armazém tempos de atendimentos em cada um dos
interno para aguardar suprimento de materiais processos. Em seguida, ajustou-se as
e peças para dar sequência ao processo. distribuições estatísticas para as mesmas
seguindo os critérios de validação propostos
Após o recebimento de todos os materiais e
por (CHWIF; MEDINA, 2015). A tabela 1 a
peças no Armazém, o comando final é
seguir lista as distribuições ajustadas para
programado para a montagem final na célula
cada processo.

Tabela 1 –Distribuições estatísticas ajustadas para cada parte do processo de


manutenção

Processo Equação Distribuição Estatística


Desmontagem Inicial Carrier TRIA(0, 2.7, 9)
Desmontagem Inicial Anelar EXPO(1.61)
Desmontagem Inicial Cubo -0.001 + EXPO(0.95)
Desmontagem Inicial Cesto UNIF(-0.001, 0.73)
Desmontagem Inicial Freio -0.001 + EXPO(0.237)
Desmontagem Inicial Eixo -0.001 + EXPO(0.286)
Desmontagem Carrier 1.03 + LOGN(0.665, 0.528)
Desmontagem Freio TRIA(1, 2.05, 9)
Inspeção Carrier UNIF(0.12, 8)
Inspeção Inicial TRIA(0.999, 10, 11)
Inspeção Freio NORM(6.5, 1.64)

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO Para simular um mês foram considerados 22


dias de trabalhos, pois representa a média de
No processo de avaliação e validação dos
dias úteis em cada mês ao longo do ano. E
resultados da simulação foi definido como
para cada dia de trabalho foram consideradas
variável de referência a quantidade de
7,5 horas de jornada, pois é o tempo
Comandos Finais produzidos ao final do ciclo.
considerado no momento do levantamento e
Esta é a variável mais importante para o
coleta de dados.
processo, pois mensura o atendimento ao
cliente, ou seja, o quanto a linha é capaz de A simulação foi feita inicialmente considerando
produzir para atender o cliente. 10 replicações para verificação e comparação
dos resultados com a realidade dos
processos. A avaliação dos resultados foi feita
3.1 UMA VISÃO GERAL DO PROCESSO por meio do intervalo de confiança de 95%,
utilizando a quantidade de Comandos
3.1.1 CONDIÇÕES DE SIMULAÇÃO
produzidos.
Para realizar a simulação do processo foi
O resultado obtido com as 10 replicações é
definido o período de um mês de trabalho. Os
aceitável, pois representa a quantidade real
resultados obtidos na simulação foram
produzida no processo (média 9,0 comandos
comparados com os resultados de produção
por mês) e a variação foi de 0,337 Comandos,
real no mesmo período de um mês para
menor que 10% da média e também aceitável
validação do modelo.
para o processo.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


67

Os Mecânicos de Desmontagem Inicial e


Montagem Final são os mais sobrecarregados.
3.1.2 ANÁLISE DOS RECURSOS
Já o Mecânico de Desmontagem do Carrier
A realização da simulação permite avaliar qual está com a utilização muito baixa, seguido do
o comportamento de utilização dos recursos Mecânico Montagem e Mecânico de
existentes no processo. Com base nos dados Desmontagem do Freio, respectivamente. Este
apresentados no gráfico 1, é possível afirmar cenário demonstra que existem oportunidades
que existe um desbalanceamento da carga de de melhoria na divisão da carga de trabalho
trabalho dentro da equipe. Ou seja, os dentro da equipe, o que pode afetar
recursos disponíveis possuem índices de positivamente os resultados de produção no
utilização com diferenças significativas. A processo.
utilização calculada é a relação do tempo de
trabalho do mecânico pelo tempo total
disponível no dia de trabalho.

Gráfico 1 - Utilização Média da Mão-de-Obra_Cenário Inicial (%)

100,00% 100,00%

66,38% 65,17%
53,38%

Mec. Mec. Mec. Mec. Montagem Mec. Montagem


Desmontagem Desmontagem Desmontagem Freio Final
Inicial Carrier Freio

3.1.3 ANÁLISE DAS FILAS simulação houve uma redução de 17 para


aproximadamente 15 comandos no pulmão em
Assim como é possível avaliar a utilização dos
relação a condição inicial da simulação, mas
recursos, a simulação também permite avaliar
ainda representa uma fila significativa antes da
o comportamento do fluxo do componente ao
etapa de Montagem Final.
longo do processo, ou seja, como o
componente passa pelas células de trabalho. Dentre as demais etapas do processo aparece
Neste caso, é possível identificar possíveis uma fila de espera de 7 comandos, ou 79
gargalos através da formação de filas e do horas, antes da Desmontagem Inicial e nas
tempo de espera nestas filas. demais etapas a fila é bem pequena. A análise
das filas, complementa a análise de
Na condição inicial do modelo foram inseridos
desbalanceamento da mão-de-obra,
17 comandos no pulmão, retratando o estoque
demonstrando que existe uma sobrecarga na
de comandos real que aguardam por recursos
célula de Desmontagem Inicial e Montagem
para serem montados na célula de montagem
Final.
final. Pode-se observar que ao final da

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


68

Gráfico 2 – Quantidade Média de Comandos na Fila_Cenário Inicial (unidade)

14,679

7,042

0,003 0,020 0,047

Desmontagem Desmontagem Desmontagem Freio Montagem Freio Montagem Final


Inicial Carrier (Pulmão)

Gráfico 3 – Tempo Médio de Fila_Cenário Inicial (hora)

79,429 78,329

0,035 0,303 0,748

Desmontagem Desmontagem Desmontagem Freio Montagem Freio Montagem Final


Inicial Carrier (Pulmão)

3.1.4 ANÁLISE DA PRODUÇÃO No gráfico 4, observa-se que a célula de


Desmontagem Inicial possui uma capacidade
Outra informação importante obtida com a
produtiva inferior a demanda do cliente e
simulação é a capacidade produtiva de cada
restringe consequentemente a produção das
célula, pois representa a capacidade de
células seguintes. A Montagem Final produz
atendimento à demanda dos clientes, ou seja,
em média apenas 9 Comandos Finais, mesmo
quantos Comandos Finais o processo é capaz
com a existência do pulmão antes desta célula.
de produzir e entregar ao cliente. Sendo que a
demanda atual dos clientes é de 13 Comandos
Finais por mês.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


69

Gráfico 4 – Comandos Finais Processados_Cenário Inicial (unidade)

10,5 10,9 10,3


9,4 9,0

Desmontagem… Desmontagem… Desmontagem… Montagem… Montagem…

Este cenário demonstra que o processo não 10 Comandos por mês, conforme apresentado
consegue atender a demanda de 13 na tabela 2 a seguir.
Comandos, pois o cliente recebe no máximo
Tabela 2 – Quantidade de Comandos Finais Processados

Etapa Processo Mínima Média Máxima

Desmontagem Inicial 10,0 10,5 12,0

Desmontagem Carrier 10,0 11,0 12,0

Desmontagem Freio 10,0 10,8 12,0

Montagem Freio 8,0 9,4 10,0

Montagem Final 8,0 9,0 10,0

3.1.5 ANÁLISE DOS CENÁRIOS Foi feita um remodelagem no sistema de forma


que, toda vez que o Mecânico de
Conforme apresentado no item acima, a
Desmontagem do Carrier estiver ocioso ele
simulação da situação atual do processo de
passa a ajudar o Mecânico da Desmontagem
reforma do Comando Final demostrou que há
Inicial a realizar a inspeção inicial das peças.
uma ineficiência no processo quanto ao
atendimento da demanda do cliente e há Com esta alteração foi possível observar nos
também um desbalanceamento da carga de gráficos 5 e 6 que a sobrecarga de trabalho
trabalho entre as células. sobre o Mecânico de Desmontagem Inicial
reduziu de 100% de utilização para 74,83%,
Visando estes dois pontos foram feitas
trazendo mais conforto para o executante.
algumas alterações no modelo, como teste,
Outro ganho obtido foi em relação a
para avaliar a possibilidade de melhoria dos
capacidade produtiva da célula de
resultados obtidos no Cenário Inicial.
Desmontagem Inicial, cuja produção saiu de
uma média de 10,5 para 13 Comandos Finais.
3.1.6 CENÁRIO 1: REALOCAÇÃO MECÂNICO
DESMONTAGEM CARRIER
O primeiro teste realizado foi em relação a
baixa utilização do Mecânico de
Desmontagem do Carrier conforme gráfico 1.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


70

Gráfico 5 – Utilização Média da Mão-de-Obra_Cenário 01 (%)

100,00%

100,00%

100,00%
82,22%
82,15%
74,83%

66,38%

65,17%
61,45%
53,38%

Mec. Desmontagem Mec. Desmontagem Mec. Desmontagem Mec. Montagem Mec. Montagem
Inicial Carrier Freio Freio Final
Cenário Inicial Cenário 01

Gráfico 6 – Comandos Finais Processados_Cenário 01 (unidade)

13,0 13,0 12,9 12,2


10,5 10,9 10,3
9,4 9,0 8,7

Desmontagem Desmontagem Desmontagem Montagem Montagem


Inicial Carrier Freio Freio Final
Cenário Inicial Cenário 01

Porém, a entrega para o cliente depende da do Freio estiver ocioso ele passa a ajudar o
quantidade de Comandos Finais entregues na Mecânico da Montagem Final.
célula de Montagem Final que apresentou uma
Com esta alteração foi possível observar no
média de 8,7, conforme gráfico 6. Sendo
gráfico 7 que a utilização do Mecânico de
assim, outros testes foram feitos no modelo.
Montagem Final permanece 100%, ou seja,
ainda continua sobrecarregado. A razão desta
sobrecarga é o pulmão de 17 Comandos Finais
3.1.7 CENÁRIO 2: REALOCAÇÃO MECÂNICO
que existe antes da célula de Montagem Final,
MONTAGEM FREIO
fazendo com que o executante tenha 100% de
O segundo cenário modelado foi com o ocupação mesmo recebendo ajuda do
objetivo de aumentar a capacidade de entrega Mecânico de Montagem do Freio.
na célula de Montagem Final. Deste modo, foi
feita um remodelagem no sistema de forma
que, toda vez que o Mecânico de Montagem

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


71

Gráfico 7 – Utilização Média da Mão-de-Obra_Cenário 02 (%)

100,00%

100,00%

100,00%

100,00%
71,83%

67,88%
66,38%

65,17%
53,38%

53,15%
Mec. Desmontagem Mec. Desmontagem Mec. Desmontagem Mec. Montagem Mec. Montagem
Inicial Carrier Freio Freio Final
Cenário Inicial Cenário 02

Apesar da utilização do Mecânico de Finais na célula, passando de uma média de


Montagem Final permanecer em 100%, a ajuda 9,0 para 14,1 Comandos Finais entregues ao
do Mecânico de Montagem do Freio refletiu cliente, ficando acima dos 13 necessários,
positivamente na entrega dos Comandos conforme pode ser visto no gráfico 8.

Gráfico 8 – Comandos Finais Processados_Cenário 02 (unidade)

14,1
10,5 10,8 10,9 11,1 10,3 10,4 9,4 9,6 9,0

Desmontagem Desmontagem Desmontagem Montagem Montagem


Inicial Carrier Freio Freio Final
Cenário Inicial Cenário 02

2.1.8 CENÁRIO 3: JUNÇÃO DO CENÁRIO 1 + Desmontagem Inicial. E a modelagem


CENÁRIO 2 proposta no Cenário 02 contribui com o
aumento da entrega de Comandos na célula
Observa-se que a modelagem proposta no
de Montagem Final. No entanto, foi realizada
Cenário 01 contribui para redução da
um terceira modelagem, juntando o Cenário 1
sobrecarga do Mecânico de Desmontagem
com o Cenário 2 para verificar o
Inicial e aumento da produção na célula de
comportamento dos resultados.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


72

Gráfico 9 – Utilização Média da Mão-de-Obra_Cenário 03 (%)

100,00%

100,00%

100,00%
84,99%

81,37%
73,78%

66,38%

65,17%
62,15%
53,38%

Mec. Desmontagem Mec. Desmontagem Mec. Desmontagem Mec. Montagem Mec. Montagem
Inicial Carrier Freio Freio Final
Cenário Inicial Cenário 03

Este cenário modelado apresenta uma melhor no gráfico 10 que os resultados obtidos na
distribuição da utilização da mão-de-obra simulação do cenário 3 são bem melhores e se
dentre as células, proporcionando melhor aproximam muito da real necessidade do
balanceamento da carga de trabalho entre os cliente. Apesar da média apresentada na
executantes. Apenas o Mecânico de célula de Montagem de Freio e Montagem
Montagem Final continua com 100% de Final ser ainda inferior aos 13 Comandos
utilização devido ao pulmão de Comandos demandados pelo cliente, na tabela 3 é
Finais que existe antes desta célula como possível verificar que em ambos os casos a
observa-se no gráfico 9. quantidade máxima produzida atinge esta
demanda.
Com relação à quantidade de Comandos
Finais entregues em cada célula, observa-se

Gráfico 10 – Comandos Finais Processados_Cenário 03 (unidade)

13,00 13,00 12,90


12,00 11,70
10,50 10,90 10,30
9,40 9,00

Desmontagem Desmontagem Desmontagem Montagem Montagem


Inicial Carrier Freio Freio Final
Cenário Inicial Cenário 03

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


73

Tabela 3 – Quantidade de Comandos Finais Processados_Cenário 03


Etapa Processo Mínima Média Máxima
Desmontagem Inicial 13,0 13,0 13,0
Desmontagem Carrier 13,0 13,0 13,0
Desmontagem Freio 12,0 12,9 13,0
Montagem Freio 10,0 12,0 13,0
Montagem Final 9,0 11,7 15,0

Outra informação obtida com a simulação do quais receberam ajuda das demais células. E
cenário 3 é o comportamento das filas, apesar de apresentar um aumento no tempo
demonstrado no gráfico 11. O tempo de de espera das outras células, este não
espera na fila reduziu nas células de impactou o resultado da produção destas
Desmontagem Inicial e Montagem Final, as células.

Gráfico 11 – Tempo de Espera do Comando na fila_Cenário 03 (hora)

79,43 78,33
71,61
52,40

7,28
0,04 0,87 0,30 0,75 5,04

Desmontagem Desmontagem Desmontagem Freio Montagem Freio Montagem Final


Inicial Carrier (Pulmão)
Cenário Inicial Cenário 03

Desta forma, entende-se que a proposta de Montagem Final. Esta espera está
alteração do processo apresentada no cenário representada no modelo pela quantidade de
3 é uma boa estratégia para melhorar os Comandos existentes em estoque, ou seja, no
resultados de produção dos Comandos Finais, pulmão.
atendendo à demanda do cliente.
Não é o objetivo deste trabalho estudar os
processos de apoio, responsáveis pela
reposição dos recursos, porém é interessante
2.1.9 CENÁRIO 4: CENÁRIO 3 COM
entender se este pulmão é realmente
REDUÇÃO DO PULMÃO
necessário para atingir a produção
Embora o cenário 3 já apresente um resultado demandada pelo cliente.
aceitável para melhoria dos resultados do
Portanto, foram feitos alguns testes no modelo,
processo de reforma dos Comandos Finais, o
reduzindo-se o pulmão e avaliando o impacto
pulmão existente antes da célula de Montagem
na produção final, conforme pode ser
Final chama atenção.
observado na tabela 4.
No processo real, existe a necessidade de
espera por recursos para dar sequência na

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


74

Tabela 4 – Quantidade de Comandos Finais Processados_Pulmão

Pulmão de Comandos Mínimo Média Máximo


0 8,0 8,0 8,0
1 8,0 8,9 9,0
2 9,0 9,7 10,0
3 9,0 10,5 11,0
4 9,0 11,3 12,0
5 9,0 11,5 13,0
6 9,0 11,6 14,0
7 9,0 11,7 15,0
8 9,0 11,7 15,0
9 9,0 11,7 15,0
10 9,0 11,7 15,0
11 9,0 11,7 15,0
12 9,0 11,7 15,0
13 9,0 11,7 15,0
14 9,0 11,7 15,0
15 9,0 11,7 15,0
16 9,0 11,7 15,0
17 9,0 11,7 15,0

Tabela 16 – Quantidade de Comandos Finais Processados_Cenário Inicial

Pulmão de Comandos Mínimo Média Máximo

17 8,0 8,9 9,0

Os dados apresentados nas tabelas 4 e 5 Segunda análise que pode-se fazer é em


permitem algumas análises em relação ao relação ao melhor resultado obtido com a
impacto do pulmão na quantidade de proposta simulada no cenário 3. Observa-se
Comandos Finais montados no processo. que os resultados de produção são idênticos,
com o pulmão variando entre 7 e 17
Primeira informação interessante é em relação
Comandos. Isto demonstra que poderia haver
à quantidade de Comandos Finais necessários
uma redução de 10 Comandos no estoque,
para alcançar o resultado próximo ao obtido na
sem afetar o resultado alcançado.
simulação do processo inicial, ou seja, a
capacidade atual do processo. Neste caso, Vale ressaltar também, que para alcançar a
observa-se que no cenário 3 seria necessário produção demandada pelo cliente, obtém-se a
apenas 1 Comando para se obter o resultado produção máxima de 13 Comandos a partir de
de produção semelhante ao praticado 5 Comandos no pulmão. Os gráficos 12 e 13 a
atualmente. Isto significa que existem 16 seguir demonstram o impacto na utilização da
Comandos em estoque que poderiam ser mão-de-obra e no tempo de espera do
reduzidos sem afetar o resultado atual de Comando na fila, simulando esta redução do
produção. pulmão para 5 Comandos.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


75

Gráfico 12 – Utilização Média da Mão-de-Obra_Cenário 04 (%)


100,00%

100,00%
100,00%
98,05%
84,99%
84,99%

81,37%
81,26%
74,33%
73,78%

66,38%

65,17%
63,09%
62,15%
53,38%

Mec. Mec. Mec. Mec. Montagem Mec. Montagem


Desmontagem Desmontagem Desmontagem Freio Final
Inicial Carrier
Cenário Inicial Freio
Cenário 03 Cenário 04

Gráfico 13 – Tempo de Espera do Comando na Fila_Cenário 04 (hora)


79,43

78,33
71,61
52,52
52,40

26,80
7,28
7,27

5,04
5,01
0,87
0,87

0,75
0,30
0,04

Desmontagem Desmontagem Desmontagem Montagem Freio Montagem Final


Inicial Carrier Freio (Pulmão)
Cenário Inicial Cenário 03 Cenário 04

Desta forma, conclui-se que há uma eventos discretos; realizar a coleta dos dados
oportunidade de melhoria nos processos de e tratamento estatístico das variáveis
apoio, resultando na redução de estoque identificadas no modelo; simular o processo
dentro do processo. A redução deste estoque Reforma de Componentes de Equipamentos
pode refletir na redução da sobrecarga de de Mina utilizando a técnica de simulação por
trabalho desnecessária sobre o Mecânico da eventos discretos e realizar uma análise de
Montagem Final e reduz o tempo de fila do sensibilidade dos parâmetros e identificar
Comando para ser montado conforme gráficos prováveis ineficiências no sistema.
12 e 13. Pode, também, resultar em outros
A simulação do cenário real do processo
ganhos que não estão sendo analisados neste
permitiu verificar o comportamento de vários
modelo, como a redução de custos com
parâmetros do processo, como a produção de
estoque parado.
cada célula, utilização dos recursos, tempo de
espera na fila, dentre outra. Através dos
resultados da simulação, foi possível identificar
4. CONCLUSÕES
ineficiências e gargalos e sugerir possíveis
Este trabalho teve como objetivo geral modelar alterações no processo.
o processo de Reforma de Componentes de
Identificou-se a existência de um
Equipamentos de Mina utilizando a técnica de
desbalanceamento da carga de trabalho entre
simulação de eventos discretos. E como
as células, que pode afetar o resultado de
objetivos específicos: modelar o processo do
produção final do processo, deixando de
ponto de vista da técnica de simulação por
atender à demanda do cliente. Através de

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


76

algumas propostas de simulação concluiu-se podendo obter redução de custos com a


que é possível melhorar a distribuição da redução de estoque parado no processo,
carga de trabalho entre as células e, redução da sobrecarga desnecessária sobre o
consequentemente, aumentar a produção de Mecânico de Montagem Final e redução da fila
Comandos Finais. antes da célula de Montagem Final.
Outro aspecto importante foi à conclusão de Por fim, é possível concluir que o processo de
que não são necessários 17 Comandos Finais simulação contribui muito para a análise de
no pulmão para garantir a produção da célula processos reais, permitindo identificar
de Montagem Final. Desta forma, mesmo não ineficiências e testar possíveis soluções antes
sendo foco deste modelo, pode-se afirmar que mesmo de realizar alterações no processo
há uma possibilidade de ganho nos processos dentro da empresa.
de apoio que são refletidos pelo pulmão,

REFERÊNCIAS

[1]. Ares, E.; Pelaez, G.; Ferreira, L. P.; Prieto, planning at marble processing plants. Journal of
D.; Chao, A. Optimisation of a production line using Mining Science, v. 46, n. 1, p. 69–77, 2010.
simulation and lean techniques. 2012 Operational
[7]. Prado, Darci S. Teoria das filas e da
Research Society Simulation Workshop, SW 2012, v.
simulação. 2. ed. Belo Horizonte: Desenvolvimento
2012, p. 177–183, 2012.
Gerencial, 2014. 127p.
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[8]. Railsback, S. F.; Lytinen, S. L.; Jackson, S.
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Gestão da Produção em Foco - Volume 18


77

Capítulo 7
ANALISE SOBRE A CADEIA PRODUTIVA DE SERVIÇOS NA
ENTREGA DE CONTÊINERES EM TERMINAL
ALFANDEGADO
Matheus Palmieri Gobbetti
Viktor Doll Schwenck

Resumo: Atualmente os terminais portuários utilizam em suas atividades grande


quantidade de recursos, sendo estes funcionários e equipamentos, fazendo com que
sua gestão necessite de uma melhor analise estratégica dentro das operações,
objetivando a redução de custos, tempo e evitando retrabalhos. Através do software
de simulação ARENA e com base nas informações reais do terminal alfandegado
estudado, é possível observar o processo por completo e seus principais pontos
causadores de falhas, gargalos e até retrabalhos, para que haja uma avaliação sobre
a situação atual da operação de entrada de contêineres e soluções para melhorar os
processos. Em busca de minimizar os gastos com recursos e os retrabalhos, a
empresa deve contar com o apoio da tecnologia e técnicas de gestão para obter
resultados positivos em suas atividades.

Palavras chave: Simulação, Terminal de Contêineres, Retrabalho.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


78

1. INTRODUÇÃO Com base no estudo de Gobbetti e Schwenck


(2017) e tendo em vista informações cedidas
O senário encontrado no porto de santos hoje
pelo terminal alfandegado que será estudado,
é extremamente complexo e exige operações
informações essas que remente aos tempos de
com logística arrojada e tempos
operação do processo de entrada de container
cronometrados sempre visando o lucro e
em seus pátios, como são efetuados os seus
movimentações precisas, por mais que
processos de auxilio e como são verificados os
existam profissionais engajados para o
documentos pertinentes a entrada de
planejamento das operações nem sempre é
caminhos carregados em seus pátios, pode-se
possível escapar de gargalos logísticos, sendo
fazer uma análise da sua cadeia logística
eles por falha na operação, quebra de
interna utilizando um software de simulação de
equipamentos ou até mesmo processos que se
dados para que assim possam ser
repitam desnecessariamente devido a alguma
exemplificados os seus principais gargalos e
falha na comunicação entre setores.
podendo propor melhores métodos na
realização de seus serviços.

Figura 1 – Relatório da CODESP

Fonte: Adaptado da CODESP (2016)

Observando o gráfico acima pode se notar que necessária para atender as ordens demandas
do total de mercadorias movimentadas no pelo mercado”.
porto de santos, cerca de 36,6% são de carga
Tendo em vista uma análise dos dados
solta, porcentagem essa que inclui a
processuais na operação de entrada de
movimentação de container, sabendo que
container para o armazenamento no pátio do
praticamente um terço de toda a
terminal alfandegado, observasse que seus
movimentação do porto vem a ser de container
principais gargalos podem ser encontrados
e que a limitação da disponibilidade de
em operações que demoram mais do que
terminais alfandegados que possam fornecer
deveriam devido a retrabalho ou então por
esse tipo de serviço fica quase que por certo
falha humana, utilizando o software ARENA
que gargalos logísticos serão encontrados nos
pode-se enxergar onde estão esses gargalos
processos dos terminais, devido a falhas ou
e com os resultados estatísticos fornecidos
sobrecarrega de sérvio dos seus terminais,
após o termino de uma simulação é possível
segundo ANTUNES (2008) “Os gargalos se
estudar possíveis soluções.
constituem nos recursos cuja capacidade
disponível é menor do que a capacidade

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


79

Figura 2 – Exemplo de fila no Software ARENA

Fonte: Autor (2017)

Segundo as fontes referenciadas acima, o nos lucros.


Arena tem a capacidade de agrupar entidade
Por tanto, as empresas que utilizam o software
em processos que não estão conseguindo
para analisar os processos e gerenciar como
suprir o volume de serviço necessário para a
um todo, referindo-se a todos os operadores e
fluidez do processo como um todo, assim
pessoal que executam todo tipo de
tornando mais fácil a análise de seus dados.
modificação através de melhorias e
desenvolvimentos que surgem dos resultados
da simulação.
2. SOFTWARE DE SIMULAÇÃO ARENA
Sendo alimentado por dados reais cedidos
O software de simulação ARENA possui
pelo terminal no mês de agosto de 2016, é
grande amplitude em simular processos
possível visualizar o desenvolvimento do
completos e executar grandes quantidades de
processo gerencial referente as informações
operações, tanto logísticas como
fornecidas pelo ARENA.
administrativas, o programa tem como
principal objetivo enxergar grande parte dos O Arena tem capacidade de analisar a
problemas do sistema logístico integrado e produtividade e quais pontos de maior
buscar melhoras. dificuldade de execução da operação,
analisando o tempo que pode ser alterado com
Com esse leque de possibilidades, o programa
o intuito de obter melhor desempenho dentro
consegue calcular resultados expressivos e
das atividades gerais do processo.
demonstrar pontos que necessitam de
melhorias, através de uma apresentação Os resultados obtidos através da simulação do
especifica, onde agrupa as entidades ARENA possuem fatores que chamam a
envolvidas de modo que consigam transitar atenção, tais como os tempos que cada
nos processos que detém operadores. funcionário leva para executar sua tarefa e até
quantidade de filas geradas durante um
Ressaltando também que os investimentos
processo durante a operação. Com base em
realizados pelas empresas, que utilizam as
uma operação de grande escala, esses
simulações, são direcionados para minimizar
resultados são de grande relevância já que a
ou eliminar gargalos ou problemas
operação conta com diversos recursos
identificados.
durante sua execução, torando um forte ponto
O ARENA possui uma gama de formulas positivo para o programa.
estatísticas para executar diversas análises
dentro dos processos estudados, em outras
palavras, demonstrando a possiblidade de
analisar quais pontos geram prejuízos e perda

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


80

3. OPERAÇÃO DE ENTRADA DE CONTÊINER Sabendo que lucro é a meta final de qualquer


empresa, e tendo em vista a perda de
Tendo em vista o processo meticuloso da
produtividade que gargalos operacionais
entrada de container em um terminal
acarretam, é imprescindível a discussão dos
alfandegado, sendo esse processo algo que
mesmos pois segundo Araujo (2009) " Se a
depende de várias parte envolvidas, empresa
meta de uma empresa é o lucro, ela é
que comando o transporte da carga até o
produtiva quando conquista a sua meta" e
terminal, setores internos do terminal,
também Araujo (2009) " O aumento da
equipamentos e processos internos, é quase
produção em um recurso gargalo possibilitava
que certeira a existência de gargalos no que
aumentar o desempenho de toda cadeia de
vem a ser a entrada de container no terminal
manufatura ou serviços". Sendo assim é
alfandegado estudado, sendo esse gargalo
notável a argumentação sobre os empecilhos
proveniente da falha de comunicação ou a falta
que os gargalos causam e tendo como
de informação de ambas as partes, problemas
resultado por sua vez a perda de lucratividade
de comunicação entre setores, um possível
da empresa.
mal planejamento estrutural da empresa ou até
mesmo a quebra de equipamentos da mesma.

Figura 3 – Teoria das Restrições

Fonte: Araujo (2009)

Tendo em vista o estudo feito sobre a cadeira terminal e sua descarga no mesmo.
produtiva do terminal, é correto afirmar que o
Por motivos de má alocação dos lotes já
processo de entrada de container no terminal
armazenados no pátio do terminal ou falha no
tem seu início no agendamento online da
cadastrado da localização de container
empresa, onde uma outra empresa faz um
previamente alocados, por falha humana ou
agendamento de uma data e hora em que seu
por alguma falha do sistema, as vezes se torna
veículo levara o seu container para o terminal,
difícil o planejamento prévio correto pois os
a mesma prepara uma série de documentos
locais já podem estar ocupados fisicamente
pertinentes a permissão da entrada do veículo
porem não no sistema, isso assim acarretando
carregado no terminal.
em uma mudança na quadra que irá ser
Após o agendamento ser finalizado, ele fica em armazenado esse novo lote, e assim
uma listagem com todos os agendamentos continuando com o risco deste mesmo erro se
que foram programados para o respectivo dia, repetir para os lotes futuros
tendo as informações de qual veículo ira
Neste mesmo agendamento prévio estão as
efetuar o seu transporte para o pátio do
cargas que iram ser retiradas do pátio do
terminal, quantidade de containers no lote que
terminal, que não entram no mérito do estudo
irá ser armazenado no terminal alfandegado,
deste artigo, porem as mesma vem a ocupar
um agendamento prévio de um possível local
um tempo dos recursos do terminal pois assim
onde a carga será armazenada no pátio do
que se começa um dia de trabalho um
terminal e qual a janela que o veículo irá trazer
conferente de pátio, funcionário da empresa
a carga, janela essa que é o período de tempo
responsável pelo controle do primário do pátio,
estipulado para a entrada do veículo no

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


81

tem que fazer uma verificação previa de onde como papeis escameados, arquivos em PDF e
estão os lotes que iram ser retirados e se as imagens capturadas com câmera digital em
quadras previamente agendadas para a dados pesquisáveis e editáveis”, pesagem
descarga de futuros lotes estão livre para o para conferir a peso do veículo carregado com
recebimento delas, acarretando em mais o container, conferencia de sua CNH, placa de
tempo e recurso gasto pelo terminal pela falta identificação do mesmo, número do lacre do
de certeza na localização de quadras container e qualquer tipo de avaria externa que
ocupadas ou não no terminal. o container possua.
Assim que o veículo chegar no terminal o Caso o OCR não consiga ler a placa de
mesmo precisa ir até a área do registro do identificação do veículo os dados devem ser
terminal, local que efetua a liberação da preenchidos a mão, porem se o OCR
entrada do veículo para a descarga do seu conseguir captar a placa de identificação do
lote, o motorista do veículo deve apresentar os veículo, os mesmos dados terão de ser
seguintes documentos para ter sua entrada checados pelos funcionários do gate in pois
autorizada: protocolo de agendamento com a não existe uma confiança plena nos dados
liberação da hora de entrada, documento do coletados pelo OCR, o mesmo ocorre com as
veículo contendo a cor do mesmo, modelo do avarias externa do container, pois o OCR tira
veículo, placa do veículo, peso do veículo foto de todos os ângulos e painéis do container
descarregado , cópia da CNH, RG e CPF do e mesmo assim o operador deve rondar o
motorista junto com um telefone de contato veículo a procura de avarias externas de uma
direto com mesmo, se o motorista não tiver forma manual, devido a falta de espaço útil de
essas copias a sua entrada no terminal será movimentação na plataforma do gate in,
barrada ocasionado uma maior atraso para as devido ao caminhão estar ocupando quase
ambas as partes, o DACTE (documento que por completo o espaço, é trabalhosa essa
auxiliar do conhecimento de transporte verificação manual da parte externa do
eletrônico) se alguma irregularidade for container.
encontrada no DACTE será necessário
O operador de gate in ainda efetua checagem
protocolar uma carta de correção para a
de certa parte dos documentos do registro
empresa e o órgão que emite o documento ou
pois um setor não consegue confiar no outro
fazer um novo DACTE, DI(declaração de
gerando assim mais tempo consumido
importação), que segundo SARI (2015) “é
desnecessariamente e também é sabido que
registrada pelo importador no Siscomex, o qual
existe um funcionário especifico para fazer a
lhe atribui numeração automática e única,
verificação externa do container em outro pátio
sequencial e nacional, reiniciada a cada ano
da empresa, pátio esse que todos os caminhos
(arts.14 a 16 da IN SRF nº680/2006)”
devem passar por causa da obrigatoriedade
Após a verificação manual de todos os de serem escaneados pelo aparelho de raio x
documentos dentro do sistema interno da da receita federal, novamente a falta de
empresa, sistema esse que é abastecido pela confiança entre setores acaba consumindo
empresa responsável pelo transporte da carga mais tempo da operação, pois o funcionário do
e pelo despachante da mercadoria, a uma gate in deve efetuar duas duplas verificações.
nova verificação, porem essa sendo
Após a dupla verificação dos documentos do
automática, utilizando os sistemas da receita
caminhoneiro no sistema da empresa ele irá se
federal e o sistema do Siscomex, pois com
deslocar para a área correspondendo ao local
uma pesquisa do número da DI da mercadoria
da armazenagem do container no pátio da
pode-se verificar automaticamente todos os
empresa, se as quadras de armazenagem
dados previamente verificados pelo
estiverem mal sinalizadas o caminhoneiro
funcionário da empresa.
poderá se perder dentro do pátio de
Com a sua liberação para entrar no terminal em operações, acarretando em mais tempo gasto
mãos o caminhoneiro segue em direção ao para terminar a operação.
gate in onde lá encontrar rigorosa inspeção de
Estando no local adequado para a descarga
uma parte de seus documentos, documentos
de seu container o mesmo devera esperar os
esses já verificados no registro, e novos etapas
funcionários responsáveis pela alocação do
de verificação, onde terá seu veículo e
container na pilha, funcionários esses que são
container filmado por um OCR
o conferente de pátio e o operador de
(reconhecimento óptico de caracteres) Abbyy
empilhadeira de grande porte, como o terminal
(2016)” é uma tecnologia que permite
é extenso em sua área operacional nem
converter tipos deferentes de documentos,

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


82

sempre os funcionários ou os equipamentos liberação de entrada, agora comprovando a


estão no local ou livres para que a operação descarga do veículo, assinada pelo conferente
seja efetuada, assim consumindo mais tempo de pátio, caso essa documentação não esteja
da operação. assinada, algum funcionário da empresa deve
levar o documento até o conferente de pátio
Devido as instalações do terminal, cerca de
para que assim o veículo seja liberado.
quatrocentos metros de comprimento e
cinquenta metros de largura, existem áreas do
pátio que geram dificuldade para a efetuação
4. ANALISE DOS DADOS ATRAVÉS DA
da alocação do container em suas quadras,
SIMULAÇÃO
pois o espaço exige que os operadores façam
mais manobras do que o necessário para O estudo de caso do terminal tempo como
conseguir alocar o container no espaço objetivo apontar os principais gargalos que
correto, acarretando um consumo maior dos foram encontrados, tanto com o estudo dos
recursos da empresa e do tempo da operação. processos da empresa e com a simulação que
foi gerada devido os dados que foram cedidos
Por fim o veículo descarregado vai para o gate
pela empresa, o que pode ser visto na primeira
out com a documentação de alocação do
etapa das análises dos dados obtidos com a
container assinado pelo conferente do pátio,
simulação, figura 4, é que os pontos que
quando estiver no gate out o funcionário da
gerando maior consumo de tempo do
empresa pesara o veículo descarregado para
processo da empresa são os setores do
verificar se o peso informado em sua
registro e do gate in.
documentação é o mesmo que o veículo vazio
apresenta e ira recolher a documentação de

Figura 4 – Relatório do ARENA: ocupação dos recursos

Fonte: Autor (2017)

Analisando as informações do gráfico acima, operação, tendo em vista uma possível


pode-se afirmar que os principais pontos onde solução para este problema seria a
ocorrem os maiores gargalos são os locais implementação de uma melhor logística de
onde a interação humana direta e em pontos trabalho, visando primeiro a verificação online
logísticos, pois são setores que dependem de com os sistemas do governo para que assim já
informações ou serviços externos além do seu tenha a certeza de algo errado antes mesmo
próprio trabalho, o que acaba gerando um de olhar o sistema interno da empresa.
consumo de tempo mais do que o necessário.
Já que o sistema funciona da seguinte
Levando em consideração o gráfico acima é maneira, a transportadora e o cliente mandam
determinável que o funcionário do registro os dados necessários para o terminal e o
(azul claro) são os que tem uma taxa de caminhoneiro entrega os documentos físicos
ocupação mais elevada e assim acumulando aos funcionários do registro e com esses
uma quantidade maior de entidades no documentos o mesmo checa uma por uma das
sistema, acarretando no atraso dos demais informações pertinentes e se tiver algum erro
processos já que é praticamente o primeiro dentre estas, é necessário pedir a correção
processo a ser requisitado no sistema físico da das mesmas, consequentemente o funcionário

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


83

do registro irá efetuar a mesma verificação só duas vezes em dois pátios diferentes,
que agora no sistema disponibilizados pelo acarretando uma perda de tempo e recursos
governo, como o site da receita federal e o da empresa.
Siscomex, não importando se as informações
Segundo Fusco (2005) “ a produção de um
encontradas no sistema interno da empresa já
bem, é necessário que haja uma sequência de
tenham sido verificas e constadas que estão
operações que começam na aquisição de
corretas.
matéria-prima, passando pelo conjunto de
Utilizando o sistema online com a utilização do processamentos necessários para a
número da D.I é muito rápido e simples, pois o transformação e obtenção do bem, incluindo
site em si consegue demonstrar se existe toda a distribuição física e logística envolvida,
alguma falha ou falta de pagamento de até a produção chegar as mãos do
impostos e documentos pertinentes a entrada consumidor”. Em uma alusão, pode-se
do container no terminal alfandegado. substituir por analogia os bens por serviços, a
matéria-prima por containers e o
Tomando então esse precedente, é possível
processamento para obter um bem na cadeia
afirmar a perda de tempo e consequentemente
produtiva que foi discutida anteriormente.
lucratividade e competitividade da empresa
logo no começo de seu processo produtivo já Foram encontrados outros pontos de interesse
que setores diferentes da empresa efetuam os através da pesquisa do artigo onde alguns
mesmos serviços verificando documentações, índices foram formados como demonstra a
tanto no registro e o gate in como na figura 5 a seguir.
verificação externa do container, verificado

