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Homem, Pensamento e Cultura:

Abordagens Filosófica e
Antropológica
Luciana Maria da Silva

Curso Técnico em Secretaria Escolar


Educação a Distância
2015
EXPEDIENTE

Professor Autor
Luciana Maria da Silva

Design Instrucional
Deyvid Souza Nascimento
Maria de Fátima Duarte Angeiras
Renata Marques de Otero
Terezinha Mônica Sinício Beltrão

Revisão de Língua Portuguesa


Eliane Azevedo

Diagramação
Klébia Carvalho

Coordenação
Sheila Ramalho

Coordenação Executiva
George Bento Catunda

Coordenação Geral
Paulo Fernando de Vasconcelos Dutra

Conteúdo produzido para os Cursos Técnicos da Secretaria Executiva de Educação


Profissional de Pernambuco, em convênio com o Ministério da Educação
(Rede e-Tec Brasil).

Agosto, 2015
S586h
Silva, Luciana Maria da.
Homem, Pensamento e Cultura: Abordagens Filosófica e
Antropológica: Curso Técnico em Secretaria Escolar: Educação
a distância / Luciana Maria da Silva. – Recife: Secretaria
Executiva de Educação Profissional de Pernambuco, 2015.
57 p.: il.

Inclui referências bibliográficas.

1. Educação a distância. 2. Antropologia filosófica. 3.


Seres humanos. 4. Educação. I. Silva, Luciana Maria da. II.
Título. III. Secretaria Executiva de Educação Profissional de
Pernambuco. IV. Ministério da Educação. V. Rede e-Tec Brasil.

CDU – 37:572
CDD – 370.1
Sumário
INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 4

1. COMPETÊNCIA 01 | CARACTERIZAR O DEVIR HUMANO ............................................................... 6

1.1 Terra - Mundo: A Constituição do Humano ........................................................................................... 11

1.2 Terra - Mundo: A Constituição da Sociedade ........................................................................................ 12

1.3 Etnocentrismo e Diversidade Cultural ................................................................................................... 15

1.4 A Construção do Humano pelo Humano: a Construção da Cidadania Educação Cultural ....................... 19

2. COMPETÊNCIA 02 | JUSTIFICAR A IMPORTÂNCIA DA LINGUAGEM NA EDUCAÇÃO .................... 21

2.1 A Linguagem e sua Origem ................................................................................................................... 21

2.2 A Linguagem e a Língua ........................................................................................................................ 26

2.3 A Comunicação como um Processo da Linguagem na Educação ............................................................ 29

3. COMPETÊNCIA 03 | RELACIONAR ASPECTOS RELEVANTES DO TRABALHO, DOS VALORES, DAS


PRÁTICAS CULTURAIS E DA EDUCAÇÃO ......................................................................................... 33

3.1 Trabalho e Devir: um Conceito Histórico ............................................................................................... 33

3.3 Tudo Tem Valor .................................................................................................................................... 40

4.COMPETÊNCIA 04 | ESTABELECER RELAÇÃO ENTRE PRÁTICAS CULTURAIS NA ESCOLA E A


EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA..................................................................................................... 45

4.1 Quais Saberes são Construídos na Escola? ............................................................................................ 49

4.2 Os Espaços Escolares ............................................................................................................................ 51

4.3 Os Sujeitos dos Espaços Escolares e a Constituição de Saberes ............................................................. 52

REFERÊNCIAS................................................................................................................................. 55

MINICURRÍCULO DO PROFESSOR .................................................................................................. 57


INTRODUÇÃO

Olá! Caro cursista. Esta nossa disciplina Homem, Pensamento e Cultura: Abordagens filosófica e
antropológica, terá quatro competências as quais nos ajudarão a entender melhor o que vamos
estudar.

Bom, para começar gostaria de falar um pouco sobre o título da disciplina, pois é bem extenso, mas
não se assuste. Vamos falar sobre o Homem, Pensamento e Cultura sob a perspectiva filosófica e
antropológica. Mas gostaria de trabalhar com você a partir das ideias e práticas desses conceitos
utilizados. Para tanto, trarei uma breve definição do que é filosofia e antropologia.

Filosofia é "a decisão de não aceitar como óbvias e evidentes as coisas, as ideias, os fatos as situações,
os valores, os comportamentos de nossa existência cotidiana, jamais aceitá-los sem antes havê-los
investigado e compreendido" 1.

Antropologia "é a ciência que estuda o homem e as implicações e características de sua evolução
física (Antropologia biológica), social (Antropologia Social), ou cultural (Antropologia Cultural)" 2.

A intenção aqui é fazermos reflexões, bem como trabalharmos conceitos, ou seja, é preciso entender
que a realidade não cabe em uma fórmula, você não acha? Podemos utilizar o mesmo conceito em
várias situações, é importante que tenhamos a mente aberta para compreendermos e aceitarmos
outras opiniões.

As competências a serem estudadas, como já falei anteriormente, é sob a perspectiva antropológica


e sociológica, e serão:

1. Caracterizar o devir humano.

1
CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo: Editora Ática, 2000.
2
Texto de Caroline Faria. Fonte: http://www.infoescola.com/ciencias/antropologia/

4
2. Justificar a importância da linguagem na educação.

3. Relacionar aspectos relevantes do trabalho, dos valores, das práticas culturais e da educação.

4. Estabelecer relação entre práticas culturais na escola e a educação para a cidadania.

Como você já deve ter percebido, esses assuntos têm a ver com a Humanidade e sua importância no
mundo, ou antes, a construção do mundo em que vivemos.

Então vamos lá, convido você a mergulhar no mundo do conhecimento comigo e que, mais do que
aprender, essas quatro semanas possam deixar saudade em mim e em você.

5
Competência 01

1. COMPETÊNCIA 01 | CARACTERIZAR O DEVIR HUMANO

A palavra devir causa alguma sensação em você? No meu caso, esta palavra remete à minha memória
algo sobre o que virá ou que está por vir. Calma, caro cursista, essa é uma ideia simples para que
possamos começar a nossa conversa. E você o que acha que é o Devir? Guarde a ideia para
compararmos ao final da competência.

Antes de falarmos conceitualmente sobre o que é o Devir, vamos saber quem começou a falar sobre
o Devir e um pouco do contexto histórico.

Nascido por volta do ano de 515 a.C., na cidade de Éleia, ao sul da Magna Grécia (Itália), Parmênides
é considerado pelos historiadores da Filosofia como o pensador do imobilismo universal 3.

Para Heráclito de Éfeso, nascido por volta de 540 a.C., tudo o que existe está em permanente
mudança ou transformação. A essa incessante alteração deu o nome de DEVIR 4.

E você o que acha? Tudo está em movimento, se transforma ou é estático, sem alteração?

Vamos ler um texto sobre o Devir para começarmos a nossa construção sobre esse conceito tão
importante para entendermos sobre a constituição do ser humano e como produzimos cultura.

3
Colaborador do site João Francisco P. Cabral. Fonte: www.brasilescola.com/filosofia/ parmenedes.htm
4
Colaborador do site João Francisco P. Cabral. Fonte: www.brasilescola.com/filosofia/heraclito. htm

6
Competência 01

Vamos ao texto:

O Devenir5

- Meu pai, devenir é fruta ou verdura?


- Por que perguntas filho?
- Meu pai, quero, se possível, que veja minhas razões. O senhor já me ensinou que quando se recebe
uma pergunta, só se deve entrar com outra, depois de ter respondido. E eu, seu filho, firmado na
sua ortodoxia quero para mim as vantagens da sua observação.
- Bem, vejo que você tem razão. Desejo, no entanto, dizer-lhe que se você me houvesse feito,
ontem, essa inquirição, confesso que não estaria em condições de respondê-la. Porém, hoje, depois
de certo progresso que fiz, posso afirmar que DEVENIR não é fruta, nem verdura. É, sim, uma
concepção filosófica.
- Agora sim, “con- cep- ção – fi- lo- só- fi -ca!” Mas…
- Nem mais nem menos, agora a vez é minha, Sócrates.
- O senhor sabe que não gosto de ser chamado de Sócrates, pois acho aquele velho muito feio, e
sua mulher me desculpe, mas acho o nome dela horroroso! Xantipa! (Só sendo grega.)
- Está certo, mas, por que você me perguntou se devenir é fruta ou verdura?
- Perguntei, porque a mamãe falou que alguém comeu a folha do devenir. - O velho se arrumou na
cadeira de balanço, tirou os óculos, e depois duma mordaz e gostosa gargalhada, falou: Paulinho,
você é um anjo. Você, sua mãe e seus irmãos azucrinam meus ouvidos, mas, também fazem cócegas
no meu coração. Presta atenção, filhote, Devenir é o mesmo que devir é uma série de
transformações. A transformação ou mudança de estado considerado em si mesmo. O devenir é a
nossa característica fundamental, e a tudo quanto no mundo nos rodeia. A Filosofia tem se
empenhado em compreender o devenir, cuja questão decisiva é a relação deste com o ser. Heráclito
e Parmênides quatro séculos antes de Cristo, já se ocupavam com o assunto, que veio receber mais
luz, agora no século XX com o nosso querido Einstein. Já expliquei muito, pelo seu aspecto, vejo que
você entendeu pouco, não foi?

