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Abordagens Sócio-Psicológicas da

Violência e do Crime
UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA

Reitor
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Pró-Reitor de Graduação
Prof. MSc. José Leão
Pró-Reitor de Pós-Graduação e Pesquisa
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UNIVERSIDADE CATÓLICA DE BRASÍLIA VIRTUAL

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Equipe de Produção Técnica


Análise didático-pedagógica
Prof. MSc. José Eduardo Pires Campos Júnior
Profa. Dra Leda Gonçalves de Freitas
Prof. MSc. Juarez Moreira
Profa. Especialista Ana Brigatti
Edição
Profª. Especialista Cynthia Rosa
Márcia Regina de Oliveira
Yara Dias Fortuna
Montagem
Marcelo Rodrigues Gonzaga
Anderson Macedo Silva
Bruno Marques Beça da Silva
Conteudista
Álvaro Pereira
Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Sumário

Sumário
Objetivo.................................................................................................6
Aula 01 – A Biologia do Comportamento Criminoso............................................7
1.1 A Frenologia .............................................................................................. 7
1.2 A Antropologia Criminal de Lombroso ................................................................ 8
1.3 A Síndome do Duplo “Y” ...............................................................................10
1.4 As Alterações Genéticas ...............................................................................11
1.5 O Estudo com Gêmeos .................................................................................12
Aula 02 - Conceito de Violência ................................................................. 14
2.1 O Conceito de Violência ...............................................................................14
2.2 Tipologia da Violência..................................................................................16
Aula 03 - Introdução ao Estudo da Sociologia do Crime .................................... 20
3.1 O conceito de Sociologia...............................................................................20
3.2 A Sociologia do Crime ..................................................................................22
3.3 A Escola de Chicago ....................................................................................22
Aula 04 - O Crime como Problema Social ...................................................... 26
4.1 Teoria da Anomia .......................................................................................26
4.2 Teoria da Subcultura ...................................................................................27
4.3 Teoria da Associação Diferencial .....................................................................28
4.4 Teoria do Controle Social..............................................................................28
4.5 Teoria da Rotulação (Labeling Approach)...........................................................29
Aula 05 - A Lei como Mecanismo de Controle Social ........................................ 30
5.1 O Controle Social........................................................................................30
5.2 O Crime e a Classe Dominante ........................................................................32
5.3 O Controle do Crime no Estado Capitalista .........................................................32
Aula 06 - A Condição Humana: Perspectiva Teórica Psicológica .......................... 34
6.1 Teoria da Personalidade de Gordon Allport ........................................................34
6.2 Teoria Behaviorista .....................................................................................35
6.3 O Trabalho de B. F. Skinner ...........................................................................36
6.4 A Teoria Psicanalítica ..................................................................................38
Aula 07 - A Condição Humana: Agressividade, Violência e Conduta Criminosa........ 41
7.1 A Personalidade Anti-Social ...........................................................................41
7.2 Considerações Históricas ..............................................................................42
7.3 Características Diagnósticas...........................................................................43
7.4 A Classificação Segundo Blackburn...................................................................44
7.5 Relevância para a Segurança Pública ................................................................45
Aula 08 - O Comportamento Desviante......................................................... 47
8.1 O Conceito de Normal e Desviante...................................................................47
8.2 Desvio Positivo e Desvio Negativo ....................................................................47
8.3 Os Tipos de Desvio e a Consolidação do Comportamento Desviante ...........................49
8.4 As Formas de Desviação................................................................................50
Aula 09 - A Doença Mental e o Crime........................................................... 51
9.1 A Medida de Segurança ................................................................................51
9.2 A Doença Mental no Código Penal ....................................................................51
9.3 A Alienação Mental .....................................................................................52
9.4 Outros Estados Psíquicos Considerados no Código Penal .........................................54

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Sumário

Aula 10 - A Delinqüência Juvenil ................................................................ 56


10.1 A Família: uma Visão Sistêmica .....................................................................56
10.2 A Família do Adolescente em Conflito com a Lei.................................................58
10.3 O Adolescente em Conflito (Inclusive com a Lei) ................................................59
10.4 A Privação Emocional .................................................................................61
10.5 A Prevenção da Delinqüência Juvenil ..............................................................62
Referências........................................................................................... 64
Glossário .............................................................................................. 66

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Objetivo

Objetivo
A biologia do comportamento criminoso. Introdução ao estudo da Sociologia da violência e do crime.
Tipologia da violência. O crime como problema social: evolução do pensamento sociológico. A Lei como
mecanismo de controle social: análise das necessidades, funções, utilização e efeitos dos mecanismos
formais e informais de controle social; perspectivas teóricas da lei e do controle social; exame empírico
das teorias da lei como mecanismo de controle social. A condição humana: perspectiva teórica
psicológica; agressividade, violência e conduta criminosa. O comportamento desviante e a doença
mental. A delinqüência juvenil: causas, padrões de sintomas e abordagens para o tratamento.

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Aula 01

Aula 01 – A Biologia do Comportamento Criminoso


Você alguma vez já ouviu pessoas dizendo que “o fulano já nasceu criminoso”? Isso significa acreditar
que esse “fulano” seria portador de uma anomalia biológica qualquer, responsável pelo seu
comportamento fora da normalidade social. As pessoas que pensam assim são partidárias da corrente de
pensamento que considera que existam causas biológicas para o comportamento criminoso.

A abordagem biológica é muito criticada no meio científico atual, mas já exerceu um grande fascínio em
períodos passados da história da ciência. Os adeptos dessa corrente de pensamento advogam que
algumas pessoas são incapazes de se conformarem com as normas sociais devido a um defeito biológico.

Desde os tempos de Aristóteles (384-322 a.C.) já havia interesse pelo comportamento criminoso e suas
origens. A suspeita de que o crime tenha uma base biológica foi alvo de muitas discussões e trabalhos
científicos. Desde as investigações de Lombroso (item 1.2), no século XIX, até as pesquisas com
ressonância magnética, as buscas por resposta para a questão da existência de base biológica para o
comportamento criminoso ainda não chegaram a um resultado definitivo. Vamos explorar, nesta primeira
aula, alguns aspectos históricos dessa busca!

1.1 A Frenologia
No século XVIII, um anatomista austríaco chamado Franz Joseph Gall desenvolveu uma teoria em torno
da seguinte idéia: a maioria das características humanas, inclusive o comportamento anti-social, seria
regulada por regiões específicas do cérebro. Cada comportamento estaria, então, sob o comando de um
centro cerebral específico. Veja a Figura 1.1:

Figura 1.1 – Mapa Topológico da Cabeça

De acordo com essa teoria, quanto mais robusto fosse o centro cerebral específico de um
comportamento, mais intensa seria a expressão desse comportamento. Essa teoria ganhou o nome de
Frenologia (de phrenos = mente e logos = estudo).

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Aula 01

Franz Gall imaginava que, ao crescer, os centros cerebrais exerciam pressão contra os ossos da cabeça,
deixando neles saliências que poderiam ser vistas ou palpadas. As pessoas com tendências criminosas
poderiam, então, ser reconhecidas pelo exame cuidadoso dessas protuberâncias e depressões ósseas
presentes no crânio!

Para Saber Mais


O que você acha disso? Veja aqui outras informações sobre a Frenologia.

A teoria de Gall não prosperou, pois não teve confirmação científica. Mas a idéia de achar uma explicação
biológica para a prática criminosa, uma explicação interna ao próprio ser humano, continuou a seduzir
muitos pesquisadores.

1.2 A Antropologia Criminal de Lombroso


Em 1876, o médico italiano Cesare Lombroso criou uma nova doutrina que ressuscitou a associação das
características físicas do indivíduo com uma suposta índole criminosa. Surgia a Antropologia Criminal.

De acordo com a teoria de Lombroso, existiriam certas características físicas capazes de identificar o ser
humano delinqüente, como: protuberância occipital, órbitas dos olhos grandes, testa fugidia, arcos
superciliares excessivos, zigomas salientes, nariz torcido, lábios grossos, arcada dentária defeituosa,
braços excessivamente longos, mãos grandes, anomalias nos órgãos genitais, orelhas grandes e
separadas etc.

Para Refletir
Nos dias de hoje, você acha que uma teoria dessa natureza poderia ter sido proposta? Por quê?

Figura 1.2 – Lombroso (1835-1909)

Tendo feito observações e chegado ao que acreditava ser uma constatação, Lombroso lançou seu famoso
livro O homem delinqüente.Nessa obra, o cientista divulgou suas idéias e lançou a base de sua teoria.

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Aula 01

Para ele, o indivíduo criminoso seria um ser atávico, que teria dado um salto atrás no desenvolvimento
ontogenético e que poderia ser identificado por estigmas anatômicos, funcionais e psicológicos.

Figura 1.3 – Criminosos Estudados por Lombroso

Por quase duzentos anos, a teoria de Lombroso influenciou pesquisadores e seus objetos de pesquisa.
Hoje sabemos que a comprovação de suas idéias está cada vez mais distante da realidade científica.

Para Refletir
Você acha que a teoria de Lombroso poderia ser relacionada a preconceitos étnicos?

Apesar de seu equívoco, Lombroso tem o mérito de ter voltado as atenções para o estudo da intimidade
do criminoso. Mas, embora tenha realizado centenas de autópsias e observado milhares de sentenciados
vivos, sua metodologia prejudicou suas intenções e o levou a propor conclusões hoje refutadas pela
ciência.

Para Saber Mais


Esse é um assunto instigante, não? Leia o texto “ O delinqüente e o social naturalizado: apontamentos
para uma história da criminologia no Brasil”, de Marcos César Alvarez e busque outras informações!

Uma das críticas ao trabalho de Lombroso foi o fato de ter utilizado uma amostra muito restrita. Em sua
maioria, os criminosos estudados por ele eram militares, geralmente provenientes da marinha italiana,
quase todos da região do sul da Itália, onde a miscigenação racial é bem diferente do restante do país.

O trabalho de Lombroso deu origem ao “positivismo criminológico”, que influenciou diretamente outros
estudiosos, como Enrico Ferri, Rafael Garófalo e Franz Von Liszt. Outros cientistas também
desenvolveram teses correlatas à teoria biológica: trabalhando com tipos de corpo físico e traços de

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Aula 01

temperamento, acreditaram ter encontrado uma relação entre ambos. Como representantes desse grupo
temos: Kretschmer (1925), Hooton (1939), von Hentig (1947) e Sheldon (1949).

Para Saber Mais


Informe-se mais sobre o tema com a leitura do texto: “Criminologia: multidiscipinaridade na investigação
das origens do crime e o concenso quanto a sua prevenção”, de Marcello Koudela.

1.3 A Síndome do Duplo “Y”


Em 1968, o cientista James Hamilton, do Departamento de Anatomia da Escola de Medicina de
Downstate (EUA), relatou a existência de peixes da espécie “killi” que possuíam os cromossomos sexuais
do tipo XYY (OLIVEIRA, 1987). Você se lembra das aulas de genética, em Biologia? Recorde: indivíduos
machos (normais) possuem os cromossomos sexuais XY, e as fêmeas (normais) possuem os
cromossomos sexuais XX.

Pois bem, esse cientista encontrou peixes que possuíam um cromossomo sexual a mais! Algumas
pessoas, sabendo dessa descoberta, chegaram a classificar os animais como “supermachos”!O fato é que
Hamilton percebeu que esses peixes da espécie “killi”,com cromossomos a mais, os “supermachos”, eram
mais agressivos que os demais machos e assediavam as fêmeas com mais intensidade do que os peixes
normais.

Também ao final da década de 1960, com o advento da microscopia eletrônica, o cientista Montagu
aventou a hipótese da síndrome do duplo Y entre os seres humanos. Essa hipótese foi confirmada logo
em seguida. Assim, justificava-se que alguns indivíduos herdavam um cromossomo a mais no seu
cariótipo – o que provocaria alterações de comportamentos desviantes, tal qual nos peixinhos de
Hamilton.

Na mesma época, Robert Stock lançou, nos Estados Unidos, o livro The XYY and The Criminal,afirmando
que meninos nascidos com cromossomos XYY têm inclinação incomum para a delinqüência (Oliveira,
1987). Depois disso, muitos pesquisadores relataram ter descoberto algumas características comuns ao
grupo de indivíduos portadores da síndrome XYY, entre as quais podemos destacar: caracteres de
agressividade, inquietude e impulsividade; quociente intelectivo abaixo da média grupal; inadaptação
escolar; lentidão no desenvolvimento sexual; conduta anti-social; excesso de espinhas no rosto; estatura
acima da média; doença mental.

Essas supostas descobertas, entretanto, são questionadas por diversos pesquisadores. Eles consideram
que há uma forte influência do meio sobre o comportamento dos portadores da síndrome do duplo Y e
que esses indivíduos, uma vez identificados, passam a ser estigmatizados pela comunidade como
portadores de algum tipo de anomalia.

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Aula 01

Os argumentos contrários à listagem de características associadas ao duplo Y são sustentados pelas


pesquisas realizadas na Inglaterra, com populações de doentes mentais, entre os anos de 1968 e 1972.
Entre os 1.811 pacientes investigados, apenas 0,08% da amostra possuía a síndrome do duplo Y.

Em verdade, a única característica que os pesquisadores são unânimes em aceitar é que os portadores da
síndrome do duplo Y têm sempre estatura acima da média, ou seja, são altos. Há alguns pesquisadores
que atribuem a isso o fato de eles serem presos com mais facilidade: um indivíduo alto, quando em fuga
pela prática de um crime, tem mais dificuldade em se esquivar da ação da polícia!

A freqüência desse gene é de um para cada mil nascimentos. As pesquisas não chegaram a conclusões
seguras, e essa teoria é, então, muito pouco utilizada para explicação de comportamentos desviantes.

1.4 As Alterações Genéticas


Outra fonte de informação a respeito da origem biológica do comportamento criminoso é o estudo dos
genes e suas alterações, sobretudo as chamadas mutações.

Figura 1.4 – Microfotografia dos Cromossomos X e Y

Em 1993, H. G. Brunner pesquisou uma família alemã em que todos os integrantes do sexo masculino
possuíam um retardo mental associado a comportamentos agressivos. O cientista encontrou como causa
desse comportamento a mutação de um gene que codifica a enzima monoamino oxidase, conhecida
também como MAO A.

Dois anos depois, o pesquisador Oliver Cases relatou que ratos que foram geneticamente modificados e
ficaram sem a atuação da enzima MAO A apresentaram altos níveis do neurotransmissor serotonina,
apresentando comportamentos anormais como: tremor, medo, reação de espanto e agressão.

Outras pesquisas investigaram neurotransmissores como a dopamina e a noradrenalina. O óxido nítrico e


a enzima triptofano hidroxilase também foram alvo de pesquisas; o primeiro está associado a desordens
agressivas e o segundo ao suicídio.