Figura 5 – Relatório do ARENA: filas de espera

Fonte: Autor (2017)

Com o relatório acima que demonstra a taxa de empresa perante o setor portuário.
espera de ser atendido na simulação pode-se
O Arena ainda permite a extração de dados
enxergar que os principais pontos de gargalos
mais importantes tais como o agendamento e
são o do de cunho operacional, devido a falta
utilização dos recursos disponibilizados
de confiabilidade entre setores e uma falta de
através dos dados inseridos nos sistemas de
comunicação direta dos setores responsáveis
simulação, através do gráfico abaixo é possível
pelo registro e gate in acarretando em dupla
analisar a utilização dos recursos disponíveis
verificação de várias etapas do processo o que
na empresa, então têm-se o gráfico 6:
acarreta na perda de competitividade da

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


84

Figura 6 – Relatório do ARENA: utilização de recursos

Fonte: Autor (2017

Tendo em vista a taxa de utilização dos empilhadeiras de grande porte no pátio do


funcionários, que nada mais é do que a terminal, as mesma não sofrem, em um
quantidade de tempo utilizado perante o primeiro momento, com a sobrecarga de
tempo total da simulação, pode-se continuar serviços já que o mesmo está preso nos
com a afirmação de que os pontos mais setores primários do processo.
afetados pelos gargalos, além de atrapalhar
O Arena consegue compreender diversos
com o próprio rendimento dos setores
fatores sistemáticos onde também calcula as
diretamente afetados, atrapalha os próximos
entidades que ainda estão dentro do processo
setores a receber serviços, não os
como pode ser visualizado pela figura 7
sobrecarregando porem os deixando com
abaixo:
ociosidade, e por mais que o estudo indicasse
a dificuldade de efetuação de manobras de

Figura 7 – Relatório do ARENA: utilização de recursos

Fonte: Autor (2017)

Como é possível ver, no período de trabalhado tempo entre os processos da mesma, que
simulado ficaram presos dentro do sistema, foram compilados através de dados de
isto é, não conseguiram deixar o processo da utilização única.
simulação antes que o tempo da mesma
A pesquisa tem como principal interesse
acabasse, 5014 veículos onde do total de
analisar o processo de entrada de containers e
veículos que entraram no sistema foi de 5028
visualizar grande parte desses resultados,
veículos, afirmando que os gargalos
visando a possíveis melhorias em sua
consumiram tempo do processo e assim
operação sem a necessidade da aplicação de
deixando, em média, 93 veículos dentro da
um investimento, apenas com a reorganização
simulação e confirmando a existência de
do seus próprios processos e métodos de
gargalos.
utilização de seus próprios recursos, visando
Os resultados obtidos foram utilizados através assim a entrega de melhores resultados
de coletas de dados oficias permitidas pelo perante seus clientes e consequentemente
terminal que cedeu relatórios de medição de tendo uma lucratividade melhor.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


85

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS governo, fazer a verificação documental


focando primeiro aquele documento que já
Como pode ser visualizado na exemplificação
acusa o erro assim evitando verificações
do processo de cadeia produtiva de serviços
desnecessárias e também a colocação de uma
da entrada de container no terminal
máquina de xerox no registro pois grande
alfandegado estudado e com os resultados
parte dos impedimentos de entrada no terminal
obtidos devido a simulação realizada
é por falta de cópia de documentos, assim
utilizando os tempos de operação fornecidos
evitando uma perda de tempo para ambos os
pela própria empresa, é possível afirmar que a
lados.
mesma está sofrendo com gargalos devido a
problemas internos e externos, problemas No caso do gate in uma orientação para que
esses que são a falta de confiabilidade e apenas verifiquem os documentos que são
comunicação entre setores, retrabalho devido pertinentes a eles e caso haja algum erro na
a verificação múltipla dos mesmos parte do registro responsabilizar as pessoas
documentos e processos, má gestão de certas pois no momento se o registro comete
informação interna e problemas com a um erro e o gate in deixar passar a culpa e do
alocação de container como um todo. gate, isso geraria menos problemas entre os
setores e melhoraria os gargalos nos locais, já
Com um melhor treinamento e
que a verificação do registro estaria mais
conseguintemente uma cobrança apropriada
focada e possivelmente com melhores
para cada setor, uma alocação que use uma
resultados.
logística mais adequada onde lotes com maior
quantidade de volumes sejam alocadas de Podemos considerar que a cadeia produtiva
maneira estratégica para que assim não da empresa tem problemas porem grande
venham a sofrer com movimentações parte deles podem ser resolvidos com uma
desnecessárias e que sejam alocados mais reestruturação interna, que não precisa
perto da saída do terminal, anotação da necessariamente gerar custo para a mesma,
localização dos lotes confiável e certeira um treinamento melhor e com algumas
eliminando o consumo dos funcionários e do modificações em ações e métodos de
tempo da empresa na hora da localização abordagem dos problemas, o trabalho da
geral do dia. empresa tende a fluir melhor e
conseguintemente podendo mais
Em questão do registro, uma melhor
competitividade perante o setor portuário e
abordagem da verificação da documentação,
assim conseguir obter mais lucros e melhorar
utilizando primeiro os sistemas online que são
suas produções.
mais atualizados que os sistemas interno da
empresa, e caso acha alguma documento que
esteja constando com erro nos sistemas do

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[5] Fusco, J. P. Redes Produtivas e Cadeias de

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


86

Capítulo 8
GESTÃO DE OPERAÇÕES DE SERVIÇOS: APLICAÇÃO DE
CONCEITOS E FERRAMENTAS EM UMA EMPRESA DO
MERCADO DE TERCEIRA IDADE
Tiago Fonseca Albuquerque Cavalcanti Sigahi
Stephan August

Resumo: Este trabalho apresenta um caso real de aplicação de ferramentas e


conceitos da gestão de operações e serviços (GOS). Inicialmente, busca-se
fundamentar teórica e metodologicamente as ferramentas e conceitos da GOS
utilizados. Em seguida, realiza-se o delineamento da pesquisa e o detalhamento da
metodologia. Na sequência, apresenta-se o caso de uma empresa de serviços para
pessoas idosas, discutindo-se os conceitos e ferramentas aplicados e avaliando sua
relevância e contribuição para o negócio. Foi possível determinar para a empresa em
questão a tipologia do serviço, suas características diferenciadoras (participação do
cliente no processo, simultaneidade, perecibilidade, intangibilidade e
heterogeneidade), o pacote de serviço (instalações de apoio, bens facilitadores,
informação, serviços explícitos e implícitos), a formulação da visão estratégica do
serviço (sistema de prestação de serviços, estratégia operacional, o conceito do
serviço que se deseja transmitir e os segmentos do mercado-alvo) e o blueprint, que
abrange as ações do cliente, do front office, do back office, além das evidências
físicas e do suporte. Este estudo serviu de base para a empresa em questão definir
o direcionamento da sua estratégia por meio da diferenciação e da focalização.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


87

1. INTRODUÇÃO 2. SERVIÇOS E SISTEMAS DE SERVIÇOS:


DEFINIÇÕES E RELEVÂNCIA
Impulsionado pelo avanço do conhecimento
em gestão e das tecnologias de informação e Dentre as muitas definições de serviços que
comunicação, o setor de serviços tem podem ser encontradas, segundo Fitzsimmons
recebido cada vez mais atenção de e Fitzsimmons (2014, p. 4), todas possuem em
profissionais da indústria, da academia e do comum o tema da intangibilidade e do
setor público (CHASE; APTE, 2007; consumo simultâneo.
FITZSIMMONS; FITZSIMMONS, 2014;
Para Gronroos (1990), um serviço é uma
JULIANI; OLIVEIRA, 2016; RADNOR;
atividade ou uma série de atividades de
BATEMAN, 2016).
natureza mais ou menos intangível que,
A gestão de operações de serviços (GOS) normalmente, mas não necessariamente,
como uma disciplina acadêmica pode ser ocorre nas interações entre consumidores e
considerava relativamente nova. De acordo recursos (físicos ou humanos). De forma mais
com Heineke e Davis (2007), até 1970 não genérica, Zeithaml e Bitner (1996) afirmam que
havia nenhuma escola de negócios que serviços são atos, processos e desempenho
oferecesse cursos focados em serviços. No de ações.
entanto, após mais de quatro décadas, este
Por sua vez, um sistema de serviço pode ser
cenário mudou. Os primeiros cursos surgiram
entendido como a coprodução de valores por
na Harvard Business School no início da
pessoas, tecnologia, sistema de serviços
década de 70 e, desde então, houve uma
internos e externos e informações
evolução da simples aplicação de conceitos
compartilhadas (e.g. linguagem, processos,
básicos de manufatura em um ambiente de
medições, preços, leis, etc) (SPOHRER et al.,
serviço para o reconhecimento da
2007; MAGLIO; SPOHRER, 2008; SPOHRER,
necessidade de uma abordagem
MAGLIO, 2010).
transdisciplinar adequada às características
particulares das operações de serviço Assim, os serviços são fundamentais para a
(HEINEKE; DAVIS, 2007). atividade em qualquer sociedade
(FITZSIMMONS; FITZSIMMONS, 2014), o que
Neste contexto, o presente trabalho pretende
pode ser ilustrado pela figura 1.
contribuir no sentido de apresentar e discutir
uma situação real de aplicação de conceitos e De acordo com Fitzsimmons e Fitzsimmons
ferramentas da gestão de operações de (2014, p. 4), tanto os serviços de infraestrutura
serviços (FITZSIMMONS; FITZSIMMONS, como os comerciais funcionam como
2014), no caso, para estruturação de negócio intermediários e canais de distribuição para o
voltado ao mercado da terceira idade. cliente final, consistindo em um elo essencial
entre todos os setores da economia. Os
Para atingir seu objetivo, este trabalho foi
autores acrescentam que ao contratar
organizado nas seguintes etapas: inicialmente,
empresas especializadas (e.g. consultoria,
realiza-se a fundamentação teórica, baseada
auditoria, propaganda) para prestar serviços,
em livros e artigos científicos, apresentando-se
as empresas de manufatura obtém maior
as principais definições, conceitos e
economia e eficiência, tornando cada vez mais
ferramentas da GOS, bem como sua evolução;
comum o elo entre manufatura e serviços de
em seguida, realiza-se o delineamento da
apoio. Além disso, a administração pública
pesquisa a partir do detalhamento de sua
desempenha papel fundamental ao
metodologia; apresenta-se o caso de
proporcionar segurança, educação, saúde,
aplicação de conceitos e ferramentas da GOS,
ambiente econômico estável, entre outros
discutindo-se sua relevância e contribuição;
(FITZSIMMONS; FITZSIMMONS, 2014, p. 5).
por fim, fazem-se as considerações finais.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


88

Figura 2 – O papel dos serviços na economia

Fonte: adaptado de Guile e Quinn (1988) apud Fitzsimmons e Fitzsimmons (2014, p. 5)

O setor de serviços, além de apresentar geração de empregos em diversos países. A


crescente importância na economia, também tabela 1 reflete esta evolução em países
tem registrado um rápido crescimento na desenvolvidos:

Tabela 1 – Porcentagem de empregos no setor de serviços


País 1960 1965 1970 1975 1980 1985 1990 1995 2000 2005
EUA 58,1 59,5 62,3 66,4 67,1 70,0 72,0 74,1 76,2 78,6
Reino Unido 49,2 51,3 53,6 58,3 61,2 64,1 66,7 71,4 73,9 77,0
Holanda 50,7 52,5 56,1 60,9 65,1 68,3 69,5 73,4 75,2 76,5
Canadá 54,7 57,8 62,6 65,8 67,9 70,6 72,4 74,8 74,9 76,0
Austrália n/a 54,6 57,3 61,5 64,9 68,4 70,5 73,1 73,9 75,8
Suécia 44,6 46,5 53,9 57,7 62,9 66,1 67,9 71,5 73,4 75,6
França 40,7 43,9 48,0 51,9 56,3 61,4 65,6 70,0 72,9 73,4
Japão 41,9 44,8 47,4 52,0 54,8 57,0 59,2 61,4 64,3 68,6
Fonte: adaptado de Heineke e Davis (2007)
Por sua vez, o segmento de serviços em países De acordo com Heineke e Davis (2007), à
em desenvolvimento, como Brasil, Rússia, medida que uma economia evolui de uma
Índia e China, empregava em 2009, 62%, 62%, sociedade predominantemente agrária para
27% e 35%, respectivamente; e quanto à uma sociedade industrial, evolui também a
participação no PIB, 68%, 61%, 54% e 43% ênfase nos diferentes tipos de serviços.
(PEREIRA, 2014).

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


89

Figura 3 – Mudança da ênfase no tipo de serviço em uma economia

Fonte: elaborado a partir de Heineke e Davis (2007)

Para estes autores, nos primeiros estágios do o faz com que o tempo se torne mais precioso,
desenvolvimento de uma economia, o setor de emergindo os time saving services (HEINEKE,
serviços tem como foco a infraestrutura, como DAVIS, 2007), o que inclui empresas de venda
serviços transporte, governamentais, online e por correspondência (e.g. Amazon,
educação e saúde. À medida que uma eBay, Alibaba, etc), creches (o que possibilita
economia começa a desenvolver o comércio, aos pais trabalharem mais tempo), entre
a necessidade de serviços de apoio começa a outros.
crescer, o que inclui bancos, seguros,
Nos dias de hoje, a natureza dos serviços está
operações de varejo, restaurantes e hotéis.
passando por uma transformação, o que faz
Com o crescimento da indústria emergir a uma nova economia da experiência
transformadora, os salários tendem a (FITZSIMMONS; FITZSIMMONS, 2014, p. 11).
aumentar, tal como o nível de vida e a Assim, os clientes buscam algo mais do que
proporção de rendimentos que podem ser apenas um bom serviço: eles estão
utilizados para despesas discricionárias procurando uma experiência memorável como
(HEINEKE; DAVIS, 2007). Assim, aumenta-se a parte desse serviço, o que pode ser
probabilidade de as pessoas gastarem sua exemplificado por meio de empresas como
renda com serviços de recreação e lazer. Ao Starbucks e Universal Studios (HEINEKE,
passo que o setor de serviços se expande, DAVIS, 2007).
exigem-se níveis crescentes de qualificação
É neste contexto que cada vez mais no estudo
dos funcionários, o que estimula o investimento
e na construção de serviços como uma
público e estatal em educação.
disciplina científica (SPOHRER et al., 2007;
Para sustentar o aumento do padrão de vida, SPOHRER; MAGLIO, 2010; MAGLIO;
as pessoas começam a trabalhar mais horas, KIELISZEWSKI, 2015; MAGLIO et al., 2015).

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


90

serviço/empresa; e heterogeneidade,
decorrente da variabilidade da entrega do
2.1. FERRAMENTAS E CONCEITOS DE
serviço proporcionada pela participação do
GESTÃO DE OPERAÇÕES E SERVIÇOS
cliente no processo.
As ferramentas e conceitos aqui apresentados
Para que se possa gerir e executar um serviço
são baseados em Fitzsimmons e Fitzsimmons
de maneira eficiente, é importante que se
(2014), não sendo o objetivo deste estudo o
compreenda sua tipologia, que consiste na
esgotamento ou revisão extensiva dos
definição do nível de customização,
mesmos.
intensidade de contato com o cliente, ênfase
De acordo com os autores, um serviço possui (e.g. pessoa, objeto) e predominância (e.g.
cinco características diferenciadoras, a saber: front/back office).
a participação ou coprodução do cliente, o que
Outro importante conceito trazido por
exige atenção às facilidades, ao ambiente e ao
Fitzsimmons e Fitzsimmons (2014, p. 22-23) é
comportamento do consumidor e do
o pacote de serviços, que pode ser definido
empregado; simultaneidade; uma vez que a
como um conjunto de mercadorias e serviços
interação com o cliente faz com que este crie
oferecidos em um ambiente, os quais possuem
percepções sobre a qualidade do serviço;
cinco características, como mostrado no
perecibilidade, não é possível estocar;
quadro 1:
intangibilidade, não sendo possível patentear,
além de tornar importante a reputação do

Quadro 1 – Características do pacote de serviços


Característica Descrição

Instalações de apoio Recursos físicos que devem estar no lugar para que se possa vender o serviço

Bens facilitadores Material adquirido/consumido pelo comprador ou itens fornecidos pelo cliente

Informação disponibilizada pelo cliente/fornecedor que influência a eficiência e


Informação
a customização

Benefícios prontamente percebidos pelo cliente; Características essenciais ou


Serviços explícitos
intrínsecas do serviço
Benefícios psicológicos sentidos vagamente pelo cliente; Características
Serviços implícitos
extrínsecas dos serviços
Fonte: elaborado a partir de Fitzsimmons e Fitzsimmons (2014, p. 22)

De acordo com Heskett et al. (1997) apud etc. O conceito de serviço está relacionado ao
Fitzsimmons e Fitzsimmons (2014, p. 39), a resultado na percepção do cliente (internos e
visão estratégica de serviços compreende externos), ou seja, deve-se pensar nas formas
quatro elementos: o sistema de fornecimento de criar, oferecer e vender este serviço. Por
de serviço, a estratégia operacional, o conceito sua vez, o segmento do mercado-alvo se
do serviço e o segmento de mercado-alvo. refere às características comuns dos
consumidores (e.g. demográficas,
O sistema de fornecimento de serviço consiste
psicográficas) e a maneira com que suas
em definir quais são as características mais
necessidades estão sendo atendidas.
importantes do sistema, como por exemplo, o
papel das pessoas, da tecnologia, do layout, Finalmente, a última ferramenta que se
etc. Inclui ainda determinar questões relativas pretende apresentar é o blueprint do serviço
à capacidade (em situações normais e de (FITZSIMMONS; FITZSIMMONS, 2014, p. 75-
pico), qualidade e competição (entrada de 77), que pode ser entendido como um mapa
concorrentes). A estratégia de operação ou fluxograma de todas as transações
engloba fatores relacionados à operação, integrantes do processo de prestação de
financiamento, marketing, recursos humanos, serviços. O blueprint de serviços serve como
assim como a obtenção de resultados em um diagrama visual onde é possível identificar
termos de qualidade, custo, produtividade, as evidências físicas (o que está à vista do

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


91

cliente), as ações do cliente (cada operação 4. APLICAÇÃO DAS FERRAMENTAS EM UMA


realizada pelo cliente ao cumprir seu papel no EMPRESA DE SERVIÇOS PARA TERCEIRA
serviço), as ações dos funcionários do front IDADE
office (os quais possuem maior intensidade de
4.1. CARACTERIZAÇÃO DA EMPRESA E DO
contato com o cliente) e do back office, assim
MERCADO-ALVO
como os processos de apoio (como por
exemplo, sistemas de registro). De acordo com Machado et al. (2016), o
segmento de pessoas idosas está se tornando
um mercado muito atraente devido ao aumento
3. METODOLOGIA dessa parte da população e do seu poder de
compra, caracterizando um público
O delineamento do presente estudo foi
financeiramente melhor e mais estável.
realizado com base nas etapas definidas por
Gil (2016, p. 117) para um estudo de caso: A empresa estudada está localizada na região
formulação do problema, definição da administrativa da cidade de Sorocaba, estado
unidade-caso e do número de casos, de São Paulo, e oferece um serviço de
elaboração do protocolo, coleta/análise dos planejamento e transporte de idosos para
dados e preparação do relatório. realização de exames e consultas médias.
Como dito anteriormente, busca-se com esse Para definir seu mercado-alvo, a empresa
artigo apresentar e discutir uma situação real constatou a carência de serviços direcionados
de aplicação de conceitos e ferramentas da a este mercado na região, que contava, em
gestão de operações de serviços. Para tanto, 2014 (ano de criação da empresa), com
foi selecionado o caso de um negócio voltado 366.805 idosos, o que representa 12,6% da
ao mercado de terceira idade. Considerou-se população (SEADE, 2014). O tipo de serviço foi
o estudo de caso único suficiente para o definido por meio de 65 questionários
objetivo do artigo. aplicados a idosos (as), bem como seus filhos
(as), os quais, em muitos casos, são
Na etapa seguinte, elaborou-se um protocolo
responsáveis por boa parte dos custos.
baseado nas ferramentas e conceitos
apresentados por Fitzsimmons e Fitzsimmons
(2014), o que serviu de guia para coleta dos
4.2. TIPOLOGIA E CARACTERÍSTICAS
dados, realizada por observação direta e
DIFERENCIADORAS DO SERVIÇO
contato direto com os empreendedores, bem
como sua análise à luz da teoria. Quanto a sua tipologia, o serviço possui alto
nível de customização, alta intensidade de
Por fim, realizou-se a elaboração de um
contato, ênfase nas pessoas e predominância
relatório, o qual serviu de base para a redação
do front office. Com base nessas informações
deste artigo.
e nos conceitos de Fitzsimmons e Fitzsimmons
(2014), foram determinadas suas
características diferenciadoras (quadro 2):
Quadro 2 – Características diferenciadoras do serviço oferecido pela empresa
Características diferenciadoras do serviço
Participação do cliente Influência da honestidade e motivação do cliente
A variação da demanda vai ser transmitida ao sistema, e a forma de suavizar
Simultaneidade
é o agendamento prévio.
Como não se pode estocar este tipo de serviço, em picos de demanda será
Perecibilidade
oferecido um incentivo financeiro, para que haja uma otimização do serviço.
Como o serviço é intangível o objetivo é fornecer um serviço confiável e
Intangibilidade
seguro.
O serviço desenvolvido será customizado de acordo com o histórico do
Heterogeneidade
cliente.
Fonte: elaboração própria.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


92

4.3. PACOTE DE SERVIÇOS serviço, foi determinado o pacote de serviço


(quadro 3):
Considerando-se a tipologia, as características
diferenciadoras e as especificidades do

Quadro 3 – Pacote do serviço oferecido pela empresa


Pacote de serviços
A empresa não possui instalações físicas, uma vez que o cliente é transportado
Instalações de apoio
de sua residência até o local de realização do exame/consulta, e vice-versa
Carro, plano de rota, ficha de informações de customização e com contatos
Bens facilitadores
emergenciais
Informação Banco de dados do histórico dos clientes
Serviços explícitos Transporte, tratamento, acompanhamento
Serviços implícitos Segurança, conhecimento técnico para o acompanhamento
Fonte: elaboração própria

4.4. VISÃO ESTRATÉGICA p. 39), a visão estratégica da empresa pode


ser visualizada no quadro 4:
Com base no que apresentam Heskett et al.
(1997) apud Fitzsimmons e Fitzsimmons (2014,

Quadro 4 – Visão estratégica do serviço oferecido pela empresa


SISTEMA DE PRESTAÇÃO DE SEGMENTOS DO
ESTRATÉGIA OPERACIONAL CONCEITO DO SERVIÇO
SERVIÇO MERCADO-ALVO
Funcionário
Pessoas Funções Resultados percebidos Diferentes tipos
qualificado
Cadastrar
Estudar do cliente
Tecno- Terceira
Internet Operações Transporte
logia idade
customizado
Feedback
Conveniência Faixa
Equipa- Carro e Cliente
Finanças Pacotes mensais e segurança etária Filhos
mento computador
com pais
Direcionado em com
N/A redes sociais e depen-
Layout Marketing dência
(ver quadro 3) consultórios
especializados
Contratação de
funcionários com
Procedi- Atendimento habilidades Classe A
RH
mentos dedicado técnicas e
Novo serviço Classe
interpessoais Mercado
especializado social
adequadas
Acompanha- Classe B
Capaci-
mento da
dade
demanda Áreas-
Operações e RH
Controle Questionário após chave
de cada transporte
Qualidade (ida e volta)
Mais segurança e Experiência na
Pessoas
conveniência do área de saúde, Estilo
Diferen- Funcio- com
que os serviços especialmente de
ciais Rapidez e nário depen-
existentes Resultados em casos da vida
satisfação do dência
atualmente esperados terceira idade
cliente
Barreiras à
concor- Contatos
rência
Fonte: elaboração própria.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


93

4.5. BLUEPRINT DO SERVIÇO


Por fim, realizou-se o mapeamento do serviço, das cinco dimensões propostas por Bitner
sendo possível identificar todas as transações (1993) apud Fitzsimmons e Fitzsimmons (2014,
que ocorrem durante o processo em cada uma p. 75) no blueprint do serviço (Figura 3):

Figura 4 – Blueprint da empresa estudada

Fonte: elaboração própria.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


94

5. CONSIDERAÇÕES FINAIS A visão estratégica (quadro 4), permitiu a


definição de diversos aspectos ligados ao
Este trabalho teve como propósito apresentar
sistema de prestação de serviços (pessoas,
um caso de aplicação de ferramentas e
tecnologia, procedimentos, etc), à estratégia
conceitos da gestão de operações e serviços.
operacional (funções, áreas-chave, resultados
A partir de estudos que tratam a área de esperados, etc), o conceito do serviço que se
serviços como uma disciplina científica desejava transmitir (considerando-se a
(SPOHRER et al., 2007; CHASE; APTE, 2007; percepção de clientes internos e externos) e
SPOHRER; MAGLIO, 2010; MAGLIO; aos segmentos do mercado-alvo (faixa etária,
KIELISZEWSKI, 2015; MAGLIO et al., 2015), foi classe social e estilo de vida).
possível fundamentar teoricamente as
Por sua vez, o blueprint possibilitou a
ferramentas e conceitos a serem utilizados
visualização das ações do cliente (e.g.
(BITNER, 1993; HESKETT et al., 1997;
ligação); do front office (e.g. coleta de dados),
FITZSIMMONS; FITZSIMMONS, 2014). Por
do back office (e.g. análise do histórico), além
conseguinte, o presente trabalho pode
das evidências físicas (e.g. parte interna do
contribuir na medida em que apresenta um
carro) e do suporte (e.g. banco de dados).
caso real de aplicação do conhecimento de
GOS. Por fim, vale ressaltar que a aplicação das
ferramentas e conceitos apresentados neste
A empresa estudada, tendo ciência do seu
artigo serviram de base para a empresa
mercado-alvo, pode determinar a tipologia do
direcionar sua estratégia por meio da
serviço oferecido, bem como suas
diferenciação (personalização, treinamento de
especificidades quanto à participação do
funcionários qualificados e lealdade do cliente
cliente no processo, simultaneidade,
disposto a pagar por um serviço mais caro) e
perecibilidade, intangibilidade e
da focalização (conhecer melhor as
heterogeneidade. O conceito de pacote de
necessidades específicas para a terceira
serviços (FITZSIMMONS; FITZSIMMONS,
idade e a especialização no tratamento deste
2014, p. 22-23) auxiliou a empresa no
público).
entendimento sobre fatores como as
instalações de apoio, bens facilitadores,
informação, serviços explícitos e implícitos.

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Gestão da Produção em Foco - Volume 18


96

Capítulo 9
MÉTODOS INTEGRADOS DE PRODUÇÃO X QUALIDADE
DA PRODUÇÃO E POLÍTICAS DE GESTÃO DE DEFEITO:
REVISÃO COM ENFOQUE EM DEMANDA E QUALIDADE.
Edson Itamar Dutra
Alexandre Frugeri
Flávio Amaral
Tainara Tange Alves Xavier
Paulo Sérgio de Arruda Ignácio

Resumo: Observa-se uma crescente necessidade nas empresas em incluir a


qualidade aos seus métodos de produção. Para atingir tal patamar é importante que
as mesmas entendam as variações de sua demanda e programem suas atividades
de modo a suavizar suas perdas e obter melhoras na qualidade de seus processos
e produtos, afim de uma maior produtividade e absorção de variabilidade de
mercado. Este artigo apresenta uma revisão bibliográfica referente as abordagens
de produção e qualidade, envolvendo principalmente o conceito de Rede de Valor
das Operações (RVO), trazendo como principal objetivo o levantamento do tema de
forma simplificada e consolidada para discussões sobre o assunto.

Palavras-chave: Métodos Integrados de Produção, Qualidade e Produtividade,


Gestão de defeito, Nível de serviço.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


97

1. INTRODUÇÃO O conceito de qualidade no Brasil surge, em


1991, com as indústrias automobilísticas,
As constantes mudanças mercadológicas e no
como prática do controle do fornecimento de
contexto econômico têm levado, cada vez
autopeças. Criado em 1995, o Instituto
mais, ao aumento na competitividade entre as
Brasileiro da Qualidade e Produtividade (IBPQ)
empresas. O planejamento da demanda
que possui como objetivo assegurar as
tornou-se de difícil elaboração, devido às
vantagens competitivas para a inserção dos
incertezas econômicas, políticas e
segmentos produtivos na perspectiva de
tecnológicas, sendo de grande preocupação
desenvolvimento socialmente justo,
das empresas se adaptarem preventivamente
economicamente viável e ambientalmente
as constantes mudanças (MOON et al, 1998)
sustentável (IBPQ, 2013).
garantido eficiência e eficácia.
Diante desse contexto, o objetivo geral deste
As ferramentas e técnicas de previsão de
trabalho é compreender, por meio de revisão
demanda surgem para conectar a
de literatura, os conceitos dos métodos de
disponibilidade à redução de custos, dentro do
previsão de demanda, qualidade, não
processo de planejamento estratégico.
conformidade e Rede de valor das Operações
Segundo Monks (1997), um dos principais
(RVO).
motivos para manutenção de estoque estão
em : atender as demandas variáveis, proteger Desta forma, os fluxos e métodos de produção
contra possíveis falhas de produção (faltas e (desde compras até o “set-up” de máquinas)
esgotamento de estoque), auxiliar o precisam estar integrados com a previsão da
nivelamento das atividades de produção, demanda e qualidade da produção, com suas
facilitar o mix de produção, produzir lotes métricas estabelecidas com o RVO. Com esta
econômicos e proteção contra incertezas de integração, entende-se que os métodos e
prazos e econômicas. Conjuntamente a qualidade em conjunto com RVO caminhando
previsão tem-se a precisão, que consiste na paralelamente podem proporcionar apresentar
medida da qualidade da previsão. ganhos substanciais a Organização;
A fim de atender as expectativas das
organizações e dos clientes, o aumento da
2. REVISÃO DA LITERATURA
produtividade tornou-se uma das metas
primordiais das organizações, paralelo às 2.1. PLANEJAMENTO PRODUTIVO
políticas de gestão e defeito zero.
O planejamento produtivo de uma empresa é
O conceito de Controle de Qualidade essencial como escopo para as decisões
que, historicamente, vem sendo praticada de estratégicas organizacionais a curto, médio e
três formas: inspeção, controle de processos e longo prazo. A expansão ou redução da
desenvolvimento produtivo. A primeira separa- capacidade de produção são tomadas de
se o defeituoso do perfeito; o segundo baseia- decisão importantes tanto para saúde
se no controle dos processos envolvidos no financeira da empresa quanto em impactos
produto final, em “como” dar-se-á a má sociais e mercadológicas frente à
qualidade; o terceiro visa o desenvolvimento concorrência (PROTO & MESQUITA, 2003).
do produto como foi previsto (CHENG, L. M;
A Figura 1 apresenta os níveis de planejamento
SILVA J.M. & LIMA F.P.A.; 1994).
da produção a cada fase.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


98

Figura 1. Níveis de Planejamento da Produção

Fonte: Peinado & Graeml, 2007

Deming, na década de 40, após a segunda A demanda pode ser classificada como
guerra, iniciou teorias de qualidade no Japão. dependente e independente. A demanda
Os japoneses, em 1951, instituíram o Prêmio dependente relaciona-se aos produtos e
Deming, recompensa a aplicação de gestão serviços, ou seja, um fornecedor produzirá de
de qualidade em processos. O conceito acordo com a programação do seu cliente. A
defendido pelo autor consistia na redução da demanda independente não é baseada em
variabilidade para prevenir defeitos, ao invés previsões fiéis, trata-se de decisões de como a
de detectá-los. Sua principal contribuição foi empresa irá suprir as demandas dos seus
mostrar que não é preciso aumentar o custo do consumidores, baseada no planejamento e
produto para se ter uma melhora na qualidade controle de estoque, conforme conhecimento
(PEINADO & GRAEML, 2007). sobre o comportamento do mercado
(PEINADO & GRAEML, 2007).
Segundo Juran (1951), a qualidade está
associada a adequação ao uso, com enfoque Outras variáveis são aderidas a previsão de
voltado para o cliente. Seus estudos visavam demanda futura como: estratégias dos
observar os custos da não qualidade e seu concorrentes, alteração de regulamentações,
impacto no preço do produto, dividindo-os em: inovações tecnológicas, prazo de entrega de
fornecedores e perda de qualidade.
 Custos de Prevenção: necessários
para evitar que uma organização fabrique
produtos defeituosos.
2.2. PRODUÇÃO
 Custos de Inspeção/detecção:
Em uma organização industrial, produção é a
necessários para avaliação da qualidade
fabricação de um material, mediante a
do produto, inspecionando-o durante
utilização de homens, materiais e
recebimento, testes de processo,
equipamentos e toda organização deve
manutenção de equipamentos e auditorias
produzir algo (MAYER, 1988)
de qualidade.
Para Gaither (2001, p.16):
 Custos de Falhas: Incorridos quando
se fabrica algo defeituoso, podendo ser O “coração” de um sistema de
internos (antes do produto sair da fábrica) produção é seu subsistema de
ou externos (depois de sair da fábrica). transformação, onde trabalhadores,
matérias-primas e máquinas são
As previsões de demanda são fundamentais
utilizadas para transformar insumos
para auxiliar na determinação dos subsídios
em produtos e serviços. O processo de
necessários para o planejamento e controle de
transformação está no âmago da
uma empresa (BALLOU, 2006), sendo uma
administração da produção e
atividade estratégica que possibilita acessos à
operações e aparece, de alguma
mercados, bem como, concorrência mais
forma, em todas as organizações.
ajustada devido as novas previsões em
(GAITHER, 2001, p.16)
períodos mais curtos.
Para análise de demanda podem ser utilizados
diferentes métodos matemático quantitativos

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


99

causais e temporais (PELLEGRINI, 2000), posteriormente para fazer as


aplicados de acordo com a demanda de cada previsões. Eles são divididos em três
empresa e com seus dados históricos, como: componentes: nível, tendência e
sazonalidade. Sendo eles: nível, valor
 Regressão linear e análise de
médio da observação (retirando
correlação;
sazonalidade e erro aleatório);
 Média Móvel; tendência, diferença sequencial de
dois níveis consecutivos;
 Suavização exponencial simples ou
sazonalidade, evento que se repete
com ajuste de tendência;
com periodicidade constate.
 Método sazonal multiplicativo. (MIRANDA, 2009 apud FERNANDES
et al., 2010)
 Método de Box-Jenkins: Geralmente
2.2.1. MÉTODOS QUALITATIVOS E
eles são conhecidos como ARIMA
QUANTITATIVOS DE DEMANDA DE
(Auto Regressive Integrated Moving
PRODUÇÃO
Averages) e são modelos matemáticos
Os métodos qualitativos são oriundos de uma complexos que visam capturar o
previsão subjetiva ou intuitiva e dependem da comportamento da correlação seriada
experiência acumulada pelos especialistas e/ou autocorrelação entre valores das
(LEMOS, 2006). Já Goodwin (2002) apud séries temporais, e com base nesse
Fernandes et al (2010) afirma que mesmo comportamento, realizar as previsões
previsões baseadas em sofisticados métodos (WENER & RIBEIRO, 2003).
estatísticos dependem de julgamento humano
para ajustes no método, forma e conjunto de
variáveis. 2.3. CONCEITO DE GESTÃO DA QUALIDADE
Baseado no conceito de métodos integrados O termo Qualidade vem do latim Qualitas, e
alguns modelos, como a pesquisa de pode ser utilizado de várias maneiras, mas o
intenções e o método Delphi, são utilizados seu significado nem sempre é de definição
para previsões mais concisas. clara e objetiva. Como apresenta aas
literaturas, referente ao assunto, existem
Métodos quantitativos utilizam dados
diversas abordagens sobre o tema qualidade
históricos para prever a demanda em períodos
e foram surgindo gradualmente ao longo da
futuros. Ela requer a construção de modelos
história.
matemáticos a partir dos dados da variação da
demanda ao longo do tempo, estes dados são Para Deming (2003) qualidade é o grau de
denominados série temporal (PELLEGRINI, conformidade e dependência previsível, a um
2000). baixo custo e adequado ao mercado; Juran
(2002) aborda que qualidade é a adequação
O melhor modelo a ser empregado depende
ao uso, por outro lado Crosby (1999) a define
do comportamento da série temporal que se
também como a adequação aos padrões de
deseja analisar e elas podem ser
produção.
representadas por quatro padrões: média,
sazonalidade, ciclo e tendência. (PELLEGRINI, Enquanto para Feigenbaum (1999) a
2000). qualidade é uma determinação do cliente e
baseia-se na experiência atual do cliente com
Os métodos mais utilizados são: média móvel,
o produto ou serviço, medida relativamente
suavização exponencial e métodos de Box-
aos seus requisitos, declarados ou não
Jenkins:
declarados, conscientes ou meramente
 Média móvel: é calculado a média de sentidos, tecnicamente operacionais ou
todos os dados do período em questão inteiramente subjetivos representando sempre
e essa média é utilizada como um objetivo dinâmico num mercado
previsão para o mês seguinte; competitivo.
 Suavização exponencial: consiste em A norma ISO 9000:2000 (2000) define
decompor uma série temporal em qualidade como o “grau de satisfação de
componentes e suavizar seu valor, ou requisitos (necessidades ou expectativas)
seja, dar pesos diferenciados que dado por um conjunto de características
decaem exponencialmente com o intrínsecas”. Paladini (2004), “a qualidade
tempo), recompondo-os

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


100

sempre esteve em moda o que mudou foi sua do processo de produção das empresas, para
abordagem”. obter resultados pelo menor custo possível e
com a melhor qualidade, que atenda as
No final da década dos 90, desponta um novo
exigências e a satisfação dos clientes.
modelo que iria influenciar a revisão das
normas ISO, na qual a qualidade é baseada
nos princípios da gestão. A gestão da
2.4 REDE DE VALOR DE OPERAÇÕES
qualidade se constitui num corpo de
conhecimentos construído a partir de uma Segundo Paiva et al. (2004), a cadeia de valor
base conceitual proveniente de áreas como de Porter pode ser reinterpretada para a área
estatística, planejamento, estratégia e da de produção gerando uma RVO, composta
própria administração (IDROGO, 2005). das seguintes atividades: Desenvolvimento de
Surgindo dessa forma a Qualidade Total, um Produto; Suprimentos; Produção; Distribuição;
novo modelo para gerenciar a política e e Serviços Agregados.
estratégia de qualidade das organizações.
A RVO busca compreender aspectos da
O termo Qualidade Total representa a busca cadeia de valor e das categorias de decisão,
da satisfação, não só do cliente, mas de todos de forma a integrar sistemicamente todas as
os stakeholders e também da excelência contribuições disponíveis para se expandir o
organizacional da empresa. A Qualidade Total conceito de valor ao longo da cadeia produtiva
consiste em um conjunto de Programas, – Figura 2.
Ferramentas e Métodos, aplicados no controle