5
Texto de José Rodrigues de Oliveira. Fonte: www.cordel.01br.com/o-devenir/. Acesso em 01 de janeiro de 2014.

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Competência 01

- Para ser sincero, papai, não entendi nada, e se eu quisesse ser chato iria fazer mais perguntas.
- Pode perguntar, entretanto, Piaget aconselha que devemos aprender as coisas aos poucos, as
doses do saber devem ser homeopáticas. E você ainda é criança. Segundo o mesmo educador existe
a idade para a abstração. Contudo, faça a pergunta, sua curiosidade muito me agrada.
- Devenir é o mesmo que futuro?
- Não. Entretanto, podemos relacioná-lo não só com o futuro como também com progresso e o
regresso à vida e à morte.
- Com a vida e com a morte!?
- Sim, com a vida e com a morte. Até conosco, com você, meu filho, veja só, você vai completar 13
anos no próximo mês, já notou sua voz como está ficando diferente? Os pelos do seu bigode estão
engrossando. (Ao ouvir isso o rapazinho não se conteve e escandalosamente botou para sorrir.)
Você, “devenirmente”, caminha para puberdade, depois, tornar-se-á adulto, daqui a cem anos
quando você morrer irá modificar o ph da terra onde colocarem seu corpo. Antes disso você vai
mudar de tal forma que quem lhe vê hoje, e só possa ver daqui a alguns anos, talvez não lhe
reconheça. Salvo melhor juízo, isso é devenir. Gostou?
- O devenir se limita de acordo com a ideia que se tem do progresso, sendo a ideia um progresso, é
preciso que o devenir seja compreendido, sendo compreendido, encontrar-se- á nele um
movimento que é o que existe de mais concreto. Heráclito, o filósofo do “vir a ser”-Devenir- disse
que o “vir a ser” está em tudo, porque nada é. Para nós, modernamente, tudo já era. Eu e você não
somos mais aqueles de quando iniciamos essa conversa, eu, afora o sutil da natureza, já bebi um
copo d’água, emiti essas palavras, e dei aquelas risadas. Você, além de outras coisas que aconteceu,
já pode ouvir falar em devenir sem aquela estranheza do início deste bate-papo. Verdade?
-Ah!…Então quer dizer que aquela caneta que lhe dei a pouco, não é essa que está aí, porque a que
lhe dei sofreu o calor das suas mãos, a tampinha estava do lado oposto, já escreveu, e,
consequentemente, está com menos tinta.
- Muito bem! Demorou, mas chegou. Observo com muita satisfação que já ampliou a dialética.
Quero, aproveitando a ocasião, que você saiba que o movimento dialético é o que mais existe de
concreto no progresso.
-Obrigado, meu pai. Amanhã vou pedir a minha mãe para comprar um dicionário novo para o
senhor, pois o seu está bastante “”devenirzado.”" Também já sei quem comeu a folha do devenir.

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Competência 01

E aí o que você achou? Gostou do texto? Foi útil para sua compreensão do que é Devir? Podemos
continuar?

Bom, vamos conhecer uma definição de Devir para amadurecermos o conhecimento.

Devir é um conjunto de características fundamentais concebidas


pelo ser, assim como pelo mundo (suas realidades, diferenças, e
desejos) em seu transcurso por meio de um “continuum”
movimento de transformação (SILVA e GOMES, 2013).

Veja só de acordo com esta concepção de Devir, ele está em tudo, tanto na natureza como nas
pessoas. Guarde essa informação, pois abriremos a discussão daqui a pouco sobre como o humano
se constitui pela natureza.

Outro conceito de Devir apresentado por Deleuze e Parnet é "Devir é jamais imitar, nem fazer como,
nem ajustar-se a um modelo, seja ele de justiça ou de verdade" (Deleuze e Parnet, apud SILVA e
GOMES, 2013).

Esse outro conceito mostra a singularidade do ser humano, somos diferentes dos demais seres que
habitam o nosso planeta e criamos um mundo de acordo com nossas necessidades.

Em outras palavras, podemos dizer que de acordo com as duas visões apresentadas, podemos
pontuar, no primeiro conceito, que o Devir não ocorre apenas com os seres humanos, mas, também
com o mundo, isso nos faz pensar como a natureza interfere em nós e como nós interferimos na
natureza. No segundo conceito posto por Deleuze e Parnet, podemos observar que o Devir é algo
muito mais particular, de cada um. O que você acha? O Devir é subjetivo ou é coletivo?

Agora vamos ler a letra da música Como uma onda6 de Lulu Santos e Nélson Motta que pode nos
trazer uma reflexão sobre o Devir.

6
Fonte: www.vagalume.com.br/lulu-santos/como-uma-onda-no-mar.html#ixzz2q6u5d15v

9
Competência 01

Como uma Onda

Nada do que foi será


De novo do jeito que já foi
um dia
Tudo passa, tudo sempre
passará

A vida vem em ondas,


como um mar
Num indo e vindo
infinito

Tudo que se vê não é


Igual ao que a gente viu há
um segundo
tudo muda o tempo todo no
mundo

Não adianta fugir


Nem mentir pra si mesmo
agora
Há tanta vida lá fora
Aqui dentro sempre

Como uma onda no mar


Como uma onda no mar
Como uma onda no mar

Como uma onda é considerada por muitos como sendo um clássico da década de 80, ela foi gravada
por inúmeros artistas da nossa MPB (Música Popular Brasileira). Você já a conhecia? Ela me faz

10
Competência 01

pensar sobre o Devir. Foi possível identificar na letra desta música elementos do Devir? Quais
foram? Você identificou esses elementos do Devir em pessoas ou na natureza?

Partindo do que está posto, vamos analisar a transformação do ser humano a partir da
construção/constituição do mundo humano.

1.1 Terra - Mundo: A Constituição do Humano

A ideia central de Devir é mudança e só podemos compreender o humano quando analisamos as mudanças
ao longo da nossa história.

A Terra, conceitualmente falando, é diferente de Mundo. A Terra é nossa casa, a natureza, já o Mundo
é o artifício criado pelo ser humano. Este mesmo Mundo separa a existência humana e sua
artificialidade do que é animal7. Então, sem este mundo que habitamos sem esforço algum, o esforço
que me refiro são as condições básicas para existirmos, como por exemplo, não criamos uma
artificialidade para respirar (ainda) temos essa condição de forma muito natural.

Sendo que o Devir acontece tanto no Mundo como na Terra (independente da vontade do homem)
e é através deste Devir que o ser humano se liga também a essa Terra, criando assim uma identidade
diferenciada das demais espécies, por conta dessa interferência no Mundo e ao mesmo tempo
gerando uma semelhança com os demais seres.

Temos apenas que tomar cuidado, pois há uma diversidade de definições


sobre o que é humano. Outra palavra com vários significados é civilização, por
muitos historiadores compreendida de forma etnocêntrica e europeizada (ver
etnocentrismo subtítulo 1.3).

Agora é com você! Pesquise sobre os múltiplos significados para a palavra


humano

7
ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2007, p. 09-14.

11
Competência 01

Figura 1 - Terra-Mundo
Fonte: ensinandomissoesparacriancas.blogspot.com.br/2012/07/o-que-ha-em-
nosso-laneta.html
Você consegue observar essas transformações na figura 1? Já vivenciou alguma delas?

Sobre as diferenças e semelhanças, vamos entender juntos: a semelhança que aponto está
relacionada com que o Devir está em tudo, sendo assim, o que há de comum aos seres humanos e os
demais seres é a transformação que ocorre em todas as partes e o a diferença é como nós fazemos
essa mudança.

Para definir melhor essas diferenças podemos pontuar questões que vamos trabalhar mais à frente,
como por exemplo: A linguagem articulada através de regras não apenas gramaticais, mas também
sociais (nós somos capazes de "segurar" um sentimento ou uma emoção, diferentemente de outros
animais). Você já deve ter dito: Tive que me segurar para não fazer besteira. Não é mesmo?

Outra questão é o trabalho, através dessa ação podemos transformar o mundo de forma consciente.

Vamos tentar entender como é essa nossa ação no mundo e onde o Devir entra nisso tudo.

1.2 Terra - Mundo: A Constituição da Sociedade

A constituição da sociedade e do ser humano, como nós o conhecemos, aconteceu, acontece e


acontecerá através da transformação e a esta mudança pontuaremos a cultura e suas práticas através
de necessidades e escolhas que fazemos para suprir essas necessidades. Você Já assistiu ao filme: A
guerra do fogo? Vale a pena conferir. Ainda que você discorde sobre a questão do surgimento da

12
Competência 01

espécie humana na terra, uma coisa é inegável: a sua evolução através do acúmulo de conhecimento
e como mudamos ao longo de nossa história.

Para entender mais. Livro A condição humana.

ARENDT, HANNAH Editora: FORENSE UNIVERSITARI

Você deve estar pensando: Mas o que a cultura tem a ver com o Devir? A cultura é o meio pelo qual
esse Devir aparece. Por exemplo, de acordo com o Devir as outras espécies também mudam, mas
não conseguimos observar a mudança, pois apenas nós seres humanos podemos produzir os meios
(artificialidade) que apareceram. Por exemplo, temos a necessidade de nos alimentar, mas a grande
maioria da humanidade não é mais coletora, vamos a um supermercado e compramos o que
precisamos ou ainda desenvolvemos técnica para plantarmos e colhermos cada vez mais.
Desenvolvemos espécies vegetais mais resistentes às pragas, criamos rações para os nossos animais
para que eles se desenvolvam mais rápido. Tudo isso faz parte da nossa cultura ou do que somos.
Outra coisa que mudou ao longo do tempo é o papel da mulher na sociedade e junto com essa
mudança há também a mudança de valores. A tudo isso, denominamos de cultura, mas vamos ver o
que os pesquisadores da área têm a dizer sobre isso.

Bom, é consenso entre os filósofos que o Devir se dá principalmente pela cultura. Então vamos ver
uma definição de cultura para nos ajudar a entender melhor esse questionamento: "Cultura é este
conjunto complexo que inclui conhecimento, crença, arte, lei, costumes e várias outras aptidões e
hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade" (MELO apud BATISTA, 2010, p. 1-
8). Esse conjunto complexo de práticas muda no decorrer do tempo. Você poderia dar um exemplo
sobre mudança cultural que observou ao longo de sua existência?

Outro conceito que gosto de trabalhar para entender como o Devir acontece em nós e na natureza é
o da filósofa Hannah Arendt.

13
Competência 01

HANNAH ARENDT (1906-1975)


Hannah Arendt (Linden, 14 de Outubro de 1906 — Nova Iorque, 4 de Dezembro de 1975) foi
uma teórica política alemã, muitas vezes descrita como filósofa, apesar de ter recusado essa
designação. Emigrou para os Estados Unidos durante a ascensão do nazismo na Alemanha e
tem como sua “magnum opus” o livro "Origens do Totalitarismo".
http://os-filosofos.blogspot.com.br/2008/03/hannah-arendt-1906-1975.html

Figura 2 - Práticas Humanas


Fonte: http://ocontornodasombra.blogspot.com.br/2011/03/eichmann-em-
jerusalem-por-hannah-arendt.html

Para Hannah Arendt, o Mundo e Terra são diferentes, como já falamos, no entanto vale a pena
esclarecermos um pouco mais sobre o assunto.

Para Arendt, a Terra é a natureza em si e o Mundo é esta Terra transformada (cultura) pelo ser
humano. No entanto, a filósofa ainda apresenta uma transformação do ser humano através da
Terra, uma adequação da vida na Terra através da necessidade humana que ela chamara de
artificialidade.

Para esta prática cultural, destacamo-nos dos outros animais por meio da linguagem, do trabalho e
dos valores.

Sendo assim, fica claro que este ser humano se transforma à medida que constrói esse Mundo.