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Aula 01

Enfim, as pesquisas indicam que alterações funcionais nos genes ou enzimas causam alterações
metabólicas e, por conseqüência, alterações comportamentais. O que não foi encontrado é uma alteração
genética que, por si só, determinasse a eclosão de comportamentos criminosos.

Em 14 de abril de 2003, o consórcio internacional que constituiu o Projeto Genoma Humano anunciou
oficialmente a conclusão do seqüenciamento dos 3 bilhões de bases do DNA da espécie humana com
99,9% de precisão. O projeto durou 13 anos e, segundo se afirmou, consumiu 2,7 bilhões de dólares. Até
a presente data não foi anunciada a identificação de nenhum gene como determinante direto do
comportamento criminoso.

Para Saber Mais


Saiba mais sobre o tema lendo sobre o Projeto Genoma!

1.5 O Estudo com Gêmeos


Outra maneira de pesquisarmos a influência da biologia – mais precisamente dos fatores genéticos –
como causa de condutas criminosas é o estudo dos gêmeos, sobretudo os monozigóticos (também
chamado de univitelinos). São aqueles gêmeos provenientes do mesmo óvulo fecundado e que, portanto,
possuem o mesmo material genético.

Ora, se os gêmeos são iguais quanto ao material genético, se um herdou a tendência para cometer
crimes, em tese, o outro também deverá ter herdado essa condição. Isso, é claro, se assumirmos que a
genética tem mesmo influência sobre condutas criminosas, o que, como vimos, não foi plenamente
comprovado pela ciência!

Comparando a concordância de comportamento entre gêmeos monozigóticos e dizigóticos, nota-se que


os gêmeos monozigóticos apresentam o dobro de correlações no comportamento criminoso; isto é, o
dobro de correspondência entre os comportamentos de um e outro irmão gêmeo. Isso sugere a
existência de fatores genéticos atrelados ao crime.

Apesar de a evidência dos dados apontar para a existência de fatores genéticos associados à
criminalidade, o papel do ambiente também tem importante influência sobre comportamentos
desviantes. Em estudo com crianças adotadas e filhas de pais biológicos com comportamentos
criminosos, verificou-se que, quando os pais adotivos pertenciam a meio sócio-economicamente
desfavorecido, as crianças apresentavam mais comportamentos criminosos do que aquelas cujos pais
adotivos pertenciam a classes de estatuto sócio-econômico superior.

O que podemos concluir é que, apesar de existir um fator genético capaz de aumentar a suscetibilidade
da pessoa para comportamentos criminosos, essa suscetibilidade estará sempre sujeita às condições
ambientais.

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Aula 01

A Teoria Biológica sobre o comportamento criminoso dominou boa parte das pesquisas do século XIX.
Com o avanço da ciência no século XX, novas pesquisas foram realizadas, utilizando-se as novas
tecnologias. Entretanto, até o presente momento, a teoria biológica não explicou, em definitivo, a razão
do comportamento desviante, sobretudo naqueles casos em que não há comprovação de nenhum
comprometimento biológico, mas, ainda assim, existe o desvio comportamental.

Bom estudo e até a próxima aula!

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Aula 02

Aula 02 - Conceito de Violência


A violência e o crime são dois fenômenos que sempre estiveram presentes nas diversas culturas. Muitas
vezes os conceitos se misturam ou são empregados como sinônimos, o que causa interpretações
errôneas. Nem sempre um comportamento criminoso é violento e vice-versa. Podemos perceber isto em
uma luta de boxe pela televisão ou quando ficamos sabendo que milhões de reais são desviados sem que
um tiro sequer tenha sido dado. Nesses dois exemplos, identifique em qual deles há violência e em qual
deles há crime, e reflita sobre a distinção entre os dois conceitos.

Nesta aula, vamos estudar o conceito de violência e os diversos tipos de violência. Bom estudo!

2.1 O Conceito de Violência


Se você pesquisar na literatura específica, perceberá que existem várias definições para o termo
violência. Apresentaremos a você a definição utilizada pela Organização Mundial de Saúde (2002), no
Relatório Mundial sobre a Violência e Saúde:

O uso intencional da força física ou do poder, real ou em ameaça, contra si próprio, contra outra pessoa,
ou contra um grupo ou uma comunidade, que resulte ou tenha grande possibilidade de resultar em lesão,
morte, dano psicológico, deficiência de desenvolvimento ou privação (OMS, 2002, p.5).

A definição apresentada pela Organização Mundial de Saúde inclui alguns elementos importantes. Vamos
analisá-los? São eles:

 A violência é algo intencional, portanto, o perpetrador do ato violento deseja obter o resultado da
ação.
 A ação violenta geralmente é constituída por uma força física, mas também há casos em que ela
é representada pelo simples exercício do poder. A História já nos mostrou vários episódios de
violência praticados, por exemplo, por monarcas tiranos. Você se lembra de algum desses
episódios?
 A violência pode ser sofrida fisicamente pela vítima, sendo, portanto, constatada, observada e até
registrada. Você já deve ter visto alguma vítima de agressão física com hematomas. Mas, de
acordo com a definição apresentada pela OMS (2002), a violência também pode ser constituída
de ameaça, que não deixará lesões na vítima e, portanto, será de difícil constatação e
comprovação. Mas, ainda assim, será violência, podendo deixar outras repercussões na saúde
mental da vítima.
 A violência pode ser praticada por uma pessoa contra si própria. Você já viu na televisão
indivíduos que protestam ateando fogo em seus corpos? Consegue se lembrar dos motivos que
levaram algumas dessas pessoas a esse ato extremo de violência contra si mesmas?

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Aula 02

 Em geral, entretanto, a violência é direcionada contra o meio, sendo comum atingir uma outra
pessoa. Porém, a OMS (2002) admite que um ato violento possa atingir um grupo de pessoas ou
mesmo uma comunidade, e não precisa ser praticado contra cada membro em particular. Por
exemplo: quando um minerador interrompe o curso de um rio, deixando as comunidades
ribeirinhas sem água para a sobrevivência, esse ato atinge aquele grupo de pessoas em um
mesmo momento.
 Por último, a OMS (2002) mostrou-se preocupada com as repercussões advindas da violência, ou
seja, com os danos causados à vitima. Lembre que a violência pode provocar lesão física ou
mesmo a morte.

A Organização Mundial de Saúde, com essa definição, inovou, ou melhor, ampliou o horizonte a ser
observado e passou a admitir o dano psicológico,a deficiência de desenvolvimentoe
aprivaçãocomo elementos resultantes da violência.

O dano psicológico é um conceito ainda novo no ordenamento jurídico brasileiro, porém, vem sendo
implantado pelo Sistema de Justiça Criminal. O dano psicológico é definido como uma manifestação
inédita na vida da vítima, que lhe traz um prejuízo adaptativo, lhe causa sofrimento íntimo e que possui
um nexo de causalidade com o evento traumático anterior. Você é capaz de imaginar danos psicológicos
resultantes de atos violentos?

A deficiência de desenvolvimento e a privação são outras seqüelas que podem ocorrer em razão da
violência, mas que muitas vezes passam despercebidas na avaliação da vítima. Uma criança, por
exemplo, pode ser levada à morte por uma privação de alimentos provocada intencionalmente e de
maneira dissimulada pelo agressor.

Para Refletir
Observe a imagem a seguir (Figura 2.1) e reflita: de acordo com a definição da OMS (2002), a fome na
África é resultado de violência? Quem são os responsáveis por esse problema? Quais são suas causas? E
o que podemos dizer sobre a fome nas regiões mais pobres de nosso país?

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Aula 02

Figura 2.1 – Criança Atingida pela Fome na África

Para Saber Mais


Você pode obter mais informações sobre a violência e suas conseqüências consultando o site do Núcleo
de Estudos da Violência Universidade de São Paulo (NEV-USP).

2.2 Tipologia da Violência


Na seção anterior, vimos que o conceito de violência é mais complexo do que imaginamos à primeira
vista. Partindo dessa complexidade, a Organização Mundial de Saúde (OMS) classifica a violência de
acordo com a natureza do ato praticado. Assim, há quatro grupos básicos de violência: física, psicológica,
sexual e negligência. A seguir, vamos estudar as características de cada um deles.

Violência física

Categoria de violência que possui diversas formas. Envolve algum tipo de agressão à integridade física do
outro, podendo causar perigo de vida; debilidade; perda ou inutilização de membro, sentido ou função;
incapacidade para as ocupações habituais; aceleração de parto ou mesmo aborto; enfermidade incurável;
deformidade permanente entre outros.

Violência psicológica

Também denominada violência emocional. Trata-se de uma das formas de violência mais difíceis de se
observar, pois geralmente não há um incidente específico ou danos visíveis. Os efeitos da violência
psicológica, entretanto, podem ser severos. A violência psicológica constitui-se de situações em que a
vítima é exposta a tratamento hostil, porém, sem agressão física. A vítima é exposta a situações
ridículas, ameaças, intimidações, discriminação e rejeição, entre outros.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 02

Violência sexual

Não se trata apenas de violação à liberdade sexual do outro, mas também de violação aos Direitos
Humanos. Nos casos de violência sexual, o agressor tem a intenção de impor o seu desejo sexual. Muitas
vezes esse tipo de violência está ligado à natureza da relação, ou seja, a relação de poder que tem o
agressor sobre a vítima. Considerando o fator “relação de poder” na definição de violência sexual, e
lembrando que o poder econômico é também um tipo de poder nas relações humanas, reflita: na sua
opinião, a prostituição envolve violência sexual?

Negligência

Corresponde a situações em que crianças sofrem prejuízo em seu desenvolvimento ou em sua segurança,
como resultado de omissão por parte das pessoas que têm a responsabilidade pelos cuidados básicos
com a criança. De acordo com a OMS (2002), a negligência pode atingir áreas como: saúde, educação,
desenvolvimento emocional, nutrição, abrigo e segurança de vida. Você acha que também podemos
classificar como negligência o mesmo tipo de situação envolvendo os cuidados com pessoas idosas ou
pessoas com deficiência?

Para Refletir
Atenção! Você não deve confundir os efeitos da negligência com aqueles provocados pelas circunstâncias
de pobreza, em que faltam condições materiais para o atendimento das necessidades da criança. Reflita:
nos casos que envolvem a carência causada pela pobreza, podemos dizer que a sociedade é negligente?

Existem ainda outras formas de violência menos divulgadas, mas que também são importantes. Entre
elas, destacamos a violência política e a violência cultural. É interessante que você as conheça um pouco
mais! Senão vejamos:

A violência política consiste em atos praticados por governos autoritários. Geralmente, o objetivo da
violência política é a imposição de ideologias ou a aniquilação de opositores. Você já deve ter ouvido falar
na Revolução Francesa, certo? Pois bem, após essa revolução, houve um período de 16 meses em que o
número de mortes chegou a 12 mil – esse período passou a ser chamado de Período do Terror, dando
origem ao conceito de terrorismo.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 02

Figura 2.2 – Revolução Francesa (Execução do Rei Luís XVI)

Para Saber Mais


Quer saber mais sobre o período histórico da Revolução Francesa? Então, clique aqui!

A Revolução Russa de 1918 é outro exemplo clássico de violência política. Entretanto, os dois exemplos
mais emblemáticos são o fascismo e o nazismo. Você já deve ter visto filmes sobre Hitler, o nazismo e
os campos de concentração! Você sabia que os judeus não foram as únicas vítimas do nazismo e que,
durante esse período, muitos negros, ciganos e homossexuais também sofreram a violência política?

Na História brasileira também tivemos violência política no período da ditadura militar, não é? O que você
sabe sobre isso?

Figura 2.3 – Campo de Concentração Nazista

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 02

A violência cultural, por sua vez, representa a substituição de uma cultura pelos valores de uma outra
cultura, impostos às vezes de maneira sutil, outras vezes, de forma violenta. Os efeitos são intensos e,
muitas vezes, permanentes. Um exemplo marcante foi a chegada dos europeus às Américas, tendo os
colonizadores aniquilado muitas culturas pela violência física e cultural. As ruínas de Machu Pichu,
resquícios do antigo império Inca, lembram a prática dessa violência.

Figura 2.4 – Ruínas de Machu Pichu

Nesta aula, você estudou o conceito de violência de acordo com a definição da Organização Mundial de
Saúde. Vimos que o conceito de violência é complexo, possuindo alguns componentes que precisam ser
analisados. Também discutimos a existência de tipos distintos de violência.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 03

Aula 03 - Introdução ao Estudo da Sociologia do Crime


O crescente aumento da violência urbana, acompanhado dos altos índices de criminalidade, vem
preocupando todas as camadas da sociedade brasileira e, em especial, o segmento da Segurança Pública.

Apesar de a violência e a criminalidade serem termos constantemente usados, seus significados não são
tão claros para a maioria das pessoas, como vimos na aula anterior. A Sociologia foi uma das primeiras
ciências a analisar o fenômeno da criminalidade em meio urbano; nesta terceira aula, vamos explorar a
Sociologia do Crime.

Boa aula!

3.1 O conceito de Sociologia


As grandes mudanças econômicas, culturais e políticas acontecidas no século XVIII acarretaram
profundas mudanças nas organizações sociais. A Revolução Industrial, a Revolução Francesa e, em
seguida, o estabelecimento do capitalismo moderno aguçaram a atenção de estudiosos interessados na
influência exercida pelo meio sobre o ser humano, e vice-versa.

Para Refletir
Sabemos que o ser humano tem, cada vez mais, causado mudanças severas no ambiente. Mas você já
pensou sobre as influências que o meio exerce sobre nós?

No final do século XIX, surgiu uma nova ciência, denominada Sociologia. A Sociologia, como ciência,
preocupa-se em investigar o funcionamento e a organização interna das sociedades – sejam tribos
isoladas ou metrópoles – e em levantar as influências recíprocas entre o ser humano e o meio social.
Portanto, a Sociologia tem como objeto principal de seu estudo os grupos sociais.

Um dos precursores da Sociologia foi Auguste Comte (1798-1857), que inicialmente denominou essa
ciência como Física Social. Influenciado pelo positivismo, Comte trouxe à Sociologia uma abordagem
científica de acordo com os preceitos da época. Ele aplicou à Sociologia os métodos das ciências naturais
(biologia, física etc.), admitindo como única fonte de conhecimento e de verdade a experiência. O método
científico predominante nessa época era exclusivamente descritivo e deveria investigar apenas os fatos.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 03

Figura 3.1– Auguste Comte (1798-1857)

Mas foi com Émile Durkheim (1858-1917) que a sociologia ganhou modernidade. Ele definiu os métodos
de trabalhos do sociólogo e estabeleceu alguns dos principais conceitos a serem utilizados pela
Sociologia.