Figura 2 - A Rede de Valor de Operações – RVO

Fonte: Adaptado de Paiva et at., 2004

A RVO considera a área de produção como os critérios competitivos a partir da RVO e das
elemento central na integração da rede como exigências de mercado, exercendo a tarefa de
um todo. A ideia da RVO consiste em fornecer o foco estratégico a todos os elos das
apresentar as áreas da Cadeia de Valor de atividades.
maneira sistêmica e integrada, buscando
Quando a identificação e definição dos
evidenciar que as áreas interagem entre si,
critérios competitivos faz-se o envolvimento de
eliminando a percepção sequencial. No
todas as áreas, para que o entendimento e as
entanto, a RVO recebe influência e pressão da
escolhas estratégicas da empresa possam ser
concorrência e deve considerar as exigências
compatibilizados com os recursos
do mercado.
operacionais disponíveis para dar suporte à
A estratégia de negócios de uma empresa tem estratégia competitiva. A escolha dos critérios
que considerar a RVO na qual está inserida. competitivos a serem adotadas na empresa
Assim, pode-se observar que é ainda mais servirão para nortear as decisões e ações que
relevante a necessidade de se definir e tratar a deverão ser tomadas ou priorizadas ao longo
estratégia de negócios específica para o da RVO.
contexto aonde se encontra inserida. E defini

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


101

Com base na RVO têm-se critérios todo e até mesmo com a estratégia corporativa
competitivos identificados de maneira do grupo empresarial.
específica, as estratégias de negócios e de
No item seguinte, apresenta-se o conceito de
produção precisam levar em consideração a
competências centrais, como forma de facilitar
RVO e os critérios competitivos específicos de
a compreensão da RVO como um todo.
cada unidade de negócios.
A partir dos anos 90, principalmente com a
Segundo Paiva et al. (2004), a busca por
publicação do livro “Competing for the future”
objetivos comuns em cada categoria de
(HAMEL E PRAHALAD, 1994), outros aspectos
decisão, define a chamada coerência interna
começaram a ser considerados quando da
da estratégia de produção. A classificação das
análise e tomada de decisões no campo
categorias de decisão não fornece indicações
estratégico. Paiva et al. (2004) apresentam o
de como alcançar a coerência interna na
conceito de competências da empresa como
estratégia produtiva. Deve-se analisar as
“As competências da empresa são aquelas
categorias de decisão de forma agrupada no
perceptíveis aos clientes e construídas a partir
conceito das atividades inter-relacionadas na
da combinação das competências de
RVO. Tomar como base que as decisões
operações geradas a partir do uso criativo e
definidas para essas atividades que buscam
inovador de seus diferentes recursos” (PAIVA
sustentar a estratégia competitiva da empresa,
et al., 2004, p. 76).
considerando os seguintes objetivos:
Hamel e Prahalad (1994) definem três
 Agregar valor para o cliente:
características necessárias para que uma
aproximação das áreas de marketing e
competência seja considerada central: i) Valor
produção, criando valor através da
para o cliente: deve proporcionar uma
oferta daquilo que o cliente deseja;
contribuição “desproporcional” para o valor
 Integrar as atividades da RVO: criar
percebido pelo cliente; ii) Diferenciação sobre
condições para que as decisões ao
concorrência: deve ser competitivamente
longo da RVO estejam alinhadas;
única ou exclusiva, ou seja, uma competência
 Buscar contínua adequação entre as
que seja dominada por todo segmento
atividades existentes: análise
industrial não deve ser considerada central; iii)
eliminação das atividades
Extendabilidade: deve ter papel importante na
desnecessárias, readequação entre
abertura de novos mercados e oportunidades
atividades e prioridades competitivas.
no futuro.
Hayes et al. (2005) afirmam que mesmo para
Conforme Davis et al. (2001), para implementar
empresas que tem suas diversidades de
uma estratégia de produção com sucesso,
negócios devem empregar estratégias de
algumas competências centrais devem ser
negócios semelhantes (ou prioridades
identificadas.
competitivas similares), normalmente estes
negócios apresentam diferenças suficientes Evidentemente, que não seja apenas a função
de modo que podem necessitar de estratégias da produção que devem ser identificadas as
de produção diferentes. competências centrais, mas de todas as outras
áreas funcionais envolvidas direta ou
A questão relevante diz respeito ao fato de se
indiretamente no processo. Desta forma, todas
considerar como os valores e preferências da
as competências funcionais devem convergir
corporação que estão em sintonia com a
para um mesmo ponto estratégico, buscando
estratégia de negócios também moldam suas
atingir os objetivos e metas da empresa, ou da
estratégias de produção. O fato de identificar
unidade de negócios.
estas preferências e valores podem auxiliar a
unidade de negócios nas atividades de fixar Desta forma, além da definição das
prioridades, considerar trade-offs e no competências da empresa e de produção, é
desenvolvimento de estratégias funcionais necessário definir alguns outros pontos
mais eficazes. importantes neste tema, basicamente os
recursos alocados e as atividades a serem
É necessário identificar as questões comuns
desenvolvidas.
para todas as estratégias, ou seja, são
políticas, procedimentos, aspectos Para tanto, Paiva et al. (2004) citam Hayes et
corporativos. Assim, é possível traçar al. (1996) e apresentam uma breve analogia
estratégias de produção e estratégias de para explicar todos estes conceitos “Imagine
negócios específicas coerentes com a uma regata de barcos à vela. Vários barcos,
estratégia de negócio da empresa como um todos rigorosamente dentro de um padrão

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


102

predefinido, com o mesmo número de dentro da RVO. O planejamento isolado por si


tripulantes, todos enfrentando as mesmas só são apenas pontos estáticos, necessitando
condições climáticas: orientação de ventos, ser considerados em conjunto e integrados
corrente e densidade da água e temperatura. com a RVO. Por exemplo, retornado ao caso
E mais, todos com o mesmo objetivo em da regata, Paiva et al. (2004) esclarece que as
mente: cruzar a linha de chegada em primeiro habilidades individuais dos marujos e do
lugar. Certo é que alguns chegarão na frente capitão (tripulantes) desempenhando as
de outros” (HAYES et al. apud PAIVA et al., tarefas de forma precisa e rápida com a
2004, p. 75). utilização dos recursos disponíveis, são o que
se pode chamar de competências de
Os autores utilizam esta breve história para
produção.
diferenciar os fatores chaves envolvendo o
tema em pauta. A questão que central deve ser
considerada é se alguns barcos chegam à
3. CONCLUSÃO
frente dos outros, qual a diferença existente
entre eles? Os recursos são os mesmos (todos A organização, para obter seus melhores
os barcos são iguais), todos têm o mesmo resultados, deve estar alinhada com o RVO,
número de tripulantes e os instrumentos em conjunto com a qualidade esperada, por
utilizados estão disponíveis para todos. As meio dos métodos de produção. A ausência
condições climáticas são as mesmas para dessa relação gera resultados que
todos (o ambiente é o mesmo). Pode-se provavelmente não irão corresponder nem as
concluir que o que diferencia um barco de expectativas da empresa, quanto mais a dos
outro são fatores tipo persistência, sorte, clientes.
liderança, senso de direção, além de um
Os reflexos dessa falta de ligação entre
conjunto de características e habilidades
métodos de produção e qualidade irá refletir
próprias, intangíveis, dificilmente imitáveis e
nos resultados da empresa podendo
certamente raras. (PAIVA et al., 2004, p. 75). A
comprometer sua sobrevivência, atingindo
isso se dá o nome de competências centrais.
proporções sem retorno.
Para Paiva et al. (2004), os recursos podem ser
Este artigo, que analisou a relação entre
entendidos como os ativos, informações e
Métodos de produção e qualidade,
conhecimento controlados por uma empresa
objetivando provocar o debate sobre a
que a tornam capaz de conceber e
necessidade deste dois fatores estar
implementar estratégias que melhorem sua
alinhados.
competitividade. Em se tratando da RVO,
pode-se entender como recursos todos os Longe de ser conclusivo, o intuito do artigo é
processos, equipamentos e pessoas com estimular reflexões, críticas e sugestões que
alguma relação com a produção e que possam contribuir para o aprofundamento do
considerados de maneira isolada não estudo desses conceitos e de seu papel nas
conduzem ao desempenho desejado. Empresas.
A partir desta afirmação, pode-se concluir que
são as atividades que criam competências

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Gestão da Produção em Foco - Volume 18


104

Capítulo 10
CONTRIBUIÇÕES DE DESIGN THINKING NA
IDENTIFICAÇÃO E SOLUÇÃO DE PROBLEMAS NO
TERCEIRO SETOR

Thayna Felizardo
Nathalia Silva
Ricardo Miyashita

Resumo: O conceito de Design Thinking vem sendo amplamente utilizado para


prover soluções inovadoras geradas por um processo lento de observação e
imersão no público que se pretende atingir, seja no campo de serviços ou na
geração de novos produtos. A partir desta ótica, observamos o funcionamento diário
da casa Ronald McDonald, no Rio de Janeiro, e acompanhamos de perto o
funcionamento de um de seus projetos, o Reconstruir, com o intuito de documentar
o projeto, desde sua criação até os dias atuais, identificar aspectos que pudessem
ser melhorados e, a partir destas observações, propor alternativas que
proporcionassem uma melhor execução e aproveitamento do projeto, com o objetivo
final de melhorar as condições de vida de crianças com câncer, bem como de
suas famílias, por meio da aplicação das quatro primeiras fases da metodologia de
Design Thinking proposta pela D. School. Ao fim do processo, chegamos a três
principais pontos críticos (baixa captação de verba, baixa conscientização em
relação à higiene e demora para a identificação da necessidade de aplicação do
Projeto Reconstruir) para os quais propusemos soluções, que podem ou não serem
aplicadas, de acordo com a disponibilidade de recursos da casa Ronald.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


105

1 INTRODUÇÃO Ainda segundo o INCA, “nas últimas quatro


décadas, o progresso no tratamento do
1.1 CONTEXTO DA PESQUISA
câncer na infância e na adolescência foi
Este trabalho visa descrever a aplicação do extremamente significativo. Hoje, em torno de
processo de Design Thinking em uma casa de 70% das crianças e adolescentes acometidos
apoio a crianças com câncer, passando de câncer podem ser curados, se
pelas quatro primeiras etapas do processo, diagnosticados precocemente e tratados em
de acordo com o lecionado pela D. School. centros especializados. A maioria deles terá
boa qualidade de vida após o tratamento
A aplicação do processo tem o objetivo
adequado”.
principal de identificar oportunidades de
melhorias em um dos projetos já existentes Para que o processo de enfrentamento da
na casa Ronald, o projeto Reconstruir, que doença seja o menos doloroso possível para
tem por objetivo realizar melhorias nas estas crianças e suas famílias, a casa possui
condições de moradia, o que tende a processos de apoio para cada uma das
resultar em um aumento da qualidade de etapas da doença, desde o momento em que
vida dos hóspedes (crianças e adolescentes a criança chega a casa, muitas vezes recém-
com câncer e seus familiares) da casa diagnosticada, passando pelo período de
Ronald McDonald. tratamento, que deve ser seguido com rigor
para que possa ter o efeito desejado, até o
A casa Ronald McDonald fornece, em média,
pós-saída da casa, por motivo de fim do
40.000 serviços de hospedagem por ano para
tratamento ou de entrada em cuidados
crianças com câncer e seus familiares, que
paliativos.
moram distantes dos hospitais e não possuem
condições de custear o tratamento. Aprimorar qualquer destes processos tem
impacto direto na qualidade do tempo em
O lugar oferece ainda, para estes hóspedes,
que vivem na casa, o que pode ser a
apoio psicossocial e jurídico, assistência
diferença entre estas crianças darem ou não
social, refeições diárias, transportes para ida e
prosseguimento ao tratamento. Estas pessoas
vinda dos hospitais, educação e nutrição para
precisam sair de suas casas e de seus
as crianças, dentre outros projetos e
convívios familiares para passarem um tempo
iniciativas.
vivendo na casa Ronald, com pessoas
A casa tem a missão de “viabilizar a intenção desconhecidas. Por isso, o ambiente deve ser
integral ampliada às crianças e adolescentes o mais atrativo possível, para que as crianças
com doenças onco-hematológicas durante tenham vontade de retornar a casa e seus
todas as etapas da linha de cuidado, assim familiares se sintam a vontade para isto
como aos seus familiares”, que vem sendo também.
cumprida com louvor e apoiada por parceiros,
Portanto, a aplicação do Design Thinking no
doadores e voluntários.
projeto Reconstruir será de grande
São acolhidos pela casa os mais diversos importância para o sucesso total do tratamento
tipos de hóspedes, em grande parte de baixa e consequente aumento da qualidade de vida.
ou baixíssima renda, com diversas culturas,
religiões e comportamentos, que precisam
seguir regras estritas de higiene, 1.2 OBJETIVO
manutenção do espaço e de convivência, o
Este trabalho se propõe a atingir o seguinte
que muitas vezes é difícil de ser controlado.
objetivo: Sugerir, a partir do resultado da
Durante alguns meses conversamos com aplicação da metodologia de Design Thinking,
hóspedes, funcionários, voluntários e algumas melhorias para o projeto, a fim de que
familiares, para entender o funcionamento da possa ser ainda mais proveitoso para quem é
casa e perceber oportunidades de melhoria, beneficiado e com maiores retornos de
estruturando cada etapa com as ferramentas investimento para a casa Ronald.
de apoio adequadas.
Assim como em países desenvolvidos, no
Brasil, o câncer já representa a primeira
causa de morte por doença entre crianças e
adolescentes de 1 a 19 anos, para todas as
regiões (site INCA).

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


106

2 REVISÃO DA LITERATURA O design social é um processo de projeto que


contribui para a melhoria da qualidade de
2.1 DESIGN THINKING: PROCESSO
vida do ser humano. Os designers e
INOVADOR CENTRADO NO SER HUMANO
profissionais de criação possuem a
Brown (2009) defende a existência de dois capacidade e o dever de melhorar o mundo
tipos de pensamentos: o divergente, que através de projetos de design. O design social
“consiste em multiplicar as opções para criar é construído a partir da filosofia de que “a
escolhas” e o convergente, que é “uma forma capacidade do designer de imaginar e dar
prática de decidir alternativas existentes”. Ao forma a produtos materiais e imateriais podem
mesmo tempo em que o pensamento resolver os problemas humanos em larga
divergente traz muitas ideias, o pensamento escala e contribuir para o bem- estar social”
convergente direciona para uma solução. (MARGOLIN, 2002).
Brown considera ainda que “o processo do
Neste projeto, vamos utilizar o processo de
design thinker se parece com uma transição
Design Thinking para ajudar a sociedade e
rítmica entre as fases divergente e
converter, de alguma forma, as técnicas de
convergente, com cada iteração subsequente
design em bem-estar social.
menos ampla e mais detalhada que as
anteriores”.
O significado de Design Thinking tem sido 2.3 DESIGN THINKING APLICADO À SAÚDE
amplamente abordado como o conhecimento
Alguns trabalhos foram feitos anteriormente
do profissional do design associado à sua
com o objetivo de trazer contribuições de
forma de entendimento sobre o ato de
Design Thinking ao campo da saúde. Muitas
projetar. Através de um modelo complexo de
instituições atualmente já reconhecem a
interação das ideias, a concepção do design
relevância que o design tem e estão investindo
ajuda a melhor entender problemas mal
nisso para melhorarem seus serviços através
definidos, assim como a solução de
da inovação.
problemas com foco na inovação, Cross
(2006). Em “Contribuições de Design Thinking à
humanização do tratamento de câncer infantil”
Segundo Bucciarelli (1996), design é também
(BELLUCCI;MARTINS,2012), os autores
um processo social que consiste em pensar
apontam “quais contribuições que a
e trabalhar em diferentes perspectivas,
estratégia focada no usuário caracterizada
muitas vezes envolve conflito de ideias e
pelo Design Thinking oferece para a
negociação. A filosofia do design pode ser
humanização do tratamento de câncer e
compartilhada por diversas profissões, e
como isso pode ser revertido especificamente
influenciada por trabalhar com pessoas com
para a melhoria do tratamento de câncer
diferentes perspectivas sobre complexos
infantil”. Para isto, aplicaram o método de
cruzamentos de problemas interdisciplinares.
pesquisa de campo e o método de
pesquisa etnográfica, que foi aplicada aos
pais e aos pacientes, para entender melhor
2.2 DESIGN SOCIAL E O DESIGN DE
suas percepções em relação à doença e ao
SERVIÇOS: INOVAÇÃO EM BENEFÍCIO DA
tratamento, bem como seus relacionamentos
SOCIEDADE
com os médicos e toda a equipe de apoio.
Pela necessidade de trazer uma visão mais
Chegaram à conclusão de que os pais e os
humana aos serviços surge segundo
pacientes tinham poucas informações sobre a
Langenbach (2008), o design de serviços.
doença, mas que se sentiam muito bem
Ainda segundo o autor, a ideia do design
atendidos e bem acolhidos. Identificaram
de serviços é a de “melhorar os serviços,
ainda algumas falhas nos horários de visita,
estudar principalmente as interações entre os
que eram muito estritos, já que o risco de
atores envolvidos, com o intuito de possibilitar
infecções é muito alto. Em razão disso,
o maior entendimento de sentido no seu
poderiam ser criadas alternativas à visita
trabalho e na sua vida, abrindo espaço para
presencial, desenvolvendo sistemas virtuais,
as características mais criativas, espontâneas,
dentre muitas outras oportunidades
e o caráter lúdico e relacionando essas
identificadas.
características à construção de diálogos
verdadeiros.” (LAGENBACH, 2008). Quando o assunto é prevenção, o Design
Thinking pode colaborar muito para as
pessoas desconfiarem de um tipo de doença

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


107

e procurarem um médico. É o caso, por difícil de discutir, fazendo com que muitas
exemplo, do câncer de mama. Existem pessoas o evitem completamente.
muitos tabus que podem fazer com que as
A partir de pesquisas, a designer Corrine
campanhas sejam difíceis de serem
Ellsworth Beaumont descobriu que, em
elaboradas:
geral, os materiais que abordavam este
Primeiro, o seio é geralmente associado a assunto eram confusos, pouco diretos e
sexo, e a exibição de imagens de seios pode contraditórios. Surgiu, então, o desafio de se
ser um problema. Segundo, câncer é criar um material que fosse atrativo, completo
geralmente associado com a morte, e, principalmente, claro e direto.
tornando-se um tema que para muitos é

Figura 1- (WorldwideBreastCancer, 2012)

A proposta foi, então, de retirar toda a favoráveis à permanência da criança no


conotação sexual e representar os seios com domicílio.
limões, mostrando as diferentes
O Projeto Reconstruir é um dos projetos
anormalidades que poderiam ser sinais de
sociais da Casa Ronald e tem como objetivo
câncer de mama, sem associar também com
prover um ambiente propício para crianças
algo negativo ou com a morte.
que se encontram em fase de tratamento da
neoplasia, assim como crianças que já não
possuem possibilidade de cura, ou seja, já
2.4 O PROJETO RECONSTRUIR E SEUS
não estão mais sendo tratadas. Dizemos que
BENEFÍCIOS SOCIAIS
este grupo de crianças entrou em cuidados
Existem vários fatores que podem aumentar paliativos e, para elas, a qualidade de vida é
o risco e vulnerabilidade dos pacientes com a meta principal. Para isso, o projeto realiza um
neoplasia, dentre eles, condições de pobreza conjunto de intervenções, desde pequenas
e de extrema pobreza. Nestas condições, em reformas em alguns ambientes até grandes
geral, questões como higiene e asseio muitas mudanças no layout das residências. Pode-se
vezes ficam comprometidas, o que significa chegar, inclusive, a um resultado de sair de
um enorme fator de risco para crianças em uma habitação e ir para outra, alugada,
tratamento, já que está baixa a imunidade e através do chamado “aluguel social”.
quaisquer microrganismos podem trazer
O melhoramento das habitações contribui
doenças secundárias, que podem levar a óbito.
para a redução de infecções de naturezas
Como dito anteriormente, uma má situação diversas, aumenta à adesão e a efetividade
habitacional tem forte influência na do tratamento, oferece melhores condições
vulnerabilidade do tratamento. Questões para cuidados paliativos domiciliares e
como as condições da construção, as contribui para um aumento qualidade de vida.
dimensões do imóvel, o abastecimento de
Desde sua criação, o projeto atendeu 22
água, o fornecimento de energia elétrica e o
famílias. Em nem todos os casos a criança
saneamento básico nem sempre são
pode usufruir dos benefícios, já que vieram

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


108

a óbito antes de o projeto terminar, mas o R$ 420.000,00. A seguir, algumas fotos de


benefício às famílias é permanente. A antes e depois do projeto:
estimativa de investimento por ano é de
Antes:

Figuras 2 e 3: Projeto reconstruir antes

Figuras 4 e 5: Projeto reconstruir antes

Figuras 6 e 7 Projeto reconstruir antes

Depois:
Figuras 8 e 9: Projeto reconstruir depois

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


109

Figuras 9 e 10: Projeto reconstruir depois

Figuras 11 e 12: Projeto reconstruir depois

Figuras 13 e 14: Projeto reconstruir depois

3 METODOLOGIA apenas pelas as 4 primeiras etapas,


explicando o que foi feito em cada uma delas,
Nesta seção será descrito todo o processo de
descrevendo o método e as ferramentas de
busca por melhorias, utilizando a metodologia
apoio usadas. As definições utilizadas são
de Design Thinking proposta pelo Instituto de
adaptações de o uso do Design Thinking
Design de Stanford, D. School, fundada por
dito por Vianna (2012, p.53).
David Kelley.
A seguir, a figura apresenta de forma
O processo é composto por seis fases, que
ilustrativa as fases e ferramentas que serão
podem ser revisitadas conforme a
utilizadas para compor este trabalho:
necessidade. Para este trabalho passaremos

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


110

Figura 15 - Fases e Ferramentas

Fonte: Autor

Entendimento: A compreensão é a primeira desafiados a realizar um “brainstorming” de


fase do processo de Design Thinking. diversas ideias, sem julgamentos. Nenhuma
Durante esta fase, os profissionais são ideia é rejeitada, nem impossível. A fase de
imersos no processo de aprendizagem sobre idealização é composta de criatividade e
o tema. Dialogam com especialistas e diversão. Quanto mais ideias, melhor. Em
realizam pesquisas, entrevistas, visitas, dentre algumas sessões, os profissionais são
outros. O objetivo é desenvolver o encorajados a darem até cem ideias.
conhecimento embasado através dessas Tornam-se ousados, sonhadores, arriscados e
experiências. sonham com o impossível... E com o possível.
Observação: Nesta fase, os profissionais se Prototipagem: A prototipagem é uma parte
tornam observadores de seu objeto de estudo. difícil e rápida do processo de design. Um
Eles veem como as pessoas interagem e se protótipo pode ser um esboço, modelo ou
comportam, além de observar os espaços maquete. É um modo de trazer rapidamente
físicos e lugares. Conversam com as pessoas uma ideia à realidade, criando protótipos
sobre o que elas estão fazendo, fazem simples que possam ser testados em um curto
perguntas e refletem sobre o que veem. As espaço de tempo.
fases de entendimento e observação ajudam
Teste: Testar é parte de um processo interativo
os profissionais a desenvolverem um senso de
que fornece feedback aos profissionais. O
empatia.
propósito é entender o que funciona e o que
Ponto de Vista: Nesta fase do Design não funciona, e então colocar em prática, o
Thinking, o foco dos profissionais é em que significa voltar ao protótipo e modificá-lo
perceber as necessidades das pessoas e com base nos feedbacks.
desenvolver “insights”. A frase “como
No quadro a seguir, um resumo das fases do
devemos…” é geralmente usada para definir
projeto e dos principais resultados
um ponto de vista, que é composto por:
conseguidos:
Usuário + necessidade + “insight”. O objetivo
desta fase é sugerir modos de realizar
mudanças que terão impacto na experiência
3.1 DESIGN THINKING PARA SUGESTÃO DE
das pessoas.
MELHORIAS
Ideação: Idealizar é um componente crítico
“[...] o fato de o Design Thinking ser
do Design Thinking.Os profissionais são
fundamentalmente um processo exploratório,

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


111

quando realizado de modo correto, revistas, blogs, artigos, entre outros). Fornece
invariavelmente levará a descobertas referências das tendências da área no Brasil e
inesperadas ao longo do caminho e seria tolice no exterior, insumos de temas análogos que
não tentar ver para onde elas levariam. Muitas podem auxiliar no entendimento do assunto.
vezes, essas descobertas podem ser Ajuda a equipe a compreender melhor as
integradas ao processo de modo continuo, fronteiras e perspectivas do tema. É utilizado
sem interrupções.” (BROWN, 2009, p.16). porque a maior parte da pesquisa secundária
realizada atualmente tem como base
Como mencionado, este estudo tem como
referências seguras da internet.
objetivo revisitar as etapas de criação e
desenvolvimento do Projeto Reconstruir,
identificar pontos críticos e oportunidades e,
OBSERVAÇÃO
por fim,sugerir melhorias.
Na fase de observação, a casa foi visitada
diversas vezes, no intuito de entender a
4 ENTENDIMENTO dinâmica do dia-a-dia do lugar. Participamos
do curso de voluntariado para observação do
Nesta primeira fase, procurou-se entender o
entendimento dos processos a partir da visão
funcionamento da casa Ronald: Como as
dos funcionários, para perceber as motivações
pessoas chegavam até ela, de onde vinha a
e responsabilidades adquiridas após se tornar
renda que era usada para sua manutenção, os
membro da equipe.Alguns turnos de
serviços de apoio oferecidos, as regras e
voluntários foram acompanhados, para ver
manuais que eram usados, o papel dos
como eram feitas as entradas e saídas da
voluntários e suas escalas, como funcionavam
casa, como era o convívio social dos hóspedes
as casas com o mesmo propósito pelo mundo,
entre eles, se as instruções dadas a voluntários
a história da criação e seus fundadores, os
e hóspedes em geral eram cumpridas, dentre
projetos tocados pela casa e seus objetivos, os
outros aspectos. Conversamos com as
parceiros de projetos e hospitais conveniados
crianças e adolescentes hospedados, bem
e todas as informações que pudéssemos
como com seus familiares e voluntários, para
coletar. Para isso, fizemos uso das seguintes
entender a percepção que tinham sobre o
ferramentas:
lugar, sobre a doença, seu tratamento e
entender suas principais necessidades.
Pesquisa Exploratória
Definição: Entrevistas
Pesquisa de campo preliminar que auxilia a Definição:
equipe no entendimento do contexto a ser
Conversa formal com os agentes do
trabalhado e fornece insumos para a definição
sistema.Esta ferramenta é utilizada para obter
dos perfis de usuários, atores e ambientes ou
a história por trás das experiências de vida do
momentos do ciclo de vida do produto/serviço
entrevistado. O entrevistador estimula o
que serão explorados na Imersão em
participante a explicar os porquês dos relatos
profundidade. Favorece a familiarização dos
par a que consiga compreender o significado
membros da equipe com as realidades de uso
do
dos produtos ou serviços. Obtém-se
conhecimento das demandas e necessidades que está sendo dito.Através das entrevistas, é
latentes na pesquisa de campo há a possível expandir o entendimento sobre
observação e a interação com os agentes comportamentos sociais, descobrir as
envolvidos no sistema bem como o exceções à regra, mapear casos extremos,
mapeamento de locais e stakeholders suas origens e consequências.
relevantes. Ajuda também na elaboração dos
temas a serem investigados na Pesquisa Desk.
Sombra
Definição:
Pesquisa Desk
É o acompanhamento do usuário,ou outro ator
Definição
do processo,ao longo de um período de tempo
É uma busca de informações sobre o tema do que inclua sua interação com o produto ou
projeto em fontes diversas (websites, livros, serviço que esta sendo analisado. Enquanto

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


112

“sombra”, o pesquisador não deve interferir na emoções, expectativas e hábitos. Assim,


ação do usuário, apenas observá-lo.O objetivo identificam-se oportunidades e necessidades
é entender como a pessoa se relaciona com o latentes que muitas vezes não seriam
contexto do tema estudado, que tipo de verbalizadas ou explicitadas numa entrevista
artefatos e atores estão envolvidos, quais as ou sessão generativa.

Figuras 16 e 17: Casa da visita Projeto Aconchego

Figuras 18 e 19: Casa da visita Projeto Aconchego

Um dia na vida diagnosticadas na lógica de “cartões de


insight”, criou-se um “mapa conceituai” e
Definição:
definiu-se a “jornada do usuário”, com o
É uma simulação, por parte do pesquisador, objetivo de começar a pensar no que se
da vida de uma pessoa ou situação estudada. poderia propor como solução para vários dos
Ou seja, membros da equipe de projeto problemas observados.
assumem o papel do usuário e passam um
Esta etapa é feita individualmente para
período de tempo (que pode ser mais do que
posterior troca de pontos observados, com o
um dia, dependendo do desenrolar do tema)
intuito de não influenciar o restante da equipe
agindo sob um diferente ponto de vista e
e para que cada um conseguisse chegar
interagindo com os contextos e pessoas com
conclusões diferentes.
as quais se confronta no dia a dia.Os usuários
escolhidos para realizar a técnica devem
estudar sobre o tema avaliado, aprender sobre
Mapa Conceitual
os comportamentos, atitudes e limitações a
serem simuladas assim como mimetizar toda a Definição
situação. Também permite geração de insights
O mapa conceitual é uma estrutura
relevantes para a próxima fase
esquemática para representar um conjunto de
conceitos imersos numa rede de proposições.
Ele é considerado como um estruturador do
PONTO DE VISTA
conhecimento, na medida em que permite
Ao finalizar a etapa de observação, foram mostrar como o conhecimento sobre
estruturados os problemas e as ideias determinado assunto está organizado na

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


113

estrutura cognitiva de seu autor, que assim


pode visualizar e analisar a sua profundidade
e a extensão.
Figura 20: Mapa conceituai ( Fonte: Autor)

Jornada do Cliente gargalos do processo, entender o que cliente


sente e quais são suas expectativas, assim
Definição:
como refinar soluções e priorizar demandas.
É uma representação gráfica das etapas de Através dessa ferramenta muitas marcas são
relacionamento do cliente com um produto ou construídas, experiências são desenhadas,
serviço, que descreve os passos chave valores são reconhecidos e novos produtos ou
percorridos antes, durante e depois da compra serviços são desenvolvidos.
e\ou utilização.
Por fim, com foco no objeto o qual este projeto
Com o conhecimento da Jornada do se propõe a melhorar, foi desenhada a jornada
Consumidor é possível reconhecer pontos do cliente no projeto Reconstruir, desde a
fortes e aspectos que podem ser aprimorados, identificação de que o hóspede precisa ser
identificar oportunidades de negócio e atuais incluído no projeto até a sua final entrega.

Figura 21: Jornada do Cliente – Projeto Reconstruir


.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


114

Cartões de Insight achado e o texto original coletado na pesquisa


juntamente com a fonte. Além disso, podem ter
Definição:
outras codificações, como o local de
Reflexões embasadas em dados reais das coleta,momento do ciclo de vida do
pesquisas exploratórias,Desk e em produto/serviço ao qual se refere e etc., para
Profundidade, transformadas em cartões que facilitar a análise.
facilitam a rápida consulta e manuseio.
Geralmente contém um título que resume o

Figura 22: Estrutura cartão de Insight

Ao todo foram criados 6 (seis) cartões com as ilustração, o título do insight e uma descrição
principais ideias e sugestões pensadas ao que contribui para o entendimento do cenário
longo do estudo, aprimorados ao longo do sugerido.
processo. Cada cartão contém uma pequena

Figura 23 - Cartões de Insight

IDEAÇAO incentivar a criação de mais ideias, a partir de


uma sessão de brainstorming.
Em sequência à fase de Ponto de Vista, demos
início à fase de Ideação. Esta fase consiste em Para esta fase fizemos apenas algumas
consolidar todas as ideias individuais que reuniões apenas acadêmicas para discutir
tivemos durante a fase de ponto de vista, ideias que surgiram durante as fases
discuti-las entre os próprios membros do anteriores e os cartões de insight que haviam
grupo de trabalho e com os demais envolvidos sido criados durante a fase de Ponto de Vista.
(equipe casa Ronald e equipe Inca) e Foram então apresentadas e melhoradas as

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


115

ideias do aprimoramento do questionário reformas para minimizar os custos,


social, divulgação presencial do projeto implantação de parcerias com instituições
reconstruir para arrecadação de privadas e públicas para o apoio ao projeto,
investimentos, criação de multiplicadores para além da criação de um setor no site dedicado
ensinar a importância dos cuidados para doações direcionadas. No quadro a
comportamentais e alimentares durante o seguir, um resumo das fases do projeto e dos
tratamento, planejamento detalhado das principais resultados conseguidos:

Quadro 1: Síntese das fases do projeto


Entendimento do funcionamento da casa através de leitura de manuais e conversas
informais com funcionários;
Entendimento
Percepção da doença e do seu significado para a sociedade e para aquelas famílias;
Busca de melhores práticas em Casas Ronald de outros países.
Conversas informais com pais, funcionários, voluntários e crianças, para observar as
dificuldades que viviam e o que pensavam do funcionamento da casa;
Visita a projetos liderados pela casa e participação de reuniões com parceiros, para
Observação
perceber como estava inserida no âmbito social;
Participação em treinamentos e palestras promovidas pela casa, buscando maior
imersão no cenário.
Criação do mapa conceitual e da jornada do usuário, com o objetivo de ilustrar os
processos da casa e facilitar a percepção de pontos críticos e a criação de ideias;
Ponto de Vista
Criação dos cartões de Insight, com pontos até então observados e possíveis soluções
para estes problemas.
Discussão e aprimoramento das ideias já encontradas, por meio de reuniões
Ideação acadêmicas;
Estruturação de propostas para os três maiores pontos críticos identificados.