14
Competência 01

Figura 3 - Práticas Humanas


Fonte: www.canstockphoto.com.br/pessoas-isolado-vetorial-%C3%ADcones-
7409161.html

A interferência que fazemos na Terra se procede de diversas maneiras, dessa forma, temos diferentes
culturas em nosso planeta, e o que somos está ligado diretamente à cultura que adquirimos.

1.3 Etnocentrismo e Diversidade Cultural

Na construção da sociedade, vemos surgir diversos grupos sociais e diferentes práticas culturais,
podendo assim reforçar a supervalorização de uma cultura em detrimento da outra.

Vamos observar juntos, o conceito de etnocentrismo transcrito abaixo:

Etnocentrismo é uma visão do mundo onde o nosso próprio grupo


é tomado como centro de tudo e todos os outros são pensados e
sentidos através dos nossos valores, nossos modelos, nossas
definições do que é a existência. No plano intelectual, pode ser
visto como a dificuldade de pensarmos a diferença; no plano
afetivo, como sentimentos de estranheza, medo, hostilidade, etc.
Perguntar sobre o que é etnocentrismo é, pois, indagar sobre um
fenômeno onde se misturam, tanto elementos intelectuais e
racionais, quanto elementos emocionais e afetivos. No
etnocentrismo, estes dois planos do espírito humano –
sentimento e pensamento – vão juntos compondo um fenômeno
não apenas fortemente arraigado na história das sociedades
como também facilmente encontrável no dia a dia das nossas
vidas (ROCHA, 1988, p. 5.)

15
Competência 01

E aí caro cursista? O que você achou?

Já a diversidade cultural como o próprio conceito sugere, são diferentes elementos, dentro de várias
culturas diferentes entre si como, por exemplo: vestimenta, manifestações religiosas, culinárias e
tradições.

Para saber mais leia o Livro: O que é etnocentrismo.


Autor: ROCHA, EVERARDO P. GUIMARÃES.
Editora: BRASILIENSE

Podemos dizer que existem diversas culturas?

Se você acha que sim, o que você pensa sobre as culturas diferentes da nossa? São boas? São
estranhas? Você parou para pensar?

Bom, veja bem, se acreditarmos que existem várias culturas, também temos que pensar que existem
também vários promotores ou construtores dessa cultura ou várias pessoas humanas.

No geral, quando vamos emitir uma opinião sobre algum ponto ou sobre alguém tendemos a julgá-
los (fato ou pessoa) de acordo com os nossos valores e conceitos éticos e morais, não é mesmo? Veja
o desenho abaixo:

16
Competência 01

Figura 4 - Visão Etnocêntrica


Fonte:http://sociologiaprofandre.blogspot.com.br/2013/05/3-ano-1-trimestre-
etnocentrismo.html

Para você quem está sendo etnocêntrico? Por quê? Agimos assim às vezes? Podemos evitar sermos
etnocêntricos? Como?

Temos muitas questões para refletirmos, não podemos esquecer que ao constituirmos dentro dos
nossos grupos sociais temos características específicas que valorizamos e que formam a nossa
identidade. É comum ao valorizarmos essas características, negarmos o outro, temos, portanto que
tomar cuidado e buscarmos entender que o outro é um ser único que precisa ser respeitado em sua
individualidade.

O etnocentrismo é responsável pelos diversos conflitos sociais existentes. E além desses conflitos que
podem ser religiosos, étnicos e até mesmo de gênero temos também os preconceitos de forma em
geral contra as minorias.

Apenas para pontuarmos historicamente a gravidade do etnocentrismo, podemo-nos lembrar do


holocausto judeu durante a Segunda Guerra Mundial. É claro que não podemos pontuar o holocausto
apenas como uma questão etnocêntrica. Outro fato histórico que podemos utilizar para ilustrar o
assunto é a formação do Brasil através do nativo, do europeu e do africano.

17
Competência 01

Dentro de tudo isso que estamos discutindo gostaria de inserir a escola como esse espaço de
diversidade, uma vez que se encontra neste local: gerações diferentes, com costumes diferentes,
estilos de vida diferentes, valores comportamentais diferentes. É no ambiente escolar que podemos
perceber a dimensão do etnocentrismo ao observarmos a constituição dos grupos e a forma como
nos posicionamos. A sala de aula é um bom exemplo disso, pois é comum pensar que os alunos do
"fundão" não são tão aplicados quanto os alunos que sentam na frente, ou ainda, que os alunos mais
comportados são aqueles que usam determinado tipo de roupa, ou ainda têm um tipo de
comportamento que identificamos como correto. Como conviver com tantas diferenças? Como
perceber quando se está sendo etnocêntrico? O que se pode fazer para amenizar esses conflitos
desse espaço escolar? São perguntas que precisamos fazer para entendermos a situação e buscarmos
soluções.

Falamos que alguém é cidadão quando ele é um sujeito de direitos, isto é, alguém que diante do
Estado e da sociedade pode se posicionar e interferir na construção dessa sociedade. Uma das formas
de construção da cidadania é através da cultura, onde o indivíduo a partir da sua singularidade e
aceitação das normas e valores contribui para a identidade coletiva.

Agora reflita.
Dentro do ambiente escolar contribuímos de alguma forma para a
construção dessas normas e valores?
Todos deveriam participar dessa construção?

Assista ao vídeo sobre o perigo de uma história única.


www.youtube.com/results?
search_query=o%20perigo%20de%20uma%20historia%20unica

18
Competência 01

1. 4 A Construção do Humano pelo Humano: a Construção da Cidadania Educação Cultural

É bem verdade e todas as pessoas já sabem que a cultura se transforma, mas você já parou para
pensar como acontece essa mudança? Você já falou ou ouviu aquela famosa frase: "No meu tempo
não era assim”? Falamos ou ouvimos isso geralmente quando alguém mais velho está avaliando o
comportamento de alguém que é mais novo e mostrando a diferença de comportamento para a
mesma situação. Mas porque estou falando sobre isso e sobre mudança de cultura? É através dessa
diferença entre as gerações que ocorrem as mudanças dentro da sociedade.

Vamos para exemplos mais práticos, quando pensamos em escola e comparamos a escola de hoje e
a escola de cinquenta anos atrás podemos fazer várias observações, que vão desde a estrutura da
escola, passando por formas de ensino aprendizagem e, por fim, nas relações e sobre tudo na relação
professor-aluno. O que mudou não foi a estrutura escolar, mas sim os sujeitos que compõem esse
ambiente através das práticas sociais de desconstrução e reconstrução.

A escola como espaço público é o ambiente que prepara a humanidade ocidental para vida através
da construção de saber, possibilitando a todos a participação na vida pública através da assimilação
de comportamento social como regras, linguagem e relações de poder além do conhecimento
científico.

Nessa perspectiva, o que ensina não é o ambiente em si, mas as pessoas ou as trocas culturais que
ocorrem nesse espaço que é voltado e planejado para troca desses conhecimentos, a essa ação
chamamos de endoculturação, sendo assim podemos aprender e ensinar em vários ambientes como,
por exemplo, na família, igreja, associações entre outros.

Claro está que essa absorção de conhecimento se dá de forma muito pessoal; as pessoas não
aprendem todas da mesma forma e ao mesmo tempo, isso porque cada um de nós tem uma
experiência diferente que acaba interferindo em quem somos e como somos. A essa assimilação do
conhecimento através das práticas sociais está ligada também a cultura, logo a cultura também é
apreendida através da educação.

19
Competência 01

Arendt afirma que a escola é a instituição que protege as crianças do mundo e o mundo das crianças.
Como assim? O mundo precisa ser protegido das crianças e as crianças serem protegidas do mundo?
O que você pensa sobre isso?

Quando as pessoas nascem elas vão encontrar um mundo em desenvolvimento, se transformando.


Para que haja a continuidade desse mundo é necessário que as tradições sejam passadas a fim de
proteger essa continuidade.

A escola é este espaço público que, nem sempre, intermedia o espaço privado (família) dos demais
espaços públicos, só que a escola tem uma característica diferenciada, por ser um espaço de ensino-
aprendizagem de saberes específicos e necessários à inserção dos seres humanos no Mundo. Sendo
assim, a escola tem essa responsabilidade de educar para a obediência protegendo o mundo das
crianças - respeito às tradições, e educar para o saber crítico protegendo as crianças do mundo.

Figura 5 - Cidadão e Cidadania


Fonte: maoseobras.wordpress.com/2012/07/10/cidadao-e-cidadania/

Agora responda: A escola é um ambiente para estimular a cidadania através das práticas culturais?
Podemos estimular a aceitação das diferenças por meio da cidadania?

20
Competência 02

2. COMPETÊNCIA 02 | JUSTIFICAR A IMPORTÂNCIA DA LINGUAGEM NA


EDUCAÇÃO

Olá caro cursista, aprendemos na competência anterior sobre o Devir e vamos continuar aprendendo
um pouco mais sobre ele. Combinado?

Aprendemos que o Devir é uma característica de mudança e transformação que está em tudo e em
todos, que essa característica também se configura através da cultura que por sua vez é absorvida
através de um processo educacional, pois todos ensinam e aprendem também.

Mas, na constituição do humano, não podemos deixar de falar sobre a linguagem como uma das
práticas sociais, bem como educacional mais importante que existe. E você o que acha? Mas o que é
linguagem? A linguagem é inata ao ser humano? Outros animais não humanos também têm
linguagem? Quanto a linguagem é importante para nós? Já parou para pensar que existem várias
linguagens? Já se viu em dificuldades por causa da linguagem que utilizou para se comunicar? A
linguagem é importante dentro da escola? Você acha que existe um padrão de linguagem para ser
usado dentro do espaço escolar?

Ufa! Muitas perguntas para refletirmos e, quem sabe, até nos transformar através das reflexões e
melhorar os nossos relacionamentos. Então vamos começar logo essa competência para tentarmos
responder esses questionamentos.

2.1 A Linguagem e sua Origem

Você já imaginou se tivéssemos que trocar nossa linguagem sempre. Se cada vez que fossemos contar
a mesma história tivéssemos que mudar todas as palavras por elas terem obrigatoriamente que se
renovar? Se uma palavra que utilizaremos agora deixasse de existir logo após ser utilizada? Seria
muito complicado nos comunicarmos, não é mesmo?

É válido lembrar o título da nossa disciplina - Homem, pensamento e cultura: Abordagens

21
Competência 02

antropológica e filosófica, mas por que reforçar isso? Porque estamos estudando o ser HUMANO a
partir da visão de alguns filósofos e antropólogos, além disso, a nossa reflexão abarca as
características dos seres humanos. Por isso, já falamos sobre o Devir e, neste momento, nossa
discussão se concentra na linguagem. Isso nos leva a buscar resposta para a seguinte pergunta: Você
conseguiria imaginar a humanidade sem a linguagem? Você consegue lembrar-se se algum dia se
passou sem você fazer uso da linguagem? Sendo assim, podemos observar que a linguagem também
constitui o humano.