Para Durkheim, a Sociologia é o estudo dos fatos sociais, que, por sua vez, refletem o modo de pensar,
sentir e agir de um grupo social. De acordo com o modelo de sociologia de Durkheim, os fatos sociais são
introjetados pelos indivíduos e exercem um poder de coerção sobre eles (OLIVEIRA, 2002).

Assim, a Sociologia utiliza modelos teóricos como forma de explicar a realidade imediata e evita
explicações baseadas no senso comum, procurando estabelecer relações não evidentes entre os fatos
sociais.

Figura 3.2 – Émile Durkeim (1858-1917)

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 03

3.2 A Sociologia do Crime


A partir da metade do século XX, após a Segunda Grande Guerra e a reestruturação da sociedade
moderna, a Sociologia se deparou com o surgimento de diversos fenômenos sociais. Esses fenônemos
precisavam ser estudados para melhor compreensão do ser humano como ser social e sua influência
sobre a própria sociedade. Assim, à Sociologia dessa época interessavam fenômenos sociais como a
desagregação familiar, as migrações, o surgimento de minorias sociais, o crime e a violência. Surgiu
então a Sociologia do Crime.

A Sociologia do crime adquiriu status de ciência a partir do III Congresso de Antropologia Criminal,
realizado em Bruxelas, em 1892. Formalizou-se então o interesse da Sociologia pelo crime, agora
considerado fato social e não dependente exclusivamente do indivíduo criminoso.

De acordo com Garraud (apud FUNES, 1955), os objetos de estudo da Sociologia do crime são:

 o estudo da criminalidade, em sua história e em seu estado atual;


 a investigação das causas que favorecem a ocorrência de delitos;
 a indicação de meios para o combate ao crime.

Como expoentes da Sociologia do crime, além de Durkeim (1858-1917) temos Lacassagne (1843-1924)
e Gabriel Tarde (1843-1904). Durkeim teve o importante papel de chamar atenção para a relação entre
crime e sociedade, destoando da maioria dos pesquisadores positivistas da época, que focavam o papel
da individualidade.

De acordo com Lacassagne, é a sociedade que produz os criminosos, pois os caracteres de personalidade,
por mais anômalos que sejam, não são suficientes para se chegar ao crime. Para tanto, é necessário um
ambiente social desfavorável.

Gabriel Tarde, por sua vez, defendia que fatores endógenos não devem ser considerados como
desencadeadores do crime, e buscava, no meio social, as possíveis causas exógenas da criminalidade. Ele
considerava a delinqüência um fenômeno social provocado, em grande parte, pela imitação de
comportamento.

O que você pensa sobre isso? O comportamento criminoso deve ser considerado uma conseqüência de
características internas ao indivíduo ou uma conseqüência da estruturação da sociedade?

3.3 A Escola de Chicago


Você já deve ter visto filmes sobre Al Capone e os crimes que praticou em Chicago, Estados Unidos, na
década de 1920. Pois bem, a cidade de Chicago foi uma das cidades estadunidenses que mais sofreram

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 03

com as constantes mudanças sociais e o acelerado crescimento entre o final do século XIX e início do
século XX (FREITAS, 2002).

Assim, em 1890, Chicago já deparava com o surgimento de fenômenos sociais até então desconhecidos.
A cidade passou a ter grandes áreas de pobreza, com a instalação de guetos de imigrantes, o
aparecimento das chamadas “gangues” de jovens e a proliferação de crimes diversos.

Figura 3.3 – Chicago em 1929

Em meio ao caos social, mas com um bom suporte financeiro, na cidade de Chicago criou-se uma
universidade com o mesmo nome. A Universidade de Chicago foi a primeira universidade estadunidense a
criar um Departamento de Sociologia.

Para os sociólogos da Universidade de Chicago, a própria cidade era um imenso laboratório para pesquisa
social. Assim, montaram uma linha de pesquisa com objetos definidos e deram origem, dentro da
Sociologia, à chamada Escola de Chicago.

Para Saber Mais


Você vai obter mais informações sobre esse movimento sociológico na conferência de Howard Becker
sobre a Escola de Chicago.

Uma das grandes contribuições da Escola de Chicago foi a Teoria das Zonas Concêntricas, de Ernest
Burgess (1886-1966). De acordo com essa teoria, a cidade de Chicago era dividida em cinco zonas
concêntricas bem definidas, que se expandiam a partir do centro da cidade. Os pesquisadores concluíram
que quanto mais próxima fosse a localização da zona em relação ao centro da cidade, maior seria a taxa
de criminalidade. Isso porque essas zonas próximas ao centro correspondiam aos locais de maior
deterioração do espaço urbano, onde a população local vivia em condições sociais mais delicadas.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 03

Figura 3.4 - Ernest Burgess (1886-1966)

Desse modo, a Escola de Chicago criou os conceitos de região moral e área criminal (ou delitiva). Apesar
de os conceitos não explicarem o fenômeno da criminalidade como um todo, serviram para demonstrar
que o ato criminoso, ainda que tenha uma origem individual, também é influenciado pela desorganização
social.

Figura 3.5 – Zonas Concêntricas

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 03

Para Saber Mais


Você vê alguma aplicação desses conhecimentos para a sua área de atuação profissional? Leia o artigo “
Uso do geoprocessamento para auxiliar a Segurança Pública no mapeamento da criminalidade em
Teresina – PI”, de Carlos Eduardo da Rocha Freitas e Valdira de Caldas Brito Vieira. Durante a leitura,
você vai perceber a aplicação prática dos conhecimentos aqui estudados na área de Segurança Pública de
nosso país, aprendendo como dois pesquisadores mapearam a criminalidade na cidade de Teresina.
O assunto lhe interessou? Então veja aqui como a arquitetura também pode influenciar a ocorrência de
atividade criminosa.

Nesta aula você aprendeu um pouco sobre a sociologia e, em especial, sobre a sociologia do crime.
Destacamos a Escola de Chicago como um dos primeiros movimentos acadêmicos a estudar o fenômeno
social do crime e correlacioná-lo ao ambiente urbano. As idéias da Escola de Chicago são polêmicas, mas
ainda hoje possuem aplicabilidade na área de segurança pública, por isso elas são úteis para sua prática
profissional!

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 04

Aula 04 - O Crime como Problema Social


Já falamos anteriormente em Émile Durkheim, filósofo de formação, mas com contribuições importantes
para a Sociologia. Como vimos, Durkheim foi um dos primeiros a associar a atividade criminosa com o
meio, conceituando o crime como um fato social. Nesta aula, daremos um enfoque especial à abordagem
social do crime, analisando algumas teorias sociológicas que tentam explicar o fenômeno. Essa reflexão é
muito importante para os fins desta disciplina, pois provê diferentes pontos de vista!

Bom proveito!

4.1 Teoria da Anomia


Essa teoria foi originalmente proposta por Durkheim, que aplicou seus conceitos nos trabalhos
denominados “Divisão do Trabalho” e “Suicídio”. Em termos sociológicos, a palavra anomia significa um
estado de falta de objetivos, em que há uma perda de identidade causada por bruscas transformações
sociais, sobretudo aquelas observadas após o surgimento do Capitalismo. Mas foi Robert Merton que
aplicou a Teoria de Anomia ao comportamento individual desviante.

Figura 4.1 – Robert Merton

Para Merton, a impossibilidade de o indivíduo atingir uma meta por ele desejada e planejada seria a
motivação para o surgimento do comportamento delinqüente. Desse modo, a frustração dos objetivos do
indivíduo enfraqueceria seus vínculos com a própria cultura, tornando-o distante da sociedade. Merton
argumenta que essa frustração o tornaria capaz de apresentar comportamentos desviantes ou, ao
contrário, mostrar-se conformista.

As idéias de Merton são combatidas, pois, segundo seus pressupostos, a camada mais empobrecida da
sociedade (mais freqüentemente frustrada em seus objetivos) seria a responsável pelos índices de
criminalidade.

Para refletir: você acha que um jovem que, em criança, sonhava ser médico e viu seu sonho frustrado
pelas (im)possibilidades relacionadas à estrutura da distribuição da Educação no Brasil tem mais chances

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 04

de apresentar comportamento criminoso que um jovem que teve maior facilidade em realizar seus
sonhos?

4.2 Teoria da Subcultura


Primeiramente, você sabe o que é subcultura? Vejamos: referimo-nos a uma subcultura quando um
grupo de pessoas apresenta características de comportamento (religião, costumes etc.) diferentes da
cultura dominante, isto é, aquela na qual o grupo está inserido.

Uma subcultura surge quando um grupo de indivíduos enfrenta dificuldades de adaptação com o grupo
dominante, o que reduz a interação social e leva a um contato mínimo entre ambos os grupos. Assim, o
grupo minoritário passa a rejeitar os valores do grupo dominante, criando os próprios. Como exemplo de
subcultura, temos os skinheads (Figura 4.2).

Figura 4.2 – Grupo de Skinheads

Em outras palavras, a subcultura representa a oposição aos valores de uma cultura dominante. Com o
afastamento, o grupo minoritário passa a manifestar comportamentos de agressão e rejeição ao grupo
dominante e, muitas vezes, termina por praticar atos anti-sociais e predatórios para confirmar a sua
rejeição ao grupo em oposição. Assim, surgem o furto e o dano, crimes comuns na chamada subcultura
da delinqüência.

De acordo com Cohen (apud ALBERGARIA, 1978), a teoria da subcultura é útil para que se entenda a
delinqüência juvenil: essa teoria permite entender o que é e como lidar com o problema das ‘gangues’ de
delinqüentes juvenis. Você concorda?

Para Saber Mais


Se você se interessa pelo tema ou trabalha com esse tipo de comportamento desviante, procure se
informar melhor lendo o artigo “Matrizes estruturais e culturais na geração da violência nas escolas”, de
Geraldo Caliman.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 04

4.3 Teoria da Associação Diferencial


Também conhecida como Teoria do Aprendizado Social, essa abordagem foi defendida por Sutherland,
em 1937, e enfoca o processo de aprendizagem pelo qual os indivíduos, sobretudo os jovens, adquirem
comportamentos baseados em experiências pessoais.

Assim, os grupos sociais básicos – como família, escola, amigos e comunidade local – têm um papel
fundamental na socialização do indivíduo. A influência desses grupos pode resultar na aquisição ou não
do comportamento desviante.

A teoria da associação diferencial pode ser resumida em nove afirmativas, formuladas pelo próprio
Sutherland (apud FELDMAN, 1979). Vamos a elas:

1. O comportamento criminoso é aprendido.


2. O comportamento criminoso é aprendido em interação com outras pessoas, em processos de
comunicação.
3. A parte principal da aprendizagem do comportamento criminoso ocorre dentro de grupos pessoais
íntimos.
4. A aprendizagem inclui: a) técnicas para o cometimento de delitos; b) motivações, impulsos,
racionalizações e atitudes.
5. A direção dos motivos e impulsos é aprendida a partir de definições favoráveis ou desfavoráveis à
violação da lei.
6. A pessoa se torna criminosa devido a um excesso de definições favoráveis à violação da lei.
7. A associação diferencial pode variar em freqüência, duração, prioridade e intensidade.
8. O processo de aprendizagem do comportamento criminoso utiliza os mesmos mecanismos da
aprendizagem do comportamento normativo.
9. O comportamento criminoso não é explicado pelas necessidades e valores gerais.

Para Refletir
Você já ouviu a expressão “Diga com quem andas e te direi quem és”? Compare a teoria da associação
diferencial com o senso comum acerca da influência de “más companhias” no comportamento de jovens.

4.4 Teoria do Controle Social


Essa teoria tem uma peculiaridade em relação às demais. Você percebeu que as teorias que vimos até
agora tentam explicar por que as pessoas adotam comportamentos desviantes? A Teoria do Controle
Social discute o contrário, ou seja, como as pessoas se controlam e não se tornam criminosas!

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 04

De acordo com a teoria do controle social, considera-se que, quanto maior o grau de envolvimento e
adaptação do indivíduo à sociedade, menores são as chances de ocorrência da prática de atos criminosos
contra ela. A teoria denomina esse fenômeno como concordância.

A concordância é percebida nas interações sociais do indivíduo e na aceitação das normas e valores
sociais. Alguns desses valores são o trabalho, a crença religiosa, os comportamentos sociais
padronizados.

Para Refletir
Pense um pouco mais: você vê relação entre a Teoria do Controle Social e a Teoria da Subcultura?

4.5 Teoria da Rotulação (Labeling Approach)


Também conhecida como Teoria do Etiquetamento, ou da Reação Social. Para os adeptos dessa
abordagem, um fato só é rotulado crime quando a sociedade assim o considera, criando normas para
selecionar e “marcar” certos comportamentos como desviantes.

A crítica a essa corrente de pensamento é que, ao ser “etiquetado”, o indivíduo tende a sofrer uma
pressão para sua permanência no papel social de desviante e passa a sofrer uma estigmatização por
parte da sociedade. Você concorda? Pense, por exemplo, no estigma que pesa contra os ex-presidiários!

Outro aspecto considerado negativo, na teoria da rotulação, é que ela coloca em situação delicada o
sistema penal, pois, da maneira como funciona esse sistema, ele acaba reforçando a identidade desviante
do prisioneiro. Você certamente já ouviu alguém dizer que o sistema penitenciário é uma “universidade
do crime”! O que pensa sobre isso?

Os críticos dessa teoria, então, afirmam que o comportamento desviante é reforçado pela própria
tentativa de controle implantada pela sociedade, ou seja, pela própria rotulação. Primeiro, porque o
indivíduo “rotulado” agirá para confirmar sua identidade desviante; segundo, porque a comunidade ficará
atenta a qualquer deslize cometido por aquele que já estiver “etiquetado” como desviante!

Para Saber Mais


No texto “Determinantes da Criminalidade: Arcabouços Teóricos e Resultados Empíricos”, de Daniel
Cerqueira e Waldir Lobão, exploramos um pouco mais o assunto. Boa leitura!

Nesta aula, você conheceu algumas teorias sociológicas sobre o crime. Muitas dessas teorias serviram ou
servem de base para políticas públicas para a área de segurança pública em diversas sociedades. Não há
teoria certa ou errada, há a tentativa de buscar a compreensão de cada realidade. A teoria mais
adequada será aquela que nos permita formular soluções para nossos problemas!

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 05

Aula 05 - A Lei como Mecanismo de Controle Social


O controle social é o mecanismo pelo qual a sociedade mantém sob domínio seus integrantes. Ele é
exercido também de maneira sutil, mas, quando o desvio é detectado e os interesses da classe
dominante são ameaçados, os mecanismos tornam-se explícitos e rigorosos.