4. RESULTADOS Soluções propostas: Para solucionar a questão


da captação de verba dedicada ao projeto,
A partir de tudo o que foi observado durante o
propomos:
processo de avaliação do projeto Reconstruir,
pudemos chegar a três pontos críticos Criar um espaço no site dedicado a doações
principais, para os quais propusemos direcionadas ao projeto reconstruir, em uma
soluções: plataforma personalizada, que mostre ao
doador os dados da criança, o que vai ser
Grande dificuldade para captação de verba
comprado com o dinheiro que ele doou e o que
dedicada ao projeto
ainda falta para finalizar o projeto na casa. O
Descrição do problema: O projeto reconstruir site ainda contaria com fotos de antes e depois
beneficia diversas famílias, que vivem em de cada reforma feita, para aumentar a
casas com pouca ou nenhuma condição de transparência e idoneidade do projeto, o que é
habitabilidade. Contudo, as parcerias e verbas muito importante para que as doações
dedicadas a este projeto ainda são escassas e continuem chegando (a ideia completa pode
a Casa Ronald tem dificuldade para mantê-lo e ser vista no anexo3).
ajudar todas as famílias que precisam. A
Divulgação do projeto em locais públicos e
equipe da casa vem se esforçando para
faculdades - Criar uma apresentação a ser
manter o projeto, mesmo com pouca verba
feita em faculdades e locais públicos com
disponível e com poucos profissionais
grande movimentação de pessoas, para
dispostos a ajudar a atender a demanda, que
explicar o propósito e importância do projeto e
é grande, mas a continuidade do projeto está
mostrar como se pode contribuir para que este
comprometida. Vale ressaltar novamente o
continue beneficiando diversas famílias.
quanto este projeto é fundamental para o
aumento da taxa de cura, já que quando a Implantação de parcerias com instituições
criança volta para um ambiente com nenhuma privadas e públicas para apoio ao projeto -
condição de asseio e higiene, o tratamento, os Buscar instituições que estejam dispostas a
cuidados e todo o tempo e dinheiro investidos fazer parcerias de apoio financeiro ao projeto,
podem ser perdidos. já que as questões sociais estão cada vez mais
evidentes nas empresas e a parceria pode ser
benéfica para ambas as partes. Além disso,

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


116

procurar apoios acadêmicos em faculdades podem servir de guia e de lembrete para que
de engenharia e arquitetura, para ajudarem no as famílias não descuidem desta questão nem
planejamento e na idealização dos projetos. por um momento.
Planejamento detalhado das reformas para Demora na Identificação da necessidade de
minimizar os custos - Com um planejamento aplicar o projeto Reconstruir
cuidadoso e bem elaborado, os custos podem
Descrição do problema: Percebemos ainda
ser reduzidos significativamente, fazendo com
que, para ser cadastrado no projeto
que a verba disponível possa ser utilizada em
reconstruir, a equipe da casa Ronald deve ir
mais projetos.
até a casa do paciente, às vezes para entregar
Baixa conscientização em termos de higiene algum objeto que já perceberam que falta, pelo
(cuidadores e pacientes) projeto Aconchego (cama, geladeira, etc.),
para então identificar que aquela casa precisa
Descrição do problema: A Casa Ronald tem
do projeto reconstruir por ter más condições
regras estritas em relação aos hábitos de
de habitabilidade. Até que se visite a casa do
higiene dos hóspedes durante todo o tempo
paciente, por algum motivo terceiro, não se
em que estão na casa: Explicam sua
tem ideia de que aquela família precisa do
importância para o tratamento, controlam se os
projeto. Por isso, um tempo que poderia estar
quartos estão sendo limpos, contratam
sendo usado para mapear aquela família como
pessoas para cuidar da limpeza das áreas
possível beneficiada pelo projeto e começar a
comuns. É de conhecimento geral que a
de fato pensar no que pode ser feito na casa,
higiene é fundamental para o sucesso do
é perdido. Existe ainda uma necessidade de
tratamento e para o aumento da taxa de cura,
agilizar esta identificação.
já que, durante o tratamento, as crianças ficam
com a imunidade baixa e qualquer doença Solução proposta: O aprimoramento do
pode ser fatal. Contudo, depois que deixam a questionário social que é feito com as famílias
casa, não se pode mais ter controle sobre os que dão entrada na casa pode ser um bom
hábitos de higiene daquela família. Quando indicativo de que naquela cada falta
estes não são feitos da forma adequada, não infraestrutura. Incluir no questionário perguntas
importa se a casa tem condições de que, indiretamente, consigam traduzir a
habitabilidade, ventilação, paredes sem mofo. realidade em que a família vive (Ex: Número de
Todo o investimento feito até então pode ser quartos, número de televisores na casa, renda
desperdiçado. Durante as fases de média mensal, número de pessoas que vivem
observação, vimos que existe casos onde a na mesma casa, etc.), podem dar uma boa
casa é reformada pelo projeto Reconstruir, noção dos casos que merecem maior atenção.
mas a família não tem consciência da Desta forma, estas casas seriam visitadas
importância de mantê-la limpa e organizada, prioritariamente (Ex:Quando há alta, o paciente
fazendo com que o tratamento regrida. poderia ser levado em casa - O próprio
motorista poderia fotografar).
Soluções propostas: Como soluções para este
problema, propomos:
Criação de multiplicadores para ensinar a 5. CONCLUSÃO
importância dos cuidados comportamentais e
Na seção 4 deste documento descrevemos os
alimentares durante o tratamento - Convocar
principais pontos críticos encontrados a partir
profissionais da área de saúde e da área de
da aplicação da metodologia de Design
nutrição para dar palestras sobre estes
Thinking aplicada na Casa Ronald e voltada
assuntos pode ser de grande ajuda para
para o projeto reconstruir. Para cada um
solucionar esta questão. A falta de
destes pontos críticos, sugerimos algumas
treinamentos e conscientização das famílias e
soluções que julgamos viáveis, a partir de
das crianças é um fator que põe em risco o
conversas com pessoas e profissionais
tratamento em todas as suas etapas, e não
envolvidos no processo.
somente o projeto Reconstruir.
Sendo aplicadas estas soluções, acreditamos
Criação de cartilhas e materiais de apoio -
que o projeto reconstruir poderá ser
Estes materiais, contendo instruções de como
permanente dentre todos os que a casa toca,
cuidar da higiene e pontos importantes que já
ajudando ainda muitas famílias e aumentando
são aplicados na casa, além da importância
a taxa de cura da doença.
deste assunto para o sucesso do tratamento,

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


117

REFERÊNCIAS
[1]. BARBOSA, J.A.; FERNANDES, M.Z.; [8]. MARTIN, Roger. The design of business:
SERAFIM, E.S. Atuação do Psicólogo no Centro de Why Design Thinking is the next competitive
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Jornal de Pediatria, V. 67, p. 344-347, 1991
[9]. MARGOLIN, V. The Politics of the Artificial:
[2]. BELLUCCI, M.; MARTINS, R. Contribuições Essays on Design and Design Studies. Chicago and
de Design Thinking à humanização do tratamento London: University of Chicago Press, 2002
do câncer infantil. Projética: Revista Científica de
[10]. KADOUAKI, R.; MARRA, C. N. Inovação
Design, Londrina, v. 13, n.2, p. 8-26, 2012.
Aberta e Design Thinking no setor público: O caso
[3]. BROWN, T.Design Thinking: Uma da “gravidez na adolescência” no movimento Minas.
metodologia poderosa para decretar o fim das 2013. Trabalho apresentado ao 6. Congresso
velhas ideias.São Paulo: Campus, 2010. CONSAD de gestão pública, Brasília, 2013.
[4]. BUCCIARELLI, L. Design Studies. [11]. VIANNA, M. Design Thinking: Inovação em
Cambridge: Elsevier, 2002 negócios. Rio de Janeiro, MJV Press, 2012
[5]. CROSS, N. Design Thinking: [12]. Health Educators. In: World Wide Breast
Understanding how designers think and work.Berg: Cancer, 2012. Disponível em: <http://www.
Bloomsbury, 2011 worldwidebreastcancer.com/health-educators>.
Acessado em: Julho 2014
[6]. FRANÇOSO, L. P. C.Enfermagem: Imagens
e significados do câncer infantil. 1993.Dissertação [13]. Particularidades do Câncer Infantil. In:
de mestrado não publicada - Universidade de São Instituto Nacional do Câncer, 2012. Disponível em:
Paulo, Ribeirão Preto, 1993 <http://
www.inca.gov.br/conteudo_view.asp?id=343>.
[7]. LANGENBACH, M. Além do apenas
Acessado em: Julho. 2014
funcional: Inovação social e design de serviços na
realidade brasileira. 2008. Dissertação (Mestrado [14]. Mayo Clinic: Design Thinking in Health
em Engenharia de Produção) – Universidade Care. In: Yale School of Management, 2012.
Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008. Disponível em: <http://nexus.som.yale.edu/design-
mayo> Acesso em Julho. 2014.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


118

Capítulo 11
ANÁLISE DAS FALHAS EM MÁQUINAS DE COSTURA
INDUSTRIAIS UTILIZANDO-SE O FMEA PARA A
REDUÇÃO OU ELIMINAÇÃO DA MANUTENÇÃO
CORRETIVA
Kelly Aparecida Torres
Eduardo Geraldo Ferreira do Nascimento
Erika Loureiro Borba
Fabricio Molica de Mendonça
Pablo Luiz Martins

Resumo: O FMEA (Análise do Modo e Efeito das Falhas ou versão do inglês Failure
Mode and Effect Analysis) é de um determinado produto, o seu uso, impacta
diretamente no retorno financeiro, uma vez que elimina e minimiza as falhas
potenciais nos processos produtivos. Considerando a importância do tema, o
presente trabalho em o objetivo de propor uma sistemática de análise de falhas para
verificar o desempenho de equipamentos de costura industriais. Em específico
aplicou-se a ferramenta FMEA para analisar as falhas e identificar os principais
modos de falha em equipamentos de costura industriais, objetivando reduzir o
consumo de peças e estabelecer programas de manutenção na indústria em que se
direcionou o estudo de caso. Esse estudo é qualitativo e o método utilizado foi de
estudo de caso. Os resultados foram plausíveis, uma vez que se notou a importância
da utilização do FMEA pela indústria, já que a empresa em estudo não possuía
nenhum sistema de planejamento padrão da manutenção ou prevenção de falhas,
assim foi possível apresentar as prerrogativas como redução do valor do NPP
(Número de prioridade de risco), bem como conduz a mitigação dos riscos de
eventuais falhas humanas ou mesmo de controles de processos.

Palavras-Chave: Equipamentos. Falhas. FMEA. Manutenção.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


119

1. INTRODUÇÃO empresa de grande porte fabricante de


calçados específicos para a área de
Para que uma organização possa permanecer
segurança situada na região do Campo das
forte e suportar as divergências do mercado é
Vertentes em Minas Gerais.
preciso que se reduza os custos que vão
desde os investimentos até o setor Considerando a importância que este tema
operacional. Segundo Rogerro (2016), os possui, este estudo está dividido nos seguintes
casos de reincidência de manutenção de capítulos: conceitos básicos de manutenção, a
maquinário representam um dos fatores de análise do modo e efeito das falhas (FMEA); os
maior consumo e perda de rentabilidade na tipos de análise do modo e efeito das falhas e
indústria. A partir de problemas frequentes que a aplicabilidade da FMEA.
são apresentados por uma determinada
máquina são gerados, por exemplo, gastos
com peças, que contribuem para onerar ainda 2. REVISÃO DA LITERATURA
mais a atividade produtiva.
2.1 A MANUTENÇÃO COMO QUESTÃO
Neste contexto, a Análise do Modo e Efeito das ESTRATÉGICA
Falhas (FMEA) se apresenta como uma
A questão das atividades relacionadas à
ferramenta importante para a indústria, pois
manutenção são preocupações para grande
tem o intuito de evitar, por intermédio da
parte dos gestores industriais.
análise das falhas potenciais, que ocorram
problemas. Dessa maneira, sua aplicação se De acordo com Slack (2002), ao se estudar o
dá através de ações com o intuito de promover termo manutenção, pode-se definir o mesmo
melhorias e auxiliar para que não ocorram como a maneira que as organizações
falhas no produto ou mesmo durante o seu trabalham no sentido de não ocorrer falhas.
processamento industrial. Corroborando com Slack (2002), Kardec e
Nascif (2001), defendem que o conceito de
O FMEA é uma técnica analítica onde se
manutenção está baseado na probabilidade
assegura que todas as falhas em potencial que
de ser uma importante ferramenta que está em
envolvam o projeto e/ou o processo e sistema
condições de atender as necessidades de
de qualidade, tenham sido consideradas e
qualquer setor produtivo. A manutenção
analisadas para que se executem as ações
também pode aumentar a confiabilidade e a
precisas e corretas com o intuito de evitar que
disponibilidade dos equipamentos, sendo
essas falhas promovam gastos que possam
possível ainda, contar com o aperfeiçoamento
impactar financeiramente a empresa.
dos recursos que são disponíveis obtendo
Considerando essas informações, surgiu a além da qualidade, a segurança.
seguinte pergunta de pesquisa: como a FMEA
Segundo Nogueira, Guimarães e Silva (2012,
pode ser aplicada no sentido de reduzir o
pg. 176)
consumo de peças de substituição de
maquinários numa fábrica calçadista? A evolução da manutenção teve seu marco
após a Segunda Guerra Mundial, quando a
Considerando a pergunta problema, o objetivo
indústria necessitou se adequar para atender
desta pesquisa foi propor uma sistemática de
a demanda do mercado. Antes deste período
análise de falhas, utilizando a ferramenta
as máquinas eram pouco mecanizadas e
Análise do Modo e Efeito de Falhas (FMEA)
muitas vezes superdimensionadas,
para verificar o desempenho de equipamentos
prevalecendo a presença da mão-de-obra
de costura industriais em uma grande fábrica
industrial.
de calçados de segurança situada na região
do Campos das Vertentes em Minas Gerais, De acordo com Pinto e Xavier (2001) é possível
com o intuito de reduzir o consumo de peças conceituar a manutenção, como uma forma de
de substituição em função da manutenção garantir a disponibilidade dos equipamentos,
corretiva e estabelecer programas de assim como as suas instalações onde,
manutenção preventiva na empresa estudada. certamente ela atenderá todo o processo além
de preservar o meio ambiente, por meio dos
Para responder a questão problema, tornou-se
custos adequados com a confiabilidade
importante desenvolver experimentos
necessária e com segurança.
específicos num determinado processo
produtivo. Dessa maneira, os pesquisadores Segundo Marconi e Lima (2003) é possível
envolvidos nesse estudo, optaram por aplicar obter uma redução de falhas no que se refere
a FMEA como um experimento em uma ao desempenho de um determinado

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


120

equipamento. Falhas acarretam uma novembro de 1949, o Exército americano criou


diminuição da qualidade bem como da o procedimento para desempenhar um modo
produtividade quando não se tem uma política de falha, seus efeitos e análise da sua
adequada de manutenção. criticidade (MILITARY PROCEDURE, 1629), e
em 1960, a NASA foi a empresa pioneira na
De acordo com Siqueira (2005) a manutenção
aplicação do FMEA (PALADY, 2004).
pode ser composta por grupos e tipos de
usuários que estão relacionados com as falhas Em meados de 1985, o FMEA foi apresentado
e o autor lista esses grupos como: às organizações, demonstrando a sua
aplicabilidade e precisão. Em 1988 as
 Manutenção Reativa ou Corretiva;
organizações como Daimler-Chrysler, Ford, e
 Manutenção Preventiva; General Motors, receberam o ISO 9000 – QS
9000 em virtude da aplicabilidade do FMEA,
 Manutenção Preditiva;
uma vez que essas empresas tiveram uma
 Manutenção Produtiva; política de redução de gastos evidenciando a
Análise do Modo e Efeito das Falhas. Através
 Manutenção Centrada em
da utilização da FMEA foram evitados
Confiabilidade;
problemas que ocorriam por deficiências nos
Siqueira (2005) relata ainda que a manutenção projetos e nos processos. O objetivo
reativa ou corretiva age após a falha. Esse tipo fundamental era auxiliar na análise dos
de manutenção permite que o equipamento processos que eram novos, na identificação
trabalhe até falhar e só após a falha, corrigi os das deficiências desses processos, bem como
problemas que aconteceram. as respectivas ações de prevenção. Também
foram identificadas e documentadas as
Já a manutenção preventiva tem o intuito de
características especiais do processo e o
prevenir, além de evitar as consequências das
desenvolvimento que acompanhava e
possíveis falhas. Essa gestão de manutenção
apresentava os novos processos (ROGERRO,
alcança a eficiência no que tange a qualidade
2012).
da análise que é realizada aos níveis
permanentes de confiabilidade do conjunto É importante destacar que a Associação
que engloba a manutenção preventiva Brasileira de Norma Técnicas (ABNT), por meio
(LAFRAIA, 2001). da norma NBR 5462 (1994), define que o FMEA
é um método qualitativo de análise de
A manutenção preditiva por sua vez, é
confiabilidade aplicado por intermédio de um
estabelecida pela análise da antecipação de
estudo envolvendo os modos de falhas, de
possíveis falhas, medindo parâmetros que se
forma a relatar as falhas que podem ocorrer em
destacam no processo evolutivo de uma
cada item comparando-os com os projetos e
determinada falha sendo possível corrigir a
processos iniciais.
tempo (PINTO & XAVIER, 2001).
De acordo com Sakurada (2001), essa técnica
Outra forma de manutenção é a manutenção
parte de um contexto analítico que é utilizado
centrada em confiabilidade (MCC), e por meio
por um engenheiro/time onde o intuito maior é
dela é possível prevenir e antecipar as falhas
promover a garantia de que serão analisados
de equipamentos, o que indubitavelmente
os modos potenciais de falha e suas
acarreta em melhorias no desempenho do
causas/mecanismos que são associadas as
equipamento (SLACK, 2002).
mesmas, e que tenham sido considerados e
De acordo com Marconi e Lima (2003), a localizados.
manutenção centrada em confiabilidade é um
Desta forma, a aplicação do FMEA pode evitar
instrumento de manutenção que tem o objetivo
que os problemas se tornem recorrentes tendo
de racionalizar, bem como sistematizar as
em vista que seu intuito é promover a melhoria
atividades que são necessárias no momento
contínua. O FMEA é como um documento vivo,
de adotar o plano de manutenção.
pois está sempre sendo atualizado e através
dele se tem a representação das últimas
mudanças que foram realizadas no processo
de fabricação de determinado produto
2.3 A ANÁLISE DO MODO E EFEITO DAS (LAFRAIA, 2001).
FALHAS (FMEA)
O resultado que é gerado pode ainda servir em
O processo histórico do FMEA se inicia em programas de capacitação já que a técnica
meados de 1949 na indústria militar. Em proporciona um melhor entendimento das

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


121

falhas o que, consequentemente, facilitará a Já Stamatis (2005) ressalta a existência de


escolha do tipo de manutenção que poderá ser mais dois tipos de FMEA: a FMEA de sistema,
empregada tais como: corretiva, preventiva ou utilizada na análise de sistemas e subsistemas
mesmo preditiva. Esse resultado ainda no início do desenvolvimento do conceito e/ou
garantirá uma maior disponibilidade do do projeto. Sua análise relaciona as falhas
equipamento/máquina (NASCIF, KARDEC, potenciais e as deficiências de um
2001). determinado sistema. E a FMEA de serviço,
que deve ser utilizado para analisar serviços
O material que é gerado pelo FMEA tem o
identificando as falhas de forma que elas não
intuito de servir como uma ferramenta para
cheguem até o consumidor.
prognóstico das possíveis falhas e ainda
auxiliar o desenvolvimento/análise de projeto
de produtos, processos ou mesmo serviços.
2.5 APLICABILIDADE DA FMEA
Adentrando neste contexto, o formulário FMEA
é um documento de extrema importância para Os estudos sobre a FMEA se iniciaram com
análise de um produto/processo qualquer e sua aplicabilidade no setor espacial e na
após a sua análise é necessário que seja produção de energia nuclear no final da
revisado constantemente já que podem década de 60. Em 1977, a FMEA passou a ser
ocorrer alterações. Além do mais, mesmo que utilizada também pela indústria
não se tenha possíveis alterações é necessário automobilística, já que a FORD havia
que seja regulamentado, revisado e analisado incorporado a mesma junto ao seu conceito de
para que o foco de confrontar as falhas garantia de qualidade (CLARKE, 2005).
potenciais se mantenha ao longo do processo
Para Silva, Fonseca e Brito (2006), a FMEA
e ainda, se possa incorporar as falhas não
também pode ser empregada na construção
previstas (SOUZA; PUOZZO, 2006).
civil, como uma ferramenta importante na fase
Neste sentido, o FMEA se mostra como uma de planejamento de um edifício, assim como a
ferramenta de grande auxílio para as empresas sua aplicabilidade às fases de concepção,
que visam a melhora do processo produtivo projeto e execução da obra. Para eles, a FMEA
como um todo, por isso, a necessidade de se esta associada a técnicas de verificação
conhecer seus tipos e formas de integradas, capazes de identificar e analisar a
aplicabilidade. vida útil de componentes de edifícios e
aspectos relacionados com a análise do ciclo
de vida
2.4 OS TIPOS DE ANÁLISE DO MODO E
dos produtos utilizados na construção.
EFEITO DAS FALHAS- FMEA
Para Berens (1989) o uso da FMEA tem sido
A utilização dos diferentes tipos de FMEA se
difundido já que se tornou uma exigência de
relaciona de maneira direta com o tipo de
todas as montadoras de veículos, sendo a
complexidade da entidade a ser analisada
mesma referenciada na ISO 9000 como
(BERTSCHE, 2008). As suas etapas e a
manual complementar a ser consultado.
maneira de realização da análise ocorrem sem
distinção, ou seja, tanto a etapa do produto Toledo e Amaral (2006) consideram a FMEA
quanto as etapas do processo só se uma ferramenta que permite a analise de
diferenciam quanto ao objetivo. falhas potenciais através do preenchimento do
formulário respectivo a essa verificação, já que
Em decorrência disso, de acordo com Souza e
os campos da FMEA envolvem características
Puozzo (2006) a FMEA se classifica em dois
do processo, tipos de falhas, efeitos, causas e
tipos: a FMEA de produto, onde são
ações de controle recomendadas para o
consideradas as falhas que podem ocorrer
processo produtivo.
com determinado produto no que se refere às
especificações do projeto, ou seja, objetivo Helman e Andery (1995) consideram a FMEA
final do FMEA de produto é evitar a ocorrência como um método padronizado capaz de
de possíveis falhas nos produtos. E a FMEA de identificar e eliminar problemas potenciais de
processo, considera as falhas no planejamento forma sistemática e completa, pois sua
bem como na execução do processo, portanto, utilização é possível tanto na fabricação de
seu objetivo é evitar a ocorrência de falhas nos produtos quanto processos. De acordo com os
processos, baseando-se nas conformidades autores, a FMEA tem como principal objetivo
do produto com as especificações de identificar e hierarquizar as falhas criticas,
determinado projeto da empresa. apontando o potencial de risco de cada uma.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


122

A FMEA permite a elaboração de planos de Os dados coletados foram analisados e


ação para o bloqueio das falhas que são comparados com as teorias estudadas, para
detectadas. obtenção de uma solução adequada ao
problema diagnosticado.
As atividades que envolveram a pesquisa na
3– METODOLOGIA
empresa foram feitas na etapa da costura da
Este estudo envolve a análise dos resultados gáspea em calçados de segurança, ou seja, o
com foco na aplicação da FMEA de processos estudo ocorreu por meio da análise de uma
de forma a verificar a existência de falhas nos máquina de costura industrial que é
produtos de acordo com as especificações fundamental para o processo operacional da
definidas pela empresa em estudo. empresa. A máquina em análise abrange a
costura em couro e materiais sintéticos de
A pesquisa foi realizada através de um estudo
várias espessuras.
de caso. O estudo de caso tem como objetivo,
conseguir informações por meio da coleta e/ou
levantamento de dados referente ao que está
3.1 SOBRE O MATERIAL QUE INCORPORA O
sendo pesquisado. Consiste na observação de
FMEA
fatos tal como ocorrem espontaneamente
(LAKATOS e MARCONI, 2007, p. 125). Nesta subseção será tratado sobre o material
que incorpora o FMEA, bem como da
Gil, Licht e Oliva (2005), considera que o
importância do formulário que apresenta as
estudo de caso é uma forma de escolha, de
informações das análises feitas sobre os
maneira recorrente que parte de uma
modos de falhas e seus efeitos para que,
alternativa que envolve pesquisas como a do
posteriormente, sejam tomadas ações que
presente estudo e fenômenos que são voltados
sofrerão certa reavaliação e documentação.
para a educação. Por meio do estudo de caso
se consegue as informações necessárias para O material que é gerado pelo FMEA tem o
futuras discussões e contribuições importantes intuito de servir como uma ferramenta para
para o desenvolvimento científico. prognóstico das possíveis falhas e ainda
auxiliar o desenvolvimento/análise de projeto
Quando se utiliza o estudo de caso no
de produtos, processos ou mesmo serviços
desenvolvimento de uma pesquisa, deve-se
(SOUZA & PUOZZO, 2006).
entender que se trata de uma pesquisa
empírica abrangente, com procedimentos Adentrando neste contexto, o formulário FMEA
preestabelecidos, que investiga um ou é um documento de extrema importância para
múltiplos fenômenos contemporâneos no análise de um produto/processo qualquer e
contexto da vida real, especialmente quando após a sua análise é necessário que seja
os limites entre os fenômenos e seu contexto revisado constantemente, pois as alterações
não estão claramente definidos (MARCONI & podem ocorrer. Além do mais, mesmo que não
LAKATOS, 2010, p. 185). se tenha possíveis alterações é necessário que
seja regulamentado, revisado e analisado para
Sobre o experimento, Babbie (1999) define
que o foco de confrontar as falhas potenciais
que é a tomada de “uma ação” e depois a
se mantenha ao longo do processo e ainda, se
observação das consequências da mesma. O
possa incorporar as falhas não previstas
experimento requer a manipulação intencional
(SOUZA & PUOZZO, 2006).
de uma ação para analisar seus possíveis
efeitos e a aceitação particular (sentido No quadro 02, apresenta-se as prerrogativas
científico). que o FMEA promove.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


123

Quadro 02 – Prerrogativas para as Organizações


Uma forma sistemática de se catalogar informações sobre as falhas dos
F
produtos/processos.

M Melhor conhecimento dos problemas nos produtos/processos.

Ações de melhoria no projeto do produto/processo, baseado em dados e


E devidamente monitoradas (melhoria contínua), diminuição de custos por meio da
prevenção de ocorrência de falhas.

O benefício de incorporar dentro da organização a atitude de prevenção de falhas,


A a atitude de cooperação e trabalho em equipe e a preocupação com a satisfação
dos clientes.
Fonte: Souza e Puozzo (2006)

Na figura 1, apresentar-se-á o modelo de


formulário do FMEA, de uma maneira ampla.

Figura 01 – Formulário Análise dos Modos de Falha e seus Efeitos

Fonte: Formulário FMEA adaptado da SAE (2000).

Os leiautes que são agregados aos formulários funcionários e está localizada na região do
são desenvolvidos de acordo com o critério de Campo das Vertentes.
cada organização, tendo ela a noção do que
A empresa não possui nenhum sistema de
deve ser apresentado de mais importante para
planejamento padrão da manutenção
se obter as informações necessárias inclusive,
preventiva. As tentativas de prevenções de
para a sua manutenção.
falhas que ocorreram foram desorganizadas e
baseadas no conhecimento empírico da
equipe operacional. Dessa maneira, grande
parte das manutenções são identificadas e
4 - ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS solicitadas pelo próprio costureiro, na hora que
RESULTADOS o equipamento falha (manutenção corretiva) ou
quando esta for detectada no calçado já no
A empresa, objeto desse estudo, é uma
final do processo pelos inspetores de
empresa de grande porte fabricante de
qualidade, fato esse que acaba
calçados específicos para a área de
comprometendo o lote que foi produzido.
segurança, conta com cerca de 1200

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


124

Ao se realizar o acompanhamento da Neste contexto, torna-se evidente que a


manutenção corretiva, percebeu-se que a empresa necessita de uma proposta de um
cidade onde a empresa está localizada não plano de manutenção centrado em
conta com profissionais preparados para a confiabilidade e, por essa razão, justifica-se a
realização da manutenção. Esses profissionais adoção da técnica FMEA.
são contratados em cidades maiores,
Assim, no início da pesquisa, definiu-se qual o
principalmente em Belo Horizonte, Juiz de Fora
processo que seria analisado e foi escolhido a
e São Paulo.
máquina de costura da gáspea (a parte de
Vale lembrar ao leitor novamente que, a FMEA cima da frente do calçado, que vai do início do
tem como objetivo principal a identificação, peito do pé até o bico), avaliando-se
delimitação e descrição das não- detalhadamente cada modo de falha ocorrido
conformidades (modo da falha) gerado pelo para a máquina de costura da gáspea.
processo e seus efeitos e causas. O que se
A segunda etapa do experimento focou na
busca é a prevenção para poder diminuir ou
definição da equipe que estaria envolvida no
eliminar completamente as falhas dos
processo e optou-se pela formação da mesma
equipamentos.
envolvendo os colaboradores que atuavam
No caso da empresa pesquisada, a maioria diretamente na operacionalização das
das falhas em que é solicitada a presença dos máquinas e o supervisor de produção
mecânicos está relacionada ao fio de linha responsável por aquela etapa de produção. Os
arrebentado cujo efeito é o pesponto começar colaboradores receberam treinamento
a saltar levando, assim, a retrabalhos da detalhando o que seria a FMEA, sua
costura impossibilitando a união do couro, importância, sua aplicabilidade e os benefícios
deixando o calçado com defeitos de da sua utilização para o setor industrial.
fabricação. As causas para que o fio de linha
No terceiro momento, como pode ser
arrebente, na maioria das vezes, são devido ao
visualizado na tabela 1, foi possível levantar,
desgaste da lançadeira e a agulha com
além do item verificação da gáspea, a principal
rebarbas. Quando não há mais possibilidade
falha potencial relacionada às maquinas de
de recuperação pela equipe de manutenção é
costura da gáspea. Com a identificação da
feita a substituição por peças novas.
falha, foi possível levantar seu efeito e causa.

Tabela 1 – FMEA Sintetizada da Máquina de Costura da Gáspea.


Fmea - Análise Dos Modos E Efeitos De Falha

Item / Modo de falha Meios de G O D Ações


Efeito Causa NPR
Função potencial detecção (Gravidade) (Ocorrência) (Detecção) recomendadas
Revisão
periódica da
Agulha com Manutenção
4 10 9 360 máquina,
rebarba corretiva
regulagem e
Máquina O
vida
de Fios de linha pesponto
Revisão de 3
costura Arrebentados. começa a
em 3 dias da
industrial soltar
Lançadeira Manutenção lançadeira.
5 3 10 150
desgastada corretiva Lubrificação
diária da
lançadeira.
Fonte: Elaborado pelos autores.
Na análise da tabela 1, é possível apresentar além dos que já são previstos em norma,
os critérios para adoção dos índices de apresentam severidade grave. A FMEA -
gravidade (G), ocorrência (O) e detecção (D). Referência Manual (AIAG, 2001) retrata que
Foi utilizado uma escala de 1 a 10 para NPR (índice resultado do produto do índice
hierarquizar os itens analisados. Os estudos gravidade, de ocorrência e detecção) acima
foram fundamentados nos índices descritos na do índice 100, necessita-se de ações
revisão da literatura, apoiando-se nas boas corretivas no projeto cujo objetivo é minimizar
práticas do QS-9000. Assim, o FMEA de a gravidade da falha que foi identificada,
processo demonstrou que os modos de falha, conforme apresentados nas tabelas 02 e 03

Tabela 02 – Escala para os itens: Ocorrência de Causa (O) e Gravidade do Efeito (G)

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


125

Nunca Raramente Muito Baixa Moderada Moderada Moderada Alta Muito Sempre
baixa para baixa para alta Alta
1 2 3 4 5 6 7 8 9 10
Fonte: Elaborado pelos autores.

Tabela 03 – Escala para o item: Detecção de Falha (D)


Nunca Raramente Muito Baixa Moderada Moderada Moderad Alta Muito Sempre
baixa para baixa a para Alta
alta
10 9 8 7 6 5 4 3 2 1
Fonte: Elaborado pelos autores.
Ainda, é preciso ressaltar que procurou-se redução consumo de peças de substituição e
identificar os diversos modos de falha que estabelecer programas de manutenção na
incorporam uma maior crítica ao sistema. indústria. Sua aplicação se deu em uma
Assim sendo, num primeiro momento empresa de grande porte, fabricante de
observou-se uma ocorrência menor no modo calçados de segurança no estado de Minas
de falha que retrata a quebra da lançadeira. Gerais.
Em segundo, o que se refere ao fio da linha
Como pode ser observado no contexto do
arrebentado, que aparece com uma
trabalho, os autores identificaram que já foram
ocorrência elevada.
realizados outros estudos no que se refere a
É importante salientar que a adoção da FMEA implementação da FMEA. Estudos estes que
para a empresa pesquisada pode ser de auxiliam na redução de custos da empresa,
grande valia, uma vez que a troca de peças redução de gastos com a troca de peças que
pode gerar diversos problemas para a poderiam ser evitadas pelo uso dessa
organização. Se a empresa não possuir a peça ferramenta que tem muito a contribuir para a
em estoque será necessário, por exemplo, gestão eficiente do setor produtivo das
aguardar a reposição da mesma, o que empresas.
acarretará numa parada na produção. Tais
Realizar esse experimento, envolveu
fatores podem prejudicar a imagem da
colaboradores e supervisores da empresa
empresa frente a seus clientes, já que pedidos
pesquisada.
deixarão de ser entregues.
Os principais obstáculos para a realização
Mas, deve-se destacar também que a
desse estudo foram o curto período de tempo
implantação de qualquer ferramenta depende
para o treinamento dos colaboradores
de um bom planejamento e das estratégias
envolvidos com o estudo, em relação à própria
que são adotadas por qualquer empresa.
FMEA e a falta de profissionais lotados na
Antes de mais nada, é preciso definir o tipo
própria empresa responsáveis pelas
ideal de manutenção para cada equipamento
manutenções dos equipamentos, para
que será instalado na indústria, o treinamento
disponibilizar maiores informações sobre as
constante dos colaboradores para o melhor
dificuldades enfrentadas no dia a dia.
uso desses equipamentos e a implantação de
ações que devem ser seguidas em caso de O estudo embasou-se na aplicação da FMEA
detecção de problemas, como a parada de processo a partir da análise das etapas
imediata da produção para evitar o concluintes de um calçado de segurança da
comprometimento de todo um lote que será empresa estudada. O foco específico do
fabricado. Outra fase importante é a experimento foi a fase de costura da gáspea
documentação de todo processo. que é um dos fatores primordiais para o setor
operacional da organização.
Desta forma, por meio dos resultados, é
CONSIDERAÇÕES FINAIS
possível salientar que a utilização da FMEA
Este estudo teve como objetivo a aplicação da implica na redução do valor do NPR (índice
ferramenta FMEA (Análise do Modo e Efeito resultado do produto do índice gravidade, de
das Falhas) para analisar e identificar os ocorrência e detecção), assim como conduz à
principais modos de falha em equipamentos mitigação dos riscos de eventuais falhas
de costura industriais de uma empresa humanas ou mesmo de controles de
mineira, já que a FMEA busca contribuir para a processos. A FMEA resulta em modos de falha

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


126

priorizados, bem como existe a indicação dos Ao final, considera-se que o trabalho alcançou
meios que visam a detecção e prevenção seu objetivo ao mostrar como a utilização da
destes modos de falhas. FMEA é importante na gestão de processos
produtivos buscando evitar as falhas
Os pesquisadores destacam, assim como
ocasionadas por peças defeituosas. O
autores da área, que para maior efetividade da
resultado gera novas possibilidades de
utilização da ferramenta, o ideal é que se tenha
pesquisa na área, principalmente, no que se
uma equipe multidisciplinar em condições de
refere a aplicação de outros tipos da FMEA.
avaliar todos os fatores que envolvem as
falhas.

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[14] Nogueira, C. F.; Guimarães, L. M.; Silva,
M. D. B. da. Manutenção Industrial: implementação

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


127

Capítulo 12
APLICAÇÃO DA FERRAMENTA FMEA EM UM HOSPITAL
PRIVADO
Lucas Gomes Pereira
Luísa Gomes Ferreira
Débora Rosa Nascimento

Resumo: A manutenção é parte importante nos processos das empresas,


principalmente na área hospitalar, em que muito dos equipamentos são caros e
requerem atenção especial. Este artigo descreve o processo de manutenção e aplica
uma das ferramentas da metodologia de manutenção centrada em confiabilidade
(MCC), a análise de modos de falha e efeitos (FMEA), em equipamentos de um
hospital do setor privado. Foram feitas entrevistas com o técnico em eletroeletrônica
da empresa terceirizada que presta serviços de manutenção e coleta de dados
através das ordens de serviço do ano de 2016, pelos quais, calculou-se tempo médio
entre reparos e o índice de ocorrência da falha. Constatou-se que é muito frequente
a manutenção corretiva nesse equipamento devido ao mau uso por parte dos
profissionais. Recomendou-se o treinamento intensificado, com ênfase nos
benefícios da utilização devida do equipamento, além de advertências e aplicação
de penalidades ao funcionário, caso a falha for reincidente pelo mesmo motivo.
Ainda, verificou-se a necessidade de organização do setor de manutenção, a fim de
se evitar acidentes do trabalho.