Bom, mas o que é mesmo a linguagem?

Eni Puccinelli Orlandi, em seu livro “O que é linguística”, diz o seguinte: "O homem tenta dominar e
explicar tudo o que existe e a linguagem é uma dessas coisas" 8. Ao procurar explicar a linguagem o
homem está procurando explicar algo que é próprio e que é parte necessária de seu mundo e da sua
convivência com os outros seres humanos.

Podemos perceber que de Orlandi diz que sem a linguagem não existe vida social.

Mas a linguagem contém alguns elementos são eles: Língua, Signo, Significante e Significado.

 A língua é um sistema de signo.


 O signo são as imagens que produzimos quando falamos ou escrevemos; também pode ser a
combinação que fazemos entre um objeto (imagem) e o conceito desse objeto.

Exemplo:

8
ORLANDI, Eni Puccinelli. O que é linguística. 2ª ed. São Paulo: Editora Brasiliense, 2009.

22
Competência 02

Figura 6 - Linguagem
Fonte:coisaspraver.blogspot.com.br/2012/12/desenhos-de-casas-para-imprimir-e.html#.UueZ
S9K5fIU

 Significante é a imagem acústica, é a imagem de um objeto ou coisa que se forma em nossa


mente ao ouvir a palavra.
 Significado é o conceito do objeto ou imagem.

É importante lembrar que damos, ou antes, criamos significado (conceituamos) para várias coisas ou
pessoas; dos significados podem nascer ou se estabelecer os PRÉ- CONCEITOS. Exemplo disso é
quando falamos que os políticos são todos corruptos, criamos um novo significado para os políticos,
e estes, normalmente, são preconceituosos. Outra situação recorrente em nossa sociedade - quando
falamos que aquela pessoa não é uma pessoa decente por morar em tal bairro, ou usar determinada
roupa e etc.

Observação: O preconceito é sempre raso em argumentos, geralmente vem com um discurso


extremado e panfletário.

Já ia esquecendo... a linguagem pode ser verbal e não-verbal, e apesar da linguística não se ocupar
da linguagem não-verbal esse tipo de linguagem também constitui o humano, pois faz parte de nossa
vida, como por exemplo a LIBRAS (língua brasileira de sinais) ou o nosso código de trânsito. A
linguagem também tem a ver com as línguas (idiomas).

23
Competência 02

Figura 7 - Semáforo
Fonte: ministerioinfantil5re.blogspot.com.br/2011_09_01_archive .html

Figura 8 - Libras
Fonte: www.essaseoutras.xpg.com.br/atividades-escolar-com-libras-alfabeto-libras-ligar-
pontos-numeros/atividades-alfabeto-libras-1/

Veja a imagem abaixo:

Figura 9 – Linguagem não - verbal


Fonte: edinanarede.webnode.com.br/products/linguagem-n%C3%A3o-verbal-ditados-
populares/

24
Competência 02

E aí o que você pode dizer sobre esta imagem?

Mas vamos lá. Conversamos até agora sobre os elementos da linguagem, vamos falar um pouco do
estudo da linguagem.

Temos os primeiros estudos da linguagem na Grécia Antiga como vemos no livro “Origem da
Linguagem”, de Bruna Franchetto e Yonne Leite 9 no trecho a seguir:

Antes de Sócrates (470/469-399 a.C.), falar e agir estavam


intimamente associados. A palavra é ação, faz agir, conduz, mas
também engana. A linguagem servia à arte da persuasão e ao
homem político. É na primeira metade do século VIII a.C., como o
poeta Hesíodo, que a palavra passa a ter a função de revelar a
ordem do mundo (FRANCHETTO, Bruna e LEITE, Yonne, 2004, p.7-
17).

Com o passar dos séculos o estudo da linguagem se constituiria em dois momentos importantes:

 No século XVIII, quando os intelectuais da época procuram ver a linguagem como


representação do pensamento, temos o que se chama de formalismo, ou seja, uma vertente psíquica
da linguagem, onde a linguagem é apresentada como única e universal.
 Já no século XIX onde começou a existir o método de comparação histórica através das
gramáticas, temos a linguagem sob a perspectiva do sociologismo, quando os pesquisadores buscam
a característica múltipla da linguagem.

Mas a linguística, tal qual a conhecemos hoje, passa por Ferdinand de Saussure (1857-1913)
considerado o pai da linguística moderna.

A partir de 1950, Noam Chomsky vai apresentar a gramática gerativa onde a linguagem deixa de ser
descritiva para ser explicativa e científica.

O fato é que nós, seres humanos, tentamos explicar a linguagem ao longo da nossa existência. A

9
FRANCHETTO, Bruna. LEITE, Yonne. Origens da Linguagem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor Ltda, 2004.

25
Competência 02

linguagem seria apresentada como esse sistema simbólico e como tal é criado culturalmente, mas o
que é mais interessante é que para tudo o que vemos ou ouvimos damos um significado próprio (é a
capacidade de subjetividade humana), dentro da cultura em que foi criado.

Leia Livro : Origens da Linguagem.


Bruna Franchetto e Yonne Leite
Jorge Zahar Editor
Coleção Passo-a-passo

2.2 A Linguagem e a Língua

 A linguagem e seu desenvolvimento


 O que é língua?
 A constituição da língua como comportamento cultural
 A língua como construção cultural

Dialogamos sobre a Linguagem e sua origem de forma poética. O que achou? Agora vamos falar sobre
a linguagem e a língua.

Será que língua e fala são a mesma coisa? O que você acha?

Para os estudiosos a língua é um idioma (Português, Inglês, etc.), ou seja, um sistema formado por
palavras e regras (formal) ou informal, já a fala é quando falamos, ou seja, a concretização da língua.

O homem tenta explicar a linguagem bem como a língua desde a época antiga, como já vimos. Já
tentamos encontrar uma língua-mãe, de onde todas as outras línguas se originaram, buscamos
compreender se a língua constituiu a sociedade ou se a sociedade constituiu a língua.

Para Rosseau (1712-1778) a palavra vai caracterizar e separar os homens dos outros animais.

26
Competência 02

O livro "Origens da Linguagem", de Bruna Franchetto e Yonne Leite, mostrará que para Jean Jacques
Rosseau, a linguagem é música e paixão...". A motivação para a linguagem humana vem da
necessidade de comunicação, uma vez que os homens constituem uma sociedade. E o homem pode
comunicar-se pelo movimento corporal (o gesto) ou pela vocalização (a palavra). É a linguagem como
convenção que distingue os homens dos demais animais. O gesto nasce das necessidades físicas
naturais; a palavra nasce da paixão, do sentimento. Se as necessidades afastam os homens, a paixão
os aproxima. Segundo Rousseau, o homem não começou raciocinando, mas sentindo.

É interessante pensar na língua como essa constituição do humano e como uma prática sociocultural.
Você já havia pensado dessa forma antes?

A língua como elemento que caracteriza o humano é uma constituição cultural? Sim. A língua, não
esqueça, é um sistema formado por signos (palavras); cada povo tem uma língua (idioma) diferente,
que constitui palavras diferentes e frases diferentes, até mesmo a tradução de palavras ou textos
para o nosso idioma perde algum sentido cultural. A palavra saudade, por exemplo, que é tão comum
em nossa língua e quer dizer que sentimos falta de alguém ou alguma coisa, não existe em todas as
línguas, isso nos leva a pensar... se existe uma variação da língua de acordo com o lugar vai existir
uma variação da língua ao longo do tempo? Essa resposta é bem mais fácil, pois podemos observar a
transformação da nossa própria língua, não falamos como há cem anos, nem mesmo como há
cinquenta ou sessenta anos atrás. Palavras surgiram e desapareceram ao longo das décadas, ou
sofreram adaptação. Como é o caso de algumas gírias, que não se usa mais como, por exemplo: É
uma brasa, mora? Ninguém utiliza mais essa gíria para dizer que algo é bom. Quando queremos dizer
que algo é bom, hoje, utilizamos (dentre tantos vocábulos) outra gíria que é "legal". Palavras dentro
da nossa língua como Vossa Mercê, que sofreu alteração e ficou "vosmicê" até chegar no "você" que
tanto utilizamos. Outra situação que podemos observar em língua é a utilização de palavras de vários
dialetos ou idiomas como é o caso de hot-dog (cachorro quente) que é uma palavra inglesa ou, ainda,
palavras de origem africana. Quem nunca fez uma bagunça? Ou não quis um dengo?

Para tentarmos entender, ou antes, refletir sobre se somos uma constituição da língua ou a língua é
constituída por nós.

27
Competência 02

www.youtube.com/watch?v=0SRxD8kX1MI

Assista ao vídeo sobre a menina cachorro.

Leia o texto sobre Amala e Kamala.

AMALA E KAMALA: as meninas-lobo

Na Índia, onde os casos de meninos-lobo foram relativamente numerosos, descobriu-se em 1920,


duas crianças, Amala e Kamala, vivendo no meio de uma família (?) de lobos. A primeira tinha um ano
e meio e morreu um ano mais tarde. Kamala, de oito anos de idade, viveu até 1929. Não tinham nada
de humano e seu comportamento era exatamente semelhante àquele de seus ‘irmãos’ lobos.

Elas caminhavam de quatro, apoiando-se sobre os joelhos e cotovelos para os pequenos trajetos e
sobre as mãos e os pés para os trajetos longos e rápidos.

Eram incapazes de permanecer em pé. Só se alimentavam de carne crua ou podre. Comiam e bebiam
como os animais, lançando a cabeça para frente e lambendo os líquidos. Na instituição onde foram
recolhidas, elas passavam o dia todo acabrunhadas e prostradas numa sombra. Eram ativas e ruidosas
durante a noite, procurando fugir e uivando como lobos. Nunca choravam ou riam.

Kamala viveu oito anos na instituição que a acolheu, humanizando-se (?) lentamente. Necessitou de
seis anos para aprender a andar e, pouco antes de morrer, tinha um vocabulário de apenas cinquenta
palavras. Atitudes afetivas foram aparecendo aos poucos. Chorou pela primeira vez por ocasião da
morte de Amala e se apegou lentamente às pessoas que cuidaram dela bem como às outras com as
quais conviveu. Sua inteligência lhe permitiu comunicar-se por gestos, inicialmente, e depois por

28
Competência 02

palavras de um vocabulário rudimentar, aprendendo a executar ordens simples 10.