Na sociedade moderna, o controle social é exercido por meio do Sistema de Justiça Criminal. Assim, o
Direito Criminal torna-se o instrumento coercitivo do Estado e sua classe dominante, com o intuito de
manter a ordem social e a economia vigente. Nesta aula, vamos discutir o controle social, sua relação
com o crime e sua utilidade para a classe dominante.

5.1 O Controle Social


O controle social configura parte dos recursos que uma sociedade dispõe para assegurar a conformidade
do comportamento de seus membros às regras e normas previamente descritas e cuja violação prevê
sanções. A sociedade exerce o controle social por meio do Direito, que, por sua vez, prescreve as sanções
de acordo com os diferentes tipos de violação à norma. As sanções podem ser positivas ou negativas.

As sanções de caráter positivo têm efeito promocional: elas visam recompensar àqueles que cumprem as
normas. Por exemplo, a premiação de um estudante universitário que se destacou com as melhores
notas ou projetos estudantis é uma sanção positiva.

Já as sanções de caráter negativo têm uma finalidade repressiva: impõem conseqüências desagradáveis
para os transgressores das normas. Elas variam desde uma simples reprimenda até o decreto de uma
prisão. É sobre as sanções negativas que vamos discutir neste tópico. Antes de seguir adiante, reflita um
pouco: que tipo de sanções negativas você já conhece?

As sanções negativas se dividem em duas categorias, tendo em vista a finalidade. Há sanções negativas
de cunho preventivo e outras de cunho reparador. A primeira categoria, como o nome já indica, tem a
finalidade de se antecipar à ocorrência de um desvio por descumprimento da norma. Para isso, as
sanções negativas preventivas aplicam restrições ou medidas de controle em prováveis transgressores,
de modo que eles não concretizem suas intenções. Essas intenções têm certa restrição por parte de
juristas que zelam pelo Estado de direito. Quando muito, são aceitas as medidas de fiscalização como
forma de prevenção objetiva.

As sanções negativas reparativas, por sua vez, são aplicadas contra transgressores das normas sociais
que tenham causado danos a terceiros. O objetivo dessa categoria de sanção é restaurar o estado de
normalidade.

30
Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 05

O principal mecanismo de poder com a finalidade de exercer o controle social utilizando sanções
negativas reparativas é o sistema prisional. Embora a prisão seja sempre criticada, da perspectiva de sua
ineficácia no controle da criminalidade e na recuperação de sentenciados, ela nunca deixou de existir.

Alguns autores consideram que o controle social não se destina apenas a manter os cidadãos dentro dos
padrões de conformidade, evitando a ruptura da ordem social. O controle social é visto, então, como um
instrumento para o exercício e a manutenção do poder. Você já havia pensado sobre isso?

Para Foucault (1977), a prisão desempenha funções importantes na manutenção do poder e no controle
da sociedade, pois permite segregar aqueles indivíduos ou grupos considerados indesejáveis. Uma prova
de que no Brasil a prisão é apenas um braço do poder está no fato de que as nossas prisões não
cumprem sua finalidade principal, que é re-socializar o delinqüente para que ele emende seu
comportamento e não reincida.

Ao invés disso... Bem, você já sabe como são nossas prisões. Conhecendo nosso sistema prisional, acha
que ele pode ser capaz de cumprir seu papel?

Figura 5.1 – Prisão Brasileira

Se abordarmos a questão por outro ângulo, veremos que o controle social também impede que a
sociedade se desenvolva, pois não permite a expressão espontânea de seus componentes. Assim, não
permite a ocorrência de um desvio social, inclusive na forma de crime. Isso parece contraditório? Então
vejamos!

Embora tenha seus efeitos negativos sobre a pessoa da vítima, o crime apresenta aspectos positivos para
a sociedade, de acordo com o pensamento de Durkheim (1990). Segundo esse autor, o crime tem efeitos
benéficos para a sociedade, pois permite o fortalecimento da consciência coletiva: ao reagir
espontameamente à violação da lei, a sociedade assegura a manutenção de seus valores e normas.

Durkheim (1990) também considera que o crime tem um caráter progressista, já que, em alguns casos,
a sociedade precisa mudar as regras e normas existentes para se adaptar a novos padrões de

31
Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 05

comportamento e desvio. Assim, ao impedirmos o desvio pelo controle social, podemos estar negando à
sociedade a introdução de novos padrões de comportamento e, portanto, uma mudança social. Você
concorda com as idéias de Durkheim?

5.2 O Crime e a Classe Dominante


A classe dominante se faz representar no Estado, exercendo o poder para impor a sua vontade sobre a
maioria da sociedade. A ordem legal é o meio encontrado para a garantia desses interesses.

De acordo com Quinney (1980), o direito na sociedade capitalista é fortemente submisso aos interesses
privados da classe dominante. O direito criminal é a base daquilo que chamamos ordem legal.

Quinney (1980) considera que a instituição da ordem legal foi o mecanismo encontrado pela classe
dominante para obter o controle da população, usando os recursos oficiais do Estado em seu favor. A
classe dominante, então, aparelha o Estado com seus representantes, a fim proteger seus interesses.

Assim, juízes, promotores e policiais são nada menos que os representantes legais da classe dominante!
Esses atores sociais agem em nome da classe dominante e impedem a classe dominada de se rebelar
contra a dominação e, potencialmente, chegar ao poder.

Você tem conhecimento de que vivemos em uma sociedade capitalista. Pois bem, em sociedades
capitalistas, a classe dominante é aquela que possui e controla os meios de produção, criando uma elite
no seio da sociedade.

Para Saber Mais


Quer aprender um pouco mais sobre este assunto? Então, leia “ Estado, Sociedade Civil e Legitimidade
Democrática”, de Luiz Carlos Bresser-Pereira.

5.3 O Controle do Crime no Estado Capitalista


Embora a classe dominante detenha o poder sobre os meios de produção e consiga impor seus
representantes no Estado, ela não exerce o poder diretamente. O Estado, então, é a principal interface
entre a classe dominante e o exercício do poder.

Quinney (1980) define o Estado como um conjunto de instituições particulares que interagem como
partes integrantes. Para Miliband (apud QUINNEY, 1980), o Estado é constituído pelos seguintes
elementos:

 o governo;
 a administração;

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 05

 os militares e a polícia;
 o sistema judiciário;
 os escalões intermediários do governo.

Entre esses elementos do Estado, você já percebeu que existe um com estreita ligação com a
manutenção da ordem legal: os militares e a polícia! Em outras palavras, você já deve ter percebido que
o pessoal da segurança pública ficou com a parte mais difícil do papel Estado, ou seja, o exercício da
força coercitiva!

Figura 5.2 – Polícia em Ação

Para Refletir
A pretexto de manter a ordem legal, a polícia exerce uma força coercitiva contra as minorias. É sobre
esse tema que vamos refletir no texto “Violências e Dilemas do Controle Social nas Sociedades da
Modernidade Tardia”. Boa leitura!

Nesta aula, discutimos o conceito de controle social e vimos os modos como ele é exercido na sociedade
para a manutenção do controle sobre seus integrantes. Embora o controle social sirva para manter o
equilíbrio coletivo, ele também dificulta a evolução da própria sociedade. Isso porque os desvios, mesmo
que transgressivos, permitem o aperfeiçoamento social por meio de novas regras e a assimilação de
novos padrões de comportamento. O exercício do poder está ligado aos interesses da classe dominante,
que controlam os agentes do Estado.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 06

Aula 06 - A Condição Humana: Perspectiva Teórica


Psicológica
Em nosso cotidiano, costumamos ouvir com certa freqüência a palavra “personalidade”. Ouvimos frases
como “João não tem personalidade” ou “Pedro tem uma personalidade muito forte”. Também
costumamos dizer frases como “Paulo não tem caráter” ou “Miguel é uma pessoa muito temperamental”.

Muitas vezes empregamos as palavras “personalidade”, “caráter” e “temperamento”, mas não


conhecemos seus significados técnicos. Mesmo para psicólogos, definir “personalidade” e seus
componentes não é tarefa fácil, pois existem muitas teorias que se dedicam à abordagem desse conceito.

Nesta aula, iremos conhecer as principais teorias psicológicas sobre a personalidade humana e o seu
funcionamento a partir de cada ponto de vista teórico. Está curioso?

6.1 Teoria da Personalidade de Gordon Allport


Para Gordon Allport (apud HALL; LINDZEY, 1973, p.292), “a personalidade é a organização dinâmica dos
sistemas psicofísicos que determinam os ajustamentos peculiares de cada indivíduo ao meio”. Essa
definição de Allport deixa subentendido que a personalidade possui uma organização interna e está em
constante desenvolvimento; portanto, ela não é estática, isto é, sofre constantes mudanças.

Figura 6.1 – Gordon Allport

A referência a sistemas psicofísicos significa que a personalidade não é exclusivamente mental, nem
exclusivamente física. Ela funciona em razão da harmonia entre mente e corpo. Para Allport, a
personalidade é quem faz o contato entre nosso mundo interior e o meio; ela é a interface entre nossa
intimidade e o mundo externo.

Gordon Allport (citado por Hall e Lindzey, 1973) considera importante que façamos uma distinção entre
personalidade, temperamento e caráter. Nós usamos muito essas palavras, mas você perceberá que, às
vezes – ou melhor, quase sempre – não as empregamos corretamente. Vamos discutir a diferença entre
esses conceitos?

34
Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 06

O temperamento é, às vezes, confundido com a personalidade. Mas Allport considera temperamento


àquela disposição (tendência) intimamente associada à nossa biologia e fisiologia. Quando alguém nos
chama atenção e ficamos trêmulos ou vermelhos, essa reação é uma tendência biológica diante de uma
situação aversiva. Ninguém nos ensinou a reagir assim e, provavelmente, se nos chamarem atenção
novamente, reagiremos do mesmo modo. Assim, os comportamentos provenientes de nosso
temperamento têm pouca possibilidade de modificação ou transformação (desenvolvimento). O que
podemos fazer é buscar adaptação ao nosso temperamento: já que eu não quero ficar tremendo ou com
a “cara vermelha”, eu evito criar situações para que me chamem atenção.

Para Saber Mais


Leia um pouco mais sobre o temperamento no texto “Temperamento: características e determinação
genética”, de Patrícia do Carmo Pereira Ito e Raquel Souza Lobo Guzzo.

O caráter é outro conceito também confundido com a personalidade. Allport considera que o caráter está
ligado a um código de conduta, ou seja, envolve um juízo de valor. O caráter está ligado àqueles
comportamentos que obtemos por meio de nossa educação. Ele sofre influência da cultura, dos processos
educacionais, da educação familiar, da sociabilidade. Os comportamentos são aprendidos, e portanto
podem ser modificados ou desenvolvidos (aprimorados).

Para Saber Mais


A formação do caráter se dá desde a infância! Quer saber mais? Leia “Sobre a questão da dinâmica do
caráter infantil”, de L.S.Vigotski.

Outro conceito importante da teoria de Gordon Allport é o de traço psicológico. O traço é uma
tendência determinante ou uma predisposição de certas respostas para estímulos específicos. Por
exemplo: se, diante de uma situação que causa frustração, uma pessoa reage, invariavelmente, com
agressividade, dizemos que a agressividade é um traço de sua personalidade.Você saberia identificar
alguns traços de sua própria personalidade?

O traço não deve ser confundido com o hábito, pois este último está ligado a um objeto ou classe de
objetos específicos. Assim, quando o indivíduo costuma agir de uma determinada maneira em uma
situação específica, estamos falando de um hábito. O traço lhe permitirá uma atitude mais constante em
quase todas as situações.

6.2 Teoria Behaviorista


O nome dessa teoria vem da palavra inglesa behavior, que significa comportamento. Essa escola
psicológica foi iniciada por John B. Watson (1878-1958) nas duas primeiras décadas do século XX, o que
explica a forte influência positivista.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 06

Figura 6.2 – John Broadus Watson

As principais idéias de Watson (apud MARX; HILLIX, 1973, p.232) são:

 o comportamento compõe-se de elementos de resposta e pode ser cuidadosamente analisado por


métodos científicos objetivos;
 o comportamento pode ser reduzido a processos físico-químicos;
 existe uma resposta imediata a estímulos eficazes, ou seja, há um determinismo de causa e
efeito;
 os processos conscientes, se existirem, não podem ser cientificamente estudados.

Para Watson, o objeto de estudo da Psicologia seria a previsão e o controle do comportamento de todos
os animais, inclusive o ser humano. Assim, a Psicologia deveria ser objetiva e, para isso, seu objeto seria
o comportamento. A fim de conferir à Psicologia uma maior independência como ciência, Watson pregava
a observação do comportamento e negava a participação dos fenômenos psíquicos, rejeitando, portanto,
o conceito de consciência ou mente.

Para Refletir
Com base no que vimos sobre a Teoria Behaviorista, você saberia identificar sua influência positivista?

6.3 O Trabalho de B. F. Skinner


O psicólogo Burrhus Frederic Skinner (1904-1990) desenvolveu seus trabalhos na década de 1930,
seguindo os pressupostos pregados por Watson.

36
Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 06

Figura 6.3 - Burrhus Frederic Skinner

Skinner realizou pesquisa com um desses ratos brancos encontrados nas lojas de produtos
veterinários. Ele desenvolveu uma caixa na qual foi possível manipular variáveis e estudar o
comportamento desses animais. A caixa ficou conhecida como “Caixa de Skinner”.

Figura 6.4 – Caixa de Skinner

Skinner distinguiu dois tipos de comportamento: o respondente e o operante. Vamos ver agora o
conceito de cada um. Fique atento às definições, pois a diferença, a princípio, parece ser muito sutil!

O comportamento respondente requer a presença de um estímulo que sempre antecede a resposta:


um estímulo específico elicia uma resposta específica. Por exemplo: o calor provoca a transpiração (em
que o estímulo é o calor, e a resposta, transpiração).

O exemplo clássico dessa modalidade de comportamento é o denominado“caso do pequeno Albert”,


também conhecido como “caso do rato branco”.Em 1920, pesquisadores testaram as reações de medo
em um menino de onze meses chamado Albert. Eles perceberam que a criança tinha medo de um forte
barulho produzido pela batida de um martelo contra uma barra de aço. Em seguida, os pesquisadores
passaram a mostrar o rato branco a Albert ao mesmo tempo em que produziam o barulho da batida do
martelo. Fizeram isso várias vezes e, ao final do experimento, quando o rato branco era mostrado,
mesmo que desacompanhado do barulho do martelo, a criança apresentava a reação de medo típica da
batida do martelo. Esse fenômeno é um comportamento respondente (ao estímulo específico “visão do
rato branco” há sempre uma resposta específica “reação de medo”), mas, por ter sido eliciado

37
Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 06

(condicionado) pelos pesquisadores (já que a reação de medo original era relacionada ao barulho, não ao
rato), ele foi denominado condicionamento respondente.