Palavras-chave: Manutenção; Falhas; Confiabilidade; Hospital.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


128

1. INTRODUÇÃO de manutenção dos equipamentos


hospitalares. Foi feita, também, uma coleta de
Dentre os métodos que visam melhorias do
dados das ordens de serviços solicitando
desempenho da manutenção, destaca-se a
manutenção corretiva do eletrocardiógrafo do
manutenção centrada em confiabilidade
período de março a novembro de 2016, por
(MCC) e umas de suas principais ferramentas
meio deles, calculou-se o índice de ocorrência
é a análise de modos de falha e efeitos (FMEA,
de falhas, além disso, o tempo médio de
em inglês, Failure Mode and Effects Analysis).
reparo.
A avaliação probabilística do risco de falha de
um sistema ou produto caracteriza o aspecto A seção 2 deste artigo apresenta alguns
fundamental da análise de confiabilidade conceitos válidos para a compreensão da
conduzida pela MCC (LAFRAIA, 2001). A sua pesquisa. Na seção 3, a metodologia
ferramenta FMEA permite verificar como os empregada e a definição das variáveis são
componentes de um equipamento ou sistema explanadas. A quarta seção apresenta as
podem falhar, determinando os efeitos informações relativas aos processos de
prováveis e certos, além de estabelecer manutenção da empresa escolhida para o
medidas que possam assegurar o estudo. Enquanto na seção 5 apresentam-se
funcionamento do item de modo satisfatório. as conclusões e recomendações para futuros
Um dos objetivos se resume em revisar trabalhos.
sistematicamente os modos de falha de um
equipamento ou sistema, favorecendo a
garantia de danos mínimos ao sistema 2. REVISÃO BIBLIOGRÁFICA
(TAVARES, 2010).
2.1 MANUTENÇÃO E MANTENABILIDADE
O trabalho se orienta pela problemática:
Segundo Lafraia (2001), a manutenção pode
“Como são realizados procedimentos de
ser descrita como um conjunto de ações que
manutenção em um hospital?”. O objetivo é
visam manter ou recuperar um item ao seu
aplicar a ferramenta FMEA na análise de um
estado de operação desejável. Slack,
equipamento hospitalar. Mais precisamente,
Chambers e Johnston (2009) a definem como
descrever e analisar os processos de
o modo o qual as empresas tentam evitar
manutenção atual da empresa; identificar um
falhas preservando suas instalações físicas.
tipo de equipamento que passa por constantes
Corrêa & Corrêa (2012) a definem como
manutenções corretivas; propor melhorias
atividades que buscam manter o bom
para o processo de manutenção e propor
funcionamento do recurso físico ou propiciar a
melhorias quanto à utilização do equipamento
sua prontidão ao uso. Os benefícios da
e questões voltadas para a segurança do
manutenção se resumem em: confiabilidade
trabalho.
aumentada, segurança e qualidade em
A justificativa deste trabalho deve-se ao fato de melhores níveis; custos de operação mais
manutenções corretivas, na maioria das vezes, baixos; maior longevidade e valor residual do
não ser a melhor opção. Por isso deve-se equipamento.
intervir nos processos de forma a minimizar
O significado desse termo pode se confundir
esse tipo de reparação nos equipamentos da
com ‘mantenabilidade’, que se define como a
empresa. Além disso, a manutenção constitui
probabilidade do equipamento voltar às
parte importante dos processos da empresa.
operações após passar por processos de
Justifica-se também na periculosidade que
manutenção devidamente realizados. A
apresenta o setor hospitalar. Em ambientes
facilidade de manutenção, levando em
desse tipo, os riscos e falhas devem ser
consideração o tempo e os custos para isso,
evitados, a fim de garantir bons níveis de
além das funções que o item desempenha,
segurança.
está estritamente ligados a esse conceito
Para o alcance dos objetivos, foi realizada uma (LAFRAIA, 2001). Fogliatto & Ribeiro (2009) e
revisão bibliográfica sobre o que é Lafraia (2001) afirmam que a mantenabilidade
manutenção e mantenabilidade, é importante para a definição da
confiabilidade, manutenção centrada em disponibilidade de uma unidade, sendo seus
confiabilidade e sua principal ferramenta, objetivos descritos em: aperfeiçoar tempos e
análise de modos de falha e efeitos. Realizou- custos de manutenção ainda na concepção de
se o contato com um hospital privado e foi um projeto; estimar tempos para a
entrevistado o técnico em eletroeletrônica, de manutenção, tendo já em mente, a
uma empresa terceirizada que realiza o serviço disponibilidade requerida do item e; estimar os

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


129

recursos necessários para que a manutenção colaboração das demais funções da


possa ser executada. Dentre as variáveis a organização.
serem determinadas nas atividades da
Já a manutenção corretiva é realizada após a
mantenabilidade estão o tempo médio entre
falha. É deixar as instalações operarem até o
manutenções; tempo médio entre
seu momento de quebra. Ela é empregada nas
substituições; tempo médio para manutenção;
situações em que as falhas não justificam os
horas-homem e custos de manutenção e;
custos de prevenção e quando as mesmas não
horas de operação.
são previsíveis. É viável quando os efeitos da
Lafraia (2001) salienta a diversidade de falha não são severos, nem frequentes e o
situações quanto à facilidade de identificação equipamento/máquina é de fácil conserto. Ela
e reparação da falha: há casos em que o é focada na mitigação das consequências, já
processo de identificação de uma falha é que não há prevenção. Em razão disso, a
difícil, porém a sua reparação não demanda frequência da reparação do equipamento é
tanto tempo ou esforços; já outros, são difíceis determinada por sua confiabilidade. Para a
em reparação, mas bem fáceis de serem eficácia desse tipo de manutenção deve haver
identificados. Para a estimativa do tempo de a padronização e descrição por etapas daquilo
reparo, deve-se considerar que vários fatores que deve se fazer ao falhar o equipamento,
podem influenciar como, por exemplo, o nível treinamento e organização para tal situação
de treinamento e experiência do mantenedor. (CORRÊA C.; CORRÊA H., 2012; LAFRAIA,
Na prática, as atividades de manutenção 2001; SLACK; CHAMBERS; JOHNSTON,
possuem três abordagens: preditiva, corretiva 2009).
e preventiva.
A maioria dos processos produtivos mesclam
A manutenção preditiva é realizada conforme as três abordagens de manutenção. Slack,
a necessidade, no objetivo de antecipação à Chambers e Johnston (2012) ilustram essa
ocorrência de falhas. Ela é aplicada quando a combinação num automóvel: o óleo do motor é
parada das máquinas e equipamentos para constantemente inspecionado (manutenção
manutenção é muito dispendiosa, tanto pelo preventiva); lâmpadas e fusíveis são trocados
custo da reparação quanto pelo interropimento somente após a falha (manutenção corretiva)
da produção. Caso existam meios de detecção e; pneus são substituídos quando os seus
da falha, por exemplo, através da vibração ou sulcos já não estão tão profundos,
rotação do eixo, esse tipo de manutenção é demonstrando que o pneu está ‘careca’
viável e eficaz. Nesse caso, o processo de (manutenção preditiva). Os autores afirmam
monitoramento da operação da máquina deve que deve haver um equilíbrio entre as
ser contínuo (CORRÊA C.; CORRÊA H., 2012; manutenções corretiva e preventiva. Eles
LAFRAIA, 2001). afirmam que, se há pouca presença de
manutenção preventiva, o custo, ao mesmo
Corrêa & Corrêa (2012), Lafraia (2001), Slack,
tempo em que reduzirá, aumentará devido à
Chambers e Johnston (2009) descrevem que
grande possibilidade de haver manutenções
manutenção preventiva tem por objetivo
corretivas, e vice-versa.
eliminar ou reduzir as probabilidades de
ocorrência de falhas com uma periodicidade, Como já expresso, a manutenção preventiva
que pode ser expressa em termos de tempo ou pode prejudicar a produção se as intervenções
ciclos de operação da máquina. É essencial forem muito frequentes e indevidas. Lafraia
sempre que as consequências das falhas (2001) declara que quanto mais intervenções
forem graves e não totalmente aleatórias, indevidas nas máquinas, menor será o seu
porém pode ser empregada também quando índice de confiabilidade. Porém Slack,
os efeitos da falha não são tão catastróficos, Chambers e Johnston (2012) afirmam que, em
como exemplo, a pintura de um edificio. Ela muitas operações, a manutenção pode ser
pode ser efetuada por meio de inspeções, feita pelo próprio operador e em momentos
controles, lubrificação, calibração, detecção convenientes dos turnos de produção. Essa é
de defeitos, entre outros. Os autores afirmam uma tática boa de ser aplicada, segundo
que, para a prevenção ser eficaz e eficiente, Krajewski, Ritzman e Malhotra (2009). Torna os
deve haver o planejamento das ações; trabalhadores responsáveis pela manutenção
acompanhamento dos índices de e despertam o sentimento de orgulho pelo bom
desempenho; o registro e análise do histórico desempenho dos seus maquinários. Porém,
de manutenções; atribuição de essa manutenção deve se restringir a serviços
responsabilidades; além da participação e gerais, sendo necessário especialistas

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


130

treinados, para o caso de intervenções em Por último, devem-se definir as condições


maior nível de complexidade. ambientais de uso do item. A confiabilidade
pode ser comprometida, se a operação
acontecer sob forte incidência solar, frio ou
2.2 CONFIABILIDADE calor intensos, umidade excessiva, presença
de poeira, etc. (FOGLIATTO; RIBEIRO, 2009;
Lafraia (2001, p. 2) descreve como
LAFRAIA, 2001). Por exemplo, muitos discos
confiabilidade, “a probabilidade de que um
de CD’s não suportam temperatura acima de
componente ou sistema funcionando dentro
55°C e nem umidade acima de 60g/m³.
dos limites especificados de projeto, não falhe
durante o período de tempo previsto para a sua Confiabilidade, muitas vezes, se confunde com
vida [...]”, sob determinadas condições qualidade. A confiabilidade se relaciona com o
ambientais. tempo, já a qualidade é concebida de forma
estática. Por exemplo, dois transistores podem
Para essa definição, devem-se considerar
ter qualidades semelhantes e com aplicações
alguns aspectos. Fogliatto & Ribeiro (2009)
em iguais aparelhos, porém um pode possuir
declaram que a confiabilidade é uma
maior confiabilidade, se o mesmo for utilizado
probabilidade. O seu valor varia de 0 a 1. É
em situações menos severas (FOGLIATTO;
importante definir também o desempenho
RIBEIRO, 2009). A confiabilidade também está
adequado do sistema. Lafraia (2001) afirma
associada aos termos de disponibilidade,
que as especificações são definidas em
mantenabilidade, segurança e confiança.
detalhes. A confiabilidade fica alterada, se
essas especificações não forem definidas. Por Vale ressaltar que as técnicas da
exemplo, um mixer não terá sucesso no confiabilidade podem ser aplicadas nas
desempenho, se for colocado para sovar atividades de projeto, contribuindo para a
massas pesadas de pães. Dessa forma, o redução da complexidade; proporcionando
sistema interno se sobrecarregará, redundância para assegurar tolerância à falha;
acarretando a queima dos dispositivos pelo eliminando dos fatores de tensão; qualificando
grande esforço acometido. Lafraia (2001) e revisando os projetos e analisando as falhas.
também afirma que, a precisão da faixa de Aplicadas nas atividades de produção,
exigência do equipamento deve ser controlando os materiais, métodos e
consideravelmente ampla. Quanto mais alterações, além dos métodos de trabalho e
‘apertada’, estreita for essa faixa, mais especificações. Por último, aplicadas nas
facilmente o sistema poderá sair dela, atividades de uso, com as instruções de
configurando falha. Além disso, Fogliatto & utilização e manutenção, análise de falhas em
Ribeiro (2009) dizem que deve ser serviço e de reposição e de apoio logístico.
determinado o tipo de uso do equipamento: se Portanto, a confiabilidade é, em si, uma
industrial ou doméstico. Ele afirma que os ferramenta útil na tomada de decisões mais
produtos podem até apresentar as mesmas coerentes sobre os processos de intervenção
funções e finalidades, porém suas cargas de nas máquinas e nos equipamentos
utilização serão diferentes. (FOGLIATTO; RIBEIRO, 2009; LAFRAIA, 2001).
É necessário definir o tempo de operação entre A análise da confiabilidade, segundo Lafraia
falhas. Segundo Fogliatto & Ribeiro (2009), as (2001) encontra diversos campos de aplicação
unidades de tempo e os modelos que como o controle de qualidade; sistemas
descrevem os tempos até falha devem ser eletroenergéticos, de telecomunicações;
estabelecidos. O conceito de tempo pode ser centrais nucleares; sistemas aeroviários e
interpretado de forma literal ou ser definido, mecânicos; sistemas computacionais e de
quando útil, em termos de número de ciclos ou defesa, além do comportamento humano. Seus
de quilometragem percorrida. Além disso, o benefícios incluem: o aumento dos lucros
tempo pode não ser concebido de forma através de menos paradas não programadas,
contínua e sim com uma soma dos períodos de menores custos de manutenção, operação e
acionamento. Como é o caso do tempo até apoio, menores possibilidades de acidentes;
falha de uma lâmpada. O autor ainda afirma aumento na produção mais lucrativa;
que confiabilidade deve ser sempre associado cumprimento com a legislação ambiental, de
a um período. Visto que, segundo Lafraia segurança e higiene; o registro de histórico de
(2001, p. 3), “[...] o tempo de uso de um falhas dos equipamentos, favorecendo um
produto reduz a sua confiabilidade, pois se ele estudo detalhado de seu comportamento,
fica um tempo maior em funcionamento, determinação de componentes críticos e entre
maiores chances de falha terão”.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


131

muitos outros benefícios que alcançam (2001) descreve a tendência da substituição


também outras áreas. da manutenção tradicional pela MCC, sendo
que na primeira, todos as falhas são ruins, e
todas devem ser prevenidas. Portanto sob
2.3 MANUTENÇÃO CENTRADA EM nova ótica da manutenção, conclui-se que não
CONFIABILIDADE (MCC) E FMEA há como evitar com que aconteçam todas as
falhas e mesmo que isso fosse possível, seria
Fogliatto & Ribeiro (2009, p. 217) descrevem a
muito dispendioso para as organizações. O
manutenção centrada em confiabilidade
foco principal da MCC é analisar as falhas em
(MCC) como “um programa que reúne várias
seu aspecto funcional e não mais em suas
técnicas de engenharia para assegurar que os
características técnicas. O Quadro 1 compara
equipamentos de uma planta fabril continuarão
a manutenção tradicional com os aspectos da
realizando as funções especificadas”. Lafraia
MCC.

QUADRO 1 - Comparativo entre manutenção tradicional e a MCC. Fonte: Adaptado de Siqueira


(2012).
Característica Manutenção Tradicional MCC
Foco Equipamento Função
Objetivo Manter o equipamento Preservar a função
Atuação Componente Sistema
Atividades O que pode ser feito O que deve ser feito
Dados Pouca ênfase Muita ênfase
Documentação Reduzida Obrigatória e sistemática
Metodologia Empírica Estruturada
Combate Deterioração do equipamento Consequências das falhas
Normalização Não Sim
Priorização Inexistente Por função

Para que a MCC surta efeitos positivos deve integridade do produto, proporcionar a rapidez
haver amplo envolvimento de toda a equipe no transporte, entre outros. As ações na MCC
técnica como operadores, engenheiros e devem direcionar para cada uma delas a
mantenedores; estudo sobre as atenção específica. (FOGLIATTO & RIBEIRO,
consequências das falhas, base para a 2009; SIQUEIRA, 2012).
elaboração das atividades de manutenção;
Outro ponto importante a ser tratado na MCC é
análise das falhas também em seus aspectos
identificação de como o equipamento pode
de segurança, meio ambiente e custos; foco
falhar. Analisar os modos de falha, que são
nas tarefas preditivas e preventivas; além do
eventos passíveis de ocorrer. Podem ser
combate a falhas ocultas, que comprometem a
analisados por eventos que já aconteceram no
confiabilidade do sistema (FOGLIATTO &
passado ou pela consideração da equipe
RIBEIRO, 2009).
técnica quanto à probabilidade de ocorrência
Na MCC é importante definir as funções e no futuro. Devem-se analisar as causas dessas
padrões de desempenho. É necessário ter em falhas de forma a direcionar ações para a
mente, aquilo que o equipamento realiza de resolução do problema em sua fonte e não em
forma bem especificada. Devem ser seus sintomas. Vale ressaltar que os
identificadas as funções primárias e fabricantes do equipamento são importantes
secundárias. Sendo as funções primárias, a fontes de informação (FOGLIATTO; RIBEIRO,
principal função para qual o equipamento foi 2009; SIQUEIRA, 2012).
concebido, por exemplo, uma esteira rolante
Além disso, é relevante analisar as
foi concebida a fim de mover os objetos para
consequências da cada falha, caso elas vêm a
determinado local. As funções secundárias
ocorrer. Fogliatto & Ribeiro (2009) afirmam que
desse equipamento seriam proteger a

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


132

a MCC aborda, nesse sentido, as Os objetivos da ferramenta se resumem em:


consequências em si, ou seja, danos materiais, revisar sistematicamente os modos de falha de
humanas e/ou ambientais; o tempo de parada um equipamento ou sistema, favorecendo a
no caso da falha; o que acontece no momento garantia de danos mínimos ao sistema;
da falha e o que pode ser feito para sua determinar os efeitos da falha do componente
reparação. Deve ser contemplado também avaliado sobre os outros itens; determinar os
pela MCC, a priorização dessas falhas, componentes de falhas críticas, além disso;
considerando o impacto delas. Obviamente, determinar os responsáveis para efetuar as
devem ser priorizadas aquelas que causarem manutenções corretivas ou preventivas
danos humanos em qualquer intensidade. (TAVARES, 2010).
Por fim, deve se considerar a questão de como A planilha do FMEA, segundo Nascimento
se pode prevenir ou impedir a falha. E se não (2016), deve conter os seguintes itens:
houver meios aplicáveis que sejam viáveis em
Item/função: onde é especificado o
todos os aspectos, o que deve ser feito?
subsistema, componente, conjunto ou funções
Fogliatto & Ribeiro (2009) prescrevem a
que serão analisados;
utilização de redundâncias e alarmes que
antecipem a falha potencial. Siqueira (2012) Modo potencial/funcional de falhas: é descrito
ainda descreve outra questão a ser analisada a forma pelo qual pode falhar o item dentro do
na MCC: quais as frequências ideais das que se exige dele;
tarefas? O autor afirma que para cada questão
Efeitos da falha: são as consequências da
levantada, a MCC a trata com uma ferramenta
falha percebidas pelo usuário;
ou metodologia.
Severidade (S): avalia o teor dos efeitos com
Lafraia (2001, p. 240) descreve como
base em uma escala que vai de 1 a 10, sendo
benefícios da MCC:
1, uma consequência de falha mínima severa e
Redução na carga de trabalho de MP 10, uma de alta gravidade;
[manutenção preventiva]. Aumento da
Causas: descreve os mecanismos pelo qual a
disponibilidade dos sistemas. Aumento da vida
falha ocorre;
útil dos equipamentos. Redução do nº de
peças sobressalentes. Especialização de Ocorrência (O): avalia a probabilidade de
pessoal em planejamento de manutenção. ocorrer a causa por base em uma escala de 1
Rastreamento das decisões. Motivação para o a 10, sendo 1, de raro acontecimento e 10,
trabalho em equipe. muito frequente;
As principais indústrias que utilizam a MCC Controle de detecção: descreve a forma pelo
são: aeronáutica civil e militar; laboratórios qual as falhas são visualizadas, prevenidas,
farmacêuticos; marinha de guerra; indústria de percebidas, controladas;
alimentos; metalúrgicas; montadoras de
Detecção (D): Estimativa do quão fácil,
automóveis, usinas siderúrgicas e entre outras
perceptível é a causa ou a falha. Baseada
(LAFRAIA, 2001).
numa escala de 1 a 10, sendo 1, muito
Duas ferramentas são muito utilizadas e perceptível e 10, muito remota;
servem como apoio na aplicação do MCC. São
Risco (R): é calculado pela multiplicação dos
elas a análise de modos de falha e efeito (Amfe
três índices supracitados. Seu valor máximo é
ou FMEA) e a análise de árvore de falhas (AAF
1000. E por fim;
ou FTA, em inglês, failure tree analysis). O
FMEA, sigla mais comum, segundo Tavares Ação recomendada: Atividades propostas
(2010), permite verificar como os componentes para a redução dos índices, de forma a mitigar
de um equipamento ou sistema podem falhar, o risco.
determinando os efeitos prováveis e certos,
O Quadro 2 ilustra uma proposta de cabeçalho
além de estabelecer medidas que possam
de planilha do FMEA
assegurar o funcionamento do item de modo
satisfatório.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


133

.
QUADRO 2 - Cabeçalho sugerido para aplicação do FMEA
Modo de Ação
Item/Função Efeito S Causa O Controle/Detecção D R
falha recomendada

Fonte: Adaptado de Nascimento (2016).

Tavares (2010) descreve os benefícios e parâmetros e indicadores como: custo do


resultados da aplicação do FMEA: aumento da programa de preventiva; custo com corretiva;
confiabilidade de equipamentos e sistemas, disponibilidade de equipamentos; tempo
pois são tratados componentes críticos; médio entre falhas; tempo médio de reparo;
relacionamento das contramedidas e formas erro usuário; treinamento homem/hora e
de detecção precoce das falhas, sendo muito diversos outros. Atualmente mantém 2
úteis em casos emergenciais de processos ou funcionários no hospital, um técnico em
utilidades; incluindo também a grande eletroeletrônica e uma supervisora
utilidade na associação das ações de administrativa e já presta serviços ao hospital
manutenção e prevenção de perdas. há 5 anos.
Foi realizada uma entrevista semiestruturada e
coleta de dados relacionados nas ordens de
3. METODOLOGIA
serviços quanto aos eletrocardiógrafos do
A presente pesquisa teve abordagem hospital dos meses de março a novembro do
qualitativa e quantitativa. Izidoro (2015, p. 53) ano de 2016. As coletas e entrevistas
descreve que a pesquisa qualitativa aconteceram dos dias 2 ao 8 de dezembro de
“proporciona melhor visão e compreensão do 2016, onde também foram observados a
problema, explorando-o com poucas ideias estrutura do local de manutenção, treinamento
preconcebidas sobre o resultado da e aptidão dos profissionais e princípios de
investigação”. Já a pesquisa quantitativa, segurança aplicados no setor de manutenção.
procura quantificar os dados, utilizando-se de Sampieri, Collado e Lucio (2006) descrevem
ferramentas e análises estatísticas como entrevista semiestruturada como um
(RODRIGUES, 2015). guia de assuntos ou questões em que o
pesquisador é livre para tomar as direções que
O trabalho possui caráter descritivo, pois tem
achar necessário.
por propósito a descrição de situações e de
suas características e os dados são coletados
de forma sistemática (IZIDORO, 2015). O
4. DESCRIÇÃO, ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO
método de pesquisa empregado foi o estudo
DE DADOS
de caso, que conforme Macedo et al. (2015) se
trata de uma investigação que busca A escolha do equipamento foi baseada nas
compreender, descrever ou realizar a informações prestadas pelo técnico em
exploração de acontecimentos e contextos. eletroeletrônica. Ele se queixou do constante
rompimento do cabo paciente dos
O presente estudo foi realizado em um hospital
eletrocardiógrafos do hospital. São oito
privado localizado na cidade de Governador
eletrocardiógrafos: 3 no pronto-atendimento; 2
Valadares, Minas Gerais. A manutenção dos
na unidade de terapia intensiva (UTI) e 3 nos
equipamentos hospitalares desse
postos de trabalho de enfermeiros e técnicos.
estabelecimento é terceirizada, prestada por
O eletrocardiógrafo é fica incumbido de
uma empresa especializada no ramo que tem
registrar em papel térmico, os impulsos
sua sede em Belo Horizonte. Além disso, a
elétricos do coração amplificados na finalidade
empresa terceirizada gerencia os processos
de verificar a existência de problemas
de equipamentos em consonância com as
cardíacos, como a arritmia.
normas estabelecidas pela Anvisa, Agência
Nacional de Vigilância Sanitária; assessora os O equipamento é composto por 1 cabo
processos hospitalares na finalidade da paciente com 5 ramificações: verde, vermelha,
acreditação do estabelecimento; oferece amarela, preta e azul; 1 painel de operação,
treinamentos e gerencia os riscos relacionados constando as funções do aparelho; 1 cabo de
aos equipamentos. Ela assim faz através de força plugável; 4 clips que são afixados no

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


134

paciente, além de uma ‘perinha’ encaixada no baixo, médio e alto. O eletrocardiógrafo é


pino azul do cabo paciente para a verificação classificado como classe 2, que corresponde
dos pulsos elétricos na região do tórax. O ao risco médio, ou seja, o equipamento
técnico informou que o paciente deita na maca dispensa o emprego de procedimentos e
e não afixados nele os clips nos seus técnicas especiais de produção, necessitam o
respectivos locais indicados. Então, as cuidado com o seu uso e aplicação.
ramificações do cabo paciente são
O técnico em eletroeletrônica informou que
conectadas aos clips e liga-se o aparelho na
exames de eletrocardiograma são realizados,
energia elétrica. O operador clica no botão
em média, 5 vezes ao dia. Como o hospital
liga/desliga e clica na função que deseja que
funciona em regime de 24 horas, todos os dias
o eletrocardiógrafo exerça. O botão QRS no
estão em operação, fez-se o cálculo da taxa de
painel indica que está sendo feita a leitura dos
falhas, que é a razão entre o número de falhas
batimentos cardíacos de forma normal.
e o número de usos no intervalo de tempo
Enquanto isso um sensor térmico dentro do
estudado. Realizando a multiplicação, tem-se
painel transcreve para o papel térmico toda a
5 vezes 275 dias (março a novembro), que
leitura que é feita. Depois do procedimento, é
resultam em 1375 usos de cada aparelho.
efetuado desligamento e a desconexão de
Cada aparelho de eletrocardiograma falha, em
todos os cabos.
média, 6,5 vezes, ou seja, 52 falhas de todos
No período avaliado foram registradas 52 os oito eletrocardiógrafos. Com esses dados,
ordens de serviços corretivos pelo mesmo encontra-se uma taxa de falha de 0,00473
motivo: rompimento do cabo paciente em uma falhas/uso. Fogliatto & Ribeiro (2009) sugerem
de suas ramificações. Muitas das causas a utilização da Equação 01 para o cálculo do
foram avaliadas em erro por mau uso ou falhas índice de ocorrência para equipamentos.
no acessório. A empresa terceirizada utiliza
𝑡𝑎𝑥𝑎 𝑑𝑒 𝑓𝑎𝑙ℎ𝑎 0,20
uma codificação para os tipos de falhas. Nesse 𝑂𝑐𝑜𝑟𝑟ê𝑛𝑐𝑖𝑎 = ( ) (1)
0,000001
caso, respectivamente, seriam 2.3 e 1.4. As
demais falhas são erros operacionais, O resultado do cálculo de ocorrência deu
técnicos, desgaste natural e outros. aproximadamente 5,43, arredondando para 6,
caracteriza assim ocorrência moderada. O
A empresa também classifica os Quadro 03 resume a elaboração do FMEA para
equipamentos hospitalares de acordo com o eletrocardiógrafo.
regimentos da Anvisa. São três níveis de risco:

QUADRO 3 – FMEA do eletrocardiógrafo. Fonte: Autoria própria.


Modo Ação
Item/Função Efeito S Causa O Controle/Detecção D R
de falha recomendada

Inspeção visual 3 108 Treinamento


intensificado e
contínuo a
Não
respeito do uso
realização
Cabo Trabalhador do equipamento;
da leitura
Eletrocardiógrafo paciente 6 puxou cabo 6 aplicação de
rompido
dos
vigorosamente
Sinal de LED advertências e
pulsos 1 36
QRS penalidades ao
cardíacos
mau uso;
acompanhamento
do profissional.

Como visto no Quadro 3, o maior risco foi a paciente, o qual, apesar de ser grosso na parte
combinação do efeito ‘não realização da leitura superior, afina em suas ramificações. Ele
dos pulsos cardíacos’, ‘trabalhador puxou relatou que, mesmo os pinos das ramificações
cabo vigorosamente’ e ‘inspeção visual’. A possuírem pregas que facilitem a retirada do
multiplicação desses fatores resultou em um cabo do paciente, os empregados insistem em
risco de 108. puxá-lo pelo fio. Ele alegou que os
trabalhadores são treinados antes de serem
A principal queixa do técnico em
admitidos, e também durante o expediente.
eletroeletrônica é que os profissionais que
usam o equipamento, ao realizar o exame Para fins de análise, calculou-se também o
acabam por puxar vigorosamente o cabo tempo médio de reparo, que é quando a ordem

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


135

de manutenção corretiva é aberta e quando a equipamentos com esses colaboradores, e a


mesma é fechada na entrega do equipamento importância disso para a segurança da equipe,
com os fios soldados, sendo a solda a mais do paciente, além da redução de custos do
frequente solução realizada na reparação dos hospital. Deve-se fazer uma parceria com a
eletrocardiógrafos. Em média, o equipamento equipe de segurança do trabalho do hospital
fica na sala de manutenção 2,42 dias. para que nos treinamentos admissionais
Implicando assim em atrasos na feitura dos ministrados por ela possa conter suas
exames, tendo que o operador utilizar um outro recomendações para os colaboradores que
equipamento, se este já não estiver em uso. utilizarão do equipamento. Em caso de
reincidência da falha por mau uso do
trabalhador, o mesmo deve ser advertido e se
5. CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES o erro persistir, deve-se aplicar as penalidades
previstas em lei, como o afastamento ou até
Este trabalho teve por objetivo aplicar a
mesmo a demissão. O acompanhamento mais
ferramenta FMEA para análise de um
próximo tem por objetivo, não reprimir o
equipamento hospitalar. Sendo assim, pôde-se
colaborador, mas sim orientá-lo nos
concluir que, a ocorrência da falha do
procedimentos hospitalares e verificar se ele
eletrocardiógrafo ocasionada pelo descuido
está agindo corretamente.
do profissional é moderada. Sabe-se que esse
tipo de causa pode ser evitado, podendo Além disso, verificou-se que muitas ordens de
chegar a nenhum registro de rompimento do serviço estão preenchidas de forma incorreta,
cabo, se houver a colaboração de todas as dificultando o trabalho do mantenedor e da
partes envolvidas. supervisora administrativa da empresa
terceirizada. Os campos para inserção do
O equipamento que mais sofre manutenções
número do patrimônio do equipamento e da
corretivas é o eletrocardiógrafo, que realiza a
classificação da prioridade, em muitas vezes,
amplificação dos pulsos elétricos na finalidade
não são ou são preenchidos de forma
de verificar arritmias cardíacas e outras
incorreta. Propõe-se a criação de um manual
anomalias. Foram registradas, no período de
de preenchimento.
março a novembro de 2016, 52 casos de
rompimento do cabo paciente. Quanto ao Quanto ao setor de manutenção, deve ser
processo de manutenção da empresa observada a questão de organização do local.
terceirizada, a periodicidade das manutenções Verificou-se muitas ferramentas e dispositivos
preventivas e outras atividades são formuladas inutilizados e espalhados pelas prateleiras e
na sede localizada em Belo Horizonte. Os muitos deles, pontiagudos, podendo causar
funcionários que a mesma mantém no hospital ferimentos. O local já possui adesivos de
não alteram em nada, o plano de manutenção. identificação das prateleiras, implantados pelo
O técnico relatou que são feitas limpezas de programa 5s que o hospital adota. O que falta
vários equipamentos hospitalares com certa é a conscientização da equipe de
periodicidade. Verificou-se que a frequência manutenção. Por parte da empresa
das falhas por mau uso do equipamento tem terceirizada deve haver fiscalização e
imposto certa pressão no setor de orientação mais frequente de seus funcionários
manutenção, que fica sobrecarregado na e da limpeza e higiene do local do trabalho.
tentativa de atender o mais rápido possível às Com relação ao tempo de reparo, não é
solicitações de reparo. Isso tendo ciência que considerado muito extenso, porém para que
o hospital possui inúmeros outros esse tempo seja minimizado, deve se contratar
equipamentos que também deve atenção, e mais profissionais de manutenção para que o
em muitos casos, até maior, como os trabalho consiga atender à demanda.
equipamentos da UTI.
Como sugestões para trabalhos futuros, pode-
Como ações de mitigação, redução do risco se fazer o prolongamento da implantação da
foram propostas a intensificação dos metodologia da MCC nessa empresa, ampliar
treinamentos ministrados aos profissionais, a a amostra de dados e apurar mais as medidas
aplicação de advertências e penalidades para de confiabilidade. Além disso, a MCC pode ser
casos de mau uso e o acompanhamento mais aplicável a qualquer produto ou processo, o
próximo do colaborador. Os treinamentos FMEA também, sendo assim há uma infinidade
devem ser aplicados com diálogo entre os de possibilidades e que, com certeza, seu
trabalhadores. Pode-se separar, com certa estudo vai propiciar melhorias para os
periodicidade, um momento para se falar a negócios e as atividades das empresas.
respeito da utilização correta dos

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


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REFERÊNCIAS
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Gestão da Produção em Foco - Volume 18


137

Capítulo 13
APLICAÇÃO DA METODOLOGIA HEIJUNKA NO
CONTROLE DE ESTOQUES DO PROCESSO PRODUTIVO
DE UMA EMPRESA DO SEGMENTO METALOMECÂNICO
Juan Pablo Silva Moreira
Saulo Fonseca Soares
Célio Adriano Lopes
Janaína Aparecida Pereira

Resumo: Visto que a competitividade é um fator cada vez mais notado no cenário
empresarial, torna-se essencialmente importante que as organizações, adquiram
novas formas de gerenciar a qualidade dos produtos oferecidos aos clientes. Desta
forma, a presente pesquisa o objetivo demonstrar a aplicação da metodologia
Heijunka em uma empresa fabricante de sidecars, que para fins de
confidencialidade, será considerada no presente artigo como Empresa Alfa,
analisando os benefícios que a utilização desta metodologia traz para a gestão e o
controle de estoque dos empreendimentos, auxiliando a garantir uma produção
enxuta e flexível. Por isso, a fim de tornar a concretização visível aos colaboradores
da empresa, nessa análise foi utilizado formulários de maneira descritiva e qualitativa,
pois essas formas pesquisa permitem maior interação com o cotidiano da linha de
produção organizacional. Através da realização deste estudo foi possível constatar
as utilidade e as funcionalidade apresentadas pela metodologia Heijunka, já que a
execução deste instrumento possibilitou uma melhoria significativa no controle de
estoque de um sistema de produção puxada. Além disso, por meio da utilização
desta ferramenta foi possível evidenciar que o abastecimento de produtos ocorre em
conformidade com a de demanda e forma padronizada, possibilitando que o
empreendimento desempenhe suas atividades de maneira enxuta e flexível, uma vez
que foi possível reduzir os níveis de estoque de forma considerável.

Palavras-chave: Controle de estoque, Heijunka, produção enxuta, almoxarifado, setor


automotivo.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


138

1. INTRODUÇÃO Desta forma, a fim de evidenciar o tema


O contexto atual da globalização influenciado analisado com maior eficiência, elaborou-se
pela dinâmica dos mercados, competitividade, um trabalho mediante o estudo sistemático dos
e consumidores mais exigentes, tem conteúdos disponíveis em métodos, técnicas e
impulsionado as organizações em sua busca procedimentos de caráter técnico-cientifico.
por estratégias de produção que atendam às Por isso, esta pesquisa foi caracterizada como
necessidades do mercado através de custos exploratória e de caráter qualitativo, pois para
baixos, qualidade, flexibilização do produto e Gil (2008) este tipo de pesquisa visa
agilidade na entrega. proporcionar aos autores maior familiaridade
com o problema e, com isso se torna possível
Em virtude deste fato, o processo de inovações
evidenciar a problemática de forma clara e
tecnológicas, se mostra muito importante para
objetiva.
que as empresas elaborem periodicamente
procedimentos que auxiliem a dar um Além disso, o autor Godoy (1995) salienta que
direcionamento quanto ao processo de toma este tipo de pesquisa permite que
de decisão, garantindo, que seus produtos pesquisadores vão “a campo buscando
estejam sempre atualizados. De acordo com “captar” o fenômeno a partir da perspectiva
Tidd et al. (2008) a era de tecnologia está das pessoas nele envolvidas, considerando
interligado às novas maneiras de se planejar, todos os pontos de vista relevantes”.
organizar ou coordenar os fatores julgados
essenciais, possibilitando métodos mais
lucrativos de se obter um aumento da 2. GESTÃO DA PRODUÇÃO
rentabilidade desejada pelo empreendimento. Administração da Produção ou Gestão da
Produção pode ser definida como uma
Na indústria do segmento automotivo, a busca
atividade de gerenciamento dos recursos
por uma inovação nos processos produtivos
envolvidos para a transformação de insumos e
tem se tornado bastante preocupante, já que,
matérias-primas em produtos acabados e/ou
por se tratar de um nicho de mercado
serviços, visando atender aos objetivos
reduzido, se torna necessário estar sempre
predefinidos pela organização. Para Moreira
acompanhando as necessidades dos clientes,
(2002, p. 03) o conceito de Gestão da
que sempre estão em busca de adaptações
Produção pode ser analisado como “o campo
que atendam às suas necessidades. Deste
de estudo dos conceitos e técnicas aplicáveis
modo, um bom planejamento por parte dos
à tomada de decisões na função de produção
gestores se torna um fator imprescindível para
ou operações”.
adquirir melhores posições no mercado, uma
vez que as empresas buscam cada vez mais Os autores Davis, Aquilano e Chase (2001, p.
por uma produção enxuta e que reduza o seu 24-25) relatam que a “administração da
índice de desperdícios (SILVA et al., 2016). produção é o termo utilizado para o
gerenciamento dos recursos necessários para
Por isso, objetivo deste trabalho é realizar um
o processo de transformação de matérias-
estudo para a utilização da metodologia
primas através de componentes (máquinas,
Heijunka em uma empresa fabricante de
mão de obra, informações, ferramentas) para
sidecar, analisando a contribuição que a
obtenção de bens ou serviços”. O processo de
junção dessas metodologias oferecem para o
transformação de inputs em outputs com
controle do almoxarifado da indústria, além de
agregação de valor é a atividade principal de
auxiliar na tomada de decisão e na solução de
um sistema de produção, sendo de
diversos problemas de organização referentes
substancial importância uma eficiente
ao gerenciamento do processo de fabricação
administração, para que assim a organização
dos equipamentos. De acordo com Viana
atinja suas metas.
(2002) “em qualquer empresa, os estoques
representam componentes extremamente A figura a seguir evidencia o processo de
significativo, seja sob aspectos econômicos transformação de matérias-primas em
financeiros ou operacionais críticos”. produtos ou serviços de um sistema de
produção:

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


139

FIGURA 1 – Processo de Transformação.

Fonte: Adaptação de Slack, Chambers, Johnston (2002, p. 36)

Segundo o autor Erdmann (1998, p. 11) “o ato recursos humanos, tecnológicos, materiais e
de produzir implica em transformar” e pode ser de capital, proporcionando responsabilidades,
considerado o resultado prático, material ou coordenação e controles efetivos dentro da
imaterial, gerado de forma intencional por meio organização (JUNIOR, 2012, p. 18-20).
de um conjunto de fatores organizados. Slack
Nesse sentido, as empresas ao buscarem por
et al. (2002) destaca a Gestão da
produtividade para se manterem atuantes no
Produção\Administração da Produção como o
mercado em que estão inseridas, aceleram
fator mais importante no sucesso econômico
seu processo de desenvolvimento por meio do
do sistema de produção, pois é responsável
acesso aos recursos tecnológicos, além da
pela forma na qual os recursos humanos,
implantação de processos de gerenciamento
materiais, tecnológicos e de capital são
para realização de atividades de acordo com
organizados e gerenciados, proporcionando
os requisitos dos clientes, sejam eles externos
coordenação, responsabilidades e controles
ou internos.
efetivos.
O gerenciamento da produção se encontra em
todas as áreas de atuação do ambiente 3. NIVELAMENTO DA PRODUÇÃO
organizacional, envolvendo os diretores, De acordo com Tardin e Lima (2000), o
gerentes, supervisores e colaboradores. Uma nivelamento da produção pode ser
das principais atribuições dos responsáveis considerado como uma das principais
pela Gestão da Produção é entender quais as atividades para o empreendimento que
necessidades e desejos dos consumidores e pretende seguir o sistema de produção enxuta,
traduzi-los dentro dos objetivos pois vaso não haja um nivelamento na linha de
organizacionais, para assim atender as produção ocorrerá um aumento considerável
principais implicações de objetivo de de estoques de produtos acabados ou
desempenho específico, sendo eles: semiacabados e isso reduzirá os benefícios
qualidade, custo, flexibilidade, tempo de adquiridos com esse novo sistema de
entrega, atendimento, produtividade e produção.
inovação (MOREIRA 2002; MARTINS e
A demanda do cliente, de forma geral, é
LAUGENI, 2002; SLACK; CHAMBERS e
desnivelada e de torná-la nivelada tem se
JOHNSTON, 2002).
tornado bastante complexa em virtude da
Constata-se que a função produção existe em relação de incerteza vivida pelo mercado, já
todo tipo de empresa, seja ela de manufatura que não é possível decidir pelo consumidor
(produtos) ou operações (serviços) e por isso, fatores como a quantidade, o produto e o
torna-se fundamental uma boa gestão de todo momento que ele será efetuada a ordem de
os recursos envolvidos. Além disso, um bom pedido, é possível evidenciar algumas
planejamento permite que a organização técnicas que permitem suavizar esta variação
alcance níveis satisfatórios de qualidade, da demanda. Dessa forma, é propício que haja
diminuição de custos e aumento da ferramentas de nivelamento que possibilite a
produtividade. A Gestão da Produção veio identificação de um intervalo que permita uma
com o objetivo de gerenciar e organizar os variação da demanda do cliente, garantindo

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


140

que isso não afete o processo produtivo da mercado. Nesse contexto, o mesmo autor
organização (DUGGAN, 2002). informa também que “a verdadeira melhoria na
eficiência surge quando produzimos zero
Para Rother e Shook (1999), “agrupar os
desperdício e levamos a porcentagem de
mesmos produtos e produzi-los todos de uma
trabalho para 100%”.
vez, dificulta o atendimento dos clientes que
querem algo diferente do lote que está sendo Os desperdícios são ocultados na produção
produzido”. O fato de produzir lotes maiores podem vistos como agentes naturais do
reduz a troca de ferramentas nos processo produtivo e por isso, não são
equipamentos. Em contrapartida, um lote identificados facilmente e que para o processo
maior acarreta um nível elevado de estoques garanta um maior grau de eficiência, a
de produtos e com isso haverá uma redução produção de desperdício deve ser zero, para
da lucratividade com estoque parado. que assim a percentual de trabalho seja
aproveitada ao máximo (OHNO, 1997). Para
que seja possível identificar os desperdícios
3.1 OS SETE DESPERDÍCIOS em um processo produtivo, são necessárias a
realização de observação do ponto de vista do
Ohno (1997) afirma que o desperdício pode
cliente, seja este interno ou externo. “O cliente
ser visualizado como um conjunto de
não tem interesse em desembolsar por etapas
elementos que ocorrem na linha de produção
do processo que não agregam valor como
e que não agregam valor, mas que elevam as
esperas, transporte desnecessário, entre
despesas da empresa desta forma, é essencial
outros” (WOMACK e JONES, 2004). Assim, é
para o empreendimento a eliminação dos
necessário que os clientes internos e os
desperdícios existentes no processo produtivo
colaboradores identifiquem no processo as
para que seja possível garantir alicerce para a
perdas que não agregam valor, relacionadas
redução dos custos, bem como para a
aos sete tipos de perdas descritos na figura 2.
permanência da organização frente ao

FIGURA 2 – Tipos de Desperdícios

Fonte: adaptado de Shingo (1996)

Desta maneira, as perdas que envolvem e a forma com que ela exerce suas atividades
superprodução, transporte, processamento, de trabalho (pessoas e equipamentos)
estoque e retrabalhos estão correlacionados à (ANTUNES, 2008).
função processo, ou seja, a forma com que se
é possível controlar o fluxo do objeto dentro
das organizações. Quanto às perdas 3.2 HEIJUNKA
decorrentes de espera ou de movimentação se
A palavra japonesa Heijunka é usada para
relacionam com a Função Operação, pois
garantir o nivelamento da produção, em
estão focadas na análise do sujeito de trabalho
relação ao mix e o volume de produtos,

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


141

continuem constantes ao longo do tempo 3.3 SISTEMA KANBAN


(SLACK et al., 2002). O Heijunka box é,
O Sistema Kanban pode ser definido como um
portanto, uma metodologia visual utilizada para
mecanismo programável, que permite o
garantir que o gerenciamento alcance os níveis
acompanhamento e o controle do fluxo
pospostos pelos gestores da organização.
integrado informações quanto ao material
Para Jones (2006) o Heijunka Box auxilia a
utilizado para a produção de determinado
controlar a produção, de maneira constantes,
produto, no qual um posto de trabalho
ou seja, esse instrumento fornece parâmetros
posterior determina o fornecimento de matéria-
estratégicos qualitativos para que o processo
prima para outro posto precedente, através de
de fabricação continuem sempre consistente e
cartões ou painéis de visualização
livre de gargalos operacionais.
possibilitando o desenvolvimento um fluxo de
Esse forma de análise de produtiva também informações entre os diversos setores do
pode ser considerada como um dispositivo de processo de produção externos
gerenciamento visual, visto que garante que (fornecedores) e clientes (OLIVEIRA, 2008).
“os painéis são ferramentas de tomada de
Monden (1984) menciona que o Kanban
decisão e também de comunicação e
possibilita a transmissão de dados e
sinalização” (GREIF, 1991, p.111). Para que
informações que são auxílio a tomada de
este tipo de gerenciamento seja desenvolvido
decisões correlacionadas ao gerenciamento
de forma eficiente, Liker (2004, p. 162) informa
de estoques e de matérias-primas, itens em
que é importante “pensar com criatividade
processo e produtos acabados, sendo
utilizando os melhores meios disponíveis para
considerado um sistema de gerenciamento de
criar um verdadeiro controle visual”.
informações Just-in-Time utilizado para
De acordo com Tardin (2001) os quadros controlar a produção e o suprimento de
fornecidos pela metodologia Heijunka fornece materiais pelos fornecedores, viabilizando,
parâmetros para garantir que a programação desta maneira os níveis de estoques existentes
do processo de produção do chão-de-fábrica no chão de fábrica.
seja realizada pelos próprios operadores.
Como estilos deste subsistema de produção,
Estes quadros auxiliam para que as equipes
Oliveira (2008) e Ohno (1997) consideram
trabalhem seguindo as características
apenas o Kanban Interno (operações ou
estipuladas pelo cliente, garantindo que o fluxo
processos produtivos) e o Kanban Externo
de informação, possibilitando a visualização
(suprimento de matéria-prima e distribuição
dos status da produção, disponibilidade de
física dos produtos semiacabados e acabados
materiais, prontidão e anomalias (NEESE e
– conexões entre fornecedor-fabricante e
KONG, 2007).
fabricante-cliente), pois estes estilos possuem
grandes semelhanças nos modos de
execução. A Figura 3 demonstra o modelo de
funcionamento dos Kanbans Interno e Externo.