O relato acima descreve um fato verídico e permite entender em


que medida as características humanas dependem do convívio
social. Amala e Kamala, as meninas-lobo da Índia, por terem sido
privadas do contato com outras pessoas, não conseguiram se
humanizar: não aprenderam a se comunicar através da fala, não
foram ensinadas a usar determinados utensílios, não
desenvolveram processos de pensamento lógico... (DAVIS e
OLIVEIRA, 1990, p. 16-17)11.

Figura 10 - Amala e Kamala


Fonte: www.qi300.com/amala-e-kamala-conheca-essa-historia-t13092
html

O relato é interessante para fazermos a reflexão não é mesmo? Essas garotas não tinham uma língua
própria? Ou seria linguagem? O que você acha? Será que existia comunicação entre elas e a matilha?
Por falar nisso, a comunicação é nosso próximo tema.

2.3 A Comunicação como um Processo da Linguagem na Educação

Bom, você sabe que é necessário saber falar a língua para poder utilizá-la, porque apesar de
biologicamente todo ser humano nascer com essa característica (poder se comunicar) é necessário
aprendê-la para que haja interação e comunicação, não é mesmo?

10
Fonte: www.qi300.com/amala-e-kamala-conheca-essa-historia-t13092.html
11
DAVIS, Cláudia; OLIVEIRA, Zilma de. Psicologia na educação.São Paulo: Cortez: 1990. p 16-17

29
Competência 02

Como Rousseau disse, o homem "sentiu antes de pensar", a linguagem nos ajuda a expressar o que
sentimos. Já aconteceu isso com você de ser mal interpretado(a)? Isso ocorre também porque cada
um de nós internaliza a informação nem sempre da mesma forma ou com o mesmo significado que
nos é passado.

Se antes não internalizamos, ou antes, entendemos a mensagem com a intenção do emissor, temos
então que dialogar, fazer perguntas e observações a fim de que haja um entendimento da mensagem,
no entanto há de si dizer que entendimento não significa o mesmo que aceitar ou concordar com o
que foi dito.

Mas para que haja a comunicação é necessário que haja o que vamos chamar de boa vontade ou
disposição entre o emissor e o receptor.

Observe a imagem e procure compreender o que foi dito.

Figura 11 - Estrutura da linguagem


Fonte: www.eps.ufsc.br/disserta99/berger/cap2.html

Mas quando falamos em comunicação não podemos deixar de falar sobre os meios de comunicação,
entre eles destacamos: os jornais televisivos, o rádio, os jornais impressos e a internet. Mas será que
a comunicação com os meios de comunicação acontece da mesma forma que com interlocutores
(emissor e receptor)?

É bem diferente a comunicação que é feita através dos meios de comunicação, ainda que com a

30
Competência 02

utilização da internet, que acaba possibilitando uma forma de diálogo, entre emissor e receptor, esta
forma de diálogo acaba sendo ainda limitada de alguma forma, pois para que traga a interferência do
receptor, ele tem necessariamente que ter acesso a internet, o emissor acaba escolhendo o que vai
aparecer, como é o caso de alguns programas de televisão. O fato é que, dentro dessa relação, o
emissor (meios de comunicação) acabou expondo as informações e o receptor (nós) não interagimos.

Outra coisa que temos que observar é que as informações que são vinculadas podem ter sido
escolhidas por critérios diferentes do nosso. Mas já que estamos falando em comunicação vamos
inserir a escola nessa conversa. Pensar no ambiente escolar sem a comunicação, ou antes, sem o
diálogo, é inviável.

Você já deve ter ouvido aquele velho ditado “É conversando que a gente se entende”. Pensando na
escola como um espaço especializado e voltado para a educação, compreendemos que o diálogo tem
que ser incentivado nesse ambiente, pois nos posicionamos politicamente através da fala, que é algo
natural ao ser humano como já discutimos. Para que a escola cumpra com este papel de também
ensinar, temos que absorver o diálogo como um meio para isto.

É através da fala que aparecemos para o mundo tanto, no âmbito privado, mas principalmente no
espaço público. É nos espaços públicos que há disputas, negociações, por exemplo, no âmbito escolar
é comum aparecerem as diferenças que são comuns a todos nós alunos, professores, funcionários de
uma forma geral e à comunidade.

Temos que vivenciar essas experiências através do dialogo, buscando uma postura crítica em relação
a si mesmo e ao outro.

Você já ouviu aquele outro ditado que diz “O meu direito começa quando o seu termina”. Os direitos
meus ou seus não precisam necessariamente terminar para que o de outras pessoas possa começar,
quando utilizamos o bom senso e o diálogo.

Não é na exclusão de direitos que vamos construir significados coletivos saudáveis.

31
Competência 02

No entanto quando colocamos que não se devem excluir direitos dentro de espaços públicos, temos
sempre que utilizar o bom senso.

Quando pensamos em educação, temos que pontuar que mesmo que o professor detenha o
conhecimento científico, não significa que este profissional não possa aprender. Levando em
consideração o que já foi aprendido sobre o devir, temos que lembrar que todos estão sempre
mudando.

Mas é claro que convivências com o outro e, por que não dizer, conosco nem sempre são pacíficas
surgindo assim conflitos.

Acredita que se estivéssemos frente a frente e eu perguntasse a você se já sofreu alguma injustiça ou
situação constrangedora por falta de diálogo, você me responderia que sim.

Mas existem duas formas de observamos as relações com os outros: uma é empatia e a outra forma
é através do preconceito.

Quando somos empáticos temos a capacidade de nos colocarmos no lugar do outro mesmo quando
o outro aparentemente está errado. É claro que esta situação não é fácil, pois é necessária uma
reflexão profunda.

Enquanto que a relação de preconceito se estabelece na exclusão do outro sem lhe dar a
oportunidade de ser ou aparecer politicamente. No entanto temos que pontuar que dentro de um
grupo social onde se estabelece esta forma de relacionamento, os conflitos deixam de ser positivos
para se tornarem negativos.

Não somos uma ilha, nem mesmo donos da verdade. Se estivessem juntos tenho certeza que você
invocaria um milhão de argumentos que somariam aos meus argumentos. Mas mesmo não estando
tão próximos, somos capazes de crescer juntos, tenho certeza disso.

32
Competência 03

3. COMPETÊNCIA 03 | RELACIONAR ASPECTOS RELEVANTES DO


TRABALHO, DOS VALORES, DAS PRÁTICAS CULTURAIS E DA EDUCAÇÃO

Na competência anterior discutimos sobre a linguagem. Observamos também que é através da


linguagem que se constitui e se transforma o ser humano e também o ser humano transforma a
linguagem – trata-se de um movimento em mão dupla.

Nesta terceira competência, vamos conversar sobre o trabalho e a ética como constituição de valores.

O que você pensa sobre o que é o trabalho? Para alguns, o trabalho é muito importante, é a forma
como vivemos. Pode ser que você pense que o trabalho diz quem você é, ou ainda, para outros, o
trabalho é desnecessário, caso a pessoa não goste muito de trabalhar.

Mas será que podemos existir sem o trabalho? Você conseguiria viver sem trabalhar? Não falo apenas
do ponto de vista financeiro, mas como uma realização pessoal mesmo.

Qual a importância do trabalho para o mundo como o conhecemos? Será que podemos dividir o
trabalho em intelectual e braçal ou existe apenas uma forma de trabalho? Você acha que existem
algumas profissões mais importantes do que outras?

Outro assunto a tratarmos é a construção dos valores para nós e para os outros. O que seria valor?
Todos possuem valores? Os valores são diferentes? Tudo tem valor?

Esses serão alguns questionamentos que trataremos nesta competência.

3.1 Trabalho e Devir: um Conceito Histórico

Antes de apresentar o conceito histórico da palavra trabalho, gostaria de apresentar esta ação
humana como uma prática cultural e transformadora da natureza.

Bom, entendendo o trabalho como uma prática cultural, vamos chegar à conclusão que existem

33
Competência 03

diversos tipos ou formas de trabalhos? Mas será que existe uma escala de valores sobre os diversos
tipos de trabalho? Quando pensamos em trabalho logo pensamos em esforço físico não é mesmo?

Se pararmos para observar tudo o que existe a nossa volta, vamos ver que tudo foi transformado ou
adequado às nossas necessidades, de maneira que facilite a nossa vida, e é claro, isso requer um
esforço físico, afinal de contas a cadeira que estamos sentados demandou esse esforço. Por exemplo:
a árvore foi cortada, levada para uma indústria que a cortou em partes, para ser vendida ao
marceneiro ou outra indústria para cortá-la novamente e fazer por fim a cadeira. Isso é apenas um
pequeno exemplo, e se pararmos para pensar nas roupas que vestimos ou no alimento que esta
disponível para nós nos supermercados e ainda no sapato que utilizamos, na cama onde dormirmos...

Bom, você já percebeu que tudo ao nosso redor foi transformado através do trabalho, não é mesmo?
Mas será que o trabalho esta relacionado ao esforço físico apenas?

Como resultado do trabalho temos tudo que podemos observar ao nosso redor e isso (essa
transformação) requer sim um esforço físico, mas também requer um esforço intelectual (o pensar
sobre a necessidade para achar uma solução prática. Vamos a um exemplo simples: Para que o ser
humano criasse um escorredor de arroz (parte prática) foi necessário pensar sobre essa necessidade
ou seja utilizar também a força simbólica.

Já sabemos que o ser humano cria símbolos para interpretar e conceituar o mundo. O trabalho se
constitui também por forças simbólicas e normativas, como tal, é uma ação exclusivamente humana;
o mundo humano se constitui de regras e normas de convivência tendo como um dos principais
mecanismos normativos, justamente, o trabalho.

Bom, vamos aos conceitos que esta palavra (trabalho) tem. Para iniciar essa discussão vamos fazer
uma retrospectiva histórica. A princípio vamos estudar o conceito de trabalho na antiguidade clássica,
vamos até a Grécia.

Para os gregos a palavra trabalho esta relacionada à desvalorização por que era feito por escravos,
enquanto que as pessoas livres se dedicavam ao “ócio digno” que era a oportunidade que as pessoas

34
Competência 03

livres tinham de cultivar o corpo e o espírito. Para Platão, as pessoas livres viviam para contemplar as
ideias, por esta atividade (contemplação das ideias) representar a característica fundamental de todo
ser racional.

Na Roma Antiga temos a ideia para o trabalho, também negativa, era a ausência do lazer, era um
castigo, que não cabia às pessoas livres.