O segundo tipo de comportamento descrito por Skinner é o comportamento operante.Nessa


modalidade de comportamento, o estímulo é apresentado após a resposta, que pode ser fortalecida
(aumentada quantitativamente) ou enfraquecida.

Aos estímulos apresentados após o comportamento chamamos reforço.Se o reforço aumenta a


possibilidade de ocorrência do comportamento (resposta), é denominado de reforço positivo.Se o
reforço enfraquece o comportamento, diminuindo a sua freqüência, passa a ser chamado reforço

negativo.

Você já deve ter percebido que na vida cotidiana temos muitos exemplos da aplicação dessa teoria! Por
exemplo, quando passamos por um radar de controle de velocidade, vulgarmente conhecido como
“pardal”,e recebemos uma multa de trânsito, a nossa tendência é passar a prestar mais atenção no
velocímetro, a fim de evitar futuras multas! Não é? Nesse caso, que tipo de comportamento é observado?
E a multa, pode ser classificada como que tipo de reforço?

Para Saber Mais


Leia o texto “O conceito de operação estabelecedora na análise do comportamento”, de Caio F. Miguel.

6.4 A Teoria Psicanalítica


Como você já deve saber, a Teoria Psicanalítica teve origem nos trabalhos de Sigmund Freud (1856-
1939), no início do século XX. O austríaco Freud era médico por formação, e desenvolveu a Psicanálise
como forma de explicar alguns fenômenos psíquicos e comportamentais que a medicina não lhe permitia
compreender (BRENNER, 1987).

Figura 6.5 – Sigmund Freud

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 06

Freud propôs que a mente humana seria constituída de três grandes sistemas: ID, EGO e SUPERGO. De
acordo com a Psicanálise, esses sistemas atuariam independentes, mas harmonicamente – integrando a
personalidade humana. Vejamos cada um deles:

 ID – É a parte original da personalidade, ligada a nossa constituição biológica. Está, portanto, em


contato com nossas necessidades básicas, para as quais temos diversas denominações: instintos,
impulsos, pulsões, desejos, vontades. As atividades do ID obedecem ao princípio do prazer. Nos
primeiros anos de vida, o ser humano é dotado apenas desse sistema, o que significa dizer que
nessa fase inicial de nosso desenvolvimento somos movidos apenas por impulsos básicos, com
pouca racionalidade, em busca de gratificação imediata.
 EGO – À medida que precisamos nos adaptar ao meio e a suas exigências, uma parte do ID vai
se diferenciando (especializando-se) e formando o EGO. Esse novo elemento, além de entrar em
contato com as demandas do organismo que chegam através do ID, encontra-se em contato com
o meio ambiente, onde procura os objetos para a satisfação das necessidades básicas. Assim, o
EGO é o intermediário entre o mundo interior do indivíduo e sua realidade externa.
 SUPEREGO – Conforme atuamos no meio ambiente externo, percebemos que nele há regras e
normas estabelecidas, as quais precisam ser aprendidas e retidas. Surge então o Superego,
elemento psíquico que funciona como local destinado ao armazenamento das normas socialmente
aprendidas. Essa porção de nossa personalidade funciona como um órgão fiscalizador, o que
popularmente chamamos de consciência. Sua função é atuar sobre o EGO, reduzindo as
influências instintivas do ID.

Para a Teoria Psicanalítica, a adaptação social compreende três fases:

1. As primeiras relações da criança com seus pais.


2. A fase de formação do Superego.
3. A fase de adaptação na família como grupo.

Outros aspectos abordados pela Teoria Psicanalítica são os “Mecanismos de defesa do Ego”, medidas
defensivas destinadas a proteger a pessoa contra os impulsos ou afetos que possam ocasionar conflitos
internos e desadaptação ao meio ambiente. Entre os principais mecanismos utilizados como defesa do
Ego, destacamos:

 Repressão – Exclusão automática dos impulsos e suas representações. Baseia-se no


processo denominado censura. Nesse caso, o Ego fica exposto a duas forças antagônicas:
a afirmação das necessidades provocadas pelo Id e a negação imposta pelo Superego.
 Racionalização – Tentativa consciente de explicação ou justificação de impulsos ou
afetos inconscientes não aceitos pelo Ego. Trata-se de uma escolha entre os mais
aceitáveis motivos para explicar um comportamento.
 Deslocamento e substituição – Ambos os mecanismos são medidas defensivas, mas
há uma diferença sutil entre eles. No deslocamento, o que ocorre é uma mudança de um

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 06

objeto original por outro considerado substituto. Na substituição é o ato que é


modificado, mas não necessariamente o objeto.
 Sublimação – É um tipo especial de substituição por meio do qual um impulso primitivo,
inaceitável para o Ego, é modificado.
 Projeção – Trata-se de uma medida de defesa drástica e radical, em que uma tendência
ou desejo reprimido é atribuído a outrem. A presença de tal defesa significa que o Ego
está renunciando ao contato com a realidade.
 Conversão – Expressão de um impulso ou uma tendência não aceita pelo Ego através
dos músculos voluntários ou pelos órgãos dos sentidos (por exemplo, paralisia histérica,
contrações, espasmos, convulsões, gargalhadas, choro).
 Regressão – Tendência que um organismo tem de restabelecer uma situação anterior,
adotando comportamentos típicos de estágios anteriores do desenvolvimento.

Para Saber Mais


Você se interessou pela Teoria Psicanalítica? Busque mais informações no “ Estudo crítico sobre a
transformação da ideologia e da subjetividade”, de Fábio Luiz Tezini Crocco.

Nesta aula, você conheceu três teorias que buscam explicar como funciona a personalidade humana. São
pontos de vista diferentes, mas que nos ajudam a entender diversas situações do cotidiano. Isso inclui
situações que envolvem os fenômenos da violência e da criminalidade! Busque estabelecer relações entre
as teorias que estudamos nesta aula e o campo da Segurança Pública!

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 08

Aula 07 - A Condição Humana: Agressividade, Violência


e Conduta Criminosa
Os episódios de violência e agressividade observados atualmente em todas as sociedades humanas
incitam uma série de reflexões, questionando conceitos como a ética, a moral, o patológico e até mesmo
o normal.

A agressividade e a violência dos crimes deixam as sociedades estarrecidas e levantam as questões: Por
que o indivíduo cometeu esse crime? Terá ele algum problema psíquico? Ou será simplesmente uma
pessoa maldosa?

No meio forense, é comum depararmos com crimes praticados por um tipo específico de transtorno de
personalidade. Esse transtorno não tem alta freqüência na população criminal, mas os crimes praticados
por pessoas com esse transtorno são aqueles de grande repercussão social – estamos falando da
“personalidade anti-social”.

Vejamos o que mais podemos aprender sobre esse tema!

7.1 A Personalidade Anti-Social


Você já deve ter ouvido, nos filmes ou em reportagens, a palavra psicopata. É um termo bastante usado
na mídia e, recentemente, vem sendo banalizado: é empregado em diversas situações e sem os critérios
ligados ao estabelecimento de diagnóstico.

Tecnicamente, o termo correto a ser empregado no lugar de psicopatia é Transtorno de Personalidade


Anti-Social.As razões para essa mudança de nomenclatura são técnicas. O termo ‘psicopata’ dá a
entender que se trata de pessoa portadora de uma patologia mental, e isso vem sendo questionado por
profissionais da área de saúde mental. Ainda assim, o termo psicopata ainda é muito usado e você o
encontrará em muitos livros especializados.

Apesar das diferentes tipologias propostas por diversos autores, todos parecem estar de acordo com a
presença de algumas características típicas em indivíduos como esse transtorno. Essas características
são: impulsividade; falta de sentimento de culpa ou arrependimento; ausência de sentido moral e
desrespeito por normas, regras e obrigações sociais.

Para a Associação Psiquiátrica Americana, o Transtorno da Personalidade Anti-Social é um padrão de


comportamento caracterizado por desrespeito e violação dos direitos dos outros. Esse transtorno inicia-se
na infância ou na adolescência e se mantém na idade adulta.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 08

A Organização Mundial de Saúde, por sua vez, considera que o Transtorno da Personalidade Anti-
Socialtem como característica principal a disparidade flagrante entre o comportamento de seu portador e
as normas sociais predominantes.

7.2 Considerações Históricas


Desde o século XVII, médicos, antropólogos e outros estudiosos vêm descrevendo tipos de personalidade
que possuem algo em comum: o fato de causarem problemas de convivência em sociedade. Vamos
estudar a evolução do conhecimento acerca desse tema?

Em 1809, Philippe Pinel, médico pioneiro no tratamento de doentes mentais, afirmou que “existem
manias sem delírio”. O que ele queria dizer com isso é que algumas pessoas podem ser portadoras de
uma doença mental próxima à loucura, mas sem apresentar nenhum prejuízo intelectual. Logo, essas
pessoas são capazes de fazer tudo que as outras pessoas fazem, e não apresentarem as características
típicas da loucura.

Em 1822, Evans Pritchard, antropólogo britânico, relatou a existência de pessoas com uma espécie de
insanidade moral (moral insanity), ou seja, pessoas que podem discernir e raciocinar lucidamente sobre
qualquer tema, porém, não são capazes de se conduzir com decência e decoro.

Em 1917, Emil Kraepelin, psiquiatra alemão, referindo-se a esse tipo de pessoa, cunhou o termo
inferioridades psicopáticas,que depois deu origem ao termo personalidade psicopática,como forma de
designar aqueles pacientes descritos por seus antecessores.

Desde então, a personalidade psicopática passou a ser investigada mais sistematicamente, e suas
características foram reunidas ao longo do tempo. Pessoas portadoras do Transtorno da Personalidade
Anti-Social sofrem de incapacidade de adaptação às normas, associada a uma falta de empatia. Tendem
a ser insensíveis e a desprezar os sentimentos, direitos e sofrimentos alheios.

Em 1968, a Associação Psiquiátrica Americana introduziu o Transtorno da Personalidade Anti-Social na


segunda edição de seu Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, conhecida à época como
DSM-II. A partir da terceira edição do DSM, os critérios diagnósticos ligados a esse transtorno foram
elencados. Na edição atual do DSM-IV, consolidou-se o estudo desse transtorno, inclusive com critérios
para o diagnóstico diferencial (ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA, 2003).

Em 1992, a Organização Mundial de Saúde também introduziu na Classificação de Transtornos Mentais e


de Comportamento (10ª revisão, conhecida como CID-10) o Transtorno da Personalidade Anti-Social,
definindo-o como um transtorno específico da personalidade (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE,
1993).

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Aula 08

7.3 Características Diagnósticas


Se você não está estudando para ser médico, então por que aprender os critérios diagnósticos para esse
transtorno? Bem, se você, como agente de segurança pública, conseguir identificar que está lidando com
uma pessoa desse grupo, deverá tomar mais precauções, pois isso aumenta o grau de complexidade da
situação e indica uma maior periculosidade da pessoa com quem você está lidando. Mas cuidado! Evite
tirar conclusões precipitadas a esse respeito: lembre-se de que você tem noções básicas, mas não é um
especialista!

O Transtorno da Personalidade Anti-Social é muito mais comum em homens, atingindo 3% da população


masculina, segundo as estatísticas oficiais. Entre as mulheres, atinge apenas 1% da população. O
Transtorno da Personalidade Anti-Social geralmente começa na infância e se estende até a vida adulta
(ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA, 2003).

Em 1950, o psiquiatra estadunidense Hervey Milton Cleckley (1903-1984) estudou vários indivíduos com
esse transtorno e conseguiu reunir as principais características de personalidade ligadas ao problema.
Veja essas características listadas a seguir:

 atração superficial (conseguem envolver as pessoas);


 ausência de delírios;
 ausência de manifestações psiconeuróticas;
 inconstância;
 insinceridade;
 falta de vergonha ou remorso;
 conduta social inadequadamente motivada;
 incapacidade de aprender com a experiência;
 egocentrismo patológico;
 pobreza de reação afetiva;
 irresponsabilidade nas relações interpessoais;
 baixa tendência ao suicido;
 vida sexual pobremente integrada;
 dificuldade em fazer um plano de vida.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 08

Figura 6.1 – Hervey Cleckley

Já os critérios diagnósticos apresentados pela Organização Mundial de Saúde (1993) na CID-10 são:

 indiferença pelos sentimentos alheios;


 atitude flagrante e persistente de irresponsabilidade e desrespeito por normas, regras e
obrigações sociais;
 incapacidade de manter relacionamentos, embora não haja dificuldade em estabelecê-los;
 muito baixa tolerância à frustração e um baixo limiar para descarga da agressão, incluindo a
violência;
 incapacidade de experimentar culpa e aprender com a experiência, particularmente a punição;
 propensão marcante para culpar os outros ou oferecer racionalização plausível para o
comportamento que o levou ao conflito com a sociedade.

Para Saber Mais


Conheça mais sobre o Transtorno de Personalidade Anti-Social em: “A prática da psiquiatria forense na
inglaterra e no brasil: uma breve comparação”, de Elias Abdalla-Filho e Wolfram Engelhardt.

7.4 A Classificação Segundo Blackburn


Blackburn (apud LEWIS, 1991) desenvolveu uma interessante tipologia para indivíduos com
personalidade anti-social. Ele propôs uma distinção entre dois tipos de “psicopatas”, ambos
compartilhando um alto grau de impulsividade: um tipo primário, caracterizado por uma adequada
socialização e uma total falta de perturbações emocionais, e um tipo secundário, caracterizado pelo
isolamento social e traços neuróticos. Vejamos:

 Psicopatas primários são impulsivos, agressivos, hostis, extrovertidos, confiantes em si


mesmos e apresentam baixa ansiedade. Nesse grupo encontram-se, predominantemente,
pessoas narcisistas, histriônicas, e anti-sociais.
 Psicopatas secundários são normalmente hostis, impulsivos, agressivos, socialmente ansiosos
e isolados, mal-humorados e com baixa auto-estima. Aqui se encontram anti-sociais, evitativos,
dependentes e paranóides.

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Aula 08

Figura 6.2 – Theodore Robert "Ted" Bundy – Famoso “Psicopata” Estadunidense

De acordo com a tipologia de Blackburn, psicopatas primários têm convicções mais firmes para efetuar
crimes violentos, enquanto psicopatas secundários estão mais aptos para os roubos. Psicopatas
secundários, entretanto, mostram mais fúria diante da ameaça, tanto física como verbal, e muito mais
ansiedade social, já que apresentam comportamentos evitativos e passivo-agressivos.

7.5 Relevância para a Segurança Pública


Pelas características das pessoas com Transtorno da Personalidade Anti-Social, você já deve ter
percebido que elas causam problemas relacionados à Segurança Pública! Estatisticamente, os casos
envolvendo essas pessoas não são numerosos. Devido à peculiaridade de suas personalidades,
entretanto, os atos praticados por pessoas com o transtorno são altamente violentos e trazem grande
comoção social. Exigem, portanto, recursos especiais dos organismos de segurança pública.