Figura 3 – Funcionamento dos Kanbans Interno e Externo

Fonte: Monden (1984)

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


142

Na produção enxuta, a viabilização do benefícios ao processo produtivo em que é


suprimento de materiais torna possível a partir empregado, dentre as quais é o autor Tubino
da utilização do Kanban Externo, em que o (2000) destaca:
fabricante é responsável por administrar a
 Redução do lead-time de produção;
frequência de entrega, bem como o nível da
qualidade e os perfil dos fornecedores – o  Melhor capacidade de resposta aos
objetivo do fabricante é manter os processos clientes por parte da empresa;
produtivos dos fornecedores em perfeita
 Aumento da participação e
harmonia com suas necessidades de matéria-
envolvimento das pessoas,
prima. Por fim, Monden (1984) evidencia que
descentralizando os processos de
há dois métodos de requisição de materiais
decisão (Empowerment);
unidos ao Kanban de Fornecedor. O primeiro,
denominado de sistema de retirada  Melhoria no controle de estoque,
sequencial, está correlacionado ao minimizando a flutuação dos materiais
gerenciamento de que é repassada ao dentro do processo;
fornecedor. O segundo, designado de sistema
 Redução dos níveis de estoque de
de reabastecimento, se baseia na aplicação
produtos em circulação na linha de
de Kanbans tradicionais ou Kanbans
produção.
eletrônicos, essenciais para garantir que a falta
matéria-prima não paralise a linha de Segundo Slack et al. (2002) é possível que uma
produção. organização utilize um sistema com dois
cartões simultaneamente, entretanto o mesmo
autor afirma ainda que a utilização de um
3.4 CARTÕES KANBAN cartão único é a maneira mais simples de se
operar, pois a utilização de dois modelos de
Para utilização desse sistema, torna-se
cartões distintos dificulta um controle preciso
necessário a determinação de qual o categoria
no processo, já que se torna mais propício para
de cartão será aplicado no processo produtivo
a incidência de falha humana.
para se definir a quantidade de cartões que
irão circular pela linha de produção. De acordo
com Tubino (2000) existem basicamente três
4. METODOLOGIA
tipos de cartões Kanban, sendo eles: Cartão
Inicialmente, foi realizado um estudo para a
Kanban de Produção, Cartão Kanban de
utilização da metodologia Heijunka como
Requisição Interna e Cartão Kanban de
impulsionadora no processo de redução dos
Fornecedor
estoques de uma empresa que é fabricante de
O Cartão Kanban de produção, também sidecars. Para que fosse possível desenvolver
denominado de Kanban de processo, este tipo esse relato foram desenvolvidos dois
de Kanban atua principalmente no centro de formulários, composto por questões abertas e
trabalho e nos processos produtivos e possui fechadas, aplicados a todos aos dez (10)
a atribuição de permitir a fabricação ou colaboradores da empresa. Todos
elaboração de determinado lote de peças. colaboradores responderam ao formulário,
pois a mudança no controle de estoque da
Já o Cartão Kanban de requisição interna,
organização afeta desde os setores de
também conhecido como Kanban de
fabricação do sidecar até os setores de
movimentação ou retirada, tem a finalidade de
vendas e logística. Os dados secundários da
sinalizar e autorizar o fluxo de transporte,
pesquisa foram obtidos através de consulta a
retirada ou movimentação de produtos ou
sites, artigos científicos, livros, monografias
materiais entre o estoque intermediário e
teses e dissertações.
centro produtivo.
As questões contidas nos formulários tratam
E por fim, o Cartão Kanban de fornecedor tem
sobre a organização estratégica de trabalho,
a mesma utilidade de uma ordem de pedido ou
sobre os itens mais utilizados para a
de compra tradicional, em que através das
fabricação dos equipamentos, os benefícios
especificações obtidas no cartão, permite que
de um estoque reduzido, a missão, a visão e
o fornecedor externo efetue a entrega de um
os objetivos da empresa. Além disso, os
determinado lote de produtos diretamente ao
formulários serviram também para identificar
consumidor.
as razões para a implementação do Heijunka,
De modo geral, a aplicação do Sistema bem como avaliar o posicionamento dos
Kanban possibilita o surgimento de vários colaboradores que serão envolvidas no

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


143

processo de melhoria e analisar as principais desenvolver uma metodologia que estivesse


melhorias adquiridas durante a implantação em conformidade com a missão, a visão, a
desta nova forma de gerenciamento do cultura e os valores organizacionais
estoque. desenvolvidos pela Empresa Alfa. Para iniciar
o nivelamento dos estoques, foi aconselhado a
utilização do Sistema Kanban na organização,
ANÁLISE DOS RESULTADOS para que fosse possível analisar os pontos de
Com base nas informações identificadas ressuprimentos, bem como o ponto de pedido
através dos questionários, foi desenvolvido um e o tempo entrega do fornecedor.
planejamento com instruções de como
Após a conclusão desta etapa, foi formada a
implantar a metodologia Heijunka na Empresa
equipe responsável por evidenciar e analisar
Alfa. A primeira atividade proposta para a
todas as informações relevantes quantos aos
implantação desta modelagem foi à realização
itens utilizados para a fabricação dos sidecars,
de uma reunião com gestores e colaboradores
o controle dos níveis de estoque e o ponto
para se pudesse evidenciar aos envolvidos
“ótimo” de pedido, bem como o faturamento
sobre os benefícios de se obter um instrumento
mensal e anual da organização. A primeira
que permite avaliar os níveis de estoque
etapa desenvolvida para a aplicação do
através da média do consumo diário de cada
Kanban foi a realização de um levantamento
produto fabricado pelo empreendimento. De
que informasse a lucratividade mensal e anual
acordo com Oliveira (2008) para que se ocorra
sidecars comercializados pela empresa, esta
uma executar de maneira eficiente alguma
etapa foi de fundamental importância, pois
melhoria que envolva o processo operacional
através dela, foi possível a média de sidecars
da organização, torna-se muito importante que
vendidos pela organização, além de permitir a
todos os colaboradores entendam quais são
visualização de um possível desvio no padrão
os benefícios de melhorar o processo
de sidecars comercializados (tabela 1). Nesta
produtivo e como esta melhoria será benéfica
relação foi possível evidenciar que houve um
para o gerenciamento da linha de produção da
acréscimo de 1,3% de vendas no ano de 2014
organização.
em comparação com o ano de 2015.
Desta forma, com base nas opiniões
adquiridas pelos funcionários, foi possível

Quadro 1 – Planilha de Faturamento Anual da Empresa Alfa

Porém, apesar da alta lucratividade obtida possível evidenciar a lucratividade obtida por
pelos produtos, através desta tabela não é cada um dos produtos vendidos. Deste modo,

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


144

foi desenvolvido um gráfico que demonstra a térmico, cadeirante, pranchão, manutenção,


lucratividade anual obtida com a venda de grade fechada e passageiro) comercializados
cada um dos 11 modelos de sidecar pela organização.
(gás/água, multiuso, mercado aberto, baú

Figura 4 – Faturamento Anual Da Empresa Alfa No Período 2014- 2015

Com base nas informações obtidas neste produto, juntamente com o tempo de entrega
gráfico, foi possível evidenciar que apesar da estipulado pelo fornecedor (lead-time). Devido
lucratividade obtida, a não ocorre uma a maior utilização destes produtos no processo
discrepância significativa que prejudicasse a de fabricação dos sidecars, no (quadro 2), é
aplicação da metodologia Heijunka, por isso possível evidenciar as matérias-primas
motivo, foi realizada a identificação dos escolhidas para a elaboração deste estudo.
materiais, a média do consumo diário de cada

Quadro 2 – Consumo Médio E Lead-Time Dos Produtos Selecionados Para O Estudo


Matéria-Prima Consumo Médio Diário Lead-time Fornecedor
Ferro Chato 1” x 3/16 26 metros por dia 05 dias
Terminal Redondo Macho ETE7038 20 unidades por dia 03 dias
Terminal Redondo FEMEA ETE7037 20 unidades por dia 03 dias

A partir dos levantamentos realizados na usualmente e a quantidade de produto


tabela anterior, foi realizado o nível de estoque armazenada referente à quantidade em dias
máximo em dias que a organização trabalha de estoque, como demonstrado no Quadro 3.

Quadro 3 – Níveis de estoque utilizados para a aplicação da metodologia Heijunka


Matéria-Prima Consumo Médio Diário Lead-time Fornecedor
Ferro Chato 1” x 3/16 16 dias 235 metros
Terminal Redondo Macho ETE7038 13 dias 270 unidades
Terminal Redondo FEMEA ETE7037 13 dias 270 unidades

Desta forma, os níveis de estoque foram dias necessário para realizar a entrega do
organizados em estoque máximo, o ponto de produto, e o estoque de segurança, um tipo de
pedido ou estoque de atenção, para estoque que assegure que falte materiais em
determinar esses fatores, levou-se em caso de algum imprevisto relacionado à
consideração a demanda (consumo diário) e o entrega ou a algum outro fator, que nesse caso
lead-time do fornecedor, ou seja, o tempo em a sua quantidade foi estipulada com uma

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


145

porcentagem referente a 50% do lead-time do 5 e 6 demonstram a proposta esquematizada


fornecedor, por se tratar de produtos de do controle de estoque para a Empresa Alfa.
grande necessidade e importância. As figuras

Figura 5 – Proposta Para O Controle De Estoque Bucha Da Coroa Nylon

Figura 6 – Proposta para controle de estoque do Terminal Redondo Macho ETE7038 e do Terminal
Redondo FEMEA ETE7037

A aplicação do Sistema Kanban de Diante disso, por se tratarem de pequenos


movimentação, foi adaptado em alguns para lotes de produto, foi determinado o uso de
atender melhor às necessidades da empresa somente dois cartões por produto no seu lugar
em análise, simplificando o gerenciamento e o destinado ao armazenamento, para tanto, foi
controle de estoque de maneira eficiente e levado em consideração o rápido tempo de
evitando a incidência de falhas referentes ao reposição e de movimentação, permitindo que
reabastecimento de materiais. O Estoque apenas dois cartões sejam suficientes para
proposto na imagem foi igual para o Terminal sinalizar e movimentar o sistema de forma
Redondo Macho ETE7038 e para o Terminal eficiente, sem comprometer a eficiência da
Redondo Fêmea7037, pois os dois são linha de produção. A figura 7 demonstra
utilizados em conjunto e devem possuir a modelo de cartão Kanban desenvolvido pela
mesma quantidade. Empresa Alfa.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


146

Figura 7 – Cartão Kanban Desenvolvido Para A Empresa Alfa

Por meio da aplicação da metodologia reduzir os níveis de estoque de maneira


Heijunka, foi possível realizar um o significativa, representando uma menor
abastecimento mais padronizado, quantidade de materiais em estoque. A figura
possibilitando que a empreendimento atue de 8 demonstra redução de estoque antes e
maneira enxuta e flexível, e consequentemente depois da implantação da metodologia
proporcionando uma melhor aplicação dos Heijunka na Empresa Alfa.
recursos financeiros, uma vez que foi possível
Figura 8 – Representação dos níveis de estoque após a implantação da metodologia Heijunka

Foi possível observar que os níveis de estoque Através da realização deste estudo foi possível
reduziram de forma significativa, melhorando o constatar as utilidade e as funcionalidade
controle de estoque organizacional. Através apresentadas pela metodologia Heijunka em
desta economia de estoque a organização união com o Sistema Kanban, já que a
pode fazer a aquisição de um software que execução deste instrumento possibilitou uma
passou a auxiliar no controle de reposição de melhoria significativa no controle de estoque
matéria-prima, a utilização das peças para a de um sistema de produção puxada. Além
fabricação e principalmente o momento disso, por meio da utilização desta ferramenta
necessário para se efetuar novas ordens de foi possível evidenciar que o abastecimento de
produção e reabastecer o estoque de matéria- produtos ocorre em conformidade com a de
prima. demanda e forma padronizada, possibilitando
que o empreendimento desempenhe suas
atividades de maneira enxuta e flexível, uma
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


147

vez que foi possível reduzir os níveis de ao retirar um item do estoque, o próprio cartão
estoque de forma considerável. Kanban já indica o momento da compra e a
quantidade necessária para obter um “estoque
Outro ponto importante observado nesta
ótimo” de produção. E por fim, pode-se
pesquisa, é que a metodologia Heijunka
observar que sua aplicação teve uma grande
permite um efetivo controle visual do estoque,
relevância, visto que possibilitou aos
como Empresa Alfa não apresentava um
colaboradores e gestores obterem um
controle eficaz, foi possível organizar o
gerenciamento de estoque que lhes garanta
almoxarifado de modo que se pudesse
um baixo custo de produção e de
transmitir maior comodidade e confiabilidade
armazenamento da matéria-prima.
aos colaboradores que vão ao estoque, pois

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Alegre: Bookman, 2004. E0097.PDF. Acessado em: 14 de abr. de 2017.
[11] Martins, P. G; Lougeni, F. P. Administração [22] Tidd, Joe et al. Gestão da Inovação. Porto
de produção. São Paulo: Editora Saraiva, 2002. Alegre: Bookman, 2008.
[12] Monden, Y. Sistema Toyota de produção. [23] Tubino, D. F. Manual de Planejamento e
São Paulo: IMAM, 1984. Controle da Produção. São Paulo: Atlas, 2000.
[13] Moreira, D. A Administração da Produção e [24] Viana, João José. Administração de
Operações. São Paulo: Pioneira Thompson materiais. São Paulo: Atlas S. A. 2002.
Learning, 2002. [25] Womack, J. P.; Jones, D. F.; Roos, D. A
[14] Neese, M.; Kong, S. M. Driving lean through máquina que mudou o mundo: baseado no estudo
the visual factory: visual instructions offer the do Massachusetts Institute of Technology sobre o
simplicity employees need. Circuits Assembly, futuro do automóvel. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.
September 2007.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


148

Capítulo 14
AVALIAÇÃO DE CUSTO-BENEFÍCIO PARA MANUTENÇÃO
EM TANQUES DE HIDROCARBONETOS DE
TRANSFERÊNCIA E ESTOCAGEM
Aluisio dos Santos Monteiro Júnior
Marcello Gonçalves de Castro
Denise Loyola Silva Monteiro
João Orlando Menezes

Resumo: Para instalações de refino de petróleo, tanques são ativos fundamentais


para armazenamento de produtos intermediário e final na preservação de suas
características fundamentais. A região da Bacia de Campos está em fase de declínio
de alguns poços e as consequências para o parque de refino são eminentes. Com
vistas a analisar a viabilidade técnico-econômica da manutenção de tanques de
armazenamento de hidrocarboneto na Bacia de Campos, foram analisados os dados
de inspeção e manutenção de equipamentos para dois tanques distintos. Da análise
conseguiu-se determinar a viabilidade, i.e., o Custo-Benefício das transações de
manutenção. A análise efetuada em tanques distintos demonstrou que a substituição
do material da tampa superior é uma solução econômica e tecnicamente viável.

Palavras-chave: Manutenção Industrial; Indústria de Petróleo; Viabilidade Técnica e


Econômica

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


149

1. INTRODUÇÃO O parque de refino brasileiro conta com 12


refinarias e um complexo petroquímico.
O petróleo extraído no Brasil segue até as
Contando apenas as refinarias, no país existem
refinarias quase sempre por meio de
aproximadamente 2.600 tanques. A refinaria
oleodutos. Ao chegar à refinaria, ele é
estudada possui uma área de tancagem
guardado em tanques de armazenamento, de
composta por 200 tanques de
onde parte para ser processado.
armazenamento, e o processo petroquímico
Uma refinaria tem a função básica de ocorre entre unidades operacionais. O tanque
decompor o petróleo em diferentes serve como pulmão entre estas unidades, uma
subprodutos, como gasolina, diesel e vez que cada uma trabalha com limite de
querosene. Para isso, ela recebe o petróleo – vazão diferente, além do que em determinadas
na forma do chamado óleo crú – das unidades processa-se a mistura de dois ou
plataformas de extração e o submete a mais produtos.
diversos processos químicos. O primeiro e
O presente artigo tem como objetivo de
mais importante desses processos é a
pesquisa avaliar, sob o enfoque de vida
destilação. Na torre de destilação, o petróleo é
econômica de ativos, qual a escolha mais
aquecido a altas temperaturas, evapora e,
apropriada para manutenção das tampas
quando volta à forma líquida novamente, já tem
superiores de tanques de armazenamento de
boa parte de seus principais subprodutos
uma indústria petroquímica. Como objetivos
separados.
tem-se:
Os subprodutos saem da torre de destilação
Fazer levantamento de dados de
ainda “contaminados” uns pelos outros. Todos
confiabilidade, orçamento, e especificações
vão para um processo de purificação: em
técnicas da família de tanques de
tanques, passam por reações químicas para
armazenamento de derivados de petróleo, e
quebrar e recombinar suas moléculas até
estimar o nível de confiabilidade da tampa do
estarem puros. Os subprodutos obtidos ficam
tanque;
em outros tanques de armazenagem.
Analisar o custo-benefício e a viabilidade
Para instalações de refino de petróleo, tanques
técnico-econômica do atual sistema de
são ativos fundamentais para o
manutenção em tanques;
armazenamento de produtos intermediário e
final, mantendo preservadas as características Ponderar aspectos críticos e favoráveis à
fundamentais do produto, como temperatura, substituição de material das tampas superiores
teor de água e homogeneidade. A indústria de dos tanques.
petróleo tem por prática o armazenamento de
A manutenção de um tanque de
matéria-prima, produto intermediário e produto
armazenamento consome tempo de
acabado em tanques distintos. Um mesmo
disponibilidade de operação e recurso
tanque pode armazenar diversos produtos,
financeiro da companhia. A média de tempo
bastando para isso estar conectado à malha
gasto na manutenção em um tanque é um ano,
de tubulações disponíveis. A indústria não
com isso, qualquer modificação no processo
costuma variar muito a classe de produtos
de manutenção de tanque que resulte em uma
armazenados em um conjunto de tanques.
diminuição de disponibilidade, custos de
Eles normalmente são classificados em
manutenção ou aumento do tempo de
tanques de óleo cru, óleo lubrificante, óleo
campanha tem grande impacto na indústria
escuro e combustível.
petroquímica, dada seu tamanho e importância
Segundo a ANP (Agência Nacional de no cenário econômico.
Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis) as
refinarias brasileiras produziram 221,4 milhões
de barris de derivados de petróleo no primeiro 2. DESENVOLVIMENTO
quadrimestre de 2017, isto representa 7,7% a
2.1 CONSIDERAÇÕES GERAIS
menos do que a produção dos primeiros
quatro meses de 2016. O parque de refino da Durante a campanha de um tanque, os
Petrobras operou a 77% da sua capacidade no defeitos aparecem naturalmente nas estruturas
primeiro trimestre de 2017. A demanda por auxiliares, uma falha comum é a corrosão na
armazenagem cai na mesma proporção da tampa superior, também chamado de teto do
queda do refino. Com este panorama, é tanque. De todos os defeitos e falhas normais
importante avaliar investimentos nos tanques de um tanque, a deterioração de sua tampa
de armazenamento das refinarias. superior é a de mais complexa solução, além

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


150

do que, é a que consome mais recurso das de tomada de decisão. Neste momento é
equipes de manutenção. Quando há perda da definido que parâmetros ela pretende
integridade do teto, é normal se deparar com alcançar, ou suportar.
os seguintes problemas: insegurança
Varáveis como confiabilidade, produção,
operacional; perda por evaporação;
custos de manutenção e segurança industrial,
contaminação ambiental; produto
nem sempre são de fácil estimação.
contaminado por água; e redução da
Independente de se conseguir estimar o custo,
flexibilidade operacional.
as escolhas precisam definir o ponto que se
pretende alcançar. Com isso, o estudo de
investimento é um tradicional campo de
2.2 O PROCESSO DE TOMADA DE DECISÃO
aplicação da Engenharia Econômica. A
EM MANUTENÇÃO
escolha do momento ótimo de se fazer a
O objetivo da manutenção preventiva é substituição de máquinas e equipamentos
minimizar, ou eliminar, as paradas não passa pelo ponto da tomada de decisão
programadas; estas quando acontecem não (ABENSUR, 2015).
permitem um planejamento pormenorizado da
O Modelo de Gerenciamento e Técnicas de
situação (DOHI et all 2001). O reparo é feito,
Manutenção proposto por Márquez et al.
em alguns casos, com uso de material
(2009), apresenta algumas técnicas e
indevido e técnicas não apropriadas. Um
conceitos que podem auxiliar o gestor no ato
estudo básico que se faz necessário é a
de decidir. O intuito de Márquez et al. foi
definição do tempo de vida útil. A definição do
elaborar um PDCA (Plan, Do, Check and Act)
tempo de vida útil de uma máquina ou
da Manutenção. A Tabela 1 apresenta o
equipamento não é uma tarefa meramente
modelo adaptado do gerenciamento proposto
quantitativa. Para se alcançar um valor
por Marquez et al (2009).
considerado ótimo, muitas escolhas são feitas.
Escolhas estas que passam por um processo

TABELA 1 – Modelo de gerenciamento e técnicas de manutenção.


Etapas Estratégia Técnicas
Indicador de desempenho (KPI) e
1 Definição de indicadores chave Indicadores Balanceados de
Desempenho (BSC)
Estratégia de definição de Análise de Criticidade (CA) e Matriz de
2
ativos prioritários e manutenção Criticidade (CM)
Análise Causa-Raiz de Falhas (FRCA),
Intervenção imediata nos Método de Análise e Solução de
3
pontos fracos de maior impacto Problemas (MASP) e Análise do Modo e
Efeito de Falha (FMEA)
Manutenção Centrada em
Planejamento de planos e
confiabilidade (RCM) e Análise do
4 recursos da manutenção
Modo, Efeito e Criticidade de Falha
preventiva
(FMECA)
Plano preventivo, otimização da Análise de Risco e Otimização de
5
programação e recursos Custo (RCO)
Avaliação e controle da Análise de Confiabilidade (RA) e
6
manutenção Método do Caminho Crítico (CPM)
Análise de ciclo de vida dos Análise do Custo e Ciclo de Vida
7
ativos, otimização e substituição (LCCA)
Melhoria contínua e utilização
8 Manutenção Produtiva Total (TPM)
de novas técnicas
Fonte: Adaptado de Mays, 1996.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


151

Outra ferramenta que auxilia o tomador de O levantamento feito por Kardec e Carvalho
decisão em gestão de manutenção é o (2002) mostra que uma pequena parcela do
diagrama de Ishikawa, que utiliza a faturamento é consumida na manutenção no
metodologia 6M (método, material, mão de setor petroquímico. A análise não discrimina se
obra, máquina, medida e meio ambiente). A é manutenção preventiva, corretiva ou
ferramenta pode estruturar as causas preditiva, o que pode induzir a pensar que são
potenciais de determinado problema, ou as três juntas. A grande dificuldade é mensurar
oportunidade de melhoria (YIN, 2005). O ideal o valor da insatisfação de um cliente que não
é que seja realizado por equipe multidisciplinar pode ser atendido.
para ampliar o diagnóstico das causas. Após a
O ideal é que o gestor de manutenção tenha
identificação do efeito a ser analisado realiza-
posse dos modos de falhas de todos os
se brainstorming com os envolvidos para o
equipamentos sob sua tutela, entretanto, os
levantamento das causas. Uma das
gastos envolvidos em tal processo seriam por
características do diagrama é auxiliar na
demais elevados. Aplica-se, por exemplo, a
visualização da origem de um evento
manutenção corretiva “quando os custos da
(CARDOSO, 2004).
indisponibilidade são menores do que os
custos necessários para evitar a falha”
(MARCORIN e LIMA, 2003).
2.3 CUSTOS DE MANUTENÇÃO
Algumas empresas trabalham m busca do
Uma prática muito comum na indústria é
ponto ótimo da manutenção (SILVA, 2016). A
considerar o custo de manutenção como os
Figura 1 ilustra o gráfico custo x nível de
gastos realizados na compra de material,
manutenção que mostra uma disparidade nos
aquisição de ferramentas, hora extra dos
custos decorrentes de falhas e manutenção
funcionários envolvidos e outros que não
preventiva, sendo esse tipo de manutenção
traduzem o valor correto. Nesse caso, é
sempre mais próximo do custo total, de tal
interessante considerar todos os encargos não
maneira que qualquer organização que busca
da atividade de manutenção em si, mas sim
alcançar o ponto ótimo deve tomar como
pela perda de produção, pelo não atendimento
parâmetro o custo com manutenção
ao cliente, em casos mais graves pela perda
preventiva, evitando ao máximo as falhas
de posição no mercado, todos relacionados
(KARDEC e CARVALHO, 2002).
pela não manutenção, ou por uma manutenção
deficiente.

Figura 1 – Custos x nível de manutenção.

Fonte: KARDEC e CARVALHO (2002).

O gráfico da Figura 1 mostra que investimentos oferece resposta no custo decorrente de falha,
em manutenção preventiva proporcionam uma apenas aumenta o custo total em manutenção.
redução em custos decorrentes de falhas.
Porém, a partir do ponto ótimo mais
investimento em manutenção preventiva não

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


152

2.4 ESTUDO DE VIABILIDADE TÉCNICA E expresso em unidades monetárias, com os


ECONÔMICA benefícios, também expressos em unidades
monetárias. Tanto os benefícios como os
Conforme Zago, Weise e Hornburg (2009) a
custos devem ser expressos em valores
análise de viabilidade econômico-financeira de
presentes. Uma dificuldade é não haver
um projeto trata de uma atividade
padronização na definição de custos e
desenvolvida pela engenharia econômica a fim
benefícios. As relações matemáticas utilizadas
de verificar a consistência de determinado
para sua estimativa e para o cálculo de VPL
investimento, bem como de seus benefícios
são:
esperados. Comparam-se ainda os custos
associados com a possibilidade de outros
investimentos ou aplicações como maneira de
justificar a implementação do projeto em
pauta. 𝐵
∑𝐵
(1+𝑑)𝑇
= ∑𝐶 (4)
𝐶
Nesse contexto, a avaliação de um projeto de (1+𝑑)𝑡
substituição do material da chapa superior em
tanques de armazenamento deve considerar
as demais alternativas de materiais existentes Onde B/C é o custo benefício do ativo
a fim de justificar a viabilidade do projeto avaliado, B é o benefício do ativo, d é taxa
inicial. O estudo de viabilidade para de atualização, T é a metade do tempo de
manutenção em tanques deve contemplar campanha, C é o custo do ativo, e t é o
duas vertentes, a viabilidade técnica e a MTTF.
viabilidade econômica. O risco de se FC
contemplar apenas uma das duas é VPL = (5)
(1+i)t
transformar o trabalho em estudo de materiais,
Onde: FC é fluxo de caixa, i é a taxa de juros
ou estudo econômico. Como descrito a seguir:
e t é o tempo de avaliação.
a) O estudo de viabilidade técnica tem como
intuito verificar a exequibilidade do projeto
segundo os critérios de manutenção. A
proposta de troca de material da tampa
3. METODOLOGIA DE PESQUISA
superior dos tanques deve ser acompanhada
dos seguintes estudos: compatibilidade de 3.1 CLASSIFICAÇÃO DA PESQUISA
material, tempo de execução, fornecedores de
material e confiabilidade, que pode ser Conforme a abordagem de Kauark, Manhães e
estimada através do modelo exponencial pelas Medeiros (2010), pode-se afirmar que o
seguintes equações: presente projeto de pesquisa se enquadra na
categoria quali-quantitativa. Isso se deve ao
fato de a pesquisa propor também uma análise
das informações numéricas aplicando
𝑅(𝑡) = 𝑒 −𝑡 (1)
conceitos de confiabilidade e manutenção. O
teor qualitativo se deve ao fato de se tratar de
um estudo de caso. Para o projeto, adotaram-
ℎ(𝑡) =  (2)
se ainda os parâmetros de classificação da
pesquisa apresentados por Vergara (2014),
1 que propõe dois critérios estruturais:
𝑀𝑇𝑇𝐹 = (3)

a) Quanto aos fins, é uma pesquisa
exploratória. Estudou-se o processo de troca
Onde R(t) é a confiabilidade, t é o período de da cobertura dos tanques, os fatores
vida útil do ativo, λ é a taxa de falha da tampa, predominantes para consumo das chapas e as
possibilidades de materiais substitutos, bem
h(t) é a função taxa de falha e MTTF (Mean
como o custo dos mesmos.
Time to Failure) é o tempo até a falha.
b) Quanto aos meios, é um estudo de caso.
b) O estudo de viabilidade econômica utiliza
Foram realizados dois estudos de caso em
duas ferramentas: a análise de custo benefício
tanques que sofreram alteração no projeto de
e o cálculo do valor presente líquido. O Método
material de sua tampa superior.
do Custo Benefício serve para avaliar o
impacto econômico líquido de um projeto. O
método relaciona os custos de um projeto,

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


153

3.2 TÉCNICAS DE COLETA DE DADOS Líquido do projeto). Os ensaios de medição de


espessura permitiram traçar curvas de
Uma vez feita análise prévia pelos setores de
confiabilidade e estimar vida residual da
engenharia da refinaria (EN), manutenção (MI)
tampa.
e operação (TE) dos possíveis materiais a
serem instalados nas coberturas dos tanques, 3.4 CARACTERIZAÇÃO DO UNIVERSO DE
testa-se os mesmos. Alguns materiais foram PESQUISA
testados, ou ainda estão em fase de instalação
O cenário da pesquisa foi uma refinaria
nos topos dos tanques, outros ainda estão em
localizada na Baixada Fluminense, a maior em
fase de projeto ou aquisição de material.
área física da companhia estudada. A gerência
Portanto uma das formas de coleta de dados
em que o estudo se desenvolveu foi a
foi no campo prático.
Transferência e Estocagem (TE). Este setor é o
A equipe técnica da Gerência de Transferência responsável pela custódia dos produtos finais
e Estocagem realizou estudos de fluxo e e pelo armazenamento de produtos
balanço de massa em um tanque para intermediários, os que ainda vão passar por
encontrar os valores de giro de estoque. alguma unidade de processamento. O setor
conta com um parque de armazenamento de
Foi realizada análise documental nos relatórios
238 tanques. A gerência se subdivide em
da Gerência de Inspeção de Equipamento (IE).
outras duas: Transferência e
Técnicos desta mesma gerência conduziram
Estocagem/Movimentação de Lubrificantes
os ensaios de medição de espessura nos
(TE/ML) e Transferência e
equipamentos, de posse destes dados é que
Estocagem/Movimentação de Combustíveis
foi possível traçar a curva de confiabilidade
(TE/MC).
dos tanques.
O ERP (Enterprise Resourse Planning) da
empresa foi a principal fonte de consulta dos 3.5 LIMITAÇÕES DO MÉTODO
preços praticados na refinaria. A gerência de
No estudo de escolha do material mais
Manutenção Industrial (MI) forneceu os valores
apropriado para cobertura do tanque de
de mão de obra e aluguel das máquinas de
armazenamento foi considerado que o mesmo
elevação de carga e compra de material.
armazena um produto específico, fato nem
A Gerência de Comercialização (CM) calculou sempre observado, mas que altera
o valor comercial do produto intermediário consideravelmente a curva de corrosão do
estocado em um dos tanques estudados, bem tanque. Entretanto, como foi dito
como forneceu os valores de produtos finais anteriormente, a alternância de produtos nos
envolvidos na análise. tanques pode mascarar a curva de corrosão.
Parte dos dados de pesquisa foi obtido de um Outro ponto de observação é referente aos
documento interno da companhia que se valores apresentados. Todo o custo de
chama SGM (Sistema de Gestão de Mudança), manutenção envolvido, bem como os gastos
além de entrevistas formais com gestores da na aquisição de materiais diz respeito aos
refinaria. valores praticados em uma das unidades da
companhia localizada no Rio de Janeiro,
portanto os valores de mão de obra e aluguel
3.3 PROCEDIMENTO DE ANÁLISE DE DADOS de máquinas são os praticados neste Estado.
A diferença de custo de manutenção em outras
Em se tratando de um estudo de viabilidade, a
regiões do país pode levar a conclusões
pesquisa apresenta um caráter amplo de
diferentes nas demais unidades da empresa,
análise e requer dados de diferentes vertentes,
ou em outras organizações fabris.
tanto quantitativos quanto qualitativos. Nesse
contexto, as informações são analisadas de O método de análise de custo-benefício para
forma estratificada a fim de alcançar os trade-off não considera aspectos técnicos para
objetivos propostos pelo trabalho. O projeto a decisão, sendo esses determinados pelo
ocorre em um tanque que teve sua tampa tomador de decisão, portanto considera-se
superior original (aço carbono) substituída por que as opções envolvidas no processo
aço inox AISI. decisório são as melhores e que já foram
avaliadas tecnicamente.
Concluída a fase de coleta de dados,
sucederam-ses análises técnica e econômica
(análise de Custo Benefício e Valor Presente
4. ESTUDO DE CASO

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


154

Os números que se seguem foram transcritos uma espessura aproximada de 30 mm; que
da entrevista realizada com o gerente de diminui à medida que vai se aproximando do
comunicação da refinaria, a entrevista teve por último anel. O diâmetro do tanque é muito
base o questionário elaborados pelos autores. variável, dependendo do volume que deverá
ser estocado, que por sinal deve estar atrelado
O cenário da pesquisa foi a refinaria localizada
à vazão entre unidades. Os tanques
na baixada fluminense. Atualmente a refinaria
classificados como maracanã têm um diâmetro
conta com um portfólio de 55 produtos
de 85m e capacidade de armazenamento de
processados em 43 unidades. Responsável
70000 m³. Tanques menores têm um diâmetro
por 80% da produção nacional de
de 40m.
lubrificantes, a refinaria processa 240 mil barris
de petróleo por dia. Simultaneamente, A proposta é traduzir em termos de
processa 74 mil barris de líquido de gás confiabilidade os ganhos auferidos pela troca
natural. Essa produção abastece o mercado de material empregado na tampa superior do
diariamente com 314 mil barris de óleo tanque e verificar se a solução é viável
equivalente. Seus principais produtos são: óleo economicamente. O histórico levantado na
diesel, gasolina, querosene de aviação (QAV), refinaria apontou que algumas famílias de
asfalto, nafta petroquímica, gases tanques apresentam corrosão avançada em
petroquímicos (etano, propano e propeno), seus tetos. A corrosão é um processo natural,
parafinas, lubrificantes, GLP, coque e enxofre. contudo, é observado que determinados
Estes atendem aos mercados do Rio de tanques não conseguem cumprir seu tempo de
Janeiro, São Paulo, Espírito Santo, Minas campanha que são 20 anos sem que seus
Gerais, Bahia, Ceará, Paraná e Rio Grande do tetos sejam condenados, causando problemas
Sul. tais como: insegurança operacional, perda por
evaporação, contaminação ambiental, produto
contaminado por água e redução da
4.1 POPULAÇÃO DE TANQUES flexibilidade operacional.
A refinaria conta com dois parques de tanques, Uma das questões levantadas no estudo foi o
um de lubrificante e um de combustíveis. Os fato das chapas de aço carbono que sempre
tanques na sua maioria são fabricados com foram empregadas na estrutura do tanque, não
chapas de aço carbono, muito embora seja suportarem mais o tempo de campanha do
comum encontrar tanques de outros materiais, equipamento. Para averiguação da causa foi
como alumínio e aço inox. A altura mais proposto um brainstorming com elaboração do
encontrada na indústria está entre 15 m e 20 diagrama de Ishikawa entre as Gerências de
m. As chapas que formam o primeiro anel tem Manutenção, Inspeção e Operação como
mostra a Figura 2.