Agora vamos ver qual é a ideia de trabalho na Idade Média. Você já assistiu a algum filme sobre a
Idade Média? Se você já assistiu deve ter percebido que a sociedade medieval está dividida
basicamente em três classes sociais, são elas: o clero, a nobreza e o camponês.

Por que estou falando de classes sociais? Para explicar qual era a ideia que se tinha do trabalho
naquela época?

É que era estabelecida a função que cada um desempenha na sociedade de acordo com a classe social
a qual pertencia. Por exemplo: o clero tinha a obrigação de rezar, os nobres de guerrear e proteger a
todos, de modo que o trabalho manual era relegado aos camponeses.

Não é difícil perceber que o trabalho era visto de forma depreciativa, apesar do Santo Tomás de
Aquino tentar equiparar todos os trabalhos. Na prática, não era esse sentimento que existia.

As ideias em relação ao trabalho só começaram a mudar com a Idade Moderna. Mas por que será
que isso aconteceu?

A burguesia, que era uma nova classe dentro da Europa acostumada a fazer trabalhos manuais,
dedicara-se ao comércio e conseguira ter ascensão dentro da sociedade europeia.

Também foram os burgueses que patrocinaram as grandes navegações. O trabalho passa a ser
associado a dinheiro e acúmulo de riquezas e bens. Também é nesse momento histórico que o
trabalho passa a ser associado ao conhecimento científico.

35
Competência 03

Durante a Idade Antiga e Idade Média houve uma valorização do saber contemplativo, sendo que o
trabalho manual (prático) era considerado inferior, uma atividade de não-humanos.

Quando chegamos ao Renascimento e Idade Moderna, houve a valorização da técnica e do


conhecimento obtido por meio da prática.

Mas de onde vem a ideia negativa sobre o trabalho?

Bom, existia um instrumento utilizado pelos agricultores chamado de tripalium, que era feito de três
paus com pontas de ferro, era usado para bater o trigo, o milho e etc. A palavra tripalium também
está associada a um instrumento de tortura, daí vem a ideia negativa que está associada ao trabalho.

Observe a imagem do objeto de tortura:

Figura 12- Tripalium


Fonte: http://diaslucas.blogspot.com.br/2014_01_01_archive.html

Até a Idade Média, como você deve ter percebido, o trabalho estava ligado à exclusão social.

E hoje? Acha que mudou a ideia que relaciona trabalho e exclusão?

É com Hegel (1770-1831) que a visão do trabalho mudou ainda mais, pois ele trouxe uma ideia de
humanização do trabalho. É através do trabalho que o ser humano tem consciência de si mesmo e de

36
Competência 03

sua interferência dentro da sociedade como um ato de reconhecimento.

Com o advento da técnica e da tecnologia esse trabalho se transformou, perdendo um pouco da


consciência dos seres humanos em relação a esse trabalho, que quando efetivado, eles não sabem
exatamente a sua finalidade, o que não acontecia anteriormente. A essa falta de consciência
chamamos de alienação do trabalho.

Figura 13 - Trabalho e Alienação


Fonte: www.historiadigital.org/questoes/questao-enem-2001-divisao-do-trabalho-e-alienacao/

Para entender melhor


assista ao filme
Tempos Modernos de Charles Chaplin.

Como você já deve ter percebido, existe uma ideia de divisão do trabalho que é histórica. Uma ideia
de trabalho manual (Idades Antiga e Média) e a ideia de trabalho intelectual (Renascimento e Idade
Moderna).

No entanto, o que vale mais: o trabalho manual ou o trabalho intelectual?

O trabalho, como já vimos, é uma ação humana e é através dessa relação com a natureza que
transformamos o mundo a fim dele tornar-se habitável para nós. Também já vimos que o trabalho
intelectual precede o trabalho manual.

Mas será que houve uma transformação do trabalho ao longo dos séculos?

37
Competência 03

3.2 A Transformação do Trabalho

Como podemos explicar as transformações que o trabalho sofreu?

O trabalho tem a ver com as necessidades e bem-estar dos grupos sociais. O ser humano é
condicional, o que estou querendo dizer com isso? É que condicionamos as nossas relações e
existência aos objetos que produzimos para melhorar e facilitar a nossa vida. Como assim? Eu explico.
Que necessidade há de nos comunicarmos o tempo todo? Há trinta anos, se nós quiséssemos falar
alguma coisa importante com alguém, teríamos que esperar encontrarmos essa pessoa, não é
mesmo? Hoje isso é impensável, podemos nos comunicar, mandar mensagens de texto, vídeo, voz;
podemos até mesmo falar com alguém que está do outro lado do planeta. Para nós, hoje, é impossível
termos algo para falar com alguém e esperarmos até ver esta pessoa. As formas de comunicação
condicionaram a forma como nos relacionamos.

Dei apenas um exemplo sobre a comunicação do nosso dia a dia, mas existem muitos outros
exemplos, a indústria farmacêutica alterou a nossa relação com a saúde, as indústrias de lazer
alteraram a forma como preenchermos o nosso tempo livre e etc.

A forma como vivemos se alterou, bem como o trabalho proporcionou essas mudanças. Observe a
imagem abaixo:

Figura 14 - Evolução do Homem na Alimentação


Fonte: arterocha.blogspot.com.br/2011/11/evolucao-do-homem-e-alimentacao.html

38
Competência 03

Você concorda com essa imagem? Que elementos da transformação do trabalho podemos observar
na imagem?

Você pode observar que o trabalho em relação à alimentação mudou, passando de uma forma mais
simples, de apenas colher, para uma retirada dos produtos da natureza e a preparação desses
produtos para a transformação em um alimento específico. Para a mudança que tem acontecido com
o trabalho ao longo dos séculos chamamos de técnica.

A técnica é o aproveitamento dos recursos naturais através de um processo racional e prático para
satisfazer as necessidades humanas. Ou seja, foi através do acúmulo de conhecimento e da utilização
racional dele, que houve uma mudança do trabalho, como podemos ver na figura sobre a evolução
alimentar.

Mas isso é bom ou ruim para nós?

A tecnologia nos ajuda? O que você acha?

Bom, existe uma discussão interessante sobre essa questão. Vamos descobrir qual é?

Já falamos anteriormente, mas vamos nos aprofundar.

O trabalho está ligado à humanização do ser (já discutimos essa questão no Devir, lembra?), também
é uma força normativa, dentro das sociedades, pois estabelece relações e cria normas de
comportamento e hierarquias.

Existem alguns pensadores que dizem que o trabalho é importante a partir do momento que os seres
humanos se reconhecem nele e sabem por que estão fazendo, mas a partir do momento que o
homem perde essa consciência sobre para que serve o seu trabalho, perde também a sua referência
e aí o ser humano passa a fazer o trabalho por fazer, apenas uma forma de ganhar dinheiro e não
mais como uma forma de interação consciente do mundo, na intenção de melhorá-lo.

39
Competência 03

E se perdemos esse referencial tão positivo, começaremos a retirar as características humanas do


trabalho.

Mas o que você acha?

É importante saber como e por que fazemos algo?

Você acha que a maioria das pessoas que você conhece tem essa consciência sobre si e sobre o
trabalho que elas desempenham?

Quando refletimos sobre a nossa importância dentro da nossa sociedade e a importância do nosso
trabalho, tendemos a fazer o nosso trabalho da melhor forma possível e humanizar o processo pelo
qual fazemos, reconhecendo valor em cada um de nós e nos outros para quem fazemos o trabalho,
você não acha?

Mas que valor é esse? É justamente esse assunto que vamos conversar agora.

3.3 Tudo Tem Valor

Quando falamos sobre valor, pensamos automaticamente em dinheiro não é mesmo? E o dinheiro é
uma forma simbólica de valorar as coisas.

Digo forma simbólica, porque o mundo é constituído de símbolos pelos humanos, até mesmo o
humano é um símbolo para nos conceituar e diferenciar das demais espécies.

O dinheiro, por exemplo, não tem valor em si mesmo, esse valor que o dinheiro adquiriu é dado por
nós, pois se pararmos para pensar sobre o que é o dinheiro, chegaremos à conclusão que o dinheiro
é apenas papel colorido. E você o que acha? Que valor tem o dinheiro para você?

Entretanto existem outras formas de valorar coisas e pessoas, na realidade estamos fazendo isso o
tempo todo. Como? Vamos descobrir.

40
Competência 03

Figura 15 - Valores
Fonte: www.laparola.com.br/dinheiro

Estamos o tempo todo valorando tudo o que vemos. Você sabia? Mas como isso acontece?

A valoração de tudo está na não-indiferença que creditamos, o valor não precisa ser positivo, ele
pode ser negativo também.

Quando falamos: "Não gosto de você" ou "prefiro ir à praia ao invés do campo" ou ainda, "você viu
como aquele personagem da novela é mau caráter?" Estamos acrescentando juízos de valor e
estamos determinando se algo nos agrada ou não.

Ao nos relacionarmos, tendemos a expor os nossos valores e, ao serem expostos, esses valores
tendem a sofrer alguma alteração em contato com o outro, que emitirá uma sentença, concordando
ou não com o que foi posto.

É interessante observarmos que nem sempre quando alguém discorda de nós, é porque quer nos
excluir ou nos dizer que o que ele pensa é mais importante do que o que nós pensamos.

O exercício sadio de valores, passa pela empatia, ou seja, ato de nos colocarmos no lugar do outro.

Contudo, para discutir sobre valor trabalharemos com valores estéticos, éticos e políticos. Vamos
conhecer e refletir sobre cada um deles.

A palavra estética vem do grego e quer dizer sensibilidade, experiência, está relacionada à apreciação

41
Competência 03

da arte através da inteligência humana.

A valoração estética está relacionada à afetividade e sensibilidade, ou seja, a arte é a prática cultural
que utilizamos para adjetivar algo ou alguém. Por exemplo, quando falamos que algo é bom ou ruim,
feio ou belo, estamos utilizando o valor estético.

É claro que a constituição desse valor está ligada também a uma subjetividade, ou seja, podemos
emitir os nossos valores, mas o que não podemos é impedir que os outros se posicionem, também,
em relação à mesma coisa que nos posicionamos, mesmo que as suas ideias sejam diferentes das
nossas.

Não podemos esquecer que quando chegamos neste mundo (nascemos) já existiam valores estéticos
estabelecidos que nós aprendemos. Então, tendemos a julgar estranho algo que não é da nossa
cultura ou da nossa prática.

Existem vários valores estéticos e eles estão ligados às nossas escolhas religiosas ou culturais, por
exemplo.