Os psicopatas tendem a manifestar comportamentos rígidos e inflexíveis. Sua consciência social é


bastante deficiente, e apresentam uma grande inclinação para violação das regras, sem se importarem
com os direitos alheios.

Apresentam também indiferença pela verdade e, se são descobertos ou desmascarados, podem continuar
demonstrando total indiferença. Uma de suas maiores habilidades é a facilidade que têm em influenciar
pessoas, podendo adotar um ar de inocência, de vítima, de líder. Tendem a assumir o papel mais
indicado para cada circunstância, por isso, não é indicado ao profissional de segurança pública que facilite
o contato desses indivíduos com a mídia. Eles conseguem enganar os outros com encanto e eloqüência!

Quanto à recuperação, pessoas com Transtorno da Personalidade Anti-Social apresentam dificuldade em


aprender com a experiência, quando castigadas por seus erros. Ao invés de se corrigirem, podem avaliar
a situação e melhorar suas técnicas para continuar a conduta anti-social. Pesquisas demonstram que
esse tipo de comportamento começa a declinar a partir da quarta década de vida.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 08

Para Saber Mais


Quer mais informações sobre o Transtorno da Personalidade Anti-Social? Leia “ Reincidência criminal: é
possível prevenir?”, de Hilda Morana. Boa leitura!

Nesta aula, você aprendeu o que significa o termo psicopata. Vimos que o termo técnico correto para a
“psicopatia” é Transtorno da Personalidade Anti-Social, pois os indivíduos que sofrem desse transtorno
não possuem uma patologia física ou mental diagnosticável. O que apresentam de marcante são certas
características de personalidade que trazem sérios problemas para o convívio social em razão de sua
conduta nociva aos demais. Para os organismos de segurança pública, identificar esse tipo de
personalidade é crucial para um trabalho de investigação e prevenção do crime.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 08

Aula 08 - O Comportamento Desviante


A conduta humana pode ser analisada do ponto de vista social como normal ou desviante. O juízo de
valor acerca do que é normal ou desvio sofre influência geográfica, histórica e cultural. Você é capaz de
encontrar exemplos de comportamentos outrora considerados normais, mas agora vistos como
desviantes?

Nesta aula iremos abordar o comportamento desviante e alguns conceitos correlacionados. Você já
conhece as diferentes formas de desviação? Vamos aprender sobre esse tema!

8.1 O Conceito de Normal e Desviante


Um dado comportamento será considerado normal enquanto assim o quiser um grupo ou sociedade
organizada. Não há características definidas para que um comportamento seja descrito como normal: o
que é considerado normal na América do Sul pode não o ser no Oriente Médio, e vice-versa.

Observe as diferenças existentes entre os modos de vida de pessoas que moram no litoral e aquelas que
moram no interior, e isso dentro de um mesmo país! Por exemplo: é comum, em cidades litorâneas, as
pessoas utilizarem o transporte público em trajes de banho, quando se dirigem à praia. Esse mesmo
comportamento não é observado no interior, mesmo que as pessoas estejam indo para um clube!

Àquelas pessoas que se comportam de acordo com as normas de seu meio ambiente chamamos de
conformantes. Por outro lado,ações e formas de comportamento que não são punidas com sanções
sociais legais mas que se opõem às normas geralmente aceitas são consideradas comportamentos
desviantes.

Um comportamento não é desviante por si só, é preciso que ele seja considerado, em um contexto
específico, como desviante. Assim, esse conceito é relativo e depende dos padrões de costumes, ética,
moral, religião de uma determinada comunidade ou sociedade. Nem todo comportamento desviante é
obrigatoriamente transgressivo!

Para Saber Mais


Informe-se sobre esse tema lendo o texto “ Reflexões sobre normalidade e desvio social”, de Richard
Miskolci.

8.2 Desvio Positivo e Desvio Negativo


Podemos dizer que existem desvios positivos de comportamento. Determinadas pessoas agem de
maneira tão distante da média grupal que somos obrigados a concordar que são desviantes. Porém, o

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 08

desvio dessas pessoas é em prol do bem comum: nesses casos, o comportamento desviante busca o
benefício do próximo, ainda que enfrentando adversidades. Alguns autores consideram que o máximo da
desviação positiva leva à santidade.

Figura 8.1 – Madre Teresa de Calcutá, exemplo de Comportamento Desviante Positivo

Por outro lado, temos outro tipo de desvio de comportamento que é desaprovado pelo grupo ou pela
sociedade por violar normas pré-estabelecidas. Nesse caso, o desvio traz malefícios à comunidade,
podendo colocar em risco a segurança das pessoas. Nesses casos, temos o desvio negativo de
comportamento, em que a desviação máxima chega ao que denominamos crime.

Figura 6.3 – Episódio do Ônibus 174, Comportamento Desviante Máximo, ou Crime

Para Saber Mais


Leia:
 “ Entre as malhas do desvio: jovens, espaço, trajectórias e delinqüências”, de Maria João Leote de
Carvalho”.
 “Avaliação psicológica e prognóstico de comportamento desviante numa corporação militar”, de
Divino Pereira de Brito e Iris B. Goular

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 08

8.3 Os Tipos de Desvio e a Consolidação do Comportamento


Desviante
Existem desvios primários e desvios secundários. Há desvio primário quando ocorre ruptura da norma
sem que o autor dessa ruptura perceba a si mesmo como um desviante. Esse fenômeno é muito
freqüente em casos de drogadição: é comum, por exemplo, alcoolistas não assumirem a sua condição e
afirmarem que apenas tomam “um gole”!

Já o desvio secundário acontece quando a pessoa começa a assimilar o próprio comportamento


desviante, utilizando-se do papel que o mesmo lhe assinala como um mecanismo de defesa. É o caso em
que se usa o discurso conformista “eu não presto mesmo!” para justificar o próprio comportamento. E
isso não é incomum, não é mesmo?

Vejamos agora algumas etapas do processo de consolidação do comportamento desviante, do desvio


primário ao desvio secundário:

 Ocorrência do desvio primário – O comportamento desviante se manifesta pela primeira vez.


 Sanções sociais – A sociedade reage com sanções correspondentes ao desvio, geralmente com
multas, penas brandas ou algum tipo de compromisso social (termo circunstanciado).
 Recorrência do desvio primário – O indivíduo, por razões diversas, manifesta novamente o
comportamento desviante, violando novamente as normas sociais.
 Sanções sociais mais severas – A sociedade, por meio de seu Sistema de Justiça Criminal,
pune com mais vigor o desvio reincidente, aplicando geralmente pena de restrição de liberdade.
 Recorrência do desvio primário acompanhado de hostilidade contra os sancionadores –
O desviante revolta-se contra o Sistema de Justiça Criminal por considerar-se injustiçado.
 Rebaixamento do nível de tolerância – Ocorre o processo psíquico de intolerância à frustração
causada pela atuação da sociedade.
 Reforço da conduta desviante (reação à estigmatização) – O desviante reage contra a
tentativa da sociedade de punir seu comportamento e enquadrá-lo como indivíduo fora da norma.
 Aceitação final do status social de desviante – Por fim, o indivíduo desviante aceita sua
condição e assume o seu papel de desviante.

Para Refletir
Você concorda com essas etapas? Acha que é assim mesmo que acontece a consolidação do
comportamento desviante? Conhece alguma história de desviação que exemplifique esse quadro?
Pense: com que medidas os organismos da Segurança Pública poderiam atuar no rompimento desse
ciclo?

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 08

8.4 As Formas de Desviação


Você já conhece algumas formas de desviação, não é? Agora vamos sistematizar esse conhecimento,
nomeando essas formas com termos técnicos! Preparado? Então, vejamos:

 Desviação aprovada – Aquela em que o grupo, ou a sociedade, tolera o comportamento


inadequado. Você já deve ter visto algum caso desse desvio em nossa sociedade, pois é algo
bastante comum. Procure levantar exemplos!
 Desviação desaprovada – Aquela que sofre reação contrária por parte do grupo ou da
sociedade. Note que muitas vezes há uma interação entre a desviação desaprovada e o
comportamento transgressivo.
 Desviação relativa – As pessoas cujo comportamento é considerado “normal”
podem,ocasionalmente, se afastar do senso comum e manifestar comportamentos desviantes,
desde atos bizarros até pequenos delitos.
 Desviação absoluta – Ocorre quando o indivíduo se afasta por completo das normas sociais,
tanto na freqüência como na amplitude do comportamento.

Há também os compoprtamentos transgressivos: aqueles que, além de desviantes, são ostensivamente


violadores das normas sociais.

O comportamento desviante é algo existente em todas as sociedades. Por isso, há quem considere que o
desvio é o causador de mudanças sociais. Existem basicamente dois tipos de desvio: aqueles aceitos pela
sociedade e aqueles rejeitados por ela. Esses últimos acabam por gerar comportamentos transgressivos
que a sociedade considera crimes, buscando sua repreensão.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 09

Aula 09 - A Doença Mental e o Crime


Não é raro encontrar quem pense que os crimes são praticados por “loucos”. Trata-se uma tentativa da
sociedade em encontrar explicação para problemas sobre os quais não tem conhecimento! É mais fácil e
cômodo encarar a questão dessa maneira: se a prática de crimes é uma doença, então basta encontrar o
remédio e teremos a cura!

Nesta aula, a doença mental, vista por muitos como um desvio, será examinada sob o ponto de vista da
lei brasileira. Vamos lá?

9.1 A Medida de Segurança


Apesar do mito que relaciona crime e doença mental, a participação de doentes mentais nas estatísticas
da criminalidade é muito baixa. Uma maneira de checarmos essa afirmação é verificarmos a quantidade
de presos em nosso sistema penitenciário que estão em medida de segurança.

A medida de segurança é uma sanção penal com finalidade preventiva, ao contrário da pena, que é uma
sanção penal com fim repressivo. A aplicação de medida de segurança encontra fundamento na
comprovação da periculosidade. A periculosidade, por sua vez, é a probalidade de o sujeito vir a praticar
crimes ou reincidir na prática de crimes.

Tanto a medida de segurança quanto a pena pressupõem a prática de ato ilícito; vão contra a pessoa em
reação a uma agressão contra um bem jurídico tutelado. Outro aspecto compartilhado por ambas é que
um de seus objetivos é tirar o delinqüente da rua.

A medida de segurança visa à prevenção e à cura, no sentido de preservar a sociedade da ação de


delinqüentes temíveis e de recuperá-los com tratamento curativo. Atenção: somente depois de
comprovada a periculosidade do delinqüente é que a medida de segurança torna-se aplicável!

De acordo com a lei de execução penal, a medida de segurança pode ser de internação ou de tratamento
ambulatorial. No primeiro caso, o indivíduo é internado em um Hospital de Custódia e Tratamento
Psiquiátrico, que é uma unidade prisional do próprio sistema penitenciário. No segundo caso, o indivíduo
pode fazer o tratamento em qualquer unidade hospitalar da rede pública, sendo sua freqüência
controlada pelo juízo da execução penal.

9.2 A Doença Mental no Código Penal


O termo “doente mental” já não é utilizado na literatura técnica especializada. O principal motivo do
desuso desse termo é o fato de que doença pressupõe causa e cura, mas, atualmente, muitos
transtornos mentais não têm a causa definida e, muito menos, a cura descoberta. Assim, o termo

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 09

adotado é mesmo transtorno, que significa um conjunto de sintomas ou comportamentos clinicamente


reconhecíveis e associados.

Para Saber Mais


Fique sabendo mais em “A reforma psiquiátrica no Brasil”, de Alda Martins Gonçalves e Roseni Rosângela
de Sena.

No tocante à questão da saúde mental, há divergência entre os textos legais e a literatura especializada.
Nosso Código Penal, em seu artigo 26, escreve, in verbis:

Art. 26 - É isento de pena o agente que, por doença mental ou


desenvolvimento mental incompleto ou retardado, era, ao tempoda ação ou da
omissão, inteiramente incapaz de entender ocaráter ilícito dofato ou
dedeterminar-se de acordo com esse entendimento.

Redução de pena

Parágrafo único - A pena pode ser reduzida de um a dois terços, se o agente,


em virtude de perturbação de saúde mental ou por desenvolvimento mental
incompleto ou retardado não era inteiramente capaz de entender o caráter
ilícito do fato ou de determinar-se de acordo com esse entendimento.

Como você vê, nosso Código Penal utiliza a terminologia doença mental, ainda que a própria Organização
Mundial de Saúde (2002) e os profissionais de saúde mental já não utilizem essa nomenclatura. Isso
obriga a interpretação da lei por parte de profissionais da saúde mental para que haja harmonia entre os
textos legais e a literatura técnica.

Outro termo utilizado nos textos legais e que também traz certa confusão, pois não há uma definição
clara a seu respeito, é alienação mental. Na prática, o que observamos é que os termos doença mental e
alienação mental têm sido usados como sinônimos (TABORDA et al., 2004).

Para Saber Mais


Saiba mais em “ As fronteiras da anormalidade: psiquiatria e controle social’, de Magali Gouveia Engel.

9.3 A Alienação Mental


De acordo com Taborda et al. (2004), para haver alienação mental é necessário que o juízo de realidade
esteja comprometido. Isso significa que os portadores desse mal não percebem bem a realidade que os
cerca, principalmente porque eles podem sofrer de duas alterações importantes: as alucinações e as
idéias delirantes.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 09

Para Saber Mais


Leia “A doença mental no direito penal brasileiro”, de Maria Fernanda Tourinho Peres e Antônio Nery
Filho.

Tecnicamente, a alucinação é uma “alteração das representações mentais”, mas o que interessa mesmo
saber é que o indivíduo que sofre com alucinações percebe coisas que nós, a seu lado, não percebemos.
Por exemplo: ele pode ouvir vozes, na forma de sussurros ou comandos; pode também ouvir barulhos
como um toque de sino, uma batida na porta; pode ver imagens que nós não vemos; pode ter sensações
como um bicho andando sobre seu corpo ou movimentos autônomos de partes do corpo. Em alguns
casos, há relatos de indivíduos que sentem cheiros e gostos não percebidos pelos demais.

As idéias delirantes, também identificadas como “delírios” na literatura especializada, são “alterações do
juízo”. O que você precisa saber sobre as idéias delirantes é que elas alteram a maneira como a pessoa
interpreta a realidade. Um exemplo típico é aquele indivíduo que, nos programas de humor, acredita ser
Napoleão Bonaparte. Você se lembra de já ter visto isso em programas humorísticos? Nesse caso, o
indivíduo age como se fosse o personagem.