Figura 2 – Diagrama de Ishikawa.

Fonte: Gerência de Manutenção, Inspeção e Operação.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


155

No intuito de resolver o problema propostas 20 anos, deveria se pintar o teto por pelo
foram apresentadas ao longo dos anos. Na menos três vezes. O alto custo do serviço de
implementação destas soluções predominou o pintura não justificou o investimento;
empirismo, muito tradicional no ambiente de
Aço Inox: essa é uma alternativa mais
fábrica da empresa. Praticamente nenhuma
moderna, implementada principalmente pela
solução foi precedida de estudo para
significativa redução de preço nos últimos
avaliação. A falta de método elevou os custos
anos. O foco do estudo repousa sobre esta
de manutenção além de revelar a ineficiência
solução. O estudo de caso que se segue é
de algumas propostas. As quatro propostas
referente ao tanque em que o aço inox foi
que efetivamente foram aplicadas nos
aplicado.
tanques:
ZERUST, também chamado de inibidor de
corrosão volátil, ou simplesmente VCI (Volatile 4.3 AVALIAÇÃO CUSTO-BENEFÍCIO DO
Corrosion Inhibitor); TANQUE
Aço Carbono, convencionou-se que a cada Como forma de entender os custos associados
término de campanha deveria se trocar a na estocagem e justificar a execução do tempo
tampa superior (20 anos). Entretanto este de campanha será apresentado uma
material empregado é exatamente o original do estimativa dos valores envolvidos no
tanque, ou seja, não vai suportar 20 anos de armazenamento de um produto intermediário.
operação sem romper. Esta foi uma medida O produto armazenado é o gasóleo, que gera
quando ainda não se sabia a melhor forma de o GLP e a gasolina. O gasóleo fica armazenado
atacar a causa básica; em um parque composto por quatro tanques,
dentre os quais o tanque que recentemente
Pintura, método tradicional de se proteger a
teve seu teto substituído por aço inox, possui
chapa, porém observou-se que as mesmas
as seguintes características de ativo,
devem ser feitas num período não superior a 8
mostradas na Tabela 2, fornecida pela
anos (recomendação da gerência de IE), isto
Gerência de Comercialização.
é, considerando um tempo de campanha de

TABELA 3 – Resumo de dados do gasóleo.


Operação Valor
Capacidade de
4.586 m³
armazenamento
Volume de expedição diário 7.500 m³
Giro diário 1,6
Giro anual 584
Volume armazenado por ano 2.678.224 m³
Valor estocado por ano R$ 2.450.574.960,00
Fonte: Gerência de Comercialização.

Uma observação sobre o valor agregado do O principal método de ensaio realizado na


produto (R$ 915,00/m³) deve ser feita. Os tampa superior do tanque é a medição de
valores utilizados para faturamento de espessura, que representa hoje o principal
produtos acabados são bem conhecidos e indicador para substituição do material da
calculados, porém, as correntes tampa superior, ou seja, qualquer tanque que
intermediárias, isto é, aquelas que só existem apresente uma taxa de corrosão superior a 0,2
no âmbito da refinaria, não possuem um valor mm/ano deve ter seu teto substituído pois a
consagrado. O método utilizado para se vida residual das chapas não permitirão que o
estimar o valor do gasóleo foi o seu rendimento tanque cumpra o tempo de campanha.
de produtos finais – gasolina e GLP. Sabe-se
A medição de espessura consiste numa
que 1 m³ de gasóleo rende 55% de gasolina e
varredura realizada no teto do tanque onde em
15% de GLP, os outros 30% pode-se
um ponto são realizadas quatro medições. Um
considerar como resíduo.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


156

ponto compreende uma região de 300 mm x Utilizando a distribuição exponencial para


300 mm. Das quatro medições considera-se o traçar a curva de confiabilidade, encontramos
valor de menor espessura e descartam-se os o gráfico presente na Figura 3. A análise
demais. Para efeitos de estudo será gráfica mostra que uma elevada taxa de
considerado defeito o ponto em que for corrosão reduziu significativamente o tempo
observada redução da espessura da chapa, e de operação do tanque.
falha, quando a redução for superior a 0,2
mm/ano.

Figura 3: Curva de confiabilidade do TQ-266.

1.0

0.8

0.6
R(t)

0.4

0.2

0.0
0.0 1.0 2.0 3.0
t: tempo

Fonte: os autores

A curva apresentada na figura 3 indica que o preço de Aço Inox AISI ser mais baixo são:
após três anos de operação o tanque teve a redução da espessura da chapa e a ausência
confiabilidade de seu teto reduzida do custo relacionado à pintura, uma vez que
consideravelmente. Este equipamento esteve neste tipo de aço não é feito nenhum
em manutenção no ano de 2009, quando seu tratamento de superfície. Desta forma a análise
teto foi totalmente reformado com aço carbono. econômica é apresentada pela Tabela 5. Na
primeira linha é mostrado o valor total de
Em 2012, durante a medição de espessura,
construção do tanque. Separou-se no valor
foram identificados três pontos em falha por
total do tanque todos os custos referentes ao
apresentarem taxa de corrosão superior a 0,2
teto e seus componentes, esta segregação de
mm/ano. Na ocasião decidiu-se substituir as
custos mostrou que a tampa superior do
chapas do teto por aço inox uma vez que a
tanque representa 9,38% do valor total. O
vida residual não permitiria o tanque cumprir o
benefício do ativo nada mais é do que o valor
tempo de operação até a próxima intervenção.
financeiro que o tanque movimenta no período
A troca do teto ocorreu em 2015, permitindo o
de 1 ano. Ensaios de medição de espessura
equipamento voltar a operar a partir de janeiro
realizados durante o estudo em 2008 pela
de 2016. Até outubro de 2017, momento de
Gerência de Inspeção de Equipamentos
conclusão deste estudo não foi realizada
indicaram um MTTF de 8 anos para as tampas
medição de espessura devido ao curto
dos tanques.
intervalo de campanha.
O horizonte de benefício escolhido representa
Em 2008 a Gerência de Inspeção de
metade do tempo de campanha do tanque. Em
Equipamentos realizou um estudo em alguns
um cenário pessimista significa que o aço inox
equipamentos estáticos que apresentavam
pode não suportar as condições de projeto e
problemas de corrosão avançada. O estudo
falhar após cumprido metade do tempo
apresentou uma classificação da taxa de
previsto. O benefício da tampa representa
corrosão como um de seus resultados.
9,38% do valor movimentado pelo tanque em 1
Os custos de manutenção associados na troca ano. O custo representa o valor consumido na
de material da chapa estão ilustrados na substituição da tampa superior por aço inox.
Tabela 5. As principais alterações que fizeram

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


157

TABELA 5: Análise econômica para o tanque Gasóleo


Taxa de Corrosão (A) mm/ano Classificação
Custo do Ativo TQ (100% utilização) R$ 35.911.174,32
Custo da Tampa (9,38% do benefício do ativo) R$ 3.369.224,98
Benefício do Ativo (em 1 ano) R$ 2.450.574.960,00
Taxa (i) a.a 12%
MTTF (anos) 8
Horizonte do benefício (anos) 10
Benefício da tampa (R$) R$ 20.523.565,29
Custo (R$) R$ 449.091,18
B/C 45,70
VPL R$ 989.746.125,30
Fonte: os autores
A análise de custo benefício do projeto foi avaliar sob o enfoque econômico a
corresponde a 45,7 e o valor presente líquido, viabilidade da alteração de material na chapa
R$ 989.746.125,30. Os dois indicadores superior. Foi utilizado o método VPL (Valor
apontam para aceitação do projeto. Presente Líquido) e a análise de Custo
Benefício como forma de justificar, ou não,
quantitativamente a decisão tomada pelos
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS responsáveis pela manutenção de tanques da
companhia.
O método financeiro com utilização do
indicador custo-benefício e valor presente A aplicação do método financeiro (Custo
líquido mostrou-se adequado para aceitação Benefício e Valor Presente Líquido) aponta que
do projeto de se trabalhar com chapas de inox. a utilização do material inox é interessante
Primeiramente procurou-se encontrar um economicamente sob o enfoque de gestão de
material que, dadas às condições atuais, ativos e confiabilidade industrial.
permitisse ao tanque operar pelo tempo de
O método desenvolvido é simples e válido para
vida útil preservando o produto armazenado. O
a gestão e decisão sobre ativos de alto valor
revestimento com chapa de inox se mostrou
agregado como o caso da área de tancagem.
como alternativa possível. A comprovação da
Os valores de Custo Beneficio obtidos se
resistência mecânica do material foi avaliada
justificaram devido o valor agregado do
por ensaios de Medição de Espessura nas
produto armazenado e a grande capacidade
chapas trocadas, o que revelou baixas taxas
de armazenagem dos ativos avaliados.
de corrosão.
Recomenda-se para trabalhos futuros a análise
A solução encontrada alterou
completa para todos os ativos da empresa
significativamente os custos praticados até
estudada através de estimativa de
então na manutenção de tanques, visto que o
manutenção corretiva. Evidenciando o ganho
inox é um material de maior valor agregado.
com o esforço prioritário a esse tipo de ativo.
Deu-se início à segunda fase do projeto, que

REFERÊNCIAS
[1]. ABENSUR, E. O. A substituição de bens de [3]. CARDOSO, L. C. S. Logística do Petróleo
capital: um modelo de otimização sob a óptica da Transporte e Armazenamento. Rio de Janeiro:
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p.525-38, 2015
[4]. DOHI, T. et al. Optimal control of preventive
[2]. ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DE NORMAS maintenance schedule and safety stocks in an
TÉCNICAS. NBR 5462: Confiabilidade e unreliable manufacturing enviroment. International
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2001.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


158

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Journal of Quality in Maintenance Engineering, v.12, Confiabilidade de Motopropulsores da Aeronave C-
n. 3, p.205- 38, 2006. 130 Hércules da Força Aérea. In: VIII Simpósio de
Engenharia de Produção em Sergipe, 2016,
[6]. KARDEC, A.; CARVALHO, C. Gestão
estratégica e terceirização. Rio de Janeiro: [10]. VERGARA, S. C. Projetos e relatórios de
Qualitymark, 2002. pesquisa em administração. 15 ed. São Paulo: Atlas,
2014.
[7]. KAUARK, F. S.; MANHÃES, F. C.;
MEDEIROS, C. H. Metodologia da pesquisa: um [11]. YIN, R. K. Estudo de caso: planejamento e
guia prático. 2. ed. Itabuna-BA: Via Litterarum, 2010. métodos. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2005.
v. 01. 96p.
[12]. ZAGO, C. A.; WEISE, A. D.; HORNBURG, R.
[8]. MARCORIN, W. R.; LIMA, C. R. Análise dos A. A Importância do Estudo de Viabilidade
Custos de Manutenção e de Não-manutenção de Econômica de Projetos nas Organizações
Equipamentos Produtivos. Revista de Ciência e Contemporâneas. Congresso Virtual Brasileiro de
Tecnologia, v.11, n.22, p.35-42, 2003. Administração, VI., 2009.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


159

Capítulo 15
ESTOQUES DE PALLETS: UMA ANÁLISE VISANDO A
REDUÇÃO DE CUSTOS EM UMA EMPRESA DE PAPEL E
CELULOSE
Fernando Cesar Mendonça
Ivana Salvagni Rotta

Resumo: Cada vez mais, o estudo de gerenciamento de estoques torna-se relevante


para as empresas, uma vez que através dessa gestão logística pode-se controlar o
nível desse ativo a fim de atender pedidos de compras e de produção. Com o
demasiado número de itens com diferentes padrões de demanda e características
personalizadas para os clientes alvos, a complexidade na administração de materiais
aumenta devido à necessidade de controle diferenciado. Diante deste contexto, o
objetivo principal do estudo foi analisar e propor uma melhor distribuição para os
pallets/tampas, que estão sendo mal aproveitados na empresa do ramo de celulose.
Realizou-se tanto análise qualitativa quanto comparações quantitativas para buscar
opções mais adequadas para a utilização do mesmo, e assim foi definido entregar
uma parte dos pallets para um setor da empresa X e o restante foi vendido como
sucata para uma empresa recicladora.

Palavras chave: Controle de estoque, Pallets, Papel e celulose.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


160

1. INTRODUÇÃO estoque, devido a modificações no formato


destes realizadas para adequar-se ao novo
Atualmente, as empresas investem cada vez
estilo de gestão, ficando então sem um bom
mais em uma boa gestão de estoques visando
aproveitamento desta sobra. Essa quantidade
obter o sucesso operacional.
de pallets dificulta a movimentação no
De acordo Nakagawa (2010) para uma armazém, já que neste, o fluxo de produtos é
empresa ser competitiva no mercado é demasiadamente grande e muitas vezes
necessário utilizar seus recursos de forma devido à sazonalidade, os produtos de
eficiente e eficaz em termos de custos, diferentes formatos, sendo usais ou não, ficam
qualidade, função e prazos. Relacionando esta quase sobrepostos em virtude da quantidade
afirmação ao armazenamento, é preciso existir versus capacidade do local, além de dificultar
uma boa gestão para que não tenha alto nível o trabalho dos colaboradores da organização
de produtos no galpão, fazendo com que que muitas vezes possuem atividades
exista muito investimento parado sem redobrados para alocar os pallets de formato
necessidade. usuais hoje no galpão.
Para Ballou (2006), o estoque representa o Sendo assim, esse artigo tem como objetivo
acumulo de produtos, de matéria-prima que analisar e propor uma melhor distribuição para
surgem em numerosos pontos do canal de os pallets e tampas, que estão sendo mal
produção e logística das empresas, por isso aproveitados na empresa do ramo de celulose.
deve-se administrar de maneira eficaz. E é por Para isto, os dados foram coletados a partir de
este motivo que o profissional da gestão de observação direta e participativa na empresa.
estoques está cada vez mais requisitado e
valorizado. “A função está passando por um
processo de transformação de modo a ajustar 2. ESTUDO DE CASO
a tarefa - e seus responsáveis - a uma nova era
2.1. EMPRESA Β
no mundo dos negócios” (Sampaio, 2004,
apud MATTAR et al., 2009, p. 21): A empresa β analisada está localizada no
interior de São Paulo, e tem como capacidade
De fato, de acordo com Ballou (2006) a
de produção de papel não revestido 440 mil
despesa que o estoque gera para a
toneladas anuais. Isso mostra que o fluxo de
organização representa de 20% a 40% dos
materiais na organização é alto, já que a
seus custos totais anuais. Para Ching (2001)
indústria produz de sua total capacidade,
estes custos se dão ao fato de que quanto
fazendo com que seja interessante para a
maior à quantidade estocada maior será o
mesma, ter espaços de armazenamento de
custo de manutenção dos itens.
curto a médio prazo, para atender a demanda
O mercado de papel e celulose sofre com e as oscilações que podem surgir no mercado
sazonalidades, como por exemplo, a época de e também por existir políticas de estoque
“voltas às aulas”, o que exige uma cadeia estratégico na mesma.
logística eficiente para obter uma vantagem
Esta possui diferentes almoxarifados, sendo
competitiva que garantirá predomínio em
que no número 1 encontram-se tanto material
relação aos concorrentes, principalmente
de embalagem como produto acabado. Pode-
buscando um sincronismo entre a oferta e
se observar que esse processo é recente, pois
demanda. A companhia poderá aumentar a
os produtos diferentes não eram colocados no
rotatividade do estoque, assim haverá mais
mesmo armazém. Esse procedimento foi
ativos e por fim conseguirá economizar no
ocasionado, entre outros fatores, pela
custo de manutenção dos itens. Da mesma
demanda pela mercadoria na organização
forma, ela terá uma maior competitividade para
oscilar, fazendo com que se necessite
manter-se no mercado, pois adotando uma
armazéns para estocar os materiais
estratégia de melhor eficiência no estoque,
temporariamente, e também armazenamento
terá uma vantagem competitiva perante as
de estoque de segurança de celulose durante
demais empresas.
manutenções programadas que acontecem
No entanto, apesar da grande quantidade de durante todo ano. Na figura 1 abaixo, pode-se
empresas nesse ramo, o tema relativo a gestão observar que no lado esquerdo encontram-se
de estoques tem sido pouco em empresas de os produtos acabados, e no lado direito os
papel e celulose. pallets e tampas.
A empresa analisada no estudo de caso possui
um grande volume de pallets sem utilidade no

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


161

Figura1: Produtos estocados no mesmo armazém.

Fonte: NAZAR (2016)

A flecha ilustra o caminho das faixas Já na figura 2, tem-se uma das baias de um
sinalizadoras no chão, nitidamente nota-se que modelo desativado estocado. É de fácil
existem produtos que estão ultrapassando a percepção que a pilha do mesmo ultrapassa a
margem de segurança. margem de segurança adotada na empresa.

Figura 2: Pallet/tampa desativado ultrapassando margem de segurança

Fonte: NAZAR (2016)

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


162

A empresa β, modificou, por razões cujo modelo tornou-se des.20. A figura 3


estratégicas, um palltet anteriormente utilizado compara o modelo des.02 e o modelo de.20,
denominado modelo des.02 por semelhante substituto do des.2:

Figura 3 – Modelos de pallet e tampa

Modelo pallet e tampa des.02 Modelo pallet e tampa des.20

Fonte: Adaptado da empresa α (2012)

Observando a figura 3 e no quadro 1, nota-se A tabela 1 apresenta os pallets/tampas


que o pallet des.02 possui material mais fumigados, onde os materiais são destinados
reforçado devido às dimensões se comparado
ao des.20.

Quadro 1: Pallets
MATERIAL ANTERIOR ATUAL
Liga-tocos inferiores e
25mm 19mm
superiores

largura (B) com bitolas largura (B) com bitolas


100x25mm e 75x19mm e comprimento
Travessas (A)” com bitolas 75x19mm;
comprimento (A) com
bitolas 50x25mm

75x75x100mm(x3) e
Tocos 100x100x90mm (x9);
110x75x100mm(x6);
Chapa fechamento em
duratex 3mm MR 5mm;
compensado
Eucalipto
Madeira Pinho

Fonte: Elaboração Própria

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


163

Tabela 1: Pallets/tampas des. 02 não fumigados na empresa β

Fonte: NAZAR (2016)

A tabela acima, contém informações sobre mercado interno, na coluna material especifica
todos os pallets que não estão sendo mais o formato deste, “qtdd” diz respeito à
utilizados na empresa para mercado interno, quantidade que há na empresa de cada item.
considerando clientes do próprio país. Para Já na coluna des. 20 é denominado se o sku
diferenciar um pallet de mercado interno com (definido como um identificador único de
um do mercado externo é utilizado um determinado material/produto) tem
carimbo, que mostra os pallets que recebem correspondente no novo modelo adotado pela
um tratamento especial na madeira (tratamento empresa, que neste caso é o desenho 20.
químico) para exportar a outros países. Estes
Já a tabela 2, apresenta os pallets/tampas
pallets recebem o nome de fumigado, já os do
fumigados, onde os materiais são destinados
mercado interno são os não fumigados. Ainda
para o mercado externo. Na coluna do código
é apresentada uma coluna denominada
do material está seguido de uma nomenclatura
“código do material”, que é mecanismo
“IPEX”, mostrando também que são clientes de
utilizado para rastrear o mesmo dentro da
mercado externo.
empresa seguido de uma nomenclatura
MGI01”, que significa que é clientes de

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


164

Tabela 2: Pallets/tampas des.02 fumigados na empresa β

Fonte: NAZAR (2016)

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


165

Na Tabela 3 consta as informações de das Tabelas anteriores que localiza-se na


quantidades, de modo simplificado dos itens organização.

Tabela 3: Quantidade de material des.02 na empresa β


Tipo Palete Tampa
Fumigado 307 680

Não fumigado 97 18

Total 404 698


Fonte: NAZAR (2016)
Agrupando as informações, sendo a coluna que são os formatos correspondentes ao des.
“des. 20” com a qtdd”, têm-se a Tabela 4, que 20, que corresponde a um percentual total de
mostra os materiais potenciais de consumo, 39,4%.

Tabela 4: Potencial de consumo (correspondentes com o des.20) - Pallet/tampa des. 02.


Tipo Palete Tampa
Fumigado 136 274

Não fumigado 13 12

Total 149 286


Fonte: Adaptado de NAZAR(2016).

2.2. ANÁLISE DOS DADOS uma pesquisa dos custos de requisitar estes
materiais com o fornecedor. Na tabela 5 têm-
Foi-se realizado um estudo para saber o custo
se uma coluna denominada “custo”, onde
de oportunidade que estes pallets geram para
mostra o custo de comprar cada item obsoleto
a organização. O primeiro passo foi realizar
no mercado interno.

Tabela 5: Custos dos pallets e tampas não fumigados.

Fonte: Adaptado de NAZAR (2016).

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


166

A tabela 6, a seguir têm-se também a coluna denominada “custo”, que apresenta o custo de compra
de cada item obsoleto no mercado externo.
Tabela 6: Custos dos pallets e tampas fumigados.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


167

Fonte: Adaptado de NAZAR (2016).


Somando os custos totais das últimas tabelas terceiro ponto chave tem-se o custo de manter
obtém-se um valor de aproximadamente o material em um mês no local, no qual é o
R$ 14,5 mil, no qual a organização possui um aluguel por armazená-lo no espaço físico,
capital sem gerar nenhum retorno. análogo uma quantia de R$ 9,46 cada tonelada
também.
Posteriormente, realizou-se uma análise para
saber o real custo de oportunidade que a Analisando as baias ocupadas por estes
empresa possui perante estes itens estocados. paletes/tampas, têm-se uma capacidade para
A fábrica do interior de São Paulo consegue armazenamento de 72 toneladas (ton) de
armazenar 4 mil toneladas de papel acabado, papel acabado cada, totalizando em 144
o excedente é estocado em armazéns toneladas, gerando um custo mensal de
alugados, por isso foi interessante calcular o oportunidade para a companhia de
custo de oportunidade que a empresa tem se R$1.963,44 cada baia, totalizando R$3.926,88,
o produto de papel acabado utilizar as baias devido à necessidade de alugar um armazém
dos pallets obsoletos. externo para a estocagem. Assim o custo
gerado com esses materiais de embalagens
Há três custos relacionados com o armazém
anual desde que se encontram no
externo, o primeiro é o custo de transferência
almoxarifado 1 é de R$ 47.122,56 salvo que é
do material, no qual é o custo que a empresa
uma análise realizada entre janeiro a dezembro
terá por transportá-lo até outro local,
em que é um período que a organização
equivalente a R$ 7,72 por tonelada de papel
justifica seus possíveis gastos.
acabado. O segundo custo é denominado
como headling, que abrange todos os serviços Resumidamente, na tabela 7 mostra o que foi
prestados pelo armazenamento no local dito anteriormente, considerando o custo
externo, como por exemplo, salários de padrão de armazenamento externo pelas
funcionários, manutenções, sendo um custo de empresas terceiras, têm-se:
R$10,09 cada tonelada. E também como

Tabela 7: Custos envolvidos para alugar um armazém externo.


Vol Total - duas baias
Armazém Externo Taxa (R$/ton)
(ton) (R$)

Transferência 7,72 144 1.111,68

Handling 10,09 144 1.452,96


Vira mês 9,46 144 1.362,24
Total 27,72 144 3.926,88
Considerando custo anual têm-se 47.122,56
Fonte: Adaptado de NAZAR (2016)

4. DISCUSSÃO DOS RESULTADOS Na tabela 8 segue linhas em destaque e mostra


todos os pallets que podem ser reaproveitados
Uma opção seria utilizar os pallets para
como produtos intermediários na produção,
suporte aos produtos intermediários (P.I.) nos
especificamente no setor de acabamento da
processos produtivos, como estoque
empresa.
intermediário e até mesmo transporte de
motores, peças no setor de acabamento.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


168

Tabela 8: Pallets aproveitados para suporte dos P.I.

Fonte: Adaptado de NAZAR (2016).

Comparando a quantidade de material tanto eliminação do mesmo, vendendo-o como


fumigado quanto de não fumigado (tabelas 3 e sucata para empresas de reciclagem de
4) com tabela 6, de 1102 materiais (987+115), pallets, utilizando-o em produções de novos
é possível usufruir 129 paletts que materiais, no qual requisitam estes mesmos
corresponde a aproximadamente 11,7% por um preço de R$ 0,01 o kilograma (kg) de
equivalente a um capital de giro de material. Os pallets obsoletos, com exceção
R$ 2.948,72 ou um reaproveitamento de dos pallets que podem ser utilizados pelo setor
20,34% do recurso investido anteriormente. de acabamento, têm-se um capital de giro
para a empresa em questão de R$ 60,92,
Outra opção seria a vendados produtos
devido a massa de cada item, no qual um
estocados, caso possuíssem mercado/cliente
pallets possui 12 kg e uma tampa 4 kg
para os materiais, mas por tratar-se de
aproximadamente, como é descrito na tabela
materiais personalizados para a empresa β,
9.
apenas haveria opção de venda baseada na

Tabela 9: Capital de giro com a venda por meio de sucata.


Material Quantidade Massa (Kg) Valor de venda (R$/Kg) Capital de giro (R$)
Pallet 275 12 0,01 33,00
Tampa 698 4 0,01 27,92
TOTAL 60,92
Fonte: Adaptado de NAZAR (2016).

Resumidamente, a figura 4 apresenta as


possíveis soluções encontradas para um
melhor reaproveitando dos pallets.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


169

Figura 3: Possíveis soluções para os materiais obsoletos.

Fonte: Autoria própria

5. CONCLUSÕES produto acabado, ou venda. Todas possuem


pós e contras. Cabe assim, a empresa β
Foram encontradas algumas três soluções
analisá-las, verificando a solução mais viável
para os materiais considerados obsoletos pela
para o reaproveitamento dos pallets.
empresa β: o consumo - acabamento ou

REFERÊNCIAS
[1]. ALT, P.R.C; MARTINS, P.G. Administração [6]. NAZAR, J. R. Análise de estoque: o caso
de Materiais e Recursos Patrimoniais. 3. ed. São dos paletes em uma empresa de papel e celulose.
Paulo: Saraiva, 2009. 441 p. FHO/UniAraras. Trabalho de Conclusão de Curso.
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2009. 21 p.
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Produção: edição compactada. São Paulo: Atlas,
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2007. 747 p.
São Paulo: Atlas, 2001. 194 p.
[5]. NAKAGAWA, M. Gestão Estratégica de
Custos: conceitos, sistemas e implementação
JIT/TQC. São Paulo: Atlas, 2010. 111 p.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


170

Capítulo 16
ANÁLISE DE MANUAIS DE TREINAMENTO DE
INTEGRAÇÃO DE INDÚSTRIAS BRASILEIRAS
Alice Alves Oliveira
Carlos Alberto Serra Negra

Resumo: Na maioria das vezes a contratação de um novo empregado é realizada às


pressas e nem sempre há tempo para integrar o funcionário na equipe de trabalho
da empresa. Esta situação causa uma série de problemas de assentamento e
desenvolvimento de empregados nas empresas. O objetivo geral da pesquisa foi o
de analisar aspectos técnicos dos manuais de treinamento de integração de
industruas brasileiras. Metodologicamente trata-se de pesquisa exploratória com
procedimentos bilbiográficos e documental em manuais de cinco indústrias
brasileiras utilizaando a pesquisa qualitativa com aplciação de técnica de análise de
conteúdo aos moldes preconizados por Bardim. Os resultados foram apurados pela
tabulação de dados qualitiativos com reação aos aspectos de elementos
estruturantes dos manuais, bem como elementos de identidade organizacional,
normas das empresas e aspectos trabalhistas. O estudo é conclusivo no que diz
respeito a um conjunto de informações necessárias a todos os manuais de
integração e alguns itens especificos dependendo da particualridade de cada
indústria.

Palavras-chave: Indústrias. Gestão de Pessoas. Treinamento de Integração.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


171

1. INTRODUÇÃO Segundo Dutra (2009, p. 101) a questão do


desenvolvimento das pessoas na organização
Não há como negar que as pessoas
moderna é fundamental para a manutenção
constituem o alicerce das organizações quer
e/ou ampliação de seu diferencial competitivo
porque proporcionam um diferencial
[...] as organizações estão percebendo a
competitivo, quer porque se tornam um
necessidade de estimular e apoiar o contínuo
precioso ativo intelectual. Os empreagados
desenvolvimento das pessoas, como forma de
acabam por ser parte significante do sucesso
manter suas vantagens competitivas.
ou o fracasso das empresas. Diante desta
concepção, a Gestão de Pessoas passou a O estudo é viável e oportuno. È viável por ser
estar direcionada para consecução dos do interesse das organizalções estudas como
objetivos da organização, com a função forma de ampliar e melhorar seu treinamento
precípua de alinhar as pessoas as estratégias de integração e para as demais empresas
da empresa. como roteiro para sua elaboração e aplicação.
Hoje as organizações têm que estar atualizada É oportuno, considerando-se o momento das
no mercado e para isso um dos pontos empresas que além de sbucarem
principais é a capacitação de seu funcionário, competitividade atuam em mercados
a qualidade que o funcionário tem em exercer altamente especializados e comncorrneter;
suas funções, e nessas horas que um Também se observa uma preocupação
treinamento é importante, ele aumenta o crescente por parte da administração e por
conhecimento, melhora a habilidade, muda as parte dos próprios servidores com o tema aqui
atitudes negativas e tem um bom abordado. Verifica-se o interesse da
relacionamento com os clientes internos e administração em ampliar as oportunidades de
externos (CHIAVENATO, 2009, p. 340) capacitação para o
Chiavenato (2009, p. 388), “afirma que antes O objetivo geral da pesquisa foi o de analisar
alguns especialistas em Recursos Humanos estrutura e aspectos de identidade, normas da
consideravam o treinamento como meio para empresa e relaçoes trabalhistas contidas em
adequar cada pessoa ao seu cargo, e com manuais de treinamento de integração de
isso, desenvolver a força de trabalho na industruas brasileiras.
organização a partir dos cargos ocupados”.
Complementa essa ideia Teófilo et al. (2013)
que na área de Recursos Humanos o 2. FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICA
treinamento consiste no método de
2.1 CONCEITOS E CARACTERÍSTICAS DE
desenvolvimento da qualidade para capacitá-
TREINAMENTOS
los, aumentando a produtividade do indivíduo
onde com isso o mesmo irá colaborar da Segundo Dutra (2009), o desenvolvimento da
melhor forma para obtenção dos objetivos organização está diretamente relacionado a
organizacionais. Ampliar a capacidade sua capacidade de desenvolver pessoas e ser
produtiva dos indivíduos em suas funções, desenvolvida por pessoas. Treinamento é o
instigando suas condutas, sendo esta a aperfeiçoamento de desempenho, prepara o
finalidade do treinamento. empregado exercer suas atividades e a inovar
em seu serviço. Com as constantes mudanças
Esta situação certamente é a ideal. Afinal, um
no mercado, o treinamento deve ser aplicado
dos indicadores da necessidade de
sempre que tem uma necessidade de melhoria
treinamento, a priori apontados por Chiavenato
do colaborador.
(1999), é a admissão de novos funcionários.
Realmente, é notável que o servidor ao entrar Para Chiavenato (2009, p. 389), treinamento é
em exercício não disponha dos conhecimentos o processo educacional focado no curto prazo
necessários para desempenhar o seu papel e aplicado de maneira sistemática e
organizacional, evidenciando-se a organizada através do qual as pessoas
necessidade de um treinamento eficaz nesse aprendem conhecimentos, habilidades e
momento. competências em função de objetivos
definidos.
Assim, apresenta-se a seguinte pergunta de
pesquisa: como se apresenta a análise de O treinamento na sua história é retratado por
estrutura e aspectos de identidade, normas da três fases de evolução, sendo que a primeira
empresa e relaçoes trabalhistas contidas em delas enfatiza o homem objeto, que era
manuais de treinamento de integração de representado por um instrumento onde o
industruas brasileiras? objetivo principal era produtividade, nesta fase

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


172

o colaborador não tinha identificação com a b) Dar oportunidades para o contínuo


organização, o treinamento era considerado desenvolvimento pessoal, não apenas no
como um adestramento. Na segunda fase, já cargo atualmente ocupado, mas também em
com a integração do indivíduo com a outros que o indivíduo possa vir a exercer; c)
organização, o homem era visto como recurso Mudar a atitude das pessoas, a fim de criar
adicional, a maior preocupação nesse período entre elas um clima mais satisfatório,
era o aprimoramento de suas habilidades. A aumentando-lhes a motivação e tornando-as
terceira e atual fase, mostra o homem como mais receptivas as técnicas de supervisão e
indivíduo complexo, capaz de expressar gestão. (TACHIZAWA, FERREIRA, FORTUNA,
atitudes e comportamento em sua totalidade 2006, p. 220 a 221).
social, política, familiar e profissional de
Falar de treinamento é falar do processo
maneira crítica e reflexiva (RODRIGUES;
preparatório para desenvolver habilidades,
FREITAS, 2017)
conhecimentos, atitudes e comportamentos
Conforme Chiavenato (2004, p.340 - 342), nos colaboradores de uma organização. O
existem algumas etapas fundamentais para treinamento é uma maneira eficaz de agregar
que o treinamento atinja seu objetivo central e valor ás pessoas, á organização e aos clientes.
agregue valor à empresa. Entre eles podemos Por isso pessoas treinadas aumentam a
identificar: produtividade e o lucro da organização
(SALLES; FARIA, 2013, p. 6).
Diagnostico. É o levantamento de
necessidades de treinamento a serem O investimento em treinamento e
satisfeitas. Essas necessidades podem ser desenvolvimento de pessoas é importante
passadas, presentes ou futuras. para a organização manter e/ou ampliar sua
vantagem competitiva. Algumas empresas
Desenho. É a elaboração do programa de
percebem a necessidade de estimular e apoiar
treinamento para atender as necessidades
o contínuo desenvolvimento de seus
diagnosticadas.
funcionários para atingir seus objetivos e
Implementação é a aplicação e condução do consolidar suas estratégias. Além disso, as
programa de treinamento. empresas estão cada vez mais pressionadas,
tanto pelo ambiente externo quanto pelas
Avaliação. É a verificação dos resultados
pessoas com as quais mantêm relações de
obrigados com o treinamento.
trabalho para investir no desenvolvimento
O treinamento dentro de uma empresa poderá humano. (FROEHLICH; SCHERER, 2013,p.
objetivar tanto a preparação do empregado o 138).
desempenho de suas atividades que virá a
O assunto que envolve treinamento é tão
executar, quanto ao desenvolvimento de suas
amplo e complexo que até mesmo os autores
potencialidades para o melhor desempenho
acabam tendo visões diferenciadas dessa
das que já executa.
atividade da área de recursos humanos. O
Os principais objetivos do treinamento são: a) quadro 1 explora os principais conceitos
Preparar as pessoas para a execução imediata relacionados a treinamento e os pontos chaves
das diversas tarefas peculiares a organização; abordados em cada concepção.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


173

Quadro 1 – Conceitos de Treinamento


Autores Conceitos de treinamento Pontos-chave
Treinar é o ato intencional de fornecer os meios
para proporcionar a aprendizagem. Treinar no Proporcionar
Mussak (2010)
sentido mais profundo é ensinar a pensar, a aprendizagem.
criar e a aprender a aprender.
Treinamento é um processo sistemático para
promover a aquisição de habilidades, regras,
conceitos e atitudes que busquem a melhoria Adequar as pessoas às
Milkovich e Boudreau (2010)
da adequação exigências funcionais.
entre as características dos funcionários e as
exigências dos papéis funcionais.
Entende-se por treinamento o aprimoramento
do desempenho do funcionário para que possa
aumentar a produtividade dos recursos -
físicos, financeiros, informações, sistemas, etc,
Aprimoramento do
Hanashiro, Teixeira e – colocados à disposição dele para realizar o
desempenho para as
Zaccarelli (2007) seu trabalho. O treinamento tem como
tarefas; Curto prazo.
finalidade a aquisição e o aperfeiçoamento de
conhecimentos e habilidades para
desempenhar determinadas tarefas em curto
prazo.
Treinamento é qualquer atividade que contribua
para tornar uma pessoa apta a exercer sua
Tornar a pessoa apta para
Lacombe (2006) função ou atividade. Cada vez que você dá uma
uma função.
orientação, ou discute um procedimento, pode-
se dizer que você está treinando.
O treinamento tem como objetivo principal
trabalhar o conhecimento, o saber fazer, com
Eboli (2004) Foco no saber fazer.
isso melhorar o desempenho baseado na tarefa
em curto prazo.
Treinamento é um processo de assimilação
cultural em curto prazo, que objetiva repassar
Foco na execução de
Marras (2000) ou reciclar conhecimentos, habilidades ou
tarefas; Curto prazo.
atitudes relacionadas à execução de tarefas ou
à sua otimização no trabalho.
Fonte: Froehlich e Scherer (2013).