O outro valor que vamos falar é o ético. Sempre que falamos sobre a moral, apesar dos vocábulos
serem diferentes têm o sentido parecido, por exemplo, a palavra moral vem do latim mos, moris e é
relativo a “costume”, “maneira de se comportar regulada pelo uso”, já ética vem do grego ethos que
quer dizer “costume”.

“Ética ou filosofia moral é a parte da filosofia que se ocupa com a reflexão a respeito das noções e
princípios que fundamentam a vida moral.”

Na moral, temos valores, entre eles a heteronomia, ou seja, valores que nós necessariamente não
temos que concordar, são valores pensados por outras pessoas. E os valores autônomos que são
criados por nós ou ajudamos a construí-los e concordamos com eles.

O próximo valor a estudarmos é o político, quando estudamos este valor, identificamos as pessoas

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Competência 03

como cidadãs e como o poder público, através do Estado (poder legislativo, poder executivo e poder
judiciário).

Figura 16 - Os Três Poderes no Brasil


Fonte: http://quizdapolitica.wordpress.com/2012/09/27/os-tres-poderes-da-politica/

Com o surgimento do Estado e o aparecimento das pessoas concidadãs, aparece a primeira


característica da valoração política que é a institucionalização de direitos para todos, ou seja, a
igualdade de direitos.

Mas há algo que precisamos pontuar.

Você acredita que apenas o Estado é responsável pelo estabelecimento de direitos e deveres na
sociedade?

Ou você acha que o Estado é o maior responsável por garantir o bom funcionamento da máquina
pública?

O Estado se ocupará de tudo o que é público e se é público é de todos nós, cidadãos, e isso quer dizer
que somos corresponsáveis com o Estado, pelo desenvolvimento das políticas públicas.

Por exemplo, se trabalhamos em uma escola pública, somos tão responsáveis quanto o governo pelo
desenvolvimento educacional daquelas pessoas que estão lá.

43
Competência 03

Algumas vezes o Estado promove políticas de exclusão, cabe a nós analisarmos criticamente a
situação e não utilizarmos os argumentos apresentados pelo Estado para criarmos uma política
educacional que exclui. Falo isso porque tendemos a nos eximir da responsabilidade quando se trata
da coisa pública, mas é através da tomada de consciência e do reconhecimento do nosso valor e dos
outros que podemos transformar o mundo em que vivemos através dos processos políticos, culturais
e históricos.

É na escola também que esses processos se estabeleceram e é através da nossa tomada de decisão
que podemos agir de forma a incluir e não excluir educandos no mundo.

Todos têm que participar desse processo a fim de que possamos nos responsabilizar e atuar.

Mas o que é educação? Para que nos educamos? Veremos a educação como um processo de
transformação de si e do mundo.

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Competência 04

4. COMPETÊNCIA 04 | ESTABELECER RELAÇÃO ENTRE PRÁTICAS


CULTURAIS NA ESCOLA E A EDUCAÇÃO PARA A CIDADANIA

Esta é a nossa última competência, e como o título diz, vamos investigar qual o papel da escola dentro
de tudo o que já vimos.

Aprendemos alguns elementos que nos dão uma visão da constituição antropológica e filosófica do
ser humano. Trabalhamos conceitos importantíssimos para a nossa compreensão de como nos
constituímos pessoas, sujeitos de direito. Vale a pena lembrarmos o que vimos até agora.

Estudamos na primeira competência sobre o Devir e por que o estudamos, para compreendermos a
dinâmica não apenas das coisas, mas principalmente das pessoas. Como podemos mudar a si próprios
e mudar os outros através das relações; podemos mudar o ambiente em que convivemos.

É por meio da compreensão do que é o Devir que entendemos como as mudanças acontecem e
podemos ousar sair da nossa zona de conforto nas relações tanto pessoais como profissionais e
construirmos algo diferente, melhor, através de uma avaliação crítica de nossas ações e das ações
dos outros.

Nessa dinâmica das relações humanas, vimos também que a linguagem constitui o humano e é
constituída por ele através de adaptações e ressignificações. O ser humano se transforma ao longo
da sua história bem como sua linguagem. Descobrimos também a multiplicidade da linguagem. Nem
sempre compreendemos o que foi dito, mas não significa dizer que o que entendemos foi o que a
outra pessoa quis dizer, nós ressignificamos. Esta situação aparece quando lemos, não apenas
quando nos relacionamos por meio da fala.

Aprendemos também que trabalhamos tanto para existirmos, como essa ação, que é apenas humana,
é importante para a manutenção e transformação deste mundo. É necessário que saibamos “por que
trabalhamos” e qual a importância desse trabalho para nós e para os outros.

45
Competência 04

Também discutimos sobre valor, que valoramos tudo, ações, objetos, pessoas, sentimentos e até
mesmo nós. Quando nos posicionamos a respeito de tudo ou qualquer coisa, estamos expondo os
nossos valores. Aprendemos que esses valores já existem na sociedade quando nascemos; que a
aceitação e compreensão desses valores serão de acordo com o nosso grupo social.

Vimos tudo isso até agora, mas vamos questionar um pouco sobre a escola como um espaço em que
tudo isso está inserido, a questão do devir da linguagem, do trabalho e dos valores. Como esse espaço
educativo lida com esta variedade de elementos culturais? Como construímos significados através
das relações que acabam alterando as nossas formas de viver?

Vamos investigar também sobre a construção da identidade humana nos espaços escolares.

A escola é realmente esse espaço fascinante onde podemos estabelecer relações e experiências que
vamos levar para a vida toda; é um espaço pensado pela sociedade para a transmissão de
conhecimento cientifico, sendo por meio dela que podemos interferir na construção do outro e do
mundo.

Claro que a escola tinha essa configuração social que vemos hoje. Estamos, acredito, em um
momento de transição e talvez por isso, a dificuldade em repensarmos nesse espaço e nas adaptações
que precisam ser feitas.

A escola sempre foi, também, um espaço normatizador, assim como tantos outros espaços da
sociedade. Só que antes, a mim parece que os papéis eram definidores de posturas. Como assim? Era
como se fosse um teatro e todos os atores e atrizes não pudessem sair do “personagem”, tanto em
fala como em postura e ações.

Tem uma charge, que alguns já devem ter visto, onde são colocadas duas cenas de um garoto
recebendo as notas. A primeira cena é datada do final da década de 1969 e os pais estão na sala de
aula com a professora, questionando o resultado ao garoto. Já a outra cena, mais recente, os pais
estão cobrando o resultado do garoto à professora.

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Competência 04

Achei a cena um tanto quanto emblemática, porque ela nos mostra a mudança que ocorreu na escola
e na sociedade, pena que a charge não represente a mudança que desejamos. Mas, podemos
construir essa mudança a partir de uma educação baseada no diálogo e comunicação para a
cidadania.

O ser cidadão também é uma construção baseada nas relações interpessoais e a escola pode ter essa
ideia de protagonismos das pessoas que a constituem. Apesar da multiplicidade de valores e práticas
culturais, tem que ser exercitado na escola o refletir para nos tornarmos humanos, que é não apenas
aparecermos nesse espaço público, mas fazer com que os outros também apareçam, é ouvir e
também ser ouvido, falar, interferir, mas deixar que os outros interfiram também.

Assim essa educação pensada para a cidadania pode ajudar na construção de uma sociedade melhor,
onde todos participam dessa construção a partir da valorização de si e dos outros.

Da mesma forma que quando não refletimos sobre o que fazemos, acabamos não dando o verdadeiro
valor ao que fazemos.

Você já ouviu ou falou aquela expressão: “hoje eu estou no automático?” Quando estamos muito
tempo no automático não refletimos sobre o que estamos fazendo.

É comum aceitarmos um conceito como verdade quando estamos insatisfeitos ou não analisarmos a
situação criticamente. O “estar no automático” quer dizer que estamos fazendo o nosso trabalho sem
pensar sobre ele, não é mesmo? E já vimos a insustentabilidade do trabalho alienante para a
sociedade e para nós mesmos.

Será que temos essa prática de trabalho alienante na escola? Podemos imaginar as perdas para a
sociedade de uma educação escolar com baixo rendimento. O Relatório de Monitoramento Global
de Educação Para Todos – EPT 2013/2014, com o título: “Ensinar e aprender: alcançar a qualidade
para todos”, mostra a necessidade de os governos no mundo todo investirem em uma educação de
qualidade. O relatório também mostra que essa crise que a educação enfrenta custa mais de 120
bilhões por ano, e os mais afetados agora e posteriormente serão as populações pobres.

47
Competência 04

Mas é importante que comecemos a trazer essa questão para toda a sociedade e quando falo da crise
da educação, lembro de outro assunto que vimos, lembra qual é? Isso mesmo, o valor.

Falamos que o valor é subjetivo, e que também ele é construído através dos grupos sociais que
pertencemos. Falamos também que ao valorar damos significado ao que valoramos. Mas que valor
damos à educação?

A compreensão de mundo passa antes pela compreensão de nós mesmos, do que fazemos, como
fazemos e a compreensão do outro. De modo que a escola pode ajudar na compreensão de quem
nós somos e como vamos interferir no mundo.

Uma educação que busca uma interação entre saberes científicos e práticas sociais, com certeza,
pode acrescentar à nossa sociedade.

Carl Roger em seu livro: Tornar-se pessoa mostra como essas ações pedagógicas que buscam não
apenas o repasse de informações científicas, mas a descoberta e valorização do outro podem ser
positivas para todos. Quando educamos com a ideia de crescimento mútuo, o trabalho ganha outro
significado.

Figura 17 – Carl Roger


Fonte:www.buscadorerrante.com/wp/2009/biografia-de-carl-rogers/

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Competência 04

Carl Rogers (1902-1987) foi um psicólogo norte-americano. Desenvolveu a Psicologia


Humanista, também chamada de Terceira Força da Psicologia. Segundo o psicólogo
Abraham Maslow, Carl Rogers foi um dos principais responsáveis pelo acesso e
reconhecimento dos psicólogos ao universo clínico, antes dominado pela psiquiatria
médica e pela psicanálise. Sua postura enquanto terapeuta sempre esteve apoiada em
sólidas pesquisas e observações clínicas.
www.e-biografias.net/carl_rogers/

Partindo do que falamos, podemos dizer que a escola é responsável por uma educação mais
humanizada. Cabe a nós decidirmos qual o conceito de humano que queremos construir.

Eu sei que as relações no ambiente escolar nem sempre são fáceis, uma vez que temos tantos grupos
diferentes, com práticas diferentes e uma fronteira imaginária ao redor da escola, que tenta separar
as vivências escolares das vivências não – escolares.