Cabe aqui um episódio anedótico: certa vez, no sistema penitenciário do Distrito Federal, os funcionários
encontraram um preso que gerava problemas de relacionamento, pois dizia ser um ex-presidente da
república e exigia ser tratado como tal. Era um caso de delírio.

Para atender ao artigo 26 do Código Penal, precisamos recorrer a interpretações feitas por profissionais
de saúde mental. Vamos utilizar, à guisa de exemplo, os Critérios de Avaliação da Condição de Invalidez
do Instituto de Previdência dos Servidores do Estado de Minas Gerais (IPSEMG), a fim de obter uma idéia
sobre quais são os casos considerados como alienação mental.

Para Saber Mais


Visite a página do IPSEMG.

Vejamos a relação que segue, acerca dos casos de alienação mental:

 São, necessariamente, casos de alienação mental:


o estados de demência (senil, pré-senil, arterioesclerótica, luética, coréica, doença de
Alzheimer e outras formas bem definidas);
o psicoses esquizofrênicas nos estados crônicos;
o paranóia e a parafrenia nos estados crônicos;
o oligofrenias graves.
 São excepcionalmente considerados casos de alienação mental:
o psicoses afetivas, mono ou bipolar, quando comprovadamente cronificadas e
refratárias ao tratamento, ou quando exibem elevada freqüência de repetição fásica ou,
ainda, quando configuram comprometimento grave e irreversível de personalidade;

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 09

o psicoses epilépticas, quando caracterizadamente cronificadas e resistentes à


terapêutica ou quando apresentam elevada freqüência de surtos psicóticos;
o psicoses pós-traumáticas e outras psicoses orgânicas, quando caracterizadamente
cronificadas e refratárias ao tratamento ou quando configurarem um quadro irreversível
de demência.

9.4 Outros Estados Psíquicos Considerados no Código Penal


Outros estados psíquicos que não se enquadram na categoria de alienação mental são considerados pelo
Código Penal como perturbação da saúde mental. Essa modalidade não é reconhecida pela Classificação
de Transtornos Mentais e de Comportamento – CID (10ª revisão) – da Organização Mundial Saúde (OMS,
2002).

Acerca do significado do termo “perturbação da saúde mental”, Araújo (2006) ensina que, nesse caso, “o
indivíduo não é tão sadio para merecer uma sanção tão extrema e nem tão louco para eximir-se da
pena”. Para Taborda et al. (2004), a categoria de perturbação da saúde mental diz respeito aos casos de
neurose e de transtornos de personalidade, pois,nesses casos, não há presença de alucinação nem de
delírios. Assim, os indivíduos que sofrem perturbação da saúde mental percebem adequadamente a
realidade imediata.

Existem dois outros casos que você, como profissional da segurança pública, deve conhecer, já que estão
citados no artigo 26 do Código Penal Brasileiro. A redação do Código Penal, entretanto, não deixa claro
do que se trata!

Esses casos são o “desenvolvimento mental incompleto” e o “desenvolvimento mental retardado”. Ambos
não são considerados como modalidades de doença mental, mas sim como alterações do
desenvolvimento. Essas alterações, porém, trazem repercussões na capacidade de entendimento e
determinação de seus portadores.

Na categoria de desenvolvimento mental incompleto estão incluídos os indivíduos menores de 18


(dezoito) anos de idade, os indígenas não aculturados e os surdos-mudos. Esses dois últimos grupos
necessitam de confirmação pericial específica para ser constatado o grau de comprometimento da
capacidade de entendimento e determinação.

Já na categoria de desenvolvimento mental retardado estão incluídos os casos de retardo mental


propriamente dito. Em alguns textos da literatura especializada, esses casos também são denominados
como oligofrenias. A situação jurídica do portador de retardo depende do grau de comprometimento da
capacidade cognitiva, que pode ser leve, moderado, grave ou profundo.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 09

Finalmente, há mais um aspecto a que você precisa ficar atento: o Código Penal Brasileiro estabelece
dois critérios para analisar a capacidade da pessoa em responder pelos seus atos. Esses critérios,
incluídos no próprio artigo 26, citado anteriormente, são: o entendimento e a determinação.

O entendimento é a capacidade de julgar, avaliar, ajuizar a realidade em contato imediato com o


indivíduo. Já a determinação é a capacidade que possui o indivíduo de se comportar, conduzir e controlar
de acordo com seu pensamento.

A partir da análise da capacidade de entendimento e determinação, surgem algumas alternativas


jurídicas para o indivíduo: (1) se ambas as capacidades estiverem ausentes, nossa legislação prevê a
aplicação da medida de segurança (já mencionada no início desta aula); (2) se há presença das duas
capacidades, entendimento e determinação, o indivíduo é considerado penalmente responsável; (3) se há
presença apenas de uma das capacidades, o caso requer um estudo específico, com assessoria de perícia
para auxílio na determinação do destino jurídico da pessoa examinada.

A doença mental, vista como desvio, é erroneamente considerada como o principal fator criminógeno.
Porém, estatisticamente, o número de crimes praticados por portadores de algum tipo de patologia
mental é baixo; o que chama atenção é a brutalidade desses crimes. Nesta aula, vimos como o Código
Penal brasileiro lida com a doença mental, a alienação mental e outros estados psíquicos.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 10

Aula 10 - A Delinqüência Juvenil


Você já deve ter percebido que lidar com adolescentes em conflito com a lei é bem mais complicado que
com adultos. Encontramos barreiras de toda espécie, desde a própria legislação até questões técnicas e
filosóficas sobre essa etapa evolutiva da vida humana, a adolescência.

Ter muito conhecimento sobre armamento e técnicas de defesa pessoal não lhe será tão útil para lidar
com esse público... O que você precisa é conhecer mais a fundo o problema específico que envolve a
delinqüência juvenil. Esse será nosso objetivo nesta última aula da disciplina!

Figura 10.1 – Adolescentes em Conflito com a Lei

10.1 A Família: uma Visão Sistêmica


Em primeiro lugar, vamos conhecer alguns conceitos da Psicologia para entender melhor o fenômeno da
delinqüência juvenil e os fatores correlacionados. Isso lhe permitirá lidar com outros profissionais que
atuam na área e lhe proporcionará conhecimento para enfrentar esse problema na atividade de
Segurança Pública.

Você precisa entender que o adolescente em conflito com a lei deve ser compreendido a partir de uma
visão que a psicologia denomina sistêmica, ou seja, esse adolescente faz parte de um conjunto social
mais amplo que podemos denominar de sistema.

A visão de que o indivíduo não pode ser considerado como o único responsável por seu comportamento
enfatiza a importância da contribuição do contexto relacional, ou seja, do conjunto de relações sociais de
que a pessoa participa. Essa perspectiva data de meados da década de 1960, quando o chamado Grupo
de Milão desenvolveu a abordagem sistêmica.

56
Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 10

Para Saber Mais


Saiba mais sobre essa abordagem lendo o texto “ Uma atualização epistemológica das terapias
sistêmicas”, de Marcelo Pakman.

Para Ausloos (apud SUDBRACK, 1992), um sistema é um conjunto de elementos em interação,


organizado em função de suas finalidades e evoluindo ao longo do tempo. Ele apresenta a teoria de que a
família é um sistema competente para resolver os problemas que surgem em seu interior.

A família pode ser considerada como um sistema aberto, pois há uma circulação de seus membros, que
interagem entre si, e também porque há interação da própria família com sistemas extrafamiliares – no
meio social.

Como um sistema aberto, a família está sujeita a certas propriedades como a globalidade, que faz com
que uma mudança em um dos componentes seja sentida no sistema total. O mecanismo de
retroalimentação(ou feedback)permite a circularidade da informação dentro da família e o
comportamento de um membro afeta e é afetado pelo comportamento de cada um dos demais.

Além disso, a família é um sistema que se autogoverna, utilizando-se de regras que definem aquilo que é
permitido ou não para o grupo. Qualquer desvio além do limite de tolerância provoca a atuação de
mecanismos de controle, de modo a assegurar o equilíbrio.

Desse modo, na perspectiva da visão sistêmica, o membro sintomático (isto é, o elemento da família que
apresenta o comportamento desviante) é um representante circunstancial de alguma disfunção no
sistema familiar maior, ou seja, expressa algo de inadequado que vem do interior da família. De acordo
com essa perspectiva, a delinqüência juvenil pode ser interpretada como uma transgressão às leis
sociais, mas, pela ótica familiar e sistêmica, poderá ter uma conotação de sintoma: trata-se do efeito
sintomático de um desequilíbrio na estrutura familiar.

Para Refletir
Assim é o adolescente em conflito com a lei na visão sistêmica: sintoma de um desequilíbrio familiar
maior. Reflita: essa perspectiva se parece com aquela que predomina no senso comum? Assemelha-se ao
modo como o adolescente em conflito com e lei é percebido nas esferas da segurança pública? Em que
aspectos há semelhança ou diferença em relação à perspectiva com a qual você está acostumado a lidar?

Para Saber Mais


Leia mais sobre esse tema em “ Adolescentes em conflito com a lei: uma revisão dos fatores de risco
para a conduta infracional”, de Alex Eduardo Gallo e Lúcia Cavalcanti de Albuquerque Williams.

57
Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 10

Em relação ao funcionamento familiar, Ausloos (apud Sudbrack, 1992) considera a existência de dois
tipos de família: a de transação rígida e a de transação caótica.

A família de transação rígida é caracterizada pela rigidez das regras internas, o que impede uma boa
circulação da informação e, conseqüentemente, faz com que haja um tempo estático – isto é, reforça a
convicção de que nada pode ser mudado. Para Ausloos, esse tipo de família produz membros psicóticos.

Na família de transação caótica, ao contrário, a informação circula, porém, de maneira desorganizada, o


que dificulta seu registro ou armazenamento. O tempo, então, se apresenta dividido em função dos
acontecimentos presentes, desprezando o passado e o futuro. Para Ausloos, esse tipo de família produz
membros delinqüentes.

Você concorda com a definição desses dois tipos de família? Como seria, em termos da transação
informacional, uma família equilibrada, apta a produzir pessoas psicologicamente saudáveis? Pense:
como o conhecimento da perspectiva sistêmica de família pode lhe ser útil em sua atividade na
Segurança Pública?

10.2 A Família do Adolescente em Conflito com a Lei


Os estudos sobre famílias com transações delitogênicas não permitem a construção de perfil único ou o
estabelecimento de um vínculo de linearidade (causa-efeito) entre o tipo de família e o conflito com a lei.
Entretanto, esses estudos nos permitem observar a existência freqüente de falhas na constituição das
famílias e de falência dos papéis de maternagem e/ou paternagem.

As sociedades modernas, sobretudo as ocidentais, caracterizam-se, ainda, pela divisão de tarefas na


família. Ao pai, por tradição, fica o encargo de provimento e assistência material – com pouca presença
no processo educacional e de formação da personalidade do filho. Isso sobrecarrega a mãe, já incumbida
das demais responsabilidades da maternagem.

Sudbrack (1992) distingue a função paterna em quatro dimensões consideradas indispensáveis, levando-
se em consideração o papel desempenhado pelo pai e a relação afetiva com a criança. Vejamos:

1. Articulação biológica – Resgata e identifica o pai com a condição de genitor, o que dá a


definição do “nascimento natural”.
2. Articulação sócio-econômica e sócio-cultural – Permite designar o pai enquanto provedor e
educador, o que possibilita o “nascimento social”.
3. Articulação patronímica – Permite designar o pai legal e o “nascimento legítimo”.
4. Articulação da paternidade simbólica – Introduz o “Nome do Pai” propriamente dito,
definindo o “nascimento social”.

58
Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 10

Por meio de seus estudos com famílias apresentando transações delitogênicas, Sudbrack (1992)
observou que a função paterna não era exercida em sua plenitude. Assim, a pesquisadora identificou
“pais sem verdadeira paternidade”, a quem denominou de pais semipresentes. Vejamos agora a
classificação de pais semipresentes proposta por Sudbrack (1992):

 Pai desconhecido – Classificação relacionada aos casos de filhos que não tiveram
revelada a verdade sobre sua filiação, ou seja, trata-se dos casos em que a criança
desconhece o pai genitor.
 Pai perdido – Refere-se aos casos de filhos aos quais foi totalmente proibido o contato
com o pai em virtude da separação do casal parental, apesar da existência de um período
anterior de convivência, na primeira infância.
 Pai excluído – Caso em que a família aparenta ser “normalmente” constituída, com a
presença atual do pai genitor, mas este não assume a contento a paternidade ou não é
reconhecido no papel de pai na família.

Para Saber Mais


Esse assunto é muito importante para você como profissional da segurança pública! Para saber mais,
acesse os links a baixo:

 http://www.cededica.org.br/downloads/texto_IBCcrim_v2.doc
 http://ojs.c3sl.ufpr.br/ojs2/index.php/psicologia/article/viewPDFInterstitial/3291/2635

10.3 O Adolescente em Conflito (Inclusive com a Lei)


Ao discorrer sobre os aspectos psicológicos da delinqüência juvenil, em especial sobre a orientação de
crianças anti-sociais, Winnicott (1987) considera que tudo o que leva uma pessoa adulta aos tribunais ou
aos manicômios tem o seu equivalente normal na infância.

Figura 10.2 – D. W Winnicott (1896-1971)

Para Winnicott (1987), mesmo a criança considerada “normal” está repleta de conflitos: nessa fase do
desenvolvimento humano, a personalidade ainda não está bem integrada, e a criança sente dificuldade
em tolerar e enfrentar suas pulsões.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 10

Desse modo, para dar continuidade a seu desenvolvimento emocional e tornar-se uma criança livre e
independente, ela tem necessidade de vivenciar o amor e, ao mesmo tempo, experimentar os limites
impostos por seus pais, no sentido de frear suas pulsões de poder destrutivo. Assim, a criança pode obter
segurança e autocontrole. Isso foi o que Winnicott (1987) chamou de quadro de referência. Tendo isso
em vista, Winnicott (1987) apresentou a seguinte indagação:

O que acontece quando a criança, imatura emocionalmente, não adquire o quadro de referência?

A primeira resposta em que você pensou é que a criança nessa condição sente-se livre para fazer aquilo
que bem quiser e lhe for prazeroso, certo? Winnicott não concorda! Vejamos.

Ele considera que a criança, ao perder o quadro de referência de sua vida, se tornará angustiada. Se ela
perceber que ainda há uma esperança, irá buscar um quadro de referência substituto com os parentes
próximos (avós, tios, tias, primos) e amigos da família – se a substituição ocorrer em tempo hábil, a
criança poderá concluir com sucesso sua estabilidade emocional.

Nesse ponto, Winnicott (1987) compara a criança “normal” com a de tendência anti-social, e afirma que
esta última transpõe a família, como se estivesse dando um salto, e busca ajuda diretamente na
sociedade. O comportamento anti-social nada mais é, então, do que um pedido de controle externo, já
que a família falhou em prover um quadro de referência.