Dessa forma, treinar e desenvolver pessoas como: porque treinar, em que treinar, a quem
torna-se um fator fundamental para as treinar como treinar e quando treinar.
organizações no contexto de competitividade.
O levantamento das necessidades de
Vale ressaltar que o tema treinamento e
treinamento surge após a constatação e
desenvolvimento são amplamente discutidos
conscientização dos gestores de que existe
no ambiente acadêmico, porém a empresa
algo a ser melhorado. Esse levantamento pode
deste estudo ainda possui práticas incipientes
detectar as carências cognitivas e
em relação ao tema, sendo assim de grande
inexperiências relacionadas ao trabalho. O
valia para sua administração refletir sobre as
conjunto das carências causa uma ineficácia
possibilidades e contribuições que esse
indesejada pela organização (MARRAS, 2011,
estudo oferece auxiliando na busca dos
apud (RODRIGUES; FREITAS, 2017).
objetivos organizacionais, na consolidação da
missão e visão da empresa (FROEHLICH; Para Gil (2012) o levantamento das
SCHERER, 2013,p. 138). necessidades de treinamento está dividido em
três níveis de análise, sendo eles: Análise
organizacional: busca identificar os níveis de
2.2 A ESPECIFICIDADE DOS TREINAMENTOS eficiência e eficácia da organização, a fim de
DE INTEGRAÇÃO DE NOVOS EMPREGADOS definir treinamentos que possam contribuir
para sua elevação; Análise de tarefas: busca
Macian (1987) apud Rodrigues e Freitas (2017)
analisar o nível das tarefas como os requisitos
afirmam que antes de iniciar o processo de
exigidos pelo cargo. A análise de tarefas serve
treinamento é preciso identificar questões
também para determinar o tipo de habilidades,

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


174

conhecimento, comportamentos e as A primeira experiência do novo funcionário


características de personalidade; Análise de deve ser a orientação de seu empregador, tal
recursos humanos: busca verificar se os orientação inclui mudança de certas atitudes,
recursos humanos são suficientes para valores e comportamento. À medida que o
desenvolver as atividades atuais e futuras da novo funcionário se integra a empresa, toma
organização. conhecimento das responsabilidades de sua
função, percebe como seu trabalho se encaixa
A adaptação de novos funcionários em locais
dentro das metas da organização, desenvolve
de trabalho cada vez mais complexos tem sido
expectativas e ações positivas (MILKOVICH,
um dos desafios enfrentados pelas
2010).
organizações. Um grande número de
organizações tem optado por planejar esse Nesse contexto, assuntos como missão, visão,
processo desenvolvendo programas formais histórico, estrutura organizacional, produtos e
de socialização. Embora recebam diferentes serviços, aspectos burocráticos, bem como
denominações, como programa de orientação, benefícios e deveres do novo participante são
treinamento prévio, treinamento de indução, comumente abordados durante esses
programa de ambientação e programa de programas. Os principais itens de um
integração, esses programas referem-se a um programa de integração são apresentados no
conjunto de práticas que tem como objetivo Quadro 2.
facilitar a adaptação do funcionário à
organização (SANTOS, 2010).

Quadro 2: Principais itens de um programa de integração.


 A missão e os objetivos globais da organização
 As políticas e diretrizes da organização
Assuntos Organizacionais  A estrutura da organização e as suas unidades organizacionais
 Produtos e serviços oferecidos pela organização
 Regras e procedimentos internos
 Horário de trabalho, de descanso e de refeições
Benefícios Oferecidos  Dias de pagamento e de adiantamentos salariais
 Programas de benefícios sociais oferecidos pela
Relacionamento  Apresentação aos superiores e aos colegas de trabalho
 Responsabilidades básicas confiadas ao novo funcionário
 Visão geral do cargo
Deveres do novo participante
 Tarefas
 Objetivos do cargo
Fonte: adaptado de Chiavenato (1999, p.151).

2.3.TRABALHOS PUBLICADOS SOBRE A Santos (2010) publicou trabalho com o título de


TEMÁTICA ‘Proposta de Um Programa de Integração e
Treinamento por E- Learning para os
Não foi encontrado na pesquisa teórica
Servidores Ingressantes da Carreira de
abundância de trabalhos publicados sobre a
Técnico Administrativo do Ministério Público
temática. Não há quantidade suficiente de
Federal em Santa Catarina. O trabalho teve
trabalhos para se estabelecer um ‘estado da
como objetivo propor um programa de
arte’ sobre programa de treinamento de
integração e treinamento por e-learning para
integração sob a forma de manual. A seguir
os servidores ingressantes da carreira de
apresentam-se algumas pesquisas que
técnico-administrativo do Ministério Público
revelam uma diversificação de ‘olhares’ sobre
Federal de Santa Catarina. Concluiu que o
o tema.
programa proposto pode efetivamente
proporcionar ganhos ao MPF/SC por meio da

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


175

capacitação dos servidores técnicos consideradas na administração dos Recursos


administrativos para o desempenho das suas Humanos.
atribuições.
Com o objetivo de verificar se através do
Carlos, Bazon e Oliveira (2012) realizaram treinamento podem-se desenvolver melhorias
estudo com o objetivo principal de indicar os no processo corporativo, assim como também
problemas que a falta de treinamento e o apurar qual a importância do treinamento para
desenvolvimento trazem para a empresa e ao a capacitação do corpo funcional de uma
colaborador. As empresas entrevistadas que organização, bem como suas vantagens
aplicavam algum tipo de treinamento competitivas através do treinamento, os
demonstraram melhor integração entre a autores Teófilo, Coutinho, Barbosa, Teófilo e
equipe, melhor desempenho, maior satisfação Ferreira (2013) realizaram pesquisa cujo
e motivação dos colaboradores e lucratividade resultado foi que a partir da análise do estudo
da empresa, entretanto, a empresa que não de caso percebeu-se que investir em
possuía nenhum tipo de treinamento, qualificação da mão de obra por meio de
demonstrou menor satisfação dos treinamento representa um aspecto positivo
colaboradores e, por conseguinte, uma menor para o desenvolvimento das empresas e de
qualidade do produto ou serviço e menor seus colaboradores, fortalecendo as
lucratividade. organizações no cenário mercadológico atual,
onde as empresas se voltam para
Com o titulo de ‘Práticas de Treinamento e
transformações: globais, econômicas,
Desenvolvimento: Estudo Multi-caso em
sustentáveis, onde as pessoas, os clientes e a
Empresas de Santa Maria e Região’, os autores
tecnologia vivem em constantes
Flores, Weise, Corrêa, Trierweiller e Peixe
transformações e por meio do treinamento as
(2017) desenvolveram em 2012 um trabalho
empresas tendem a acompanhar essas
que teve por objetivo verificar as práticas de
mudanças.
treinamento e desenvolvimento adotadas por
16 empresas de diversos ramos de atividades, Santos, Nielsen e Carvalho (2014) publicaram
tais como: concessionárias, hotéis, hospitais, artigo de pesquisa que tinha como objetivo
restaurantes e comércio em geral, da cidade apresentar o treinamento e desenvolvimento
de Santa Maria e Região. Como resultado de pessoas como um importante diferencial
observou-se que as práticas de treinamento e competitivo que auxilia de forma efetiva o
desenvolvimento (T&D) são na maioria das alcance dos objetivos estratégicos da
empresas pesquisadas: planejadas, organização, pois são constantes as
programadas e executadas. Verifica-se, modificações macro ambientais, competições
também, que há fatores que podem ser por nichos e segmentos de mercado, além de
melhorados, como ajuda de custo aos incentivar maior competição interna por
colaboradores para desenvolverem ascensão na carreira e em todos os níveis
graduação e pós-graduação, destinação de empresariais. Os resultados indicam que a
recursos específica para os programas de empresa possui uma política de T&D como
T&D, e apoio ao desenvolvimento da educação foco em desenvolvimento para os gerentes e
básica dos funcionários. treinamentos em serviço para os funcionários,
com investimentos em palestras sobre trabalho
Pereira, Aragão e Gomes (2017) realizaram em
em equipe, motivação, comunicação e
2013 um estudo de caso feito na Lavanderia
administração de conflitos, acreditando que
Industrial Alfa, relata as dificuldades que a
equipe bem formadas revertem em diferencial
empresa enfrentava por falta de colaboradores
competitivo em um segmento de muita disputa
qualificados. O objetivo foi o de mostrar a
econcorrência.
importância do processo de Treinamento e
Capacitação como vantagem para as Os pesquisadores Rodrigues e Freitas (2017)
empresas alcançarem produtos de qualidade, efetuaram em 2015 uma pesquisa cujo objetivo
boa penetração de mercado e clientes foi o de analisar a percepção dos gestores e
satisfeitos e fidelizados. O resultado mostrou coordenadores do Conselho Nacional de
que na empresa pesquisada os funcionários Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico –
passaram a trabalhar em um ambiente mais CNPq, quanto aos resultados do treinamento
favorável à satisfação, onde se pode constatar de integração para os servidores recém
que o treinamento, a capacitação e a nomeados. Foi possível concluir que a
motivação beneficiam a gestão de pessoas, realização do programa de treinamento de
mostrando informações importantes a serem integração é benéfica para a organização, pois
auxilia o novo grupo na integração ao ambiente

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


176

de trabalho, pode reduzir o absenteísmo, traz pois este é um dos métodos mais indicados
melhores resultados para o empregado, já que para pesquisas cuja abordagem é qualitativa.
ele irá se integrar melhor com seus novos De acordo com Bardin (2010, p.38) a análise
colegas e terá uma melhor visão das tarefas de conteúdo é “um conjunto de técnicas de
que lhe são exigidas, o que a organização análise das comunicações que utiliza
espera e quais as políticas aplicadas nesse procedimentos sistemáticos e objetivos de
novo ambiente de trabalho. descrição de conteúdo das mensagens”. Para
análise de conteúdo, foram estabelecidas
Souza, Kanaane e Fernandez (2015)
quatro categorias de análise: aspectos
desenvolveram uma pesquisa que tinha como
estruturantes; identidade organizacional;
objetivo identificar como as empresas de
normas da empresa e aspectos trabalhistas.
recrutamento e seleção lidam com o
desenvolvimento de seus colaboradores. Para Quanto aos critérios de seleção, este estudo
buscar esta verificação de como atuam estas utilizou a amostragem não probabilística,
empresas, foi realizado pesquisa junto a conforme Dencker (2002, p. 179), é aquela em
empresas da área de seleção e recrutamento, que “os elementos são determinados ou
tendo sido constatado que as mesmas têm escolhidos de acordo com a conveniência do
desenvolvido seus colaboradores, mas não pesquisador ou na qual é selecionada aquela
utilizando de uma forma estruturada, e aplicam em que se acredita ser a melhor amostra para
também a estratégia de contratação de o estudo de um determinado problema”. Foram
profissionais que já atuaram em empresas pesquisados manuais de treinamento de
similares. integração na internet pelo uso do ‘google’ e
escolhidos aleatoriamente um amostra de 5
(cinco) empresas do ramo industriais. Notou-
3. CLASSIFICAÇÕES E PROCEDIMENTOS DE se que não há muitos manuais disponibilizados
PESQUISA na internet. As empresas da amostra são: S/A
Fabrica Produtos Alimentícios Vigor; Cerâmica
Quanto aos objetivos, a pesquisa classifica-se
Triunfo S/A, COASA – Cooperativa Agrícola
como descritiva. Na pesquisa descritiva o
Agua Santa Ltda., Harts Natural Ltda e Toledo
pesquisador registra e descreve os fatos
do Brasil – Industrias de Balanças Ltda.
observados, descreve as características de
determinada população ou fenômeno ou o
estabelecimento de relações entre variáveis
4. RESULTADOS E DISCUSSÃO
(PRODANOV; FREITAS, 2009).
A coleta e tratamento dos dados da pesquisa
Quanto à forma de abordagem do problema,
foi a obnservância e registro nois itens
realizou-se a pesquisa qualitativa, que “verifica
determinados a cada catégoria e amparados
uma relação dinâmica entre o mundo real e o
pela pesquisa teórica sobre o assunto ( o que
sujeito, isto é, um vínculo indissociável entre o
deve conter um manual de integração de
mundo objetivo e a subjetividade do sujeito
nvovos empregados). A primeira categoria
que não pode ser traduzido em números”
levantada foi a de aspectos estruturantes dos
(MINAYO, 2007, p. 85).
manuais e os dados apontam para as
Para análise qualitativa dos dados, optou-se situações evidenciadas na tabela 1.
pelo método baseado na análise de conteúdo,

Tabela 1 – Dados da Estrttura dos Manuais de Integração das Empresas da Amostra


ITENS Triunfo Coasa Harts Vigor Toledo
Capa S S N S S
Sumário N S N N N
Introdução/Apresentação/Palavra do Presidente S S N S S
Quantidade de Páginas 24 23 14 81 32
Logotipo da Empresa S S S S S
Fonte: Autores

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


177

Sumário e Capa não foi elaborado por todas as para o novo empregado, a marca (registrada
empresas e estes constituem o primeiro ou não) da organização e que carrega
contato do emrpegado ou observador do elementos culturais da organziação.
manual. É, de alguma forma, considerado o
O número de páginas deos manuais estiveram
‘cartão de visitas’ do manual. Não te-lo é
proximos de 20-30 páginas e somente destoou
desmerecer o conteúdo do mesmo.
a empres Vigor porque fez questão de
Somente uma das empresas pesquisadas não aprsentar, com detalhes, todos os seus
apresentou o item tratado como produtos. O Número de páginas de um manual
introdução/apresentação/palavra do nao pode ser pequeno a ponto das
presidente e este aspecto deve merecer informações serem prolixas, nem tão grande
atenção quando da elaboração de um manula que possa desanimar sua leitura.
de treinamento de in tegração, haja visto que
Na segunda categoria de análise buscou-se
aqui se consolida a visão e o compromisso
conhecer aspectos da identidade explicitada
com o dirigente maior da empresa.
pelas empresas da amostra e seu resultadoe
Em todas as empresas da amostra os manuais sta mostrado na tabela 2.
tiveram o logotipo da empresa o que reforça,

Tabela 2 – Itens de Identidade Organizacional das Empresas da Amostra


ITENS Triunfo Coasa Harts Vigor Toledo
Missão N S S S N
Visão N S N S N
Valores / Princípios N S S S S
História S S N S S
Processo de Fabricação ou Produtos S N N S N
Fonte: Autores

Tres empresas da amostra apresenbtam em devamm fazer parte dos manuais de


seus manuais a missão, sendo que duas delas treinamento de integração de novos
apresenta concomitantemente a visão empregados. A tabela 3 mostra todos os
organziacional; Para o novo empregado é itens observados nos manuais e são aqueles
importante esses elementos de identidade que tambem constam da base teórica dos
proque proporciona ao mesmo uma clara treinamentos de integração (vide quadro 2). A
definição do que a empresa faz e espera industria HARTS só enfatizou a segurança do
alcançar. Quatro empresas registraram trabalho, não relatando nenhum dos demais
aspectos de sua trajetória histórica o que itens observados pelas outras empresas.
coloca o novo empregado em condições.
Por outro lado, nenhuma das outras industrias
Quanto a externalização de aspectos de possuem em seus manuais todos os itens
valores e principios organizcionais, itens obervados no conjunto delas. Os manuais das
importantissimos para novos empregados, indústrias TRIUNFO e VIGOR foram as que
somente uma empresa da amostra não o fez. mais descreveram aspectos relacionados às
No que concerne a msotrar aspectos de sua normas da empresa.
produção fabril, somente duas empresas da
As informações relativas às normas da
amostramo fizeram.
empresa auxilia em muito aonovo empregado
A categoria número três que trata de aspectos em entender como a empresa se
relacionados às normas das indústrias da operacionaliza me relação aos empregados.
amostra. Não explicitar uma norma não quer São direitos e deveres associados tanto ao
dizer que a mesma não existe. A Gestão empreegador quanto ao empregado.
organizacional é quem escolhe quais itens

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


178

Tabela 3 – Aspectos de Normas da Empresa


ITENS Triunfo Coasa Harts Vigor Toledo
Horário de Trabalho S S N S S
Registro de Ponto S S N S S
Dia de Pagamento S S N S S
Adiantamento Salarial S S N S S
Ajuda de Custos N N N N N
Uso de EPIs S N N S N
Cesta Básica S N N S N
Segurança do Trabalho S S S S S
Faltas e Atrasos S S N S S
Seguro de Vida S S N S S
Convênios S S N S S
Vale Refeição N S N S S
Fonte: Autores

A quarta categoria de análise tem relação com Observa-se que as demais industrias variam
aspectos trabalhistas que são evidenciados em muito as informações que listam em seus
nos respectivos manuais e estão descritos na manuais, quer sejam aquelas de aspectos
tabela 4. Curiosamente a indústria HARTS não legais, quer aquelas em forma de benefício
apresnetou em seu manual nenhum iten para o empregado.
acerca de direitos trabalhistas ou beneficios
ofercidos pela empresa.

Tabela 4 – Aspectos Trabalhistas das Empresas da Amostra

ITENS Triunfo Coasa Harts Vigor Toledo

Imposto de Renda N N N S N
FGTS S S N N S
INSS N S N N N
Contribuição Sindical N N N N N
Vale Transporte S N N S S
Plano de Saúde S S N S N
Plano Odontológico N N N S N
Licenças/Atestados/Afastamentos S S N S S
13o. Salário S S N N S
Salário-Familia S S N N S
Férias S S N S S
Adicionais (HE, Insal.Noturno,
S S N N N
etc.)
Fonte: Autores

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


179

5. CONCLUSÃO manuais apropriados ao treinamento de


integração ela serviu para estabelecer
Este estudo teve como objetivo geral analisar a
parâmetros de comparação (por meio da
estrutura e aspectos de identidade, normas da
análise qualitativa) quanto aos resultados do
empresa e relaçoes trabalhistas contidas em
treinamento de integração para os servidores
manuais de treinamento de integração de
recém- contratados. A prática do treinamento
industruas brasileiras. Pode-se afirmar que
não se trata de uma tarefa burocrática, o
este objetivo foi alcançado e executado, a
mesmo deve ser visto como um recurso que
partir do estudo bibliografico e dos dados
influência diretamente na produtividade da
coletados por meio de consulta a internet e
organização.
análise documental dos mesmos em quatro
categorias qualitativas. Ao final da pesquisa, foi possível perceber que
a realização do programa de treinamento de
Na mesma direção da bibliografia consultada
integração na forma de manual é benéfico para
(principalmente o quadro 2) os trabalhos de
a organização, pois auxilia o os novos
campo: levantamento de manuais disponíveis
empregados na integração ao ambiente de
na internet e tabulação dos dados por meio da
trabalho, pode reduzir o absenteísmo, traz
análise de conteúdo pelas categorias
melhores resultados para o empregado já que
escolhidas, os resultados apontam uma
ele irá se integrar melhor com seus novos
grande variação de informações
colegas, terá uma melhor visão da organização
disponilizadas aos novos empregados.
e conhecer o que a organização espera, quais
Algumas industrias tem mais informações e
as políticas aplicadas nesse novo ambiente de
outras menos.
trabalho e é capaz de motivar o empregado,
Por meio pesquisa foi possível alcançar o tornando-o mais comprometido com a
objetivo proposto e mesmo sem apontar uma organização.
estrutura mais padronizada para estes tipos de

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Gestão da Produção em Foco - Volume 18


180

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Recursos Humanos. São Paulo: EPU, 2006.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


181

Capítulo 17
CLIMA E CULTURA ORGANIZACIONAL: UM ESTUDO DE
CASO EM UMA EMPRESA DE MATERIAIS DE
CONSTRUÇÃO
Jair Paulino de Sales
Micaelle Nayara Dias Rodrigues
Jucier Gonçalves Júnior
Ana Leice da Silva Souza
Kelvin Alexandre de Oliveira Brito

Resumo: A cultura organizacional pode ser entendida como a identidade da


empresa, se tornando ferramenta de fundamental importância para um melhor
funcionamento e desenvolvimento da organização. O clima é a qualidade do
ambiente organizacional. É através da cultura que valores e crenças são
compartilhados pelos colaboradores, exercendo influência sobre eles. Uma
organização que conta com uma cultura definida é capaz de se colocar com relação
às decisões a serem tomadas no tocante ao ambiente interno e externo. Com esta
pesquisa objetivou-se verificar como é a cultura e o clima organizacional de uma
empresa familiar de material de construção situada em Juazeiro do Norte – CE na
visão de seus colaboradores, e como esta influencia o bem-estar e a satisfação dos
funcionários. Obteve-se como resultado que a empresa estudada conta com uma
cultura forte e flexível, sendo bem avaliada por seus colaboradores, se mostrando
capaz de permanecer e se desenvolver ainda mais no mercado.

Palavras chave: Clima, Cultura, Organização, Satisfação.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


182

1. INTRODUÇÃO supervisor e, consequentemente, ao reduzir


esta tensão, é possível minimizar o tempo não
A cultura de uma empresa é responsável por
trabalhado pelos indivíduos (HALBESLEBEN
orientar os colaboradores, ou como afirma
et. al., 2014).
Robbins (2005) auxilia na percepção da
“maneira como as coisas são feitas”. Assim, Dessa forma, há uma tendência das empresas
Cultura Organizacional consiste no “conjunto virem desprendendo atenção para os
dinâmico de valores, idéias, crenças, funcionários e suas necessidades. Contudo,
expectativas, hábitos, habilidades, atitudes e uma boa parcela ainda se preocupa mais com
tradições compartilhados por pessoas dentro os resultados e lucros, e menos com as
de uma organização que regem o seu pessoas que executam tarefas dentro da
funcionamento” (ROSELLÓ; RUIZ; MOLINA, organização, não valorizando o clima
2015). organizacional. Mantovani e Greatti (2008)
advogam que a busca por melhores resultados
Para Dubrin (2006), a cultura organizacional de
para uma empresa implica no envolvimento
determinada empresa está diretamente ligada
dos colaboradores com os objetivos da
à personalidade dos fundadores ou da família
organização, e assim, o clima organizacional
fundadora, no caso da empresa familiar; sendo
deve estar favorável ao desempenho das
que a visão, modo de agir, pensamentos e
atividades dentro da empresa, pois o
outras variáveis provenientes dos fundadores
comprometimento dos colaboradores
influenciarão a todos integrantes da
dependerá do fato de estarem satisfeitos com
organização através da sua cultura. Portanto,
a postura adotada pela organização.
cada organização produz sua própria cultura
organizacional, fruto de sua subjetividade e, Diante do exposto, o estudo busca analisar o
como tal, está vulnerável a mudanças. clima e a cultura organizacional de uma
empresa de pequeno porte na cidade de
Entretanto, esta visão representativa da cultura
Juazeiro do Norte-CE, bem como o grau de
leva a crer que as organizações são
satisfação dos funcionários, considerando que
essencialmente estruturas sociais e reais, que
são fatores que se apresentam interligados.
se encontram nas mentes dos seus membros,
os quais as materializam em regras e relações
(SÁNCHEZ, 2017). Dessa forma, apesar da
2. REFERENCIAL TEÓRICO
cultura ser a mesma dentro da organização, é
possível que os dirigentes a percebam de 2.1 CLIMA ORGANIZACIONAL
forma diferente dos funcionários. Esta situação
O clima organizacional é um fator importante
pode, potencialmente, gerar conflitos.
para se entender o meio de trabalho e a
Roselló, Ruiz e Molina (2015) afirmam que a maneira como este se relaciona ao
cultura organizacional é criada ao longo da desempenho das pessoas envolvidas na
evolução institucional e não permite mudanças organização. Dessa forma Champion apud Luz
violentas. Reflete o grau de integração interna (2003) contribui dizendo que o clima se trata
da organização, expressa a identidade e a das “impressões gerais ou percepções dos
forma de reagir da mesma; isto é, como seus empregados em relação ao seu ambiente de
membros pensam, sentem e agem. Nesse trabalho”, ainda que todos não compartilhem
contexto, uma boa cultura organizacional e um da mesma opinião o clima retrata o
clima favorável refletem positivamente na comportamento dos indivíduos, considera-se
forma como os funcionários desenvolvem suas que as especificidades da organização
tarefas e como percebem a empresa da qual influenciam a forma como as pessoas se
fazem parte, influenciando diretamente na relacionam na empresa.
satisfação dos funcionários no trabalho,
De acordo com os autores que contribuíram
propiciando benefícios para ambas às partes.
para o estudo, o clima é um fator que evidencia
Sukumaran e Alamelu (2014) argumentam que as diferenças entre uma empresa e outra,
o absenteísmo pode ter inúmeras causas, identifica quando uma empresa possui uma
dentre as quais eles citam insatisfação com as gestão que valoriza os funcionários e quando
políticas organizacionais, além da baixa não confere a devida importância à gestão de
qualidade do relacionamento com colegas de pessoas. Para Paschoal (2006) quando os
trabalho e chefia imediata. Nesses casos, o colaboradores se sentem bem executando o
absenteísmo pode ser interpretado como uma seu trabalho na empresa o clima interno vivido
estratégia do funcionário para lidar com a por eles é ideal. Acerca disso:
tensão dialética na relação entre ele e seu

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


183

Quando se consegue criar um clima


organizacional que propicie a satisfação das
2.2 CULTURA ORGANIZACIONAL
necessidades de seus participantes e que
canalize seus comportamentos motivados para A cultura organizacional é de grande
a realização dos objetivos da organização, importância para o bom funcionamento das
simultaneamente, tem-se um clima propício ao organizações, referindo-se a compartilhar
aumento da eficácia da mesma (KANAANE, valores que podem modificar a forma como os
1999). funcionários se comportam na empresa. Para
Srour (1998) a cultura é algo que pode ser
Diante disso, é perceptível que quando existe
aprendido, difundido e dividido. Não se trata
mais participação dos funcionários nas
de herança, entretanto decorre de
decisões esses se sentem valorizados para
aprendizagem, formando uma identidade para
desenvolver melhor as tarefas, conseguindo
a organização e se edifica no decorrer do
bons resultados para a organização.
tempo.
Segundo Luz (2003) podem ser percebidos
Nota-se que a cultura é algo presente em todas
três tipos de clima: bom, prejudicado ou ruim.
as organizações, algo particular de cada uma.
O primeiro é notado no momento em que os
Logo, “a cultura organizacional passa a ser a
funcionários expressam bons sentimentos ao
mente da organização, as crenças comuns
trabalhar naquela empresa e se sentem bem
que se refletem nas tradições e nos hábitos,
fazendo parte da equipe. Os outros dois
bem como em manifestações mais tangíveis –
ocorrem no momento em que surgem
histórias, símbolos, ou mesmo edifícios e
divergências que podem influenciar
produtos” (MINTZBERG et. al., 2000). Dessa
negativamente no clima, acarretando
forma a cultura é imprescindível na empresa.
desânimo ao desempenhar atividades,
Soares e Souza (2014), ainda acrescentam
rivalidade, entre outros fatores também
que ela pode ser percebida por meio do
negativos.
comportamento dos colaboradores, seja nas
Para Fernandes (2015), o clima ruim dentro de vestes que usam na maneira como tratam as
uma organização é bastante negativo, pessoas, entre outros fatores que evidenciam
influenciando diretamente no desempenho dos a cultura organizacional.
funcionários, sendo capaz de ocasionar
Chiavenato (2004) corrobora com esses
conflitos, intrigas, falta de comunicação.
pensamentos sobre a definição da cultura
Corroborando a ideia dos autores:
organizacional, para ele:
clima organizacional retrata o grau de
A CO ou cultura corporativa é o conjunto de
satisfação dos membros da organização nos
hábitos e crenças, estabelecidos por normas,
ambientes de trabalho em que estão inseridos,
valores, atitudes e expectativas, compartilhado
estando o clima relacionado à cultura
por todos os membros da organização. Ela se
organizacional, cujas modificações geram
refere ao sistema de significados
expectativas, ou, às vezes, insatisfação e
compartilhados por todos os membros e que
insegurança sobre o local de trabalho (SILVA;
distingue uma organização das demais
DIEHL, 2013).
(Chiavenato, 2004).
Ratifica-se que o clima de uma organização
A cultura é constituída de diversas variáveis
interfere bastante nos níveis de satisfação no
que, da ótica de Oliveira, Estender e Macedo
trabalho, estando também associado à
(2016) conferem explicações para as pessoas
motivação. Chiavenato (2002) afirma que a
que integram a organização possam ter
cultura de determinada organização influencia
subsídios para resolver possíveis situações
no clima que nela existe, sendo assim,
desfavoráveis na organização. Chiavenato
entende-se que a cultura será fator
(2004) as divide em ambientais,
determinante para o clima organizacional, que
socioambientais, culturais, atitudes e
por sua vez exerce grande influência na
comportamento no trabalho de indivíduos e
qualidade do ambiente de trabalho, tornando
grupos.
algo favorável ou não para o colaborador.
Fernandes (2015) afirma que o clima e a De acordo com Dias (2003) e Chiavenato
cultura organizacional possuem uma relação, (2004) essas variáveis auxiliam na solução de
uma é a causa e a outra consequência; a conflitos quanto à cultura e,
cultura é a causa para o clima favorável ou não. consequentemente ao clima organizacional,
Para tanto será tratada cultura organizacional que harmonizados tornam a empresa capaz de
no próximo tópico. se desenvolver e manter-se no mercado.

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


184

A cultura organizacional é o elemento que esperado pelo produto (ou resultado) em


impulsiona o desempenho de uma empresa, relação às expectativas da pessoa, a partir de
percebe-se isso quando Robbins (2005) uma interação” (KOTLER,2009).
defende que a cultura está ligada a certos
De acordo com Vergara (2007) a Teoria de
benefícios, tais como, diminuição da taxa de
Herzberg afirmava a existência de dois fatores
rotatividade, é capaz de diferenciar a
para explicar a maneira como os indivíduos se
organização das outras, confere identidade
comportam no ambiente de trabalho, focando
aos funcionários. Esses benefícios e outros
a satisfação, sendo eles, fatores higiênicos e
possíveis fazem com que os gestores das
motivacionais. “Fatores higiênicos localizam-
empresas concedam mais atenção ao seu
se no ambiente de trabalho. São extrínsecos às
capital humano para que possam usufruir das
pessoas. Nessa categoria estão elencados:
regalias.
salário, benefícios sociais, condições físicas
“A cultura organizacional não é algo que se de trabalho, modelo de gestão, relacionamento
possa tocar. Ela não é percebida ou observada com os colegas” (VERGARA, 2007). Tais
em si mesma, mas por meio dos seus efeitos fatores podem deixar de causar insatisfação,
ou consequências. Nesse sentido lembra um mas segundo a mesma autora, não causam a
iceberg” (CHIAVENATO, 2004), onde são satisfação dos colaboradores.
vistos apenas alguns aspectos superficiais,
De acordo com Oliveira, Estender e Macedo
decorrentes da sua cultura. “Quase sempre
(2016) os fatores motivacionais, considerados
são as decorrências físicas e concretas da
intrínsecos, se referem aos sentimentos de
cultura, como o tipo de edifício, as cores
autorrealização e reconhecimento, presentes
utilizadas, os espaços, os tipos de salas e
no topo da pirâmide de Maslow, e se estiverem
mesas, os métodos e procedimentos de
presentes na organização causam a
trabalho, as tecnologias utilizadas, os títulos e
satisfação. “Se ausentes, deixam de causar
descrição de cargos, as políticas de gestão de
satisfação, mas não chegam a causar
pessoas” (CHIAVENATO, 2004). Os aspectos
insatisfação” (VERGARA, 2007).
não visíveis, intrínsecos, é onde estão
localizadas as decorrências e perspectivas Diante da ótica de Fernandes (2015) a
psicológicas e sociológicas, que são mais satisfação no ambiente de trabalho é algo
difíceis de perceber. afável e deriva do conhecimento do trabalho
que é realizado permitindo atribuir ao trabalho
Segundo Chiavenato (2004) o iceberg da
importantes valores. Por essa definição pode-
cultura apresenta várias camadas, e na
se destacar três elementos favoráveis ao
medida em que dista mais da ponta a
entendimento de satisfação no trabalho, sendo
mudança é considerada mais difícil de ser
eles: valores, importância e percepção. Esses
realizada, e em último lugar se encontram
elementos, para Locke (2005, apud ROBBINS,
aspectos informais que estão relacionados ao
2005) são como chaves para que o indivíduo
lado emocional, ligados a aspectos
consiga o que deseja de forma consciente ou
sociológicos e psicológicos.
inconscientemente.
A cultura de uma organização é o reflexo da
Satisfação no trabalho formalmente definida é
forma de como ela interage com o ambiente,
o grau segundo o qual os indivíduos se sentem
como cita Soares e Souza (2014). Para
de modo positivo ou negativo com relação ao
Chiavenato (2004) ela apresenta seis
seu trabalho, é uma atitude, ou resposta
características, tidas como principais. Sendo:
emocional às tarefas de trabalho e às suas
regularidades nos comportamentos
várias facetas. Aspectos mais comuns da
observados; normas; valores dominantes;
satisfação no trabalho relacionam-se com
filosofia; regras; e clima organizacional, e
pagamento, desempenho e avaliação de
trabalhar bem essas características torna
desempenho, colegas qualidade de
possível realizar mudanças na cultura, para
supervisão condições físicas e sociais do local
tornar a organização um ambiente melhor e
de trabalho (HUNT; OSBORN, 2002).
mais harmonioso.
A forma como os funcionários se sentem em
relação ao seu ambiente de trabalho é um
2.3 SATISFAÇÃO NO TRABALHO reflexo direto da cultura e do clima
organizacional. Um ambiente com um clima
A palavra satisfação representa “um
amistoso e uma cultura forte, onde os
sentimento de prazer ou de desapontamento
funcionários são valorizados no desempenho
resultante da comparação do desempenho
das suas atividades, os tornam mais satisfeitos

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


185

e propensos a melhorarem em função da De início, foi realizada uma entrevista com os


empresa e seus objetivos. dois gestores da empresa acerca do clima
organizacional, o relacionamento entre
Como sugere Hunt e Osborn (2002) os
funcionários e gestores, responsabilidade,
elementos “mais comuns da satisfação no
qualidade e carga de trabalho, comunicação e
trabalho relacionam-se com pagamento,
outros assuntos relevantes que contribuíram
desempenho e avaliação de desempenho,
como parâmetro norteador na construção do
colegas qualidade de supervisão condições
estudo.
físicas e sociais do local de trabalho” (HUNT;
OSBORN, 2002). Assim, percebe-se que cada Em uma segunda etapa, buscou-se avaliar o
fator recebe a sua devida importância pelo clima, a cultura organizacional e a satisfação
colaborador, mas as condições físicas e no ambiente de trabalho em uma amostra de
sociais do local de trabalho tendem a receber 20 funcionários, durante os dias 10, 11 e 12 do
mais importância que as outras. mês de janeiro de 2017. Foram excluídos
àqueles se recusaram a responder ao
A satisfação é como o produto final entre a
questionário.
recompensa que o funcionário espera e aquela
que foi obtida podendo proporcionar altos As perguntas versavam sobre as expectativas
ganhos tanto para funcionários quanto para os dos funcionários em relação ao seu trabalho;
gestores. Quando a maioria dos membros da sobre os recursos que a empresa dispõe para
empresa se ajusta a cultura o resultado é mais auxiliar no desempenho das funções; a relação
empenho de todos e mais satisfação. gestor e funcionário; motivação; entre outros
fatores que auxiliaram a desenvolver a
pesquisa. As variáveis nos questionários foram
3. METODOLOGIA avaliadas de 1 a 5, sendo 1 péssimo, 2 ruim, 3
regular, 4 bom e 5 ótimo.
Foi realizado um estudo exploratório, descritivo
e quantitativo em uma empresa de pequeno Os dados foram tabulados utilizando o
porte situada em Juazeiro do Norte-CE, cidade Microsoft Excel® e submetidos à análise
de médio porte do interior do estado do Ceará, descritiva.
utilizando questionários semiestruturados
contendo a Escala Likert.
4. RESULTADOS
A Escala Likert de verificação versa sobre
“desenvolver um conjunto de afirmações A empresa em estudo possui pouco mais de
relacionadas à sua definição, para as quais os nove anos no mercado, no início contava com
respondentes emitirão seu grau de pouquíssimos funcionários e apenas uma loja,
concordância” (SILVA JÚNIOR; COSTA, 2014). atualmente possui 20 funcionários e quatro
Assim os entrevistados mostram seu nível de lojas na cidade de Juazeiro do Norte-CE. Os
concordância acerca de determinado item a dados demográficos dos funcionários se
ser considerado na pesquisa. encontram distribuídos na Tabela 1 a seguir.
Nota-se que os colaboradores são em sua
Para Costa (2011) a vantagem dessa escala
maioria são jovens de até 25 anos, do sexo
reside em sua facilidade de manuseio, pois se
masculino, solteiros e com até quatro anos de
torna fácil para o entrevistado responder e
contribuição na empresa.
“emitir um grau de concordância sobre uma
afirmação qualquer” (SILVA JÚNIOR; COSTA,
2014).

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


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Tabela 1 - Dados dos funcionários


Masculino
Sexo
Feminino
Até 25 anos 10
Faixa Etária De 26 a 30 anos 07
Acima de 30 anos 03
De 1 a 4 anos 10
Tempo na Empresa De 5 a 8 anos 03
Acima de 8anos 07
Solteiro 08
Estado Civil Casado 07
Outros 05
Fonte: Dados da Pesquisa (2017)

Conforme é evidenciado na tabela 2, variáveis considerou como nota máxima (cinco).


como o espírito de equipe, tratamento pelo Enquanto, a relação externa ao ambiente de
supervisor e Comunicação com o superior trabalho e o interesse nas tarefas foram
como as mais bem avaliadas no âmbito da àquelas que menos pontuaram no quesito
cultura organizacional da empresa em tela, máximo. Interessante notar que, nenhum dos
uma vez que a maioria dos funcionários quesitos recebeu nota mínima (1 ou 2).

Tabela 2 – Variáveis Avaliadas por Funcionários


Variáveis 1 2 3 4 5
Espírito de equipe - - 1 8 11
Interesse nas tarefas - - 5 10 5
Comunicação com o superior - - - - 20
Relação no ambiente de trabalho - - - 10 10
Relação externa ao ambiente de trabalho - - 5 10 5
Recursos para desempenhar as tarefas - - 3 10 7
Incentivos para desenvolver tarefas - - - 13 7
Tratamento recebido pelo superior - - - 5 15
Fonte: Dados da Pesquisa (2017)

5. DISCUSSÃO peça fundamental para tornar a empresa mais


produtiva, ratificando o pensamento de
Após reunir os dados das entrevistas e
Oliveira, Estender e Macedo (2016).
questionários com funcionários e superiores
percebeu-se que a maioria dos funcionários Vale destacar que a variável “Tratamento
possue ótima relação com seu superior e se recebido pelo superior” foi muito bem avaliada,
consideram parte importante do processo, o que pode ser observado pela pesquisadora
estabelecendo ótimas relações dentro e fora e também foi refletido nas respostas dadas
do ambiente de trabalho, o que é considerado pelos funcionários, notando-se que não houve
de grande importância de acordo com Silva e influência por motivo de medo ou repesaria
Diehl (2013).
A empresa está sempre aberta a novas ideias
Para os superiores, o relacionamento com os vindas de seus funcionários e preza pela
colaboradores recebe grande importância, integração e comunicação, bem como o
sempre pautado no respeito tratando todos aprendizado que é algo bastante incentivado
iguais, porém, sem esquecer as diferenças de pelos superiores.
cada um, pois o colaborador satisfeito se torna
A cultura da organização em estudo é

Gestão da Produção em Foco - Volume 18


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considerada do tipo Clã, pois “apresenta pensamentos explicitados nesse trabalho


características de maior flexibilidade. O foco, percebe-se que se tratam de ferramentas
assim como na hierarquia, é interno. Neste tipo fundamentais para obtenção de avanços e
de cultura é pressuposto que a melhor forma melhores desempenhos na gestão de
de obterem-se resultados é por meio de pessoas, e consequentemente i