Mas, podemos somar se trabalharmos a diversidade cultural que existe na escola, ao invés de
tentarmos engessar as relações. É possível vivermos o currículo através da prática e vivência
escolares.

4.1 Quais Saberes são Construídos na Escola?

Pensamos, inicialmente, na escola como um local de produção, a escola é este espaço onde os saberes
científicos são construídos, mas não apenas construídos, são também discutidos, visando o
compartilhamento das informações, da melhor forma possível para a inserção do indivíduo no mundo
como um ser crítico e produtivo. O outro saber que construímos na escola são as relações humanas.

Para a constituição desses saberes temos que falar do trabalho dos vários profissionais que estão nos
espaços escolares. São eles: gestores, zeladores, cozinheiros, professores e porteiros.

É também a partir do compromisso assumido por todos esses profissionais que a educação será
efetivada de forma mais humanizada. Gostaria, neste momento, de relembrar que só aprendemos
algo quando aquele algo ganha significado para nós. Logo podemos ensinar com significado em todos
os ambientes escolares, pois as relações estabelecidas têm a ver com práticas que aconteceram fora

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Competência 04

do ambiente escolar.

No entanto, o comprometimento só poderá acontecer quando nos sentirmos aptos a agir e refletir,
percebendo a nossa existência condicional e sendo críticos em relação a ela. É preciso não apenas
estarmos na escola, mas, sabermos que estamos na escola. A diferença é que quando estamos apenas
na escola, nós fazemos um trabalho alienante e quando sabemos que estamos na escola, fazemos
um trabalho mais comprometido.

Gosto do conceito de “bem” de Hannah Arendt, ela diz que o bem só é bem porque é capaz de fazer
uma análise profunda de si e do outro, ao mesmo tempo é radical, porque o que faz tem raízes, pode
se sustentar.

O bem a que me refiro, em Hannah Arendt, é o comprometimento através da ação-reflexão dentro


da realidade humana que Paulo Freire coloca tão bem em seu livro “Educação e Mudança”.

Figura 18 - Paulo Freire


Fonte: www.onordeste.com/onordeste/enciclopediaNordeste/index.php
?titulo= Paulo+Freire&ltr=p&id_perso=265

Paulo Freire (1921-1997) foi educador brasileiro. O método de


alfabetização Paulo Freire foi aplicado em diversos países. Foi membro do
Conselho Estadual de Educação de Pernambuco
www.e-biografias.net/paulo_freire/

50
Competência 04

Temos que ter a consciência desses saberes e de nosso comprometimento com o que fazemos, para
que possamos construir o mundo através dos valores humanos.

Todos os espaços escolares podem ser utilizados para uma ação planejada (pedagógica), e essa é a
nossa próxima discussão.

4.2 Os Espaços Escolares

Ao falarmos de espaços escolares, logo nos vem à mente a sala de aula, mas podemos lembrar outros
espaços como: biblioteca, secretaria, cozinha, direção, banheiros, sala de informática e o pátio.

Todos convivemos nos espaços escolares juntos, mesmo que cada espaço tenha um significado
diferente. Por exemplo, a sala de aula não tem o mesmo significado para os alunos e para os
professores; se tivesse o mesmo significado não existiria a divergência entre os dois grupos citados.

É importante observarmos que o valor que os sujeitos do ambiente escolar dão aos espaços são
diferentes.

Os estudantes valorizam mais o pátio do que a sala de aula, por exemplo, por se sentirem mais livres
no pátio; é importante chamar a atenção dos estudantes para a sala de aula como espaço de
libertação da ignorância e construção de saberes científicos necessários e importantes podendo,
esses saberes serem vivenciados em outros ambientes.

Como é posto, às vezes, parece que o saber científico está encarcerado na sala de aula e que esses
conhecimentos não fazem o menor sentido para os estudantes. É importante, por este motivo, que
todos os profissionais do ambiente escolar como também os estudantes façam reflexões sobre o
comprometimento. Acredito que todos podem ser agentes provocadores dessa questão.

Quando trazemos o assunto para ser discutido, podemos também contribuir para a mudança, é o que
chamamos de devir social. Mas para tal é importante que nós, todos os profissionais, possamos fazer
uma reflexão - ação.

51
Competência 04

Talvez você pense que não pode fazer essa interferência, porque sua escola, como espaço público,
não é bem estruturada, mas para refletirmos e agirmos, não precisa de muita coisa, mas apenas o
comprometimento orientado pelo conhecimento de si e o reconhecimento do outro.

4.3 Os Sujeitos dos Espaços Escolares e a Constituição de Saberes

A escola é esse espaço planejado para o ensinar de forma consciente. Quem faz parte desse
espaço sabe ou deveria saber a importância do seu trabalho.

Assistam ao vídeo educação e mudança social.

www.youtube.com/watch?v=K4eLeXXRttw

Os saberes discutidos nesse espaço são os saberes científicos como já foi dito. Os Parâmetros
Curriculares Nacionais (PCN) nos orientam a trabalhar meio-ambiente, trabalho, diversidade cultural,
cidadania, ética e sexualidade para o ensino fundamental, já no ensino médio ele nos orienta a
discutirmos Trabalho e Cidadania.

É interessante perceber que os Parâmetros Curriculares Nacionais trazem na transversalidade,


práticas culturais que já falamos, ou seja, sugere que não se trabalhe apenas as disciplinas, mas
também as relações humanas através de ações planejadas, ou em outras palavras, o devir.

Temos que ter essa certeza ao nos posicionarmos todos os dias nesse espaço. Todos são importantes
nessa construção. Não podemos dimensionar que o trabalho de um é mais importante que o trabalho
de outro, trazendo uma responsabilidade maior para um dos segmentos dentro desse espaço.

É importante sabermos quais são os sujeitos envolvidos e buscarmos trabalhar juntos para que todos
ganhem. Por exemplo, temos dentro do espaço educacional os estudantes, a comunidade e demais

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Competência 04

funcionários; em se tratando do espaço público não podemos esquecer que o Estado, não o governo,
mas o Estado é responsável e possibilita, oportuniza, ou seja, a sua política é responsável por esse
trabalho. Estou fazendo esta diferenciação para que possamos entender que o governo é passageiro,
tem um tempo limitado, mas o Estado é uma instância mais longa.

Vamos refletir sobre as responsabilidades de cada um nesse espaço. Primeiramente, o Estado, que
tem a responsabilidade de criar políticas públicas, deve viabilizar o pleno desenvolvimento dos
estudantes através de capacitação dos professores e trazendo também igualdade de oportunidade.
O Estado também educa quando gera um bem-estar dentro da nossa sociedade.

Os demais funcionários, ao buscarem essa relação dialogada com os demais sujeitos do ambiente
escolar, tendo um comprometimento através de uma reflexão-ação e valorização de si, do seu
trabalho e do outro, mostram ao Estado, junto com a comunidade, quais são as interferências que
precisam ser feitas para o desenvolvimento de todos e da sociedade.

Os estudantes também são responsáveis nesse processo agindo de forma também reflexiva. Paulo
Freire diz que ninguém educa ninguém por sermos sujeitos da nossa própria educação.

O espaço escolar faz parte da construção da identidade dentro da nossa sociedade. Mas precisamos
entender e decidir qual identidade queremos construir.

Outro segmento importante é a comunidade em que a escola está inserida, ela também tem um
trabalho a ser considerado dentro desse processo. O que nos faz pensar sobre as demais crises
instaladas dentro da nossa sociedade e buscarmos formas eficazes de fazermos nossa interferência.

Na escola todos se educam, então temos que planejar a forma como vamos educar e refletir sobre a
educação que recebemos a ponto de fazer uma interferência crítica e dialogada que seja boa para
todos.

Chegamos ao fim do nosso curso. Espero que tenha sido bom para você, caro aluno, como foi para
mim, uma experiência única e gratificante poder compartilhar com você sobre aquilo que penso,

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acreditando que não detenho a verdade absoluta, mas que podemos somar com um pouco de boa
vontade e pensamento crítico. Um abraço e até mais.

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REFERÊNCIAS

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4.ed. São Paulo. Moderna, 2009.

ARENDT, Hannah. A condição Humana. 10.ed. Rio de Janeiro. Forense Universitária, 2007.

______ . Entre o passado e o futuro. 6.ed. São Paulo: Perspectiva, 2007.

BRAYNER, Flávio. Educação e republicanismo: experimentos arendtianos para uma educação melhor.
Brasília: Liber Livros, 2008.

BUFFA, Ester; ARROYO, Miguel. NOSELLA, Paolo. Educação e Cidadania: quem educa o cidadão? 7.ed.
São Paulo: Cortez, 1999.

CERQUIER-MANZINI, Maria Lourdes. O que é cidadania. 4.ed. São Paulo: Brasiliense, 2010. (Coleção
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CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2000.

FRANCHETTO, Bruna; LEITE, Yonne. Origens da Linguagem. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2004.

FREIRE, Paulo. Educação e Mudança. 2.ed. São Paulo: Paz e Terra, 2011.

LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. 25.ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2013.

ORLANDI, Eni Puccinelli. O que é linguística. 2.ed. São Paulo: Brasiliense, 2009.

PORTO , Leonardo Sartori. Filosofia da educação. 1 ed. Rio de Janeiro: Zahar, 2012.

RANIERI, Jesus. Trabalho e Dialética: Hegel, Marx e a teoria social do devir. São Paulo: Boitempo,
2011.

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ROCHA. Everardo P. Guimarães. O que é etnocentrismo. 5.ed. São Paulo: Brasiliense, 1988.

ROUSSEAU, Jean-Jacques. Ensaio sobre a origem das línguas. 3.ed. São Paulo: Unicamp, 2008.

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MINICURRÍCULO DO PROFESSOR

Sou Luciana Silva, professora de História do Estado de Pernambuco desde 2009. Formada pela
FUNESO em 2007 e pós-graduada pela UFRPE em 2008, mas o título que mais gosto de exibir é o de
ser humano.

Também sou colaboradora do Instituto Maria da Penha, cuja experiência tem sido salutar para as
minhas reflexões sobre a vida e o trabalho, o que certamente ecoa em minha prática pedagógica.

Gosto de lembrar como o ambiente escolar influenciou no que me tornei hoje e como cresci neste
espaço, mais que como uma profissional, aprendi a enxergar pessoas e suas limitações à medida que
me percebia também. Muitas lembranças boas, muito mais do que lembranças não tão boas...
aprendi a viver uma vida de solidariedade e por que não dizer de amor, amor tanto que voltei para
fazer o que fizeram em minha vida: a diferença.

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