Em consonância com Winnicott, Sudbrack (1992) também interpreta o ato anti-social cometido por
adolescentes como uma forma de buscar uma terceira pessoa para que exerça a função simbólica dos
pais.

Figura 10.3 – Capa do Livro Adolescente em Conflito com a Lei – Prevenção e Proteção

Em outras palavras, o que se está afirmando é que muitas das ocorrências policiais envolvendo
adolescentes infratores nada mais são do que um pedido de ajuda desses adolescentes para a sociedade.
E a sociedade, no caso, é representada por você!

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 10

Para Refletir
O que você acha disso? Você já tinha olhado para o problema da delinqüência juvenil sob esse ângulo? O
que a sociedade poderia fazer para atender a esse “pedido de ajuda”?

10.4 A Privação Emocional


A privação emocional, segundo Winnicot (1987), pode ser comparada a um “déficit”. É uma falha na
continuidade das relações primárias, estruturantes e edificantes, da criança com as figuras parentais, em
especial a figura materna. A gravidade das conseqüências da privação emocional irá depender da
capacidade do indivíduo em solucionar esse problema.

Bowlby (1995) propõe uma tipologia da privação emocional, de acordo com a natureza das relações
estabelecidas entre a figura materna e a criança. Para ele, os três tipos são: privação emocional por
relações insuficientes, privação emocional por relações distorcidas e privação emocional por relações
descontínuas. Vejamos cada um desses casos:

 Privação emocional por relações insuficientes – Como o próprio nome diz, nesse caso o
relacionamento com a figura materna não é o bastante ou é insuficiente. Ainda que haja boa
vontade e esforço, o tempo e a intensidade da presença, atenção e carinho da mãe nunca são
suficientes para suprimir aquilo que realmente é necessário para a criança. A carência econômica
colabora para a privação emocional por relações insuficientes, porque faz com que a mãe passe
mais tempo fora de casa, no trabalho. Como se não bastasse o afastamento temporal, a fadiga e
os aborrecimentos ocorridos no período de labor também podem atrapalhar o relacionamento
figura materna-criança.
 Privação emocional por relações distorcidas – Ocorre quando o relacionamento figura
materna-criança apresenta-se contaminado por problemas pessoais da figura materna,
envolvendo suas experiências passadas, angústias e frustrações. Isso impede o amadurecimento
gradual e natural da criança, afetando sua autonomia e a própria formação de sua personalidade.
Os casos mais típicos desse tipo de relação são: rejeição, hostilidade, indulgência excessiva,
controle repressivo e falta de afeto.
 Privação emocional por relações descontinuas – É aquela decorrente da interrupção ou da
descontinuidade de uma relação que chegou a existir entre a figura materna e a criança. As
causas para a interrupção da relação são as mais diversas, podendo ser o falecimento da mãe,
uma viagem mais longa, ou outras situações que provoquem o distanciamento definitivo ou
temporário da relação. Assim, a privação emocional por relações descontínuas refere-se ao
rompimento brusco, definitivo ou temporário, na convivência com figuras parentais, o que pode
ocasionar o sentimento de perda.

61
Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 10

Para Saber Mais


Leia mais sobre privação emocional em: “Relações entre violência doméstica e agressividade na
adolescência”, de Stela N. Meneghel, Elza J. Gigugliani Olga Falceto.

10.5 A Prevenção da Delinqüência Juvenil


Agora que já discutimos algumas das causas da delinqüência juvenil, vamos estudar alguns modos para
sua prevenção. A prevenção da delinqüência juvenil pode ser realizada em três níveis, abordados a
seguir.

Prevenção primária

Exercida por meio de medidas que garantam os direitos fundamentais e as políticas sociais básicas. Se as
causas da delinqüência decorrem de fatores exógenos, a política de prevenção deve basear-se em
medidas capazes de garantir direitos básicos como saúde; liberdade e dignidade; educação; convivência
familiar e comunitária; esporte e lazer; profissionalização e proteção no trabalho. Todos esses direitos
estão garantidos em nossa Constituição!

Reflita: em que aspecto fundamental essa abordagem de prevenção diverge da abordagem psicanalítica
da família como sistema?

Prevenção secundária

Realizada pelos Conselhos Tutelares. Quando se constata que a delinqüência está relacionada à falta de
atendimento das necessidades básicas, é preciso que a prevenção secundária dê preferência aos
programas de apoio, auxílio e orientação ao adolescente e à família. Se o atendimento for de natureza
educativa, com a participação do núcleo familiar e comunitário, as perspectivas de prevenção são
promissoras.

Prevenção terciária

É praticada por meio de medidas sócio-educativas visando readaptar ou educar o adolescente infrator.
Requer alternativas para a privação de liberdade, tais como programas de liberdade assistida, apoio e
acompanhamento temporários, serviços à comunidade etc.

Reflita: em sua experiência como profissional de Segurança Pública, você diria que os adolescentes
infratores que você já conheceu tinham acesso aos direitos básicos previstos na Constituição brasileira?

Para Saber Mais


Saiba mais sobre a prevenção da delinqüência juvenil acessando este link. Boa leitura!

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Aula 10

Nesta aula, você aprendeu um pouco mais sobre quem são os adolescentes em conflito com a lei. Alguns
costumam chamá-los também de adolescentes infratores. Vimos que, na perspectiva sistêmica, os
adolescentes em conflito com a lei são apenas mais uma peça de uma grande engrenagem que é o
sistema em que estão inseridos. Esse sistema extrapola o núcleo familiar, pois relaciona-se também à
comunidade que está ao seu redor e que, geralmente, sofre as conseqüências imediatas de seu
comportamento anti-social, e a sociedade de um modo mais amplo, por exemplo, na negação do acesso
a direitos sociais básicos. O ponto mais importante desta aula foi informar que, pela visão da terapia
sistêmica, o ato infracional do adolescente é um pedido de socorro!

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Referências

Referências
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ARAÚJO, C.T.L. Fundamentos Médico-Legais da Perícia em Matéria Criminal. Boletim dos Procuradores da
República. ANPR. Disponível em: <http://www.anpr.org.br/boletim/boletim32/fundamentos.htm>.
Acesso em: 24 de agosto de 2006.

ASSOCIAÇÃO PSIQUIÁTRICA AMERICANA. Manual diagnóstico e estatístico de transtornos mentais


(4ª ed. 1ª reimp. rev.). Porto Alegre: Artmed, 2003.

BOWLBY J. Cuidados maternos e saúde mental. 3ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 1995.

BRENNER, C. Noções básicas de Psicanálise: introdução à Psicologia Psicanalítica. Rio de Janeiro:


Imago, 1987.

DURKHEIM, E. As regras do método sociológico. 14ª ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional,
1990.

FELDMAN, M. P. O comportamento criminoso: uma análise psicológica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar,
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FOUCAULT, M. Vigiar e Punir. Petrópolis: Vozes, 1977.

FREITAS, W. C. P. Espaço urbano e criminalidade: lições da escola de Chicago. São Paulo:


IBCCRIM, 2002.

HALL, CALVIN. S.; LINDZEY, Gardner. Teorias da personalidade. 16ª reimp. São Paulo: EPU, 1973.

LEWIS, C. Neurochemical Mechanisms of chronic antisocial behavior (psychopathy). The journal of


nervous and mental disease. v.179, n12, p.720-727, 1991.

MARX, M. H.; HILLIX, W. A. Sistemas e teorias em Psicologia. 3ª edição. São Paulo: Editora Cultrix,
1973.

OLIVEIRA, E. A identidade humana do crime. Belém: CEJUP, 1987

OLIVEIRA, P. S. Introdução à Sociologia. 24ª ed. 5ª reimp. São Paulo: Ática, 2002.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE. Classificação dos transtornos mentais e de comportamento –


10ª revisão. Porto Alegre: Artes Médicas, 1993.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Referências

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DE SAÚDE (OMS). Relatório mundial sobre a violência e saúde. Genebra,
2002.

QUINNEY, R. O controle do crime na sociedade capitalista: uma filosofia crítica da ordem legal. In Taylor,
I.; Walton, P.; Young, J. (orgs.). Criminologia crítica. Rio de Janeiro: Graal, 1980. p.221-247.

SABBATINI, R. M.E. Frenologia: a história da localização cerebral. Disponível em:


<http://www.cerebromente.org.br/n01/frenolog/frenologia_port.htm>. Acesso em: 8 de agosto de 2008.

SUDBRACK, M. F.O. Da falta do pai à busca da lei: o significado da passagem ao ato delinqüente no
contexto familiar e institucional. Psicologia: teoria e pesquisa, v.8 (Suplemento), p.447-457,1992.

TABORDA, J. G. V.; CHALUB, M.; ABDALLA-FILHO, E. Psiquiatria forense. Porto Alegre: ArtMed. 2004.

WINNICOTT, D. D. Privação e delinqüência. Tradução de Álvaro Cabral. São Paulo: Martins Fontes,
1987.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Glossário

Glossário
A
Amplitude – Importância, valor, relevância.

Anômalo – Aquilo que é diferente, anormal, estranho, irregular.

Atavismo – Reaparição em um descendente de caracteres de um ascendente remoto e que


permaneceram latentes por várias gerações.

C
Capitalismo – Sistema de organização social baseado na propriedade privada, nos meios de produção e
no livre-mercado.

Cariótipo – Conjunto de cromossomos, cujo número e morfologia são característicos de uma espécie ou
de seus gametas.

Comunidade – Grupo sócio-cultural cujos elementos vivam numa dada área sob um governo comum.

Concêntricas – Que formam círculos a partir de um centro.

Conformista – Indivíduo com atitude ou tendência a aceitar uma situação incômoda ou desfavorável
sem questionamento nem luta.

Constructo – Construção puramente mental, criada a partir de elementos mais simples, para ser parte
de uma teoria.

Cromossomo – Estrutura composta de ADN, normalmente associada à proteína e que contém genes
arranjados em seqüência linear, visível ao microscópio durante a divisão celular.

D
Dano – Mal ou prejuízo de que não se pode recuperar, que não pode ser reparado.

Delitogênica – Que favorece a ocorrência ou o surgimento de delitos.

Desviante – Que diverge da norma social.

Dizigótico – Originado da gestação de fetos provenientes de dois zigotos distintos; bivitelino.

Drogradição – Uso abusivo de drogas.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Glossário

E
Eliciar – Provocar.

Empatia – Capacidade de se identificar com outra pessoa.

Endógeno – Que se origina dentro do organismo/do indivíduo.

Enzima – Cada uma das proteínas produzidas por seres vivos e capazes de catalisar reações químicas
relacionadas com a vida.

Estática – Parada, em equilíbrio quando sob a ação de forças.

Estigma – Sinal natural no corpo.

Estigmatização – Atribuir algo que é considerado indigno, desonroso.

Estímulo – Qualquer agente externo capaz de provocar uma resposta.

Evitativo – Que evita pessoas.

Exógena – Que tem sua origem fora do organismo/ do indivíduo.

F
Fascismo – Regime político adotado por um governo centralizador, prevalecendo os conceitos de Estado
(nação) ou raça sobre os valores individuais.

Figuras parentais – Representação simbólica do pai e da mãe.

G
Gene – Unidade fundamental, física e funcional da hereditariedade, constituída pelo segmento de uma
cadeia de DNA responsável por determinar a síntese de uma proteína.

Grupo – Reunião de várias pessoas com interesse comum.

Gueto – Bairro de uma cidade que sofre tratamento discriminatório, onde vivem membros de uma etnia
ou de um grupo minoritário.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Glossário

Histriônico – Personalidade cujo traço marcante é seu padrão de emocionalidade excessiva,


apresentando comportamento de busca de atenção e dramaticidade extremos.

Hostil – Que é ameaçador, agressivo, contrário, pouco acolhedor.

I
Impulsividade – Característica que faz com que o indivíduo atue de maneira irrefletida.

Inédita – Que nunca foi vista, sem precedentes.

Interação – Comunicação entre pessoas com trocas e influências recíprocas.

Interface – Elemento que proporciona uma ligação entre duas partes que não poderiam ser conectadas
diretamente.

Introjeção – Processo psicológico descrito inicialmente por Ferenczi e que está intimamente ligado ao
mecanismo psicológico de identificação, aproximando-se também do conceito de incorporação. Na
introjeção, há uma assimilação das qualidades de um objeto exterior (por exemplo, as normas sociais)
acomodando-as ao universo psíquico da pessoa.

M
Maternagem – Os cuidados materiais e biológicos com os filhos praticado pela mãe.

Minoritário – Que está em minoria, em condição numérica inferior. Em sociologia, entretanto, nem
sempre ‘minoria’ significa minoria numérica, pois podemos nos referir a grupos minoritários em termos
da falta de acessos.

Monarca – Indivíduo que exerce o poder supremo num governo.

Mutação – Alteração, modificação, transformação.

N
Nazismo – O termo veio da palavra em alemão Nationalsozialismus que significa Socialismo Nacional,
doutrina do movimento e partido liderados por Adolph Hitler.

Neurose – Conjunto de problemas de origem psíquica em que, diferentemente da psicose, o indivíduo


conserva o contato com a realidade.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Glossário

Neurotransmissor – Moléculas secretadas pelas porções terminais de neurônios e responsável pela


transmissão do impulso nervoso; é um mediador químico.

O
Ontogênese – Desenvolvimento de um indivíduo desde a concepção até a idade adulta.

P
Paternagem – Os cuidados materiais e biológicos com os filhos praticado pelo pai.

Patologia – Doença.

Perpetrador – Aquele que pratica ato moralmente inaceitável (delito, crime etc.).

Postitivismo – Escola filosófica segundo a qual a aquisição de conhecimento do ser humano como ser
social deveria valer-se do método das ciências experimentais (observação, experimentação,
estabelecimento e testes de hipóteses, e criação de uma teoria). O positivismo rejeita a influência das
ideologias religiosas e metafísicas. Assim, para o positivismo a ciência deve ter uma posição neutra e
objetiva para gerar compreensão sobre o mundo.

Privação – Falta do necessário à vida.

Pulsão – Processo dinâmico que nasce no Inconsciente e que leva o organismo em direção a um fim,
uma tendência para agir.

R
Racionalização – Mecanismo de defesa pelo qual um indivíduo apresenta uma explicação coerente ou
moralmente aceitável para seus atos, idéias ou sentimentos.

Reincidir – Voltar a praticar o mesmo crime ou delito.

S
Subentendido – Que se entende, mas que não foi expresso.

Sutil – Quase imperceptível, penetrante, que se infiltra por toda a parte.

T
Teoria – Conjunto sistemático de opiniões e idéias sobre um dado tema.

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Abordagens Sócio-Psicológicas da Violência e do Crime
Glossário

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